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Morreu esta manhã dom Pedro Casaldáliga, aos 92 anos. Bispo católico, catalão, radicado no Brasil desde 1968, foi um dos o expoentes da Teologia da Libertacão e é considerado um dos mais importantes defensores dos direitos humanos do país. Por isso mesmo, era considerado uma pedra no sapato dos militares brasileiros durante o período da ditadura.
Foi defensor dos povos indígenas e ribeirinhos e dos camponeses e trabalhadores rurais da Amazônia durante o regime militar. Casaldáliga foi responsável por algumas das primeiras denúncias por trabalho escravo contemporâneo que ganharam o mundo no início da década de 1970.
A notícia foi confirmada pela Prelazia de São Félix do Araguaia (MT), a Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria (Claretianos) e a Ordem de Santo Agostinho (Agostinianos).
Dom Pedro morreu nesta manhã (8/8) na cidade de Batatais, São Paulo, para onde foi levado para tratamento de saúde, agravada por insuficiência respiratória.
O corpo de Dom Pedro Casaldáliga será velado, no dia 08 de agosto de 2020, a partir das 15 horas na capela do Claretiano - Centro Universitário de Batatais, unidade educativa dirigida pelos Missionários Claretianos, situada à rua Dom Bosco, 466, Castelo, Batatais, São Paulo, Brasil. Informações: (16) 3660-1777.
A missa de exéquias será celebrada, em Batatais, no dia 09 de agosto de 2020 às 15h, no endereço acima e será aberta ao público em geral, além de ser transmitida ao vivo pelo link https://youtu.be/spto8rbKye0
O corpo de Dom Pedro Casaldáliga, CMF, será velado no Santuário dos Mártires, a partir do dia 10 de agosto, sem previsão de horário de chegada do corpo. Informações: (66) 98420-2253 com Pe. Tiago.
Em São Félix do Araguaia, o corpo de Dom Pedro Casaldáliga será velado no Centro Comunitário Tia Irene. O sepultamento será em São Félix do Araguaia. Informações: Pe. Saraiva telefone: (31) 99677-4875.
Dom Pedro Casaldáliga:
"No final do meu caminho me dirão:
- E tu, viveste? Amaste?
E eu, sem dizer nada, abrirei o coração
cheio de nomes”.
Criado em 2020-08-08 15:42:40
Romário Schettino –
O presidente Jair Bolsonaro passou de todos os limites institucionais e está jogando o país numa grave crise. Foi preciso o ministro Celso de Mello dar-lhe um puxão de orelhas por causa do vídeo das hienas para que Bolsonaro viesse a público pedir desculpas e se retratar.
Agora vem este outro vídeo desatinado contra as matérias veiculadas na grande imprensa, fazendo ameaças, espumando de ódio, na tentativa de se segurar na Presidência e, quem sabe, abrir espaço para um autogolpe. Bolsonaro é a imagem perfeita da truculência e da arrogância que caracterizam os falsos "mitos".
A simples menção do nome de Bolsonaro nas matérias da TV Globo, que mostraram novidades nas investigações do assassinato da vereadora do PSol, Marielle Franco, deixaram o presidente fora de si. O vídeo gravado de madrugada, ainda no Oriente Médio, parecia um filme de terror à meia noite.
Aliás, o ex-aliado de Bolsonaro, Gustavo Bebiano, em entrevista ao site Congresso em Foco, usou expressões que definem bem o que estamos assistindo todos os dias nas manchetes, na porta do Palácio do Planalto: “Um governo de loucos”, “sem estratégia”, “palhaçadas familiares”, “assessores incompetentes” e “beligerância gratuita”. É desta forma que o presidente tende ao isolamento. Não sabe governar, não quer aprender e se recusa a entender o que significa democracia. Um chucro acompanhado de seus três filhotes mais chucros ainda.
Bebiano prevê três situações para o futuro desastrado de Bolsonaro: 1) Renúncia ao estilo Jânio Quadros; 2) Impeachment e 3) Tentativa de ruptura institucional, ou seja, golpe.
Qualquer que seja o desfecho desta experiência maldita, iniciada no golpe de 2016, o Brasil está na pior fase de sua história em termos políticos. O partido do presidente, o PSL, é uma máquina de fazer dinheiro e tem muita gente para repartir o botim pós-eleição, que está sob suspeita de fraudes – laranjal, Fake News etc. Na economia, embora todas as reformas sejam para surtir seus efeitos malignos para os próximos dez anos, o ritmo das privatizações, se conseguirem fazê-las em ritmo acelerado, podem provocar problemas no curto prazo.
O efeito Chile não é bom para as pretensões do ministro Paulo Guedes. E a volta dos peronistas na Argentina é sinal de alerta para a equipe econômica neoliberal brasileira. Tudo no Brasil está envolto em uma cortina de fumaça, sem esperança, sem futuro, sem tranquilidade.
Não bastaram as palavras desbaratinadas no episódio dos incêndios na Amazônia, da completa inação no mais grave desastre ecológico que chegam às praias do Nordeste brasileiro (algo parecido a Chernobyl). Agora temos um presidente enlouquecido com o noticiário e sem saber o que fazer.
O presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Tóffoli, está com a palavra. O envolvimento do nome do presidente nesse episódio da casa 58 é assunto para o STF.
Criado em 2019-10-30 15:14:06
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Na virada do ano, uma dor excruciante tomou conta da parte interna da minha coxa direita, irradiando-se pela virilha. O ecodoppler colorido tascou: “Extensa trombose venosa profunda sub-aguda da veia femoral comum até a veia poplítea e a crossa da safena magna direita”.
- E agora, doutor?
- Agora você vai tomar anticoagulante para evitar TEP, AVC, essas coisas.
A possibilidade “dessas coisas”, embolia pulmonar e derrame cerebral etc, que podem ser provocadas por um coágulo desprendido, entrou no meu radar já obstruído de preocupações. Imagine, qualquer dia desses eu amanhecia com a boca torta ou puxando ar que nem um peixe fora d’água ou como o Trump esbaforido no Balcão Truman logo depois de sair do hospital militar Walter Reed. Gasp, gasp, ninguém merece!
De anticoagulante, o meu cirurgião vascular receitou rivaroxabana, e, para melhorar a circulação, um composto de diosmina com hesperidina, além de um creme à base de cumarina para massagear a perna.
- Daqui a seis meses, vamos suspender o anticoagulante para investigar se você tem trombofilia!
- Atração por elefantes, doutor?
Vermelho que nem um fruto de Capsicum annuum, meu circunspecto angiologista, um oficial da Aeronáutica, acabou rindo. Depois me explicou que os exames definiriam se tenho ou não fatores que facilitam a formação de trombos ou coágulos, inclusive por herança genética.
Adicto pra sempre - Bem, os resultados saíram no início de setembro. Descartaram o fator V de Leiden, no caso, um legado da miséria de meus pais, mas, em compensação, distinguiram dois agentes trombogênicos - o antígeno lúpico e o excesso de homocisteína - que, combinados, me condenam a ficar sócio da Bayer pelo resto da vida. Oficialmente, sou agora dependente químico de Xarelto, uma condição melhor, convenhamos, do que se fosse do Zycklon B, outro produto da famigerada farmacêutica alemã.
Ah, se fosse só isso! O pedido do hemograma acabou me custando chateações extras, como vocês verão. Não percebi na hora, só quando cheguei em casa: ao redigir a solicitação, o médico fez um crtl c crtl v do pedido de uma paciente anterior, de maneira que a justificativa saiu assim: “Paciente com história familiar de trombofilia e dois abortos espontâneos, evoluindo com edema e dor em MMII (membros inferiores)”.
Dois abortos? A Cristina, que estava recebendo a visita da vizinha, também em quase-quarentena, morreu de rir quando viu o pedido (foto abaixo). Me chamou pelo nome completo, fingindo braveza: “Antônio Carlos, você vai ter que me explicar isso direitinho”! Acontece que a Dona Santina, terrivelmente católica e militante pró-vida, levou a coisa a sério e veio com tudo pra cima de mim.
- Seu Antônio, que história mal contada! O que o senhor andou aprontando?
- Eu?
- Que remédios o senhor tomou?
- Xarelto e Daflon, uai!
- Ah, o senhor deve ter tomado Cytotec!
- Não, Dona Santina. Só esses dois.
- Por acaso o senhor não andou tomando chá de carrapicho, quebra-pedra, carqueja, buchinha do norte, arruda?
- Não, só chá de canela e hortelã! Acho que camomila também.
- Há, eu sabia! Esses também são abortivos, seu Antônio! Que vergonha!
- Mas, Dona Santina, que absurdo a senhora desconfiar de mim! Foi só um errinho de edição do meu angiologista!
- Anjologista? Fazedor de anjos, seu Antônio! O senhor não me engana!
- Mas, Dona Santina, eu sou homem!
- Não me venha com desculpas! O senhor sabe muito bem que não há limites para a ciência moderna!
Depois dessa eu desisti de discutir com a Dona Santina e fui pro scriptorium rever o clássico do Billy Wilder que tenho arquivado no computador, Quanto mais quente melhor! Eu estava me sentindo exatamente como a Daphne/Jack Lemmon no momento em que o maroto do Osgood/Joe E. Brown pronuncia a última frase da última piada do filme: “Nobody’s perfect”!

Criado em 2020-10-13 22:58:40
Roberto Amaral (*) –
O acordão da casa-grande deixa o campo das hipóteses e se estabelece como fato consumado, de que dá conta a nova linha editorial dos grandes jornais, para os quais a presença do capitão e sua récua no comando do país deixou de representar uma ameaça às instituições democráticas. Porque o fundamental, agora, é salvar a “pauta Guedes”, ameaçada de cair por terra com o esboroamento do governo.
Mas que política econômica é esta a que as classes dominantes tanto se aferram? O número de falências em junho cresceu 71,3% sobre junho do ano passado, e nada menos que 93,4% dessa quebradeira atinge as pequenas e médias empresas (dados da Boa Vista-SCPC). Segundo o Banco Central (IBC-Br) a atividade econômica caiu 11,4% entre março e maio. É o maior recuo em toda a série histórica, anunciando uma queda do PIB deste ano em torno de 15%; uma tragédia, se considerarmos que em 2019 o “crescimento” já estancara em pífio 1,1%. Mas nada disso é relevante, porque a batalha ideológica, até aqui ganha pela direita, transformou as reformas do neoliberalismo em uma encantação mágica.
Aqui e neste tempo se apresenta como “modernidade” uma receita que fracassou em todo o mundo. E quando todas as economias capitalistas, incluindo as economias dos países centrais, investem em políticas desenvolvimentistas, entre nós, sempre derradeiros, a “novidade” é a contenção dos gastos, pai e mãe da estagnação da economia, da quebradeira, e do desemprego que crescem a olhos vistos, e crescerão ainda mais se não tivermos forças para conter o projeto suicida da classe dominante brasileira.
Em plena pandemia (aprofundada pelo governo), com nossos mortos se aproximando dos 100 mil (desconsideradas as consabidas subnotificações) continua o descalabro criminoso: o ministério da Saúde chefiado por um general (de infantaria) interino, cercado de fardados ocupando cargos civis destinados a técnicos e especialistas. Aliás, enquanto o fracasso do governo é regra, sob todos os aspectos, dobra a presença de militares em funções civis. Segundo o TCU, temos hoje 6.157 militares em cargos civis. Uma invasão.
O fato objetivo é que as Forças Armadas, carregadas por uma coorte de generais em comissão, estão definitivamente atreladas ao governo, com ele se confundem, e com ele subirão, condenadas, ao patíbulo da história. Bolsonaro é a caricatura dessa nova forma de governo militar. É a face aparente.
Enquanto os fardados não se dão conta do atoleiro em que se meteram e nos meteram, e não encontram a porta de saída para o desatino, a classe dominante, esta sim astuta, cuida de salvar os dedos quando vê ameaçados os anéis conquistados quase sempre sem honra. Chama as partes para o entendimento e indica a fórmula de consenso: salvar a “pauta Guedes”.
O povo, como dizia uma certa ex-ministra da Fazendo em governo de péssima memória, é só um “detalhe”. Um número nas planilhas dos tecnoburocratas.
O mantra, agora, são as “reformas” do neoliberalismo, pois elas nos salvarão, destruindo o Estado, reduzindo os gastos públicos, suspendendo investimentos, reduzindo salários, estancando o desenvolvimento.
Mantra é como a fé, não se discute, porque prescinde de razão, como o criacionismo, o terraplanismo. A crença irracional nos poderes milagrosos do liberalismo arcaico – privatismo, soberania do lucro privado sobre o interesse público – já está destruindo o pouco que nas últimas décadas conseguimos avançar na busca de um ainda longínquo Estado do bem-estar social. No seu rasto ficará a selvageria do capitalismo sem freios, a barbárie. Já ostentamos a maior concentração de renda do mundo. Que nos espera, logo mais adiante, sob uma política alérgica ao interesse social?
Em sua coluna do último domingo (“Platô no vírus e na política”, Estadão. 18/7/2020), a jornalista Eliane Cantanhêde, arguta e bem informada, nos fala na união (é como traduz o acordão ou a “ordem unida” ditada pela casa-grande) necessária “para minimizar os danos colaterais [da pandemia] e tratar as feridas: quebradeira de empresas, milhões a mais de desempregados e o aprofundamento da miséria”. Registra que o capitão deixou de “disparar insultos diários, atiçar as hordas golpistas, avalizar a guerra da internet contra todos”. Não nos esclarece, porém, as razões de tão surpreendente mudança de um caráter paranoico sem qualquer habilitação para o convívio com a realidade. De qualquer sorte teríamos chegado ao nosso platô, da miséria e da política. É hora, portanto, de chamar os jogadores de volta ao centro do campo, e estabelecer novas regras, porque está muito alto o número de faltas e contusões. O capitão-presidente, olhando para o banco de reservas, se dispõe conter as agressões aos poderes institucionais. Põe-se em retiro, e se cala, o que significa que deixou de dizer sandices. Cruza os braços, lava as mãos diante da crise, e deixa que os militares conversem com os políticos e o “mercado”. Segundo a articulista, o governo teria reaberto o “diálogo e as relações com os poderes”. Daí, aduzo, veio a paz que se estampa no silêncio das manchetes dos jornais que não mais se chocam com os desmandos do governo.
É a vitória da direita sobre a direita; a mudança para que nada mude.
A colunista define esse realinhamento como um “movimento” que estabelece “uma distinção entre a direita moderna, culta e pragmática [sic] e essa direita instalada no poder, atrasada, ignorante, com um discurso ideológico incompreensível”. Essa segunda direita, evidentemente, é o bolsonarismo. Continua a jornalista, como que resumindo os termos do acordão: “A direita entendeu e obrigou Bolsonaro a começar a entender”.
É o concerto clássico da classe dominante. A entente da direita com a direita, contra o país. No plenário da casa-grande não há espaço para as forças populares.
