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Max Telesca (*) -
Quando iniciei a escrever este artigo, logo após a eliminação, mais imatura, menos prematura, da Seleção Brasileira de Futebol para a Croácia, e do jogo monumental entre Argentina e Holanda nas quartas-de-final, no qual os argentinos superaram o desastre de tomar dois gols no final, com grande controle emocional e avançaram nos pênaltis, o Marrocos ainda não havia superado a poderosa Espanha, lançando-se heroicamente às semifinais e efetuado a maior façanha de um selecionado árabe e do continente africano. Com este novo elemento no cenário, titubeei em redirecionar o texto para acrescentar a torcida pelo Marrocos no título e no objetivo central do escrito.
Entretanto, mesmo hoje dividindo minha torcida entre Marrocos e Argentina, seja por razões pessoais, em função de minha família ter uma ligação estreita com os marroquinos, seja por razões sentimentais de buscar sempre torcer para os países periféricos, a razão de ser do texto continua intacta a partir de um dos argumentos da construção da hipótese: a rivalidade entre Brasil e Argentina deve se restringir ao duelo entre as equipes no jogo, nos gramados, no campeonato. Depois disso, há uma importância em se tornarem aliados. Explico.
Primeiramente, há uma dificuldade fundamental no desenvolvimento do raciocínio, especificamente sobre a tentativa do estabelecimento da razão em área predominantemente afeita aos sentimentos e emoções. Segundo o raciocínio de um grande amigo, o brilhante psiquiatra Roberto Pierobom Lima, não escolhemos para quem torcemos; a simpatia nasce ao natural ou, mais costumeiramente, é introjetada na infância pelos pais ou outro ente querido aficionado por futebol. Eu não lembro direito quando e como comecei a torcer pelo Grêmio, mas sei da influência do meu avô materno e do meu pai na tarefa.
Outro fator influente tem a ver com um termo muito na moda: pertencimento. Quem torce por um time de futebol, ou de outro esporte, busca fazer parte de um grupo social. Assim, como um dos maiores – senão o maior - de todos os grupos sociais é o Estado-nação, é natural a torcida pela seleção representante do país onde nascemos. Por isso não vemos brasileiros torcendo para Uruguai ou Argentina, nossos países vizinhos mais tradicionais no esporte, nossos rivais regionais.
Pertencer a um grupo social a partir de uma imposição ou herança cultural familiar ou, posteriormente, por uma escolha onde a racionalidade não é a diretriz determinante, parece ser a tônica iniciática do ato de torcer e há algo mais interessante ainda: a fidelidade canina do torcedor. Mudar de time no meio da jornada da vida é algo muitíssimo incomum. É mais fácil naturalizar-se ou adquirir uma outra cidadania, trocar de religião, de partido político, e eu arriscaria de que até de sexo se tem mais notícia de mudança do que trocar de time. É a traição imperdoável ao clã, um gesto de ingratidão. Mudar de time, virar a casaca, é um pecado grave.
Mas seria uma traição, após a eliminação do Brasil, torcer para a Argentina numa Copa do Mundo? Cometeríamos a heresia de esquecer a Copa de 1978, quando fomos garfados pelos castelhanos? Ou a eliminação em 1990, quando Maradona, do meio-campo, partiu endiabrado em direção à grande área brasileira, deixando para trás quatro jogadores, atraiu toda a marcação e meteu Caniggia na cara do gol de Taffarel para marcar? Não creio, entendo os fatos, em razão de valores maiores.
Zuenir Ventura, no ótimo “Mal Secreto: Inveja” sintetiza a diferença entre cobiça, ciúme e inveja. A cobiça, segundo o autor, seria a vontade incontrolável de ter algo do, ou algum afeto ligado ao, outro. O segundo, o ciúme, o medo de perder algo ou alguém, e a terceira, um pérfido e ordinário sentimento, quase sempre inadmitido, seria a vontade de que o outro não tenha algo. Este último, o mais deletério, a busca pelo fracasso do outro, a vontade da derrota alheia.
Depois da eliminação neste campeonato mundial, foram muitas as piadas, os memes sobre uma suposta dupla derrota brasileira: a eliminação e a passagem dos hermanos para as semifinais, mas esquecem os secadores, baseado no sentimento negativo da inveja, de não querer o sucesso do outro, para que ele não tenha aquilo não tido por nós por absoluta incompetência nossa, que enquanto jogam sua negatividade no ar, os europeus empilham títulos e mais títulos. Em 2026 completaremos 24 anos sem uma taça e, caso a Argentina não consiga vencer, serão 40 anos. O Uruguai, pior ainda, desde 1950, fará 76 anos de jejum.
Enquanto isso, times considerados médios nas décadas de 1970, 1980 e 1990 cresceram e se igualaram. A França, sempre de futebol técnico e bonito, mas sem êxitos até então, foi bicampeã e tem tudo para ir ao tricampeonato no Catar. A Espanha foi campeã em 2010, depois de superar a fama de um futebol considerado inócuo. Além disso, Alemanha e Itália tornaram-se tetracampeãs, a um passo de igualar a nossa frágil liderança tisnada com o maior fiasco da história das copas, o 7 x 1 de Belo Horizonte.
Também nesse período, desde o final da década de 1990, ou de 2002 mais precisamente, quando ganhamos o penta, o futebol tornou-se um dos maiores negócios do planeta, e os clubes europeus, para usar um verbo do gosto de Tite, galgaram vários degraus acima das talentosas escolas sul-americanas, em especial a brasileira, a argentina e a uruguaia. Nos mundiais de Clubes, desde 2000, em 21 disputas, os europeus venceram 16 vezes e nós, sul-americanos, apenas 5. E o pior, desde o último êxito em 2012, ano do título do Corinthians, o abismo técnico aumentou consideravelmente. Em 4 edições, nem da final participamos e os jogos entre sul-americanos e europeus são desiguais, com, no mais das vezes, os nossos atletas jogando atrás, fechados, por uma bola, ou sendo colocados na roda, como o Santos de 2011 frente ao Barcelona, quando tomou 4 x 0.
Quem gosta de futebol e assistiu ao melhor jogo desta Copa do Mundo, as quartas-de-final entre França e Inglaterra, percebeu a enorme distância técnica daquele espetáculo para as partidas disputadas entre os demais países não europeus. O fino da bola é jogado nos gramados da Champions League e nós, sudacas, nos contentamos com o rebotalho, exportando nossos talentos na tenra idade. Nem sequer temos intimidade com os nomes dos jogadores do selecionado, pois vão para a Europa jovens demais, meninos de tudo.
Quando ficamos outros 24 anos sem ganhar títulos, entre 1970 e 1994, o fosso entre europeus e sul-americanos não era tão grande. A profissionalização total dos clubes europeus ainda se operava e, mesmo com muito mais dinheiro, a revolução tecnológica ainda não havia se refletido totalmente nos gramados. Além disso, não se pode deixar de lado o fator político decisivo de João Havelange na presidência da FIFA entre 1974 e 1998, considerado que futebol não é só futebol. É política, geopolítica, negócio, poder e corrupção, por supuesto.
Hoje, os valores recebidos com os direitos de imagem formam orçamentos gigantescos, os profissionais da bola viraram pop stars e houve a espetacularização do esporte. Os jovens jogadores estão em todos os lugares do mercado, na internet, nas redes sociais, nos videogames, nas peças de roupa e, obviamente, na televisão. Os jogos mais importantes são megaeventos, algo parecido com a transformação acontecida na música, com os concertos de rock no início da década de 1980.
Atualmente, uma transmissão de uma partida de grande importância, como os jogos da Copa do Mundo do Catar, são espetáculos nos quais o capitalismo global se mostra com todas as suas facetas, de modo sofisticado, em busca do dinheiro. Torcedores tornaram-se consumidores e eles são muitos e movidos pela paixão. Irracionalmente, em seus desvarios, podem fazer dívidas enormes apenas para ver o clube de seu coração numa final em outro país.
Em artigo recente publicado no importante site esportivo britânico The Athletic, o técnico espanhol Juanma Lillo, 57 anos, considerado o mentor de Pep Guardiola afirmou categoricamente: O futebol acabou. Seja lá o que tenha surgido, não ouso nomeá-lo. O propósito do jogo foi subvertido - agora visam mais os consumidores do que os torcedores, a indústria precisa do dinheiro da TV. Nós nem percebemos a bagunça que fizemos. Globalizamos uma metodologia que alcançou a Copa do Mundo.
A partir da análise da mercantilização do esporte mais popular de todos, da distância progressiva e rapidamente aumentando entre nós e os mais ricos, o sentimento de pertencimento deveria nos fazer olhar para a Argentina, perdoar as faltas passadas, sua decantada soberba, não olhando os seus pecados, mas a fé que anima a nossa escola de futebol, seus craques do passado, Maradona, Kempes, e do presente, Lionel Messi, capazes de encantar o mundo, como os nossos encantaram e ainda voltarão a encantar.
E assim, como hermanos que somos, irmos em frente e nela depositar nossa torcida quase como uma consciência de classe. Junto do Marrocos, ela representará o mundo periférico, mas, especificamente, ao lado do Brasil eliminado, a história do glorioso, mas combalido futebol sul-americano. Faço votos de que passe pela Croácia, avance à finalíssima e conquiste seu tricampeonato.
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(*) Max Telesca é advogado e escritor. Escreveu o romance 2047: A Revolução dos Dementes, lançado em maio de 2022 pela Geração Editorial. É diretor e apresentador do Programa Direito ao Ponto, presidente do Instituto de Popularização do Direito – IPOD, membro da Academia Brasiliense de Letras e diretor do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal.
Criado em 2022-12-12 16:16:30
Ato contra o aumento das passagens da Supervia na próxima terça-feira, 25/1, às 16h, na Central do Brasil, no Rio. A convocação é da deputada estadual Renata Souza, líder da bancada do PSOL na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Ao mesmo tempo, a deputada deu entrada com ação popular no Tribunal de Justiça do Rio contra o aumento das passagens.
“O aumento em um momento crítico como esse que vivemos, com a economia totalmente abalada pela pandemia, ignora a situação dos milhares de trabalhadores e trabalhadoras que dependem dos trens para chegar em seus empregos”, disse a deputada.
Além disso, segundo Renata, “os modais da Supervia não atuam em boas condições, com horários irregulares, elevado número de mortes em suas redes férreas e aglomerações em seus veículos. Precisamos barrar esse aumento, já!”.
Criado em 2022-01-20 23:47:58
Luis Turiba (*) -
A data já trazia em si uma magia: 11 do 11 do 022.
Somos recebidos – Luca Andrade e eu - de braços abertos pelo próprio poeta Augusto de Campos; que após calorosa saudação, nos convida a adentrar naquela sala que lembra uma obra holográfica com constelações de letras, palavras e poemas; quadros, fotos em suportes múltiplos. Uma síntese concreta do trabalho de sete décadas do poeta.
A encantadora Lygia Campos nos recebe na sequência com o carinho de sempre e seu eterno sorriso. Fomos convidados para um cafezinho que durou três horas.
Num sofá da sala, a inconfundível figura do poeta Ricardo Aleixo, que está entre os finalistas do Prêmio Jabuti de Poesia, que sai no final deste mês. Ele também visitava o mestre. Ao seu lado, a bela Natália, sua companheira.
Aos 91 anos, Augusto continua um poço de energias surpreendentes, conhecimentos, lampejos e saques de linguagens, além dos conhecimentos teóricos, vivências e infinitas recordações.
A partir daí, o papo animado de sempre. AC comanda a roda com casos, perguntas, respostas e revelações fantásticas. Boas risadas, magníficas recordações.
Foi uma alegria dizer a ele que a edição da BRIC XXII - onde AC escreveu um histórico artigo sobre a convivência do grupo Noigandres com os poetas modernistas (especialmente Oswald e Mário, os Andrades) nos anos 50 - foi dedicada ao nosso Luis Eduardo Resende, o Resa, poeta-visual, eterno parceiro e inventor-criador gráfico do projeto da Bric.
Resa partiu cedo demais. Acendeu a vela por ambos os lados. Augusto é apaixonado pelo seu traço/trabalho gráfico e chegou a dedicar-lhe uma belíssima apresentação para seu principal catálogo.
Aproveito e falo da edição da revista em Beagá, da ilha de edição, dos novos parceiros: o diretor gráfico Romulo Garcias, que reinventou o traço briqueabraqueano; e do poeta-arquiteto João Diniz, com seu grafismo espalhando-se por Belo Horizonte.
AC guarda boas recordações de Brasília, onde recebeu de forma descontraída o título de Cidadão Brasiliense, outorgado pelo então reitor da UnB, Cristovam Buarque e os poetas da cidade, entre os quais Francisco Alvim, Nicolas Behr e eu.
