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Página 55 de 95

Conselho pede a cabeça de Adão Cândido e deputados assinam PDL para impedir ato contra o FAC

Romário Schettino –

Brasília - Deputados distritais apresentam Projeto de Decreto Legislativo para suspender ato administrativo que cancela os editais do FAC. Como se vê, as trapalhadas do secretário de Cultura do DF Adão Cândido continuam em várias frentes.

O PDL protocolado na Câmara Legislativa foi assinado pelos distritais Leandro Grass (Rede), Arlete Sampaio (PT), Chico Vigilante (PT), Professor Reginaldo Veras (PDT) e Reginaldo Sardinha (Avante). E ainda conta com o apoio do deputado Fábio Félix (PSol), que está em viagem a Bogotá (Colômbia), onde participa de um Congresso Latino Americano LGBT.

Além disso, foram colhidas as assinaturas necessárias para um requerimento de urgência na tramitação do PDL, que poderá ser votado em plenário na próxima terça-feira (21/5). Se aprovado o PDL, cai por terra a manobra do governador Ibaneis Rocha de surrupiar R$ 25 milhões dos artistas e produtores culturais do DF que têm projetos aprovados no FAC em 2018.

Conselho de Cultura pede a demissão de Adão Cândido

Numa medida inédita na história, o Conselho de Cultura do DF aprovou, por 5 votos a 4, uma recomendação dirigida ao governador Ibaneis Rocha solicitando que ele substitua o secretário Adão Cândido por descumprimentos da Lei Orgânica da Cultura do DF.

O documento, protocolado no dia 14 de maio, lista alguns dos descumprimentos:

1- A autorização de aplicação de mais de 50% de recursos do FAC, em um único edital (Edital FAC Ocupação 2019) para a região do Plano Piloto;

2- A autorização de exposição de Minuta de Edital FAC Ocupação 2019 à comunidade Cultural, sem a validação plena dos conselheiros do CCDF;

3- O não cumprimento da premissa legal da LOC DF, em seu artigo 64, § 3º - A gestão do FAC observa o seguinte calendário anual: I - até 31 de janeiro, é publicado o saldo do exercício anterior;

4- A não divulgação de dados suficientes para entendimento da comunidade cultural a respeito do Superávit do FAC dos anos de 2017 e 2018;

5- A não articulação política e de gestão junto ao Secretário de Fazenda e Governador Ibaneis para garantir o Superávit do FAC já no lançamento do Edital FAC Ocupação 2019; e

6- Contratação de artistas/atrações e ações para o aniversário da cidade sem apresentação de proposta de chamamento público ao CCDF e comunidade cultural do DF.

As ações do movimento cultural não param por aí. Vários advogados estão estudando ações judiciais para proteger os direitos adquiridos dos artistas e produtores com base na Lei Orgânica do DF e na Lei Orgânica da Cultura.

Secretário nega, mas não desmente, notícia sobre fechamento da 508 Sul

Em nota oficial, a Secretaria de Cultura do DF diz que “é irresponsável a afirmação de que o GDF pretenda fechar o Espaço Cultural Renato Russo (508 Sul)”. Ele alega em seu favor que a secretaria “tem feito esforços contínuos em busca de recursos e parcerias para melhorar a qualidade dos equipamentos culturais sob sua administração”.

Adão garante que está atuando para restaurar o “Teatro Nacional Claudio Santoro, obra que deverá começar ainda este ano, bem como a retomada das obras do Museu de Arte de Brasília, que deverá ser reaberto já no primeiro semestre de 2020”.

O secretário Adão lista entre suas “prioridades” consertos na 508 Sul, “que apresenta problemas estruturais” (não diz quais) e obras nas instalações da Rádio Cultura FM.

O mais curioso em sua nota é a inclusão de uma parceria com a Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI) para investir na cultura do DF e, supostamente, “aumentar a projeção da capital em outros países, valorizando o nosso patrimônio e a produção local”.

Essas promessas não passaram, e não passam, por nenhuma discussão com o movimento cultural da cidade. Não há diálogo. O governador eleito não pode, e não deve, governar para seus amigos e compadres.

E o mais grave é que ó secretário não disse nada sobre o que vai acontecer em setembro deste ano com a antecipação do fim do contrato de gestão do Espaço Cultural Renato Russo, que ainda está em vigor.

Ribondi responde ao secretário Adão

Escreve o autor da matéria “GDF decide fechar o Espaço Cultural Renato Russo”, publicada neste site no dia 15/5:

"Tem um certo zum-zum-zum dizendo que a matéria feita por mim sobre o fechamento do Espaço Cultural Renato Russo, publicada no site brasiliarios.com.br, não passa de notícia falsa. O incompetente secretário de Cultura disse em nota que é fake news. Mas é verdade. O próprio Espaço Cultural já foi informado disso pela secretaria de Cultura. A partir de setembro, o belo espaço passa a ser espacinho morno, comandado por funcionários públicos entediados".

_____________

NdaR: Este site não publica fake news em hipótese nenhuma. Aliás, esse compromisso faz parte dos princípios jornalísticos defendidos pela linha editorial.

Criado em 2019-05-17 02:37:53

O vídeo é, sim, devastador!

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Analiso aqui, muito rapidamente, na virada da sexta 22 para o sábado 23 de maio, três posições sobre o vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril liberado ao público pelo ministro Celso de Mello na tarde de hoje (22/5):

1) Os bolsominions ficaram satisfeitos com as cenas escabrosas da reunião dos ministros porque confirmam o que todos já sabiam: que o presidente deles é boca suja, armamentista, evangélico fundamentalista, pró-família patriarcal, patriota fascista pró-americano. Receberam a mensagem de ordem unida, e é mesmo de ordem unida que se trata.

Naquele dia o ministério estava visivelmente desunido, após a queda do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta; com a insatisfação de Bolsonaro com a performance do Moro, que evitava a interferência direta do Bolsonaro na Polícia Federal para proteger os filhos; devido à atuação pífia do Guedes, a quem os ministros militares apresentaram o Pró-Brasil (um pum que saiu do PAC da Dilma); com as divergências entre o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro, e a ministra Damares, em torno do projeto dos resorts com cassino (“Pacto com o Diabo”, disse ela); com a provável preocupação da ministra Tereza Cristina da Agricultura diante dos ataques aos chineses que compram a soja brasileira etc.

Já se contavam naquele dia três mil brasileiros mortos pela Covid-19, mas a reunião não tratou do assunto, a não ser quando o novo ministro Nelson Teich, disse que estava preparando um novo plano de combate à doença, a começar pela comunicação. Em contrapartida, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, defendeu que os seus colegas “passassem a boiada”, isto é, publicassem uma “baciada” de normas infralegais, sem precisar do Congresso, para simplificar procedimentos, aproveitando-se do fato de que a imprensa estava mais ocupada na cobertura da Covid-19 que nos malfeitos do governo federal. É claro que a palavra “malfeitos” aí não foi dita pelo Salles...

E as pequenas? - O único ministro que pareceu estar percebendo a realidade foi Rogério Marinho, o cara da reforma da Previdência, hoje no Desenvolvimento Regional, e que me parece próximo do Centrão. Marinho disse que o governo precisava “abandonar dogmas” para, por exemplo, injetar dinheiro público na salvação de pequenas empresas e não apenas nas grandes. “Essa pode ser uma catástrofe que pode nos afundar, ou ser uma onda para a gente surfar, uma alavanca para recuperar o país.”

Em um mês, desde então, muita coisa mudou. O Moro caiu e abriu-se uma investigação contra ele mesmo e contra o presidente da República, que resultou na divulgação desse vídeo e que levou o empresário Paulo Marinho, o suplente do senador Flávio Bolsonaro, a também depor e apresentar provas da interferência do Bozo na Polícia Federal.

O panorama econômico piorou, o dólar beira o R$ 6, e estima-se a queda do PIB da ordem de até 10%. O discurso de Guedes de retomar as reformas perdeu completamente o objeto. O Pró-Brasil esfumou-se. Em grandes traços: o governo está completamente sem rumo, no mato sem cachorro.

O novo ministro da Saúde caiu e o seu lugar foi ocupado por um general de brigada, seguido por uma tropa de militares na direção de postos chaves da pasta. O número de casos de infectados pelo coronavírus saltou para 331 mil, atingindo 3.488 municípios (62%), e o número de mortos já passa dos 21 mil. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o Brasil tornou-se o novo epicentro da doença no mundo.

As relações com a China, que já vinham se deteriorando por conta dos ataques do deputado Eduardo Bolsonaro e do ministro Eduardo Araújo, das Relações Exteriores, pioraram, porque a China passou a comprar a soja dos americanos e não a do Brasil, por força de um compromisso com os Estados Unidos. Agora, a coisa vai ficar ainda pior, pois frações dos trechos vetados pelo ministro Celso de Mello permitem deduzir o que se falou contra aquele país: o ministro da Educação, Abraham Weintraub, por exemplo, disse que odeia o Partido Comunista Chinês, e que não quer ser escravizado pelos chineses etc.

Resumindo: Bolsonaro reafirma com a divulgação desse vídeo o seu discurso perante a sua militância, mas não deverá ganhar nenhum eleitor a mais com isso. Ao contrário, ele acabou de perder, logo depois da divulgação do vídeo, um porta-voz importantíssimo, o apresentador Datena, da Band, dizendo que nunca mais pretende entrevistar o presidente. Datena ficou puto com o trecho do vídeo em que o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, denunciou a empresa por “querer dinheiro”. Disse Guimarães, contando um encontro com representantes da Band: “O ponto é o seguinte: vai ou não vai dar dinheiro pra Bandeirantes? Ah, não vai dar dinheiro pra Bandeirantes? Passei meia hora levando porrada, mas repliquei". Na manhã do sábado, o senador goiano Kajuru, do Cidadania, também pulou fora do barco.

2) Os simpatizantes do Moro ficaram satisfeitos com a divulgação da quase íntegra do vídeo porque, na opinião deles, vários trechos confirmariam a narrativa do ex-ministro de que o presidente Bolsonaro, tentou, dolosamente, interferir na gestão da Polícia Federal. Somados às provas oferecidas pelo empresário Paulo Marinho, e corroborados pelos fatos subsequentes à queda de Moro (troca do diretor geral da PF e de seu superintendente no Rio, esses trechos de fato reforçam a posição do ex-ministro.

O episódio da possível requisição do telefone do presidente Bolsonaro para ser periciado, a pedido do PDT, PSB e PV, agregou mais nitroglicerina à ação. Reagindo de maneira precipitada, o general Guido Heleno lançou uma nota-ameaça à Nação, afirmando que “O pedido de apreensão do celular do Presidente da República… seria uma afronta à autoridade máxima do Poder Executivo e uma interferência inadmissível de outro Poder, na privacidade do Presidente da República e na segurança institucional do País. … tal atitude é uma evidente tentativa de comprometer a harmonia entre os poderes e poderá ter consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional”. Que “consequências”? Vai chamar o jipe com o cabo e o soldado para invadirem o Supremo?

O próprio Bolsonaro afirmou que jamais entregaria o celular à Justiça, e que só o faria se fosse um rato. O ministro Celso de Mello esclareceu, então, que não tomou qualquer decisão no sentido de ordenar a busca e apreensão dos celulares de Bolsonaro, de seu filho Carlos Bolsonaro, do ex-diretor da PF, Maurício Valeixo, do ex-ministro Sérgio Moro e da deputada Carla Zambelli. Na verdade, afirmou, na condição de relator do Inquérito 4.831/DF, “limitou-se a meramente encaminhar ao Senhor Procurador-Geral da República, que é o órgão da acusação, a “notitia criminis”, com esse pleito de apreensão (Pet 8.813/DF), formulada por 03 (três) agremiações partidárias (PDT, PSB e PV)”. O ministro do Supremo disse, sem citar o nome, que o general Guido Heleno se manifestou de maneira precipitada.

O caso Moro, pelo que se vê, deverá render novos capítulos (e mais desgaste ao Bozo) até que o Procurador Geral da República tome a decisão de abrir ou engavetar o processo.

3) O pessoal que considera Moro pior que o Bolsonaro para a democracia ficou frustrado com a divulgação do vídeo. Disse que a peça não contém a famosa “bala de prata”, capaz de eliminar o lobisomem: se o cara não é um rato, deve ser um lobisomem, né!

Essa gente disse também que Moro nunca soube produzir provas, especializado que é nas “fortes convicções” e no domínio do fato etc. Além disso, a turma voltou a lembrar a aliança de Moro com a Rede Globo que, agora, estaria divulgando a versão do interesse do ex-ministro.

Pessoalmente, eu acho esse pessoal um porre, alienado da realidade. Achar que o Moro, derrubado do Ministério da Justiça, sem qualquer posto de relevância política no momento, é pior do que o Bolsonaro, que continua sendo o presidente da República, é uma bobagem. E achar que o Moro poderá vir a ser um candidato presidencial imbatível em 2022 é só um chute, pelo menos por enquanto, na minha modesta opinião.

Os fatos devem ser analisados como são concretamente, não como a gente gostaria que fossem.

Ora, a briga de brancos entre Moro e Bolsonaro nos interessa porque, no mínimo, desgasta o Bolsonaro. A tese do fortalecimento do Moro tem de ser analisada, mas não necessariamente neste momento. Pode esperar. O Bolsonaro é que deve ser o nosso foco, o nosso alvo, o motivo de nossas maiores preocupações.

Queda - Os companheiros cultivam essa ideia extravagante porque não têm paciência histórica. Gostariam, como eu, que o Bolsonaro caísse da poltrona presidencial hoje mesmo, junto com o vice Mourão. Essa hipótese, por óbvio, só seria factível se a chapa da dupla fosse cassada pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Ali correm seis processos com o objetivo de cassar a chapa Bozo-Mourão. O que dá mais caldo, segundo a repórter Maria Cristina Fernandes, do Valor Econômico, é o que trata do disparo de mensagens falsas durante a campanha. Duas investigações em curso podem pressionar esses processos. Uma apura a manipulação da investigação do desvio de verbas no gabinete do senador Flávio Bolsonaro na campanha de 2018. Segundo Fernandes, “não tem repercussão processual para o TSE, mas joga água no moinho da percepção de que um gol de mão contribuiu para o resultado eleitoral. Foi esta, aliás, a tese que prevaleceu no processo do impeachment de Richard Nixon, abreviado por sua renúncia”.

A segunda investigação, continua a repórter do Valor, é “aquela conduzida no Supremo Tribunal Federal, sobre a máquina de notícias falsas. Este inquérito pode vir a compartilhar provas com a Justiça Eleitoral, a exemplo do que aconteceu no processo que julgou a chapa Dilma Rousseff/Michel Temer”.

Sempre segundo a Maria Cristina Fernandes, o artigo publicado pelo general Mourão dias atrás teria sido um aviso às instituições da República de que as Forças Armadas não engoliriam a “saída TSE”.

Obstáculos - Além desse obstáculo, há outro, que é a composição dos julgadores. O processo teria que ser aberto pelos votos de quatro ministros. Três votos poderiam estar garantidos pelos ministros do Supremo com assento no TSE. Mas a obtenção do quarto voto dependeria de uma complicada equação que inclui a recondução de ministros do TSE nos próximos meses, com pressões principalmente sobre o ministro Sérgio Banhos, e também o poder de barganha de Bolsonaro, que poderia tentar neutralizar o ministro Luiz Felipe Salomão, oferecendo-lhe a vaga a ser aberta no Supremo com a aposentadoria compulsória do ministro Celso de Mello.

