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Brasília - O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), anunciou com pompa e circunstância a interdição da plataforma superior da Rodoviária do Plano Piloto. Essa medida altera a rotina no trânsito e deixa a população com a pulga atrás da orelha. Por ali passam diariamente cerca de 400 mil pessoas.
O objetivo de Ibaneis é claro, quer que o Tribunal de Contas do DF aprove a alteração de “normal” para “emergencial” a licitação da obra de recuperação.
Na opinião do professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB, Benny Schvarsberg, “essa notícia da estrutura comprometida da Rodoviária e a pirotecnia anunciada pelo GDF tem muito a ver com a queda do viaduto no início do Eixão Sul. Há anos esses problemas de dilatação são visíveis e sempre tiveram reparos pontuais no prédio. A decisão pelo isolamento da área, mudança de trânsito etc é uma estratégia do [governador] Ibaneis de mostrar serviço para a opinião pública, querendo dizer que é um governo atento e precavido”.
A expectativa das autoridades locais é de que a aprovação, pelo TCDF, ocorra até 1º de julho. Vistorias feitas pela Novacap detectaram uma dilatação de 0,4 centímetro para 1,5 centímetro nas fissuras da estrutura ao longo de apenas 3 meses. Essas estruturas são responsáveis pelo sustento do piso superior da rodoviária.
O GDF avalia que o processo de licitação normal não seria o mais adequado, devido aos riscos e ao transtorno que uma obra demorada causaria para a população. Ao todo serão reestruturadas 180 vigas com fibra de carbono que, segundo os técnicos do governo, “é material mais moderno, resistente e econômico que o aço”.
Criado em 2019-06-28 23:29:06
José Carlos Peliano (*) –
Se todos os dias da semana fossem sábado ou domingo, certamente nenhum de nós teria chance de ansiar pela chegada da sexta-feira para ser presenteado pelo sábado e/ou domingo. Aquele sentimento indizível de trocar o cansaço semanal do trabalho pela benesse de um final de semana de descanso ninguém desfrutaria. Mas não foi por isso que inventaram os dias da semana, esses vieram por conta do aparecimento das vilas e cidades e da consequente organização urbana do trabalho e do descanso.
A bendita sexta-feira é a eleita dos aprisionados ao trabalho urbano e até mesmo das atividades agrárias na era da industrialização. Uma vez que na vida rural dos tempos antigos não havia sábado e domingo porque todos os dias a natureza convidava os camponeses para cuidá-la e desfrutá-la, embora restasse o hábito e o costume que fluía entre eles como o crescimento das plantas.
Mais ou menos assim, o trabalho era intermediado por períodos de descanso, sem ordem específica, assim como as plantas têm períodos variados de germinação, crescimento e colheita, levando o trabalho de cultivá-los ser igualmente variado e daí propiciar períodos diferenciados de paradas.
Qual foi então a grande sacada dos primeiros mestres artesãos que foram para os burgos e viraram fabricantes pioneiros, hoje renomeados e propagandeados por todos os lados como empreendedores? A sacada foi a reunião dos trabalhadores, antigos artesãos individuais, nas recém-criadas fábricas, com suas habilidades específicas, em tarefas pré-determinadas, por todos os dias da semana em jornadas diárias maiores que o padrão das oito horas atuais. De início o descanso semanal não era respeitado, o que foi ganho aos poucos pela luta histórica dos trabalhadores reunidos em associações e sindicatos. Daí surge no tempo o sentimento da chegada gloriosa da sexta-feira!
Por que fizeram assim os mestres artesãos, capitalistas primitivos? Porque era preciso manter os trabalhadores operando suas tarefas diárias e cronometradas a fim de se ganhar tempo. O tempo coletivo. Não podia mais o trabalho ser no estilo rural sem hora, dia e tempo certos em cada jornada. A liberdade do trabalho rural foi trocada pela clausura do trabalho urbano nas fábricas. Daí em diante com a grande indústria a coisa não mudou muito.
Ou melhor, mudou de ritmo e de intensidade. O sistema de máquinas substituiu boa parte das tarefas reunidas dos artesãos dando à atividade de trabalho mais divisão, intensidade, controle e padronização. Quanto mais dividido, intenso e padronizado o trabalho sob controle do sistema de cada indústria, maior a produtividade (produtos por tempo de trabalho). Quanto mais eficiente o trabalho, ou seja, sem perdas de tempo e de produtos ou de retrabalho, uma boa produtividade será garantida. E, por fim, quanto maior a produtividade o lucro esperado é possível. Logo, mais divisão de trabalho, mais intensidade nas operações, mais eficiência e produtividade. E mais lucro.
Interessante observar que a produção capitalista extingue as diferenças dos trabalhos rural e artesanal, dadas pelas habilidades individuais de cada camponês e artesão, padronizando-os de acordo com seus objetivos, expressos nas hierarquias de ocupações, com o auxílio do sistema de máquinas, hoje controlados por meio digitais. Substituem diferenças por outras diferenças. Fez dos trabalhadores meros operadores de poucas tarefas manuais e muitas operações com máquinas e equipamentos. De fato, os trabalhadores se tornaram peças de uma engrenagem industrial intensa e extensa – vide, por exemplo, Tempos Modernos de Chaplin. Das diferenças individuais de trabalho às diferenças ditadas por cada companhia até a sua padronização industrial geral.
Interessante continuar observando que as diferenças individuais de trabalho passam, então, pela diferenciação padronizada de trabalho do sistema industrial para se tornarem, ao fim e ao cabo, em diferenças de produtos e serviços, não mais rurais ou artesanais, pois agora industriais, para serem postos e vendidos no mercado consumidor. Vivam as diferenças dirão os capitalistas e seus acólitos!
Derrota para o capitalismo! Disse lá atrás o velho Marx. O sistema capitalista, travestido nos dias de hoje de neoliberalismo está fadado ao fracasso. Ele tende a destruir a si mesmo. Como? Do lado do trabalho, ao eliminar as diferenças naturais do trabalho rural e artesanal, o capitalismo criou ao longo da história outras diferenças ao seu critério pela hierarquia das ocupações dadas pelas empresas e a consequente redução de salários. Sem opção, a maioria esmagadora dos trabalhadores se adaptou aos perfis das ocupações industriais.
Do lado do capital, ao se aperfeiçoar continuamente na eficiência e qualidade de sua produção cada empresa para vender no mercado tem de competir com as demais para ter sucesso e obviamente lucro. A competição capitalista cada vez mais acirrada entre as empresas tende a rebaixar muitas competidoras para níveis menores de produção ou mesmo destruí-las, deixando de fora somente as sobreviventes. Esse processo autofágico contínuo chegará aonde?
As diferenças de trabalho vieram das habilidades de cada trabalhador em seu conjunto para as diferenças visíveis de hoje entre os que têm emprego ou trabalho e os desempregados e subempregados. As diferenças de capital saíram das fábricas primitivas com coletivos diferenciados de ocupações e produtos para as empresas de hoje altamente eficientes com pouco trabalho humano dividido e muitas operações de máquinas e equipamentos com sistemas digitalizados de controle.
Uma conclusão imediata é que as diferenças criadas pelo capitalismo na hierarquia de trabalho, substituindo a natural, e as diferenças levadas pelos produtos ao mercado são os verdadeiros geradores, ou melhor, produtores da desigualdade presente no mundo moderno. Com as inovações tecnológicas, o capitalismo vem destruindo ocupações, tornando obsoletas outras por ele mesmo criadas e levando ao desemprego milhões de trabalhadores mundo afora. Além de provocar uma competição desenfreada entre empresas levando muitas a reduzirem de tamanho, tirando do mercado outras e ameaçando a oferta final de bens e serviços ou pela queda na taxa de lucro ou na falta mesma de mercado consumidor.
Como desempregados, subempregados e trabalhadores com salários reduzidos podem se manter sem terem empregos e condições de exercerem suas ocupações? Como as empresas em seu conjunto terão suas vendas garantidas nesse cenário de demanda cada vez mais reduzida? Ao fim e ao cabo, a competição desenfreada tende a levar a um mundo desolador. Milhões sem emprego e trabalho e produção inadequada sem consumidores suficientes.
As diferenças de trabalho e capital são usadas para gerar desigualdade e a desigualdade se sustenta em manter e ampliar essas diferenças. Círculo vicioso autodestruidor. Sob o capitalismo uma se alimenta da outra continuamente. Só não vê quem se aproveita!
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(*) José Carlos Peliano é poeta, escritor e economista.
Criado em 2019-12-27 14:33:49
Sérgio Maggio –
O 53º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro será realizado de 15 a 20 de dezembro no Canal Brasil, sempre às 23h, exibindo a Mostra Oficial de Longas. Na plataforma de streaming Canais Globo estarão disponíveis, também de 15 a 20/12, os filmes da Mostra Oficial de Curtas e Mostra Brasília. Dia 21 de dezembro, às 20h, cerimônia de premiação transmitida pelo Canal do YouTube do 53º FBCB.
O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (FBCB) é um grito de resistência. Foi com esse eco que atravessou 53 anos, ora travando batalhas inglórias contra governos autoritários e políticas perversas de desmonte ao audiovisual nacional, ora instaurando linguagens e identidades ao cinema brasileiro. Em 2020, diante de uma pandemia que já vitimou mais de 175 mil brasileiros e desempregou alguns milhões, esteve, como a maioria dos eventos culturais, em iminência de ser cancelado. Seria interrompido mais uma vez. De 1972 a 1974, foi censurado pela ditadura militar.
“Como secretário de Cultura e Economia Criativa (Secec) do Distrito Federal, não poderia deixar que o mais longevo e importante festival de cinema do país fosse pausado. Só a censura calou o Festival de Brasília e essa é uma cicatriz que não podemos remexer. É, com profundo sentimento de dever cumprido, que chegamos a essa 53ª edição, histórica e única”, avalia Bartolomeu Rodrigues.
Curador e diretor artístico, o cineasta Silvio Tendler há mais de dois meses respira esse estado de felicidade, como fez, em 1996, quando então secretário de Cultura e Esportes do DF, projetou uma das mais potentes edições do FBCB, com ênfase em intercâmbio artístico e filmes de uma novíssima geração, da chamada retomada do cinema nacional, após a devassa dos anos Collor e o desmantelo da Embrafilme.
“O cinema brasileiro é um resistente e renitente. Resiste a tudo que tenta derrubá-lo. Como diz Glauber Rocha, em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”: ‘mais forte são os poderes do povo”. Não desistiremos e não calaremos, o 53º FBCB é uma prova viva. Nesta edição, foram 698 filmes inscritos. Isso significa que estamos resistindo com arte, ciência e paciência”, aponta Silvio Tendler.
Parceria – Maior vitrine do cinema político no país, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro escancara-se ao mundo pela primeira vez. De 15 a 20 de dezembro, o público de todos os cantos pode acompanhá-lo no Canal Brasil (Mostra Oficial de Longa-Metragem) e na plataforma de streaming Canais Globo (Mostras Oficial de Curtas e Brasília).
O Canal Brasil já mantinha parceria duradoura com o FBCB, seja na cobertura jornalística, no Prêmio Canal Brasil de Curtas, seja nas rodadas de negócios e eventos.
“Neste momento tão atípico, é muito importante para o cinema e para a cultura que o Festival de Brasília aconteça e que isso possa se dar nas telas do Canal Brasil. É também uma oportunidade para que um número maior de pessoas possa acompanhar a exibição dos filmes, agora com alcance nacional. Estamos muito felizes em levar mais um festival de cinema para o grande público”, afirma Gesiele Vendramini, gerente de Negócios, Produção e Digital do Canal Brasil.
Todas as formas de narrar – Os 30 filmes selecionados para as mostras Oficiais de Longa e Curta e a Brasília apontam para o cinema contemporâneo brasileiro que se apropriou de suas narrativas para firmar uma identidade. Há filmes das cinco regiões brasileiras, o que indica essa vitalidade.
Na Mostra Oficial de Longas, essa tendência fica evidente na busca por um fio de memória que não pode se perder, num momento tão delicado, no qual a Cinemateca, guardiã de um acervo inestimável, é desmontada pelo poder público. Entre os concorrentes, “Ivan, O TerrirVel”, de Mário Abbade, e “A Luz de Mário Carneiro”, de Betse de Paula, voltam-se para dentro da história do cinema e esticam a memória como um tensionador do debate central, enquanto “Por Onde Anda Makunaíma (RR), de Rodrigo Séllos, mergulha no personagem-chave de Mário de Andrade para discutir a mítica do brasileiro.
A memória deixa de ser vestígio e vira caminhos abertos para a narrativa de “Espero que Esta te Encontre e que Estejas Bem (PE, RS, MS), de Natara Ney, a partir de um lote perdido de 110 cartas de amor encontrada numa loja de antiguidades.
Em “Entre Nós Talvez Estejam Multidões (MG/PE)”, de Alano Bemfica e Pedro Maia de Brito, monta um painel brasileiro e político ao entrelaçar o cotidiano de 300 famílias da Ocupação Eliana Silva, que surgiu em abril de 2012 na região do Barreiro, em Belo Horizonte, com eleição de Jair Bolsonaro.
Os cinco concorrentes documentais dialogam com “Longe do Paraíso (BA)”, única ficção da mostra comandada pelo veterano Orlando Senna, que toca no delicado e perigoso universo dos crimes sob encomendas de líderes populares no Brasil.
Mostra Oficial Longa-Metragem
Dia 15 de dezembro de 2020
Canal Brasil, às 23h
Espero que Esta te Encontre e que Estejas Bem (PE, RJ, MS)
(Natara Ney, Documentário, PE/RJ/MS, 83 min)
Dia 16 de dezembro de 2020
Canal Brasil, às 23h
Longe do Paraíso (BA)
(Orlando Senna, Ficção, BA, 106 min)
Dia 17 de dezembro de 2020
Canal Brasil, às 23h
A Luz de Mario Carneiro (RJ)
(Betse de Paula, Documentário, RJ, 73 min)
Filme cedido pelo Canal Curta!
Dia 18 de dezembro de 2020
Canal Brasil, às 23h
Por Onde Anda Makunaíma? (RR)
(Rodrigo Séllos, Documentário, RR, 84 min)
Filme cedido pelo Canal Curta!
