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Angélica Torres -
Há vantagem em ir ver O Processo sem ter lido críticas que contem o filme, o que às vezes parece inevitável aos do ramo. De todo modo, tendo ou não lido, é uma excelente saída, pra não dizer uma obrigação cívica, assistir ao documentário de Maria Augusta Ramos, que inova na linguagem da narrativa ao mesclar jornalismo e tratamento de filme de ficção; os participantes não são identificados com legenda; tudo fica embutido, mas às claras, porque a tragédia do golpe parlamentar e jurídico no Brasil se tornou conhecido em todo o mundo, daí também a causa da grande repercussão do documentário no exterior.
Apesar da dureza de se rememorar toda a farsa surreal do impeachment de Dilma Rousseff, periga o espectador se pegar esperando um final feliz, de tão bem levado tecnicamente é o filme nesse aspecto do trato ficcional. É admirável ainda em planos e fotografia, em que Brasília mostra sua fotogenia nas cenas externas. Também em sonoridade, sem o velho truque de direcionar emocionalmente o espectador por meio de uma bela trilha sonora. Como cinema, O Processo se constitui de fato em um trabalho talentoso, competente, sensível.
Já em termos de conteúdo, se as lentes da cineasta mostram as mesmas cenas, ou variações delas, vistas pelo público televisivo durante os atos protocolares do impeachment, trazem também uma impensada novidade: as tomadas nos bastidores das confabulações, em reuniões fechadas no gabinete do Partido dos Trabalhadores. Ali, Gleisi Hoffman, presidente do partido e Gilberto Carvalho, então secretário de governo, surpreendem, por exemplo, com corajosas análises e mea culpa. Afinal, uma câmera bisbilhoteira estava autorizada a filmar e a revelar, mais adiante, aquela intimidade nas telas de cinema.
Da longa e complexa trama diabólica do golpe, na dramaturgia que Maria Augusta encadeia, tomando partido, os protagonistas são esses, do time boicotado, representado pelos senadores que se destacaram no combate ao golpe – Gleisi, José Eduardo Cardozo, Lindbergh Farias e Vanessa Grazziotin. Entre alguns outros mais.
Fica-se pensando. E se ela filmasse também os bastidores da turma do golpe? Que zombarias, que chacotas ela flagraria? Talvez não mais do que mostram com clareza, em discursos incrivelmente cínicos, canastrões, amplamente vistos pelo público, os caricatos Janaína Pascoal e Cássio Cunha Lima, além de um calado e taciturno Anastasia, sobretudo Eduardo Cunha, cozinhando e fomentando o caos na fogueira do diabo, entre outros protagonistas da fanfarra Temer.
Dilma Rousseff ganha espaço ao final, com o destaque pela sensível diretora de sua melhor cena, ocorrida durante a votação final do impeachment, e dividida com Cunha Lima – quando ela não perde a oportunidade de revidar à desfaçatez dele, dizendo: “A vida é assim, senador...”. Quem não lembra ou não observou o flagrante, O Processo registra. E documenta para a História que tudo não passa de um escracho, um escárnio pra com o elenco dos usurpados: o povo, tenso, do lado de fora e os que se esfalfam no Senado pra provar um-nada-há-que-ser-provado, porque tudo é e está na cara comprovado.
Ao longo da projeção, a plateia do filme cria sua própria trilha sonora: não se contém em interagir com os atores dos dois lados do muro-tribuna e de ao final catarsear ante a revivenda desse bruto capítulo da nossa História. A farsa tragicômica é gritante. Mas, se processa, como amadurecemos de lá pra cá. Como aprendemos de malícia com a velhacaria exposta sem pudores. E, como desde então os golpistas sovam o lombo dos mais pobres, não deixando a vida fácil nem barata, pra ninguém.
Criado em 2018-05-21 03:39:46
Angélica Torres -
Polemista, e das boas, Manuela d'Ávilla, candidata do PCdoB à presidência da República, é sim uma menina bonita mas é também muito safo, tem respostas na ponta da língua, saídas honrosas e nobres, sabedoria e intuição feminina, pulso e garra de estudante universitária: não levou desaforo algum pra casa nem passou de coitadinha aos interlocutores convidados do "Roda Viva", como querem comentaristas da mídia burguesa fazer crer a quem não viu o programa ainda.
Aliás, que contem outra esses daí, que não essa "fake" imagem disseminada dela se esfalfando pra dar conta do escalpelo de ruralista fascista, de "filósofo" em fraldas, de cara-e-coroa enfezadas do velho jornalão paulistano, de diretor boi-de-botas do programa e dos outros espécimes mais de atiçadores venenosos da arena. Foi Manuela quem venceu a batalha.
O melhor de tudo foram as bolas levantadas pelo bolsonarista pra ela rebater, com convicção e deboche certeiros a ele, assim, nas entrelinhas: Ah seu patético imoral, vê se vou perder tempo em dar atenção à sua total impossibilidade de me fazer uma boa pergunta... E lascava-lhe fustigadas diretas de volta, reduzindo a pó de traque o cabo eleitoral e a imagem de seu candidato da extrema direita.
Com que elegância, charme, graça, simpatia, presteza, segurança ela embalou os seus arremates aos mortos-vivos rodados. As expressões deles de surpresa pra com a moça brilhante e rápida no gatilho são flagrantes... e hilárias ao espectador.
Se Manuela d'Ávilla não pôde expor ali o seu projeto de governo, não foi exatamente porque, com suas vilanias, ninharias, porcarias "jornalísticas", eles não a deixaram, mas porque ela flagrou qual era o tônus do circo e acelerou ao máximo o clima de guerra, com a energia, a paixão e o idealismo que a distinguem como modelo de mulher pública à nova geração política.
Resumindo, sem querer ser desmancha-prazeres aos que vão assistir ou, como gostam os "facebookeanos", sem muito "spoiller": Manuela deu um samba nos técnicos em assuntos gerais da Roda tonta da vez; representou o mulherio com altivez e ousadia, a estudantina com galhardia e astúcia e os políticos com o vigor dos que não temem em se posicionar e se pronunciar com clareza e coerência ética. O vídeo está acessível no Youtube a quem quiser atestar - e se deliciar com a esgrimista.
E deixe que a mídia narre, com e ao seu espelho cego, do modo que só a si própria interessa - ou seja, distorcido, que é como sabe fazer. Não conseguirá desdizer a perturbação e o domínio que ela provocou e que as câmeras da TV Cultura registraram para os de hoje e para a posteridade.
O futuro é próspero às esquerdas. Nossos jovens candidatos estão aí a nos mostrar isso. Tenhamos fé.
Criado em 2018-06-27 17:47:46
De 21 a 26 de abril acontece o 7º Brasília International Film Festival. Esse é o maior festival internacional de cinema do Centro-Oeste, totalmente online, com mostra competitiva. Filmes premiados em importantes festivais internacionais e grandes estreias.
As exibições serão feitas por meio do site www.biffestival.com com suporte do Looke, a maior plataforma brasileira de distribuição de vídeos via streaming. O filme de abertura, amanhã, 21/4, é o inédito Anna Karina, para você lembrar, de Dennis Berry, disponível no site do festival de 19h30 às 23h59.
Para assistir, basta clicar no filme da mostra e, após preencher um cadastro, ter acesso a toda programação diária gratuitamente. A maior parte dos filmes estará disponível durante todo o período de duração do festival, mas alguns títulos só poderão ser acessados em horários pré-determinados. O conselho é para seguir a sugestão da programação ofertada pelo festival e participar da votação popular.
Haverá também uma mostra especial “Tributo Kirk Douglas”, com a exibição de alguns dos maiores sucessos da carreira do ator. Programação para crianças e adolescentes com o inédito Biff Júnior, o braço teen do festival.
Serão quatro mostras – Competitiva, Grandes pré-Estreias, Spotlight Brasília e Homenagem a Kirk Douglas, além do inédito Biff Júnior, apresentando uma programação especialmente criada para o público teen.
Coube à equipe do 7º Biff transformar o que viria a ser um empecilho, a pandemia do Covid-19, que obriga as pessoas a ficarem em isolamento, em motor de maior alcance do festival. Com acesso livre pela internet, espectadores de todo o Brasil poderão assistir aos filmes selecionados para o festival, que tem direção geral e curadoria da jornalista, produtora e cineasta Anna Karina de Carvalho.
Além da realização online - mantendo a Mostra Competitiva completa -, o 7º Biff apresenta outras novidades, como o Biff Júnior, que oferece uma programação especial com atrações voltadas para crianças e adolescentes, e as mostras Grandes Pré-Estreias e Spotlight Brasília. A primeira apresenta títulos premiados em alguns dos maiores festivais de cinema no mundo e inéditos no Brasil e na América Latina. A segunda dedica-se a mostrar um pouco do cinema produzido no Distrito Federal.
Seguindo a proposta original do festival – que sempre presta homenagem a grandes mestres do cinema mundial – a sétima edição reverencia o grande ator, autor e diretor Kirk Douglas, apontado como um dos maiores nomes do cinema hollywoodiano, falecido em fevereiro passado, aos 103 anos de idade. O curador Mario Abadde selecionou cinco filmes que percorrem a trajetória de Douglas, apresentando sucessos como “Spartacus” e “Sede de Viver”.
O 7º Biff acontece em parceria com a empresa Encripta, patrocinadora do festival, que garante acesso ao conteúdo através da Looke, plataforma de Video on Demand, a maior e mais completa plataforma de distribuição de conteúdo protegido da América Latina. O Biff 2020 tem ainda o patrocínio do FAC – Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal e conta com o apoio cultural da Rede Globo, Canal Brasil, Xyz, Druzina Content, Fênix Filmes, Embaixada da França e Ligocki Entretenimento. Parceiro oficial: Sesc.
Programação:
21/4 – terça-feira
Filme de abertura: Anna Karina, para você lembrar (Anna Karina, souviens tois), de Dennis Berry - disponível de 19h30 às 23h59
Competitiva - Blue Girl, de Keivan Majidi
Biff Júnior - O livro de Lila (El libro de Lila), de Marcela Rincón
Spotlight Brasília - Cano Serrado, de Erik de Castro
Tributo Kirk Douglas - A Montanha dos Sete Abutres (Ace in the hole), de Billy Wilder
22/4 – Quarta-feira
Competitiva - Fendas, de Carlos Segundo
Competitiva - Mapa de Sonhos Latinoamericanos (Mapa de Sueños Latinoamericanos), de Martín Weber
Biff Júnior - Peixonautas: o Filme, de Célia Catunda, Kiko Mistrogiro, Rodrigo Eba
Spotlight Brasília - O Tesouro Esquecido, de Tom Ehrhardt
Grandes pré-estreias - Um Sonho de Família (Magari), de Ginevra Elkann
Tributo Kirk Douglas - Sua Última Façanha (Lonely are the Brave), de David Miller
23/4 – Quinta-feira
Competitiva - Hálito Azul (Blue Breath), de Rodrigo Areias
Competitiva - Encantado, o Brasil em Desencanto, de Filipe Galvon
Biff Júnior - Mortadelo e Salaminho em Missão Inacreditável (Mortadelo y Filemón contra Jimmy el "Cachondo"), de Javier Fesser
Grandes Pré-Estreias - Uma Lição de Amor (Drôle de père), de Amélie van Elmbt
Tributo Kirk Douglas - Sede de Viver (Lust for Life), de Vincente Minnelli e George Cukor
24/4 – Sexta-feira
Competitiva - The French Teacher - Um Amor a Três, de Stefania Vasconcellos
Competitiva - Corpus Christi (Boże Ciało), de Jan Komasa
Biff Junior – CRSHD, de Emily Cohn
Grandes Pré-Estreias – Liberté, de Albert Serra - disponível a partir de 19h
Tributo Kirk Douglas - Assim Estava Escrito (The Bad and the Beautiful), de Vincente Minnelli
25/4 - Sábado
Competitiva - Me leve para um lugar legal (Take Me Somewhere Nice), de Ena Sendijarević
Biff Júnior - Um Herói Especial (Copperman), de Eros Puglielli
Grandes Pré-Estreias - Liberté, de Albert Serra - encerra às 23h59
Tributo Kirk Douglas – Spartacus, de Stanley Kubrick
26/4 - Domingo
Biff Júnior - Ana, de Charles McDougall
Grandes Pré-Estreias - Até que Você me Ame (Hippopotamus), de Edward A. Palmer
Encerramento - Cerimônia de Premiação - disponível a partir de 20h30
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Serviço:
7º. BIFF – Brasília Internacional Film Festival
Data: 21 a 26 de abril de 2020
www.biffestival.com
Criado em 2020-04-20 23:55:17
Julian Rodrigues -
A notícia do dia (14/5) é a pesquisa eleitoral CNT. Lula cresce em todos os cenários de segundo turno ¨[e lidera com 46%, em média, contra todos os outros candidatos]. A direita não cresce. Alckmin não sai do0 ridículo patamar de 5%. O povão quer votar em Lula e não quer saber de alternativa. Ou seja, está correta a estratégia do PT de manter Lula na disputa. Quem tem que arcar com os custos de tirar o maior líder popular da disputa eleitoral é a direita.