Depois da abertura do processo, seria necessário que um relator com firmeza suficiente desse prosseguimento ao processo. Mais adiante, seria preciso resolver um problemão: se a cassação ocorrer no primeiro biênio do mandato (até o final do ano), haveria a convocação de novas eleições. Se ocorresse no segundo biênio, a eleição, indireta, seria convocada em 90 dias, “na forma da lei”. Acontece que ainda não há lei regulamentando a questão. Como votar essa lei em meio à pandemia?

E depois, quem vai escolher o futuro presidente? “O Centrão repaginado” por Bolsonaro, diz Maria Cristina Fernandes, lembrando que os mandatos de Davi Alcolumbre e de Rodrigo Maia se encerram em fevereiro.

A saída do TSE só continua na mesa, diz a repórter do Valor, porque as outras opções parecem tão ou mais difíceis.

E a renúncia? - Quais seriam as outras opções? O impeachment é uma, a renúncia é outra. O impeachment está descartado por enquanto. Bolsonaro tem mais do que os 172 votos necessários para barrar o processo na Câmara, e é exatamente por essa razão que ele está indo à feira para comprar mais alguns deputados do Centrão, abandonando de vez o discurso anticorrupção. Quanto à renúncia, alguém aí acha isso viável?

A pesquisa Ipespe, encomendada pela XP Investimentos, divulgada na última quinta-feira, mostrou que 50% dos brasileiros acham o governo Bolsonaro ruim ou péssimo. Em janeiro, esse índice era de 39%. A aprovação, que era de 32% em janeiro, agora é de apenas 25%. 57% dos brasileiros acham que a economia está no caminho errado, e 68% acreditam que o pior está por vir no que tange à pandemia do coronavírus.

Há outras pesquisas que avaliam um pequeno aumento de popularidade do Bozo entre os muito pobres, agradecidos pela concessão do auxílio dos R$ 600, que atribuem ao presidente (o Guedes queria dar só R$ 200) e não ao Congresso Nacional. Essa tendência deverá ser reforçada com o pagamento da segunda parcela da ajuda, mas tende a cair depois disso, segundo os avaliadores.

Por outro lado, a caótica gestão por parte do governo federal da crise sanitária, que poderá vitimar até 100 mil brasileiros, combinada com os efeitos da divulgação do vídeo da reunião do dia 22 de abril, são dois fatores que com certeza vão desgastar ainda mais a popularidade de Bolsonaro.

Somem-se aqui também os efeitos das conclusões da CPI das Fake News, cujos trabalhos irão até o dia 24 de outubro, pelo sistema virtual; a provável queda do ministro da Educação, Abraham Weintraub, cujo fígado já foi pedido pelo Centrão; a abertura de vários processos contra vários ministros (Weintraub, Damares, Salles) por crimes contra a honra e de improbidade administrativa.

Outro provável processo, esse contra o presidente, teria como objeto um assunto gravíssimo: ele foi flagrado constrangendo os ministros da Justiça e da Defesa a liberar geral as armas para a população com fins políticos, o que é proibido pela Constituição. Para ser mais explícito: ele continua a conclamar os seus seguidores a se preparar para uma guerra civil! 

A minha percepção é que, em vez de um terço, logo, logo Bolsonaro só estará contando com um quarto do eleitorado, como já aponta a pesquisa Ipespe.

E acho que as repercussões da divulgação do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril são, sim, devastadoras para o Coiso! Infelizmente, isso não significa que serão aproveitadas adequadamente pelos partidos de oposição.

Criado em 2020-05-23 16:32:07

A entrevista com o vazio

Pedro Tierra (*) –

O fascismo é o vazio humano. É a ausência de laços entre os vivos. Excetuado o ódio. É, como se viu em Jerusalém, em 1961, no julgamento de Eichmann, a ausência de laços entre os vivos e os mortos que marca a espécie humana. A semente do fascismo é a indiferença.

Na última semana todos assistimos, alguns com assombro, uma entrevista que não houve.

A Secretária Especial de Cultura do governo Bolsonaro não é precisamente uma Secretária Especial de Cultura. Trata-se de um personagem de ficção. Alguém que saltou do trapézio da ficção, onde viveu e se tornou visível para a plateia e, no governo, não encontra o pulso do parceiro que evite a queda. Isso ocorre no circo.

A Secretária mais parece um fantasma vagando pelo limbo de uma instituição sonâmbula, temporariamente abrigada sob a lona institucional do Ministério do Turismo, depois de responder por alguns meses às ordens de Osmar Terra.

Ao longo da história do Brasil não contamos por muito tempo com qualquer instituição do Estado que tratasse especificamente dos assuntos da Cultura. Os impérios coloniais aprenderam cedo: a uma colônia não se pode permitir identidade própria. A cultura da colônia deve ecoar a cultura da metrópole que a subjuga. As identidades que se expressam por uma cultura própria são perigosas: explodem inevitavelmente em insurreições contra o domínio imposto.

Mais recentemente, já na primeira metade do século XX, período do nacional desenvolvimentismo de Vargas, criou-se o IPHAN (1934), uma solução orgânica para quem se propunha construir um projeto nacional autônomo e, para tanto, sabia necessária a organização da memória e do patrimônio cultural como condição para estimular a criação simbólica, no presente. Mais tarde, já no ocaso do governo democrático de Vargas, com o desmembramento da área de Saúde que se constituiu num Ministério, criou-se o MEC – Ministério da Educação e Cultura (1953). Atravessou os dez anos de democracia liberal e sobreviveu a duas décadas de ditadura.

Ao se abrir o processo de redemocratização, com a Nova República, tivemos a criação do MinC (1985). Sinalizava a disposição do Estado Brasileiro de deixar para trás o período de obscurantismo, perseguição e censura à criação artística vigentes desde o golpe de abril de 1964. Buscava construir o entendimento de que cabia sim a um Estado contemporâneo oferecer condições para a produção e difusão da cultura produzida pela sociedade. E dotar-se dos instrumentos adequados para formular e gerir políticas públicas de cultura.

Durou pouco. Cinco anos depois, o MinC foi rebaixado, por Medida Provisória, assinada por Collor, à condição de Secretaria, em 1990. E recriado em 1992, no governo Itamar Franco. A partir daí viveu seu período de maior estabilidade institucional, estímulo à criação e difusão cultural da sociedade, participação popular nas experiências locais, nos Conselhos e Conferências de Cultura e na projeção da fisionomia do Brasil diante do mundo com identidade e cultura próprias. Chegamos a pensar que estávamos deixando para trás a condição de colônia.

Desde o golpe de 2016, o MinC se converteu em alvo dos defensores da “ponte para o futuro” ... com o poeta parnasiano Michel Temer à frente... Hoje essa instituição foi abolida pela Medida Provisória no 870, na mesma data do ato de posse do governo neofascista, 1o de janeiro de 2019.

Em seu lugar foi criada uma Secretaria cuja missão é demolir sistematicamente – em nome do combate ao “marxismo cultural” – toda a estrutura pública voltada para estimular os processos de produção e difusão cultural do país. Veja-se o que ocorre com a Funarte, Biblioteca Nacional, Casa Rui, Fundação Palmares, IPHAN, ANCINE arrastadas pela desmoralização, ou sob ataque permanente, seja no que toca aos cortes de recursos, ao limbo administrativo, seja no que diz respeito à legislação de incentivos.

Em suma, a relação entre o Estado Brasileiro e suas precárias instituições culturais daria um movimentado romance de folhetim... De tal modo que, para o projeto em curso de “arquitetura da destruição” das instâncias de formulação e condução das políticas públicas culturais, importa pouco ou nada quem esteja acidentalmente ocupando a cadeira de Secretária da instituição. O Ministério da Economia se encarrega com maior presteza e eficácia da tarefa de estrangular o que pode restar de política pública.

A entrevista da nossa personagem que não se encaixou no papel de gestora, entre outras razões porque não há nada a gerir, provocou reações indignadas – e legítimas! – tanto quanto inócuas. Elas não alteram o horizonte de um porão de delegacia de polícia para onde se tenta, à força de impostura e engodo, empurrar o país.

Será ocioso questionar a Secretária de Cultura do governo Bolsonaro sobre o período da ditadura. Interpelar sobre torturas e violências sofridas por quem se opunha ao regime. Sobre a censura que estrangulou a criação cultural por tantos anos. Ou sobre gestão cultural no mundo contemporâneo, por exemplo. Será como levantar uma questão dessa natureza à viúva Porcina. Só teremos o vazio como resposta. Ou algo como “Eu te amo, meu Brasil, eu te amo!... não era bom quando a gente cantava assim?!

Não há como tratar os personagens que consentem em participar do governo neofascista a partir de um olhar que naturaliza os processos fraudulentos que o levou à vitória. Ou a partir do pressuposto míope, ou deliberadamente cego, do inalterável “normal funcionamento das instituições...” Não. A frágil democracia liberal brasileira entrou em colapso. Foi posta sob tutela. Ou seja, deixou de ser democracia.

Entramos num período de transição entre o que era uma frágil democracia liberal e o aprofundamento do golpe que nos lança no abismo neofascista. O governo do capitão é pródigo no uso dos símbolos. Na última semana recebeu no palácio um conhecido assassino, responsável por torturas e mortes no vale do Araguaia, nos anos 70, e o tratou como herói nacional. No dia seguinte abriu uma campanha publicitária contra o isolamento social recomendado pela OMS com a frase que se lê no portal de Auschwitz: “O trabalho liberta!”

Um governo com esse perfil reproduz no século XXI, nesses trópicos, como num espelho perverso, aquele em que nos anos 30 do século XX, na Baviera, um dirigente alardeava “Quando ouço a palavra cultura, saco logo meu revólver!” Definitivamente os sicilianos do condomínio da Barra que ocuparam o Palácio do Planalto não terão escrúpulos em estrangular universidades, nos conduzir à queima de livros – afinal para que tantos livros? Se temos a Bíblia à mão para nos dar as respostas de que necessitamos? – e nos remeter aos horrores que vivemos nos anos de chumbo.

O povo brasileiro tem diante de si, como nunca teve em sua história, o desafio de combater simultaneamente a pandemia e a tirania. A tática do governo neofascista está definida: potencializar o impacto da pandemia sobre a sociedade, apostar no caos para, mais uma vez, abolir o Estado Democrático de Direito e colher o fruto envenenado da tirania. Ainda que ao custo assombroso do genocídio que busca naturalizar sob nossos olhos.

A entrevista com a Secretária Especial de Cultura, a rigor, foi uma entrevista com o vazio. O fascismo é o vazio humano. A indiferença é a semente do fascismo, Regina Duarte.
__________________
(*) Pedro Tierra (Hamilton Pereira) é poeta. Foi presidente do Fórum Nacional dos Secretários de Cultura. Ex-presidente da Fundação Perseu Abramo.

Artigo publicado originalmente no site Carta Maior

Criado em 2020-05-14 14:30:22

Fotógrafos fazem leilão virtual em beneficio de famílias vulneráveis

José Roberto Bassul –

A tragédia da covid-19 tem alargado a tragédia da fome. Sabemos que cada um/a pode ajudar de várias maneiras e temos feito isso na medida do que podemos. Nós, os fotógrafos José Roberto Bassul @jrbassul, Nick Elmoor @nickelmoor e Zuleika de Souza @zuleikas, resolvemos experimentar uma ideia simples e prática. Se funcionar, poderemos repeti-la de vez em quando.

Cada um/a de nós escolheu uma fotografia de sua produção criativa para um pequeno leilão em benefício de uma instituição idônea de suporte social. Desta vez, a instituição da nossa escolha foi a RUAS - Rede Urbana de Ações Socioculturais (@ruas.oficial e ruas.org.br), que tem apoiado famílias em situação de vulnerabilidade com ações de combate à fome, "que se alastra tão rapidamente quanto o vírus". TODO o valor dos lances vencedores será depositado diretamente na conta da instituição.

Como se vê na imagem, minha fotografia é em p&b, já emoldurada, com Certificado de Autenticidade e tiragem limitada a 9 edições, no formato 30x20cm. Com o passe-partout e a moldura, a dimensão final da obra é de 46x44cm. O lance mínimo é de R$ 300, equivalente a quatro cestas básicas.

IMPORTANTE: lances somente no Instagram!

O leilão funcionará da seguinte maneira:

1 - Estará aberto por 48h, ou seja, das 18h desta sexta-feira, 9/4, até 18h de domingo, 11/4;

2 - Só serão válidos os lances feitos nos comentários no Instagram;

3 - O/a autor/a do maior lance será contactado/a por mim, por mensagem direta, para confirmar a oferta, receber a indicação da conta da RUAS e fazer o depósito;

4 - Feito o depósito, providenciarei a entrega da obra.

5 - Se o lance vencedor for de fora de Brasília, o valor dos correios será combinado à parte.

Visite o Instagram de cada um/a para saber como funciona: @zuleikas @nickelmoor @jrbrassul

Simples, né? Faça seu lance ou divulgue. Uma coisa ou outra será uma grande ajuda! (Obrigado, Cassio Vasconcellos)

Criado em 2021-04-10 00:38:14

Lula, em nome dos que sofrem, agradece homenagem de Paris

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao receber das mãos da prefeita de Paris, Anna Hidalgo, o título de cidadão honorário da capital francesa, segunda-feira (2/3), disse que essa homenagem é recebida “em nome dos que sofrem com o governo neofascista no Brasil”.

Para Lula, este é um dos momentos mais difíceis de sua luta, a começar por sua prisão ilegal, política, em um processo que ainda não se encerrou.

“Agradeço de coração o título que a cidade de Paris me concede, por meio de seus representantes. Agradeço especialmente à prefeita Anne Hidalgo, pela generosa indicação, e ao Conselho de Paris, que a aprovou. Este título teria de se estender, na realidade, às mulheres e homens que defendem a democracia e os direitos da pessoa humana, às brasileiras e brasileiros que lutam por um mundo melhor”, disse Lula em seu discurso.

A seguir, a íntegra do discurso de Lula:

“Senhora Anne Hidalgo,

Senhoras e senhores representantes do Conselho de Paris,

Minhas amigas e meus amigos,

Agradeço de coração o título que a cidade de Paris me concede, por meio de seus representantes. Agradeço especialmente à prefeita Anne Hidalgo, pela generosa indicação, e ao Conselho de Paris, que a aprovou.

Este título teria de se estender, na realidade, às mulheres e homens que defendem a democracia e os direitos da pessoa humana, às brasileiras e brasileiros que lutam por um mundo melhor.

Receber este privilégio me emociona, primeiramente, porque a cidade de Paris é universalmente reconhecida como símbolo perpétuo dos Direitos do Homem e da mais elevada tradição de solidariedade aos perseguidos.

E me emociona de maneira especial porque foi concedido num dos momentos mais difíceis da nossa luta, quando me encontrava preso de forma ilegal, uma prisão política num processo que ainda não se encerrou.

Era o momento em que mais precisávamos da solidariedade internacional, para denunciar as injustiças que vinham sendo cometidas contra o povo brasileiro e as agressões ao estado de direito em meu país.

E o povo de Paris, como em tantas outras ocasiões, estendeu a nós sua proteção fraternal. Recordo-me de ter escrito, numa carta de agradecimento em outubro passado, que Paris estava rompendo o muro de silêncio que ocultava os crimes contra a democracia no Brasil.

Gostaria de estar nesta cidade libertária para simplesmente celebrar a fraternidade entre os povos e recordar os laços de solidariedade que nos unem ao longo da História. Afinal, sempre houve lugar para brasileiros e latino-americanos entre os lutadores da liberdade que Paris acolheu.

Mas é meu dever falar aqui em nome dos que sofrem, em meu país, com o desemprego e a pobreza, com a revogação de direitos históricos dos trabalhadores e a destruição das bases de um projeto de desenvolvimento sustentável, capaz de oferecer inclusão e oportunidades para todos.

