Total: 1890 results found.
Página 69 de 95
Luis Turiba –
É alentador pertencer a uma micro comunidade que se reúne em pequenas multidões para navegar em linguagens, tiradas, rimas e encantamentos, lendo e trocando livros. E mais: seus participantes curtem, fazem e ouvem poemas no dia-a-dia e, assim, na convivência de carinhos, respeito e delicadezas mútuas, afastam maus augúrios e sombrios sentimentos de angústia, letargia e paúra por conta destes tempos viróticos que vivemos.
Poesia=resistência. Tenho a sorte de estar próximo e conviver com uma dessas pequenas comunidades que pulsam na cidade do Rio de Janeiro. Aprendo e apreendo muito nessa convivência linguística e humana. Há trocas. Assim, sinto que a poesia da minha geração está viva, atua em bom nível e carimba sua história no catálogo do nosso tempo.
O poeta não é ser formal nem informal – poeta é ser anormal. Os sentidos das transformações semânticas que ele promove, quer nas falas, gráficos e escritos, aquilo que entorta o que está direito e dá novas dimensões às palavras, pertence ao seu ofício.
Invenção e desafio sempre. Assim, o poeta existe para assombrar e despertar consciências com metáforas inimagináveis voltadas tanto para a beleza do que está por trás da vida cotidiana e citadina, como para denunciar as injustiças e as ganâncias desse capitalismo selvagem. Poeta é um inventor de novas realidades e sonhos, um fazedor de inutensílios, dizia Manoel de Barros.
É sobre uma dessas sociedades de Poetas Vivos que escrevo hoje. Ela e seu produto, um simples livro. Esta sociedade aconteceu quase que espontaneamente por conta de um processo criativo, inimaginável, mas totalmente amigável - “um lance de dados” de Mallarmé, digamos assim.
Nomes aos bois: coube ao jovem poeta e produtor carioca Paulo Sabino, com sua energia paciente e catalizadora, propor, dirigir e orientar esse processo ao longo dos últimos anos aqui no Rio, cidade onde vivemos e moramos.
Esta tribo de seres libertos/literários vem poetizando e convivendo desde 2015 por conta de “Ocupações Poéticas” do Teatro Cândido Mendes, em Ipanema. Finalmente, neste início de 2020, o livro-musa se materializou como num passe de mágica editorial depois de muito trabalho e articulações.
Trata-se de um livro/antologia - A Estante dos Poetas -, editado no início deste ano pela Ibis Libris, sob a coordenação da também poeta Thereza Christina Rocque da Matta.
A antologia reúne 60 poemas e fotos de seis poetas (fotografia, abaixo), digamos, “cascudos” no fazer literário carioca. Ao longo do ano passado, eles participaram de encontros realizados no Espaço Afluentes, (Av. Rio Branco em frente ao Metrô Carioca) dirigido pelas irmãs Claudia e Mariana Roquete-Pinto. Estou contando tudo isso para dizer que o livro é fruto de um processo criativo/participativo.

São poetas escolhidos pela curadoria da "Estante" foram: Adriano Espínola, Antônio Carlos Secchin, Antonio Cícero, Geraldo Carneiro, Paulo Henriques Britto e Salgado Maranhão. Uma verdadeira seleção de bardos que contaram em encontros intimistas dirigidos por Sabino, suas peculiares histórias de como se deu “o encantamento” de cada um com o universo literário/poético. Cada história, melhor que a outra. No entanto, as narrativas não foram gravadas, mas os poemas ficaram e agora foram reunidos neste livro que tem tudo para fazer história.
Desses seis, três já estavam presentes no marcante livro “26 Poetas Hoje” da professora Heloísa Buarque de Hollanda, editado em 1975, reunindo o melhor do que viria a ser a chamada Poesia Marginal. Salgado Maranhão vem também desta época e de uma antologia só de poetas negros – "Ebulição da Escrivatura" – editada pelo Civilização Brasileira por ele e pelo poeta Ele Semog. Adriano Espínola vem de uma safra especial do Ceará e o poeta/professor Paulo Henriques Brito, autor de 10 livros e tradutor de aproximadamente 110 livros. Importante: três deles pertencem a “ala jovem” da Academia Brasileira de Letras (ABL): Geraldinho, Secchin e Cícero.
Cada poeta comparece na antologia com 10 poemas. Não preciso dizer que todos valem ser lidos quer à boca pequena ou a plenos pulmões. São versos elaboradíssimos e inspirados. Assim, o conjunto torna-se uma verdadeira aula na arte da construção de poemas e o que é melhor para quem olhar para o futuro: aponta para, quem sabe, um novo “paideuma’ da poética brasileira no pós Drummond, Bandeira, Haroldo, Cabral e Gullar – todos mestres nessa arte.
Para não dizer que só elogiei o livro, aqui vai um puxão de orelha editorial: há excesso de fotografias.
Para quem deseja ter o livro, pedidos/encomendam para a Ibis Libris Editora pelo telefone (021) 3546-1007.
Criado em 2020-03-29 03:21:34
Romário Schettino –
Ato histórico no Circo Voador, Arcos da Lapa, Rio de Janeiro, reuniu nesta segunda-feira, 2/4, partidos de esquerda para lançar frente ampla em defesa da democracia, do presidente Lula e de Justiça na apuração do assassinato da vereadora do PSol-RJ, Marielle Franco.
Nos discursos deste dia, Lula recebeu apoio ao seu legítimo direito de estar livre para concorrer às eleições de outubro. Lula reafirmou apoio a Manuela D´Ávila, pré-candidata do PCdoB, e a Guilherme Boulos, do PSol. O cantor e compositor Chico Buarque estava presente, não discursou, mas foi bastante aplaudido ao ser anunciado. A presença de Chico é tão significativa que já nem precisa se pronunciar.
Marcelo Freixo, pré-candidato a deputado federal pelo PSol, deu ênfase à necessidade de união das esquerdas, respeitadas as diferenças, em torno de algo muito maior do que o processo eleitoral. “O fascismo, que avança sobre o Brasil, é o nosso verdadeiro inimigo. Precisamos superar nossas diferenças e atuarmos em bloco para eleger o maior número de deputados e senadores possível, pra garantir a governabilidade de nosso presidente eleito, seja ele qual for entre os progressistas”.
Todos os políticos de esquerda reafirmaram compromissos com a democracia, com o Estado de Direito, com a liberdade de Lula e com a justiça na apuração da morte da vereadora do Marielle Franco e de seu motorista Anderson.
O deputado federal Jean Wyllys (PSol-RJ) (foto com Lula e Manuela) fez questão de falar na presença do ex-presidente que se considera um filho político da era Lula. Jean disse que o fato de ser o único político gay assumido naquele ato é “prova de que é preciso ter mais representatividade de mulheres, índios, negras, negros e homossexuais”. Ele disse também que “a democracia só terá sentido quando as liberdades estiverem sendo respeitadas, quando o feminicídio for banido de nossa sociedade assim como a homofobia”.

Auditório cheio e praça cheia (foto) ouviram o senador Lindbergh Farias, do PT, e Gleisi Hoffman, presidente do PT nacional, um representante do PCO e o vereador paulista Eduardo Suplicy, que só não cantou porque o tempo era curto para tantas falas.

Celso Amorim, pré-candidato a governador do Rio pelo PT, um dos articuladores do ato suprapartidário, destacou a importância da união neste momento em que “o Brasil sofre um dos piores ataques do autoritarismo de direita, insuflado por setores conservadores que não possuem candidatos capazes de vencer Lula nas eleições”.
Ao mencionar o estudante Edson Luís, secundarista assassinado por policiais militares, durante confronto no restaurante Calabouço, centro do Rio de Janeiro, no dia 28 de março de 1968, Amorim disse que à época a palavra de ordem era: “O povo unido jamais será vencido”. “E é isso que deve nos mover neste instante”.
A filósofa Márcia Tiburi chamou atenção ao dizer que o que envolve toda essa onda fascista, violenta, intolerante, que estamos vivendo no Brasil é a ideologia do neoliberalismo. "É contra essa visão individualista do mundo que precisamos nos dedicar, pois ela não é óbvia para a maioria da população. Nós temos que fazer o debate para orientar nossa luta diária".
A viúva de Marielle, a arquiteta Mônica Benício foi chamada ao palco e disse que não gostaria de estar ali por causa do assassinato covarde de sua mulher, mas que tinha certeza de que ela “está viva em todos nós, no Brasil e no mundo”. Freixo completou dizendo que “o mundo chora não apenas a morte de Marielle, mas a vontade de tê-la conhecido viva”.
Lula, que fez sua última aparição pública antes do julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o seu pedido de habeas corpus, desafiou o juiz Sérgio Moro, os desembargadores do TRF4 e os membros do Ministério Público para um debate sobre o processo em que é acusado de crimes que, segundo ele, “não cometeu”.
Lula disse ainda que não está nessa briga apenas porque quer ser candidato, mas porque quer que “parem de mentir” a seu respeito. “Quero minha inocência, porque quero ser candidato”.
Lula atacou a Rede Globo e a considerou responsável pelo crescimento do ódio e da violência política no país. Segundo Lula, se a Globo “tivesse dado um quinto da atenção ao mandato de Marielle antes do seu assassinato, talvez ela estivesse viva”. Lula acha que a democracia brasileira só terá sentido se “fizermos uma regulação da mídia neste país. Não é possível a comunicação social no Brasil continuar sendo comandada por apenas cinco famílias”.
O ato público, que deveria ser apenas o lançamento das pré-candidaturas de Celso Amorim para governador, Lindbergh Farias para o Senado e Lula presidente, transformou-se numa demonstração de unidade em torno da defesa da democracia e críticas ao avanço da direta fascista no Brasil.
Criado em 2018-04-03 04:58:40
José Carlos Peliano (*) -
É uma questão de semântica sim, ao trocar de lado as sílabas de toga e gato, uma palavra vira a outra. Mas é também uma questão de significados, os quais, segundo os lacanianos, resvalam em significantes.
Há uma questão adicional por fim não menos importante nem última. Trata-se da numerologia de Pitágoras, ambas as palavras somam 7 (2+6+7+1=16 = 1+6=7), o número pitagórico para uma pessoa que procura sempre saber das coisas, mas é a uma só vez esperta e desligada. Podendo também ser, quando interessar, esperta para ser desligada ou desligada para ser esperta.
A troca de sílabas pode levar o leitor a algumas interpretações. O gato que escondeu na toga, a toga que faz ou cobre a cama do gato, o gato de toga, a toga em forma de gato, e por aí vai. A escolher ou a acrescentar. Afinal, o troca-troca pode virar uma brincadeira ou um jogo. Espaço livre para criatividade e, vai ver, descobertas.
Para os iniciados é mole a tentativa, aliás divertida, produtiva e eficaz, para os poetas em especial, mas igualmente escritores, publicitários, gente da área artística é chegada a esses devaneios.
Para os não iniciados pode ser um caminho novo a seguir, quem sabe vem abrir espaço para outras incursões no estudo da língua portuguesa, na formação das palavras e em suas origens através de hábitos, usos e costumes das etnias. Ou simplesmente um mero passatempo. Quem sabe?
O significado de cada uma delas é objetivo, claro e definido. A toga foi a vestimenta usada pelos romanos na antiguidade, mas que veio a ser adotada mais tarde também pelos membros da justiça, particularmente magistrados. Hoje em dia, sobraram majoritariamente esses últimos, os únicos a usarem suas peças pretas, do pescoço para baixo, os conhecidos membros togados. Às vezes solenes, às vezes ridículos, a depender do membro, sua aparência e suas conveniências.
Dirão, e as vestimentas de grupos clérigos e de habitantes do Oriente Médio? Direi que eles não usam toga propriamente dita, mas uma cobertura corporal popularmente conhecida por túnica e suas variações de tecidos, cores e modelos.
