Bonus pages

  • Como Apoiar
  • Contato

Main Menu

  • Capa
  • Artigos
  • Política
  • Cultura
  • Cidades
  • Entrevistas
  • Colunas
  • Crônicas & Agudas
  • Vídeos
  • Como Apoiar
BRASILIÁRIOS.COM BRASILIÁRIOS.COM BRASILIÁRIOS.COM
  • Capa
  • Artigos
  • Política
  • Cultura
  • Cidades
  • Entrevistas
  • Colunas
  • Crônicas & Agudas
  • Vídeos
  • Como Apoiar
Pesquisar por:
Pesquisar somente:

Total: 1890 results found.

Página 60 de 95

Boaventura escreve: da pandemia à utopia

Após o lançamento do ensaio A cruel pedagogia do vírus, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos traz ao leitor uma obra que propõe pensar a sociedade pós-pandemia, sua complexidade, os problemas que a antecedem e possíveis futuros. Como um diagnóstico crítico do presente, Boaventura aponta que as desigualdades e descriminações sociais já tão presentes nas sociedades contemporâneas, se intensificaram ainda mais em um contexto pandêmico.

Com atenção especial ao modelo econômico-social, ao papel da ciência e do Estado na proteção dos mais necessitados, o autor de O futuro começa agora: da pandemia à utopia (Editora Boitempo) propõe que se pense em alternativas econômicas, políticas, culturais e sociais que apontem para um novo modelo civilizatório de sociedade.

“O novo século começou, em 2020, com a pandemia, e aconteça o que acontecer. É, no entanto, um começo diferente dos anteriores. Se for apenas o começo de um século de pandemia intermitente, haverá nele algo de fúnebre e crepuscular, o início de um fim. Por outro lado, pode ser também o começo de uma nova época, de um novo modelo civilizacional”, afirma Boaventura.

Trecho do livro

“No domínio das classificações sociais, o cânone monocultural é dicotômico. As dicotomias expressam (e ocultam) hierarquias que aparentemente não podem questionar-se por resultar de supostas “leis da natureza”. Uma das dicotomias que separa e hierarquiza realidades de forma inelutável é a dicotomia entre humanidade e natureza. A pandemia do coronavírus abriu as veias dessa dicotomia para mostrar que a humanidade não pode ser concebida sem a natureza (não são, portanto, incomensuráveis), nem a natureza pode ser entendida como tão inferior que possamos dispor livremente dela. Começa a ser consensual que a pandemia e a recorrência de pandemias são o produto da acumulação de interferências abusivas dos seres humanas nos ritmos dos ciclos vitais da natureza. Esses ciclos englobam-nos a nós mesmos e, nessa medida, as pandemias são em parte auto-infligidas”.

O autor

Boaventura de Sousa Santos nasceu em Coimbra, em 15 de novembro de 1940. É doutor em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale (1973), além de professor catedrático jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e distinguished legal scholar da Universidade de Wisconsin-Madison.

Foi também global legal scholar da Universidade de Warwick e professor visitante do Birkbeck College da Universidade de Londres. É diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e coordenador científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa.

Dirige atualmente o projeto de investigação Alice – Espelhos estranhos, lições imprevistas: definindo para a Europa um novo modo de partilhar as experiências o mundo, financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC), um dos mais prestigiados e competitivos financiamentos internacionais para a investigação científica de excelência em espaço europeu.

Autor reconhecido e premiado em diversas partes do mundo, tem escrito e publicado extensivamente nas áreas de sociologia do direito, sociologia política, epistemologia e estudos pós-coloniais, sobre movimentos sociais, globalização, democracia participativa, reforma do Estado e direitos humanos, além de fazer trabalho de campo em Portugal, no Brasil, na Colômbia, em Moçambique, em Angola, em Cabo Verde, na Bolívia e no Equador.

Seus textos encontram-se traduzidos em espanhol, inglês, italiano, francês, alemão e chinês. De sua vasta obra, destacamos: Um discurso sobre as ciências (1988), Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade (1994), Reinventar a democracia (1998), Democracia e participação: o caso do orçamento participativo de Porto Alegre (2002), Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos (2013), A cor do tempo quando foge: uma história do presente – crônicas 1986-2013 (2014), O direito dos oprimidos (2014) e A justiça popular em Cabo Verde (2015).
________________
Ficha técnica:
Título
: O futuro começa agora: da pandemia à utopia
Autor: Boaventura de Sousa Santos
Apresentação: Naomar de Almeida-Filho
Orelha: Ruy Braga
Capa: Mika Matsuzake, sobre pintura de Mário Vitória
Páginas: 400
Preço: R$ 77
Preço e-book: R$ 58
Editora: Boitempo/2021
Disponível a partir de: 19 de janeiro de 2021

 

 

Criado em 2021-01-16 02:25:38

Lançamento do livro: “Argentina Sacudida – Cristina Kirchner”

Noite de autógrafos no lançamento do livro Argentina Sacudida - Cristina Kirchner, de Francisco Leite Filho, na próxima terça-feira, 10/9, a partir das 19h, no restaurante Carpe Diem, Brasília (104 Sul).

Neste breve perfil da líder peronista Cristina Kirchner, publicado pela Editora OKA, em papel e e-book, o autor refaz as peripécias da complexa política da Argentina, marcada pela dramática derrota do presidente conservador Maurício Macri, nas Primárias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias (PASO).

Quando tudo levava a crer no fortalecimento da direita, principalmente depois da vitória de Jair Bolsonaro, em 2018, no Brasil, de repente, ocorre esta explosão eleitoral, de efeito (ou contágio) direto, tanto em termos nacionais, como em toda a América Latina. Neste insight de 34 capítulos, condensados em 240 páginas, FC Leite Filho, jornalista e youtuber, refaz o penoso esforço de Cristina Kirchner em reunir os cacos do peronismo (agora aparentemente unificado), em que teria atuado o próprio Papa Francisco. O livro dedica-se ainda nos três agitados períodos kirchneristas na Casa Rosada (2003-2015).

As PASO ocorreram num momento em que quase todos os ministros da ex-presidente, antecessora de Macri, estavam presos por pressão do governo (através de denúncias de corrupção, nem sempre transparentes), tendo então de votar na cadeia. Ela mesma só tinha se safado por causa do mandato de senadora. Mas, ali, já havia reconciliado a ala sindicalista de seu movimento, que lhe impingira cinco greves gerais e uma miríade de distúrbios e saques, que teriam derrubado qualquer governo, não fosse a mano dura da jefa. Daí para conquistar a ala conservadora e mesmo direitista, como a integrada por governadores e caciques interioranos, foi um salto.

Aqui, reside toda a peculiaridade do peronismo, que o autor tenta explicar em Argentina Sacudida: "Trata-se de um movimento multiforme, que extrapola o âmbito partidário, e de atuação direta no que os argentinos chamam territorialidade - inserção nos bairros, campo, fábricas, serviço público, redes sociais e sindicatos altamente equipados".

Mas o que leva essa irrequieta corrente política a rebelar-se contra seu próprio governo, e, como foi no caso de Maurício Macri, ter parcelas importantes apoiando a candidatura adversária, em 2015? 

Este é outro desafio a que se propõe FC Leite Filho, ao traçar as origens do personagem a partir de La Plata, a 60 quilômetros de Buenos Aires (e não seu domicílio eleitoral, que é Santa Cruz, quase no fim da Patagônia).

Cristina Fernández de Kirchner, este seu nome político, conheceu o marido e antecessor, o ex-presidente pinguim Néstor Kirchner (2003-2008), na Universidad de La Plata, moderna cidade do mesmo nome. Lá, eles formaram uma duo político, que, tendo de fugir para Santa Cruz, a terra de Néstor, para se esconder da polícia, primeiro foram ganhar dinheiro e depois, quando o horizonte desanuviou-se, formaram uma base política local, nos moldes ainda bem conservadores.

Em seguida, Cristina que já então havia ajudado o marido a eleger-se governador da província, foi eleita senadora, projetando-se no plano nacional com um combate ferrenho ao governo nacional de Carlos Menem, aliás, um peronista, só que de direita, e a defesa de um modelo de desenvolvimento, com inclusão e soberania.

O autor vai encontrar Cristina, nos seus 18 anos de idade, em La Plata, formando grupos de estudo e núcleos peronistas, num ambiente irrespirável, onde viu muitos companheiros serem sequestrados e depois assasinados. Seu pai, Eduardo Fernández, assustou-se e queria mandá-la para o exterior, mas, como já estava casada, ela achou melhor recolher os flaps, indo embora com o marido para a terra dele. Mas, antes, faria seu debut de fogo, comparecendo, com outros dois milhões de pessoas, em 20 de junho de 1973, ao tumultuado e sangrento retorno de Perón a Buenos Aires, depois de 18 anos de exílio.

No aeroporto de Ezeiza, presenciou, sem se chamuscar, a tragédia do conflito armado entre militantes de esquerda e de direita, que resultou na morte de quase 300 pessoas e acabou desviando o voo de Perón, que vinha da Espanha, para uma base militar.

Francisco C. Leite Filho também escreveu Brizola Tinha Razão, (1987), El Caudillo Leoneo Brizola (2008) e Quem tem medo de Hugo Chávez? (2012).

Criado em 2019-09-08 17:22:14

Villa-Lobos, gênio e... ponto!

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Na última quinta-feira, 5/3, mal rompia o Sol no horizonte e eu já estava zapeando a mensagem de feliz aniversário ao Villa-Lobos. 133 anos! Minutos depois o amigo L. Monteiro me respondeu com um vídeo da Dale Kavanagh com a transcrição para violão solo do segundo movimento do Concerto para Violão e Orquestra. “É o Brasil condensado em oito minutos”, me disse o amigo, violonista e musicólogo. Foi a dica para eu passar a quinta-feira e parte do sábado numa maratona do Villa-Lobos, binge watching e binge listening, como se diz quando alguém fica pendurado durante horas numa série da Netflix.  

Primeiro, ouvi o Concerto para Violão inteiro, com orquestra e tudo. Depois, sei lá por que razão, a Valsa da Dor, que me fez recordar o excelente filme do Zelito Viana, com o Marcos Palmeira (Villa novo) e o Antônio Fagundes (Villa velho), sob a direção musical do maestro Sílvio Barbato, diretor artístico da Orquestra do Teatro Nacional Cláudio Santoro, morto num acidente aéreo em 2009, ano do cinquentenário de morte do Villa.

Em seguida, ouvi as peças para piano As Três Marias, Ondulando, Impressões Seresteiras, as Cirandinhas e o Rudepoema (dedicado ao amigo pianista Arthur Rubinstein). No meio, as Cirandas, “obras tão singulares e necessárias quanto os Prelúdios de Chopin”, no dizer do compositor Willy Corrêa de Oliveira.

Depois dei play no Noneto: Uai, uá, guru, guru, guru! Panepê! Zizambango! Dango! Zangorangotango! Kkkkkkk, esse Villa e seus berros primais, suas polirritmias! 

Tive que tomar um bom fôlego antes de pular para as cordas do Fábio Zanon, interpretando os 12 Estudos para Violão e os cinco Prelúdios. As duas obras são a “origem harmônica da Bossa Nova”, segundo o maestro Osvaldo Colarusso.

Ainda na quinta, acredite quem quiser, também escutei as nove Bachianas Brasileiras. Mais de três horas – sem contar as paradas pra beber água e fazer xixi – de maravilhas, saudades, tristezas, efusões de alegrias, barulhos da roça, apitos de trem, mugidos de boi, tropeções de gente caminhando pela vida afora. Mais um retrato do Brasil.    

Paisagens de notas - Deixei para o sábado os choros (ouvi o 10º, Rasga Coração), os quartetos para cordas (o 11º, o 12º e o 17º, todos da “fase madura”) e as sinfonias, das quais ouvi duas, a mais popular, a de nº 6, Sobre a Linha das Montanhas, e a 7ª, Odisseia da Paz.

A sexta sinfonia, inspirada no perfil da Serra dos Órgãos, do Corcovado e do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro. Isso mesmo! Se para o Galileu a natureza está escrita em linguagem matemática, para o Villa as paisagens foram desenhadas com notas musicais, como também achava o seu discípulo Tom Jobim. A sétima sinfonia, composta logo depois da tomada de Berlim pelas tropas da União Soviética, que pôs fim à II Guerra na Europa. Ambas da fase madura (que vai da 6ª à 12ª), essas sinfonias, nos diz Fábio Zanon, testemunham o “esforço consciente”’ de Villa-Lobos “de inventar um idioma clássico especificamente brasileiro, mais do que ser passivamente pautado por um folclorismo que já se tornava cada vez mais ultrapassado em face das rápidas mudanças na sociedade brasileira nos anos 1940”.

Essa maratona, pessoal, foi o meu jeito de comemorar o Villa-Lobos este ano. Como ele compôs mais de 2.000 peças, tenho material suficiente para várias maratonas ao longo dos próximos 27 anos, antes de morrer!

Villa, Retrato do Brasil - Há 11 anos, por ocasião do cinquentenário de sua morte, escrevi um longo perfil dele para a revista Retrato do Brasil. Ali mencionei o desgosto que por ele nutria o pessoal da “Música Nova” (a turma do “novo”, do politonalismo, do atonalismo, do experimentalismo, do serialismo, dos processos fonomecânicos e eletroacústicos em geral) por causa de seus empréstimos regionais, rurais, étnicos e folclóricos, sinais de “atraso e reação”. Em contraponto, citei trechos da autocrítica do Willy Corrêa de Oliveira, um dos mais importantes “músicos novos”, publicada em forma de ensaio naquele mesmo ano no Estadão.

Anotei que o ensaio de Willy “é relevante para a compreensão de Villa-Lobos pelo julgamento que faz de suas opções técnicas e estéticas, que, de maneira geral, subvertem os postulados gramaticais e sintáticos considerados ‘corretos’ pelos cultores normativos da chamada ‘grande música’. Villa-Lobos, diz o professor, ‘foi grande cultor de melancolias, (...) de delicadezas, de grosserias, de cantos populares, de cantos impopulares, de fanfarras, de invenções supremas, de banalidades insuportáveis, imponderáveis, carioca e estrangeiro (da Terra do Nunca). Escrever sobre Villa-Lobos é fazer rol de exageros e o único atenuante está em que nunca se exagera o bastante que alcance a magnitude do enredo de sua complexidade. Contradições adoidadas, geniais’.

“Brasileiro” desde quando? - No artigo, tratei também da interminável polêmica sobre quando o Villa-Lobos passou a compor “música brasileira”, após a sua fase impressionista marcada pela influência de Debussy, se foi a partir da Semana de 22, ou se depois de sua primeira viagem a Paris, em 1923, quando tomou um choque ao ouvir a Sagração da Primavera de Stravinsky. Ao voltar de Paris, em setembro de 1924, ele mesmo disse que ouvir a Sagração foi a maior emoção de sua vida, em conversa com Manuel Bandeira, registrada na revista Ariel.

