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Página 49 de 95

Secretário de Cultura anuncia gestão compartilhada para espaços culturais do DF

Romário Schettino -

O secretário de Cultura e Economia Criativa do DF, Bartolomeu Rodrigues, em entrevista exclusiva anuncia que o Espaço Cultural da 508 Sul, assim como os de Planaltina e Samambaia, terão gestão compartilhada. Edital de chamamento público está sendo elaborado para ser publicado em breve.

Bartolomeu disse também que as reformas do Teatro Nacional (a começar pela Sala Martins Penna) e o Museu de Arte de Brasília (MAB) estão no topo das prioridades para este ano.

Ao ser perguntado sobre o papel da cultura na formação da sociedade, Bartolomeu disse: “Vou tomar emprestada uma frase de Anísio Teixeira para dizer que no Brasil de hoje estamos possuídos de um desespero mudo pela ação. Tudo o que pudemos aprender, ao longo dos anos, foi rebeldia, e, sendo assim, será mais uma vez pela rebeldia que o cinema, o teatro, as artes plásticas, nos ajudarão a sair do conforto de esperar que as coisas se ajeitem. É preciso resistir pela cultura para nos identificarmos como nação”.  

A seguir, leia as principais perguntas do site brasiliarios.com e as respostas do secretário Bartolomeu Rodrigues:

O Espaço Cultural 508 Sul vinha sendo gerido por uma OSCIP. Qual o futuro da 508 Sul, agora que esse contrato terminou, ou está terminando?

Bartolomeu – O Espaço Renato Russo continuará sendo referência na produção e difusão de artes e espetáculos em Brasília. É o desejo de todos, não pode ser interrompido. O que ocorre é que o contrato de gestão compartilhada que estava em vigor com o Instituto Bem Cultural [IBC] expirou no ano passado. Fizemos um aditivo e no momento estamos preparando um novo chamamento público para ser publicado em breve. Isso não impede que o atual ocupante concorra. O mesmo deve ocorrer com outros espaços, como o de Planaltina e Samambaia. O importante é que eles continuem ativos. 

Secretário, estes dois primeiros meses de sua gestão foram marcados por encontros com os diversos movimentos culturais da cidade. A retomada do diálogo foi satisfatória e até festejada. Qual o balanço deste período? E o que mudou?

Às vezes me surpreendo quando dizem que o diálogo tem sido o diferencial ultimamente na Secretaria. Se isso não era comum, logo alguma coisa não estava funcionando bem. Para entender a complexidade, a diversidade e necessidades das pessoas que trabalham com cultura, é necessário, antes de mais nada, que elas sejam ouvidas. A cada reunião, a cada encontro, aprendo um pouco mais e não raro me espanto com tanta coisa importante que está sendo produzida, na maioria das vezes precisando de um pouco só de atenção para mostrar seu verdadeiro valor. Gostaria de ter mais tempo para essas conversas e, também, para conhecer de perto essas experiências.

Vem aí o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, edição 53. Um dos maiores desgastes do secretário anterior se deu durante a realização da edição 52. Nos últimos anos, a realização do Festival sempre esteve carimbada no Orçamento da secretaria. Em 2019, foram reservados R$ 2,4 milhões, com um aditivo de R$ 400 mil. Já estão garantidos os recursos para a realização do festival deste ano?

Ainda é um pouco cedo para falar de recursos destinados ao Festival. Por enquanto, posso apenas dizer que o Festival deste ano terá uma atenção especial, pois será o dos 60 anos de Brasília. Espero que com muito brilho e sucesso para resgatar a sua história.

O cancelamento do edital do FAC 2018 já foi efetivamente descancelado? Os projetos aprovados já estão recebendo os recursos?

Sim. No âmbito jurídico, o assunto perdeu objeto junto ao Tribunal de Contas, e a tramitação de repasse de recursos para os projetos aprovados, no momento, segue seu curso normal, dentro dos critérios e prazos previstos no edital.

Você tem dito que sua gestão será marcada por cumprir a lei como uma obrigação. Isso, claro, inclui obediência à Lei Orgânica da Cultura, a LOC, e a que instituiu o Fundo de Apoio à Cultura (FAC). Os 0,3% da receita líquida do DF, como está previsto na Lei Orgânica do DF, estão preservados?

A LOC representa não apenas uma conquista para a classe artística, como também precisa ser encarada como um avanço histórico, que torna o Distrito Federal referência em dispor de um instrumento legal que permite mecanismos efetivos para aplicação de recursos em políticas culturais. Quem percorrer a legislação, tudo aí encontrará. Ou quase tudo. Não me ocorre outra unidade da Federação com esse alcance. Talvez isso se explique diante do fato de a economia criativa no DF, hoje, ser algo tangível, representando 3,1% do Produto Interno Bruto. Não posso, diante disso, nem de longe imaginar um retrocesso na LOC. Ao contrário, na medida em que o DF se destaca em produção cultural, devemos pensar em novos avanços.

Sua gestão herdou a criação de duas fundações para cuidar do patrimônio e das artes no DF com mais agilidade. Você pensa em implementar essas fundações e colocá-las para funcionar ainda na sua gestão?

São pontos importantes previstos na LOC que precisam ser retomados para uma ampla discussão. Difícil dizer se haverá tempo, em face da necessidade de envolver agentes políticos e interesses que eventualmente entrarão em choque. Mas nada impede que iniciemos já.

Dos 11 pontos considerados fundamentais para o prosseguimento do diálogo entre governo e comunidade quais já foram estudados e considerados por sua equipe?

Todos estão sendo vistos com a mesma importância, confesso que não me preocupei em ordená-los numa escala de valores. Para mim, o documento da Frente Unificada é um manifesto que honra a luta do movimento cultural e um instrumento importante para que possamos construir, juntos, políticas duradouras nessa área. Se não quebrarem minhas mãos, farei tudo para atender à expectativa.

Qual destino pretende dar à Rádio Cultura FM, uma emissora pública do Distrito Federal?

O que a Rádio Cultura mais precisa no momento é de investimentos. É uma luta, pois se de um lado nem sempre vejo empolgação com relação ao seu papel, de outro percebo total desconhecimento de sua programação, do que faz e do que pode fazer pelo próprio governo. Mas não darei descanso. Em breve falaremos mais sobre ela.

Os espaços culturais das cidades satélites e os do Plano Piloto pedem prioridades. Quais são as suas prioridades? Teatro Nacional? Museu de Arte de Brasília? Centros culturais de Ceilândia, Samambaia, Gama?

Como já adiantei, estamos trabalhando em editais para as gestões dos centros culturais, mas não posso negar que o Teatro Nacional e o Museu de Arte de Brasília estão no momento no topo das prioridades não apenas pelos valores ali investidos, como também pelo que esses equipamentos representam para o patrimônio do Distrito Federal. As obras do MAB estão em andamento, com previsão para encerrar até o meio do ano. Se não houver contratempos, podemos imaginar a inauguração em setembro, trazendo de volta o seu rico acervo. Com relação ao Teatro Nacional, já assinamos o convênio com o Fundo de Direitos Difusos, do Ministério da Justiça, que permite um aporte de R$ 33 milhões para a Sala Martins Penna e outras áreas contíguas. Contudo, para que seja lançado o edital da obra, o projeto básico original, que já tem mais de cinco anos, precisa ser adequado, e isso consome ainda certo tempo. Estamos correndo contra o tempo, na expectativa de iniciarmos os trabalhos ainda neste semestre.

Estamos vivendo uma época em que há um empenho explícito de desacreditar uma parte da produção cultural no país. Como você vê o papel da cultura na formação da sociedade?

Vou tomar emprestada uma frase de Anísio Teixeira para dizer que no Brasil de hoje estamos possuídos de um desespero mudo pela ação. Tudo o que pudemos aprender, ao longo dos anos, foi rebeldia, e, sendo assim, será mais uma vez pela rebeldia que o cinema, o teatro, as artes plásticas, nos ajudarão a sair do conforto de esperar que as coisas se ajeitem. É preciso resistir pela cultura para nos identificarmos como nação.  

É possível tomar atitudes que devolvam confiança à classe artística em relação à administração pública? Quais?

Penso de uma maneira muito simples sobre isso: para ganhar a confiança, basta fazer o certo.

Criado em 2020-02-29 22:06:04

Beethoven, o homem e o universo

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) -

O poema de Carlos Drummond de Andrade dedicado ao “meu caro Luís” termina com o seguinte dístico:  

Boto no pickup o teu mar de música,
Nele me afogo acima das estrelas.

Se você quiser ter essa mesma sensação basta ouvir, ou melhor, entrar na Sonata 32 Opus 111. São dois movimentos. No primeiro, sombriamente furioso, patético, é como se a gente tateasse um terreno desconhecido em busca de saída. No segundo, luminoso, revelador, é como se estivéssemos sendo guiados por um longo caminho até as nuvens e de lá, finalmente, voltássemos a pisar o chão firme. Comovente!

A biógrafa Jan Swafford diz, em Beethoven, Anguish and Triumph, que “essas últimas páginas são música além das palavras, além da poesia e da filosofia, quase que além da vida terrena, mas abrangendo tudo isso”.

A Sonata 32 é uma espécie de testamento, a última peça que Beethoven compôs para o piano, seu instrumento favorito. Aqui ele se manteve fiel a uma   ideia filosófica do Iluminismo, segundo a qual o ser humano, pequena criatura natural, torna-se gigante ao contemplar o Universo com as lentes da razão.

Exatamente sobre isso, Beethoven havia anotado com diversos pontos de exclamação, em seu caderninho de anotações, a frase famosa de Immanuel Kant, retirada de sua Crítica da Razão Prática: “Duas coisas nos ocupam a mente com admiração e reverência, sempre renovadas e crescentes, quanto mais frequente e persistentemente a reflexão lida com elas: o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim”. Insistindo, com outras palavras: o indivíduo constituído pela era que a Revolução Francesa inaugurou, igual a todos os outros perante a lei, mira e mede o Cosmos, embora consciente da  sua estatura insignificante.  

Esse pensamento se desdobra, dois anos depois, na apoteótica Sinfonia Coral, a Nona, com os versos de Schiller conclamando a Humanidade a se abraçar (“Seid umschlungen, Millionen”) com a esperança de que todos os seres humanos um dia se tornem irmãos (“Alle Menschen werden Brüder”).

A trinca - Ludwig van Beethoven foi batizado no dia 17 de dezembro de 1770, quando se costuma comemorar seu aniversário. Especula-se que ele teria nascido no dia anterior, mas não há documentos para comprovar. Nessa ocasião, o futuro imperador Napoleão Bonaparte tinha um ano e quatro meses, e o futuro filósofo Georg Wilhelm Friedrich Hegel, pouco mais de três meses.

Por que essas menções? Porque esses três personagens, herdeiros da Revolução Francesa e, digamos, particulares manifestações do Espírito do Tempo, iriam provocar grandes mudanças na cultura e na geopolítica do mundo ocidental.

Quando Napoleão entrou com as suas tropas na cidade alemã de Jena no dia 13 de outubro de 1806, véspera da Batalha de Jena, Hegel estava fazendo a revisão final da Fenomenologia do Espírito, obra que viraria a filosofia alemã de cabeça pra baixo. Em carta a um amigo, o filósofo contou que viu Napoleão passar bem debaixo da sua janela. “Eu vi o Imperador – esse Espírito do Mundo – deixar a cidade para fazer o reconhecimento das tropas; de fato é uma sensação maravilhosa ver um indivíduo semelhante que, concentrado assim em um ponto, montado em seu cavalo, estende-se sobre o mundo para dominá-lo”.

Três anos antes, Beethoven já havia virado o mundo da música clássica de cabeça pra baixo com a estreia da Sinfonia nº 3 no palácio do príncipe Lobkowitz, na Boêmia, hoje República Tcheca. Com a peça, monumental, ele  inaugurou a era do Romantismo.

De início, Beethoven dedicou a obra a Bonaparte, mas depois, em maio de 1804, quando o primeiro cônsul da França se proclama imperador e passa a se chamar Napoleão, o compositor troca a dedicatória para Lobkowitz, uma manobra esperta como se veria a seguir, quando a francofobia tomou conta da Áustria depois da derrota do País na Batalha de Austerlitz (dezembro de 1805).

Beethoven havia cogitado instalar-se em Paris, de onde esperava conquistar o mundo com mais visibilidade. Acabou, porém, rendendo-se ao patrocínio dos príncipes-mecenas do Império Austro-Húngaro. Viena continuaria a ser o eixo em torno do qual girava o seu mundo, onde ele seria chamado de o “Napoleão da Música”.

Marzão - O seu vasto “mar de música” inclui, entre as obras para orquestra, nove sinfonias, cinco concertos para piano, um concerto para violino; um triplo concerto para piano, violino e violoncelo; aberturas; música para teatro, como o Egmont, de Goethe, e o balé As Criaturas de Prometeu. Entre as obras para piano, 32 sonatas, 17 quartetos de cordas; dez sonatas para violino e piano; cinco sonatas para violoncelo e piano; seis trios para violino, violoncelo e piano; conjuntos de variações (Variações Diabelli, por exemplo); e diversas obras de câmara. Entre as obras vocais, uma ópera (Fidélio); duas Missas; a Fantasia Coral; o ciclo de canções An die ferne Geliebte (Para a amada distante); 49 arranjos de canções folclóricas; três cantatas etc. E ainda tem as obras ligeiras (as Bagatelles para piano; a Sinfonia da Batalha (A Vitória de Wellington) etc etc.

Depois que se instalou o mito do semideus nos últimos dois séculos, quem é capaz de avaliar hoje, com o mínimo de racionalidade, a obra de Beethoven, “o maior de todos”? Não faltam idólatras de um lado nem detratores de outro.  São poucos porém os críticos mais objetivos que sempre se arriscarão a  “alcançar as nuvens do erro em lugar do céu da verdade”, como diria Hegel. O próprio Beethoven, que fez questão de cultivar o seu mito, certa vez disse ter atingido “tal grau de perfeição que me encontro acima de qualquer crítica".

Do seu jeitão hiperbólico característico, Theodor Adorno, filósofo, sociólogo e musicólogo da Escola de Frankfurt, também contribuiu para a canonização do nosso caro Luís. Escreveu que “em um sentido similar àquele no qual só existe a filosofia hegeliana, na história da música ocidental só existe Beethoven”.

Segundo Adorno, “A música de Beethoven (da fase intermediária, ou madura, mais ou menos até 1818, NA) é imanente como a filosofia, engendrando-se a si mesma. Também Hegel não possui nenhum conceito exterior à filosofia e é, frente ao contínuo heterogêneo, em certo sentido desprovido de conceito, ou seja, seus conceitos são explicados, como os musicais, apenas a partir de si mesmos”.

Qual é o conceito imanente da música ocidental? A tonalidade, diz Adorno. “Afinal de contas, o que é a tonalidade? Uma tentativa de submeter a música a uma lógica discursiva, a uma espécie de conceitualidade genérica. E isso de modo tal que as relações entre acordes idênticos deva significar sempre o mesmo para ela. Trata-se de uma lógica das expressões ocasionais. Toda a história da música mais recente é a tentativa de ‘preencher’ essa lógica musical extensiva: Beethoven [foi] aquele, no entanto, que desenvolveu seu próprio conteúdo a partir dela mesma, too sentido musical a partir da tonalidade”.

Daniel Pucciarelli, que escreveu uma “breve reflexão” sobre a extraordinária frase de Adorno, e de onde extraí as citações do filósofo, resume: “Beethoven teria sido … o primeiro a realizar o desiderato próprio à história da música ocidental de organização total da forma unicamente segundo princípios intramusicais”. Beethoven teria reproduzido o sentido da tonalidade a partir da liberdade subjetiva.

Adorno e a sua Filosofia da nova música sofreram críticas em confronto com os novos modelos de Stravinsky e dos “novos tonalistas” como os americanos Philip Glass e John Adams, e o russo Alfred Schnitkke, por exemplo. Mas aí já são outros quinhentos mirréis, um papo para filósofos e músicos, “coisas que nós não entende nada”, como diria o Adoniran Barbosa.

Pessoalmente, se tivesse que escolher um só e único músico, eu escolheria o Beethoven. Questão de idolatria e de temperamento. Que me desculpem as outras estrelas da constelação – o Bach, o Scarlatti, o Mozart, o Haydn, o Chopin, o Liszt, o Tchaikovski, o Debussy, o Ravel, o Manuel de Falla, o Mahler, o Shostakovich, o Villa-Lobos, o Ernesto Nazareth, a Chiquinha Gonzaga, o Pixinguinha, o Tom Jobim, o Gershwin, o Nino Rota, o Ligeti…

Criado em 2020-12-17 20:39:04

O mundo fora da raia da Teoria de Gaia

JC Peliano (*) –

O cientista James Lovelock, que se considera humildemente não mais que um inventor ou um mecânico, criador da Teoria de Gaia, previu há tempos, acertadamente, que a temperatura do mundo atingiria um clima extremo, tanto nas mínimas quanto nas máximas, e que no ano 2020 haveria alta probabilidade de ocorrerem desastres.