O gato é o charmoso animalzinho de estimação ou de rua, de andar leve e macio que, em geral, encanta as pessoas, mas não os cães, e assusta os ratos. Muito admirado na Turquia a ponto de andar pelas ruas e casas sem ser absolutamente molestado, acolhido às dezenas anos sem fio no seu espaço de trabalho pela inesquecível Nise da Silveira, mas evitado em canis ou locais urbanos de trabalho, dito civilizados, como escritórios, tribunais e ambientes assemelhados, e proibidos em lugares assépticos tipo hospitais e postos de saúde.
Há uma outra acepção paralela para a palavra, muito conhecida entre aqueles que usam de subterfúgios para fugirem pelos subterrâneos da dissimulação malandragem e enganação.
O gato pode ser entendido, então, como o ato de se aproveitar do alheio em benefício ou interesse ou achismo próprio. Exemplos são muitos, entre tais, puxar para sua casa uma linha de eletricidade do vizinho, sem que esse saiba; copiar a prova de alguém ao seu lado furtivamente; subcontratar trabalhadores clandestinamente; interpretar a juízo particular uma legislação contrariamente ao entendimento convencional, ou votar por algum motivo contra num julgamento embora esteja a favor de alguém ou de alguma coisa, ou vice-versa.
Como se vê, ou melhor se lê, o significado paralelo de gato e a numerologia têm muito mais a ver do que imagina a vã filosofia. O mesmo se dá com toga e o paralelismo com gato e a numerologia.
Há o gato que subcontrata pela gatunagem e há o magistrado que escorrega no subterfúgio para levar a compreensão da lei ao seu bel prazer. Nesse caso pode-se falar em gatos togados e somente nesse caso. Como então descobrir um gato togado? Existe algum meio eficaz de se apontar um que esteja enrolando a interpretação da lei?
Recordo-me de três exemplos por sua relevância. Por que só 3? Uma razão é porque não sou da área do direito e, portanto, não acompanho julgamentos em foros ou tribunais.
Outra porque esses dois exemplos são flagrantes e saltaram aos olhos dos jornalistas, especialistas e comentaristas. Uma ministra do Supremo anos atrás ao dar seu voto proclama: “...não tenho prova cabal contra fulano, mas vou condená-lo porque a literatura jurídica me permite...”.
O segundo mais recente da mesma autora: “...sou contra a prisão em segunda instância, mas no caso específico do habeas corpus de fulano, vou acompanhar vocês e ser a favor da prisão em segunda instância...”.
Ao faltar prova numa situação, vota-se contra porque a literatura assim permite? Ao estar a favor noutra situação, vota-se contra para seguir os votos dos demais? Falta de estudo, conhecimento, opinião, não importa, esse são exemplos típicos de escapar da questão por subterfúgios.
Um gato, ou melhor, uma gata togada. No frigir dos ovos qual a força do voto? É um voto que vale na contagem, mas vale no mérito? Pior, qual seu valor na condenação? Votar contra porque acha que é assim, porque pode por ser juíza ou para seguir os pares? Qual o argumento e a base jurídica? E o acusado como fica? Que se dane?
Por último, o mais relevante, a condenação dada ao ex-presidente Lula pelo Juiz Sérgio Moro. Sua sentença não traz provas nem indícios de provas, apenas um power-point com ilações explanatórias, apesar de a defesa ter rebatido com provas todas as acusações.
Um julgamento eminentemente político, reconhecido até por juristas de outros países, cuja sentença condenatória foi acompanhada pelo tribunal de recursos. Sob o mesmo diapasão, clima, jeito, convicção e circunstância. Gatos togados, em sua maioria, tergiversaram, inventaram, douraram a pílula, e condenaram em prazo diminuto um julgado, o presidente mais querido que já houve nesse país e o que mais fez pelo povo.
Deixaram de fora muitos outros acusados soltos, conhecidos corruptos repletos de provas. Deram assim os verdadeiros pulos dos gatos. A justiça brasileira, seguindo essas pegadas, está fadada e fardada a ser um inacreditável saco de gatos. A população?
Essa ainda não vem ao caso.
__________________
(*) José Carlos Peliano é economista, poeta e escritor.
Criado em 2018-04-07 00:26:23
João Lanari Bo (*) –
Em 2020 os cinéfilos preparavam-se para celebrar o centenário de Federico Fellini, nascido em 20 de janeiro de 1920 – no Brasil, uma estupenda retrospectiva no CCBB, com a maioria dos títulos em 35 mm, foi exibida no Rio no começo do ano, viajou para São Paulo e chegaria em Brasília no final de março (interrompida na capital paulista, está à espera de melhores condições sanitárias para ser reprogramada).
A projeção foi suspensa em função do Coronavírus e a luz acendeu. Nesse hiato temporal, vale pensar um esquentamento para a mostra que se avizinha, uma espécie de preliminar onde podem ser conferidos momentos fundadores desse exuberante inconsciente cinematográfico – a tal ponto exuberante, como comentam muitos de seus admiradores, que o termo “felliniano” acabou sendo assimilado pelas comunidades linguísticas, ao lado de luminares como Kafka, Sade e Dante (respectivamente kafkiano, sádico, dantesco).
Esses momentos vão desde a sessão inaugural em uma sala de cinema, quando Fellini assistiu com seis anos de idade ao primeiro filme, nos braços do pai, até as produções neorrealistas que participou, como co-roteirista ou assistente de direção, na segunda metade da década de 1940 até começo de 1950. A lista que se segue não é exaustiva: comparecem alguns filmes exemplares, disponíveis na internet com subtítulos (clique no título sublinhado para acessar o link do filme).
A primeira parada nessa viagem ótico-sentimental é o inigualável “Maciste all'inferno”, de 1926, exibido no cinema Fulgor, na cidade natal do cineasta, Rimini, onde Urbano Fellini levou o filho para assistir à fita.
Maciste é um musculoso ex-escravo que desce aos infernos, seduz a mulher de Plutão e sua enteada, e retorna à superfície terrestre depois de inúmeras peripécias sensuais e guerreiras, seguida de uma última punição antes da redenção. Um filme felliniano, por excelência, que se inscreveu no imaginário do jovem espectador – e que suspendeu o fôlego das audiências. (Maciste).
Um antecedente que vale à pena conferir é o colossal “Cabiria”, de 1914, com intertítulos de Gabriele D'Annunzio, com mais de duas horas de duração – filme que influenciou Griffith e Fritz Lang, marcou a estreia do personagem Maciste e foi homenageado pelo próprio Fellini em 1957, com "Noites de Cabíria".
Da sua formação cinematográfica, Fellini salienta duas instâncias fulgurantes, Irmãos Marx e Buster Keaton, ambas fartamente presentes na internet. Em suas palavras: “Os irmãos Marx me deslumbraram. Estes são os que foram meus patrocinadores espirituais. Buster Keaton me agradava mais do que Charlie Chaplin (...) sua obstinação parece sugerir-nos um ponto de vista, uma perspectiva completamente diferente, quase uma filosofia diferente, ou uma religião diferente, que tudo revira e torna irrisório e inútil todas as ideias e premissas congeladas em um sistema de conceitos inalteráveis: um ser engraçado que vem diretamente do budismo zen.”
Ao se mudar para Roma em 1939, Fellini começou a escrever artigos e publicar caricaturas. Foi quando entrevistou o popular ator Aldo Fabrizi, de quem se tornou amigo e colaborador. Em 1943 participou do roteiro de “Campo de Fiori”, com Aldo Fabrizi, Peppino De Filippo e Anna Magnani - a versão brasileira levou o título de “Cada qual com seu destino”.
Em 1944 apresenta Fabrizi a Roberto Rossellini, e contribui para um clássico que dispensa apresentações – “Roma, cidade aberta”.
Em 1947 colabora com o amigo Alberto Lattuada em “Il delitto di Giovanni Episcopo”, história de um comportado funcionário público que se associa com um trapaceiro. Em 1948, participa como co-roteirista e ator em dos episódios de “L’amore”, onde contracena, no papel de (falso) São José, com Anna Magnani.
Duas pérolas do neo realismo em 1950, com a assinatura de Fellini entre os roteiristas: “Il cammino della speranza”, de Pietro Germi, sobre emigrantes italianos fugindo da penúria social através dos Alpes; e o belíssimo “Francisco, Arauto de Deus”, de Roberto Rossellini, onde também fez assistência de direção, sobre o santo da paz, Francisco, com elenco quase todo não-profissional (monges franciscanos), a exceção de Aldo Fabrizi.
Um ponto fora da curva nesse período inicial de colaborações é “La città si difende”, de 1951, um filme noir, policial e dramático, de Pietro Germi, com Gina Lollobrigida.
Em 1951, o primeiro longa-metragem, dirigido por Fellini em parceria com Alberto Lattuada, com as respectivas esposas (e amigas) entre os principais papéis – “Mulheres e Luzes” (Luci del varietà), com Carla Del Poggio e Giulietta Masina.
Finalmente, um detour insólito: em 1949, Michelangelo Antonioni realiza um curta fantástico, “L'amorosa menzogna”, sobre fotonovelas. Pouco depois, escreve um argumento para um longa-metragem sobre o assunto, que acabou virando roteiro nas mãos de Fellini e parceiros, Tullio Pinelli e Ennio Flaiano. Antonioni não gostou do que leu, e o filme acabou nas mãos de Fellini, em seu primeiro solo, de 1952 - “Lo sceicco bianco” - no Brasil, “Abismo de um sonho” (disponível apenas para streaming pago, a custo baixo).
_______________________
(*) João Lanari Bo, pesquisador, escreveu “Cinema para russos, Cinema para soviéticos”, publicado em 2019 pela editora Bazar do Tempo, e “Cinema Japonês”, publicado em 2016 pela Editora Giostri.
Criado em 2020-03-29 19:33:33
A ex-presidenta Dilma Rousseff, em nota oficial, desmascara mentiras veiculadas na série de TV lançada pela Netflix, denominada “O mecanismo”.
Segundo Dilma, o cineasta José Padilha, diretor da série, “propaga fake news”. Dilma cita duas citações na série em que atribui ao personagem que representa o preside Lula como autor da frase “com STF e tudo”, quando todo mundo sabe que a frase é do senador Romero Jucá.
A série também menciona o escândalo do Banestado como se tivesse ocorrido no primeiro governo Lula, quando ocorreu no governo de FHC. Além disso, a série de Padilha diz que Alberto Youssef trabalhou na campanha de Dilma. “A verdade é que o doleiro nunca teve contato com qualquer integrante da minha campanha”, diz Dilma.
Em sua defesa, Padilha ironiza e diz que “Dilma não sabe ler”, que a “série é uma ficção" e que, portanto, não tem qualquer compromisso com a realidade. Além de cínico, o diretor é desrespeitoso. Conta outra, Padilha.
Eis a íntegra da nota da ex-presidenta Dilma:
“O país continua vivo, apesar dos ilusionistas, dos vendedores de ódio e dos golpistas de plantão. Agora, a narrativa pró-golpe de 2016 ganha novas cores, numa visão distorcida da história, com tons típicos do fascismo latente no país.
A propósito de contar a história da Lava-Jato, numa série “baseada em fatos reais”, o cineasta José Padilha incorre na distorção da realidade e na propagação de mentiras de toda sorte para atacar a mim e ao presidente Lula.
A série “O Mecanismo”, na Netflix, é mentirosa e dissimulada. O diretor inventa fatos. Não reproduz “fake news”. Ele próprio tornou-se um criador de notícias falsas.
O cineasta trata o escândalo do Banestado, cujo doleiro-delator era Alberto Youssef, numa linha de tempo alternativa. Ora, se a série é “baseada em fatos reais”, no mínimo é preciso se ater ao tempo em que os fatos ocorreram. O caso Banestado não começou em 2003, como está na série, mas em 1996, em pleno governo FHC.
