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Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
O que define a brevidade da vida?
O que baliza a duração da arte?
O vírus, a máscara?
Chegou abril, “o mês mais cruel” -
“Atrás de nós o nada, o vazio,
con un terrore di ubriaco” -
Impõe-se a disjuntiva: a luta ou a rendição -
Repilo com o Carlos a máquina do mundo
nas estradas de Minas e Goiás
com a sua lógica de pedra, e decido sair
em busca do tempo perdido -
Onde está o tempo perdido?
Onde está a quase-democracia perdida?
Onde estão as poucas oportunidades perdidas?
Onde está a igualdade que nunca tivemos?
Onde está a razão? E a verdade
desencaminhada?
Talvez nos “becos cheios de elipses mentais”
e nas largas avenidas iluminadas
das metrópoles visíveis e
nas Cidades Invisíveis -
Nas gretas dos muros de Jerusalém,
nas muralhas de Ílion,
nas portas de Tebas,
nos jardins da Cidade Proibida,
no Campidoglio de Roma,
nos igarapés da Amazônia, talvez -
Da minha janela lanço o brado:
Quero abraçar todos vocês, irmãos,
e vocês, filhas do Elísio!
Seid umschlungen, Millionen!
Diesen Kuß der ganzen Welt!
Quero beijar milhões
de camaradas
do mundo inteiro,
no chão e nas alturas
das estrelas!
Quero promover aglomerações
na praça que é do povo
como o céu é da Airbus!
Quero refazer as barricadas
da Comuna de Paris
século e meio depois -
C'est le temps des cerises!
Mas atenção! Não será
nada contra os protocolos
das autoridades da Saúde:
para alcançar pequenas utopias,
camaradas, concedamos
todo o poder à Imaginação!
Pra começo de conversa,
tomemos cerveja bitter
com o Falstaff, a Julieta e o
Engels num pub de Londres -
Corramos até Dublin para
encontrar o Poldy e a Molly Bloom -
Voemos a Roma para um café
com o Sartre e o Frantz Fanon -
Abaixo o tédio, camaradas!
Viva a vodka! Na zdarôvie!
“Vamos tomar Manhattan,
depois Berlim”!
Eu quero dançar a Kalinka
com o marechal Júkov
nas escadarias do Reichstag!
Eu quero farrear
numa gafieira da Lapa
com a Chiquinha Gonzaga!
Eu quero surfar
no delta do Mekong
com o Ho Chi-Minh!
Eu quero aprender
caligrafia com o
presidente Mao!
O que nos impede de singrar
os mares do Sul e do Norte
a bordo do Beagle?
O que nos coíbe de trilhar
os confins do Sistema Solar
de carona na Discovery?
A plenos pulmões,
gritemos Viva a Liberdade!
na Praça Vermelha,
na Praça do Rossio,
na Porta do Sol,
na Cinelândia,
no centro de Jakarta
e à beira do Ebro,
onde corre o sangue da República!
Convidemos o Walt Whitman
para passar à toa as tardes
da primavera nos gramados
do Central Park, à sombra
de um carvalho coberto de musgo!
Vamos nos perder nos labirintos
do Jorge Luis, ouvindo o Libertango,
com a Emily de Amherst e a Emília
do Sítio do Pica-Pau Amarelo,
o Sancho Pança, João Grilo e Chicó,
Fabiano e Baleia, Riobaldo, Diadorim
e Nhorinhá e, óbvio, o Diabo na rua
no meio do redemoinho...
Em nossa nave-palco, camaradas,
cabe tanta gente, tantos bichos e plantas,
toda a Mãe Natureza, que é capaz
da barca atravancar os canais de Suez,
da Mancha e do Panamá juntos -
Seria engraçado paralisar o comércio mundial!
Que tal discutir filosofia e ciência
com o Brás Cubas, o Bentinho
e a Marilena Chaui?
Que tal aprender xadrez
com um campeão soviético?
Que tal quebrar cocos
com as quebradeiras de coco
do Maranhão?
Quem sabe, compor haicais
nos saltos que salta a rã
no som da água
da velha lagoa!
Ninguém sabe o dia
de amanhã, dizem
o Horácio e o Eclesiastes:
o que podemos fazer
senão comer e transar,
beber vinho, recitar o Khayyam
e escutar o Caymmi?
É breve a vida, camaradas,
mas longos e ledos são os meandros
das caminhadas no refúgio que nos restou
entre as prateleiras de nossas estantes!
Criado em 2021-04-01 00:10:02
José Dirceu (*) –
A vitória dos democratas nos Estados Unidos precisa ser avaliada pelo ângulo da espetacular derrota de Trump que deve ser comemorada. É verdade que a agenda democrata e o discurso de Biden, a se confirmar, retomarão políticas enterradas sem solenidades por Trump como a climática-ambiental. Mas políticas afirmativas em relação ao racismo, à imigração e à saúde ainda são promessas, apesar do compromisso assumido, e precisarão passar pelo Congresso e Suprema Corte.
Mudanças na política econômica acontecerão por exigência da pandemia, seara na qual seguramente Biden fará diferença inclusive em nível internacional. Nas relações entre Estados Unidos e demais países, a experiência indica que prevalecerão, acima de tudo, os interesses hegemonistas dos Estados Unidos, com a manutenção da disputa comercial e geopolítica com a China e a defesa de hegemonia militar. Na economia doméstica, a tarefa de Biden não é fácil: vai enfrentar o dogma tributário republicano e a herança de décadas de neoliberalismo e globalização, que resultaram em uma crescente desigualdade social que mina a coesão e unidade nacional.
Já na arena da geopolítica, a expectativa é de que o democrata retome as relações multilaterais, como acordo de Paris, e mesmo propostas da época Obama, como os acordos de comércio Transatlântico e Transpacífico. No entanto, é preciso reconhecer que Biden encontrará um mundo onde há evidente esgotamento e uma crise não apenas conjuntural, evidente na Europa e Estados Unidos, do capitalismo na sua forma globalizada pelo capital financeiro bancário. Um mundo onde poderes regionais – e mais que regionais em alguns casos — como a China, Rússia, Índia, Irã e Turquia disputam com os Estados Unidos e impõem limites aos desígnios norte-americanos. Sem falar no papel da União Europeia, desdenhada e humilhada por Trump, e sua crise expressa no Brexit agora agravada com a pandemia.
Ainda como pano de fundo, a constatação histórica de que os Estados Unidos não têm mais como exercer hegemonia total num mundo dividido e com uma economia interna que perde competitividade e exige proteção e medidas comerciais de retaliação para se manter na liderança, como indica a tentativa de barrar o avanço da tecnologia de telefonia móvel celular 5G da chinesa Huawei. Uma economia dominada pela especulação financeira e amparada nos serviços, na qual os trabalhadores perdem renda e empregos.
A questão que se coloca é se Biden e os democratas estarão à altura dos novos tempos e buscarão uma reforma no sistema de relações internacionais que a ONU expressa e serão capazes de refazer o acordo de Bretton Woods para regular o capitalismo financeiro neoliberal manifestamente esgotado.
Para nós aqui no Brasil, a derrota de Trump soa como música pelas relações de submissão e adesão incondicional que Bolsonaro, seu círculo ideológico e sua família estabeleceram com ele e impuseram à nação brasileira uma humilhação que jamais esqueceremos e que só nos trouxe perdas politicas e econômicas. A derrota, nos Estados Unidos, das políticas e ideias que Bolsonaro defende aqui nos anima. Mas, nada de euforia, já que conhecemos como os interesses do Império se impõem seja qual for o governo.
Há pouco tempo assistimos o golpe na Bolívia e fomos vítimas do golpe parlamentar judicial que derrubou a presidente Dilma. Temos um histórico de intervenções norte-americanas em nossa política interna do qual a Lava Jato foi um dos últimos capítulos como se comprova a cada dia.
Guerra híbrida – Haverá mudanças na politica de guerra híbrida –nome bonito para bloqueio econômico e comercial que significa zero comida, remédios e combustíveis, além da sabotagem militar e atentados– contra Cuba e Venezuela? Vai se buscar uma solução negociada e pacífica sem intervenções externas para o caso venezuelano? E como ficará o bloqueio econômico contra Cuba? Voltarão os Estados Unidos aos acordos com o Irã, respaldados até hoje pela União Europeia? Biden apoiará a aberta sedição da ordem legal boliviana que Luis Camacho, seguidor de Trump derrotado em eleições reconhecidas pela comunidade internacional como limpas e legais, vem pregando abertamente desde Santa Cruz?
Nossa Constituição é clara. Nossa politica externa é regida por princípios da não intervenção e autodeterminação dos povos, da igualdade dos Estados, da defesa da paz, da solução pacifica dos conflitos, da rejeição do terrorismo e do racismo, da defesa dos direitos humanos, da cooperação entre povos para o progresso da humanidade sob a égide da independência nacional. Temos um norte constitucional que determina que buscaremos “o desenvolvimento econômico, político e social e cultural dos povos da América Latina, para a formação de uma comunidade latino-americana de nações”.
Tem sido essa a política externa do pais, particularmente nos governos Lula e Dilma. As raras exceções aconteceram na ditadura militar e, agora, no governo Bolsonaro. Na primeira, como o apoio e o envio de tropas para a invasão, dirigida pelos Estados Unidos e sancionada pela OEA, da República Dominicana onde uma revolta popular recolocou no poder o presidente Juan Bosch deposto por um golpe de estado depois de uma eleição legítima. No governo Bolsonaro, com reconhecimento do líder oposicionista venezuelano Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente sem ter sido eleito, e apoio à sua política de desestabilização do governo Maduro. Sem falar da ingerência brasileira no golpe ocorrido na Bolívia contra o presidente Evo Morales.
Que a derrota de Trump nos inspire a retomar nosso fio da história de uma nação soberana com uma política externa altiva e ativa, não alinhada e defensora sem limite de nossos interesses nacionais. A retomar uma política de desenvolvimento nacional que tenha, como norte, o bem estar social do nosso povo, o respeito ao meio ambiente, o combate ao racismo e à homofobia, o reconhecimento dos direitos das mulheres, o apoio à ciência e aos direitos humanos, a garantia do acesso à saúde e à educação pública e universal, um sistema tributário justo onde os ricos paguem impostos. Enfim, uma nação democrática onde prevaleça a soberania popular e não o poder econômico ou a tutela militar.