Perfilam a primeira corrente o biógrafo do Villa, Vasco Mariz, e o compositor e professor da USP José Miguel Wisnik. Na segunda está o antropólogo social Paulo Renato Guérios, da Universidade Federal do Paraná, de quem tomei emprestados muitos argumentos para escrever o meu artigo de 2009. Infelizmente, só tempos depois tomei conhecimento de uma terceira posição, a do sociólogo André Álcman Oliveira Damasceno, apresentada na dissertação de mestrado que apresentou em 2007 na Unesp, e retomada em 2014 na tese de doutorado.

Segundo Damasceno, Villa-Lobos se assume “brasileiro” tanto antes como depois da Semana de 22 e da primeira viagem a Paris, num interessante processo de “negociações simbólicas na formação da moderna música brasileira”.

Negociações simbólicas - Desde as primeiras apresentações, diz Damasceno, teria havido em sua música a negociação constante de uma estética nacional, nos moldes modernistas, em diálogo intenso com uma estética internacional, primeiro com Debussy e depois com Stravinsky.

“Essa negociação – diz Damasceno – ocorria da mesma forma na escolha do repertório: quanto mais tradicional o público, mais convencional era sua música e vice-versa. Seu grande trunfo para os ávidos por uma inovação estética em termos nacionais era Danças Características Africanas (1914-1915), executada regularmente desde 1915. As Danças foram apresentadas ao pianista Arthur Rubinstein, em 1918. Esta obra dialogava com a música popular urbana devido às leves síncopes incorporadas. Ao mesmo tempo, Villa-Lobos mesclava músicas bem próximas ao romantismo tardio de Saint-Saëns, exemplificado na semelhança de O cisne (da sinfonia O carnaval dos animais, de 1886) com a peça O canto do cisne negro (1915), de Villa-Lobos”.

“Dessa forma, o que ocorreu em 1923 não foi uma mudança de percurso, como diz Guérios (…), mas sim um aprofundamento de tal negociação em prol do nacional com as possibilidades rítmicas e harmônicas abertas pelo compositor da Sagração da Primavera (1913), respectivamente, no uso da polirritmia, da síncope e da politonalidade”, escreve o sociólogo.

Angústia estética - Damasceno acrescenta que “na pesquisa de mestrado apontamos uma angústia estética de Villa-Lobos que tenta a todo custo afirmar-se como um artista autenticamente nacional. Essa angústia gerou uma desleitura estética das fontes stravinskyanas e debussyanas que possui certos parâmetros com a teoria da angústia da influência de Harold Bloom (crítico literário americano), que indica processos de desleitura poética de um poeta sob seu predecessor, como Shakespeare fizera em relação a Marlowe. Conforme afirmamos, essa desleitura só fora possível devido à dupla socialização de Villa-Lobos entre o meio erudito e a música popular urbana, especialmente o choro”.

Um artigo resumindo a dissertação de mestrado de Damasceno e a sua tese de doutorado estão disponíveis na Internet, assim como o artigo de Paulo Renato Guérios, “Heitor Villa-Lobos e o ambiente artístico parisiense: convertendo-se em um músico brasileiro”.

No meu artigo, eu também discuti o que teria sido a suposta acomodação de Villa-Lobos, ao “trocar” as ousadias inventivas dos 12 Estudos para Violão, por exemplo, pelo neoclassicismo dos Prelúdios ou das Bachianas, como pensa, no caso das Bachianas, o compositor Lorenzo Mammi. Como se, rebati, esse tipo de “acomodação” também não tivesse acontecido com Stravinsky, “talvez porque a busca frenética pelo ‘novo’ também se esgote”. Lasquei ali: “As Bachianas correspondem à assinatura universal de Villa-Lobos. Qualquer cantora lírica que se preze tem no repertório as Bachianas nº 5, chame-se Reneé Fleming ou Anna Moffo, Anna Netrebko, Victoria de los Angeles, Bidu Sayão, Arleen Auger, Kathleen Battle, Josira Salles e tantas outras. Ponto.”

Conjunções adversativas - Uma mania nacional sempre foi a de julgar Villa-Lobos com um “mas”, um “contudo” ou um “todavia”. “Villa foi genial mas cometia muitos erros; Villa foi genial mas era instintivo, não dominava a técnica; Villa foi genial e por aí vai...”. Semana passada mesmo, a Folha de S. Paulo publicou matéria da repórter Camila Fresca questionando se Villa-Lobos foi instrumentista e regente tão genial quanto compositor. A repórter ouviu alguns de seus defensores, mas bem que podia ter recontado a historinha que se passou quando o genialíssimo violonista espanhol Andrés Segovia, a quem Villa-Lobos dedicou os 12 Estudos para Violão, disse-lhe que determinada passagem era impossível de ser executada. Ah, é, é! – interrompeu o Villa num rompante, arrebatando o instrumento das mãos de Segovia para ensinar-lhe como tocar a tal passagem.

Também o maestro Osvaldo Colarusso defende a excelência instrumental do Villa. Ao avaliar que ele produziu a mais importante coleção de obras originalmente escritas para o violão, Colarusso diz que só mesmo um compositor que dominasse o instrumento como ele poderia alcançar tal façanha.

Gênio consumado – A propósito do mesmo assunto, eu mencionei no artigo a opinião do crítico Luiz Paulo Horta sobre a excelência das composições de Villa-Lobos. Horta afirma que os quartetos para cordas constituem “a mais rigorosa das formas musicais, aquela que não admite ‘enchimentos’, onde o artista não tem como disfarçar eventuais falhas técnicas ou de inspiração”. Quer dizer, são obras de artistas consumados. Daí Horta faz uma conta para atestar as habilidades do Villa: durante o século XX, o húngaro Bela Bartók escreveu seis quartetos; o alemão Paul Hindemith, sete; o russo Serguei Prokofiev, dois; e o russo Igor Stravinsky, nenhum. Ora, sublinhou Horta, Villa-Lobos compôs 17, seis até 1938 e os demais a partir de 1942. Villa morreu em 1959, antes de concluir o 18º. Foi um gênio consumado. Ponto! 

Gênio musical, sem qualquer dúvida, com uma personalidade complexa, cheia de contradições. No artigo eu registrei que uma de suas grandes contradições, essa de cunho político, foi a sua deserção da República Velha para aderir à Revolução de 30. Antes, ele havia sido patrocinado por famílias da elite paulistana, os Guinle, os Penteado e os Prado, que bancaram parte das despesas de suas viagens a Paris em 1923 e 1927. Depois de 30, tornou-se funcionário do governo. Eis o que escrevi no meu artigo: “A volta de Villa-Lobos ao Brasil coincidiu com a queda da República Velha e a vitória da Revolução de 1930, sob o comando de Getúlio Vargas. Em São Paulo, o músico caiu nas graças do interventor João Alberto, um pianista amador. Em 1931, organizou a Caravana de Arte Brasileira,  que percorreu mais de 50 cidades do interior paulista, com a participação de grandes artistas, como os pianistas João de Souza Lima, sua esposa, Lucília, Guiomar Novaes e Antonieta Rudge. Começou a organizar em São Paulo as grandes concentrações do Canto Orfeônico e, como resultado, foi dirigir a Superintendência de Educação Musical e Artística (Sema) do Ministério da Educação”.

“Trilha do Estado Novo” - Começa a se formar nessa época, provavelmente entre os paulistanos da República Velha derrotados por Getúlio em 1930 e depois em 1932, a acusação de Villa-Lobos ter composto a “trilha sonora do Estado Novo”. Hoje há muitos elementos para demonstrar que essa leitura é rasa, incompleta e até idiota. Ao contrário, o que há são evidências de que, em vez de ter sido usado pela ditadura de Getúlio, ele, Villa-Lobos, é que mais a usou para o seus propósitos, isto é, difundir a música entre as massas.

No artigo eu mencionei o mea-culpa feito ao jornal Valor Econômico pelo crítico musical mais mal-humorado do País, José Ramos Tinhorão, arrependido de ter chamado o compositor de “maestro da ditadura”, no Jornal do Brasil, nos anos 1970. “Claro que ele foi um funcionário da ditadura (...). Mas cheguei à conclusão de que Villa-Lobos não colaborou com a ditadura, ele a usou”, disse Tinhorão.

Leio agora que numa entrevista à Folha de S. Paulo de 5 de novembro de 2009, Tinhorão relembrou o dia (7 de setembro de 1940) em que assistiu Villa-Lobos regendo o coral de 40 mil pessoas no campo do Vasco da Gama, no Rio. “De repente, chegou o maestro com sua cabeleira, subiu num pódio de madeira armado no meio do campo. A um sinal dele, o estádio inteiro começou a cantar. Eu me lembro de que eram canções que falavam da natureza, do Brasil. Era uma demonstração de massa, um conjunto de coros formando um imenso coral. Fazia parte da política cultural do Estado [Novo], pelo qual Villa-Lobos gostosamente se deixou usar, por causa da preocupação que tinha em divulgar a música. Ele queria que todo mundo se interessasse por música. (…) Era um jogo duplo: ele se aproveitou do fato de o governo ter interesse nisso [a música], e o governo se aproveitou do fato de ele ser o grande nome que poderia ser usado para essa política [cultural]”.

Programa pedagógico - Ainda com relação à, digamos, razão instrumental de Villa-Lobos na relação com o governo Getúlio, eu escrevi que ele estava convencido “de que o povo pode ser educado e atingir patamar superior de civilização por meio da música”. Ele achava “que os brasileiros não estavam preparados para ouvir Bach, suprassumo da civilização ocidental [em sua opinião e na opinião de seu amigo Mário de Andrade]. O remédio seria então prepará-los por meio da educação musical. Já em 1930, começou a compor as Bachianas Brasileiras, ‘transfigurando’ temas do folclore nacional na linguagem do mestre de  Leipzig, e a transcrever para o piano e o violoncelo peças do teclado de Bach. Em 1932, compôs o primeiro volume do Guia Prático, um conjunto de 137 cantos infantis, fazendo depois arranjos especiais de uma seleção dessas peças para o piano. O segundo volume contém hinos nacionais e escolares, além de canções patrióticas, algumas delas com loas aos trabalhadores e à figura de Vargas, segundo a cartilha do Estado Novo”.

Anotei ainda que como ele “estava no País em 1945, quando Vargas foi derrubado, a imagem do maestro, já conhecida no mundo inteiro, acabou sendo poupada. Isso contribuiu para que ele continuasse a sua carreira internacional, nos EUA e na Europa. Figura admirada pelos franceses desde os anos 1920, nos anos 1940 tornou-se uma personalidade de destaque entre os americanos, inicialmente empurrado pela política da boa vizinhança do presidente Franklin Roosevelt. Villa, que havia sido pioneiro na composição de trilha sonora para o cinema brasileiro, em 1937, com Descobrimento do Brasil, de Humberto Mauro, foi convidado, em 1958, pela Metro Goldwyn Mayer para fazer a trilha de Green Mansions (Floresta Amazônica), dirigido por Mel Ferrer e estrelado por Audrey Hepburn e Anthony Perkins.

Concluí o artigo afirmando que “talvez ainda não seja possível definir com precisão a personalidade tão complexa do maestro Heitor Villa-Lobos. Sua biografia merece importantes reparos, só viáveis com o aprofundamento das pesquisas já em curso. E sua obra necessita urgentemente de uma edição crítica, que certamente levará anos para ser concluída”.

Avanços - Nos últimos 11 anos, felizmente, houve avanços significativos na compreensão do homem e da obra, graças, por exemplo, aos esforços dos departamentos de música da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade de São Paulo, que organizam anualmente seus respectivos “Simpósios Villa-Lobos”.

Quanto à revisão crítica da obra, a Fundação Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) concluiu o trabalho hercúleo, iniciado em 2011, de gravar a integral das sinfonias de Villa-Lobos com base em partituras corrigidas nota a nota. O projeto, concebido pelo diretor artístico da Fundação, Arthur Nestrovski, foi executado pelo maestro Isaac Karabtchevsky, estando disponível para o público numa caixa de seis CDs gravados pela Naxos Records.

Concluo esta crônica em pleno 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, ouvindo a Modinha (Seresta nº 5), na voz da goiana Maria Lúcia Godoy, e a Melodia Sentimental, interpretada por Nadine Sierra, uma moça da Flórida.

Acabou!, exatamente como termina a seresta Cantiga do Viúvo, sobre versos do Carlos Drummond de Andrade.

Criado em 2020-03-09 10:57:07

Crônicas & Agudas

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Acabo de ser contratado para escrever crônicas, gênero que dizem ser tipicamente brasileiro. A ideia é ser fiel à tradição, tão velha quanto o Machado de Assis, oferecendo aos leitores e leitoras comentários leves, espirituosos, engraçadinhos, donairosos. O objetivo é distraí-los-ilas das preocupações desses tempos bicudos. A alienação como linimento, a hidrocodona para os nós da garganta, a fibromialgia e a estenose da uretra, no sentido moral!

Acontece que eu não me lembro de nenhum tempo que não tivesse sido bicudo nesse Engenhão. Por isso, talvez eu não consiga cumprir o contrato nem preencher a coluna com sueltos que me garantam algum saldo no banco.

Depois de longo pensar por quase 10 minutos, bolei um pretexto – uma boia no lugar do tronco – onde eu possa me agarrar quando for avisado da demissão. Vou propor ao editor um título para o meu espaço, sem explicitar as segundas intenções, derivadas das classificações das doenças: Crônicas & Agudas.

Crônicas autênticas seriam, por exemplo, às que se referem ao mundo do trabalho. Agudas, as que têm a ver com as dívidas que rompem o fim do mês. O fascismo atávico do País seria mote para as crônicas, como as dores do nervo ciático, digamos. Rompantes como os do ex-secretário Roberto Alvim – pedras nos rins – seriam mais adequados para as agudas.

O diabo vai ser quando eu tiver de cobrir fatos que se parecem com as dores disruptivas do câncer, cada vez mais numerosos. Como achar a vida bela com uma torção da gônada? Esse é o meu desafio a partir de segunda, quando inauguro minha coluna semanal.

Criado em 2020-01-23 12:36:51

O diário de Preta Ferreira na prisão

No dia 24 de junho de 2019, Preta Ferreira e seus familiares foram surpreendidos em casa pela manhã por dois homens, uma mulher e um mandado de busca e apreensão. Não seria a primeira nem a última vez que Preta precisaria lidar com o abuso do Estado, e, nesse caso, nas primeiras páginas de seu diário, a artista já mostra a confiança de que o infortúnio duraria, no máximo, alguns dias. No entanto, ao contrário de suas expectativas iniciais, Preta Ferreira ficou presa injustamente até 10 de outubro daquele ano.

No livro Minha carne: diário de uma prisão estão relatados os longos dias de cárcere, os processos pelos quais passou, as etapas do sistema prisional, os trâmites jurídicos, as emoções que viveu e o que ouviu de outras mulheres com quem compartilhou esse tempo. Com oscilações de humor – como medo, raiva e também inspiração –, Preta escreve e mescla sua a rotina e seus pensamentos com poemas e músicas. O tom da obra remete, ainda, a um grito por justiça.