Sobre mim, o diretor de cinema usa as mesmas tintas de parte da imprensa brasileira para praticar assassinato de reputações, vertendo mentiras na série de TV, algumas que nem mesmo parte da grande mídia nacional teve coragem de insinuar.
Youssef jamais teve participação na minha campanha de reeleição, nem esteve na sede do comitê, como destaca a série, logo em seu primeiro capítulo. A verdade é que o doleiro nunca teve contato com qualquer integrante da minha campanha.
A má fé do cineasta é gritante, ao ponto de cometer outra fantasia: a de que eu seria próxima de Paulo Roberto da Costa. Isso não é verdade. Eu nunca tive qualquer tipo de amizade com Paulo Roberto, exonerado da Petrobras no meu governo.
Na série de TV, o cineasta ainda tem o desplante de usar as célebres palavras do senador Romero Jucá (PMDB-RR) sobre “estancar a sangria”, na época do impeachment fraudulento, num esforço para evitar que as investigações chegassem até aos golpistas. Juca confessava ali o desejo de “um grande acordo nacional”. O estarrecedor é que o cineasta atribui tais declarações ao personagem que encarna o presidente Lula.
Reparem. Na vida real, Lula jamais deu tais declarações. O senador Romero Jucá, líder do golpe, afirmou isso numa conversa com o delator Sérgio Machado, que o gravou e a quem esclarecia sobre o caráter estratégico do meu impeachment.
Na ocasião, Jucá e Machado debatiam como paralisar as investigações da Lava Jato contra membros do PMDB e do governo Temer, o que seria obtido pela chegada dos golpistas ao poder, a partir do meu afastamento da Presidência da República, em 2016.
Outra mentira é a declaração do personagem baseado em Youssef de que, em 2003, o então ministro da Justiça era seu advogado. Uma farsa. A pasta era ocupada naquela época por Márcio Thomas Bastos. Padilha faz o ataque à honra do criminalista à sorrelfa. O advogado sequer está vivo hoje para se defender.
O cineasta não usa a liberdade artística para recriar um episódio da história nacional. Ele mente, distorce e falseia. Isso é mais do que desonestidade intelectual. É próprio de um pusilânime a serviço de uma versão que teme a verdade.
É como se recriassem no cinema os últimos momentos da tragédia de John Kennedy, colocando o assassino, Lee Harvey Oswald, acusando a vítima. Ou Winston Churchill acertando com Adolf Hitler uma aliança para atacar os Estados Unidos. Ou Getúlio Vargas muito amigo de Carlos Lacerda, apoiando o golpe em 1954.
O cineasta faz ficção ao tratar da história do país, mas sem avisar a opinião pública. Declara basear-se em fatos reais e com isso tenta dissimula o que está fazendo, ao inventar passagens e distorcer os fatos reais da história para emoldurar a realidade à sua maneira e ao seu bel prazer.
Reitero meu respeito à liberdade de expressão e à manifestação artística. Há quem queira fazer ficção e tem todo o direito de fazê-lo. Mas é forçoso reconhecer que se trata de ficção. Caso contrário, o que se está fazendo não está baseado em fatos reais, mas em distorções reais, em “fake news” inventadas”.
Criado em 2018-03-28 01:52:50
Maria Lúcia de Moura Iwanow -
É preciso que, pelo menos as pessoas que se dizem, ou se acham de esquerda, abram os olhos e parem de ser massa de manobra dos donos de bares e restaurantes que as convenceram de que se aumentar o som dos bares, os músicos terão empregos! Essa é uma sandice que não resiste ao mais simples argumento.
Pra começar, não existe uma Lei do Silêncio. Existe a Lei 4.092/98, que dispõe sobre a poluição sonora e foi construída com base nos parâmetros da Organização Mundial de Saúde. Leiam, informem-se!
Quando a Lei foi aprovada, os donos de bares e restaurantes, para não fazerem o isolamento acústico previsto, demitiram os músicos. Hoje, acham gente pouco informada, ou mal intencionada, para dizer que quem é contra a mudança da Lei é de direita.
De direita, o cazzo! De direita é quem, entre outras coisas, ignora a realidade social dos que moram na periferia, que não têm sequer direito ao descanso, ao repouso, por causa do barulho ensurdecedor dos bares, do som automotivo, dos shows, das raves, tudo colocado num nível de decibéis insuportável ao ouvido humano.
Os defensores da modificação, conscientes, ou funcionando como simples massa de manobra ou inocentes úteis, mascaram o lobby esperto de donos de bares que não querem gastar com a preparação acústica dos estabelecimentos prevista legalmente.
O que quer o lobby é mudar uma lei que nunca funcionou para quem não mora em área nobre de Brasília! Eu não moro e sei do que estou falando! E posso afirmar que é horrível, estresse total. Não quero isso pra ninguém. E conheço muita gente que mora em lugar absolutamente sossegado que acha bacana barulho de bar no ouvido alheio!
“Ouvir música para os outros” é autoritarismo, falta de educação e porralouquice! Imagine, conviver, obrigado, com uma música alta! (Com mau cheiro seria legal também, não?) É não poder ler, não poder dormir, não poder assistir a um filme, não poder ouvir o silêncio quando se quer! As pessoas sabem o que é ser perturbado por uma música alta que não se escolheu, em dia, noite e hora que não se escolheu ouvir? Isso não é democracia.
E só para ninguém esquecer, a música alta que inferniza nossas vidas, na maioria dos casos, é mecânica e muito ruim. Além disso, qual a necessidade de um bar de menos de 30 metros quadrados colocar música para uma quadra inteira ouvir?
A propostinha do lobby é simplista e um deputados ou vários, ao encampá-la, apenas mostra(m), além de despreparo, falta de sintonia com os anseios da maioria da população e superficialidade na análise da questão.
Eu até iria mais longe, mas deixa pra lá. Um dia os verdadeiros motivos dessa baboseira vão aparecer.
Aumentar os decibéis não resolve e não são apenas os bares que precisam de regulamentação adequada nesse quesito! Os abusos estão por toda a parte, não há fiscalização a não ser, é claro, nas 'áreas nobres", embora tenha amigas que digam que, na Asa Sul, muitas vezes não conseguem dormir devido ao barulho que vem - pasme! - dos clubes à beira do Lago.
Então, quando canalha souber que pode aumentar o som ainda mais, imaginem!
No DF, principalmente fora das “áreas nobres”, o som automotivo inferniza a vida das pessoas, a qualquer hora do dia ou da noite, simplesmente porque o GDF não fiscaliza a aplicação do Código Nacional de Trânsito.
E se podem ver carros com som que balançam a estrutura das casas, das janelas, com bebê de colo dentro! Multas não faltam! Mas garantir saúde auditiva cumprindo a lei, imagine, de jeito algum!
O correto seria que o DF desse o exemplo com uma lei que regulamentasse os níveis de decibéis para toda a atividade sonora, não apenas com uma propostinha ridícula de aumentar decibéis para bares.
Pergunte, por exemplo, aos/às trabalhadores/as de lojas de shoppings, por exemplo, como é que estão seus tímpanos no final do dia, depois de 12 horas de trabalho, ouvindo música estridente, alta, ruim! Chegam surdos em casa. Mal podem ouvir os filhos, a família! Quem se importa, não é?
Experimente pedir ao gerente para baixar o som e ele vai-lhe responder que a música vem da rádio da firma e que o volume é decidido pela chefia. Quem ali trabalha que se dane! Ah, a música é, sempre, estrangeira e vagabunda.
Nada justifica um show na Esplanada ser ouvido nas duas Asas de Brasília. E a saúde auditiva dos presentes? Isso é uma questão de saúde pública. Mas o poder público está se lixando para isso. Seus representantes não são afetados por esse tipo de problema. No cinema, por toda a parte, o som é abusivo. Vai-se a uma festa de casamento, ou de criança e não se consegue conversar! As pessoas, ensurdecidas, exigem um som cada vez mais alto para poderem “ouvir”.
Há centenas de pessoas, musicistas, produtores culturais, compositores, representantes da comunidade que deveriam ser chamados para propor regulamentação para cada espaço de atividade sonora. Aumentar decibéis para bar é cara de pau, insensibilidade social e irresponsabilidade! Não sustentamos uma Câmara Distrital para ver isso.
E, mais uma mentira: os espaços da música – assim como o de outras manifestações culturais - não sumiram por causa da delimitação dos decibéis. Sumiram porque não há política de incentivo à cultura. Sumiram porque não são prioridade para os governos que se vêm sucedendo neste DF.
Saudável, ainda, lembrar que delimitação de decibéis não é vontade do legislador; é recomendação da Organização Mundial de Saúde, preocupada com o aumento do índice de surdez não congênita, que já atinge 10% e avança, provocada pelo barulho urbano que já é o suficiente. A legislação visa a proteger, principalmente, quem está perto da emissão do som.
Mas tem gente que acha legal, aos sons urbanos que já são demais, acrescentar um som de uma música indesejada.
Meigo, não? Democrático, né? A música tem que ser ouvida por quem escolheu ir ao bar, ao show, à sala de música ouvi-la e não por quem não o fez. É simples!
Criado em 2018-04-02 00:46:09
Diante dos efeitos da pandemia do Covid-19, dirigentes de 18 espaços culturais alternativos do Distrito Federal divulgaram ontem (26/3) carta aberta às secretarias de Cultura e Economia Criativa e de Fazenda do DF e à Câmara Legislativa solicitando atenção especial para a manutenção de suas atividades culturais e econômicas.
Como se não bastasse o fechamento de todos os espaços culturais da cidade, as atividades comemorativas do aniversário de 60 anos de Brasília estão irremediavelmente comprometidas. O secretário de Cultura, Bartolomeu Rodrigues, em vídeo divulgado nas redes sociais, anunciou que “lamentavelmente não haverá festividade comemorativa este ano”.
O documento dos gestores ressalta que “Brasília, assim como todo o Brasil e o mundo, enfrenta sua pior crise, advinda desta vez de um inimigo invisível, promovendo drásticos prejuízos a todas as cadeias produtivas; em tal quadro, milhares de agentes culturais do Distrito Federal se encontram neste momento ilhadas(os), respeitando todas as determinações para garantia da saúde coletiva da população, enquanto as medidas de isolamento ou quarentena estiverem vigentes, de acordo com a Lei 13.979, 06 de fevereiro de 2020”.
A seguir, a íntegra da Carta dos Espaços Culturais Alternativos do DF:
“De acordo com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, ¨somente pode ser realizado o ideal do ser humano livre, isento do temor e da miséria, se criadas condições que permitam a cada pessoa gozar dos seus direitos econômicos, sociais e culturais, bem como dos seus direitos civis e políticos¨ (Assembleia Geral da ONU, 1948).
Às vésperas de completar 60 anos, Brasília, assim como todo o Brasil e o mundo, enfrenta sua pior crise, advinda desta vez de um inimigo invisível, promovendo drásticos prejuízos a todas as cadeias produtivas; em tal quadro, milhares de agentes culturais do Distrito Federal se encontram neste momento ilhadas(os), respeitando todas as determinações para garantia da saúde coletiva da população, enquanto as medidas de isolamento ou quarentena estiverem vigentes, de acordo com a Lei 13.979, 06 de fevereiro de 2020.
A propósito, importante destacar que desde o fechamento dos espaços culturais, em atendimento a determinações de proibição de realização de eventos artísticos e culturais os mais diversos (decretos distrital e federal), infligem-se prejuízos à cadeia da cultura como nunca visto nas últimas décadas. Ainda não há projeções concretas dos prejuízos para o setor cultural, mas já é possível sentir os impactos dessa crise mundial em nível local por força da interrupção de arrecadação de renda oriunda da realização de cursos, workshops, shows e espetáculos para pagamento de trabalhadoras e trabalhadores da cultura.
Embora tenha característica de contar em suas fileiras com muitos(as) microempreendedores(as) individuais e alguns pequenos e médios empresários(as) do ramo de entretenimento, o setor cultural é muito frágil na medida em que transita no pilar da informalidade o tempo todo; mantém-se economicamente viável a partir do que efetivamente produz.
