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Página 22 de 95

Pedestre e andarilha

Zuleica Porto -

Visão monocular e distração congênita me fizeram pedestre – quem anda ou está a pé, segundo o dicionário. Quando ainda era adolescente, sofri um atropelamento sem gravidade e torci o pé ao descer do ônibus, o que me levou a um certo receio por automóveis, ônibus e caminhões, esteja dentro ou fora deles. Porque são feitos de matéria demasiado dura para nossa frágil constituição de carne e ossos.
 
Longe de mim, no entanto, considerá-los meus inimigos. Aceito com gratidão caronas de parentes e amizades motorizadas quando a distância é longa, o sol abrasador ou a noite avançada.

Até já comprei um automóvel, mas o verdadeiro dono foi meu filho, dos dezoito anos até a graduação, quando se mudou para outro continente e vendemos o carrinho branco, que tinha um amigável adesivo do Darth Vader.

Quando exercia a função de bancária, ia de ônibus para o trabalho. E coleguinhas motoristas questionavam como conseguia “sobreviver” nesta cidade feita para automóveis.

Uma delas, cheia de boa vontade, chegou até a me inscrever numa autoescola. Agradeci e recusei. E todos os dias atravessava o cerrado, da L-2 Sul até a beira do Lago Paranoá, pois era no Setor de Clubes Sul o meu aprazível local de trabalho.
 
Além de pedestre, sou também andarilha – segundo o dicionário, a que caminha muito. E gosto. Caminhar vicia. Já me explicaram que o ato libera endorfinas. Que sejam bem-vindas, as endorfinas.

E como João do Rio (RJ, 1881-1929), “eu amo a rua”. João tinha um nome longo como se fosse um rebento da realeza – João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto. Hoje tem uma rua, a Paulo Barreto, em Botafogo.

A homenagem, diz Graciliano Ramos, “é modesta: ofereceram-lhe uma rua curta”. Logo para quem tanto amava a rua! Este andarilho, cronista do Rio que incorporou a cidade em seu nome, escreveu, entre outros, um livro chamado “A alma encantadora das ruas”.

Logo na primeira página, João oferece ao leitor a fria definição do dicionário para a palavra “rua –do latim ruga, sulco. Espaço entre as casas e povoações, por onde se anda e passeia”.

Acrescenta que consultou vários deles, além de vinte enciclopédias e não encontrou a informação que buscava: a rua tem alma. “Em Benares ou em Amsterdão (sic), em Londres ou Buenos Aires, sob os céus mais diversos, nos mais variados climas”, João do Rio diz que a alma da rua é generosa, oferece “luz, bem-estar, comodidade, o adejar das árvores e o trinar dos pássaros”.
 
Esse João do Rio poderia ser o “João de Brasília” se a ela chegasse numa máquina do tempo, porque por aqui temos muitas árvores e pássaros que certamente lhe agradariam.

É bem verdade que no Plano Piloto de Lúcio Costa não existem propriamente “ruas” e nossos endereços espantam os visitantes. O urbanista definiu que “quanto à numeração urbana, a referência deve ser o eixo monumental, distribuindo-se a cidade em NORTE e SUL, as quadras assinaladas por números, os blocos residenciais por letras”.



E assim, nas duas Asas, vivemos nas SQNs ou SQS, que o brasiliense legítimo já considera a forma mais lógica e fácil de localização. Mas o amor da rua permanece, e algumas quadras comerciais ganharam apelidos pelos quais são conhecidas, como a Rua da Igrejinha, a Rua das Farmácias, a Rua das Elétricas, a Rua das Noivas. E uma, por sua arquitetura peculiar, não é rua nem quadra, é a Babilônia.

Embora sejam escassas e precárias as calçadas, e frequentemente interrompidas pelos caminhos asfaltados, domínios dos automóveis, as “ruas” brasilienses são fartas de árvores que oferecem sombra, frutas e flores para os passantes, os insetos e as aves, grandes e pequenas.

Uma amiga que entende muito desses seres ensinou que todo passarinho é ave, mas nem toda ave é pássaro. Dos pequeninos beija-flores às grandes curicacas, temos também sabiás, bem-te-vis, quero-queros.

E as tesourinhas, que acabaram batizando trechos viários e um bloco de carnaval. Sem falar nas corujas, as “buraqueiras” que nos encaram carrancudas. Outro dia, encontrei um gavião, serenamente passeando na calçada esburacada.

A vegetação densa foi vindicada por Lúcio: “as grandes quadras (...) emolduradas por uma larga cinta densamente arborizada, árvores de porte, (...) com chão gramado, arbustos e folhagens”.

Frondosas, elas hoje batizam as estações: temos o tempo das sibipirunas e cambuís, que é o mesmo da safra das mangas; o dos flamboyants; o das quaresmeiras, e o tempo dos ipês gloriosos, quando o inverno seco e frio se enfeita de rosa, de amarelo, de branco e o chão se cobre da neve tropical que são os flocos despejados pelas paineiras.

Os gramados bifurcam-se em caminhos que batizamos “de rato”, e que lembram os das pequenas aldeias interioranas e podem dar no cerrado que nos cerca, lamentavelmente cada vez menos.

Fazem falta, nas ruas de Brasília, bancos para caminhantes sentarem e fontes que lhes matem a sede. Pois são longos os trajetos na cidade espalhada.

Esses singelos equipamentos urbanos, certamente menos custosos que os viadutos que nunca faltam para os automóveis, tornariam mais aprazíveis as caminhadas, sejam elas por gosto ou rumo ao trabalho, à escola, ao mercado.

E certamente incentivaria a prática do esporte que o João do Rio considera também uma arte – a de flanar. Em que consiste? Esclarece o cronista que é “ser vagabundo e refletir, é ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem”, enfim, sair por aí sem fazer nada, levado por um som que atrai, uma imagem que intriga, um perfil que seduz. “Perambular com inteligência”, resume.

Pois com João concorda o urbanista de Brasília, que quis “oferecer aos moradores extensas áreas sombreadas, para passeio ou lazer”, de forma que a cidade fosse “cidade parque, íntima, lírica e bucólica”.
 
É inútil, a criatura que flana? À primeira vista, sim, como equivocadamente são consideradas inúteis as artes nesses duros tempos mercantilistas. Mas seríamos quase máquinas se não tivéssemos artistas, não é mesmo?

Embora nossa arte seja bem humilde, nós temos nossa modesta utilidade, acreditem. Damos informações a pessoas perdidas, por exemplo.

Trabalhadoras em busca da casa da patroa, doentes procurando o hospital, costureiras que querem saber onde fica o armarinho mais próximo. Mesmo os motoristas visitantes que se perdem nas “tesourinhas” e entrequadras param seus carros para nos perguntar onde é tal endereço.

Sabemos onde fica tudo, porque passamos pertinho. Até sabemos onde é a oficina que fica debaixo da goiabeira. Eu sei, mas não conto aqui não. Só se alguém passar por mim e perguntar.

Outra utilidade é a de não ocuparmos quase espaço. Só o do nosso próprio corpo. Portanto, não engarrafamos o trânsito. Não ocupamos vagas de estacionamentos. E quase não poluímos o ar, o gás carbônico que expelimos é só mesmo o da expiração.

Então, merecemos mais cuidado por parte de quem administra a cidade, não merecemos?

Criado em 2016-09-01 13:59:04

Entrevista: Fernando Madeira – entre trilhas errantes, estar atento

Maria Lúcia Verdi —

O artista visual Fernando Madeira é formado em arquitetura e restauração, nascido em Angra dos Reis e estabelecido em Brasília, onde é referência. Trata-se de um artista que consegue entrelaçar exemplar e esteticamente vida e obra, algo incomum.

Segundo a psicanalista Ana Vicentini de Azevedo, “o trabalho de Fernando Madeira torna visível a tensão temporal que preside o ato de avivar o passado [...] se presentifica [em sua obra] a saturna melancolia [...] Nessas formas grandiosas, monumentais, podemos ouvir o som melancólico de perdas transformadas em enigma [...]”.

Participaram desta entrevista o pintor e professor do Instituto de Artes da UnB, Pedro Alvim (PA) e Mariana Madeira (MM), filha do artista.

A seguir, a íntegra da entrevista:

Sua obra é marcada pela formação em arquitetura, especialização em restauração e o trabalho desenvolvido no Iphan.  Percebe-se nela a objetividade e a subjetividade perfeitamente entrelaçadas no encontro com materiais e ruínas que são aproveitados resultando em um diálogo ao mesmo tempo participante e silencioso com o seu tempo e seu entorno. Tudo isso tem a ver com uma filosofia?

Fernando Madeira – Meu contato com a arte vem desde a infância quando observava com muito interesse os artistas viajantes que retratavam as ruas, os casarões e as igrejas de Angra dos Reis, cidade colonial onde nasci. Aos 7 anos, fiz meu primeiro álbum de desenhos a lápis de cor. Era um presente para minha mãe que comemorava seu aniversário no mesmo dia que eu, 14 de maio.  Em uma comemoração de 7 de setembro, no Rio de Janeiro, aos 14 anos, desfilei com a escola em frente ao Ministério da Educação e Saúde, hoje Palácio Capanema. Foi uma experiência muito marcante. Fiquei impressionado pela beleza do prédio, a arquitetura, os painéis de azulejo, esculturas e jardins. Um deslumbramento mesmo! Um ano depois, visitei o Museu de Arte Moderna, provisoriamente instalado no mezanino daquele edifício. Outra surpresa, conhecer o acervo de arte moderna.

Fiquei dividido entre três escolhas profissionais: belas artes, arquitetura e agronomia. Optei por arquitetura, que considerei mais atraente e promissora para entrar no mercado de trabalho. Com isso, consegui minha independência financeira e saí da casa de meus pais aos dezenove anos, ainda no primeiro ano da faculdade.  Como aluno, aprendi a desenhar e aquarelar modelos vivos e paisagens, tive aulas de geometria, perspectiva, desenho técnico; noções de proporção, além de cursos muito detalhados de história da arte e de história da arquitetura, disciplinas que, posteriormente, lecionei em duas universidades sem me adaptar à vida acadêmica.

Em Paris, durante a década de 1970, completei minha formação em urbanismo e em restauração de monumentos antigos, que demandava apresentações em forma de desenhos e pinturas.  Em Paris, tive também a oportunidade de conviver com artistas e seguir uma rotina de exposições em museus e galerias.

A experiência de viver durante um ano em Nova York foi marcante pela convivência com artistas e pela efervescência do movimento artístico da cidade no final da década de 1970. Momento de auge da pop art, do minimalismo e das performances.  Ali realizei um único filme de 12 minutos, em 16 mm, I love NY, uma homenagem à cidade.

Nunca houve conflito para mim entre arquitetura e a arte. Trabalho nas duas com o mesmo prazer, vivendo os impasses e dúvidas que se colocam ao arquiteto e ao artista. No trabalho artístico, há mais liberdade, apesar dos longos momentos de angústia ao terminar uma série até encontrar um novo caminho. Ele surgia pouco a pouco, foi acontecendo. A arquitetura, por ser utilitária, impõe mais limites e condições.  Não sei bem se há uma filosofia, mas sinto que há uma coerência em minha história pessoal entre esses dois mundos: em ambos, há construção, projeto e ato construtivo.

A mostra “Conservar o tempo”, no Museu Nacional, ficou-me na memória como um grande acontecimento cultural desta cidade tão contraditória. Como é sua relação com Brasília?

F.M. – “Conservar o tempo” é o título de uma das 32 gravuras-não gravuras – série que fiz no início dos anos 2000, utilizando técnica mista, papeis usados para limpar as matrizes de gravuras em metal. Essa série surgiu quase como uma resposta a uma exposição que vi em Sydney e que me marcou muito, “De Whistler a Lucian Freud”.

Gravuras-não gravuras são composições de imagem e texto, reflexões, aforismos, dizeres que remetem às minhas inquietações sobre arte. A exposição do Museu Nacional é uma antologia, não uma retrospectiva, embora ali houvesse trabalhos do início de minha atividade como artista até as últimas obras.

O tempo é uma de minhas obsessões. Ele é intrínseco ao trabalho de restauro que pretende preservar e manter bens patrimoniais para as gerações futuras. O tempo do restauro é um tempo distinto dos tempos modernos. É um trabalho que quer estancar a velocidade do desgaste provocado pela ação do tempo.