Décio Pignatari e o irmão Haroldo de Campos (ambos também nesta Bric); além do carioca de Copacabana José Lino Grünewald; e Ronaldo Azeredo, nascido e criado em Vila Isabel, terra de Noel, autor do poema concreto “velocidade”, o mais jovem poeta concreto participante da exposição “Arte Concreta” do MAM de SP, e irmão de Lygia Campos - esses são os parceiros que provocam intensas lembranças vivas nas memórias de AC.
Augusto falou prazerosamente sobre a possível publicação de uma caixa (obras completas) com poemas e peças do Ronaldo que, ainda está em projeto, na busca de patrocínios. “Quem sabe agora, com a volta de um governo que dá importância à memória e a cultura poética brasileira”.
Outro nome lembrado no papo regado a café com delicioso bolo, foi o do professor Boris Schnaiderman, da USP, que junto aos irmãos Campos traduziu e popularizou para o português-brasileiro poemas de Maiakovski e dezenas de outros russos.
A esta altura da conversa, elogiando o vozeirão de Maiakovski e destacando suas performances conseguidas a base de muitos ensaios, para dizer poemas à multidão no período bolchevique da revolução russa; Augusto se empolga, não resiste e recita em russo o poema do Sol. Um momento de comovente emoção.
Nunca visitei Augusto e Lygia Campos – foram dezenas de visitas no passado, sempre em Perdizes - sem sair do apartamento deles com pelo menos um livro novo de presente. AC sempre foi profícuo na produção editorial. Desta vez, saímos com dois livros, um autografado; além de um lindo postal do colorido poema “dias dias”.
Os dois livros são: Irmãos Hispanos, Extraducões, poemas de Federico Garcia Lorca e outros poetas hispânicos, edição da Galileu de Florianópolis; e o extraordinário livro-CD Entredados, poemas musicados de Mallarmé, Maiakóvski, Lewis Carrol, James Joyce, Gregório de Matos, Ezra Pound e o próprio AC. A parceria deste trabalho é com seu filho Cid Campos; baixista e guitarrista de primeira linha. Há também participações especiais de Décio Pignatari e Haroldo de Campos.
Enfim, foi nesse embalo de encantamentos poéticos, que o tempo passou e ninguém se deu conta. Ricardo e sua parceira se foram antes – tinham compromissos. A pauta era vasta, a saudade imensa. Muitas coisas foram faladas, outras esquecidas. Mas uma frase-poema martelou em nossas cabeças-corações ao fim da visita.
“Movimentos, movimentam”, bradou Augusto citando Décio. Quanto orgulho em tê-lo em praticamente todos os números das infinitas Bric a Bracs.
Saímos de Perdizes, mas achados do que nunca.

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(*) Luis Turiba, poeta e editor da revista Bric a Brac.
Criado em 2022-11-20 08:46:47
Romário Schettino -
A presidente do Serviço de Limpeza Urbana do Distrito Federal, engenheira Kátia Campos, defende a função social da coleta do lixo e vê como responsabilidade do Estado a execução de políticas públicas no cumprimento do que determina a legislação federal.
“A desativação do Lixão da Estrutural faz parte desse entendimento e tudo está sendo realizado com esse objetivo”, diz ela. Nessa entrevista, Kátia explica o processo desencadeado pelo GDF e garante que os catadores não serão prejudicados, pelo contrário, terão a proteção do Estado para trabalhar com dignidade na prestação de um serviço fundamental para a sociedade brasiliense.
Como em Brasília não é viável economicamente a reciclagem de vidro, um decreto do governador, previsto para fevereiro, vai reduzir o ICMS de 18% para 1% com o objetivo de estimular a instalação desse tipo de empresa para aproveitamento de recicláveis no DF.
Com a inauguração, dia 17 de janeiro, do aterro sanitário de Samambaia, o que o SLU tem a dizer agora sobre o calendário de desativação do Lixão da Estrutural?
Katia – O aterro é a peça chave, sem ele não teríamos como iniciar o processo de desativação do Lixão da Estrutural, previsto em lei federal. A ideia é continuar levando para o aterro sanitário apenas o rejeito. O que é isso?
Depois que você coleta o lixo, retira o seco para a reciclagem dos catadores [papel, plástico, papelão etc], aquilo que tem viabilidade técnica, econômica e financeira; tira o lixo orgânico para fazer o composto, que é uma espécie de adubo que os agricultores utilizam em suas plantações e o rejeito, que não tem viabilidade de aproveitamento, é enterrado com a tecnologia empregada no Aterro Sanitário de Brasília.
E o trabalho dos catadores que vivem do Lixão?
Kátia – Nós vamos construir agora cinco novas centrais de triagem. Três com recursos do BNDES (R$ 20 milhões), duas com recursos do GDF e ainda reformar duas, que hoje atendem cerca de 25 pessoas, e que passarão a atender mais 180 pessoas. Com essa ampliação, teremos mais 1.500 postos de trabalho para os catadores em um único turno. À medida que a coleta seletiva for aumentando é possível ter mais turnos de trabalho e mais trabalho para os catadores.
Onde serão instaladas essas centrais?
Kátia – Uma delas será na Ceilândia, dentro da área do SLU, onde já tem uma usina de compostagem; uma na L4 Sul, onde tem outra usina; duas no SIA, perto da Cidade do Automóvel, que serão reformadas; e as outras três serão construídas também nessa mesma região com os recursos do BNDES. Atualmente, temos oito associações de catadores trabalhando em locais protegidos, com teto, banheiros, etc.
Na Ceilândia temos duas cooperativas em operação. Para as outras cooperativas que estão fora do Lixão, o SLU está fazendo chamada pública, desde o início de janeiro, para serem contratadas e pagar catadores no serviço de triagem. Esses trabalhadores precisam estar cadastrados, formalizados perante o Estado para que possam receber segundo sua produtividade.
Quanto eles ganharão por tonelada?
Kátia - O preço gira em torno de R$ 96 a tonelada. Eles comprovam o trabalho e a comercialização, que é deles, e o SLU paga pelo serviço. É uma atividade pública remunerada. A partir de fevereiro vamos passar a contratar as cooperativas que conseguirem comprovar a documentação exigida.
Alguns catadores alegam que essa mudança não lhes garante ganhar o que já recebem hoje no Lixão. Como afirmar que essa renda será mantida?
Kátia – Hoje o SLU já contrata quatro cooperativas para fazer coleta seletiva em cinco Regiões Administrativas: Samambaia, Santa Maria, Recanto das Emas, Candangolândia e Brazlândia. Cada uma recebe cerca de R$ 32 mil por mês, tudo regularizado. Este ano vamos ampliar esse número para fazer triagem e novos contratos para fazer a coleta seletiva e outras regiões do DF.
Então, o mercado de trabalho e renda pode crescer?
Kátia – É prioridade e faz parte da legislação de saneamento e de resíduos sólidos, contratar os catadores.
O fato de esses catadores morarem na Estrutural não vai prejudicar o seu deslocamento?
Kátia – As duas centrais reformadas e as três que serão construídas estão dentro da área da Estrutural. A questão é saber quantos fazem parte dessa mão-de-obra, já que é flutuante. Em julho do ano passado o número de catadores no Lixão quase que triplicou.
Eu estive lá e vi que aquilo parecia uma Serra Pelada. Nesse período houve demissão na construção civil e o contingente de trabalhador com menor qualificação correu para o Lixão. Nosso controle na portaria demonstra que há pessoas que trabalham esporadicamente e outras que são mais assíduas. O número de regulares vai de 800 a 900 catadores. Quanto maior o desemprego, maior o número de catadores. O reflexo é imediato. Brasília tem mais 300 mil desempregados.
Essas centrais não ficarão prontas imediatamente. Enquanto isso, como vão sobreviver os catadores?
Kátia – Estamos trabalhando para entregar sete centrais; quatro até final de 2017 e três no final do primeiro semestre de 2018. Enquanto isso, eles vão continuar trabalhando no Lixão. Aqueles que se cadastraram para capacitação terão uma ajuda de custo de R$ 300 por mês, durante um ano. Assim, eles deverão frequentar um curso de 12 horas/mês para aprender como sair de cima da montanha de lixo e trabalhar em lugar decente, com dignidade.
Uma coisa não substitui a outra. Frequentar o curso não impede o catador de continuar trabalhando no Lixão?
Kátia – Não, de jeito nenhum. Enquanto todas centrais não estiverem concluídas, o Lixão continuará funcionando. Isso fez parte do acordo que fizemos com os catadores. Hoje temos 900 inscritos. Em fevereiro teremos mais 600.
O governo pretende ainda incluir mais 1.200 bolsistas por meio de projeto de lei a ser enviado à Câmara Legislativa. A questão é que essa bolsa é para quem está no bolsa família, não é para quem comprovadamente ganha R$ 4 mil por mês, esses estarão fora desse atendimento. Tem gente lá no Lixão que trabalha como atravessador e gaba de tirar até R$ 16 mil por mês, isso não é um problema social do Estado.
Essa pessoa invade espaço público, explora os catadores e se beneficia da miséria alheia. Quando percebem que o Lixão será fechado, usam essas vítimas como bucha de canhão para fazer resistência.
Qual é o calendário verdadeiro, real?
Kátia – Em 2017 vamos inaugurar quatro (duas novas e duas reformadas) e no ano que vem, três. Começamos o trabalho em 2015, inauguramos o aterro em 2017 e, em 2018, concluímos com o fechamento do Lixão.
O vidro é considerado rejeito ou reciclável?
Kátia – Em Brasília não há viabilidade para a reciclagem de vidro. Levar um caminhão de vidro até São Paulo não compensa nem o valor do combustível. Por isso, o vidro entra como rejeito, quando deveria ser reciclado. Em fevereiro, o governador vai publicar um decreto reduzindo o ICMS de 18% para 1% para estimular a instalação de indústria de reciclagem no DF. Isso já passou no CONFAZ.
E a coleta seletiva?
Kátia – Em 2014 o GDF fez licitação para fazer coleta seletiva em 100% do DF, supondo que todo o lixo seria igual. O lixo de Águas Claras, por exemplo, tem 70% de reciclável. Na Cidade Estrutural, tem apenas 20%, isso depende da renda, claro.
Em março de 2015, a primeira empresa contratada desistiu do serviço. Em setembro, a segunda foi embora porque o volume estimado não compensava o investimento. Hoje, temos nove regiões administrativas com coleta seletiva por uma empresa chamada Valor Ambiental, e cinco RAs por associações de catadores. Isso representa 60% da população do DF.
E nas outras 17 cidades?
Kátia – São catadores autônomos que fazem a coleta seletiva. Há famílias inteiras trabalhando na coleta de papelão, plásticos etc. 85% desse lixo coletado é comprado por uma pessoa chamada Jair, que tem uma empresa de nome Capital Recicláveis, que fica ao lado da Estrutural. Ele tem 20 mil metros quadrados de área e equipamentos de prensa importados da Alemanha.
85% do que ele compra no DF vem de pessoas pobres ou proprietários de caminhões que vivem de catação. Até o final do ano o SLU pretende implantar a coleta seletiva em 100% das cidades.
O que você diria aos catadores nesse momento de angústias reveladas em várias matérias de imprensa?
Kátia – É natural que haja preocupação de todos e as reivindicações são legítimas. Nós estamos rigorosamente cumprindo a lei dando prioridade aos catadores e não nos furtamos ao diálogo. Isso significa também que é preciso capacitação, regularização da documentação das associações e cooperativas.
O que existia em 2015 era uma situação, em 2018 será outra completamente diferente. O processo é necessário para dar dignidade a quem trabalha e preservar o meio ambiente.
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Perfil de Kátia Campos

A presidente do Serviço de Limpeza Urbana do Distrito Federal, engenheira Kátia Campos, tem especialização em engenharia sanitária e ambiental pela UFMG e mestre em Desenvolvimento Sustentável pela UnB.
Foi Superintendente de Limpeza Urbana de Belo Horizonte, Secretária de Parcerias do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, oficial de Projetos do UNICEF.
Idealizadora do Fórum Nacional Lixo e Cidadania e da campanha “Criança no lixo nunca mais” e consultora do Ministério do Meio Ambiente na área de gestão dos Resíduos Sólidos Urbanos.
Kátia foi consultora do BID, da Fundação Vale e diretora da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental – ABES DF.
Criado em 2017-01-20 02:25:33
Geniberto Paiva Campos -
Dispensável jogar búzios ou tarô. Consultar os astros. O destino dos homens parece vir marcado, em definitivo, desde seu nascimento. É inexorável. Os grandes homens, e aqueles menores, irão cumprir o papel que a vida lhes reservou. Como se estivesse escrito nas estrelas.
A política, às vezes, tem o dom de revelar, com indiscutível transparência e veracidade, a vocação para a grandeza ou a miséria humanas.
A crônica política brasileira contemporânea oferece vários exemplos que sustentam essa tese. Graças ao nosso irredutível apego ao sistema presidencialista. Especificamente, o desafio parece ser colocado para os que aceitam exercer a difícil função de vice-presidente da república.