Manter a campanha pela liberdade de Lula. Manter os atos, o acampamento, as visitas, a campanha internacional. E mais importante: acelerar a campanha presidencial de Lula: lançar o programa de governo, fazer lançamentos estaduais, abrir os comitês, preparar a convenção de julho.
Não esquecer que o golpe tem um grande problema também: não conseguiram legitimar nenhum candidato. O desempenho de Alckmin e dos tucanos é patético, só caem. A fragmentação da direita é imensa. Bolsonaro atingiu o seu teto e não passa disso. Muito dificilmente seria absorvido como candidato oficial do golpismo.
Daí que as próprias eleições (e sua lisura) não estão dadas de antemão. O cenário está aberto. Só a luta política, com forte mobilização social pode alterar a correlação de forças a favor da maioria trabalhadora. E isso passa por continuar mantendo a candidatura Lula. Não se deve "normalizar" o golpe: é pedagógico para as massas saber que tiram Dilma e interditam Lula enquanto que elas só assistem ao deterioramento de sua condição de vida.
Portanto, é importante ter calma. A tão citada "alternativa" Ciro não chega nunca a dois dígitos, atinge 8% e só. E por último: sem Lula chega-se a espantosos 46% de votos brancos, nulos e indecisos. Ou seja: Lula Livre! Eleição sem Lula é fraude! Lula Presidente!
Criado em 2018-05-15 03:34:18
Romário Schettino -
Ontem fui ver o filme O Processo, que poderia até se chamar “A Vergonha Nacional”. Ou, como bem disse Bruno Carmelo, do site Adoro Cinema, a diretora Maria Augusta Ramos desvendou a “Anatomia de uma farsa”. Pensando bem, o melhor título seria "A farsa do impeachment".
Adiei o máximo essa ida ao cinema porque sabia que todas aquelas imagens tão bem registradas pelo fotógrafo Alan Schvasberb estavam muito recentes em minha memória e que, por isso, não me trariam nada de novo. Mas, engano meu, o filme está na medida certa e é fundamental para entender o Brasil de hoje, pós-golpe, que muita gente ainda insiste em chamar de impeachment da presidenta Dilma Rousseff.
As imagens de Brasília no silêncio sombrio, no caminhar trôpego da cadela no Palácio da Alvorada, o cansaço dos jornalistas e dos assessores parlamentares nos corredores do Congresso Nacional revelam ao Brasil a tristeza do inevitável.
Maria Augusta deu um tiro certo na hipocrisia, na falta de caráter dos golpistas, no cinismo de políticos como Eduardo Cunha, Aécio Neves, Cunha Lima. Está tudo lá escancarado no rosto impassível do senador Anastasia, ciente de que estava cumprindo um papel sujo para consolidar a vergonha nacional. E também na cara e nas frases patéticas de Janaína Paschoal, uma “heroína” ideologicamente falsa e igualmente sem caráter.
O filme é também para aqueles que apoiaram o golpe, pois ao sair do cinema deverão estar pensando na miséria que causaram ao país colocado no lugar de Dilma um presidente fraco, corrupto, como Michel Temer e seu bando de entreguistas, antinacionais.
O Processo é para ser visto e revisto por muitos e muitos anos. Só lamento que o nome dos personagens não esteja gravado na tela para a posteridade. Uma falha proposital da diretora que pretendeu dar ao documentário uma leitura ficcional, mas a história é tão real que aqueles lambe-botas precisariam ser identificados com seus nomes e cargos.
A plateia do dia em que fui ver O Processo aplaudiu o discurso do advogado José Eduardo Cardoso e riu das caretas forçadas da patética Janaína. Dilma apresenta-se coerente do início ao fim. Talvez por isso esteja agora em condições de se eleger senadora por Minas Gerais. Quem sabe?
Mas em dois momentos dois petistas externaram suas autocríticas. Gilberto Carvalho, ex-secretário de Governo na gestão Lula, disse que o PT no governo errou ao não fazer a reforma na Comunicação Social prevista na Constituição. Pelo contrário, o primeiro governo Lula fechou mais rádios comunitárias que os governos anteriores e também foi o governo que mais distribuiu recursos publicitários aos grandes conglomerados de comunicação do país. Reconhecimento tardio? Sim, eu acho.
A senadora Gleisi Hoffman (PT-PR), por sua vez, avaliou que o partido se distanciou do movimento social a tal ponto que não se via mais como representante daqueles que estavam nas ruas defendendo Dilma.
O filme tem lado, mas não é sectário nem bajula personagens. É seco na medida certa e sensível o suficiente para mostrar quem fez e está fazendo a história do Brasil para o bem e para o mal.
Criado em 2018-06-04 19:46:37
Com o objetivo de fomentar atividades culturais no Distrito Federal neste período de isolamento social, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec) do DF lançou hoje (6/4), edital do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) voltado para apresentações on-line.
Ao todo, serão investidos mais de R$ 2 milhões para até 107 projetos. A iniciativa é parte do programa Conecta Cultura da Secec voltado para auxiliar o setor durante a quarentena.
No entanto, o diretor e ator de teatro, Alexandre Ribondi, em sua conta no Facebook, faz um apelo: “Desburocratizem, por favor!” Segundo ele, “enquanto editais semelhantes pelo mundo afora são ágeis, resumidos, para que tudo seja feito rapidamente, esse do GDF é um festival de burocracia e exigências feitas para atormentar o artista”.
A propósito dessa iniciativa da Secec, a atriz e dramaturga Ana Flavia Garcia, em sua conta no Facebook, comentou: “Mais um edital da cultura. Isso é uma bobagem sem tamanho! Precisamos sair dos legalismos. Precisamos horizontalizar a cadeia produtiva da cultura. Precisamos humanizar a distribuição da verba da cultura. Vamos parar de fingir produtividade pra atender as pessoas privilegiadas que podem estar em isolamento. Que cultura é essa? Aonde isso chega na população? Pelo fim dos legalismos. Estamos em uma pandemia. A cadeia produtiva da cultura precisa acessar verba emergencial de sobrevivência”.
Verônica Lemos de Oliveira Maia, concorda: “Tudo é difícil, moroso e burocrático para atender a população. Estado de emergência pode contratar sem licitação, não pode? Então podia contratar artistas também”.
Edital - Segundo matéria da Agência Brasília, do GDF, o edital do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) vai contemplar apresentações on-line que abrangem atividades artísticas em 14 áreas distintas. Assim, serão oferecidas até 58 vagas para ações de qualificação básica e formação, 37 para montagem de espetáculos, 10 para festivais on-line, e duas para websérie ou webcanal. Para participar, os artistas e agentes culturais poderão se inscrever de 8 a 22 de abril (veja ao final desta matéria os links para edital, portaria e canais de atendimento).
Todo o processo será feito de maneira eletrônica, observando a quarentena e o isolamento social, fundamentais para conter os avanços do coronavírus.
Para isso, foram ampliados os canais de atendimento à distância da Secec, com telefone e endereço de e-mail exclusivos. Além disso, todas as propostas devem observar a necessidade de apresentar ações de acessibilidade, como ajuda técnica ou tecnologia que incluem interpretação em libras, audiodescrição ou legendas, por exemplo.
Segundo o secretário de Cultura e Economia Criativa Bartolomeu Rodrigues, o FAC traduz a preocupação do governo com a situação dos produtores culturais, que tiveram de paralisar suas atividades em razão do isolamento. Ele afirma que o objetivo é incentivar as produções em novos formatos, e promover a descentralização de recursos.
“O edital é um socorro à classe artística, que está inviabilizada de realizar apresentações, e também um alento aos que estão em casa, já que a arte é um remédio para a alma”, disse ele.
A fim de garantir a descentralização dos recursos, bem como ampliar o alcance do FAC Apresentações On-Line, a Secec abriu prazo, até 16 de abril, para renovação ou inscrição de proponentes no Cadastro de Entes e Agentes Culturais (Ceac), documento essencial para concorrer ao edital. “Estamos buscando facilitar ao máximo a participação dos artistas, para atender o maior número possível de pessoas”, explica.
Confira aqui o edital.
Confira aqui a portaria que institui o Programa Conecta Cultura.
Confira aqui os canais de atendimento à distância.
Criado em 2020-04-06 21:11:09
Primeira indígena mestre em direito no Brasil, Fernanda é a próxima convidada da série de palestras no Museu Nacional da República, na Esplanada dos Ministérios, dia 15/5 (terça), às 19h. Entrada franca.
O tema da escritora e advogada é: “Os Esquecidos: Identidade, Território e Afirmação das Nações Indígenas Brasileiras”.
Fernanda Kaingáng traçará um panorama da violência contra indígenas no Brasil, que se arrasta ao longo dos séculos, e da preservação da identidade. Mesmo nos tempos atuais, em que a valorização e defesa das minorias e das mulheres são pautas frequentes, os povos nativos continuam enfrentando a barreira do esquecimento, do preconceito e dos interesses políticos e do mercado.
Primeira indígena a se tornar mestre em direito no Brasil, Fernanda Kaingáng é mestre em Direito Público pela Universidade de Brasília (UnB) e diretora-executiva do INBRAPI - Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual.
O QUE VEM POR AÍ:
As dificuldades de ascensão social serão discutidas na palestra “Mobilidade social e empreendedorismo - o estado, o mercado e as possibilidades de superação das desigualdades e de ascensão social na sociedade brasileira”, proferida pelo economista Luiz Gonzaga Beluzzo no dia 5 de junho.
Diálogos Contemporâneos encerra suas atividades no dia 12 de junho lançando luzes sobre duas das condições humanas mais preocupantes do século XXI: a depressão e a solidão com a palestra “O Espaço do Amor e da Afetividade nas Grandes Cidades” pela antropóloga Mirian Goldemberg.
Após a realização, as palestras ficarão disponíveis no site para ampliar o alcance da diversidade de pensamentos proposta pelo programa e democratizar o acesso da população em geral a debates sobre temas que afetam diretamente a vida individualmente e, principalmente, em sociedade. Diálogos Contemporâneos acontece simultaneamente em Campo Grande (MS), onde serão promovidas oito conferências.
Criado em 2018-05-06 16:46:22
Claudio Silva -
Banana pode se tratar de um dos melhores combustíveis para quem anda a pé e de bicicleta, nossos quase famosos modos suaves ou de mobilidade ativa, e nós temos de sobra, muito baratinho!
Por falar em combustível, nada mal falar disso agora. Afinal, todos devem estar presenciando as filas nos postos de gasolina. Sim, essas mesmo que de tão grandes estão até provocando lentidão no trânsito em certos lugares. Que horror! O preço da gasolina subindo e nós aqui passando aperto... A culpa é dos corruptos! O Brasil não é um país sério!!!
Se for isso mesmo, é porque temos bem mais de quinhentos anos de história. O que daria uma longa e bem fundamentada conversa. Por agora, seria um bom exercício crítico sairmos do senso comum e refletirmos sobre outros aspectos práticos cuja reflexão não é estimulada pelas emissoras de televisão.
O preço alto da gasolina e a catarse dos motoristas servem de sinal de alerta? Por que somos tão dependentes do uso dos carros?