Nesse contexto, nós, gestoras(es) de espaços culturais independentes no Distrito Federal, estamos aflitas(os), pois sabemos que a demanda por aquisição de bens e serviços artísticos consistirá num dos últimos gastos ou investimentos a serem efetuados pelo conjunto da população após o fim da pandemia (que não se tem noção de quando ocorrerá). E não há dúvidas de que reconstrução, reconquistas e reconfiguração de seu público levarão tempo, muito tempo - estimamos que no mínimo quatro meses após a crise.
Segundo levantamento realizado pela Fundação Nacional de Artes – FUNARTE, havia em 2017 aproximadamente 18 (dezoito) espaços culturais de feição alternativa no Distrito Federal, ou seja, não vinculados ao Estado ou a grandes conglomerados econômicos. Desse total de 18 e até dezembro de 2019, 3 (três) fecharam suas portas e não é absurdo afirmar que, entre os que restam, uma dezena já se encontra em situação de pré-falência em decorrência da pandemia e de seus generalizados efeitos deletérios, uma vez que boa parte desses territórios de resistência cultural incorre em custos fixos, como taxas, impostos, aluguel e pagamento da folha de pessoal entre outros.
Na articulação realizada nos últimos dias no tocante a esses espaços de arte e cultura, e após a realização de videoconferência com alguns grupos e espaços, verificou-se que o número de centros culturais listados no mapeamento da Funarte não confere com o montante real, que obteve aumento, fato que impossibilita mensuração oficial desses espaços e do montante dos prejuízos que deverão ser calculados. A situação se agrava porquanto constituem agrupamentos que igualmente dependiam da realização de eventos e bilheterias, certo que parte do produto da respectiva negociação de insumos artísticos mediante venda de ingressos era utilizada para sua manutenção e funcionamento.
A trajetória da cultura de tempos em tempos enfrenta crises as mais variadas, talvez pelo caráter de liberdade que seus portadores adotam na concepção e execução de seus fazeres artísticos e isso não se respalda, infelizmente, propositivamente em desdobramentos traduzidos em seguros por dispensa de trabalho, fundo de garantia por tempo de serviços. Vale dizer, boa parte da cadeia produtiva da cultura e entretenimento que impactam no PIB brasileiro ainda carece de estímulos a iniciativas voltadas para estender direitos previdenciários e apoio a microempreendimentos de caráter alternativo.
Daí o motivo pelo qual os espaços culturais alternativos, assim como toda a cadeia produtiva da arte e da cultura, pedem socorro. Nesta carta, em especial, solicitamos apoio a esse setor de equipamentos independentes e alternativos, tão necessário ao fluir da arte no Distrito Federal. Artista sem seu ateliê é artista sem casa, sem alma e vamos ter, por conseguinte, público sem riso e sem choro, mas, sobretudo, carente de estímulo ao pensamento crítico.
Isso posto, apresentamos as seguintes “Propostas Emergenciais para a Não Falência dos Espaços Alternativos no DF”:
Às Secretaria de Cultura e Economia Criativa e Secretaria de Fazenda do DF:
1. Imediato retorno do Edital de Manutenção de Grupos e Espaços Culturais pelo período de 12 (doze) meses a 24 (vinte e quatro) meses e destinação de R$ 6.000.000,00 (seis milhões de reais) através de expedição de novo edital do FAC, no prazo de até 2 (dois) meses e de forma simplificada;
2. Redução do valor da taxa e suspensão temporária da cobrança de tarifas de água e de esgoto pelo período de 6 (seis) meses, com possibilidade de parcelamento em até 6 vezes sem juros;
3. Igualmente, suspensão de cobrança de tarifa de energia elétrica pelo prazo de 6 (seis) meses, com possibilidade de parcelamento em até 6 vezes sem juros;
4. Isenção de IPTU para os espaços de cultura em 2020.
À Câmara Legislativa do DF:
1. Destinação de emendas de bancada ou individuais (parlamentares) para salvaguarda de espaços culturais, tendo como contrapartida, no período de quarentena, estabelecimento de programação de fruição remota à população através da oferta de cursos, workshops, espetáculos e shows artísticos on line, sem cobrança de ingressos. No caso de a quarentena não durar por exemplo todo o período de quatro meses, após portanto a liberação para retorno das atividades econômicas e sociais com realização de eventos, esses espaços ainda subvencionados com recursos públicos deverão manter em andamento parte das programações, já então de forma presencial e mantida a gratuidade;
2. Criação de Lei de isenção de IPTU, permanentemente ou por um período razoável de recuperação econômica, a Espaços Culturais de caráter alternativo no DF;
3. Criação do Renda Básica da Cultura, programa de auxílio a artistas que se encontrarem desassistidas(os) por não estar em cartaz e ou em temporada, devendo-se obedecer critérios de vulnerabilidade social para tal acesso ou decretação de Estado de Calamidade Pública, Emergência, Pandemia distrital, local, nacional e/ou mundial; os recursos desse programa poderão ser obtidos de parte do imposto pago pelo ISS ou de outros impostos em vigor em bases tecnicamente viáveis para sua implementação”.
Brasília, 26 de março de 2020
Subscrevem esta carta:
Criado em 2020-03-27 23:36:54
Este é o tema da palestra do professor e ex-ministro da Educação Renato Janine amanhã, 20/3, terça-feira, 19h, no Museu Nacional da República, na Esplanada dos Ministérios em Brasília.
Com o título “A educação no Brasil, a realidade contemporânea e os novos instrumentos para a formação de crianças e jovens”, Renato Janine vai falar sobre a nova realidade nas escolas brasileiras, bem diferente daquela de apenas duas décadas atrás, e como os caminhos da educação vão desde a busca de uma formação plena e humanista, em contraponto à formação de caráter apenas técnica e alienada, até a compreensão e o uso das novas ferramentas digitais.
Professor titular de ética e filosofia política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, na qual se doutorou após defender mestrado na Sorbonne, Renato Janine foi professor visitante em Columbia University (NY) e diretor de avaliação da Capes e Ministro da Educação. Tem se dedicado à análise de temas como o caráter teatral da representação política, a ideia de revolução, a democracia, a república, a cultura política brasileira.
DIÁLOGOS CONTEMPORÂNEOS
O que esperar do Brasil do futuro? Quais os obstáculos para se criar um país mais inclusivo, que respeite as diferenças e onde todos tenham acesso à educação de qualidade? Como lidar com a solidão nas grandes cidades e frear o avanço da depressão na população brasileira?
Por meio de uma série de dez conferências, os Diálogos Contemporâneos buscam debater essas e outras questões que envolvem a complexidade, os problemas e a diversidade do Brasil atual. O evento será realizado Museu Nacional de Brasília, até 12 de junho. Algumas das palestras serão realizadas, também, na Universidade de Brasília (UnB). A entrada é franca e sujeita à lotação.
O QUE VEM POR AÍ
A causa indígena é tema da palestra "Mulheres indígenas, resistência e protagonismo", proferida por Célia Xakriabá, professora e liderança indígena, no dia 27 de março.
Poeta, filósofa, psicanalista e especialista em elaboração e implementação de políticas públicas, Viviane Mosé é a convidada do dia 3 de abril com o tema “Mundo digital e sociedade em rede - o declínio das mídias tradicionais e os novos espaços de informação e comunicação”. Djamila Ribeiro, pesquisadora e mestre em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo. discute o tema "Diversidade Cultural e de Gênero no Brasil: a construção de uma sociedade democrática e fraterna e o respeito às diferenças” no dia 10 de abril.
No dia 17 de abril, o sociólogo Jessé Souza, ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), discute o tema “A formação do Brasil: do descobrimento aos tempos atuais - a herança cartorial, o patrimonialismo e a cultura de privilégios”.
A programação de maio começa com o tema “Os esquecidos: Identidade, Território e afirmação das Nações Indígenas brasileiras”, no dia 8, por Fernanda Kaingáng, indígena especialista em biodiversidade. Questões sobre religiosidade o estado laico serão abordadas no dia 15 de maio pelo professor de filosofia Vladimir Safatle em “Estado, Igreja e Democracia - Novas Religiões, Teologia da Prosperidade e os desafios do secularismo”. Dia 29 de maio, o escritor Ignácio de Loyola Brandão apresenta “A cultura do descarte, a sociedade de consumo e a tragédia do meio ambiente”.
As dificuldades de ascensão social serão discutidas na palestra “Mobilidade social e empreendedorismo - o estado, o mercado e as possibilidades de superação das desigualdades e de ascensão social na sociedade brasileira”, proferida pelo economista Luiz Gonzaga Beluzzo no dia 5 de junho.
Diálogos Contemporâneos encerra suas atividades no dia 12 de junho lançando luzes sobre duas das condições humanas mais preocupantes do século XXI: a depressão e a solidão com a palestra “O Espaço do Amor e da Afetividade nas Grandes Cidades” pela antropóloga Mirian Goldemberger.
Após a realização, as palestras ficarão disponíveis no site para ampliar o alcance da diversidade de pensamentos proposta pelo programa e democratizar o acesso da população em geral a debates sobre temas que afetam diretamente a vida individualmente e, principalmente, em sociedade. Diálogos Contemporâneos acontece simultaneamente em Campo Grande (MS), onde serão promovidas oito conferências.
Serviço:
Diálogos Contemporâneos
Quando: TERÇA-FEIRA, 20 de março (VER PROGRAMAÇÃO COMPLETA EM ANEXO)
Local: Museu Nacional da República - Brasília
Horário: 19h
Entrada franca
Programação completa no site:
www.dialogoscontemporaneos.com
Criado em 2018-03-19 13:22:50
Geniberto Paiva Campos –
É preciso muito cuidado com o uso de certos conceitos. Podemos, sem perceber, ser objeto da mais grosseira manipulação.
Lancemos a convocatória: – Cidadãos de todo o mundo, uni-vos. Nada tendes a perder ao fazer o diagnóstico e denunciar a mais abjeta campanha, hipocrisia jamais perpetrada contra mentes crédulas e ingênuas. Integrantes do vasto rebanho dos tolos, facilmente manipuláveis. Há décadas.
Convoquem-se os filósofos, os doutores da academia, os sábios de todas as áreas do conhecimento. Precisamos estar atentos e fortes contra o assédio moral dos hipócritas militantes. Ou seremos vítimas da mais tosca manipulação política, aplicável a segmentos, digamos, mais sensíveis da sociedade.
Comecemos então, didaticamente, por definir hipocrisia, para chegarmos à ética.
Eis a definição mais precisa que encontramos: “hipócritas são aqueles que aplicam aos outros os padrões que eles se recusam a aceitar para si mesmos”.
Portanto, nada mais fácil do que impor a ética como padrão de conduta inviolável. Principalmente quando esse padrão não é aplicável àqueles que impõem esse excelso valor.
E, ainda mais grave, quando os que se supõem portadores de elevados conhecimentos e douta sabedoria são tão somente ridículos parlapatões. A expor, tristemente, a sua ignorância, perceptível e evidente, mesmo disfarçada sob as vestes da “politização”, expostas a toda hora, nos veículos de comunicação de massa.
Como resultante dessa tosca manipulação dos hipócritas, surgem, e são prontamente assimilados, conceitos filosóficos historicamente aceitos e respeitados, agora travestidos de novos significados. E edulcorados de conteúdos políticos e partidários.
A Ética, por exemplo.
Aprendemos com Kant: “Atua de tal maneira, que tua conduta possa tornar-se, em condições similares, normas para todos os homens.”
No dicionário Houaiss, “ética é parte da filosofia responsável pela investigação dos princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano, refletindo especificamente a respeito da essência das normas, valores prescrições e exortações presentes em qualquer realidade social”.