A direita simplesmente se deu conta de que ela própria estava ameaçando seu reino e corrige o engano. Daí o tranco. O preço da paz vem a galope e será pago pela nossa tragédia: não se fala mais em frentes, amplas ou não, contra Bolsonaro, pelo menos enquanto a focinheira funcionar; as hordas serão aquietadas, os generais falarão menos, um ou outro ministro ainda pode ser ejetado, tudo, e o mais que não se conta, aplainando os caminhos das “reformas” que serão tocadas cartorialmente pelo Congresso sob o reino ético do “centrão” e das bancadas da bíblia e da bala, todos aliás, bem alimentados pelas verbas da União distribuídas a mãos cheias pelo capitão.
O “mercado” é que interessa, o resto não interessa.
Muda-se de direita para que o governo continue de direita. Muda-se para que nada mude, muda-se a aparência de um governo tresloucado por um governo aparentemente bem comportado, mas sua natureza reacionária, antinacional e anti povo, genocida como afirma um ministro do STF, persiste. Para preservá-la, aliás, é que a casa-grande interveio. Para salvar-se, teve de pôr Bolsonaro sob sua guarda.
Depois do freio de arrumação, vamos ao que interessa, e quando este artigo estiver sendo lido o Congresso começará a discutir a reforma tributária, que ninguém conhece, prometida pelo ministro da Economia. Será mais um pacote que se empurrará goela abaixo. O projeto, qualquer que seja a proposta, passará, como passou o marco do saneamento, como passará tudo o que for de interesse da nova ordem. Estamos apenas no começo das “reformas”.
Se assim é na periferia, na metrópole organiza-se uma Internacional Socialista “moderna”, isto é, livre das propostas socialistas e das críticas do socialismo ao capitalismo. Em nenhuma hipótese se tocará em “luta de classes”. E ao invés de defender o socialismo, a nova Internacional proporá o “pós-capitalismo”. Que é isso, ainda não foi dito. Surge, assim, uma esquerda bem comportada, com todos os atributos para ser bem aceita pela casa-grande, seus intelectuais orgânicos e seus jornais.
______________
(*) Roberto Amaral é jornalista, professor e político brasileiro. Foi ministro da Ciência e Tecnologia durante o governo do presidente Lula.
Criado em 2020-07-25 17:11:03
Intitulado “Carta ao povo de Deus”, o documento afirma que o Brasil atravessa um dos momentos mais difíceis de sua história. A carta foi assinada por 152 bispos, arcebispos e bispos eméritos do Brasil, conforme informa a jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo.
O documento afirma que o Brasil vive uma “tempestade perfeita”, que combinaria uma crise sem precedentes na saúde e um “avassalador colapso na economia”. Com essa tensão sofrem os “fundamentos da República, provocada em grande medida pelo Presidente da República [Jair Bolsonaro] e outros setores da sociedade, resultando numa profunda crise política e de governança”.
“Analisando o cenário político, sem paixões, percebemos claramente a incapacidade e inabilidade do Governo Federal em enfrentar essas crises”, diz ainda o documento.
O texto também faz críticas diretas ao sistema neoliberal e às reformas praticadas pela equipe econômica de Paulo Guedes. De acordo com os líderes da Igreja Católica, os resultados das reformas feitas pelo governo “pioraram a vida dos pobres, desprotegeram vulneráveis, liberaram o uso de agrotóxicos antes proibidos, afrouxaram o controle de desmatamentos e, por isso, não favoreceram o bem comum e a paz social”.
“É insustentável uma economia que insiste no neoliberalismo, que privilegia o monopólio de pequenos grupos poderosos em detrimento da grande maioria da população”, defendem.
Para eles, o “sistema do atual governo” não coloca no centro a pessoa humana e o bem de todos, “mas a defesa intransigente dos interesses de uma economia que mata, centrada no mercado e no lucro a qualquer preço”.
O texto é assinado, entre outros, pelo arcebispo emérito de São Paulo, dom Claudio Hummes, pelo bispo emérito de Blumenau, dom Angélico Sandalo Bernardino, pelo bispo de São Gabriel da Cachoeira (AM), dom Edson Taschetto Damian, pelo arcebispo de Belém (PA), dom Alberto Taveira Corrêa, pelo bispo prelado emérito do Xingu (PA), dom Erwin Krautler, pelo bispo auxiliar de Belo Horizonte (MG), dom Joaquim Giovani Mol, e pelo arcebispo de Manaus (AM) e ex-secretário-geral da CNBB dom Leonardi Ulrich.
A carta seria tornada pública na última quarta-feira (22/7), mas teve sua divulgação suspensa para ser analisada pelo conselho da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil). Há um receio entre os signatários de que o setor conservador do órgão impeça a divulgação.
A seguir, a íntegra da "Carta ao Povo de Deus":
"Somos bispos da Igreja Católica, de várias regiões do Brasil, em profunda comunhão com o Papa Francisco e seu magistério e em comunhão plena com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que no exercício de sua missão evangelizadora, sempre se coloca na defesa dos pequeninos, da justiça e da paz. Escrevemos esta Carta ao Povo de Deus, interpelados pela gravidade do momento em que vivemos, sensíveis ao Evangelho e à Doutrina Social da Igreja, como um serviço a todos os que desejam ver superada esta fase de tantas incertezas e tanto sofrimento do povo.
Evangelizar é a missão própria da Igreja, herdada de Jesus. Ela tem consciência de que “evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo” (Alegria do Evangelho, 176). Temos clareza de que “a proposta do Evangelho não consiste só numa relação pessoal com Deus. A nossa reposta de amor não deveria ser entendida como uma mera soma de pequenos gestos pessoais a favor de alguns indivíduos necessitados [...], uma série de ações destinadas apenas a tranquilizar a própria consciência. A proposta é o Reino de Deus [...] (Lc 4,43 e Mt 6,33)” (Alegria do Evangelho, 180). Nasce daí a compreensão de que o Reino de Deus é dom, compromisso e meta.
É neste horizonte que nos posicionamos frente à realidade atual do Brasil. Não temos interesses político-partidários, econômicos, ideológicos ou de qualquer outra natureza. Nosso único interesse é o Reino de Deus, presente em nossa história, na medida em que avançamos na construção de uma sociedade estruturalmente justa, fraterna e solidária, como uma civilização do amor.
O Brasil atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história, comparado a uma “tempestade perfeita” que, dolorosamente, precisa ser atravessada. A causa dessa tempestade é a combinação de uma crise de saúde sem precedentes, com um avassalador colapso da economia e com a tensão que se abate sobre os fundamentos da República, provocada em grande medida pelo Presidente da República e outros setores da sociedade, resultando numa profunda crise política e de governança.
Este cenário de perigosos impasses, que colocam nosso país à prova, exige de suas instituições, líderes e organizações civis muito mais diálogo do que discursos ideológicos fechados. Somos convocados a apresentar propostas e pactos objetivos, com vistas à superação dos grandes desafios, em favor da vida, principalmente dos segmentos mais vulneráveis e excluídos, nesta sociedade estruturalmente desigual, injusta e violenta. Essa realidade não comporta indiferença.
É dever de quem se coloca na defesa da vida posicionar-se, claramente, em relação a esse cenário. As escolhas políticas que nos trouxeram até aqui e a narrativa que propõe a complacência frente aos desmandos do Governo Federal, não justificam a inércia e a omissão no combate às mazelas que se abateram sobre o povo brasileiro.
Mazelas que se abatem também sobre a Casa Comum, ameaçada constantemente pela ação inescrupulosa de madeireiros, garimpeiros, mineradores, latifundiários e outros defensores de um desenvolvimento que despreza os direitos humanos e os da mãe terra. “Não podemos pretender ser saudáveis num mundo que está doente. As feridas causadas à nossa mãe terra sangram também a nós” (Papa Francisco, Carta ao Presidente da Colômbia por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente, 05/06/2020).
Todos, pessoas e instituições, seremos julgados pelas ações ou omissões neste momento tão grave e desafiador. Assistimos, sistematicamente, a discursos anticientíficos, que tentam naturalizar ou normalizar o flagelo dos milhares de mortes pela covid-19, tratando-o como fruto do acaso ou do castigo divino, o caos socioeconômico que se avizinha, com o desemprego e a carestia que são projetados para os próximos meses, e os conchavos políticos que visam à manutenção do poder a qualquer preço.
Esse discurso não se baseia nos princípios éticos e morais, tampouco suporta ser confrontado com a Tradição e a Doutrina Social da Igreja, no seguimento Àquele que veio “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).
Analisando o cenário político, sem paixões, percebemos claramente a incapacidade e inabilidade do Governo Federal em enfrentar essas crises. As reformas trabalhista e previdenciária, tidas como para melhorarem a vida dos mais pobres, mostraram-se como armadilhas que precarizaram ainda mais a vida do povo.
É verdade que o Brasil necessita de medidas e reformas sérias, mas não como as que foram feitas, cujos resultados pioraram a vida dos pobres, desprotegeram vulneráveis, liberaram o uso de agrotóxicos antes proibidos, afrouxaram o controle de desmatamentos e, por isso, não favoreceram o bem comum e a paz social. É insustentável uma economia que insiste no neoliberalismo, que privilegia o monopólio de pequenos grupos poderosos em detrimento da grande maioria da população.
O sistema do atual governo não coloca no centro a pessoa humana e o bem de todos, mas a defesa intransigente dos interesses de uma “economia que mata” (Alegria do Evangelho, 53), centrada no mercado e no lucro a qualquer preço.
Convivemos, assim, com a incapacidade e a incompetência do Governo Federal, para coordenar suas ações, agravadas pelo fato de ele se colocar contra a ciência, contra estados e municípios, contra poderes da República; por se aproximar do totalitarismo e utilizar de expedientes condenáveis, como o apoio e o estímulo a atos contra a democracia, a flexibilização das leis de trânsito e do uso de armas de fogo pela população, e das leis do trânsito e o recurso à prática de suspeitas ações de comunicação, como as notícias falsas, que mobilizam uma massa de seguidores radicais.
O desprezo pela educação, cultura, saúde e pela diplomacia também nos estarrece. Esse desprezo é visível nas demonstrações de raiva pela educação pública; no apelo a ideias obscurantistas; na escolha da educação como inimiga; nos sucessivos e grosseiros erros na escolha dos ministros da educação e do meio ambiente e do secretário da cultura; no desconhecimento e depreciação de processos pedagógicos e de importantes pensadores do Brasil; na repugnância pela consciência crítica e pela liberdade de pensamento e de imprensa; na desqualificação das relações diplomáticas com vários países; na indiferença pelo fato de o Brasil ocupar um dos primeiros lugares em número de infectados e mortos pela pandemia sem, sequer, ter um ministro titular no Ministério da Saúde; na desnecessária tensão com os outros entes da República na coordenação do enfrentamento da pandemia; na falta de sensibilidade para com os familiares dos mortos pelo novo coronavírus e pelos profissionais da saúde, que estão adoecendo nos esforços para salvar vidas.
No plano econômico, o ministro da economia desdenha dos pequenos empresários, responsáveis pela maioria dos empregos no país, privilegiando apenas grandes grupos econômicos, concentradores de renda e os grupos financeiros que nada produzem. A recessão que nos assombra pode fazer o número de desempregados ultrapassar 20 milhões de brasileiros. Há uma brutal descontinuidade da destinação de recursos para as políticas públicas no campo da alimentação, educação, moradia e geração de renda.
Fechando os olhos aos apelos de entidades nacionais e internacionais, o Governo Federal demonstra omissão, apatia e rechaço pelos mais pobres e vulneráveis da sociedade, quais sejam: as comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, as populações das periferias urbanas, dos cortiços e o povo que vive nas ruas, aos milhares, em todo o Brasil.
Estes são os mais atingidos pela pandemia do novo coronavírus e, lamentavelmente, não vislumbram medida efetiva que os levem a ter esperança de superar as crises sanitária e econômica que lhes são impostas de forma cruel.
O Presidente da República, há poucos dias, no Plano Emergencial para Enfrentamento à covid-19, aprovado no legislativo federal, sob o argumento de não haver previsão orçamentária, dentre outros pontos, vetou o acesso a água potável, material de higiene, oferta de leitos hospitalares e de terapia intensiva, ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea, nos territórios indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais (Cf. Presidência da CNBB, Carta Aberta ao Congresso Nacional, 13/07/2020).
Até a religião é utilizada para manipular sentimentos e crenças, provocar divisões, difundir o ódio, criar tensões entre igrejas e seus líderes. Ressalte-se o quanto é perniciosa toda associação entre religião e poder no Estado laico, especialmente a associação entre grupos religiosos fundamentalistas e a manutenção do poder autoritário.
Como não ficarmos indignados diante do uso do nome de Deus e de sua Santa Palavra, misturados a falas e posturas preconceituosas, que incitam ao ódio, ao invés de pregar o amor, para legitimar práticas que não condizem com o Reino de Deus e sua justiça?
O momento é de unidade no respeito à pluralidade! Por isso, propomos um amplo diálogo nacional que envolva humanistas, os comprometidos com a democracia, movimentos sociais, homens e mulheres de boa vontade, para que seja restabelecido o respeito à Constituição Federal e ao Estado Democrático de Direito, com ética na política, com transparência das informações e dos gastos públicos, com uma economia que vise ao bem comum, com justiça socioambiental, com “terra, teto e trabalho”, com alegria e proteção da família, com educação e saúde integrais e de qualidade para todos.
Estamos comprometidos com o recente “Pacto pela vida e pelo Brasil”, da CNBB e entidades da sociedade civil brasileira, e em sintonia com o Papa Francisco, que convoca a humanidade para pensar um novo “Pacto Educativo Global” e a nova “Economia de Francisco e Clara”, bem como, unimo-nos aos movimentos eclesiais e populares que buscam novas e urgentes alternativas para o Brasil.
Neste tempo da pandemia que nos obriga ao distanciamento social e nos ensina um “novo normal”, estamos redescobrindo nossas casas e famílias como nossa Igreja doméstica, um espaço do encontro com Deus e com os irmãos e irmãs.
É sobretudo nesse ambiente que deve brilhar a luz do Evangelho que nos faz compreender que este tempo não é para a indiferença, para egoísmos, para divisões nem para o esquecimento (cf. Papa Francisco, Mensagem Urbi et Orbi, 12/4/20).
Despertemo-nos, portanto, do sono que nos imobiliza e nos faz meros espectadores da realidade de milhares de mortes e da violência que nos assolam. Com o apóstolo São Paulo, alertamos que “a noite vai avançada e o dia se aproxima; rejeitemos as obras das trevas e vistamos a armadura da luz” (Rm 13,12).
O Senhor vos abençoe e vos guarde. Ele vos mostre a sua face e se compadeça de vós.
O Senhor volte para vós o seu olhar e vos dê a sua paz! (Nm 6,24-26).
Criado em 2020-07-27 01:21:39
Romário Schettino –
O tão esperado voto da ministra Rosa Weber chamou a atenção por dois motivos: primeiro, porque ela respeitou a Constituição ao votar contra a prisão em segunda instância; segundo, o mais tocante, foi a invocação da sensibilidade poética de Konstantinos Kaváfis(*) para mostrar que não é possível ceder ao clamor das ruas sem submeter a Justiça.
O sentimento jurídico da ministra, desenvolvido em linguagem nem sempre compreendida pela maioria das pessoas comuns, encontrou nos versos de Kaváfis o toque perfeito que só os grandes poetas são capazes de produzir.