Na última década de 70 aconteceram as principais crises do petróleo com consequências em várias partes do mundo. E adivinhem, o reflexo mais visível foi o aumento dos preços. Nesse contexto, população e governo de países como Dinamarca e Holanda reagiram em busca de alternativas, por uma menor dependência da mobilidade centrada no uso dos carros. Foi essa reação planejada que levou cidades com Copenhague e Amsterdam a figurarem recentemente entre as mais amigáveis para as pessoas a pé e em bicicletas. Lá, a crise do petróleo teve reação mais demorada e rendeu frutos para os indivíduos e sociedade como um todo.
Aqui, será que as reações irão além das redes sociais?
A associação Andar a Pé – O Movimento da Gente, de Brasília, da qual faço parte, tem o propósito de tornar mais conhecidas e melhores as condições de caminhabilidade na cidade. Justamente porque reconhecemos a falência do modelo de mobilidade centrado no uso dos carros e defendemos que é possível fazer diferente.
Estamos fazendo nossa parte. E você, topa fazer diferente?
Criado em 2018-05-25 18:13:09
Inscrições abertas até 5 de junho no site www.bb.com.br/patrocinios, onde também está o regulamento a ser seguido pelos interessados. Os resultados deverão ser divulgados em setembro deste ano. As propostas selecionadas no edital de patrocínio para projetos culturais do Banco do Brasil integrarão a programação dos CCBBs 2021/2022.
As propostas podem ser apresentadas nas seguintes áreas: artes cênicas, cinema, exposição, ideias, música e programa educativo. Podem inscrever projetos os produtores (pessoa física ou jurídica) de qualquer lugar do Brasil e não só das cidades onde estão localizados os CCBBs.
O BB informa ainda que o “objetivo do Edital é definir projetos que vão compor a programação dos CCBBs de Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP)”.
O regulamento do edital apresenta todos os detalhes, incluindo o eixo curatorial e os critérios de avaliação que preveem, dentre outros: inovação, singularidade, valorização da diversidade, relevância da experiência para o público e a cultura nacional e internacional.
“O Edital é uma forma reconhecida de transparência no processo de seleção de projetos pelos CCBBs. Manter essa estrutura, em meio a tantas incertezas, reforça nosso compromisso com a cultura, com os empregos diretos e indiretos que geramos e com o público que nos prestigia”, afirma Alexandre Alves, Diretor de Marketing e Comunicação do Banco do Brasil.
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Serviço
Programa Banco do Brasil de Patrocínio 2021/2022 – Edital Centro Cultural Banco do Brasil
Inscrições: www.bb.com.br/patrocinios
Quando: até o dia 5 de junho de 2020
Resultado: Setembro (previsão).
Criado em 2020-04-06 18:04:15
O professor Venício Artur de Lima recebeu o título de Professor Emérito da Universidade de Brasília (UnB) no dia 10 de abril. Sociólogo, publicitário e histórico defensor da liberdade de expressão no país, foi um dos pioneiros do Departamento de Comunicação na UnB.
Ao ser homenageado por colegas de profissão, amigos e parentes, no dia da entrega do título, Venício abriu seu discurso afirmando que “somos todos – mulheres, homens – seres ‘situados e datados’. Vale dizer históricos. Por isso, não podemos ignorar o momento de crise profunda que o Brasil atravessa”.
E continuou: “Somos hoje um país dividido pela intolerância e pelo ódio doentios, com sinais alarmantes de crescimento acelerado do fascismo e de uma progressiva caminhada rumo a um `estado de exceção` não declarado”.
A reitora da UnB, Márcia Abrahão, destacou a importância da manutenção da cerimônia em um dia marcado por protestos sobre o déficit de orçamento da universidade no Ministério da Educação. “A UnB não está descolada do que acontece na sociedade e, ao mesmo tempo, respeita sua história. É importante que a comunidade se veja inspirada pelo trabalho do professor Venício”, disse ela.
Esse título é a maior honraria que um professor pode receber da Universidade em que trabalhou e é, ao mesmo tempo, um sinal de reconhecimento por sua trajetória.
Por sua importância histórica, transcrevemos aqui a integra do discurso de agradecimento em cerimônia de outorga do título de professor emérito, no auditório da Reitoria da Universidade de Brasília.

“Nota inicial
Somos todos, mulheres e homens, seres “situados e datados”, vale dizer, históricos. Por isso, não podemos ignorar o momento de crise profunda que o Brasil atravessa. Somos hoje um país dividido pela intolerância e pelo ódio doentios, com sinais alarmantes de crescimento acelerado do fascismo e de uma progressiva caminhada rumo a um “estado de exceção” não declarado.
Nesse contexto, quero registrar, em particular, a prisão do ex-presidente Lula, líder em todas as pesquisas de intenção de voto para as eleições presidenciais de 2018, condenado em processo polêmico e eivado de vícios, e encarcerado por decisão de 2ª. instância, cuja constitucionalidade é questionada não só por ministros do próprio Supremo Tribunal Federal, como por juristas renomados e por defensores dos direitos humanos.
Ter ingressado na Universidade de Brasília como professor colaborador – uma categoria que não pertencia à carreira docente –, haver sido admitido, depois, no primeiro degrau desta carreira, percorrer todas as suas etapas até o concurso público para professor titular, aposentar e merecer, agora, a honra do título de professor Emérito, me obriga a rever a trajetória que, ao longo dos últimos quase 50 anos, me conduziu até aqui.
Para tanto, quero tomar emprestado palavras de advertência que Paulo Freire – ex-membro do Conselho Diretor da FUB e Doutor Honoris Causa pela UnB – faz na introdução de um de seus últimos livros, sobre os limites da memória: Diz ele: “Os olhos com que revejo já não são os olhos com que vi. Ninguém fala do que passou a não ser na e da perspectiva do que está se passando”.
I
Há 48 anos, no início de junho de 1970, uma matéria publicada na revista Visão sobre o Iº Congresso Brasileiro de Informação Rural, realizado na UnB, serviu de pretexto para que se iniciasse o processo que me trouxe para Brasília.
Escrevi ao chefe do Departamento de Comunicação, organizador do Congresso, o professor Marco Antonio Rodrigues Dias. Até a poucos meses, ele era diretor da Rádio Jornal de Minas, em Belo Horizonte, onde eu exercia as funções de subgerente da filial da Standard Propaganda. Insinuei que as portas estariam abertas para uma eventual colaboração e a estratégia deu certo. A partir daí, os entendimentos caminharam rapidamente.
Enfrentando a resistência quase unânime da família e de amigos – de vez que muitos deles não acreditavam sequer que Brasília se firmaria como capital do país – no primeiro semestre de 1971 já estava professor colaborador contratado e em sala de aula.
Duas razões principais motivaram minha decisão.
Primeiro, apesar de bem sucedido como publicitário, essa não era a profissão que pretendia. Minha graduação havia sido em Sociologia e Política e queria fazer o mestrado que já era oferecido na UnB, mas não existia na UFMG. Àquela época, atribuía-se à Sociologia um papel de técnica social capaz de orientar a sociedade para o desenvolvimento e a independência econômica e política. Ademais, meu objetivo de longo prazo sempre havia sido seguir a carreira docente, profissão tanto de minha mãe, como de meu pai. Na UnB já estava o meu querido e saudoso professor de Sociologia Geral, Fernando Correia Dias – Professor Emérito da UnB –, a quem procurei e que me incentivou a fazer a seleção que aconteceria no início de 1971. Cursar o mestrado em Sociologia, paralelamente à docência, foi uma das condições negociadas para a minha vinda.
[Mais tarde esse acordo perderia o sentido porque os dois candidatos que fizemos a seleção no primeiro semestre de 1971, reprovamos em metodologia de pesquisa/estatística e não passamos na seleção].
A segunda razão é que a UnB, ainda engatinhando e sem haver completado seus primeiros 10 anos, era “A Universidade Necessária” de Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira e Frei Mateus Rocha, locus natural do “intelectual público”, comprometido com a transformação da sociedade, e exercia, em muitos de minha geração, uma atração especial. Atração que teimosamente persistia apesar das duas crises profundas – 1965 e 1968 – que desvirtuaram seu projeto original e apesar do país estar atravessando o período que Elio Gaspari, anos mais tarde, chamou de “ditadura escancarada”. As duas lealdades fundamentais definidas por Darcy – aos valores e padrões internacionais da ciência e da cultura; e ao povo brasileiro e à Nação, vinculando a autonomia da universidade à busca de soluções para os problemas nacionais – expressavam uma utopia que, em parte, recuperava e mantinha vivos ideais pelos quais muitos sacrificaram suas próprias vidas naqueles “anos de chumbo”.
Depois da crise de 1968, a UnB passava por um momento de reconstrução tendo como reitor um médico mineiro, Dr. Caio Benjamin Dias. Vários professores de Minas e de outros estados, em diferentes áreas do conhecimento, estavam sendo recrutados por ele e estavam aqui como parte desta reconstrução. No Departamento de Comunicação, além de Marco Antonio Rodrigues Dias – que me convidara – já se encontravam, dentre outros, José Salomão David Amorim, Vladimir Carvalho [Professor Emérito da UnB], Maria de Lourdes Torres, Luiz Gonzaga Figueiredo Mota, Francisco Henrique Diana de Araújo, José Francisco Rezek, Heinz Förthmann, Ubirajara da Silva e Geraldo da Rocha Moraes (estes últimos três, infelizmente, já falecidos).
Foram essas as razões que me trouxeram aqui. Para além de aspirações pessoais, sentia-me parte de um processo de construção coletivo, cheio de planos e de esperança.
[O tempo do Dr. Caio na Reitoria, no entanto, não duraria muito. Ele deixou a UnB no final de março de 1971].
II
Nos anos de ditadura, a UnB mereceu uma atenção especial por parte da chamada “comunidade de informações”. Nunca será demais lembrar que entre fevereiro de 1967 e agosto de 1979, vigorava o Decreto-Lei nº 477, conhecido como o “AI-5 das universidades”, o próprio também em vigor até outubro de 1978. Ao longo de 15 dos 30 anos em que aqui fui professor – vale dizer, entre 1971 e 1985 – a palavra final na UnB era dada pelo Capitão de Mar e Guerra José Carlos de Almeida Azevedo, primeiro como vice reitor e depois como reitor. Aqueles que estudaram ou trabalharam na UnB naquele período sabem que é impossível ignorar a importância desse fato singular e suas inúmeras repercussões na vida da comunidade universitária.
Do ponto de vista de minha escolaridade formal, fazendo parte do grupo de professores aos quais se colocou o desafio de iniciar o programa de mestrado em Comunicação, fui beneficiado pelo apoio e pela manutenção do vínculo empregatício enquanto busquei fora do país a formação pós-graduada.
O tempo necessário para a conclusão do mestrado e do doutorado fez com que estivesse ausente do cotidiano da UnB por um pouco mais de 4 anos e meio, não contínuos, ao longo da década de 1970.
Ainda assim, em 1971, lideramos a execução de um convênio com a Secretaria de Finanças do Governo do Distrito Federal, que marcou uma virada qualitativa no ensino de publicidade. Junto ao meu querido e saudoso amigo, professor Ubirajara da Silva, assumimos a direção do departamento de Comunicação no conturbado biênio 1974/1976. Nessa época, tentamos fazer a quase impossível mediação entre uma Reitoria controladora, a liberdade de cátedra e também a liberdade do movimento estudantil – sempre muito forte na Comunicação – que militava ativamente contra o regime militar.
A cada edição do jornal-laboratório Campus, enfrentávamos a interferência direta da Reitoria que sempre nos advertia ser nossa a responsabilidade de “controlar” o conteúdo a ser publicado. Por óbvio, nos recusávamos a exercer a função de censores e pagávamos o preço por isso.
Enfrentamos a contradição de coordenar a implantação de um programa de mestrado – apenas o quarto a funcionar no país – no qual não podíamos lecionar, em função da exigência do grau de doutor para a docência.
Enfrentamos também a pressão contínua de uma primeira turma organizada e ativa de experientes alunos, na sua maioria já professores ou profissionais maduros, que julgavam de seu dever exigir de um programa de mestrado, que apenas se iniciava, a qualidade que ele ainda não tinha condições de oferecer.