Não diz exatamente como previu as severas ocorrências para o mundo de desequilíbrios na natureza, mas pode-se deduzir de sua entrevista dada à revista Carta Capital da semana passada, ao afirmar que a gente só percebe o que pode estar acontecendo um tempo após quando as coisas começam a se manifestar de uma forma ou de outra. Afinal, diz ele que a Terra é um organismo vivo que sofre as consequências provocadas por seus habitantes.

Esta, em síntese, é a sua teoria, elaborada em 1979, onde o nome Gaia deriva da deusa da Terra na mitologia grega, mãe de todos os seres vivos. A hipótese basilar é que nosso planeta se trata de um organismo vivo, como qualquer um de nós, em condições adequadas para produzir a energia que o sustenta, controlando o clima e a temperatura, eliminando os detritos e enfrentando suas adversidades e doenças.

Segue daí que ela pode perfeitamente ser habitável na medida em que consegue manter a vida em funcionamento. A engenharia sideral perfeita permite que o globo terrestre gire em torno de sua grande estrela, o sol, ambos garantindo as propícias condições para a sobrevivência dos seres vivos.

Há controvérsias, no entanto, na medida em que outros cientistas discordam da hipótese, em especial porque sustentam que não somente os fatores biológicos regulam a Terra, mas também fatores geológicos, como vulcões, choques de cometas e glaciações, os quais tendem a modificar as condições de vida no planeta.

Enquanto o contra-argumento tem procedência, a hipótese Gaia não perde sua relevância, oportunidade e pertinência na medida em que o conhecimento de um organismo qualquer, assim como de um fenômeno ou evento manifesto requer ciência e tecnologia para seu entendimento. Em outras palavras, como saber de alguma coisa se não a conhecemos suficientemente bem?

Conhecemos nosso planeta a ponto de defendê-lo, corrigir as anomalias, evitar perturbações e melhorar seu funcionamento? Nossas relações com ele, seres vivos com o grande organismo vivo, são conhecidas, aprimoradas e adequadas às nossas mútuas sobrevivências? No mesmo sentido, as relações que nossa espécie mantém com os animais, plantas, micro-organismos, enfim, os demais seres vivos, são privilegiadas para a melhor compreensão e encaminhamento da vida no planeta?

Verdadeiramente não. Na contagem adotada pela civilização estamos há 2020 anos mais em conflitos, explorações e guerras entre nós mesmos do que preocupados e direcionados na construção de uma aldeia global de paz, harmonia, convívio e bem-estar. Lovelock se preocupou com isso e desenvolveu sua teoria, mas já houve outros que previram catástrofes e um futuro nefasto para a humanidade pela cobiça desenfreada, poder a qualquer custo, opressão, degradação da natureza, exploração predatória dos recursos naturais, e assim por diante.

Perdemos o sentido próprio da ecologia, desgastando as relações entre os seres vivos e natureza de forma avassaladora. A passagem do campo para a cidade levou a humanidade a aumentar de tamanho e a procurar mais e mais recursos para sua sobrevivência, ocasionando a exploração massiva, extensa e intensiva, das áreas florestais e silvestres para objetivos econômicos. Os ecossistemas se degradaram e perderam boa parte de sua vitalidade natural pela destruição de espécies animais e vegetais.

A desestabilização do equilíbrio natural entre a humanidade e o ecossistema leva inevitavelmente a presença de distorções no funcionamento dos organismos vivos e manifestações inesperadas de ocorrências imprevisíveis. Como o surgimento este ano do mortal corona-vírus que provoca a doença letal Covid-19. Florestas costumam ser reservatórios de zoonoses, logo quanto mais se explora seus recursos animados e inanimados e as destroem mais se manifestam possíveis e prováveis pandemias.

De fato, boa parte da ciência e tecnologia vem sendo usada para a exploração indiscriminada das riquezas naturais do solo e subsolo para a acumulação desenfreada do capital. Se de um lado esse processo devassa a natureza pela ânsia ilimitada de poder, domínio e lucro, de outro lado ultrapassa-se as reservas dos ecossistemas que são, por definição, limitadas. Por fim, o réquiem segue o féretro da exaustão dos recursos não renováveis.

Decorre, portanto, desse desequilíbrio entre exploração econômica predatória e ecossistemas, segundo a interpretação da hipótese Gaia, que o corona-vírus surge como um sinal da manifestação da natureza para se defender, diminuindo pela doença Covid-19 o tamanho da população.

Dessa forma, o argumento Malthusiano às avessas se aplica ajustando população e natureza ao reduzir a pressão sobre os recursos naturais.

Imperativo se torna a proteção da natureza para reforçar a proteção da humanidade. Como? Desarticular a globalização dominante que leva à padronização das ações de destruição dos recursos naturais. Ações locais são extremamente importantes como a economia solidária, a agroecologia, a agricultura familiar, moedas locais e até mesmo o escambo – a troca pela troca de bens.

O mais importante, porém, é que a difícil experiência que estamos passando pela pandemia do corona-vírus vai nos levar inexoravelmente a rediscutir ações e medidas até então adotadas nas sociedades para a produção de mercadorias e administração dos governos. Haveremos de buscar outras soluções mais adequadas à sobrevivência dos povos e regiões de forma mais digna e igualitária. A forte desigualdade social e econômica, até então escondida atrás de estatísticas e números, se mostrou terrivelmente chocante na pandemia com infectados e mortos em proporções superiores entre os pobres, desempregados e sem proteção social.

O capitalismo no estágio contemporâneo se mostrou totalmente ineficaz, desumano e desigual na regulação da economia e da sociedade em geral. Não adianta mais tapar o sol com a peneira nem maquiar números e ações para esconder o óbvio: já deu! Teremos que caminhar para uma reformulação do sistema sob pena de destruirmos a sociedade e a cada um de nós pela desesperança, privação e doenças.

Tudo o que é sólido se desmancha no ar, até mesmo por um vírus provavelmente saído de um grito de socorro da natureza, se não garantirmos nossa ciência e tecnologia contribuindo e ajudando a todos nós e aos ecossistemas a vivermos em paz, harmonia e equilíbrio! Quem viver terá chance de ver!
____________
(*) José Carlos Peliano, economista, poeta e escritor.

Criado em 2020-08-06 14:48:25

Rádio Cultura FM 100,9 do DF: Onde colaborador não vale nada

Dioclécio Luz (*) –

Produtores, jornalistas e radialistas que há anos atuam voluntariamente - sem qualquer vínculo profissional ou remuneração na Rádio Cultura FM 100,9 do Distrito Federal - foram vetados no mais recente edital do Fundo de Apoio à Cultura (FAC - BSB Multicultural 2021), na linha de Radiodifusão. O texto diz que qualquer um pode se habilitar ao FAC, menos servidores da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec) do Distrito Federal e... colaboradores da Rádio Cultura.

Os colaboradores representam mais de 91% dos programas veiculados diariamente. Ao todo, são 11 programas educativo-culturais produzidos e apresentados de forma voluntária e que contribuem para a divulgação da cena cultural do Distrito Federal. Apenas um programa da rádio não é feito a partir dos profissionais voluntários. A atuação desses profissionais corresponde a 36 horas de programação semanal, o equivalente a quase 20% da programação total da Rádio Cultura.

Se esses colaboradores saem da rádio, como parece ser o objetivo da atual gestão, a Rádio Cultura converte-se no que se entende em rádio por “caixinha de música” – uma rádio que não tem programas, mas só músicas tocando.

Em 2016 os colaboradores da rádio reivindicaram junto à Secec, uma linha de fomento para radiodifusão que contemplasse e valorizasse o trabalhado que faziam. A Secretaria foi sensibilizada e se criou um FAC que incorporava a radiodifusão no DF, incluindo os programas da rádio Cultura e as rádios comunitárias. A vitória foi resultado de uma luta coletiva dos radiodifusores que contou com apoio da diretoria da rádio na época, reconhecida como justa pelo então secretário Guilherme Reis e seus assessores. Hoje, pelo contrário, os colaboradores sabem que não podem contar com o apoio da direção atual.

Em 2020 surgiram restrições ao FAC para os colaboradores da rádio Cultura. A direção não cuidou de informar. Por motivos não claros, eles foram impedidos de concorrer ao edital do FAC, na linha Radiodifusão.

Consta no item 13.2.1 do edital, alínea h), que o colaborador voluntário vinculado à Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal não pode participar de nenhuma categoria da área de radiodifusão.  Em outras palavras: um marciano pode participar, não pode quem trabalha de graça na rádio.

Diante da importância da manutenção desses programas educativo-culturais, que tanto agregam qualidade e diversidade à programação da Rádio Cultura FM e potencializam e impulsionam a cena cultural local, os colaboradores afetados pela decisão da SECEC repudia veementemente a não contemplação no edital. A decisão não apenas fragiliza o setor cultural e artístico, como também desrespeita os profissionais de rádio e cultura que há anos se dedicam voluntariamente em favor da cultura da cidade.

É importante observar que em nenhum momento os colaboradores da Rádio Cultura foram informados que tratativas estavam sendo feitas na construção de um edital que os excluía do processo. A atual direção não teve o mínimo de hombridade e respeito com quem mantém os programas da rádio, gente que frequenta a casa há mais de 20 anos, como muitos.

Não bastasse esse desprezo na construção do FAC, a direção da emissora fez mais. Novamente em surdina, redigiu um edital especial chamando “voluntários” para produzir programas para a emissora. Os colaboradores mais uma vez não foram consultados – só ficaram sabendo desse edital pela imprensa. Por acaso, descobriram que o edital dizia respeito a eles. Sim, os produtores de programas que estavam no ar também deveriam fazer um novo cadastramento, conforme as regras desse edital. Porque a direção não lhes informou.

A história se repete: se a atual direção tivesse tido um mínimo de respeito com os colaboradores, antes teria alertado os profissionais sobre o que estava sendo feito, discutiria o edital, faria um texto adequado, encaminharia o edital depois de publicado, e informaria que todos deveriam se cadastrar. Não fez nada disso! Não telefonou, não mandou mensagem, não conversou.

Deve-se observar que a redação do edital é confusa, repleta de falhas. A mais evidente é: ele pede para que os interessados enviem uma pequena amostra do seu programa para ser avaliado por uma comissão. Ora, há onze programas no ar. Mas, conforme o edital, os colaboradores devem enviar resumos de programas no ar para mostrar à rádio como são os projetos de programas que podem ir ao ar?!

De fato, não se trata de insensatez, mas de uma visão limitada da atual gestão da emissora, corroborada pela Secretaria de Cultura do DF. Criaram a imagem de que “colaborador” ou “voluntário” não faz parte da rádio, logo não opina em nada, nem precisa saber de nada. Usando uma expressão vulgar: “voluntário” da rádio cultura é o cocô do cachorro do bandido. O desprezo e o desrespeito com quem colabora com a Rádio Cultura reflete uma visão atrasada de gestão e de relacionamento com as pessoas.

A atual gestão demonstra desconhecer a rádio e sua história; desconhece o que é o veículo rádio. Sim, a rádio Cultura já teve alguns bons gestores no passado. Eram profissionais preocupados em promover a sinergia necessária para mantê-la no ar. A atual gestão, porém, não aprendeu que o que mantém a Rádio Cultura no ar não é somente a energia, mas, principalmente, a sinergia do lugar, incluindo o trabalho de servidores efetivos e dos colaboradores; é quando 2 mais 2 resultam em 5. Mas essa matemática, já se viu, é inacessível para quem não entendeu ainda o que é uma rádio e muito menos a importância do trabalho dos voluntários.

É importante lembrar que, a partir dessa sinergia, foram os colaboradores que trouxeram para a Rádio Cultura e para Brasília a música da Legião Urbana, cantores como Cássia Eller, Chico Science e Chico César; violeiros como Zé Mulato e Cassiano; bandas como Paraibola e Chinelo de Couro, poetas como Vitor Pirralho, craques como Hamilton de Holanda, músicos eruditos locais; foram os colaboradores e seus programas que abriram as portas para os artistas mais diversos da cidade, gente do teatro, mamulengo, dança,... Tem um programa na Rádio Cultura - feito por um voluntário - que se tornou referência do rock nacional, internacional e de Brasília (“Cult 22”); tem um programa que é o espaço do choro (“Nas cordas do choro”); tem programas que são necessariamente citados por historiadores do rádio e da música (“Então foi assim?” e “Gramofone”); tem um programa que trata do que está em cartaz em Brasília (“Deguste Cultura”); tem um programa que é vitrine da boa música do Nordeste (“Canta Nordeste”), entre outros.

A população sabe disso. Mas, pelo visto a atual direção e os técnicos da Secretaria de Cultura não escutam a rádio.

É comum o colaborador da rádio ser abordado na rua e receber elogios ao programa e... à Rádio Cultura. Sim, para a população de Brasília, os colaboradores são da Rádio Cultura. A rádio é conhecida por sua programação musical e por seus programas. A direção não sabe disso? Ao que parece, não. Ela não percebeu que as pessoas que fazem esses programas estudaram, pesquisaram e se tornaram expertises em suas áreas.

Ao contrário do que pensa a Secec e a atual direção da emissora, colaboradores não são “fazedores de programas” ou voluntários achados na rua que brincam de fazer rádio, como supõem. Todos esses programas têm um nível de qualidade que qualifica a Rádio Cultura. Eles são respeitados “lá fora”, pelos ouvintes, sejam artistas, acadêmicos, ou a população em geral. Os ouvintes conhecem os que fazem esses programas. Eles são comumente convidados para debates na academia, em eventos diversos.

Por quê? Porque conhecem os temas que tratam no programa e são bons no que fazem. Quem convida não imagina que o trabalho dessa pessoa – estudioso/a ou pesquisador/a - é tratado com desprezo pela emissora.

O atual diretor nunca admitiu conversar com esses estudiosos e pesquisadores que fazem a identidade da rádio. Ao contrário, permitiu que se fizesse um FAC que os discrimina e depois redigiu um edital que os segrega, colocando-os na vala comum dos estranhos à rádio.

A Rádio Cultura tem uma histórica precariedade de recursos humanos. Hoje não seria diferente. Os servidores têm acumulado tarefas que vão além de suas funções. Mesmo antes da pandemia da Covid se estabelecer, a rádio passou por uma crise. Com poucos servidores, faltou pouco para rádio fechar. Foi graças ao empenho dos servidores - que vai além do profissional – que a Rádio Cultura não fechou.

Os colaboradores fizeram a sua parte, mantiveram os programas no ar, evitando que a emissora se tornasse uma “caixinha de música”, que é a forma mais pobre de se fazer rádio. Os programas garantiram a identidade da Rádio Cultura. Quando servidores e colaboradores atuam por um objetivo dá-se ao fato o nome de sinergia!

A atual gestão não aprendeu nada com isso. Constata-se que todo saber e profissionalismo dos que fazem programas na Rádio Cultura são desprezados. A edição do FAC-2021 e o edital chamando para ser voluntário quem já é voluntário, cristalizam esse desprezo. Será que o secretário Bartolomeu Rodrigues sabe disso?

Atualmente a Rádio Cultura mantem no ar 12 programas musicais temáticos com conteúdo e informação. Destes, 11 são programas de colaboradores: Canta Nordeste, Cult 22, Cultura Hip Hop, Cultura Vibe, Deguste Cultura, Então Foi Assim, Gramofone, República Blues (uma parceria entre o clube de Blues e a Rádio Cultura), O Fino do Samba, Nas Cordas do Choro, Violas e Violeiros. Somente um programa é feito exclusivamente por servidor da rádio: “Barracão”.