Rosa Weber deu a resposta exata para as desonestidades intelectuais e a retórica da catástrofe utilizadas nos argumentos de alguns dos defensores da prisão em segundo grau.
O Supremo Tribunal Federal (STF) só não ficou à altura deste voto porque o seu presidente Dias Tófolli resolveu esticar as cordas para ver se vai cumprir o seu papel com dignidade ou se vai ceder à pressão dos bárbaros, ou da barbárie.
Como tudo ficou para novembro, fiquemos aqui meditando com os versos de Konstantinos Kaváfis.
À espera dos bárbaros
Konstantinos Kaváfis (*)
O que esperamos nós em multidão no Fórum?
Os Bárbaros, que chegam hoje.
Dentro do Senado, porque tanta inação?
Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?
É que os Bárbaros chegam hoje.
Que leis haveriam de fazer agora os senadores?
Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.
Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?
E às portas da cidade está sentado,
no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?
Porque os Bárbaros chegam hoje.
E o Imperador está à espera do seu Chefe
para recebê-lo. E até já preparou
um discurso de boas-vindas, em que pôs,
dirigidos a ele, toda a casta de títulos.
E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,
hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?
E porque levavam braceletes, e tantas ametistas,
e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas?
E porque levavam hoje os preciosos bastões,
com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?
Porque os Bárbaros chegam hoje,
e coisas dessas maravilham os Bárbaros.
E porque não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores
para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?
Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,
e aborrecem-se com eloquências e retóricas.
Porque, subitamente, começa um mal-estar,
e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!
E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,
e todos voltam para casa tão apreensivos?
Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.
E umas pessoas que chegaram da fronteira
dizem que não há lá sinal de Bárbaros.
E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?
Essa gente era uma espécie de solução.
_________________
(*) Konstantinos Kaváfis, poeta, nasceu a 29 de abril 1863, em Alexandria, Egito, e morreu em 29 de abril 1933, também em Alexandria. É considerado o maior nome da poesia em idioma grego moderno. Ele trabalhou durante trinta anos na Bolsa de Valores Egípcia. Permaneceu em Alexandria até sua morte por motivo de câncer de laringe.
Kaváfis era um cético e questionava a Cristandade, o patriotismo e a heterossexualidade. Publicou 154 poemas e cerca de mais uma dúzia permaneceram incompletos ou no esboço.
Kavafis em vida não publicou nenhum livro. Seus poemas eram distribuídos em feuilles volantes (folhas soltas) ou, então, publicados em algumas revistas literárias. Em 1935 publicou-se o livro póstumo com os 154 poemas.
Criado em 2019-10-25 20:35:29
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Quando eu nasci, em maio de 1956, é provável que o rádio estivesse tocando Conceição, de Dunga e Jair Amorim, no vozeirão de Cauby Peixoto. O samba-canção estava no topo das paradas naquele ano.
No ranking das dez mais, em ordem decrescente, seguiam Maracangalha (Dorival Caymmi); A voz do morro (Jorge Goulart); Rock around the clock (Bill Haley & His Comets); Obsessão (Carmen Costa); Meu vício é você/Boneca de trapo (Nelson Gonçalves); Sixteen tons (Tenessee Ernie Ford); Iracema (Demônios da Garoa); Exaltação à Mangueira (Jamelão); e Mulata assanhada (Ataufo Alves).
Eu cresci ouvindo um rádio Philco argentino, de válvula, que também servia de relógio da casa. Do repertório dileto em Goiás, muita música caipira, incluindo as duplas Tonico e Tinoco, Alvarenga e Ranchinho, Vieira e Vieirinha, Pena Branca e Xavantinho, Tião Carreiro e Pardinho. De vez em quando eu me pego cantando o Baile do Baixadão, do Zé do Rancho e a Mariazinha, onde “A veiarada só pedia xote / Mas em vez de passo só dava pinote”. Do repertório nacional, ouvi os sambas, tangos e boleros da Era do Rádio, e quase toda a trilha sonora da transição para a MPB – a Bossa Nova, a Tropicália, a Música Nordestina, o Rock Nacional etc.
Volta ao mundo - Hoje, quando vejo o pessoal reclamar dos filhos que não saem da Internet, dou risada porque eu mesmo ficava pendurado seis, sete horas no rádio noite adentro, surfando nas ondas curtas as principais rádios internacionais. Queridos leitores e queridas leitoras, eu ouvi pelo rádio a luta do século, Muhammad Ali versus George Foreman, no final de outubro de 1974. Escutava as notícias ferventes da Guerra Fria ao longo do dial, pulando da Voz da América para a BBC de Londres, Rádio Central de Moscou, Rádio Europa Livre, Rádio Pequim, Rádio Tirana (Albânia), Rádio Havana Cuba etc. E ouvia jazz e música erudita pela Rádio MEC e nas emissoras da Rádio Nacional da Suíça, Rádio Nederland, Sveriges Radio (Suécia) Radio France, entre outras. Lá pelos 17 anos, junto com um amigo, o Tauny Mendes, cheguei a fazer um programa de música clássica na Rádio Santana de Anápolis, incluindo no repertório o Marteau sans maître do Pierre Boulez.
Todas essas memórias foram deflagradas na manhã deste domingo, 27 de setembro, depois de receber no Zap o link (clique aqui) de uma página que traz as 100 músicas mais tocadas no rádio por ano. Logo após conferir o que ouvia no meu ano natal, 1956, saltei uma década. E vi que em 1966 as dez mais das paradas eram as seguintes: Quero que vá tudo pro inferno (Roberto Carlos); Yesterday (Beatles); A banda (Nara Leão); Capri c’est fini (Hervé Vilard); Esqueça (Roberto Carlos); Io che non vivo senza te (Pino Donaggio); Michelle (Beatles); Meu bem (Ronnie Von); Disparada (Jair Rodrigues); e A volta (Os Vips).
Pavão mysteriozo – Me roendo de curiosidade, pulei mais dez anos para verificar a lista de 1976: Juventude transviada (Luiz Melodia); Meu mundo e nada mais (Guilherme Arantes); If you leave me now (Chicago); À flor da terra/ O que será? (Chico Buarque); Meu caro amigo (Chico Buarque); Don’t go breaking my heart (Elton John & Kiki Dee); Fly, Robin, fly (Silver Convention); Nuvem passageira (Hermes Aquino); Sobradinho (Sá e Guarabyra); e Pavão mysteriozo (Ednardo).
Olhando mais devagar, vi que estão no topo da lista das 100 mais ouvidas em 76 As rosas não falam (Beth Carvalho); Gracias a la vida (Tarancón); Olhos nos olhos (Maria Bethânia); Apesar de você (Chico Buarque); Como nossos pais e O rancho da goiabada (Elis Regina)…
Não vou aqui fazer um julgamento sobre a qualidade da música que os brasileiros ouviam na Era do Rádio e nas décadas de 60, 70 e 80, porque não quero cair na obviedade nem repetir o que faz de vez em quando o Ruy Castro. Quem cresceu ouvindo o Orlando Silva, o Nelson Gonçalves, o Jamelão, o João Gilberto, o Chico Buarque, a Dolores Duran, a Elizeth Cardoso, a Ângela Maria, a Elis Regina e a Gal Costa acaba definindo um certo padrão, né?
Ainda assim, me pergunto: que música estaria tocando no rádio (ou no Spotify) no momento do nascimento de uma criança no ano passado? Uma dessas aqui, provavelmente: Domingo de manhã (Marcos & Belutti); Humilde residência (Michel Teló); Vidro fumê (Bruno e Marrone); Acordando o prédio (Luan Santana); Seu polícia (Zé Neto e Cristiano); I want know what love is live (Mariah Carey); Escreve aí (Luan Santana); Apelido carinhoso (Gusttavo Lima); Cem mil (Gusttavo Lima); e Pra você (Paula Fernandes).
Coitada da Conceição, que desceu do morro para subir na vida e se perdeu! Mas chega de saudade, antes que eu fique sentimental demais!
Criado em 2020-09-27 20:40:48
Laurez Cerqueira (*) -
Dona Maria, mãe de Florestan, ouviu isso da patroa como uma ordem, dias antes do batismo dele, de quem ela seria madrinha. Ele ficou sendo chamado de Vicente até que o Florestan, já na universidade, se igualasse a Vicente e os dois pudessem conviver na harmonia possível.
Florestan é o nome de um personagem da ópera Fidélio, de Beethoven, e também do namorado de uma amiga de Dona Maria, que era motorista na casa que ela trabalhava. Esse moço foi tão gentil e generoso com ela, durante a gravidez, que o nome Florestan foi dado ao filho em homenagem a ele. Mais do que uma exaltação ao amor, a ópera é um hino à liberdade, à lealdade e à justiça.
A madrinha não tinha filhos, Florestan, uma criança astuta, simpática, tornou-se o centro das atenções na convivência familiar. Ganhava revistinhas, livros infantis, e o casal lia para ele. O Tico-tico era a que ele mais gostava. Dizia que essa o levava a cantos da imaginação nunca antes visitados.
Certo dia, num rompante, a patroa pediu a Dona Maria que lhe desse Florestan definitivamente. Aquela proposta foi a gota dágua. Com sua dignidade ultrajada, ela mirou os olhos da patroa e deu uma resposta à altura: “Não se dá filhos, o que se dá são cães!”. Dona Maria pegou o filho pelo braço foi até o quarto, arrumou as malas e foi embora morar na periferia de São Paulo.
Ela voltou a lavar roupas e ele foi para as ruas de São Paulo, trabalhar como um adulto, como dizia, para ajudar nas despesas de casa. Primeiro numa barbearia, varrendo os cabelos cortados dos fregueses. Depois numa alfaiataria, como auxiliar; em feiras, carregando compras para as casas de famílias; numa marcenaria; engraxando sapatos; como vendedor; enfim, em qualquer atividade que lhe rendesse alguns trocados para levar pra casa.
Por ser mais rentável, os pontos de engraxates, no Largo Ana Rosa, eram disputados a porradas. Apesar de franzino, tinha agilidade com o corpo, saiu no braço com alguns até conquistar seu ponto. Ali, ele trabalhou por um bom tempo.
Mas foi como garçom que o Florestan começou a preparar a despedida do Vicente. No Bar Bidú, no centro de São Paulo, onde trabalhava como garçom, um jornalista, frequentador do bar, sempre comentava com os amigos sua admiração por Florestan, impressionado com os livros que ele lia atrás do balcão, nos intervalos entre um atendimento e outro. Àquela altura, ele já havia lido clássicos da literatura, da filosofia, da sociologia, muito influenciado pelo companheiro de sua mãe, que também era garçom e um leitor voraz. Ambos andavam com livros e lia em qualquer canto.
Foi o jornalista que o aconselhou a voltar a estudar. Ele havia cursado apenas até o terceiro ano primário, no período em que morou na casa da madrinha. Animou-se, fez o curso supletivo, na época chamado Madureza. Quando comentou com a mãe que estava decidido entrar para a universidade, achando que ela receberia a notícia com alvíssaras, Dona Maria não gostou do que ouviu. Disse preocupada com a possibilidade de ele passar a fazer parte da elite, de ter vergonha dela, por ser analfabeta, e abandoná-la.
Ele queria estudar química, certamente influenciado pelo novo trabalho de vendedor de produtos dentários, mas mudou de ideia. Prestou exame para a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, onde não foi bem recebido no início, por ser vendedor, trajar roupas e sapatos modestos, sempre suado, por andar muito a pé. Aos poucos, conseguiu ser respeitado, levava os estudos a sério, tirava boas notas. Os grupos formados para trabalhos passaram a querer Florestan, devido a sua desenvoltura nos estudos.
Florestan fez a graduação em sociologia, depois mestrado e doutorado em sociologia e antropologia, numa carreira onde conquistou lugar de destaque, como um dos acadêmicos mais importantes do país. Escreveu mais de 50 livros, entre esses, os clássicos: A Revolução Burguesa no Brasil; A Integração do Negro na Sociedade de Classes; e A Organização Social dos Tupinambá.
A Revolução Burguesa no Brasil começou a ser escrito em 1966, em resposta ao golpe militar de 1964. Num breve resumo, o clássico da sociologia expões as estruturas e os vínculos que mantém o caráter autocrático da burguesia numa sociedade como a brasileira.
A Integração do Negro na Sociedade de Classes foi traduzido para o inglês, rendeu ao Professor Florestan Fernandes viagens aos Estados Unidos, para palestras nas universidades, influenciou o movimento radical dos Panteras Negras e dos direitos civis.
A Organização Social dos Tupinambá foi classificado pelo antropólogo francês, que deu aula na USP, como marco no desenvolvimento da antropologia. O Professor Florestan Fernandes reconstituiu a organização social dos Tupinambá, extinta no século XVII, a partir dos cronistas e de relatos de viajantes.
O Professor Florestan Fernandes costumava dizer que começou a estudar sociologia ainda criança, trabalhando nas ruas, quando percebeu as relações de poder, as injustiças sociais, na pedagogia do cotidiano, na gangorra de uma existência privada das facilidades reservadas aos bem nascidos.
O Professor Florestan Fernandes disse certa vez: ”a coisa mais difícil que fiz na vida foi permanecer fiel à minha classe de origem”. E que “Vicente era a base do Florestan. Sem ele, talvez o Florestan nem existisse”.
A universidade finalmente deu a Dona Maria seu Florestan de volta, que não a abandonou, e o Brasil ganhou um dos intelectuais mais importantes da sua história, que soube interpretá-lo como poucos, criou bases científicas para uma geração de acadêmicos e intelectuais, capazes de apontar as raízes das mazelas do Brasil e o futuro da desejada nação democrática, igualitária, justa e livre.
A coerência com suas ideias, lealdade, rebeldia e o senso agudo de justiça, pareciam ser o esteio de sua vida. Foi assim desde criança, talvez influenciado por sua mãe, que demonstrou dignidade e firmeza de caráter nos momentos mais difíceis da vida dos dois; durante o período em que se dedicou à academia; como deputado constituinte; na vida pública; e até em situações cotidianas.
Certo dia, ele passou mal em casa, devido a complicações da hepatite C, (que mais tarde o levou à morte), chamou um táxi e foi para o Hospital do Servidor. Quando seu filho Florestan Fernandes Júnior chegou ao hospital, ele estava muito abatido, mas numa fila. Perguntou por que ele estava naquele hospital, se ele era deputado, podia ir para o Sírio Libanês, Albert Einstein, ou outro bom hospital, e por que ele estava na fila? Ele disse que foi para aquele hospital porque ele era servidor público e que aquele hospital era o que devia cuidar dele. E que ele estava na fila porque havia fila, cada uma daquelas pessoas estava com necessidade de atendimento como ele.
Quando a saúde dele se agravou a ponto de restar como única alternativa o transplante de fígado, Fernando Henrique, seu ex-aluno e assistente, era presidente da República, ligou e ofereceu-lhe a possibilidade de fazer o transplante numa clínica em Cleveland, nos Estados Unidos. Ele agradeceu a gentileza e disse que não poderia aceitar aquele privilégio. Aceitaria se todas as pessoas que estavam em situação de saúde mais grave que a dele tivessem a mesma oportunidade. Ele fez o transplante em São Paulo e morreu em decorrência de erro durante a recuperação da cirurgia.