Com o apoio do Decanato de Extensão, cujo titular era o professor Marco Antonio Rodrigues Dias, os professores, alunos e funcionários da Comunicação conseguimos realizar o Iº Seminário Latino Americano de Comunicação, em agosto de 1975. Reunimos aqui os principais pesquisadores de comunicação da região, o subdiretor geral de informação da Unesco e o ministro das Comunicações que, nas circunstâncias especiais daquela época, já falava sobre os perigos do monopólio na televisão brasileira. Neste período, começava a ganhar corpo internacionalmente o debate sobre as políticas nacionais de comunicação e sobre a Nova Ordem Mundial da Informação e da Comunicação, a Nomic.
Este seminário teve o mérito histórico de colocar na pauta, pelo menos entre os poucos programas de pós graduação existentes, o tema das políticas de comunicação e de sua relevância para a opção de desenvolvimento a ser seguida no país. Outro resultado importante foi o nascimento do embrião da Associação Latino Americana de Pesquisadores da Comunicação, que viria a acontecer três anos depois, na Venezuela.
Quando retornei do doutorado no segundo semestre de 1979, pude participar de forma plena do programa de mestrado, tanto como professor como orientador. Por outro lado, integrei-me ao movimento docente, filiando-me à recém fundada Associação de Docentes, AdUnB, de cujo Conselho de Representantes passei a fazer parte em nome dos sócios do departamento de Comunicação.
III
Em agosto de 1982, às vésperas de embarcar para a Inglaterra em programa de visitas patrocinado pelo Conselho Britânico, fui surpreendido com a entrega por um Oficial de Justiça, em minha residência, da notificação da suspensão do meu contrato de trabalho em processo de demissão por justa causa, movido pela Reitoria da UnB. Estava sendo acusado de romper a cláusula da dedicação exclusiva.
Quais teriam sido os motivos verdadeiros por detrás desse processo, movido sem o conhecimento do Departamento de Comunicação e contra a sua vontade?
A famosa Lei 6733, também conhecida como “Lei Azevedo”, assegurava a nomeação pelo Presidente da República, dos dirigentes das fundações instituídas ou mantidas pela União. Foi a 6733 que possibilitou a polêmica e contestada recondução do reitor da Fundação Universidade de Brasília ao cargo, em 1980.
Desde quando o projeto do Executivo que se transformou na Lei 6733 foi enviado ao Congresso Nacional pelo último general-presidente, o então senador Franco Montoro, apresentou uma Emenda que excluía do projeto as fundações de ensino superior. Essa Emenda não vingou e o projeto virou lei, em dezembro de 1979.
Tão logo isso aconteceu, o senador Humberto Lucena, líder da oposição, apresentou, agora, um Projeto de Lei, com o mesmo objetivo: excluir as fundações de ensino superior do âmbito da Lei 6733. Não só apresentou como, em reiteradas ocasiões, o defendeu publicamente, em nome da autonomia universitária. O projeto do senador Humberto Lucena estava em tramitação quando, depois de intensa atuação do movimento docente e contornadas manobras parlamentares indecorosas, em dezembro de 1983, a Lei 7177, de iniciativa do próprio governo, retornou a escolha dos dirigentes das fundações de ensino superior aos critérios da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, isto é, através de listas sêxtuplas enviadas pelas universidades ao Chefe do Poder Executivo, vedada a recondução. Confirmava-se, assim, mais uma derrota da corrente político-militar à qual pertencia o então reitor da UnB.
Coincidência ou não, nesta época, além de militar no movimento docente, eu era genro do senador Humberto Lucena e, desde o início de 1981, prestava assessoria parlamentar a ele, sobretudo, na redação de discursos. Essa assessoria, como atestou o próprio Departamento de Comunicação, em nada interferia nas minhas atividades de professor da UnB.
Depois de longa e sofrida disputa judicial, quando o reitor já não era o mesmo que iniciara o processo de minha demissão e no tumultuado período de transição, imediatamente posterior à renúncia do reitor-nomeado, professor Geraldo Ávila, fiz um Acordo com a UnB, em abril de 1985.
Considero esse Acordo, minha segunda admissão na UnB. Ele foi fruto de uma iniciativa do professor Luiz Octávio Moraes de Souza Carmo, então, no exercício da Reitoria, a quem aproveito para, mais uma vez, agradecer publicamente.
IV
Durante os quase três anos nos quais meu contrato de trabalho esteve suspenso, não me distanciei da UnB. Neste período, fui paraninfo e patrono de turmas de formandos da Comunicação por três vezes. Ao lado dos colegas Carlos Augusto Setti, José Salomão David Amorim, Luiz Gonzaga Figueiredo Motta, Murilo César Ramos e Ubirajara da Silva, fundamos o Centro de Estudos de Comunicação e Cultura, CEC, nos candidatamos e vencemos a disputa para executar dois projetos de pesquisa do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do CNPq.
Em outubro de 1984, por solicitação da comissão encarregada do Plano de Ação do Governo, coordenada pelo, então, senador paranaense Affonso Camargo, o CEC preparou uma proposta de política de comunicação para o futuro governo Tancredo Neves. Essa proposta pioneira, antecipou normas que vieram depois a ser incluídas no capítulo sobre a Comunicação Social da Constituição de 1988. O melhor exemplo é a distinção entre os sistemas privado, público e estatal de radiodifusão, que aparece no caput do artigo 223, acrescida do princípio que exige a complementaridade entre eles.
O Acordo que permitiu que reassumisse minhas funções, coincidiu com o fim do período autoritário, dentro e fora da UnB. O país ainda vivia o clima da campanha das Diretas Já, da eleição de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral e da frustração por sua doença inesperada. Todo o potencial de participação ativa na vida da universidade – da parte de alunos, funcionários e professores – reprimido por tantos anos, parecia ter sido liberado de um momento para outro. Eram novos tempos.
Em setembro de 1985 consegui, finalmente, meu acesso para professor adjunto, bloqueado na Reitoria há mais de seis anos, desde que havia adquirido o direito a ele pela conclusão do doutorado. Aproveito para registrar também meu agradecimento público ao saudoso professor Roberto Cardoso de Oliveira, Doutor Honoris Causa da UnB, que desengavetou e relatou o processo no Conselho de Ensino e Pesquisa.
O acompanhamento do processo Constituinte, iniciado em 1987, a experiência acumulada na assessoria parlamentar e a pesquisa do primeiro pós-doutorado, foram fazendo convergir meus interesses de pesquisa, não só para os meandros da construção das políticas de comunicação – no Executivo e no Parlamento – mas também para a centralidade que a mídia ocupava na dinâmica democrática. O processo eleitoral que, pela primeira vez, em quase três décadas, levaria à eleição direta de um presidente da República em 1989, foi a grande oportunidade empírica de observação da nova realidade.
A incursão, àquela época, por uma área de pesquisa quase totalmente inexplorada, em razão das próprias circunstâncias históricas do processo político brasileiro – as relações entre a mídia e a política –, me aproximou da Ciência Política, onde “já tinha um pé” desde que prestei vestibular para o curso de Sociologia e Política em 1965, então oferecido pela UFMG. Em 1986 e 1988, havia também participado, como professor de “comunicação e política”, dos cursos de especialização em Assessoria Parlamentar realizados pelo Departamento de Ciência Política da UnB, em convênio com o IPEA.
Por outro lado, a própria ambiguidade etimológica da palavra comunicação, que faz oscilar seu significado entre os polos opostos do compartilhar e do transmitir, permite que o seu objeto de estudo acolha perspectivas teóricas e empíricas diferentes, com predominâncias circunstanciais de uma ou outra. No final da década de 1980, a relação mídia e política certamente não era a perspectiva dominante na nova Faculdade de Comunicação e, convidado, aceitei minha transferência para o Departamento de Ciência Política.
V
Na Ciência Política, continuei trabalhando o mesmo tema. Um projeto comparado de pesquisa sobre as eleições presidenciais de 1994 no Brasil e no México, financiado pelo CNPq, testava a validade do conceito de Cenários de Representação da Política (CR-P), que vinha desenvolvendo desde a análise das eleições brasileiras de 1989. Foi esse conceito que serviu de base para a defesa do Memorial que apresentei no concurso para Titular em novembro de 1993.
Sobre esse concurso gostaria de registrar, com muito orgulho, que fui aprovado em primeiro lugar e que fizeram parte da banca examinadora os professores Fabio Wanderley Reis da UFMG, Elisa Pereira do antigo IUPERJ, Olavo Brasil de Lima Júnior da UFMG, Eduardo Viola da USP/UnB e David Fleischer da UnB.
Na metade dos anos 90, a perspectiva de reforma na legislação previdenciária provocou minha aposentadoria proporcional precoce, apesar de mais de 32 anos de tempo de serviço comprovado. Continuei, no entanto, na atividade docente, agora como Pesquisador Associado Sênior.
Junto a professores e profissionais de comunicação, ciência política, educação, história e relações internacionais, propusemos ao Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares a criação do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política, que se tornou realidade por Ato do Reitor de abril de 1997. Esse núcleo constituiu-se numa tentativa pioneira de estudar as relações entre a mídia e a política na universidade brasileira.
No início de 2000, depois de 30 anos, deixei Brasília para morar no Rio Grande do Sul e, de fato, aposentei-me da UnB.
VI
A passagem pelo sul do país foi rápida e, em janeiro de 2004, já estava de volta ao Distrito Federal.
Nos últimos 18 anos estive professor na Universidade de Caxias do Sul, na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul e na UFMG. Nesta última, me tornei pesquisador sênior do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros, ao qual permaneço vinculado. Na UnB, voltei a ser aluno, e fiz o curso de especialização em História do Cristianismo Antigo, em 2008 e 2009. A convite de Alberto Dines e Luiz Egypto fui colunista regular do Observatório da Imprensa por mais de 11 anos. Também fui colunista da revista Teoria e Debate da Fundação Perseu Abramo e ainda colaboro com o portal Carta Maior, dirigido por Joaquim Palhares. Por indicação de meus amigos Carlos Knapp e Bernardo Kucinski, tive o privilégio de trabalhar, por dois anos e meio, na Equipe de Discursos do primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Eleito por entidades da sociedade civil, também representei docentes e pesquisadores no Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação, por pouco mais de um ano. Junto com todos os outros membros, tivemos o mandato cassado pela MP 744 de 1º de setembro de 2016, que iniciou o processo de desconstrução do caráter público da EBC e a transformou numa empresa a serviço daqueles que controlam o aparelho de Estado.
Esta é, de forma seletiva e muito abreviada, minha trajetória na UnB e depois dela.
VII
Olhando para trás e revisitando as razões que me trouxeram para a UnB, não consegui fazer o mestrado em Sociologia, mas segui a carreira docente, como meus pais. Também persegui os temas de estudo que havia elegido desde cedo e com os quais trabalho até hoje.
Desde o doutorado continuo redescobrindo um Paulo Freire republicano, que vai muito além do criador de um método de alfabetização de adultos. Nestes tempos em que a soberania popular vem sendo substituída pela soberania do mercado financeiro, um bom exemplo é a potencialidade analítica do conceito de cultura do silêncio e do seu corolário, políticas de silenciamento. Aliás, é necessário registrar que a estrutura do sistema de mídia no nosso país permanece predominante privada, oligopolizada, com uma legislação omissa e desatualizada, além de assimétrica em relação a outros serviços públicos. Isto, apesar de conquistas pontuais na Constituição de 1988 – que completa três décadas em outubro – mas que nunca foram regulamentadas. No Brasil, a mídia constitui um oligopólio, do ponto de vista econômico e opera como um monopólio, do ponto de vista político. A internet, que alimentou desmedidas esperanças, apesar de suas inegáveis potencialidades democratizantes, aos poucos se revela como canal incontrolável de “fake news”, seguidores falsos e do spam político, além de instrumento fundamental daquilo que já se chamou de “capitalismo de vigilância” em escala global.
Em relação à mídia e à política, já há algum tempo, estou convencido de que se trata de dimensões que não podem ser analiticamente isoladas. Pensar a política e a comunicação apenas através de uma interdisciplinaridade, não é suficiente.