_________
(*) Artigo publicado originalmente no site www.poder360.com.br
Criado em 2020-11-10 18:44:48
Todos os envolvidos na Operação Dracon, deflagrada pelo Ministério Público e pela Polícia Civil do DF, devem renunciar aos seus cargos na direção da Câmara Legislativa. Essa é a opinião da bancada do PT, que também quer a exoneração dos funcionários denunciados.
A deputada Celina Leão, foi suspensa do cargo de presidente da Casa pelo Tribunal de Justiça do DF e levada, junto com os demais membros da Mesa para depor na Delegacia.
A situação é constrangedora, mas, segundo o Ministério Público, os suspeitos não devem continuar ocupando cargos enquanto durar as investigações.
Segundo a nota dos petistas Wasny de Roure, Chico Vigilante e Ricardo Vale, "em virtude dos graves acontecimentos que acometeram a Câmara Legislativa na manhã desta terça-feira [23/8], a bancada do Partido dos Trabalhadores entende serem necessárias, rápidas e claras, medidas para o restabelecimento dos trabalhos da Casa e garantir a mais isenta apuração das denúncias, com a punição dos culpados".
Os petistas querem a Mesa Diretora em exercício requisite a abertura imediata de representação no Conselho de Ética da Casa para apurar as denúncias relacionadas aos parlamentares implicados, em virtude dos indícios de quebra da Ética e do Decoro Parlamentar.
Outra medida necessária é a substituição dos deputados distritais da CPI da Saúde, envolvidos nas investigações do Ministério Público.
A direção regional do PT também se manifestou cobrando a instalação de uma CPI para investigar Celina Leão e seus aliados, envolvidos em desvios de recursos da saúde do Distrito Federal.
Para isso, o partido já iniciou a coleta de assinaturas com o objetivo de instalar uma CPI de iniciativa popular na CLDF tendo como objeto as denúncias de propinas e desvio de dinheiro público da Saúde e do orçamento da Câmara Legislativa.
Criado em 2016-08-23 21:14:39
Neste domingo, dia 23/1, às 16h, o programa Canta Nordeste vai ao ar pela última vez na Rádio Cultura FM 100,9. Dioclécio Luz e Cíntia Magalhães, apresentadores do programa encerram essa história que tem 33 anos na emissora de Brasília. Era o mais antigo da Cultura FM.
Ao longo desse tempo o Canta Nordeste foi uma atividade voluntária, sem custos para a rádio ou para o estado. Nesses 33 anos só ocorreu uma exceção - durou dois semestres.
Foi quando o programa se candidatou e foi selecionado para receber recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC). O Tribunal de Contas do Distrito Federal, porém, entendeu que colaboradores ou voluntários da rádio não podiam captar recursos do FAC, exigindo da Secretaria de Cultura que nos próximos editais do Fundo figurasse esse veto. O veto foi firmado e atinge a toda categoria da radiodifusão.
A decisão do TCDF inviabiliza todos os outros projetos que Dioclécio e Cíntia planejaram para 2022 contando com recursos do FAC, incluindo um podcast sobre literatura e programas sobre diversidade em outras emissoras. A única possibilidade desse fim de mundo não acontecer, era deixar a Rádio Cultura, deixar de ser colaborador ou voluntário. E é o que está sendo feito agora.
Originalmente, o Canta Nordeste foi criado para mostrar a cena musical da região, revelando os clássicos e os modernos. Com o tempo, além da arte e cultura, passou a revelar também a realidade sócio-econômica, aspectos históricos, política, belezas e horrores do Nordeste. O programa denunciou a violência, o machismo, o racismo; tratou do cangaço, da seca e da fome; contou das belezas do sertão e das riquezas do litoral. Foram diversos programas sobre meio ambiente, muitos sobre o feminismo, dezenas da sua luta antirracista, vários contra esse governo que festeja a morte dos brasileiros.
Da música, trouxe nomes consagrados, como Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa. Fez entrevistas com Baby Consuelo, Tomzé, Quinteto Violado, Geraldo Azevedo, Fagner, Zé Ramalho, Hermeto Paschoal, Marinês, Elomar, Elba Ramalho. Foi um dos primeiros em Brasília a entrevistar e tocar Chico César, Lenine, Chico Science. Abriu as portas para as meninas que hoje fazem a diferença na música brasileira, caso de Flaira Ferro, Juliana Linhares, Luedji Luna, Socorro Lira, Lorena Nunes.
Brasília é Canta Nordeste. O programa mostrou a arte de Beirão, Rênio Quintas, Paraibola, Chinelo de Couro, Célia Porto, Alberto Salgado, Afonso Gadelha, Roberto Correa, Orquestra Marafreboi, Marcelo Café, Clôdo, Climério e Clésio Ferreira, Haono Beko, Criolina, Gog, Túlio Borges, Zelito Passos, Carlinhos Piauí, entre muitos outros. Não é exagero dizer que o Canta Nordeste se tornou parte da história da cena cultural de Brasília.
Ele agora encerra sua história na Rádio Cultura FM, mas não morre. O programa já é veiculado na Rádio Eixo (via internet) e em três rádio comunitárias: Utopia (Planaltina, DF), Valente (Valente, Bahia) e Noroeste (Campinas, São Paulo). Se anime, cabra! “Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”, como disse Belchior.
Criado em 2022-01-20 23:19:26
Movimento em Defesa da Vida- Esse áudio faz parte de uma campanha da sociedade pela vacinação, já!, distanciamento social para todos e todas e respeito à ciência.
Criado em 2021-03-12 23:26:49
O rompimento da barragem da Samarco/BHP/Vale S.A. despejou 60 milhões de metros cúbicos de lama tóxica no meio ambiente. 19 pessoas morreram e 300 mil foram diretamente afetadas, entre elas indígenas, pescadores e agricultores. (Fonte: Comitê em Defesa dos Atingidos pela Mineração, 2015)
Direitos Humanos em 2 minutos (DH2) reúne artistas, realizadores e ativistas para explicar, de maneira lúdica e acessível, temas complexos como racismo, violência de gênero, justiça fiscal, migração, mobilidade urbana e mudanças climáticas, entre outros.
São 12 filmes curtos, com os atores Iara Pietricovsky e Alexandre Ribondi em cena – os dois dividem também a direção do projeto. Os textos são de Ribondi.
Foi elaborada também uma cartilha sobre direitos humanos, com os principais conceitos e legislações relativas aos temas apresentados no projeto. Esperamos que a cartilha seja uma fonte para professores, alunos e movimentos sociais interessados em discutir direitos humanos de maneira transformadora.
Criado em 2016-07-26 00:52:56
Maria Lucia Verdi -
De 15 a 18 de dezembro realizou-se no campus universitário da Universidade Normal, na cidade de Zhuhai, no sul da China, o primeiro Fórum do BRICSde Literatura (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Foi uma iniciativa do Centro Internacional de Escritura da Universidade Normal de Pequim, dirigido pelo Prêmio Nobel de Literatura chinês Mo Yan, autor do romance “Mudança”, publicado pela editora Cosacnaif, em 2013. Este Centro recebe escritores estrangeiros que desejem lecionar ou simplesmente residir por um período em Pequim e escrever (http://iwc.bnu.edu.cn).
Levei na bagagem, além dos meus, livros dos poetas Fernando Mendes Vianna, Francisco Alvim, Margarida Patriota, Lourdes Teodoro, Angélica Torres Lima, Luiz Turiba, Nicolas Behr, e Noélia Ribeiro. Esses livros foram doados para as bibliotecas das duas mencionadas universidades, bem como à de Pequim. A ideia de uma antologia bilíngue desses poetas “brasilienses” e de poetas chineses foi lançada e bem recebida. A cineasta brasiliense María Maia doou uma coleção de seus documentários sobre personalidades da cultura brasileira, que ficarão na videoteca do Núcleo de Cultura Brasileira (NCB), da Universidade de Pequim."
Está sendo preparado um documento formal aos atuais coordenadores do BRICS, defendendo a criação de um Comitê formado por um representante de cada país, a ser substituído a cada dois anos, de modo que a organização dos futuros BRICS de Literatura venha a ser feita por escritores e acadêmicos. Nele constará o pleito de que o organismo arque com as despesas dos encontros a fim de que não se dependa da verba das universidades, como ocorreu na China.
A leitura e a literatura são fundamentais para a transformação da realidade, e o BRICS foi criado com propósitos transformadores. Como disse a escritora russa Irina Balmetova: “O Terceiro Milênio já chegou – estarão os pensamentos estéticos e filosóficos tradicionais e as ideias pré-concebidas preparados para serem modificados?”
Algumas das mesas bilaterais - cada uma com temática específica e formadas por escritores ou professores chineses e os representantes de um dos países convidados – ocorreram em horários coincidentes. Brasil e África do Sul, por exemplo, não puderam se ouvir e debater.
Porém, na noite das leituras de textos autorais todos puderam se escutar. Os textos eram lidos nas línguas originais e projetados em inglês e em chinês. Da África do Sul estiveram presentes os escritores Frederick Vusi Khumalo e Niq Mhlongo, além do poeta Mphutlane Bofelo, que encantou a plateia com sua performática, musical e engajada poesia.
Como disse Khumalo, lembrando a escritora nigeriana Chinua Achebe: "Uma vez que observamos que, na medida em que o leão não pode ler ou escrever, a história da caça será sempre narrada a partir da perspectiva do caçador. No entanto, agora que o leão – na forma de um cidadão do mundo, formalmente civilizado, especialmente na África – pode ler e escrever, é tempo das coisas mudem”.
Houve tradução simultânea para o chinês, russo e inglês, mas não houve distribuição dos textos em papel. Aliás, a questão da “tradução”, cada dia mais atual e necessária, foi um fator que dificultou em muito a comunicação, não obstante os esforços dos intérpretes chineses, simpáticos estudantes voluntários. Como disse o professor João César de Castro Rocha, da UERJ, seria fundamental a criação de uma “rede de traduções” entre os países do BRICS.
Da delegação russa, composta por quatro escritores, apenas uma -a ótima Irina Nikolayevna Balmetova, editora do jornal de arte “Outubro” e autora do “The silk road of poems”, traduzido para várias línguas - se comunicava em francês. Foi dela a ideia de que o segundo BRICS se realize na Rússia.
Compartilho aqui o poema PENA, do premiado poeta russo Vyacheslav Glebovich Kupriyanov, que teve a antologia poética “Luminescência” publicada pela Editora Kalinka em 2016, traduzida diretamente do russo por Aurora Fornoni Bernardini.:
Pena dos russos. Suas lágrimas
Caem no mar Cáspio.