O livro conta com uma apresentação sobre a vida da cantora e com surpresas inesperadas – como quando recebeu a visita, em sua casa, da ativista Angela Davis –, além de reflexões pós-cárcere em plena pandemia. Respondendo ao processo em liberdade e obrigada a seguir diversas regras, como horário para sair e voltar para casa e compromissos no fórum de justiça, ainda há um árduo caminho até a finalização do processo: “Eu tô livre, mas continuo presa”.

Trecho do livro

“Eu não desejo para ninguém uma vida em um lugar como aquele. Graças a Deus e a minha mãe, eu sempre soube me virar, desde cedo. Aprendi o que era humildade e a tratar gente como gente. Foi o que me salvou na prisão. Eu sempre acreditei que ninguém é melhor que ninguém, e aqui essa contestação ficou ainda mais viva”.
_____________
Serviço:
Livro: Minha carne: diário de uma prisão
Autora: Preta Ferreira
Prefácio: Juliana Borges
Editora: Boitempo

Criado em 2021-01-13 19:05:10

Bolsonaro não precisa das ONGs para queimar a imagem do Brasil

A propósito das recentes declarações de Jair Bolsonaro atribuindo às ONGs ambientalistas a responsabilidade pelos incêndios na Amazônia, personalidades e entidades ligadas ao tema emitiram, ontem (21/8), nota oficial protestando contra as mentiras e as irresponsabilidades do presidente brasileiro.

Eis a íntegra do documento:

“Os focos de incêndio em todo Brasil aumentaram 82% desde o início deste ano, para um total de 71.497 registros feitos pelo INPE, dos quais 54% ocorreram na Amazônia. Diante da escandalosa situação, Jair Bolsonaro disse que o seu “sentimento” é de que “ONGs estão por trás” do alastramento do fogo para “enviar mensagens ao exterior”.

O aumento das queimadas não é um fato isolado. No seu curto período de governo, também cresceram o desmatamento, a invasão de parques e terras indígenas, a exploração ilegal e predatória de recursos naturais e o assassinato de lideranças de comunidades tradicionais, indígenas e ambientalistas. Ao mesmo tempo, Bolsonaro desmontou e desmoralizou a fiscalização ambiental, deu inúmeras declarações de incentivo à ocupação predatória da Amazônia e de criminalização dos que defendem a sua conservação.

O aumento do desmatamento e das queimadas representa, também, o aumento das emissões brasileiras de gases do efeito estufa, distanciando o país do cumprimento das metas assumidas no Acordo de Paris. Enquanto o governo justifica a flexibilização das políticas ambientais como necessárias para a melhoria da economia, a realidade é que enquanto as emissões explodem, o aumento do PIB se aproxima do zero.

O presidente deve agir com responsabilidade e provar o que diz, ao invés de fazer ilações irresponsáveis e inconsequentes, repetindo a tentativa de criminalizar as organizações, manipulando a opinião pública contra o trabalho realizado pela sociedade civil”.

Assinam este documento de 21 de agosto de 2019:

Associação Brasileira de ONGs, ABONG;

Ação Educativa;

Alternativas Para Pequena Agricultura no Tocantins, APATO;

Amigos da Terra – Amazônia Brasileira;

Angá;

Articulação Antinuclear Brasileira;

Articulação do Semiárido Brasileiro, ASA;

Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, APIB;

Articulação Nacional de Agroecologia, ANA;

Assembleia Permanente de Entidades em Defesa do Meio Ambiente, APEDEMA;

Assessoria e Gestão em Estudos da Natureza, Desenvolvimento Humano e Agroecologia, AGENDHA;

Associação Agroecológica Tijupá;

Associação Alternativa Terrazul;

Associação Ambientalista Copaíba;

Associação Ambientalista Floresta em Pé, AAFEP;

Associação Amigos do Meio Ambiente, AMA;

Associação Arara do Igarapé Humaitá, AAIH;

Associação Brasileira de Homeopatia Popular Comunitária, ABHP

Associação Civil Alternativa Terrazul;

Associação Cunhambebe da Ilha Anchieta;

Associação de Defesa do Meio Ambiente de Araucária, AMAR;

Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos, AQUASIS;

Associação de Preservação da Natureza do Vale do Gravataí;

Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida, APREMAVI;

Associação de Proteção ao Meio Ambiente de Cianorte, APROMAC;

Associação de Saúde Ambiental, TOXISPHERA;

Associação Defensores da Terra;

Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre, AMAAIAC;

Associação em Defesa do rio Paraná, Afluentes e Mata Ciliar, APOENA;

Associação Flora Brasil;

Associação MarBrasil;

Associação Mico-Leão-Dourado;

Associação Mineira de Defesa do Ambiente, AMDA;

Associação Paraense de Apoio as Comunidades Carentes (Rede Jirau de Agroecologia)

Associação Purna Ananda Ashram – Ecovila Integral;

Associação Barraca da Amizade;

Associação Unidade e Cooperação para o Desenvolvimento dos Povos

Central Única dos Trabalhadores, CUT;

Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia, CAPA / FLD;

Centro de Assessoria Multiprofissional, CAMP;

Centro de Criação de Imagem Popular, CECIP;

Centro de Cultura Luiz Freire;

Centro de defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis;

Centro de Educação e Cultura Popular, CECUP;

Centro de Estudos Ambientais, CEA;

Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste;

Centro de Trabalho Indigenista, CTI;

Centro Feminista de Estudos e Assessoria, Cfemea;

Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro Brasileiro;

Centro Nordestino de Medicina Popular;

Centro Popular Da Mulher, UBM;

Centro Santo Dias de Direitos Humanos;

CIDADANIA;

Cidade Escola Aprendiz;

Coletivo BANQUETAÇO;

Coletivo Delibera Brasil;

Coletivo do Fórum Social das Resistências de Porto Alegre;

Coletivo Popular Direito à Cidade;

Coletivo Popular Direito à Cidade;

Coletivo Socioambiental de Marilia;

Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo, CDHPF;

Comissão Pró-Índio do Acre, CPI-Acre;

Comitê Goiano de Direitos Humanos Dom Tomás Balduino;

Conselho de Missão entre Povos Indígenas, COMIN / FLD;

Conselho Indigenista Missionário, CIMI;

Conselho Nacional do Laicato do Brasil, CNLB;

Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, COIAB;

Coordenadoria Ecumênica de Serviço, CESE;

Ecologia & Ação, ECOA;

Ecossistemas Costeiros, APREC;

Elo Ligação e Organização;

EQUIP;

Escola de Formação Quilombo dos Palmares;

Espaço de Formação, Assessoria e Documentação;

FADS – Frente Ampla Democrática Socioambiental;

FASE Bahia;

FEACT Brasil (representando 23 organizações nacionais baseadas na fé);

Federação de Órgãos para Assistencial Social e Educacional, FASE;

FICAS;

Fórum Baiano de Economia Solidária;

Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, FBOMS;

Fórum da Amazônia Oriental, FAOR;

Fórum de Direitos Humanos e da Terra;

Fórum de ONGs Ambientalistas do Distrito Federal;

Fórum de ONGs/Aids do Estado de São Paulo, FOAESP;

Fórum Ecumênico ACT Brasil;

Fórum Resiste Brasil-Berlin;

Fórum Social da Panamazônia;

Fundação Amazonas Sustentável

Fundação Avina;

Fundação Luterana de Diaconia, FLD;

Fundação Vitória Amazônica, FVA;

GEEP – Açungui;

Geledes Instituto da Mulher Negra;

Gestos – Soropositividade, Comunicação e Gênero;

Grito dos Excluídos/as Continental;

Grupo Ambientalista da Bahia, GAMBA;

Grupo Carta de Belém;

Grupo de Estudos Espeleológicos do Paraná;

Grupo de Mulheres Brasileiras, GMB;

Grupo Ecológico Rio de Contas, GERC;

GTP+ Grupo de Trabalhos e Prevenção Posithivo; GTP+;

Centro Sabiá;

Habitat para Humanidade Brasil;

Hivos – Organização Humanista para Mudança Social;

Iniciativa Verde;

Instituto AUÁ;

Instituto Alana

Instituto Augusto Carneiro;

Instituto Bem Ambiental, IBAM;

Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, IBASE;

Instituto Centro Vida, ICV;

Instituto de Estudos Ambientais – Mater Natura;

Instituto de Estudos Jurídicos de Direitos Humanos, Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais, IDhES;

Instituto de Estudos Socioeconômicos, Inesc;

Instituto de Pesquisa e Formação Indígena, Iepé;

Instituto de Pesquisas Ecológicas, IPÊ;

Instituto Ecoar;

Instituto EQUIT – Gênero, Economia e Cidadania Global;

Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental;

Instituto Internacional de Educação do Brasil, IEB;

Instituto MIRA-SERRA;

Instituto PACS – Políticas Alternativas para o Cone Sul;

Instituto Paulo Freire;

Instituto Sociedade, População e Natureza, ISPN;

Instituto Socioambiental, ISA;

Instituto Universidade Popular, UNIPOP;

Iser Assessoria;

Justiça nos Trilhos;

Liga Brasileira de Lésbicas, LBL;

Movimento de Mulheres Campo e Cidade; MMCC

MIRIM Brasil;

Movimento de Defesa de Porto Seguro, MDPS;

Movimento dos Trabalhadores/as Rurais sem Terra, MST;

Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas de São Paulo;

Movimento Nacional de Direitos Humanos, MNDH;

Movimento Paulo Jackson – Ética, Justiça e Cidadania;

Movimento Roessler;

Movimento SOS Natureza de Luiz Correia;

Núcleo de Pesquisa em Participação, Movimentos Sociais e Ação Coletiva, NEPAC UNICAMP;

Núcleo Sócio Ambiental Arará-piranga;

Observatório do Clima;

OekoBr;

Operação Amazônia Nativa, OPAN;

Organização dos Professores Indígenas do Acre, OPIAC;

Ouvidoria Geral Externa da Defensoria Pública de Rondônia;

Pacto Organizações Regenerativas;

Pastoral da Educação do Regional Sul1 da CNBB;

Pastoral Fé e Política da Arquidiocese de SP;

Plataforma DHESCA Brasil;

Plataforma Mrosc;

ProAnima – Associação Protetora dos Animais do Distrito Federal;

Processo de Articulação e Diálogo, PAD;

Projeto Saúde e Alegria;

Proteção à Fauna e Monitoramento Ambiental, PROFAUNA;

Proteção Animal Mundial;

Rede Ambiental do Piauí, REAPI;

Rede Brasileira De Justiça Ambiental;

Rede Conhecimento Social;

Rede de Cooperação Amazônia, RCA;

Rede de ONGs da Mata Atlântica, RMA;

Rede de ONGs da Mata Atlântica;

Rede de Travestis, Transexuais e Homens Trans Vivendo e Convivendo como HIV e AIDS;

Rede Feminista de Juristas, deFEMde;

Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS, RNP+BRASIL;

Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/AIDS do Estado de São Paulo, RNP+SP;

SAPI – SOCIEDADE AMIGOS POR ITAUNAS;

Sempreviva Organização Feminista, SOF;

Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental, SPVS;

Sociedade Paraense de Direitos Humanos;

SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia;

TERRA VIVA – Centro de Desenvolvimento Agroecológico do Extremo Sul da Bahia;

União Nacional dos Estudantes, UNE;

União Protetora do Ambiente Natural, UPAN;

Vale Verde Associação de Defesa do Meio Ambiente

Vida Brasil.

Criado em 2019-08-22 21:02:52

O homem é o homem e suas ziguiziras sociais

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Na segunda-feira, 2, li sem entender um tuíte do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus.

Dizia o texto em inglês: “Knowing & understanding an epidemic is the first step to defeating it. We are in unchartered (sic) territory with #COVID19. We have never before seen a respiratory pathogen that is capable of community transmission, but which can also be contained with the right measures”.

Traduzido, o tuíte dá mais ou menos no seguinte: “Conhecer e compreender uma epidemia é o primeiro passo para derrotá-la. Nós estamos em terreno desconhecido com o #COVID19. Nunca antes vimos um patógeno respiratório que é capaz de transmissão comunitária, mas que também pode ser contido com as medidas certas”.

Como eu sei, parodiando o Ortega y Gasset, que o homem é o homem e suas ziguiziras sociais, raciocinei que os vírus desde sempre se propagassem por  “transmissão comunitária”. Por isso achei que havia no tuíte do Tedros algum erro de digitação. Ledo & Ivo engano da minha parte, um ignorante enciclopédico. Nesse caso, a transmissão do Covid-19 ficou lost in translation! 

Tratei de trocar ideias com os universitários e, depois de fazer uma pesquisa básica na Rede, descobri que a tal “transmissão comunitária” é um termo médico utilizado pela OMS para designar uma fonte de infecção desconhecida ou, então, a perda dos contatos dos infectados com outras pessoas. Trata-se, portanto, da dificuldade de os técnicos de saúde determinarem a rede epidemiológica na comunidade além dos casos confirmados, como informa a Wikipédia. 

Desde o dia 28 de fevereiro, os relatórios diários da OMS trazem um quadro com a definição de cinco termos relacionados com a propagação do Covid-19:

1) A transmissão comunitária, evidenciada pela incapacidade de relacionar casos confirmados através de cadeias de transmissão de um grande número de casos ou pelo aumento de testes positivos através da triagem de rotina de amostras-sentinelas. 

2) A transmissão local, que indica os lugares em que a fonte de infecção está ativa no local reportado.

3) Os casos importados, indicando que os pacientes foram infectados fora do local reportado.

4) Os casos sob investigação, indicando os locais onde o tipo de transmissão não foi determinado para nenhum caso.

5) Transmissão interrompida, que indica os locais onde se demonstrou a contenção da contaminação.

Depois do esforço de reportagem, finalmente entendi o tuíte do simpático diretor etíope da OMS, cujo sobrenome, Ghebreyesus, imagino significar “Jesus hebreu”. Confesso, porém, não ter ficado satisfeito. Me deu uma coceira e das  brotoejas brotaram perguntas atrevidas, das quais menciono duas.

1) Não seria mais lógico chamar a “transmissão comunitária” de “fonte de transmissão desconhecida” (“unknown transmission source”)?

2) A expressão “transmissão comunitária” não estaria contaminada pela ideologia liberal, que vê a sociedade como uma coleção de indivíduos? Explico: quando a fonte da infecção é desconhecida, a gente a chama de “comunitária”; quando é determinada, a gente nomeia e carimba a fonte-indivíduo. No primeiro caso, temos um enigma, um desvalor. No segundo, um esclarecimento, um valor. Humpf!

Dessas variações acabei pulado para a ilha que hospeda o Robinson Crusoé, ali nas costas do Chile do Piñera. Matutei: como está de quarentena com o Sexta-Feira, o filho da mãe vai escapar da pandemia e depois, lépido, pimpão e faceiro, voltará para Londres para propagar no Twitter as delícias do neoliberalismo junto com fake news sobre o coronavírus. Humpf de novo!