Escrevi com o colega e amigo Juarez Guimarães da UFMG, em 2013, que toda teoria democrática que não pensa as dimensões públicas da liberdade de expressão, as relações constituintes entre a construção da cidadania e o direito à voz pública, enfrentará obstáculos intransponíveis. Por outro lado, toda teoria da comunicação que despolitiza o seu objeto, negando ou marginalizando as fundações políticas da comunicação que se faz em sociedade, está na verdade optando por conceber a liberdade de expressão como um direito que se realiza na ordem do privado, em geral mercantil. Assim, não se trata mais de discutir as relações entre comunicação e política, mas de enfrentar o desafio de constituir um campo de estudo no qual política e comunicação mútua e geneticamente se constituem em seus conceitos fundamentais.
Creio que os recentes acontecimentos de nossa história política, desde o início do processo que levou ao golpe parlamentar de 2016, confirmam a correção dessas afirmações.
Quanto às lealdades e à utopia d’ “A Universidade Necessária”, sempre procurei fugir daquilo que Darcy Ribeiro chamou de “erudição gratuita”. Os tempos são de declínio do “intelectual público”, hoje substituído pelos “intelectuais deferentes”, os “experts” midiáticos. Apesar disso, ainda me sinto parte de um projeto coletivo e tentei dar a minha contribuição a ele na sala de aula, em atividades de pesquisa e extensão, nas diversas posições que ocupei nos órgãos colegiados, na administração acadêmica e por meio da minha participação no movimento docente.
Infelizmente, atravessamos um período de obscurantismo neoliberal no qual a universidade pública e gratuita vive sob ataque permanente: ataque pela Emenda Constitucional nº 95 de dezembro de 2016 que congelou as verbas públicas para a educação nos próximos 20 anos; ataque daqueles que defendem a total privatização da educação: empresas de ensino, grupos de mídia, editoras de livros didáticos, fundos de investimento, movimentos políticos e, claro, agentes “públicos” em posição de comando na máquina do Estado; ataque pela intimação policial do médico Elisaldo Carlini, de 88 anos, para depor sobre suposta apologia às drogas. Professor Emérito da Federal de São Paulo, as pesquisas pioneiras do Dr. Carlini permitiram a formulação de medicamentos eficazes para tratar doenças como epilepsia e esclerose múltipla, hoje utilizados em diversos países; ataque pelas injustificadas blitze midiáticas da Polícia Federal, que – autorizadas por juízes de Primeira Instância –, levaram a conduções coercitivas e à prisão, dirigentes e professores da Federal de Santa Catarina e da UFMG, afrontando direitos e garantias constitucionais; e também, ataque do próprio MEC – e, depois, do Ministério Público em diferentes estados – pela absurda tentativa de interferência na autonomia universitária e na liberdade de cátedra, deflagrada a partir da disciplina sobre o golpe de 2016, oferecida pelo nosso colega Luiz Felipe Miguel, do IPOL.
Apesar de tudo isso, acredito que a velha utopia de minha geração se reinventa, sobrevive e continua mais necessária do que nunca.

VIII
Quero, mais uma vez, agradecer a todas e todos aqui presentes – que compartilham comigo esse momento – e à Universidade de Brasília, que me concede a honraria maior que já recebi.
Muito obrigado”.
Criado em 2018-04-18 02:04:03
O jornal francês Le Monde publicou, em sua edição de hoje (17/5), este artigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva:
“Sou candidato a presidente do Brasil, nas eleições de outubro, porque não cometi nenhum crime e porque sei que posso fazer o país retomar o caminho da democracia e do desenvolvimento, em benefício do nosso povo. Depois de tudo que fiz como presidente da República tenho certeza de que posso resgatar a credibilidade do governo, sem a qual não há crescimento econômico nem a defesa dos interesses nacionais. Sou candidato para devolver aos pobres e excluídos sua dignidade, a garantia de seus direitos e a esperança de uma vida melhor.
Na minha vida nada foi fácil, mas aprendi a não desistir. Quando comecei a fazer política, mais de 40 anos atrás, não havia eleições no País, não havia direito de organização sindical e política. Enfrentamos a ditadura e criamos o Partido dos Trabalhadores, acreditando no aprofundamento da via democrática. Perdi 3 eleições presidenciais antes de ser eleito em 2002. E provei, junto com o povo, que alguém de origem popular podia ser um bom presidente. Terminei meus mandatos com 87% de aprovação popular. É o que o atual presidente do Brasil, que não foi eleito, tem de rejeição hoje.
Nos oito anos que governei o Brasil, até 2010, tivemos a maior inclusão social da história, que teve continuidade no governo da companheira Dilma Rousseff. Tiramos 36 milhões de pessoas da miséria extrema e levamos mais de 40 milhões para a classe média. Foi período de maior prestígio internacional do nosso país. Em 2009, Le Monde me indicou “homem do ano”. Recebi estas e outras homenagens, não como mérito pessoal, mas como reconhecimento à sociedade brasileira, que tinha se unido para, a partir da inclusão social, promover o crescimento econômico.
Sete anos depois de deixar a presidência e depois de uma campanha sistemática de difamação contra mim e meu partido, que reuniu a mais poderosa imprensa brasileira e setores do judiciário, o momento do país é outro: vivemos retrocessos democráticos, uma prolongada crise econômica, e a população mais pobre sofre, com a redução dos salários e da oferta de empregos, o aumento do custo de vida e o desmonte de programas sociais.
A cada dia mais e mais brasileiros rejeitam a agenda contra os direitos sociais do golpe parlamentar que abriu caminho para um programa neoliberal que havia perdido quatro eleições seguidas e que é incapaz de vencer nas urnas. Lidero, por ampla margem, as pesquisas de intenções de voto no Brasil porque os brasileiros sabem que o país pode ser melhor.
Lidero as pesquisas mesmo depois de ter sido preso em consequência de uma perseguição judicial que vasculhou a minha casa e dos meus filhos, minhas contas pessoais e do Instituto Lula, e não achou nenhuma prova ou crime contra mim. Um juiz notoriamente parcial me condenou a 12 anos de prisão por “atos indeterminados”. Alega, falsamente, que eu seria dono de um apartamento no qual nunca dormi, do qual nunca tive a propriedade, a posse, sequer as chaves. Para me prender, e tentar me impedir de disputar as eleições ou fazer campanha para o meu partido, tiveram que ignorar a letra expressa da constituição brasileira, em uma decisão provisória por apenas um voto de diferença entre 11 na Suprema Corte.
Mas meus problemas são pequenos perto do que sofre a população brasileira. Para tirarem o PT do poder após as eleições de 2014, não hesitaram em sabotar a economia com decisões irresponsáveis no Congresso Nacional e uma campanha de desmoralização do governo na imprensa. Em dezembro de 2014 o desemprego no Brasil era 4,7%. Hoje está em 13,1%.
A pobreza tem aumentado, a fome voltou a rondar os lares e as portas das universidades estão voltando a se fechar para os filhos da classe trabalhadora. Os investimentos em pesquisa desabaram.
O Brasil precisa reconquistar a sua soberania e os interesses nacionais. Em nosso governo, o País liderou os esforços da agenda ambiental e de combate à fome, foi convidado para todos os encontros do G-8, ajudou a articular o G-20, participou da criação dos BRICS, reunindo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, e da Unasul, a União dos países da América do Sul. Hoje o Brasil tornou-se um pária em política externa, que os líderes internacionais evitam visitar, e a América do Sul se fragmenta, com crises regionais cada vez mais graves e menos instrumentos diplomáticos de diálogo entre os países.
Mesmo a parte da população que apoiou a queda da presidenta Dilma Rousseff, após intensa campanha das Organizações Globo, que monopolizam a comunicação no Brasil, já percebeu que o golpe não era contra o PT. Era contra a ascensão social dos mais pobres e os direitos dos trabalhadores. Era contra o próprio Brasil.
Tenho 40 anos de vida pública. Comecei no movimento sindical. Fundei um partido político com companheiros de todo o nosso país e lutamos, junto com outras forças políticas na década de 1980, por uma Constituição democrática. Candidato a presidente, prometi, lutei e cumpri a promessa de que todo o brasileiro teria direito a três refeições por dia, para não passar fome que passei quando criança.
Governei uma das maiores economias do mundo e não aceitei pressões para apoiar a Guerra do Iraque e outras ações militares. Deixei claro que minha guerra era contra a fome e a miséria. Não submeti meu país aos interesses estrangeiros em nossas riquezas naturais.
Voltei depois do governo para o mesmo apartamento do qual saí, a menos de 1 quilômetro do Sindicato dos Metalúrgicos do da cidade de São Bernardo do Campo, onde iniciei minha vida política. Tenho honra e não irei, jamais, fazer concessões na minha luta por inocência e pela manutenção dos meus direitos políticos. Como presidente, promovi por todos os meios o combate à corrupção e não aceito que me imputem esse tipo de crime por meio de uma farsa judicial.
As eleições de outubro, que vão escolher um novo presidente, um novo congresso nacional e governadores de estado, são a chance de o Brasil debater seus problemas e definir seu futuro de forma democrática, no voto, como uma nação civilizada. Mas elas só serão democráticas se todas as forças políticas puderem participar de forma livre e justa.
Eu já fui presidente e não estava nos meus planos voltar a me candidatar. Mas diante do desastre que se abate sobre povo brasileiro, minha candidatura é uma proposta de reencontro do Brasil com o caminho de inclusão social, diálogo democrático, soberania nacional e crescimento econômico, para a construção de um país mais justo e solidário, que volte a ser uma referência no diálogo mundial em favor da paz e da cooperação entre os povos.”
Criado em 2018-05-17 16:20:17
Romário Schettino –
Nestes tempos de quarentena obrigatória, nada melhor do que atividades culturais, terapêuticas e artísticas dentro de casa. A performer Tania Alice, professora de performance da UniRio e coordenadora da plataforma Performer sem Fronteiras, criou um grupo virtual bastante sugestivo e criativo.
“Com o confinamento, tomei a iniciativa de criar o grupo virtual Performance durante a Quarentena no Facebook, onde artistas propõem e realizam desafios semanais na linguagem da performance”, explica Tania.
“Toda semana, um artista novo propõe uma ação em foto, vídeo, que os outros membros do grupo realizam em suas casas e compartilham em seguida. A ideia é focar a mente em atividades criativas, o que ajuda a manter a imunidade em alta e previne a ansiedade e a depressão, comuns nesse tipo de contexto”, conclui. O link do grupo é: (clique aqui).
Tania explica que o primeiro desafio que propôs aconteceu no dia 18 de março e se estendeu até o dia 25. E tinha o seguinte objetivo: “Inspire-se de uma pintura clássica que envolva janela(s) e faça uma foto-performance, adaptando-a para a sua realidade atual. Poste aqui a tela original e a sua adaptação”. Em seguida, ela nomeou Juliana Liconti para inventar o próximo desafio semanal. O Desafio 2, proposto por ela foi o seguinte: "Faça um vídeo de até 1 minuto desfilando os melhores modelitos da quarentena".
O próximo desafio, a convite de Juliana, será anunciado por Sandra Nunes, e assim por diante. O grupo está aberto a qualquer pessoa que queira experimentar, semanalmente, a criação em performance com desafios coletivos.
"Pode surgir do grupo a ideia de uma exposição virtual na pós-quarentena, tendo em vista a grande qualidade e criatividade dos trabalhos compartilhados", acrescenta Tania.
Em ação desde 2015 no Brasil, Performers sem Fronteiras está vinculado a um projeto de pesquisa institucional, coordenado pela artista e pesquisadora Tania Alice, na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio). Legalmente, é uma Associação Artística fundada na França, com base numa Lei de 1901.
Performers sem Fronteiras é uma plataforma que reúne performers de diversas nacionalidades que realizam projetos artísticos, culturais e terapêuticos com e para vítimas de traumas de choque (conflitos armados, migrações, guerras, catástrofes naturais), ou traumas de desenvolvimento (pessoas idosas, doentes, internadas em hospitais psiquiátricos, asilos, órfãos, vítimas de regimes ditatoriais ou sofrendo situações de opressão específicas, entre outras situações).