Pena dos hebreus. A fumaça de sua pátria
Come os olhos. Pena dos alemães, deles
Ninguém tem pena. Pena
Dos Neandertais. Extinguindo-se,
Acreditaram no homem. Pena
Dos americanos. Eles, parece,
Não têm pena de ninguém. Pena
Dos aborígenes. Eles serão escondidos
Em roupas da moda. Pena dos navegantes,
Mesmo assim darão com a terra.
Pena dos geógrafos. Eles
Não veem a terra atrás do globo.
Pena dos astrônomos. Eles
Põem toda a esperança na noite.
Pena dos historiadores. Eles
Nunca conseguem inventar
Uma história melhor...
As apresentações da delegação brasileira, composta pelo professor Francisco Foot Hardman, cientista político, doutor em filosofia, professor do Departamento de Teoria Literária da Unicamp, pesquisador do CNPq, engajado nas causas dos direitos humanos e do meio ambiente; pelo jovem e erudito, professor da UERJ, João Cezar de Castro Rocha, especialista em Literatura Comparada e também pesquisador do CNPq, e por mim, foram muito bem recebidas.
Sentiu-se a necessidade de incentivar a que mais estudiosos chineses se dediquem à literatura e à cultura brasileira, conhecida por poucos, como lembrou o professor Hu Xu Dong, da Universidade de Pequim, vice-diretor do Núcleo de Cultura Brasileira da Universidade de Pequim (UP), poeta e tradutor do português para o chinês. Minha apresentação centrou-se no retrato do Brasil e do povo brasileiro por meio da poesia, de Gregório de Matos a Francisco Alvim, perfil feito através da poesia engajada com as causas sociais, com a liberdade e a resistência.
A Índia enviou três mulheres notáveis: Midrula Garg, escritora reconhecida internacionalmente e traduzida em muitas línguas, ativista pelos direitos humanos, representante Senior de uma geração de mulheres pensantes e engajadas, diz ela: “A literatura é tratar de experimentar o outro como a ti mesmo, abraçando a divergência como essencial para a criatividade e a mudança social”. Sukrita Paul Kumar, professora, tradutora e poeta, autora prolífica, comprometida com as questões de gênero, tradição oral e literatura internacional, também defensora da tradução como “pontes para o maior entendimento entre povos de territórios linguísticos diferentes”; e Pratishtha Singh, representante da jovem Índia, professora de italiano na Universidade de Nova Delhi, muito envolvida com questões feministas e ambientais, tendo sido jurada do Festival Internacional do Meio Ambiente de São Paulo, em 2014.
Diz Pratishtha: “Estou convencida de que o poder de cada um desses países [BRICS], a positividade, é suficiente para produzir uma mudança. A principal ideia [...] que merece nossa atenção e sensibilidade é a da proteção do meio ambiente em geral”.
Na mesa de abertura do Fórum, que teve como tema “Nova era, novas experiências, nova imaginação”, assim se expressou o premiado Mo Yan sobre a necessidade de que a literatura mundial (ou “transnacional”, como propõe João César) circule: “[...] os escritores contemporâneos tomam diferente direções ideológicas de todas as expressões literárias mundiais; eles compartilham uma memória comum das literaturas de vanguarda da década de 1980 e, consequentemente, uma série de excelentes obras com características nacionais foram criadas. Ao mesmo tempo em que os autores chineses se atêm às suas experiências locais e tradições literárias, eles interagem ativamente com a literatura mundial, o que é um dos fatores essenciais para o enriquecimento da literatura chinesa.”
Para todos nós, o fundamental dessa experiência - além de reafirmar a crença na importância do estudo das línguas e não só do inglês - é a convicção de que o BRICS de Literatura deve se tornar uma realidade de dois em dois anos.É relevante que essa ideia se torne concretize, pois o que essencialmente funda o ethos de um povo não é a economia e a política, mas a cultura, a sociedade e suas criações.
Que se discuta a realidade do BRICS também a partir dos que pensam e escrevem, dos que imaginam e sonham outra realidade - que o BRICS possa vir a ser uma janela significativa para que se reflita sobre a (des)ordem atual.
Nas palavras do professor Foot Hardman: “A literatura brasileira contemporânea acredita no poder da poesia contra as bombas. Ela luta por uma paz mundial que seja verdadeira. Luta pelo fim de todas desigualdades e pela profunda solidariedade entre Norte e Sul, entre Leste e Oeste. Ela luta pela sustentabilidade da Terra, onde a humanidade possa encontrar uma nova harmonia com a natureza e, especialmente, antes de tudo, entre seus povos”.
Criado em 2018-01-04 14:27:48
Romário Schettino –
O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) sorteou segunda-feira (28/9) cinco desembargadores e a Assembleia Legislativa elegeu ontem (29/9) os cinco deputados que farão parte do tribunal misto que vai julgar o impeachment do governador afastado Wilson Witzel. O tribunal, que será comandado pelo desembargador Cláudio de Mello Tavares, presidente do TJ-RJ, será instalado na próxima sexta-feira (2/10).
Os juízes escolhidos foram: Teresa de Andrade Castro Neves, José Carlos Maldonado de Carvalho, Maria da Glória Bandeira de Mello, Fernando Foch e Inês da Trindade Chaves de Melo.
A Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) também elegeu os seus cinco representantes no Tribunal Misto. Foram eleitos os deputados Alexandre Freitas (Novo), com 55 votos; Chico Machado (PSD), com 54 votos; Waldeck Carneiro (PT), com 51 votos; Dani Monteiro (PSol), com 37 votos e Carlos Macedo (Republicanos), com 34 votos. Os parlamentares eleitos formarão o colegiado junto com outros cinco desembargadores sorteados pelo TJRJ.
O deputado Anderson Moraes (PSL) também recebeu 34 votos, mas o eleito foi Carlos Macedo pelo critério de desempate, que considera o vencedor o parlamentar mais idoso. O resultado da votação foi comunicado ao TJRJ e a instalação do Tribunal Misto.
Os deputados estaduais do Rio votaram quarta-feira (23/9), por unanimidade (69 sim, 0 não), pela continuidade do processo de cassação do governador Wilson Witzel (PSC). O único deputado que não votou, por estar de licença médica, foi o democrata cristão João Peixoto. Witzel já está afastado do cargo pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) desde o dia 28 de agosto, e, assim que a comissão mista for formada e notificada, deverá ser afastado por mais 180 dias.
A resolução aprovada teve como base as provas colhidas nas operações Favorito e Placebo, conduzidas pelo Ministério Público Federal, sobre denúncias de irregularidades e corrupção na área da saúde do governo Witzel.
O governador não foi ao plenário, mas fez sua própria defesa por videoconferência. Visivelmente descontrolado, Witzel falou em traição, invocou Tiradentes e Jesus Cristo, “que foram delatados”, e lamentou estar “sendo vítima de um julgamento injusto”. Citou até o acadêmico Merval Pereira quando quis mencionar pensamentos sobre “tirania” em regimes autoritários. Ao partir para o ataque, Witzel chamou o plenário do Legislativo de “omisso” e disse que “governou sozinho durante a pandemia”. Os deputados disseram que seu governo foi “incompetente”, “genocida”, “dominado pela roubalheira” e que ele “tinha sangue nas mãos”.
Witzel jura que nunca defendeu a extrema-direita, embora tenha participado de comícios com candidatos bolsonaristas que destruíram uma placa em homenagem à vereadora Marielle Franco (PSol), brutalmente assassinada no centro do Rio.
O governador conseguiu um fato inédito na política, nenhum deputado saiu em sua defesa, nem mesmo os do seu partido, muito menos os bolsonaristas, antigos aliados. Isolado e derrotado, em breve terá que deixar definitivamente o Palácio Laranjeiras, residência oficial do governador afastado.
Todos os deputados estaduais criticaram duramente o governador. Waldeck Carneiro (PT), (na foto, abaixo), lembrou que “mais uma vez o palácio Guanabara se vê envolvido nas páginas criminais. Os indícios são robustos, seja em relação a desvios, falcatruas e maracutaias envolvendo duas organizações sociais em compras superfaturadas de respiradores”.

Nos últimos 20 anos, todos os governadores do Rio, à exceção de Benedita da Silva (PT), foram presos, afastados ou condenados. O Rio tem saudade de Brizola e Darci Ribeiro, que construíram os CIEPs, disse Waldeck. “O Estado e o município do Rio estão abandonados ao atraso e à desigualdade”.
Dani Monteiro (PSol), (na foto, abaixo), disse que o relatório aprovado “é necessário e é certo que Witzel falhou e escancarou sua inabilidade na relação com a Alerj. Vaidoso, caricato e egocêntrico, colhe agora os frutos amargos do que ele mesmo plantou. O Rio não merece a sua continuidade."

Renan Ferreirinha (PSB) citou as denúncias do MPF e a suposta participação do presidente do PSC, Pastor Everaldo em um esquema para desviar dinheiro da saúde. “Witzel se aliou a um grupo criminoso para ser eleito. O pastor Everaldo é acusado de comandar um esquema que desviou milhões dos cofres públicos. O governador afastado andou com muitos religiosos, mas não aprendeu uma importante lição bíblica: ’a soberba antecede a queda’".
A deputada Martha Rocha (PDT) citou as diversas irregularidades que os técnicos da secretaria de Saúde apontaram para a desqualificação da OS Unir Saúde, que Witzel requalificou por uma decisão própria. E concluiu: “A sensação que tenho é que o governador não sabe ler ou precisa de novo par de óculos. Os técnicos da Secretaria de Saúde apontavam 19 processos punitivos em face da Organização Social, como déficit de pessoal, inoperância de equipamentos e o não recolhimento de impostos. Como o Estado com uma enorme crise financeira aceita reconduzir uma OS que não recolhe impostos? O governador não teve dúvida de autorizar o pagamento de R$ 26 milhões. Witzel tinha ciência do que acontecia nos porões da secretaria de Saúde, que pode ser considerado crime hediondo”.
Ninguém poupou o governador, que sairá de cena carregando nas costas uma frase definitiva: “Quem rouba da saúde é assassino. Quem rouba na pandemia é genocida”.
Eleito na esteira da necropolítica bolsonarista fluminense, Witzel caiu em desgraça quando insinuou que poderia concorrer à Presidência da República sem consultar seu padrinho político, o presidente Jair Bolsonaro. O sucessor de Witzel, o vice Cláudio Castro (PSC), apesar de investigado, será poupado pelo esquema de Bolsonaro para servir aos interesses da família no Rio de Janeiro.