No Congresso, ele se comportava como aluno disciplinado, chegava pontualmente nos horários das sessões, tanto no plenário como nas comissões, ouvia atentamente e participava dos debates. Apesar de não ser obrigado, se sentava na mesma cadeira. Percebendo o hábito dele, os parlamentares até protegiam a cadeira para que ninguém se sentasse. A cadeira era do Professor Florestan Fernandes.
Certa vez Vicente, o homem rústico, apareceu na tribuna da Câmara. O Professor Florestan Fernandes estava discursando, quando um parlamentar de posições de direita pediu um aparte e começou a fazer-lhe provocações do mais baixo nível. Florestan, educadamente foi respondendo às provocações e o deputado insistindo, agredindo. Num dado momento, Florestan perdeu a paciência, disse ao parlamentar que não era homem de engolir desaforos, que se ele quisesse fosse para fora do Congresso, que estava disposto a resolver a pendenga no braço.
O deputado Vladimir Palmeira, líder da bancada, avisado que Florestan estava querendo ir às vias de fato com um parlamentar no plenário correu às pressas para tentar acalmar os ânimos. Professor Florestan estava furioso, dizendo ao parlamentar: “já que o senhor não tem argumentos, só provocações, vamos lá pra fora!… Vamos! A gente resolve isso de outra maneira.” O deputado Vladimir Palmeira conseguiu demovê-lo daquela porfia.
O impressionante é que o Professor Florestan Fernandes furioso, que reagia com indignação às provocações de um parlamentar, desafiando-o a ir às vias de fato, era o mesmo que chegava à Câmara cumprimentando parlamentares, funcionários, desde os que trabalhavam na portaria, nas comissões, no plenário, com aperto de mão. Era amável, despojado, bem humorado, sempre com brincadeiras inteligentes e divertidas. Tudo isso é um pouco do Professor Florestan Fernandes.
O Brasil é um país de Vicentes e Florestans.
Quanta falta ele faz, nesse momento tão dramático que vivemos em nosso país!
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(*) Laurez Cerqueira é autor, entre outros trabalhos, de “Florestan Fernandes - vida e obra”; “Florestan Fernandes – um mestre radical”; e “O Outro Lado do Real”. Artigo publicado originalmente no site www.brasil247
Criado em 2020-07-23 00:06:12
O filme brasileiro Segredos do Putumayo, dirigido por Aurélio Michiles, é um dos destaques do festival irlandês Galway Film Fleadh, que acontece entre os dias 20 e 25 de julho. Ainda inédito nos cinemas brasileiros, o título conta com a distribuição global da O2 Play.
Segredos do Putumayo retrata a investigação feita pelo irlandês Roger Casement, então Cônsul Britânico no Brasil, sobre os assassinatos de 30 mil índios mantidos em regime de escravidão para coletar toneladas de borracha. No filme, a voz de Casement é interpretada pelo astro Stephen Rea, indicado ao Oscar de Melhor Ator em 1993 (e conhecido pelo público nos sucessos V de Vingança, Entrevista com o Vampiro e Traídos pelo Desejo).
O filme de Aurélio teve locações na Colômbia, nos arredores de Tabatinga e Manaus entre os meses de abril e maio de 2019. Foram colhidos depoimentos de indígenas Bora, Uitoto e Okaina e Muinane, que perderam no início do século XX 30 mil dos seus ancestrais. O longa também apresenta depoimentos do historiador Angus Mitchell, que publicou em 1997 o inédito "Diário da Amazônia", escrito por Roger Casement durante seu inquérito no Putumayo, e do escritor amazonense Milton Hatoum.
A equipe da O2 Play vai apresentar Segredos do Putumayo para compradores internacionais no Marché du film de Cannes, que acontece até o próximo dia 15 de julho em formato virtual e em conjunto ao Festival de Cinema de Cannes, um dos mais importantes do mundo. Participam das negociações o diretor da O2 Play, Igor Kupstas, e Lidia Damatto, responsável pelo departamento internacional de vendas da distribuidora.
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Texto da redação do site www.telavivia.com.br
Leia aqui artigo sobre o filme escrito pela jornalista e poeta Angélica Torres: “Um diplomata revolucionário, poeta e astro de cinema”
Criado em 2021-07-08 13:30:11
Em reunião virtual, o Encontro Municipal de Tática Eleitoral do Partido dos Trabalhadores oficializou hoje (3/7) a pré-candidatura da deputada federal Benedita da Silva à prefeitura do Rio de Janeiro.
Os cargos de vice-prefeito e vereadores serão definidos pelo diretório do partido de acordo com os prazos estabelecidos pelo novo calendário eleitoral aprovado no Congresso Nacional.
O ex-senador Lindbergh Farias já se dispôs a concorrer a uma vaga de vereador. O cargo de vice ainda depende de novas negociações já que o PSol rejeitou aliança com o PT e vai lançar candidatura própria. O PT já tinha aceitado Benedita, 78 anos, como vice do Freixo, um político mais jovem. Mas, diante da opção de seu partido Freixo saiu do páreo.
Benedita, ao agradecer a indicação, prometeu lutar para "resgatar a felicidade para os cariocas". Bené denuncia a dobradinha Bolsonaro-Crivela e diz que os dois "desprezam os pretos e os pobres do Rio e do Brasil e anuncia que cabe à sua candidatura "juntar o povo que está no morro e oferecer a ele economia criativa, mais médicos, mais empregos dignos e transportes coletivos decentes".
Conhecedores das dificuldades que uma candidatura petista, solitária, terá no Rio de Janeiro, Lula, Dilma, Fernando Haddad e Gleisi Hoffmann participaram do encontro para estimular a militância.
Lula lembrou que na campanha de 1992, em que Benedita perdeu a eleição para César Maia, um vídeo mostrando um enorme arrastão nas praias foi uma armação das elites cariocas para derrotar Benedita. E ainda alertou: “Eles vão fazer de tudo para derrotar Benedita, mas a historia, dessa vez, será outra”.

Artistas como Tereza Cristina, Paulo Beti, Deo Garcês, Camila Pitanga, Antônio Pitanga dentre outros, declararam apoio à pré-candidata, que se prepara para entrar em campanha.
Aliás, no dia 18 de maio, Benedita concedeu entrevista ao jornal O Dia, conduzida pelos jornalistas Sidney Rezende e Aloy Jupiara, em que ela adianta algumas ideias sobre seu programa de governo em construção.
A seguir, um resumo com os principais pontos:
IPTU – A forma utilizada pelo atual prefeito Marcelo Crivela na cobrança deste imposto é extremamente injusta. Tem que haver uma cobrança diferenciada. Quem mora na Zona Oeste não pode pagar da mesma forma que um morador de outras localidades. A equipe que estuda o programa de governo está debruçada sobre este assunto e vamos propor alterações equilibradas e justas.
Violência – Não temos harmonia entre os poderes. A juventude do Rio de Janeiro está sendo assassinada. O abandono é total. Os jovens negros estão sendo perseguidos. A segurança social é o mais importante. Qual é o papel da Guarda Municipal? Bater em ambulantes? O policial também é gente, tem família. A polícia tem que ter inteligência para cuidar da segurança com inclusão social. O Estado tem que atuar nas comunidades com integração.
Cultura – Nos governos Lula e Dilma a cultura era 6% do PIB. Cultura dá emprego. É identidade de um povo e será o grande braço da inclusão no meu governo. Cultura dá prazer e alegria. Durante a pandemia, quem estava na sua casa? A cultura, livros, literatura, teatro, cinema etc. O Carnaval faz parte do calendário cultural do país. Nas periferias, a primeira academia é a do samba. O governo tem que ver que o carnaval dá retorno. Eu sou evangélica, mas não quero tirar a liberdade dos outros. A cidade é plural, pluriétnica, tem liberdade religiosa.
Negritude – Eu sou do tempo que fazia o cabelo com ferro quente. Com o tempo assumi o cabelo crespo. Essa identidade tem que ser preservada, naturalizada e usada por todos.
Emprego – O Rio tem as zonas Norte, Sul e Oeste. Para essa população temos que ter um Plano de Ação Emergencial que inclua o Carnaval, a Cultura e o Turismo.
Educação – Primeiro, temos que melhorar o salário dos professores. Estou pré-candidata há poucos dias, preparando um plano de governo. Mas sei que é preciso preservar a liberdade dos professores em sala de aula e manter a alimentação das crianças. Isso é básico.
Finanças – Primeiro, precisamos conhecer o orçamento de 2021, que ainda não temos. Sei que a cidade tem uma dívida de R$ 4 bilhões, que não foi liquidada porque a previsão de arrecadação não se cumpriu. Na saúde, ele [Crivela] demitiu muita gente durante a pandemia, o que é um absurdo. O prefeito não concluiu as obras iniciadas, como a da Avenida Brasil. Nosso plano vai ter que contemplar ações de curto, médio e longo prazos, que estão sendo priorizadas.
Transporte – Embora não esteja pronto o meu projeto para esta área, o modelo de transporte de Maricá (RJ), que é uma cidade pequena, onde a tarifa é zero, tem que ser estudado. Devemos considerar todas as experiências e modelos existentes nas devidas proporções, claro.
Imagem do PT – O PT responde a qualquer pergunta. Mas, quem são aquelas pessoas que derrubaram a Dilma? Onde estão e o que estão fazendo? Bolsonaro montou o gabinete do ódio e todos os condenados estão no governo dele. O tempo é o senhor da verdade. Lula foi preso por um processo injusto. Vamos reverter essa injustiça.
Criado em 2020-07-04 02:38:25
Romário Schettino –
Desde que a guerra civil levou ao poder o generalíssimo Franco, caudilho com a graça de Deus, a Espanha não teve mais sossego. O fantasma do franquismo, que durou longos 40 anos, assusta até hoje e ameaça voltar. O país vem sendo sacudido pelos independentistas catalães que, nos últimos dias, botaram fogo em Barcelona, inconformados com as duras penas aplicadas aos líderes do movimento.
O atual confronto atropela as eleições convocadas para novembro, diante da impossibilidade do socialista Pedro Sánchez de formar maioria para governar sem o apoio dos esquerdistas Unidos Podemos, de Pablo Iglesias.
Embora não sejam as únicas, duas questões básicas afastaram o Podemos do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), de Pedro Sánchez. A questão da Catalunha e a política de austeridade econômica exigida pela União Europeia. Dois pontos que praticamente inviabilizaram o acordo de governabilidade à esquerda.
O Podemos defende que os catalães decidam o seu futuro por conta própria. O PSOE quer diálogo, mas dentro da legalidade, respeito à Constituição e o fortalecimento do Estatuto da Autonomia. O problema é que a Constituição espanhola não permite um plebiscito como o que foi feito na Catalunha. Tanto é assim que os responsáveis pela consulta popular foram presos e condenados a até 13 anos de cadeia. O presidente da Catalunha eleito e foragido, Carles Puigdemont, vive na Bélgica, país que não tem acordo de extradição com a Espanha.
Outro problema adicional é o racha da esquerda. Iñigo Erejón deixa o Podemos e tenta criar um novo partido, o Más País. Embora não tenha conseguido grandes avanços na Catalunha, pretende disputar nacionalmente. Enquanto isso, o ultradireitista Partido Vox, de Santiago Abascal, vem crescendo entre os catalães desde os conflitos de rua.
A direita, comandada pelo Partido Popular (PP), de Pablo Casado, sucessor de Mariano Rajoy, também não tem maioria, mas pode reunir seus dissidentes aninhados no Ciudadanos e no Vox. Esses dois pequenos partidos não aceitam a independência da Catalunha e são radicais na defesa de políticas econômicas neoliberais.
Os espanhóis estão entre a cruz e a espada. O que vai ser da Catalunha é mais ou menos previsível, a independência não virá. Mas o que vai acontecer com a Espanha faz parte do dilema. Ou a esquerda se une aos socialistas, ou a direita retorna ao poder com mais força. Nessa volta, abrem-se os armários onde dormem as viúvas de Franco e o estrago pode ser ainda maior.
Coincidência ou não, o Tribunal Superior espanhol decidiu que os restos mortais de Francisco Franco, retirados do Vale de los Caídos, devem ser enterrados no Cemitério Mingorrubio, em El Pardo, arredores de Madri. Lá está construído o panteão da família do ditador, que abriga, desde 1988, a mulher de Franco, Carmen Polo Martínez-Valdés.
Em conversa com observadores em Barcelona e Madri, é possível concluir que consolidado o fracasso dos socialistas, a direita volta com tudo, incluindo aí ampliação de espaço para os militantes da extrema-direita do Partido Vox, também conhecidos como os “fachas”.
Segundo essas fontes, a Espanha precisa de um novo José Luiz Rodriguez Zapatero (PSOE), que governou o país de 2004 a 2011 e conduziu com sucesso as negociações com o País Basco a ponto de abrir caminho para a extinção do grupo separatista militarizado ETA em 2018. O separatismo basco está adormecido, mas a extrema-direita espanhola não gosta desse conforto.
Nesse emaranhado de poderes, nacionalismos, riquezas, a burguesia catalã se considera prejudicada com a extinção, pelo Tribunal Superior, de 14 artigos do Estatuto da Autonomia e acha que os 16 bilhões de euros anuais que a Catalunha envia de impostos a Madri não retornam na mesma proporção. Os números são contestados, mas o fato é que essa é a região mais rica da Espanha.
No entanto, uma eventual separação pode trazer mais prejuízos que vantagens aos catalães no mundo globalizado de hoje. Muitos bancos e muitas indústrias já não são apenas locais, estão lá por alguma conveniência empresarial. Por isso, os analistas acham que essa pressão do povo na rua, principalmente dos jovens estudantes, ajuda a obrigar o governo central a ceder e melhorar o Estatuto. “Há muita manipulação”, dizem essas mesmas fontes.
Até recentemente o partido catalão Convergência e União (CiU), comandado por Jordi Pujol, compunha com o Partido Popular. Essa “revolta” atual causa certa desconfiança em setores catalães que são contra os independentistas. Ou seja, o crescimento do Vox na Catalunha explica um pouco essa contradição, a burguesia diz que é independentista, mas apoia a extrema-direita que é contra.
O certo é que, no momento, a conveniente união do CiU com a esquerda radical e a juventude estudantil está impedindo qualquer saída negociada com o governo de Sánchez.
Outro problema derivado da atual crise são as chamadas sentadas nas praças, nos centros turísticos e no aeroporto. O turismo, que é uma das principais fontes de renda da região e da Espanha, é o mais prejudicado.
Assim vão os espanhóis às urnas mais uma vez. Enquanto isso, as ruas pegam fogo, literalmente.
Criado em 2019-10-22 00:18:22
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Pessoal, vi ontem à noite, finalmente, o documentário O Dilema das Redes, de Jeff Orlowski, na Netflix. Uma porrada, que assombrou até mesmo o George Martin, criador do Game of Thrones. “… Me assustou mais do que qualquer filme de terror que vi nos últimos 20 anos”, disse o Martin.
Não é pra menos. Composto com entrevistas de alguns dos criadores das maravilhas tecnológicas e ex-executivos das grandes redes sociais, o documentário demonstra que, para as redes, nós somos apenas usuários. Os cartéis da droga é a outra indústria que nos trata só como usuários.