Eis os programas, em detalhes:

- Cult 22. Rock. No ar desde outubro de 1991, o programa é produzido e apresentado por Marcos Pinheiros e colaboradores. Veiculado às sextas, das 21h às 13h.
- Deguste Cultura. No ar desde 2018, é produzido e apresentado por Karina Cardoso e Mário Sartorello. Toda sexta, das 18h às 19h.
- Turminha 100,9. No ar desde 2015 (interrompido momentaneamente em decorrência da pandemia). Apresentação de Derez Marques, Lívia Maria e Tina Carvalho, com participação do grupo de teatro infantil Tumabalacatumba. [O primeiro programa infantil da Cultura FM foi Contatos de Primeiro Grau].
- Então, foi assim?. Produzido e apresentado por Ruy Godinho, é colaborador da Rádio Cultura desde 1997, como produtor do programa Estação Brasil. Então, foi assim? Revela os bastidores da criação musical brasileira. No ar desde 2010.
- Canta Nordeste. Produção e apresentação Dioclécio Luz e Cíntia Magalhães. Está no ar desde 1988 - é o programa mais antigo da emissora. Toca o Nordeste, a música que tem o DNA do Nordeste, do clássico ao contemporâneo.
- Cultura Hip Hop. Apresentado pelo pesquisador, DJ e cineasta, Chokolaty
- Cultura Vibe. Reggae, MPB, SurfMusic, Rap, Hiphop e Soul Music. Dicas culturais, curiosidades, entrevistas com artistas da cidade. No ar desde abril de 2015. Produção e apresentação: Johnny Luna e Leco Bezerra
- Gramofone. É produzido e apresentado por Luiz Ayiô. Seu objetivo é preservar a memória de músicos populares brasileiros das diferentes fases da nossa música popular. O autor entrevistou pesquisadores/historiadores da MPB como Jairo Severiano, Nirez, Renato Vivacqua, Ricardo Cravo Albin, Rodrigo Faour e Rui Godinho, entre outros.
- República Blues. Uma parceria entre o clube de Blues e a Rádio Cultura.
- O Fino do Samba. Apresentado por Cadete traz o samba em suas múltiplas versões.
- Nas Cordas do Choro. No ar desde 2010. Produção e apresentação Paulo Córdova. O programa, destinado ao gênero musical choro, é o porta-voz dessa geração brilhante de instrumentistas de Brasília que estão encantando o mundo. Seu objetivo é exaltar a música instrumental brasileira por excelência: o Chorinho, valorizando a difusão de músicos como Pixinguinha, Chiquinha Gonzaga, Jacob do bandolim, Ernesto Nazareth, Waldir Azevedo, dentre outros. Também serve como registro da nova geração de chorões, desde Hamilton de Holanda às novíssimas revelações como o cavaquinista Matheus Donato.
- Violas e Violeiros. No ar há 25 anos. Volmi Batista, o apresentador, é violeiro, faz a pesquisa, produção, catalogação e difusão da música e da cultura caipira. O programa é único em Brasília por sua temática. Toca muita música regional caipira, faz entrevistas, traz informações sobre artistas e canções, dicas de eventos, livros e álbuns, sempre relacionados ao universo da música e cultura caipira, regional e folclórica brasileira, gênero que persiste e prospera nas novas gerações de violeiros e violeiras e têm no programa o único espaço de divulgação do seu trabalho.
- Barracão. Produzido e apresentado por Daniel Miojo, toca a música afro-brasileira.
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(*) Dioclécio Luz é jornalista.

Criado em 2021-07-24 17:05:23

Os avanços da Economia Solidária no Rio de Janeiro

Clarice Manhã –

Nem a crise causada pela pandemia, nem o processo de impeachment do governador Wilson Witzel desmobilizou os militantes da Economia Solidária Fluminense. Um esforço coletivo entre artesãos, agricultores, catadores, fóruns, Frente Parlamentar e diversas instituições vem avançando com o objetivo de fazer do Rio de Janeiro um estado mais justo e inclusivo.

O presidente da Frente Parlamentar em Defesa da Economia Solidária, deputado estadual Waldeck Carneiro (PT-RJ), conseguiu aprovar duas leis que salvaguardam o direto de trabalho e renda aos empreendimentos solidários durante a quarentena.

“A pandemia escancarou a desigualdade social no Rio de Janeiro. É essencial que haja um instrumento regulamentador das leis para que virem um ato oficial”, afirmou o deputado.

Aprovada em julho deste ano, a Lei 8.945 autoriza o Governo do Estado a fazer compras públicas dos produtos da Economia Solidária, e já foi sancionada pelo chefe do Executivo. Já a Lei 8.772 autorizou o governador a usar o Fundo de Combate à Pobreza para pagar a renda mínima  aos empreendedores da EcoSol  e profissionais da Cultura, no valor de R$ 544,50 por mês enquanto durar a pandemia.. 

As leis ainda não vigoram na prática. Esta demora, que poderia desanimar quem precisa, está fazendo a mobilização se fortalecer. Para o fundador do Banco Comunitário do Preventório, de Niterói, Marcos Rodrigo Ferreira, apesar da crise política no governo gerar tantas manchetes escandalosas, incertezas e instabilidade, o grupo de militantes não desiste de conseguir espaço para as demandas da Economia Solidária. “A vida é luta. Nós somos de território de favela, da periferia. Nós sabemos persistir, porque na verdade esta é a única opção que sempre tivemos”.

O líder comunitário avalia que a aprovação das leis foi um passo muito importante, que motivou a campanha na internet para pressionar o governador. Mobilizados na recém-criada Frente de Luta da Renda Mínima, os empreendimentos solidários usam a hashtag   #EcosolRendaMinimaPagaWitzel, para cobrar a liberação do recurso.

Mais alternativas

Sem ver seu público de perto deste a proibição das feiras, no início da quarentena, a artesã Maria Jurgleide de Castro Oliveira continua ativa no Fórum de Niterói, que agora se reúne virtualmente. Lá, ela participa da criação de outras plataformas de venda online e alternativas para a sobrevivência dos empreendimentos. “O Governo do Estado do Rio não está preocupado conosco, ele agora está preocupado em defender a pele dele”, avalia.

A Coordenadora de Economia  Solidária e Comércio Justo, Angélica Hullen, destaca que apesar das leis ainda não terem saído do papel, a Secretaria de Trabalho e Renda segue articulando propostas para gerar novas oportunidades no cenário de crise. Alguns projetos em desenvolvimento antes da pandemia conseguiram avançar mesmo durante a quarentena, via encontros virtuais. É o caso do aplicativo virtual de compras com a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), organização de grupos  produtivos, criação do Cadastro Estadual de Economia Solidária, regulamentação do Selo da Economia  Solidária e assessoria técnica  para os empreendimentos.

Criado em 2020-08-15 21:13:33

A ira sagrada

Maria Lúcia Verdi -

Mircea Eliade falou do “terror da história”, a nossa impotência frente aos fatos. Neste tempo em que vivemos sinto nas veias esse conceito. Mentiras por todos os lados, uma trágica comédia de erros digna da observação política de Shakespeare. Frente a isso, reajo com um quase desesperado desejo de que se restaure alguma respeitabilidade.
 
Sem ver alguma luz, me pergunto se algo novo (limpo, revolucionário) poderia nascer de um retorno ao sagrado enquanto experiência interior. A experiência interior com o sagrado que pode alavancar mudanças, transformar-se num instrumento político, como a entendiam Michel Leiris e George Bataille, entre outros.

O individualismo tendo sido sacralizado, hoje apenas o bem-estar de cada um interessa.

Praticamente só o que se vê, se lê e se ouve parte da disseminação de egos vorazes, incapazes da reflexão silenciosa, complexa e independente, sem subordinação. Nenhuma nostalgia de um sagrado religioso, mas, sim, de uma ética.

Neste Império do profano, em que sobreviver dignamente pode ser uma luta, com a mídia que nos invade, temos de suportar tomar conhecimento do que dizem arautos da ignorância, como o patético Bolsonaro, militar cristão, que carrega em seu nome um desajeitado Messias.

Me pergunto que pode ter de mundo interior essa figura pública?

Que experiência interior poderia fazê-lo mais consciente de seu anacrônico, perigoso, surreal discurso?

Ele não tem “segredo”, seu ser é absolutamente exposto em sua ideologia. Nenhuma terra para os indígenas, nenhuma terra para os quilombolas, todos os preconceitos.

O assustador é que tantas pessoas o apoiem, que os brasileiros estejam sendo capaz de tal cegueira. Que cristão pode ser Jair Messias Bolsonaro?

Que sensibilidade pode ter para se conectar com alguma palavra que tenha a ver com a revolução que a seu tempo provocou Cristo com seus ensinamentos?

Urge encontrar uma hermenêutica que explique que tempo histórico é este do Brasil de hoje, uma linguagem que provoque a ira, a ira sagrada.

Criado em 2017-04-08 02:51:09

Frente Unificada da Cultura do DF se reúne em plenária

Romário Schettino –

A Frente Unificada da Cultura do Distrito Federal vai realizar sua primeira plenária de 2020 nesta segunda-feira, 6 de janeiro, a partir das 18h, no Teatro Goldoni (208/209 Sul).

Os organizadores do encontro consideram “muito importante que todos estejam presentes, pois se trata do futuro da produção cultural no DF”.

A Frente pretende, com essa plenária, estabelecer uma pauta para dialogar com o novo Secretário de Cultura e da Economia Criativa, Bartolomeu Rodrigues, nomeado pelo governador Ibaneis Rocha (MDB) em dezembro do ano passado.

As lideranças do movimento acreditam que a queda do Secretário Adão Cândido “foi uma vitória da mobilização em 2019”.

A lista de reivindicações é grande. A começar pelo respeito à legislação regula o Fundo de Apoio à Cultura (FAC), manutenção e criação dos espaços culturais públicos nas cidades e no Plano Piloto, reforma do Teatro Nacional, reconstrução do Museu de Artes de Brasília (MAB), criação da estrutura administrativa do Museu Nacional da República e muitos outros itens polêmicos e pessimamente administrados pelo ex-secretário Adão Cândido.

O secretário Bartolomeu Rodrigues, pelo que tem dito em suas entrevistas, está aberto ao diálogo, prometendo respeito às diferenças e avanço nas políticas de Estado para o setor cultural.

Criado em 2020-01-04 17:01:55

Versos e controversos em torno da vacina chinesa

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) -

Não sei se vocês se lembram da minha vizinha, a Dona Santina, terrivelmente católica e militante pró-vida, que tempos atrás me questionou pelo aborto equivocadamente lançado num pedido de hemograma de investigação da minha trombose (leia o mencionado artigo aqui). Pois não é de ver que ela atacou de novo ontem à noite?

Faltavam alguns minutos pras 10h e a Cristina estava na sala praticando exercícios de Lian Gong, coisa que ela faz há anos para prevenir dores na coluna.

A cena é animada. Os movimentos são feitos diante de um vídeo musicado, com o mestre entoando as instruções e contando cada gesto:

Kuò xiōng! (Levante o peito!) Yī – èr – sān – sì – wǔ – liù...

Por mal dos pecados, eu estava lendo no sofá alguns poemas do presidente Mao, que eu mesmo havia traduzido há tempos da versão em inglês de Willis Barnstone e Ching-Po Ko de The Poems of Mao Zedong (University of California Press, 2010):

No lusco-fusco verde-azul viçosos pinhos vejo
serenos sob nuvens burburinhas.
Nasceu no céu a gruta dos deuses,
vasta graça da rajada na escarpa carapinha.

Pois foi aí que a Dona Santina chegou, já furibunda assim que abrimos a porta. Ela ficou mais fula ainda quando a provoquei com um “boa noite!” em mandarim: Wǎnshàng hǎo, Dona Santina!

– Vocês comunistas são terríveis! Nem disfarçam mais, falam e cantam aos berros! - disse ela, pousando sobre a mesa uma cheirosa broa de milho que acabava de tirar do forno.

A gente riu, e eu corri pra cozinha pra fazer um chá e rebentar pipoca, lembrando as palavras rituais da minha mãe, próprias para a ocasião: “Rebenta pipoca no cu da vizinha! Rebenta pipoca no cu da Cristina! Rebenta pipoca no cu do ACQ”!

Regada a chá de jasmim (outra provocação minha!), a conversa logo descambou pra eleição do Biden (“fraudada”, evidentemente) e pra vacina contra a Covid. De novo a Dona Santina desfiou o rosário de negações da vacina “contra o vírus chinês”: “chip para controlar o cérebro dos povos do Mundo Livre”, “formatação do genoma” etc etc.

Roda Viva - Por feliz coincidência, logo ia começar o Roda Viva com a infectologista Denise Garrett, vice-presidente do Sabin Vaccine Institute nos Estados Unidos; com o presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas; e com a pneumologista Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fiocruz. Eu convidei a Dona Santina para assistir o programa, mas ela refugou. “Tudo fake news, seu Antônio! Vou perder meu tempo, não!”

Eu tratei de me afastar dela, deixando o sacrifício de fazer a sala pra Cristina. Notei, porém, que a Dona Santina de vez em quando desviava os olhos pra televisão, suntando!  O tempo foi passando e ela ali, mais corujando o Roda Viva do que falando com a Cristina.

Lá pelas tantas, a Dona Santina estatelou os olhos no doutor Dimas, que respondia a uma pergunta sobre a “vacina chinesa”. “Primeiro… não se trata de uma vacina chinesa, é brasileira, do Instituto Butantan. (…) A vacina da AstraZeneca (empresa anglo-sueca que desenvolve a vacina de Oxford) é produzida na China, a matéria-prima é produzida em Wuhan. A matéria-prima que usamos é produzida em Beijing. As duas fábricas, tanto da Sinovac como a que foi contratada pela AstraZeneca, foram inspecionadas recentemente pela nossa Anvisa. Esse é o ponto principal: o rótulo (de ‘chinesa”) foi colocado…  com finalidade política e ideológica”.

Depois a Dona Santina pregou a atenção numa fala da doutora Margareth Dalcolmo, que, voltando ao mesmo assunto, tascou: “A China é o maior produtor de insumos em biotecnologia do mundo. Se formos levar na ponta da faca, é tudo chinês!”.

Meio sem graça, a Dona Santina riu amarelo e logo tratou de inventar uma desculpa pra cair fora. Deu boa noite, a Cristina deu boa noite, e eu também, com dois acréscimos em mandarim, um “muito obrigado” (Xièxiè!), e um “volte sempre” (Bìng jīngcháng huílái)!

Caímos na risada quando a vizinha desapareceu no fundo do corredor. Terminamos de ver o Roda Viva e, antes de me preparar pra cair no sono, recitei mais um poema do presidente Mao:

A Grua Loura

É vaga e vasta a China onde rolam os nove rios.
O horizonte é a linha escura que o Norte e o Sul costura.
Neblina azul e chuva.
Como cobra ou tartaruga morros guardam o rio.
Foi-se a grua loura. Aonde?
Ficaram a torre e o lugar pros viajantes.
Ofereço vinho à corrente borbulhante – os heróis se foram.
No meu peito brota um maremoto – um encanto.

Criado em 2020-12-15 21:38:29

A República de Curitiba e a República do Galeão, tudo a ver

Vivaldo Barbosa (*) –

Tancredo Neves sempre foi considerado um dos políticos mais sábios da vida brasileira.

Em 1954 era ministro da Justiça de Getúlio Vargas, ainda jovem, escolhido pelas relações familiares com Getúlio e pela arguta inteligência que Getúlio viu nele.

Além da sabedoria, tinha firmeza, demonstrada em posições marcantes quando quis prender os generais, brigadeiros e almirantes que assinaram manifesto pedindo a renúncia de Getúlio e fechar os clubes militares e quando chamou de canalha o presidente do Congresso que declarou vaga a Presidência, mesmo com João Goulart presente no território nacional.

O golpe congressual que respaldou o golpe militar.

Mesmo com tudo isso, Tancredo deixou escapar o inquérito policial para a apuração dos acontecimentos da madrugada de 5 de agosto de 1954, na Rua Toneleros, em frente ao prédio 180, onde residia Carlos Lacerda, que resultaram na morte do Major da Aeronáutica, Rubens Vaz, para se transformar em IPM na Aeronáutica.

Surgiu, daí, a famosa República do Galeão.

Este caso foi objeto de massiva presença nos meios de comunicação, rádios, jornais e na nascente TV Tupi do Rio e de São Paulo, como “Atentado da Rua Toneleros”, “Atentado contra Lacerda”, “Atentado contra o Major Vaz”.

Baseado em trabalhos jornalísticos, em depoimentos dos implicados nos acontecimentos, nos livros escritos por historiadores e nas memórias reveladas de diversos atores da época, duas versões são dadas para os acontecimentos.

Uma, que ficou oficial, veiculada pela mídia e centro das conclusões do IPM da Aeronáutica, revela que o “atentado” foi planejado por integrantes da Guarda do Palácio do Catete, sob o comando de Gregório Fortunato, com ligação direta com o Presidente e sua família.

Outra, que os participantes estavam apenas acompanhando e investigando Carlos Lacerda e que a morte do Major Vaz foi um acidente.

Os fatos relacionados podem assim ser resumidos:

— Carlos Lacerda, jornalista de brilho no uso das palavras e com energia e agressividade próprias, desencadeava forte campanha contra o Governo Federal, em especial através de ataques ao Presidente da República, Getúlio Vargas, à sua família e aos políticos do PTB.