Uma categoria que poderia ser acrescentada ao poema “ O Desespero da Piedade”, de Vinicius de Moraes: “tende piedade, Senhor, dos vice-presidentes, pois eles almejam exercer, a qualquer custo, o cargo dos titulares. Alguns, irresistivelmente, tornam-se traidores por profissão”.
As lições da história - sempre temos o que aprender com a História. A saga dos vice-presidentes torna-se mais evidente a partir de meados do Século XX. Poderíamos começar com Café Filho, um político progressista de origem nordestina.
Vice de Getúlio Vargas, Café Filho se envolveu na conspiração udenista para afastar Vargas do poder. Conspiração que resultou no suicídio de Vargas, gerando uma crise política talvez sem precedentes no país. Getúlio Vargas “deixou a vida para entrar na História”. Para muitos brasileiros uma das maiores expressões políticas do século passado.
O vice Café Filho assume, e logo em seguida é deposto. O presidente da Câmara, Carlos Luz, dirige interinamente o país, até a eleição do novo presidente. Café Filho foi devidamente esquecido, passando a ocupar os desvãos da História.
Em sequência, ocorre a eleição de Juscelino Kubitschek, tendo como vice João Goulart, o líder trabalhista Jango. Após algumas tentativas desastradas de golpes de estado, o Brasil retoma um ritmo de paz e desenvolvimento, o qual caracterizou o período JK.
Este mantinha uma convivência correta com o seu vice. JK é sucedido pelo ex-governador de São Paulo, Jânio Quadros, tendo como símbolo de sua campanha uma vassoura, para “varrer a corrupção do país”.
Seu vice, eleito separadamente de JQ, era, novamente, Jango. Os dois se toleravam. Em agosto de 1961, após sete meses de um governo instável e sinuoso, para surpresa de todos, JQ decide renunciar. Atitude cujos verdadeiros motivos, ainda hoje, são incertos.
Os ministros militares vetam a posse de Jango, abrindo uma séria crise político-institucional. Jango somente pode assumir como presidente de um regime parlamentarista. Tempos depois recupera seus poderes presidencialistas, sendo deposto por um golpe de estado em 1964.
No início do período da redemocratização, pós - governos militares - em 1985, o presidente eleito no Colégio Eleitoral, Tancredo Neves, morre às vésperas da sua posse, sendo substituído pelo seu vice, José Sarney. O qual consegue fazer, com êxito, a transição para a democracia.
Na primeira eleição direta do período democrático, é eleito o ex-governador de Alagoas, Fernando Collor, tendo como vice-presidente Itamar Franco.
Novamente, um outro presidente não consegue completar o seu mandato. Collor, o Caçador de Marajás, é afastado pelo Congresso Nacional. Itamar, que não participara das tratativas para o impedimento de Collor, assume e faz um governo curto, porém marcante: controla a inflação e institui uma moeda sólida, o real. Colocando o Brasil numa nova perspectiva política e econômica. Fez um grande governo.
O governo seguinte Fernando Henrique Cardoso, presidente e o pernambucano de alta estirpe política, Marco Maciel, como vice-presidente, comandam o país por dois mandatos seguidos (1995/2002). E fecha o ciclo dos governos liberais. Sem maiores turbulências na relação entre o presidente e o seu vice.
O ano de 2003 começa com uma grande inovação na política: pela primeira vez, um retirante nordestino, Luis Inácio Lula da Silva, de origem operária, líder sindical, chega, pelo voto direto, à presidência da república. Seu vice, José Alencar, empresário mineiro, dá inevitável conotação simbólica à chapa vitoriosa: representantes do empresariado e da classe operária se unem para comandar o Brasil, por dois mandatos (2003/2010).
Implantando políticas progressistas e inclusivas.. Também sem turbulências em sua gestão. José Alencar, mineiro da melhor estirpe, se revela um político leal e correto.
Na eleição seguinte ocorre a terceira vitória seguida da coalizão PT/PMDB. A petista Dilma Rousseff é eleita, tendo como vice o representante da elite paulista, o político e advogado Michel Temer, um dos líderes do PMDB. Professor universitário (de Direito Constitucional!) e ex-presidente da Câmara dos Deputados.
Reinaugura-se um novo período de turbulência e deslealdade nas relações presidente x vice.
Mais uma vez, o vice conspira e decidir trair. Como fazer para ressuscitar o projeto neoliberal, repudiado pelo eleitorado brasileiro quatro vezes seguidas?
Simples: implodindo a coalizão presidencialista e cooptando o vice para exercer a presidência da república. Implantando, com todo o cinismo e desfaçatez possíveis - e uma estranha pressa - o projeto derrotado seguidamente nas urnas. Exemplo clássico de estelionato eleitoral.
Qual o manual golpista a ser obedecido? Simples também: Washington recomenda, e já está colocando em prática na América Latina, o “Manual do Golpe Suave”. Descrito com maestria por Aldo Arantes, em seu novo livro “Reforma Política e novo projeto para o país”.
Diz Aldo Arantes: “no manual, intitulado “Da Ditadura à Democracia”, Gene Sharp (guardem esse nome) descreve os passos para se alcançar a derrubada de governos, no atual modelo golpista:
-Promova ações para gerar um clima de mal-estar social, com a colaboração da mídia;
-Faça denúncias, fundadas ou não, para debilitar a base de apoio do governo e criar um descontentamento social crescente;
-Promova luta de rua, com reivindicações políticas e sociais que se confrontem com o governo;
-Combine diversas formas de luta para criar um clima de ingovernabilidade;
-Se for necessária a fratura institucional, realizá-la com base em manifestações de rua e ocupação de instituições públicas, pronunciamentos militares até a renúncia do presidente.
Fica evidente a necessidade de apoio de outras instituições para o êxito completo do “Golpe Brando”, na tomada do Poder Executivo: Judiciário, Legislativo e a Mídia são elos fundamentais da corrente golpista.
Creio não ser necessário “desenhar” para que o processo empregado no Brasil se torne mais evidente para todos nós.
A adesão do vice-presidente ao esquema foi essencial para dar características de “ legalidade” à tomada do poder, tornando desnecessária qualquer tipo de consulta popular.
Como dizem os jornalistas que fazem uma comunicação honesta e baseada em fatos: o que faz um professor de Direito Constitucional aderir a um esquema tão perverso e tão estúpido em seus fundamentos?
O professor Michel deve estar convencido que o povo brasileiro forma uma “Confraria de Tolos”. Não passam de beócios, fáceis de enganar. Acreditam, portanto, que as medidas suicidas do “novo governo” são corretas e salvadoras.
Que o povo vai assistir quieto e passivo ao assalto às riquezas do país, aos direitos trabalhistas, ao estado de direito, às liberdades públicas. E que, tão tolo é, que estaria disposto a pagar para ter direito a um emprego. Enfim, pagar para trabalhar. Aposentadoria? Nem pensar.
Deverá acompanhar, quem sabe com aplausos e entusiasmo cívico, a rápida destruição do seu país. Finalmente, transformado numa nação vira-lata. Sonho neoliberal.
Pois muito se engana o pobre professor Michel. Como diz a sabedoria coletiva, o povo não é bobo. Sobretudo diante de tanta tolice de asnos neoliberais que se imaginam raposas, como afirmou Mino Carta.
Não é bem assim que as coisas funcionam. A História há de lhe cobrar explicações, professor.
Pobre Michel, ficará na vala comum em que se acotovelam Calabar, Silvério do Reis e outros traidores da Pátria.
O povo brasileiro não lhe concederá perdão ou descanso. Como afirmou um militar brasileiro de alta patente e sabedoria: “A História não fala bem dos traidores”.
Criado em 2017-01-02 20:29:27
Obra do pesquisador da ditadura civil e militar no Brasil, Renato Dias, faz uma viagem da luta armada à transição tardia brasileira. O livro, Eles que amavam tanto a revolução, recebeu prêmio da Caixa de Assistência dos Advogados do Rio Grande do Sul, da Ordem dos Advogados do Brasil, da União Internacional dos Trabalhadores da Alimentação Regional Latino-Americana e da Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos [RS].
Para escrever o livro premiado autor descreve o ano de 1968 a partir de viagens a Paris, Praga, Berlim, Londres, New York, Cidade do México, Buenos Aires, Montevidéu, Santiago, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte. Além disso, vasculhou documentos em Goiânia e entrevistou Marcelo Ridenti, Luiz Groppo, Lincoln Secco, Osvaldo Cogiolla, Markus Sokol, Lenine Bueno, Pedro Tierra, José Dirceu, Jean-Marc von Der Weid, Athos Magno Costa e Silva, Fausto Jaime, Euler Ivo Vieira.
Renato Dias ganhou o 39° Prêmio Latino-Americano de Jornalismo e Direitos Humanos, em primeiro lugar na categoria Grande Reportagem com a obra Eles que amavam tanto a revolução [2022]. O autor obteve também Menção Honrosa pela Caixa – Box Tempos Sombrios.
A coleção Caixa _ Box Tempos Sombrios traz histórias dos desaparecidos políticos em Cadáveres Insepultos, Feridas Abertas na América Latina, Facínoras também morrem, obituários do cabo José Anselmo dos Santos, Major Curió, general Newton Cruz. Essas obras podem ser adquiridas por Whatsapp 62-9-8125-6779 ou por e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
Quem é Renato Dias
Renato Dias, 54 anos, é graduado em jornalismo, formado em Ciências Sociais, com pós-graduação em Políticas Públicas, mestre em Direito e Relações Internacionais, aluno extraordinário do Doutorado em Psicologia Social, estudante do Curso de Psicanálise do Centro de Estudos Psicanalíticos do Estado de Goiás, ministrado pelo médico psiquiatra e psicanalista Daniel Emídio de Souza. É autor de 20 livros-reportagem, oito documentários, socialista e militante trotskista.
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Leia também no Portal de Notícias:
https://renatodias.online/movimento/2022/11/30/renato-dias-ganha-premios-latino-americanos/
Criado em 2022-12-01 06:34:24
ACQ*
I – Anjos
Não se pode fiar em anjos
de candura e guarda em Brasília
Pensos em fios finos de aço
são feitos de prata e alumínio
como os rijos traços de sonho
da Capital – agora triste –
bem parida mas sequestrada
e criada sob relho em riste
II – Hic sunt dracones
Não são anjos – são dragões!
De suas cadeiras avançam
e esvoaçam sobre os Eixos
para predar a Esperança
que sepultam no campo dela
ou mudam em pó no paraíso
do Entorno – na vizinhança
de um esquálido Céu Azul
III – Da mesma matéria dos sonhos
Antes de velar Clóvis Sena,
suave poeta e repórter
eu soube que ao chegar
pelo Eixão Sul todos os postes
se curvaram cordialmente
para o acolher com a mala
& cuia & sonhos na cidade
de sua derradeira escala
IV – Venturis ventis 1
De sonhos se vive no DF
– Venturosos Ventos que Virão –
De Dom Bosco a fantasia
De JK a invenção
Desvarios do Lúcio Costa
Do Niemeyer delírios
Fábulas do Athos Bulcão
Devaneios leves do Anísio
V – Venturis ventis 2
E do Darcy doces quimeras –
Tantos sonhos – tontos sonhos –
mitos do País do Futuro
do Zweig, sonhoso dantanho
que impaciente com a chegada
de uma romântica Aurora
quis virar pedra em Petrópolis –
Variava com víboras veras
VI – Em se plantando… já!
Só quem deita no berço esplêndido
da Era de Ouro do passado
ou do Futuro Radiante
pode alucinar despertado
Vale mais semear agora
pra já colher miúdas graças
pois do futuro ninguém sabe
e o passado nos ameaça
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* Poema concebido em 2 de junho de 2018, reescrito em 19 de abril de 2020, e reeditado em 11 de outubro de 2020
Fundo musical - Marc Teicholz, violão, 05/02/2012, Chopin, Prelúdio Op. 28 nº 4 em Mi Menor (Sufoco)
Criado em 2020-10-13 01:04:36
Alexandre Ribondi –
Os momentos mais explícitos e contundentes do documentário Indianara são os silêncios. Sem narrador e sem grandes explicações verbais, econômico nas falas das pessoas retratadas, com direção da francesa radicada no Brasil Aude Chevalier-Beaumel e de Marcelo Barbosa, o filme mostra com detalhes às vezes cirúrgicos, às vezes poéticos e comoventes, a luta diária de Indianara Siqueira na Casa Nem, um abrigo carioca para pessoas transexuais e travestis.
“A vitória será minha quando os miseráveis e os diferentes se unirem”. Indianara lê a frase numa carta que havia escrito anos antes e que estava perdida em um saco de papéis e fotos antigas, que ela põe no fogo num ritual de louvor ao presente e esquecimento do passado. “Isso eu devo ter escrito num dos momentos que tentei suicídio”, ela explica logo em seguida, com um sorriso no rosto, sem se abalar.