É meu dever falar em nome de milhões de famílias de agricultores, das populações que vivem à margem dos rios e nas florestas, dos indígenas e dos povos da Amazônia, para denunciar a deliberada destruição das fontes de vida em nosso país, por causa das políticas irresponsáveis e criminosas de um governo que ameaça o planeta.

O que está ocorrendo no Brasil é o resultado de um processo de enfraquecimento do processo democrático, estimulado pela ganância de uns poucos e por um desprezo mesquinho pelos direitos do povo; desprezo que tem raízes profundas, fincadas em 350 anos de escravagismo.

No período historicamente breve em que o Partido dos Trabalhadores governou o Brasil, muitos desses direitos foram colocados em prática pela primeira vez. Dentre eles, o direito fundamental de alimentar a família todos os dias, o que se tornou possível graças à combinação do Bolsa Família com outras políticas públicas, com a valorização do salário e a geração de empregos.

Temos especial orgulho de ter aberto as portas da Universidade para 4 milhões de jovens, na maioria negros, moradores da periferia e dos rincões mais isolados de nosso imenso país; quase sempre os primeiros a conquistar um diploma universitário em gerações de suas famílias.

Milhares desses jovens tiveram a oportunidade de estudar nas melhores universidades do mundo, graças a um programa da presidenta Dilma Rousseff. Certamente alguns deles se encontram em Paris.

Bastaram 13 anos de governos que olharam o povo em primeiro lugar, para começarmos a reverter a doença secular da desigualdade em nosso país.

Foram passos ainda pequenos para a dimensão do desafio, mas estávamos no caminho certo, porque 36 milhões saíram da pobreza extrema e o Brasil saiu do tristemente conhecido Mapa da Fome da ONU.

Este processo, ao longo do qual cometemos erros, certamente, porém muito mais acertos, foi interrompido em 2016 por um golpe parlamentar, sustentado por poderosos interesses econômicos e geopolíticos, com apoio de seus porta-vozes na mídia e em postos-chave das instituições.

Como sabem, a presidenta Dilma, uma mulher honrada, foi afastada pelo Congresso sem ter cometido crime nenhum, num processo em que as formalidades encobriram acusações vazias.

A este primeiro golpe contra a Constituição e a democracia, seguiu-se a farsa judicial em que fui condenado, também sem ter cometido crime algum, por um juiz que hoje é ministro do presidente que ele ajudou a eleger com minha prisão.

Quando a Justiça Eleitoral cassou minha candidatura, contrariando uma determinação da ONU baseada em tratados internacionais assinados pelo Brasil, lançamos a candidatura do companheiro Fernando Haddad.

Ele foi vítima de uma das mais perversas campanhas de mentiras por meio das redes sociais, disparadas e financiadas ilegalmente pelo adversário, num crime eleitoral que denunciamos e que até hoje, passados quase18 meses, não foi julgado pelo tribunal competente.

O candidato que venceu aquelas eleições, dono de um histórico de ataques à democracia e aos direitos humanos, foi poupado pelas grandes redes de televisão de enfrentar em debates o companheiro Haddad. Essa mídia, portanto, é corresponsável pela ascensão de um presidente fascista ao governo do Brasil.

A triste situação em que se encontra meu país e o sofrimento do nosso povo são consequência de repetidos ataques, maiores e menores, ao estado de direito, à Constituição e à democracia. Se hoje estou aqui, num estado provisório de liberdade e ainda sem direitos políticos, é porque em novembro passado, num julgamento por maioria, o Supremo Tribunal Federal do Brasil reconheceu, para todos os cidadãos, o direito constitucional à presunção de inocência que havia sido negado ao cidadão Lula, às vésperas de minha prisão.

Aqui na Europa, quero me encontrar e agradecer a todos que nos apoiaram nesses momentos tão duros. Mas quero especialmente dialogar com os que trabalham para enfrentar a desigualdade, essa doença criada pelo homem e que está corroendo o próprio conceito de humanidade.

Quero compartilhar as políticas exitosas que tivemos no Brasil, conhecer a experiência, os projetos de outros países e dos que estudam e lutam contra a desigualdade no mundo.

No recente encontro que tive com Sua Santidade papa Francisco, fiquei contagiado pelo entusiasmo com que ele convoca os jovens economistas a debater e buscar saídas para essa questão, que é crucial para o presente e o futuro.

Quero propor aos dirigentes políticos, aos governantes e à sociedade civil dos mais diversos países que promovam, não apenas o debate, mas ações concretas em conjunto, para reverter a desigualdade.

Sei que é possível. Temos de ter fé na juventude, como tem o papa Francisco. Temos de ter fé na humanidade e na nossa capacidade de construir, pelo diálogo e pela política, as bases de um mundo mais justo.

Sei o quanto tem sido importante a solidariedade internacional, na Europa, nos Estados Unidos e ao redor do mundo, para que se restaure plenamente o processo democrático, o estado de direito e a justiça para todos em meu país. E mais uma vez agradeço, em nome dos que sofrem com a atual situação.

O povo de Paris me acolhe hoje entre seus cidadãos, como um reconhecimento pelo que fizemos, junto com tantos companheiros e com intensa participação social, para reduzir a desigualdade e combater a fome no Brasil.

Quero me despedir afirmando que nossa luta prosseguirá, com a participação de todos vocês, porque é a luta pela democracia, pela igualdade, pelos direitos dos desprotegidos, pela humanidade e pela paz.

Muito obrigado.”

Criado em 2020-03-03 17:12:05

Tríptico para Brasília

Romário Schettino –

I

A cidade e seu habitante

fazem, juntos, aniversário.

Uma canta a vitória de ser a mais bela

um canta a glória de viver dentro dela!

II

A cidade que me acolhe

dorme dentro de mim

feito uma cria que gerei e não pari.

A cidade que escolhi

me aceita e me rejeita igualmente.

A cidade em que dormi

pela primeira vez era azul,

como um mar sem marinheiro,

como um lago sem ondas.

E tinha o gosto do sapoti.

III

Eu ouvia dizer, em Caratinga, nos anos 60,

que no Planalto Central havia uma cidade

coberta por uma grande cúpula de vidro,

as calçadas eram esteiras rolantes e

ninguém precisava andar.

Era só um sonho imaginado pela infância.

Brasília, agora, ainda assim, é uma mulher de sorte

apesar dos vampiros que rondam

as suas casas e urnas.

Tem entre seus amantes

poderosos dentes de alho e olhos de lince.

 

Criado em 2019-04-19 16:38:29

Será que a dor de corno é universal?

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

No dia 9 de maio comemorei com uma música russa o Dia da Vitória dos Aliados contra a Alemanha nazista. Naquela Crônica & Aguda lamentei que a Guerra Fria tenha impedido a gente de conhecer melhor o repertório russo, que tem tantas afinidades com a nossa música, como assinalou várias vezes o Mário de Andrade.

O Mário não disse mas eu digo: o sentimentalismo meloso, a dor de cotovelo e a sofrência são três dessas semelhanças, às vezes envelopadas em melodias de grande qualidade.

O samba-canção, com raízes no bolero, é um parâmetro óbvio para essa comparação. Pensem por alguns instantes nas canções de rasgar as vestes (Vingança!) do Lupicínio Rodrigues interpretadas pelo Jamelão. Pensem na Maysa de O meu mundo caiu, na Elizeth Cardoso de Eu não existo sem você, na Ângela Maria de Orgulho. E gastem um tempo com o Cartola de As rosas não falam ou o Nelson Cavaquinho de A flor e o espinho. Para completar, ouçam a Gal Costa cantando Cuidando de longe da Marília Mendonça, acompanhada pela própria Marília!

Pensaram e ouviram? Então agora vocês estão preparados e preparadas para comprar (ou não!) o meu peixe. Distinto público, apresento a vocês a canção Eu perguntei ao freixo (Ya sprassil u yaseniá) em duas versões, a do cantor pop bielorrusso Alexander Rybak, e a original da cena do filme, na voz do russo Sierguiêi Nikitin.

Perguntei ao freixo? Ah, nada a ver com o Marcelo! O freixo aqui é uma árvore (Fraxinus excelsior) da família das oleáceas, endêmica em quase toda a Europa. Sua madeira, leio na Wikipédia, dura, densa e porosa, rica em agudos, é usada na fabricação de guitarras, incluindo os modelos mais sofisticados da Fender.

A letra - Lá vai a letra da música em português, traduzida por uma tal Érika Batista, com pequenas mudanças minhas:

Eu perguntei ao freixo,
Onde está minha amada?
O freixo não me respondeu,
Balançando a cabeça.

Eu perguntei ao álamo,
Onde está minha amada?
O álamo me cobriu
Com folhas de outono.

Eu perguntei ao outono,
Onde está minha amada?
O outono me respondeu
Com chuva torrencial.

À chuva eu indaguei:
Onde está minha amada?
A chuva caiu em lágrimas
Do outro lado da janela.

Eu perguntei à lua crescente,
Onde está minha amada?
A lua se escondeu numa nuvem,
Não me respondeu.

Eu perguntei à nuvem,
Onde está minha amada?
A nuvem se dissipou
No azul do céu.

Meu único amigo,
Onde está minha amada?
Diga onde se escondeu,
Sabe onde ela está?

Me respondeu o amigo devotado,
Me respondeu meu amigo sincero:
Ela era a sua amada,
Ela era a sua amada,
Ela foi a sua amada,
Mas agora é minha mulher.

Ridícula e absurda! - Que sofrimento! Como acontece com quase todas as músicas de dor de corno, essa também é ridícula. (Mas que canções ou cartas de amor não são ridículas, perguntaria o Fernando Pessoa). É também absurda. Imaginem o sujeito abandonado conversando com plantas, nuvens, estações do ano, para, no fim, descobrir que a bem amada fugiu com o melhor amigo! É pra acabar com os pequis de Goiás, diria uma dupla sertaneja de Anápolis!

A letra dessa canção foi escrita em 1928 pelo russo Vladimir Kirshon, um dramaturgo e escritor medíocre e carreirista da pior espécie, quando era um dos secretários da Associação Russa dos Escritores Proletários. Em compensação, a canção foi composta pelo georgiano Mikael Leonovich Tariverdiev, um dos maiores melodistas soviéticos, criador de 100 romanzas, quatro óperas e 130 trilhas sonoras para o cinema. Em 1975, Tariverdiev foi premiado pela Academia de Música Americana. Leva o seu nome o prêmio de melhor música do maior Festival Nacional de Cinema Russo, o Kinotaur.

A canção Eu perguntei ao freixo tornou-se popular na União Soviética em 1976 com o lançamento na televisão da comédia romântica Ironia do Destino, do diretor Eldar Riazanov. O filme costuma ser assistido até hoje na Rússia e nas ex-repúblicas soviéticas na passagem do Ano Novo, a exemplo do que acontece nos Estados Unidos com o filme It’s a wonderful life (A felicidade não se compra) de Frank Capra.

Pensando aqui no final… Será que a dor de corno é universal? Tem no samba e no chorinho! Tem nas piesni russas! Tem no blues e no jazz! Tem na chanson française! Tem no son cubano! Tem no fado português! Tem no tango argentino! Caramba, pensando bem, o mundo é um bolero!

Criado em 2020-05-14 14:46:17

O Último Ato. Nem sempre a morte é o fim!

Danilo Firmino (*) –

                         "cada um que se vai
                           uma lágrima re-cai
                           nós, oceanos"
                                                      Turiba       

Acredito que a humanidade nunca foi tão verdadeira na sua incerteza como anda sendo nestes tempos tenebrosos. Parece um paradoxo, mas são momentos de perplexidades e medos. É uma bateção de cabeças generalizada.

Diante da pandemia planetária, podemos enxergar que boa parte das pessoas vai ficar em "recuperação", ou tentará garantir boas notas na prova final para ver se passa de ano. Os ensinamentos são muitos e intensos. Tudo é pra ontem. Mas tem aqueles grupos de pessoas que já foram reprovadas pela vida no primeiro bimestre na matéria “Humanidades”.

Em todos os nossos passos e ações é verdadeira a presença da morte. A velha senhora passa a ser uma constante para os seres humanos que fazem tudo para viver com o controle do mundo e de todos os outros seres em suas mãos.

Muita gente ainda só pensa em viver mais e com requintes de luxo, mesmo que para isto tenha que promover a morte de outros ou pouco se importando com a grande maioria que não está conseguindo sobreviver, ou viver quase morrendo.

Mas a verdade é que a morte, tão dita que a todos igualaria na hora chegada, se materializou no Coronavírus e assim parece ter antecipado um pouco esse momento.

Já é a segunda vez que escrevo sobre a morte em menos de 15 dias. Ou como lidarmos com ela no momento da quarentena. A chapa está quente e o bicho está pegando. Mas, diferente da outra que era apenas uma pergunta – como serão nossos Gurufins? - agora há um medo generalizado que me fez chorar e sentir várias vezes o peso da existência.

Afinal, perdemos pessoas que faziam parte de nossas vidas, como o compositor Aldir Blanc e Dona Neném da Portela, baluartes da cultura popular. Para mim, referências no samba e na vida.

Convivo com as duas notícias que já eram arrasadoras, quando chegou outra. Depois mais outras e hoje já são quase 12 mil brasileiros mortos por este vírus letal e invisível.

Mas a notícia da morte de Flávio Migliaccio foi doída para mim e toda essa gente dos subúrbios brasileiros. Foi embora o Tio Maneco, o seu Chalita, o Xerife e para mim nasceu um discípulo de Darcy Ribeiro que parecia estar no casulo de uma vida, segundo ele, "não tava valendo a pena..."

Flávio cometeu um ato político e deixou os motivos e um programa de vida, uma reivindicação clara, objetiva e talvez uma das mais importantes de humanos, algo que nenhum movimento social, partido político ou campo, tenha dito até agora nesse momento de pandemia no Brasil.

Foram oitenta e cinco anos de dedicação à arte, de dedicação à formação de uma geração de artistas e povo que infelizmente não foi o desejado por ele, e por todos nós. Neste momento em que a fome volta à cena do País, com mais força devido à crise do coronavírus, que a democracia é atacada e nem a escola que só servia para matar a fome das nossas crianças pode abrir...

O Tio Maneco tentou mais um ato de heroísmo. O Tio Maneco atacou mais uma vez os lucros e a ganância das fábricas da insensibilidade. E no ato mais à flor da pele dos vivos, findou-se no suspiro de milhões de crianças brasileiras.

Como um herói da maioria silenciada só foi ouvido com o derramar do sangue. Tem sido assim na “assassina sina” - é um verso de Aldir, por isto as aspas devidas – dos que lutam e lutaram pela maioria neste país que, como dizia Darcy Ribeiro, “queima crianças feito carvão”.

Flávio ao se despedir entrega sua vida ao futuro desse país e diz claramente “cuidem das crianças”. O fato de Flávio ter achado que foram 85 jogados no lixo, não é o que mais me assusta. Ele achou isso e fez algo para reverter. Como ator realizou o máximo que poderia, usou do que sempre aprendeu e buscou para tocar o mundo: a emoção!

O choque da morte é o maior e último ato da vida. Agora resta aos vivos o que fazer dele. E o que me deixa apreensivo é que, mesmo com esse choque, as pessoas não tem dado a ênfase ao mais importante: ao buscar a morte, Flávio quis fazer-se vivo e eterno. Flávio morre pelo futuro da humanidade. E dar as nossas crianças, um caminho a seguir.