Mais calmo, desviei a atenção para uma resenha da revista Nature de um artigo de pesquisadores da Universidade de Ohio, Estados Unidos, que discute justamente a questão do abuso dos jargões técnicos por parte da comunidade científica.

A resenha  começa assim: “A linguagem excessivamente técnica em artigos científicos não apenas confunde os não especialistas como pode alienar os leitores, excluindo-os potencialmente do debate e do conhecimento científicos. Essa é a conclusão de um estudo publicado no Journal of Language and Social Psychology, e se aplica tanto aos artigos de interesse geral quanto aos artigos científicos”.

Baixei o próprio artigo dos pesquisadores, liderados pela doutora Hillary C. Shulman, da Escola de Comunicação da Universidade Estadual de Ohio, cuja conclusão é uma excelente advertência: os cientistas deveriam fazer um esforço para evitar ao máximo as tecnicalidades, quando se comunicam com o público, atitude que traria ganhos nas relações médico-paciente, nas campanhas de saúde pública e nas campanhas políticas, por exemplo.

Humpf! Por que será que o óbvio não se espalha como os vírus?

Criado em 2020-03-05 16:53:53

Núcleo Charles Darwin contra o criacionismo

O Núcleo Charles Darwin da Universidade de São Paulo (USP) protesta contra a defesa do criacionismo feita pelo novo presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Benedito Guimarães Aguiar Neto, nomeado pelo presidente Jair Bolsonaro.

Benedito é reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e defensor da teoria do "design inteligente", uma outra denominação para a tese do criacionismo. Em uma palestra realizada em outubro do ano passado, quando ainda estava à frente da Mackenzie, ele defendeu que a universidade amplie os estudos sobre a área.

“Queremos colocar um contraponto à teoria da evolução e disseminar que a ideia da existência de um design inteligente pode estar presente a partir da educação básica, de uma maneira que podemos, com argumentos científicos, discutir o criacionismo”, disse Benedito.

Em nota pública, divulgada no dia 24/1, o Núcleo de Apoio à Pesquisa EDEVO-Darwin, da USP, protesta contra a defesa do criacionismo como matéria cientifica a ser estudada nas universidades como pretende Benedito Guimarães.

A seguir, a íntegra da nota:

“O Núcleo de Apoio à Pesquisa em Educação, Divulgação e Epistemologia da Evolução “Charles Darwin” (NAP EDEVO-Darwin), ligado à Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), que reúne diversos cientistas atuantes na área da evolução biológica, diante de matéria divulgada no site do jornal Folha de São Paulo de 24/01/2020, sobre opinião emitida por pessoa que será encarregada de dirigir a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (CAPES), ligada ao Ministério da Educação (MEC), vem a público esclarecer que:

O chamado “criacionismo científico” não é reconhecido pela comunidade científica de nenhum país, reunida em associação científica com membros acreditados junto a instituições acadêmicas desvinculadas de organizações religiosas ou por elas financiadas;

Literalmente todas as evidências disponíveis, corroboram a explicação da diversidade e estrutura da vida na Terra por meio de processos de descendência com modificação e que todos os seres vivos são conectados por relações de ancestralidade comum. Novas áreas da ciência, como a Genômica, continuamente fortalecem este paradigma. Não existem dúvidas plausíveis de que o processo evolutivo seja a melhor explicação para os fenômenos da vida, uma conclusão aceita há mais de um século e atualmente endossada inclusive por muitas instituições religiosas, como o Vaticano;

É amplamente reconhecido que o chamado “design inteligente” é simples eufemismo do dito “criacionismo científico”, sendo que o mesmo exato termo (“intelligent design”) já era usado com o mesmo sentido no século dezoito por teólogos protestantes, como Joseph Butler (1692-1752). A expressão foi utilizada originalmente naquele contexto para retomar as teses de Tomás de Aquino a fim de comprovar a existência de uma divindade criadora do universo, o que deixa claro como as expressões têm exatamente o mesmo sentido conceitual;

Apenas algumas denominações religiosas têm no criacionismo científico um de seus dogmas centrais, em especial as de maior expressão no chamado “cinturão evangélico” dos Estados Unidos, com tentativas de se introduzir o ensino do chamado “design inteligente” nos currículos escolares. O ensino religioso é permitido no Brasil, mas deve ser restrito à disciplina de ensino religioso, que não é de frequência obrigatória, e não pode incluir proselitismo religioso (Lei 9394/1996, Art. 33).

A última manifestação do Supremo Tribunal Federal (STF) examinou o conteúdo do ensino religioso definido nesse artigo, não abordando a inclusão de dogmas religiosos nas disciplinas científicas;

Ao impor aulas de “criacionismo científico” desde os anos iniciais do ensino fundamental a todas as crianças, em disciplina de frequência obrigatória, configura-se uma afronta ao regramento legal brasileiro, por obrigar os filhos de todas as famílias a aprender o que algumas denominações religiosas estadunidenses conservadoras elegeram como dogmas centrais obrigatórios para seus seguidores. Trata-se, portanto, de proselitismo religioso estatal compulsório, vedado expressamente por lei federal. Lembre-se que essa prática também é proibida nas escolas públicas estadunidenses.

Além de afrontar uma lei federal infraconstitucional, essa prática, se consumada, afrontará a própria Constituição Federal, ao colocar o estado brasileiro a favorecer certas denominações religiosas, em detrimento de outras. E ainda condenará o Brasil a caminhar de maneira cada vez mais lenta na trilha da melhoria da educação pública, comprometendo irremediavelmente a qualidade da educação, o que, aliás, contraria outro ditame constitucional;

Não bastassem as afrontas às leis e à própria Constituição Federal, essa imposição, se implementada, condenará a juventude do país a não compreender questões científicas básicas acerca da vida no planeta, como a origem e a importância da conservação da biodiversidade, o desenvolvimento de resistência a antibióticos por parte de certas bactérias, e tantas outras questões que o mundo moderno veio a entender graças à teoria da evolução.

O desenvolvimento científico e tecnológico brasileiro estará ainda mais comprometido se a anunciada iniciativa vier a ser consumada nas escolas brasileiras de educação básica.

Universidade de São Paulo, 24 de Janeiro de 2020.”

Assina:
Núcleo de Apoio à Pesquisa em Educação, Divulgação e Epistemologia da Evolução “Charles Darwin” (EDEVO-Darwin/USP).

Criado em 2020-01-28 04:01:47

SOS Cinemateca Brasileira consegue avanços na proteção do patrimônio

Ainda não se concretizou, mas diante da pressão da Sociedade Amigos da Cinemateca Brasileira, de São Paulo, a Secretaria Especial da Cultura do governo federal prometeu, para esta primeira quinzena de janeiro, a assinatura de um convênio para gerenciar, temporariamente, a entidade e recuperar 40 postos de trabalho.

O convênio, a ser assinado entre governo federal e a Sociedade Amigos da Cinemateca, terá duração de 90 dias e tem como finalidade dar continuidade às atividades básicas (ou primordiais) de preservação do acervo da Cinemateca Brasileira.

Ainda de acordo com a secretaria, o convênio "não suspende o chamamento público para nova organização social que se encontra em tramitação e que deve ter seu edital publicado em breve".

"Festejemos essa vitória suada do Cinema Brasileiro que verga mas não se dobra; que morre, mas renasce mais forte. Assim tem sido a nossa história. Não que nos conformemos com essa condição cíclica que um dia tem que acabar", escreveu em seu Twitter o cineasta Roberto Gervitz, coordenador do grupo SOS Cinemateca.​

Moradores entram no processo

Para se prevenir contra qualquer recuo do governo federal, o Tribunal Regional Federal da 3a. Região deu liminar favorável para que a Associação dos Moradores da Vila Mariana (AVM) ingresse na Ação Civil Pública (ACP) movida pelo Ministério Público Federal (MPF) contra a União e em favor da Cinemateca Brasileira (CB).

Graças a uma petição que detalhou os riscos de explosão dos depósitos dos filmes de nitrato em área residencial, os vizinhos conseguiram ser classificados como assistentes ativos no processo. A associação, que representa mais de 10 coletivos do bairro, recolheu várias provas que foram apresentadas ao Desembargador Federal, Marcelo Saraiva, que entendeu que "a falta da adequada manutenção do acervo da CB pode trazer sérios riscos – de incêndio - para os moradores e frequentadores da região da Vila Mariana, assim como ao meio ambiente em seu entorno".

Com este despacho, a associação foi aceita como assistente no processo e pode atuar ativamente junto ao MPF, afim de que o patrimônio que a Cinemateca salvaguarda seja preservado e medidas efetivas sejam impostas ao Governo Federal para sua preservação e pela sua reabertura imediata.

A CB está fechada ao público há mais de 300 dias e sem funcionários desse o dia 7 de agosto, quando a União tomou as chaves da Associação Roquette Pinto, Organização Social que fazia a gestão do local através de um contrato encerrado em dezembro de 2019 que não foi não renovado. Todos os 41 funcionários técnicos que trabalhavam na instituição foram demitidos seis dias depois.

Em busca de provas

Em busca de provas para convencer o Juiz da urgência dessa reabertura, descobertas preocupantes vieram à tona: a empresa contratada para fazer a manutenção do prédio tombado é uma Eireli (tem um único sócio). A limpeza ficou a cargo de uma companhia da área hospitalar. Nenhuma das duas é qualificada para assegurar a manutenção do arquivo. Além do mais, desde dezembro de 2017, a Cinemateca não teve laudo de vistoria estabelecido pelo Corpo de Bombeiros.

Os moradores, que há meses monitoram o prédio, dizem que lá só trabalham dois vigias: um na porta da frente e outro na de trás. “Todos estamos cientes da importância que a Cinemateca tem para o cinema brasileiro e latino-americano. E a memória do nosso bairro está depositada aqui. Filmes de antigos moradores, documentos, fotografias... A gente não quer perder isso.”

Os moradores pedem judicialmente a visita do juiz ao local, para que ele possa entender a real importância do que está em risco. A Associação Paulista de Cineastas (APACI), que também participa da ação como "amicus curiae" e realizadores que militam pela causa foram encarregados de municiá-los com uma “petição audiovisual” que será arrolada aos autos do processo.

Caráter de urgência

O caráter de urgência acolhido na decisão do Desembargador Marcelo Saraiva se impõe sobre a necessidade do retorno dos técnicos especializados à Cinemateca para a manutenção e manuseio dos filmes de nitrato, que possuem elevado potencial de autocombustão. Além dos filmes de acetato, que podem sofrer a "síndrome do vinagre", processo de deterioração química que pode se disseminar pelo ambiente através dos gases expelidos e contaminar todo o acervo, acelerando a degradação dos demais rolos de filme.

“Ao Desembargador lembramos as piores memórias do incêndio ocorrido na Cinemateca Brasileira em fevereiro 2016, quando, durante a crise administrativa, o quadro de funcionários que cuidavam de seu acervo foi reduzido a duas pessoas. As condições físicas que provocaram o incêndio naquela época são similares às que podem provocar o atual: a autocombustão dos filmes de nitrato eliminou 1.005 rolos do acervo e da história nacional, consumidos pelo fogo, em 2016. Hoje o acervo audiovisual é composto por mais 250 mil rolos de filmes e um milhão de documentos relacionados ao audiovisual”, relatam os defensores da CB.

Chegada do verão

Como todo ano na cidade de São Paulo, o verão é marcado por eventos climáticos que se agravam. Em fevereiro de 2020, uma chuva torrencial deixou a cidade parada por 24 horas. Em junho, no outono, fortes chuvas atingiram a capital causando dezenas de derrubadas de árvores na Vila Mariana. Em evento recente, há uma semana, dia 1º de dezembro, mais uma vez, chuva forte, ventos acima do normal provocaram queda de energia e de várias árvores na Vila Mariana. Uma delas, atingindo um veículo com uma mãe e dois filhos, provocando a morte da mãe. Além disso, vale lembrar que a Cinemateca Brasileira não conta com Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB) e quando ocorrem as quedas de energia, as câmaras de refrigeração e climatização dos filmes ficam comprometidas.

Mais de 100 produtoras cobram do governo federal a implementação de plano emergencial para a Cinemateca

No dia 17 de dezembro, uma carta assinada pelo movimento S.O.S. Cinemateca-APACI e a AVM, até o momento apoiada por mais de cem produtores audiovisuais, responsáveis pela produção de 1,5 mil filmes, foi entregue à Secretaria do Audiovisual. Isso porque apesar das promessas do Secretário do Audiovisual, Bruno Côrtes, de que a Sociedade Amigos da Cinemateca seria contratada para executar um plano de trabalho emergencial de gestão do acervo, transcorridos quatro meses desde a entrega das chaves, a Cinemateca continua abandonada. A recente exoneração de mais um Ministro do Turismo e o infarto do Secretário da Cultura, Mário Frias, pressagiam mais imobilismo.

Criado em 2021-01-01 19:45:49

Agente da ditadura vira réu por crime de tortura

Fato histórico. Pela primeira vez a Justiça brasileira, em segunda instância, decide aceitar denúncia do Ministério Público Federal, por crimes cometidos na ditadura militar, contra o sargento reformado Antonio Waneir Pinheiro de Lima, conhecido como “Camarão”.

O sargento reformado Waneir virou réu ontem, quarta-feira (14/8), após o Tribunal Regional Federal da 2ª Região concluir que a Lei de Anistia não protege o crime de tortura. Essa decisão tem grande repercussão porque contraria o que defende o presidente da República, Jair Bolsonaro, em relação aos torturadores do regime militar. Bolsonaro não só presta homenagem a torturadores, como Brilhante Ustra, como debocha de suas vítimas.

Camarão é acusado de sequestrar e torturar Inês Etienne Romeu, durante a ditadura militar. Os crimes ocorreram na Casa da Morte, em Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro. A vítima, que faleceu em 2015, foi a única sobrevivente do centro de tortura e denunciou o caso.

“Os magistrados consideraram, por maioria, que os crimes praticados são de lesa-humanidade e, por isso, deve-se aplicar a Convenção Americana dos Direitos Humanos — que não permite a prescrição, nem a anistia dos crimes”, explicou o site G1.

Etienne foi líder da Vanguarda Revolucionária Palmares (VPR), a mesma organização a qual pertenceram a ex-presidenta Dilma Rousseff e o ex-presidente do PT, Rui Falcão.

Presa em 1971, Inês foi barbaramente torturada e submetida a toda sorte de violência. Foi a última presa política libertada no Brasil. Foi ela que, em 1979, depois de quase uma década nas mãos de seus algozes militares, denunciou os crimes ocorridos nos porões da ditadura e contou para o mundo o que aconteceu na Casa da Morte.

Inês foi presa e torturada por 96 dias. ”Só conseguiu escapar por fingir aceitar ser uma infiltrada. Em 1981, ela denunciou o centro e contribuiu com a Comissão da Verdade.” Os relatos incluíam o crime de estupro.