Vivo em Brasília desde o início dos anos 1980. Vi a cidade pela primeira vez no ano de sua inauguração e percebi o que é erguer uma capital em tempo tão curto. Em ritmo veloz, a cidade até hoje se constrói e se modifica em todos os aspectos.

Minha relação com a cidade é contraditória, de perplexidade. O tombamento como patrimônio da humanidade consegue preservar o desenho urbano e frear um pouco a especulação imobiliária ao mesmo tempo em que cria enormes empecilhos para algumas alterações que se tornaram evidentemente necessárias. Tenho sérias críticas à cidade.  As quadras comerciais, por exemplo, precisavam urgentemente ser remodeladas. Como nós mesmos, as cidades estão em mudança permanente.  

Aqui passei a maior parte da minha vida. Tenho muita gratidão por esta cidade pois aqui iniciei minha trajetória como artista, trabalhei muito, aqui minha filha cresceu e estudou, meus netos nasceram, consolidei antigas amizades e fiz novos amigos.

Aqui também realizei uma antiga obsessão: tornar-me agricultor. Comprei uma fazenda em Goiás que obviamente não deu certo. Troquei-a por uma chácara, mais acessível e mais próxima de Brasília. Cultivei, plantei centenas de árvores e criei animais, experiência que durou quase 40 anos.

Hoje participo, embora de forma discreta, da vida da cidade. Frequentei ateliês e conheci artistas. Fiz muitas exposições e, pela primeira vez, tive meu próprio ateliê e pude desenvolver um trabalho próprio. 

Em contraposição à escala exacerbada dos poderes – o que me incomoda!  - descobri uma cidade dentro de um bosque, suas árvores retorcidas, suas florescências. Descobri também uma Brasília pequena nos papéis catados, nos restos encontrados pelos caminhos, nos pigmentos coloridos pela terra do cerrado, base para meus trabalhos, uma espécie de anti-monumentos.

(Pedro Alvim: “O trabalho de F.M. recoloca, de uma forma própria, a questão filosófica que busca por em relação termos como acaso e necessidade, ou liberdade e contingência. [...] Cada obra é como uma nave em trânsito, movida por uma permanente ressignificação das operações que a constituem, em direção a um ponto de chegada imprevisivelmente atrelado ao seu ponto de partida”.)

Dos anos iniciais para cá, como você vê as transformações mais importantes pelas quais passaram seu processo de trabalho e as questões que o motivam enquanto artista? O que mudou? O que permanece? Como relacionar essas mudanças com o que aconteceu à sua volta? (P.A.)

F.M. – Houve sim mudanças ao longo dos anos. No início, estive mais focado na pintura. Menos nas colagens e bricolagens. Era natural. Mais treinado como arquiteto, precisava encontrar um gesto artístico mais intuitivo, mais expressivo.  Com o tempo, as exigências foram aumentando, demandando mais rigor e maior sofisticação. Os primeiros trabalhos são mais explosivos, mais espontâneos, talvez por isso mesmo mais fortes.  Segue-se uma fase mais introspectiva, talvez lírica. Época em que trabalhava muito intensamente em restauro, projetos, dossiês de tombamento e obras. O sentido da construção, a arquitetura, permanece como o vetor dominante em todo meu trabalho. Surgiram diversos convites para participar de exposições coletivas. Momento de angústia em que não sabia bem onde queria chegar. Por acaso encontrei esta frase em um livro zen: “Caminhos, há caminhos mas ninguém para percorrê-los.” Com este insight, intensifiquei minhas andanças matinais e interpretei à minha maneira o aforisma: “Caminhos, gravetos, mistérios. Ninguém para percorrê-los e encontrá-los. Percorri. Encontrei. Mas não os desvendei” – título de uma das instalações que surgiram dessas andanças e que foram expostas em vários espaços em Brasília, São Paulo, Washington e Lisboa.   Por último, pude dedicar-me mais inteiramente à arte e isso ficou refletido nos trabalhos mais recentes. Percebo uma utilização mais rítmica do desenho, uma harmonia maior nas colagens tendo, a pintura como acabamento. O trabalho passou a ser produzido com mais lentidão - menos afoito -, mais cuidado e mais tranquilo.

Como você percebe a relação entre o aspecto processual e o aspecto figural das obras? Como vivenciou, ao longo dos anos, nessa experiência de trabalho com as obras, a interação entre acaso e necessidade? (P.A.)

F.M. – Os primeiros trabalhos são figurativos, máscaras, retratos e seres mitológicos, com uma pegada surreal. Talvez por sofreguidão ou por necessidade, apesar dos erros, a mão parecia acertar e a mente aceitava. Não podia perder tempo com acertos. Os trabalhos saiam duros, fortes, muitas vezes errados, mas assim mesmo certos.  O processo era “vamos fazer já” e a figura aparecia. Foi uma fase em que produzi muito. Em seguida, começo a recolher refugos das obras de restauração, em prédios e igrejas antigas de Goiás. Surgem trabalhos em técnica mista, assemblagens, colagens e pinturas. Pouco a pouco, há um abandono da representação que se acentua com o predomínio da colagem.  Desde a escolha dos materiais - o gesto de catar papeis - vão surgindo formas e novas cores, uma ampliação da paleta anterior em que predominavam tons pasteis e terrosos.  Colando, bricolando simplesmente, papeis e outros materiais, surgem formas  e relevos;  avançando, de acidente em acidente, acolhendo os acasos, os trabalhos vão se tornando composições mais abstratas, como em Peles ou em Texturas da memória, por exemplo. Acontece, de repente, que saídos dos fragmentos, objetos e seres se revelam, dissolvendo a distinção entre abstração e o figural. Outras vezes, como nas últimas séries Serras Gerais e Relíquias, os temas escolhidos já são um guia para a elaboração das obras.

Você é casado há 50 anos com Angélica Madeira, reconhecida professora e ensaísta e alguém que consegue escrever sobre sua obra ao mesmo tempo com sensibilidade e distanciamento crítico. O amor é fundamental?

F.M. – Entre nós sempre houve muito respeito em relação aos planos de vida de cada um, às trajetórias profissionais, onde morar, viagens. Moramos em diversos lugares, juntos ou separados, mas sempre nos encontrávamos. Passamos longos períodos longe um do outro, com a certeza de que isso não iria nos separar. Foi bom assim. Não me arrependo.  Longe ou perto, ela estava presente em minha vida. Sempre a admirei, alegre, inteligente, sabe o que quer, cheia de ideias, generosa, meio mandona, meio complexo de rainha. Talvez por termos cada um de nós conquistado um jeito independente de ser, ela consiga se distanciar e escrever com isenção e lucidez.  Amor é sim fundamental. Nunca pode faltar.

Nesta etapa da civilização em que há tanta luta para a inclusão dos diferentes, você poderia nos contar um pouco o que vem aprendendo com seu neto, o Ivan?

F.M. – Considero o Ivan, meu neto, uma pessoa muito especial. Não apenas por ser autista. Especial para mim. Assim também como meu neto mais novo, Diogo, também especial em um sentido diferente. Várias vezes os dois trabalharam juntos, no ateliê, lado a lado, na mesma prancheta, com muita harmonia.

Uma pessoa especial, quando encontra uma casa receptiva, aberta, consegue desenvolver suas habilidades e potenciais. Com o Ivan, desde muito criança, tenho uma relação que só aumentou em amor, entendimento, paciência e compreensão. Adoramos estar na companhia um do outro.

Admiro inúmeros aspectos de sua personalidade, sua pureza, sua alegria, sua elegância e a facilidade de contato humano. Ele tem dois interesses principais, a música e o desenho. É vocalista de uma banda de rock, a Time Out, e há anos frequenta meu ateliê. Trabalhamos cada um em uma prancheta, muito concentrados no que estamos fazendo. Eu mostro a ele papeis, pinceis, tintas, canetas e digo como utilizá-los. Nunca de forma impositiva. Ao terminar algum trabalho, discutimos e conversamos sobre o que estivemos fazendo. 

Às vezes ele me pede para “consertar” o que ele acha que está errado. Após alguma insistência, interfiro minimamente: alguma sugestão de cor, um pequeno detalhe.  Ele desenha e pinta com muita rapidez, deixando muitos trabalhos não acabados. Ele gostou da ideia de que eu pudesse reaproveitá-los, dizendo-me mesmo como utilizar aquele material por ele rejeitado. Isso resultou em uma série de obras de desenho-colagem-pintura e fez com que ele se interessasse pela colagem. 

Realizamos alguns trabalhos em conjunto. Alguns deles hoje perdidos. Mas o mais importante de tudo é como o Ivan mudou radicalmente minha maneira de ver o mundo; trouxe uma compreensão de como pode ser transformadora e contagiante a experiência de seu convívio.

Aos 80 anos, tendo visto, vivido e produzido muito, como você vê este momento quase inqualificável que estamos vivendo no planeta? Como você lida com a renúncia?

F.M. – É realmente inqualificável esse tempo. Minha geração e mesmo a dos mais jovens não conheceram esse flagelo que atualmente está sendo experimentado no mundo inteiro. Parece estar havendo uma volta atrás. Muitos direitos já conquistados, sendo perdidos. Muita injustiça. A natureza sendo destruída. Muitas promessas não cumpridas. Muitas utopias abandonadas. O que fazer? O que podemos aprender com tudo isso?  Renunciamos? Alienamo-nos? Chegou-se a um limite. Todos temos que renunciar alguma coisa. Agora sinto-me mais um espectador de meu tempo, embora mantenha um espírito inconformado, revoltado.

Nesse tempo, permaneço em casa, não trabalho. Ando apreensivo embora não esteja triste. Não sei quando poderei voltar ao ateliê. Sou disciplinado, fiquei mais paciente. Não concordo com o que está acontecendo. Não sou otimista nem pessimista. Vejo o mundo indo para o brejo. Será em breve?  Gostaria de participar de uma utopia, uma mudança para um mundo mais igualitário onde não houvesse tanta discrepância entre a riqueza e a pobreza, um mundo menos destrutivo, mais amoroso. Será que nessa terra ou só em outro planeta?

Em que medida a prática espiritual influenciou o trabalho artístico e serviu/serve como fonte de inspiração para sua produção? (M. M.)

F.M. – Todo artista ao criar necessita concentrar-se. Seja poeta, músico, ator, arquiteto ou bailarino. Não há como criar sem estar muito focado naquilo que está sendo feito. No início, é preciso relaxar. Muitas vezes, ao chegar ao ateliê, sinto-me preocupado, confuso, com muitos pensamentos. Ponho-me em silêncio por alguns minutos esperando que se dissipem as tensões. Em seguida, começo a desenhar, a brincar com as tintas e papéis, querendo descobrir algum interesse naquilo. Às vezes surge alguma ideia que me interessa, uma pequena descoberta, um novo caminho. Esse simples treinamento da subjetividade tem um lado espiritual.

O ateliê é um espaço propício à criação: calmo, silencioso, voltado para as copas verdes das árvores, com boa música, cheio de livros e revistas de arte. Um convite à quietude, à permanência serena, à concentração. Erro muitas vezes, principalmente quando iniciei, há mais de 30 anos. Acostumei a aceitar o erro e reparei que muitas vezes o erro era um acerto.

Acredito que no conjunto de meus trabalhos, aqui ou ali, essa forma de espiritualidade pode estar presente, nas entrelinhas, embora não de forma muito explícita, em vestígios e detalhes. Em algumas séries crucificadas – como nas pinturas de Açougue barroco e Cães e festas (2000), ou ainda Árvores crucificadas que pintei nos anos iniciais, ainda na década de 1980 – os temas religiosos aparecem de forma mais nítida. As duas primeiras séries estão impregnadas de minha experiência no interior das igrejas antigas de Goiás e Tocantins onde trabalhei como restaurador. Elas trazem algo dos ex-votos e das pinturas toscas dos retábulos ou tetos, figuras um pouco deformadas, em tons de vermelhos terrosos, sob uma luz branca, lunar, meio mística. Já a série Árvores crucificadas tem a ver com uma sensibilidade e uma dor pela destruição da natureza: árvores pregadas em cruzes, madeiras calcinadas, sacrifício das árvores.

Recupero, conserto, reciclo, descubro, crio e ponho em cena ideias que sempre me fascinaram: a ação do tempo sobre coisas e pessoas, as ruínas, o envelhecer, o respeito à beleza daquilo que não tem mais serventia.