Por favor, choremos e é necessário. Enxugar as lágrimas e buscar não tê-las novamente e em grande quantidade é um acalanto para a alma e, no caso, para a memória do que se foi. Não adianta falar o óbvio. O que levou Flávio ao ato tão extremo de “que a humanidade deu errado”, sabemos. Está tudo uma merda mesmo: ser idoso é um caos quando se tem um presidente que fala “e daí?” para os milhares de mortos.

Mas não podemos falar “e daí?” para as crianças, e muito menos para o Flávio, discípulo póstumo de Darcy em vida. O único remédio para morte é a vida, o que é impossível. Mas o único remédio para um presente ruim é a construção de um futuro melhor! Cuidemos pois das nossas crianças...
__________________
(*) Danilo Firmino, do Coletivo Fala Subúrbio, Rio de Janeiro.

Criado em 2020-05-12 02:57:54

Uma ópera para comemorar o Bicentenário da Independência do Brasil

O maestro Jorge Antunes já concluiu a composição de sua nova ópera, intitulada Leopoldina. O libreto é do poeta Gerson Valle que há algum tempo vem realizando parcerias com Antunes. É de Valle, também, o libreto da famosa ópera Olga que, depois de apresentações no Brasil, já teve sua estreia europeia.

A ópera Leopoldina foi escrita com apoio do Holding Icatu, que concedeu o Prêmio Icatu de Artes 2020 a Jorge Antunes. O prêmio consistiu em uma bolsa financeira de um ano e meio e uma residência artística na Cité Internationale des Arts, em Paris, com o fim específico de compor a ópera.  Jorge Antunes ainda reside em Paris, onde atualmente conclui a parte eletroacústica de sua nova obra.

A trama do libreto da ópera de Antunes conta a história de vida da Arquiduquesa Princesa Leopoldina Habsburgo que casou-se, por procuração, em 1817, com o Príncipe D. Pedro de Bragança. A ópera começa justamente com cenas da festa de casamento oferecida pelo Marquês de Marialva, no palácio Augarten, em Viena.

A trama se desenvolve em seguida no Rio de Janeiro, onde a Imperatriz Leopoldina assume um verdadeiro espírito de brasilidade, defendendo o povo brasileiro, culminando com o grande ato histórico em que ela assina decreto declarando o Brasil independente de Portugal.

Na sequência, o drama cênico-musical retrata o sofrimento e humilhação que lhe são impostos pelo marido D. Pedro I, até o aborto de seu nono bebê e sua morte. Tudo isso é contado de modo não linear, com a alternância de cenas de uma escola de samba, em pleno século XXI, que prepara desfile carnavalesco homenageando a arquiduquesa austríaca, imperatriz e mãe do Brasil independente.

Segundo Jorge Antunes, Leopoldina “é uma ópera contemporânea, com um Prólogo (Abertura) e três atos, com linguagem musical eclética em que convivem vocabulários e discursos musicais de vanguarda, com elementos tradicionais, modalismo e neotonalismo”.

E acrescenta: “Ela se enquadra no gênero que os franceses chamam “grand opéra”, com orquestra a três: [3 Fl (also Picc), 2 Ob, Ci, 2 Cl, Clb, 2 Fg, Cfg, 4 Cr, 4 Tr, 4 Tb, Tu, Harpa, 5 percussionistas, Tp, cordas, eletrônica]”.

São usados também dois instrumentos extras (cavaquinho e violão). A duração é de cerca de 2 horas e 15 minutos.

Os principais solistas são: Leopoldina (soprano); D. Pedro I (tenor) e José Bonifácio (barítono-baixo).

Os papéis secundários são: Marquês de Marialva (barítono); Maria Luíza (mezzo-soprano); Domitila (contralto); Historiador (barítono); 6 procuradores (membros do coro); compositor, letrista e cenógrafa da escola de samba (3 atores).

A ópera tem também um coro, que deve contar com cerca de 40 coralistas. Existem cenas com a participação de batucada, cantores sambistas e dançarinos de uma escola de samba, que podem ser interpretadas pelos próprios membros do coro e da percussão da orquestra, ou com músicos e dançarinos originários de uma escola de samba.

Ópera Olga

O maestro Jorge Antunes, que também é autor da ópera Olga, está convidando os interessados para a leitura de crítica assinada por Alan Neilson, publicada dia 28/3, no jornal OperaWire (clique aqui). Por falar nisso, Antunes avisa que Olga está em streaming no Opera Baltycka Gdansk, Polônia.

Criado em 2021-03-30 20:41:44

Insultos de Bolsonaro são repugnantes e ameaçam a democracia

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), a Associação Brasileira de Jornalistas Investigativos (Abraji), a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) são unânimes em afirmar que os insultos do presidente Jair Bolsonaro à jornalista da Folha de S. Paulo, Patrícia Campos Mello, são uma agressão incompatível com o equilíbrio esperado de um presidente da República e uma afronta à Constituição. Até quando as instituições ficarão em silêncio?

Os jornalistas repudiaram as insinuações machistas do presidente ao se referir à premiada jornalista brasileira como se ela fosse alguém que estivesse disposta “a trocar sexo por informações” que incriminassem Jair Bolsonaro no caso das fake news, investigadas na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), instalada no Congresso Nacional.

Segundo nota da ABI, assinada pelo seu presidente Paulo Jerônimo de Souza, Bolsonaro teve, neste caso, um “comportamento misógino, que desmerece o cargo de Presidente e é uma afronta à Constituição”.

Machismo repugnante

Em nota oficial, a Fenaj afirma que, “mais uma vez, o Presidente da República, Jair Bolsonaro, protagoniza grave episódio de machismo, sexismo e misoginia”.

Nesta terça-feira (18/2), Bolsonaro decidiu atacar a repórter Patrícia Campos Mello, do jornal Folha de S.Paulo, em pronunciamento com falas de conotação sexual, gravadas em vídeos transmitidos ao vivo.

A jornalista vem sendo alvo de pesados ataques virtuais dos seguidores do presidente e do próprio clã bolsonarista por seu trabalho de jornalismo investigativo, que denunciou o pagamento, por um grupo de empresários apoiadores de Bolsonaro, para envio em massa de mensagens falsas por meio de aplicativo, na campanha presidencial de 2018.

Na semana passada, a premiada repórter foi novamente atacada nas redes sociais, após mentiras declaradas por um depoente na CPMI das Fake News. Na ocasião, Hans River Nascimento, ex-empregado de uma agência de disparo de mensagens digitais mentiu em depoimento, com declarações de cunho sexista, injuriando a repórter e pondo em xeque seu rigoroso trabalho jornalístico.

O filho do presidente, deputado federal Eduardo Bolsonaro, repercutiu as declarações mentirosas sobre a produção da matéria jornalística em sua conta no Twitter e no plenário da Câmara, inflamando os seguidores a alimentarem a rede de ódio contra Patrícia na internet.

A partir deste episódio, as mulheres jornalistas também foram vítimas de vídeo, imagens e “memes” que relacionam a apuração de matérias jornalísticas e a produção de notícias a troca por sexo. Assim, a pouco mais de duas semanas do 8 de Março, data emblemática da luta feminista, toda uma categoria profissional é atingida pela violência de gênero.

A Fenaj, junto com sua Comissão Nacional de Mulheres, está solidária às mulheres trabalhadoras, na pessoa de Patrícia Campos Mello. “Que nosso grito de repúdio sirva para frear tais comportamentos, vindos de quem quer que seja, sobretudo do mandatário da Nação, que deveria defender toda a população e, sobretudo, as maiorias silenciadas de direitos”, conclui a nota da Fenaj.

Criado em 2020-02-19 02:09:02

O desespero do ministro e a reforma da Previdência

Romário Schettino -

A falta de apoio do governo na Câmara dos Deputados levou o ministro da Economia, Paulo Guedes, ao desespero. A sua reforma da Previdência subiu no telhado e é mais provável que caia de lá por falta de legitimidade, confiança e de quem, de fato, dê sustentação às suas ideias.

Não foi o deputado Zeca Dirceu (PT-PR) o responsável pelo destempero verbal do ministro, foi a falta de apoio da base governista. Pelo visto, ninguém quer botar o guizo no pescoço desse tigre que ameaça os mais pobres. Não adianta dizer que apontar esse perigo é demagogia, a proposta é prejudicial à grande maioria e, pior, joga no imponderável o futuro dos jovens (que um dia serão idosos) e dos idosos atuais.

Que é preciso alguma mudança não há dúvida. FHC, Lula e Dilma fizeram alterações no regime de aposentadoria brasileiro sabendo que tinham que corrigir distorções surgidas ao longo dos anos. É preciso mais? Sim, mas o problema dessa proposta é sua extensão e, sobretudo, quando se questiona a legitimidade do governo eleito, que não colocou o tema em debate durante a campanha eleitoral. Alíás, Bolsonaro se recusou a debater qualquer coisa.

A frase de efeito utilizada pelo ministro Paulo Guedes, quando disse que o Brasil gastou em 2017 dez vezes mais com os aposentados (o passado) do que com o futuro (a educação), agradou setores da imprensa, mas merece críticas.

Primeiro, o congelamento dos gastos com educação por 20 anos ainda não foi revogado e o governo nem fala nesse assunto. Segundo, não é propondo a retirada dos direitos dos idosos, que sustentaram o país no passado, que será garantido o futuro da educação. Guedes não propôs nada até agora para aumentar os investimentos em educação e pesquisa.

A mudança do sistema de repartição, solidária, para o de capitalização exige alteração na Constituição, que é questionada do ponto de vista jurídico. Esse direito é cláusula pétrea? Mesmo que essa dúvida seja superada, há ainda o problema da falta de clareza sobre quem vai gerir os fundos. Quem participa da composição dos fundos? Guedes jura que os gestores não serão os banqueiros. Também não explica como esses fundos serão compostos. Os deputados não estão dispostos a dar esse cheque em branco para nenhum governo.

“Se o novo sistema proposto é tão bom por que o governo deixou os militares de fora dela?”, perguntou o deputado Paulo Pimenta (PT-RS). Guedes, mais uma vez irônico, disse que o Parlamento é que decidirá o que fazer com a Previdência dos militares. Ou seja, o governo não sabe o que fazer. E mais, por que o governo não faz a reforma tributária? O sistema tributário brasileiro é o mais injusto de todos, os trabalhadores são os mais cobrados e os que menos recebem de volta o que pagam.

Outra pergunta básica, fundamental, feita pela deputada Gleisi Hoffman (PT-PR) ficou sem resposta: “Se o regime público de aposentadoria for extinto, como quer o governo, quem vai pagar os aposentados atuais?”.  

E foram inúmeros os deputados que questionaram o ministro sobre o que virá depois se a reforma for aprovada. A sessão foi encerrada sem conclusão e o clima não está nada bom para o governo. É melhor ir com calma para um sistema mais justo para todos do que correr para aprovar algo que deixa mais dúvidas do que certezas.

A única concessão feita por Guedes foi admitir a manutenção do Benefício de Prestação Continuada (BPC) para os miseráveis trabalhadores rurais que recebem mesmo quando não conseguem contribuir com a Previdência. Mas o BPC não passa de um bode na sala, o problema da reforma é bem mais amplo.

O que diz uma brasileira que vive no  Chile?

A propósito da menção ao sucesso da reforma da Previdência chilena, defendida por Guedes, a brasileira Caroline Quandt, que mora no Chile, publicou nas redes sociais seu depoimento com o título: "Torcendo para dar errado? Então deixa eu te falar sobre o que é ´torcer para dar errado´".

“Eu vivo a reforma. Eu vivo no Chile, onde o Paulo Guedes dono do Banco BTG Pactual, maneja fundos de pensões de aposentadoria. Eu vivo num país onde diariamente cresce o índice de suicídios na terceira idade (4 na semana passada, todos nos trilhos do metrô), porque eles não têm dinheiro para sobreviver. Porque ou eles pagam aluguel, ou as contas, ou os remédios.

Eu vivo num país, onde a terceira idade vende badulaques na rua, para complementar a miséria que bancos como o do Paulo Guedes lhes dão, ainda que eles usem esse dinheiro do suor do trabalho dessas pessoas para ganhar o triplo. Eu vivi para ver a avó do meu ex, receber uma cartinha, dizendo que o fundo dela havia acabado, e sua pensão de cerca de R$ 500 reais, havia chegado ao fim e por isso ela ia passar a receber um auxílio do governo de R$ 350.

Eu não sou uma menininha ´torcendo para dar errado´, eu sou uma mulher que vê todos os dias nas ruas chilenas a desgraça anunciada que é essa reforma. Eu sei que vai dar errado. Mesmo sabendo que existem sistemas melhores e mais justos, mas o Guedes quer esse, porque nesse ele já está no esquema".

Criado em 2019-04-04 15:45:13

Escura noite

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Há 75 anos, a 8 de maio, perto da meia-noite, num salão do colégio de engenharia militar de Karlshorst, em Berlim, a delegação formada pelo marechal de Campo Wilhelm Keitel, o general almirante Hans-Georg von Friedeburg, e o coronel-general Hans Jürgen Stumpff, assinavam o termo de capitulação da Alemanha nazista perante o marechal soviético Gueorgui Júkov, o marechal chefe do ar britânico Arthur Tedder, o general americano Carl Spaatz, e o general francês Jean de Lattre de Tassigny.

Selava-se ali o fim da carnificina da II Guerra na Europa, que vitimou entre 70 milhões e 85 milhões de pessoas, tendo a União Soviética sofrido as maiores perdas, estimadas em 26,6 milhões de soldados e civis. A cessação do conflito na frente da Ásia e do Pacífico só ocorreria no dia 2 de setembro de 1945, quando o chanceler Mamoru Shigemitsu assinou a rendição do Japão a bordo do couraçado americano Missouri.

Naquela banda do mundo foi a China que pagou o maior preço, com 20 milhões de mortos. Para quem não sabe, os Estados Unidos perderam durante toda a guerra 419 mil e quatrocentas pessoas. O Reino Unido, 450 mil e novecentos soldados e civis. 

Grande Churchill - Não pretendo recapitular os principais episódios e batalhas daqueles anos terríveis, 1939 a 1945. Nem avaliar o papel do primeiro-ministro Winston Churchill, que chegou ao fim da Guerra com a popularidade tão baixa entre os próprios britânicos que perdeu o governo em julho de 1945.

Também não vou falar da Resistência Francesa, que teve a participação de muitos mais estrangeiros, inclusive brasileiros, do que os franceses admitiam. Até há pouco tempo esse assunto era um tabu!

Não vou também recapitular a versão de Hollywood de que foram os americanos que ganharam a guerra e que o Dia D teve papel central na rendição da Alemanha. Na verdade, serviu, sim, para prevenir a captura de toda a Europa pela União Soviética.

Também não vou levar em conta nesta crônica a história muito mal contada de que foram os lançamentos das bombas atômicas sobre Nagasaki e Hiroshima que forçaram o Japão a assinar a rendição, como se não tivesse peso o ataque-surpresa do Exército Vermelho, com 1,6 milhão de soldados, contra as forças do Japão no Leste da Ásia, cujo objetivo final incluía a tomada da ilha de Hokkaido. Oportunamente, talvez eu escreva uma Crônica & Aguda para tratar da relevante e bem documentada tese do historiador nipo-americano Tsuyoshi Hasegawa, segundo a qual o principal fator da capitulação incondicional dos japoneses foi a entrada da União Soviética na Guerra do Pacífico, com a quebra do Pacto de Neutralidade assinado por Stalin com o Japão em abril de 1941 (Racing the enemy: Stalin, Truman, and the surrender of Japan, The Belknap Press of Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts, 2005). 

