"A distância social mais espantosa no Brasil é a que separa e opõe os pobres dos ricos.
A ela se soma, porém, a discriminação que pesa sobre negros, mulatos e índios, sobretudo os primeiros".

Darcy Ribeiro


Obra de Christus Nóbrega executada no piso do Museu Honestino Guimarães: Chão com poeira sob o tapete
Não calarás, não matarás!

Maria Lúcia Verdi -

O coletivo de resistência, formado por artistas brasilienses, Não Calarás!, realizou, no Museu Nacional, seminário sobre Arte, liberdade de expressão e democracia neste 25 de outubro  -  dia em que, mais uma vez, todos sabíamos o que iria acontecer no picadeiro político brasileiro.

Na mesa moderada por Marilia Panitz, o Juiz Presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos, Roberto de Figueiredo Caldas, reafirmou e explicitou, no Direito Internacional, o papel fundamental da liberdade de expressão na democracia, além de  sugerir que se fizesse (oportuno) debate sobre Arte e Religião.

As deputadas Érica Kokay e Maria do Rosário apresentaram fundamentados argumentos sobre o tema, indo muito além da questão esquerda ou direita e situando a arte num contexto histórico brasileiro que exige participação.

(Foto - Ordem e progresso coberta com plástico e tijolos - obra de André Parente)



A jornalista Cynara Menezes, do blog Socialista Morena, teve a coragem de dizer que, tendo a época do Fla x Flu - PSDB X PT - acabado, e sendo o cenário político assustadoramente complexo, obscurantista, seria importante a aproximação com uma certa direita, a “iluminada” (a adjetivação é minha).

Christus Nóbrega, do Coletivo Não Calarás!, chamou a atenção para o fato de que essa censura à arte pode também estar encobrindo (a mídia ajudando a que isto aconteça) o debate maior sobre tudo o que está ocorrendo de inadmissível no país.

A frase Temer é inaceitável e Temer é inaceitável tremulava no encontro.

O performer Hilan Bensusan, professor de Filosofia da UnB e escritor, vestido com macacão de operário e arma de brinquedo na mão, tendo nas costas escrito “Desarmado”, distribuiu texto sobre a questão da censura às artes, enquanto, no palco, insinuava gestos com a arma e o zíper do macacão, brincando com o imaginário do público.

Toda época de grandes opressões é época de grandes sutilezas”, disse Millôr Fernandes e isto está lá no Museu Nacional, entre outras frases-lanternas para este momento de impasse nacional – qual é o nosso vir-a-ser?

Não Matarás! Pode ser vista até dia 29/10 (domingo), corram! O curador, Wagner Barja, montou-a em torno da obra de José Zaragoza, artista espanhol falecido que adotou o Brasil, e do “Exposição – Motivos da Violência”, painel de João Câmara, apresentado em 1967 no IV Salão Arte Moderna de Brasília, Salão que foi fechado pela ditadura.

As pinturas e as esculturas de Zaragoza, que explicitamente registram a repressão e a tortura que vivemos com os militares, dialogam muito bem com as obras dos demais artistas selecionados. Alguns deles, do Coletivo Corpos Informáticos, da UnB, tendo produzido performance icônica, registrada numa foto que aqui publicamos.

(Foto: Morte – congresso e bundas)



Como pontua Mário Pedrosa em Não Matarás!:  Em tempos de crise é preciso estar com os artistas. Ou, lembrando Ezra Pound, os artistas são as antenas da raça. Num momento em que nos sentimos perdidos em labirinto de “non senses”, é fundamental acreditar que a percepção artística pode apontar caminhos, sobretudo os da dúvida, da reflexão e do espanto, essenciais a qualquer reconstrução.

Uma das muitas frases do poeta Tetê Catalão, que ilustram a mostra, diz “A violência não nasce em árvores, mas tem raízes”. E as raízes são, claramente, o que nunca foi resolvido em nossa sociedade.

As chagas do sistema escravagista, que até hoje se mostra de distintas formas, uma elite empedernida, uma disparidade de renda escandalosa, milhões e milhões de brasileiros afastados de um modo de vida minimamente digno, sem capacidade de pensar e escolher livremente. Um país do século XXI com um “capitalismo das cavernas” na expressão de Luiz Gonzaga Beluzzo. Um país onde há, na análise de Luiz Roberto Barroso, “pacto oligárquico de saque do Estado celebrado por parte da classe política, parte do empresariado e parte da burocracia estatal” e, infelizmente, acrescentaria, também apoiado por parte do judiciário.

Escreve Bensusan, no texto distribuído no Arte, liberdade de expressão e democracia: “A proibição da nudez é a proibição da verdade: as marcas nos corpos de uma comunidade fracassada.[...] A impossibilidade da nudez dos corpos adultos é a vergonhosa vitória do elitismo, não somos iguais. Que nos cubram as roupas. [...] A verdade é indecente porque ela trata de uma comunidade indecente.” Nossa sociedade é indecente no pior sentido do termo, aquele do desnudamento da injustiça social. Verdade e vergonha.

Em mais uma das frases, lê-se: “Dormia a nossa pátria tão distraída. Sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”.

Era Chico Buarque apontando, antena que foi, o que estamos vendo à luz do sol. Nada mais sob o tapete, como ilustra - o indiscutível valor político de imagens óbvias - obra executada no piso do Museu Honestino Guimarães.

A obra Náufrago, de Regina Pessoa, e a de Siron Franco, expostas no Museu, poderiam sintetizar este momento do país. Um totem com o texto do Código Eleitoral brasileiro manuscrito pela artista em um “papiro”, encabeçado por uma cédula eleitoral lavada (“chorada”, nas palavras de Regina) sem utilidade, enfrentam um retângulo de vidro onde se vê um “frotage” do chão de Brasília, o chão esfregado da capital. A ideia de unir os dois trabalhos tendo sido do olho agudo de Wagner Barja.

(Foto: Obra de Regina Pessoa)



Siron Franco cobre um grande retângulo de realistas esculturas de fezes de distintas cores e nele instala duas torneiras de metal. Essa é a água que bebemos. Aquela, a cidadania que perdemos a cada dia.

(Foto: Retângulo de merda e duas torneiras - Siron Franco)

 

(Veja também neste site matéria de Romário Schettino sobre o mesmo tema: CIDH: "Direitos Humanos estão Ameaçados no Brasil")

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