Ela se apresenta como puta, travesti, vegana e militante, e também como a última mãe dos desvalidos que trabalham nas ruas do Rio de Janeiro e que, de noite, não têm onde dormir. Na Casa Nem, todos se unem, participam de jogos, de pequenas apresentações cênicas. Alguns aprendem a ler.
Documentários como Indianara parecem ter aprendido a fazer cinema com a grande experiência do cinema mudo. Dispensam as palavras e narram os acontecimentos e a vida com a força e a luz das imagens. A sequência final, em que ela e outra mulher entram em um prédio abandonado e sujo, depois de terem sido expulsas da casa na Lapa, não tem narração ou fala que explique o que está acontecendo. Mas o olhar das duas mulheres que observam o imenso espaço vazio tem uma beleza capaz de ensinar o telespectador através da pele e do ar que se respira.
O mesmo acontece com os minutos do documentário dedicados ao assassinato da vereadora Marielle Franco, em 2018, num crime que até hoje está sem solução. Para descrever o momento, lágrimas. O mesmo acontece quando, na televisão, é anunciada a vitória nas urnas do candidato Jair Bolsonaro. Depois do silêncio e na indignação estampados nas caras, a tela do aparelho televisor, colocado numa sala suja, com paredes grafitadas, é coberta por uma mulher magra que, em pé, rodopia e declama um monólogo, provavelmente improvisado, sobre a vida dos travestis e transexuais assassinados ao longo de 2018.
O filme também mostra o casamento de Indianara com o seu marido, um homem cis, portador de HIV. É ele, aliás, quem lê na parede externa da Casa Nem a frase: “Nem Deus, nem Estado, Nem Marido, Nem Patrão”. E conclui: “com certeza, foi a Indianara quem escreveu isso. Mas eu sou o marido!”.
Indianara mostra a vida e a militância à esquerda da esquerda. Ela se apresentou, em determinado momento, como candidata a vereadora, com forte possibilidade de sair vencedora, mas foi afastada da corrida eleitoral pelo seu partido, o PSol, que ela acusa de “escroto e hipócrita” em praça pública, de microfone na mão. E é disso que o filme se trata.
Desde os anos 1970, quando foram dados os primeiros passos da luta homossexual, surgiu o gay burguês assumido, da classe média branca, que cultiva o preconceito e a segregação. Passou a considerar os travestis e as bichas loucas como a pedra em seu sapato, que ele usa para ser aceito pela sociedade. Indianara e suas meninas, que ocupam casas abandonadas e levam suas roupas em sacos de lixo, gritam para incomodar. Porque ou a revolução será feita pelas mulheres, pelos pretos e pelos homossexuais ou será apenas uma farsa bem comportada.
O filme já foi apresentado no festival de Cannes e em mostras no Brasil e pelo mundo afora. Pode ser visto nas plataformas digitais Now, Google Play, iTunes, Looke, Vivo Play e Amazon. A partir de 5/7, estará disponível na plataforma Mubi em 195 países.
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Ficha técnica:
Título do documentário: Indianara
Duração: 1h24
Direção: Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa
Roteiro: Marcelo Barbosa, Aude Chevalier-Beaumel e Michele Frantz
Trilha sonora: Malka Julieta, Nicolau Domingues e Lucas Porto
Diretores de fotografia: Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa
Montador: Quentin Delaroche
Criado em 2020-06-26 15:09:06
Marcos Bagno -
foram milhares de vozes
em perfeita entoação
era um coro que ecoava
- ele não!
falaram ao mar bravio
junto da rebentação
das ondas que repetiram
- ele não!
arderam sob o sol rijo
do seco céu do sertão
queimadas de azul disseram
- ele não!
pelo infinito planalto
espalharam seu refrão
e o cerrado agradeceu
- ele não!
percorreram as lavouras
semearam a razão
colheram uma certeza
- ele não!
desmantelaram as cercas
não respeitaram mourão
desafiaram divisas
- ele não!
eram vozes de mulheres
malha unida, um milhão
teia tecida sem falha
- ele não!
invadiram as cidades
convocando a multidão
que, brava, reverberou
- ele não!
bastou aquele pronome
seguido da negação
era um nome inominável
- ele não!
o mundo escutou as vozes
e fez a justa eleição
venceram, sim, as mulheres
- ele não!
Criado em 2018-09-27 00:16:17
Sandra Crespo -
Quando voltarmos ao Brasil, no próximo dia 20, teremos completado sessenta e seis dias fora de casa.
Nesse tempo longe, eu tentei fugir de todo o absurdo que tomou conta do meu país desde que as pessoas enlouqueceram - ao acreditar piamente nas mentiras diuturnas da Globo e nas mamadeiras de piroca.
O problema é que descobri muito tarde que é impossível fugir. A gente sai do Brasil, mas a porra do Brasil não nos larga; parece uma morrinha que agarra na pele. A gente fala em outras línguas, come outras comidas, toma vinho bom... e usa chuveiro de telefone hehehe... mas a morrinha persiste, parece um cecê!
A gente pensa que toma distância, mas a toda hora vê o Brasil lá, gritando na outra ponta da Place de République, da Puerta del Sol, de Gracia. Gritando dentro do peito feito louco por causa do Jean Wyllys, que teve de ir embora depois de tanta vibe ruim. (Jean é o primeiro exilado político de um Brasil que abdica de seus sonhos).
No dia seguinte, vamos curtir: Paris tem neve, ebaaa!... mas, que nada: no meio do caminho, tem uma pedra. Brumadinho é soterrada pela lama tóxica da porra da Vale. Então a gente não consegue pisar na neve, a gente atola. Cadê neve? Cadê Minas? A gente só vê corpos sob lama...
Haja Marais (de quantas revoluções precisamos?); haja metrô rumo à rive gauche, à droite, de cima abaixo, partout...
E nem bem desembarcamos numa estação e trombamos com outra notícia horrível. Lula não poderá se despedir de Vavá, seu irmão, que partiu depois de tanto penar, sofrendo de câncer.
Tenho uma sensação de pesadelo: estou mergulhada num pântano, pernas e braços amarrados em galhos mortos que me impedem de emergir para respirar.
Daí, eu choro tanto. As ruas tão lindas de Paris não me consolam. E não tem Sartre, nem Simone. Nem Victor Hugo, nem Camus, nem Josephine Baker... nem mesmo Monet ou Toulouse Lautrec, ou nenhum outro deus poderoso que eu evoque quando visito essa cidade tão linda. Nenhum deles pode me dar agora nem mesmo uma mãozinha pra seguir sorrindo, e dizendo à vida: soit bienvenue!
À Paris, moi, je dis au revoir tristement.
E volvemos à la España, olé! Aqui, também muita comida buena, muitos queridos, tanto vino... e outras notícias ruins: a polícia, que já mata a rodo, agora pode assassinar à vontade - o juizeco Moro garante! No mais, o Estado laico está morrendo, assim como o humanismo. Até na Europa isso acontece debaixo do meu nariz.
Então, o importante mesmo é que meninos vistam azul e meninas continuem vestindo vermelho sangue.
Vou voltar. Sei que ainda vou voltar... para o meu lugar...
Vou voltar... para a minha casa, pra minha praia: o Inferno. Quantas saudades!
O Brasil é um inferno lindíssimo.
Criado em 2019-02-10 16:41:11
Zuleica Porto -
“É preciso aprender a resistir. Nem ir, nem ficar, aprender a resistir”. (Julián Fucks, “A resistência”, pág. 79).
Inicio a escritura deste texto numa quarta-feira, 10 de outubro de 2018. De hoje a 18 dias, o povo brasileiro comparece às urnas para decidir o seu destino – a vida ou a morte, a civilização ou a barbárie, a liberdade ou a opressão. Há uma enxurrada de textos na internet, alguns deles memoráveis, que discorrem sobre o momento presente. Sobraria qualquer texto que me atrevesse a escrever sobre o assunto. Não sou exatamente uma conhecedora da política e seus meandros, tampouco sou cientista social, historiadora ou filósofa. Sou uma modesta estudiosa da área de Literatura, e o meu ponto de partida é o livro do Julián Fucks, ganhador do Prêmio Jabuti de Melhor Romance em 2016.
Mas não é a análise literária do romance de Fucks que me move agora. É sobre o ato de resistir. Em entrevista concedida à revista Época durante a Festa Literária Internacional de Paraty do ano passado, quando o Brasil gritava “Fora Temer”, o escritor defendeu uma “literatura ocupada”: “sinto que cada tempo pede um tipo de literatura. Hoje é o momento de uma literatura ocupada pelas questões mais relevantes do momento. Vivemos uma realidade aguda, percebemos uma tendência ao retrocesso e à violência (argumentativa, inclusive) e a literatura deve dar uma resposta a isso. (...) se deixar ocupar por esses discursos, participar desses discursos de emancipação e combate às violências que estamos vivendo”.
É bom lembrar que ainda estávamos longe, pouco mais de um ano atrás, da espiral de violência desmedida e assustadora que se espalhou pelo país nos dois últimos meses, quando uma parcela significativa da população aderiu a uma onda bárbara de culto ao ódio e à morte, brandindo armas em carreatas e votando com o cano de um revólver, espancando homossexuais, mulheres, professores, apoiadores do candidato democrata, culminando com o assassinato, com 12 facadas, de um senhor de 63 anos, Mestre de capoeira, o Moa do Katendê. Na certidão de nascimento (e no atestado de óbito), era Romualdo Rosário da Costa. Além de capoeirista conhecido e amado na Bahia, era ativista em defesa da cultura e do povo negro, atuando pela qualidade de vida da população mais vulnerável. A população que na Bahia, como na maioria dos estados brasileiros, é predominantemente negra. O crime de Moa? Declarar seu voto no candidato do Partido dos Trabalhadores.
Diante de tal cenário, Resistência é a palavra, qualquer que seja o resultado das urnas. Pois, se vitoriosos, os fascistas matarão impunemente a quem lhes aprouver. Derrotados, alimentados pelo ódio e o ressentimento, a resposta será a mesma. Portanto, cabe a reflexão: o que é resistir? Durante os anos de chumbo, quando a violência era praticada pelo Estado, houve um êxodo de pessoas, a maioria muito jovens, para fugir da prisão, da tortura e da morte. Outra leva resistiu por aqui mesmo, por escolha ou falta de.
E agora volto à citação com que abri esse artigo: o que importa não é ir nem ficar, mas aprender a resistir. E o que é resistir? Fucks faz é uma série de questões sobre o assunto: “quanto em resistir é aceitar impávido a desgraça, transigir com a destruição cotidiana, tolerar a ruína dos próximos? Resistir será aguentar a queda dos outros, e até quando, até que as próprias pernas desabem? Resistir será lutar apesar da óbvia derrota, gritar apesar da rouquidão da voz, agir apesar da rouquidão da vontade? É preciso aprender a resistir, mas resistir nunca será se entregar a uma sorte já lançada, nunca será se curvar a um futuro inevitável.”
A leitura atenta desse pequeno trecho revela, na escolha dos verbos – aceitar, transigir, tolerar, aguentar, lutar, gritar – que a passividade vai dando lugar à ação. Ele não diz o que é resistir, mas afirma o que resistir nunca será: se entregar, se curvar.
O que será resistir, cada um e cada uma descobrirá por si, aprenderá a sua própria maneira, inventará sua própria receita. Resistente desde o nascimento (quase não sobrevivo a um parto difícil, o feto que eu era entrou em sofrimento, vim ao mundo por meio de uma cesariana então rara), inventei desde cedo as minhas formas. Como amar a literatura, a escritura, contando com um olho só. A perda do outro foi uma sequela do nascimento difícil. Desfrutar das artes plásticas, da natureza como quem “come” as cores e formas.
Voltando a Fucks, lanço aqui a pergunta do escritor, com a pergunta lançada pelo escritor aos eventuais leitores de seu romance, que me alimenta nesses dias estranhos: “Quanto do aprender a resistir não será aprender a perguntar-se?”
Dedico este texto a uma vítima desta onda de intolerância e ira, Mestre Moa do Katendê
Criado em 2018-10-11 00:55:01
Periquito-rei (Eupsittula aurea) - Mede cerca de 27 centímetros e pesa 84 gramas. Tem a cabeça verde com uma faixa dianteira cor de pêssego, face azulada, ventre verde-amarelado. A região ao redor dos olhos, nos adultos, é laranja; e, nos juvenis, é cinzenta. É também conhecido como periquito-estrela. Gosta de comer as sementes das frutas. Procura por mangueiras, jabuticabeiras, goiabeiras, laranjeiras e mamoeiros. Aprecia, também, os mulungús (Erythrina sp). O período reprodutivo ocorre de setembro a dezembro. Faz o ninho nos troncos ocos de palmeiras ou de outras árvores, em buracos de rochas, em barrancos ou cupinzeiros. A postura é de três ovos. Vive em vários habitats, no cerrado, na mata secundária, em campos de cultura, buritizais e manguezais, até 600 metros. Em alguns lugares é considerado praga nas plantações. Vive em casal, que permanece unido por toda a vida. É comum vê-lo em bando. Pode ser encontrado da margem sul do rio Amazonas até o Paraná, desde as Guianas até o leste da Bolívia, extremo leste do Peru e norte da Argentina. Fonte: Wikiaves. Registro feito em 17.03.2016, em Cocalzinho de Goiás (GO).