Dois Soldados - Para comemorar o Dia da Vitória (8 de maio na Europa e nos Estados Unidos, 9 de Maio na Rússia), decidi apresentar a vocês a canção Escura Noite (Tiômnaya Notch), composta pelo prolífico compositor Nikita Bogoslovsky (mais de 200 canções, oito sinfonias, 17 operetas e comédias musicais, 58 trilhas sonoras e 52 músicas para teatro) para o filme soviético Dois Soldados, realizado em 1943 para servir como peça de combate contra o nazismo.

Dirigido por Leonid Lukov, o filme ressalta a camaradagem entre soldados de várias etnias em combate na frente de Leningrado, nas figuras de Sasha (Boris Andreyev) e Arkady (Mark Bernes). A partir dessa película, Bernes, ator e cantor de origem judia, virou uma estrela, destacando-se pela interpretação das principais canções da Guerra.

Escura Noite é uma das mais belas do cancioneiro russo, popularíssima até hoje. Ela conta a história de um soldado no campo de batalha que encontra nas lembranças da mulher e do filho recém-nascido a força e o ânimo necessário para enfrentar o inimigo.

Nota: ano passado a canção foi proibida na Polônia pelo diretor o Museu da Guerra em Gdansk, Karol Nawrotsky, por ser uma música “bolchevique”!

É pena que a Guerra Fria tenha impedido o Brasil de conhecer melhor a música popular russa, não apenas as da época da guerra. Perguntem ao Yamandu Costa o que ele acha!

O Mário de Andrade, que não era bobo, notou e anotou a influência dos russos sobre a música brasileira já em abril de 1927, quando ganhou do pintor russo Lasar Segall a canção Troyka, episódio que ele conta na Pequena História da Música (pág. 189, 9ª edição, Martins, 1980). 

Parecenças - Em Música, Doce Música (Nova Fronteira, 2013), no capítulo As Bachianas, o Mário relata como foi sendo surpreendido pelas influências de Bach, Chopin, “um bocado de tudo”, na música popular brasileira. A certa altura diz: “Outro momento inesquecível de minha surpresa foi aquele em que, cantarolando, em companhia do pintor Lasar Segall, um aboio cearense que me fora comunicado naqueles dias, Lasar Segall continuou em russo a minha cantarola, pois as linhas melódicas coincidiam inteiramente entre o aboio e a canção russa. Aliás são numerosas e já muito denunciadas as parecenças entre a melódica russa e a brasileira. Dei exemplo disso no meu Ensaio sobre música brasileira e na antologia das Modinhas imperiais”.

Pra terminar, lá vai a minha versão mal-ajambrada da canção Escura Noite.

Abaixo duas versões na voz de Mark Bernes, depois me digam o que acharam!

Escura Noite

Tão escura noite, só balas assoviam na estepe,
Zune o vento nos fios, estrelas cintilam desmaiando -
Na escura noite, querida, você não dorme,
Do lado do berço, enxuga lágrimas discretas -

Como amo a fundura dos seus ternos olhos -
Ah, se eu pudesse alcançá-los com meus lábios -
A escura noite nos separa, meu amor,
Entre nós se estende a assustadora estepe negra -

Confio tanto em você, amada, minha querida -
Essa fé me protege das balas na noite escura -
Com ânimo e calma enfrento funestas batalhas -
Sei que me amará não importa o que suceda -

Não me assusta a morte, a encontrei mais de uma vez,
Ela está me rodeando justamente agora  - 
Sem dormir perto do berço você me espera -
Assim, eu sei, comigo nada vai acontecer –

 

Criado em 2020-05-08 22:46:22

A potência feminina durante a crise

Lara Montenegro (*) –

Hoje tive uma das conversas mais duras da quarentena. Uma pessoa me escreveu, no fim de semana, pedindo uma cesta básica, depois de ver a divulgação da campanha Rede Solidária. Fui responder hoje cedo, pra entender as circunstâncias e avaliar que tipo de suporte era possível dar. Ela vende roupas usadas em feiras da Ceilândia, Distrito Federal, e não está trabalhando há algum tempo por conta da quarentena.

Com uma mãe diabética e hipertensa e um irmão com deficiência, ela me conta que o aluguel está vencendo esta semana e teme ser despejada, pois não tem um centavo pra pagar. Solicitou o auxílio emergencial e há dias sua ficha está sob análise, sem resposta.

Pergunta se eu saberia de algum lugar onde pudesse viver como caseira com os dois (a mãe e o irmão). Por fim, me manda uma foto de costas e eu fico sem entender. Na sequência, me diz que está vendendo os cabelos pra tentar levantar dinheiro pra pagar o aluguel, perguntando se eu não sabia alguém que tivesse interesse.

Vendendo os cabelos pra pagar o aluguel.

Vendendo os cabelos pra pagar o aluguel.

Releio várias vezes a mesma frase, custando a acreditar.A miséria e a humilhação todos os dias conversando comigo ultimamente, em primeira pessoa. Organizo o apoio pra ela enquanto as lágrimas molham o teclado do computador. Choro de raiva dessa gente nefasta e sem escrúpulos que governa o país hoje, que espalha mentira e doença, que libera dinheiro a rodo pra banco, mas coloca todo tipo de obstáculo pra quem tá morrendo de fome ter acesso ao benefício mínimo. Sinto uma vergonha profunda de viver nesse nosso tempo.

Nosso grupo de mulheres de esquerda salva o dia mais uma vez. Levantamos a grana do aluguel, cesta básica e remédios em poucas horas. Em outro extremo, choro de novo, emocionada, agradecendo por estar cercada por elas. Nossa potência feminina/sta. Dando as mãos a gente vai tentando se curar dessa dor do mundo. Diariamente.


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(*) Lara Montenegro, geógrafa.

 

Criado em 2020-05-06 20:56:23

A arte salva

Luiz Philippe Torelly (*) –

“Que mesmo no tempo mais sombrio temos o direito de esperar alguma iluminação, e que tal iluminação pode bem provir, menos de teorias e conceitos, e mais da luz incerta, bruxuleante e frequentemente fraca que alguns homens e mulheres, nas suas vidas e obras, farão brilhar em quase todas as circunstâncias e irradiarão pelo tempo que lhes foi dado na terra”. (Hannah Arendt)

Imersos que estamos na maior e mais dramática calamidade sanitária que o país já enfrentou em sua história, o acontecimento que iremos comentar pode parecer menor, desprezível, mas que significa um inaceitável retrocesso humanístico, legal e cultural, para uma cidade que nasceu sob o signo da modernidade.

Desde 2019, o atual governador Ibaneis Rocha, tenta ressuscitar a ideia de construção de um “Museu da Bíblia”, em pleno Eixo Monumental. Primeiro, procurou-se para legitimar a ideia, valer-se de um “rabisco” do arquiteto Oscar Niemeyer. Tal propositura foi rechaçada pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo por óbvio. O projeto necessita da presença do arquiteto para seu desenvolvimento e aprovação junto às esferas públicas competentes. Tratava-se de um caso de “psicografia” de uma obra de arquitetura. Não satisfeito, o GDF abandonou a “colaboração” de Niemeyer, morto em 2012, e organizou um concurso público de projetos, cujo edital veio à luz no dia 24 de março passado.

Felizmente, por iniciativa da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA), conforme divulgado no último dia 28/3, pelo jornal Correio Braziliense, o Juiz da 7ª Vara da Fazenda Pública do DF, Paulo Afonso Cavichioli Carmona, suspendeu as obras e qualquer outro procedimento administrativo que tenha como objetivo dar seguimento à construção do aludido museu.

Assim que a ideia foi tornada pública, foram inúmeras as críticas de amplos setores da sociedade civil, por uma razão simples e cristalina como água. Desde a primeira Constituição republicana, de 1891, a Igreja e o Estado são instituições segregadas, sendo vedado ao estado colaboração financeira a qualquer título, conforme reza o Art. 19, inciso I:

“É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público”.

Se a questão se cingisse apenas à esfera religiosa, poderíamos pensar que dada as suas convicções, o governador desejasse prestar uma homenagem às sagradas escrituras, embora isso seja proibido pela Constituição Federal.

O que é mais grave, além da inconstitucionalidade da proposta, é que a infraestrutura cultural de Brasília, está sucateada como o caso do Teatro Nacional – fechado há sete anos –, do Museu de Arte de Brasília – com as portas fechadas há mais de uma década – e da Sala Funarte em condições análogas. Por que não restaurar aquilo que está fechado, ao invés de construir novos?

Não são quaisquer edificações. O Teatro Nacional sedia três casas de espetáculos, um foyer utilizado para exposições e outras manifestações artísticas e é um bem tombado em nível federal pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, e é um projeto de Oscar Niemeyer.

Ademais, há outra questão gravíssima. Brasília não tem um museu sequer à altura do seu significado como capital do Brasil, uma das grandes manifestações culturais mundiais do século XX, reconhecida como Patrimônio Mundial pela Unesco em 1987. É um paradoxo que uma cidade que foi criada tendo como signo a integração de arte e arquitetura, não tenha um espaço para expor ao público morador e visitante, uma mostra da produção intelectual, artística e cultural de um país como o Brasil, com 212 milhões de habitantes.

Em artigo anterior sobre o tema (leia aqui), destaquei aqui neste site que existe confinado em instituições públicas, sem acesso público, um acervo de altíssima qualidade de objetos de arte, tais como quadros, esculturas, tapeçarias, documentos, mapas, que poderiam constituir um museu público de alta qualidade. As obras pertencem, entre outros, aos bancos do Brasil, Central, Caixa Econômica Federal; Itamaraty, Palácio do Planalto, Câmara e Senado. Não se propõe que as mesmas sejam doadas. Apenas emprestadas por determinados períodos para serem exibidas ao público.

Lugares para abrigá-las não faltam: Museu da República; Centro Cultural do Banco do Brasil; “Foyer” do Teatro Nacional, quando estiver devidamente restaurado. Como todas as instituições se localizam em Brasília, os custos de transporte, seguros e curadoria, seriam reduzidos, propiciando um grande estímulo à vida cultural do Distrito Federal. Podem também ser programadas exposições menores, para percorreram pelas demais cidades do DF, aproximando a arte de populações que ficam marginalizadas dos eventos culturais.

Causa espanto e apreensão a insistência em implementar uma ideia tão anacrônica e estapafúrdia, que no passado e mesmo na atualidade, provocaram tantos conflitos em todo o planeta. Cada igreja cristã já é por princípio, muito mais que um museu da bíblia, é a bíblia viva conferindo vida aos preceitos éticos, morais e religiosos presentes nas sagradas escrituras. O abalo da separação entre a religião e o Estado é um retrocesso civilizatório. Bastam os que na atualidade causam a morte e o sofrimento dos brasileiros.
_____________
(*) Luiz Philippe Torelly é arquiteto, urbanista e ex-diretor do Iphan.

Criado em 2021-03-29 17:41:20

E se a gente organizasse o Movimento dos Bagrinhos contra Bolsonaro?

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Domingo, dia dois de fevereiro, é dia de festa no mar e “eu quero ser o primeiro a saudar Iemanjá”, dizia o Dorival Caymmi. E se gente aproveitasse o mote para lançar o Movimento dos Bagrinhos contra Bolsonaro?

A inspiração vem do Movimento das Sardinhas na Itália, que acaba e botar na parede eleitoral na região da Emilia-Romagna o ex-ministro Matteo Salvini, líder da Lega e amiguinho do Bolsonaro.

A Lega é um partido neofascista, racista, contrário aos imigrantes. Espalha o discurso do ódio, alimenta ataques violentos contra a esquerda. Mas Salvini não contava ser confrontado pelo Movimento das Sardinhas, suprapartidário, vinculado às organizações de base, radicalmente democrático e popular. Contra os tubarões da política e do grande capital, as sardinhas unidas, cantando o Bella Ciao!

Na capital da Emilia-Romagna as Sardinhas espalharam cartazes com a frase “Bologna non si lega”, quer dizer, “Bolonha não se liga”, um jogo com o nome da legenda de Salvini, ou “Bolonha não adere à Liga”. O exemplo se espalhou pelo país todo: “Roma non si lega”, “Milano non si lega”, “Treviso non si lega”, Napoli non si lega.

Tá passando da hora do Brasil dizer não ao Bolsonaro, tá ligado? Os Bagrinhos podem muito bem fazer isso.

As Sardinhas italianas começaram a juntar gente em Bolonha no mês de novembro. Convocaram uma manifestação de 6 mil pessoas e juntaram mais de 15 mil. A partir daí a coisa foi crescendo, com a participação de dezenas de milhares de cidadãos e cidadãs país afora, insatisfeitos (alguns apavorados) com as propostas e ações fascistas de Salvini. O ex-ministro apostou que ganharia as eleições regionais na Emilia-Romagna, reduto da esquerda, para voltar ao poder. Sua aposta furou.

Aqui, os Bagrinhos podem começar o movimento devagarinho, nos terreiros do candomblé, nas encruzilhadas, nos becos das cidades, nas quebradas do sertão, nas veredas da Amazônia, nas praias, nesse domingo, dia de saudar Iemanjá.

As milícias estão espalhando o terror contra o pessoal do candomblé nos morros? Bagrinhos neles! Os estudantes estão sendo atacados pelo ministro Weintraub? Bagrinhos nele! A Damares está querendo empatar a foda das gurias e guris? Bagrinhos nela! O Guedes quer foder de vez a classe trabalhadora? Bagrinhos nele! O Salles incentiva a invasão das terras dos povos indígenas e as fogueiras dos latifundiários na Amazônia? Bagrinhos nele! O novo presidente da Capes ataca a Ciência com a proposta obscurantista do Criacionismo? Bagrinhos nele! Os Bolsonaros (pai e filhos) continuam enfiando a mão pelos pés, corrompendo tudo o que tocam, destruindo o País? Bagrinhos neles!

O Movimento dos Bagrinhos – acima dos partidos políticos, mas não acima da política – poderá vir a ser uma referência para os partidos de esquerda e centro-esquerda, que andam sem rumo, sem programa definido para destronar o Bolsonaro e os seus aliados neoliberais do Palácio do Planalto.

Começando agora, sem pressa, os Bagrinhos poderiam dar o ar da graça no carnaval. E já poderiam também ir pensando em como marcar presença nas eleições municipais do próximo mês de outubro, outorgando, por exemplo um selo de qualidade dos Bagrinhos aos candidatos a prefeitos e vereadores comprometidos com a democracia, a República, a gente trabalhadora, os povos indígenas, os quilombolas e toda a diversidade social e cultural do Brasil, dos Brasis.

Dia dois de fevereiro
Dia de festa no mar
Eu quero ser o primeiro
A saudar Iemanjá
…………………………..
Chegou, chegou, chegou
Afinal que o dia dela chegou.

Criado em 2020-02-01 00:01:58

55 Anos do Golpe – Meus medos e o terror de Estado

Romário Schettino -

Por falar em Golpe de 1964 e comemorações em quartéis, publico aqui um relato produzido por mim em 2014, quando se completaram 50 anos desse mesmo golpe. Como o atual governo federal tenta “desconstruir” a nossa história, republico meu testemunho.

Meu nome foi incluído num relatório escrito por um representante do regime militar brasileiro e mostra como a desfaçatez, a mentira, o preconceito, a injúria, a difamação e a calúnia faziam parte da estratégia de desacreditar aqueles que resistiam à ditadura. Tudo isso aliado ao sequestro, prisão, tortura e assassinato.

O documento qualificado como “confidencial” foi encontrado em um cofre da reitoria da UnB pelo ex-reitor e ex-senador Cristovam Buarque e tem a assinatura do General de Divisão Olavo Vianna Moog. Ali Moog descreve, em minúcias, as dezenas de prisões arbitrárias produzidas em pleno governo Garrastazu Médici.