Criado em 2020-09-24 06:00:09
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Daqui a pouco,
na varanda à guisa de altar,
será hora de testemunhar
uma nova epifania de água e luz
com o coro misto de cães ao longe,
pássaros vizinhos e a criança do 402
reivindicando a mamadeira -
Foi assim no domingo,
foi assim na segunda e,
se não houver um cataclisma,
será assim na quarta-feira -
Ainda estão acesas
as lâmpadas públicas,
o verde mal se distingue,
não há nuvens, só uma bruma rala
que logo será varrida pela vassoura do Sol -
O moleque do 402 parou de chorar
e agora sou eu quem sente
o gosto adocicado da maizena -
O verde e toda a paleta explodem -
Laudato si’, o frate Sole!
Ah, como eram chatas as missas de domingo -
Mal podíamos esperar a oferta do vinho,
sinal de que logo iríamos em paz para casa,
onde nos aguardava uma galinhada fumegante
e a garrafa de guaraná com a tampinha
furada com um prego -
Agora, quando o tédio gruda em quase tudo,
nunca nos cansa a adoração cotidiana
do Sol no altar da varanda -

Criado em 2021-03-30 13:09:37
Luiz Philippe Torelly (*) –
Sou carioca da gema. Não moro mais na "Cidade Maravilhosa", mas nunca deixei de frequentá-la. Das cidades que conheço é das mais bonitas, com sua mistura de mar, praias, montanhas, florestas e uma diversificada fauna e cultura urbana. Cidade símbolo do Brasil, reúne pessoas de todos os rincões.
Meus avós, cada um de uma região do país, se encontraram no Rio e cariocas se tornaram. Embora cindida e marcada pela exclusão e a violência crescente, nossa urbis possui recantos encantadores e paisagens de tirar o folego. Praias, o Jardim Botânico, a Quinta da Boa Vista, o Passeio Público, o Cristo e o Corcovado, o Pão de Açúcar, o Teatro Municipal nossa Opera tupiniquim, sua linda Baía que encantou tantos navegantes através dos séculos, o Mosteiro de São Bento, a Candelária, a Colombo talvez a mais linda confeitaria do mundo. Poderia encher muitas páginas com suas maravilhas, sem esquecer os bares de herança lusitana, lugares onde a alma melhor se revela.
Pelo que representa para a gente e a cultura brasileira, tudo o que ocorre no Rio, atinge a todos nós.
Na realidade se criaram duas cidades: uma branca, da praia e do asfalto, outra negra, dos morros e das favelas, dos subúrbios distantes. Iníquas, desiguais, uma olhando a outra de cima e percebendo tudo. Alguém já disse que um dia o morro ia descer. Então criaram uma linha invisível que separava as duas metades. Linha construída pela política da bica d'água, do pequeno favor, da dissimulação e da repressão e amedrontamento simultâneos. Lá pelos anos 60 a droga chegou e se instalou nos vazios que a política da desigualdade havia deixado. Depois vieram os pastores que também se tornaram políticos.
Algo havia mudado para não mudar nada, já dizia Tomaso Di Lampeduza.
A cidade praiana até tentou dissimular, mas o que fez foi relembrar os tempos lacerdistas quando jogavam os mendigos no Rio da Guarda. Uma imitação da solução final em pequena escala. Qualquer candidato com propostas de redução das desigualdades e propostas inclusivas, era taxado de comunista, bicha e maconheiro. Religião, clientelismo e milícia se uniram e dominaram. Bolsonaro teve 68% dos votos dos cariocas. Cinco ex-governadores foram presos. O desconhecido juiz justiceiro Witzel, o do tiro na "cabecinha", também foi eleito por massiva maioria.

Falar de um lugar que tanto amo é doloroso e difícil, por isso resolvi recorrer à literatura, muitas vezes premonitória. Rubem Braga, conhecedor de tuas entranhas e mazelas, escreveu há 62 anos sua mais famosa crônica: Ai de ti, Copacabana, que transcrevo a seguir:
1 - Ai de ti, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas.
2 - Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite.
3 - Já movi o mar de uma parte e de outra parte, e suas ondas tomaram o Leme e o Arpoador, e tu não viste este sinal; estás perdida e cega no meio de tuas iniquidades e de tua malícia.
4 - Sem Leme, quem te governará? Foste iníqua perante o oceano, e o oceano mandará sobre ti a multidão de suas ondas.
5 - Grandes são teus edifícios de cimento, e eles se postam diante do mar qual alta muralha desafiando o mar; mas eles se abaterão.
6 - E os escuros peixes nadarão nas tuas ruas e a vasa fétida das marés cobrirá tua face; e o setentrião lançará as ondas sobre ti num referver de espumas qual um bando de carneiros em pânico, até morder a aba de teus morros; e todas as muralhas ruirão.
7 – E os polvos habitarão os teus porões e as negras jamantas as tuas lojas de decorações; e os meros se entocarão em tuas galerias, desde Menescal até Alaska.
8 - Então quem especulará sobre o metro quadrado de teu terreno? Pois na verdade não haverá terreno algum.
9 - Ai daqueles que dormem em leitos de pau-marfim nas câmaras refrigeradas, e desprezam o vento e o ar do Senhor, e não obedecem à lei do verão.
10 - Ai daqueles que passam em seus cadilaques buzinando alto, pois não terão tanta pressa quando virem pela frente a hora da provação.
11 - Tuas donzelas se estendem na areia e passam no corpo óleos odoríferos para tostar a tez, e teus mancebos fazem das lambretas instrumentos de concupiscência.
12 - Uivai, mancebos, e clamai, mocinhas, e rebolai-vos na cinza, porque já se cumpriram vossos dias, e eu vos quebrantarei.
13 - Ai de ti, Copacabana, porque os badejos e as garoupas estarão nos poços de teus elevadores, e os meninos do morro, quando for chegado o tempo das tainhas, jogarão tarrafas no Canal do Cantagalo; ou lançarão suas linhas dos altos do Babilônia.
14 - E os pequenos peixes que habitam os aquários de vidro serão libertados para todo o número de suas gerações.
15 - Por que rezais em vossos templos, fariseus de Copacabana, e levais flores para Iemanjá no meio da noite? Acaso eu não conheço a multidão de vossos pecados?
16 - Antes de te perder eu agravarei a tua demência — ai de ti, Copacabana! Os gentios de teus morros descerão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio Forte se voltarão contra teu corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão.
17 - E tu, Oscar, filho de Ornstein, ouve a minha ordem: reserva para Iemanjá os mais espaçosos aposentos de teu palácio, porque ali, entre algas, ela habitará.
18 - E no Petit Club os siris comerão cabeças de homens fritas na casca; e Sacha, o homem-rã, tocará piano submarino para fantasmas de mulheres silenciosas e verdes, cujos nomes passaram muitos anos nas colunas dos cronistas, no tempo em que havia colunas e havia cronistas.
19 - Pois grande foi a tua vaidade, Copacabana, e fundas foram as tuas mazelas; já se incendiou o Vogue, e não viste o sinal, e já mandei tragar as areias do Leme e ainda não vês o sinal. Pois o fogo e a água te consumirão.
20 - A rapina de teus mercadores e a libação de teus perdidos; e a ostentação da hetaira do Posto Cinco, em cujos diamantes se coagularam as lágrimas de mil meninas miseráveis — tudo passará.
21 – Assim, qual escuro alfanje a nadadeira dos imensos cações passará ao lado de tuas antenas de televisão; porém muitos peixes morrerão por se banharem no uísque falsificado de teus bares.
22 - Pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas jóias, e aviva o verniz de tuas unhas e canta a tua última canção pecaminosa, pois em verdade é tarde para a prece; e que estremeça o teu corpo fino e cheio de máculas, desde o Edifício Olinda até a sede dos Marimbás porque eis que sobre ele vai a minha fúria, e o destruirá. Canta a tua última canção, Copacabana! (Rio, janeiro, 1958).

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(*) Luiz Philippe Torelly, arquiteto e urbanista.
Criado em 2020-10-28 23:19:14
Insatisfeitos com a atual política "rodoviarista" do atual governador Rodrigo Rollemberg (PSB), o Grupo Brasília para Pessoas divulgou uma nota de repúdio à falta de atenção para os pedestres, ciclistas e outras formas coletivas de mobilidade urbana.
A seguir, a íntegra do documento:
"É com imenso pesar que se constata a continuidade da política rodoviarista de incentivo ao transporte automotivo. Obras em ritmo acelerado devastam grandes áreas no norte do DF. Tratores derrubam árvores e convertem áreas verdes em asfalto, com o objetivo de criar mais pistas, túneis e viadutos.
Enquanto cidades modernas abrem cada vez mais espaço para as pessoas e restringem a circulação e o estacionamento de carros na área central, a capital federal segue na contramão e retoma projetos de governos anteriores que incentivam o uso do automóvel, o que intensificará os congestionamentos, a poluição, o estresse e as dificuldades a pedestres e ciclistas.
Além de estarem na contramão da tendência moderna de planejar cidades para as pessoas, os projetos contrariam a legislação.
A Política Nacional de Mobilidade Urbana estabelece como diretriz a “prioridade dos modos de transportes não motorizados sobre os motorizados e dos serviços de transporte público coletivo sobre o transporte individual motorizado”.
Entre os objetivos da política nacional estão “proporcionar melhoria nas condições urbanas da população no que se refere à acessibilidade e à mobilidade” e “promover o desenvolvimento sustentável com a mitigação dos custos ambientais e socioeconômicos dos deslocamentos de pessoas e cargas nas cidades”.
Quanto à política urbana, verifica-se completa distorção das ações governamentais com o estabelecido nas diretrizes do Estatuto das Cidades, que garante o direito a cidades sustentáveis e a proteção, preservação e recuperação do meio ambiente natural e construído.
Na Lei Orgânica do Distrito Federal, a disformidade também se faz presente, uma vez que a lei afirma o caráter essencial do transporte público coletivo e impõe ao poder público o dever de estimular veículos não poluentes. Entre os objetivos da Lei Distrital n° 4.566/2011 (PDTU-DF) estão: “reduzir a participação relativa dos modos motorizados individuais”, “desenvolver e estimular os meios não motorizados de transporte”, “proporcionar mobilidade às pessoas com deficiência ou restrição de mobilidade”, “priorizar, sob o aspecto viário, a utilização do modo coletivo de transportes e a integração de seus diferentes modais” e “apresentar soluções eficientes, integradas e compartilhadas de transporte público coletivo no Entorno”.