Criado em 2016-11-24 00:24:41
Maria Lúcia Verdi –
“Nasci no Porto, a cidade e seus arredores / As praias próximas/ descendo para o sul/ Permanecem para mim a pátria/ dentro da pátria/ A terra materna/ O lugar primordial que me funda” (Sophia de Mello Breyner Andreser)
Porto – Sair do Brasil num longo, interminável momento de pesadelo. Desejo e culpa. O temor (frente ao vírus com todos seus nomes) é menor do que a vontade de compartilhar o cotidiano com seres amados, do outro lado do Atlântico. Decido viajar.
A fila da imigração em Lisboa é um pesadelo. Duas horas em pé num espaço lotado, a escuta de tantas línguas me distraindo, em torno de mim a diversidade dos seres humanos como uma exposição viva. Por fim, o Porto.
O Porto, essa cidade de rio e mar, com arquitetura de quase todos os tempos, das muralhas ao contemporâneo, panoramas que são pinturas ao céu aberto, céu repleto de gaivotas, o som delas como trilha sonora. O Porto que Agustina Bessa-Luís definiu não como um lugar, mas como um sentimento.
Na tarde da minha chegada visito a Feira do Livro do Porto, em seu último dia. Acostumada ao uso do Pix e sem ter trazido cash, esqueci-me dos cartões, passeei pelos convidativos estandes sem poder adquirir nada, mas fotografando objetos de desejo, postergando o desejo de imersão. Yoko Ono e O Jardim da aprendizagem da liberdade, Franz Kafka e Aforismos de Zurau, Ezra Pound-Camões, Saint-John Perse e Habitarei o meu nome, Kobayashi Issa e Os Animais, Edmond Jabès e O livro das questões.

Todos, em algum momento comigo, em papel e com peso em minhas mãos. Alfarrabista.Eu. Leio o nome do estande e não vejo o ponto. Leio Alfarrabista eu, me identifico e fotografo. Eu e meus erros. Eu corresponde a Europa, onde estou, alfarrabista eu. Os erros que me levam a caminhos poéticos às vezes risíveis. Preciso me perdoar.
A publicação feita para esta Feira do Livro - que celebra os 150 anos da morte do escritor romântico Júlio Dinis, morto aos 31 anos de tuberculose, conhecido no Brasil pelo As pupilas do senhor reitor - tem um título: Herborizar. E a explicação vem no texto do Coordenador programático da Feira, Nuno Faria: “Herborizar para resgatar o tempo. (…) Herborizar, a ação de fazer herbários, foi uma prática muito comum, não só entre botânicos, mas também entre escritores, que se estendeu até ao século XIX (…) Convoca uma prática meditativa que se realiza a dois tempos: a caminhada na natureza em busca de exemplares a colher e o longo e cuidadoso tempo de preparação que se segue à sua preservação. (…) Júlio Dinis fez um herbário na Ilha da Madeira por alturas da última das três estadas que ali realizou para se curar da tuberculose de que padecia. É uma peça plena de delicadeza em que sentimos, concretos, os gestos e a respiração do escritor.” Vontade imediata de viajar a esta ilha. Sensação de que é um desejo de improvável realização. Mas os gestos e respiração dos escritores estão sobretudo na sua escrita. Consolo. Penso no quanto essa busca por exemplares feita pelos aficionados pelo mundo vegetal é semelhante à nossa, alfarrabistas, que buscamos os livros, o quanto o tempo de preparação, de observação dos espécimes se assemelha à nossa reflexão em cada leitura, ao tempo de processamento da plena compreensão, às vezes atingida plenamente apenas numa segunda, terceira leitura, décadas depois.
A Feira do Livro 2021 tem como mote “…os romantismos, assim, no plural, (…) o que caracteriza a experiência espiritual romântica e como ela se manifesta em diferentes épocas, em particular no nosso tempo.” Portanto, a Feira cruza com a literatura, música, cinema, animação e exposições, tendo como programadores a eminente especialista em Romantismo, Helena Carvalhão Buescu e Gonçalo M. Tavares, um dos principais escritores portugueses de hoje.
Num dos textos de apresentação, Romantismo para além do Romantismo. Entre arder e durar, lemos: “Como hoje podemos falar do Romantismo nas diferentes áreas criativas e na ciência? O que é hoje ser romântico? Ir até os limites? Ser utópico? Não dar atenção à utilidade? Colocar-se numa posição exterior ao capitalismo? Estudar as nuvens?”
Infelizmente cheguei tarde para as palestras, nomeadas como Lições. Mas deixo aqui os títulos para os interessados, esperando que possam ser acessíveis: Palimpsestos: Júlio Dinis e o espírito romântico, por Helena Carvalhão Buescu; A floresta das intensidades, romantizar o mundo com Maria Gabriela Llansol, por Maria Etelvina Santos; São Mateus e o anjo, de Caravaggio, por Mário Cláudio; Joseph Beuys e a tradição do pensar mítico alemão, por José Miranda Justo; A perenidade da existência e a infinita melancolia em Kurt Cobain; Novalis, o que está para além das coisas, por Paula Guerra; Os dois Empédocles: o histórico e o intempestivo, por Sousa Dias.
Nas conversas organizadas o tema é a atualização do espírito romântico, sobretudo na relação com a natureza e a sustentabilidade. No Museu Romântico há uma mostra, que visitarei, intitulada a partir de verso do grande romântico alemão, Hölderlin: “Quando a terra voltar a brilhar verde para ti”. Verso tão apropriado para o mundo de hoje e para nós, brasileiros, preocupados, mais do que nunca, com esse brilho a se ofuscar.
Uma corda sobre o abismo é o título da mostra que reúne cineastas muito diversos: Movimento em falso, de Wim Wenders; O último mergulho, de João César Monteiro; Caravaggio, de Derek Jarman; Beuys, de Andres Veiel e Heinrich, de Helma Sanders-Brahms. Seleção que dialoga com as referidas Lições, ocupando-se de “precursores ou nomes canônicos do Romantismo alemão – como Goethe, Hölderlin ou Kleist -, mas também figuras intempestivas que vieram antes ou depois da época que a História caucionou – um Caravaggio anacrónico, excessivo e melancólico, e um Beuys, legítimo herdeiro da tradição romântica alemã, figura maior do século XX.”
Consegui ver no YouTube o filme do cineasta português, a quem tive o prazer de conhecer em Roma, filme curiosíssimo que atualiza Hölderlin numa Lisboa dos excluídos, prostituídos e suicidas que rondam a cidade nas noites festivas de Santo Antônio.
Em contraste com qualquer conceito de Romantismo, visito a mostra My mind is a cage (Minha mente é uma gaiola), do artista americano Roger Ballen. A mostra está instalada no Centro Português de Fotografia, no prédio da antiga prisão do Porto, onde esteve encarcerado o poeta romântico Camilo Castelo Branco (https://cpf.pt/). Ballen é mais que fotógrafo, atua como arqueólogo dos horrores de nosso tempo, compõe e fotografa cenários a partir da seleção de pessoas doentes, feias, sujas, de ambientes miseráveis, de animais como ratos, cobras, porcos e pássaros que interagem com elas. Ballen realiza grafites nesses cenários que utiliza para fotos e vídeos e faz-me lembrar Hieronymus Bosch e seus seres imaginários e terríveis. Como uma atualização de um Bosch dividido entre a transição de um mundo medieval para o moderno, Ballen traz um olhar dividido entre um século XX comprometido com lutas humanistas e o século XXI de um Antropoceno que aponta para um futuro de cyborgs.



Qual o romantismo possível quando vemos a obra de Roger Ballen? Apenas aquele que moveu os românticos revolucionários, o do desejo desesperado de mudança e de justiça.
Aguardem, em breve a parte II dessa viagem.
Criado em 2021-09-16 23:43:56
Angélica Torres (*) -
Os que assistiram à ousada minissérie As Entrevistas com Putin, de Oliver Stone, quando estreou mundialmente em 2016, podem não ter observado que a conversa em torno da Ucrânia é o único tema, do amplo espectro de assuntos polêmicos abordados, que perpassa os quatro episódios. Nem o jornalista, escritor, biógrafo Fernando Moraes, que ganhou de presente do cineasta os direitos de exibição da série no Brasil, destaca o mote, no vídeo em que apresentou o lançamento da série por meio do seu (hoje extinto) blog Nocaute e da TVT.

A Ucrânia ainda não estava em cartaz como agora, senão, decerto, aos olhos bem abertos e às antenas ligadas de especialistas no xadrez geopolítico – o que prova, e atualmente mais ainda, a importância e a dimensão histórica da série, bem como a visão de longo alcance do cineasta historiador, roteirista, produtor e escritor nova-iorquino. Mais de 1,8 milhão de espectadores a assistiram, segundo notificação da TVT. Mas quem ainda não viu, deveria ver e quem viu há anos, também devia revê-la, para ter maior amplitude de análise do conflito deflagrado na região. Afinal, somos um contingente de 216,6 milhões de cidadãos.
Além das questões da Ucrânia colocadas por Putin, e de outras tantas, louvando o que deve ser louvado e deixando o que é ruim de lado, ainda mais importante é observar que no substrato de suas conversas com Oliver Stone, o que ressalta é a mesma posição, seis ou mais anos depois, anunciada ao mundo na Declaração Conjunta dos presidentes da Federação Russa e da República da China, em 4 de fevereiro passado, na abertura da XXIV Olimpíada dos Jogos de Inverno, em Pequim, sobre a Nova Ordem Mundial que o bloco oriental almeja.
“É preciso construir um novo mundo, o dos que pensam no futuro para daqui a uns 25 a 50 anos”, Putin diz textualmente ao Stone, “com relações multilaterais entre os países e povos, porque o tenso e perigoso mundo bipolar do pós-guerra e o unipolar do fim da URSS não interessam nem servem mais”.
Putin repete isso também em outros trechos dos quatro episódios; no último, ilustra esse ideário com ironia sutil, uma explícita e pontual crítica ao decadente protocolo dos presidentes norte-americanos, mas também aos da antiga URSS, “como se nada mais de importante tivessem a fazer” (do que, pendurar medalhas em seus pescoços...).

A guerra de informação
A muitos dos que insistem nos chavões de “machista, homofóbico, sanguinário, assassino, ditador, czar, demônio”, a personagem de Vladimir Putin revelada pela mão do cineasta causa surpresas. Quando não, enfurece ainda mais os russófobos de plantão, ou lhes enfatiza a putinfobia, com clássicas reações, do tipo: “Vi a metade do primeiro episódio, o Oliver vai continuar assim chapa-branca a entrevista inteira”?
Pela clara postura anti-imperialista adotada em sua obra cinematográfica, (Platoon, Snowden, A história não contada dos E.U., entre outros), Oliver Stone é sim um red, mas não ao estilo Reed – (John Reed), o jornalista norte-americano, que está enterrado na Praça Vermelha em Moscou.
Este personagem, que figura na História mundial por seu heroico relato testemunhal em primeira mão da derrubada do império russo e tomada do poder em 1917 pelos comunistas, interpretado por Warren Beatty em Os 10 dias que abalaram o mundo, recebe de Oliver Stone uma pincelada de orgulho em tom didático e charmoso à sua equipe técnica, já quase ao final da série, indo todos juntos conhecer o mausoléu de Lênin – aonde ele faz também uma curiosa e significativa observação acerca do “carma” do líder dos bolcheviques.
Do tratamento diplomático inicial do documentarista/repórter no episódio 1 das Entrevistas, desenvolve-se uma relação entre dois cavalheiros de privilegiada inteligência que, num crescendo até o episódio 4, agem como num duelo de esgrimistas, cada um em sua área. E o cineasta obtém relatos surpreendentes de Putin, nunca antes possíveis de conhecer, considerando-se a imagem do líder temido e odiado pela difamação e censura, que ao monopólio midiático estadunidense interessa manter sempre em alta.
Como produtor executivo e estrela das entrevistas do documentário A Ucrânia em chamas, Oliver Stone também colaborou com as denúncias ao golpe de estado da CIA neste país, mãe da Rússia, que culminou na explosiva situação atual – o que confere ainda mais legitimidade e credibilidade a ele (e ao seu trabalho), como cidadão norte-americano e amante que é de seu país, independentemente de suas posições ideológicas.