Em 2014, Camarão depôs ao MPF, ocasião em que negou as acusações de Inês Etienne, mas admitiu que esteve com ela no imóvel e afirmou que era o “caseiro” da Casa da Morte.

A denúncia havia sido rejeitada pela 1ª Vara Federal Criminal de Petrópolis em 2017, mas o Ministério Público Federal recorreu.

Criado em 2019-08-15 02:17:27

O dia em que eu peguei no pé do Montaigne!

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Estando em Paris em meados de 2008, fiz questão de ir até a rue des Écoles, place Paul-Painlevé, para pegar no pé do Michel de Montaigne. Quer dizer, no pé desgastado da estátua de bronze do filósofo, que fica na frente da entrada da Sorbonne, como sempre fizeram os estudantes, para dar sorte. Plant: como goiano só conhece as coisas pegando nelas, confesso que no dia anterior eu havia passado a mão na lustrosa bunda d@ Hermafrodit@ adormecid@ no Louvre.

Pegar no pé do Montaigne teve um motivo filosófico, digamos. O que é que eu tinha a ver com esse pensador gascão seiscentista (1533-1592), inventor dos Ensaios, o gênero literário que tornou o Eu transparente? Bem, naquela época tínhamos em comum pedras nos rins. De três em três anos eu costumava expelir calhaus do tamanho do Bendegó, uivando de dor que nem o coitado do Michel. A minha vantagem é que a medicina já havia evoluído um pouquinho desde o século 16, e eu podia contar com uma boa dose de Buscopan pra conter a agonia. Minhas crises sumiram há tempos, mas delas ainda tenho cicatrizes... na alma.

Além das dores sisifianas, no entanto, a minha identidade com o francês vinha da convicção dele de que qualquer caipira que nem eu podia (e pode!) pensar o mundo e a condição humana sem ser versado em filosofia. Tanto melhor sendo eu um jornalista daqueles que a custo conseguem encadear duas ou três frases.

Com uma taça de Bordeaux de 50 reais, comemoro nesta sexta-feira, 28, os 487 anos de nascimento do Montaigne. Há pelo menos 30 anos, os três volumes dos Ensaios, edição Hucitec/Editora da UnB de 1987, na bela tradução de Sérgio Milliet, fazem parte do patrimônio da família, quer dizer, das nossas estantes. Temos também a edição mais recente da Pléiade, de 2007.

Motivos - Por que tanto interesse nesse sujeito? Porque Montaigne é um puta escritor, direto, honesto, leve, engraçado, irônico, antidogmático, franco até os ossos e os tendões, sem rebuscamento nem enrolação. De vez em quando é também chato que dói! Ao falar de si, de seus gostos, moléstias, dúvidas políticas, filosóficas e religiosas, é como se ele estivesse falando da gente.

Sabe aqueles textos que você diz, pô, eu podia ter escrito isso? Então, assim são os Ensaios do cara. Aliás, foi ele mesmo quem enfatizou esse compromisso com a veracidade de sua pessoa, com quem logo nos identificamos. Na advertência ao leitor constante do prefácio dos Ensaios, ele pede: “Quero que me vejam aqui em meu modo simples, natural e corrente, sem pose nem artifício: pois é a mim que retrato… sou eu mesmo a matéria de meu livro...” Em outro lugar, diz que assim como compôs o livro, foi o livro que o conformou. 

Muitos escritores já haviam falado de si próprios, como Santo Agostinho nas Confissões. Mas não da maneira de Montaigne, tomando a sua pessoa como o principal objeto de investigação. “Se cortar as palavras dele, sai sangue”, comentou Ralph Waldo Emerson, o inventor dos ensaios nos Estados Unidos. “Elas têm veias, estão vivas (vascular & alive)”.

Modelo para Hamlet - O crítico Harold Bloom atribui a Shakespeare “a invenção do humano”, isto é, a invenção da personalidade na história da literatura, mas também a personalidade comum, a minha e a sua. Para Bloom, uma das raízes dessa invenção da modernidade foi justamente Montaigne, cujos Ensaios o Bardo teria compulsado mais do que o seu exemplar da Bíblia de Genebra. É provável que Shakespeare tenha lido os Ensaios ainda nos manuscritos da tradução de John Florio, que viriam a ser publicados em 1603. Os dois podem ter se encontrado antes, quando Florio servia o Conde de Southampton, Henry Wriothesley, patrono de Shakespeare e talvez o “Lord of my love” de seus sonetos.

Diz Bloom: “Nada pode parecer tão shakespeariano como o clímax da obra de Montaigne, o grande ensaio intitulado “Da experiência”, composto em 1588, quando, creio eu, Shakespeare terminava o primeiro Hamlet. Montaigne diz que somos vento, mas o vento é mais sábio que nós, pois gosta de fazer barulho e se agitar, e não anseia por solidez e estabilidade, valores que lhe são estranhos. Sábio como o vento, Montaigne tem uma visão positiva das pessoas que sofrem mutações, metamórfica e surpreendentemente livres. Montaigne, como os grandes personagens shakespearianos, passa por mutações porque é capaz de ouvir a si mesmo. Ao ler seus próprios textos, Montaigne torna-se precursor de Hamlet na representação da realidade nele próprio e através dele”.

Os especialistas especulam que as dúvidas existenciais de Hamlet e a agonia espiritual do Rei Lear podem ter sido sugeridas pelas dúvidas do próprio Montaigne. O certo mesmo é que alguns trechos de A Tempestade foram transcritos do ensaio Dos canibais, dedicado aos tupinambás levados do Brasil. Uma hipótese, inclusive, é que o nome de um dos personagens da peça, Caliban, seria um anagrama da palavra “canibal”.

Canibais - Nesse ensaio, Montaigne conta que chegou a conversar com um dos três tupinambás que visitaram a corte do rei Carlos IX em Ruão, em 1562. Ele comparou a sociedade indígena à francesa, sem deméritos para a primeira, muito embora essa estivesse entregue às leis da natureza, sem lei nem rei nem fé nem livros. Bárbaros, dizia ele, é como chamamos os povos que não têm os nossos costumes. Os tupinambás foram considerados bárbaros por comerem gente, mas não assim os seus patrícios franceses, que deixavam – para espanto dos índios – as suas “metades” (seus concidadãos) morrerem de fome na sarjeta. Dizem que foi Montaigne o inventor do “bom selvagem”, tornado famoso por Jean-Jacques Rousseau.

     

Montaigne criou os Ensaios para falar de suas intimidades talvez porque não tivesse grandes aventuras para contar. Ele nasceu em 1533, no mesmo ano da rainha Elizabeth I na Inglaterra. Provinha de uma família rica, judia por parte de mãe, proprietária de vinhedos no Sudoeste da França. Durante 13 anos foi juiz em Bordeaux, e depois prefeito da cidade por mais quatro anos. Passando dos 40, fez uma viagem “etnográfica” pela Itália, Suíça e Alemanha, quando comparou os hábitos de suas gentes com a sua. Teve seis crias, das quais cinco morreram ainda pequenas.

Um fato realmente marcante foi a sua amizade com o poeta e escritor Étienne de la Boétie, de quem editou o Discurso da Servidão Voluntária. O amigo morreu vítima da peste que grassava no Sul da França, o que o deixou completamente arrasado, ele que já estava impressionado com a desgraceira das guerras religiosas da época. Dizem que vêm desse tempo os sombrios pensamentos de Montaigne sobre a morte, problema que enfrentou aderindo à doutrina dos estoicos, para quem “filosofar é aprender a morrer”. O truque: ficar sempre alerta contra a possibilidade do pior, anestesiando os efeitos da eventual desgraça. Os críticos dizem que agindo assim você sofre duas vezes…

Na torre - Cumpridas as obrigações públicas, e achando que já não teria muito tempo de vida, Montaigne refugiou-se na sua biblioteca, organizada no segundo andar de uma torre circular de sua propriedade com vista para as vinhas. O espaço existe até hoje. Ali ele aprofundou as leituras dos clássicos – Sócrates, Platão, Aristóteles, Epicuro, Lucrécio, Virgílio, Catulo, Horácio, Lucano, Terêncio, Plauto, Sêneca, esse tipo de gente. Plutarco foi o seu autor predileto. Mas essas leituras, ele adverte, foram importantes só na medida em que abonavam as suas próprias ideias, derivadas de suas experiências. Embora falasse apenas de si, acho que se ele carregasse um patuá, a frase do papelzinho seria a máxima do Terêncio: “Nada do que é humano me é estranho”.

Tendo sobrevivido às piores expectativas, Montaigne trocou o pessimismo dos estoicos pelo otimismo dos epicuristas, para quem filosofar é, ao contrário do que pregava Cícero, aprender a viver. Afinal, disse Montaigne, qualquer pessoa saberá morrer quando chegar a hora. Nem é preciso estar doente para morrer, basta estar vivo. Imagine que você está caminhando em busca da verdade que nem o Tales de Mileto, sem prestar muita atenção no caminho e de repente cai num buraco – babau!  Ora, já que a natureza vai se encarregar de pôr um fim à sua existência, à sua revelia, compensa muito mais você se preocupar não com a morte mas com a melhor maneira de viver. Foi o que Montaigne pregou e foi o que ele fez quando decidiu escrever seu autorretrato.   

Os temas de alguns Ensaios dão a extensão de suas preocupações: Da tristeza; Dos nossos ódios e afeições, A hora das negociações é perigosa, As ações julgam-se pelas intenções; Da ociosidade; Dos mentirosos; O bem e o mal só o são, o mais das vezes, pelas ideias que deles temos; Da covardia; Da educação das crianças; Da solidão; Do sono; Dos nomes; Das vãs sutilezas; Dos odores; Da embriaguez; Da consciência; Dos livros; Da crueldade; Da presunção; Da liberdade de consciência; Do útil e do honesto; Do arrependimento; Da diversão; Da vaidade; Da experiência; e por aí vai.

Como gênero literário, os ensaios inventados por Montaigne carecem da densidade e da dignidade outorgada aos tratados, estudos e teses acadêmicas. São relatos de temas livres, soltos, aparentemente sem método, impressionistas, baseados em geral nas vivências de quem os escreve. Acabaram se tornando a forma mais popular de os pensadores, cientistas, filósofos, críticos literários e até mesmo jornalistas levarem até as massas as suas ideias ainda em processo de fermentação. Num país de poucas letras como o Brasil, onde se considera o Nelson Rodrigues um pensador profundíssimo, o gênero só podia frutificar alegremente, como de fato frutificou. 

O inventor da literatura? - A aparente modéstia colada aos Ensaios de Montaigne talvez esconda, no entanto, algo mais grandioso. É o que disse o argentino Jorge Luís Borges, ao atribuir ao francês nada menos do que a invenção da própria literatura moderna. Numa crônica publicada dia 24 de novembro de 1957, sobre Montaigne e Walt Whitman, Borges cogitou que, estando lendo Plutarco em sua biblioteca, no quentinho da  lareira e talvez ouvindo o latido inútil de um cachorro no pátio –  “Desde el patio, para Montaigne; desde el siglo XVI, para nosotros” – , o filósofo francês certamente compreendeu que o historiador grego “não era só um mestre e uma doutrina, mas também uma entonação individual a que se havia acostumado, um homem e seu diálogo”.

Borges anotou: “Desde aquele instante em que percebeu que entre alguém e um livro pode existir uma relação de amizade, Montaigne já era o autor da obra encantadora. O resto está nas enciclopédias. Em 1580 apareceram os Ensaios, o primeiro livro que deliberadamente busca o que Plutarco achou em outro país, mediante outra língua, ao cabo de séculos de morte: o afeto de um homem desconhecido. Os ensaios que abrem o volume são impessoais; também é lícito conjecturar que Montaigne se havia proposto compilar uma miscelânea, uma coletânea de vários assuntos, ao gosto da época, e que, relendo os rascunhos, reconheceu neles a sua voz, o som de sua alma, e decidiu incorporá-los numa obra que fosse a sua imagem verdadeira”. Por fim, Borges sugeriu: “Seguir a descendência da obra, a multiplicação de sua linhagem por toda a Europa, seria reescrever a história da literatura”.     

Uma salada! - Até hoje os especialistas terçam armas (nosso herói detestava as histórias da cavalaria!) para enquadrar o pensamento de Montaigne, tarefa complicada pelo fato de ele não ter erigido um sistema de ideias como fizeram o Descartes, o Spinoza, o Kant ou o Hegel. Seria ele um filósofo de verdade? Um filósofo moral? Um filósofo acidental? Seria um estoico? Um epicurista? Um cético? Humanista ou anti-humanista? Um teórico da Educação? O inventor do liberalismo? Um precursor da filosofia da práxis? Relativista? Pioneiro do multiculturalismo? Um quase ateu disfarçado de católico conservador? Um pioneiro dos direitos dos animais e das florestas? Um precursor dos blogueiros?

Bem, pode se dizer que Montaigne incorporou um pouco de todos esses atributos, mas não ao mesmo tempo. Uma frase dele, escolhida por Machado de Assis (seu grande fã) como epígrafe da Páginas Recolhidas para chamar a atenção sobre a variedade dos textos da obra, talvez sirva também pra gente distinguir as múltiplas facetas do pensador: “Quelque diversité d'herbes qu'il y ayt, tout s'enveloppe sous le nom de salade”. (“Seja qual for a variedade das ervas, tudo é embrulhado com o nome de salada”).

Bem antes de Walt Whitman, pode se dizer que Montaigne também “continha multidões”, daí uma explicação para o fato de ele agradar ao mesmo tempo públicos de todo o espectro ideológico. De uma salada ou de uma Bíblia você escolhe só o que gosta, não é verdade?

Nosso herói nunca escondeu que era uma pessoa contraditória, eclética. Pelo contrário, até chamou a atenção para isso! Talvez a marca mais forte de seu pensamento, contrariando a doutrina da essência aristotélica, tenha sido a tentativa (éssais) de flagrar o ser humano em ato, em desenvolvimento, em construção, como as correntes do rio de Heráclito (a imagem é dele mesmo). Pode ser que Montaigne tenha sido um cético, mas ele mantinha algumas certezas, ainda que provisórias, e é possível perceber alguns de seus rumos mais nitidamente do que outros.

Imanência - Pessoalmente, acho que ele pode ser considerado um precursor do Spinoza quando nos retrata como seres regidos tanto pela razão como pelas emoções. Também quando trata da natureza como realidade imanente e não transcendente, enovelando a graça e a verdade nos complicados fenômenos naturais na segunda parte da Apologia de Raymond Sebond, um teólogo catalão do século anterior, autor da Theologia Naturalis. Com alguma imaginação, a gente pode perceber ali um rascunho do futuro conceito de Amor Intellectualis Dei do filósofo holandês. Ele ainda me faz lembrar do Spinoza quando defende o grude indissociável do corpo e do  espírito, obviamente ainda na semente do Parmênides. E finalmente quando valoriza a nossa corporeidade (tripas, gosmas, ventosidades, pensamentos e sonhos), tudo muito frágil, sem dúvida, mas suporte de nosso ser no mundo etc. Em Montaigne, me parece que a fisiologia e a psicologia são faces de uma só medalha.