Não bastassem as diversas leis, o programa de governo do atual governador, Rodrigo Rollemberg[PSB], reconhece expressamente o esgotamento do modelo de transporte centrado nos carros e estabelece diversos objetivos favoráveis ao transporte coletivo e ao transporte saudável, tais como: “Promover o funcionamento sistêmico do transporte público, com o objetivo de tornar atrativo o transporte coletivo”; “Ampliar o uso de bicicletas para deslocamentos diários casa-trabalho e casa-escola”; “Facilitar o uso das calçadas pelos pedestres”; “Promover acessibilidade para as pessoas com deficiência ou dificuldades de locomoção”.
De modo a reiterar a disformidade em relação à legislação, as imagens do projeto para o final da Asa Norte, chamado de Trevo de Triagem Norte (TTN), evidenciam o viés rodoviarista, voltado ao transporte individual motorizado. Pedestres, ciclistas e usuários de transporte coletivo não aparecem sequer para ilustrar a proposta. A situação já bastante precária a quem se locomove sem carro irá piorar com mais pistas e obstáculos a transpor.
Da mesma forma, as notícias do GDF revelam a intenção de incentivar o transporte individual motorizado no norte do Distrito Federal: “Novas pistas, pontes, viadutos e túneis vão beneficiar cerca de 100 mil motoristas que passam pela região diariamente” (notícia publicada pela secretaria de mobilidade em 30/6/2016).
Em outra notícia, de 12/7/2016, o governador afirma que as 26 intervenções no norte do DF (viadutos e pontes) “vão melhorar muito a qualidade de vida, sobretudo de quem mora na ala norte do Distrito Federal”.
É inconcebível na atualidade um projeto com foco no transporte automotivo. E não precisa ser especialista em mobilidade urbana para constatar a situação caótica e vergonhosa na região norte do DF, que requer um novo modelo de mobilidade urbana, com prioridade absoluta ao transporte coletivo.
No entanto, vale ressaltar que não basta apresentar um macroprojeto “para inglês ver” que ignora por completo os pormenores dos acessos a quem se locomove por modos coletivos e saudáveis de transporte.
Qualquer leigo que pare e observe o movimento constatará os problemas: uso desigual do espaço, com muitos carros (a maioria ocupada apenas pelo motorista) e poucos ônibus (a maioria passa superlotado); ausência de locais de travessia e ausência de caminho seguro para pedestres e ciclistas.
Os trabalhadores que chegam nos ônibus lotados enfrentam um caminho tortuoso e inacessível, e atravessam correndo no meio dos carros para chegarem vivos ao outro lado.
A ideia de ampliar vias e criar túneis e viadutos para acabar com os congestionamentos e melhorar a qualidade de vida é totalmente equivocada, como revela a EPTG (“Linha Verde”), que passou por mega-ampliação viária e, após alguns meses, voltou a ficar completamente congestionada.
Para agravar o caos e o mau uso de recursos públicos, o prometido corredor com ônibus modernos, rápidos e integrados com bilhete único jamais funcionou.
Tampouco a ciclovia foi executada. Em suma, usuários de transporte coletivo, pedestres e ciclistas sofrem diariamente com as péssimas condições na via que tem mais aptidão para Linha Cinza ou Linha Vermelha.
Novas ampliações viárias – com mais pistas, viadutos e túneis – tornam a cidade mais cinza, poluída e congestionada. Ao seguir com a lógica atrasada, o GDF desperdiça recursos públicos, promove mau uso do espaço urbano e devastação de áreas verdes, aumenta a impermeabilização do solo, promove o caos motorizado e a poluição. O atrasado modelo rodoviarista gera caos e efeitos negativos, num círculo vicioso bem conhecido há muitas décadas.
O valor gasto nos inúmeros projetos anunciados pelo GDF voltados ao transporte automotivo deveria ser investido exclusivamente na melhoria do transporte coletivo, com energia limpa e integração, e numa rede segura e confortável de caminhos voltados a pedestres e ciclistas.
Além dos R$ 207 milhões inicialmente previstos na ampliação viária no norte do DF, outros projetos milionários com concepção rodoviarista atrasada foram anunciados, como um viaduto na EPIG, um túnel em Taguatinga e a nova via Transbrasília.
A situação atual é de grave deficiência a quem se locomove sem carro no Distrito Federal. Usuários de transporte coletivo sofrem com a péssima qualidade no serviço e se sujeitam a superlotação, falta de informação e de pontualidade.
Pedestres e ciclistas também se sujeitam a péssimas condições, apesar da fama de ser capital das ciclovias e do respeito ao pedestre.
A necessária mudança de paradigma – do modelo rodoviarista insustentável baseado no automóvel para o modelo moderno centrado nas pessoas – requer não apenas infraestrutura, mas especialmente mudança de mentalidade dos gestores públicos e planejadores.
Continuaremos atentos às ações governamentais na área de mobilidade urbana. A participação na elaboração das políticas públicas e a fiscalização das ações governamentais são direitos garantidos na Constituição Federal e na Política Nacional de Mobilidade Urbana.
Esperamos que o governador e os gestores públicos se sensibilizem, revertam o processo de devastação e passem a investir em projetos e ações que tornem o Distrito Federal mais humano, sustentável e acessível. O lema atual é o planejamento da cidade para as pessoas, e não para motores. No movimento de humanização, pistas para carros se convertem em parques e áreas de lazer. Estacionamentos viram praças, hortas e bibliotecas.
Brasília, 19 de agosto de 2016.
Brasília para Pessoas".
Brasília para Pessoas | Mobilize Brasil
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http://www.mobilize.org.br/blogs/brasilia-para-pessoas/https://brasiliaparapessoas.wordpress.com/
Criado em 2016-09-05 22:50:14
Filme brasiliense baseado em uma história real, Advento de Maria, conta a história de Maria, uma criança de 11 anos que nasceu com o sexo biológico masculino. No entanto, ela se identifica com o gênero feminino.
Nascida na periferia do Distrito Federal, Maria é católica, frequentadora assídua de missas, o garoto enfrenta, em segredo, as pressões religiosas e familiares que o afastam de sua menina interna.
Este longa-metragem Advento de Maria (1h40), drama ficcional, do premiado diretor e roteirista brasiliense Vinícius Machado levou cinco troféus no 54º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. A produção impressionou ao retratar a história desta menina de 11 anos que busca sua identidade. Ganhou os prêmios de melhor longa-metragem pelo júri popular, melhor roteiro de Vinicius Machado, melhor atriz protagonista para Maria Eduarda Maia – a intérprete da menina -, melhor maquiagem por Alzira Bosaipo e melhor figurino de Tiago Venusto.
“Ficamos muito felizes. Filmamos esse filme em 2019 em 16 dias intensos. E sem recursos, tudo feito com muito empenho por uma equipe linda e voluntária que topou investir nessa linda e inspiradora história. Me atrai muito as questões sociais que atingem as vidas particulares das pessoas. São dilemas e conflitos que, normalmente a coletividade olha com olhos leigos e afastados e não tem ideia do que acontece no cotidiano privado”, relata, emocionado, o diretor e roteirista Vinicius Machado.
Neste filme, ele contou com a presença de atores, atrizes e produtores do DF. Vinicius e a assistente de direção Thays Ellinne assinam juntos como Ultravioleta Filmes. As produtoras OF Produções e Macunaíma Audiovisual toparam investir no longa e na temática como realizadores e contaram com Apoiadores como a AICON Ações Cinematográficas e a DOT Cine.
Ainda, os atores de Brasília Maria Eduarda Maia (Maria), Júlia Schelle (Lena), Beta Rangel (Ana), Genivaldo Sampaio (Denis), Adriana Lodi (Juliana), Andrés Cardell (Maicon), Yago Queiroz (Diogo), Danielle Sousa (Alessandra) e Marcelo Pelucio (Pe. Lucas) dão vida a obra.
Conheça a história - No enredo nada previsível e emocionante, Maria (Maria Eduarda Maia) segue enfrentando as dificuldades internas sozinha. Mas, ao conhecer Lena (Júlia Schelle), a nova vizinha, de mesma idade e candomblecista, ela vê seu destino mudar. Lena se torna grande amiga de Maria e essa pura amizade leva a protagonista a compreender e aceitar o seu verdadeiro eu. (Foto, abaixo, de Juliana Caribé).

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(*) O filme estará em cartaz em sessão presencial em 2022. Não recomendado para menores de 14 anos. Mais informações: Instagram: @adventodemaria
Criado em 2021-12-20 18:10:27
O ministro Gilmar Mendes, ao votar hoje (9/3) pela suspeição do ex-juiz Sérgio Moro no famoso caso do tríplex do Guarujá, falou em “populismo jurídico” e disse que “a cadeia de ações de Moro não revela só sucessão de atos lesivos ao ex-presidente Lula, mas do maior escândalo da história da Justiça do Brasil”.
Gilmar afirmou que Sérgio Moro agiu propositalmente para impedir que Lula fosse candidato à Presidência da República. Moro não mediu esforços para prender Lula e mantê-lo na cadeia. Em troca, ganhou o cargo de ministro da Justiça do governo Bolsonaro, que ele ajudou a se eleger.
Gilmar defendeu a nulidade de todos os atos do processo principal e determinou uma multa de, pelo menos, R$ 200 mil a Sérgio Moro. Em sua argumentação, que durou mais de duas horas, o ministro afirmou que Moro cometeu “erro inescusável”. Ao final de seu voto, Gilmar disse que assim “ficarão nulos todos os atos do processo principal”.
O ministro Ricardo Lewandowski também leu seu voto acompanhando Gilmar Mendes. em seu voto, o ministro ressaltou a importância dos vazamentos das conversas telefônicas do Intercept para desvendar a escandalosa trama urdida em Curitiba contra o devido processo legal e contra o Estado Democrático de Direito.
O julgamento foi interrompido com o pedido de vista do ministro Nunes Marques que disse ter necessidade de estudar melhor o caso.
A Segunda Turma do STF julgou a suspeição de Moro um dia após o ministro Edson Fachin ter anulado as condenações de Lula no âmbito da Operação Lava Jato e determinado o envio dos processos para o Distrito Federal.