Por outro lado, no conjunto de sua obra e sobretudo no dos fatos atuais, Stone ajudou também a evidenciar a postura desesperada do acirramento dos EUA e de seus aliados europeus – que não querem largar a rapadura de sua hegemonia do mundo –, levando o comediante e presidente-fantoche Volodymyr Zelensky à ofensiva do anúncio de determinação da Ucrânia de entrar para a OTAN, após sucessivas tentativas de negociação da Rússia, e no mesmo mês em que Putin e Xi Jinping apresentaram oficialmente a sua Declaração Conjunta.
Estamos, portanto, segundo diversos especialistas, testemunhando as dores do parto de nascimento de um novo mundo.
A Carta Conjunta de Putin e Jinping
De acordo com o professor de pós-graduação em Economia Política Internacional da UFRJ, José Luís Fiori (na foto, abaixo), “a extraordinária originalidade da Carta ao Mundo de Putin e Xi Jinping cresce com a defesa de valores como liberdade, igualdade, justiça, direitos humanos e a democracia como um valor universal e não como privilégio de algum povo em particular que imponha aos demais um modelo superior de democracia”.

A proposta revolucionária da Declaração Conjunta, destaca Fiori, é de que se aceite o sistema interestatal não mais como monopólio da verdade e da moralidade dos europeus, nenhuma civilização, povo algum superior aos demais. Sobre o futuro desta “nova era” em processo de parto, Fiore professa que a China não se propõe a substituir os Estados Unidos como centro articulador de algum tipo de novo “projeto ético universal”.
E tudo indica, ainda segundo suas análises, que “o avanço desta nova ‘era multicivilizacional’ não tem como ser revertido para o sistema mundial anterior, de completa supremacia eurocêntrica. Mesmo que o eixo ainda não tenha se deslocado inteiramente para a Ásia, já se estabeleceu um novo ‘balanço de poder’”, afirma o professor. (Veja no final deste texto a íntegra da Declaração publicada no site do PCdoB e que recebeu atenção blasé na mídia corporativa brasileira e assim permanece).
De acordo com Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores e também da Defesa, dos governos Lula e Dilma, a Carta de Putin e Xi constitui-se no fato mais importante e singular, desde os eventos que marcaram o fim da Guerra Fria, em particular, a derrubada do Muro de Berlim e, sobretudo, a dissolução da União Soviética. O diplomata assinala ainda, que, “mesmo sem a força jurídica de um tratado, a Declaração expressa com clareza nunca antes alcançada uma realidade até aqui vista apenas como uma possibilidade: o fim da era da hegemonia quase absoluta dos Estados Unidos sobre os destinos do mundo”.
A guerra que assistimos implica-se, por conseguinte, na forçosa mudança hegemônica do mundo, do bloco E.U./Otan/Europa, para o da China e Rússia, aliadas, tomarem a dianteira ainda nesta década, segundo prognosticam os especialistas. Testemunhamos então o canto do cisne dos prováveis falidos unidos, resistindo no ataque ao velho fantasma, os seus inimigos russos, e usando como bucha de canhão a Ucrânia, o bode expiatório pela posição estratégica na região onde se situa, e pondo assim a Rússia em condição de real e potencial perigo de extinção.
O futuro batendo à porta
Podemos esperar que muita água deverá ainda rolar sob essa ponte minada, e muito sangue também. O movimento gigantesco das relações entre potências é lento, complexo, em relação ao nosso, de insetos, em nossas vidinhas pessoais de expectativas e sonhos.
E segue firme a campanha de desinformação da guerra, levando a reboque nas redes sociais os que se expõem como Os Pacifistas, taxando os russos como os grandes e únicos Vilões do Planeta Terra. Esquecemos que ao nosso redor são diárias as guerras que matam pretos, indígenas, mulheres, gays, como bem nos lembra o jornalista e escritor José Arbex Jr. E por estes, não se ouvem choro e ranger de dentes com a paixão e o alarde que se observam em torno do conflito distante, embora sim, ameaçador e perigoso, indiscutivelmente.
Biden em sua démarche deixa o fantoche comediante se estropiar por si, mas deixa também à própria sorte o povo ucraniano, com a antológica avidez por poder expansionista do Estado americano. Guerra é fábrica de caos. Quanto pagam de carma esses irresponsáveis, quando muitos deles morrem impunes?

Refugiados da Ucrânia chegando na Estação de Hamburgo, Alemanha (Foto: Dida de Lima)
Relatos do campo de batalha na Ucrânia, segundo apurações da turma das webtvs independentes, e de reports como o do coronel americano aposentado Douglas McGregor, na CNN, nos últimos dias, indicam que a Rússia pode pôr EUA/Otan/Europa no bolso, com o cerco que fez na costa da Ucrânia (tal como Putin explica a Stone que os americanos fariam à Rússia, se avançassem com a OTAN às suas fronteiras). O que pode sinalizar um lento, mas provável fim da tensão na região.
Putin desmonta os focos dos nacionalistas de extrema direita ucranianos ligados a Zelensky, os neonazistas, terroristas, fanáticos, o batalhão Azov, que aterrorizam e violentam a população da capital e de seus arredores, desde o golpe da revolução colorida, há oito anos. Ingrata a Europa aos feitos passados da Rússia em favor dela, também: a coça aos napoleônicos e a vitória sobre os nazistas na 2ª Grande Guerra à custa de 8,6 milhões de vidas ceifadas dos soldados e soldadas soviéticos, aparentemente, livrando o continente europeu de uma serpente de muitas cabeças.
No entanto, a Europa preferiu se aliar aos Estados Unidos... e eis que o terrorismo internacional é hoje essa ameaça real à utopia projetada aos novos horizontes. No episódio 3 da minissérie, na Sala de Guerra do Kremlin, Putin mostra ao cineasta e sua equipe, em tempo real, um cenário dessa realidade que mais parece um filme de ficção. Além de explicar como se dão as relações dos Estados Unidos com a Rússia, nesse campo do terrorismo internacional.
Quanto ao desenho da utopia anunciada, é torcer para que as dores do parto cessem sem longa tardança e que a “nova era” da carta conjunta nos traga junto aquela moça chamada Esperança, que vive no fundo da caixa de Pandora e nunca morre. Nossos filhos, netos, os futuros descendentes, mais que a promessa, merecem a real tentativa da chance e da experiência de um mundo melhor que o que tivemos até agora.
_______________________
(*) Angélica Torres é jornalista da área de Cultura e poeta. Foi editora de Internacional no Correio Braziliense, em 1994/95, quando cobriu (como tal), a guerra da Chechênia e a crise cubana dos balseros, entre as diversas outras guerras e tensões mundiais da época.
Clique aqui para assistir às Entrevistas de Putin com Oliver Stone - Episódio 1 ...
Aqui, a íntegra da Declaração Conjunta, publicada no site do PCdoB
Criado em 2022-03-12 17:44:09
Romário Schettino -
Cerca de 200 pessoas passaram hoje (20/8) pelo ato público em defesa do Palácio Capanema, no Centro do Rio de Janeiro. Representantes de associações de arquitetos e urbanistas, vereadores, jovens militantes da cultura de vários partidos, todos foram unânimes ao afirmar que “o Capanema é patrimônio histórico da arquitetura moderna brasileira e não pode ser leiloado, vendido ou cedido a particulares pelo governo federal”.
Para dar continuidade à defesa do Capanema, o vereador Tarcísio Motta (PSOL-RJ) anunciou que na próxima segunda-feira (23/8), às 10h, haverá uma “audiência pública na Comissão de Cultura da Câmara dos Vereadores do Rio para discutir a situação do patrimônio histórico nacional na cidade”. O encontro se dará pelo canal do YouTube da Câmara dos Vereadores do Rio.
A sugestão do presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), André Ceciliano, de comprar o edifício em parceria com o Estado do Rio, foi rejeitada pelo vereador Tarcísio. Para ele, “o Capanema é um edifício federal e como tal deve permanecer. Ali funcionam diversos órgãos da cultura nacional e essa proposta não faz o menor sentido”.
Atualmente, o Capanema passa por uma restauração e encontra-se vazio, mas é para lá que devem voltar o corpo técnico do Iphan que desenvolve ações voltadas para a proteção, difusão e identificação daquele patrimônio tombado. No local funcionam diversos órgãos – Funarte, Biblioteca Noronha Santos, representações dos Ministérios da Educação (MEC) no Rio de Janeiro, entre outros.
O Capanema foi construído entre 1937 e 1943, na gestão do Ministro Gustavo Capanema, durante o governo Getúlio Vargas, o Estado Novo. Com a transferência da capital para Brasília, o Palácio Capanema passou a ser ocupado por diferentes áreas do Ministério da Educação e Cultura.
O vereador Chico Alencar (PSOL-RJ) - na foto, abaixo - disse que o ato de hoje em frente aos tapumes do edifício “é prova da resistência popular aos vendilhões da nação”. E alertou: “Tirem as garras do patrimônio publico”.

O leilão do MEC está suspenso, mas nada garante que volte a ser cogitado, por isso a necessidade de manter o movimento em sua defesa.
A concepção do Palácio Capanema, inaugurado em 1945, reuniu os nomes mais famosos da arquitetura, do paisagismo e da arte brasileira do século XX. Assinaram o projeto do prédio de 16 andares os arquitetos Lúcio Costa, Carlos Leão, Oscar Niemeyer, Afonso Eduardo Reidy, Ernâni Vasconcelos e Jorge Machado Moreira. Contou também com a consultoria do francês Le Corbusier. Os jardins suspensos foram planejados por Burle Marx, esculturas de Bruno Giorgi e os azulejos da fachada são de Cândido Portinari.
O edifício possui interessante implantação urbanística. Diferentemente dos edifícios vizinhos, o prédio sobressai-se solto no centro do terreno. Com inovador pilotis duplo, as pessoas podem circular pelo pavimento térreo em uma grande praça.
O Capanema é um dos primeiros edifícios a utilizar brise-soleil na fachada. Segundo Lucio Costa, esse prédio constitui “uma obra de arquitetura destinada a figurar daqui por diante, na história geral das belas artes como marco definitivo de um novo e fecundo ciclo da arte imemorial de construir”.
Fazem parte dessa luta pela preservação do patrimônio arquitetônico brasileiro o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), o Clube de Engenharia, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio (CAU-RJ), o Conselho de Engenharia e Agronomia do Rio (CREA-RJ), o Instituto Internacional de Arquitetos Paisagistas (IFLA) e o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos). Ainda fazem parte do movimento a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), os sindicatos dos engenheiros, dos arquitetos e o Movimento Ocupa MinC.
Poema de Vinicius - A propósito dessa polêmica envolvendo o histórico Palácio Capanema, publicamos aqui o enigmático poema de Vinicius de Moraes dedicado aos delicados azulejos de Cândido Portinari.

Azul e branco
Rio de Janeiro, 1946
Concha e cavalo-marinho
Mote de Pedro Nava
I
Massas geométricas
Em pautas de música
Plástica e silêncio
Do espaço criado.
Concha e cavalo-marinho.
O mar vos deu em corola
O céu vos imantou
Mas a luz refez o equilíbrio.
Concha e cavalo-marinho.
Vênus anadiômena
Multípede e alada
Os seios azuis
Dando leite à tarde
Viu-vos Eupalinos
No espelho convexo
Da gota que o orvalho
Escorreu da noite
Nos lábios da aurora.
Concha e cavalo-marinho.
Pálpebras cerradas
Ao poder violeta
Sombras projetadas
Em mansuetude
Sublime colóquio
Da forma com a eternidade.
Concha e cavalo-marinho.
II
Na verde espessura
Do fundo do mar
Nasce a arquitetura.
Da cal das conchas
Do sumo das algas
Da vida dos polvos
Sobre tentáculos
Do amor dos pólipos
Que estratifica abóbadas
Da ávida mucosa
Das rubras anêmonas
Que argamassa peixes
Da salgada célula
De estranha substância
Que dá peso ao mar.
Concha e cavalo-marinho.
Concha e cavalo-marinho:
Os ágeis sinuosos
Que o raio de luz
Cortando transforma
Em claves de sol
E o amor do infinito
Retifica em hastes
Antenas paralelas
Propícias à eterna
Incursão da música.
Concha e cavalo-marinho.
III
Azul... Azul...
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Concha...
e cavalo-marinho.
Criado em 2021-08-21 00:45:55
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Na segunda-feira da semana passada (27/1), a repórter Isabela Scalabrini, da Globo, reportou as enchentes em Minas Gerais. Passando por Raposos, município a 40 km de Belo Horizonte, ela parou numa rua entulhada de sofás, guarda-roupas, a carcaça de um fogão, estrados de cama e um monte de outros objetos domésticos. “Às vezes faltam até palavras pra gente descrever outras cenas que a gente vai vendo pelo meio do caminho”, disse Isabela. Para sorte da repórter e dos telespectadores, enquanto ela desfalava a câmera mostrava a tremendonheira que os moradores haviam perdido no meio da lama.