Escrevia em artigos em seu jornal, Tribuna da Imprensa, falava nas rádios Tupi e Globo, e em entrevistas e programas da recém inaugurada TV Tupi, em comícios, palestras e em outras manifestações.

Era candidato a Deputado Federal pela UDN nas eleições que se realizariam em outubro.

— Um grupo de cinco oficiais da Aeronáutica, arma cujo líder era o Brigadeiro Eduardo Gomes, candidato à presidência anteriormente derrotado por Getúlio Vargas, passou a dar cobertura às atividades de Carlos Lacerda como seu guarda-costas, em revezamento diário.

Acompanhavam-no em todos os lugares, inclusive transportando-o em seus carros particulares.

Dentre eles, estava Gustavo Borges, que veio a ser Secretário de Segurança do Governo Lacerda no Rio; Fontenele, famoso chefe do Detran no Governo Lacerda e o Major Rubens Vaz.

— Do outro lado, amigos e correligionários do Presidente, já incomodados, queriam tomar providências para não deixar continuar a campanha contra ele daquela maneira.

Alguns chegaram a pedir a Gregório Fortunado, Chefe da Guarda Pessoal do Presidente da República, que morava e trabalhava no Palácio do Catete, que desse um jeito no Lacerda.

Gregório havia participado da resistência à Revolução paulista de 1932, ao lado do irmão de Getúlio, Benjamim Vargas, no grupo vindo de São Borja.

Essa Guarda fora organizada para amparar o Presidente em suas aparições públicas e defendê-lo, se preciso fosse.

Foi organizada devido ao episódio da tentativa de tomada do Palácio Guanabara pelos integralistas em 1938, quando o Presidente e sua família defenderam-se com poucos outros auxiliares, até a chegada de auxílio do Exército.

— Atendendo ao pedido de Danton Jobim, político do PTB do Rio, para arranjar um emprego para uma pessoa, que viera de Minas Gerais recomendada por Juscelino Kubistchek, Gregório contratou Alcino.

Disse-lhe Gregório que precisava acompanhar os passos de Carlos Lacerda, precisava saber onde ia, o que fazia, que lugares frequentava, “fazer sindicância”.

Gregório esperava pegar Lacerda em alguma situação embaraçosa e desmoralizá-lo.

Disse a Alcino que não podia fazer isso com o pessoal da Guarda, que já era conhecido, manjado. Precisava de alguém de fora.

Alcino topou a parada, precisava ganhar dinheiro.

A ele foi dado carteira de polícia, revólver, apoio do pessoal da Guarda e pagamentos.

Alcino começou a trabalhar em final de 1953 e seguiu Lacerda em muitos lugares, inclusive cidades do interior.

A partir de certo momento, passou a ser acompanhado de Climério, à distância, este também da Guarda, igualmente de São Borja e também participante da resistência de 1932.

— Na noite do dia 4 de agosto, Alcino foi ao Colégio São José, na Tijuca, para acompanhar uma palestra de Lacerda, em sua campanha de candidato.

Quando tudo terminou, Lacerda sai. Climério sugere irem até à rua Toneleros para aguardarem Lacerda chegar e ver com quem estaria.

Telefona para o taxista que fazia ponto em frente ao Palácio do Catete e deixa recado para ele ir pegá-los.

Tudo sem planejamento, sem carro, pediram taxi, sem previsão do que fazer e sem plano de fuga.

— Lacerda sai do carro com seu filho, despede-se do major e se dirige ao seu prédio.

A rua estava deserta, havia somente “um casal se atracando”. Alcino atravessa a rua e vai para trás do carro e anota sua placa.

O motorista vem, o interpela e se atraca com ele.

Era o Major da Aeronáutica Rubens Vaz, que funcionava como segurança e motorista de Lacerda.

Na ação, Alcino saca do revólver (o Major estava desarmado), desfere dois tiros no peito do Major e o larga na calçada.

Em seu depoimento, Alcino disse que ouviu dois tiros, um teria atingido o Major pelas costas.

Lacerda, ao ouvir os disparos e ao ver a cena, saca do seu revólver e atira.

Alcino sai correndo, um guarda noturno atira contra ele, ele revida e acerta o guarda na perna, entra no táxi que o trouxe, o guarda atira no táxi e anota a placa. Lacerda foi ferido no pé.

— A outra versão aponta que Alcino atravessa a rua e chega atirando, Lacerda fala em tiroteio.

Armando Nogueira, jornalista que estava na mesma rua na hora, falou igualmente em diversos tiros vindos de toda direção.

— Lacerda e o major agonizante são levados ao Hospital Miguel Couto, onde este já chega morto.

— Armando Falcão, Deputado e presidente da CPI do jornal Última Hora, decorrente de denúncias de Lacerda, toma conhecimento do assunto, vai ao Hospital Miguel Couto, Lacerda já está com o pé engessado e o transporta em um táxi até a casa deste.

Em seu livro de Memórias, Armando Falcão disse que Lacerda estava agoniado, dizendo que possivelmente os tiros que mataram o Major teriam sido disparados por ele, pois seus óculos caíram e ele mal via as coisas.

Armando Falcão voltou ao Hospital e tranquilizou Lacerda, em seguida, pois o perito disse que os tiros não saíram de seu revólver.

— O tiro no pé de Lacerda: (i) Comentou-se muito na época que um pé atirado não poderia ser engessado; (ii) um tiro de 45, calibre do revólver de Alcino, estraçalharia o pé; (iii) a radiografia do pé do Lacerda jamais foi encontrada no Hospital Miguel Couto, nem os dados de sua entrada.

Nem na época, nem por pesquisadores, posteriormente; (iv) presente na Rua Toneleros no momento do crime, um pouco mais à frente do prédio, o jornalista Fernando Aguinaga conversava com outro jornalista, Armando Nogueira, ouviu os tiros e viu um ferido no chão, correu para prestar socorro, Lacerda chega em seguida, “caminhava normalmente”.

Depois, diz de maneira diferente na Polícia, mas retoma esta versão no Galeão.

— No inquérito na Polícia para apurar o episódio, o Delegado pediu a arma a Lacerda para periciar.

Lacerda reagiu, disse que não entregaria, pois sabia aonde o delegado queria chegar.

Uma grande campanha foi feita contra o delegado, levantando suspeições.

— Dias depois, um IPM – Inquérito Policial Militar — foi aberto na Aeronáutica, para onde foi remetido o inquérito policial.

Dias antes, o Coronel Adil, indicado pela Aeronáutica para acompanhar o Inquérito, declarara à imprensa que estava “muito bem impressionado com a seriedade com que o Governo tentava apurar os fatos”.

Mas o que se queria era que a Aeronáutica fizesse o inquérito, produzisse os depoimentos, obtivesse a versão que interessava, a qualquer custo, produzisse o relatório final.

Investigaram tudo, os implicados foram presos e lá permaneceram, relatos de torturas, Alcino disse que foi torturado com choques elétricos em suas partes íntimas por dois dias.

Foram colocados em aviões que voavam sobre a Baía da Guanabara com ameaças de lança-los lá de cima.

Ouviram o filho do Presidente, Lutero, o irmão do Presidente, Benjamim e a já viúva, D. Darcy. Cel. Adil: “O IPM investigou Getúlio a fundo”.

— Descobertos Alcino e Climério, este da Guarda do Palácio, como participantes do caso da Toneleros, não se falou mais em tiroteio, nunca se procurou por um segundo atirador, pois queriam se concentrar naquilo que poderia levar a Getúlio, no real ou no imaginário.

— O jornalista Cláudio Lacerda, sobrinho de Lacerda e com este trabalhava na Tribuna da Imprensa, afirma que, já no dia 8, o crime estava elucidado: sabia-se de Alcino (sua mulher já estava presa) e Climério; Gregório já estava preso no Catete (Getúlio determinara que não saísse do Catete).

— Os implicados permaneciam negando que tivessem planejado atentado a Lacerda e afirmavam que não queriam matá-lo e apenas o investigavam, que os tiros desferidos por Alcino foram um acidente.

Até onde aguentaram esta versão. Depois, mudaram.

— Lacerda, em seu depoimento autobiográfico ao Estado de São Paulo, afirmou que falsificou uma edição do seu jornal Tribuna da Imprensa com a manchete estampando que Benjamim Vargas, irmão de Getúlio, quem trouxera Gregório para guarda pessoal de Getúlio, havia fugido pra o Uruguai, Getúlio havia renunciado, para mostrar a Gregório que ele estava desamparado.

— O advogado de Gregório, Araújo Lima, passou a ele um bilhete aconselhando-o a confessar o plano do atentado e acusar o General Mendes de Moraes, os Deputados Danton Jobim e Euvaldo Lodi (dirigente da Confederação Nacional da Indústria) e Lutero Vargas, todos inimigos de Lacerda.

Argumentava que o Exército não permitiria processar o General e a Câmara não daria licença para processar os Deputados.

Aí obteria habeas corpus para permitir Gregório responder solto e obter pena mais branda.

O advogado de Alcino, Humberto Teles, o convenceu a não negar que estava pago para matar Lacerda (“acusação muito forte”, “bobagem negar”), pois ele levantaria a tese de coação irresistível: sua ligação com o Palácio não lhe permitia deixar de cumprir missão e nem deixar-se prender.

Poderia ganhar o júri para uma pena mais branda.

— O motorista do taxi, que entrou na história sem nada ter a ver com ela, afirmou: “No Galeão eu falava aquilo que eles queriam, o que eu falava não interessava, só interessava o que eles queriam”.

Foi condenado a onze anos de prisão.

— Em juízo, Gregório negou que tivesse mandado matar Lacerda. Recebeu indicações de que deveria dar um jeito no Lacerda, mas não matar.

Em conversa com Alcino na prisão, alegou que “estava louco, perturbado” na Aeronáutica. Com o bilhete do advogado, achou que ia se sair bem.

— Lutero Vargas disse que quando se apresentou para depor no Galeão, foi-lhe mostrado o depoimento do Gregório que afirmava ser ele o mandante e foi levado frente a Gregório e este não o reconheceu.

Anos mais tarde, Lutero vai conversar com Gregório na penitenciária e pergunta por que ele falara que Lutero foi o mandante.

Gregório afirma: “Eu não sei, não me lembro disso. Eles me doparam, me ameaçaram até de me atirar de um avião, e eu não sei o que eu declarei nesse inquérito”.

— Quando o IPM apreendeu os arquivos do Gregório, guardados no Catete, revelou-se que Gregório fazia inúmeros negócios, possuía propriedades.

Inclusive que comprara uma fazenda de Maneco Vargas, filho mais novo de Getúlio.

Vargas ficou abalado com a revelação.

Tancredo disse que a partir daí Vargas perdera todo o ânimo. Mas esses arquivos do Gregório não foram organizados para serem incorporados ao processo.

O advogado de Gregório protestou. E Sobral Pinto, advogado de acusação, observou: “… de seu arquivo não se tem mais notícia…senão parte diminuta. Dele se tiraram apenas algumas peças, poucas, que foram entregues aos jornais de oposição, que as publicaram com escândalo”.

Gregório reclamava que, quando saiu do poder em 1945, ficou na pior.

Quando retornou em 1950, seria diferente: ele iria tirar proveito.

Certamente muitos sabiam dos seus negócios.

— O brigadeiro Nero Moura, Ministro da Aeronáutica na época e quem instaurou o IPM, registrou em suas memórias: “Depois que saí do Ministério vim a saber de muitas coisas e fiquei duplamente envergonhado pelo papel desses oficiais lacerdistas, que tanto falavam da polícia, que torturava presos… Eles torturaram presos no Galeão… Mas o que se disse, na época, é que o Climério, o Alcino e o próprio Gregório foram submetidos a tortura para que confessassem. Queriam envolver a família Vargas de qualquer maneira”.

— Quando se lê o relatório do IPM, vê-se diante de pura argumentação política, ataques a Getúlio e a seu governo, nada de consistente juridicamente.

“Membros familiares do ex-Presidente da República foram envolvidos…havia entre eles um culpado confesso de ‘favorecimento pessoal’, seu irmão, o Sr. Benjamim Dornelles Vargas”. “Revelou a existência de um adiantado processo de corrupção no seio do Governo”.

A sua conclusão é a versão que prevaleceu nos meios de comunicação de maneira muito ampla e massiva: havia o plano do atentado a Carlos Lacerda, forjado pelo pessoal do Palácio do Catete.

— O Promotor que atuou no caso foi Cordeiro Guerra, depois nomeado Ministro do Supremo Tribunal Federal pelo regime militar.

— O IPM foi enviado à Justiça e os envolvidos receberam penas bem pesadas. Todos foram condenados pelo Tribunal do Júri, os jurados sempre meticulosamente escolhidos pelo sistema judiciário.

— Gregório foi morto na prisão pouco antes de ganhar liberdade. Segundo se especulou, Gregório se preparava para dar depoimento com sua versão do episódio. Climério também foi morto pouco antes de sair da prisão.

— Carlos Heitor Cony, que levanta hipóteses diferentes da versão oficial, indaga, mesmo dentro da versão oficial: o objetivo era mesmo matar Lacerda ou matar o seu guarda costa, pois já se sabia que era um oficial da Aeronáutica? Por que esperar Lacerda se afastar em direção ao seu prédio? Por que atirar primeiro no Major?

Tancredo Neves, um dos mais sábios da política brasileira de todos os tempos, deixou escapar o inquérito policial para se transformar no IPM na Aeronáutica, que deu respaldo a tudo o que aconteceu posteriormente e levou ao suicídio do Presidente Getúlio Vargas.

O crime não ocorreu em instalações militares, o oficial não estava em serviço, não estava fardado, por que IPM? Não havia crime militar.

Tanto que o crime foi julgado pela justiça comum, não pela Justiça Militar.

Tancredo, quando viu o Brigadeiro Eduardo Gomes, candidato derrotado por Getúlio, principal figura da oposição, reunido com os encarregados da investigação já nos primeiros momentos, afirma: “Aí eu senti que realmente a conspiração estava montada”.

Se havia um plano para matar Carlos Lacerda, este foi muito tosco, mal preparado, nem carro tinha para a fuga, chamaram um táxi, e logo um táxi que fazia ponto no Palácio do Catete.

Ou foi tosco demais, ou muito bem preparado.

Se Alcino foi contratado para matar Lacerda, por que esperou de fins de 1953 até agosto de 1954?

No depoimento, Alcino disse que ficou ao lado de Lacerda em muitas ocasiões, inclusive uma em Nova Iguaçu em que as luzes se apagaram.

Por que Climério decidiu ir para a rua Toneleros, se já haviam feito o serviço de acompanhar a palestra de Lacerda no Colégio São José, e chamou o táxi?

A oposição a Getúlio vinha forte desde 1952, segundo revela Lira Neto, especialmente na mídia, após Vargas ter assinado o Decreto de limitação da remessa de lucros.

O episódio da Toneleros deu à oposição um cadáver precioso: um oficial das Forças Armadas.

Embora a morte de um oficial em circunstâncias no mínimo esquisitas: ele estava funcionando como guarda costas do principal ativista da oposição.

As Forças Armadas são para atuar na defesa das instituições, dentre elas, a Presidência da República.

José Augusto Ribeiro revela que Tancredo Neves lhe observou: “Em 5 de agosto, a crise deixou de ser uma crise política e passou a ser uma crise militar. Aí realmente nós encontramos algumas semelhanças com todos os projetos que a CIA adotou na América do Sul em face de governos que ela desejava combater”.

Tancredo compara com a situação no Chile, 20 anos depois: os americanos deixaram de comprar o cobre no Chile e a inflação chegou a 240%; aqui, deixaram de comprar nosso café a partir de julho e exigiram pagamento de dívidas e juros em dólar, rechaçado por Oswaldo Aranha.

O prato estava feito: sabia-se que oficiais da Aeronáutica davam cobertura a Lacerda, ao seu lado.

Quem os levou a fazer isto? Sabia-se, em decorrência, que do encontro entre o pessoal do Palácio, que investigava Lacerda, ou na versão de que estava a fim de matá-lo, certamente algo aconteceria com o oficial guarda costa.

A oposição a Vargas, a visível e a invisível, certamente sabia que Gregório fazia negócios para se enriquecer.

Pegá-lo em uma situação destas, em confronto com oficiais da Aeronáutica, seria o melhor dos mundos para desgastar Getúlio e diversas pessoas mais chegadas a ele.

A República do Galeão, formada em torno do IPM, tornou-se em instância de poder superior ao Judiciário, ao Congresso Nacional e à Presidência da República (Coronel Adil: “O IPM investigou Getúlio a fundo”). Por que e como isso aconteceu?

A resposta poderá estar naquele imenso prédio em Maryland, ao lado de Washington, onde se encontra a CIA.

E a República de Curitiba?