Criado em 2020-07-07 20:09:58

Torquato instagrameando há 50 anos

Angélica Torres –

Esses encontros inesperados do tempo na espiral dele próprio mais uma vez me brindam, quando, lendo Torquato Neto Essencial (Autêntica, org. Italo Moriconi, 2017) e já quase ao final dos registros de seus escritos, observo a sincronia da data deste intitulado “Material para divulgação”: 19 de outubro de 1971!

Parei aí, boquiaberta com a antena, sequiosa por imagens, desse poeta da Tropicália suicidado aos 27 anos. Torquato entre poemas, letras de canções, crônicas brilhantes e outros textos (alguns que são besteiras de menino ou curtições poéticas), sempre provocando surpresas com a lucidez de quem enxerga na escuridão a uma distância espacial de meio século antes!

Entre as mídias que experimentou em sua curta vida, o cinema nos últimos três anos o deslumbraria, a ponto de se tornar um grande entusiasta da câmera superoito. Suas inequívocas propagandas para o equipamento, e para a indústria cinematográfica como um todo, tinham entretanto o intuito de incentivar a produção independente no país.

A crônica “Material para divulgação”, publicada em sua coluna Geleia Geral, mantida no jornal Última Hora entre agosto de 1971 e março de 1972, marca o nascimento dessa paixão – que não chamaria tanto a atenção não fosse o seu enfático apelo para o que hoje é a crônica, ou o arroz com feijão, não só da rapaziada, mas da população de todas as idades da Terra inteira.

O poeta anteviu a atividade frenética de documentar tudo em fotos, vídeos, áudios, o que, em pouco menos de meio século depois, o celular viabilizaria a qualquer cidadão.

Sabe-se lá se vivo estivesse estaria satisfeito com a reviravolta comportamental e os reflexos na vida profissional que trouxe a tecnologia... Sabe-se lá se não estaria reclamando, puxando orelhas, como costumava fazer, com toda a autoridade de seus 20 e poucos anos, quando desaprovava invencionices que o desagradavam. Impossível saber, claro. No entanto, esse seu texto pode entrar para o panteão das “relíquias do Brasil”.

Transcrevo aqui abaixo na íntegra, porque diz tudo, por si.

Material para divulgação

"Pegue uma câmera e saia por aí, como é preciso agora: fotografe, faça o seu arquivo de filminhos, documente tudo o que pintar, invente, guarde. Mostre. Isso é possível. Olhe e guarde o que viu, curta essa de olhar com o dedo no disparo: saia por aí com uma câmera na mão, fotografe, guarde tudo, curta, documente. Vamos enriquecer mais a indústria fotográfica. Mas pelo menos assim, amizade: documentando, fotografando, filmando os monstros que pintam, pintando sempre por aí com o olho em punho, a câmera pintando na paisagem geral brasileira.

Escrever não vale quase nada para as tranças difíceis desse tempo, amizade. Palavras são poliedros de faces infinitas e a coisa é transparente – a luz de cada face distorce a transa original, dá todos os sentidos de uma vez, não é suficientemente clara, nunca. Nem eficaz, é óbvio. Depende apenas de transar com a imagem, chega de metáforas, queremos a imagem nua e crua que se vê na rua, a imagem – imagem sem mais reticências, verdadeira. A imagem é mais forte, não brinca em serviço, brinque. Não brinque de esconder com seu olho: veja e fotografe, filme, curta, guarde.

Documente: toda imagem é uma espécie de painel, planos gerais não são apenas uma barra de estilo, o indivíduo é literário (a literatura é irmã siamesa do indivíduo), planos gerais são por necessidade: cumpra essa de escrever somente o que não pode ser de outra maneira e não tem mais outro jeito – como sempre –, e aproveite para curtir a transa do nosso tempo da nossa precisão: vai inventando, vamos todos inventar como no jardim de infância, descobrindo, descobrindo, revelando, deixando pronto, guardado. Vamos guardar as imagens desse tempo, sair na rua e fotografar. Ou prefiro, "fazer cinema"? Ou prefiro contar história?

Outra vez: veja e guarde o que você pode ver. Os filmes no mercado são sensíveis, coloridos, fáceis, 3 minutos cada, superoito. Um filminho destes, revelado e tal, custa pouco nos lugares certos. Mas é possível conseguir filmes ainda mais baratos, em preto e branco, muito mais sensíveis e que podem ser revelados em qualquer laboratório. São filmes que podem ser utilizados com muito pouca luz, a luz que pintar; funcionam quase no escuro: usa essa chance de não deixar passar nada que possa ser visto e guardado. Há muita câmera para alugar por aí, se informe a respeito e comece a experimentar por aí.

Quem vai documentar isso? Quem vai guardar as imagens que o cinema dos cinemas não exibe? Quem vai nessa?  Quem vai dar para depois as imagens da festa dessas cores nas ruas do país e nos corpos do beco?

Invente. Uma câmera na mão e o Brasil no olho: documente isso, amizade. Nāo estamos do lado de fora, e do lado de fora é a mesma transa: underground, subterrânea etc. A realidade tem suas brechas, olhe por elas, fotografe, filme, curta dizendo isso. Tem sua beleza: a paisagem não sustenta o teu lirismo, pode mais do que ele, campa com ele e isso é bonito. Organizar arquivos da imagem brasileira desses tempos, cada qual guardando seus filminhos, até que o filme esteja todo pronto. Planos gerais, retratos da paisagem geral, arquivos vivos, as fachadas, os beijos, punhaladas: documentar tudo, pode crer: é isso.

Soluções técnicas e vantagens econômicas. Veja e guarde. Não valemos sem nada como testemunhas de nada, mas o que fizemos fica e guarda o que se vê. Propostas para uma visão urgente do fogo. Curtindo agora mesmo. As imagens: gravando tudo. Ou não falei?” (Torquato Neto, 19/10/1971)

Criado em 2020-10-20 01:55:25

Encontro FHC-Lula esquenta semana na política

Romário Schettino –

A semana que passou foi marcada por acontecimentos relevantes para a política nacional. Primeiro, acordamos com a operação da Polícia Federal contra o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e a tentativa do Procurador Geral da República, Augusto Aras, de reverter a ação porque não teria sido ouvido. Detalhe não ignorado pelo ministro Alexandre de Moraes, que mandou informar à PGR assim que fosse cumprida a diligência.

Depois, passamos dois dias assistindo ao constrangedor depoimento do general, ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, na CPI da Pandemia. As mentiras e contradições serão exibidas na próxima semana, mas já se sabe de antemão que Bolsonaro saiu dessa mais queimado do que quando entrou na história.

O desespero de Bolsonaro aumenta a cada semana que passa. As pesquisas de opinião, que dão Lula na frente no primeiro e no segundo turno das eleições de 2022, arrepiam os cabelos do negacionista mor, que tenta colocar o seu bloco, cada vez menor, na rua. Amanhã, 23/5, tem desfile de motoqueiros entre Copacabana e Barra da Tijuca.

Jean Wyllys – De Barcelona veio a notícia de que o ex-deputado Jean Wyllys deixa o PSOL para se filiar ao PT. Jean está exilado na Espanha desde final de 2018, quando renunciou ao seu terceiro mandato diante das graves ameaças de morte que sofreu durante a campanha eleitoral. O ato de filiação ao PT será feito on-line. O sectarismo de setores do PSOL tem criado dificuldades na formação de ampla aliança para derrotar Bolsonaro. Talvez, por isso mesmo, o próximo a deixar o PSOL seja o deputado federal Marcelo Freixo. A ver.

Lula e FHC – Mas o acontecimento mais simbólico e importante foi o encontro entre Lula e Fernando Henrique Cardoso. A foto divulgada, feita pelo Ricardo Stuckert, traduziu bem o momento, ambos usando máscaras e cumprimentando comme il faut, com um breve toque de punhos cerrados.

O almoço foi na casa do ex-ministro Nelson Jobim, amigo em comum, regado com uma avaliação do cenário político nacional e a convicção de que é preciso derrotar Bolsonaro em 2022 e varrer o bolsonarismo da política brasileira. O Jornal Nacional da TV Globo deu ampla cobertura e repercussão.

Alguns tucanos e Ciro Gomes não gostaram do encontro, mas a maioria dos que pensam um pouco mais além do próprio umbigo entendeu que a reunião FHC-Lula não elimina a possibilidade de PSDB e PT terem candidatos próprios num primeiro momento. Ambos têm certeza de que num eventual segundo turno entre Lula e Bolsonaro ninguém vai para Paris. A não ser Ciro Gomes, que ainda não entendeu o seu papel no novo cenário político com Lula liderando as pesquisas com larga margem de diferença. Até o PDT, partido de Ciro, discorda dele nessa estratégia.

FHC e Lula já estiveram juntos em muitos momentos da história. Os projetos econômicos continuam distantes, mas nada que a disputa civilizada não possa resolver. A pandemia está ensinando aos tucanos que a proteção social não é só obrigatória como tem que ser ampliada, e que o Estado mínimo é uma ilusão neoliberal que está sendo superada pelos fatos.

Lula continua, como um ímã, atraindo todas as forças possíveis e imagináveis. Está conversando com as esquerdas, com o centro e até com parte da direita civilizada. A Gália nordestina segue firme na resistência. Flávio Dino cansou de ser atacado e mandou multar Bolsonaro por desobedecer as regras sanitárias no Maranhão.

Em 2022 há vagas suficientes para atender todos os tipos de composição que garantam a tão sonhada governabilidade. Legislativo (Senado e Câmara), governos estaduais e composição ministerial são os esteios do presidencialismo brasileiro. Lula, já experiente, sabe onde pisar com mais segurança.

Aguardemos mais emoções na próxima semana com o depoimento da “capitã cloroquina”.

Criado em 2021-05-22 19:47:14

Brazucas, chegou a hora da revanche contra os Peró!

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Voluntários da Pátria, acaba de chegar uma notícia de Lisboa dando conta de que a situação está madura para a grande vingança contra os colonizadores do Brasil!

A meta é a conquista da Lusitânia. Primeiro, a gente invade Lisboa, Sintra, Coimbra, o Porto, Braga e tal, depois avança até Berlim, Roma, Paris, Madri e Santiago de Compostela – a brazucada toda exibindo o passaporte da União Europeia. Não pode esquecer a carteirinha das vacinas, pô!

A senha para o início da Ocupação Portuga (“Ó, Pá!” pros íntimos), que vinha sendo programada desde a Semana de Arte Moderna de 1922, foi dada pelo Diário de Notícias de Lisboa nesta quarta-feira, 10 de novembro. Conta o jornal que a nossa língua está se espalhando rapidamente pelo país e que lá tem crianças que só falam brasileiro. Elas dizem grama em vez de relva; ônibus no lugar de autocarro; bala por rebuçado; listras e não riscas; e trocam  a frase “o leite está no frigorífico” por esta: “o leite está na geladeira”. 

Não é sensacional? A conquista de um território estrangeiro é bem mais fácil quando os nativos ficam fluentes na língua dos conquistadores, o que parece já ser o caso. Exatamente por essa razão as elites portuguesas estão apavoradas, segundo o Diário de Notícias. Dizem que os miúdos, quer dizer, os pirralhos, estão “viciados” em brasileiro, fenômeno que as tais elites tratam como doença. Buscando a cura, estão submetendo as supostas vítimas à terapia da fala. Acho que os terapeutas dessa área são chamados de lusofonoaudiólogos, só pode!

Ana Marques, mãe de Laura, três anos, uma das meninas abrasileiradas, está furiosa. Contou ao Diário que a filha não vê “um polícia” na rua, mas sim “um policial”. Que é daquelas que barganham relva por grama. Quando, porém, a Laura pediu uma bala no supermercado, em vez de rebuçado, "isso foi um sinal de alarme". No mesmo dia, Ana Marques percebeu que "não podia deixá-la sozinha com o tablet, porque apesar de ser muito autónoma, só tinha quatro anos".

Outro garoto corrompido pelos brasileiros, o António, da mesma idade de Laura, começou a dar sinais de alerta faz tempo. “Ao princípio – diz a repórter – , a família até achava alguma piada à forma como ele falava, às expressões brasileiras. Mas à medida que o tempo foi passando, a educadora de infância começou a preocupar-se e foi dando sinais, porque o menino não conseguia dizer os r"s nem os l"s”.