Dia 19 de dezembro de 2020
Canal Brasil, às 23h
Entre Nós Talvez Estejam Multidões (MG, PE)
(Aiano Bemfica e Pedro Maia de Brito, Documentário, MG/PE, 92 min)
Dia 20 de dezembro de 2020
Ivan, O TerrirVel (RJ)
(Mario Abbade, Documentário, RJ, 103min)
Canal Brasil, às 23h
Curtas acendem a força do lugar de fala
Os 12 curtas selecionados para a Mostra Oficial indicam a quebra de hegemonia de narrativas masculinas, brancas e de polos centralizadores de poder. Com cinco representantes do Nordeste (BA, RN, MA, CE e PE), dois do Sul (SC, PR) e cinco do Sudeste (RJ, ES, SP e MG), o mosaico criado é diversificado com presença forte de mulheres, negros e LGBTQIAP+ tanto na direção quanto nas temáticas.
“Guardião da Noite” (RJ), de Milena Manfredini, passeia pelo mito exuberante e potente de Exú, orixá do Candomblé, e guia de luz da Umbanda, enquanto “República” (SP), de Grace Passô, foi criado durante a pandemia diante da necropolítica de negar a pandemia.
Mostra Oficial Curta-Metragem
Plataforma Canais Globo
Disponível: de 16 a 20 de dezembro
A Morte Branca do Feiticeiro Negro
(Rodrigo Ribeiro, Documentário, SC, 11mim)
A Tradicional Família Brasileira KATU
(Rodrigo Sena, Documentário, RN, 25mim)
Distopia
(Lilih Curi, Ficção, BA, 10m38s)
Guardião dos Caminhos
(Milena Manfredini, Experimental, RJ, 3 mim)
Inabitável
(Matheus Faria e Enock Carvalho, Ficção, PE, 19m57s)
Inabitáveis
(Anderson Bardot, Ficção, ES, 25m)
Noite de Seresta
(Muniz Filho, Sávio Fernandes, Documentário, CE, 19m)
Ouro Para o Bem do Brasil
(Gregory Baltz, RJ, Documentário, 17m24s)
Pausa Para o Café
(Tamiris Tertuliano, Ficção, PR, 5mim)
República
(Grace Passô, Ficção, SP, 15m30s)
Quanto Pesa
(Breno Nina, Ficção, MA, 23min)
Vitória
(Ricardo Alves Jr. Ficção, MG, 14m)
Mostra Brasília
Com 12 filmes (quatro longas e oito curtas), a Mostra Brasília, com boa parte dos filmes apoiados pelo Fundo de Apoio à Cultura (FAC), da Secec, radiografa o polo de criação vigoroso que se espelha nos selecionados. O traço memorial é uma linha que permeia todos os longas-metragens, sendo um deles, “Candango: Memórias do Festival”, de Lino Meireles, uma ode ao Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
De Jorge Bodanzky, “Utopia Distopia” dá vida ao sonho da Universidade de Brasília (UnB) destroçado pelas sucessivas invasões militares do regime totalitário da década de 1960. A narrativa política segue firme em “Cadê Edson”, de Dácia Ibiapina, sobre militante de movimento sem teto preso em 2015, e se personifica na história do cabelereiro das socialites de Brasília Derly Silva, o preferido da então primeira-dama, Ruth Cardoso. O filme “O Mergulho na Piscina Vazia”, de Edson Forgaça, fecha o quarteto de documentários brasilienses.
Entre os oito curtas, a possibilidade de narrativas e experimentações indica um mosaico de linguagens e temas. Do documentário sobre prostitutas da terceira idade, “Rosas do Asfalto”, de Daiane Cortes, à ficção científica de Thiago Foresti, em “Algoritmo”, há a importância do exercício de criação do cinema feito do Distrito Federal, que, neste ano, destacou-se em sucessivos festivais nacionais e internacionais.
Plataforma Canais Globo
Disponível: de 17 a 20 de dezembro
Longas
O Mergulho na Piscina Vazia
(Edson Fogaça, Documentário, 83min)
Cadê Edson?
(Dácia Ibiapina, Documentário, 72 min)
Candango: Memórias do Festival
(Lino Meireles, Documentário, 119 min)
Utopia Distopia
(Jorge Bodanzky, Documentário, 74 minutos)
Curtas
Algoritmo
(Thiago Foresti, Ficção, 20min)
Questão de Bom Senso
(Péterson Paim, Documentário, 29m53s)
Do Outro Lado
(David Murad, Ficção, 15m36s)
Rosas do Asfalto
(Daiane Cortes, Documentário, 19m57s)
Eric
(Letícia Castanheira, Documentário, 13m50s)
Brasília 60 + 60: Do Sonho ao Futuro
(Raquel Piantino, Animação, 13mim)
Delfini Brasília, Olhar Operário
(Maria do Socorro Madeira, Documentário, 22m58s)
Curumins
(Pablo Ravi, Documentário, 17m14s)
Veja a programação completa aqui
Ken Loach ao vivo
Em torno da exibição dos 30 filmes selecionados, o FBCB terá, como ponto altos, o encontro com o diretor britânico Ken Loach, sobre “o cinema como ferramenta política”, mediado por Silvio Tendler. Expoente do cinema político contemporâneo, o autor de “Eu, Daniel Blake” (2016) estará, ao vivo, numa sala virtual, no dia 16.12, das 11h às 12h, com transmissão para o Canal do YouTube da Secec. “Neste ano, torna-se maior o desafio de prospectar discussões sobre os caminhos e futuro do audiovisual brasileiro”, indica Érica Lewis, diretora executiva do Festival de Brasília.
Criado em 2020-12-12 22:06:24
Brasília - Foi uma grande confraternização o I Seminário LGBTI+ da Câmara Legislativa do DF – “Memória, Verdade e Justiça” realizado nos dias 24 e 25 junho. O evento foi promovido pelo gabinete do deputado Fábio Félix (PSol), presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos, Cidadania, Ética e Decoro Parlamentar, e serviu também para celebrar os “50 anos da Rebelião de Stonewall”, uma série de manifestações de membros da comunidade LGBT contra uma invasão da polícia de Nova Iorque ao bar Stonewall.
Com o auditório da Câmara largamente ocupado, o deputado Fábio Felix deu as boas vindas aos participantes e lembrou que o momento exigia a luta de todos contra os desmandos e os absurdos da atual política nacional, que vê os LGBT como inimigos.
Outros deputados compareceram como Arlete Sampaio (PT), que lembrou que “Fábio Félix é o primeiro deputado declaradamente homossexual da casa” e que tem realizado um trabalho visceral e importante. O deputado Chico Vigilante (PT), por sua vez, subiu ao palco do auditório para garantir o seu apoio e parceria em qualquer momento da luta.
Da Câmara dos Deputados vieram a deputada federal Érika Kokay (PT) que usou o seu tempo de fala para afirmar que ninguém obrigará os homossexuais a novamente se esconderem e, emocionada, citou um trecho do samba Liberdade, Liberdade! para exigir tempos melhores: “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”.
Finalmente, quem pediu a palavra foi o deputado David Miranda (PSol-RJ). Atarefado, e com pressa para voltar para o Congresso Nacional, falou da luta travada por ele seu marido, o jornalista norte-americano Glenn Greenwald, criador do site The Intercept que tem divulgado as mensagens secretas da Lava Jato.
Aplaudido pela plateia, David avisou que foi um casal homoafetivo que começou o processo de denúncia das ilegalidades no julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para ele, a Parada do Orgulho Gay, realizada domingo em São Paulo, com mais de três milhões de pessoas na avenida, mostrou para todos que os homossexuais podem - e vão - alterar a história brasileira, porque é “com amor que faremos as mudanças”. Antes de sair, disse que Glenn Greenwald estava para chegar a Brasília e que ele tinha que ir esperá-lo. “Afinal, ele é meu marido”, disse sorrindo de felicidade.
Mas teve também que ir ao Congresso Nacional onde as celebrações do meio século de Stonewall estavam sendo boicotadas. As luzes do arco-íris (símbolo da luta gay) preparadas para serem projetadas na noite dessa segunda-feira haviam sido desligadas e era preciso arregaçar as mangas para dar luz ao mistério do apagão.
A seguir, a programação completa dos dois dias de seminário e os nomes de todas as pessoas que prestigiaram os eventos, tanto na CLDF quanto no Congresso Nacional:
Programação do Seminário LGBT+ CLDF
Memória Verdade e Justiça: 50 anos de luta LGBT
Dia: 24 de junho
Mesa de abertura
Dep. Distrital Fábio Félix
Dep. Distrital Arlete Sampaio
Dep. Distrital Chico Vigilante
Dep. Federal Erika Kokay
Dra. Deborah Duprat (Procuradora Geral da República)
Dr. Juvenal Araújo (Subsecretário de Direitos Humanos da Sejus/DF)
Dra. Angela Maria (Delegada DECRIN)
I Painel – Resistência LGBTI+ no DF: Cidade de todas as cores.
Mediação:
Dani Brígida (Articulação Brasileira de Lésbicas)
Participantes:
Ludmylla Santiago (ANTRA)
Alexandre Ribondi (Ator e diretor)
Leonardo Luiz (Ativista da Rede Trans do DF)
Talita Victor (Secretária do Setorial LGBT do PSol-DF)
II Painel:
Mediação:
Bruno Zaidan (Coletivo Juntos!)
Participantes:
Janaina Oliveira, (Secretária Nacional LGBT PT)
Erica Malunguinho (Deputada Estadual SP)
Felipe Areda (Instituto LGBT)
Valdenizia Peixoto (Coordenadora do Departamento de Serviço Social da UnB e do Núcleo de Diversidade Sexual e Gênero)
Ruth Venceremos (Diretoria do Coletivo Distrito Drag)
Homenagens:
Alessandra Jugnet: Mãe pela diversidade, maquiadora, mãe da menina trans Victoria Jugnet (2001-2019).
Alexandre Ribondi: ativista gay, fundador do Grupo Homossexual Beijo Livre, o primeiro grupo de ativismo LGBT de Brasília. Foi colaborador do Jornal “O Lampião da Esquina”, uma das primeiras mídias voltadas à população LGBT do Brasil.
Allice Bombom: drag queen conhecidíssima na cidade por vender seus deliciosos bombons em formatos sugestivos.
Mônica Benício: militante de direitos humanos, viúva da vereadora do Rio de Janeiro executada em 14/03/18, Marielle Franco (PSOL).
Mães Pela Diversidade: grupo nacional de familiares de pessoas LGBTI que militam pelos direitos e dignidade dessas pessoas.
Marina Garlen (in memorian: baiana, mulher trans, ativista pelos direitos da população trans e travesti. Faleceu em 2016, em São Paulo, enquanto participava das atividades da semana da visualidade trans naquela cidade. Foi homenageada com um jardim de Ipês no Parque da Cidade, que leva seu nome e recebe novas mudas anualmente, nos dias próximos ao 29/01 (Dia Nacional da Visibilidade Trans).
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Programação do Seminário LGBT+ do Congresso Nacional
Memória, Verdade e Justiça - 50 Anos de luta LGBTI+
Local: Auditório Nereu Ramos da Câmara dos Deputados
Dia: 25 de junho
Programação
Cerimônia de Abertura
Presidentes das Comissões de Cultura; Defesa dos Direitos da Mulher; Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa; Direitos Humanos e Minorias; Educação; Legislação Participativa; Seguridade Social e Família; Trabalho, Administração e Serviço Público.
1ª Rodada
Memória: De onde viemos? Resgate histórico do contexto do Levante de Stonewall, nos Estados Unidos; resistência à ditadura civil-militar; constituição e organização dos coletivos precursores do movimento LGBT no Brasil e em outras partes do mundo.
Jane Di Castro – Cantora e artista performática brasileira, começou se apresentando em casas noturnas do bairro de Copacabana/RJ e, em 1966, estreou no Teatro Dulcina. Foi dirigida por Bibi Ferreira no espetáculo Gay Fantasy no qual também atuaram Rogéria, Marlene Casanova e outras e Ney Latorraca. Em 2004 estrelou no Teatro Rival o espetáculo Divinas Divas que manteve-se em cartaz por 10 anos. Depois de 47 anos vivendo com Otávio Bonfim, formalizou a união em 2014, num casamento coletivo que reuniu 160 casais LGBT.
Wellington Andrade – Em 1970 foi secretário da comunidade católica de Homossexuais em Aracaju, em 1980 criou o Dialogay um dos grupos mais atuantes, participou da fundação de dois jornais gays: Journal Gay Internacional e o Jornal Lampião da Esquina. Em 2004, fundou o Grupo ADAMOR, motivado pelo assassinato de um gay. Atualmente é presidente de honra do Adamor Cores da Vida e tem contribuído para ampliar a luta e a defesa dos direitos da comunidade LGBTQI na Bahia e no Brasil.
Heliana Hemetério – historiadora, iniciou sua militância em 1984, atua no Movimento de Mulheres Negras, participou da coordenação do I Seminário de Lésbicas em 1996 no Rio de Janeiro e da coordenação do I e II Seminário de Lésbicas Negras e atual vice presidenta lésbica da Abglt e Articuladora do Candaces, Rede Nacional de Lésbicas Negras.
Amika Tendaji - representante do Black Lives Matter (EUA), reconhecida defensora de direitos humanos, representando o coletivo Black Lives Matter (BLM), dos Estados Unidos. O BLM tem pautado sua atuação na denúncia das agressões e violências sofridas pela população negra norte-americana e na defesa de seus direitos civis. O nome – “Vidas Negras Importam” – reflete a linha de ação do grupo. Além de defensora de direitos humanos, Amika Tendaji é poeta, fotógrafa, LGBTI+ e coordenadora regional do BLM de Chicago.