A Associação, aberta a performers que atuam nessa mesma linha, também conduz ações de pesquisa, de formação e de apoio nos setores artístico, social, ecológico e terapêutico, junto a populações diversas. O grupo trabalha principalmente no Brasil, mas já realizou intervenções no Nepal - após os terremotos; em Bruxelas - após os atentados; na França, com doentes terminais e uma unidade de cuidados paliativos; no Haiti, no Togo, entre outros.
Tania acredita na ideia da arte como saúde, como cura. Todos os envolvidos em projetos participativos, segundo ela, promovem a saúde no sentido amplo. Mais informações sobre o trabalho da Associação podem ser encontradas no site (clique aqui).
Além de performer, Tania também é terapeuta de Somatic Experiencing (cura do trauma) e instrutora oficial de Yoga do Riso, uma prática que pode ser oferecida para preparação corporal de grupos, empresas e asilos. No ano de 2019, Tania, em parceria com o esquizoanalista Bruno Cuiabano, idealizou o projeto de uma Clínica Somático-Performativa, com um módulo experimental na Unirio para os estudantes, para gerar práticas de saúde e de prevenção da depressão, ansiedade e suicídio – e a meta é expandir a clínica para outras instituições municipais, estaduais e federais e empresas.
Mais informações sobre o trabalho, veja no site de Tania Alice - clique aqui.
Criado em 2020-04-01 18:15:21
A Associação Juízes para a Democracia (AJD), entidade não governamental e sem fins corporativos, que tem dentre seus objetivos estatutários o respeito ao Estado Democrático de Direito, preocupada e atenta aos rumos da democracia no país, manifesta-se nos seguintes termos:
“O processo de deposição de uma Presidenta legitimamente eleita, ocorrido em 2016, tem paulatinamente sido reconhecido, pela maioria da população brasileira, como uma verdadeira ruptura democrática. O avanço do que poderia ser considerado um Estado de exceção não se limitou a esse ato, porém, de modo que se observam novas fraturas nas abaladas estruturas políticas que ainda sustentam a República.
Manifestações de representantes das Forças Armadas são proferidas para pressionar os demais poderes do Estado brasileiro, de modo a influenciar até mesmo decisões da mais alta Corte Judicial. Por sua vez, os meios de comunicação de massa eliminam do discurso as vozes dissonantes e exercem forte interferência sobre a opinião pública, subvertendo a verdade jornalística para atender interesses minoritários e restringindo, em vez de ampliar, a liberdade de expressão.
Ademais, o uso das forças repressivas contra manifestantes pacíficos vem se intensificando em extensão e em violência. Mais especificamente, forças militares foram deslocadas para servir à intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro sem que houvesse motivos fáticos e históricos para tal medida.
Como se não bastasse, a partir de 2016, mais de cem ativistas sociais que lutavam pela causa dos direitos humanos foram mortos no Brasil, o que culminou com a execução da parlamentar Marielle Franco, no Rio de Janeiro, há mais de trinta dias. Outros inúmeros militantes de direitos humanos têm sido ameaçados de morte, como, por exemplo, o Padre Júlio Lancelotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua de São Paulo.
As diversas instâncias do Poder Judiciário estão se sentindo compelidas a adaptar suas pautas ao calendário eleitoral, e mesmo o Supremo Tribunal Federal, que deveria ser o guardião da Constituição Federal, passa a realizar julgamentos modificando entendimentos jurisprudenciais consagrados para atingir (ou não!) determinados atores políticos.
De outro lado, juízes com posicionamentos ideológicos divergentes do campo político majoritário são perseguidos e sofrem procedimentos administrativos com vistas à punição.
Todas essas circunstâncias levam a Associação Juízes para a Democracia a vir a público para denunciar que a ruptura do Estado Democrático de Direito no Brasil já é uma realidade, aprofundando-se a cada dia e ampliando os termos da violação cotidiana à Constituição e às liberdades cidadãs.
A AJD conclama, portanto, todos os cidadãos e cidadãs a engajarem-se ativamente na defesa do Estado Democrático de Direito e da Constituição e a oporem-se, em todas as frentes de que participem – associações, sindicatos, igrejas, clubes, partidos, o que for – ao avanço do autoritarismo e aos ataques à democracia, venham de onde vierem.
São Paulo, 17 de abril de 2018”.
Criado em 2018-04-18 01:15:22
José Carlos Peliano (*) -
O mundo moderno mais se assemelha a um complexo redemoinho de atores, peças e enredos neuróticos do que a um conjunto de nações que chegaram a um ponto de relativa estabilidade de relações democráticas e coletivas.
Nem Shakespeare ou Freud ou Jorge Amado ou Galeano, entre tantos outros, dariam conta de compreender e explicar o que ocorre países afora a despeito de eventuais, poucas e localizadas experiências históricas diferenciadas. Muito embora cada um dos quatro em seus escritos e em obras de naturezas distintas tenha se aventurado de uma forma ou de outra a lançar ideias e pistas esclarecedoras.
A sanha impetuosa e impiedosa do avanço capitalista na era neoliberal tem deixado marcas por vezes exitosas em várias áreas da atividade tecnológica em contraste ao rescaldo descabido e desumano do uso e abuso dos indivíduos tornados em grande escala trabalhadores ou imigrantes ou desempregados ou miseráveis. Célebres personagens já investigaram a fundo essas questões, sobressaído Karl Marx como o que revelou a face déspota do capitalismo sendo o primeiro a bradar ao mundo essa infâmia ultrajante, permanente e progressiva desde a Revolução Industrial.
Há por trás dessa trágica máscara, no entanto, uma dimensão negada porque ignorada e bem escondida debaixo da própria vilania da construção capitalista. Que se vangloria do domínio dos movimentos terrestres, das águas internas e externas e dos ares com suas maravilhosas empreitadas científicas e técnicas por meio de todos os tipos de veículos, embarcações e objetos voadores. Mas que só os disponibiliza para poucos, os herdeiros da acumulação primitiva que se tornou posteriormente intensiva, predatória e avassaladora, de família a família, de grupos a grupos, de companhia a companhia.
Por que se chegou a essa situação tem a explicação dada por Marx em sua obra sem idade, O Capital, sobre a qual o economista austríaco Joseph Schumpeter comentou no início do século passado que depois de Marx somente existiram economistas contra ou a favor dele. Sua importância na análise do capitalismo é seminal, grandiosa, grandiloquente. Pode-se discordar de sua visão crítica, mas não há como ignorá-la tampouco minimizá-la. Como canta Lenine na Balada do Cachorro Louco, a obra de Marx fere feito bala, “ela é explosão, ela vai, ela fica, ..., ela fere rente”.
É da obra de Marx que também se tira a referência à dimensão encoberta pela chegada e avanço do capitalismo nas sociedades pré-industriais. Trata-se da organização natural do trabalho cooperativo. Onde cada camponês executava seu trabalho de acordo com sua capacidade em colaboração com os demais ou da família ou do grupo de famílias. E a produção comunal primitiva servia para atender tão somente ao consumo familiar. A produção adicional era estocada para períodos de entressafra.
Nessas condições o trabalho humano implicava “originalmente, uma interação orgânica com a terra, meio e objeto de trabalho, e com a comunidade de trabalho, enquanto membros de um único corpo social natural que se produz e reproduz continuamente a fim de conservar e aprimorar sua existência” (p. 19) Peliano, JC, Acumulação de trabalho e mobilidade do capital, UnB, 1990.
Exemplos primitivos sobre a solidariedade na produção humana para subsistência e para a construção da infraestrutura básica de sobrevivência são encontrados nas comunidades indígenas espalhadas ao redor do mundo.
Aqui mesmo no Brasil existem ainda tribos isoladas, sem o contato com civilizados, cuja vida gira em torno da cooperação natural entre seus membros realizando tarefas da sobrevivência tribal que ajudam à manutenção das aldeias. Testemunhos de pesquisadores que visitaram os Zoe’s, por exemplo, sob permissão da Funai, verificaram essa atividade comunal.
Tipos semelhantes de cooperação e solidariedade entre os membros ocorrem nos reinos vegetal e animal cada um segundo suas características e especificidades. Desmond Morris em seu livro The Human Zoo, Dell, 1969, relata sua experiência no estudo dos macacos entre os quais verificou semelhanças muito próximas deles com mulheres e homens. A vida grupal e sua sobrevivência traz a marca da cooperação entre os membros em meio à hierarquia entre os machos alfas e os demais. Destaca que em seus habitats naturais os macacos não atacam seus semelhantes adultos ou crianças, nem desenvolvem doenças típicas de tensões nervosas como úlcera e obesidade, entre outras coisas (p. 11).
Por sua vez, Peter Wohlleben, Sextante, 2015, em seu livro A vida secreta das árvores, relata a desconhecida e fantástica vida escondida das árvores. Revela que “as árvores igualam os pontos fortes e fracos entre si. Não importa se têm o tronco grosso ou fino: todos os espécimes produzem a mesma quantidade de açúcar por folha. Esse mecanismo acontece nas raízes. No subterrâneo acontece essa troca ativa, segundo a qual quem tem muito cede e quem tem pouco recebe ajuda”(p. 20).
Humanos, animais e plantas são por natureza cooperativos, solidários e complementares em seus grupos específicos. Trazem desde sempre a marca da ajuda mútua, entendida em sentido amplo onde caiba até mesmo a falta de ajuda quando um ou outro membro se nega por alguma razão. Mas negação, nesse caso, não significa recusa definitiva, nem embate, tampouco superioridade.
Ao contrário do capitalismo que trouxe em seu lugar a divisão, a exploração, a competição, a hierarquia e a meritocracia. Não há mais espaço para a cooperação natural, para a igualdade de oportunidades, para a convivência pacífica e sem preconceitos.
A desigualdade social e econômica que impera no mundo contemporâneo desde o advento do capitalismo tende a aumentar se quem detém mais não se convencer que é preciso ceder para quem tem menos sob o risco mais cedo ou mais tarde de derrocada de todo o sistema. Como um castelo de cartas. Acumulação de capital sem demanda não realiza valores. Produção com desemprego e queda de renda não retorna ao circuito produtivo. Especulação financeira tem um fim se não há riqueza material que a garanta.
Onde o neoliberalismo teve sucesso no mundo? Só nos livros e nas cabeças de conservadores e oportunistas governantes e teóricos de fins de semana. Se o capital não se socializar, a sociedade se descapitaliza e sucumbe. Há 200 anos atrás Marx previa isso, estamos chegando perto.
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(*) José Carlos Peliano é economista, poeta e escritor
Criado em 2018-05-11 17:09:29
Evento musical on-line leva cultura e entretenimento ao público para que o isolamento seja encarado com mais leveza. Festival “40 Minutos” estará no ar durante o mês de abril a partir do dia 3. Mais de 40 artistas já confirmaram participação e o público pode contribuir por meio de plataforma de crowdfunding e campanha de arrecadação de alimentos.
A ideia dos organizadores é movimentar a cena cultural do DF neste momento difícil e contribuir para que as pessoas tenham, dentro de suas casas, mais um acesso à cultura. musical com artistas de Brasília.
Durante o mês de abril diversas cantoras, cantores, músicos e DJs de Brasília vão tocar, ao vivo e on-line, todos os fins de semana (sexta a domingo) em apresentações de 40 minutos. As lives (transmissões ao vivo e on-line) acontecem no perfil de cada artista nas redes sociais, sempre das 19h às 22h10. O evento propõe, ainda, celebrar o aniversário da cidade, que no dia 21 de abril completa 60 anos.
Entre os artistas que já confirmaram presença estão Alberto Salgado, Nãnan, Manassés de Sousa, Juçara Dantas, Victor Vasconcelos, Litieh, Alessandra Terribili e DJs como Barata, Wash, Mica e Eldy e outros.
Nessa sexta (dia 3/4) o DJ Prezi, que é também um dos organizadores do Festival, dará início à programação com músicas de artistas da cidade que estão confirmados no Festival.
Para assistir às apresentações do Festival 40 Minutos, o público pode acessar a página do evento no Facebook e Instagram, onde está a programação completa com os links.
Os que quiserem contribuir com o Festival 40 Minutos, vão contar com duas opções: o Ingresso do Amor, via Benfeitoria, plataforma de crowdfunding, ou Ingresso Solidário por meio da parceria com a Ação da Cidadania, que organiza a campanha de arrecadação de alimentos e combate à fome.