Embora tenha ajudado a preparar o terreno para a revolução de Descartes, ao questionar a tradição filosófica, Montaigne também antecipou algumas importantes críticas ao mecanicismo cartesiano, que continha mais certezas sobre a alma do que sobre o corpo, afirmava que os animais são autômatos sem alma, uma exclusividade nossa por obra do Espírito Santo etc. 

Precursor de Darwin? - Também na segunda parte da Apologia, Montaigne contesta a tradicional ideia de que a humanidade seria a culminação da obra da natureza, de que o mundo teria sido criado para satisfazer os nossos interesses, de que é para nós que o “mundo existe, … brilha o sol, ribomba o trovão”. Nesse texto, que parece um manifesto contra o antropocentrismo, ele dedica grande espaço à equiparação dos animais ao ser humano, reconhecendo a inteligência deles e até as suas linguagens. Na trilha de algumas correntes do cristianismo (mas longe de Santo Agostinho) e do racionalismo, ele os toma como modelos para a sociedade humana, levando em conta que “são muito mais regulados do que nós e se contêm com mais moderação sob os limites que a natureza lhes prescreveu”. Mais, “eles se conduzem de maneira ordeira, sem erudição”. Para Montaigne, formamos com os animais e as plantas uma  comunidade no seio da Mãe Natureza.

Para escrever essas ousadias, nosso filósofo se baseou no testemunho dos pensadores antigos e, claro, na sua própria experiência – “Quando brinco com a minha gata, como saber se não é ela que está brincando comigo?”, escreveu. Por esse motivo foi alvo de ataques de críticos como Nicolas Malebranche, cuja própria salada misturava Descartes com Santo Agostinho. Séculos depois, porém, Montaigne seria vingado pelo florescimento de uma ciência inteirinha dedicada ao comportamento dos animais – a etologia –, alicerçada na teoria da evolução de Charles Darwin e ideias semelhantes às suas.

Aqui me vem à lembrança a Baleia de Graciliano Ramos (outro fã de Montaigne), a cachorrinha que amarra o romance Vidas Secas com suas atitudes e dedicação aos donos, mas também com egoísmo e modorra, e que sonhava com um mundo paradisíaco cheio de preás. “Exatamente o que todos nós desejamos. No fundo somos todos como a minha cachorra Baleia e esperamos preás”, disse Graciliano numa carta à sua mulher, Heloísa.

Tataracrítico de Feuerbach? - Um atrevimento meu (gozação!) é dizer que dois séculos e meio antes de Karl Marx, Montaigne já pregava a primeira parte da lição contida na 11ª tese contra Feuerbach, isto é, que “os filósofos apenas interpretaram o mundo de maneiras diferentes; o que importa é mudá-lo”. Na Apologia, Montaigne percorre várias páginas dizendo exatamente isso, por meio de divertidas ironias contra dois mil anos de extravagâncias proferidas pelos filósofos, cuja imaginação ele compara à dos poetas. “A filosofia não passa de poesia feita com sofismas”, tascou. A filosofia nos apresenta “não o que é ou crê ser, mas o que imagina como solução mais elegante e adequada às aparências”, completou. Essas ironias, porém, não o impediram de dizer logo em seguida que ele próprio havia se tornado um filósofo, embora sem querer! Ele era contraditório? Era, mas e daí?

Agora falando sério: uma faceta importante do nosso filósofo, segundo o professor George Hoffmann, do Departamento de Línguas Românicas da Universidade de Michigan, é que foi ele quem iniciou o primeiro estudo psicológico da natureza humana. No ensaio sobre a experiência, Montaigne compara-se de maneira brincalhona a Aristóteles para dizer que o estudo de sua mente é uma espécie de física. “Eu estudo a mim mesmo… Essa é a minha metafísica, essa é a minha física”, disse. Como já registrei, em Montaigne a fisiologia e a psicologia estão entrelaçadas.

A façanha desse pioneirismo, segundo Hoffmann, foi alcançada com modestos instrumentos, mais precisamente, algumas ideias da Rerum Natura de Lucrécio, que o levaram, na análise da natureza, a trocar as relações entre os meios e fins da tradição medieval pelos nexos das causas e efeitos, afastando, além disso, a teleologia, isto é, a doutrina da finalidade herdada da tradição platônica e aristotélica.

Ainda no capítulo da psicologia, Harold Bloom diz que Montaigne contribui para fixar o cânone ocidental – a lista dos grandes literatos do Hemisfério que o próprio crítico escolheu – porque “um leitor individual pode localizar o Eu, ainda que esse possa ter se desmoronado, usando Montaigne como um guia. Até o advento de Freud, nenhum outra moralista secular nos ofereceu tanto, e agora me parece que o tributo mais acurado que podemos prestar a Freud é vê-lo como o Montaigne da nossa Era Caótica”.

Filósofo por acaso - Para definir o estofo de seu próprio pensamento, Montaigne escreve: “Minhas ideias são as que fez a natureza. Para formá-las procurei não seguir nenhuma regra; e no entanto, por fracas que sejam, quando as quis exprimir e publicar nas melhores condições possíveis, achei de meu dever apoiá-las em raciocínios e exemplos, e maravilhei-me ao perceber a que ponto se amoldam a inúmeros raciocínios filosóficos. A que doutrina se ligam? Só o soube depois de as expor e julgar do resultado: pertenço a uma nova espécie, sou um filósofo que se tornou filósofo por acaso e sem premeditação”.

Os conservadores, puxando a brasa pra sardinha deles, dizem que Montaigne seria uma pedra angular do liberalismo, por centrar as suas preocupações no indivíduo e não nas relações sociais. Acontece que o filósofo, mesmo isolado em sua torre (nada a ver com a expressão “torre de marfim”, que seria inventada apenas no século XIX por Sainte-Beuve) guarda um profundo senso comunitário, muito além da ideia liberal de sociedade como uma coleção de indivíduos.

Vejam o que ele escreve no ensaio sobre o desmentido: “O primeiro sintoma de corrupção dos costumes está no desamor à verdade. A sinceridade é, como dizia Píndaro, o ponto de partida da grande virtude, é a condição primeira que Platão impõe ao governador de sua República”, diz ele. “Entre nós, hoje em dia, a verdade não é o que é, mas o que consegue persuadir os outros”, lamenta-se. Mais adiante, acrescenta: “Nossas relações recíprocas estabelecem-se pela palavra; faltar à palavra é, pois, trair a sociedade, porquanto é o meio de comunicar  nossos sentimentos e nossas vontades e o único intérprete de nossa alma. Se esse intermediário nos falta, desfaz-se a associação, não mais nos reconhecemos uns aos outros; se nos ilude, rompem-se nossas relações, destroem-se os laços que nos prendem”.

Viram? Eu acho que o Montaigne continua atualíssimo e pode oferecer lições preciosas para nos ajudar a refletir sobre as taras da nossa época, na qual a mentira, agora apelidada de fake news, constitui um método de governo para alguns poucos e um instrumento para estraçalhar os laços que unem o povo.

Payoff: Ao terminar essa conversa, que já vai passando da medida, refresco a memória d@s prezad@s leitor@s com a menção feita no primeiro parágrafo à bunda d@ Hermafrodit@ adormecid@, objeto do desejo e das mãos pensas & bobas dos turistas que passam pelo Louvre, se arriscando a levar um processo não por assédio mas por dano ao patrimônio cultural da França. Juro que mencionei essa calipígia não para épater les petits-bourgeois que nos dão a honra da leitura desta crônica, mas simplesmente para terminar os meus imprudentes comentários sobre o Michel de Montaigne com um pensamento dele mesmo sobre a autenticidade do ser humano.

No final do ensaio sobre a experiência, suma de sua filosofia, Montaigne diz que de nada servem os truques que usamos para nos alienar de nossa condição natural, lembrando que é com o nosso próprio traseiro que sentamos no mais alto trono do mundo. Aproveitando essa ideia, o filósofo espanhol José Ortega y Gasset dirá, na Rebelião das Massas, que “o poder não é tanto uma questão de punhos quanto de nádegas (posaderas)”.

Eis o que diz Montaigne: “A graciosa inscrição com que os atenienses homenagearam Pompeu concorda com minha maneira de pensar: ‘És tanto mais divino quanto reconheces que és apenas um homem’ (Plutarco). Saber lealmente gozar do próprio ser, eis a perfeição absoluta e divina. Nós só desejamos condições diferentes das nossas porque não sabemos tirar partido daquelas em que nos achamos. Saímos de nós mesmos porque ignoramos o que nos compete fazer. Embora usemos pernas de pau, temos de mexer as do corpo para andar, e é com o traseiro que nos sentamos no mais alto trono do mundo. As mais belas vidas são, penso, as que se adaptam ao modelo geral da existência humana, as mais bem ordenadas e de que se excluem o milagre e a extravagância”.

Por mais que a gente se julgue importante ou excepcional, carregando nas ilusões e preconceitos, somos o que somos, seres individuais socializados, obrigados a lutar pela sobrevivência no dia a dia com os meios e contra os empecilhos que nos apresentam a natureza e a sociedade, tudo ao mesmo tempo. Nascemos, crescemos, comemos, bebemos, cagamos, vestimos, trabalhamos, rimos, choramos, filosofamos, cantamos e contamos histórias e lorotas durante a jornada. Essa é a lição básica do Michel de Montaigne, pelo menos para mim. Parabéns, Michel, nesta data querida!  

Neiva do Céu, será que eu acabei de escrever um ensaio?

 

Criado em 2020-02-27 21:39:40

Passos de uma longa caminhada

José Carlos Peliano (*) –

Nesses tempos birutas, tais quais aquelas de aeroportos, que a gente olha e ela vai para um lado, mas vai para outro em pouco tempo ao olhar de novo e assim sucessivamente, é preciso pensar bem antes de se levantar da cama, com cautela, e começar a elaborar uma pequena pauta de passos a serem dados em direção ao dia que começa. Em direção a um novo ano que começa porque haverá mais 364 dias pela frente, sim, e assim, desse jeito, todo santo dia. Afinal começamos anos novos a cada dia. E encerramos os passados também.

Não se trata de uma ajuda espiritual ou religiosa, nem pensar; autoajuda, menos ainda; ordem militar, caia fora; conselhos de nossos pais, um pouco pode até ser; papo de amigos, bem assim, mas principalmente um descarrego de luminescências vindas de depois muitos apertos, indignações, sofrimentos, tristezas, passados por nós mesmos. Mas não só isso, trata-se de um grito de resistência vindo lá do fundo do fundo de si mesmo, diante de tanta doideira e destruição solta por aí, comandada pela turma atualmente de plantão no comando do país instalado no planalto central.

Vamos chamar os passos a seguir apenas de passos e não mais do que passos, que podem ser de andar somente, curtindo momentos; de sair correndo, quando for o caso; de dançar, seja um bolero da vida, uma valsa, ou um samba no pé, ou o que der na cabeça e descer à dança dos pés; ou passos para sequenciar atividades e ações necessárias no dia a dia de cada dia nosso. Tudo vale se o vale de cada um de nós ainda valer nesses dias em que o futuro parece não valer nada diante do vale-tudo do governo, destruindo conquistas sociais e trabalhistas adquiridas depois de muita luta nos anos passados em governos democráticos que sabiam dar valor à vida que vale cada um de nós outros.

Um primeiro passo é não perder a verve, a postura, o estilo, o jeans velho de guerra, os amuletos, a sandália, o casaco marrom, e principalmente segurar a alegria para não a perder, assim como a disposição de sorrir, rir em risadas soltas, perceber e sentir a graça das coisas, mesmo sem graça, mas exatamente por isso, a coisa pode ser sem sentido, absurda, mas a um tempo hilária, tipo o “taokei”, que tenta dizer tudo para não dizer absolutamente nada. Manter o jeito de ser do jeito de cada um, sem copiar ninguém, sem se sabotar, sem forçar coisas diferentes já que o diferente é mesmo cada um.

O importante é o passo seguinte. Se o primeiro passo foi com o pé direito, vai agora o esquerdo no segundo passo. Se foi ao contrário, segue o contrário mesmo, sem o grilo de ter começado com o pé esquerdo, afinal os pés não têm nada que ver com as crendices de cada um. Nesse passo agora é saber bem o que se quer levar adiante durante o dia do jeito próprio de cada um. Claro que não dá para ser como um trator sobre um campo de rosas, ou uma queimada voluntária na floresta, nem vale a pena.

O que quer dizer que se deve levantar a bandeira de cada um evitando tropeços, trombadas, paradas desnecessárias, perda da calma. Um certo nível de negociação não faz mal a ninguém, afinal muitas vezes é dela que se consegue vislumbrar melhor o passo seguinte. A vida não é a nossa cara, nem a do outro, ou dos outros, mas é a cara que vai sair do encontro de todos. Se não der para manter exatamente o que se quer, segure bem o que sobrar se for de seu interesse, caso contrário deixe para outra hora. Mas fique na luta.

O passo terceiro é exatamente a consequência do parágrafo anterior. Se for o caso de se deixar para outra hora o que se propôs, não se perturbar, nem se incomodar, tampouco se culpar, o embate é assim mesmo, há dias que se consegue, outros que não se consegue, mas não se perde. Perder é para quem se entrega, não é para quem se empenha e luta até o fim. Com certeza a força, a garra e o compromisso não recompensados serão sim recompensados pela marca da bravura, da tenacidade, da disposição, as quais com certeza estarão sempre presentes no clima do final do embate. E presentes também no clima dos dias que se seguirão porque quem sai na frente saberá que o outro que não foi em seu lugar estará sempre presente em sua sombra em busca de recuperar seu compromisso de luta.

O quarto passo é o de recompor o objetivo não conseguido. Mas, veja bem, não conseguido como tal, mas conseguido até onde foi possível. Momento então de reformular o objetivo mantendo o que se conseguiu e refazendo o que se não se conseguiu. Se achar que não é bem assim, não se perturbe, nem se culpe, mantenha a verve, e refaça, então, seu objetivo de maneira a obtê-lo mais adiante. Preste atenção na água que escorre riacho abaixo, ela se supera não só pela persistência, quanto pela repetição, paciência, até conseguir contornar ou mesmo derrubar o obstáculo de terra ou rocha a sua frente. Ser como a água, mansa, decidida, alegre, cantarolando sua passagem pelas passagens, sem se pentear de glórias, mas de conquistas, até que chegue ao rio ou ao mar, ao seu objetivo final.

O passo a seguir, o quinto, é um passo bem importante. É o de conseguir adeptos ao que se quer. É a velha história de que a união faz a força. Arranjar companheiros de ideais e objetivos para se juntarem na luta pelo que se quer. Quando dois ou mais pensam e decidem juntos com confiança é, em geral, melhor que um fazendo sozinho. O grupo é um ser de várias cabeças que veem e enxergam mais longe.