Cláudio Nascimento (mediador) – filósofo, é ativista LGBTI há 30 anos, atualmente é coordenador executivo do Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBTI, é diretor de políticas públicas da Aliança Nacional LGBTI e coordenador no Brasil da Rede Gaylatino. É fundador e coordenador da Parada do Orgulho LGBTI-Rio. Foi idealizador e coordenou, por 9 anos, do Programa Estadual Rio Sem Homofobia (2007 a 2016). Coordenou a articulação e elaboração do Programa Federal Rio Sem Homofobia (2004). É cidadão honorário dos municípios do Rio de Janeiro (2002), Maceió (2013) e Quatis (2014). Também recebeu pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro a Medalha Tiradentes (2002) e da Câmara Municipal do Rio de Janeiro a Medalha Pedro Ernesto (2015). É comendador da UERJ com a Medalha José Bonifácio, na categoria Grão Oficial (2013). É co-autor do Livro "Quando ousamos existir: itinerários foto biográficos do Movimento LGBTI Brasileiro -1978-2018" (2018).
2ª Rodada
Verdade: Onde estamos? Análise de conjuntura sobre atualidade das questões que envolvem o espectro das orientações sexuais e identidades de gênero no plano da sociedade e das relações com o Estado; mudanças institucionais em curso nos últimos anos e, em especial, com a posse do novo Presidente da República.
Marcelly Malta – Presidente da ONG Igualdade RS – Associação de Travestis e Transexuais do Estado do Rio Grande do Sul, Vice-presidente da Rede Trans Brasil e militante histórica do movimento de pessoas trans no Brasil.
Beto de Jesus – É Country Program Manager da Aids Healthcare Foundation (AHF Brasil). Educador de formação, consultor em Diversidade Sexual e Gênero para organismos nacionais e internacionais, públicos e privados, com diversas publicações sobre o tema. Membro-fundador da Parada do Orgulho LGBTI+ de São Paulo e Diretor para o Brasil da ILGA (International Lesbian, Gay, Bisexual, Trans and Intersex People Association).
Erika Hilton – é transvestigenere, negra, estudante de Gerontologia na Universidade Federal de São Carlos, no interior paulista e co-Deputada Estadual pela Bancada Ativista. É uma das 3 mulheres trans eleitas em 2018 pelo PSOL. Erika luta pelo direito a vida, dignidade e direitos sociais e humanos para todas as que são marginalizadas e excluídas pelo CIStema.
Robeyoncé Lima – Nascida e criada na comunidade do Alto Santa Terezinha, Zona Norte do Recife, é bacharela em direito pela UFPE, e atualmente é técnica administrativa pela mesma universidade. Como primeira advogada trans do Estado de Pernambuco, se tornou militante nas pautas LGBT, negra e feminista. Membra da Comissão de Diversidade Sexual e de Gênero da OAB-PE e co-deputada estadual pela MandatA coletiva das JUNTAS. É também dançarina amadora.
Fernanda Costa Lima - é graduada em Gestão de Marketing, foi dirigente da União de Negros Pela Igualdade de Pernambuco, militante a 16 anos dos movimentos sociais, integrou a direção do Bloco da Diversidade de Pernambuco de 2008 a 2012, atualmente é Gestora do Centro da Mulher Metropolitana Júlia Santiago pela Secretaria da Mulher do Recife e Vice Presidenta Nacional da UNALGBT.
Helena Vieira (mediadora) – pesquisadora, transfeminista e escritora. Estudou Gestão de Políticas Públicas na Universidade de São Paulo. Foi colunista da Revista Fórum e contribuiu com diversos meios de comunicação, como o Huffpost Brasil, Revista Galileu (especial sobre transexualidades) e Cadernos Globo (Corpo: artigo indefinido), participando das discussões sobre a novela Força do Querer.
3ª Rodada
Justiça: Para onde vamos? Perspectivas de avanço na conquista de direitos; extremismos e resistência no Brasil e no mundo; o papel dos novos movimentos sociais, com destaque para a cultura, mulheres, negritudes e juventudes.
Erica Malunguinho – educadora, artista plástica, agitadora cultural e política brasileira. Em 2018, elegeu-se deputada estadual, sendo a primeira mulher transexual da Assembleia Legislativa de São Paulo. Conhecida por ter parido, na região central da cidade de São Paulo, um quilombo urbano de nome Aparelha Luzia, território de circulação de artes, culturas e políticas pretas, visível também como instalação estético-política, zona de afetividade e bioma das inteligências negras.
Gustavo Bernardes – ex-Presidente do Conselho Nacional LGBT e coordenador de promoção dos direitos de LGBT da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.
Danieli Balbi – Professora da Rede Pública Federal de Ensino - Fiocruz. Doutoranda em Ciência da Literatura pela UFRJ. Assessora Parlamentar da Comissão de Defesa e Promoção dos Direitos das Mulheres da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Diretora da UNALGBT.
Rivânia Rodrigues – Lésbica, negra, feminista, formada em Gestão pública, integra a rede CANDACES. Coordenou o Semanário nacional de Lésbicas e da construção do primeiro seminário de lésbicas negras. Foi a primeira mulher no Estado a assumir um organismo da Política LGBT EM 2009 no município de Recife na GLOS em 2012.
Rafa Carmo Ramos – Artista Visual. Atualmente é coordenador da Rede Paraense de Pessoas Trans, Conselheiro Estadual da Diversidade Sexual do Pará pelo segmento de Transexuais e Coordenador de Raça e Etnia da Rede Trans Brasil.
Dione do Carmo Araújo Freitas - terapeuta Ocupacional formada pela FMRP-USP, pós-graduada em Reabilitação e Atenção a Saúde Hospitalar de Adultos e Idosos pela Residência multiprofissional da FMUSP, recentemente conclui meu mestrado em Desenvolvimento Territorial Sustentável pela UFPR estudando as políticas públicas para pessoas trans, principalmente as que permitem o livre desempenho da identidade de gênero.
Para encerrar, houve uma apresentação artística de Ikarokadoshi - jornalista, apresentador de TV no programa “Drag me as a Queen” no Canal E! Premiado como o melhor reality show de 2018, no Rio 2C. Foi eleito em 2010 pela G Magazine como um dos cinco melhores artistas. Foi homenageado pelo artista plástico Rafael Suriani com grafites da Imagens do Ikaro pelo centro da cidade de São Paulo, na Tag Gallery e em Paris. Fez parte do musical “Chicago”, no qual interpretou Velma Kelly e do clássico “Rocky Horror Picture Show”, no qual interpretou o Dr. Frank n’ Furter. Foi eleito pela Billboard como uma das 34 drags mais conhecidas no mundo. Foi leito pela Revista Americana Out uma das 60 melhores drag queens do Mundo.
Além disso, houve um “Beijaço” em frente ao Congresso Nacional.
Criado em 2019-06-26 03:10:51
João Lanari Bo –
O inusitado diálogo entre dois Papas acabou virando filme, uma ocasião cinematográfica habilmente permeada de “licenças dramáticas”, como dizia Orson Welles, mas calçada nos dilemas e lutas intestinas que atormentam a Igreja Católica nessa alvorada do novo milênio.
Um filme que embarca no modo de produção do momento, desejado por nove entre dez cineastas, aquele voltado para filmes que vão circular sobretudo no “streaming”, a Netflix: atores bons (e caros), equipe eficiente, diretor experimentado e roteiro criativo completam a moldura desse mergulho imaginário na intimidade do poder no mundo eclesiástico, um mundo quase atemporal.
Sim, porque o tempo para a instituição que é a Igreja se mede no milenário, algo único na história da humanidade. Séculos e séculos de permanente construção intelectual, interagindo com os avanços da ciência e as turbulências do poder político, com outros sistemas religiosos e fraturas internas, do protestantismo ao evangelismo moderno – não é pouca coisa.
E eis que a Netflix, no alto dos estimados 15 bilhões de dólares, que investiu em conteúdo original em 2019 – cifra astronômica, justificada pelo acirramento da competição que se anuncia com a entrada no mercado da Disney, Apple TV e outros menos votados – resolve, enfim, investir em um filme-fábula sobre um dos mistérios mais bem guardados da Igreja, a transição papal.
Uma produção ousada (a Capela Sistina, por exemplo, foi inteiramente reconstruída como cenário, já que o Vaticano não permitiu filmagens nos seus domínios) trouxe o duelo interno da Igreja - tradicionalismo erudito de Bento XVI versus populismo sincero de Francisco - para o espaço ameno do espetáculo, contrapondo personalidades e particularidades de ambos Santos Padres em um diálogo, digamos, humano – “não sou infalível”, confessa Bento a Francisco, ao confidenciar sobre sua próxima renúncia, derrubando de passagem o dogma da infalibilidade papal.
A reedificação desse diálogo imaginário, que ninguém sabe se existiu, mas que todos intuem verossímil, é o fio condutor que tece a trama da história. O ponto crítico da conversa – na pista sonora ecoa o nome “Maciel”, menção ao Padre mexicano Marcial Maciel, predador entre predadores sexuais, protegido por João Paulo II e Bento XVI, que desistiu de processá-lo canonicamente em função da idade avançada do padre e convidou-o a uma vida reservada dita de "oração e penitência" – foi obliterado na mesma pista sonora pelos realizadores do filme, relegado ao mistério eterno, uma verdade que “é melhor nem saber”.
Esta a ferida narcísica em que se debate a Igreja, a questão do disseminado abuso sexual perpetrado pelos sacerdotes, encoberto ou ignorado por séculos, que Bento não foi capaz de enfrentar – e que desabou nos braços de Francisco. Uma rápida consulta à internet revela a amplitude da questão e as dificuldades internas que se antepõem à autoridade papal. Não é a única a afligir a consciência dos clérigos de boa vontade que pelejam pela sobrevivência da fé cristã, certamente, mas sua extensão é inédita.
Completam o quadro os flashbacks da trajetória político-espiritual de Francisco, pontuada de atos corajosos e às vezes duvidosos nos anos sombrios do militarismo argentino, tema que a Netflix já havia visitado, em “Pode me chamar de Francisco”, da produtora italiana Taodue.
Francisco, o Papa, ingressou, à revelia ou não, na sociedade do espetáculo.
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Nota do Editor:
O filme Dois Papas é um drama biográfico de 2019, dirigido por Fernando Meirelles e escrito por Anthony McCarten, com base na obra de McCarten, O Papa. É estrelado por Anthony Hopkins e Jonathan Pryce. Teve estreia no Festival de Cinema de Telluride (Colorado, EUA) em 31 de agosto de 2019 foi lançado nos Estados Unidos em 27 de novembro de 2019, no Reino Unido em 29 de novembro de 2019, e em streaming digital em 20 de dezembro de 2019, pela Netflix. Atualmente está em cartaz nos cinemas brasileiros.
Criado em 2019-12-22 23:41:23
Luiz Philippe Torelly –
“Nos tempos antigos, os homens não conheciam as doenças, o sofrimento ou a morte. Não havia brigas. Todos eram felizes. Naquele tempo, os Espíritos da floresta viviam junto com os homens.” Relato dos índios guianenses (1).
Algumas coincidências acabam por nos fazer crer em sincronicidade e em como situações históricas de um passado remoto podem ressurgir, naturalmente, sob outras circunstâncias e roupagem. Esse é o caso do presente texto.
Fico sempre à procura de “novidades”, especialmente de relatos de viagens ou acontecimentos inusitados que fujam à regra da história dos vencedores e das grandes datas, que possam como uma lupa desvendar o particular. Foi assim que me deparei com um opúsculo de título curioso: Uma festa brasileira celebrada em Ruão em 1550. Foi amor à primeira vista. De autoria de Ferdinand Denis e publicado em 1850, relata um acontecimento na história da França e do Brasil, com profundas raízes na filosofia e no imaginário da desigualdade que sempre determinou as relações entre a maioria dos homens.
Tal fato foi inicialmente relatado na denominada Narrativa da suntuosa entrada, atribuída a Maurice Sève, publicada em Rouen em 1551. O texto registra a “entrada” (2) realizada em homenagem ao rei de França Henrique II e à rainha Catarina de Médicis, em 1550. As “entradas” eram celebrações, muitas vezes de caráter teatral ou religioso, em homenagem a acontecimentos ou personalidades de que se utilizava a realeza para exibir seu poderio e riqueza: a antiga fórmula do pão e circo. Frequentes no ancien régime francês, essas efemérides ocorreram até o século XIX, como na repatriação dos restos mortais de Napoleão Bonaparte ou no enterro de Victor Hugo, que atraiu mais de um milhão de parisienses.
O episódio de Rouen se tornou célebre e chegou aos nossos dias graças ao texto de Montaigne Os canibais, parte de seu livro Os ensaios. A festa teve um aspecto inusitado e grandiloquente por suas proporções e riqueza de detalhes. Envolvia a representação em grande escala de um cenário brasileiro, com fauna e flora originais, inclusive, onde trezentos homens, dentre eles cinquenta indígenas, simulavam um confronto entre tupinambás e tabajaras, com a vitória dos primeiros. Sua significância advém do ensaio de Montaigne e de sua influência sobre as ideias de Jean-Jacques Rousseau, da Revolução Francesa de 1789 e das origens do socialismo, especialmente da luta de classes e da crítica ao fundamento da propriedade privada.
Importante mencionar A utopia, de Thomas Morus, obra que antecede em algumas décadas a de Montaigne, como uma das fontes primeiras dessas formulações. Parte desse acontecimento perenizou-se em gravuras e na pedra, nos baixos relevos na Igreja de Saint-Jacques em Dieppe.
Em 1580, Montaigne publica a 1ª edição de Os ensaios, na qual está incluído aquele texto intitulado Os canibais. Nele, retrata uma sociedade edênica e, num imaginário diálogo com Platão, afirma (3):
“É uma nação em que não há nenhuma espécie de comércio, nenhum conhecimento das letras, nenhuma ciência dos números, nenhum termo para magistrado nem para superior político, nenhuma prática de subordinação, de riqueza ou de pobreza, nem contratos nem sucessões, nem partilhas, nem ocupações além do ócio, nenhum respeito ao parentesco exceto o respeito mútuo, nem vestimentas, nem agricultura, nem metal, nem uso de vinho ou de trigo. As próprias palavras que significam mentira, traição, dissimulação, avareza, inveja, difamação, perdão são desconhecidas”.