Se quase tudo nas redes parece gratuito, você está enganado. Alguém paga. Os anunciantes pagam para que você viva pendurado o dia todo no Facebook, no Twitter, no Whatsapp. Você é a caça, o produto do negócio. Cada clique que você dá ou cada “escolha” que você faz, induzido pelos algoritmos das redes, de um texto ou de um vídeo é contabilizado a favor dos anunciantes.
O funcionamento das redes é baseado nos famosos algoritmos, sequências de instruções que rodam os programas de computador. Os algoritmos vão se tornando cada vez mais sofisticados e mais “inteligentes”, com base nos dados que as redes recolhem a toda hora sobre você: hábitos, gostos, desejos, preferências, orientações, relações de parentes e amigos etc etc, o escambau. Acredite, as redes conhecem você mais do que a sua cara-metade e, até parece mentira, mais do que você mesmo! É por isso que elas manipulam você a toda hora. Você virou um zumbi digital!
Polarização - Para as redes a verdade não existe, é relativa. Se você se informa pelo Facebook, as notícias sobre o aquecimento global que você recebe dependem do local onde você está. Se mora num bairro em que a população é mais de direita, você receberá notícias que questionam a realidade do aquecimento global. Se a sua quadra tem mais gente de esquerda, provavelmente receberá notícias com a Greta Thunberg. Como você tende a repassar as informações recebidas, gerando mais e mais cliques, os anunciantes lucram cada vez mais com isso. E é exatamente por essa razão que as redes induzem a polarização ideológica e política da sociedade. Elas dividem a sociedade em duas metades para reinar melhor.
Na verdade, a coisa é um pouco mais complexa. As redes trabalham para criar, agora de maneira acelerada, exponencial, o que o sistema capitalista já fazia desde sempre: a criação de novos desejos como se fossem novas necessidades. As redes manipulam os seus desejos, transformando você no produto a ser vendido aos anunciantes. A ridícula ideia do livre arbítrio é, na era da redes, ainda mais ridícula!
A polarização induzida pelas redes sociais, caça-níqueis de âmbito global, conformou o que uma das entrevistadas para o documentário, a professora Shoshana Zuboff, da Harvard Business School, chama de “capitalismo de vigilância”. Zuboff definiu as três leis que amarram o sistema: “1) Tudo o que pode ser automatizado será automatizado. 2) Tudo o que possa ser informatizado será informatizado. 3) Todos os aplicativos digitais que podem ser usados para vigilância e controle serão usados para vigilância e controle. Nesse sistema, o indivíduo está sendo reduzido a um mero fornecedor de dados para os grandes conglomerados digitais. Estamos nos tornando zumbis digitais, obedientes às ordens configuradas pelos algoritmos.
É fácil perceber as consequências dessa polarização no funcionamento dos sistemas democráticos e até mesmo nas unidades nacionais. A noção de comunidade foi para o espaço e o resultado previsível só pode ser a guerra civil.
Maravilhas caras - O “dilema” do título do documentário tem a ver com o fato de que a era da Internet revolucionou as comunicações, propiciando ganhos antes inimagináveis. Você pode falar com qualquer pessoa do outro lado do planeta (se acreditar que a Terra é redonda, é claro). Se estiver com fome e sem saco para cozinhar, você recebe o prato de sua escolha em menos de uma hora, bastando fazer o pedido pelo iFood, por exemplo. Você tem acesso a milhões de livros, filmes e músicas online. Sendo da época da Barsa ou da Mirador, agora você faz consultas instantâneas sobre qualquer assunto. Você pode visitar as galerias de museus dos grandes centros. Pode ler os jornais de qualquer capital do mundo, mesmo sem saber o idioma local, bastando acionar um programa de tradução. E por aí vai. Mas, porém, contudo, todavia, todas essas maravilhas têm um preço – você vai se tornando um zumbi digital!
Escrevo essas observações a sangue frio, sem muita sistematização. Se arranjar tempo, talvez eu escreva uma resenha mais elaborada do documentário, acentuando os dilemas éticos que agora assolam alguns dos criadores das redes sociais, transformadas em monstros sem controle dos governos ou controladas pelos governos para dominar as suas populações.
Por enquanto, além de sugerir que vocês leiam o livro de um dos entrevistados, Jaron Lanier (Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais, Intrínseca, 2018), listo algumas dicas para que você tente escapar (mais ou menos) das garras das redes sociais, supondo que você não vai mesmo descartar por enquanto o Whatsapp, o Youtube ou o Facebook:
1) Admita que você está viciado nas redes! Tente ir se livrando do vício, ouvindo mais música, lendo mais livros, pintando o sete a mais!
2) Substitua o Google pelo Qwant, um navegador mais seguro em termos de privacidade. E descarte os aplicativos que você quase nunca usa. Depois, vá também se livrando dos outros, gradativamente.
3) Desligue as notificações de seus aplicativos, evitando ser acionado por eles. Retome o comando, pô! Vantagem: você vai recuperar um pouco da velocidade perdida do seu celular ou tablet.
4) Evite informar a sua localização nos aplicativos! Essa informação vale ouro para as redes!
5) Jamais marque as fotos de seus amigos nas redes. Procure dificultar o cruzamento de seus dados com os de seus conhecidos.
6) Fure a sua bolha! Passe a seguir pessoas de quem você discorda politicamente! Por óbvio, isso vai dar um nó nos algoritmos, demonstrando que você tem uma concepção mais universal sobre o significado de comunidade.
7) Não clique nos conteúdos recomendados pelas redes, como os vídeos do YouTube. Comande você mesmo as suas preferências! Aliás, lá vai a dica de um velho jornalista: evite as “notícias” fornecidas por blogues. Tirando as honrosas exceções de praxe, esses blogues, de direita e de esquerda, geralmente são especializados na produção de comentários histéricos sobre informações que eles catam nas publicações da grande imprensa. Ora, supondo que você não é idiota, por que não filtrar você mesmo (leitura crítica, lembra?) as notícias da grande imprensa, que, pelo menos, são apuradas por jornalistas profissionais?!
8) Procure usar as guias privadas do seu navegador. E, definitivamente, apague os seus dados pessoais das redes.
9) Proteja os seus filhos, netos e sobrinhos. Convide-os para assistir em família ao documentário O Dilema das Redes. Se você é da época em que havia controle sobre o acesso a certos programas de televisão, faça isso agora com as redes sociais. Está provado que um maior controle no acesso evita depressão e suicídios!
10) Por via das dúvidas, comece a se preparar para uma guerra civil! Na toada de hoje, é muito provável que os conflitos políticos vão se acirrar nos Estados Unidos e, por extensão, também no quintal do Brasil. Não sejamos ingênuos: a campanha do Bolsonaro para armar a população tem alvos óbvios: nós! Se vis pacem, para bellum!
Criado em 2020-09-20 22:17:41
Vivaldo Barbosa (*) –
Importante e boa discussão tem se travado em torno de formação de frente para combater e resistir ao autoritarismo que nos espreita e ao fascismo que nos ameaça. Esse debate é enriquecido pelas boas pessoas que se inserem, de longas lutas.
A luta política se faz, e para reforçar seu êxito se formam frentes, para conter males que assolam nossa história: não reconhecimento e retirada de direitos de nossa gente, entrega do patrimônio nacional, nossas riquezas, desmantelamento do Estado nacional capaz de garantir o mínimo de justiça e o exercício da soberania e para avançar na conquista de direitos e assegurar soberania. Tudo simbolizado no colonialismo e na escravidão, antigos ou modernos.
As frentes se fazem para fortalecer a luta política, reitere-se, no sentido de barrar os males e avançar. Não para manietá-la, diminuí-la, amesquinhá-la.
Os males que se abatem sobre o Brasil hoje são enormes: retirada de direitos do nosso povo: reforma trabalhista, previdência social, cortes nas políticas sociais, retrocessos na saúde e educação, desemprego, concentração da renda, diminuição dos ganhos; política entreguista deslavada de desmonte do Estado com privatizações e outras concessões em favor dos grupos econômicos daqui e de fora, em especial do sistema financeiro. Junte-se a atuação desastrada e irresponsável do Governo na pandemia do coronavírus.
É preciso barrar isto, no mínimo resistir. Formar e ampliar frentes para esta luta é fundamental.
Um destaque deste debate é a necessidade de se tirar o Bolsonaro. Para tanto, se faria o seu impeachment.
Bolsonaro já revelou a sua incompetência, despreparo, inabilidade e irresponsabilidade para o exercício da Presidência da República, fartamente. Todas essas são categorias do debate político que dão razões para críticas e o exercício da oposição. São tantas que chegam a provocar até raiva, a ira sagrada.
Para o impeachment, a retirada da sua investidura popular, anulação e cassação dos votos que o elegeram, a Constituição exige a prática de crime de responsabilidade.
Questão delicada, que exige muita firmeza, convicção e consciência política e cívica. Pois o voto popular, a capacidade do povo eleger o seu governante, é a arma mais poderosa nas mãos do nosso povo, o mais elevado dos seus direitos. Tudo o que não fizeram no caso da Dilma – um golpe deslavado com cobertura do TCU, Congresso, STF. Pode-se dizer até mesmo no caso do Collor, para o que chamava atenção na época Leonel Brizola, que pagou grave preço político.
Desdobramento natural do impeachment é a entrega da Presidência ao general Mourão. Desde a campanha e em diversos pronunciamentos ele tem revelado total integração com a política econômica do governo e retirada de direitos, revelou postura depreciativa do povo brasileiro e é parte deste ambiente banhado de autoritarismo que une este conjunto de generais e outras patentes em torno do governo, essa coisa estranha de militares neoliberais entreguistas “a la Pinochet”.
Por outro lado, a passagem do poder para Mourão com o impeachment poderá melhorar a articulação política das forças responsáveis direta ou indiretamente pela eleição do Bolsonaro, muitas arrependidas, todas desgastadas pela participação na sua eleição. Poderão se fortalecer para a eleição de 2022, pois procurarão se livrar do desgaste brutal do Bolsonaro, que enfraquece o conservadorismo na eleição.
O impeachment, como ação política, não pode ser apenas ato punitivo, há de se inserir em uma estratégia de luta política, há de procurar ver aonde vai se chegar. Chegarmos ao FHC, com o impeachment do Collor, foi desastrado.
Uns alentam que a solução, então, estaria no TSE, que poderia cassar a chapa vitoriosa, levando juntos Bolsonaro e Mourão. Duas questões surgem: este TSE, composto por ministros do STF e STJ que deram cobertura à prisão de Lula e à cassação de Dilma, mais advogados nomeados por Temer, terão envergadura e respeitabilidade para sustentar uma decisão destas? Haverá fraude eleitoral comprovada capaz de anular a vontade popular revelada nas eleições? O que mais as forças populares precisam, a democracia requer e a possibilidade de mudar o Brasil exige é o respeito ao voto, à vontade popular revelada nas eleições, ao exercício da soberania, à prática da República.
O Brasil vive a triste situação da pandemia do coronavírus, que deverá se arrastar por mais alguns meses ainda. Teremos eleições municipais, que sempre mobilizam o sentimento político do nosso povo. O desgaste de Bolsonaro e seu governo aumentará. Além disso, para enfraquecê-lo ainda mais, tudo caminha para o Trump perder as eleições nos Estados Unidos em novembro, piorando o cenário internacional para o já isolado Bolsonaro. Por tudo isso, o debate da campanha eleitoral de 2022 será antecipado, certamente para o ano que vem.
O autoritarismo de Bolsonaro e de seu governo não conseguiu avançar. Incompetência na articulação política não lhe deu maioria sólida no Congresso, mesmo esse Congresso que aí está, para apoio nas questões autoritárias, embora respalde as políticas liberais e entreguistas de Guedes. E o Judiciário resiste em algumas questões, está procurando punir e desmantelar essas milícias de apoio ilegal e espúrio a Bolsonaro.
Devemos voltar nosso esforço, agora, para duas ações: recompor nosso pensamento e debater nossas ideias com o nosso povo para que fique nítido que o nosso é o projeto político do povo brasileiro. Nós perdemos o debate junto a grandes camadas da nossa gente por questões tão caras para nós, como família (nós que criamos o salário mínimo para garantia da família; a educação integral para amparar as crianças e suas famílias; construção de habitação para abrigar a família e um lar digno, de respeito); segurança (nós que proclamamos sempre o respeito à dignidade da pessoa humana, do seu lar, mesmo em casebres e em barracos) e a questão da corrupção, nós que fizemos a Constituição com instrumentos ao combate à corrupção e ao abuso de poder, nós que sempre cultuamos as figuras mais dignas da nossa história, como Getúlio, Jango, Brizola, Arraes, e agora Lula e Dilma, dentre tantas outras.
E refazer a grande mobilização política do povo brasileiro para resistência e defesa dos seus direitos e carrear esforços para levar nossa mensagem em torno das nossas bandeiras de desenvolver o Brasil, dar acesso à nossa gente às nossas riquezas, fazer da renda nacional a renda do nosso povo, recuperar e ampliar os direitos dos brasileiros e das brasileiras. Precisamos ir ao encontro da nossa gente e recuperar a maioria que sempre esteve ao nosso lado com Getúlio, Juscelino, Jango e nas duas eleições de Lula e Dilma. Sempre derrotamos o conservadorismo, a não ser na situação de golpe.
É preciso que fique bem claro que a nossa luta e nossa frente de luta é com o povo brasileiro e não com braços das elites.
________________
(*) Vivaldo Barbosa é advogado, ex-deputado federal Pelo PDT-RJ e participou da Assembleia Constituinte de 1988.
Criado em 2020-07-22 03:45:31
Hoje, 8/7, às 12h, no YouTube da Editora UnB, vai ao ar a 3ª edição da Conversa ao Meio-Dia. Este debate se inspira na obra Descolonizando sexualidades: enquadramentos coloniais e homossexualidade indígena no Brasil e nos Estados Unidos, de Estevão Fernandes, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Rondônia.
O professor Estevão, nesta Conversa, terá como parceiras Braulina Baniwa, mestranda em Antropologia Social na UnB, e Niotxarú Pataxó, comunicador indígena.
As sexualidades têm sido um assunto amplamente discutido nas últimas décadas, principalmente com a ascensão dos movimentos LGBTQIAP+.
Aos interessados, o livro do professor Estevão Fernandes está disponível em acesso aberto pelo Portal de Livros Digitais da UnB: www.livros.unb.br
Criado em 2021-07-08 13:13:21
Diante da absurda, irresponsável e criminosa gestão da saúde pública no Distrito Federal durante a pandemia do coronavírus, a sociedade brasiliense iniciou a coleta de assinaturas em um manifesto para denunciar os riscos a que está sendo submetida a população da capital do país.
O manifesto afirma que “o governador Ibaneis Rocha (MDB) demonstra falta de sensibilidade e de empatia ao dizer que ´não adianta querer colocar nas minhas costas o sofrimento dos outros´ e que nada pode fazer diante do aumento de casos”.