— O famoso triplex fica em Guarujá; o sítio de Atibaia fica em São Paulo; Lula mora em são Bernardo; a Petrobras é do Rio, seus diretores e os dirigentes que foram investigados ficavam no Rio; políticos acusados, Deputados e Senadores, ficavam em Brasília; as empreiteiras ficam no Rio, São Paulo ou Salvador.

Como os processos deles todos foram parar em Curitiba, na jurisdição do Moro? Ali formou-se um juízo universal, onde iam parar todos os processos.

— Talvez a resposta esteja no mesmo lugar da indagação sobre a República do Galeão.

— Moro teve contato com o doleiro Youssef no processo do Banestado (Banco do Estado do Paraná), que envolvia a investigação de remessas ilegais para o exterior via as chamadas contas CC-5 e outras ilegalidades.

Remetia-se o dinheiro para a filial do Banestado em Nova York e dela para banco em paraísos fiscais.

A pista desses fatos foi descoberta na chamada CPI dos Precatórios na Câmara dos Deputados.

Em seguida veio a CPI sobre a questão do Banestado e o relator, Deputado Mentor, do PT, apresentou parecer inocentando e arquivando a CPI. Implicava um conjunto de políticos, descobriu-se uma conta denominada Tucano.

O Delegado que investigava foi substituído pelo Ministro da Justiça (M. T. Bastos) e a orientação passou a ser investigar os fatos internos, nada das operações no exterior. E o Moro absolveu Youssef mediante delação.

Moro adquiriu créditos com Youssef.

Depois, obteve dele pistas para investigar a Petrobras e fazer surgir a Lava Jato.

— Acordo de cooperação entre o Brasil e o Departamento de Justiça americano foi firmado no Governo FHC, sem participação do Itamaraty, fora da diplomacia.

O representante do Estado brasileiro foi o Ministro da Justiça.

Posteriormente, o Ministro da Justiça (José Eduardo Cardoso) transferiu sua competência para o Procurador Geral da República, que passou a lidar diretamente com as autoridades americanas.

Mais adiante, Janot transferiu as responsabilidades para a Força Tarefa de Curitiba.

Os procuradores americanos sempre procuraram alardear o trabalho de cooperação com os brasileiros e de outros países.

Os americanos sempre trabalharam juntos com os organismos de informação americanos (CIA e outros).

— As revelações da Vazajato mostraram as relações e os contatos diretos entre procuradores brasileiros e os americanos do Departamento de Justiça e o juiz Moro.

— Em reação à derrubada das Torres Gêmeas, os Estados Unidos aprovaram legislação restritiva de direitos e com poderes investigativos às autoridades policiais e judiciárias semelhantes ao AI-5.

Passou-se a investigar estrangeiros – bastava passar dinheiro por banco nos EUA ou praticar atos que prejudiquem cidadão americano. E procuraram fazer convênios com outros países para operarem em conjunto nas questões de terrorismo e corrupção.

A velha corrupção.

Foi estabelecida a Convenção Antissuborno com a OCDE, diversos países seguiram e o Brasil idem.

A troca de informações era a essência dos convênios de cooperação.

— Os Estados Unidos já haviam vivenciado os casos da Lockheed, empresa de armamentos, e da Enron, ambas envolvidas em corrupção de governantes estrangeiros e oficiais americanos em casos rumorosos.

E havia também o caso do senador mais antigo, Ted Stevens, condenado por corrupção: seu amigo dono de empresa de petróleo o ajudou a reformar sua cabana em zona florestal.

Os investigadores e procuradores ficaram célebres por atuar de maneira dura nos três casos. Ficou provado posteriormente que os procuradores sonegaram documentos, ocultaram provas e testemunhas.

O Senador foi absolvido, os procuradores foram processados e pediram desculpas.

— Esses procuradores duros trabalharam em cooperação com outros de diversos países, incluindo o Brasil.

— Os Estados Unidos criaram a lei para investigar atos de corrupção no exterior: (FCPA-Lei das Práticas de Corrupção no Exterior), aplicada pelo Departamento de Justiça no campo criminal e pela SEC no âmbito de mercado de capitais.

E outra lei (SOX) obrigava a empresas com ações nos Estados Unidos criar mecanismos de controle interno para verificar casos de corrupção e lavagem de dinheiro em conexão com o terrorismo.

A questão da corrupção e do terrorismo possibilitou aos Estados Unidos atuar em âmbito global.

— Foi criado o Setor de Integridade Pública do Departamento de Justiça, com dezenas de procuradores encarregados de investigar autoridades públicas.

Atuaram desde o caso Enron até a Petrobras. Desenvolveram práticas não das tradições legais e usaram a mídia para intimidar autoridades e envolver a população, adotadas mais tarde na Lava Jato.

— Foi criado, ainda, o DHS, Departamento de Segurança Interna, que reunia e passou a coordenar todos os órgãos de inteligência e investigação (CIA e outros) de forma centralizada.

Este DHS passou a abastecer o Departamento de Justiça e a receber informações.

Agia sem seguir regras ou práticas internacionais, ou respeito à soberania dos demais países, pois os Estados Unidos estavam acima de tudo.

— O Sub-Procurador Geral Kenneth Blanco esteve no Brasil reunido com Janot e disse publicamente que os procuradores brasileiros estavam em contato com os procuradores americanos diretamente, sem intermediação de nenhuma autoridade.

Proclamou que não era coincidência os procuradores brasileiros terem feito a denúncia contra o Presidente Lula: era reflexo do trabalho de cooperação.

Muito menos, deixou claro, a sentença posterior de condenação, homologada pelos desembargadores.

— Ao lado de tudo isso, bilionários americanos, conservadores, direitistas, passaram a financiar fundações, institutos e órgãos de formação de diversos militantes mundo afora, inclusive brasileiros, bancaram movimentos internos e manifestações que pipocaram no Brasil e em outros países, contra governos e políticas de esquerda e nacionalistas.

— A descoberta das imensas reservas do Pré-Sal, ao sul dos Estados Unidos, bem mais próximo do que o petróleo do Oriente Médio, despertaram nos americanos interesse por informações e pela atuação da Petrobras.

Tudo isso nas mãos da Petrobras causaram, evidentemente, preocupação.

A concessão que o Governo fez da partilha não satisfez, pois a Petrobras ficava como operadora única, o que transformaria as demais petroleiras em meras aplicadoras de recursos, mesmo ganhando os leilões.

Forneceram informações que seus órgãos de segurança captavam e receberam informações que desejavam sobre a Petrobras.

— Houve um seminário, em 2009, no Rio, promovido pela AJUFE – Associação dos Juízes Federais e patrocinado pelo Departamento de Justiça americano, com participação de juízes, procuradores, promotores, policiais de todos os Estados e de países latino-americanos.

Com foco no combate a crimes financeiros (leia-se corrupção) e terrorismo.

O principal palestrante foi o juiz Sergio Moro, pela atuação na questão do Banestado em conexão com os americanos.

Discutiu-se técnicas de preparação de testemunhas, treinamento especial sobre coleta de provas, modelo de força tarefa proativa, colaboração entre procuradores e forças de segurança, saindo-se do campo estritamente penal para considerações geopolíticas.

Discutiu-se como haver melhor entrosamento e colaboração com os Estados Unidos e mudanças no sistema judicial penal brasileiro.

Como a questão da lavagem de dinheiro já era competência da justiça federal, tornava-se necessário fornecer treinamento prático a juízes, promotores e policiais com relação a “financiamento ilícito de condutas criminosas.”

Para intensificar a cooperação, ocorreram diversos seminários e conferências nos Estados Unidos com participação dos procuradores de Curitiba e de Moro.

Foi sugerido criar-se um projeto piloto para avançar na cooperação em Curitiba, no Rio de Janeiro ou em Campo Grande.

Em Curitiba havia os procuradores e policiais já experimentados na operação Banestado e o juiz Moro.

O Rio era a sede da Petrobras e talvez não conseguissem puxar as investigações para Curitiba.

Optou-se por Curitiba para aproximar mais os procuradores, policiais e o juiz para contatos mais estreitos com os americanos.

A força tarefa seria formada com base em investigação real até conclusão no tribunal.

“Daria aos brasileiros experiência real de trabalho em uma força tarefa proativa de longo prazo e permitiria o acesso a especialistas dos EUA para orientação e apoio contínuos.”

— Nos anos seguintes, os americanos (DoJ, DHS, CIA) forneceram os dados e elementos que já tinham em mãos e que permitiram deitar a mão na Petrobras a partir de Curitiba, com esse pessoal treinado e diretamente ligado aos americanos, para fazer as investigações e abrir os processos que normalmente seriam feitos no Rio, São Paulo, Brasília ou Salvador.

Daí surgem os atos espetaculosos, a mídia voltada toda para o que acontecia em Curitiba, fabrica-se heróis, busca-se o poder, influencia-se e interfere-se na história do País.

A política sofre grande impacto, não pelos políticos, mas por agentes judiciários.

— As revelações do material de Snowden comprovaram espionagem na Presidente do Brasil e na Petrobras. A Presidente Dilma chegou a cancelar viagem oficial aos Estados Unidos em protesto.

— Dallagnol recrutou de maneira bem selecionada os procuradores para formarem a Força Tarefa da operação Lava Jato, a partir dos que fizeram parte da operação Banestado.

A Polícia Federal igualmente recrutou um conjunto de delegados e investigadores adredemente selecionados para atuarem junto aos procuradores.

Não o Delegado que queria investigar as contas [do Banestado] em Nova York.

Todos procuradores e policiais tinham forte definição ideológica e algo religiosa.

— Uma Turma de três Desembargadores Federais foi organizada no Tribunal Federal de Porto Alegre, formada através de remoções, promoções, transferências, para julgar todos os processos da República de Curitiba.

Isto é, homologar, dar respaldo a tudo o que fosse feito em Curitiba.

Alguns de Curitiba, todos ligados a Moro.

O Presidente do Tribunal, Desembargador Thompson Flores, sobrinho neto do Ministro do Supremo de mesmo nome, nomeado pelo regime militar, disse que a sentença de Moro era muito boa, não deveria ser modificada, embora não a tivesse lido. E estabelecem conexão com a Receita Federal.

— A República de Curitiba estava criada. Tudo feito, preparado nas barbas do Ministério da Justiça.

Inclusive com relações internacionais diretas com os EUA.

Depois, com autoridades suíças.

— A Delação Premiada foi criada na lei anticorrupção, em 2013, em resposta às manifestações de rua, numerosas naquele ano.

Esta prática do sistema judicial americano sempre foi lembrada, mas nunca adotada no Brasil com medo de não ser bem praticada pelo nosso sistema judiciário.

Foi criada a Delação sem maiores preocupações de estabelecer regras, condições, limites.

Os promotores americanos procuraram influenciar de maneira forte a criação da delação – fundamental nas investigações que tinham em mente.

O juiz Moro e os procuradores trabalharam fortemente por sua aprovação.

A polícia, os procuradores e o juiz trabalharam livremente na obtenção das delações e as usaram como quiseram.

Sabe-se que muitas delações foram obtidas a fórceps, muito adequadas à condução da Lava Jato e muito convenientes aos réus.

O negociado sobre o legislado: delações prevalecem sobre lei penal.

— A Lei da Ficha Limpa e a decisão do Supremo permitindo a prisão em Segunda Instância daria o suporte jurídico necessário para retirar Lula da disputa eleitoral e até prendê-lo.

— As revelações do Intercept noticiaram entrosamento com procuradores suíços, já os de Curitiba possuídos do poder de representar o Estado brasileiro.

Ao revelar os diálogos entre Moro e os Procuradores e entre estes, mostraram o trabalho conjunto dos procuradores e Moro. E também da Polícia Federal.

Evidenciaram uma série de ilegalidades e a existência de um plano arquitetado para transformar a Lava Jato em instrumento de ação política.

— As informações já abastecidas pelos americanos e depois pelos suíços possibilitaram aos procuradores obter dos implicados ou testemunhas as declarações de acordo com o plano estabelecido.

— Diversas ilegalidades foram praticadas, dentre elas:

Moro indicou testemunhas para serem ouvidas pela Polícia Federal e Procuradores e quem não deveria ser; sugeriu avanços e recuos na investigação e festejou diversas ações dos procuradores; Moro e os procuradores omitiram documentos que poderiam levar processos para o STF.

Nunca esconderam os reais objetivos que perseguiam, como nesta palestra de um procurador (Carlos Fernando dos Santos Lima): “[…] O que a Lava Jato investiga de fato, por meio de investigações secundárias, não é a corrupção na Petrobras, não é a ação corruptora de empreiteiras, não são casos de lavagem de dinheiro: são os governos do PT” .

Assim como manifestação de um delegado participante das investigações (Igor Romário de Paulo): … “da Operação Lava Jato, Operação que se mostrou algoz ao governo e ao Partido dos Trabalhadores”.

Usaram e abusaram de prisões preventivas no sentido de obter confissões e aplicaram sentenças pesadas, acima do razoável para obter delações premiadas.

O Procurador da República Eugênio Aragão observou: “O objetivo de toda a operação era tirar Dilma do poder. Tirar o PT do poder. Não tenho dúvida nenhuma disso”.

“É curioso, porque a medida que você coloca as pessoas suspeitas em custódia e deixa elas mofarem lá dentro para abrir a boca, elas acabam entregando até a mãe. Principalmente se essa pressão é acompanhada também pela destruição da reputação da pessoa pela imprensa e pressões em cima da família, então não tem ninguém que resista. As pessoas começaram a “cantar”, como se dizia na linguagem da ditadura militar, começaram a “cantar” como se estivesse em um pau de arara”.

Moro, os procuradores e a Polícia articularam a condução coercitiva de Lula pela Polícia Federal até o Aeroporto de Congonhas, local público e ostensivo.

E fizeram busca e apreensão em sua casa de forma abusiva e afrontosa.

Revelou-se que o plano era colocar Lula no avião da Polícia Federal e levá-lo preso para Curitiba.

A Presidente Dilma teria ordenado à Aeronáutica não permitir o avião sair.

— Moro tornou pública conversa da Presidente Dilma com Lula, violando sigilo da Presidente da República de forma ilegal. Isto levou Gilmar Mendes logo, logo a proibir a nomeação de Lula como Ministro da Dilma.

Naquele tempo, ele só atacava o PT e Lula, antes de tucanos e o Temer e sua gente serem envolvidos nos processos.

— A decisão do Supremo que mudou a postura anterior e possibilitou a prisão por decisão de segunda instância apenas permitiu que, em casos de necessidade devido à periculosidade do réu e outras circunstâncias, os tribunais pudessem determinar a prisão como medida protetora da ordem pública.

O Tribunal de Porto Alegre, inteiramente dentro do projeto político da República de Curitiba, determinou de imediato a prisão de Lula, efetuada com muito gosto por Moro.

— A mídia nacional, de todas as formas e por todos os meios, procurou fazer de Moro herói, justiceiro, com prisões de poderosos, gente de dinheiro e poder.

Tudo de forma espetacular (sempre o japonês) para influenciar o imaginário popular e justificar que algumas ilegalidades poderiam e deveriam ser praticadas.

Tudo em nome da justiça.

Ou melhor: do combate à corrupção.

Moro e os procuradores vazavam para a imprensa dados das investigações de maneira seletiva para valorizar e projetar a Lava Jato.

Uma relação muito especial.

— Até o Exército participou. Seu comandante, o General Villas Boas, solta mensagem nas redes sociais, nas vésperas de decisão do Supremo sobre habeas corpus para Lula, antes das eleições, afirmando que o Exército “estava atento às suas atribuições institucionais” e repudiava “impunidades”.

O Supremo se subjugou e não concedeu o habeas corpus.

Bolsonaro, já presidente, disse que ele e Villas Boas tiveram conversas que não poderiam ser reveladas – levariam para o túmulo.

— A Petrobras sofreu graves prejuízos: dos seus funcionários envolvidos em atos de corrupção (sobrepreços) e nas multas aplicadas pelo Departamento de Justiça americano e pela SEC, que investiga más práticas de empresas com ações em bolsa, caso da Petrobras, que passou a ter suas ações negociadas na Bolsa de Nova York, e pela ação judicial de acionistas americanos.

A Petrobras foi vítima, mas para os americanos foi considerada responsável.

Fez acordo de US$ 3 bilhões na ação, sem sentença, de maneira irresponsável, por sua direção.

A multa do Departamento de Justiça foi de US$ 853 milhões.

Deste valor foram retornados à Petrobras R$ 2,5 bilhões, a serem destinados à força tarefa de Curitiba para uso dela e de organizações que escolhesse. Mas o Supremo anulou tal mutreta.

A Petrobras recebeu de volta R$ 4 bilhões dos esquemas de corrupção e pagou aos Estados Unidos, R$ 16 bilhões.