Nosso autor relata em sua obra que tais informações sobre os indígenas brasileiros, no caso, os tupinambás, teriam lhe sido narradas por um homem que havia morado no Novo Mundo por dez ou doze anos. Tudo indica que ele teve acesso, entre outras, às obras Singularidades da França Antártica, do abade e cosmógrafo André Thevet, e Viagem à terra do Brasil, do pastor Jean de Léry.
Deve-se destacar que as obras citadas lhe eram contemporâneas e seus autores, um católico e outro calvinista, se encontravam em lados opostos na guerra religiosa que incendiava a França do século XVI. Tal guerra culminaria com a tristemente famosa Noite de São Bartolomeu de 1572, que desencadeou escaramuças em todo o país, ceifando milhares de vidas.
Os franceses, desde o início do século XVI, estiveram em contato com os indígenas na costa brasileira, com o objetivo de extrair o pau-brasil, a primeira riqueza a atrair navegantes e corsários. A tentativa de fundar a França Antártica na Baía da Guanabara e adjacências a partir de 1555 foi uma iniciativa que tinha por objetivo o estabelecimento de uma colônia permanente. A empreitada foi frustrada, pois, além da dura oposição militar dos portugueses, foi envolvida em lutas religiosas entre calvinistas e católicos, o que comprometeu seriamente sua unidade militar, favorecendo a vitória lusa.
Desde as primeiras viagens às Américas, os índios foram levados para além-mar, na condição de escravos ou troféus exóticos da “terra dos papagaios”. Um dos casos mais célebres foi o de Catharina Paraguassu, que se casou na cidade francesa de Saint-Malo, em 1528, com Diogo Álvares, o famoso Caramuru, náufrago português que morava entre os índios onde hoje se localiza a cidade de Salvador, na Bahia. Há farta mitologia sobre o casal, tido como a primeira união entre brancos e índios no país.
Outro caso emblemático foi o de Essomericq, levado para a França pelo capitão Binot Paulmier, em 1504, do qual adotou o nome de família. Essomericq radicou-se no país e casou-se com uma natural. Ambientou-se de tal forma que um seu bisneto, o abade Jean de Paulmier, tornou-se cônego da Catedral de Lisieux. Nesse contexto é que foram levados para Rouen os cinquenta indígenas participantes da citada festa brasileira. A festa em si não é tratada por Montaigne, apenas o diálogo entre os índios e o rei Henrique II, ápice e corolário de seu ensaio que entraria para a história da filosofia.
A “entrada” à qual me referi foi um acontecimento que procurava reproduzir para os franceses o modo de viver dos indígenas, classificados pelo senso comum de “bárbaros” ou “selvagens” por seus hábitos e costumes. Guardadas as devidas proporções, promoveu uma espécie de escola de samba a evoluir um enredo. Na época já existiam numerosas descrições de seres e plantas do Novo Mundo, alguns monstruosos, que mesclavam fantasia e realidade, com origem em mitos e lendas da Antiguidade e do Medievo.
Dois deles se tornaram particularmente famosos: a Ipupiara, cabeça e focinho de cão, seios femininos, mãos e braços humanos e patas de ave de rapina e as famosas amazonas, mulheres guerreiras de seios desnudos, já mencionadas desde Alexandre, o Grande.
Deixo a cargo do leitor a consulta a duas obras que descrevem com pormenores o acontecimento, por não ser esse o objetivo primeiro dessas anotações. A primeira delas é a de Ferdinand Denis, já citada. A segunda é o excepcional livro de Afonso Arinos de Melo Franco, O índio brasileiro e a Revolução Francesa (4), publicado em 1937. Arinos realizou ampla e profunda pesquisa sobre a influência do índio brasileiro nas ideias do Iluminismo e da teoria da bondade natural, especialmente em Diderot e Rousseau, e seus desdobramentos no ideário da Revolução Francesa. Livro de juventude, escrito aos 32 anos, figura como uma das obras mais importantes produzidas no país na primeira metade do século XX, malgrado sua ótica conservadora do desenvolvimento de teorias calcadas no conceito de bondade natural dos indígenas, como por exemplo o marxismo, particularmente em sua crítica à propriedade privada.
Vários pensadores e filósofos antecederam Rousseau na formulação dos princípios da bondade natural e do mito do bom selvagem. Dentre eles, Thomas Morus, Erasmo de Roterdã, Montaigne e Diderot, apenas para citar os mais notórios. No entanto, coube a ele, especialmente em seus dois discursos – Sobre as ciências e as artes e Sobre as origens da desigualdade –, a síntese das ideias políticas que duas décadas depois influenciariam a Revolução Francesa, tendo como dístico os famosos princípios Igualdade, Liberdade e Fraternidade. Mais tarde, duas outras obras se somam às primeiras para consolidar sua doutrina política e filosófica: Do contrato social, sobre os paradigmas políticos que podem reconduzir o homem ao seu estado natural e assegurar a soberania política da vontade coletiva, e Emílio, no qual formula uma proposta pedagógica coerente com suas concepções.
Em várias passagens do Discurso sobre as origens da desigualdade, Rousseau qualifica o conceito de bondade natural. Selecionamos uma delas (5) para, inclusive, destacar as similitudes com a citação de Montaigne:
“Ora, nada é mais meigo do que o homem em seu estado primitivo, quando, colocado pela natureza a igual distância da estupidez dos brutos e das luzes da sociedade civil, e compelido tanto pelo instinto quanto pela razão a defender-se do mal que o ameaça, é impedido pela piedade natural de fazer mal a alguém sem ser a isso levado por alguma coisa ou mesmo depois de ser atingido por algum mal. Porque, segundo o axioma do sábio Locke, ´não haveria afronta se não houvesse a propriedade´”.
Pode-se dizer que as duas passagens fazem parte do mesmo discurso. Daí a longevidade das obras desses dois autores cuja influência sobre a filosofia, a literatura, a antropologia e a etnografia atravessou os séculos e alcançou os nossos dias. Registre-se que ambos se valeram dos relatos de Thevet, Léry e Staden, que, embora naturalmente se surpreendessem com os casos de canibalismo e outras práticas dos indígenas, reconheceram suas inúmeras qualidades e virtudes, como na seguinte passagem de Jean de Léry (6):
“O que disse é apenas para mostrar que não merecemos louvor por condená-los austeramente, só porque sem pudor andam desnudos, pois os excedemos no vício oposto, no da superficialidade de vestuário”.
O indígena se transfigura em selvagem, bárbaro, preguiçoso à medida que avança a colonização, quando passa a conviver com os portugueses e com aqueles, muitas vezes seus descendentes (mamelucos), que querem destruir seu mundo, subjugá-lo, subverter seus usos e costumes e roubar suas terras, como ainda vemos no Brasil de hoje.
A crítica, especialmente às ideias de Rousseau, advém em parte de seu comportamento exótico e de sua vida pessoal, dissociada de suas concepções, e de suas denúncias aos valores e instituições da civilização ocidental. Marilena Chauí, na introdução à edição brasileira do livro Do contrato social, nos esclarece (7):
“Se os abusos do estado social civilizado não o colocassem abaixo da vida primitiva, o homem deveria bendizer sem cessar o instante feliz que o arrancou para sempre da animalidade e fez de um ser estúpido e limitado uma criatura inteligente. O propósito visado por Rousseau é combater os abusos e não repudiar os mais altos valores humanos”.
O achado do livro de Ferdinand Denis me levou a outros, guiado por um magnetismo em que o acaso e a curiosidade têm certa participação.
Montaigne nos deu a chave da relevância do episódio e de sua oportunidade na atualidade brasileira. Ao final da festa, o rei convidou três dos indígenas para uma conversa. Falou-lhes por muito tempo sobre as excelências da cidade de Rouen e da festa em si. Perguntou-lhes, então, do que mais tinham gostado. Eles responderam em primeiro lugar que achavam estranho que tantos homens fortes e armados obedecessem a uma criança e que não escolhessem entre eles um igual para comandante. Em segundo lugar, mostraram seu espanto e indignação em ver que, enquanto alguns estavam abarrotados de todas as comodidades e tinham mesa farta, outros estivessem pelas ruas da cidade reduzidos à fome e à pobreza. Concluíram com essas palavras o seu diálogo com o rei (8): “e achavam estranho como essas metades daqui, necessitadas, podiam suportar tal injustiça, que não pegassem os outros pela goela ou ateassem fogo em suas casas”.
Decorridos 466 anos da Festa Brasileira e 227 da Revolução Francesa, infelizmente ainda remanescem a desigualdade, a pobreza, a violência, o etnocentrismo, apesar da criação de instituições aparentemente democráticas, esforço permanente desde a Renascença e o Iluminismo.
Estudos recentes realizados na Itália, abarcando o período de 1427 a 2011, e na Inglaterra, de 1170 a 2012, a partir de censos e declarações de renda entre outras fontes, concluíram que os sobrenomes dos mais ricos e dos mais pobres não haviam se alterado. Guardadas possíveis imprecisões e distorções, esses estudos constituem indicativo de que o dinheiro não mudou de mãos, a par de avanços na educação e na saúde e na proteção ao trabalho. Gregory Clark e Neil Cummins, da London School of Economics, revelam que as universidades mais famosas do país, como Oxford e Cambridge, são quase que exclusivas dos mais ricos, mantendo uma elevada seletividade mesmo com ampliação das possibilidades de acesso. Segundo Neil Cummins (9):
“Essa correlação é inalterada ao longo dos séculos. Ainda mais notável é a falta de um sinal de qualquer declínio na persistência de status social durante períodos de mudanças institucionais, como a Revolução Industrial do século XVIII, a disseminação da escolarização universal no final do século XIX (no Brasil só a atingimos na 2ª década do século XXI), ou a ascensão do estado social-democrata no século XX”.
Thomas Piketty, em seu livro O capital no século XXI, lançado em 2014, causou furor, e às vezes críticas azedas, ao constatar a progressão da desigualdade. Ele analisa em profundidade a dinâmica de acumulação do capital e sua evolução em longo prazo, bem como a distribuição da renda entre o capital e o trabalho, em um período de três séculos, em vinte países. Na introdução de seu livro, afirma (10):
“O crescimento econômico moderno e a difusão do conhecimento tornaram possível evitar o apocalipse marxista, mas não modificaram as estruturas profundas do capital e da desigualdade – ou pelo menos não tanto quanto se imaginava nas décadas otimistas pós-Segunda Guerra Mundial. Quando a taxa de remuneração do capital ultrapassa a taxa de crescimento da produção e da renda, como ocorreu no século XIX e parece provável que volte a ocorrer no século XXI (caso brasileiro), o capitalismo produz automaticamente desigualdades insustentáveis, arbitrárias, que ameaçam de maneira radical os valores da meritocracia sobre os quais se fundam nossas sociedades democráticas”.
É exatamente isso o que está acontecendo no Brasil. Há sério risco de desmonte da política de recuperação dos salários, de ampliação dos direitos trabalhistas e dos benefícios sociais que, entre 2001 e 2013, reduziu o percentual de brasileiros que vivem em extrema pobreza de 10% para 4%. Mais: 25 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema ou moderada no mesmo período. Saímos do malfadado mapa mundial da fome. É o que diz o relatório de abril de 2015 do insuspeito Banco Mundial, Prosperidade compartilhada e erradicação da pobreza na América Latina e Caribe (11).
Refletindo sobre a crise política, institucional e moral na qual o país está imerso – na ineficácia e porque não falar na anomia de suas instituições, na instabilidade da economia, nos milhões de empregos perdidos, no retrocesso das conquistas sociais e políticas das últimas décadas, na corrupção e impunidade que o mercado impõe ao estado, exclamo: ainda temos muito a aprender com a bondade natural e o “bom selvagem”!
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Notas
(1) Registro de Lévi-Strauss sobre relato de índios guianenses, em seu livro O cru e o cozido. São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 320.
(2) DENIS, Ferdinand. Uma festa brasileira celebrada em Ruão em 1550. Brasília: Senado Federal, 2011, p. 38. Ver também JONES, Colin. Paris, biografia de uma cidade. 5 ed. Porto Alegre: L&PM, 2013, p.129-130.
(3) MONTAIGNE, Michel. Os ensaios: uma seleção. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, 146.
(4) FRANCO, Afonso Arinos de Melo. O índio brasileiro e a Revolução Francesa: as origens brasileiras da teoria da bondade natural. 2 ed. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 1976, 48.
(5) ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 93, volume II.
(6) LÉRY, Jean de. Viagem à terra do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 2007, p. 121.
(7) CHAUÍ, Marilena. Introdução a Rousseau. In: Coleção Os Pensadores – Rousseau, volume I. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 13.
(8) MONTAIGNE, Michel. Os ensaios: uma seleção. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p.157.
(9) CLARK, Gregory e CUMMINS, Neil. Desigualdade: estudos sobre as famílias ricas mostram que os pobres são os mesmo de sempre. Disponível em: www.diariodocentrodomundo.com.br. Acesso em 14 jul. 2016.
(10) PIKETTY, Thomas. O capital no século XXI. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.
(11) BANCO MUNDIAL. Prosperidade compartilhada e erradicação da pobreza na América Latina e Caribe. Disponível em: www.worldbank.org. Acesso em 15 jul. 2016.
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(Texto publicado originalmente no site www.vitruvius.com.br).
Criado em 2020-12-09 19:40:54
Brasília – O deputado distrital Fábio Felix (PSol) leva para a Câmara Legislativa do DF o Seminário LGBTI+ do Congresso Nacional. “Vamos convidar várias pessoas e entidades que têm um histórico de anos de trabalho na luta pela ampliação de direitos”, disse ele em sua página no Facebook.
O primeiro painel "Resistência LGBTI+ no DF: cidade de todas as cores" tratará dos projetos da cidade voltados para o movimento LBGT e para a importância de cada um deles na construção de políticas públicas e de resistência.
A mesa será mediada por Dani Brígida, da Articulação Brasileira de Lésbicas e contará com as presenças de Ludymilla Santiago Dias (Antra), Alexandre Ribondi (ator e diretor), Leonardo Luiz, representante da Rede Trans, e Talita Victor, secretária LGBTI do PSol-DF.


Fábio Felix convida: Vivemos uma cidade modernista e que chama pelas cores da diversidade! Venha participar dessa construção!
