"A vida é de quem se atreve a viver".


Concêntricos labirintos – a mostra de Christus Nóbrega

Maria Lúcia Verdi -

Exposição multimídia “Dragão Floresta Abundante”, de Christus Nóbrega (*), fica em temporada no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-Brasília) até o dia 14/1/2018. De terça a domingo, das 9h às 21h. Entrada franca.

Selecionar as imagens para apresentar, numa obra, uma viagem à China é tarefa para lá de desafiadora. Unam-se os olhares do semiótico, do antropólogo, do poeta, do historiador, do fotógrafo e ainda serão poucos.  

Tendo vivido cinco anos em Pequim e viajado por quase todo o país, muito me tocou o trabalho do paraibano Christus Nóbrega “Dragão Floresta Abundante – Lóng pèn sen”, exposto no CCBB, com curadoria de Renata Azambuja.

Trata-se de uma homenagem à cultura chinesa que influenciou todo o Oriente, à intrigante língua oficial, o Mandarim, além de uma aventura estética belamente resolvida.

O tríptico fotográfico que nos recebe na entrada diz, em seu título, da percepção do autor sobre o país onde esteve, em residência, como artista convidado da Academia Central de Belas Artes de Pequim: “Agitações sistêmicas, concêntricas e organizadas em lago verde”.

 

 

A China é o Império do Meio, segundo os caracteres chineses que lhe dão nome: Zhong Huá. Numa das fotos do tríptico uma mão provoca uma agitação concêntrica no referido lago verde. O verde do exército maoísta, recordado na terceira foto, com a icônica estrela vermelha.

No fundo da sala, em frente a uma grande instalação de fotografias do artista, na Praça da Paz Celestial, Tian`anmen, em frente à Cidade Proibida – “o centro do centro do mundo” – há muito aberta a todos, veem-se colocadas alguma barras metálicas.

O que significam? Referência simbólica ao massacre que lá ocorreu em 1989, mas também talvez referência aos eixos da Terra, assim como aos invisíveis eixos que conectam palavras, narrativas, planetas, astros e entes do universo - distâncias e proximidades, concêntricos labirintos. Eventos históricos, situações contemporâneas, que o artista busca compreender, nelas situar-se.

No (imperdível) texto “El idioma analítico de John Wilkins”, de Jorge Luis Borges, utilizado por Christus como uma de suas referências, lemos: “[...] cabe sospechar que no hay universo en el sentido orgânico, unificador, que tiene esa ambiciosa palavra. Si lo hay falta conjeturar su propósito; falta conjeturar las palabras, las definiciones, las sinonimias, del secreto diccionário de Dios.”

Selecionar ícones da aventura chinesa de três mil anos de civilização e inventar seu próprio universo chinês, incorporando-o antropofagicamente - tarefa cumprida por Christus. O artista fotografa seu corpo nu, agachado, semi encoberto por grandes figuras da mitologia chinesa recortadas em papel vermelho – mistura-se a elas.

O vermelho e o dourado são as cores da China. O recorte em papel é uma das artes tradicionais, assim como a arte de fazer nós, ou a arte do chá. Os nós feitos com fios de seda que compõem ideogramas auspiciosos ou reproduzem cultuados símbolos do Budismo.

O corriqueiro chá verde em torno do qual os chineses se reuniram ao longo da sua história para ouvir relatos, discutir e rir, ou o chá precioso que alimentava a mente dos literatos em suas reuniões: o “Oolong”.

Os chineses, como os brasileiros, amam o jogo, a brincadeira, o dar “um jeitinho” nas coisas, numa situação qualquer.  Soltar papagaios, ou pipas, é uma das diversões preferidas de fim-de-semana; num dos espaços da mostra, Christus coloca pipas feitas de papel de arroz com caras chinesas que fotografou, intitulando a instalação “Passeio controlado”.

Sim, a China controla, todos sabem. Lá o conceito de democracia é outro, houve uma república chinesa no breve período de 1912 a 1949, período em que o escritor realista Lu Xun modernizou a literatura chinesa, sendo ele uma das fontes do artista radicado em Brasília.  

A RPC parece um Império que se transformou pelo comunismo mantendo as raízes plantadas por Confúcio, abrindo-se ao Capital.

