"A vida é de quem se atreve a viver".


Na próxima segunda-feira (23/8), às 10h, haverá audiência pública na Comissão de Cultura da Câmara dos Vereadores do Rio para discutir a situação do patrimônio histórico na cidade
Movimento “O Capanema é nosso” ganha força em ato público

Romário Schettino -

Cerca de 200 pessoas passaram hoje (20/8) pelo ato público em defesa do Palácio Capanema, no Centro do Rio de Janeiro. Representantes de associações de arquitetos e urbanistas, vereadores, jovens militantes da cultura de vários partidos, todos foram unânimes ao afirmar que “o Capanema é patrimônio histórico da arquitetura moderna brasileira e não pode ser leiloado, vendido ou cedido a particulares pelo governo federal”.

Para dar continuidade à defesa do Capanema, o vereador Tarcísio Motta (PSOL-RJ) anunciou que na próxima segunda-feira (23/8), às 10h, haverá uma “audiência pública na Comissão de Cultura da Câmara dos Vereadores do Rio para discutir a situação do patrimônio histórico nacional na cidade”. O encontro se dará pelo canal do YouTube da Câmara dos Vereadores do Rio.

A sugestão do presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), André Ceciliano, de comprar o edifício em parceria com o Estado do Rio, foi rejeitada pelo vereador Tarcísio. Para ele, “o Capanema é um edifício federal e como tal deve permanecer. Ali funcionam diversos órgãos da cultura nacional e essa proposta não faz o menor sentido”.

Atualmente, o Capanema passa por uma restauração e encontra-se vazio, mas é para lá que devem voltar o corpo técnico do Iphan que desenvolve ações voltadas para a proteção, difusão e identificação daquele patrimônio tombado. No local funcionam diversos órgãos – Funarte, Biblioteca Noronha Santos, representações dos Ministérios da Educação (MEC) no Rio de Janeiro, entre outros.

O Capanema foi construído entre 1937 e 1943, na gestão do Ministro Gustavo Capanema, durante o governo Getúlio Vargas, o Estado Novo. Com a transferência da capital para Brasília, o Palácio Capanema passou a ser ocupado por diferentes áreas do Ministério da Educação e Cultura.

O vereador Chico Alencar (PSOL-RJ)  - na foto, abaixo - disse que o ato de hoje em frente aos tapumes do edifício “é prova da resistência popular aos vendilhões da nação”. E alertou: “Tirem as garras do patrimônio publico”.

O leilão do MEC está suspenso, mas nada garante que volte a ser cogitado, por isso a necessidade de manter o movimento em sua defesa.

A concepção do Palácio Capanema, inaugurado em 1945, reuniu os nomes mais famosos da arquitetura, do paisagismo e da arte brasileira do século XX. Assinaram o projeto do prédio de 16 andares os arquitetos Lúcio Costa, Carlos Leão, Oscar Niemeyer, Afonso Eduardo Reidy, Ernâni Vasconcelos e Jorge Machado Moreira. Contou também com a consultoria do francês Le Corbusier. Os jardins suspensos foram planejados por Burle Marx, esculturas de Bruno Giorgi e os azulejos da fachada são de Cândido Portinari.

O edifício possui interessante implantação urbanística. Diferentemente dos edifícios vizinhos, o prédio sobressai-se solto no centro do terreno. Com inovador pilotis duplo, as pessoas podem circular pelo pavimento térreo em uma grande praça.

O Capanema é um dos primeiros edifícios a utilizar brise-soleil na fachada. Segundo Lucio Costa, esse prédio constitui “uma obra de arquitetura destinada a figurar daqui por diante, na história geral das belas artes como marco definitivo de um novo e fecundo ciclo da arte imemorial de construir”.

Fazem parte dessa luta pela preservação do patrimônio arquitetônico brasileiro o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), o Clube de Engenharia, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio (CAU-RJ), o Conselho de Engenharia e Agronomia do Rio (CREA-RJ), o Instituto Internacional de Arquitetos Paisagistas (IFLA) e o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos). Ainda fazem parte do movimento a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), os sindicatos dos engenheiros, dos arquitetos e o Movimento Ocupa MinC.

Poema de Vinicius - A propósito dessa polêmica envolvendo o histórico Palácio Capanema, publicamos aqui o enigmático poema de Vinicius de Moraes dedicado aos delicados azulejos de Cândido Portinari.

Azul e branco

Rio de Janeiro, 1946

Concha e cavalo-marinho
Mote de Pedro Nava

I

Massas geométricas
Em pautas de música
Plástica e silêncio

Do espaço criado.

Concha e cavalo-marinho.

O mar vos deu em corola
O céu vos imantou

Mas a luz refez o equilíbrio.

Concha e cavalo-marinho.

Vênus anadiômena
Multípede e alada
Os seios azuis
Dando leite à tarde
Viu-vos Eupalinos
No espelho convexo
Da gota que o orvalho
Escorreu da noite
Nos lábios da aurora.

Concha e cavalo-marinho.

Pálpebras cerradas
Ao poder violeta
Sombras projetadas
Em mansuetude
Sublime colóquio
Da forma com a eternidade.

Concha e cavalo-marinho.

II

Na verde espessura
Do fundo do mar
Nasce a arquitetura.

Da cal das conchas
Do sumo das algas
Da vida dos polvos
Sobre tentáculos
Do amor dos pólipos
Que estratifica abóbadas
Da ávida mucosa
Das rubras anêmonas
Que argamassa peixes
Da salgada célula
De estranha substância
Que dá peso ao mar.

Concha e cavalo-marinho.

Concha e cavalo-marinho:
Os ágeis sinuosos
Que o raio de luz
Cortando transforma
Em claves de sol
E o amor do infinito
Retifica em hastes
Antenas paralelas
Propícias à eterna
Incursão da música.

Concha e cavalo-marinho.

III

Azul... Azul...

Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco

Concha...

               e cavalo-marinho.

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