Em nenhum momento a Petrobras foi defendida pelo Governo brasileiro, que poderia invocar sua condição de empresa estratégica para o País, prevista no acordo de cooperação, e não ser investigada.

— A Embraer foi também multada por atos de corrupção que teriam sido praticados na República Dominicana. O Departamento de Justiça puxou o caso para os Estados Unidos e lá aplicou a multa.

— Após visita dos procuradores de Curitiba aos americanos e ao escritório de apoio às autoridades atômicas dos Estados unidos, surgiu o processo contra a Eletronuclear e a prisão do Almirante Othon, criador do projeto do submarino nuclear brasileiro.

— As revelações recentes da presença do FBI nas investigações e processos de Curitiba demonstram com mais clareza ainda a natureza da República que ali se formou.

A República de Curitiba, em torno dos processos da Lava Jato, do juiz Moro, dos procuradores, dos desembargadores do Tribunal de Porto Alegre, com todo apoio e cobertura da mídia, formou uma instância de poder superior a todas as demais instâncias dos poderes constituídos.

O Promotor que atuou na República do Galeão, os oficiais que atuaram no IPM e a Justiça deram respaldo ao propósito político que foi delineado.

Os Procuradores de Curitiba, os Delegados, o juiz e os Desembargadores de Porto Alegre igualmente atuaram com propósito político bem nítido.

O Superior Tribunal de Justiça e o Supremo, com os Ministros nomeados por Lula e Dilma, deram cobertura a tudo que foi feito. Até agora.

A República do Galeão tinha o propósito de afastar o Presidente Vargas, diminuir sua autoridade política e impedir que ele pudesse fazer o seu sucessor nas eleições do ano seguinte.

A República de Curitiba teve o propósito de afastar Lula das eleições – chegaram ao ponto de prendê-lo – para alguém do conservadorismo e do entreguismo ser eleito. Deu Bolsonaro.

Conseguiram.

O tiro no peito do Presidente Vargas reverteu o quadro político, Juscelino e Jango foram eleitos no ano seguinte e seguraram até o golpe de 1964.

A resistência de Lula e de muitos brasileiros a tudo que foi armado na República de Curitiba está mudando o quadro político.
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(*) Vivaldo Barbosa é advogado, ex-deputado federal Pelo PDT-RJ e participou da Assembleia Constituinte de 1988. Este artigo foi publicado originalmente no site Viomundo.

Criado em 2020-07-31 23:55:47

O mistério de João: a flauta doce de Portinari

Luciana Gifoni (*) –

Dentre a imensa produção do artista Candido Portinari (1903-1962), com mais de cinco mil obras catalogadas, meu olhar de flautista e pesquisadora se fixou numa obra em particular: o retrato que o artista fez de seu filho João Candido, aos 4 anos de idade, vestido de arlequim e soprando uma flauta doce. A compreensão da flauta doce representada por Portinari tem sido uma exploração instigante, alimentada de pequenas descobertas, de muitas perguntas e uma boa dose de desafios. 

A tela a óleo Retrato de João Cândido foi pintada em 1943, no Rio de Janeiro. Desse período, não se conhece quase nada a respeito da prática da flauta doce no Brasil. Pouco se sabe, inclusive, da simples presença de instrumentos pertencentes a acervos familiares, ainda que não fossem tocados. Mas, embora não se tenha documentação disponível até o momento, é bem possível que houvesse, sim. A tese de Patrícia Michelini, A flauta doce no Brasil: da chegada dos jesuítas à década de 1970 (ECA/USP, 2017), aponta que os imigrantes alemães, dentre os quais músicos e professores, foram pioneiros em trazer o instrumento a partir do século XX, possivelmente entre os anos 1920 até 1950. Contudo, as atividades de performance e ensino de que se tem registros, em vários estados brasileiros, datam somente a partir da década de 1950. Esse é o cenário pelo qual emerge o mistério, ainda de portas bem fechadas para qualquer elucidação. Porém, há janelas, a começar pelo exame da própria obra.

A despeito de saber que o retratado era filho do artista, observemos a atmosfera de afeto e lirismo que permeia a imagem do menino. “Iluminado” a partir de um fundo escuro, ele tem a franja do cabelo muito lisa e bem penteada para o lado esquerdo, mas levemente bagunçada ao lado direito. Seus olhos bem abertos com cílios expressivos como os de um boneco, a ausência da representação de um nariz, sua orelha que acompanha o rosto discretamente virado para o lado esquerdo: tudo nos direciona a ouvir o som da flauta que ele sopra de uma forma lúdica e brincante. Não está a tocar propriamente uma música, pois não faz nenhum dedilhado, apenas segura a flauta doce, da maneira dedicada com que as crianças seguram seus brinquedos preferidos, usando as duas mãos, quase abraçando o instrumento. Fantasiado graciosamente de arlequim, seu traje carnavalesco e seu penteado ressaltam o zelo e o carinho que recebe. Com as pernas afastadas, sua postura alude ao que se chama na prática musical de “repouso ativo”, de quem experimenta o som e o toque do instrumento. Seus olhos “escutam” o som e parecem pedir a aprovação de alguém que se encontra fora da tela, no mesmo local.

Pela cor e pelo tamanho da flauta, trata-se um modelo soprano de madeira. O tubo tem um formato cônico, com o bocal estreitado e o pé bem alargado, mais próximo do modelo de flauta doce renascentista. Contudo, na cabeça da flauta, não há a janela de ar nem uma delimitação específica para o início do corpo, pois os furos já surgem logo abaixo do bocal. Não me arrisco a especular acerca do tipo de madeira ou do diapasão.

Caso tenha sido puramente elemento de criação do autor, a escolha da flauta doce para estabelecer um vínculo simbólico com a infância instiga, inclusive na perspectiva interna mais ampla do seu conjunto artístico. Entre o nascimento de seu filho, em 1939, até o ano de 1943, Portinari havia feito doze retratos de João Candido: seis deles quando era recém-nascido até 1 ano de idade; outros seis quando ele tinha de 2 a 4 anos. Desta segunda metade, em todas as pinturas, a criança está com a fantasia de arlequim, acompanhada de objetos que sedimentam uma simbologia infantil, como cavalo, pipa, balão e bola, por exemplo. As outras cinco obras possuem fundo mais claro com formas sinuosas e irregulares, e as cores predominantes são tons brancos, vermelhos e azuis.  Por sua vez, o retrato com a flauta doce é o único com o fundo escuro e homogêneo, sobressaindo-se os tons terrosos, verdes e ocres nas cores da composição.

Outra curiosa diferença é a ausência do nariz, enquanto nos outros cinco retratos ele está representado. Quanto à recorrência do arlequim, não se pode deixar de notar um diálogo com Pablo Picasso, em sua chamada fase rosa, especialmente no retrato que ele fez também de seu próprio filho. Picasso possuía uma verdadeira fixação na figura do arlequim.

Retratos de João Candido em 1941.
Fonte: acervo Projeto Portinari

Retratos de João Candido em 1942 e em 1943
Fonte: acervo Projeto Portinari

Por outro lado, numa perspectiva histórica do uso da flauta doce na educação musical, é curioso que Portinari tivesse escolhido essa imagem como objeto simbólico associado à infância no Rio de Janeiro de 1943. O levantamento da pesquisa citada, de Michelini, aponta que as primeiras iniciativas de aplicação da flauta doce na musicalização infantil ocorreram a partir da década de 1950 em vários estados brasileiros. Data deste período também o desenvolvimento do método Orff, que defendia o uso da flauta doce e foi amplamente acolhido pelos educadores brasileiros. Além disso, não havia lojas onde adquirir esses instrumentos, nem fabricantes, estava tudo no início. Ao contrário, na década de 1930, a popularidade da flauta doce estava bem consolidada na Alemanha, com a presença de fábricas, lojas especializadas, repertório e materiais pedagógicos para crianças e amadores, e também estudos mais direcionados ao ambiente universitário. Na Inglaterra, também havia um movimento se constituindo, sob o trabalho de Edgar Hunt e da família Dolmetsch, dentre outros.

Afinal, como explicar a flauta doce de João Candido na representação de Portinari? As portas do mistério continuam fechadas, mas as janelas me deixaram algumas pistas para uma chave possível. Para isso, é preciso olhar além da tela, é preciso traçar a relação da tela com a vida, nos registros e nas memórias da família do pintor. Creio que a chave do mistério está, sobretudo, nas mãos do menino João, que se tornou professor, escritor e pesquisador doutor com formação na área de Matemática e Engenharia de Telecomunicações. Em 1979, ele fundou o Projeto Portinari, em que atua como diretor-geral, buscando a preservação e a divulgação da obra de seu pai. Em 2004, lançou o Catálogo Raisonné da Obra Completa de Candido Portinari, acessível por meio do site www.portinari.org.br

Haveria, de fato, a flauta doce do menino João? Com base nas verificações de Michelini acerca dos imigrantes, poderia pertencer ao acervo familiar dos avós italianos, provenientes da região de Vêneto. Os Portinari vieram na grande imigração do final do século XIX e se estabeleceram na pequena vila de Brodowski – brasileiramente, Brodósqui -, no interior paulista. O avô do menino João, seu Baptista, tocava tuba na banda de música de lá.

Caso seja uma herança familiar, antevejo um percurso muito interessante de investigação, pois a flauta poderia ser até mesmo um objeto de relevância histórica, um original antigo que se conservou ao longo do século XIX.

Outra hipótese seria Portinari ter adquirido o instrumento em suas viagens pela Europa e Estados Unidos nos anos anteriores. Neste embalo especulativo, eu poderia seguir duas trilhas: antes ou depois do nascimento de João. Os países e lugares que conheceu estão bem documentados. Teria sido um presente de alguém, ou foi comprada por ele mesmo ou pela esposa? Já havia a intenção de presentear o bebê? No caso de ter sido obtida depois de seu nascimento, o mapeamento das viagens seria mais simples, entre os anos de 1939 e 1943. A família permaneceu boa parte deste período nos Estados Unidos, onde Portinari realizou novas obras e participou de exposições.

No próprio ano de 1943, Retrato de João Candido integrou uma exposição no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, sendo destaque dos jornais da época. Com o título “Um quadro brasileiro atinge a quantia de 100 mil cruzeiros”, a matéria do Diário da Noite (13/07/1943) apontou que, “apesar da rubrica de que o quadro não se achava a venda e pertencia à família do artista, surgiram numerosos pretendentes” e afirmou, em relação ao valor oferecido, tratar-se de quantia “jamais atingida por um quadro brasileiro”.

O legado cultural e artístico da obra de Candido Portinari, de natureza tão complexa e diversa, deveria despertar um maior interesse acadêmico na área musicológica. O interesse pela música tem uma dimensão significativa em sua produção artística. Seu comprometimento com as questões sociais, culturais e políticas brasileiras nortearam para o universo popular as suas representações de cenas e personagens musicais, sejam nos festejos rurais da sua querida Brodósqui, sejam nos retratos de músicos instrumentistas que atuavam na dinâmica das rádios, gravações e bailes da vida urbana. Considerado um adepto da segunda fase do Movimento Modernista, Portinari teceu vínculos de amizade com Mário de Andrade e Camargo Guarnieri.

Ainda não descobri o mistério da flauta doce de Portinari. Estabeleci um contato inicial com João Candido e o Projeto Portinari. Espero que este artigo impulsione as lembranças de familiares, amigos e admiradores de sua obra – especialmente, as memórias do “menino João” -, e que todos possam colaborar em fornecer acesso a esta grande casa onde habitam arte e cultura brasileiras. A casa do intelecto sensível de Candido Portinari.
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(*) Luciana Gifoni é flautista e professora do Curso de Música da Universidade Estadual do Ceará. Atualmente é doutoranda em Música da Universidade de São Paulo. (Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.).
Esse texto foi publicado originalmente no Jornal da USP

Criado em 2021-07-22 19:10:34

Weintraub é 'persona non grata' em Brasília

O ex-ministro da Educação Abraham Weintraub recebeu ontem (12/8) o título de persona non grata pela Câmara Legislativa do Distrito Federal. A moção de repúdio, aprovada por unanimidade dos 24 deputados distritais, diz que Weintraub não merece consideração da capital da República por notória incompetência “na condução das políticas educacionais”.

O documento, de autoria do deputado distrital petista Chico Vigilante (na foto, abaixo), cita ainda a "completa falta de educação e de respeito à democracia e às instituições" do ex-ministro.

Vigilante lembrou que Weintraub já se referiu ao DF e habitantes como "porcaria e cancro de corrupção e privilégio".

Antes da moção de repúdio, Weintraub já tinha sido multado em R$ 2 mil por desobedecer a obrigatoriedade do uso de máscara em manifestação pró-Bolsonaro.

Weintraub deixou o governo em junho deste ano, depois de se envolver em ofensas aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Ele é alvo de investigação que apura os responsáveis por fake news, além de processo na Justiça do DF sobre declarações racistas contra o povo chinês.

O próprio ex-ministro anunciou a saída, em 18/6, em um vídeo ao lado do presidente Jair Bolsonaro. Na ocasião, disse que deixaria o posto para assumir como representante do Brasil na diretoria do Banco Mundial, onde foi aprovado no mês seguinte.

Além de Weintraub, já foram considerados persona non grata Augusto Pinochet, ditador chileno, em 1998; Jean Pierre Juneau, embaixador do Canadá, devido a proibição de importação de carne bovina brasileira, em 2001 e George W. Bush, ex-presidente dos Estados Unidos, com moção aprovada em 2003.

Criado em 2020-08-13 20:58:44

2019 – o ano do pesadelo

Romário Schettino –

O pesadelo nacional começou no dia da eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República. As promessas do então candidato eram assustadoras, mas alguns desavisados, ou mal intencionados, achavam que eram apenas brincadeiras de mau gosto. As supostas bravatas eram baseadas na desinformação, nas fake news produzidas em massa, alimentadas por robôs e distribuídas pelas redes sociais.

Criado em 2019-12-31 18:29:49

Três pedras de afiar a perspicácia

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Ano passado, na Livraria Sebinho, comemoramos o aniversário conjunto de Emily Dickinson, Clarice Lispector e Cássia Eller, nascidas as três no dia 10 de dezembro de 1830, 1920 e 1962, respectivamente.

O ponto alto da festa foi a interpretação da cantora lírica Janette Dornellas de seis dos 12 poemas de Emily Dickinson musicados pelo compositor Aaron Copland.

Janette, grande amiga de Cássia Eller, contou episódios que viveram juntas e confirmou a informação de que Cássia era apaixonada por Clarice Lispector. Em 1990, Cássia regravou a canção Que o Deus venha, composta em 1986 por Cazuza e Frejat com base num trecho de Água Viva.

Neste ano do Centenário de Clarice, sem poder festejar no Sebinho, amanheci empolgado e logo tratei de rabiscar algumas linhas:

Dizem que o brilho
de dadas estrelas
conserva o fio das facas
contra a cegueira –

Emily Dickinson –
Clarice Lispector –
Cássia Eller –
Estrelas da mesma data –

Para alguns,
Ícones de cega idolatria –
Para outros,
Pedras de afiar a perspicácia –

Linguagem - Há muitos tratados sobre as manobras (invenções, reinvenções, subversos e tergiversos) que Emily e Clarice faziam com a linguagem para que essa ferramenta precária pudesse retratar tanto o Universo extenso quanto o pensado com algum rigor e precisão.

Emily dizia: 

The Brain – is wider than the Sky –
For – put them side by side –
The one the other will contain
With ease – and you – beside –

O Cérebro – é mais vasto que o Céu –
Pois – postos lado a lado –
Um ao outro conterá
Fácil – com Você – associado

Ela também criou uma vacina contra o desgaste das palavras:

A word is dead, when it is said
Some say -
I say it just begins to live
That day

Dizem que a palavra morre
Quando é dita -
Eu digo que ela nasce justo
Nessa data

Já Clarice, na pele de G. H., afirmou: “É exatamente através do malogro da voz que se vai pela primeira vez ouvir a própria mudez e a dos outros e a das coisas, e aceitá-la como a possível linguagem. (…) Ah, mas para se chegar à mudez, que grande esforço da voz. Minha voz é o modo como vou buscar a realidade; a realidade, antes de minha linguagem, existe como um pensamento que não se pensa, mas por fatalidade fui e sou impelida a precisar saber o que o pensamento pensa. A realidade antecede a voz que a procura, mas como a terra antecede a árvore, mas como o mundo antecede o homem, mas como o mar antecede a visão do mar, a vida antecede o amor, a matéria do corpo antecede o corpo, e por sua vez a linguagem um dia terá antecedido a posse do silêncio”.