Abro um parêntese: Gente de Deus! Ó aqui o mesmíssimo argumento do cronista lusitano do século XVI, Pero de Magalhães Gândavo. Fazendo pouco dos índios, que ele encontrou numa viagem ao Brasil em 1570, o pândego disse que na língua deles "não se acham F, nem L, nem R, coisa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei". Imagino agora que o António estava trocando a pronúncia “R’cif’” por “Récifi”, articulação mais indígena e africana, cheia de vogais…

Fecho o parêntese e continuo com a reportagem do Diário de Notícias,  agora transcrevendo o depoimento da mãe do António, Alexandra Patriarca (eta, nome suspeito, sô!): "Todo o discurso dele é como se fosse brasileiro. Chegámos ao ponto de nos perguntarem se algum de nós era brasileiro, eu ou o pai". Informa o jornal que o miúdo, digo, o guri, está frequentando sessões de terapia da fala. E a mãe acrescenta que “neste momento estamos num processo de tratamento como se fosse um vício. Explicámos-lhe tudo, que ele não podia ver porque isto só o prejudica. E já notamos que está muito melhor. O que tentamos fazer agora é brincar mais com ele, bloqueámos alguns conteúdos, deixámos apenas a Netflix e tudo o que é em português de Portugal".

Como era de esperar, a classe média portuguesa antibrazuca (quem sabe com a esfarrapada desculpa e clamorosa calúnia de que seríamos bolsonaristas, ora pipocas!) já está tratando de apontar os inimigos mais óbvios, isto é, os principais fornecedores de conteúdo brasileiro nas redes acessadas por lá. O primeiro deles, ídolo do pequeno António do parágrafo anterior, é o youtuber Luccas Neto, cujo canal tem por 36,1 milhões de seguidores, miúdos e miúdas de cá e de lá, número 3,4 vezes maior que a população da Terrinha.

Sendo assim, sugiro que a gente nomeie o Luccas Neto como almirante-chefe-mirim da Ocupação Portuga. Ele cuida dos infantes e adolescentes, e o irmão dele, o Felipe Neto – com 43,2 milhões de seguidores no YouTube – toma conta dos internautas com mais de 30 anos. Que que vocês acham? Já posso consultar as feras para a missão do revanchismo?

Oportunamente a gente vai divulgar detalhes da Ocupação Portuga, tipo assim:

1) Substituir no Brasil as gramáticas prescritivas copiadas das gramáticas lusitanas por gramáticas pedagógicas do português praticado no Brasil;

2) Bombardear Portugal com chuvas de vogais, por pura pândega e arrelia: “Disse o Ioiô pra Iaiá, vamos jogar ioiô com o vovô do tuiuiú piauiense?”;

3) Esclarecer aos povos daqui e de lá que a mãe da língua portuguesa é a língua galega e não a língua latina, a sua avó;

4) Informar que o brasileiro já passou do português, como dizia o Noel Rosa, e se tornou outra língua, irmã da lusitana;

5) Inventariar, por galhofa erudita, os espanholismos contrabandeados para o português pelo Camões e pelo Zé Saramago. Para essa empreitada, a gente pede ajuda ao linguista português Fernando Venâncio (Assim nasceu uma língua – Assi naceu ũa lingua – Sobre as origens do português, Guerra & Paz, Lisboa, 2019)

6) Definir uma política para o progresso da língua brasileira no Mundo, eficiente arma do chamado soft power (“poder suave” ou “poder brando” é o caralho!);

7) Decretar a independência linguística do Brasil do colonialismo lusófono, a começar pelo singelo fato de que somos 213,8 milhões e os portugueses morando em Portugal e no Exterior são uns 15 milhões, ó Pá!

8) Denunciar como baboseira elitista da pior espécie a frase “Minha pátria é a língua portuguesa”, escrita por Bernardo Soares, heterônimo do Fernando Pessoa, no seguinte trecho do Volume I do Livro do Desassossego:

“Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.”

“Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.”

Vixe!

9) Etc.

Criado em 2021-11-11 14:07:29

A revogação do luto e o desperdício da vida como fuga

Luiz Martins da Silva –

Neste 2020 o Brasil se tornou o epicentro da pandemia do novo coronavírus e também o expoente de contradições típicas do momento e que encontraram na reconhecida “polarização” política um sintoma de expressivo significado. Paralelamente, sinalizações  deploráveis emergem neste cenário atípico de isolamento, distanciamento, condutas sanitárias e de estranhas rebeldias em relação aos antigo e novo normal, desenhando-se a hipótese de que esteja ocorrendo um surto de anomias: comportamentos desviantes em relação à lei, à ordem e aos costumes, mas, sobretudo, em face das lógicas convencionais.

A insensibilidade para com a morte e para com o sofrimento alheio é, desde sempre, um aspecto preocupante, nas ciências humanas e sociais e nas clínicas de distúrbios. Muito se tem estudado e evoluído em relação aos transtornos obsessivos que levam pessoas a extremas situações de escravidão para com limpeza, segurança e circunscrição a espaços de locomoção. Mas, pouco se tem avançado na compreensão de patologias e sociopatias que implicam a elisão completa de cuidados para consigo, com a saúde, com a segurança de si e dos outros, desdenhando-se da real possibilidade de punições e padecimentos.

Notaram que algumas pessoas, personalidade e grupos irrompem as expectativas, assumindo condutas no reverso das recomendações? Para além do negacionismo de uma grande ameaça, partem para a afronta pública dos apelos feitos em benefício de todos. E se um dos principais clamores é para se evitarem aglomerações, promovem encontros, manifestações e, como se tem visto, festas que, com certeza, atrairão centenas e até milhares de pessoas, ávidas por uma chance de happening e extravasamentos exibicionistas.

Sem máscara, o próprio presidente da República arrebata-se em performance e desvio de função, galopando cavalo da polícia montada, para o gáudio de populares. Em outros contextos, jovens se excedem em farras, dançando, bebendo e se beijando, ou seja, se lixando. Ocorreu, por exemplo, no último fim de semana em barcos de luxo no Lago Paranoá, em Brasília.

Nos séculos XVIII e XIX, antropólogos registraram um fenômeno curioso, o potlatch, que consistia no suposto esbanjamento e até no desperdício de bens como demonstração de desapego, mas também de riqueza e poder inesgotáveis. Em momentos de euforia, chefes tribais distribuíam presentes e, como ágape, mandavam reunir um monte de coisas raras e caras para serem queimadas. Não raro sabemos de exibicionismos do tipo acender charutos com notas de 100 dólares. Por vezes, havia competições entre caciques para se saber quem era capaz de maior despropósito. Consta que governos norte-americanos e canadenses chegaram a proibir a prática do potlatch em seus territórios, por considerá-los irracionais.

No contexto da pandemia do Covid-19, que nasceu na China e está dando uma volta completa ao mundo e recomeçando por lá, não poupando sequer os países que são ilhas ou arquipélagos, o contágio ganhou dimensão exponencial no Brasil, entre outros fatores, por negligência do Estado, leia-se do governo federal, e por atavismos culturais. Somos, supostamente, um povo gregário e que leva o contato físico ao intimismo de abraços e beijinhos e à intensa proximidade nas danças e demais festejos: particulares, folclóricos, religiosos, esportivos, cívicos e... sabe-se lá qual mais. Festas juninas seguem até agosto, quando há natal e carnaval fora de época. No comércio, a Black Friday é em qualquer dia e, por vezes, em toda a semana e já vi uma delas se arrastar por todo um mês. Vivemos nos parques, praças, pracinhas, salões de festas, clubes, piscinas, praias, botecos e estádios de futebol.

A preocupação, aqui, já nem recai mais sobre os negacionismos governamentais, já comentados por aqui e, por fim, até motivo de chacota. Com o surgimento de uma nuvem de gafanhotos na fronteira da Argentina com o Brasil, circulou uma fotomontagem de Bolsonaro dizendo que eram apenas algumas joaninhas, alusão sardônica a qualificação dada pelo nosso chefe de Estado em pronunciamento oficial e em rede de rádio e televisão, tranquilizando quanto ao novo coronavírus não passar de uma gripezinha, nada a atingir, por exemplo, uma pessoa atlética, como ele. Atleta, talvez em estande de tiro com arma pesada, como apareceu na mídia, dias atrás.

À medida que o novo coronavírus se expande pelo Brasil e passa a atingir nações indígenas as mais isoladas, o resto do mundo tem medo do Brasil, a ponto de governos estrangeiros estarem interditando as suas fronteiras a entrada de brasileiros.

Um correspondente brasileiro de uma tevê, situado em Nova York, contou que até à atual pandemia, apresentar-se como brasileiro lá fora era ser objeto de alguma referência simpática: o turismo, o povo, a música, o futebol, enfim... Agora, contou, se alguém sabe da proximidade de um brasileiro vem logo uma indagação adversativa: “Mas você esteve recentemente no Brasil?”.

Na conjuntura de hoje, de uns 60 mil óbitos desde que a população foi advertida do risco de vida e de uma notificação oficial em torno de 1,3 milhão de pessoas, o Brasil pode, paradoxalmente, se beneficiar do desleixo para com a altíssima competência do Covid-19 em se espalhar. Qualquer vacina que dê certo aqui será difundida no mundo com um diferencial publicitário: se deu certo no Brasil, onde as pessoas zombam da doença; onde ministro paga multa por não usar máscara; e onde o Ministério Público tem de obrigar o Presidente da República a colocar a sua, é porque o antídoto estará garantido.

E, aqui, estamos nós. Reféns de todos os fatores possíveis e imaginários e conspirando para o alastramento de um vírus; com gente do povo e do poder político brincando com a morte, numa espécie de selvagem potlatch sanitário.

Estamos entregues à sorte, mas, por favor, não abusemos tanto, pois a velocidade do vírus pode ser bem mais extravagante do que todo esse rali internacional para saber quem chegará à frente com bilhões de dozes, a serem testadas primeiramente no Brasil, país onde a pandemia encontrou um governo disposto a privatizar tudo e com o Sistema Único de Saúde em avançado estado de destruição, mas, agora, de olho numa luzinha que aponta no fim de um longo túnel.

Mesmo que o Brasil fosse um país rico a ponto de torrar fortunas, convenhamos: teria sido muito mais econômico se a prevenção tivesse funcionado; se tantos bilhões não tivessem escorrido para as indústrias de respiradores e outros bens raros e caros.

Aqui estamos, com um reitor da Universidade Federal de Pelotas argumentando que seria menos danoso para a Economia arcar-se com um lockdown completo e nacional por uns 15 dias, pelo menos, e se deter a fúria do Covid-19, do que insistir em reabrir shoppings, clubes, salões de beleza, feiras etc. E mais, avisou que sai mais caro abrir comércio e serviços e voltar atrás do que não abrir nada. Ocorre, porém, que há um outro fator a se levar em conta: a perda de sentido do luto e da própria vida. Estamos numa fase em que, na falta de uma política coordenada e com um líder carismático na contramão, governadores e prefeitos não aguentam mais as pressões por um “relaxamento”.

Que venha a vacina, pois, os riscos de se pegar a Covid-10 tornaram-se banais. Torrar a vida numa fogueira, numa festa junina, por exemplo, tornou-se uma forma extrema e irracional de negar a morte. Está claro que existe um transtorno que potencializa a pandemia: divertir-se, abstraindo o sentido da morte e do luto. É óbvio que isto é errado. O óbvio, porém, virou um bem desprezível.

Criado em 2020-06-29 20:23:14

A quadratura do círculo

José Carlos Peliano (*) –

Entre 21 e 27 de setembro passou um documentário no Canal Arte 1, lá pelo meio da semana, sobre o artista plástico paulista Luiz Paulo Baravelli (pintor, desenhista, escultor, gravador, professor e cronista) mostrando seu ofício, comentários e obras em seu amplo, interessante e bem cuidado espaço de trabalho. Na ocasião, ele expôs e comentou em várias tomadas da câmera seu trajeto como artista, sua concepção de arte bem como algumas impressões de sua experiência e vivência cultural e profissional. Imperdível peça de informação, conhecimento, pesquisa e entretenimento.

Lá pelas tantas, ah, que me desculpem a licença poética, Baravelli ou “bar a vela” – onde se amadurece e se serve licores de cores majestosas por taças de telas oceânicas – percebeu que ao representar suas pinturas dentro de um espaço fechado por retas em retângulos ou quadrados é prender a fantasia, o sonho, a intuição, a revelação estética entre as quatro paredes da moldura.