A repressão militar na UnB

Aconteceu no dia 15 de junho de 1973, 19h, quando eu deixava meu trabalho no Banco Central do Brasil, no Edifício União, Setor Comercial Sul, em Brasília. Eu, concursado, ocupava o cargo de escriturário. Tinha 22 anos.

No estacionamento, me esperavam vários policiais à paisana, fortemente armados com metralhadoras. Do carro da Polícia Federal, uma C 14, parada ao lado do meu fusquinha, desceram homens com a missão de me prender. Encapuzado, colocado no fundo do meu fusca, fui sequestrado e levado para lugares que só pude identificar muito tempo depois.

Torturado com choques elétricos nos órgãos genitais, espancado, seviciado durante mais de uma semana, acabei sendo solto vinte e cinco dias depois do sequestro - sem formalização de nenhuma acusação. Só deixaram as marcas da violência e da covardia.

Houve um momento em que não acreditei sair vivo da prisão. Após uma série de espancamentos e choques elétricos, tive um desmaio. Pedia água, mas fui informado que não deveria beber água porque poderia ocorrer uma eletrólise e a morte era certa. Poupado neste momento, provavelmente por orientação médica (ou será científica?), fui levado a uma cela do Pelotão de Investigações Criminais (PIC), localizado no Setor Militar de Brasília, onde tive uma crise renal. Depois de muito gritar por socorro fui atendido por um médico que me aplicou uma injeção de buscopan na veia. Nesse dia eu ouvi muitos gritos e choros nas celas vizinhas, acompanhados de sons de bordoadas de cassetetes.

Os lugares por onde andei só puderam ser identificados por alguns dos sinais colhidos durante a prisão. Subsolo do Ministério do Exército, na Esplanada dos Ministérios, Polícia Federal, PIC (...). Nesses lugares eu pude identificar as persianas do ministério (todas iguais até hoje), as celas individuais e os sons das cornetas anunciando a entrada e saída dos oficiais militares no PIC.

Meus óculos de míope foram recolhidos e só entregues no final do sequestro 25 dias depois. Um carro da polícia me abandonou no cerrado existente no que é hoje a SQN 114/115 Norte. Avisado para que me dirigisse ao estacionamento do supermercado da SAB na 312 Norte (hoje é o Carrefour Bairro) encontrei meu carro. Dentro dele achei duas placas frias, usadas para outras prisões igualmente ilegais, clandestinas e arbitrárias.

A violência brutal contribuiu para a interrupção de minha vida profissional e estudantil. Perdi o emprego no Banco Central e fui jubilado do curso de História da UnB. Na volta ao Brasil em 1975, dois anos depois de auto-exilado na França, consegui me reinscrever no curso de jornalismo, mas no emprego nunca mais consegui ser reintegrado.

Apenas os torturadores, policiais e militares, anônimos e ocultos para mim, sabem o que houve naquelas mais de três semanas de terror. Tudo foi planejado para que não houvesse testemunhas oculares, ninguém viu minha prisão nem a soltura, nem as sessões de tortura. O único registro dessas prisões é o Relatório Olavo Vianna Moog, que pode ser encontrado no Arquivo Nacional da União sobre a ditadura.

São 31 páginas do Ministério do Exército classificadas de “confidencial”, tendo como assunto “infiltração subversiva no meio universitário em Brasília, produzido pelo CMP do 11º R.N., distribuídas para o CIE do I, II, III e IV Exército e outros órgãos militares, com o nome de Relatório Especial da Informação Nº 3/73”.

Quem tiver paciência, e estômago, para ler esse relatório vai encontrar muita semelhança com o que está acontecendo atualmente no país. Parece um pesadelo.

Criado em 2019-03-28 21:36:16

Governo Bolsonaro levou Flávio Migliaccio ao suicídio!

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

O suicídio de Flávio Migliaccio foi um protesto político contra o governo Bolsonaro e contra os gestores pentelhocostais da Secretária da Cultura dirigida por Regina Duarte. É o que eu afirmo e demonstro!

Basta ver a carta de desespero que ele deixou, dizendo que “a velhice neste país é o caos como tudo aqui”, que “a humanidade não deu certo”, e que teve “a impressão (de) que foram 85 anos (os seus) jogados fora num país como este. E com esse tipo de gente que acabei encontrando”.

Que tipo de gente? O vídeo que ele mandou pouco antes de morrer ao amigo Tunico da Vila, sambista da União da Vila Isabel, esclarece um pouco mais o teor da carta. Nele, Flávio lança um apelo em favor da liberdade dos artistas. “Quero, quero, mais liberdade para o artista”, diz o Flávio, repetindo o verbo “querer” duas vezes.

Ele diz que “o artista consegue criar só com liberdade”. Diz que foi assim que “apareceu o Molière, o Drummond, o Darwin” e também “os que acreditam em Deus”.

Por que justapor Darwin e “os que acreditam em Deus”? Na verdade, não foi justaposição, foi contraposição. Me parece óbvio que o Flávio quis se referir às pessoas que estão convencidas da Teoria da Evolução, de um lado, e, do outro, aos idiotas criacionistas, neopentelhocostais e companhia que infestam esse governo de terraplanistas, religiosos ditos pró-vida, e pessoas que enxergam Jesus no galho da goiabeira. Crentes babacas, reacionários, que, se pudessem, imporiam ao País um governo teocrático. Para criar, repete Flávio, “o artista precisa de liberdade”. E censura, evidentemente, é o que anda sobrando nos últimos meses na área da Educação e da Cultura.

Adiante no vídeo Flávio faz referência aos artistas perseguidos pelo governo Bolsonaro, sem dar o nome aos bois (mas precisa?), por, supostamente, terem desviado recursos através da Lei Rouanet. Ora, diz o Flávio, “se querem condenar algum artista que meteu a mão na Lei Rouanet, que prendam esses caras, mas não são todos os artistas assim. Tem artista sofrendo, tentando fazer um espetáculo. Quero, quero liberdade para o artista”.

Disse mais o Flávio: “A gente não é a favor de nenhuma ditadura de esquerda, mas não quer a ditadura de direita. Querem tomar o poder? Tomem o poder, mas deixem o artista em paz e criar um pouco", disse no vídeo que encaminhou ao amigo Tunico da Vila.

Quando ele menciona o Tunico, a gente se dá conta do porquê Flávio ter repetido o “quero, quero” ao longo de sua fala. É que o Tunico lançou no ano passado a releitura do Quero, Quero, um antigo samba de Martinho da Vila, que diz:

Quero, quero

Quero, quero, quero
Quero cantar
Quero curtir e construir
Quero criar
Participar e discutir
Pra me desabafar
Sou errado, sou perfeito
Imperfeito, sou humano
Sou um cidadão direito
Meu direito é soberano

Grande Flávio Migliaccio, cidadão direito, soberano e corajoso, que sai da vida aos 85 anos com o dever cumprido, depois de tanto enriquecer a cultura brasileira!

Criado em 2020-05-05 02:35:55

A doença das fake news

Jean Wyllys (*) –

1 - “Como você está lidando com essa nova onda de calúnias, fake news e insultos contra você?”, perguntou-me uma amiga, referindo-se às mentiras e teorias conspiratórias contra mim disparadas em massa nas mídias sociais por uma organização criminosa em apoio ao governo fascista de Bolsonaro.

Organização essa especializada no assassinato de reputações de autoridades da república, como os ministros do Supremo Tribunal Federal e os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado; de jornalistas; e de outras figuras públicas que se opõem - ou tentam impor limites democráticos - à gestão fraudulenta, violenta e incompetente que este governo está fazendo da pandemia de Covid-19, que já matou mais de 5 mil pessoas no país no último mês.

Eu respondi à minha amiga que o que mais me incomodava em ser alvo dessa organização criminosa era o ódio que ela despertava em mim. E acrescentei que, antes de tomar as providências legais cabíveis em âmbito nacional e internacional, eu preciso sempre me livrar primeiro desse ódio. Minha amiga me disse que também lhe doía muito sentir o ódio que esses criminosos lhe despertavam.

2 - Um amigo artista plástico há dois dias perdeu seu pai querido para a Covid-19. Este saíra de casa uma única vez nos últimos 30 dias para ir ao supermercado; lamentavelmente, infectou-se e adoeceu. Agonizou sozinho até a morte. E foi enterrado sem rituais fúnebres, sem ninguém que lhe amava por perto, por razões sanitárias. Meu amigo está sofrendo e me disse que, quando vê, na televisão, Bolsonaro, seus ministros e os parlamentares que lhe apoiam convocando a população e os trabalhadores mais pobres a saírem do confinamento sem apresentar qualquer plano minimamente sensato de políticas para conter a pandemia e garantir as vidas humanas, que quando ele vê esse crime de lesa-humanidade ser perpetrado diante das câmeras de televisão, ele sente um ódio profundo de Bolsonaro e sua gente, mas que ele não gosta desse sentimento.

3 - Um outro amigo, médico, entubou ontem, na UTI do hospital em que trabalha, a esposa de um colega seu que chegou com 70% dos pulmões comprometidos pela Covid-19. Seu colega, bolsonarista fanático, assim como a esposa agora doente, participaram das últimas manifestações verde-e-amarelas que negavam a gravidade da doença e exigiam a abertura do comércio. Meu amigo me disse que, ao ver o estado de saúde da esposa do colega, sentiu ódio em relação aos negacionistas da pandemia, principalmente daqueles que têm acesso à informação. E que não gostaria de ter esse sentimento.

Nesses três relatos verídicos (embora eu tenha ocultado os nomes das pessoas para preservá-las), o ódio aparece como um sentimento infeccioso; como o sintoma de um contágio que produz sofrimento, como algo que adoece as pessoas tanto quanto o novo coronavírus.

A ensaísta e crítica literária Susan Sontag, em seu monumental “A doença como metáfora”, adverte-nos para os perigos que há em se abordar determinadas enfermidades como outra coisa que não sejam o que elas são de fato: doenças.

Sontag está certa, pois metáforas em torno de doenças como a tuberculose, o câncer e a AIDS formam responsáveis pela estigmatização e marginalização dos doentes e até mesmo de violências físicas contra estes.

Porém, a própria Sontag admite, citando o filósofo Aristóteles, que é impossível pensar sem metáforas. Sendo assim, recorro à infecção por vírus como metáfora dos danos que o governo Bolsonaro e a extrema-direita estão causando nas subjetividades e na saúde emocional dos brasileiros (esta metáfora pode ser estendida aos estragos provocados por idiotas de extrema-direita em outras partes do mundo, vide a recomendação que Donald Trump fez na televisão de que as vítimas da Covid-19 tomassem detergente para combater o vírus, o que provocou vários casos envenenamento aqui nos EUA). É a metáfora mais pertinente em tempo de pandemia de um novo coronavírus.

Não há nome mais apropriado para a organização criminosa que ataca a oposição democrática ao governo fascista de Bolsonaro do que “Gabinete do Ódio”. Independentemente de se este tem ou não uma sala física para si no Palácio do Planalto ou em algum dos escritórios dos parlamentares integrantes ou cúmplices da quadrilha, o gabinete existe como foco de transmissão de agentes infecciosos das subjetividades: calúnias e teorias conspiratórias na forma principalmente de fake news (notícias mentirosas), esses vírus de consciência capazes de levar pessoas a matar e morrer por ódio, e, antes, despertar ódio em pessoas que não gostam de odiar, que rejeitam esse sentimento maligno.

A Polícia Federal já tem as provas do envolvimento direto de Carlos Bolsonaro, filho do presidente da República, na organização criminosa batizada de “Gabinete do Ódio”. A PF também já sabe quem são os outros integrantes da quadrilha.

Este fato - mais as investigações que a Polícia Federal está empreendendo em torno das milícias do Rio de Janeiro e do assassinato de Marielle Franco em 2018 e que revelam laços estreitos entre os assassinos e Flavio Bolsonaro - levaram o presidente Jair Bolsonaro a tentar intervir na Polícia Federal, o que serviu de gancho para o agora ex-ministro da Justiça Sergio Moro deixar o governo, acusando-o de corrupção e outros crimes mais graves.

A saída ruidosa de Sergio Moro acontece logo depois da ruptura de Mandetta, ex-ministro da Saúde que vinha tratando a pandemia de Covid-19 com alguma seriedade nesse governo de incompententes, responsável direto pelas cenas tenebrosas de enterros em valas comuns de centenas de mortos pela Covid-19 a que os brasileiros assistem todos os dias pela televisão.

A fim de criar uma cortina de fumaça para a incompetência e corrupção de Bolsonaro, e, ao mesmo tempo, mover as hostes de imbecis odiosos nas mídias sociais, o “Gabinete do Ódio” passou os dois últimos dias disseminando uma fake news absurda contra mim (a de que eu teria algum envolvimento no episódio da facada que Bolsonaro teria sofrido durante a campanha eleitoral em 2018); uma calúnia já desmentida exaustivamente tanto por investigação conclusivas da Polícia Federal quanto pela imprensa.

O objetivo último da recuperação dessa calúnia por parte do “Gabinete do Ódio” é jogar suspeição sobre as graves denúncias contra Bolsonaro feitas por Sergio Moro quando de sua ruptura com o governo do qual era parte essencial. A ideia é sugerir por meio desta calúnia em forma de fake news que Sergio Moro, “para me proteger”, não teria feito investigações corretas em relação ao suspeitíssimo atentado que Bolsonaro sofreu na campanha eleitoral de 2018. Sim, trata-se de uma ideia absurda que só convence a estúpidos fanáticos e... homofóbicos!

O “Gabinete do Ódio” decidiu me envolver nesse ataque a Sergio Moro porque sabe que a homofobia (o ódio e a aversão social mais ou menos consciente aos homossexuais e seus modos de vida) é um elemento de coesão e de mobilização das hostes fascistas. Trata-se de promover o ódio a Sergio Moro por contágio: fica mais fácil odiá-lo e acusá-lo de que “conspirou contra Bolsonaro” se ele for associado à “proteção” de um homem gay já odiado por outras tantas calúnias e mentiras disseminadas por essa mesma organização criminosa que agora se volta contra Moro depois de tê-lo favorecido no passado.

Não é mera coincidência que Bolsonaro tenha dito, por meio de seu perfil no Facebook, que a Organização Mundial de Saúde (OMS) “incentiva a masturbação e a homossexualidade em crianças”. Trata-se de uma mentira descarada e grave; trata-se de uma calúnia perpetrada contra o organismo que está liderando, em todo o mundo, o enfrentamento à Covid-19 e a assistência humanitária às suas vítimas.

Assim como “a mamadeira de piroca” e o “kit gay”, essa fake news de Bolsonaro contra a OMS busca interpelar a homofobia que amalgama os bolsonaristas, que os identifica entre si. E não se trata de uma representação negativa qualquer da homossexualidade, mas daquela representação mentirosa que a trata como ameaça à infância inocente.

Essa tática não é nova. A história nos mostra diferentes episódios em que estupradores e negociantes de mulheres escravas, exploradores sexuais de prostitutas e das próprias esposas, assediadores asquerosos de meninas e mandantes quando não perpetradores do assassinato de crianças pretas e pobres usaram fake news, mentiras, caricaturas grotescas e casos isolados para difamar a comunidade de gays e lésbicas, acusando-a de “ameaça à infância”. Dessa forma, manipulando a homofobia social da maioria, conseguiram dirigir o ódio desta contra os gays e lésbicas e esconder seus próprios crimes.

Ao final das eleições de 2018, a filósofa Márcia Tiburi, o jurista Renan Quinalha, o psicanalista lacaniano Antonio Quinet e eu escrevemos um dossiê sobre a centralidade da homofobia na vitória da extrema-direita no Brasil. Parte expressiva das esquerdas segue menosprezando esse dado e, por isso, ineficaz ante o bolsonarismo.