Conto isso para dizer que sempre achei estranho o uso, por parte de jornalistas e escritores, das palavras “indescritível”, “inenarrável”, “inexprimível”, “indizível” ou “inefável”. No teclado ou ponta da bic de um narrador, termos quetais quase sempre indicam incompetência técnica. Se o cabra não pode descrever com palavras as cenas que testemunha, sonha ou inventa, talvez fosse melhor trabalhar com pintura, música ou cinema, ora pipocas!

É óbvio que nem sempre você encontra as palavras adequadas para exprimir as ideias ou as imagens, sons e outras sensações captadas pelos sentidos, sendo obrigado a recorrer aos dicionários ou ao Google. O naturalista Charles Darwin se valeu do catálogo publicado em 1814 pelo artista escocês Patrick Syme, o Werner’s Nomenclature of Colours, para retratar as cores das rochas, águas, céus, plantas e animais que foi descobrindo ao longo da viagem exploratória do Beagle, entre 1831 e 836. Na lista de 110 cores compiladas por Syme, o laranja marrom (Brownish Orange) é comparado ao tom do “topázio do Brasil”.
Catacrese - Contadores de histórias desde Homero buscam metáforas (analogias), catacreses (extensão de significados) e outras figuras de linguagem para dar conta do ofício. Além do mais, os grandes artistas da narração sempre inventam novocábulos para descrever o Universo, ainda que idealizado.
O escritor Bill Bryson (O mundo é um palco) informa que o Shakespeare cunhou ou fez o seu primeiro uso registrado em inglês, de 2.035 palavras. Dessas, cerca de 800 colaram, sendo correntes até hoje. Entre elas, abstemius, antipathy, critical, frugal, extract, horrid, vast, hereditary, excellent, dwindle (definhar), eventful (acidentado), barefaced (de cara limpa), assassination, lonely (solitário), leapfrog (pular carniça), well-read (bem-informado) e “incontáveis outras (inclusive a palavra ‘incontáveis’ [countless])”, diz Bryson.
O Bardo inventou também numerosas expressões, como to be in a prickle (estar em apuros), the milk of human kindness (a essência da bondade humana), pomp and circumstance (pompa e circunstância), beggar all description (ser inacreditável) e bag and baggage (armas e bagagens, que eu mesmo prefiro traduzir como “bagos e bagagens”).
Nonada - Entre os brazucas, o maior inventor de palavras foi o mineiro da roça João Guimarães Rosa, valendo-se de sua proficiência em alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto e um pouco de russo, além da capacidade de ler sueco, holandês, latim e grego (“mas com o dicionário agarrado”), e ainda de seus conhecimentos gramaticais do húngaro, árabe, sânscrito, lituano, polonês, tupi, hebraico, japonês, tcheco, finlandês e dinamarquês. Um monstro!
A propósito, a primeira palavra do Grande Sertão: Veredas, “nonada” (nada, ninharia, bobagem, bagatela, nuga) não é uma criação do João. Já existe em português há séculos e está registrada na página 54 da terceira parte dos Sermões do Doutor Diogo de Payva d’Andrade, no Sermão da Sexta-Feira da Samaritana, impressos em Lisboa em 1615. Ainda assim, o resgate de um termo tão antigo só mostra a genialidade do João.
Em 2001, a professora Nilce Sant’Anna Martins, da USP, lançou O Léxico de Guimarães Rosa, compilando 8 mil palavras que o criador do jagunço Riobaldo Tatarana forjou ou utilizou de maneira criativa, surpreendente, imaginosa, “de valor estilístico mais acentuado, (…) com alguma expressividade particular, como neologismos, arcaísmos (...), empréstimos, onomatopeias, palavras populares, regionais ou eruditas”, disse a Nilce.
Abaixo a preguiça! - Em 1965, na entrevista ao crítico alemão Günter Lorenz, Guimarães Rosa disse que “o mais importante, sempre, é fugirmos das formas estáticas, cediças, inertes, estereotipadas, lugares comuns etc. (…) Não procuro uma linguagem transparente. Ao contrário, o leitor tem de ser chocado, despertado de sua inércia mental, da preguiça e dos hábitos”.
É notório que a preguiça intelectual e os problemas de interpretação de textos estão entre os problemas mais sérios do Brasil, ao lado da fome e dos hábitos escravagistas. Como mudar a realidade se as pessoas não conseguem sequer analisá-la de maneira adequada?
A gente que quase que nada não sabe, mas desconfia de muita coisa, devia adotar como programa de ação, o quanto antes, essa fala aí do Guimarães Rosa! Uma questão de opiniães, é claro!
Criado em 2020-01-31 17:25:38
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) -
Depois de meses ouvindo no Uber os sons do Gusttavo Lima, Mateus e Cristiano, todo esse lixo bolsonescroto, calhou de ontem o motorista sintonizar uma rádio que tocava Buena Vista Social Club (Chan Chan), Legião Urbana (Natália) e uns tantos roquinhos maneiros.
Empolgado, comentei que talvez fosse esse um sinal dos novos tempos, inaugurado com a eleição do Lula. O sinesíforo, de nome Tiago, xará do irmão de Jesus Cristo, com barba de meio metro e uma argola desse tamanho na orelha, soltou uma gargalhada. Interpretei como aprovação.
Passada a eleição, com a nossa retumbante vitória contra as forças do Bolsossauron, encerra-se uma era de depressão e começa outra de ereção.
Os leitores da Bíblia como literatura podem argumentar, numa eventual discussão com os neopentecostais, que aqui se demonstra o triunfo das forças que sustentam a Ascenção de Jesus e a Assunção de Maria (mulher também tem ereção!) contra as forças que chafurdam os fascistas nos quintos do Sheol.
De caso pensado, com régua grega, escolhemos como tema do Dia D, comemorado na quinta-feira, 3, na Livraria Sebinho, o Drummond Erótico. Foi um jeito sutil de demonstrar a vitória de Eros sobre Thânatos, o êxito da política da vida proposta pela Frente Brasil da Esperança contra a necropolítica bolsonarista.
Mais que engraçado, foi libertador ouvir a garotada recitando durante uma hora os poemas de O Amor Natural do maior poeta brasileiro, cheios de coxas, bundas, vulvas, seios, pênis, lábios, línguas, cheiros, gozos…
O amor vencendo o ódio, lambuzando o corpo e lavando a alma, uma e a mesma coisa, tudo misturado.
Eu ali, ajudando a animar a festa de boné parecido com o do Lula na visita ao Complexo do Alemão, letras bordadas em vermelho, CPX, traduzidas em Cerveja, Picanha e Xereca!
Se pudesse ver a cena do Além, imaginem a cara gaiata do Reich colhendo provas para a sua teoria do derretimento da couraça (quem sabe, pré-fascista), ali exposta apenas às alusões à energia orgástica.
E a gente por aqui, concentrados na
“...música incessante
do girabundo cósmico.”
Criado em 2022-11-05 16:47:58
Luiz Martins da Silva –
Corria a animada gestão do governador do Distrito Federal (1985-1988), José Aparecido de Oliveira (1929-2007), num contexto de perestroika, lá e cá, ou seja, na União Soviética e, por algo parecido, também no Brasil.
A residência oficial de Águas Claras não era somente a casa onde ia dormir o governador, mas um espaço também destinado a eventos políticos, diplomáticos e artísticos. Num destes, foi oferecido um almoço em homenagem ao poeta russo Eugênio Evtuchenko (Yevgeney Aleksándrovitch Yevtushenko – 1932-2017), importante a ponto de ter merecido, em vida, um museu. Também foi muito prestigiado nos Estados Unidos, onde viveu boa parte do seu tempo e foi professor e aclamado em várias academias literárias.
E o tal almoço não teria passado de um singelo gesto de amizade e cooperação a merecer, no máximo, uma nota em coluna social, não fosse um inesperado e curioso gesto: o poeta russo propor a um poeta brasileiro uma troca de gravatas.
A enigmática quebra do protocolo deu o que falar e gerou umas quantas interpretações. À época, os “russos” não davam um passo sem amarração ideológica, ainda que o autor de Autobiografia Precoce não fosse mais associado à imagem de um comunista. No passado, escrevera bravamente contra o nazismo e rejeitando o antissemitismo na União Soviética.
Penso na vergonha
de meus descendentes
quando ajustarem as contas com a torpeza.
Lembrar-se-ão dos tempos estranhos
onde a honestidade mais simples
chamava-se coragem!
(Do poema Conversação)
Ao seu gosto, “Zé Aparecido”, teria sido ministro das Relações Exteriores. Mesmo não tendo chegado ao Itamaraty, conquista de vários outros políticos, alguns sem nunca ter nem imaginado (Abreu Sodré, por exemplo), exerceu forte influência diplomática. Foi grande batalhador pela integração dos países lusófonos e embaixador do Brasil em Portugal, onde tinha entre grandes amigos o ex-primeiro-ministro Mário Soares.
Dado, portanto, a iniciativas diplomáticas, Aparecido, um dos fundadores da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), gostava de cercar-se de artistas, notadamente escritores, tendo trazido vários a Brasília, como foi o caso de Gore Vidal (1925-2012), um dos literatos norte-americanos de muito fôlego.
Trazer e festejar um russo, porém, foi um moderado contraponto, bem ao clima da redemocratização. Uma iniciativa como esta não seria, claro, bem avaliada quando do regime militar pós-64, muito embora, em termos comerciais, as relações entre Brasil e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS – 1922-1991) tenham sido das melhores e das mais afinadas com o espírito do “pragmatismo responsável” dos chanceleres Azeredo da Silveira (1917-1990) e Saraiva Guerreiro (1918-2011).
O lance das gravatas ocorreu da seguinte maneira. Na agenda de Evtuchenko em Brasília constava o referido almoço, que reuniu dezenas de personalidades, entre elas, escritores, especialmente poetas, acadêmicos e pessoal das embaixadas. Mesmo durante o regime militar brasileiro, a embaixada da URSS era muito movimentada, lá ocorrendo celebrações, apresentações de grupos e umas sem quantas recepções, como a que contou com a presença de Luís Carlos Prestes (1898-1990), pouco depois de seu retorno ao Brasil (1979). Paradoxalmente, a embaixada da Rússia não manteve a mesma animação pública dos tempos da URSS.
Convidados devidamente situados em seus lugares, eis que chega, finalmente, o carismático homenageado. Evtuchenko era um siberiano que gostava de usar túnicas folk e roupas vistosas. Nesse dia, porém, veio de terno, como era previsto, o traje passeio. Ao ser conduzido, desviou-se dos “dispositivos” e foi ao encontro do poeta Luís Turiba. Disse algumas palavras enquanto tirava a sua gravata, no que foi imitado pelo jornalista, ali presente como escritor e repórter da Empresa Brasileira de Notícias (EBN, hoje, EBC). Foram aplaudidos. Por ocasião de visitas diplomáticas, é comum a troca de presentes, tradição desde os tempos tribais. Mas, daquela forma, de improviso e sem mais nem que...!
A troca de gravatas teria permanecido tão somente na cobiça de um estrangeiro por uma estamparia espalhafatosa, supostamente um traço brasileiro e tropical, não fosse o surgimento de rumores, ainda típicos dos “anos de chumbo”, bem ao estilo das teorias da conspiração. Mesmo ultrapassada a Guerra Fria, a polarização Washington—Moscou persistia. Pouca gente sabia, mas Turiba tinha sido preso político, tendo conhecido na prisão as crueldades com que o Golpe Militar de 1964 tratava os dissidentes daqui. Seria uma deferência?
Àquela época, de tenra redemocratização brasileira, os boatos e suposições ainda eram um insumo fertilizador para as leituras hermenêuticas de qualquer “posicionamento”. Como afirmara certa vez, a repressão política no Brasil dera margem ao surgimento de uma espécie de barroquismo, segundo Antônio Houaiss, em que as coisas eram ditas não diretamente, mas por meio de todo um rapapé simbólico. As gravatas, uma vermelha e a outra ilustrada por flores tropicais, simbolizariam a confraternização de dois poetas dissidentes e... Comunistas?
Em tom mais de provocação, surgiram comentários polarizados e paradoxais. Evtuchenko, já ‘americanizado’, seria um ‘cabeça feita’ da CIA, daí, viver em périplos pelo mundo e em mundanidades recheadas de palestras e banquetes. Turiba, por sua vez, oportuno divulgador, por trabalhar para o que os soviéticos entendiam como um simulacro brasileiro da outrora global Agência Tass. Curioso, tal agência noticiosa mantinha em Brasília um jornalista que tinha carro com chapa do Corpo Diplomático. A Tass tinha um acordo de cooperação com a EBN. Coincidências?