Grude - Ocorre que a música é outro grude que liga essas três mulheres maravilhosas e, por isso, dias atrás comecei a me preparar para a comemoração do 10 de Dezembro traduzindo um poema da Emily que, vocês logo perceberão, parece um libreto de ópera.

A própria poeta, aliás, mestra de ritmos herdados dos hinos calvinistas da Igreja de seus pais, das canções irlandesas, dos spirituals do povo negro e do piano erudito e popular, achava que seus versos eram lotados que nem uma Ópera (“It’s full of Opera”, F381 (1862), como anotou o crítico Barton Levi St. Armand.

F708 (1863)

They put Us far apart –
As separate as Sea
And Her unsown Peninsula –
We signified "These see" –

They took away our Eyes –
They thwarted Us with Guns –
"I see Thee" Each responded straight
Through Telegraphic Signs –

With Dungeons – They devised –
But through their thickest skill –
And their opaquest Adamant –
Our Souls saw – just as well –

They summoned Us to die –
With sweet alacrity
We stood upon our stapled feet –
Condemned – but just – to see –

Permission to recant –
Permission to forget –
We turned our backs upon the Sun
For perjury of that –

Not Either – noticed Death –
Of Paradise – aware –
Each other's Face – was all the Disc
Each other's setting – saw –    

ACQ 06/07/2020

Nos afastaram Um do Outro –
Tão separados quanto o Mar
E Sua Península desolada –
Éramos “Os que podem enxergar” –

Nos arrancaram os Olhos –
Nos forçaram com Armas de Fogo –
“Te vejo” – foi a pronta resposta
Com Sinais de Telégrafo –

Em Masmorras – Nos segregaram –
Mas através das espessas tramas
E das Paredes mais opacas –
Se olharam ainda assim – nossas Almas –

Nos intimaram pra morrer –
Com suave impaciência
Nos erguemos com os pés atados –
Condenados – só à assistência –

Permissão pra abjurar –
Permissão para esquecer –
Demos as costas ao Sol
Para o perjúrio conter –

Nenhum de Nós – notou a Morte –
Ao Paraíso – atentos –
O Rosto de um – era o Disco
Que o outro viu no poente –

Quando li esse poema a primeira vez, notei que a história desses dois amantes se parece com a tragédia de Radamés e Aida na ópera do Verdi. Preferem morrer num calabouço a desistir do amor.

Enterrado vivo, Radamés se lamenta:

La fatal pietra sovra me si chiuse...
Ecco la tomba mia. Del dì la luce
Più non vedrò... Non revedrò più Aida.

A fatal pedra sobre mim fechou…
Eis a tumba minha. Do dia o fulgor
Não mais verei… Não reverei jamais Aida.

Quando Aida se junta a Radamés, ele chora:

Morir! sì pura e bella!
Morir per me d'amore...
Degli anni tuoi nel fiore
Fuggir la vita!

Morrer! Tão pura e bela!
Morrer por mim de amor…
Dos anos teus em flor
Fugir da vida!

Curiosamente, o poema de Emily foi composto oito anos antes da estreia de Aida na Casa da Ópera, no Cairo, em 1871. 

Giuseppe Ierolli, tradutor italiano da obra completa de Emily Dickinson, compara o poema – “uma solene ode ao amor” – a um coral em crescendo – a separação, os olhos arrancados, a repressão armada, a prisão, a condenação à morte e, por fim, a proposta da renúncia em troca da vida. Na versão original, o verbo ver (see) só não aparece na penúltima estrofe, quando os amantes dão as costas para o Sol, renovando mutuamente a fidelidade. No final, cada um vê o rosto do outro como um sol que se põe. Uau!

Canto de cisne - Clarice Lispector, por sua vez, encerrou a vida com a tragédia nordestina de Macabéa, em A Hora da Estrela, um romance  transpassado de música, a começar pela “Dedicatória do Autor”, com a advertência de que esse é, “Na verdade Clarice Lispector”.

Entre outros e outras, o livro é dedicado “ao antigo Schumann e sua doce Clara que são hoje ossos, ai de nós”; “à tempestade de Beethoven”; “À  vibração das cores neutras de Bach”; “A Chopin que me amolece os ossos”; “A Stravinsky que me espantou e com quem voei em fogo”; “À ‘Morte e Transfiguração’, em que Richard Strauss me revela um destino?”; “ao transparente véu de Debussy; a Marlos Nobre, a Prokofiev, a Carl Orff, a Schönberg, aos dodecafônicos, aos gritos rascantes dos eletrônicos – a todos esses que em mim atingiram zonas assustadoramente inesperadas, todos esses profetas do presente e que a mim me vaticinaram a mim mesmo a ponto de eu neste instante explodir em: eu. Esse eu que é vós pois não aguento ser apenas mim, preciso dos outros para me manter de pé, tão tonto que sou, eu enviesado, enfim que é que se há de fazer senão meditar para cair naquela vazio pleno que só se atinge com a meditação.”

Rodrigo S. M., o narrador, quer contar a história da nordestina Macabéa, mas não sabe como, demorando uma eternidade para engatar a narrativa. Vacila entre as palavras, “sons transfundidos de sombras”, e o silêncio.

“Com esta história eu vou me sensibilizar, e bem sei que cada dia é um dia roubado da morte. Eu não sou um intelectual, escrevo com o corpo. E o que escrevo é uma névoa úmida. As palavras são sons transfundidos de sombras que se entrecruzam desiguais, estalactites, renda, música transfigurada de órgão. Mal ouso clamar palavras a essa rede vibrante e rica, mórbida e obscura tendo como contratom o baixo grosso da dor Alegro com brio. Tentarei tirar ouro do carvão. Sei que estou adiando a história e que brinco de bola sem a bola. O fato é um ato? Juro que este livro é feito sem palavras. É uma fotografia muda. Este livro é um silêncio. Este livro é uma pergunta.”

Adiante, já namorando o metalúrgico Olímpico de Jesus, Macabéa, ouvinte assídua da Rádio Relógio, conta que ouviu uma música linda. “Era samba?”, pergunta Olímpico. “Acho que era. E cantada por um homem chamado Caruso que diz que já morreu. A voz era tão macia que até doía ouvir. A música chamava-se ‘Una Furtiva Lacrima’. Não sei por que eles não disseram  lágrima”.

Rodrigo S. M. diz que “‘Una Furtiva Lacrima’ fora a única coisa belíssima na sua vida (de Macabéa). (…) Mas também creio que chorava porque, através da música, adivinhava talvez que havia outros modos de sentir, havia existências mais delicadas e até um certo luxo de alma”.  

A moça morre, e a tragédia, como no Hamlet, termina em silêncio.

“Silêncio. Se um dia Deus vier à terra haverá silêncio grande. O silêncio é tal que nem o pensamento pensa”.

“No fundo – arremata Rodrigo – ela (Macabéa) não passara de uma caixinha de música meio desafinada”.

O amor arranha feito farpa - À guisa de encerramento, vou transcrever a letra da canção Que o Deus venha com um link no YouTube para a interpretação de Cássia Eller: https://youtu.be/ZiBjnE4Hvzo

Como já disse, trata-se de um trecho do romance Água Viva, de Clarice Lispector, editado com mínimas alterações e rearranjado em forma de versos por Cazuza e Frejat.

Qualquer dia desses a gente precisa recuperar mais informações sobre a paixão da Cássia pela Clarice, compartilhada com outra amiga sua, a pianista, maestra e compositora Dora Galesso, fundadora da Orquestra de Senhoritas em Brasília, falecida em setembro de 2018.

A Cássia era inquieta, claro, talvez um pouco áspera, desesperançada acho que não era. Curtia o delicado da vida!

Que o Deus venha

Sou inquieta, áspera
E desesperançad
Embora amor dentro de mim eu tenha
Só que eu não sei usar amor
Às vezes arranha
Feito farpa

Se tanto amor dentro de mim
Eu tenho e no entanto continuo inquieta
É que eu preciso que o Deus venha
Antes que seja tarde demais

Corro perigo
Como toda pessoa que vive
E a única coisa que me espera
É exatamete o inesperado

Mas eu sei
Que vou ter paz antes da morte
Que vou experimentar um dia
O delicado da vida
Vou aprender
Como se come e vive
O gosto da comida

Criado em 2020-12-10 20:36:48

Os extremos da desigualdade

Márcio Bueno (*) –

Em pleno flagelo da pandemia, enquanto milhares de empresas fecham as portas, o país caminha para registrar, dentro de poucos dias a marca de 100 mil mortes e o índice de desemprego dispara, bilionários brasileiros estão comemorando os resultados de seus negócios e possivelmente rindo a bandeiras despregadas.

De acordo com dados divulgados pela revista Forbes, a fortuna dos 42 bilionários brasileiros, teve um acréscimo de impressionantes US$ 34 bilhões – aproximadamente R$ 170 bilhões – no período de 18 de março a 12 de julho. O Brasil e os trabalhadores em pandarecos e a elite acumulando e alçando aos píncaros a nossa desigualdade social, que já era obscena e uma das maiores do planeta.

Este salto no patrimônio dos mais ricos já deve ser resultado da atuação criminosa do ministro Paulo Guedes, que, se não for contido, não vai sobrar Brasil no final de sua gestão. Enquanto boa parte da grande mídia faz o seu jogo, ou é distraída com as patacoadas do presidente e famiglia, Guedes está, ele, sim, passando a boiada, quem sabe até a vaca ir pro brejo em definitivo.

Com a desculpa de ser necessário favorecer o empresariado para que o crescimento seja retomado, está eliminando direitos trabalhistas duramente conquistados, mexendo em vários índices da economia e vendendo na bacia das almas estatais que pertencem ao povo brasileiro. O ministro da Economia é, sozinho, uma espécie de nuvem de gafanhotos.

Enquanto isso, desempregados se arriscam a contrair o coronavírus e se esfalfam nas filas da Caixa para retirar, quando conseguem, a merreca do auxílio emergencial. Segundo o IBGE, em junho, 29,4 milhões de famílias retiraram o auxílio. A média, por domicílio foi de R$ 881. A diferença em relação a outros países é gritante.

Há governos que pagam até 15 vezes mais que o Brasil a quem perdeu a fonte de renda. Na Alemanha, por exemplo, os autônomos recebem 5 mil euros (mais de R$ 28 mil) por três meses, o que dá aproximadamente R$ 9,4 mil por mês.

E o processo é muito simples. O solicitante, que pode inclusive ser estrangeiro residente no país, faz o cadastro pela internet e passa a receber depósitos em sua conta bancária, sem a necessidade de deslocamentos e do enfrentamento de filas quilométricas como no Brasil. As empresas com até 5 funcionários, recebem como auxílio, 9 mil euros e as que empregam até 10 funcionários, 15 mil euros. E são doações, sem a necessidade de ressarcimento.

Na Irlanda, o governo desembolsa, para cada solicitante, 350 euros por semana, o que dá 1.400 euros, ou cerca de R$ 8 mil por mês. Outro exemplo é o do Canadá, onde quem foi impactado pela covid-19, seja pela redução salarial, seja pelo desemprego, recebe 2 mil dólares canadenses, que equivalem a R$ 7,4 mil por mês.

No Brasil, os mesmos Bolsonaro e Guedes, que abrem as pernas para o empresariado, especialmente do setor financeiro, queriam que o auxílio emergencial individual fosse de inacreditáveis R$ 200 por mês, valor ainda mais insignificante do que é hoje. Só a muito custo concordaram com os R$ 600, que não chegam aos pés dos valores acima, de outros países.

Voltando à outra ponta do espectro socioeconômico, entre os 42 bilionários brasileiros, cujas fortunas engordaram, e muito, em meio à desgraça provocada pela pandemia, o banqueiro Joseph Safra ocupa o primeiro lugar no ranking. Sua fortuna é avaliada em US$ 19,9 bilhões, o que equivale a aproximadamente R$ 100 bilhões.

Safra, libanês naturalizado brasileiro, só circula de helicóptero e vive em São Paulo, numa mansão de – pasmem! – 11 mil metros quadrados. Quem mora em apartamento pequeno, deve ter muita dificuldade para imaginar como seria viver numa mansão como a do banqueiro. Afinal, no espaço de sua residência cabem nada menos que 275 apartamentos conjugados, de 40 metros quadrados cada um.

E quem dispõe de um imóvel, mesmo que seja de dimensões reduzidas, ainda deve erguer as mãos pro Céu. Há 7,8 milhões de famílias sem moradia, vivendo nas ruas e expostas a todos os riscos, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas. São famílias que vagam pelas ruas sem rumo e sem destino e para as quais não faz o menor sentido a principal orientação protetiva contra a covid-19: “Fique em casa”. São os extremos da nossa desigualdade social que a dupla Guedes/Bolsonaro está fazendo de tudo para ampliar.
_______________
(*) Márcio Bueno é jornalista e escritor. Autor do livro Faíscas Verbais – a genialidade na ponta da língua.

Criado em 2020-07-29 20:05:34

Artistas e intelectuais se reúnem dia 31 de julho para refundar a FIARI

Integrantes da proposta de recriação da Federação Internacional de Arte Revolucionária Independente (FIARI) farão uma reunião pública no dia 31 de julho (sábado) em várias partes do mundo. Na hora de Brasília e Buenos Aires, a reunião será às 16h e se dará na plataforma Zoom – ID: 885 2129 1043. Paris, Espanha e Bélgica às 21h. Cidade do México às 14h.

O objetivo do grupo de artistas e intelectuais é chamar a atenção para a necessidade de refundação da FIARI “porque a luta empreendida pelos criadores da Federação em 1938 precisa ser implementada e renovada neste momento grave em que a crise do capitalismo se expressa também em uma crise das artes e da cultura em geral”, diz o documento assinado pelos refundadores iniciais da entidade internacionalista.

Uma manifesto, escrito em quatro idiomas (português, espanhol, francês e inglês) será lançado oficialmente nesse dia com as assinaturas de Jorge Antunes (Brasil), Josep Manuel Berenguer (Espanha), Paloma Carvalho Santos (Brasil), Luca Forcucci (Suíça), Manuel Rocha Iturbide (México), Roberto Rutigliano (Argentina), Vladimir Safatle (Brasil), Daiara Tukano (Brasil), Gerson Valle (Brasil), Gabriel Valverde (Argentina) e Françoise Vanhecke (Bélgica).

A FIARI original foi criada em 1938, na Cidade do México, por três grandes revolucionários: Léon Trotski, André Breton e Diego Rivera. A iniciativa teve vida efêmera porque um ano após sua fundação eclodiu a 2ª Guerra Mundial e dois anos depois Trotsky foi assassinado.

Criado em 2021-07-21 22:40:29

Seis ex-presidentes do PT pedem retirada de apoio a prefeito bolsonarista de Belford Roxo

Romário Schettino –

Seis ex-presidentes do PT – Olívio Dutra, José Dirceu, José Genoíno, Tarso Genro, Ricardo Berzoini e Rui Falcão – escreveram, no dia 10/8, uma carta à presidenta do partido, deputada federal Gleisi Hoffmann (PR) solicitando que o Diretório Nacional reveja a decisão de apoiar a reeleição do prefeito de Belford Roxo (RJ), conhecido bolsonarista da região.

Os signatários da carta se dizem “preocupados com a grave situação” do país e apontam como motivo dessa preocupação a “notória” cumplicidade de Waguinho com o bolsonarismo.

Além disso, a carta registra que as resoluções do “VII Congresso e da direção partidária são inequívocas: nenhuma aliança pode ser estabelecida com o neofascismo, com os partidos e candidatos que o representam em qualquer espaço do território nacional.”

Por fim, os autores do pedido afirmam que “o PT deve ser exemplo de coerência e firmeza, por todo o país, refutando qualquer concessão na batalha que trava nosso povo contra o autoritarismo”.

O Diretório Nacional do PT, em sua reunião do dia 7/8, homologou a decisão do Diretório Municipal do partido em Belford Roxo (RJ), que aprovou apoio ao prefeito Wagner Carneiro, conhecido como Waguinho, bolsonarista do MDB e candidato à reeleição.

A proposta que referendou a decisão dos petistas de Belford Roxo recebeu 29 votos a favor, 25 contra e 11 abstenções. Essa decisão, com diferença apertada, provocou uma onda de indignação nas bases do partido, que não aceitam o argumento de que o apoio poderia significar possibilidade de eleição de mais vereadores petistas. A proximidade de Waguinho com o deputado federal Eduardo Bolsonaro levanta suspeita de que ele teria ligações com grupos milicianos da Baixada Fluminense.