Programação deste final de semana
3/4 (sexta)
19h00 - 19h40: DJ Prezi @prezi.br
19h50 - 20h30: Victor Vasconcelos @victorvasconcelos_
20h40 - 21h20: Henrique Crasto @henriquecrasto
21h30 - 22h10: Alberto Salgado facebook.com/alberto.salgado.3152
4/4 (sábado)
19h00 - 19h40: DJ Afrika @afrikaoficial1
19h50 - 20h30: Juçara Dantas e Tiago Tunes @jujuonly @tiagotunes7
20h40 - 21h20: Clara Telles e Aloísio Brandão @cla_telles
21h30 - 22h10: Letícia Fialho @leticiafialhoeu
5/4 (domingo)
19h00 - 19h40: DJ Leo Cabral @sir.leocabral
19h50 - 20h30: Manassés de Sousa facebook.com/manasses.sousa.9
20h40 - 21h20: Fabrício Santana @fabriciosantanamusic
21h30 - 22h10: Litieh @litieh
Siga o Festival 40 Minutos no Facebook e no Instagram:
www.facebook.com/festival40minutos
Instagram:@festival40minutos
Criado em 2020-04-01 21:06:11
Romário Schettino –
Uma angústia tomou conta do Brasil nos últimos dias. Pelo menos uma boa parte da população, sensível aos problemas sociais, humanista e ciente dos direitos humanos do cidadão, não está feliz com essa prisão. Muitos recados foram percebidos nesses dias: ódio ao presidente Lula, rancor dos derrotados nas pesquisas eleitorais e até um certo ressentimento em setores da grande imprensa.
Mas o mais importante é que os pobres, os excluídos, aqueles que lutam por uma sociedade mais justa cerraram fileiras em torno de Lula no momento mais grave de sua vida. As fotos dizem muito do que foi aquele momento após o discurso no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, o berço da história do operário que ousou presidir o Brasil.
Lula deu uma lição no juiz Sérgio Moro. Antes de ser preso, mostrou o quanto é querido e respeitado no Brasil e no mundo. E não é por qualquer coisa. Lula representa tudo o que pode ser feito pelos mais pobres, sem o derramamento de sangue próprio das lutas revolucionárias.
Foi na institucionalidade que Lula e Dilma implantaram as mais importantes políticas de proteção social jamais vistas neste país e em boa parte do mundo. Todas elas estão sendo desmontadas numa velocidade vertiginosa. As gangues que tomaram o poder em 2016 correm para destruir tudo o que foi feito, de tal forma que nesse terreno, devidamente salgado, não brotará mais nenhuma flor, a não ser que o eleito em 2018 assuma o compromisso de aprovar o plebiscito revogatório.
Os cerca de 36 milhões de brasileiros que saíram da miséria absoluta, a retirada do país do mapa da fome da ONU, nada disso está sendo considerado. O microcrédito, uma infâmia. Bolsa Família, para quê? Nem é preciso listar todas as bolsas, essenciais para o equilíbrio social. É por causa dessas ameaças, que as pretas, os pretos, as putas, os brancos pobres choram.
O desmonte ditado pela ideologia neoliberal, que o mundo civilizado já não vê mais com bons olhos, é feito tendo como base a suprema importância do equilíbrio das contas públicas, a privatização de tudo o que se encontra pela frente, a redução do Estado para o mínimo possível e, o pior de todos os crimes, a entrega de todas as riquezas estratégicas brasileiras ao controle do capital estrangeiro.
O poderoso sistema financeiro avança para impedir qualquer iniciativa de industrialização nacional, de desenvolvimento das tecnologias nas universidades brasileiras. A PEC do fim do mundo foi aprovada para isso, retirar todo investimento estatal para quebrar as empresas públicas de ponta e entregá-las de mão beijada aos estrangeiros.
O mundo globalizado, dizem os neoliberais, não tem fronteiras. Mas a miséria sim, está muito bem delimitada no Terceiro Mundo e em alguns países em desenvolvimento.
É por isso que o político Lula tem que ser preso e impedido de se candidatar. Não só ele, mas todos aqueles que representam o mínimo de ruptura e enfrentamento com o nefasto neoliberalismo excludente. A campanha vai demonstrar isso. A esquerda será crucificada nos meios de comunicação em nome de ideologias entreguistas e antipopulares. As redes sociais podem cumprir papel relevante, se os partidos do campo progressista souberem utilizá-las.
Parte da sociedade brasileira, elitista, estimula o individualismo, prega a cultura da violência e mete medo na outra parte ignorante, desinformada e manipulada pelos meios de comunicação.
Dos cerca de 60 programas e projetos previstos pelos governos Lula/Dilma, cito alguns: Mais Médicos; Farmácia Popular; Minha Casa, Minha Vida; Bolsa Família; FIES; Pronatec; Prouni; Ciência sem Fronteiras; Transposição do Rio São Francisco; Reativação do Transporte Ferroviário; Aumento do salário mínimo acima da inflação; Água para Todos; Pontos de Cultura; Vale Cultura; Bolsa-escola; Saúde da Família; MEI Microempreendedores Individuais; BRICS; Projeto Submarino Nuclear; Modernização da frota de aeronaves da FAB com transferência da tecnologia; Pré-sal; Redução de 79% do desmatamento da Amazônia brasileira; Valorização do polo naval; Aumento exponencial do parque eólico brasileiro; Polos de desenvolvimento NE: Suape PE, Pecém CE e Camaçari BA etc etc etc.
Além de tudo isso, o Brasil de Lula e Dilma deixou em caixa reservas de US$ 371 bilhões. Não é pouca coisa.
Mesmo que todos esses programas merecessem mais controle e eficácia para evitar desperdício de recursos, nada justifica seu desmantelamento. Por tudo isso, choram os pobres do Brasil.
Até as eleições de outubro, o país, mergulhado na indignação, manterá na memória o último discurso de Lula antes de ser preso. Lula acendeu o rastilho da esperança ao afirmar que “a história vai provar daqui uns dias que quem cometeu crime foi o delegado que me acusou e o juiz que me condenou".
Criado em 2018-04-09 00:55:46
José Carlos Peliano (*) -
Não conheço pessoalmente Márcio Fagundes, mineiro, jornalista, pai de dois filhos, ex-marido de uma grande amiga, residente honorário de Belo Horizonte. Honorário é por minha conta porque acho que quem mora lá já garante todas as honras de uma linda metrópole, histórica, despojada, mas altaneira.
Não sei quais são ou foram seus hábitos, usos e costumes, nem tenho sua ficha corrida. Mas falta não faz, sua foto diz tudo. Mostra, grita, esperneia, aponta, define, mais que uma datiloscopia. É aquela história, a gente bate o olho nela e vê sem precisar ser médium ou sensitivo de berço como é e quem é a pessoa.
Já os amigos próximos, de rua, de bares, de trabalho, de reuniões, do cafezinho na esquina, da esquina sem cafezinho, todos eles dizem a mesma coisa.
Até mesmo o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, através de nota pública, um dos aglomerados de trabalhadores sérios e competentes da palavra, da notícia, do fato, tal como ele é, não do jeito que os editores querem ou mesmo os donos das emissoras, jornais e assemelhados pretendem para encobrir, tergiversar ou inventar notícias.
Isentos de vícios, artifícios e ofícios, repudiam a prisão do colega, profissional reconhecido, ilibado, construído nas linhas e entrelinhas da verdade tal qual ela se mostra e apresenta, não a que interessa e alimenta. Os tempos de agora já não trazem mais as cores de outrora.
Pois Márcio (foto abaixo) foi retirado de casa às 6 da manhã da quarta-feira, 18 de abril, pela truculência policial, sem limites, sem freios, sem medida. Viram a cena trágica, corroída, insuportável, os filhos, vizinhos e o dia que pensava em começar claro, limpo, com um bom e belo horizonte.

Quebrou-lhe o alvorecer da natureza soberba mais um golpe contra o cidadão comum, sem privilégios, favores, incentivos e conluios perpetrado por nossa justiça (?), assim mesmo, minúscula, sem a estatura de um Ruy Barbosa, Sobral Pinto, Evandro Lins e Silva, de tantos outros que já tinham a defesa dos direitos humanos e sociais correndo pelas veias.
Trabalhou na Câmara dos Vereadores de Minas Gerais, onde um de seus representantes, então vereador, hoje foragido e procurado por corrupção, se envolveu em transações ilícitas de licitações. Na época Márcio era superintendente de comunicação, não tendo nada a ver com a parte administrativa.
Maldita máquina hierárquica e meritocrata que se aproveita, subverte, corrompe, manda e desmanda, porque tem anel no dedo, diploma na parede, cargo representativo, pose de semideus, ou até de deus mesmo, como muitos dos que se arrotam defensores da legalidade e transparência.
Para se precaver, Márcio sempre assinava a papelada da burocracia com as iniciais O.P. (ordem da presidência) para se livrar de futuras complicações. Mas não valeu nesse caso. Foram atrás dele achando que tinha coisas escondidas em casa. Só acharam ele, a filha e muitos livros, além do aconchego familiar, do reduto inviolável do lar. O arrancaram de lá assim mesmo, não satisfeitos com a rasteira que levaram. Mas deixaram feridos os filhos, vizinhos, o coração de Márcio e a presunção de inocência.
Filmava tudo isso às escâncaras uma equipe da Globo que já estava na porta, como sempre, antes mesmo dos policiais chegarem!
Sua história sabemos porque ele está rodeado de amigos, colegas e profissionais que o estimam e sabem quem ele é. Mas quantos outros, mulheres e homens incógnitos, estão por aí afora sendo levados diariamente aos camburões para serem esquecidos nas masmorras da insanidade, truculência, medievalismo, sem qualquer lei e ordem.
Afinal, para que servem leis se não se encontram policiais, promotores e juízes que as respeitem em nome do povo, pelo povo e para o povo?
Quando é que nosso país vai sair das fraldas sujas da prepotência, discriminação, elitismo e violência branca?
Como diriam nossos pais, estamos num mato sem cachorro, embora hajam muitos cachorros soltos por aí. Levaram Márcio por conta da famigerada, oportunista e sórdida aplicação tupiniquim da teoria do domínio do fato.
Basta que alguém trabalhe em qualquer hierarquia em posição de mando ou de serviço direto ao mando para que seja considerado culpado, apenas por suspeita, convicção judicial, ou qualquer power-point da vida que mostre qualquer esquema estapafúrdio de causa e efeito saído de mente doentia.
Tudo isso começou com a aplicação errada, fraudulenta, suspeita e oportunista da teoria, desenvolvida pelo jurista alemão Claus Roxin**, por Joaquim Barbosa no julgamento do processo conhecido por mensalão.
De lá para cá a justiça brasileira abraçou o absurdo jurídico, tal como aplicado aqui, para incriminar e condenar muitos outros numa penada, sem nenhuma prova palpável, concreta, objetiva. Instalou-se a presunção de culpa, afundou-se o preceito constitucional da presunção de inocência.
Pois no caso de Márcio, vale somente o domínio da foto. Basta olhá-la para ver uma pessoa visualmente sem tiques de banditismo, malandragem, golpismo, safadeza, pilantragem, especialidades de muitos representantes políticos nacionais. As provas? Seu passado, se quiserem, sua ficha corrida, tudo isso reforça, o domínio do fato, quando todos os colegas, amigos e profissionais, representados pelo Sindicato, servem de provas suficientes e atestam a honradez de personalidade, comportamento e atitude do presumido culpado.
Além do fato dele mesmo já ter ido muito antes ao Ministério Público, espontaneamente, dar seu depoimento sobre todo o caso.
Os tempos estão sombrios, mas com as mentes claras temos muito o que fazer para desfazer manchas fascistas se espalhando na sociedade brasileira.
Márcio é um dos atingidos por esse vírus pestilento. Juntemo-nos aos jornalistas e demais democratas para combater e livrar essa doença impiedosa, maligna e contagiosa. Salvemo-nos o país antes que o vírus venha também atrás de nós!