Essa é apenas uma maneira de Ibaneis tentar se livrar da responsabilidade. O documento conclui afirmando que tanto o governador Ibaneis Rocha quanto o presidente Jair Bolsonaro, “unidos na ignorância, na irresponsabilidade e no desprezo pela saúde e pelas vidas, são os maiores responsáveis pela tragédia que assola o Distrito Federal e o Brasil. A saúde e as vidas dos brasilienses não podem estar sujeitas a atitudes que desprezam a ciência e servem a interesses políticos e econômicos”.
Os interessados podem assinar o documento por meio deste link.
A seguir, a íntegra do Manifesto em Defesa da Vida no DF e no Brasil:
“Nós, brasilienses, manifestamos nossa indignação e revolta diante do comportamento que o governador Ibaneis Rocha e o governo do Distrito Federal vêm tendo diante da pandemia que assola nosso país e nossa cidade. É injustificável o elevado número de contaminados e mortos no Brasil e no Distrito Federal, pois sabemos que as medidas adequadas, no campo sanitário e da economia, poderiam ter reduzido substancialmente, como em outros países, as vítimas do covid-19.
Sabemos que a maior responsabilidade pela tragédia que estamos vivendo é, indiscutivelmente, do presidente da República. Desde o início da pandemia, com sua postura negacionista e anticientífica, ele tem minimizado os efeitos do covid-19 — tratado como “gripezinha” —, incentivado aglomerações e criticado e sabotado medidas essenciais para reduzir a contaminação, como o distanciamento social e o uso de máscara.
Além disso, não assegurou os meios e recursos financeiros necessários para a prevenção e para o tratamento das pessoas vitimadas pelo covid-19 e para que os mais vulneráveis economicamente pudessem se resguardar do contágio. A falta de gestão e governança no combate à pandemia levou o país à lamentável situação que vivemos.
Aqui em Brasília, o governador Ibaneis Rocha tomou incialmente as medidas necessárias para impedir a rápida disseminação do vírus, e os primeiros resultados foram positivos. Mas, ainda em fins de março, iniciou uma injustificável e irresponsável “flexibilização” do isolamento social e aderiu à tese genocida, difundida por Jair Bolsonaro, de que não importam as vidas perdidas e as sequelas adquiridas na contaminação se há leitos para receber os doentes e as atividades econômicas são retomadas.
O governador agora anuncia que vai reabrir todas as atividades, sem restrições, e, repetindo o presidente, disse que em Brasília o covid-19 vai ser tratado como uma gripe. Ao mesmo tempo, decreta estado de calamidade pública no Distrito Federal, para obter recursos federais, comprar sem licitação e se eximir da responsabilidade fiscal.
Seguindo a cartilha bolsonarista e na contramão das recomendações de especialistas e do que vem sendo feito em outros países, o governador, no momento em que a curva de casos cresce exponencialmente, reabriu prematuramente e continua reabrindo atividades econômicas e sociais não essenciais, com protocolos mal elaborados e que não são cumpridos e fiscalizados convenientemente, especialmente nas regiões mais afastados do centro. O resultado é o aumento assustador de contaminados e mortos no Distrito Federal, especialmente nas comunidades mais carentes e na população mais pobre.
Conforme provado por documentos oficiais da Secretaria de Saúde, o governo mente descaradamente ao aumentar o número de UTIs disponíveis para pacientes de covid-19, enganando a população para ter um falso pretexto para a reabertura. O número de leitos anunciado é muitas vezes maior do que os que realmente estão em condições de receber doentes.
Ao lado dessa irresponsabilidade, profissionais de saúde e suas entidades representativas têm denunciado diariamente a ausência de condições adequadas de trabalho nas unidades da rede pública, onde faltam equipamentos de proteção, medicamentos e outros insumos essenciais para o combate à pandemia. O governo, em sua prepotência, simplesmente nega.
Há também fundadas dúvidas quanto à veracidade de informações prestadas pelo governo e à correção dos gastos com compras emergenciais e instalação de hospitais de campanha, inclusive contestações em relação à eficácia duvidosa dos testes sorológicos contratados sem licitação e aplicados indiscriminadamente.
Em nenhum momento, apesar da disponibilidade de verba, o governo do Distrito Federal realizou campanhas educativas e ações de comunicação eficientes e criativas para informar a população sobre os riscos da pandemia e as medidas necessárias para enfrentá-la, assim como para mobilizar os cidadãos para o combate ao covid-19. O governo limitou-se à propaganda formal e à habitual exaltação de obras, em claro desprezo às suas responsabilidades perante a população.
O governador Ibaneis Rocha, infelizmente, submeteu-se a pressões de empresários insensíveis, políticos irresponsáveis e do presidente da República adepto da necropolítica para acelerar a retomada prematura de atividades econômicas e minimizar a pandemia. Reage com arrogância às críticas e às corretas ações dos Ministérios Públicos do DF, de Contas e do Trabalho. Quem paga por isso são os brasilienses, a cada dia mais sujeitos à contaminação pelo vírus enquanto a rede pública de saúde está próxima do colapso.
Embora não seja possível voltar atrás e impedir as contaminações e as mortes que lamentavelmente já aconteceram, ainda haveria tempo para o governo do DF corrigir os rumos equivocados e conter a expansão de casos e o aumento do número de mortos. As últimas declarações autoritárias e ações irresponsáveis do governador, porém, indicam que ele persistirá na política genocida e criminosa.
O governador Ibaneis Rocha demonstra ainda sua falta de sensibilidade e de empatia ao dizer que “não adianta querer colocar nas minhas costas o sofrimento dos outros” e que nada pode fazer diante do aumento de casos.
Pois afirmamos que o governador Ibaneis Rocha e o presidente Jair Bolsonaro, unidos na ignorância, na irresponsabilidade e no desprezo pela saúde e pelas vidas, são os maiores responsáveis pela tragédia que assola o Distrito Federal e o Brasil. A saúde e as vidas dos brasilienses não podem estar sujeitas a atitudes que desprezam a ciência e servem a interesses políticos e econômicos”.
Brasília, 30 de junho de 2020.
Já assinaram este manifesto as seguintes pessoas, por ordem alfabética. Assine você também. Acesse este link
Acilino Ribeiro, secretário nacional do PSB
Ádila Lopes, porta-voz do DF da Rede Sustentabilidade
Adovaldo Dias de Medeiros Filho, advogado
Adroaldo Quintela, economista, coordenador nacional de organização da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia
Afrânio de Sousa Barros, professor
Alberto Maia Araújo, professor e membro das Brigadas Populares
Alexandre Varela, pedagogo
Alfredo Alencastro, jornalista, membro da executiva da UP-DF
Alisson Lopes, advogado e professor
Amanda Leite Amarante, advogada
Ana Maria Costa, médica e professora universitária
Ana Valéria Machado Mendonça, professora da Faculdade de Ciências da Saúde da UnB
Anderson Carlos, estudante
Andrecinda Pinho, presidente do Conselho Regional de Saúde de Ceilândia
Andreza Silva Xavier, secretária de Mulheres do PT-DF
Angélica Peixoto, jornalista
Ângelo Donga, porta-voz do DF da Rede Sustentabilidade
Antonia Marcia Vale, jornalista
Antonieta Alves, professora
Antônio Alberto Nepomuceno, professor da UnB
Antonio Carlos de Andrade (Toninho do PSOL), psicólogo
Antônio Carlos de Queiroz, jornalista
Antonio Luiz Campos Ramalho, médico, ex-secretário de Saúde do DF
Antonio Sebben, professor da UnB
Arlete Avelar Sampaio, deputada distrital e líder da bancada (PT)
Artur Antônio dos Santos Araújo – Nosso Coletivo Negro
Artur Mamed Cândido, psicólogo e doutorando
Beatriz MacDowel, médica, ex-presidente da Fundação Hemocentro do DF
Beatriz Vargas Ramos, professora da Faculdade de Direito da UnB.
Berenice Bento, professora do Departamento de Sociologia da UnB
Beto Almeida, jornalista
Caio Henrique Machado, Afronte
Carlos Augusto Setti, jornalista, sociólogo e ex-professor da UnB
Carlos Cezar Soares Batista, servidor público federal aposentado
Carlos Inácio Prates, advogado e psicólogo
Célia Maria Almeida Otaviano, secretária LGBT do PT-DF
Celina Maria Araújo Maranhão, assistente social
Célia Porto, cantora
Cesanne Shirrah de Souza Lima, secretária-geral adjunta da Comissão de Saúde – OAB-DF
Chico Sant’Anna, jornalista
Chico Vigilante, deputado distrital (PT)
Clarice Cardel, atriz e produtora
Cláudia Almeida Bandeira de Mello, servidora pública
Cláudio Antônio de Almeida, economista e advogado
Cláudio Maierovich P. Henriques, médico, ex-presidente da Anvisa
Clayton Avelar, presidente do Sindicato dos Servidores da Assistência Social e Cultural do DF
Cleide Martins Silva, servidora pública aposentada
Cristiane Pereira dos Santos, secretária de Movimentos Populares do PT-DF
Cristovam Buarque, professor da UnB, ex-governador e ex-senador
Dea Barbosa, jornalista e produtora cultural
Débora Aquino, Coletivo Grande Circular
Deise Benedito, ex-perita do Mecanismo Nacional de Combate à Tortura
Dorgil Marinho da Silva Brandão, jornalista
Edivaldo Santos Junior, cultura, Guará
Eduardo Brandão, presidente do Partido Verde – DF
Eduardo Rodrigues da Silva, economista e servidor público federal
Eduardo Wendhausen Ramos, professor e jornalista
Elisabeth Uema, secretária-executiva da Ascema Nacional
Emerson da Rocha Barros, analista de sistemas
Emília Silberstein, professora e fotógrafa
Erika Kokai, deputada federal (PT)
Evelin Maciel Brisolla, jornalista e vice-presidente da Associação de Famílias de Transgêneros
Everardo Aguiar, educador social e escritor
Fabiana Matos, advogada
Fábio Félix, deputado distrital e presidente do PSOL-DF
Felipe Martins Viegas, músico
Fernanda Machado, Coletivo Cultural Sambadeiras de Bimba Filhas de Biloca
Fernando Mousinho, servidor público
Francisco Carneiro De Filippo, servidor público federal
Francisco Ferreira, professor, tesoureiro do PSOL – DF
Frederico Flósculo, professor universitário
Gabriel Magno, dirigente regional do PT-DF
Gabrielly Aparecida, estudante
George Gregory Barcelos Pinto, vogal PT-DF
Geovanny Silva, secretário-geral do PT-DF
Geraldo Magela Pereira, vice-presidente do PT-DF
Gerson Teixeira, agrônomo
Geusa Joseph, ceramista
Gilda Cabral, produtora rural
Gilson Ferreira Limeira, ator e professor de Teatro
Giovani Zamprogno Gozzi, presidente da Comissão de Direitos Humanos da subseção da OAB em Águas Claras
Guidborgongne Carneiro Nunes da Silva, professor
Guilherme de Azevedo França, professor
Guilherme Amorim, professor de História e membro da executiva da Unidade Popular
Guilherme Severiano de Rezende Viegas, analista de finanças
Gustavo Galvão, economista
Gustavo Tapioca, jornalista
Gutemberg Nunes, secretário-geral do PRC-DF
Heitor Farias Siqueira Leitão, professor e técnico da Secretaria de Educação
Heleno Rodrigues Corrêa Filho, epidemiologista e pesquisador associado, UnB
Hellen Frida, secretária de Políticas Públicas do PT-DF
Hélio Doyle, jornalista e professor da UnB, diretor da ABI no DF
Hermes Matias de Paula, engenheiro
Hildebrando Tadeu Nascimento Valadares, servidor federal aposentado
Hortência Doyle, professora de Música
Ionaldo Fernandes de Oliveira, odontólogo
Isnaldo Piedade de Faria, médico
Israel Matos Batista, cientista político e deputado federal (PV)
Ivonette Santiago de Almeida, professora da UnB e médica
Izabella Machado Nallin, estudante de Biologia
Jacques Pena, secretário de Comunicação do PT-DF
Jacy Afonso de Melo, presidente do PT-DF
James Lewis – Vice presidente do PSB/DF
Jeovania Rodrigues, presidente do Sindicato dos Odontologistas do DF
Jéssica Lury, operadora de estúdio
João Armando Alves, sanitarista
João Francisco Maria, cientista político
João Luiz Homem de Carvalho, professor da UnB
João Negrão, jornalista e ativista social
João Vicente Goulart, presidente do Instituto João Goulart
José Antonio Reguffe, senador
José Augusto Abreu Sá Fortes, professor da UnB
José Augusto Valente, engenheiro
José Luís, secretário de Finanças do PT-DF
José Luiz Lauria Jansen e Mello, advogado, presidente do GRES Acadêmicos da Asa Norte
Jorge Felipe Magalhães, presidente da Asserte
Jorge Henrique de Sousa e Silva, secretário-geral do Sindienfermeiros – DF
José Camargo da Costa, Professor da UnB
José Carlos G. Da Silva, aposentado
José Celso Cardoso Jr, economista, servidor público e presidente da Afpea-Sindical
José Geraldo de Sousa Júnior, professor da Faculdade de Direito da UnB
Joyce Garófalo e Santos, Secretaria Executiva PSOL
Juliana Cézar Nunes, jornalista e coordenadora-geral do SJPDF
Juan Ricthelly Vieira da Silva, advogado
Julimar dos Santos, gerente de Cultura
Karine Afonseca, Resistência Feminista
Keka Bagno, Movimento Negro Unificado e da direção nacional do PSOL
Kuka Escosteguy, atriz
Leandro Fortes, jornalista
Leandro Freitas Couto, analista de planejamento e orçamento
Leandro Grass, deputado distrital (Rede Sustentabilidade)
Leda Gonçalves de Freitas, secretária de Formação do PT-DF
Leiliane Rebouças, Vila Planalto
Lincoln Macário, jornalista e presidente da ABCPública
Lucas de Lima Guimarães, vogal PT-DF
Lucas Veras, médico, ex-diretor do HMIB
Luís Domingos, servidor público
Luiz Cláudio Cunha, jornalista
Luiz Fenelon Pimentel Barbosa, gerente de Cultura do Guará
Manoel Cordeiro Lima, professor e escritor
Manoel Roberto Seabra Pereira, jornalista e servidor público
Marcelo Dourado, ex-presidente do Metrô-DF
Marcelo Neves, professor
Marcelo Ruperto Souza das Chagas, médico
Marcelo Zero, sociólogo
Márcio Buzzar, professor da UnB
Márcio Prado, advogado
Marco Antônio Baratto, direção nacional do MST do DF e Entorno
Maria Auxiliadora Cesar, professora da UnB
Maria das Graças Caetano dos Reis Faria, médica
Maria do Socorro Ribeiro Queirós, micro-empreendedora
Maria do Perpétuo Socorro Moura Vieira, enfermeira, Hospital Regional do Gama
Maria Eraildes, presidente do Conselho Regional de Saúde de São Sebastião
Maria Fátima de Sousa, professora da Faculdade de Ciências da Saúde, UnB
Maria Jandira C. Cunha, linguista
Maria Jesus Leite da Silva, enfermeira
Maria José Maninha, médica, ex-parlamentar e ex-secretária da Saúde do DF