A ministra Carmem Lúcia, que já havia votado pela rejeição da suspeição de Moro, ficou de apresentar seu voto após a apresentação do voto de Nunes Marques, que não tem data para ser levado ao plenário da Segunda Turma. Ela pode manter ou mudar o voto. Edson Fachin, diante da derrota de sua proposta de adiar o julgamento (foram 4 votos contra o adiamento), também ficou de apresentar seu voto em outro momento. Nesse caso, tudo pode mudar.
A seguir, clique para ler as íntegras dos votos históricos dos ministros Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski.
Criado em 2021-03-10 02:43:37
O Brasil é o quarto país do mundo com mais dinheiro em paraísos fiscais. Em 2012, eram US$ 520 bilhões. Os recursos sonegados anualmente poderiam financiar toda a Previdência Social e a Saúde do país. (Fonte: Tax Justice Network, 2012; Sinprofaz, 2015).
Direitos Humanos em 2 minutos (DH2) reúne artistas, realizadores e ativistas para explicar, de maneira lúdica e acessível, temas complexos como racismo, violência de gênero, justiça fiscal, migração, mobilidade urbana e mudanças climáticas, entre outros.
São 12 filmes curtos, com os atores Iara Pietricovsky e Alexandre Ribondi em cena – os dois dividem também a direção do projeto. Os textos são de Ribondi.
Foi elaborada também uma cartilha sobre direitos humanos, com os principais conceitos e legislações relativas aos temas apresentados no projeto. Esperamos que a cartilha seja uma fonte para professores, alunos e movimentos sociais interessados em discutir direitos humanos de maneira transformadora.
Criado em 2016-07-29 17:46:31
Maria Lúcia Verdi -
Exposição multimídia “Dragão Floresta Abundante”, de Christus Nóbrega (*), fica em temporada no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-Brasília) até o dia 14/1/2018. De terça a domingo, das 9h às 21h. Entrada franca.
Selecionar as imagens para apresentar, numa obra, uma viagem à China é tarefa para lá de desafiadora. Unam-se os olhares do semiótico, do antropólogo, do poeta, do historiador, do fotógrafo e ainda serão poucos.
Tendo vivido cinco anos em Pequim e viajado por quase todo o país, muito me tocou o trabalho do paraibano Christus Nóbrega “Dragão Floresta Abundante – Lóng pèn sen”, exposto no CCBB, com curadoria de Renata Azambuja.
Trata-se de uma homenagem à cultura chinesa que influenciou todo o Oriente, à intrigante língua oficial, o Mandarim, além de uma aventura estética belamente resolvida.
O tríptico fotográfico que nos recebe na entrada diz, em seu título, da percepção do autor sobre o país onde esteve, em residência, como artista convidado da Academia Central de Belas Artes de Pequim: “Agitações sistêmicas, concêntricas e organizadas em lago verde”.



A China é o Império do Meio, segundo os caracteres chineses que lhe dão nome: Zhong Huá. Numa das fotos do tríptico uma mão provoca uma agitação concêntrica no referido lago verde. O verde do exército maoísta, recordado na terceira foto, com a icônica estrela vermelha.
No fundo da sala, em frente a uma grande instalação de fotografias do artista, na Praça da Paz Celestial, Tian`anmen, em frente à Cidade Proibida – “o centro do centro do mundo” – há muito aberta a todos, veem-se colocadas alguma barras metálicas.
O que significam? Referência simbólica ao massacre que lá ocorreu em 1989, mas também talvez referência aos eixos da Terra, assim como aos invisíveis eixos que conectam palavras, narrativas, planetas, astros e entes do universo - distâncias e proximidades, concêntricos labirintos. Eventos históricos, situações contemporâneas, que o artista busca compreender, nelas situar-se.
No (imperdível) texto “El idioma analítico de John Wilkins”, de Jorge Luis Borges, utilizado por Christus como uma de suas referências, lemos: “[...] cabe sospechar que no hay universo en el sentido orgânico, unificador, que tiene esa ambiciosa palavra. Si lo hay falta conjeturar su propósito; falta conjeturar las palabras, las definiciones, las sinonimias, del secreto diccionário de Dios.”
Selecionar ícones da aventura chinesa de três mil anos de civilização e inventar seu próprio universo chinês, incorporando-o antropofagicamente - tarefa cumprida por Christus. O artista fotografa seu corpo nu, agachado, semi encoberto por grandes figuras da mitologia chinesa recortadas em papel vermelho – mistura-se a elas.
O vermelho e o dourado são as cores da China. O recorte em papel é uma das artes tradicionais, assim como a arte de fazer nós, ou a arte do chá. Os nós feitos com fios de seda que compõem ideogramas auspiciosos ou reproduzem cultuados símbolos do Budismo.
O corriqueiro chá verde em torno do qual os chineses se reuniram ao longo da sua história para ouvir relatos, discutir e rir, ou o chá precioso que alimentava a mente dos literatos em suas reuniões: o “Oolong”.
Os chineses, como os brasileiros, amam o jogo, a brincadeira, o dar “um jeitinho” nas coisas, numa situação qualquer. Soltar papagaios, ou pipas, é uma das diversões preferidas de fim-de-semana; num dos espaços da mostra, Christus coloca pipas feitas de papel de arroz com caras chinesas que fotografou, intitulando a instalação “Passeio controlado”.
Sim, a China controla, todos sabem. Lá o conceito de democracia é outro, houve uma república chinesa no breve período de 1912 a 1949, período em que o escritor realista Lu Xun modernizou a literatura chinesa, sendo ele uma das fontes do artista radicado em Brasília.
A RPC parece um Império que se transformou pelo comunismo mantendo as raízes plantadas por Confúcio, abrindo-se ao Capital.
O modelo de governo que o Partido Comunista Chinês aplica, com seus planos econômicos quinquenais é algo muito peculiar, um exercício de compreensão sem respostas fixas, só possível aos que se adentram nas contradições do país. Mas a tradição é a alma do povo chinês, embora ele esteja encantado com a tecnologia e o consumismo, nisso se igualando ao resto do mundo.
Na parede à direita da sala, especial homenagem à língua, grandes fotos de caras chinesas com ideogramas que as definem, permitindo ao público entender um pouco da construção do mandarim, cada caractere tendo um sentido completo e a aproximação dos diferentes caracteres construindo as expressões. Algumas nos fazem rir como a que compõe a palavra “esposa”: a união do caractere “mulher” e de “vassoura”... O fascínio que exerce no estrangeiro a misteriosa língua chinesa, que até o início do século XX foi uma barreira até mesmo para os chineses.
Foi preciso um esforço de síntese e simplificação para que o povo acedesse à língua e assim diminuísse a distância que o separava das elites letradas, formada a partir de rigorosos exames centrados nos clássicos chineses, linguisticamente muito complexos. Os chineses, que falam distintas línguas, podem comunicar-se entre si por meio do mandarim escrito, a língua oficial é o solo de união das 56 etnias que lá convivem.
A síntese da China, como questão, para mim se coloca no vídeo intitulado “Fábrica de fazer nuvens”. De uma chaminé de fábrica saem nuvens poluidoras que criam nuvens, belos movimentos de massa e cor no ar, caso não associados à fonte de onde surgem. O feio e o belo, a nova China que cresceu e poluiu e agora se empenha em lutar pelo meio ambiente. O esforço que significou retirar da miséria 700.000.000 de pessoas.
No centro da mostra, uma grande construção em madeira expõe objetos, uma estrutura que pode sugerir várias coisas, das quais escolho duas: a questão atual do “país em obras” e o modo como se expunham, na China Imperial, os objetos dos colecionistas.
A China que deixei em 2005 era, por todos os lados, um grande canteiro de obras e acredito que, a que verei retornando agora, seguirá sendo.
Certamente lugar de exploração da mão-de-obra trabalhadora, que sobrevive sem pagamento até o final do trabalho, apenas recebendo comida e dormindo em apertados quartos coletivos – mas também um país que constrói ininterruptamente, consciente da necessidade de dar trabalho, de alimentar um bilhão e trezentos e oitenta milhões de pessoas.
Os mandarins, os senhores letrados, todos amavam colecionar preciosidades, cito algumas: pedras trabalhadas pela natureza ou pelo homem, o jade a mais simbólica delas; jogos de chá, animais reais ou mitológicos (o Dragão o principal deles, associado aos Imperadores) esculpidos em distintos materiais; porcelanas, bronzes, cestos de palha e contendores de comida - tudo elaborado, com a precisão e delicadeza que exige também a caligrafia, considerada a mais nobre das artes.
Havia os “curio”, ou os gabinetes de curiosidades, menores ou maiores construções feitas em madeira nobre, onde os proprietários expunham essas maravilhas.
Na construção que é o centro da mostra, Christus expõe a sua coleção, composta por alguns significantes básicos, dos quais cito: exemplares do Livro Vermelho de Mao, um par de tênis vermelho com que ele pisou naquele solo, bule de chá, os componentes da arte caligráfica, o texto citado de Borges datilografado e gavetas onde tudo (ou nada) pode estar - talvez melhor não abri-las.
As intermináveis gavetas que podem formar uma consistente metáfora para essa China misteriosa e interminável. Como diz o I Ching, uma das fontes do artista, com sua escritura poética que conjetura as palavras - em seu jogo do acaso - em imagens atemporais: o Tao - o caminho de tudo e do todo - é puro fluxo, devir, mutação.
Christus Nóbrega, Dragão Floresta Abundante, em seu nome chinês, aponta poeticamente para tudo isso.
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(*) A produção foi realizada durante o período em que o artista esteve participando de um programa de residências artísticas do Ministério das Relações Exteriores, em parceria com a Central Academy of Fine Arts – CAFA, em Pequim, entre outubro e dezembro de 2015. Essa é a primeira experiência do gênero realizada com a participação de um artista brasileiro na China.
Criado em 2017-12-03 14:59:54
Romário Schettino –
Em vez de lamentar dificuldades e limitações, Celso Athayde partiu para realizar seus próprios sonhos e os de milhares de moradores das favelas do Brasil. Foi com este espírito motivador que ele e os rappers Nega Gizza e MV Bill criaram, há vinte anos, a Central Única das Favelas (CUFA).
É assim que Celso Athayde resume seus princípios: “Onde eles [os pessimistas] veem carência, eu vejo potência; onde eles [os pessimistas] veem tristeza, eu vejo solidariedade; onde eles [os pessimistas] veem ameaça, eu vejo reação”. Por isso, a CUFA e a Favela Holding, presidida por ele, sustentam, com sucesso, seus negócios comunitários em todo o território nacional.