Faça sua inscrição: http://bit.ly/seminariolgbti2019
O evento será realizado nesta segunda e terça, dias 24 e 25 de junho, na Câmara Legislativa do DF, é gratuito e confere certificado de comparecimento.
Criado em 2019-06-22 05:05:25
José Carlos Peliano (*)
Ontem, 11 de dezembro de 2019, visitando o canal Curta da TV fechada deparei com o programa Cineastas, onde encontrei Marcelo Gomes falando sobre sua rica filmografia, em particular Cinema, aspirinas e urubus, de 2005, o qual já havia assistido anos atrás. Estava, de fato, de passagem pelos canais para ver se encontrava alguma coisa interessante para prender os olhos de minha atenção. Acabei ficando por ali. Mais que interessante, me enriqueci com os flashes e comentários da rica e elaborada experiência cinematográfica do diretor.
O ator brasileiro do filme, João Miguel, baiano de Salvador, a quem já admirava de outras participações em cinema e TV, me chamou mais uma vez a atenção. Seu desempenho na película é irretocável, um nordestino reservado, duro como a seca, solitário feito um mandacaru, mas de olhos atentos à terra e à paisagem desolada da região. Aliás é o que resta a muitos que ainda vivem ali respirando poeira, calor, calangos, um ar sem vento e tufos de folhas secas. E por isso mesmo é um forte, embora marcado para sobreviver, assim resistente, destemido, sertanejo da gota serena. Um ser tão persistente, de um sertão renitente, quanto um rio seco à espera de gotas de uma chuvinha que algum dia promete chegar.
Nessa toada da vida difícil, ao avesso, me detive num comentário feito pelo personagem Ranulpho de João Miguel, em conversa com o personagem estrangeiro Johann, papel do ator Peter Ketnath, em um flash do filme, que pode ser resumido no duro substantivo desolação, extraído da cena. Referia-se João Miguel ao cenário agreste visto de um lado e outro da estrada por onde iam na camioneta. Logo, me vieram em sequência três outros substantivos que juntei àquele para uma compreensão para mim mais detida do comentário.
Ante à desolação por todos os lados das condições de sobrevivência, de trabalho, de amanhã, o que leva por fim ao retirante sair dali atrás de um refrigério, uma água fresca, uma sombra com asas, um sorriso aberto? Imaginei etapas de um prolongado e tortuoso convencimento para cada retirante, algo parecido ao texto de Graciliano Ramos, Vidas Secas, já comentado brevemente por mim aqui neste site em Uma passagem por Vidas Secas e um olhar para o Brasil.
A desolação deve provocar estranhamento que leva ao rompimento que termina no abandono. A dura saga de todo nordestino que vai para outros alvoreceres junto aos filhos, aos bichos de estimação, aos exíguos pertences, às poucas lembranças livres de tristeza, apatia e sofrimento.
O homem é gregário por natureza. E ela está aí para lhe dar guarida, asas, energia, trabalho, companhia, respeito. Quando ele nasce, ela já o espera de braços abertos com seus segredos, ensinamentos e aprendizados. Uma sala de aula viva que o acompanha em todas as séries de idade, profissões e formação de personalidade.
Difícil separar o que vem da natureza e o que se recebe pelas relações sociais e familiares. Há uma inter-relação natural, variada e progressiva. Sem uma, as outras definham e perdem sentido. Quando isso não acontece advém a barbárie, o fascismo, os desmandos, a involução, os desertos, a desolação.
A falta de relação necessária, vital e frutífera com a terra gera a desolação. Uma falta de cuidado, de contato, de conhecimento, de entendimento, de acolhimento. Seja por ignorância, falta total de conhecimento, por carência, inexistência de recursos para manejo do solo, seja por desprezo, vindo pela entrega ao deus-dará ou pela ganância sem pouso. Mas não é por falta de soluções.
As experiências que conheço em Israel e noutras regiões do globo pelo aproveitamento agricultável do deserto, e aqui mesmo no país, através da permacultura, isto é, da cultura permanente, e através da agricultura regenerativa, cuja madrinha é Marsha Hanzi no semiárido nordestino, trazem possibilidades e resultados seguros e benéficos de adequação e reaproveitamento do solo, por mais inóspito que seja. Certamente haverá outras propostas que levem a objetivos semelhantes.
O sertanejo, então, diante da desolação permanente de seu lugar acaba sendo levado ao estranhamento de suas duras e cruas condições de trabalho e vida, as quais mais cedo ou mais tarde o leva ao rompimento sem retorno dessa situação e, por fim, ao abandono inevitável, forçando-o a se retirar só ou com a família para onde sabe-deus o que irá encontrar.
Diante da desertificação que toma conta de boa parte do planeta, exatamente por descaso de ações de iniciativas pública e privada e por penúria de recursos para melhoria da terra degradada, seja ela qual for, o que leva à degradação ambiental, é que se torna urgente e inevitável recuperar os solos do planeta para que não fiquemos à mercê da falência da vida e futuro.
Mas, apesar de tudo, o sertanejo é um forte, mesmo algum dia se retirando para onde o sertão vire mar. Meu poema Sertão, do livro Dois Oceanos, premiado no Concurso Bolsa Brasília de Produção Literária em 1998, descreve a saga sertaneja.
Sertão
Sertão é carregar o sol nos ombros dos dias
até que ele voe e pouse em um pé de pau
Sertão é beber a seca com o coité das mãos
e levar para as veias a terra vermelha
Sertão é semear reza no chão lenhado de sede
e colher cactos e carcaças de animais empoeirados
Sertão é agarrar o ar com o corpo ar queado
e avistar com os olhos sem fundo
as asas de alguma brisa perdida
entre o bafo quente do rio evaporado
e o calango sem sombra e sem cor
Sertão é o ter o tamanho da intempérie
e ir contra o tempo para tê-lo às avessas!
Sertão é viver a vida de costas e ser não sendo
e não sendo ser além da conta da vida
Sertão é ser de menos para ser demais
______________
(*) José Carlos Peliano é poeta, escritor, economista.
Criado em 2019-12-12 17:36:44
Sessenta obras do artista plástico Jailson Belfort homenageiam os 60 anos da Capital Federal. Exposição será aberta amanhã, 4/12, e a visitação será sempre de sexta a domingo, das 9h às 15h, no Espaço Lúcio Costa, na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Entrada franca
Brasília em Linhas é a mais recente exposição do artista plástico Jailson Belfort. A mostra composta de 60 (sessenta) obras feitas com esferográficas homenageia os 60 anos da Capital Federal e retrata seus principais monumentos e ícones.
A exposição destaca lugares e paisagens marcantes da cidade numa abordagem criativa feita pelo artista maranhense. Cada arte retrata Brasília por meio de milhares de traços. Belfort evidencia a precisão, a dedicação e a atenção aos detalhes numa técnica única e inovadora. Para esta composição, utilizou-se linhas, curvas e texturas variadas, inspiradas pela beleza e simplicidade brasiliense.
“As obras apresentam um ponto turístico retratado em duas tonalidades. A cor viva representa o céu icônico da cidade. A neutra, revela detalhes do monumento, num efeito de Gestalt que brinca com os elementos de luz, sombra, figura, fundo e ângulo”, explica o artista.
O Espaço Lúcio Costa integra o Centro Cultural Três Poderes. O local, idealizado por Oscar Niemeyer, foi inaugurado em 1992 para comemorar os 90 anos do arquiteto e urbanista Lúcio Costa. As obras criadas por Jailson Belfort para a exposição comemorativa “Brasília em Linhas” foram inspiradas nos traços de Niemeyer e Lúcio Costa. Uma proposta harmonizada com o Espaço Lúcio Costa.
Quem é Jailson Belfort - Natural de São Luís (MA), o artista plástico começou a desenhar na infância, tendo como referência o apresentador de TV e desenhista Daniel Azulay (1947-2020). É formado em Design, pela Universidade Federal do Maranhão. Trabalhou com Publicidade e Propaganda, em agências, onde foi designer gráfico, ilustrador e diretor de arte. Essa trajetória o levou ao universo dinâmico da comunicação visual, e sua sensibilidade às imagens do cotidiano, que foi tomando forma de arte ao longo de décadas de carreira. Já realizou a exposição “Caneta Criativa”, no Supremo Tribunal Federal (Brasília, 2018) e “Brasilidade”, no Arte Core - Museu de Arte Moderna (Rio de Janeiro, 2019).
Usando canetas – “Após vários anos trabalhando com artes no computador, como designer gráfico, o artista voltou a desenhar à mão livre, desafiando-se a utilizar apenas canetas esferográficas, produzindo um conjunto de telas e desenhos criativos bem elaborados, explorando ao máximo os recursos das canetas. Por usar apenas tinta permanente, Belfort ousa e não tem medo de se expressar e se divertir com texturas, sombras e perspectivas. Ao desenhar com caneta, ele ´corre riscos´, pois os traços não podem ser apagados, corrigidos ou desfeitos. Um encontro de liberdade criativa e técnica apurada”.

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Serviço:
Exposição Brasília em Linhas
Autor: Artista plástico Jailson Belfort
Local: Espaço Lúcio Costa - Praça dos Três Poderes – Esplanada dos Ministérios – Brasília/DF
Abertura: 4 de dezembro de 2020
Visitação: sempre de sexta a domingo, das 9h às 15h.
Entrada franca - Livre para todos os públicos
Informações: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
Criado em 2020-12-03 23:48:56
A tentativa do ex-juiz Sérgio Moro, atual ministro da Justiça do governo Bolsonaro, de considerar “naturais” as conversas que manteve com o procurador Deltan Dallagnol não convenceu a Associação Juízes para a Democracia (AJD). Associação dos Jornalistas Investigativos (Abraji) também condena fala de Moro.
Em nota divulgada ontem (19/6), a propósito do depoimento do ministro à Comissão de Constituição e Justiça do Senado, a AJD afirma ser “inaceitável que Sérgio Moro confunda a urbanidade na interação entre juízes e membros do Ministério Público com a fusão de seus distintos papeis processuais.”
Moro foi ao Senado para falar sobre os vazamentos de mensagens que ele trocou quando era juiz com procuradores da "Lava Jato" e divulgadas pelo site The Intercept Brasil.
As conversas mostram Moro orientando o MPF sobre como acusar com melhor efetividade e pedindo (e sendo atendido) uma nota pública da acusação contestando o depoimento do ex-presidente Lula.
No Senado, Moro negou conluio com o MPC e citou várias vezes a “normalidade das relações entre magistrados e partes”, sobretudo, segundo ele, “no Direito Criminal, uma vez que o juiz é responsável por julgar atos de investigação, além da condenação ou absolvição do acusado”.
A AJD repudia a alegação de que as conversas que Moro teve com o MPF sejam algo normal na magistratura. “Não aceitaremos, pois, que, para justificar sua conduta inapropriada, o ministro tente imputar a toda a magistratura nacional, a prática das mesmas ilicitudes”, afirma a entidade.
A nota da AJD foi publicada no site Conjur:
https://www.conjur.com.br/2019-jun-19/associacao-juizes-democracia-repudia-moro-senado
Jornalistas defendem Glenn e repudiam falas de Moro
Outra entidade, a Associação Brasileira de Jornalistas Investigativos (Abraji), por sua vez, repudia os ataques do ministro Sérgio Moro ao jornalista Glenn Greenwald e equipe do The Intercept Brasil.
Segundo a entidade, a publicação de diálogos de autoridades relacionadas à operação Lava Jato gerou ataques descabidos aos jornalistas responsáveis pela série de reportagens.
A seguir, a íntegra da nota da Abraji:
“O ministro da Justiça, Sergio Moro, chamou o Intercept, no twitter, de “site aliado a hackers criminosos” (14/6). Trata-se de uma manifestação preocupante de um ministro que já deu diversas declarações públicas de respeito ao papel da imprensa e à liberdade de expressão.
Moro, que é um dos convidados do 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, que a Abraji realizará de 27 a 29 de junho, erra ao insinuar que um veículo é cúmplice de crime ao divulgar informações de interesse público. O Intercept alega que recebeu de uma fonte anônima mensagens privadas de Moro e de procuradores da Lava Jato. Jornalistas e veículos não são responsáveis pela forma como a fonte obtém as informações. [Após a divulgação desta nota da Abraji, Moro cancelou sua ida ao 14º Congresso].
Na tarde da última quinta-feira (13/6), o deputado federal Carlos Jody (PSL-RJ) ameaçou de “deportação” o jornalista Glenn Greenwald, do Intercept, acusando-o de cometer “crimes contra a segurança nacional”. No dia anterior, Jordy apresentou uma proposta para convidar Greenwald a prestar esclarecimentos sobre a divulgação de conversas entre Sergio Moro e o procurador federal Deltan Dallagnol. Junto com Filipe Barros (PSL-PR), Jordy tenta ainda instaurar uma CPI para “investigar as atividades dos responsáveis pela criminosa interceptação e divulgação de conversas”.
A onda de ataques a Greenwald começou logo após a publicação das primeiras partes da série “As mensagens secretas da Lava Jato”.
Na segunda-feira (10./6), uma ação coordenada no twitter colocou #DeportaGlennGreenwald como um dos assuntos mais comentados na plataforma. Os ataques e peças de desinformação também tiveram como alvo o deputado David Miranda (PSol-RJ), casado com Greenwald.
Heitor Freire (CE) e Charlles Evangelista (MG), deputados federais do PSL, distribuíram em suas redes sociais montagens com fotos de Greenwald e afirmações falsas de que David Miranda é acusado de terrorismo e condenado por crime contra a segurança do Reino Unido. O deputado Paulo Eduardo Martins (PSC-PR) também publicou conteúdo semelhante.
A Abraji manifesta solidariedade a Glenn Greenwald e repudia os ataques direcionados a ele, à sua família e a seus colegas do Intercept, especialmente os que partem de agentes públicos. Tentativas de intimidar e silenciar um veículo são ações típicas de contextos autoritários e não podem ser tolerados na democracia que rege o país”.