Maria Lúcia de Moura Iwanow, professora
Maria Nazaré Brito, secretária de Mobilização do PT-DF
Maria Zezé, coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto
Marilena Chiarelli, jornalista
Marivaldo Pereira, advogado, auditor federal de finanças e controle da Secretaria do Tesouro
Marcilene Machado Nallin, representante Comercial
Marta Matias de Souza, servidora pública
Marta Mendes, artesã
Mateus Guimarães, gestor de projetos
Matheus Felipe, professor
Mauro Di Deus, produtor e diretor de cinema
Mauro Pereira, servidor público federal e jornalista
Max Maciel, produtor cultural, primeiro suplente de deputado distrital (PSOL)
Max Moura Wolosker, servidor público
Moacyr de Oliveira Filho, jornalista, secretário-geral da Fenasamba e ex-presidente da Aruc
Moisés José Marques, advogado
Muna Muhammad Odeh, bióloga
Murilo César Ramos, professor da UnB
Nair Heloisa Bicalho de Sousa, coordenadora do Núcleo de Estudos para a Paz e Direitos Humanos, UnB
Natássia Ferreira Navarro, médica
Nilson Rodrigues, produtor cultural
Nilton Nallin F. Junior, estudante de Direito
Niro Roni Nobre Barrios, administrador
Noemia Barbosa Boianovsky, jornalista e advogada
Paulo Andrade, artista plástico e gráfico
Paulo Cesar Marques da Silva, professor da UnB
Paulo José Cunha, jornalista e professor da UnB
Paulo Kliass, doutor em economia e especialista em políticas públicas e gestão governamental
Paulo Martins Vieira, aposentado, Associação dos Deficientes do Gama e Entorno
Paulo Rubens Martins Araujo Filho, engenheiro
Pedro Arcanjo, presidente da Ascapes
Pedro Botelho, psicólogo
Pedro César Batista, jornalista
Pedro Ivo Batista, porta-voz nacional da Rede Sustentabilidade
Pedro Martins, músico
Pedro Mendonça, coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto
Pedro Murrieta, professor da UnB
Raimundo Carvalho de Farias Neto, professor
Rafael Fernandes de Souza, professor, Conselho de Cultura do Cruzeiro
Rafael Gonçalves de Santana e Silva, psicólogo
Rafael Moreira da Silva de Oliveira – extensão Ubuntu Frente Negra de ciência política
Raphael Sebba, sociólogo e produtor cultural
Rayssa Tomaz, secretária de Juventude do Partido Verde – DF
Rebeca Bandeira de Souza Potengy, psicóloga clínica
Rejane Guimarães Pitanga, professora, ex-presidente da CUT-DF e ex-deputada distrital
Rênio Quintas, maestro, membro do Fórum de Cultura e Frente Unificada de Cultura do DF
Rhayana Araújo, jornalista
Ricardo Berzoini, vice-presidente do PT-DF
Ricardo Goncalves Pacheco, professor
Ricardo Vale, secretário de Organização do PT-DF
Rita Andrade, conselheira nacional de Cultura
Roberto Bocaccio Piscitelli, professor de Finanças Públicas da UnB
Roberto Muniz, presidente do SindGCTe da Ascon
Robson Saraiva, secretário sindical do PT-DF
Rodrigo Dias, presidente do PSB-DF
Rodrigo Pires de Campos, professor da UnB
Rodrigo Rollemberg, ex-governador e ex-senador
Rogério Barba – coletivo Barba na rua
Rogério da Veiga, especialista em políticas públicas e gestão governamental
Romário Schettino, jornalista
Rômulo Neves, professor
Ronaldo Neves Ferreira, professor e artista plástico
Rosaly Rulli Costa, médica
Rosa Moreira, jornalista e professora de Língua Portuguesa
Roseli Faria, presidente da Assecor
Roseli Silva, funcionária pública federal aposentada
Rosilene Corrêa Lima, professora, diretora do Sinpro-DF e vice-presidente do PT-DF
Rubens Bias, servidor público, conselheiro de Saúde do DF
Rudinei Marques, presidente do Fonocate e da Unacon Sindical
Salin Siddartha, professor aposentado
Samay Gomes, laboratório de estudos afrocentrados em relações internacionas da Universidade de Brasília (LACRI/UnB)
Sandra Lima Paulino, Marcha Mundial das Mulheres
Sandra Maria da Silva Cantanhede, direção nacional do MST do DF e Entorno
Sayid Marcos Tenório, historiador e escritor
Sergei Quintas, jornalista
Sérgio de Andrade Pinto, presidente da AsMinC
Sérgio Koide, professor da UnB
Stella Martia Barbosa de Araújo, funcionária pública aposentada
Sueli Brito Lira de Freitas, professora aposentada
Taciano Lemos de Carvalho, servidor público aposentado
Talita Victor, executiva do PSOL-DF
Tania Maria de Souza, diretora-geral da Assemma
Tetê Monteiro, executiva regional do PSOL-DF
Terezinha – presidente do Conselho Regional de Saúde de Santa Maria
Thaís Oliveira, presidente da Unidade Popular pelo Socialismo – DF
Thaynara Melo Rodrigues, presidente da Teia Solidária
Thessa Guimarães, presidenta do Conselho Regional de Psicologia – DF
Thiago Andrade, arquiteto, ex-secretário de habitação e gestão do território
Thiago Ávila, socioambientalista
Thiago Pacheco, educador popular
Tiago Araujo Coelho de Souza, professor da Faculdade de Ciências da Saúde, UnB
Toni Nego de Castro, Resistência Preta
Victor Edson, Cafil, UnB
Vitor Neiva, advogado
Vitor Sarno, diretor da Asibama-DF
Waldir Cordeiro, primeiro suplente de deputado distrital (Rede Sustentabilidade)
Wellington Abreu, ator, palhaço, presidente do Conselho de Cultura do DF
Wellington Almeida, professor da UnB
Wilma dos Reis Rodrigues, vogal PT-DF
Wilmar Lacerda, vice-presidente do PT-DF
Yara Gouveia – Assessora de Relações Internacionais do PSB
Zilda Pereira da Silva, doutora em Linguística, auditora da Vigilância Sanitária do DF
Criado em 2020-07-02 19:42:22
Romário Schettino –
Em toda parte o fogo se alastra, literalmente, no Equador e no Chile. Motivações não faltam para alimentar a revolta popular. E não se trata de influência da ficção cinematográfica como querem ver alguns. A violência nas ruas é filha do autoritarismo e da desigualdade, netas do neoliberalismo.
O sangue ferve e não há arte que supere a vida real. Cada povo sente na pele o incômodo das políticas de arrocho econômico que não levam em conta a distribuição da renda e a estabilidade política.
Segundo a edição especial da revista Forbes o número de bilionários brasileiros saltou de 180, em 2018, para 206 em 2019. A concentração da riqueza está nas mãos do setor financeiro e de poucos empresários no ramo da produção. Os maiores bilionários estão, sem nenhuma surpresa, em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Segundo a Forbes, o valor do patrimônio desses homens muitíssimos ricos saltou de R$ 975 bilhões (180 integrantes) em 2018, para R$ 1.205,8 trilhão (206 integrantes) em 2019. A série histórica, que começou em 2012, só cresce em relação à concentração, sobretudo no ramo dos investimentos com algumas variações no ramo das comunicações, do varejo, das bebidas, combustíveis e shoppings. Entre os muito ricos estão Jorge Paulo Lemann, o primeiro da lista com R$ 104 bilhões (bebidas – Ambev – e investimentos), a família Marinho - dona das Orqanizações Globo - (R$ 33 bi), Silvio Santos (R$ 1,6 bi) e Bispo Edir Macedo (R$1,4 bi), no ramo da comunicação.
E segue a lista da Forbes até chegar a 206 o número de ricos que tiveram suas riquezas amealhadas no setor financeiro, em primeiro lugar, depois no setor de alimentos e bebidas, atacadistas e varejo e comunicação.
São esses homens que comandam o Brasil de hoje e de sempre, aonde as coisas vão caminhando em banho-maria enquanto as reformas neoliberais avançam sobre os direitos da população. Tudo embrulhado com intrigas palacianas e familiares, xingamentos de toda ordem. Vagabundo pra lá, infiel pra cá. O certo é que o governo Bolsonaro não tem maioria consolidada e navega no mar de incerteza. Não consegue construir uma agenda consistente e há quem já aposte no fracasso da era bolsonarista.
Pelo sim, pelo não, é preciso acompanhar as sinalizações que vêm do Supremo Tribunal Federal, da Câmara e do Senado Federal. E, agora, do Partido Social Liberal (PSL).
Os filhos do presidente arrastam a República para o esgoto da incompetência, da milícia e da falta de compromisso com a população que votou no presidente sem saber o que ele pretendia quando dizia que ia acabar com a corrupção, com o comunismo e com os privilégios. Palavras soltas no ar que encantaram o senso comum.
A Justiça brasileira tem um compromisso com a democracia e precisa tomar decisões urgentes. Lula espera, o povo espera. No jogo democrático não há espaço para meio termo, ou se é comprometido com a Justiça ou se é conivente com a barbárie.
A onda anti-neoliberal pode chegar ao Brasil e o preço a pagar será muito alto.
Chilenos põem fogo no El Mercúrio (foto, abaixo)

O internauta Aurelio Michilis postou em sua página no Facebook que os manifestantes chilenos invadiram e incendiaram a sede do jornal El Mercurio, um dos periódicos mais antigos da América Latina, com 192 anos de existência. "Esse jornal sempre foi carne e unha, olhos e cérebro do neoliberalismo chileno. Fez acirrada campanha contra o governo Allende. Foi acusado de receber financiamentos da CIA. Apoiou o Golpe e a Ditadura Pinochet período em que se fortaleceu economicamente. Sempre se manteve contrário às reivindicações dos povos indígenas, especialmente os Mapuches", relembra Michilis.
El Mercúrio tem uma trajetória parecida com a das Organizações Globo no Brasil. Será isso uma mera coincidência? Os Marinho devem estar preocupados, ou não terão motivos?
Criado em 2019-10-20 17:24:10
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Qualquer criança sabe que a liberdade é uma especialidade francesa. Mesmo a liberdade americana foi uma doação dos franceses, como já disse o Millôr Fernandes. Construída pelo Gustave Eiffel, o mesmo da torre, é um monumento de concreto e cobre fincado numa ilhota do porto de Nova York, com 46,5m de altura sem o pedestal, um nariz de 1,37 metros, e umas coisas pontudas na cabeça que ninguém sabe pra que servem. Um detalhe, também assinalado pelo Millôr, é que até agora a liberdade não penetrou no território dos Estados Unidos.
Por falar em nariz, todo esse nariz de cera é só uma desculpa para puxar a conversa em que farei a demonstração paradoxal de que, na verdade, é de origem alemã uma das mais famosas figurações da liberdade francesa, o poema Liberté, de Paul Éluard, pioneiro do surrealismo e militante comunista, para quem o amor e a alegria são forças revolucionárias.
J'écris ton nom - Se você não sabe, em meados de 1942, milhares de cópias do belíssimo poema de 21 estrofes, no qual Éluard cataloga quase 70 objetos e lugares físicos ou só afetivos em que escreve o nome Liberdade, foram panfletados sobre o território francês pela aviação britânica para animar a resistência aos invasores nazistas.
Um brasileiro, o pintor pernambucano Cícero Dias, foi quem levou clandestinamente o poema para a Inglaterra, onde o pintor e poeta Roland Penrose se encarregou de o repassar ao comando militar conjunto dos britânicos e franceses. Continuava brilhando então a consigna com que o general De Gaulle havia inaugurado, em junho de 1940, a série de programas que dirigia à França ocupada desde uma saleta da BBC de Londres: "Quoi qu'il arrive, la flamme de la résistance française ne doit pas s'éteindre et ne s'éteindra pas". (“Aconteça o que acontecer, a chama da resistência francesa não deve se apagar e não se apagará!”)
Liberté pode ser lido aqui no original e na tradução feita por Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira.
O poema pode ser ouvido aqui na voz do próprio Paul Éluard.
Evidência 1 - Apresento agora a primeira evidência da origem alemã do poema Liberté:
1) O próprio Éluard justificou a composição do poema nos seguintes termos: “Eu escrevi esse poema no verão de 1941. Ao compor as primeiras estrofes (…) eu pensei revelar para concluir o nome da mulher que eu amava, a quem esse poema foi dedicado. Mas logo percebi que a única palavra que eu tinha em mente era a palavra liberdade. Assim, a mulher que eu amava encarnava um desejo maior do que ela. Eu a confundia com a minha aspiração mais sublime. E essa palavra, liberdade, só estava em todo o meu poema para eternizar uma vontade muito simples, muito cotidiana, muito aplicada, a de nos livrarmos do ocupante (nazista). A ideia de liberdade, essa ideia indispensável, é um ideal sem limite e, no meu caminho, cada um dos passos que damos deve ser uma libertação”.
2) Quem era a mulher amada a quem Éluard dedicou o poema? Maria Benz, a Nusch, nascida em 1906 em Mulhouse, distrito do Reichsland da Alsácia-Lorena, então parte do Segundo Reich Alemão, retomada em 1919 pela França nos termos do Tratado de Versailles. Depois de tentar carreira em Berlim, Nusch acabou indo para Paris, onde, em 1930, conheceu Éluard junto com René Char. Ali tornou-se modelo e musa dos surrealistas e depois da intelectualidade progressista, que incluía René Char, André Breton, Louis Aragon, Joan Miró, Roger Penrose, Salvador Dalí, Dora Marr, Pablo Picasso, Man Ray etc.
Fica demonstrado, assim, que o famoso poema de Éluard foi dedicado inicialmente a uma mulher alemã, Nusch, e só depois a uma francesa, a Liberdade.
3) Reforça o argumento uma história alternativa à de Paul Éluard, contada dez anos após a troca das palavras pelo crítico literário Alain Joufroy. Segundo ele, no verão de 1941, o casal Éluard, George Bataille e o próprio Joufroy foram convidados para um jantar na casa do crítico de arte e editor grego Christian Zervos e sua mulher, Yvonne. Durante uma partida de bridge, já mamados, Éluard briga com Nusch e vai embora intempestivamente. No dia seguinte reaparece com o poema de amor.
Sempre segundo Joufroy, Zervos e Bataille teriam então sugerido que Éluard trocasse o nome de Nush, a última palavra do poema, por Liberté. Os detalhes dessa mudança crucial foram reunidos pela linguista Sabine Boucheron e podem ser conferidos neste artigo
Evidência circunstancial - Isso posto, apresento agora o pulo do gato da minha tese. A hipótese que arremesso, sem qualquer prova mas com grande convicção, é que o poema de Éluard foi inspirado nos versos de um poema do alemão Wilhelm Müller, Ungeduld (Impaciência), musicado por Franz Schubert para o ciclo dos lieder de Die Schöne Müllerin (A Bela Moleira), composto em 1825.
Tal como faria Éluard mais de 100 anos depois, Müller elenca objetos e lugares onde gostaria de gravar e anunciar não o nome da amada mas a frase “Dein ist mein Herz, und soll es ewig bleiben” (“Teu é o meu coração e assim será para sempre”).