Não quer que criação visual e artística fique presa na camisa de força da quadratura. Escapa dela pela apresentação de seus trabalhos sem fecho externo, encaixotamento modular, deixa a beleza do trabalho se expandir para onde quer que a imaginação o leve até a comunhão da obra em si com seu eixo central que lhe dá sustentação, expressão, impacto e vida.

Baravelli não é o primeiro a se manifestar dessa forma em muitos quadros e objetos seus, outros já o fizeram também. Mas foi dele que obtive a explicação da fuga dos limites artificiais, tradicionais e pressupostos. Pode até ser que os outros assim também pensassem e levassem suas telas e trabalhos a utilizarem o espaço circundante que pedia a criação artística. Se não pensaram, no entanto, suas intuições saíram na frente e os levaram a ultrapassar as fronteiras da arte pictórica por necessidade intrínseca do impulso criativo.

A saída encontrada por Baravelli para transformar em telas seus anseios criativos se assemelha ao trabalho do poeta que desvela palavra por palavra e as relações entre si para levar ao papel físico ou virtual o lirismo que lhe vem sabe-se lá de onde. Dois tipos diferentes de operários da beleza que procuram levar outros olhares dos mundos interno e/ou externo e fazê-los vivos e presentes nas formas manifestas de natureza, meio ambiente e vida.

A comparação entre o soneto e o poema livre deixa clara essas formas de expressão na criação poética. Enquanto o primeiro segue correntes de ares específicos em seus voos líricos e coloridos, o segundo se deixa levar apenas pelas asas de cada verso, onde quer que o espaço os levem, para ao final ter a circularidade das entoações poéticas liberadas pela forma esculpida na gravação lírica das palavras. Mas quem dita a forma da flutuação artística pelos ventos e brisas em ambas manifestações é a intuição, o arrepio mágico que faz o pintor e o poeta pegarem o pincel ou a escrita para transformá-lo no dito pelo não dito, no incorporado pelo incorpóreo, no nascido pelo fecundado.

Então, se pintor e escritor trazem para suas formas escolhidas as inspirações obtidas pelos toques da intuição para serem manifestas na tela ou no texto, o que ocorre afinal é deixar cada pintura e poema expressos, pincelados ou escritos, pelos instantes mágicos que os levaram à moldura e á impressão. De fato, a circularidade enquadrada nas formas de expressão escolhidas, ou melhor ainda, na quadratura do círculo.

Baravelli escapa da quadratura deixando suas expressões e montagens pictóricas sem as molduras geométricas convencionais de retângulos e quadrados.  Mas não escapa do campo visual do admirador que “enquadra” suas telas sem molduras na moldura abstrata feita através de sua visão focal. Se essa interpretação faz sentido a quadratura do círculo vem em cada um de nós para apreender não somente a realidade externa como também as inspirações que chegam às telas e aos textos. E por extensão às esculturas, às gravações, às instalações e às muitas outras manifestações artísticas semelhantes. 

No limite, a circularidade do quadrado e a quadratura do círculo se aproximam na, digamos, geometria artística. Uma acomoda em sua arquitetura de curvas as retas e as formas das construções humanas, a outra circunscreve em sua montagem de linhas e ângulos a linguagem do universo. Da topografia circular da Terra o homem assentou as moradas e os caminhos e da quadratura multiforme da pedra Michelangelo retirou a beleza universal de Davi.

Baravelli retira da quadratura a circularidade de suas obras as quais, no entanto, são captadas pelo enquadramento visual de cada um de nós. Círculos e quadrados em relação lírica. Como em meu poema abaixo dedicado a Oscar Niemeyer em 2002.

sobre curvas

a Oscar Niemeyer

a curva de Einstein
dobra o espaço para os astros serem guardiões

a curva de seu corpo
abre o espaço para minhas mãos serem adivinhas

a curva de Niemeyer
inventa o espaço para as retas serem femininas

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(*) José Carlos Peliano, poeta, escritor, economista.

Criado em 2020-11-02 21:06:25

O silêncio dos grandes meios à viagem de Lula à Europa é um escárnio

Roberto Amaral (*) –

Toda sociedade que se preza (como EUA, Rússia, China e Cuba) tem sua própria visão de mundo, de que decorre a projeção e defesa de seus interesses; são países detentores daquilo que alguns chamam de “caráter nacional”, uma autoidentidade definidora do papel que a nação soberana decide desempenhar no jogo dos blocos econômicos e militares. São países que possuem  pauta própria, atores históricos assistidos por classes dominantes servidoras da sociedade e do projeto de país. Não é o caso brasileiro, como se vê.

Nossas chamadas elites são forâneas e alienadas, descomprometidas com a construção de um projeto de país, reprodutoras dos valores e dos interesses da potência hegemônica. Falta-lhes tudo, mas falta-lhes principalmente o sentido de pertencimento a uma ordem comum. Não se identificam com o país, muito menos com seu povo. Essa elite aculturada nos governa em todos os campos da atividade humana: nos negócios, na política, nos partidos, num congresso desfibrado à mercê do centrão, num judiciário paquidérmico e classista, numa academia que não enxerga um palmo adiante do nariz, insensível ao Brasil real que tenta sobreviver do lado de fora de seus muros.

Quem não tem luz própria é levado a reproduzir os valores, a ideologia, os interesses das forças hegemônicas.  Neste quadro, destaca-se o papel dos grandes meios de comunicação, no Brasil um decadente oligopólio empresarial a serviço do monopólio ideológico, instrumento da dominação de classe. O mundo de sua percepção, aquele que traz para os lares brasileiros, é o mundo das grandes redes de comunicação europeias e norte-americanas, que assim nos ditam simpatias e antagonismos, em função da geopolítica do comércio e da guerra. No frigir dos ovos é o Departamento de Estado dos EUA que decide o que a imprensa brasileira deve pensar e transmitir sobre seus adversários e aliados. Mediante suas lentes é que olhamos para a China, para a Rússia, para a Ásia e o Oriente, para palestinos e judeus, para nossos vizinhos.

E, ainda, é por esse filtro que nos vemos a nós mesmos.

O silêncio dos grandes meios à presente viagem de Lula à Europa é um escárnio a qualquer noção de decência e escancara seu partidarismo, e só foi quebrado, ao fim, graças às janelas propiciadas pelas redes sociais.

Os jornalões, na comunhão do autoritarismo com a partidarização, não gostaram do primeiro volume da biografia que Fernando Morais, este belo escritor e repórter, escreveu sobre Lula.

Reclamam sem parar. Simplesmente porque Morais não tratou, até aqui, dos processos de corrupção na Lava Jato (Estadão, 17/11/2021). Na mesma edição, que não reserva uma só linha à viagem de Lula à Europa, o colunista Marcelo Godoy, muito respeitado pelas suas sempre boas análises sobre o poder dos fardados, reclama porque o leitor do autor de Olga e Chatô, rei do Brasil não encontrará, na biografia de Lula, a “análise das acusações, das provas e dos processos que levaram à condenação do ex-presidente”. 

A quais provas, porém, e a quais processos se refere o colunista? Àquelas provas e àqueles processos anulados pelo STF? Ora, essas desacreditadas acusações tonitruadas nos tempos da Lava Jato (empreendimento que não teria o bom êxito que obteve não fosse o concurso da grande imprensa) estão sendo repetidas, repisadas, cozinhadas e reavivadas todo santo dia pelo jornal em que Marcelo Godoy escreve. Por que haveria Fernando Morais de levar mais água para o moinho da candidatura do “juiz ladrão” (na precisa qualificação do deputado federal Glauber Braga), o único juiz brasileiro que mereceu do STF a condenação de juiz parcial? 

Há, porém, no texto de Marcelo, um parágrafo que pode sugerir reservas à editora da biografia de Lula. É quando Godoy admite que “haverá questionamento à Companhia das Letras sobre a opção de editar a obra que trata do petista feita por um escritor que declara simpatia pelo ex-presidente”. Este parágrafo soa estranho, insinuando um vício ético. Em princípio sugere algo muito próximo de censura à Editora, e põe em dúvida as credenciais de Fernando Morais.

Godoy pretenderá dizer que, para ser isenta (se é que uma biografia ou um texto jornalístico qualquer, ou mesmo uma pesquisa histórica, pode arguir isenção), a biografia de Lula deveria ser encomendada a Moro, Dallagnol ou Ciro Gomes? Ou, talvez a um extraterrestre. Por fim, no evidente intuito de depreciar a obra de Morais, o colunista termina por reduzi-la a mera versão “de um jornalista que tem lado”. Ora, Marcelo, todos temos lado, você tem lado, Fernando Morais tem lado, como este escrevinhador; a diferença é que o nosso é distinto do seu.

Autocolonizada (a submissão é uma escolha), a classe dominante brasileira é bisonha e frívola, ridícula em sua macaquice diante da potência econômica e seus valores, a fonte única de seu modo de ser, que tenta copiar.  Depois da ‘Estátua da liberdade’, o ridículo atroz erguido como imagem votiva de um shopping center na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, para a adoração de “emergentes”, a Bolsa de Valores de São Paulo, templo e altar do capitalismo brasileiro em sua versão especulativa, instalou, na sua porta, uma réplica do Touro de Ouro (Changing Bull) que orna Wall Street, em Nova York. O bovino, por sinal, mereceu foto na capa do Estadão. Homenagem significativa. Nada mais denotativo da assimilação pelo colonizado do discurso do dominador. O que Frantz Fanon, em Os condenados da terra, chamava de fraqueza congênita da consciência nacional dos países subdesenvolvidos, a saber: o resultado da traição de sua burguesia, desde a origem mais remota da formação nacional associada aos interesses da metrópole e guardiã de seu domínio sobre a colônia.

Nada mais ilustrativo de um triste país que se deixaria dominar pelo bolsonarismo.

***

A herança da Lava Jato - Segundo o DIEESE, as operações da Lava Jato levaram à perda de 4,5 milhões de empregos. Foram destruídas a indústria naval nacional e as cadeias produtivas do petróleo, e desmontada a indústria de engenharia civil. O pré-sal, como sabemos, foi entregue a empresas estrangeiras e multinacionais. Dados para a próxima campanha eleitoral.

Plantão econômico – A energia elétrica residencial acumula, entre outubro de 2021 e outubro de 2020, uma alta variável entre 19% e 39%, pressionando o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A inflação no período é de 10,6%, atingindo mais duramente o desempenho dos segmentos de combustíveis e supermercados. As vendas do varejo caíram 1,3% em setembro.

Tudo em casa, como sempre – O atual diretor de política econômica do Banco Central, Fabio Kanczuk, conclui seu mandato em 2022 e será substituído por Diogo Guillen, economista-chefe da Itaú Asset.

Segue a dilapidação da Petrobras – A empresa presidida pelo general Joaquim Silva e Luna (ministro da Defesa no interregno de Michel Temer) vendeu a Unidade de Industrialização do Xisto (SIX) ao grupo canadense Forbes & Manhattan Resources. É a terceira venda de refinaria da companhia, que já se desfez de 17% da capacidade do parque nacional de refino. A propósito: o litro do diesel acumula no ano um aumento de 65%.
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(*) Roberto Átila Amaral Vieira é jornalista, professor e político brasileiro. Foi ministro da Ciência e Tecnologia durante o governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva.

Criado em 2021-11-20 01:02:50

Jovens de São Sebastião se mobilizam e inauguram pista de skate

Shows, batalha de rima e campeonato de skate marcam 2º Franciskate que será realizado no Centro Educacional São Francisco, neste sábado (24/3), a partir de 13h, em São Sebastião, Brasília-DF.

Na programação, que começa a partir de 1h da tarde, shows com as bandas 23 (punk rock), Frequência (rock), Simpra (pop rock), Eduardo Bixpo (MPB) e Alefe Pinheiro (rap). O evento, promovido pelos movimentos Supernova e Fora de Cena, é aberto para toda comunidade e tem classificação indicativa livre.

A mini rampa construída na escola é resultado da mobilização dos jovens da comunidade que desde 2016 começaram a se movimentar para arrecadar recursos para a construção da pista. Na época, foi realizado o 1º Franciskate. A segunda edição do evento marca a concretização de um sonho coletivo que vai beneficiar toda a região.

Serviço:
2º Franciskate
Local: CED São Francisco – Rua 17, Lote 100, São Francisco, São Sebastião
Data: Sábado (24/3), a partir de 13h
Atrações: Campeonato de skate, batalha de rimas e shows com Banda 23, Banda Simpra, Eduardo Bixpo (MPB) e Alefe Pinheiro
Entrada franca e classificação indicativa livre.