Diretoria da Abraji, 19 de junho de 2019.
https://abraji.org.br/abraji-repudia-ataques-a-glenn-greenwald-e-equipe-do-intercept
Criado em 2019-06-20 19:54:25
José Carlos Peliano (*) –
Ainda jovem, saindo da Faculdade de Economia, em 1970, fiz parte de um programa análogo à época ao então Projeto Rondon para viver uma experiência didática e participativa de um mês no município de Tefé, Amazonas, juntamente com colegas de outros cursos. Era o Campus Avançado da Universidade Federal de Juiz de Fora.
Fomos todos em avião da FAB, um bimotor usado, mas em condições razoáveis de funcionamento e conservação. Sua rota sobre a floresta amazônica até o destino foi carregada de emoção, encantamento e surpresa.
Era a primeira vez que todos nós passávamos pela experiência, ainda mais vista de cima, curiosos com o emaranhado de árvores milenares, trançados irregulares de cursos d’água, voos de aves agrupadas e névoas esparsas em certos trechos. Ah! Um verde deslumbrante! Um mundo vegetal exuberante abrindo seus pulmões para brasileiros, latino-americanos e estrangeiros. O chamado pulmão verde da humanidade.
Súbito, a surpresa, observei sobre as asas filetes de óleo escorrendo de alguns parafusos da fuselagem. Eles tremiam quase soltos sem qualquer fixação a não ser possivelmente o resto de voltas das roscas respectivas que ainda os seguravam de algum jeito. Corri a avisar um dos pilotos e ele sorrindo me disse que aquilo era normal, pois já estavam acostumados, sempre acontecia, mas não passava disto até então, garantiu. Iriam verificar no pouso, como sempre faziam, reapertar os que precisavam e por certo (?) aguentariam mais um tempo mesmo escapulindo das roscas de vez em quando.
Um princípio de incômodo tomou posse de mim e de alguns colegas juntando o fato de não estarmos em terra firme, com comunicação precária com torres existentes à época, voando sobre uma floresta densa, com um avião faltando reaperto em seus parafusos de onde vertia óleo, logo de onde, das asas! Ao mesmo tempo ficava nitidamente a impressão de que a equipe de voo era realmente corajosa, embora talvez arriscando a vida numa atitude de apostar na sorte, dadas situações anteriores semelhantes que não levaram ainda a nada mais sério.
Primeiro ensinamento: atenção precária e insuficiente das autoridades aeronáuticas de então aos equipamentos e equipes de aviadores da FAB, muito embora tivessem fibra suficiente para enfrentarem situações difíceis e perigosas. Somava a isto a negligência com a vida de outro, pois as aeronaves voavam à época sobre a floresta para levar pessoas em especial aquelas de saúde precária ou em risco aos hospitais de Manaus.
Após os primeiros dias, meu grupo de economia chegou à conclusão, depois de conhecer de perto as atividades da cidade, que o principal problema ali era o consumo restrito dos moradores. Viviam basicamente de farinha de mandioca e pescado de lá mesmo. Quando vinha alguma coisa diferente de Manaus, a dificuldade era ter dinheiro suficiente para adquirir os produtos a preços mais altos. A circulação monetária era mínima, a maior parte nas mãos de um mercadinho e da prelazia. Aliás, o barco que se encarregava do transporte era dos religiosos. Assim, o jeito era conscientizarmos os moradores da necessidade de eles se reunirem para aquisição eles mesmos dos víveres básicos em Manaus, sem intermediários. Era a única saída.
Utilizamos um velho cinema desativado para reunir com os moradores e informar-lhes como seria uma cooperativa de consumo, funcionamento, atribuição de seus membros, etc. Fizemos talvez umas quatro ou cinco reuniões com um número bom de presentes em todas elas. Adultos e jovens, homens e mulheres, muitos descendentes diretos dos indígenas. Participação bem concorrida de todos. Eu era o responsável para subir ao palco improvisado e explicar a eles todos os detalhes da cooperativa bem como responder perguntas. Nunca tinha feito isso antes, mas acabou dando certo.
Segundo ensinamento: no final da última reunião me procurou um senhor de idade, pescador, pele dura de sol, e me disse que tinha gostado muito das exposições, de meu comprometimento com o que dizia e queria que eles entendessem, e que confiava muito em mim. Por isso mesmo, adicionou, gostaria que eu lembrasse de todos eles quando voltasse e, se um dia, eu estivesse no governo, eu ajudasse a melhorar a vida deles de algum modo. Por que? Porque, completou, a cooperativa iria durar pouco tempo uma vez que a prelazia e o mercadinho dariam um jeito de inviabilizá-la.
Não deu outra, tempos depois soubemos que a cooperativa chegou a ser criada, pelo menos informalmente, durou menos de um ano, tendo tudo retornado às mãos dos donos efetivos da cidade. Embora tivesse eu feito minha parte, me senti derrotado. Ecoou por muito tempo em meus ouvidos o velho senhor dizendo: aqui é “Tefé”, mas a prelazia e o mercadinho não “têm fé” na igualdade e solidariedade com seus habitantes!
O terceiro e último ensinamento veio de um timoneiro de barco. Todos tínhamos ido a Manaus, após uns dias em Tefé, para conhecer a cidade. Fomos de FAB novamente com os mesmos parafusos das asas trepidando e voltamos no barquinho da malária. Era o pessoal da área de saúde de Manaus que percorria todo o rio Amazonas levando medicamentos para ministrar ou vacinar o pessoal ribeirinho.
Passamos por Itacoatiara quando o farol do barco queimou e não podíamos navegar à noite. O que fazer? O piloto sugeriu comprarmos a mais potente lanterna que encontrássemos para servir de substituta. Fui o primeiro a me colocar perto dele como seu ajudante com a lanterna acesa iluminando o rio mar. Lá pelas tantas da noite ele me alerta para iluminar não à frente como fazia, mas mais à direita. Lá estava um grande tronco de árvore boiando vindo pela corrente em direção ao barco e com iminência de atingi-lo. Logo, o timoneiro mudou de direção e escapamos por pouco.
O timoneiro já de meia idade enxergava melhor que eu nos meus vinte e poucos anos além de conhecer as manhas das águas pelas palmas das mãos e pelos olhos da floresta. Me disse então que navegava desde jovem e conhecia todas as retas, curvas e remoinhos daquela estrada d’água de dia ou de noite, com chuva ou com sol.
Aprendi que a Amazônia é um mundo imenso, exótico, maravilhoso e ainda pouco conhecido, embora já muito explorado pelos gaviões do asfalto com suas sacas de dinheiro e ganância sem tamanho.
Mas aprendi também que o governo tem o dever e a obrigação pelo bem dos amazonenses, dos brasileiros e da humanidade, de cuidar efetivamente da região que nos pertence, não largar ao deus-dará tampouco à sorte e coragem dos que por lá vivem ou transitam. Sem falar nos predadores que só querem tirar dela os recursos, sem devolver proteção e cuidado. A terra nasceu primeiro que nós e nos deu guarida. Temos de olhar por ela e protege-la. Afinal, é nossa casa.
Como diz Thiago de Mello: “Os povos indígenas da Amazônia vivem em íntima harmonia com a natureza, são amigos do Sol e seguem as conversas das estrelas”. E a tratam como amiga e irmã.
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(*) José Carlos Peliano é poeta, escritor e economista.
Criado em 2019-11-27 03:35:51
Luiz Philippe Torelly –
Há exatos 200 anos nascia na Alemanha Friedrich Engels (28/11/1820), cuja obra e nome passaram a formar um binômio com Karl Marx. Oriundo de família da alta burguesia alemã, desde jovem compreendeu a exploração à qual os trabalhadores estavam submetidos e o conceito da mais-valia, que era expropriada pelo capital.
Engels escreveu O problema da habitação e das grandes cidades, inaugurando a crítica aos malefícios da urbanização desenfreada. Se olhar a estante de um arquiteto e não encontrar esse livro, desconfie. Outra obra prima é A origem da família, da propriedade privada e do estado, leitura obrigatória para qualquer pessoa que se interesse por história e ciências sociais.
Após a morte de Marx, Engels não só cuidou de sua família como foi o responsável por concluir e editar os volumes 2º e 3º do O Capital, obra-prima do pensamento econômico e social até a atualidade.
Quem quiser conhecer mais de perto a pessoa e o trabalho de Engels, recomendo a leitura do livro Comunista de Casaca, de Tristam Hunt.
Veja e ouça uma publicação correlata aqui
Criado em 2020-11-28 16:50:16
As centrais sindicais brasileiras, reunidas nesta segunda-feira (17/6), avaliaram como positiva a greve nacional realizada na última sexta-feira, 14 de junho. Houve paralisações em centenas de cidades e em milhares de locais de trabalho, além de atos e passeatas contra o fim da aposentadoria, os cortes na educação e por mais empregos.
“O sucesso da mobilização é resultado da unidade de ação do movimento sindical, construída ao longo do tempo e renovada nas deliberações das assembleias em locais de trabalho, em plenárias por categoria e intercategorias; e da articulação com os movimentos sociais, populares, estudantil e religiosos”, diz nota assinada por dez centrais: CUT, CGTB, CSB, CTB, Força Sindical, Intersindical, UGT, CSP-Conlutas, Intersindical–Central da Classe Trabalhadora e NSCT-Nova Central.
Essa greve, segundo os dirigentes sindicais, atingiu 45 milhões de trabalhadores em todo o país. O movimento terá continuidade com a ampliação da unidade de mobilização.
A nota informa que o próximo passo será, em breve, entregar aos presidentes da Câmara e do Senado um abaixo-assinado contra a proposta de reforma da Previdência do governo, com centenas de milhares de assinaturas coletadas em todo o país.
“Nossa prioridade será a definição e construção, em reunião marcada para 24 de junho, das ações para ampliar a mobilização e a pressão contra a retirada dos direitos da Previdência e da Seguridade Social”, prometem as lideranças sindicais.
Por fim, o documento dos sindicalistas “repudia as iniciativas de práticas antissindicais que visaram criminalizar a força e a luta dos trabalhadores. Na unidade, construímos nossa capacidade de luta, que será contínua durante toda a tramitação da PEC no Congresso Nacional”.
Criado em 2019-06-17 23:58:24
José Carlos Peliano (*) –
Reli Graciliano Ramos em seu épico Vidas Secas com o cuidado de detetive em busca de resquícios datados e marcas ou sinais de impressões digitais literárias. Procurei nas entrelinhas o que levara o autor a escrever uma novela densa e rascante, em texto não muito longo, ao contrário de outras ficções de época ou evento.
Não passei pelo prefácio do renomado crítico Álvaro Lins, indo direto ao mundo da seca descrito na história de Graciliano. Não quis me sugestionar nem me prender a situações aos olhos de Álvaro. Confesso que levei mais tempo na leitura nem tanto pela pesquisa de detetive, mas por conta da crueza do texto que me deixou empoeirado, sedento e fatigado como os personagens. Como se eu fora mais um entre eles vivendo aquela vida sem eira, nem beira e saída. Qual boi doente, esquelético, de couro em feridas de sol, encurralado entre o chocalhar de uma cobra ansiosa à frente e urubus famintos rodeando à volta. Parei várias vezes ao longo da leitura para desligar a mente e me refazer do impacto das imagens que me acercavam.
Pois, foi esse o primeiro sinal da grandeza da história. Levar o leitor a suas entranhas e deixá-lo à sorte do enredo. A descrição de cenários da seca, de escassez de alimento, fome, sede, desesperança, deixa-nos agoniados em busca do final do capítulo ou de algum parágrafo salvador para ver se alguma coisa melhor acontece ou que não piore mais as coisas.
Lá pelas tantas, no entanto, me dei conta que Vidas Secas retrata uma situação ainda comum no nosso país, guardadas as proporções e situações. Não só na aridez do interior nordestino, mas também noutras regiões onde a vida aflita, dura, em corda bamba e repetida, impinge a seus habitantes a carga e os grilhões de uma viagem sem bonança, só em sonho quase sem chance na mente ou impossível de crer.
Foi daí que meus olhos se voltaram para os aspectos mais próximos à jornada de vida de milhões de brasileiros que volta e meia se decompõe e se esparrama em chão lenhado de recuos, quedas, brutalidades, violência, letargia, impotência e medo. Da leitura do livro às notícias vistas pelas mídias sociais havia muita semelhança. Já que a grande mídia, da vênus platinada, passando pelos jornalões e revistas, aos demais canais mercadores de ilusões, faz de um sonho fabricado com remendos grotescos nossa imagem e dessemelhança. Essa miragem tosca se esfarela no deserto do dia a dia.
A lâmina da seca corta os cenários nos capítulos por todos os lados. Os bichos só de ossos à vista pela pele esturricada ou em carcaças à beira dos caminhos espinhentos ou rios evaporados. As águas transformadas em poças e lagos de barro ou filetes de líquido amarronzado. Plantas nenhuma a não ser mandacarus envergados ou retorcidos pelo braseiro do sol. Sobreviver? Há que se ressecar como as palhas e gravetos para não depender da providência porque nem reza, bênção e amuletos ajudam mais.
E essa trágica situação persiste porque é produzida pelos seus donos proprietários das terras. A indústria da seca mantém o inferno na terra para que o refrigério monetário venha dos apaniguados pelos contatos de dependência de interesses que mantém com o governo. A venda da imagem destruída carreia auxílio das instituições para que ajustes aqui e ali sejam realizados e alguma melhoria apareça. Só que o tempo passa e nada aconteça de substantivo. Pelo contrário, o adjetivo da desgraça permanece.
Sofrem os que dependem unicamente de trabalho para sobreviver, os agricultores, mateiros, peões, vaqueiros, suas famílias, enfim toda a sorte de gente que tenta se sustentar onde a seca toma lugar. E muitos aí ficam por resignação porque ir para as vilas e cidades fazer o quê? se sabem quase nada da vida e dos ofícios urbanos.
Fora o clima, a produção e a reprodução da seca são agravadas pelos proprietários das terras, pois subjugam seus serviçais em condições insatisfatórias de trabalho, saúde, renda, proteção social e subsistência, embora cobrem o cumprimento das obrigações.