O tema de Ungeduld e Liberté é, portanto, o mesmo, e há várias coincidências textuais. Tanto num como no outro o eu lírico grava ou escreve a declaração de amor e o nome da amada “na casca de cada árvore” (Müller) e “nas árvores” (Éluard); nas pedras; “em cada folha branca” (Müller) e “em todas as páginas brancas” (Éluard”) etc.
Você pode ler aqui o texto original e uma tradução em português de Ungeduld.
Que Paul Éluard conhecesse as canções de A Bela Moleira é uma conclusão quase trivial. Na Paris daquela época, qualquer pessoa culta devia conhecer o Schubert. Além do mais, era então muito famosa uma das grandes intérpretes da Bela Moleira, a mezzo-soprano/soprano Germaine Martinelli, que cantava a peça em francês. Apenas seis anos antes da composição do poema de Éluard, ela havia gravado o ciclo em disco, acompanhada do pianista Jean Doyen. E foi justamente em 1941 que deixou a cena para lecionar no conservatório americano de Fontainebleau, onde brilhava a célebre musicista Nadia Boulanger.
A gravação de Ungeduld na voz de Martinelli pode ser ouvida aqui
Espero ter demonstrado com essas modestas anotações que uma das mais fabulosas manifestações da liberdade francesa, o poema Liberté de Paul Éluard, composto para inflamar La Résistance contra os agressores nazistas, foi inspirado por uma composição do Schubert e por uma encantadora e serelepe moça alemã, que, dizem, nunca perdeu o sotaque materno.
Um alerta - Antes que algum engraçadinho suponha de maneira apressada que eu esteja jogando aqui com uma ironia histórica, opondo uma alemã aos invasores alemães, como se eu não distinguisse nacionalidade de posição política, conto uma hilária cena do filme Círculo de Fogo (Enemy at the Gates), do Jean-Jacques Annaud, em torno da Batalha de Stalingrado. A certa altura, o comissário soviético Danilov (Joseph Fiennes) está tentando recrutar para o serviço de tradução do Exército Vermelho uma combatente civil, Tânia Chernova (Rachel Weisz), que havia se graduado em Berlim. Chernova percebe que o comissário estranha a quantidade de livros em alemão na sua estante, e diz que ele pode pegar alguns emprestados, se quiser. Danilov vacila. Diz não saber qual seria a reação dos camaradas no quartel se ele chegasse com uma braçada de livros do Goethe e do Schiller. Ferina, Tânia responde: “Tem alguns do Marx também, uai”.
Criado em 2020-09-19 03:45:04
Guilherme Cadaval (*)
Jacques Derrida, filósofo franco-argelino nascido em 1930 – e que este ano, se ainda estivesse conosco, comemoraria neste 15 de julho seu nonagésimo aniversário – foi sem dúvida um dos mais importantes pensadores do século vinte. Além disso, foi também um professor universitário.
De fato, a relação entre o saber e a universidade, a identificação entre o pensador e o professor, é muito antiga. Que grande filósofo dos últimos séculos não foi ao mesmo tempo professor de alguma grande universidade?
O espaço universitário é, afinal, um lugar privilegiado para o arquivamento e o cultivo do saber acumulado pela humanidade ao longo de sua história. Lugar cujo desenvolvimento caminhou lado a lado com o surgimento dos grandes Estados-nações da modernidade, e onde nasce a ciência moderna, e, com ela, como nos diz Heidegger, a era do domínio técnico quase absoluto do homem sobre a natureza.
Daí ser tão curioso o título de uma pequena conferência que Derrida proferiu sobre o tema, em 1998, na universidade de Stanford: “A universidade sem condição”. Talvez nos venha imediatamente à lembrança a ideia de autonomia, a qual supostamente rege a universidade contemporânea. De fato, uma tal instituição não poderia senão reivindicar para si uma espécie de soberania. Mas não desatentemos da dupla possibilidade contida neste título. A universidade incondicional – aquela que se mune de uma derradeira resistência a todos os poderes externos que querem dela se apropriar – é também, ao fim e ao cabo, sem condição.
Nosso filósofo a chama, a certa altura, uma cidadela exposta. E são muitas, de fato, as ameaças que cercam esta heroica fortaleza. Desde interesses mercadológicos que, nos EUA mais do que em qualquer outro lugar, fazem da universidade a sucursal de imensos conglomerados internacionais. Até o mercado da edição, e o papel decisivo que ele desempenha, tanto no arquivamento, quanto na legitimação do saber produzido dentro da universidade. E poderíamos acrescentar aí, nesse sentido, o papel desempenhado pelas agências avaliadoras e fomentadoras, cada vez mais regidas pela lógica do mercado e a sua mania de produtividade a qualquer custo, e que determinam, em grande medida, os rumos do conhecimento.
Ora, tudo isso concorre para fazer aparecer a universidade – esta com a qual Derrida sonha, e nós junto com ele: espaço onde absolutamente nada está livre de um questionamento crítico, radical, e que, portanto, inventa para si o direito de desconstruir todas as figuras atuais e determinadas do poder – na vulnerabilidade tremenda de sua soberania. O texto de Derrida é, a um tempo, de um otimismo sem limites e de um realismo fatal. É no momento que uma tal universidade parece inteiramente impossível, sem condição, que ela deve afirmar a sua incondicionalidade.
Pois, como nos diz Derrida, só o impossível acontece. Para que possa ser o espaço derradeiro de uma resistência crítica, a universidade não pode fechar-se em si mesma, numa racionalidade pura, imagem que talvez marque a história dessa grande instituição: o erudito não vive em uma torre de marfim? Deve, pelo contrário, aliar-se ao seu fora, às forças extra-acadêmicas, a fim de organizar uma resistência coletiva, comum. Afinal, se se trata de pensar e preparar-se para a vinda de um acontecimento impossível, por definição, não é possível antecipar-lhe o lugar.
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(*) Guilherme Cadaval é formado em Filosofia pela UFRJ, onde concluiu mestrado e doutorado. Dedica-se aos estudos de Filosofia Francesa Contemporânea, especialmente as obras de Jacques Derrida, Georges Bataille e Maurice Blanchot. É autor de “Escrever a mágoa: um cruzamento entre Nietzsche e Derrida”.
Criado em 2020-07-20 00:45:37
Iago Porfírio (*) –
Diante de um cenário de catástrofes políticas, climáticas, sanitárias e de retrocessos, a Câmara dos Deputados aprova o Projeto de Lei 490/2007. Um ataque aos povos originários e uma violência contra demarcação de suas terras.
Coletivos indígenas de cinema têm recorrido ao uso político dos recursos do audiovisual como uma maneira de possibilitar mundos possíveis e impedir que o céu despenque sobre nós, para usar uma expressão de Ailton Krenak.
O termo Antropoceno refere-se aqui à brutalidade do mundo, entendido como sendo uma desestabilização ecológica permeada por reacionarismos e negacionismos.
Paul J. Crutzen e Eugene F. Stoermer denominam a época geológica e ecológica atual como sendo a era do Antropoceno, que surge pelos “extensos e ainda crescentes impactos das atividades humanas na terra, na atmosfera e em todas as escalas, inclusive a global”.
Para Marisol De La Cadena , “o Antropoceno faz referência à era em que os humanos se tornaram uma força geológica capaz de destruição planetária”, um momento de implosão e destruição de mundos.
Enquanto seguem os duros ataques à Amazônia e aos povos indígenas pelo atual governo – o que passa a boiada –, experiências coletivas fazem uso político de ferramentas tecnológicas no campo da comunicação. Dessa forma, buscam dar visibilidade às realidades sociais e políticas de povos que vêm enfrentando os frequentes despejos violentos de seus territórios tradicionais e assassinatos de lideranças.
Como exemplo de forma de adiar o fim do mundo, cito a websérie de curtas Nativas Narrativas: mirando mundos possíveis, produzida pela Associação de Realizadores Indígenas do Mato Grosso do Sul (Ascuri).
Dividido em três episódios, o conjunto da série narra como os povos Guarani, Kaiowá e Terena têm agenciado as relações cosmológicas com a Terra no contexto da pandemia do novo coronavírus e das mudanças ecossistêmicas.
A despeito de mostrar claramente a pandemia como consequência de uma crise ecológica ou uma guerra ontológica entre os mundos, os curtas trazem em primeiro plano a retomada dos vínculos possíveis com a terra e com uma perspectiva política do cultivo. Não se trata, nesse caso, de um debate quanto ao lugar de fala, mas sim de uma passagem à fala dos lugares, ou seja, a natureza assume o seu lugar como agente que alarga a subjetividade de mundos.
Assim, nos três episódios que compõem a série, a centralidade das narrativas está na cosmologia Guarani e Kaiowá e no saber em que só é possível de ocorrer onde há os elementos que o constitui, como o rio e a mata.
O primeiro episódio é o Teko Marangatu, que traz como questão o habitar e ser a terra em um contexto de perturbação humana e de uma crise de habitabilidade em tempos de negacionismos e de uma política genocida. No segundo, Ary Vaí, a ação cosmológica está para evitar que chegue na aldeia a doença “que os brancos chamam de coronavírus”, e o terceiro, Yvyra’i Jegua, movimenta o tema do cultivo do território e do milho que, além de ser usado nos rituais de reza, se insere num processo de domesticação co-evolutivo, sofrendo modificações fenotípicas em sua aparência, por exemplo.
Proponho aqui uma discussão a respeito dos elementos cosmológicos que atravessam os respectivos filmes e que, sobretudo, têm sido prática articuladora da produção cinematográfica documental indígena, em seus aspectos estéticos e, a partir de Ailton Krenak, lançar a seguinte questão: pode o cinema indígena, entendido como aquele feito pelos próprios indígenas, operar como forma de adiar o fim do mundo na era do Antropoceno? Embora essa questão exerça uma influência na proposta deste texto, sua reflexão não se esgota aqui.
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(*) Iago Porfírio é jornalista e doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA/PósCom).
Veja aqui o site da websérie "Nativas Narrativas: mirando mundos possíveis - Guarani, Kaiowá e Terena".
Leia aqui os conceitos que envolvem o termo Antropoceno no site da Unesco.
Criado em 2021-07-03 03:09:24
Manifestações mobilizam 63 cidades em 24 países no próximo domingo 28/6. Depois de somar mulheres de todos os estados do país, do Distrito Federal e também brasileiras que vivem no exterior, o Levante Mulheres Derrubam Bolsonaro se une a uma série de manifestações pelo mundo e junta forças com o Stop Bolsonaro.
A iniciativa, capitaneada por movimentos de esquerda na Europa e nas Américas, pretende mostrar nas ruas e nas redes de pelo menos 24 países e 63 cidades o tamanho do descontentamento com o (des)governo que ceifa vidas, destrói os direitos dos brasileiros e ameaça o planeta dia após dia.
Motivos não faltam. Foram eles que levaram mais de 40 mil mulheres, representantes de pelo menos 15 setores da sociedade, a assinar o Manifesto das Mulheres Brasileiras. O documento avisa que as mulheres não serão caladas e não descansarão enquanto Bolsonaro não cair.
Desde a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, crivada por irregularidades, o Brasil sofre as consequências de um governo autoritário que representa um perigo para o meio ambiente, o Estado de Direito, a vida das mulheres e dos jovens negros e pobres.
Com suas ações, o governo Bolsonaro amplia o ataque à democracia, iniciado no golpe de 2016. Desde então, as conquistas de direitos das últimas décadas têm sido aniquiladas. O Meio Ambiente, a Cultura, a Saúde, a Educação e a Ciência deixaram de fazer parte da agenda de desenvolvimento no país.
Ao apoiar projetos latifundiários – que põem em risco populações indígenas, ribeirinhas, do campo e da floresta – e ao aprovar o uso agrícola de produtos químicos proibidos, Bolsonaro atenta contra a saúde pública e incentiva, com enorme energia, a destruição da Amazônia, do Cerrado, da Mata Atlântica, das águas, dos pântanos, do ar.
Nas cidades, o governo estimula a violência policial e paramilitar e promete facilitar, por meio da flexibilização das leis, o acesso da população às armas e munições – fazendo crescer o feminicídio e a matança nas periferias. Seus comentários racistas, misóginos e preconceituosos contra a população LGBTQI+, assim como sua apologia à ditadura militar e à tortura, encorajam ataques por parte de grupos radicais, criando um clima de intolerância e violência contra pessoas que vivem e pensem de maneira diferente desses setores.
Com cortes no orçamento e perseguição política, escolas, universidades públicas, instituições culturais e científicas têm sido enfraquecidas. As cotas de ingresso na pós-graduação destinadas a negros, indígenas e pessoas com deficiência estão sob permanente risco de boicote.
Paira ainda sobre esta gestão, a suspeita de que membros do governo e o próprio presidente estejam envolvidos em diversas ilegalidades que precisam ser apuradas. Uma delas estaria relacionada com o assassinato de Marielle Franco e Anderson Silva.
A população negra, principal alvo do genocídio em curso, tem sofrido rotineiramente sob um presidente assumidamente racista. Sua necropolítica mata por bala, por meio do braço armado do Estado (as polícias), pelo crescimento do poder das milícias, ou pela precarização do acesso à moradia, saneamento básico, saúde, educação, lazer, segurança pública.
A pandemia da Covid-19 expõe a criminosa falta de responsabilidade e de empatia do governo Bolsonaro. Segundo dados oficiais, há mais de um milhão de infectados pelo Coronavírus no Brasil. Mais de 50 mil cidadãos perderam a vida e o país se converte em um dos epicentros da pandemia – que é ainda mais cruel e letal com os negros, os pobres, os indígenas e os vulneráveis da sociedade.
Para esquivar-se das orientações da OMS, o governo, que há mais de um mês permanece sem um ministro da saúde, ameaça abandonar esta organização mundial.
Para piorar o quadro, Bolsonaro impõe uma política econômica neoliberal desumana – que, em lugar de oferecer apoio àqueles que sofrem as consequências da pandemia e o desemprego – impulsiona a privatização de empresas, sucateia os serviços públicos essenciais, corta direitos sociais, trabalhistas e previdenciários. Sob a ótica do governo, a vida vale menos que a economia.
Por tudo isso, brasileiras e brasileiros residentes no Brasil e no exterior ocuparão as ruas de suas cidades e as redes sociais no próximo domingo (28/6), Dia Mundial do Orgulho LGBTQI+ para dizer Basta! Os atos contra a política genocida de Jair Bolsonaro, intitulados Stop Bolsonaro, se juntam ao grito das mais de 40 mil brasileiras que já assinaram o Manifesto do Levante das Mulheres, documento que cobra das instituições da República o cumprimento dos seus papéis. Elas podem parar este governo antes que seja tarde.
O Manifesto será protocolado no dia 2 de julho no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que analisa a cassação da chapa eleita em 2018 sob acusação de fraude, na Câmara dos Deputados, onde dezenas de pedidos de Impeachment se avolumam, e também no Supremo Tribunal Federal (STF), que deve apurar acusações de inúmeros crimes, como os praticados na saúde pública, a produção de notícias falsas, a apologia à ditadura, ao fascismo, além de outros atentados à Constituição.
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Contatos:
Gisele Figueiredo Oddi - (51) 98141-0079
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Alessandra Roscoe - (61) 99985-5605
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Criado em 2020-06-26 02:08:02