Celso Athayde nasceu no dia 28 de fevereiro de 1963, em Nilópolis (RJ – Baixada Fluminense), onde viveu até os seis anos. Aos 16, ele já havia morado em três favelas, abrigos públicos e na rua. Foi criado na favela do Sapo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Hoje é casado e tem três filhos.
Athayde é um autodidata, apesar de ter feito apenas o antigo curso primário noturno, é autor de sete livros, dos quais três são best sellers. Entre eles estão: Falcão - Mulheres, Tráfico; Falcão - Meninos do Tráfico; Cabeça de Porco e Um País Chamado Favela. Ele se desligou da CUFA em agosto de 2015 para fundar um grupo de empresas focadas nas favelas e seus moradores: a Favela Holding, a primeira empresa social de que se tem notícia. Atualmente, Celso é CEO da holding que detém mais de 20 empresas, todas com ações em favelas e periferias.

Apesar de não ter cursado universidade, Celso já palestrou em algumas das mais importantes faculdades do mundo, como a London School Economic, Harvard, MIT, Columbia University, entre outras.
Celso criou e liderou ações que se transformaram em referência, como o Prêmio Anu, realizado pela CUFA para destacar vários tipos de ações ocorridas dentro de favelas brasileiras e que contribuam para o desenvolvimento humano e social da comunidade.
Entre 2000 e 2003, Celso produziu o Festival Hutúz, realizado no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro. A partir de 2004, passou a ser realizado no Canecão, mas em 2009 foi encerrado. O Prêmio Hutúz premiava os destaques do rap, tendo se tornado o maior evento de hip hop da América Latina.
A seguir, resumo da entrevista concedida por Celso Athayde ao site brasiliarios.com e ao jornal Brasil Popular:
Qual é a história da Central Única das Favelas (CUFA)? E qual é o seu ramo de negócios por meio da Favela Holding?
A CUFA é uma organização brasileira reconhecida nacional e internacionalmente nos âmbitos político, social, esportivo e cultural que existe há mais 20 anos. Foi criada a partir da união entre jovens de várias favelas, principalmente negros, que buscavam espaços para expressarem suas atitudes, questionamentos ou simplesmente sua vontade de viver. Criei a instituição junto com os rappers Nega Gizza e MV Bill.
Com o passar dos anos, a CUFA realizou diversos projetos ligados à cultura, à música e ao esporte. A fim de viabilizar financeiramente essas ações, criamos a Favela Holding, primeira holding social voltada para fomentar a economia das favelas. Hoje o grupo conta com mais de 20 empresas, que operam desde o comércio de passagens aéreas e pacotes de viagens para moradores de favelas até de logística de entregas de produtos de beleza em comunidades (na foto, abaixo), feitas por egressos do sistema prisional, passando pela maior agência de live marketing em favelas do país.

Qual o seu cargo na CUFA e como a central está organizada nacionalmente? Como funciona a sua estrutura nacional e nas regionais? Vocês têm alguém em Brasília?
Hoje sou um voluntário da CUFA, como milhares em todo o Brasil. A CUFA está presente em mais de cinco mil favelas, nos 26 estados da federação e no Distrito Federal. Cada uma dessas favelas tem uma liderança da CUFA, que fica responsável por operar as ações da instituição, naquele território. Estamos presentes em Brasília e o presidente da CUFA-DF é Bruno Kesseler.
Como funciona a comunicação entre as diversas CUFAs?
Temos um grupo de whatsapp com representantes da CUFA de todo o Brasil, com representantes de todos os estados e o DF. No período de pandemia, estamos fazendo reuniões semanais por videoconferência, com todos os representantes.
Como sobrevive a entidade? Doações? Convênios?
Através de parcerias e patrocínios das ações que implementamos em todo o Brasil. Além, de parte do faturamento da Favela Holding, que é a principal mantenedora da CUFA.
Como é garantida a independência da CUFA em relação a governos e partidos políticos?
A credibilidade da CUFA, construída ao longo de todo o tempo, garante essa independência. Obviamente, nesses mais de 20 anos, contamos com ajuda do poder público, em algumas de nossas ações, nos âmbitos municipal, estadual e federal. Mas, durante todo esse tempo, nunca fizemos campanha política nem subimos em palanque com político nenhum, em nenhum canto desse país. A credibilidade e a história da Central Única das Favelas falam por si só.
Quais são os principais projetos da CUFA neste momento, e quais você considera os mais relevantes?
O grande carro-chefe da CUFA, há tempos, é a Taça das Favelas, a maior competição de futebol entre favelas do mundo e acontece em todo o Brasil.. Tivemos que paralisar o projeto, por conta da pandemia. Já que, só no Rio de Janeiro, o torneio mobiliza 96 mil jovens anualmente. No momento implementamos o CUFA Contra o Vírus que leva doações e mantimentos para moradores de favelas, de todo o Brasil, que estejam passando por dificuldades, durante o período do confinamento. Além do Mães da Favela, que, pra mim, é o mais relevante do momento, também criado no período de pandemia, que fornece Vale Mães, no valor de R$ 120, para milhões de mães-solo moradoras em favelas de todo o Brasil e que enfrentaram dificuldades para sustentar seus lares durante a pandemia.
Como a CUFA fez para com conseguir recursos para sustentar esses programas durante a pandemia?
Pela primeira vez na sua história, a CUFA pediu doações. Devido à sua história, foi prontamente atendida recebendo muitas doações de pessoas físicas e realizando parecerias com grandes empresas, que viabilizaram essa ajuda humanitária a mais de cinco mil favelas de todo o território nacional.
Qual a papel da CUFA na organização dos movimentos sociais nas comunidades mais vulneráveis?
Imenso. Na Taça das Favelas, por exemplo, cada liderança mobiliza centenas de garotos e garotas, para montar a seleção de futebol da sua favela. Dando protagonismo social a esses jovens.
A CUFA tem algum projeto educacional?
A CUFA tem projetos educacionais em suas bases em todo o país. No Rio de Janeiro, por exemplo, embaixo do Viaduto de Madureira, em tempos de normalidade, temos oficinas de teatro, dança, contação de história, skate, percussão, basquete, futebol, DJ, informática, corte e costura, artesanato, entre outras atividades.
Fizemos parceria com o Facebook, em diversas ocasiões, e capacitamos milhares de empreendedores em favelas de todo o Brasil, em marketing digital, para usarem as redes em prol dos seus negócios. Em breve teremos outra grande parceria com o Facebook.
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Veja aqui quem são os rappers Nega Gizza e MV Bil
Criado em 2020-09-06 17:18:34
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) -
O secretário-geral da Presidência, sinistro Onyx Lourenzona, disse à rádio Jovem Pan na quinta, 25 de março, que é ineficiente adotar o lockdown para combater o coronavírus.
A razão, segundo o sinistro, é que ninguém consegue controlar a locomoção dos passarinhos, cães de rua, gatos, ratos, pulgas, formigas, possíveis vetores do vírus todos esses bichos.
Como fazer o "lockdown dos insetos?", pergunta o sinistro veterinário.
Gente, que bobagem! Basta pulverizar ivermectina sobre as cidades, uai!
Pega os jatos Gripen lá da Base Aérea de Anápolis e tchuôuuuuu... nebuliza o Brasil inteiro com esse remédio pra piolho, lombriga, sarna, bicho-de-pé... Chato, né! Estoque tem. Dá pra cobrir o País com uns três metros de pó.
Duvido que escape algum inseto. Acho que nem barata nem mesmo escorpião!
– O quê? Escorpião não é inseto? Gente do céu! E morcego?
O prejuízo da chamada Operação Detefown será das letras tcheco-libanesas. Vai deixar de rolar aquela história do Kafta em que um tal de Gregório vira hexápode durante a madrugada.
Em compensação, as goiabas da goiabeira da Damares ficarão livres de qualquer coró ou bigato. Uai, a larva da mosca-das-frutas, sô!
(Ai, ai, Djísus! Acabo de descobrir que Jesus já defendia o SUS!)
Alguém aí tem o telefone desse ministro com nome de cruza de Chevrolet com chuveiro?
Criado em 2021-03-26 13:09:10
Júlia Coury e Rafaela Santos -
Com a IV Jornada dos BRICS acontecendo essa semana na Universidade de São Paulo (USP), existe muita especulação acerca do bloco internacional, mas pouco se sabe sobre o atual “status” da organização. O grupo, fenômeno criado pelo Goldman Sachs, no qual Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul eram impulsionados pelo mercado que refletia mudanças profundas na estrutura da economia global, fazia as escolhas de políticas econômicas "certas" e atingia crescimentos econômicos vultosos.
Todavia, com as crises na economia global nos últimos anos, e crescimentos econômicos diminutos de alguns dos membros, a sigla passou a ser questionada pelo nível de importância no debate internacional. Existem dúvidas sobre as convergências e as divergências políticas e econômicas internas, sobre o objetivo de existência, sobre a atuação no sistema internacional e, o pior, sobre sua relevância e permanência perante os outros blocos.
Uma das principais colocações em relação ao grupo é a sua divergência identitária, cada país tem uma abordagem política e econômica interna, deixando em evidência uma dificuldade em entender a construção e o motivo da união no bloco. No Brasil, país que vem enfrentando polarização política e recessão econômica, a eleição do Presidente Jair Bolsonaro, político conservador de extrema direita, marca a nova direção tomada tanto no âmbito doméstico como externo. A sua agenda econômica é pautada pelo liberalismo econômico, com promessas de privatização de empresas estatais, atração de investimentos estrangeiros e fortalecimento do agronegócio. O presidente Bolsonaro é um defensor do bilateralismo, apesar de cobiçar entrar na OCDE, defende um total alinhamento do Brasil aos Estados Unidos e já criticou diversas vezes gestões passadas por priorizarem a agenda Sul-Sul.
Esse novo posicionamento foi recebido com espanto na África do Sul. As declarações do presidente Cyril Ramaphosa ressaltaram que o BRICS é uma família comprometida com o multilateralismo e com o benefício mútuo dos países membros. O presidente africano dirige o país desde 2018 e promete reerguer empresas estatais, buscar investimento externo e “desenvolver” a mineração, uma das principais fontes de renda da África do Sul, a primeira economia do continente africano. Para o país sul-africano, o apoio constante oferecido pelo BRICS às iniciativas empresariais nacionais foram fundamentais para sustentar os pilares de desenvolvimento do país.