Os instrumentos de trabalho e produção, em geral, não dão cumprimento dos serviços. Assim, não se consegue debelar os estragos da seca natural, tampouco melhorar o estado anterior da terra. Cobranças então vêm de todas as formas. Graciliano cita a mordaça de uma atitude ainda comum que é adiantar o minguado salário para depois cobrar com juros o tempo do empréstimo e os eventuais atrasos no retorno, prendendo ainda mais o desgraçado e sua família àquela vida sem vida.
Esse trágico quadro de dependência econômica vem junto com formas veladas de escravidão e racismo travestidos de indiferença pelas condições de vida e trabalho dos mais pobres, necessitados, retirantes, sejam pretos ou brancos, domésticas ou operários, ambulantes ou moradores de rua. Cunhados pela elite dominante como vagabundos, preguiçosos, marginais, os “nordestinos”.
Esses seres sofridos, condenados a viverem secos, no ninho da seca, como bichos, fora e à margem da sociedade dita civilizada, acabam por assimilarem a imagem que deles fazem os “civilizados”, mandantes, escravocratas, nas palavras duras de Graciliano “quem é do chão não se trepa”, pois que seguem por toda a vida sob “o voo negro dos urubus” sempre perseguidos pela “desgraça ... em caminho”- pp. 135, 44 e 59, Vidas Secas, Martins Editora, São Paulo, 31a edição, 1973.
Sempre retirando de um torrão de seca a outro em busca de algum refrigério vagam pela terra como nômades, donos de coisa alguma, nem da alma já ressequida como o pé de pau minguado e insosso à beira do córrego sem água e esperança. Esse caldeirão infernal é encontrado sob fogos diversos em favelas, cortiços, debaixo de pontes e viadutos, ajuntamentos nas margens de rios, em todas vilas e cidades país afora. Um país de fraque e cartola com os pés atolados na lama.
Sobra a danada doença da fé, o sonho mascado e entortado na cabeça, que resiste em rastejar enfraquecido com os calangos e escorpiões ao lado dos tropeços seguintes, tal qual brada meu poema “o vaqueiro e o galope” feito em homenagem ao filme Romance do Vaqueiro Voador de meu saudoso amigo Manfredo Caldas.
o vaqueiro e o galope
segue o rio seco espremido de terras vermelhas
leva restos de pó, carcaças e desesperanças
uma procissão serpentina de rezas e novenas
muitas fotos sem foco e cor de Padre Cícero
arreios rachados de zarolhos sóis arregalados
alguns burros em pele e osso mascando os dias
chapéus antes de couro agora de suor e cansaço
esporas amontoadas no chão de terra esfolada e batida
vá queiro! vá queira ou não queira
vá mundão afora ajuntar seu gado
em terras onde a terra se abra e lhe deixe a flor
vaqueiro, vá queira ou não queira
vá que eira nem beira vai aqui
vá zunindo feito pé de vento na caatinga
no lombo de burro em cascos de capeta
vá à cidade grande invernar gado grande
com a sorte grande que Deus levou daqui
vá queiro! vá queira ou não queira
vá no galope de azulão seu burro de fé
seu burro de sabedoria da peste encarnada
e da gota serena que a tudo apressa e rende
vá queiro! no galope da noite e do dia
vá juntar o gado nas casas empinadas arriba
arriba umas das outras até arranhar o céu
vá queira ou não queira chegar perto do céu
e lá chegando lance o aboio com o coração
dê sinal ao mundão de gado de casas empinadas
e de outros vaqueiros retirados do sertão
que prepara seu voo consagrado com azulão
voe até o azul do céu perder de vez a cor
o vermelho vivo brotar que nem mina d’água
de seu corpo aboiado e do galope de azulão
vá queiro! vá queira ou não queira ser voador
o mundão de casas empinadas quer seu dom
de abrir veredas e levantar poeira
marcando o chão com as patas de azulão
aboiando o som da vida agreste e avoante
vá queiro voador! vá queira ou não queira
vá levar ao céu sua força, fé e ousadia
com a mulher talhada no arfar do peito
e a vida e a morte suas irmãs de valentia
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(*) José Carlos Peliano é poeta, escritor e economista.
Criado em 2019-12-02 00:22:43
Os atores Marcos Davi e Leonardo Vieira Teles contracenam para falar do fim ou da impossibilidade do amor em versão transmitida pela internet, ao vivo do palco da Casa dos Quatro.
Num apartamento ainda em obras, as janelas e as portas foram fechadas a cadeado. Os celulares, jogados pela janela. Lá dentro, dois homens têm vontades opostas: um quer ir embora, esquecer o que aconteceu e o que sentiu. O outro, por acreditar que “um coração nunca se cura do amor”, quer ficar.
Durante cerca de 50 minutos, os dois usam todos os recursos que têm, inclusive seus corpos e sua sexualidade, para conseguirem o que querem. É esta a trama da peça Virilhas, escrita por Alexandre Ribondi.
As personagens são carregadas de sensualidade, erotismo, solidão e desejos. Juntos, buscam a liberdade, a vingança amorosa, o gozo sexual e a felicidade – mesmo que cada um queira ser feliz à sua maneira.
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Ficha técnica:
Peça: Viríllhas
Texto e direção: Alexandre Ribondi.
Elenco: Marcos Davi e Leonardo Vieira Teles.
Produção e direção técnica: Rafael Salmona
Classificação indicativa: 18 anos
Transmissão via Zoom, sextas e sábados, às 21h
Ingressos: https://www.sympla.com.br/espetaculo-online--virilhas--18-anos__1049974
Criado em 2020-11-25 20:00:45
A propósito da divulgação das gravações envolvendo o ex-juiz Sérgio Moro, atual ministro da Justiça, e o procurador federal Deltan Dallagnol, o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) divulgou hoje (11/6) nota em defesa da liberdade de expressão e do trabalho dos jornalistas.
O FNDC cita o artigo 5º da Constituição Federal, inciso XIV, que assegura a todos o livre acesso à informação, resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional.
Segue a íntegra da nota:
“Após publicar uma série de reportagens que trouxe à tona o que provavelmente seja o maior escândalo jurídico-político da história do país, o site The Intercept Brasil vem sofrendo ataques oriundos de setores defensores da Operação Lava Jato. Alguns já saíram a público para pedir a prisão e a cassação do passaporte do jornalista Gleen Greenwald, diretor do veículo. Há pressões para que o The Intercept divulgue quem é a fonte dos materiais recebidos.
Infelizmente, essas atitudes não são novidade. Reportagens que incomodam e ameaçam poderosos sempre despertam o instinto censor por parte destes setores, que agora fazem ameaças e vão tentar calar o The Intercept e os seus jornalistas.
Os apoiadores da Lava Jato também tentam desclassificar as informações sob o argumento de que os conteúdos foram obtidos por hackers e omitem a possibilidade, talvez até mais provável, de que a fonte das informações possa ser alguém de dentro do sistema de Justiça, do próprio Ministério Público, e que resolveu tornar públicas as violações ao devido processo legal que marcaram toda a Operação Lava Jato.
A atividade jornalística sempre conviveu com um dilema: como equilibrar o interesse público e o direito à informação com a privacidade das pessoas. São inúmeros casos na história do jornalismo em que esses dois direitos foram colocados sob o escrutínio da sociedade. E, não à toa, em muitas vezes, houve dois pesos e duas medidas para avaliar essas situações.
As revelações trazidas pelo site The Intercept estão levantando mais uma vez essa questão e é preciso revisitar condutas, jurisprudências e reafirmar direitos para evitar perseguição política tanto aos jornalistas quanto à fonte das informações.
As reportagens, produzidas pela equipe do jornalista Glenn Greenwald, revelam diálogos desenvolvidos por agentes públicos no âmbito da operação Lava Jato que tiveram consequências fundamentais para os rumos políticos do país. Portanto, de elevado interesse público. Nenhuma informação divulgada tem caráter privado/individual, outro aspecto a ser considerado ao se analisar se houve violação do direito à privacidade.
O The Intercept recebeu os conteúdos de uma fonte que tem todo o direito de ser mantida em sigilo. Direito este previsto no Artigo 5º da Constituição Federal: inciso XIV: e assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional.
O sigilo é proteção para o veículo de comunicação e para os jornalistas, mas, principalmente, para a própria fonte, que pode sofrer perseguições trabalhistas, políticas e de todo o tipo por expor interesses de ordem econômica e política. Sem o sigilo da fonte, direito reconhecido internacionalmente, inúmeros casos envolvendo escândalos públicos e privados nunca teriam vindo à tona.
É fundamental dizer que não há, na legislação brasileira, nenhum dispositivo que tipifique como ilegal a publicação de conteúdos recebidos por veículo de imprensa. Uma vez de posse destes conteúdos, cabe ao veículo analisar as informações e decidir ou não pela sua publicação. Ou seja, o The Intercept não cometeu nenhum crime ao produzir e publicar as reportagens.
O mesmo foi consensuado pelo sistema de justiça e pela sociedade no caso do vazamento dos áudios provenientes de interceptação telefônica entre a então presidenta Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula. Neste caso, no entanto, há o agravante de áudios de caráter privado/individual do ex-presidente também terem sido divulgados, o que à época foi considerado conteúdo de interesse público. Também poderia se argumentar que as comunicações do chefe de Estado são sigilosas e protegidas por questões de Segurança Nacional, o que não é o caso de juízes e procuradores. Ou seja, temos na história recente da política brasileira situações similares que podem ser vistas como uma jurisprudência nestes casos.
Neste momento grave para a política nacional e para o exercício do jornalismo, no qual ocorrem de forma sistemáticas violações à liberdade de expressão no país, o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) e as entidades, organizações e movimentos de luta pelo direito à comunicação veem a público reiterar seu compromisso com o exercício responsável e ético dos profissionais de imprensa que cumprem um papel fundamental de garantir à sociedade o direito à informação.
Consideramos que o The Intercept cumpriu um serviço público ao divulgar as informações a que teve acesso, exercitando de forma responsável o equilíbrio entre o interesse público e a privacidade e garantindo o direito ao sigilo da fonte.”
Brasília, 11 de junho de 2019.
Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC)
Criado em 2019-06-11 19:46:54
Paulo Pimenta (*) –
Não há dúvida sobre o fato que marcará para a história a passagem do dia 20 de novembro, em que se celebra a memória da morte de Zumbi dos Palmares, nesse ano de 2019. A exposição (Re)existir no Brasil: Trajetórias Negras Brasileiras de peças informativas e artísticas organizada pela Curadoria da Câmara dos Deputados no túnel de acesso ao Plenário Ulisses Guimarães, nesse mês da Consciência Negra.
E a reação de um parlamentar do PSL, um certo Cel. Tadeu ao destruir uma tela em grande formato do Cartunista Latuff de 2013, que retrata a violência policial contra a juventude negra. Cabe perguntar: o que naquela obra feriu a sensibilidade (?) do Coronel parlamentar? Onde doeu, Coronel? No país em que de cada cinco trabalhadores escravizados resgatados, quatro são negros, em pleno século XXI. No país em que os homens, jovens, negros como o retratado no desenho de Latuff, encabeçam qualquer lista de assassinados por policiais? Ano após ano? Em que negros representam 43% das vítimas de homicídio?
Há uma característica inseparável do fascismo e do racismo, em qualquer época ou latitude: a paixão pela violência. A violência erigida como forma elementar das relações humanas. Das relações sociais. Na cabeça primitiva de um fascista/racista só é possível dirigir uma sociedade pela produção e reprodução massiva do medo. Como se comportará o autor do ato de vandalismo perpetrado no corredor da Câmara dos Deputados contra uma expressão da inteligência e da cultura? Como se comportará em outros ambientes com menor visibilidade? No seu ambiente de trabalho, o quartel, com relação a seus subordinados?
Ao assistir à cena propagada em vídeo pelas redes sociais, não há como evitar a lembrança da frase histórica – e bestial! – do oficial franquista Milán Astray: “Abajo la inteligencia! Viva la muerte!” Metade da Espanha morreu durante a guerra civil. E depois de 40 anos de tirania se tornou um dos mais atrasados e obscurantistas países da Europa, até o retorno da democracia para reincorporá-la ao mundo civilizado.
Mas há um outro marco que fará este 20 de novembro ser lembrado. Tomada pela indignação, a Deputada Benedita da Silva, do Partido dos Trabalhadores, subiu à tribuna. O discurso que proferiu não é uma burilada peça da retórica parlamentar, cada dia mais rara, convenhamos, no legislativo brasileiro. Trata-se de uma explosão da verdade mais profunda represada nos corações dos cidadãos negros e negras que compõem 55,9% da sociedade brasileira.
É como se Benedita da Silva, naquele momento incorporasse em sua voz toda a força e a indignação da resistência que enfrentou os 300 anos de escravidão. E todo o sofrimento dessa herança que se prolonga depois de mais de um século desde a Abolição, no silêncio das cozinhas, nas sombras dos quartos de despejo, nas áreas de serviço, onde se escondem os abusos quotidianos. Nas favelas, nos morros, nos mocambos.
É como se pela boca de Benedita da Silva falassem todas as domésticas, as mães que, como lembra no discurso, alimentaram com seu leite os filhos das sinhazinhas, o leite que faltou para seus próprios filhos! É como se pela Boca de Benedita da Silva se ouvisse a voz de Ágatha e de Marielle...
O gesto do vândalo serviu para chamar a atenção do país para a exposição (Re)existir no Brasil: Trajetórias Negras Brasileiras e para projetar a gigantesca estatura moral dessa mulher que honra o Parlamento brasileiro e sua raça de construtores, subjugados a ferro e fogo, sempre rebeldes, que imprimiu seu caráter de forma definitiva na fisionomia do Brasil.
Uma sugestão ao Presidente Rodrigo Maia: quando o senhor vier visitar a exposição para repor a tela de Latuff, não traga uma tela nova, reimpressa, perfeita. Recolha os pedaços da tela que foi destruída pela estupidez fascista e racista e, recomposta, se reintegre à exposição, para que fique à mostra as cicatrizes.
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(*) Paulo Pimenta, deputado federal. Líder do PT na Câmara dos Deputados.