Os players que, de fato, atuavam nos mundos político, diplomático e econômico, contestavam: o episódio das gravatas não fora planejado; não se tratava de uma dessas tiradas de “improviso” combinadas para ‘humanizar’ as personalidades e amenizar a chatice dos eventos protocolares. Mas, concordavam num ponto: a simpática comutação das gravatas adocicava as tratativas em andamento para otimizar a balança comercial do Brasil com o todo bloco de países do Leste Europeu, ainda denominado de “Cortina de Ferro”.
Uma mistura de verdades com “cascatas” (como se dizia no velho jargão jornalístico), como pude checar com o próprio Turiba. Ele me disse que foi pego de surpresa; que jamais poderia supor que Evtuchenko teria sido “brifado” para teatralizar um gesto de amizade com um poeta comunista brasileiro. Houve indícios, houve. Turiba trabalhava também para a Gazeta Mercantil, à época, importantíssimo jornal econômico, uma espécie de Financial Times brasileiro. Não cheguei a constatar, mas o Pravda teria dado uma notinha sobre a ‘propaganda’ espontânea das gravatas soviéticas feita pelo grande poeta.
A colorida gravata tropical-brasileira de Turiba, na verdade, era italiana. A modestíssima gravata oferecida por Evtuchenko, segundo apurado, era ‘americana’, mas, de origem, brasileira. Fora parar nas lojas norte-americanas por força de uma pareceria (joint-venture) contratada entre um fabricante brasileiro e um importador dos EUA. “Uma gravata do tipo bem barata”, confirmou Luís Turiba. “Não fiquei no prejuízo”, afirmou, “pois, por onde circulava as pessoas iam logo reconhecendo: ‘Olha a gravata do poeta comunista!’”.
Nessa história, ficou algo de ambíguo e, com certeza, ainda debitado na conta dos silogismos e lugares comuns: ‘Dois poetas comunistas trocaram gravatas em almoço diplomático’. Ora, o almoço era extraoficial.
Evtuchenko era, digamos, um comunista tardio. O mesmo poder-se-ia dizer em relação ao poeta que, quando jovem estudante fora preso por conspirar contra um regime truculento. Por sua vez, fantasias puras: a do poeta russo ‘cantado’ pela CIA e a do poeta brasileiro, contatado pela KGB.
Moral da história, em tempos ainda de bicos calados, duas gravatas foram mais eloquentes do que os efusivos discursos e brindes, mas formais, entre anfitrião e convidado. No contraponto planejado ou improvisado, Evtuchenko era um glamuroso encantador de auditórios lotados. Turiba, até hoje, um eufórico letrista de blocos carnavalescos e fã incondicional de outro poeta soviético, Vladimir Mayakovski (1893-1930). O fato é que os regimes políticos passam e os poetas ficam.
Criado em 2020-12-12 15:06:04
José Carlos Peliano (*) –
Nunca tinha visto de perto uma rendeira operar com bilros na execução de trabalhos que, embora entremeados com fios comuns de linhas resultam em peças finas de rendas. Em geral usadas por mulheres como vestimentas, blusas, corpetes, saias, ou como toalhas e adornos de mesas até contornos de toalhas de rosto, entre outras variedades.
Foi nos arredores de Natal, Rio Grande do Norte, que tive chance de observar três rendeiras operando com bilros em peças coloridas, duas na praia de Tabatinga ao sul e outra praia de Jacumã ao norte. Aquelas em locais contíguos numa coberta de frente à pista da rodovia ao lado de uma capelinha e a terceira em sua própria casa conforme mostra a foto postada aqui.
Todas as três aprenderam com mães e/ou avós desde pequenas quando começaram a experimentar e treinar os primeiros manuseios das mãos com os bilros e os enlaces dos cordões das linhas em cima da grande almofada. Nesta, em geral preenchidas com palhas, capim, folhas secas de bananeira ou qualquer outro material do gênero que a sustente, são afixados os moldes dos desenhos a serem bordados, que são marcados por alfinetes com pontas redondas em pontos básicos por onde se norteiam as guias para os trançados e arremates das rendas.
Até aí se trata do material e dos instrumentos necessários de trabalho a serem manuseados pelas rendeiras. Elas podem trabalhar sentadas em banquetas pequenas para alcançar as almofadas ou até mesmo em pé quando faltam assentos, quando então se apoiam nas paredes para sustentarem as costas.
Parecem operações simples e singelas aos olhos da gente pela beleza que se revestem, como se fossem bailarinas manuais dançando com suas mãos com os bilros aqui e ali nas almofadas, no entanto, requerem muita atenção, destreza, disposição, cuidado e principalmente paciência. Qualquer desatenção, como a melodia de Chico Buarque, faça não, pode ser a gota d’água, prejudicando as tramas e o rendado.
Por ser um trabalho artesanal, onde a arte e a energia da força de trabalho da rendeira saem por suas mãos em balé harmonioso sobre a almofada, todo o processo da confecção é de extrema qualidade e inegável valor, pois vale pela aparência refinada, acabamento, beleza e criatividade.
Consta que o conhecimento das rendas de bilro veio através da colonização portuguesa trazido de alguns países europeus. Como se trata de um trabalho que requer pouco investimento e manutenção para ser dado início e se manter, ele se espalhou pelo litoral do país, em especial nas camadas mais pobres da população para dar trabalho e gerar renda às mulheres.
Entre as três rendeiras que pude ver seus trabalhos de trançados houve momentos nos quais elas aumentavam subitamente os ritmos das mãos em operações “nervosas”, mantendo, no entanto, a mesma elegância de postura e concentração visual para diminuírem os movimentos após.
Os bilros não se misturavam, não se acumulavam nos cantos dos moldes tampouco saiam das mãos. E olhem que eles não eram poucos, amarrados aos cordões de linhas de uma cor só ou de várias cores estavam perto de uns 8 ou 10. Não cheguei a perguntar a elas quantos, mas suponho que a quantidade de bilros utilizados tem a ver com a complexidade da trama a ser executada de acordo com o molde escolhido.
Agregue ao trançado dos bilros sobre a almofada o tempo de trabalho gasto na execução de cada peça. Por não se tratar de operação padronizada e repetida vezes sem conta pela execução em máquinas na linha de montagem, o trançado resultante é como que uma peça de arte, exclusiva, radiante, cuja raridade hoje em dia, o torna cada vez menos encontrado pelo interior litoral do país ou nos arredores urbanos, ao tempo em que lhe dá mais urgência para ser achado, redescoberto, incentivado e mostrado às novas gerações. Afinal o belo e precioso artesanato precisa e deve ser recuperado para festejar a identidade brasileira e regional país afora seguindo a defesa e a luta armorial inesquecíveis levadas em frente a vida toda por Ariano Suassuna.
Dona Francisca Gomes da Silva, nascida em 31 de maio de 1943, geminiana como eu (a foto é dela), trabalha desde os 10 anos com a renda de bilro. Bela senhora, ativa, alegre, tranquila, agradável e conservada nos seus 78 anos. Conta que em sua infância o vilarejo praiano alimentava seus residentes com o sustendo vindo das rendas e da pescaria. As vestes saiam dos bilros das rendeiras e os peixes das redes rendadas dos pescadores. Um enredamento que mantinha a todos. Entristecida, lamenta que “ninguém mais quer comprar renda de bilro”. Daí que a subsistência se torna mais e mais difícil.
Muito provavelmente é mesmo o desconhecimento da existência das rendas de bilros das mulheres e filhas de muitas cidades da região e das demais do país que afeta a falta de procura pelos trabalhos das rendeiras. Norteriograndense, minha mulher, que conhece o trabalho desde menina valoriza as rendas de bilro e as usa em algumas de suas roupas do dia a dia e de ocasiões especiais.
Apesar das dificuldades enfrentadas na vida dona Francisca conseguiu criar 15 filhos dos quais 3 já morreram. Com ela ainda moram 3 deles. Ajuda em sua renda mensal a aposentadoria da previdência, que não é grande coisa. Por ser viúva há 20 anos, tem de se virar sozinha para se manter e segue em frente, mulher doce, mas forte e guerreira. Na falta da venda das rendas de bilro faz serviços caseiros eventuais para terceiros nas casas de praia da região.
É a única que eventualmente ainda faz hoje renda de bilro quando procurada já que a associação que reunia as demais 12 rendeiras deixou de funcionar depois que todas elas foram acometidas pela “chicungunha”, impossibilitando-as de trabalhar por meses pelas dores nas pernas e nos braços. Por outro lado, suas filhas não se interessam por manter a tradição não só porque as vendas estão rareando como porque elas encontram serviços eventuais aqui e acolá.
Sobre a sobrevivência de seu ofício, disse, em suas próprias palavras, “falta a intermediação de nosso trabalho com Natal”, ou seja, precisa ela e as demais voltarem a ser conhecidas pela renda de bilro. Demanda e marketing na linguagem do mercado. Caso contrário, o trabalho vai minguando, minguando, até virar memória dos mais velhos, verbetes em dicionários antigos e dissertações, livros ou textos como este.
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(*) José Carlos Peliano, escritor, poeta, economista.
Criado em 2021-12-02 17:43:03
Pedro Augusto Pinho (*) –
Em novembro de 1989, burocratas de organizações financeiras situadas em Washington, capital dos Estados Unidos da América (EUA), tais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial (WB), o Departamento do Tesouro dos EUA, com base num trabalho de empregado da organização privada - International Institute for Economy, elaboraram decálogo para o empoderamento das finanças apátridas a que deram o nome Consenso de Washington.
Desde então, o mundo mergulhou em mais de uma dezena de crises financeiras, guerras coloniais, retração econômica, desemprego, epidemias que, nos últimos 33 anos, vêm provocando mortes e misérias em todos os países que seguem suas orientações.
Amanhã, segunda-feira, 12 de dezembro de 2022, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em Brasília, capital República Federativa do Brasil, diploma Luiz Inácio Lula da Silva presidente do País.
Apreensivo com a pressão exercida pelas finanças apátridas sobre o dirigente [Lula] eleito pelos brasileiros e sua equipe de governo - estas forças que há mais de três décadas espalham desolação pelo mundo -, o signatário desta proposta resolve divulgar essas sugestões para um Consenso de Brasília: que o Brasil volte a ter desenvolvimento para todos, paz, emprego, renda que permita vida digna, e o permanente combate às doenças, epidemias, pobreza, fome, ignorância, mentiras e falácias, sendo exemplo para as nações que se encontram em guerra e estado de miséria.
O que pode ser o Consenso de Brasília
1 – A responsabilidade do poder nacional é com todo o povo do seu País, não com a parcela que vive da especulação com preços e valores reais ou virtuais.
2 – Os gastos dos governos devem se dirigir, prioritariamente, para o desenvolvimento integral do País, especialmente para a geração de emprego.
3 – A moeda nacional é representativa da soberania do País, portanto os juros e os câmbios devem ser fixados de acordo com o interesse nacional e nunca pelo arbítrio de especuladores internacionais.
4 – Os preços dos bens devem ter relação com os custos da produção e não das eventuais carências e ações especulativas, sendo estas últimas dever do Estado combater.
5 – Os tributos devem ser majoritariamente cobrados sobre rendas e bens imobiliários e suntuosos e não sobre bens de consumo essenciais.
6 – As receitas tributárias devem, por princípio, atender às necessidades do Estado, em todas suas representações geográficas, porém o Estado Nacional poderá emitir moeda para investimentos que promovam o desenvolvimento integral da Nação e o bem-estar do povo.
7 – A cada transição de governo, seja nacional, estadual ou municipal, dever-se-á realizar a auditoria da dívida para que o governo que assuma tenha perfeita compreensão do que irá encontrar. Esta auditoria deverá ser realizada por organização brasileira sem objetivo de lucro.
8 – Nenhum patrimônio natural brasileiro, seja mineral, aquífero, fonte primária de energia, floresta, terras de fronteiras e da costa, rios, lagos, poderá ser propriedade de não residente no Brasil, devendo o Estado, seu proprietário natural, ter registro e cadastro completo e atualizado das alterações.
9 – As empresas e instituições estatais nas áreas de segurança nacional, comunicação e transmissão de dados, segurança pública, produção de energia e produção mineral, financeiras e bancárias, de controle de uso de rios e lagos, e as instituições de ensino, de pesquisa e registro das manifestações culturais nacionais, de saúde e para pesquisa científica são indispensáveis ao desenvolvimento integral da Nação e não podem ser alienadas a terceiros, mesmo nacionais residentes no País, por se tratar do interesse público e de dever do Estado.
10 – O Estado zelará pela segurança jurídica das atividades realizadas no País e as protegerá da concorrência predatória que objetive eliminá-la ou reduzir seu crescimento.
Nenhuma responsabilidade com o pagamento de dívidas sem sua prévia auditoria, a responsabilidade dos governantes é com o bem-estar, o bem comum para todo o povo brasileiro.
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(*) Pedro Augusto Pinho, aposentado.
Criado em 2022-12-11 21:32:40