O modelo de governo que o Partido Comunista Chinês aplica, com seus planos econômicos quinquenais é algo muito peculiar, um exercício de compreensão sem respostas fixas, só possível aos que se adentram nas contradições do país. Mas a tradição é a alma do povo chinês, embora ele esteja encantado com a tecnologia e o consumismo, nisso se igualando ao resto do mundo.

Na parede à direita da sala, especial homenagem à língua, grandes fotos de caras chinesas com ideogramas que as definem, permitindo ao público entender um pouco da construção do mandarim, cada caractere tendo um sentido completo e a aproximação dos diferentes caracteres construindo as expressões. Algumas nos fazem rir como a que compõe a palavra “esposa”: a união do caractere “mulher” e de “vassoura”... O fascínio que exerce no estrangeiro a misteriosa língua chinesa, que até o início do século XX foi uma barreira até mesmo para os chineses.

Foi preciso um esforço de síntese e simplificação para que o povo acedesse à língua e assim diminuísse a distância que o separava das elites letradas, formada a partir de rigorosos exames centrados nos clássicos chineses, linguisticamente muito complexos. Os chineses, que falam distintas línguas, podem comunicar-se entre si por meio do mandarim escrito, a língua oficial é o solo de união das 56 etnias que lá convivem.

A síntese da China, como questão, para mim se coloca no vídeo intitulado “Fábrica de fazer nuvens”. De uma chaminé de fábrica saem nuvens poluidoras que criam nuvens, belos movimentos de massa e cor no ar, caso não associados à fonte de onde surgem. O feio e o belo, a nova China que cresceu e poluiu e agora se empenha em lutar pelo meio ambiente. O esforço que significou retirar da miséria 700.000.000 de pessoas.

No centro da mostra, uma grande construção em madeira expõe objetos, uma estrutura que pode sugerir várias coisas, das quais escolho duas: a questão atual do “país em obras” e o modo como se expunham, na China Imperial, os objetos dos colecionistas.
A China que deixei em 2005 era, por todos os lados, um grande canteiro de obras e acredito que, a que verei retornando agora, seguirá sendo.

Certamente lugar de exploração da mão-de-obra trabalhadora, que sobrevive sem pagamento até o final do trabalho, apenas recebendo comida e dormindo em apertados quartos coletivos – mas também um país que constrói ininterruptamente, consciente da necessidade de dar trabalho, de alimentar um bilhão e trezentos e oitenta milhões de pessoas.

Os mandarins, os senhores letrados, todos amavam colecionar preciosidades, cito algumas: pedras trabalhadas pela natureza ou pelo homem, o jade a mais simbólica delas; jogos de chá, animais reais ou mitológicos (o Dragão o principal deles, associado aos Imperadores) esculpidos em distintos materiais; porcelanas, bronzes, cestos de palha e contendores de comida - tudo elaborado, com a precisão e delicadeza que exige também a caligrafia, considerada a mais nobre das artes.

Havia os “curio”, ou os gabinetes de curiosidades, menores ou maiores construções feitas em madeira nobre, onde os proprietários expunham essas maravilhas.

Na construção que é o centro da mostra, Christus expõe a sua coleção, composta por alguns significantes básicos, dos quais cito: exemplares do Livro Vermelho de Mao, um par de tênis vermelho com que ele pisou naquele solo, bule de chá, os componentes da arte caligráfica, o texto citado de Borges datilografado e gavetas onde tudo (ou nada) pode estar - talvez melhor não abri-las.

As intermináveis gavetas que podem formar uma consistente metáfora para essa China misteriosa e interminável. Como diz o I Ching, uma das fontes do artista, com sua escritura poética que conjetura as palavras - em seu jogo do acaso - em imagens atemporais: o Tao - o caminho de tudo e do todo - é puro fluxo, devir, mutação.

Christus Nóbrega, Dragão Floresta Abundante, em seu nome chinês, aponta poeticamente para tudo isso.

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(*) A produção foi realizada durante o período em que o artista esteve participando de um programa de residências artísticas do Ministério das Relações Exteriores, em parceria com a Central Academy of Fine Arts – CAFA, em Pequim, entre outubro e dezembro de 2015. Essa é a primeira experiência do gênero realizada com a participação de um artista brasileiro na China.

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