Ao assistir a um seminário, em ambiente acadêmico, sobre a ética aplicada a diversas situações nas relações humanas e sociais – na economia, na política, no judiciário - me dei conta que o conceito clássico de ética não conseguia permear de maneira convincente nenhuma das situações expostas.
Na economia, por exemplo, ao abordar o controverso tema da “Dívida Pública”, ficamos na dúvida se é, de fato, uma questão ética ou simples caso de delegacia de polícia.
Pois o neoliberalismo, nos últimos tempos adotado no Brasil, ao priorizar o lucro acima de todos os princípios, por onde passa, vai reduzindo a pó valores como o trabalho, divisão do produto do trabalho, direitos humanos e princípios como honestidade e decência na sociedade humana.
Dizia o dramaturgo Bertolt Brecht, em frase que lhe é atribuída: - “O que é o roubo de um banco, comparado à fundação de um banco?” questionando severamente a natureza eticamente fluida das transações bancárias.
Após a brilhante e corajosa exposição de uma participante do evento, sobre a origem e a natureza da dívida pública, e a gatunagem que isso representa, caímos na realidade: é, realmente, um simples caso de polícia. Colocado num patamar bem inferior aos princípios éticos e filosóficos. Lembrando a canção popular: -“Chame o ladrão! Chame o ladrão!”
O sigilo bancário, levado às suas últimas consequências, produziu essa estranha distorção – moralmente aceita – os Paraísos Fiscais. Um local sagrado, onde o capital financeiro esconde e aumenta os seus lucros, livres dos incômodos de taxações e impostos.
Saí do evento perguntando aos meus perplexos botões: qual a diferença entre estes estranhos paraísos fiscais e as malas de dinheiro guardadas pelo deputado baiano, na sala do seu apartamento em Salvador, na Bahia de todos os santos e de todos os pecados? Uma simples questão de endereço?
E em triste desalento, cheguei à conclusão: não seria mais correto e apropriado organizar outro seminário, intitulado, “A hipocrisia nas relações jurídicas, econômicas e políticas num mundo orientado pelos valores neoliberais”? Talvez fora da academia.
Quem sabe num desses presídios brasileiros. Superlotados de negros e pobres. Onde a maioria cumpre longas penas, mesmo sem prévio julgamento, e sem sentenças definitivas. Pois, como aprendemos, “a lei é para todos”. Mas as penas...
Criado em 2018-04-01 02:26:37
João Lanari Bo (*) –
Enfrentar o confinamento contemporâneo causado pelo coronavírus pode ser uma oportunidade de revisitar clássicos do cinema disponíveis gratuitamente na internet. O que era um tesouro oculto nas cinematecas, torna-se com a web manancial de lazer acessível aos mortais, em dois ou três cliques, graças (mas não exclusivamente) ao Youtube – um domínio razoável de línguas estrangeiras, sobretudo inglês e espanhol, sempre ajuda, naturalmente.
A quantidade de títulos no Youtube é imensa, e a facilidade de pesquisa através do Wikipédia e o IMDB, sites colaborativos, é igualmente fecunda. Se o leitor quiser assistir à primeira partitura de Dmítri Chostakóvitch no cinema, por exemplo, encontra uma cópia restaurada da dupla soviética Traueberg & Kozintsev, “The New Babylon”, de 1929, no Youtube.
Quando isto seria possível nos tempos pré-digitais? Gerações de cinéfilos cresceram ouvindo falar dos filmes do pioneiro D.W. Griffith, mas assistindo pouquíssimos filmes, geralmente em cópias deploráveis. Hoje, clicando Griffith no Youtube, não dá nem para contar o número de páginas resultantes.
Mas vamos ao que interessa. Um notável caso de visão estratégica e preocupação com o consumidor é o site www.cine.ar, que oferece filmes argentinos, de todas as épocas, de graça – sim, de graça, bastando apenas um registro simples do usuário. O site é mantido pelo INCAA (Instituto Nacional de Cine y Artes Visuales) e pela ARSAT - Empresa Argentina de Soluciones Satelitales. Não tem todo o cinema argentino – como se sabe, de alto nível artístico – mas conta com um acervo fantástico. Porquê não acontece algo semelhante no Brasil é a pergunta que não quer calar, levando-se em conta que aqui, como no país de los hermanos, a produção em sua grande maioria foi de alguma forma subsidiada, seja Embrafilme, lei do audiovisual, etc.
Para cinema russo/sovético, e contando com legendas em inglês que almas caridosas organizaram para o resto do planeta (algumas vezes a tradução ainda está um pouco caótica, mas espectadores valentes vão até o final), temos um canal com variedade de ofertas, que se autointitula “Playlist Soviet and russian movies with eng subtitles". São 270 títulos, gratuitos! E para quem quiser aceder a uma lista mais atualizada, e dispondo-se a pagar (mas com direito a fazer download) temos a Soviet Movies, com uma seleção caprichada, inclusive russos contemporâneos.
Ainda sobre o cinema soviético, para os cinéfilos obsessivos, há que se destacar o blog Cine Soviético, feito por um espanhol que residiu em Moscou (as postagens pararam, mas o site – um conjunto de informações e links para clássicos dos anos 1910 e 1920 simplesmente inacreditáveis – continua no ar).
Para encerrar, menção ao brasileiro SP Cine Play, iniciativa louvável do governo paulista que oferece fantástica seleção de filmes brasileiros, de Andrea Tonacci a Helena Ignez e Ana Carolina. Isso tudo sem abdicar do produto estrangeiro de qualidade: a partir do dia 26 de março próximo, vai exibir em streaming gratuito a série documental francesa “A Herança da Coruja” (L‘Héritage de la Chouette, 1989), do grande Chris Marker (1921-2012). Em versão restaurada, a série discute em treze episódios, a partir de treze palavras incorporadas ao vocabulário moderno, o legado cultural e político da Grécia clássica para o mundo contemporâneo.
E por aí vamos. Quem garimpar na net – não apenas youtube, mas também Dayly Motions e Mubi.com, que exigem algum tipo de registro e eventualmente algum pagamento módico, ou ainda o gratuito Open Culture, que conta com uma sessão de “free movies” de mais de 1.150 filmes! – certamente vai driblar o tédio com desenvoltura.
______________
(*) João Lanari Bo, pesquisador, escreveu “Cinema para russos, Cinema para soviéticos”, publicado em 2019 pela editora Bazar do Tempo, e “Cinema Japonês”, publicado em 2016 pela Editora Giostri.
Criado em 2020-03-25 18:25:07
Romário Schettino -
O duplo assassinato ocorrido ontem (14/3) no centro do Rio Janeiro, da vereadora Marielle Franco (PSol-RJ) e de seu motorista Anderson Pedro Gomes, comove o Brasil e o mundo e deixa a nu o governo Michel Temer.
Marielle havia sido nomeada relatora da Comissão municipal que iria acompanhar a intervenção militar no Rio de Janeiro e feito denúncias de truculência e crimes dos policiais militares cariocas.
O caráter covarde do crime é ressaltado em todos os depoimentos que condenam a violência política que se instalou no Brasil após o golpe de 2016, que depôs a presidenta Dilma Rousseff e colocou em seu lugar o ilegítimo Temer.
A indignação se alastra por todas as cidades brasileiras e na Europa, a ponto de parlamentares do Parlamento Europeu pedirem a suspensão das negociações que a União Europeia vinha mantendo com o Mercosul. Essa instabilidade é consequência das políticas desastradas, incompetentes e criminosas que os governos federal, estadual e municipal vêm praticando no Rio de Janeiro. Incluindo-se a inútil e ineficiente intervenção militar na segurança do Estado, instigada pela grande mídia.
Nas redes sociais o que mais se lê e ouve é que o assassinato de Marielle Franco significa matar muitas esperanças. É uma morte aviltante de alto impacto simbólico que interrompe o trabalho de uma mulher admirável, que gostaríamos de ver na política, em todos os lugares, o tempo todo.
A morte de Marielle atinge o Brasil afetiva e politicamente. E devemos nos associar a todos os que consideram essa morte uma consequência da política de terror de Estado que atinge o país, sobretudo o povo pobre das favelas. (A seguir, foto de Aline Fernanda, hoje, 15/3, durante ato na Cinelâdia).

O Portal Vermelho destaca a fala do governador do Maranhão, Flávio Dino. Para ele, a execução da vereadora tem "três absurdos cumulativos".
O primeiro, diz o governador que foi juiz federal e é professor de Direito, é o "bárbaro assassinato", que vitimou a vereadora e seu motorista, Anderson Pedro Gomes. A vereadora foi executada no centro do Rio de Janeiro depois de participar de uma roda de conversa denominada Mulheres Negras Movendo Estruturas.
O segundo, é o que Flávio Dino classifica como "a situação gravíssima e anômala que contextualiza o crime", referindo-se à intervenção militar do governo de Michel Temer, imposta na segurança pública do Rio desde 16 de fevereiro.
O terceiro e último "absurdo" apontado pelo governador é o fato de "pessoas comemorarem uma morte e pretenderem dar "lição" aos defensores dos direitos humanos".
Num ambiente de estímulo ao ódio e a intolerância, a tese insuflada por setores da direita conservadora de que os direitos humanos são para defender bandidos encontra campo fértil, principalmente nas redes sociais.
A vereadora Marielle tinha atuação marcada pela defesa dos direitos humanos e contra abusos policiais. No domingo (11/3), Marielle denunciou uma ação de PMs do 41º BPM (Irajá) na Favela de Acari. Segundo ela, moradores reclamaram da truculência dos policiais durante a abordagem a moradores.
Ela compartilhou uma publicação em que comenta que os rapazes foram jogados em um valão. De acordo com moradores, no último sábado (10), os PMs invadiram casas, fotografaram suas identidades e aterrorizaram as pessoas na vizinhança.
Marielle foi a quinta vereadora mais votada do Rio em 2016, com 46.502 votos. Socióloga formada pela PUC-Rio e mestra em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense (UFF), teve dissertação de mestrado com o tema “UPP: a redução da favela a três letras”.
Trabalhou em organizações da sociedade civil como a Brasil Foundation e o Centro de Ações Solidárias da Maré (Ceasm). Coordenou a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), ao lado de Marcelo Freixo.
Manifestações de rua na Cinelândia, em Brasília, na Câmara dos Deputados, e em muitos outros lugares Brasil afora marcaram o dia de hoje.
A poeta Maria Maia dedicou esse poema à vereadora assassinada:
Marielle espere luta
Maria Maia (*)
Por ”aqui estamos de luto de luto, mas na Luta!”
Marielle,
tua luta negra e forte
pelo florescer da primavera
não foi deveras em vão
hás de acordar, com ela
esse povo hoje no chão
não, não foi uma luta perdida
mas tua morte dói demais
em quem ama a vida
é o ovo da serpente
que eles chocam contra a gente
que trabalha, que estuda
que só quer vida decente
mas não se iluda:
estamos na antessala da barbárie:
com teu corpo morto
eles metralharam o coração do povo
Marielle, espere luta, querida
contra os que te tiraram a vida:
covardes, assassinos e brutos
desse Brasil pequeno e abrupto
que estão gestando os corruptos
aqui estamos de luto
de luto, mas na Luta!
__________________
(*) Maria Maia é artista da palavra e da imagem. Dirigiu filmes longa metragem como JK, Um Cometa no Céu do Brasil; Machado de Assis, Alma Curiosa de Perfeição; Glauber; Sousândrade, O Guesa Errante; Drummond, Poeta do Vasto Mundo; Portinari, Poeta da Cor; Darcy, Um Brasileiro e Chico Mendes Vive, entre outros. Socióloga, antropóloga, mestre em Comunicação pela UnB. Nasceu no Acre e mora em Brasília.
A violência contra os defensores dos direitos humanos e lideranças do movimento social já causaram muitas mortes desde julho de 2014. Vejam quem são as vítimas:
1 - Paulo Sérgio Santos, 08/07/2014 – líder quilombola na Bahia – Assassinado.