Criado em 2019-11-21 11:54:20
Rafael Matoso –
Uma grande programação virtual, gratuita e coletiva celebra os subúrbios e suas belas histórias e manifestações. Pelo segundo ano consecutivo, um grupo se reúne em torno de um ideal comum para mostrar o grande potencial e a pluralidade das manifestações artísticas, culturais e intelectuais dos subúrbios cariocas. A programação completa pode ser vista nas redes do Viradão, Instagram @viradaosuburbano e Facebook Viradão-Cultural-Suburbano. Até amanhã, 22/11, domingo.
Essa história começou com uma grande mobilização de agentes, ações e coletivos suburbanos, que decidiram não ficar esperando o poder público, e realizaram, em 2019, a primeira edição do Viradão Suburbano. Nos dias 9 e 10 de novembro do ano passado, um grande evento ofereceu arte e cultura, durante 36 horas, sem parar. O primeiro Viradão foi dedicado a Dona Ivone Lara e a Paulo da Portela, e realizamos dezenas de reuniões itinerantes e também virtuais. A ideia sempre foi construir toda atividade de maneira horizontal, plural e coletiva, em busca da maior representatividade local e da adesão popular.
Agora chega a hora de aproveitarmos o Segundo Viradão Suburbano, inicialmente previsto para seguir os mesmos moldes do primeiro, com atrações culturais espalhadas pelos subúrbios. Entretanto, por conta da pandemia e para evitar aglomerações, este ano o festival será inteiramente virtual. Começando nesta sexta-feira, dia 20 de novembro, com uma série de atividades em comemoração ao feriado da Consciência Negra. A partir das 18h teremos palestras, apresentações musicais, debates e exibição de filmes.
Até amanhã, domingo, 22 de novembro, ainda teremos muitas atrações, entre elas, uma generosa contribuição do recém-vencedor do Grammy Latino de Melhor Álbum de Samba, o grande mestre suburbano Cláudio Jorge (na foto, abaixo), que levou o prêmio com seu magnífico trabalho Samba Jazz, de Raiz. A extensa programação conta ainda com nomes como Lazir Sinval, Robertinho Silva, Paulão Sete Cordas, El Efecto, Alan Rocha, Marquinhos de Oswaldo Cruz, entre muitos outros.

Em sua origem latina, a palavra cultura significa cuidar, tomar conta, se apropriar de algo que não precisa ser necessariamente material. Hábitos, crenças, tradições e vivências históricas que produzem signos e formas de sociabilidade geradoras de identidades.
No Viradão passado, durante o encerramento da mesa Histórias e Sociabilidades Suburbanas, com o professor Luiz Antônio Simas, endossávamos o quanto os subúrbios foram capazes de produzir, ao longo da história, laços de sociabilidade e culturas associativas que são extremamente potentes até os dias de hoje.
A cidade do Rio de Janeiro, pelo menos desde a chegada da família real portuguesa ao Brasil, em 1808, passa por constantes transformações urbanísticas. Entretanto, a maioria de seus habitantes ainda continua a penar com falta de condições dignas de moradia e amplo acesso à cultura, à educação, à saúde e ao transporte de qualidade. Vejamos um exemplo. Embora atualmente cerca de 80% das cariocas e dos cariocas morem nas zonas Norte e Oeste da cidade, apenas pouco mais de 20% dos investimentos na Cultura são destinados a essas regiões. Já as zonas Centro e Sul, onde reside a menor parte da população do Rio, ficam com a maior fatia do bolo, como é possível perceber.
Embora convivendo neste contexto de negação institucional, o povo dos subúrbios resistiu e fez surgir, com engenho e arte, por exemplo, as escolas de samba e outras inúmeras formas de expressão cultural, as quais têm, nos dias de hoje, os coletivos culturais como articuladores fundamentais nesses territórios. Na intenção de contribuir com a valorização da potência cultural existente nos subúrbios – e também de contestar a lógica fomentada por narrativas que os associam quase que única e exclusivamente a lugares marcados pela carência e violência –, é que foi criado o Viradão Cultural Suburbano. Uma construção coletiva, composta por pessoas com formações diversas, suburbanos de nascimento ou de coração. Elas pertencem a instituições, coletivos e/ou associações com histórico de atuação nos subúrbios, e que têm em comum o interesse pelas manifestações culturais próprias desses lugares.

Na abertura do evento, na sexta-feira (20), a partir das 18h, parte dos organizadores contaram como surgiu a ideia de realizar o festival. Na sequência, houve o debate “Vidas Negras Importam”, ao vivo, com a presença da deputada estadual Mônica Francisco (PSOL-RJ) e de Marcelo Dias, coordenador nacional do Movimento Negro Unificado, entre outros.
Já neste sábado (21), além da apresentação de trabalhos acadêmicos, promovida em parceria com o Diálogos Suburbanos, destaca-se também a apresentação da banda de rock El Efecto. Abrindo o domingo (22), último dia do evento, será exibido o curta “100% Suburbano” que conta um pouco da história desse outro coletivo que compõe a coordenação do Viradão. Na sequência tem roda de choro e jazz (aqui dependemos do Nunuka).
Convidamos a todos para participar, lembrando que o Viradão Cultural Suburbano é uma obra em construção que só se torna possível por meio da participação de uma rede de relações formadas nas práticas cotidianas de lutas e vivências suburbanas.
Criado em 2020-11-21 13:16:50
A Associação Brasileira de Economistas pela Democracia (Abed) divulgou hoje nota declarando-se indignada “diante da divulgação de conversas nada republicanas entre destacados membros da Lava Jato, mostrando vergonhosa parcialidade e instrumentalização política da operação”.
A entidade ressalta que defende as ações de combate à corrupção e lembra que a Operação Lava Jato só foi possível com o fortalecimento das instituições de Estado, em particular a Polícia Federal e o Ministério Público.
A nota da Abed lamenta que “essa operação tenha se transformado em um instrumento para demonizar e perseguir partidos e líderes de forma seletiva, agindo politicamente e ocupando um espaço que não lhe era devido”. E acrescenta que ao agir dessa forma a Lava Jato “contribuiu decisivamente para o processo de devastação da economia e da sociedade brasileira que assistimos nos últimos anos, com a reversão de conquistas democráticas obtidas desde a promulgação da atual Constituição e que favoreceram setores vulneráveis da população”.
Os Economistas pela Democracia repudiam também o fato de que a “operação Lava Jato tenha sido protagonista da interminável crise política em que o país foi jogado desde 2014.” Os palanques da campanha eleitoral daquele ano, para a Abed, “nunca foram desmontados, gerando um ambiente de incerteza de tal magnitude que paralisa planos de consumo e projetos de investimento, num círculo vicioso de retração que alimenta ainda mais incertezas”.
Por fim, a Abed aponta para os efeitos corrosivos da Lava Jato. Em vez de investigar e acusar pessoas, preservando empresas e setores essenciais, como a construção civil, destruiu milhares de empregos. Esse setor vinha apresentando desenvolvimentos de escala e tecnológicos e gerando vagas no mercado de trabalho. Hoje, apresenta retração de 28%, em relação a 2014.
Por sua vez, ainda segundo a Abed, a Petrobrás, que vinha sendo responsável por grande parcela dos investimentos produtivos no país foi totalmente desestruturada.
Diante de tudo disso, a Associação dos Economistas “manifesta-se pela necessidade de apuração célere dos indícios de prática criminosa que vieram a público e pela necessidade de reversão das penas a que foram submetidos os que foram julgados em operação que se desenrolou sem a lisura necessária e, assim, ao arrepio da lei.”
Criado em 2019-06-11 12:53:58
José Carlos Peliano (*) –
Na virada dos setenta para os oitenta, voltava aos Estados Unidos para participar de um encontro internacional de pesquisadores interessados em estudar as modificações tecnológicas que começavam a acontecer na indústria automobilística. Tratava-se basicamente das inovações microeletrônicas na linha de montagem.
Começavam a ser usados cada vez mais comandos numéricos computadorizados e robôs pelo lado dos maquinários e comandos e alterações nos postos de trabalho, não mais em sequência direta, mas em ilhas de confecção, tipo processo “just in time”. Por certo era um concatenamento sequencial mais dinâmico e eficaz para a produção final, mas por isso mesmo um poupador de empregos e funções de todos os tipos, além de efeitos prejudiciais nas relações de trabalho. Ganhavam mais uma vez as montadoras, perdiam os operários.
Estudávamos no Brasil, eu e colegas do IPEA, onde então trabalhava, DIEESE e consultores estrangeiros, entre eles Hubert Schmitz, Benjamin Corriat, Gonzalo Falabella e Giovanni Dosi, o que ocorria basicamente na Ford e Volkswagen, para ser comparado com o que se passava em montadoras de outros países. O estudo foi mais tarde publicado pela Editora da UnB, em 1992, Automação microeletrônica na indústria automobilística brasileira.
Após uma sessão do encontro, saio eu e meu saudoso amigo falecido José Ricardo Tauile, economista e professor do Instituto de Economia Industrial da UFRJ, atrás de um lugar para jantar, enquanto passeávamos para conhecer um pouco mais dos arredores em meio às largas ruas, shoppings e avenidas suntuosas e iluminadas da capital do Estado de Massachusetts.
Pois foi nesse caminho até o restaurante que me caiu a ficha. Ao ver prédios altos, arranha-céus a perder de vista, cada um mais belo e rico que o outro, tanto em construção e materiais, quanto em arquitetura e acabamento, me ocorreu entender visualmente a riqueza americana em contraste com a pobreza latino-americana em particular, como a africana e asiática em geral. O que sobrava ali em qualidade, abundância e deslumbre, faltava nas demais regiões e países, pobres em meios de vida, trabalho, produção e moradia. Brindamos, então, com boas doses de whisky a nossa ousadia em defender os ideais da igualdade de direitos de todos os povos independentemente de suas origens.
O choque visual reverberava com impacto semelhante em mim e Tauile. Conversamos, então, muito a respeito, o que nos indicou e reforçou caminhos comuns a percorrer, não só em posições ideológicas, como também em iniciativas de trabalho. Chegamos a continuar escrevendo textos sobre as inovações tecnológicas juntos e separados para nossos órgãos de origem e para consultorias à Organização Internacional do Trabalho.
O que visualmente nos confirmava ali era que a Pax-Americana em todo o mundo, nada mais era do que a manutenção da soberania daquele país nas relações com os demais países, excetuados os do socialismo de estado, nas áreas comercial, econômica, científica, tecnológica, militar e política. Resultava em decorrência que até mesmo as relações sociais acabavam sendo envolvidas pelas demais. Em algumas regiões, entretanto, resistia brava e alegremente a cultura regional, especialmente em rincões latino-americanos.
Decorria dessa breve visão sobre a suntuosidade da riqueza em contraste com a pobreza endêmica, a noção básica, imediata e estridente da desigualdade. Polos extremos e desiguais convivendo em meios diferentes ou no mesmo meio econômico e social. Uma questão já velha conhecida e estudada principalmente no trato da economia e sociologia. O domínio econômico dos Estados Unidos no mundo, secundado por outros países desenvolvidos, há bem tempo se aproveita, sustenta e reproduz as muitas formas de pobreza nas várias regiões nas quais aquela nação age e interfere econômica, política e militarmente. A globalização tem ajudado a manutenção e aprofundamento desse status quo.
Os braços econômicos desse domínio americano, mas também de outros países economicamente fortes, são suas companhias multinacionais com filiais mundo afora, diretamente ou com prepostos e repetidores nacionais. Seus lucros obtidos são retirados dos locais mais pobres onde se encontram produzindo e remetidos às sedes, americanas umas, nacionais outras. Esse descompasso traduz em termos sumários o desequilíbrio de recursos entre os ricos, que acumulam, e os pobres, que são explorados. O vírus e a doença permanentes da desigualdade.
As manifestações populares e revoltas de hoje em países como Chile, Equador, Haiti, Bolívia, além da crescente insatisfação social presente aqui e ali na Colômbia, Brasil, Uruguai, entre outros, evidenciam mais uma vez o descompasso entre a manutenção dos privilégios dos grupos econômicos mais poderosos e seus representantes ou contratados e a redução e retirada dos direitos sociais da maioria esmagadora mais pobre da população.
Enquanto o modelo capitalista de produção persistir em sua roupagem neoliberal predadora, os estopins da insatisfação, manifestação e revolta popular estarão potencialmente sendo acesos. Provavelmente nunca chegaremos a viver numa Boston, mas certamente poderemos melhorar bastante nossos meios de vida e trabalho e quiçá sermos mais iguais que nossos antepassados.
O pior é que a receita neoliberal conservadora, predatória e ultrapassada tende a destruir o próprio sistema capitalista onde ela se assenta. Já previa isso o velho e sábio Marx. Com o aumento progressivo da desigualdade, as empresas empanturradas de lucros, a maioria delas com aplicação no mercado financeiro e não na produção, os trabalhadores com direitos reduzidos, salários menores e desemprego aumentando, quem irá adquirir os produtos das empresas?
Henry Ford, o criador da Ford Motor Company, a primeira montadora mundial, foi sábio em afirmar que a redução de salários de seus empregados ameaçaria a sua empresa na venda de seus próprios automóveis.
Com a redução da demanda e da receita, as empresas terão minguados seus lucros. Como irão sustentar seus recursos aplicados no mercado financeiro se irão reduzir os aportes habituais? Os tributos igualmente sofrerão queda porque as vendas irão se reduzir ao mínimo básico, as rendas das famílias e pessoas idem, daí a dívida pública anterior não terá como se pagar, terá de ser rolada. A garantia do Tesouro irá por água abaixo.
E aí? Guedes e equipe já terão ido provavelmente se esconder alhures! Só não vê quem não quer ou finge entender o que não entendem ou que, mesmo assim, querem ganhar enquanto a coisa ainda anda. Depois é o longo prazo, quando Keynes nos disse que aí estaremos todos mortos. Inclusive os neoliberais de plantão.
O jeito é chamar o Luiz Gonzaga Belluzzo, Luciano Coutinho e Maria da Conceição Tavares, meus mestres e amigos, para ajudar a reconstruir e restabelecer o vigor, a pujança e a soberania da economia brasileira!
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(*) José Carlos Peliano, poeta, escritor e economista.
Criado em 2019-11-16 16:09:06