O sexto passo é o de festejar a própria vida e a luta em levá-la em frente da melhor maneira possível. E festejar sim porque ninguém é de ferro, mas feito de emoções, sentimentos, ideais, amizades, solidariedade, cooperação. Já se disse que “rir é o melhor remédio”. Portanto, seguindo e quando der, festejando e sorrindo.

O sétimo passo é o de conhecer bem o que se quer pela leitura e estudo dos que escreveram sobre o assunto e correlatos ou conversas de aprendizados com quem viveu situações semelhantes. O conhecimento é a chave para se chegar a entender bem por dentro e por fora o que se quer. E levar cada um em frente com boa bagagem para enfrentar os embates. E ter todas as condições de superar os obstáculos. E conquistar o pretendido. É aquela história, quem sabe, sabe, quem não sabe diz asneiras.

O último passo é o mais importante: não sigam os passos anteriores do jeito que estão postos, refaça-os cada um a sua imagem e semelhança. Não se tratam eles de papo de “coaching”. Longe disso, de jeito nenhum. Eles são tão somente reflexões para não despencarmos de nossas insatisfações com o mundo atual e o nosso país. E cairmos na tristeza. Ao contrário, alegria, alegria! O que vale é seguir em frente porque atrás vem gente. Fujam de arautos do paraíso, da bonança, da prosperidade, do bem-estar. Eles se enriquecem com isso, nós continuamos esperando. A desigualdade se supera pela participação de cada um em defesa de direitos iguais para todos do jeito e da maneira que encontrar mais adequada na luta quotidiana. Aprender conhecendo antes ou na ação e fazendo depois. Fazendo bem ao próximo como a si mesmo.
__________________
(*) José Carlos Peliano, poeta, escritor, economista.

Criado em 2020-01-11 23:30:35

Fellini em debate no CCBB-Brasília

O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de Brasília promove, nesta quinta-feira, (17/12), às 20h, o debate Fellini: Il Maestro, com Tânia Montoro e João Lanari Bo e mediação de Paulo Ricardo Gonçalves de Almeida. O evento é online e gratuito, com tradução em libra.

Trata-se de um diálogo aberto sobre o cinema felliniano, seus personagens, diálogos, cenários e histórias. Federico Fellini nasceu no dia 20/1/1920, em Rimini (Itália) e faleceu no dia 31/10/1993, aos 73 anos, em Roma. Diretor e roteirista de cinema, trabalhou como cineasta de 1942 a 1993. Foi casado com a atriz italiana Giulietta Masina, de 1943 a 1993. Leia mais sobre Fellini aqui.

A seguir, o link para o acesso ao debate na plataforma Zoom:

https://us02web.zoom.us/j/87135168460?pwd=bGRIak0vWnlYSFUzaE8vamo2Ymw1Zz09

Criado em 2020-12-17 01:40:03

MTST ocupa loja da Havan em sinal de protesto

Ativistas do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) fizeram compras na loja de Luciano Hang e pagaram tudo com um cheque no valor dívida que ele tem com a Previdência.

Foi uma cena de filme: 50 sem tetos entraram na Loja do Shopping Itaquaquecetuba, na zona metropolitana de São Paulo, no dia 4 de julho, e começaram a encher os carrinhos de compras com tudo que viam pela frente: agasalhos, cachecóis, tapetes, colchonetes, travesseiros, roupa pra criança, pra adulto, pra todo mundo.

A segurança ficou observando a movimentação em uma loja que normalmente fica totalmente vazia. Mas as operadoras de caixa passaram as compras uma a uma, blim blim por blim blim.

Na hora do pagamento veio a surpresa: um cheque gigante de 168 milhões de reais. O mesmo valor que o dono das Lojas Havan, Luciano Hang, deve à Previdência e ao povo brasileiro. As dívidas no INSS e na Receita Federal não combinam com a imagem de bom moço que o conhecido “velho da Havan” tenta vender por aí. Entusiasta da reforma da Previdência, ele é um dos grandes devedores do Estado brasileiro.

A ação, organizada pelo MTST, ocorreu de forma pacífica e bem humorada, como também foi a reação de parte dos funcionários e da segurança - salvo exceções.

A atividade foi inspirada na mensagem motivacional estampada nas sacolas da própria loja: “O Brasil Que Queremos Depende de Nós”.

Criado em 2019-07-06 22:35:33

Eruditraça

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Uma traça mascava livros
como o profeta Ezequiel
ao longo das noites e dias,   
macios, com gosto de mel -

Ah, vida besta a dessa traça -            
Roer, comer, trepar, botar,
fazer filhotes com pirraça -
“O meu destino eu vou mudar”!

Do currículo fez dez cópias
e as remeteu para os diários -
Não passou nem uma semana,
era crítica literária -

Talento igual não existia
nem sabença: tinha estudado
Salomão, Homero e Horácio,
Shakespeare, Cervantes, Machado -

Do mainstream ela surfava
as ondas que nem o Capeta -
Estava em casa na vanguarda,
compunha poesia concreta -  

Feroz voraz no novo ofício,  
tanto crítica mais faminta -
Seus furos inspiraram ao Borges  
o tópico dos labirintos -

Mas a carreira durou pouco
apesar do enorme apetite -
Ela acabou dedetizada
por um tal Augusto Schmidt

“Criança! não verás nenhum país como o seu”!
“Muita coisa escrita”, Brasil, que a traça comeu –

Criado em 2020-03-01 19:42:45

Uma passagem por uma lembrança e um olhar para a vida

José Carlos Peliano (*) –

Assim de repente, do meio do nada, lá dos confins do inconsciente ou sei lá que nome dar a isso, veio pronto e acabado, sem ser chamado, como se dissesse olha aqui de onde nasceram os seus dias seguintes, do que foi representada e significada a sua vida até então. Tinha o apelido de Cacá, menino urbano, lá pelos seus 8 anos, cabelo à Príncipe Danilo, que vivia de casa para o colégio e do colégio para casa, às vezes de bonde, outras a pé, de uniforme e merendeira, paradas rápidas e eventuais por aqui e ali, mas sem estadias demoradas com os amigos no recreio e depois da escola, pois que moravam longe de onde ele tinha casa e sonhos.

Gostava de desenhar, ou para exercitar a imaginação, ou para encher o tempo, ou ainda para recuperar as imagens que mais gostava, ou tudo isso de uma só vez. Vai saber o que se passava, de fato, naquela cabecinha depois de tanto tempo! Mas também gostava de por à prova suas outras habilidades manuais. Construía casas com caixas de frutas vazias, dava uma de carpinteiro mirim, prenúncio de arquiteto de ideias para o papel e de mestre de obras porque ele mesmo punha em pé suas criações. Casas com quartos, sala, corredores, banheiro e cozinha. Como? No quintal ao fundo da loja-casa de seu pai, loja de frutas na frente e casa no fundo.

Cobria os telhados das casas com folhas de zinco que haviam por ali, quando faltava usava das laterais de madeira das próprias caixas de frutas. E ficava brincando de casa ali em baixo com suas duas irmãs, uma mais velha que a outra. Passavam muitas vezes o dia por lá, traziam seus pratos de almoço e lanche e comiam por ali mesmo. Uma casa dentro de outra casa, um sonho dentro de uma possibilidade de sonho, uma realidade de brinquedo dentro da realidade das ruas que se tornou dura com o passar dos anos. Mas Cacá ainda não sabia desde teste difícil da vida, apenas andava de calças curtas e botinhas de couro pelas imagens em ação, a imaginação.

Mas também andava por outras trilhas. Nas sextas-feiras à tarde, quando seu curso primário era feito de manhã, pegava o trem na estação perto de sua loja-casa, sozinho, e ia de Maria-fumaça para a fazendinha do avô a uma hora e pouco de distância. Ali era um sonho feito realidade. Dono de seus narizes, viajava no último carro do trem, no último banco ao lado da janela de onde via por dentro o carro inteiro à frente e a paisagem correndo pelo lado de fora.

Quando parava seus olhos pelo lado de dentro, observava os passageiros com atenção e detalhes e tentava adivinhar suas vidas, seus hábitos e costumes. Um passatempo que veio lhe dando asas à imaginação e a formar ou a expandir uma outra habilidade sua, já natural em si mesmo: o jeito de bater os olhos em alguém e ter uma impressão bem próxima de quem poderia ser a pessoa. Quando podia testava com a pessoa e via que chegava perto do que imaginara. Parava, no entanto, sua atenção por mais tempo nas meninas de sua idade quando o coração batia mais rápido e forte, daquele modo que não tem explicação, em especial quando elas retribuíam seus olhares. Sorria meio envergonhado, desviava um pouco, mas voltava e não tirava os olhos.

Descia na estaçãozinha com cara de desenho animado, depois que a Maria-fumaça interrompia o barulhinho bom da fornalha e soltava um grito mais que apito com um bafo imenso de fumaça como se fora uma baforada intensa de charuto. De malinha de mão ia a pé até à fazendinha passando pela ponte antiga de madeira sobre um rio de águas cor de barro.

Entre as tábuas da ponte já despontavam frestas, algumas mais largas que outras, que exigiam atenção e cuidado de quem passava. No caminho de terra até à chegada da fazendinha passava por vegetação diversa e às vezes por algumas vacas que pastavam silêncio e doçura, exceto aquelas prenhas ou de bezerros novos que costumavam se espantar e se colocar em posição de enfrentamento. Aí Cacá aprendeu aos trancos e barrancos a conviver com o susto e o medo. E principalmente com o como fazer para sair dessa.

Mas meu relato da vida de Cacá acabou indo longe demais, até a fazendinha. Deixemo-lo por lá num de seus sonhos então realizados e voltemos para seu jeito de desenhar. Cacá, já então bem vivido, depois de percorrer muitos mundos pelo mundo, muitas vidas pela vida, muitos sonhos pelo sonho, de repente se lembra de um desenho que fizera ainda em calças curtas. O mais bonito e bem feito deles, perdido algum dia num cantinho de sua meninice. Foi cópia de uma figurinha de um álbum que contava a história do Bambi. Para quem não se lembra Bambi era um veadinho personagem das histórias de Walt Disney.

Cacá escolheu logo a figurinha que mostrava Bambi pulando uma cerca de madeira escapando de um lugar de onde estava para alcançar a liberdade. Um bom prato esse para os “psi” da vida de plantão! Acredito que a primeira impressão não é muito difícil de obter do desenho. Nem mesmo de sua escolha. O que sobra acrescentar é que, de repente, essa imagem trouxe ao hoje velho Cacá o retrato estampado de sua vida inteira até então. Ela veio lá das entranhas do ser para ser o farol que escondido sabe-se lá onde iluminou toda a vida do menino. Que acompanha ainda hoje de mãos dadas o adulto que ficou.

Chama a atenção que o salto de liberdade de Bambi mostra não só o impulso para vencer o obstáculo, mas também e com certeza a disposição e a necessidade de superar as dificuldades para ganhar a satisfação e o dever cumprido. Na época as asas da imaginação de Cacá deram asas a sua imaginação para ganhar o mundo levando à frente seu desejo, vontade e a própria imaginação. De fato, a imaginação gera imaginação e já cria com antecipação o que se quer, como se quer e até onde se quer. Ela predispõe o depois criado antes. Mesmo que a gente não se dê conta.

E Bambi representou para Cacá seus instintos primitivos, originários, naturais, de vida liberta de cercas, de correntes, de mandos. Trouxe a expressão direta da individualidade à toda prova, a todo impulso. O próprio signo da democracia. As individualidades diferenciadas por natureza convivendo na igualdade da liberdade e da vida comum. Ser o que se é para conviver com todos em comunidade.

Nas palavras de Rosa de Luxemburgo: “por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”. A tarefa de Cacá é de continuar sua vida e sua luta para ajudar a si e aos outros a realizarem essas palavras, colocá-las em prática, como ele fez construindo suas casas de caixas de frutas, suas descobertas da Maria-fumaça e de suas viagens que ainda hoje encompridam e recriam sua imaginação. E como o seu desenho antecipou toda sua jornada!

Às vezes sinto que Cacá toma meu lugar quando lhe agrada o momento, outras se recolhe nas suas casas de caixas de frutas, na Maria-fumaça, na fazendinha ou sabe-se lá onde. Mas, uma coisa é certa, ele está sempre comigo.

__________________
(*) José Carlos Peliano é poeta, escritor, economista.

Criado em 2020-01-05 15:22:25

Coletânea literária “Águas d’ilê” nasce em meio à pandemia

O lançamento do livro Águas d’ilê será realizado em live no dia 15 de janeiro, às 19h, no canal www.youtube.com/cristianesobral. A coletânea reúne 18 contistas de diversas cidades brasileiras.

Em meio a uma pandemia mundial sem precedentes nasce a antologia literária Águas d’ilê, inspirada na força feminina e matriarcal negra representada por Oxum. A obra, organizada pela escritora e atriz Cristiane Sobral e pelo artista visual Ricardo Caldeira, reúne narrativas de 18 contistas, com formações diversas e de várias cidades brasileiras, inclusive do Distrito Federal. O livro faz parte do selo editorial Aldeia de Palavras.

Os autores discursam sobre afeto, matriarcado, racismo e oralidades no espaço social comum, a partir de uma perspectiva ancestral africana e indígena.

Com o tema central Águas d’ilê, o livro é um convite para que as pessoas mergulhem em histórias e vivências. A escritora, organizadora da antologia, Cristiane Sobral, afirma: “A água abundante na esfera planetária é fonte de vida e de expressão. Como trama essencial, aqui ostentamos as águas de ler, com uma pluralidade de vozes necessárias que transcendem silêncios seculares com dignidade, reafirmando equidade para existências vilipendiadas, dignas das primazias terráqueas”.

A capa do livro é de Nelson Inocêncio, artista visual e professor do Departamento de Artes Visuais da Universidade de Brasília e membro do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da UnB. O prefácio é de Luana Reis, doutoranda em Literatura na Universidade de Pittsburgh, EUA, ambos pesquisadores em expressões culturais de matrizes africanas em diáspora. Entre as escritoras, as moradoras do DF estão Cristiane Sobral, Gabriela Furtado, Miriam Bispo, Letícia Érica Ribeiro e também Ricardo Caldeira.

Essa obra é resultado de um curso on-line de formação literária que aconteceu durante a quarentena, conduzido pela escritora e atriz Cristiane Sobral. Paralelamente, os participantes tiveram oficina de apresentação profissional e produção gráfica para escritores, conduzida pelo co-criador e diretor de arte do projeto, Ricardo Caldeira. A produção cultural é de Alyne Lima.