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(*) José Carlos Peliano é economista, poeta e escritor
**https://leonardoboff.wordpress.com/2012/11/02/dominio-do-fato-e-fato-do-dominio/
Criado em 2018-04-22 16:36:41
Luis Turiba (*) –
Trabalho duro, exercícios, livros, poesia e música de qualidade.
Cada um de nós, à sua maneira, leva a quarentena individual e intransferível ao porto mais seguro possível, sem perder a ternura, jamais.
Ficar fechadinho em casa significa também cuidar da casa - todos somos “donas” de casa – agora e para sempre. Ótima oportunidade para crescermos.
Entre tantos trabalhos novos, este - cuidar do espaço doméstico para enfrentar juntos a pandemia - talvez seja um dos mais nobres, grandioso e até divino.
Luca Andrade, minha namorada/companheira, é taurina e excelente cozinheira, tem o dom dos bons temperos. Todo dia, ao seu lado, aprendo algo novo na cozinha. Outro dia fiz o almoço completo sozinho. Que vitória!
Varro casa, lavo pratos, panelas, copos e garfos. Passo pano no chão. Estendo roupa. Cato lixo. Passeio com a Mel – uma ronda na rua deserta - e faço exercício diário na laje, tomando muito sol e caminhando por quilômetros num pequeno quadrado, exercitando pernas, tórax e braços. Um bom exercício de ioga para a pandemia é engolir O Sol, equilibrando-o na ponta da língua e deixando-o escorrer garganta abaixo, passando pela área do coração, pulmões, timo, até chegar no final do esôfago e distribuí-lo pelo estômago, fígado, baço, etc, etc, etc.
A cabeça vai longe, o corpo agradece.
Nas horas vagas, leio livros de poesia e clássicos brasileiros – estou atravessando “Os Sertões“ com toda sua beleza narrativa. Escrevo diariamente. Componho novas canções com meu parceiro Fernandinho e postamos na Rádio Quarentena Musical, via Internet.
Ligo pros amigxs, filhxs, netxs pra trocar ideias. Estou vivo e ligado ao planeta Terra. Leio jornais, vejo telejornais e notícias na internet para acompanhar as crises politicas do governo coronabozo.
Diariamente, posto no mínimo umas cinco piadinhas safadas na rede. Fake News, jamais.
No entanto, uma das mais saborosas aventuras desses tempos tenebrosos, tem sido celebrar o que nos resta de vida.
De tempo em tempo, abrimos um bom tinto (como na foto, abaixo) chileno, português ou sul-africano, preparamos um bandejão com frios, queijos, pão integral, delícias e belisquetes leves. Brindamos e colocamos um disco (CD) para ouvir, cantar, dançar e papear.

Entre tantas revisitas musicais, três se destacaram pelo poder histórico e estético de cada um desses projetos.
Um deles, aliás, teve uma abrangência planetária no universo musical do século XX. Refiro-me ao chamado “melhor disco de todos os tempos” - Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, clássico dos Beatles - lançado em 1º de junho de 1967.
Seguimos a recomendação dos musicólogos. Bebemos taças de tinto para relembrar o álbum do quarteto de Liverpool, ouvindo na íntegra, sem pular nenhuma faixa - os quase 40 minutos de música.
Neste som encontramos a pulsação do melhor rock lisérgico com a orquestração e os arranjos do maestro e produtor George Martin, conhecido como ‘o quinto Beatles’, peça fundamental na confecção do histórico disco.
Em outra noite o banquete musical na quarentena foi a re-audição do disco-manifesto “Tropicália” com gravações e participações dos tropicalistas de primeira linha: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Torquato Neto, Gal Costa, Nara Leão, Os Mutantes, Capinam.
Duas semelhanças entre o “Sgt. Pepper” e o “Tropicália”, ambos do final dos anos 60: 1 - capas geniais que retratavam momentos de transcendência da época; e 2 - os arranjos orquestrados pelo maestro paulistano Rogerio Druprat, assim como os de Martin, trazia para o rock popular uma sofisticação clássica e requintada.

Anteontem ouvimos outro clássico, o refinado “Clube da Esquina”, movimento musical brasileiro surgido também no final dos anos 60, onde jovens músicos de Belo Horizonte fundiam inovações trazidas pela Bossa Nova a elementos do jazz, do rock e principalmente dos Beatles, além da música folclórica dos negros mineiros com recursos da música erudita e hispânica.
Deste disco destacaram-se Milton Nascimento, os irmãos Borges (Marilton, Márcio e Lô) e o pianista Wagner Tiso, principal arranjador – mais um maestro dos bons na parada. A este grupo juntaram-se musicalmente Flávio Venturini, Tavinho Moura, Toinho Horta e Bete Guedes, além dos letristas Fernando Brant, Ronaldo Bastos e Murilo Antunes.
Três discos, três lembranças, três universos musicais. “Coisas que a gente se esquece de dizer. Frases que o vento vem às vezes me lembrar."
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(*) Luis Turiba, poeta e jornalista.
Criado em 2020-04-06 02:38:51
Romário Schettino -
O julgamento do habeas corpus de Lula escancarou não só a divisão no Supremo Tribunal Federal (STF), como deixou claro que o tribunal está, mais uma vez, sujeito a pressões da mídia (TV Globo, especialmente), do poder econômico paulista e dos políticos golpistas que se apoderaram do poder.
O voto da ministra Rosa Weber impressiona pela incoerência intrínseca: “Vou deixar de seguir o meu entendimento (contra a prisão após condenação em segundo grau) para seguir o entendimento da maioria (atual a favor da prisão), que só será maioria porque eu vou deixar de seguir o meu entendimento”. Ela disse que vota pelo respeito à "colegialidade", seja lá o que isso for.
Confuso? Não, claríssimo. Rosa, que não é de Luxemburgo, longe disso, coitada, ficará no canto obscuro da história com esse voto Frankenstein. De nada valerão os elogios dos comentaristas da TV Globo, que na madrugada de hoje mostravam satisfação com o resultado de suas manobras “jornalísticas”.
O ministro Marco Aurélio acusou o golpe das duas ministras, Rosa e Carmém Lúcia, e questionou o andamento do julgamento. Lógico, se há dúvidas constitucionais quanto à regra da prisão em segundo grau, questão preliminar, por que não votar antes essa tese, com a qual está de acordo Rosa Weber? A toda poderosa presidente deu um jeitinho de “apequenar o STF”.
Carmém Lúcia preferiu ceder às pressões e manobrou para votar o habeas corpus sabendo que poderia entregar a cabeça de Lula aos golpistas do Judiciário, do Ministério Público, da grande imprensa, dos corruptos do governo Temer e dos empresários idem.
Pergunta-se quanto custará essa decisão à democracia, ao processo eleitoral e ao povo brasileiro? A continuidade do golpe com Supremo e com tudo avança a passos largos. Tudo isso para tirar Lula do páreo eleitoral. Até ameaça de golpe militar foi usada contra a possibilidade de conceder o habeas corpus. Rosa Weber votou com uma baioneta em seu pescoço.
Mas o PT não está disposto a abrir mão do direito de ter Lula candidato. Mesmo preso, o que poderá acontecer nos próximos dias, Lula continuará candidato porque quem decide isso é o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para onde irá o seu pedido de inscrição. Os advogados de Lula vão esgotar todos os recursos possíveis: embargos, dos embargos, dos embargos. É um direito constitucional.
Quanto menor for o tempo entre a decisão pelo impedimento de Lula e o dia da eleição em primeiro turno, melhor será para o candidato ungido por ele. E assim, Lula poderá escolher entre Haddad (PT), Ciro Gomes (PDT), Manuela D´Ávila (PCdoB) e Guilherme Boulos (PSol). Ou uma composição envolvendo todos eles.
A outra hipótese é Lula conseguir que o STF vote a tese da prisão em segundo grau, saia da cadeia e entre em campanha abertamente. Mas é preciso esperar mais um pouco. Ainda é cedo, amor.
Criado em 2018-04-05 15:40:00
Angélica Torres -
Nas últimas semanas, o ódio viralizou na pauta do jornalismo brasileiro, como material de reflexão por intelectuais de diferentes áreas.
Pude, com ainda mais clareza, verificar a obsessão que esse sentimento incita, no dia da campanha nacional "Vista-se de vermelho", promovida após a prisão de Lula, mas também em respostas a um texto, encerrado com a seguinte frase: quero é a fórmula do antídoto ao ódio, isso sim.
Pronto. Interpretaram que eu me proclamava uma odiosa cidadã de esquerda necessitada desse antídoto e reagiram como se a frase fosse uma provocação. Considerei então tratar o tema pelo lado de cá, já que os especialistas têm analisado o ódio pelo lado dos que o tornaram presença cotidiana em nossas vidas, durante e pós-golpe oficializado.
Ponho, assim, o pingo nos iis: golpistas me despertam estupefação, horror, repulsa, indignação, rebeldia, desprezo e todos os sinônimos destes vocábulos que se possam encontrar no Aurélio e no Houaiss e correlatos no Dicionário Analógico de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo.
No entanto, ódio, este sentimento de alta periculosidade, de frequência vibracional zero, não alimento por ninguém ̶ nem por Temer e Moro, Bolsonaro e FHC, Cármen Lúcia e Marinhos, colegas comentaristas capachos da mídia oligopólica e patos selvagens generalizados. Não prego cadeia a eles. Não farejo adversários com expressão de pitbull e jogo de corpo pronto para o ataque.
Também não desejo que morram. Que sejam jogados de aeronaves em voo. Que sejam linchados por seu egoísmo, desrespeito, insensibilidade para com os menos favorecidos, e por seus crimes de lesa-pátria ̶ até porque deverão resgatar seus carmas em vida, ninguém precisa se preocupar quanto a isso.
Desejo, sim, que percam seu todo-pretenso poder na guerra travada contra eles; que peguem suas trouxas com a rapinagem feita e desapareçam; que vão para seus paraísos fiscais, ou se preferirem para o inferno de onde vieram, e nos deixem em paz, que reconstruiremos o país, felizes da vida.
Mas não saio ofendendo e agredindo pato-lógicos, seja em protestos ou em quaisquer locais públicos. Ninguém, aliás, entre os manifestantes e ativistas de esquerda se comporta assim. A posição é de defesa, é amorosa ao Lula ̶ que é exemplo do cara gregário, conciliador, do afeto, do abraço, de jararaca-pet; era de defesa à Dilma, é de solidariedade ao PT, pela injustiça que vêm sofrendo há anos.
No máximo, gritam palavras de ordem e se ostentam cartazes e faixas com frases de defesa. Fazem virtualmente piadas, troças, ironias, poemas, artes inteligentes contra suas maldades. Discutem pletoricamente com amigos do lado adversário. E, nos grupos do mesmo solidário lado, esgotam-se os estoques de impropérios, que, aliás, lhes cabem como luvas de boxe.
Entre os que admitem odiá-los, não se conhece quem saia vociferando e armado para o ataque, para a vingança com as mãos. Não se está em posição ofensiva. Não somos salteadores, não tomamos nem destruímos nada de ninguém. Queremos é que o bem-estar social alcance os que não o têm e nunca tiveram, que os direitos de todos sejam respeitados.
Devia ser claro que tendo a fórmula do antídoto eu amaria poder espalhá-la aos odiosos. Quem odeia não sonha com antídoto ao ódio. Mas desentenderam, talvez, porque a elite e a classe média que se crê elite não costumam se enxergar e reconhecer seus próprios malévolos sentimentos.
Não parecem se tocar até hoje, por exemplo, que Cristo sofreu perseguição, tortura e morte bárbaras por pregar amor e paz. Ainda não lhes caiu a ficha de quantos notórios homens e mulheres de todos os tempos perderam a vida em defesa da humanidade. De que serve então a História senão de lições acumuladas, mas permanentemente negligenciadas?
Sei lá se algum gênio descobrirá o antídoto ao ódio num dia perdido no tempo. Se os da área médica se decidirão pela necessária busca da cura da psicopatia. Se Paulo apóstolo resolve num repente baixar sobre a cegueira dos manipulados.
Mas ao menos aspirar consciente e coletivamente por essas façanhas não faz mal a ninguém. Pelo contrário. Quem sabe ajude a dar um empurrãozinho na utopia, apesar da babel dos ferozes implacáveis.
Criado em 2018-04-15 03:45:18