2 - Simeão Vilhalva Cristiano Navarro, 01/09/2015 – líder indígena Mato Grosso – Assassinado.
3 - Edmilson Alves da Silva, 16/02/2016 – Líder comunitário de Alagoas - Assassinado
4 - José Conceição Pereira, 14/04/2016 – Líder comunitário Maranhão – Assassinado.
5 - José Bernardo da Silva, 27/04/2016 – líder do MST Pernambuco – Assassinado.
6 - Almir Silva dos Santos, 08/07/2016 – líder comunitário no Maranhão – Assassinado.
7 - João Natalício Xukuru-Kariri, 19/10/2016 – líder indígena Alagoas – Assassinado.
8 - Waldomiro Costa Pereira, 20/03/2017 – Líder MST Pará – Assassinado.
9 - Luís César Santiago da Silva (“Cabeça do Povo”), 15/04/2017 – líder sindical Ceará – Assassinado,
10 - Valdenir Juventino Izidoro, (Lobo), 04/06/2017 – líder camponês Rondônia – Assassinado.
11 - Eraldo Lima Costa e Silva, 20/06/2017 – líder MST Recife – Assassinado.
12 Rosenildo Pereira de Almeida (Negão), 08/07/2017 – líder comunitário/MST – Assassinado.
13 - José Raimundo da Mota de Souza Júnior 13/07/2017 – líder quilombola/MST - Bahia – Assassinado.
14 - Fabio Gabriel Pacifico dos Santos (Binho dos Palmares), 19/09/2017 – líder quilombola/Bahia – Assassinado.
15 - Jair Cleber dos Santos, 24/09/2017 – líder movimento agrário Pará – Assassinado.
16 - Clodoaldo dos Santos, 15/12/2017 – líder sindicalista Sindipetro/RJ – Assassinado.
17 - Jefferson Marcelo, 04/01/2018, Líder comunitário no RJ–Assassinado.
18 - Valdemir Resplandes, 09/01/2018 – líder MST Pará – Assassinado.
19 - Leandro Altenir Ribeiro Ribas, 19/01/2018 – Líder Comunitário no RS
– Assassinado.
20 - Márcio Oliveira Matos, 26/01/2018 – líder do MST na Bahia – Assassinado.
21 - Carlos Antonio dos Santos (Carlão), 08/02/2018 – líder movimento agrário Mato Grosso – Assassinado.
22 - George de Andrade Lima Rodrigues, 23/02/2018 – líder comunitário Recife – Assassinado.
23 - Paulo Sérgio Almeida Nascimento 13/03/2018 – líder comunitário no Pará – Assassinado
24 - Marielle Franco, e seu motorista Anderson Pedro Gomes, 14/3/2018 – vereadora do PSol na cidade do Rio de Janeiro . Assassinados.
Criado em 2018-03-15 21:41:07
Angélica Torres -
A tragédia de Marielle Franco, que tomou o país de profunda comoção, abafou o lançamento do livro “A verdade vencerá: o povo sabe por que me condenam”, de entrevistas de intelectuais com Lula, mas não impediu que centenas de amigos, companheiros e admiradores do ex-presidente lotassem o auditório do Sindicato dos Químicos, no centro de São Paulo, na sexta, 16/3, para adquirir o livro com dedicatória e reafirmar solidariedade a ele, às vésperas da decisão do Judiciário sobre sua prisão.
No lançamento, ele revelou ao público: “Aí me chega a Ivana (Jinkings), dona da Boitempo Editora, que publicou os livros mais maravilhosos que eu li, e apresenta a proposta de fazer o livro, com os entrevistadores também escolhidos por ela. Eu disse, ‘ô companheira Ivana, ponha esse livro pra rodar’ – e não dei palpite, só contei casos, os mesmos que vou contar a vida toda”.
O livro é, assim, um apanhado de horas de conversas mantidas no Instituto Lula (SP), nos dias 7, 15 e 28 de fevereiro, com os jornalistas Juca Kfouri e Mª Inês Nassif, o professor Gilberto Maringoni e a editora Ivana Jinkings. Além das entrevistas, há textos de Luis Fernando Veríssimo, de Luis Felipe Miguel, de Eric Nepomuceno e de Rafael Valim. Há ainda uma cronologia da vida de Lula e fotos históricas desde os seus tempos de sindicato até as recentes caravanas e manifestações de rua em sua defesa.
“A Verdade Vencerá” sai com 216 páginas e com tiragem de 30 mil exemplares, ao preço de R$ 35, enquanto a Boitempo já negocia sua tradução com mais de oito países – inicialmente, porque, com a admiração que Lula desperta no mundo todo, pode-se esperar que seus relatos serão lidos em inúmeros idiomas.
Entre os principais estão análises inéditas dos bastidores políticos dos últimos anos e do que levou o PT a perder o poder após a reeleição de Dilma Rousseff, além de suas perspectivas para as eleições de 2018 e as esperanças que deposita no País.
Sobre o conteúdo, Juca Kfouri disse à plateia do lançamento “que os que participaram do livro estão felizes, porque a verdade de Lula é a verdade”, ressaltou. O jurista, escritor e professor Fabio Konder Comparato, de 81 anos, foi outro que tomou o microfone para dizer, entre aplausos e assovios: “No final da minha vida, tenho a honra de participar dessa celebração em homenagem ao único chefe de Estado do Brasil”.
Criado em 2018-03-20 03:04:42
Pedro Tierra –
Poema em homenagem ao bispo Oscar Romero, assassinado enquanto celebrava uma missa, em 24 de março 1980, por um atirador de elite do exército salvadorenho, treinado na Escola das Américas. Em 1992, uma investigação conduzida pela ONU concluiu que o autor intelectual do assassinato foi o político de direita e ex-oficial do exército Roberto D’Aubuisson.
Em 2010, a Assembleia Geral da ONU proclamou o dia 24 de março como o Dia Internacional pelo Direito à Verdade acerca das Graves Violações dos Direitos Humanos e à Dignidade das Vítimas em reconhecimento à atuação de Dom Romero.
Em fevereiro de 2015 o papa Francisco aprovou o decreto de beatificação do arcebispo salvadorenho, reconhecendo-o como mártir.
“Remonto em madeira
Martírio
os braços exaustos,
o corpo em cruz estendido
sobre o chão da América
e anuncio
com um verso armado
de espuma e tempestade,
o corpo do Nazareno,
o Filho do Carpinteiro
recrucificado nos braços
de Oscar Arnulfo Romero.
O Continente sangra
pelo curso dos seus rios.
E sei, dentro de minha carne
arada por suplícios e esperanças:
não basta o sangue de um Continente
para nos lavar desta morte.
... Do fundo da terra,
da pátria dos mortos,
no centro da praça,
na carne do povo,
Romero ressurge”.
Criado em 2020-03-24 23:00:50
Angélica Torres -
Márcia Tiburi deu um show de "conversa de botequim", como ela própria intitulou, para a plateia que lotou o museu da República, ontem (13/3) de noite, na abertura da série Diálogos contemporâneos.
Dona de uma oratória fluente, rica em vocabulário e em ironia fina, divertida, de fazer inveja a quaisquer famosos comunicadores, Tiburi só não captura fascistas para o seu enorme fã clube espalhado pelo país. Aliás, o tema da conversa derivou de seu penúltimo livro, Como conversar com um fascista (Record, 2015). A plateia delirou e a aplaudiu recorrentes vezes, ao longo de toda a palestra.
Filósofa, professora e feminista gaúcha, nascida em1970, Márcia Tiburi desfiou vários assuntos a partir dessa temática – nela embutida a verdadeira tragédia que tem assaltado e abatido o Brasil, política e culturalmente, nos últimos anos. Traçou o perfil psicológico do autoritário impotente e odioso, do invejoso infeliz, da elite acumuladora e ostentadora, da burguesia cafona, do racista, do homofóbico, do machista, do preconceituoso enfim, e dos dráculas da vez, todos praticamente refletidos numa só face da mesma moeda.
Criticou a dificuldade que pessoas com esse perfil psicológico têm de fazer sinapses, de “ligar lé com cré”, por falta de abertura interior (definição clássica e etimológica de idiotia) e de esforço, leitura e informação; por repetição papagaia do que entendem, “assimilam” e se identificam de cara, mas também por paranoia do sujeito psicopolítico bastante comum.
A característica dessa gente, segundo ela, é sobretudo ser politicamente pobre pela perda da dimensão do diálogo. O diálogo se torna impossível quando se perde a dimensão do outro.
O fascista, segundo a jovem filósofa, não consegue se relacionar com outras dimensões que ultrapassem as verdades absolutas nas quais ele firmou seu modo de ser. Sua falta de abertura se fixa contra pessoas que não correspondem à sua visão de mundo pré-estabelecida.
A crítica expandiu-se para os jornalistas da mídia capitalista, mas também para cidadãos do fenômeno propiciado pela internet. Todos se acham no direito de expressar opiniões – burras, deixou bem claro, embora tudo dito de forma suavemente mordaz, quanto mais à vontade ela se sentia perante a plateia acolhedora e entusiasmada.
Contou ainda episódios familiares de conservadorismo explícito e de perseguições que tem sofrido por boatarias e provocações de contradição de discurso e intolerância às avessas, sobretudo após a entrevista que interrompeu à Rádio Guaíba, quando Kim Kataguiri, assecla do MBL, entrou em cena para participar como convidado do programa.
“Não me obrigo a falar com quem e aonde não quero; me retiro e me retirarei de onde achar que devo”, afirmou. Já no debate com o público, Márcia Tiburi (foto) dedicou-se a convocar toda a população brasileira a resistir ao desmonte promovido no país pela direita tirana.

Criadora do movimento Partida Feminista, sem restrições a quem queira participar, e originalmente filiada ao PSol, contou que quando conheceu Lula de perto reconheceu nele um sertanejo, um homem forte, e decidiu se filiar ao PT.
“Estão nos quebrando ao meio e não estamos reagindo para tentar quebrá-los”, e sugeriu que as pessoas se unam em comitês, sindicatos, movimentos, assembleias, grupos de estudo etc., mas que não se permitam petrificar pelo comodismo burguês. “Hoje vemos muitos morando nas ruas, amanhã podemos ser nós, se não reagirmos”.
No próximo dia 20 será a vez do ex-ministro da educação Renato Janine falar, no contexto do ciclo Diálogos contemporâneos, sobre os desafios da educação no Brasil de 2018. A palestra, intitulada “A educação no Brasil, a realidade contemporânea e os novos instrumentos para a formação de crianças e jovens”, terá lugar na UnB, às 13h, e no Museu da República, às 19h, com entrada franca.
Criado em 2018-03-14 21:59:13
Antonio Carlos Queiroz -
Considero calhordas @s militantes que usam conjunções adversativas depois do nome de Marielle Franco, vereadora do PSOL, heroína do povo brasileiro!
“Ah, por que não dão voz para os outros 50 mil jovens assassinados todo ano”, perguntam esses idiotas, sem considerar que esses meninos são calados antes de poderem expressar suas vozes. No caso de Marielle, ela falou bem antes, construiu sua carreira política denunciando os executores do Estado Caveirão.
Insinuam até que Marielle seria, agora, um produto da TV Globo. Ora, façam-me o favor!
Noves fora tudo — Viva Brizola, o único que enfrentou o monstro! —, a Globo está fazendo uma boa cobertura jornalística do fato. Foi a reportagem da emissora que obteve, com exclusividade, as últimas imagens da vereadora e do carro de seus executores, com placa e tudo, peças essenciais para o esclarecimento do atentado.
Essa história de “captura de narrativa” é conversa pra boi dormir. O que nós queremos saber é quem executou Marielle, a mando de quem, e com qual objetivo. Se o Diabo nos der as respostas adequadas, parabéns para o Diabo (obrigado, Churchill, pela inspiração)!