Os escritos da antologia são dos autores: Alyne Lima (Brasília- DF), Cax Nofre (São Paulo - SP), Cristiane Sobral (Brasília - DF), Denise da Costa (Fortaleza - CE), Gabriela Furtado (Brasília - DF), Joseane Cantanhede (São Luís - MA), Kátia Rocha (Salvador - BA), Letícia Érica Ribeiro (Brasília - DF), Mirian Bispo (Sobradinho – DF), Patrícia Aniceto (Santos Dumont -  MG), Ricardo Caldeira (São Sebastiao - DF), Sarah Muricy (Campo Grande - MS), Sheila Martins (Rio de Janeiro- RJ), Silvia Carvalho (Rio das Ostras - RJ), Tânia Cerqueira ( Salvador - BA), Thalles do Nascimento Castro (Juiz de Fora - MG), Toni Edson (Aracaju - SE) e Viviane Martins (Campos – RJ).

Obra inaugura selo editorial Aldeia de Palavras

A antologia Águas d’ilê inaugura o selo editorial Aldeia de Palavras, de Cristiane Sobral. Um dos objetivos dessa iniciativa é a inserção de novos escritores e escritoras no mercado das letras. Esse é um movimento simbólico produzido no ano em que Cristiane Sobral comemora os 20 anos da primeira publicação nos Cadernos Negros 23, organizado pelo grupo Quilombhoje Literatura (SP). Na época, estreou com o poema “Não vou mais lavar os pratos”.

“A força motriz do projeto nasceu da necessidade de romper silêncios históricos considerando os caminhos estéticos das escrituras e o compartilhamento de experiências no mercado editorial ainda tão restrito para a população negra e periférica, especialmente para mulheres negras”, diz Cristiane Sobral.

Serviço:
Lançamento virtual do livro Águas d’ilê
Data: 15 de janeiro às 19
Canal: www.youtube.com/cristianesobral
Valor do livro: R$ 40 – pedido de compras pelo Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. ou pelo whatsapp (61) 9 9153-1883 ou (61) 9 9294-5511 (Alyne Lima).

Criado em 2021-01-05 17:05:11

Fenaj denuncia violência e restrições à atividade jornalística

A presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Maria José Braga, apresentou, nesta segunda-feira (1/7), ao Conselho de Comunicação Social (CCS), vinculado ao Senado, relatório tratando de situações que, segundo a entidade, caracterizam ataques e restrições ao exercício da atividade jornalística no Brasil.

O relatório ateve-se aos últimos 15 dias, uma vez que o CCS havia se reunido anteriormente no dia 17 de junho, ocasião em que Braga apresentou o relatório do mês anterior.

Braga iniciou seu informe reclamando das restrições que foram impostas a profissionais dos grupos Rede Gazeta e TV Tribuna em Vitória (ES), neste domingo (30/6) durante manifestações a favor do governo de Jair Bolsonaro e do ministro da Justiça, Sergio Moro. Segundo relato da presidente da Fenaj, jornalistas, produtores e equipe técnica da TV Tribuna foram hostilizados enquanto cobriam o evento de um trio elétrico. Após ataques de parte da organização do evento e de manifestantes, acabaram sendo expulsos do carro de som.

“Os jornalistas foram intimidados e agredidos. Após muita hostilidade, inclusive partindo da própria organização em microfone para os manifestantes, acabaram sendo expulsos do trio elétrico e impedidos de trabalhar. O líder ao microfone dizia que os jornalistas da TV Tribuna, do jornal “A Tribuna” e da “Gazeta” não serviam para noticiar. Foi um ataque generalizado a estes veículos”, lamentou Braga.

A presidente da Fenaj acrescentou que a entidade vem apurando outros casos de ataques e intimidações ocorridos no domingo, durante as manifestações, em outras cidades do país, que deverão constar no relatório de agosto.

Braga também reclamou do fato de jornalistas terem sido impedidos de cobrir, no dia 24 de junho, a entrega da comenda Cidadã Fortalezense à ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, quando ela, na ocasião, representou a primeira-dama Michelle Bolsonaro. O evento ocorreu no Clube Militar, e os jornalistas só puderam cobrir o evento quando começou uma oração religiosa, que marcava justamente o final do evento.

A presidente da Fenaj apresentou ainda seu relatório ao PL 191/2015, que propõe a federalização da apuração de crimes contra a atividade jornalística, que seria feita pela Polícia Federal. Braga reclamou que a Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados tenha rejeitado o projeto, que agora é analisado na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJC) da mesma Casa. Disse que o Brasil é marcado por muitos casos de assassinatos de jornalistas diretamente ligados ao exercício da profissão, e que a apuração e eventual punição dos culpados é comumente atrapalhada por poderosos interesses locais.

“Só no ano passado, cinco jornalistas foram assassinados. Apenas dois tiveram o inquérito policial resolvido, com o apontamento dos culpados. Mas nenhum ainda foi a julgamento. O Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) também apontou recentemente que nos últimos 20 anos, 64 comunicadores sociais foram assassinados em consequência do exercício da atividade. Deste total, somente a metade dos casos teve os responsáveis identificados e denunciados pelo Ministério Público à Justiça, mas isso não significa que foram julgados e punidos”, criticou Braga.

A análise do CCS ao PL 191/2015 deve ser realizada na próxima reunião do Conselho, em agosto.

Criado em 2019-07-02 21:22:55

Sobre junho de 2013: Chico Buarque é que estava certo!

Cristiano Torres –

O Chico Buarque é que estava certo: Lula deveria ter criado o “Ministério do Vai Dar Merda”. Teria evitado diversos erros e dissabores durante os governos do PT. E a esquerda mobilizada nas redes sociais, principalmente aquela que se afastou dos governos do PT, deveria ter feito o mesmo: criado o “Facebook do Vai Dar Merda”. O “Twitter do Vai dar Merda”. E o “WhatsApp do Vai Dar Merda”.

Mas não. Resolveram agir por conta própria. Tomar nas mãos as rédeas da "revolução" e provocar a onça – do mercado, da mídia conservadora, do poder econômico e financeiro – com vara curta. Seguiram o conselho de um monte de anúncios de TV, de refrigerante a whisky escocês, querendo provar que grupos como “O Gigante Acordou” e "Vai Pra Rua” eram demonstrações de democracia robusta, pois todos queriam “20 Centavos a Menos” e serviços públicos “Padrão Fifa”.

Daí, logo passaram a protestar contra um governo popular de esquerda, que em 10 anos criou 20 milhões de empregos formais e retirou 36 milhões de pessoas da miséria.

Pensei com meus botões: “Isso vai dar merda”. E não quis participar da brincadeira. Continuei a fazer o meu trabalho de formiguinha, num órgão da administração federal.

Petralha! Vão gritar. Não me importo. Não mudei de ideia.

Cinco anos depois, a herança: um governo fascista, entronizado “Contra Tudo o Que Está Aí” – inclusive as políticas sociais, o salário mínimo, a previdência dos pobres, os Direitos Humanos.

Óbvio que entrar na onda das Jornadas de Junho de 2013 seria uma roubada. E por quê? Porque ainda me eram frescas as lembranças das manifestações dos Caras Pintadas, em 1992. Eu tinha 17 anos na época e saí para a rua, de cara preta e bandeira na mão, contra o “governo mais corrupto da história”.

Lembro bem do resultado. Ao derrubar Fernando Collor e seu grupo político, o sistema rapidamente se reorganizou e após um curto governo de transição, conduzido por um vice-presidente do PMDB, alçado ao poder por um processo de impeachment (aos mais novos: ele não se chamava Michel, mas Itamar, o segundo de três presidentes “de fato", mas não eleitos, do PMDB), o sistema entronizou o Neoliberalismo Mercadista de Fernando Henrique Cardoso, nosso "profeta", carinhosamente conhecido como FHC.

Um governo tão maravilhoso, tão maravilhoso, que sua grande marca foi permitir que a classe média desse uma volta na Disney, por causa da paridade dólar-real, e que a população pobre tivesse o privilégio de comer frango assado. Surpreendente.

Depois, privatizar, privatizar, quebrar o país três vezes e doar dinheiro público para os bancos não quebrarem o país, de novo.

Ah, sim, e o apagão! O grande presente do FHC ao país.

*

Não, definitivamente as Jornadas de Junho não me pareciam boa ideia. Se sair à rua para derrubar um governo liberal já tinha piorado substancialmente a vida dos brasileiros, sair para protestar contra um governo popular de esquerda só conseguia me causar uma péssima impressão, somada a um gosto amargo de ressaca cívica ultrapassada.

Daí que não foi nada difícil, em junho de 2013, perceber o rumo errado que os protestos tomariam em poucos dias e o efeito desastroso que dele logo resultaria.

Fiquei um bocado desconfiado das primeiras manifestações e, depois de muita confusão na Esplanada, desci, num fim de tarde, para assistir à mobilização em frente ao Congresso. O primeiro fato que presenciei envolvia duas meninas, de 16, 17 anos, ostentando um cartaz escrito: “Queremos a volta da Ditadura!”, além de diversos outros contra Dilma e o PT.

Isso foi em 21 de junho de 2013 – me lembro bem por ser a data de aniversário do Tricampeonato Mundial do México 1970 –, pouco menos de um ano antes da Copa do Mundo realizada no Brasil. Por mais de dois anos, o PSol, o Movimento Passe Livre (responsável pela mobilização inicial das tais Jornadas de Junho), os Black Blocs e outros grupos de esquerda continuaram a participar das manifestações e a fazer número para as aglomerações populares “Contra Tudo o Que Está Aí”.

E continuaram, mesmo depois que as ruas foram tomadas pela extrema direita e por um sem número de animais exóticos, que pediam morte ao PT, a volta da ditadura, a volta da tortura e que gritavam para qualquer adversário: “Comunista! Vai pra Cuba!”.

Continuaram disputando a rua como se fossem uma torcida organizada de futebol, ao longo do período da eleição, até meados de 2015, ou até que a imprensa e grupos conservadores se sentissem seguros o bastante para criminalizar certos inocentes úteis, como alguns supostos Black Blocs e outros mais.

Foi bastante tarde que a esquerda tradicional decidiu se organizar, fazendo frente aos reacionários, com péssimas propostas legislativas – como o pacote anticorrupção da Dilma, que legalizou o instrumento da colaboração premiada, ops, da delação, ops, da deduragem manipulada – e suas próprias mobilizações tardias.

Foi bastante tarde que partidos e organizações – como o PSol ou a Mídia Ninja ou os Black Blocs – perceberam que haviam perdido o controle das ruas, agora tomadas pelo ranço antipopular, antipobre, antinegro, antigay. E foi só então que se vislumbrou a existência de redes clandestinas de informações, espalhando aos quatro ventos do país as mais absurdas mentiras e os mais paranóicos delírios políticos, levando a população a acreditar que um político miliciano, assumindo o poder, seria a resposta “Contra Tudo Que Está Aí”.

Então, a esquerda se uniu, tarde demais, em torno da Dilma, de Lula e do PT!

Verdade? Não, mentira.

Depois do golpe de 2016, depois do falacioso Governo Temer e da prisão do Lula – quando ele, Lula, apontou a possível participação do governo dos EUA e da CIA nas mais que notórias Jornadas de Junho de 2013 –, e de o mundo político assistir, atônito, o País da Cordialidade se entregar pacificamente ao fascismo brutal e inescrupuloso, qual cordeiro levado ao abatedouro, os esquerdistas utópicos, os das redes sociais sobretudo, têm pronta a resposta que, para eles, dá sentido a tudo isso:

– É claro! É óbvio! É tudo culpa do Lula e do PT, todos corruptos e criminosos!

Pois bem, quem sabe esta anamnese possa refrescar a memória de quem ainda tem dúvidas de como se deram os fatos.

Criado em 2020-01-04 12:12:46

”Longe do Paraíso” no Festival de Brasília

O filme Longe do Paraíso, roteiro e direção de Orlando Senna, será exibido hoje (16/12), às 23h, no Canal Brasil.

Esse longa metragem é produzido pela Araçá Filmes e está na Mostra Oficial do 53º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. É a primeira vez que o filme concorre em um festival. Dos seis filmes selecionados para a Mostra Oficial, Longe do Paraíso é a única ficção (os outros cinco são documentários).

Em Iracema-Uma Transa Amazônica e Gitirana, Senna denunciou o falso “milagre econômico” da ditadura, em Diamante Bruto tratou do problema dos garimpos, em Idade da Água chamou a atenção para a diminuição de água potável no planeta, em Longe do Paraíso discute a grave situação agrária do Brasil.

O filme atualiza a questão dos posseiros diante da brutalidade do agronegócio, recorrendo ao mito bíblico de Caim e Abel, a batalha pelo direito da terra. Vamos assistir essa obra que nos trás de volta Orlando Senna à tela e às teles.

Sinopse

Especializado em matar lideranças camponesas, o pistoleiro Kim (Ícaro Bittencourt) comete um erro grave e será executado pela organização criminosa que o contratou. Kim tem um medo sufocante de morrer. A organização decide encomendar-lhe outro serviço, se o fizer escapará do castigo: a morte da líder camponesa Bel (Emanuelle Araújo), sua irmã, a única pessoa que ele realmente ama.

Sobre o Diretor

Diretor e roteirista de filmes como “Diamante Bruto”, “Iracema-Uma Transa Amazônica”, “Gitirana”, “Idade da Água”. Autor de roteiros para tv e cinema a exemplo de “O Rei da Noite”, “Coronel Delmiro Gouveia”, “Ópera do Malandro”, “Oedipus Major”. Seus filmes foram premiados nos festivais de Cannes, Taormina, Pésaro, Havana, Brasília, Rio. Autor dos livros “Xana”, “Um Gosto de Eternidade”, “Os Lençóis e os Sonhos”, entre outros. Foi diretor da Escola Internacional de Cinema e Televisão de Cuba, Secretário Nacional do Audiovisual, diretor geral da TV Brasil, diretor presidente da Televisão América Latina (TAL).

Elenco:
Ícaro Bittencourt
Emanuelle Araújo
Heraldo de Deus
Sonia Dias
Bertrand Duarte
Caco Monteiro

Ficha Técnica:
Ficção, 2019, 106 minutos, Salvador/Bahia
Direção e Roteiro: Orlando Senna
Produção: Solange Souza Lima Moraes
Produtores Associados: Conceição Senna e Orlando Senna
Assistente de direção: Cecília Amado
Direção de Fotografia: Pedro Semanovschi
Montagem: Luiz Guimarães de Castro
Trilha Sonora: David Tygel
Técnico de Som: Fernando Cavalcante
Direção de Arte: Carol Tanajura
Figurino: Diana Moreira
Maquilagem: Nayara Homem
Maquilagem de Efeitos Especiais: Ana Pieroni
Produtores Executivos: Jatir Eiró e Emerson Rodrigues
Direção de Produção: Cláudia Reis

________________
Leia matéria relacionada aqui

Criado em 2020-12-16 15:54:36

  • Início
  • Anterior
  • 55
  • 56
  • 57
  • 58
  • 59
  • 60
  • 61
  • 62
  • 63
  • 64
  • Próximo
  • Fim

Quem somos | Pacto com o leitor | Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros | Política de Privacidade e Cookies | Por que o nome BRASILIÁRIOS

Copyright © 2016 BRASILIÁRIOS.COM.

SiteLock