Já disse e repito: ratos acuados são perigosos porque atacam. Os ratos acuados do governo Bolsonaro estão atacando com calúnias e teorias conspiratórias na forma de fake news desde Sérgio Moro até a OMS e o Papa Francisco, passando pelos ministros do STF, os jornalistas da TV Globo e da Folha de São Paulo e a minha pessoa. Mas ainda que ataquem, esses ratos acuados são ratos acuados, e nós sabemos qual o destino os ratos acuados.

Eles são focos de transmissão de agentes infecciosos. Estão adoecendo o país, literal e metaforicamente. São responsáveis pelas mortes em decorrência da Covid-19 e pela epidemia de fake news que leva ao ódio; são culpados também por despertar o ódio em quem não quer esse sentimento para si.

Aí reside o nosso verdadeiro desafio após a pandemia. Quando sairmos do confinamento, a verdadeira doença ainda precisa ser combatida. Trata-se do mal que nos flagelou antes do ataque do novo coronavírus: o fascismo, suas mentiras e seu ódio.
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(*) Jean Wyllys é escritor, jornalista. Atualmente é professor visitante na Universidade de Harvard (EUA). Foi eleito três vezes consecutivas deputado federal pelo PSol, e renunciou a seu último mandato em função de graves ameaças de morte, exilando-se na Europa. Por três vezes recebeu o Prêmio Congresso em Foco de melhor parlamentar.

Criado em 2020-05-05 16:09:19

A beleza pública que a Comuna de Paris inventou

No ano em que se completam 150 anos da primeira república proletária da história, que teve curto período de existência – 18/3 a 18/5/1871 –, a professora de literatura comparada da New York University, Kristin Ross, lança seu mais recente livro, Luxo Comunal: O Imaginário Político da Comuna de Paris (em pré-venda pela Autonomia Literária, durante a FLIPEI 2021).

Seria a rebelião de Paris prenúncio das ocupações urbanas atuais? O livro procura tirar o foco das polêmicas entre anarquistas e marxistas para jogar luz sobre os notáveis processos de desalienação vividos pelos cidadãos comuns daquela época. Kristin Ross apresenta um estudo das ideias e aspirações que impulsionaram essa revolta histórica.

O editor da Roar, Jerome Roos, conversou com a autora do livro sobre o legado da Comuna, seu impacto no pensamento radical do século XIX e o renascimento do imaginário comunitário em nossos tempos. A entrevista foi publicada no site New Frame e traduzida por Simone Paz.

Eis a entrevista, publicada em português no site Outras Palavras:

A Comuna de Paris vem sendo estudada e discutida há quase um século e meio. De que forma o seu livro contribui para a nossa compreensão deste evento histórico mundial, e por que você decidiu escrevê-lo agora?

Kristin Ross – Como muitas pessoas depois de 2011, fiquei impressionada com a volta — de Oakland a Istambul, ou de Montreal a Madri — de uma estratégia política baseada em aproveitar os espaços, em ocupá-los, tornar públicos lugares que o Estado considerava privados. Militantes do mundo inteiro haviam resgatado, e estavam vivendo no espaço-tempo da ocupação, com todas as mudanças fundamentais que isso implica na vida cotidiana.

Eles viveram a experiência de ter seus próprios bairros transformados em teatros de operações estratégicas, e passaram por uma profunda modificação de sua própria relação afetiva com o espaço urbano.

Meus livros são sempre intervenções em situações específicas. Os acontecimentos contemporâneos me levaram a uma nova reflexão sobre a Comuna de Paris, que para muitos continua sendo uma espécie de paradigma de cidade insurgente. Decidi recontar o que aconteceu em Paris na primavera de 1871, quando artesãos e comunistas, trabalhadores e anarquistas tomaram a cidade e organizaram suas vidas de acordo com princípios de associação e federação.

Embora muito tenha se escrito sobre as manobras militares e disputas legislativas dos communards, eu queria revisitar as invenções dos insurgentes, de tal forma que alguns dos problemas e objetivos mais urgentes da atualidade pudessem emergir de maneira mais vívida. A necessidade, por exemplo, de remodelar uma conjuntura internacionalista, ou a situação da arte e dos artistas, o futuro do trabalho e da educação, a forma comunal e sua relação com a teoria e a prática ecológicas: essas eram minhas preocupações.

A Comuna de Paris sempre foi uma referência muito importante para a esquerda, mas agora a novidade é, em parte, todo o contexto político pós-1989 e o colapso do “socialismo real” — que levou para o túmulo todo um imaginário político. Em meu livro, a Comuna de Paris ressurge livre dessa historiografia e oferece uma alternativa clara ao centralismo do Estado socialista. Ao mesmo tempo, a meu ver, a Comuna nunca se encaixou facilmente no papel que a história nacional francesa tenta lhe atribuir, querendo fazer com que ela desempenhe uma espécie de sequência radical ao estabelecimento da República. Ao libertar a Comuna das duas histórias que a instrumentalizam, tive certeza de que poderíamos percebê-la novamente como um laboratório de invenção política.

Luxo Comunal não é uma história sobre a Comuna de Paris, nem um trabalho de teoria política no sentido comum do termo. Historiadores e cientistas políticos são responsáveis pela maior parte da vasta literatura gerada sobre a Comuna e, no caso destes últimos — sejam eles comunistas, anarquistas ou filósofos como Alain Badiou — isso significa abordar o evento da perspectiva de um teoria formulada. As ações dos communards tornam-se dados empíricos organizados com o fim de respaldar a teoria apresentada, como se o mundo material fosse uma espécie de manifestação local do abstrato, e não o contrário.

Para mim, isso equivale a convocar os pobres communards desde seus túmulos, só para dar certa importância e peso a uma teoria filosófica. Em vez disso, o que fiz foi mergulhar por vários anos nas narrativas produzidas pelos próprios comunnards e por alguns de seus companheiros de viagem da época. Observei com atenção não só o que fizeram, mas o que pensavam e diziam sobre o que estavam fazendo, as palavras que usaram, batalharam, importaram do passado ou de regiões distantes, e as palavras que descartaram.

Essas narrativas sobre sua luta — e temos sorte de tantos comunnards letrados terem optado por escrever alguma coisa a respeito de suas experiências — já são documentos altamente teóricos. Mas eles tendem a não ser vistos assim pelos teóricos políticos. É por isso que fiz tão pouco uso da teoria política existente sobre a Comuna e por que, no final, considero os teóricos políticos a ruína de nossa existência, na medida em que abordam instâncias de insurreição política da perspectiva de uma visão abrangente que tenta unificá-las sob um único conceito, teoria ou narrativa de progressão histórica. Não acho sensato considerar os acontecimentos históricos desde uma perspectiva onisciente, nem do ponto de vista proporcionado pelo nosso presente, farto e complacente com toda sua sabedoria de “motorista de banco traseiro”, corrigindo os erros do passado.

Eu ignorei todos os inúmeros comentários e análises da Comuna, muitos dos quais — inclusive aqueles escritos por pessoas simpáticas à memória do movimento — consistem apenas em tentar adivinhar ou listar seus erros. Tive que realizar uma grande limpeza do terreno a fim de construir a fenomenologia distinta do evento e visualizá-lo fora das múltiplas projeções colocadas nele pelos historiadores. É o acontecimento e seus excessos que nos ensinam como considerá-lo, como pensar e como falar sobre ele.

E uma vez que você presta esse tipo de atenção aos trabalhadores como pensadores — uma atenção que aprendi quando encontrei e traduzi alguns dos primeiros trabalhos de Jacques Rancière — você não consegue mais voltar a contar a história do jeito antigo. Do jeito, por exemplo, que foi contada pelas duas tradições que controlaram sua narrativa por tanto tempo: de um lado, a da historiografia oficial comunista; e do outro, a da ficção nacional francesa. Você precisa reformular e reconfigurar essas experiências passadas para torná-las significativas em seus próprios termos e torná-las visíveis para nós agora, no presente.

Ao focar nas palavras e na ação de indivíduos concretos, que agiam em conjunto para desmantelar, pouco a pouco e passo a passo, as hierarquias sociais que constituem a burocracia de um Estado, tentei pensar a Comuna historicamente — como pertencente ao passado, como morta e enterrada — e, ao mesmo tempo, como a figuração de um futuro possível. Tentei encená-la como parte de sua própria era histórica, mas de uma forma em que excedesse sua história e nos sugerisse, talvez, demandas mais profundas e duradouras pela democracia e revolução mundiais.

O livro é a minha forma de reabrir, em outras palavras, do centro de nossas lutas atuais, a possibilidade de uma historiografia diferente, que nos permita pensar e fazer política de forma diferente. A Comuna nos oferece uma alternativa diferente ao curso seguido pela modernização capitalista, por um lado; e àquele seguido pelo socialismo de Estado utilitarista, por outro. Este é um projeto que eu acho que compartilhamos cada vez entre mais pessoas e é por isso que escrevi o livro.

Ao escolher focar na vida pós-Comuna mais do que nos 72 dias de “sua própria existência de trabalho”, você consegue desenterrar as inúmeras maneiras pelas quais o imaginário político da Comuna realmente sobreviveu ao massacre e permaneceu nas lutas e no pensamento dos ex-communards e de seus contemporâneos. Qual você considera ser o legado mais importante da Comuna a esse respeito?

Eu não me dediquei tanto à “vida pós-morte” da Comuna, como à sua sobrevivência. Em um de meus livros anteriores, May’68 and Its Afterlives (Maio de 68 e Sua vida póstuma), o assunto era, de fato, como o título sugere, algo similar a um estudo de memória: como as insurreições de 1968 foram representadas e discutidas dez, vinte ou trinta anos depois. E, hoje, um trabalho muito interessante está sendo escrito pelo que alguns optam por ver como as “vidas póstumas” ou “reativações” da Comuna de Paris: estudos da Comuna de Xangai, por exemplo, ou outros aspectos da Revolução Cultural chinesa, ou estudos que enxergam os zapatistas como uma espécie de reativação de certos gestos de 1871.

No entanto, Luxo Comunal limita-se ao tempo de vida dos communards, e é centrífugo ou geográfico em seu alcance. Eu examino as ondas de choque do evento quando elas alcançam Kropotkin na Finlândia ou William Morris na Islândia, ou quando elas conduzem os tão pressionados communards exilados e refugiados para novas redes políticas de longo alcance e novos modos de vida na Suíça, Londres e em outros lugares, após o massacre que deu fim à Comuna. O extremismo e horror desse final, a Semana Sangrenta de violência estatal que levou milhares de pessoas à morte, muitas vezes se mostrou uma isca incontrolável, que tornava invisíveis as redes e caminhos de sobrevivência, reinvenção e transmissão política que surgiram nos anos imediatamente posteriores, e isso me preocupa muito na última parte do livro.

Há quase que um desejo por parte dos historiadores de reduzir todo o evento a um episódio de 72 dias que termina em tragédia. Nesse sentido, eu queria examinar o prolongamento do pensamento dos communards para além da carnificina sangrenta nas ruas de Paris, o que resultou do encontro dos exilados com seus partidários na Inglaterra e nas montanhas da Suíça. Ao fazer isso, é claro, concordo plenamente com Henri Lefebvre, que nos diz que o pensamento e a teoria de um movimento são gerados apenas após seu próprio fim. As lutas criam novas formas políticas e modos de fazer, bem como novos entendimentos teóricos dessas práticas e formas.

Em certo ponto, você poderia argumentar que são as formas assumidas por essa sobrevivência — uma “sobrevida”, ou, em francês, “survie” — que constituem o legado mais importante da Comuna: o fato de sua própria “existência de trabalho” ter se perpetuado, a recusa por parte dos sobreviventes e de seus partidários de permitir que a catástrofe do massacre acabasse com tudo.

Em um nível mais simbólico, porém, o legado que o pensamento gerado pela Comuna deixou emerge em meu livro, no conjunto de significados atribuídos ao título que escolhi: “luxo comunal”. Descobri essa frase no parágrafo final do Manifesto que Eugène Pottier, Courbet e outros artistas escreveram quando estavam se organizando durante a Comuna. Para eles, a frase expressava uma demanda por algo como a beleza pública — a ideia de que todos têm o direito de viver e trabalhar em circunstâncias agradáveis, a exigência de que a arte e a beleza não sejam reservadas ao gozo da elite, mas que sejam plenamente integradas à vida pública cotidiana.

Esta poderia parecer uma exigência meramente “decorativa” por parte de artistas e artesãos caprichosos, mas é uma exigência que de fato exige nada menos do que a reinvenção total daquilo que é considerado riqueza, do que uma sociedade valoriza. É um apelo à reinvenção da riqueza para além do valor de troca. E no trabalho de refugiados da Comuna, como Elisée Reclus e Paul Lafargue, ou de companheiros de viagem como Peter Kropotkin e William Morris, o que eu chamo de “luxo comunal” foi expandido para uma visão de sociedade humana ecologicamente viável. É impressionante ver o trabalho de Reclus, Lafargue e seus amigos, agora no centro das atenções dos teóricos ecológicos que encontram ali um nível de pensamento ambiental que morreu com aquela geração, no final do século XIX, e não foi ressuscitado até a década de 1970, com figuras como Murray Bookchin.

Todo esse trabalho é muito empolgante, mas falha ao não levar em consideração como a experiência da Comuna foi parte fundamental da perspectiva ecológica que desenvolveram. A experiência da Comuna e sua brutal repressão tornaram tal análise ainda mais difícil. Para eles, o capitalismo já era um sistema imprudente, de desperdício, que causava a degradação ecológica do planeta. As raízes da crise ecológica estavam no Estado-nação centralizado e no sistema econômico capitalista. E eles acreditavam que um problema sistêmico exige uma solução sistêmica.

Dando continuidade à pergunta anterior, você enfatiza particularmente o profundo impacto da Comuna no pensamento de Marx na época. Você poderia discutir brevemente como os eventos de 1871 ensinaram, mudaram ou aprofundaram a compreensão de Marx sobre o desenvolvimento capitalista e a transição para uma sociedade pós-capitalista?

Marx sabia tudo o que era possível saber sobre o que estava acontecendo nas ruas de Paris naquela primavera — dada a distância e um verdadeiro muro de censura, “uma Muralha da China de mentiras”, montada pelos versalheses para evitar que as informações chegassem aos franceses no campo e também aos estrangeiros. Ele olhou para a Comuna e ficou surpreso ao ver, pela primeira vez em sua vida, um exemplo vivo de vida não capitalista jamais antes escrita nos livros — o oposto do dia a dia sob o domínio do Estado. Pela primeira vez, ele viu pessoas realmente se comportando como se fossem donas de suas vidas e não escravas assalariadas.

Em Luxo Comunal, mapeio as profundas mudanças que a existência da Comuna trouxe ao pensamento de Marx e, ainda mais importante, à sua trilha: a nova atenção que ele prestou — na década seguinte à Comuna — às questões camponesas, ao mundo fora da Europa, às sociedades pré-capitalistas, e à possibilidade de múltiplos caminhos para o socialismo. Observar, pela primeira vez, como era o trabalho não-alienado realmente teve o efeito paradoxal de fortalecer a teoria de Marx e de causar uma ruptura com o próprio conceito de teoria.

Mas devo dizer que estou menos preocupada em relacionar a Comuna às trajetórias intelectuais de Marx ou à de alguns outros conhecidos que discuto no livro, do que em costurar o pensamento, as práticas e as trajetórias de contemporâneos como Kropotkin, Marx, Reclus e Morris, do sapateiro Gaillard e de outras figuras menos conhecidas, na teia relacional que o evento produziu — uma espécie de “globalização vinda de baixo”.