Em entrevista ao jornal Página 13, Valter Pomar, membro do Diretório Nacional do PT, disse que votaram contra a decisão de apoio à reeleição do prefeito foram, além dele mesmo: Cícero, Sokol, Gabriel, Misa, Joaquim, Maria do Rosário, Rosane Silva, Tiago Soares, Moara, Vilson, Tássia, Natália, Mariana Janeiro, Sheila, Lucinha, Jandyra, Humberto Costa, Michele, Júlio Quadros, Cida de Jesus, Ricardo Ferro, Misiara, Raul Pont, e Patrick Araújo.

As 11 abstenções foram de Luiz Henrique, Paulo Teixeira, Lais Almeida, Zeca Dirceu, Tita Ferreira, Penildon, Zé Roberto, Eric Moura, Juliana Cardoso, Moema e Rosa Rodrigues.

Votaram a favor do apoio ao prefeito bolsonarista: Sônia Braga, Gleide, Quaquá, Janaína, Cantalice, Sibá, Zé Ricardo, Dulci, Rosaneide, Sorriso, Márcio Macedo, Quarenta, Enio Verri, Casula, Martvs, Kátia, Zé Guimarães, Paula, Miguel, Mônica,  Mariana Rodrigues, Camila Moreno, Tereza Leitão, Ideli,  Sérgio Silva,  Paulo Cayres,  Alyne e Regina.

O Coletivo Resistência-Ação, do PT do Distrito Federal, também escreveu à presidenta Gleisi Hoffmann solicitando a “retificação e a anulação” da decisão que homologou a aliança com o prefeito bolsonarista de Belford Roxo (RJ).

“Não podemos nos omitir diante da repercussão negativa, não só política mas simbólica de tal decisão”, dizem os petistas na carta, acreditando que o “PT sairá mais forte, com mais credibilidade e a militância, em especial, a do município e do Estado do Rio de Janeiro, com mais força e garra para o embate” nas eleições municiais deste ano.

Criado em 2020-08-11 21:10:30

Lula, o fantasma de Bolsonaro

Romário Schettino –

Uma coisa acontece no cenário político brasileiro que ninguém pode negar: Lula ainda é o maior líder carismático de todos os tempos. Nenhum desses políticos que estão por aí são capazes de falar, de improviso, por 45 minutos seguidos para uma grande quantidade de pessoas ao vivo e em cores. Lula arrasta multidões.

O Brasil inteiro se mobilizou para escutar Lula. Caravanas partiram de diversos pontos do país para ouvir Lula em São Bernardo. A imprensa internacional não ignorou a notícia e na internet, tudo ficou congestionado: twitter, facebook, instagram.

Lula preso nunca deixou de ser uma referência incontestável, solto será a mola propulsora da oposição ao governo Bolsonaro. Alguns recados foram dados nos dois discursos já pronunciados até agora: Não ao governo de milicianos de Jair Bolsonaro e não à polícia de arrocho econômico de Paulo Guedes. Mas não vai parar por aí. Lula prometeu redigir um pronunciamento mais denso nos próximos dias para detalhar o que pensa sobre os caminhos tomados pelo governo Bolsonaro.

Ao mesmo tempo, Lula não deixou de mencionar o trabalho dos deputados e senadores neste momento. Os projetos econômicos do ministro Paulo Guedes precisam, segundo ele, ser enfrentados com mais eficiência, envolvendo no debate todos os setores organizados da sociedade civil para acabar com “essa loucura” bolsonarista.

O primeiro papel de Lula será o de reorganizar as oposições numa frente ampla de esquerda e preparar as eleições municipais de 2020. Com prefeitos e vereadores eleitos em quantidade expressiva, especialmente nas capitais dos estados, será possível pavimentar a disputa eleitoral em 2022. Para essa tarefa, Lula terá que costurar alianças difíceis e estranhas, como a “geringonça” de Portugal. Mas basicamente terá que contar com o protagonismo do PT, PCdoB, PSol, Rede, PCO, PCB e até mesmo o PDT do rebelde Ciro Gomes.

Enquanto isso, os advogados de Lula continuarão trabalhando para anular todos os processos contra ele. O primeiro passo será o julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), da suspeição do ex-juiz, atual ministro da Justiça Sergio Moro, por sua parcialidade nos processos, conforme demonstrado na VazaJato do site Intercept.

Mas com a liberdade de Lula a esquerda não está solta. A reação à libertação do ex-presidente com base na decisão do STF é ressaltada em setores da direita e da extrema direita. Seja por mera demagogia ou por medo do fator Lula na disputa eleitoral do próximo ano.  

No Congresso Nacional, alguns deputados e senadores se apressaram em desenterrar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que pode trazer de volta a figura jurídica da prisão em segunda instância. A questão é saber se essa PEC não fere a cláusula pétrea estabelecida no artigo 5º, inciso 57, da Constituição de 1988: “Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. Essa definição é o que se chama “direito fundamental e humano de primeiro grau”.

Segundo analistas jurídicos, só uma Constituinte pode alterar uma cláusula pétrea. Pelo sim, pelo não, é muito difícil que essa PEC oportunista ande de acordo com a vontade dos bolsonaristas de plantão.

Há muito jogo de cena de políticos que se acham espertinhos. A rigor, ninguém quer essa mudança. Mas ela ficará sempre como uma ameaça caso Lula consiga alterar o equilíbrio de forças até 2020.

Jair Bolsonaro não está nada satisfeito com o desfecho dessa novela. Luis Inácio Lula da Silva é o fantasma que ronda o palácio da Alvorada e deixa Bolsonaro sem vontade de dormir. O presidente de plantão pode até sonhar com um autogolpe, mas o pesadelo será maior.

Criado em 2019-11-10 02:13:50

Dois contos do álcool da velha

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

I

Seu Agenor de Castro, 92, me recebeu para falar dos tempos em que caçava nas matas da Serra de Jaraguá até os anos 60, entrando nos 70. Mandou me servir um café bem goiano, ralo e doce, com biscoito de queijo. Tudo ficou secundário depois que eu percebi, rompendo a penumbra, a dúzia de gaiolas penduradas na parede do fundo da sala.

Encerrado na primeira, um casal de flautas doces, cujos gêneros distingui pelas cores, uma bem mais clara. Noutra, três apitos de trair inhambu. Na terceira, um chamariz de jacu. Era uma coleção sortida – jaó, juriti, macuco, marrequinha, perdiz, saracura. À guisa de periquitos, mais de dez assovios coloridos de aniversário numa das gaiolas.

“Faz anos que eles não cantam”, disse o seu Agenor. “Acho que é de tristeza”!

Mal voltei pra casa, acendi, nessa ordem, um CD do Dalgas Frisch, O Passarinho de Pano do Villa-Lobos, e os Oiseaux exotiques do Messiaen.

II

Para Mariana Cintra Rabelo

Ninguém pôde imaginar as consequências da rejeição daquele primeiro bife acebolado. Virou repulsa, aversão, abominação, tirante as cebolas. A menina tomou gosto por vegetais.

Além das rodelas de cebola, salsinhas, alfaces, agriões, talos de toda sorte de verduras, feijões com as cores do arco-íris... A botânica toda na cozinha não saciava a voragem da garota.

Um dia a mãe notou que a cara da guria estava ficando verde que nem suco de limão com couve. Efeito da luz mortiça da copa? Não, a luz do sol realçava a clorofilha. A pele foi ficando encortiçada. Um dia os cabelos começaram a se alastrar como lianas de cipó.

Como se fosse natural, e era, a mãe passou a regá-la.

A menina se aboletou num cantinho da sala em que batia o sol da manhã. Uma vez por semana varriam as folhinhas caídas.

As visitas estranhavam, mas não ousavam muitos comentários. "Linda como as minhas samambaias!", disse uma vizinha. "A diferença é que ela exige adubo orgânico", respondeu a mãe, dona Martha Florinda.
 

Criado em 2020-11-26 14:29:01

A política de ódio de Ciro Gomes

Vivaldo Barbosa (*) –

Ciro Gomes tem dedicado quase toda sua atividade política a atacar o PT e o Lula, de maneira incessante, raivosa. Culpa o PT e Lula por todos os males que se abatem sobre o País, parece querer fazer crer que “comem criancinhas”, como se dizia dos comunistas antigamente. Lamentável.

Ciro tem levantado questões interessantes sobre economia e política, mas desencanta em seguida. Agrada nacionalistas ao falar em soberania e ao criticar o sistema financeiro, desagrada em seguida ao ser favorável à privatização da água e ao atacar as estatais. Diz combater políticas fisiológicas e em seguida acena ao DEM e outros. Encantou Brizola em um momento e o desagradou em seguida.

Este estilo político de ataques e de ódio foi inaugurado pelo Senador americano Joseph McArthy, que via comunistas em tudo na vida americana, nas artes, na cultura, na política, no governo. Cassava comunistas até em Hollywood. Perseguiu muitos, processou, infernizou muitas vidas, até na prisão muitos foram parar. Foi o início da ação da direita extremada em período de vida democrática, após o fascismo. Seu movimento ficou conhecido como macarthismo. Voltou a ganhar expressão agora com Trump e sua montagem de redes sociais, estendeu-se por alguns países, veio parar no Brasil, tendo em Bolsonaro sua principal figura.

Ciro Gomes tem usado esses mesmos métodos. Usa a expressão “lulo-petismo” como xingamento, refere-se a lulo-petistas bandidos, enfatiza que são corruptos, diz que são responsáveis pela eleição de Bolsonaro (ele que foi descansar em Paris após o primeiro turno e voltou na véspera do segundo turno para xingar o PT e o Haddad na hora da decisão). Quer pegar a esquerda em cheio: ataca até o PSol. Entrou de corpo e alma na política do ódio.

Até agora, na privatização da água, quando acuado por terem ele e seu partido, o PDT, aprovado a lei que levará à privatização, diz que a culpa é do PT, do lulo-petismo. Até Bolsonaro, que procurou tirar proveito eleitoral dessa onda incensada pela mídia, não mais repete esta aleivosia com a mesma ênfase.

Na eleição de 2002, Brizola, procurando levar o PDT a apoiar Ciro, preocupado que Lula ainda enfrentava muita rejeição (o que já havia se dissipado), encontrou resistência em mim, pela orientação política do Ciro não condizente com o trabalhismo, e no Senador Jeferson Peres, que alertava por sua personalidade autoritária.

Brizola não aceitou, mas certamente tomou a devida nota. Na campanha, confirmou os descaminhos do Ciro, chocou-se com muita coisa, especialmente pela aproximação do Ciro com Paulinho, então Vice, com Roberto Jeferson, com Roberto Freire, procurando alijar Brizola e afogar sua candidatura ao Senado. Reuniu o partido para sair da campanha do Ciro e pedir a retirada da sua candidatura para procurar assegurar a vitória de Lula no primeiro turno e evitar os riscos do poder econômico e da mídia em segundo turno. Não conseguiu dobrar o partido por manobras do Carlos Lupi, também candidato a Senador (duas vagas), interessado em minimizar Brizola e ficar com mais chances como praticamente candidato único ao lado de Ciro, então com boa margem no Rio, alegando falta de prazo para convocar Convenção. Ciro não aceitou e até menosprezou Brizola. Quando diversos de nós comunicamos nosso engajamento na campanha do Lula, Brizola deixou claro que iria também votar no Lula. Brizola e Ciro nunca mais se falaram. Só se encontraram no dia do anúncio do Ministério do Lula, Ciro nomeado Ministro, quando se cumprimentaram. Nunca mais.

Ciro pode dar contribuição importante à política brasileira, como já deu em algumas questões e em alguns momentos. Tem de abandonar a prática do ódio e entrar no campo da razoabilidade. Senão, mistura-se com manifestações direitistas, conservadoras, reacionárias, cujo objetivo é destruir a esquerda e impedir o avanço das forças populares.

O colonialismo que ainda nos assola e a escravidão que ainda nos martiriza sempre tiveram seus porta-vozes, vociferantes alguns. Até com certo talento, como Carlos Lacerda.
___________________
(*) Vivaldo Barbosa é advogado, ex-deputado federal Pelo PDT-RJ e participou da Assembleia Constituinte de 1988.

Criado em 2020-07-26 17:31:06

TVT exibe seis documentários de Maria Maia a partir de 24 de julho

A partir deste sábado (24/7) o canal do Cine TVT no YouTube exibirá em sua programação a Mostra Maria Maia de Cinema. Serão seis documentários da cineasta realizados pela TV Senado, no período em que trabalhou como roteirista e diretora de filmes na emissora pública.

Os filmes serão exibidos aos sábados, com reprise aos domingos, nos meses de julho e agosto, e farão um mergulho na história política contemporânea do país.

Confira, a seguir, os filmes que serão exibidos na TVT:

Abdias, Raça e Luta - 1h

O documentário Abdias, Raça e Luta traz a trajetória de Abdias Nascimento, da infância pobre, à luta precoce contra o racismo, o exílio e as inúmeras faces deste baluarte da luta pelos direitos da população negra. Ator, poeta, escritor, dramaturgo, artista plástico, professor e militante, foi responsável pela criação do Teatro Experimental do Negro (TEN).

Direção: Maria Maia
Produção: Cristina Machado
Realização: TV Senado
Exibição no sábado (24/7), às 21h30
Reprise: Domingo (25/7), às 14h

O Cinema Segundo Vladimir Carvalho - 1h14”

O documentário apresenta o perfil biográfico e filmográfico de Vladimir Carvalho, um dos principais documentaristas brasileiros em ação, desde o início da sua carreira, como co-roteirista do clássico Aruanda, de Linduarte Noronha, até os dias de hoje. Entre os principais trabalhos estão os clássicos O País de São Saruê, O Evangelho Segundo Teotônio, Conterrâneos Velhos de Guerra, Barra 68 e O Engenho de Zé Lins.

Direção: Maria Maia
Produção: Dea Barbosa
Realização: TV Senado
Sábado (31/7), às 21h30
Reprise: Domingo (01/08), às 13h30

Darcy, um Brasileiro - 1h42”

Darcy Ribeiro foi um renomado antropólogo, político e escritor. No documentário Darcy, um brasileiro, o telespectador vai conhecer um pouco da história desse pensador, das suas inquietações e da sua busca por soluções para o Brasil. Mineiro de Montes Claros, Darcy dedicou a sua vida aos menos favorecidos. Como antropólogo, defendeu os índios, fundou o Museu do Índio, ajudou na Criação do Parque Nacional do Xingu, documentou várias etnias em livros e fotografias; na de educador e professor, participou da criação da Universidade de Brasília, da Lei de Diretrizes Básicas da Educação Nacional e dos CIEPS; e na de político, foi chefe da Casa Civil de João Goulart, lutou contra a ditadura, foi exilado, vice-governador do Brizola e senador da República.

Direção: Maria Maia
Produção: Andrea Amorim
Realização: TV Senado
Sábado (7/8), às 21h30
Reprise: Domingo (08/08), às 14h

Mulheres em Movimento - 1h

O filme Mulheres em Movimento traça um panorama das mulheres no Brasil, dos tempos coloniais aos nossos dias. Mostra a participação feminina na luta pela anistia; as conquistas das mulheres na Constituição de 88; Bertha Lutz e o direito ao voto. Traz também entrevistas com as lideranças políticas, Elizabeth Teixeira, Jandira Feghali, Shuma Shumaher, Concita Maia, entre outras; e as participações especiais de Odette Ernest Dias, Eliza Lucinda e Elza Maria.

Direção: Maria Maia
Produção: Dea Barbosa
Realização: TV Senado
Sábado (14/8), às 21h30
Reprise: Domingo (15/8), às 14h

Chico Mendes Vive! - 1h26’’

Narrado em grande parte pelo próprio Chico Mendes, o longa Chico Mendes Vive!  faz um profundo mergulho na história da Amazônia - narrando a saga dos seringueiros do nordeste seco para a Amazônia ensombreada e chovida – e também no nascimento da Aliança dos Povos da Floresta e criação das primeiras Reservas Extrativistas, que são a Reforma Agrária para a região amazônica. Com depoimentos de Gomercindo Rodrigues, Lucélia Santos, entre outros, o filme mostra ainda a trama armada para o assassinato de Chico Mendes e as repercussões no Brasil e no mundo.

Direção: Maria Maia
Produção: Cristina Monteiro
Realização: TV Senado
Sábado (21/8), às 21h30
Reprise: Domingo (22/8), às 14h

JK, um Cometa no Céu do Brasil

O documentário JK, um Cometa no Céu do Brasil traz a história do ex-presidente Juscelino Kubitschek desde a infância pobre, em Diamantina, até a morte, aos 72 anos, em um acidente de carro. Entrevistas com Celso Furtado, Oscar Niemeyer, Maristela Kubitschek, Vera Brant, Carlos Heitor Cony, dentre outros.

Direção: Maria Maia
Produção: Dea Barbosa
Realização: TV Senado
Sábado (28/8), às 21h30
Reprise: Domingo (29/8), às 14h

Criado em 2021-07-21 22:19:34

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