Criado em 2018-03-22 03:30:24

Capoeira e piano, o ritmo no encontro de duas culturas

Nesta entrevista à República Popular das Letras (RPL), a pianista brasiliense Marina Rabelo de Queiroz, doutoranda na Universidade de Genebra, explica por que os alunos de música que jogam capoeira parecem ter mais facilidade no aprendizado das estruturas rítmicas.

Em sua pesquisa, Marina estudou fatores como a corporeidade e a simbologia envolvidas no diálogo de duas tradições musicais muito diferentes, uma, escrita, e a outra, oral.

Na primeira, os alunos de piano desenvolvem gestos especiais para construir o repertório, e os estudantes de música da escola primária mantêm os gestos mais próximos de seu uso cotidiano. Nos dois casos, a aprendizagem dos ritmos é gradual.

Já na tradição oral da capoeira, os alunos sofrem rupturas, aprendendo desde o início gestos e ritmos muito complexos, mas sem teoria musical.

Durante o bate-papo, Marina executou trechos das seguintes peças para piano: Impressões Seresteiras e Festa no Sertão, de Villa-Lobos; Estudo opus 10 n° 12 (Revolucionário) de Chopin; Prelúdio em ré menor BWV 875 de Johann Sebastian Bach; e o tango brasileiro Odeon, de Ernesto Nazareth.

Infelizmente, a gravação saiu com falhas devido a um defeito no pedal do teclado.

#pianoecapoeira
#ritmo
#eurritmia
#Jaques-Dalcroze
#música
#didática
#ensino

Produção: Studio 8itobits
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Veja aqui a íntegra do bate-papo:

https://www.youtube.com/watch?v=60VZnpBeA9w

 

Criado em 2022-09-06 13:36:56

ABI critica Minicom e defende os canais da cidadania

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) deu início a uma campanha nacional em defesa dos canais da cidadania, previstos nos artigos 220 e 221 da Constituição de 1988. Em nota, assinada pelo presidente Paulo Jeronimo, a entidade denuncia o Ministério das Comunicações (Minicom) que, sem ato normativo algum, suspendeu na prática a vigência do Decreto Presidencial 5.820/2006 que dispõe sobre a implantação do Sistema Brasileiro de Televisão Digital Terrestre (SBTVD-T) e da Portaria Ministerial 489/2012 que regulamenta os Canais da Cidadania.

Segundo Paulo Jeronimo, “a decisão do Minicom não está respaldada em qualquer justificativa razoável e juridicamente determinada e passa por cima de quinze anos de vigência do decreto e da portaria”.

Além disso, o Minicom “não comunica à sociedade os motivos de tamanha violência, além de configurar um tremendo retrocesso democrático. A medida é essencialmente antidemocrática, pois a municipalização da TV digital brasileira permite que cada TV Municipal Aberta e Digital carregue quatro programações diferentes, a chamada multiprogramação. Na prática é a TV 4×1, em vez de 5.568 TVs, os munícipes teriam à sua disposição quatro vezes mais canais, cada TV se transformando em 4 canais televisivos diferentes: um destinado à Prefeitura, outro ao Governo Estadual, e dois canais destinados às entidades da sociedade civil organizada no município”.

Para a ABI, não há qualquer razão para paralisar a instalação dos Canais da Cidadania, “a não ser o viés autoritário do governo federal”.

“O potencial democratizador do Canal da Cidadania é colossal, dinamizando a cidadania e o próprio movimento cultural local, com significativo impacto na geração de emprego e renda, em decorrência do impulso à produção de equipamentos (indústria Nacional), com capacidade para o fortalecimento do mercado de trabalho, local e nacional”, afirma a ABI.

“A Democracia Brasileira merece e precisa da pluralidade e da regionalização da comunicação. O povo brasileiro necessita que a comunicação social seja democratizada, que seja garantida a participação direta de novos atores na condução de meios televisivos, o que promoverá uma cidadania mais participativa, com mais elevado grau de cultura, de educação democrática e com qualificação e protagonismo na defesa dos valores democráticos e da soberania nacional”, diz Paulo Jeronimo.

Por fim, a ABI “convoca as entidades civis organizadas, como a OAB e a CNBB entre outras, as entidades e os movimentos de defesa da democratização da comunicação, os intelectuais, os jornalistas, radialistas, os estudantes, os artistas e agentes culturais, os partidos políticos representados no Congresso Nacional, as entidades representativas dos prefeitos, do empresariado e dos trabalhadores na esfera da produção de informação e de equipamentos, para se engajarem na implantação das 5.568 emissoras de televisão da Cidadania, começando por destravar os mais de trezentos pleitos municipais sobrestados (suspensos), a sua maioria em tramitação eterna nos escaninhos burocráticos de Brasília, culminando com a “canetada” da suspensão, sem debate e sem transparência. Uma atitude que impede ao povo brasileiro uma comunicação mais qualificada, plural, e regionalizada, tal como estabelece a Constituição Federal e que representa, ao fim e ao cabo, o alargamento da democracia no Brasil, hoje tão ameaçada”.

 

Legenda:

 

Criado em 2021-10-03 00:14:50

Ato em Recife em defesa da educação e da previdência

via Jornalistas Livres

Criado em 2019-05-17 03:16:42

Angela Maria, gente humilde

Alexandre Ribondi -

Abelim Maria da Cunha morreu. Podemos dizer de maneira mais clara: Angela Maria morreu sábado (29/9), à beira de completar 90 anos - ela nasceu em 1929.

Mas sempre haverá quem pergunte: quem é Angela Maria? E não basta responder que ela, durante várias décadas, foi a dona da maior e mais bela voz do Brasil no século XX. Isso porque ela foi mais, muito mais.

Era dona de um repertório maluco, que inclua sucessos como Babalu (da fase cubana), Falhaste, Coração (da fase mexicana), Garota Solitária (da fase samba-canção) e Gente Humilde (da fase de repertório elogiável: a composição é de Garoto, Chico Buarque e Vinicius de Moraes).

Mas mesmo cantando músicas que, com todo o respeito, provocava risos por seu parentesco com o mau gosto, era impossível não voltar a ouvir para poder se deliciar com a qualidade da voz da intérprete. Ela, a Angela Maria.

Que, como sói acontecer, nasceu paupérrima no interior do estado do Rio de Janeiro, filha de dona de casa com pastor evangélico - e foi no coro da Igreja Batista que começou a cantar e a amar a música, como ela gostava de afirmar, em seus momentos de recordação. Teve a companhia de seis homens e, ao que parece, todos a trataram mal e enfiaram a mão nas suas poupanças, que não eram poucas, já que ela foi a Rainha do Rádio, o maior prêmio que se dava a uma cantora no Brasil da metade do século XX e que, desgraciadamente, como dizem os hispanohablantes, já está sendo esquecido.

Mas foi aos 50 anos, na década de 1970, que conheceu um rapaz de 18 anos e, ele sim, se apaixonou por ela, com sinceridade de coração. Angela Maria e Daniel d’Angelo foram ser felizes para sempre. Assim, e como ela não podia ter filhos, Angela e Angelo adotaram quatro crianças: Angela Cristina, Liz Angela, Rosângela e, que surpresa, Alexandre.

Mas ainda é possível perguntar - quem é Angela Maria e por que a sua morte tem que ser comentada e gravada na memória?

Dizem que a francesa Édith Piaf (eu sei que as más línguas da última geração hão de perguntar quem é Piaf) era grande fã de Angela Maria. Quando, há uns 20 anos, passei parte do dia na companhia da grande-cozinheira-grande-cantora-cabo-verdiana Cesária Évora, ela disse, com os olhos baixos e com o seu jeito tímido que, do Brasil, gostava mesmo era de “Nelson Gonçalves, Nelson Ned e Angela Maria”. E parece que era a mais pura verdade, porque quando eu disse algo como “parece que o Caetano Veloso gosta muito da senhora”, ela só respondeu “humrum” e voltou falar do Nelson Ned e da Angela Maria, a Sapoti - como também era chamada.

Nos anos 60, o estilista Dener Pamplona, pioneiro da moda no Brasil, gozava da amizade com a cantora. Não só isso, eram íntimos mesmo. Tanto que ela mesma gostava de contar que Dener, com suas camisas de babados, com as olheiras profundas de poeta romântico-gótico, e seus deliciosos achaques, costumava telefonar para Angela Maria, na calada da noite, para dizer que estava triste e deprimido. Ela entrava no carro, ia para a casa dele e o adormecia ao som de Babalu, cantada ao vivo, ali, só para ele.

Elias Regina chegou nos anos 60 e até morrer, nos anos 80, foi a cantora que mudou tudo no cenário da Música Popular Brasileira. Além disso, enfrentou a ditadura militar com garras de mulher revolucionária. Sua voz enfeitiçava o País. E admitiu logo: “Eu tento imitar a Angela Maria”. Ney Matogrosso lançou um disco, em 1994, com o nome de Estava Escrito, dedicado inteiramente à sua musa.

Qualquer brasileiro com informação razoável é capaz de concordar que Elis Regina e Ney Matogrosso são esteios da música brasileira e que eles serão recordados como grandes intérpretes do que melhor se faz no Brasil. Se eles se basearam e prestaram homenagem a Angela Maria, fica também fácil de entender que eles não teriam as referências que têm, o repertório que criaram, nem se lapidaram para alcançarem a qualidade técnica que conseguiram ter, se não tivessem como referência a cantora de Gente Humilde.

Então, que esteja aí a importância de Angela Maria. Ela é a base, um dos nascedouros, da música que criamos e cantamos no Brasil desde os anos 1950.

Desconhecê-la pode ser um erro sem tamanho, para quem deseja se tornar respeitado com canções e vozes de boa qualidade porque, mais do que nunca temos que saber e repetir, que não existe futuro sem o conhecimento do passado. Por isso é que em cada nota musical brasileira, em cada repertório, em cada show, em cada hit parade e até mesmo em cada gorjeio de passarinho matinal, lá estão um pouco da alma dessa mulher inesquecível.  

Criado em 2018-09-30 23:32:29

Novo dicionário golpista

Marcos Bagno -

Depois do golpe de Estado e da instalação da República Fascista do Temeristão, têm ocorrido algumas mudanças significativas no vocabulário e na gramática do português brasileiro.

Um grupo de linguistas se reuniu para produzir o Novo Dicionário Golpista, uma obra destinada a esclarecer o público em geral acerca das inovações que estão despontando na língua a cada dia.

Essas inovações são de dois tipos: palavras antigas e bem conhecidas adquirem novos sentidos ou novas palavras são criadas do zero.

Uma dessas palavras criadas é esta:

gilmar (verbo intransitivo) – 1 – valer-se de cargo de autoridade para favorecer certos partidos políticos e prejudicar outros; 2 – acobertar crimes cometidos por aliados, impedir que sejam investigados; 3 – cometer ilegalidades em defesa dos próprios interesses e dos interesses dos aliados; 4 – conspirar contra a democracia em aliança com mafiosos corruptos.

Exemplo: “Pra dar um golpe de Estado bem-sucedido, gilmar é imprescindível”.

Entre palavras muito antigas na língua e que tiverem seus sentidos completamente alterados, destacamos esta:

justiça (sub. Fem.) – 1 – conjunto de órgãos que formam o poder judiciário, empregados sistematicamente para perseguir e acusar sem provas somente membros do Partido dos Trabalhadores (PT) e para acobertar os crimes comprovadamente praticados por membros do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB); 2 – ideologia fascistoide que leva diversos agentes do Ministério Público Federal e do Supremo Tribunal Federal a praticar ilegalidades e a desrespeitar os direitos civis mínimos garantidos pela Constituição; 3 – termo empregado nos meios de comunicação oligárquicos do Brasil para designar atos de arbitrariedade cometido contra pessoas e/ou entidades que reivindicam o respeito às garantias democráticas e ao estado de direito.

Convém observar também que, junto com as palavras, também ocorreram mudanças na ortografai oficial. Diante da atual situação política, é mais correto escrever “extado de direito”, “excola” e “experança”.

Por fim, algumas siglas permaneceram, mas com nova interpretação: STF (Supremo Tucanato Federal) e MPF (Ministério Peessedebista Federal).
Uma vez que o objetivo do governo é eliminar toda e qualquer forma de educação essas mudanças não precisam ser ensinadas a ninguém.
______________________
(*) Marcos Bagno é linguista, escritor professor da UnB – marcosbagno.org
(Artigo publicado originalmente na revista Caros Amigos, nº 235).