Chega de lero-lero e mimimi! O mundo é objetivo, composto de causas e efeitos, e cheio de contradições. Não dá pra entendê-lo com ideologias supersticiosas, teorias conspiratórias e excesso de entusiasmo!
Mais fortes são os poderes do povo!
Viva Marielle Franco!
Viva @s lutador@s do povo!
Criado em 2018-03-18 01:12:27
José Carlos Peliano –
o caminho não é lá
onde o chão batido escutava os pés descalços
a manhã inventava de vir vestida de cerração
o friozinho se fazia de borboletas sobre o capinzal
o cheiro de café dançava ar afora
não é lá o caminho
que levava pipas carregadas de sonhos ao céu
onde urubus esticavam o pescoço para vê-las
vacas se fazendo de fazenda
fazenda se fazendo de vacas
o caminho não é lá
nem a memória dá conta de tê-lo em conta
foi levado pelas chuvas que viraram barro
pelo barro que virou poeira
pela poeira que o vento descabelou
não é lá o caminho
onde eu fazia caminha de sol e estrelas
deitado no topete do morro como um rio passando devagar
cheio de olhos meninos contando estrelas e sóis
a cada dia que virava um universo de desejos
não é mais lá o caminho
o caminho não é mais lá
nem que eu esprema a vida no pilão
tome o sumo do infinito desdobrado
e me veja de calças curtas, olhos compridos e tempo sem tamanho
o caminho não é mais lá
não é mais lá o caminho
retiro do baú os guardados de arrepios e bonanças
remonto a eternidade que em mim estica seus braços
para que eu abrace o mistério feito lavas de um vulcão
Criado em 2020-03-19 17:00:47
Angélica Torres -
Crises do passado recente entre povos e multinacionais são exemplos de como lutar contra a ameaça de privatização do Aquífero Guarani, promovida pelo presidente Michel Temer. O tema faz parte dos debates que ocorrerão em Brasília, de 18 a 22 de março, no Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA).
Quando os bolivianos enfrentaram a “Guerra da Água” contra os norte-americanos empenhados na privatização da gestão da água de Cochabamba, não fazíamos ideia de que, 18 anos depois, o mesmo pesadelo poderia ameaçar o Brasil e suas fontes abundantes de riqueza natural.
A perspectiva de que 2/3 do planeta não terão água pura em 2025 provocou o confronto mundial pelo controle do recurso mais básico do planeta. Por isso, lembrar a crise da Bolívia é quase uma obrigação, neste momento em que Michel Temer tem mantido negociações com corporações de olho em nossa água, como Nestlé e Coca Cola, e o assunto é pauta de dois fóruns agendados para daqui duas semanas.
Os eventos vão ocorrer no mesmo período (18 a 22 de março), em Brasília: o Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA), de luta pela água como direito do povo e em oposição ao outro: o 8º Fórum Mundial das Águas, das grandes corporações e governos que buscam torná-la uma commodity para lucro privado, exatamente como aconteceu com Cochabamba. Lá, a crise começou quando o Banco Mundial declarou que não renovaria um empréstimo de US$ 5 milhões ao país, caso o governo não privatizasse seu serviço de abastecimento de água. Em janeiro de 2000, após a Bechtel Corporation dobrar a cobrança das tarifas, iniciaram-se os protestos populares.
O contrato de concessão do serviço público, firmado pela Bolívia com a multinacional californiana para vigorar por 40 anos, proibia os bolivianos de coletar água do seu próprio país, inclusive a de chuva. Contas de água não pagas davam o direito à empresa de se apropriar da casa do devedor e de leiloá-la. A população tinha de optar entre comer menos, não levar os filhos à escola ou tratar doentes em casa, e não em hospital, para poder pagar a água e os serviços básicos. Idosos com baixas aposentadorias passaram a trabalhar como ambulantes.
Frente a essa realidade, os cidadãos saíram às ruas e protestaram com o lema “A água é do povo, Pô!”. As pessoas queriam água e não gás lacrimogênio. Queriam justiça e não balas. A cidade estava perto de um estado de sítio e a Bolívia determinada a defender o direito da corporação de cobrar pela água cerca de ¼ da renda de famílias que viviam com US$ 2 por dia. Quanto maior a resistência da população à ganância da corporação, mais violento o conflito, que levou centenas de jovens a sofreram mutilações ou lesões cerebrais e Vitor Hugo Daza à morte.
Mesmo defendendo os interesses da Bechtel, o governo não conseguiu convencer os bolivianos de que água é uma commodity como qualquer outra. Em abril do mesmo ano, cedeu à pressão popular, anulou o contrato firmado com a Bechtel, a lei que previa a privatização das águas do país foi revogada e a prefeitura retomou o controle da situação. No entanto, a Bolívia pagou com a privatização de suas indústrias petrolíferas, da companhia aérea e das empresas de energia e telefonia pelos empréstimos do Banco Mundial. Qualquer semelhança com o Brasil, aliás, não é mera coincidência.
Fascismo e poder corporativo
A repercussão da Guerra da Água levou o escritor, roteirista, músico de jazz e professor canadense de Direito, Joel Bakan, a relatá-la em “A Corporação – a busca patológica por lucro e poder” (“The Corporation – the pathological pursuit of profit and power”), livro lançado em 2004, que no mesmo ano ganhou versão cinematográfica com o título de “The Corporation”.
Dirigido por M. Achbar e J. Abbott, o filme conquistou o prêmio de melhor documentário nos festivais de cinema de Sundance e Amsterdam, e recebeu calorosa aceitação de público e crítica ao redor do mundo, pelas denúncias impactantes sobre a longa e sombria história de intolerância e tirania das grandes corporações e sua conexão com as estruturas militarizadas dos regimes fascistas.
“Há percepção de que o fascismo cresceu na Europa com a ajuda de grandes corporações. Empresários adoravam Mussolini e também Hitler, que se livrou dos ‘esquerdistas perigosos’ e controlou os trabalhadores. As oportunidades de investimento cresceram, não havia problemas, são países maravilhosos”, ironiza o filósofo, linguista, professor do MIT e ativista Noam Chomsky, em depoimento ao escritor e à dupla diretora do filme. O cineasta e escritor Michael Moore, outro crítico severo ao capitalismo predador e às corporações, também depõe que todas as histórias não contadas do século 20 foram de conluio e apoio das empresas corporativas, sobretudo norte-americanas, ao nazismo.
“Quando a guerra começou, acharam um modo de manter tudo funcionando; a General Motors manteve a renda do Opala, a Ford manteve suas operações, a IBM criou cartões perfurados para controlar a gestão do tráfego dos judeus perseguidos por Hitler, quando os computadores ainda nem existiam, e a Coca Cola inventou a Fanta Laranja para os alemães, podendo assim manter o seu lucro. Quando você bebe Fanta Laranja é a bebida nazista criada para a Coca continuar faturando, enquanto milhões morriam”, denuncia enfático Michael Moore.
Farsante, o sistema das corporações, sem corpo nem alma, como assombrações, fantasmas, vampiros fazendo seus jogos de lucro, expandiu-se globalmente, levando os governos a perder o controle que ainda podiam ter sobre elas 60 ou 70 anos atrás. Hoje, corporações e governo trocam ideias e trabalham em conjunto e os acionistas não querem que elas decidam o que é socialmente responsável. Cabe a populações afetadas por suas intromissões vigiar e lutar em favor de seus próprios interesses.
Nesse sentido, um depoimento encorajador é o da física e ativista Vandana Shiva sobre a vitória dos indianos que levaram à justiça “o maior governo do planeta” e um dos maiores conglomerados químicos, W.R. Grace, sediado em Maryland, no caso do nim -- planta medicinal e inseticida natural, originária da Índia. A patente dos E.U. sobre o nim foi anulada por uma ação conjunta com os Verdes do Parlamento Europeu e o Movimento Internacional de Agricultura Orgânica.
“Anulamos também 99% da patente do arroz da RiceTec, multinacional de Houston, trabalhando com uma coalizão mundial: idosas no Texas, cientistas na Índia e ativistas em Vancouver (Canadá), e mostramos que piratas eram as corporações”, conta Vandana Shiva.
Filho de um operário de montadoras de automóveis em Michigan, o cineasta Michael Moore pondera, ainda, se a fábrica de carros é motivo para o derretimento da calota polar e para o fim da civilização. “Como indivíduos, temos de ter responsabilidade por nossos atos coletivos e o mal que causam ao mundo. Os corporativos não prestam contas ao processo democrático e é preciso se aproveitar da falha do capitalismo, da cobiça. Não use produtos deles, esse é um nosso poder”, aconselha.
Outros meios de afrontar as corporações são por boicote, educação, litígio, ação direta, legislação e investimento social, alerta Moore. “Eles estão convencidos de que as pessoas, idiotizadas, não deixarão o sofá pela ação política. Pois eu penso o oposto. Alguns sairão do cinema ou terminarão de ler o livro e farão algo por um mundo melhor”, aposta.
O Aquífero Guarani em jogo
E aí está o povo brasileiro a confirmar, menos de duas décadas depois, a projeção otimista do cineasta ativista. A maior parte da população do país está consciente da importância da preservação dos bens que a natureza reserva, sobretudo, ao território que ela privilegia. O golpismo já levou o Brasil à perda do pré-sal e de outros vários recursos para ilícitos interesses estrangeiros, desrespeitando a população e a soberania da nação. Resta ao povo resistir bravamente para que outros tantos não sejam também entregues, de bandeja pau-brasil, às “corporations”, como agora o Aquífero Guarani.
Para se ter ideia do que está em jogo nas mãos do inescrupuloso Michel Temer, o Aquífero Guarani abrange partes dos territórios do Uruguai, Argentina, Paraguai e, principalmente, Brasil, onde ocupa 1,2 milhão de km². O nome foi proposto pelo geólogo uruguaio Danilo Anton, em 1996, quando chegou a ser considerado o maior do mundo, capaz de abastecer a população brasileira por 2.500 anos. Hoje, perde apenas para o Aquífero Alter do Chão, a maior reserva conhecida, localizada sob os estados do Pará, Amapá e Amazonas, com o dobro do seu volume.
Criado em 2018-03-04 18:41:34
José Carlos Peliano (*) -
sei desse tiro
e tiro desse tiro
o veio de onde veio
e onde ele destrói onde
Ela se foi e levou junto mais de 46 mil esperanças que a elegeram por renovação, renova ação, ação de nova gente, de mulher nova, vibrante, bela e altaneira. Não importa a cor, mas a cor importa sim nesse país embranquecido a ferro, fogo, trato e preconceito. Ela veio da favela, trazida pelas águas da maré onde as ondas brilham no mar de todos, de todas as cores, de todas as faces, de todos os desejos, de todos os futuros. O mar é ela, a maré é ela.
Marielle Franco, franqueava conversa, escuta, troca de experiências, carinho, apreço, energia, solidariedade, ideias e ideais de uma vida possível, melhor, menos travada, mais diversa, democrática, natural.
Em 15 meses mais que 1 projeto por mês, da ação dava sua resposta aos seus eleitores e ao povo do Rio. Quis mais, sempre mais, para consertar o mal feito, rebater o contrafeito, propor saídas melhores. Mas era o mínimo, o máximo mínimo, que podia para uma pessoa só, uma mulher guerreira, que veio do povo, do resto do povo empurrado para as favelas, para as bordas da sociedade ainda marcadamente meritocrata, parcial e escravocrata.
Seus méritos o sangue nas veias pulsando mudanças, o coração saltando do peito em busca de chamamento para ação, sua cara a beleza da mulher negra, direta, segura, decidida, mas de doce energia na fala e no olhar. Méritos que tanto cativaram quanto incomodaram.
Como pode? Diriam os conservadores, opacos, vazios e reacionários. Pois pode, soltou-se ela dos grilhões do escravagismo ainda existente camuflado por preconceitos, hábitos, costumes e regras ditas e não ditas em nossas avenidas, condomínios fechados, mansões, resorts, shoppings, palácios de governo e de justiça, paneleiros oportunistas desmobilizados.