Na Rússia, o resultado da última eleição presidencial aconteceu em 2018 e manteve Putin no poder. Desde que assumiu pela primeira vez a presidência, há 21 anos, a política externa de Putin tem sido pautada em dois objetivos: preservar a unidade do país e restaurar seu status como superpotência na arena internacional. No entanto, o subsequente declínio dos preços do petróleo, a guerra da Criméia e o isolamento da economia global enterraram qualquer esperança de aceleração de crescimento econômico. Ademais, Putin enfrenta outros problemas domésticos que afetam a reputação internacional russa, como a falta de proteção dos direitos de propriedade, do Estado de direito, da concorrência e do combate contra corrupção.
O desemprego está em níveis recordes na Índia, o rendimento de agricultores despencou e a produção industrial diminuiu. Além disso, o país lida com retórica nacionalista, polarização religiosa, uma grande quantidade de programas de bem estar social. O Primeiro ministro, Narendra Modi, não poupa esforços para fundir nacionalismo e desenvolvimentismo como políticas do governo.
Para a República Popular da China em 2013, desde que tomou posse como presidente, Xi Jinping realizou reformas para acabar com a corrupção sistêmica e garantir um desenvolvimento mais sustentável da economia chinesa. Os seus mais recentes projetos caracterizam a ascensão da China como potência global, demonstram o caráter mais expansionista de Xi Jinping com relação aos líderes chineses anteriores e posicionam Beijing no centro geoeconômico e político da região. No entanto, iniciativas chinesas podem enfraquecer o dinamismo do BRICS já que o “Belt and Road Initiative” (BRI) é considerado um potencial competidor com o projeto Russo, União Econômica Eurasiática, e diminuem a tradicional influência que a Rússia exerce na Ásia Central. Além disso, a Índia, que historicamente possui disputas territoriais com a China, vê a “Maritime Silk Road Initiative (MSRI)”, parte do BRI, como um fortalecimento naval dos chineses no Oceano Índico.
Nesse sentido, a política externa de cada membro pode desafiar a dinâmica e a convergência do bloco. A própria China e a Rússia podem ser vistas como revisionistas na arena internacional, cada uma, porém, com objetivos destoantes. O BRICS pode ser visto, na lógica de projeção externa chinesa, como um instrumento de execução do soft-power chinês. O uso dessa ferramenta cultural e econômica visa aumentar a influência política e econômica global chinesa ao exportar sua capacidade doméstica excedente; ao ser uma das principais fontes de Investimentos Externos Diretos (IEDs); ao promover a internacionalização do renminbi; e ao desejar expandir o número de membros com o BRICS Plus. Ao passo que para a Rússia, que tenta restaurar seu status como superpotência, o BRICS pode ser encarado como uma plataforma de discussão de temas relacionados à criação de uma ordem mundial multipolar e uma alternativa às instituições ocidentais.
Os outros membros, Brasil, Índia e África do Sul, entretanto, preocupam-se com os impactos econômicos domésticos originados pelo BRICS. O presidente brasileiro, apesar da retórica de valorização do alinhamento com os EUA em detrimento da China, posiciona-se de modo divergente e pragmático dentro do foro internacional. As perspectivas atuais da abordagem brasileira no BRICS não são pautadas na ideologia de alinhamento Sul-Sul, mas sim nas vantagens econômicas promovidas pelo bloco. Para a Índia, que busca crescimento econômico dirigido pelo investimento em infraestrutura, a dinâmica dos BRICS consiste no aprofundamento da cooperação econômica entre os membros. Assim, possui um forte interesse na manutenção do relacionamento com a China, apesar das disputas fronteiriças históricas. Com relação à África do Sul, a despeito de suas pequenas taxas de crescimento desde que ingressou no bloco, o BRICS é uma forma de atrair investimentos externos e de pressionar por mudanças no sistema global que sejam mais favoráveis ao seu desenvolvimento.
Nesse contexto, é possível perceber as grandes divergências ideológicas, políticas e econômicas entre os países membros. Questiona-se, ainda, a possibilidade de haver futuro relevante para o bloco. Em uma perspectiva de permanência do bloco, a criação do Banco dos BRICS, vista com ceticismo por muitos especialistas, assim como a manutenção dos encontros anuais e a aposta na criação de eventos acadêmicos sobre o tema, são tentativas de forte interação entre os países-membros. Uma outra perspectiva aponta o enfoque nos relacionamentos bilateral intra-BRICS, conforme observado na reunião da cúpula em Brasília no fim de 2019.
Assim, não parece fidedigno afirmar uma deteriorização dos laços internos de parceria entre os países do BRICS, mas sim uma transformação do grupo de um agrupamento político para um agrupamento financeiro.
Para vislumbrar um futuro otimista do bloco, será necessário transformar o principal fator de decisão, que antes era o alinhamento Sul-Sul, em atuações pragmáticas, sustentáveis e inovadoras, de modo a focar na criação de maiores oportunidades para o setor de negócios. O bloco carece de iniciativas concretas e relevantes, principalmente, que tragam benefícios diretos a suas populações, assim como promovam maior convergência política entre os membros, visto que os países enfrentam problemas domésticos e possuem planos de expansão na arena internacional divergentes. Portanto, a criação e o fortalecimento de acordos comerciais, internos e em bloco, e a intensificação da cooperação entre outras áreas, como a da saúde, a do meio ambiente e a da tecnologia, podem garantir a força política, econômica e sobrevivência do grupo.
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(*) Julia Coury, estudante de Relações Internacionais da USP, membro do Elas No Poder, Talento Politize e finalista do programa Talentos do Legislativo 2020. Rafaela Santos, estudante de Relações Internacionais na USP, mentora e professora voluntária de assuntos internacionais no Cursinho Popular Lima Barreto - Favela da Vila Prudente.
(Lembrando que as análises e opiniões aqui contidas dizem respeito às autoras e não representam o posicionamento institucional das organizações).
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Referências:
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Criado em 2020-10-27 16:17:15
Para discutir a situação das creches públicas no Distrito Federal, o deputado distrital, Chico Vigilante (PT), realizará amanhã (15/9), às 15h, uma Comissão Geral na Câmara Legislativa.
Segundo o deputado, "as entidades filantrópicas que cuidam das creches públicas do DF enfrentam dificuldades financeiras para continuar o atendimento às crianças".
Entre as reclamações dos gestores, estão os constantes atrasos nos repasses feitos pelo Governo do Distrito Federal e a defasagem no pagamento por criança atendida. Atualmente, a secretaria transfere o valor de R$ 686 para os menores de três anos de idade, e R$ 588 para as crianças de quatro a cinco anos.
A vice-presidente do Conselho de Entidade de Promoção de Assistência Social (Cepas), Roberta Moraes, confirma os constantes atrasos no repasse pelo GDF. O pagamento deveria ser feito a cada três meses. Além disso, ela ressalta que os salários dos trabalhadores contratados são reajustados anualmente, mas há três anos o GDF não faz qualquer tipo de reajuste. “Estamos com uma defasagem de 42%”, em decorrência da inflação do ano", reclamou Roberta.
“O apoio da Câmara Legislativa é fundamental para evitar o fechamento das portas até o fim do ano”, completou a vice-presidente da Cepas.
De acordo com o Cepas, as entidades são responsáveis pela educação de aproximadamente 17 mil crianças de até 5 anos.
A educação infantil da rede pública do DF é fornecida por 42 Centros de Educação da Primeira Infância (CEPIs) e 59 creches conveniadas. De acordo com a Secretaria de Educação, a gestão destas instituições é terceirizada, realizada por meio de parceria com entidades filantrópicas sem fins lucrativos.
Para Chico Vigilante, a situação é preocupante e são necessárias ações imediatas para evitar o fechamento destas instituições. “O GDF não pode tratar com descaso as entidades que cuidam das nossas crianças. Estes futuros homens e mulheres merecem respeito”, enfatiza.
Criado em 2016-09-14 17:53:03
O espetáculo Myrna Responde, que será apresentado ao ar livre, na Praça Inhangá, em Copacabana, Rio de Janeiro, no dia 21 de dezembro, às 19h30, é um evento teatral adaptado de 11 crônicas de Nelson Rodrigues. A ação dessa peça acontece em um antigo programa de rádio. O show de auditório é onde Myrna responde aos ouvintes a partir das correspondências enviadas pelos consulentes no estilo dos anos 50.
Há 5 anos, foi instalada na Praça Inhangá uma estátua em tamanho natural de Nelson Rodrigues. E dia 21 de dezembro de 2021 é aniversário de 41 anos da morte de grande dramaturgo. Desde então, Sacha Rodrigues, neto de Nelson, produz, nesta data, um evento comemorativo em torno da estátua. Foram apresentadas cenas de peças do autor, esquetes, saraus, projeção de filmes e leituras dramatizadas sobre a obra rodriguiana.
Em 1921 a homenageada será Myrna. As crônicas que nos inspiram saíram originalmente no jornal A Noite, em 1949, e foram publicadas posteriormente em um livro, Não se pode Amar e ser Feliz ao mesmo Tempo, respondendo as cartas de leitores e leitoras, ávidos por aconselhamentos para os seus conflitos íntimos.
Nelson assumiu o nome de uma mulher, Myrna, produzindo crônicas-respostas com um olhar crítico, carregado de humor e sabedoria, além de um senso de observação profundo sobre os conflitos íntimos e sobre as contradições afetivas dos leitores.
Serão 10 atores, que se alternarão entre os personagens das 11 crônicas escolhidas da correspondência amorosa de Myrna. Myrna oferece conselhos aos seus consulentes, caminhos, atitudes e comportamentos que devem ser seguidos para que os seus interlocutores superem suas dúvidas e contradições amorosas. Assim, Nelson monta um painel de muitos conflitos afetivos da mulher e do homem médio brasileiro.
Myrna Responde é um espetáculo criado especialmente para esta data, realizado pela Cia. Janela Azul e dirigido por Delson Antunes.
Nos últimos meses, durante a pandemia, a estátua foi vandalizada, suja e pichada. O evento Myrna Responde marcará a troca da placa de apresentação da estátua no lugar da antiga, que se encontra gasta e riscada.
Ao final, os atores realizarão a lavagem e purificação da estátua em um ritual cênico com músicas, coreografias e textos de Nelson Rodrigues.
Vivemos um momento de crise profunda da identidade da sociedade brasileira. Nada melhor do que recuperar, homenagear e fortalecer um dos maiores ícones da nossa cultura, o pai da moderna dramaturgia brasileira, o Anjo Pornográfico, Nelson Rodrigues.

Criado em 2021-12-16 23:29:54