Criado em 2016-11-06 18:49:30

Moro comanda a Republiqueta das Trevas

Sandra Crespo -

Um juizinho de 1ª instância de uma província do Brasil grampeia a presidente da República e divulga as gravações em horário nobre pela Rede Globo. Ele consegue seu intento imediato, que é impedir que Lula assuma ministério de Dilma - e, quem sabe, ainda salve o governo.

As outras metas exitosas da divulgação dos grampos igualmente já fazem parte da história. Sórdida, vá lá, mas ainda assim história. Vamos enumerar essas realizações do juizinho para refrescar a memória de todos (até porque alguns sofrem de amnésia seletiva):

1 - constrangimento e linchamento público de todos os grampeados - a maioria em conversas íntimas, zero de interesse público, 10 de invasão de privacidade. Imagina se suas conversas triviais, cheias de idiotices e palavrões, com amigos e familiares, fossem transmitidas pela mídia para o mundo inteiro. Coloque-se no lugar dessas pessoas, mesmo que você as odeie; imagine o que elas sentiram e ainda sentem;

2 - o grampo do juizinho ao escritório dos advogados de Lula produziu gravações de conversas entre os profissionais e vários outros clientes; isso não é só abuso de poder, é a inominável invasão do sagrado sigilo advogado-cliente. Ou seja, isso agora também pode no Brasil;

3 - Por último, mas não menos importante: o juizinho fez esse show em parceria com a Globo - seguida por suas rivais serviçais - num momento de ápice da tensão política, Dilma sendo pressionada pela corja do Cunha, tucanos e paneleiros etc.

Eu, que estava na Câmara naquele momento surreal, saí do prédio para ver a reação, e cheguei a fazer um vídeo do alvoroço que os apoiadores do impeachment fizeram na porta do Palácio do Planalto, vinham vestidos de CBF, berrando Fora Dilma, Fora PT. Eu andava no meio deles enquanto os gravava com a câmera do celular, fui me infiltrando na coxinhada. Até que topei de cara com o Sem-Katiguria, tive náuseas múltiplas e dei meia-volta.
Ou seja, cada qual com seu quinhão, Moro, a Globo e o Cunha tacaram gasolina no fogo. E o Brasil arde.

E como é de se esperar numa genuína republiqueta de bananas, é claro que Moro & Cia estão se dando bem. O Conselho Nacional de Justiça faz cara de paisagem ante as ações de abuso contra o juizinho. O STF limitou-se a anular como provas as gravações que incluíam a presidenta. Nenhuma punição, nem sequer um puxãozinho de orelha no prodígio de Curitiba!

Assim, o sujeitinho continua sua cruzada anticorrupção. Devolve o passaporte de Mrs. Cunha para que ela possa continuar abalando Paris com suas cafonérrimas louis vuitton (e deve até ter pedido desculpas à madame pelo transtorno...).

E começa a concluir o dever de casa tornando Lula réu, com base no powerpoint de garagem feito pelos seus amiguinhos de traquinagem a serviço dos grandes.

A próxima vítima poderá ser qualquer um de nós. Não existe mais lei no Brasil. Foi-se o Estado de Direito, ainda em fraldas! Não tinha nem 30 anos, o coitado.

Criado em 2016-09-21 14:28:27

Como construir um mundo justo?

Zuleica Porto -

O Senso Comum provavelmente consideraria que “uma vida boa” seria uma vida mansa, sem problemas financeiros nem existenciais, com boa saúde, família o mais funcional possível, e, se pedisse uma ilustração, ele me traria a foto de um mar impecavelmente azul ou verde-esmeralda, pés descalços na areia, um céu limpo de um verão interminável, ou qualquer outra paisagem de uma vida em férias eternas.

O Senso Comum tem um filho, o Lugar-Comum, pródigo em gerar expressões a partir de um sistema fixo de ideias, em que um pensamento automaticamente dá lugar a outro, pré-determinado no chão batido das platitudes.

Esse sistema de pensamento e fala divertia o menino Julio Cortázar quando escutava as conversas familiares, pois “sabia antecipadamente o que iam dizer. Porque um lugar-comum puxava o outro, era um sistema já organizado de pensamentos, de política, de comida, de saúde, se o banho devia ser morno ou frio, se o bicarbonato fazia ou não fazia bem.

E eu me divertia silenciosamente adiantando para mim mesmo tudo que as pessoas iam dizer. (...) Emendavam de um lugar-comum a outro, de um juízo de valor a outro”, diz o escritor em “O fascínio das palavras”a longa entrevista que deu ao jornalista uruguaio Omar Prego pouco antes de morrer e publicada no Brasil pela José Olympio Editora em 1985, com tradução de Eric Nepomuceno.

Mas não é a descrição da vida mansa, que leva uma hipotética pessoa “boa-vida” segundo o Senso Comum, que me interessa neste momento.

A “vida boa” a que me refiro é retomada de Aristóteles pelo pensador francês Paul Ricouer, e o qualificativo tem um sentido ético. O bem dessa vida, na perspectiva ética do filósofo, “é uma vida com e para os outros em instituições justas”.

Sem o bem do outro, somos apenas de um lamentável egocentrismo e, no que apenas parece um paradoxo, nos distanciamos de nós mesmos. Pois sem o outro, como ter consciência de si? Imitando os próximos, aprendemos a falar, a andar, a comer. Escutando e observando os outros, aprendemos valores, histórias, saberes. Podemos mesmo ver a nós mesmos como um outro, ensina Ricoeur em “O si-mesmo como um outro”.

No atual momento brasileiro, sobraria lamentar a ausência das instituições justas, requeridas pelo filósofo para que possamos viver uma vida boa? Deixo aqui registrada a sua ausência, já alardeada por juristas, jornalistas, educadores e demais pensadores na enorme tribuna cotidiana aberta pela rede mundial de computadores.

Aqui mesmo, neste brasiliarios.com, muitas pessoas, entendidas em política, economia e outros saberes já falaram, com a competência que me falta, sobre o panorama desolador que atravessamos.

Mas que tal constatação não nos congele e não nos deixe sem ação. Que o pensamento único não nos paralise a intenção de viver uma vida boa, com e para os outros.

As outras. Pessoas, espécies, animais ou vegetais. Porque livre é o nosso pensamento, se não estiver acorrentado ao Senso Comum. Livre é a nossa palavra, longe do automatismo do Lugar-Comum.

Posso pensar que um rio tem mais que duas margens, como nos ensinou faz tempo o mestre Guimarães Rosa. Também livre pode ser a nossa ação, às margens do Estado, por mais autoritário que ele se mostre. Portanto, uma revolução é possível.

Uma revolução que não se realiza pela força das armas, nem mostra sua vitória pelo hasteamento de bandeiras ou o canto de hinos patrióticos, mesmo porque é uma forma de revolução silenciosa, mansa, que vai minando o “status-quo” sem que ele nem perceba...antes que seja tarde demais.

O principal arauto dessa revolução, Mathieu Riccard, escreveu sobre o assunto um extenso livro publicado no Brasil, “A revolução do altruísmo” (Palas Athena, 2015).

Nele, o autor alerta para o fato de que já estamos no Antropoceno, a Era em que o ser humano é o principal agente de impacto na Terra. Durante o 35º Congresso Geológico Internacional, realizado entre 27 de agosto e 4 de setembro na Cidade do Cabo, África do Sul, os estudiosos definiram as datas do primeiro e segundo estágio da nova era: 1800, quando da invenção das máquinas a vapor, do uso de combustíveis fósseis e da concentração de carbono na atmosfera, seria o marco do primeiro estágio; o segundo tem dia e mês precisos, o 16 de julho de 1945, quando a primeira bomba atômica foi lançada sobre a cidade de Hiroxima.

Entre suas conclusões, a de que a entrada no Antropoceno “não foi uma mudança de grau, mas de qualidade” (Carta Capital, ed. 920).

Portanto, só uma mudança na qualidade de vida, rumo a uma simplicidade voluntária, olhando compassivamente para o outro (não importa se gente, bicho ou planta) torna possível sonhar com a permanência da espécie no Planeta.

E é neste ponto que o pensamento de Mathieu Riccard, que além de monge budista é também cientista (PhD em genética molecular pelo Instituto Pasteur), encontra o do filósofo Paul Ricoeur.

Diz o monge: “Ao ter mais consideração pelos outros, teremos uma economia solidária, em que as finanças estejam a serviço da sociedade e não a sociedade a serviço das finanças. Se vocês têm mais consideração pelos outros, se assegurarão de remediar a desigualdade, de trazer algum tipo de bem-estar para a sociedade, para a educação e o local de trabalho. Do contrário, se a nação for poderosa e rica, mas todos são pobres, qual o sentido? E se temos consideração pelos outros, não prejudicaremos o planeta que temos; e no ritmo atual não temos três planetas para continuar dessa maneira”.
Não podemos nos acomodar ou nos conformar com os desmandos que aí estão, pensar que tudo está perdido. É urgente e necessária a ação, das diversas maneiras possíveis.

Manifestar-se nas ruas e praças, escrever, debater ideias nas salas de aula, nos bares, nas festas, tudo são ações que nos tiram desse atoleiro nacional e global.

E uma delas é, acredito, ir minando, com pequenas atitudes diárias, todo o sistema que aposta no consumo desenfreado, no individualismo cego, na competição por mais dinheiro ou mais poder.

Quem sabe um dia possamos, finalmente, viver a vida boa, com e para os outros, com as instituições justas que merecemos, em um país e em um planeta onde realmente a alegria seja, como dizia Oswald, “a prova dos nove”.

Criado em 2016-09-28 18:11:49

As feridas abertas de um país doente

Maria Lúcia Verdi –

Escrever sobre o que não sei, escrever sobre o que me emociona, a completa imersão na alteridade. Tentar articular algo sobre o mergulho que é o filme Indianara, sobre os despossuídos da terra abrigados na Casa Nem, por iniciativa da prostituta trans e militante Indianara Siqueira, dirigido magistralmente por Aude Chevalier-Beaumiel e Marcelo Barbosa.

Tento encontrar palavras. Não saberia escrever uma matéria que dissesse além do que o filme diz, do que os releases e as premiações internacionais apontam. O filme me coloca perguntas talvez irrespondíveis, puro espanto.

O que são, quem são, as pessoas que Indianara protege, disciplina, conscientiza? O que é, quem é, esta mulher transexual que carrega as bandeiras mais difíceis, o que é este mundo em que ela se insere com orgulho e me provoca angústia, estranhamento, ao mesmo tempo em que me umedece os olhos, esse mundo visceralmente outro e espantosamente próximo.

Próximo porque fala do que sempre soube, do que se expõe mais e mais, ferida nojenta e (que eu esteja errada!) incurável de um país historicamente cruel e doente. O que sempre soube é do que é feito esse Brasil estratificado, retalhado, costurado à força, um Brasil que explode desgovernado e se expõe assustadoramente durante a pandemia. Morrem os que Indianara abriga na Casa Nem, seja onde for a casa. Morrem os negros, os índios, os de qualquer gênero que estão pelas ruas, pelas estradas, na floresta, nas prisões, os silenciados, os expropriados, os desconsiderados, os invisíveis.

O filme acompanha o cotidiano de Indianara e seu peculiaríssimo marido, sua luta em prol da parcela de nossa sociedade que, tendo apenas o corpo como meio de sobrevivência, vende-o e espera ter o direito de fazer isso sem ser perseguida e assassinada, como tem ocorrido aqui como em nenhum outro país.

Indianara e suas amigas participam dos protestos políticos contra o golpe, contra Temer, choram a morte de Marielle (que aparece discursando no filme), desesperam-se com a vitória do Capitão.        

O que é essa parcela do Brasil que, sem instrução, sem condições, sem direitos, consegue se posicionar em prol de um país democrático, que respeite os direitos humanos?  Quem são essas trabalhadoras do sexo que conseguem rir na miséria, que frente à ausência absoluta do que se considera básico para o desenvolvimento das capacidades humanas, afirmam sua humanidade, sua solidariedade?

O documentário se ocupa do presente da personagem, da figura engajada, revoltada, que nos faz lembrar personagens do Bacurau. O passado dela, curioso, contraditório, rico material filmográfico é brevemente comentado por meio de fotografias - o que importa é a pintura de uma ativista a questionar radicalmente não apenas conceitos como gênero e liberdade, mas abstrações como amor, ética e religião. Na crise atual enfrentada pelos relacionamentos, é tocante ver a honestidade, o bom humor e o companheirismo de Indianara e o marido Maurício. 