Com o despertar da Comuna, o imaginário socialista foi alimentado não apenas pela recente insurreição, mas por elementos que envolviam a Islândia medieval, o potencial comunista das antigas comunas rurais de camponeses russos e de outros lugares, o início do anarco-comunismo e um repensar profundo sobre a solidariedade a partir do que hoje chamaríamos de perspectiva ecológica.

Você aponta como a Comuna era realmente um projeto compartilhado, que “evaporou as divergências entre facções de esquerda”. Da mesma forma, você mesma não tem paciência para disputas sectárias que superenfatizam a divisão entre Marx e Bakunin, ou entre comunismo e anarquismo, na esteira da insurreição. O que a Comuna tinha, que permitiu que essas várias tendências encontrassem uma causa comum, e o que a esquerda deve tirar dessa experiência hoje — se é que existe esse algo?

A vida é muito curta para ficar no sectarismo. Não que o sectarismo não existisse na Comuna ou em seu caminho. Na verdade, nos anos imediatamente após a Comuna, a esquerda costuma ser vista como ferozmente dividida pela disputa entre Marx e Bakunin — uma disputa entre marxistas e anarquistas que é considerada responsável pelo fim da Primeira Internacional, e uma disputa que é frequentemente retomada hoje em dia, entre aqueles que acreditam que a exploração econômica é a raiz de todo o mal e aqueles que acreditam que é a opressão política.

O que eu escolhi fazer em meu livro foi empurrar para fora do palco o Marx e o Bakunin, esses dois velhos barbas-cinzas, cuja briga todos nós conhecemos há tanto tempo; ou, pelo menos, tentar colocá-los no canto, para entender o que mais havia para ser visto. E o que descobri foi uma grande quantidade de pessoas muito interessantes que não eram nem servilmente leais ao marxismo, nem ao anarquismo, mas que fizeram uso habilidoso de ambos os conjuntos de ideias.

Isso me parece muito semelhante à maneira como os militantes de hoje conduzem suas vidas políticas, talvez porque alguns dos tipos mais sectários de cada lado tenham saído de cena. Mesmo assim, meu livro teve sua cota de ataques sectários — por uso insuficiente da linha marxista e da linha anarquista, em quantidades quase iguais!

Muitos movimentos contemporâneos parecem remeter ao espírito da Comuna em suas próprias lutas. Você diria que estamos vivendo um renascimento do imaginário comunal, atualmente? Como você explica o retorno das estratégias políticas baseadas na ocupação e esse renovado interesse pela política do espaço urbano?

Acho que há claramente um renascimento do imaginário comunitário na atualidade, mas não concordo com você no fato de ele estar centrado na política do espaço urbano. A cidade hoje oferece aos jovens três opções: não ter trabalho, ter um trabalho mal pago ou um trabalho sem sentido.

Muitos optaram por se mudar para o campo para levar uma vida que una luta e cooperação social. Quando penso nas várias lutas da atualidade, principalmente na França, que é o contexto que conheço melhor, elas muitas vezes ocorrem no meio rural e se preocupam em defender um modo de vida considerado “arcaico” para a modernização capitalista. Os ocupantes procuram criar uma forma de autossuficiência regional que não implique recuar para um mundo fechado em si mesmo, que não se reduza a redemoinhos isolados de autorreferencialidade.

Este é um desejo que emergiu com muita força, aliás, no período que se seguiu à Comuna, e discuto longamente os muitos debates interessantes que abordaram esse assunto e ocorreram nas montanhas do Jura, na Suíça, entre refugiados e apoiadores, muito conscientes dos perigos do isolamento. Pelo que sei das ocupações comunais de territórios e terrenos na atualidade, ocupantes e Zadistas [Defensores de territórios ameaçados pelo capital, que agem frequentemente por meio de ocupações. O termo origina-se do acrônimo francês ZaD, de “Zone a deffendre”, ou “zona a defender” (Nota de Outras Palavras)] reivindicam uma certa linhagem não apenas com a Comuna de Paris, mas com lutas mais recentes, como o Larzac na década de 1970, e figuras importantes daquela época como Bernard Lambert. Afinal, foi Lambert quem subiu ao planalto de Larzac em 1973 e proclamou que “nunca mais os camponeses estarão do lado de Versalhes”, às milhares de pessoas que viajaram de toda a França e além, para apoiar os camponeses e fazendeiros locais em sua luta contra a expulsão de suas próprias terras pelo exército francês.

Quando Lambert, em seu texto clássico, Les Paysans dans la lutte des classes (Os camponeses na luta de classes), situou trabalhadores urbanos e camponeses no mesmo patamar em relação à modernidade capitalista, ele estava mobilizando exatamente a mesma estratégia retórica que um dos personagens principais de meu livro, o communard Elisée Reclus, utilizava em seu panfleto de 1899, “À mon frère, le paysan” (“Para meu irmão, o camponês”). Que por sua vez, é a mesma estratégia subjacente a um panfleto ainda anterior, dirigido (mas nunca recebido) aos franceses no campo, da parte dos communards sitiados em abril de 1871, Au Travailleur des campagnes (“Aos trabalhadores do campo”). Para citar Lambert: Paysans, travailleurs, même combat (“Camponeses, operários, a mesma luta”).

Hoje, a existência de ZADs — “zonas a defender” — e de comunas como Nôtre-Dame-des-Landes, na França; ou No-TAV [Movimento Popular contra a construção do Trem de Alta Velocidade], em Turim; de assentamentos que ocupam espaços cedidos pelo Estado a grandes infraestruturas de projetos julgados inúteis e forçados, marcam o surgimento de algo como uma vida rural distintamente alternativa e combativa. É uma vida rural que se opõe ao agronegócio, à destruição de terras agrícolas, à privatização da água e de outros recursos e à construção pelo Estado de projetos de infraestrutura em escala faraônica. Vemos aqui um verdadeiro desafio em relação ao Estado. E, ao mesmo tempo, o mundo rural é defendido como um espaço cujas realidades físicas e culturais se opõem à lógica homogeneizante do capital. Ao se recusarem a sair desse lugar, eles se colocam no centro do combate.

A meu ver, a remobilização da forma comunal hoje em dia, procura, em parte, bloquear a constituição em curso de uma rede territorial composta por centros financeiros metropolitanos privilegiados, cujo desenvolvimento tem um preço: a destruição dos laços que ligam esses centros aos seus arredores e periferias. São essas periferias, rurais ou semirrurais por natureza, que estão então destinadas a declinar numa espécie de desertificação prolongada, à medida que o capital financeiro suga cada vez mais pessoal e recursos para meios de transporte cada vez mais rápidos, e para uma escala cada vez maior de comunicação, bens e serviços nos lugares de maior riqueza.

Os militantes de hoje muitas vezes se veem lutando contra uma realidade distintamente nova e neoliberal, mas não acho que importe muito se vemos ou não o neoliberalismo como uma fase diferente do capitalismo — o mundo capitalista ao qual eles se opõem já foi substancialmente analisado por Henri Lefebvre em Production of Space (A Produção do Espaço), um livro que foi lançado, creio eu, no início dos anos 1970. Lá ele mostrou como o crescente “planejamento” do espaço sob o capitalismo era um movimento dividido em três partes: homogeneidade, fragmentação e hierarquia.

A produção da homogeneidade é garantida pela unificação de um sistema global com centros ou pontos de fortalecimento metropolitano que dominam os pontos periféricos mais fracos.

Simultaneamente, porém, o espaço se fragmenta para ser melhor instrumentalizado e apropriado: ele passa a ser dividido feito papel milimetrado em parcelas taylorizadas autônomas com diversas funções localizadas. E uma estratégia cada vez mais consciente e traiçoeira divide todas as zonas rurais e suburbanas, as cidades-satélites, formadas por pequenas e médias cidades, os subúrbios e os espaços desolados pela decomposição da vida agrária — todas essas semi-colônias à metrópole — em regiões mais ou menos favorecidas, com a maioria delas sendo destinada a um declínio controlado, supervisionado de perto e, muitas vezes, abrupto.

Assim como a Comuna de Paris, essas lutas e ocupações contemporâneas são, necessariamente, baseadas de forma local. Elas são vinculadas a um determinado espaço e, como tal, exigem uma escolha política específica. Eles compartilham todas as preocupações e aspirações específicas do local. Mas elas não são localistas nem localizadoras em seus objetivos. Os communards eram ferozmente anti-Estado e amplamente indiferentes à nação — como precisamos lembrar. Sob a Comuna, Paris queria ser uma unidade autônoma em uma federação internacional de comunas.

Nesse quesito, a Comuna antecipou todos os tipos de possibilidades em atos, de modo que mesmo os projetos que ela não poderia realizar, e que permaneceriam no nível do desejo ou da intenção, como o projeto federativo, retêm um significado profundo. Atualmente, as lutas específicas de lugares, como o Nôtre-Dame-des-Landes e o No-TAV, estão muito melhor posicionadas para alcançar o tipo de federação internacional que Paris, sob a Comuna, não teve tempo de realizar.
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Entrevista publicada em português no site Outras Palavras

Criado em 2021-03-27 22:30:59

DS defende candidatura única de esquerda no Rio de Janeiro em 2020

A coordenação estadual da Democracia Socialista/RJ, Tendência Interna do Partido dos Trabalhadores (PT), divulgou hoje, 30/1, nota pública avaliando as eleições municipais de 2020 no município do Rio de Janeiro. Nesse documento, a DS/RJ defende que o “PT impulsione uma candidatura única das esquerdas. Não existe melhor forma de ´defender o legado do partido e de Lula´ do que fortalecendo a luta contra a extrema direita, contribuindo para derrotá-la nas urnas da segunda maior cidade do país”.

Segundo a nota, o legado desse grupo “é a defesa do socialismo democrático, o combate intransigente às injustiças, o compromisso com um programa radical e universalista de promoção de direitos. A ascensão de uma direita autoritária, truculenta, ultraliberal e de inspiração fascista ameaça a nossa existência, e exige a mais ampla unidade popular e democrática”.

A DS/RJ reconhece que “o cenário de ´fragmentação´ e disputa entre antigos aliados não afeta só o campo da direita. Impactada pela vitória avassaladora de Bolsonaro e Witzel na capital em 2018, a esquerda ainda apresenta-se dispersa, sem uma plataforma explícita que combine propostas objetivas para os dramas cariocas, o que acaba configurando um cenário de candidaturas pulverizadas, onde apenas Marcelo Freixo, do PSol, tem força eleitoral real. Hoje, Freixo é a única expressão da esquerda carioca com chances reais de disputa do segundo turno".

A seguir, íntegra da nota da Democracia Socialista - DS/Rio de Janeiro:

“As eleições de 2020 ocorrerão em um cenário de crise de hegemonia na cidade do Rio de Janeiro. A gestão reacionária e incompetente de Crivela relegou a cidade ao abandono completo. Atraso no pagamento de salários dos servidores, crise nos serviços, ataques à cultura popular convivem com o crescente desemprego e aumento da desigualdade. A ameaça permanente de impeachment aumenta o poder de chantagem dos vereadores de direita, ávidos por consumir parcelas cada vez maiores do orçamento da cidade. A opção ideológica de se escorar no bolsonarismo é uma saída política para agregar alguma base social para a disputa. Esta opção, aliada à capilaridade social das estruturas religiosas que o apoiam, mantém a competitividade da sua candidatura, mas por si só é insuficiente para consolidar maioria.

Além disso, Bolsonaro e Witzel encontram-se em conflito, e esta disputa tende a refletir no pleito municipal – com a possibilidade do lançamento da candidatura de Pedro Fernandes, secretário estadual de educação. O ex-prefeito Eduardo Paes é outra candidatura competitiva no polo direito da disputa, embaralhando ainda mais o cenário.

O cenário de “fragmentação” e disputa entre antigos aliados não afeta só o campo da direita. Impactada pela vitória avassaladora de Bolsonaro e Witzel na capital em 2018, a esquerda ainda apresenta-se dispersa, sem uma plataforma explícita que combine propostas objetivas para os dramas cariocas, o que acaba configurando um cenário de candidaturas pulverizadas, onde apenas Marcelo Freixo, do PSOL, tem força eleitoral real.

A parcela de esquerda do eleitorado carioca há muito não manifesta opção partidária consolidada. Votou majoritariamente no PSol nas últimas disputas locais, e dividiu-se entre o PT e a “terceira via” (Marina em 2014, Ciro em 2018) no pleito nacional.

Nas últimas eleições, esta ausência de vínculo mais orgânico a um projeto impulsionou um comportamento de “voto útil” já no primeiro turno, embalado por pesquisas de opinião. A desidratação em 48 horas de Jandira em 2016 e o crescimento de Ciro em 2018 explicitam este quadro.

A expectativa deste eleitorado, com a ascensão da extrema direita e a eleição de Crivella, em 2016, e de Witzel e Bolsonaro, em 2018, é de uma frente orgânica da esquerda para enfrentar as forças reacionárias. Este sentimento é verbalizado não só pelas vanguardas dos movimentos sociais, mas também pelas classes mais populares, trabalhadores e trabalhadoras que tradicionalmente votam na esquerda.

Contraditoriamente ao sentimento majoritário dos segmentos sociais identificados com a esquerda, surge dentro do PT um movimento em defesa de candidatura própria. Uma defesa que combina a manifestação sincera e militante da defesa do PT com uma análise derrotista – onde a inevitabilidade da vitória da direita e a fragilidade da capilaridade social do PSol nas áreas mais pobres reforçaria uma tática eleitoral centrada em propagandear o legado do PT e de Lula para aumentar o número de vereadores petistas. Agregam-se ao movimento legítimo de parte da militância alguns elementos sectários, “ufanistas” e oportunistas, agrupando setores militantes radicalizados contra o PSol, um certo lulismo acrítico e os saudosos da frente ampla capitaneada pela direita liberal e que enxergam no retorno de Paes ao governo municipal o avanço político possível.

O desgaste do PT na cidade é um processo longo. O partido obteve desempenho muito aquém nas últimas quatro eleições municipais – em 2004 e 2008, candidaturas próprias que não chegaram a alcançar dois dígitos no percentual de votos; em 2012, desapareceu na ampla aliança que reelegeu Paes e, em 2016, apoiou a candidatura de Jandira, que não alcançou 5% dos votos.

Acreditar que uma candidatura própria irá aumentar a nossa bancada é ignorar o histórico de desempenho do partido na cidade do Rio de Janeiro, a ausência de renovação dos quadros públicos e o esgarçamento do nosso tecido social. O risco de tal opção é de migração de votos em larga escala para candidatos e candidatas que apoiam Freixo, hoje a única expressão da esquerda carioca com chances reais de disputa do segundo turno.

Ademais, a dispersão de candidaturas joga água no moinho de um segundo turno com a ausência da esquerda, relegada ao papel de comentarista de um embate entre expressões do campo ultraliberal reacionário. A ameaça de consolidação da extrema direita nesta conjuntura pede a formação de grandes frentes e blocos de esquerda para combatê-la.

Defendemos que o PT impulsione uma candidatura única das esquerdas. Não existe melhor forma de “defender o legado do partido e de Lula” do que fortalecendo a luta contra a extrema direita, contribuindo para derrotá-la nas urnas da segunda maior cidade do país. O nosso legado é a defesa do socialismo democrático, o combate intransigente às injustiças, o compromisso com um programa radical e universalista de promoção de direitos. A ascensão de uma direita autoritária, truculenta, ultraliberal e de inspiração fascista ameaça a nossa existência, e exige a mais ampla unidade popular e democrática.

Coordenação Estadual da Democracia Socialista Rio de Janeiro – Tendência Interna do PT”.

Criado em 2020-01-30 21:10:33

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