Seguiu pelos caminhos da luta e da liberdade defendendo e brandindo direitos, congregando companheiros de propósitos, de fé, de irmãos camaradas.
Embora mínima, uma entre milhões, ela não era só ela. Era muitas numa só e muitas outras eram ela. Levava o incômodo, a perturbação, a ameaça, o perigo de toda aquela que intimida, enfrenta, rebate e cobra. Por certo uma cobra nos calcanhares dos poderes burgueses discricionários constituídos.
Precisava ser afastada do olho do furacão que provocava com suas ações, atitudes, palavras e gestos. A nossa sociedade caquética, desigual, injusta e perturbada não suporta alterações na desordem vigente muito menos de uma mulher negra.
A Casa Grande repudia movimentos da senzala que tentam questionar os privilégios, favores, benefícios e incentivos reinantes. Casa grande de retrocessos, senzala cheia de avanços.
Um dia a casa cairá porque tudo o que é sólido desmancha no ar, nem que seja pela paciência e tenacidade de retomar a luta quando o caminho é destruído. O destino do embate é o embate em si mesmo onde a senzala se faz casa grande e esta se arruma como pode para não se tornar casa pequena.
Não tenho o pé na cozinha como disse descaradamente um ex-presidente branco desse país, mas tenho todas as cores que a vida me deu, me dá e dará de amizades, amores e ideais de fé, coragem e luta. A combinação das cores é que dão graça, beleza e vivacidade à vida. A luz branca clareia, mas também cega e paralisa, a noite preta escurece, mas também acalma e convida.
O tiro que parou Marielle varou em todos nós que lutamos por dias melhores de convivência pacífica, liberdade respeitada, democracia compartilhada. Partiu o tiro de nossa sociedade desajustada, que se firma na hipocrisia, na força e na justiça parciais para conterem a força e a raça plena do povo. Querem manter a desordem vigente para continuarem roubando direitos e conquistas.
Outras milhares de Marielles com certeza virão para derrubar os muros que separam a Casa Grande da senzala que tentam manter a todo custo. Nada como um dia depois do outro e a noite no meio.
Mas o tiro também atingiu os próprios pés dos reacionários, conservadores, bandidos de plantão e ocasião. Eles serão vingados mais cedo ou mais tarde. Os que destroem acabam sendo destruídos ou pela guerra entre eles mesmos ou pela autonomia conquistada de um povo livre, honesto, trabalhador e puro como Marielle na luta pelos seus direitos! Na construção de uma vida melhor sem os grilhões que tentam manter a ferro, fogo e tiro.
Marielle partiu no dia de comemoração do nascimento de Albert Einstein e no dia da partida de Stephen Hawking. Foi ela conhecer onde o tempo e o espaço se dão as mãos e o infinito dá as mãos a outros infinitos. Ela terá a sua vez de ser maior do que foi e dar suas mãos negras, benditas, à apoteose dos universos.
_______________
(*) José Carlos Peliano, economista, poeta e escritor.
Criado em 2018-03-16 22:30:45
Como medida preventiva para conter a propagação do coronavírus, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF decidiu suspender os editais do programa Conexão Cultura, que promove a difusão dos artistas em eventos internacionais.
O secretário Bartolomeu Rodrigues divulgou ontem (17/3) um comunicado explicando que “há poucos dias, os candidatos que antes de estourar a crise haviam sido contemplados nessa modalidade de edital foram surpreendidos com o cancelamento de evento que seria realizado em Austin, Texas (EUA) – o SXSW South by Southwest –, o GDC (Game Developers Conference), em San Francisco, Califórnia, e o Atlantic Music Expo (AME) em Cabo Verde”.
Segundo o secretário, “transtornos desse tipo passaram a ser comuns, com efeitos devastadores nos negócios e nas vidas de quem sobrevive com arte e cultura”.
O GDF, no início desta semana, autorizou a liberação, pelo Banco de Brasília (BRB), até R$ 1 bilhão em crédito a empresas afetadas, principalmente aquelas ligadas a serviços (restaurantes, gastronomia, entretenimento, academias etc).
“A cultura, no difícil contexto que atravessamos, não pode ser encarada como mera diversão – vai além, e essa é a mensagem que reverbera nos quatro cantos do mundo, por ser libertadora do espírito e contribuir para o desenvolvimento dos povos”, disse Bartolomeu.
Procedimentos - A secretaria está estudando formas para que o Fundo de Apoio à Cultura (FAC) e o Programa de Incentivo Fiscal continuem funcionando normalmente. Os processos internos relativos a pagamentos, monitoramentos e eventuais trâmites, tanto no FAC como na LIC (Lei de Incentivo à Cultura) continuam ocorrendo normalmente.
No entanto, três alterações importantes ocorreram nos procedimentos nos serviços de protocolo:
Em caso de dúvidas, entrar em contato:
E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
Telefone: (61) 3325-6272 | (61) 3325-6705
O secretário Bartolomeu Rodrigues garante que “os produtores e os projetos culturais contemplados pelos editais do FAC seguirão recebendo os recursos previstos. Essa é a mensagem tranquilizadora que repassamos no momento”.
Criado em 2020-03-18 16:40:52
Pedro Tierra (*)
Neste país que se encontra entre os mais desiguais do mundo, os herdeiros sociais dos escravos, os negros e os brancos pobres que vivem nas favelas do Rio de Janeiro são os primeiros a assistir, presos entre a angústia e o pavor, a troca dos atores que secularmente se revezam em suas vidas e em sua história: saem Executivo, Legislativo e Judiciário. Entram infantaria, cavalaria e artilharia...
O Executivo, o Legislativo e o Judiciário do Rio de Janeiro foram instados, pelo Decreto de Intervenção Militar assinado por Temer, em 16 de fevereiro, a se afastar da cena para dar lugar ao que pode ser um Ensaio Geral, num país em que as Forças Armadas funcionarão, mais uma vez, como um gatilho voltado contra a cabeça dos pobres sempre que a plutocracia julgar seus interesses em perigo. O decreto de Temer introduz um novo componente na crise que nos governa: converte as FFAA em forças de ocupação.
A população trabalhadora que desce do morro para ganhar seu sustento na Zona Sul e regressa para casa no fim da tarde, está sendo colhida entre duas forças: as forças informais do tráfico, com quem convive, que lhe assegura certo grau de proteção, algum ganho e assistência social nos momentos de maior necessidade e as Forças Armadas de um Estado invisível que não a reconhece como portadora de direitos à educação, saúde e outros serviços essenciais. Não há motivos para duvidar que as favelas do Rio são apenas o primeiro alvo. Abriu-se com elas novas possibilidades e, (a conferir) novos alvos.
Os golpistas têm problemas para sustentar a ousadia da iniciativa, pese a arrogância e o cinismo do Chefe da Casa Civil, Moreira Franco, em entrevista a um jornal paulista, “aqui não tem amador...”, a soma de trapalhadas logo no início da Intervenção Militar indicam Michel Temer como um repentista de baixa qualidade, que imagina governar o Brasil por meio de prestidigitações mal enjambradas.
Ninguém ignora a gravidade da violência no Rio, consolidada há décadas. Não faltam também estudos e análises do quadro de evolução desta violência quando comparada com outras regiões do país. Em nenhuma delas, as cidades do Estado do Rio aparecem entre as 30 mais violentas do país; não faltam, tampouco, denúncias do atropelo dos ritos e normas que enquadram uma medida extrema como a intervenção militar; ou relatos da constrangedora reunião entre o assim chamado Conselho da República e os comandantes das Forças Armadas; ou ainda, do início das operações antes mesmo de ser votada a medida nas duas Casas do Congresso como seria de esperar num país que respeitasse minimamente sua própria Constituição. Os mais vividos conhecemos a expressão: “às favas com os escrúpulos...” E com as normas... Afinal, vivemos tempos excepcionais. E tempos excepcionais exigem medidas excepcionais, nos ensina o juiz de Curitiba...
Confirma-se, com o lance da Intervenção Militar no Rio, a lógica da delinquência. A quadrilha que assaltou o Palácio do Planalto com o golpe de 2016 aposta, com prestimoso apoio da Rede Globo de Televisão, na máxima: quem nos governa é a crise. Outras empresas do mercado de notícias têm buscado manter alguma distância face a essa operação que traz consigo todos os ingredientes da “fuga para frente”, para oferecer a aparência do “normal funcionamento das instituições”, como repetem os chefes do crime organizado que assumiram o comando da república há dois anos.
Desejam, à força, habituar o país à barbárie, ao descalabro, ao descrédito, à falência das instituições democráticas e preparar o terreno para que a própria sociedade suplique em breve tempo – assim esperam... – por soluções autoritárias e aceite o adiamento das eleições presidenciais ou clame por sua simples supressão. Dessa forma se realizaria o objetivo dos que atropelaram a soberania popular com a deposição da Presidente legítima, Dilma Rousseff, a partir do golpe de estado de 2016: estabelecer no país uma democracia sem povo.
Ao condenar sem provas o ex-presidente Lula no TRF 4, o Judiciário brasileiro realiza objetivamente o sequestro de sua candidatura no pleito de outubro próximo. Se não é fraude eliminar o concorrente melhor posicionado na disputa, trata-se fatalmente de uma trapaça. Ironia da história, Lula foi condenado por possuir um apartamento tríplex fruto de favores, embora não tenham conseguido uma única prova material que sustente essa acusação. Já os inimigos que o submeteram a um julgamento infame e o condenaram, estão entre os que foram flagrados nos últimos dias pelo escândalo do “Auxílio Moradia” para os magistrados federais... Alguns vieram a público tentar defender o indefensável. O vexame expõe à sociedade brasileira e ao mundo a condição humilhante de sermos um país de castas, assentado sobre privilégios inaceitáveis em qualquer nação democrática contemporânea.
O colapso da Constituição de 1988 e os múltiplos conflitos, econômicos, sociais, políticos e culturais que conduzem o país a uma situação de transe adquire novo contorno. Mais radicalizado. Já não se trata apenas do tradicional conflito distributivo, da disputa da riqueza produzida pelo país ou da destinação do orçamento público. Soma-se a eles uma exigência de natureza social, relacionada a novos direitos, ao exercício da cidadania nas condições contemporâneas.
Esse novo quadro reclama das esquerdas um acurado exame das contradições geradas pela inclusão de um importante contingente de novos consumidores no mercado ao longo da primeira década do século XXI, que passaram, no momento seguinte, a exigir com sua simples presença, garantias para sua nova condição de cidadãos. Os novos incluídos no consumo de massa exigiram a inclusão nos direitos sociais, ainda que não a explicitassem por meio de um discurso político consciente.
O golpe foi dado para que essa aspiração dos que emergiram das condições miseráveis ou da extrema pobreza não se consumasse. Parafraseando Lula: o direito a três refeições diárias se transformou na exigência de frequentar melhores escolas, melhores hospitais, transporte de qualidade, viajar, visitar espaços antes exclusivos das classes médias destinados à cultura e ao lazer... Em suma, criaram com sua presença nos espaços de consumo um enorme mal estar para esses setores educados secularmente a desprezá-los.
Vencida a batalha da Previdência, momentaneamente retirada da pauta, o desafio para os setores que se opõem ao golpe, é manter a mobilização dos setores organizados para enfrentar a agenda das demais reformas pretendidas pelo governo golpista, garantir o cumprimento do calendário eleitoral e a realização de eleições democráticas sem exclusões ou vetos, para que o povo se pronuncie e eleja a liderança capaz de conduzir o país de volta ao desenvolvimento com democracia, distribuição de renda, soberania e paz.
___________________
(*) Pedro Tierra é poeta. Ex-presidente da Fundação Perseu Abramo.
Criado em 2018-02-25 01:12:05