A edição do filme busca narrar livremente o cotidiano da protagonista, a cuidadosa fotografia nos insere na pele dela e de suas colegas, podemos quase sentir o cheiro daqueles corpos de sobreviventes. A cena final do filme, nas imponentes ruínas do prédio histórico apenas invadido, após a expulsão da Casa Nem da Lapa, tem a força de uma cena atemporal. Naquele prédio do Automóvel Clube, na Praça Paris, em 30 de março de 1964, João Goulart fez seu último discurso como Presidente. Indianara sozinha, dura e evocativa, a sonhar talvez uma revolução que nunca se fez em nosso atordoado país. Ou a antevê-la.
_________________
Ficha técnica:
Título do documentário: Indianara
Duração: 1h24
Direção: Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa
Roteiro: Marcelo Barbosa, Aude Chevalier-Beaumel e Michele Frantz
Trilha sonora: Malka Julieta, Nicolau Domingues e Lucas Porto
Diretores de fotografia: Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa
Montador: Quentin Delaroche
(*) O filme já foi apresentado no festival de Cannes e em mostras no Brasil. Pode ser visto nas plataformas digitais Now, Google Play, iTunes, Looke, Vivo Play e Amazon. A partir de 5/7, estará disponível na plataforma Mubi em 195 países.

Criado em 2020-06-26 15:43:43

Morre a poeta Lina Tâmega Peixoto

Angélica Torres –

Tão significativo quanto deixar como último legado um livro intitulado Prefácio de Vida é partir dela, a vida, no 1º dia de setembro, quando o Cerrado se derrama em flores de ipê roxo, rosa, branco, amarelo, ao olhar dos que precisam sair de casa para trabalhar em plena pandemia. É como dar um toque de mágico ao momento, para todos, tão difícil e sofrido. É como fazer um truque com imagens, que só poetas de primeira grandeza, como Lina Tâmega Peixoto, são capazes de fazer, sem ter planejado.

Lina pôs ontem de luto a poesia brasileira. Que o digam, sobretudo, poetas de Brasília, onde ela viveu desde os primórdios da cidade, e os de Cataguases, aonde nasceu e na juventude criou a revista Meia Pataca, que impulsionou e frutificou ainda mais o já fértil solo literário mineiro. É imensurável a perda desta mestra dos versos, também louvada em Portugal, onde estão suas raízes e as pesquisas que a ligaram literária e afetivamente à Cecília Meireles. Lina foi sua pupila e a ela dedicou o último livro, acima citado, publicado em 2010.

"Cataguases ! Cataguases ! / Um barco no rio Pomba / e uma menina que pesca / nas águas a própria sombra", Cecília a descreveria em "Quadra quadro", poema que antecede o prefácio Cecília Meireles – estrela e abismo, com que a própria autora homenageia a ilustre amiga nesse livro intitulado Prefácio de Vida. No texto, Lina conta como se conheceram e se mantiveram próximas e fraternas, até a morte de Cecília.

Grandeza - Atenta, grata e reverente a outros poetas, dos quais generosamente revelou também ter recebido lições, Lina em nada ficou a lhes dever. Pavimentou seu caminho na poesia com tal independência, criatividade e beleza no jogo das palavras, tendo a sensualidade como sua característica mais generosa, seu condão de feminilidade, que certamente desconcertou muitos dos poetas do seu tempo – mas não Drummond, que soube reconhecer e enaltecê-la por isso.

 “Mas que beleza de dignidade erótica em 'Vórtice'. É das coisas mais puras e nobres que tenho lido no gênero. Ela (a poesia do livro Entretempo) contém a dose de mistério essencial à boa criação lírica e ao mesmo tempo é documento de rara sensibilidade humana. Você deu uma tocante medida de sua alma e de sua capacidade de ver o mundo", escreveu-lhe Carlos Drummond de Andrade.

Lina, jovem, foi grande amiga de Julieta, sua filha, e frequentava a casa do Poeta. Manuel Bandeira foi declaradamente apaixonado por ela. "Fui lendo e perguntando, por que essa mulher não é mais divulgada? A elegância, a singularidade, a maestria, tudo está ali", Affonso Romano de Sant'Anna certeiramente escreveu a respeito de seu livro Entre Desertos.

Quanta história teria nos contado, das tantas que viveu ao longo de oito décadas plenamente vividas, como a cidadã que foi do mundo. Duas entrevistas exclusivas – uma para a TV Comunitária de Brasília, a outra, para uma "live" em que estaria rodeada de poetas – estavam pré-programadas e já aceitas por ela, às vésperas de adoecer. Muito infelizmente para nós, não deu tempo de serem feitas.

Ofício - Mas a poeta – que exerceu o magistério na Fundação Educacional do DF e na UnB; que atuou na Funarte, no finado INL e no Iphan; que foi pesquisadora do lirismo peninsular em Lisboa –, nos fez ricos herdeiros de seus poemas e de ensaios críticos, estudos, dela e sobre ela, em livros, antologias, sites, blogs, revistas, suplementos literários; também, de um livro infanto-juvenil em verso: Os bichos da Vó.

Lina nunca parou de escrever. Intelectualmente vital, de espírito admiravelmente jovem em seus 89 anos, estava com uma fileira de encomendas e trabalhando nelas, quando a pneumonia fatal a surpreendeu. Porém, especialmente a nós brasilienses e a mineiros, além da tristeza, do pesar imenso, resta ainda o orgulho de um seu belíssimo depoimento, datado de 1958, como habitante da Capital em construção.

"Viver na antevéspera de Brasília, em casa construída de madeira de pinho, transitório teto que se prolongou por sete anos, representou, para mim, estados intensos de expectativas, contemplação, êxtases, participação, sofrimentos e mistérios. O horizonte é inacessível pela falta de montanhas, mas coube ao amor – junto à paisagem seca e árida, mas estufada, muitas vezes, de flores e ao brilho branco e ardente do Cerrado – incorporar ao desenho de minha vida a plenitude do Planalto Central, onde moro até hoje. Firmo-me neste Altiplano com fios de sedução, presos às raízes mineiras, para nunca ser traída no meu jeito de viver".

Um poema de Lina

MITO

A paisagem
que se rompe deste sonho
cobre minha carne
com crespas escamas de paixão.
Sobreposto e amado,
um deus toca em meus seios
e, súbito, um mito
pulsa no arfar de meu dorso.

A entremadura noite de Atenas
acorda minha nudez de existir.

(Lina Tâmega Peixoto, em 50 Poemas Escolhidos Pelo Autor. RJ: Edições Galo Branco, 2008).

Criado em 2020-09-02 20:19:17

Quinta-feira Vermelha no Jacarezinho

Romário Schettino –

Quinta-Feira Vermelha, é assim que está sendo chamada a chacina da favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, no dia 6 de maio. Já são 28 mortos em condições de extrema violência. Esse banho de sangue, que se repete há muitos anos, parece não ter fim enquanto as políticas de segurança pública não levarem em conta a extrema pobreza, o desemprego, a falta de educação, o racismo estrutural e a total ausência do Estado.

A propósito dessa chacina do Jacarezinho, a maior em termos numéricos desde 2007, o antropólogo Luiz Eduardo Soares, autor do livro Desmilitarizar, segurança pública e direitos humanos, fez o seguinte comentário:

“Palavras se tornaram vazias ante o duplo genocídio, promovido pela pandemia, turbinada pela estupidez política que se alia à morte, e pelas ações brutais das polícias civis e militares, que se repetem há décadas contra negros e pobres, nas favelas e periferias. Essas operações abrem espaço para as milícias.”

Segundo Soares, “ante a impotência das palavras, restam duas sentenças sintéticas:

– Casa de vidro, voto de papel, coração de pedra, mãos sujas de sangue, esse o governo BolsoCastro [Bolsonaro/Cláudio Castro] do Rio de Janeiro, que chama execução de segurança.

– Vacina não faz ninguém virar jacaré, mas governo fascista faz do Jacarezinho ensaio geral para a barbárie nacional.”

Luiz Eduardo é um intelectual pioneiro no debate sobre segurança pública no Brasil. Foi secretário nacional de Segurança Pública no primeiro governo Lula, subsecretário de Segurança e coordenador de Segurança, Justiça e Cidadania do Estado do Rio, no governo Garotinho, quando chegou a denunciar a “banda podre” da polícia do Rio e, por isso, foi demitido do cargo, ao vivo, no telejornal RJTV. Também trabalhou em Porto Alegre (RS) e Nova Iguaçu (RJ).

CDDH na Alerj

A deputada estadual do PSOL, Dani Monteiro, presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) está trabalhando para que as investigações apontem o quanto antes os responsáveis pela tragédia.

Uma das funções do Ministério Público é o controle externo da atividade policial. Apesar disso, o MP do Rio extinguiu, no início de 2021, o Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (GAESP), criado em 2015. Cabe agora à Procuradoria Geral de Justiça indicar qual órgão interno será responsável pela apuração das responsabilidades civis e penais das denúncias de violações de direitos, caso explícito da chacina do Jacarezinho.
_______________
Leia aqui artigo relacionado: Por que a resposta ao massacre do Jacarezinho é essencial?

Criado em 2021-05-09 14:16:59

Os mundos paralelos da fé e da razão

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) -

Depois do meu post sobre a morte do Ivo Barroso no Zap, na última quarta-feira, 6 de outubro, um amigo meu, o Jürgen, comentou: “Pois é, amigo. E para onde vai todo esse panteão de seres humanos especiais? Para os vermes?” Respondi: “Para os vermes ou para o forno crematório. Eu prefiro o forno. Será um jeito de ir pro paraíso, Valparaíso!” (Para quem não sabe, Valparaíso é a única cidade da região de Brasília com instalações adequadas para cremação).

Na sequência, o Jürgen disse que já tinha estado lá, no funeral de um amigo jornalista, e perguntou: “E, então, chances além nem sob a Teoria das Cordas (Stephen Hawking), em algum lugar de alguma dimensão paralela? Morreu, fodeu?” Revidei, talvez de maneira brutal, que morrer é ter os seus átomos desagregados, que céu, só se for o da boca da onça, como diz a minha mãe, e que a Teoria das Cordas é apenas um chute matemático sem possibilidade de teste direto, agora talvez enterrada pela falta de comprovação da codependente Supersimetria (Susy, para os íntimos) nos ensaios do Grande Colisor de Hádrons perto de Genebra.

Dito isso, me caiu a ficha: meu amigo tinha acabado de expressar a angústia de quem foi educado na fé cristã junto com uma instrução racionalista, e que tenta, em vão, conciliar a fé revelada com a razão, o antigo projeto dos pensadores cristãos medievais proposto desde que passaram a ler o Aristóteles, resgatado pelos árabes. Sem confiança para ancorar a fé apenas nos imaginosos textos das Escrituras, hoje o Jürgen recorre e se encalacra nas hipóteses quânticas de certos físicos irrealistas. Ele troca um problema muito grande por outro ainda maior: sem a garantia da salvação neste mundo, trata de buscá-la em outro, paralelo!

Depois de respirar fundo, tentei esboçar argumentos em torno da questão, me valendo das lições do meu filósofo do peito Bento de Spinoza, para quem “uma teologia racional é inútil para a fé e perigosa para a filosofia”. Percebi porém que o papo estava sendo desagradável para o amigo, e que dali em diante só iria agravar o desconforto dele. Decidi então encerrar a conversa, com um pitaco, confesso, eivado de malícia: “Ô, Jürgen, para você manter a paz de espírito (eudaimonia), talvez a solução seja a mesma que o Paulo Freire e o Dom Pedro Casaldáliga parecem ter adotado: a de preservar a fé e a razão separadas como se fossem duas retas paralelas. Com essa atitude, mano, você ganha uma nova esperança, a de que essas duas linhas vão afinal se encontrar no infinito!”

Cabra educadíssimo, o Jürgen avançou protestos. Disse que não estava na Idade Média, mas “pra lá da Astrofísica”, e que a leitura que eu fazia das ideias dele era “meio carimbada”. Imagino o palavrão que ele pensou sem externar sobre mim. Como foi em alemão, e eu não entendi, não importa. Vida que segue!

Criado em 2021-10-10 22:54:40

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