Total: 1890 results found.
Página 41 de 95
Obras de xilogravura do mestre pernambucano J. Borges estão em cartaz no Museu de Arte do Rio (MAR - Praça Mauá, 5 - Centro, Rio de Janeiro) até o dia 28 de fevereiro.
O público poderá conferir as 40 obras do artista que é Patrimônio Vivo de Pernambuco. Cariocas e turistas poderão conhecer um pouco mais sobre o tema através da exposição J. Borges – O Mestre da Xilogravura. A mostra traz uma coletânea de 10 obras inéditas, 10 matrizes inéditas e as 20 obras mais importantes da sua carreira, com temas que retratam a trajetória de vida do artista, considerado pelo dramaturgo Ariano Suassuna como o melhor gravador popular do Brasil.
José Francisco Borges, o J. Borges, de 86 anos, é Patrimônio Vivo de Pernambuco, título concedido pelo Estado aos mestres da cultura popular pernambucana, reconhecidos como Patrimônio Imaterial. É natural de Bezerros, no Agreste pernambucano, onde vive e trabalha até hoje. Filho de agricultores, trabalhava desde os 10 anos no campo. O gosto pela poesia o fez encontrar, nos folhetos de cordel, um substituto para os livros escolares.
Na exposição, os visitantes poderão conferir obras que retratam diversas fases da história de J. Borges com os temas ‘No Tempo da Minha Infância’, ‘Na Minha Adolescência’, ‘Vendendo Bolas Dançando e Bebendo’, ‘Serviços do Campo’, ‘Cantando Cordel’, ‘Plantio de Algodão’, ‘A vida na Mata’, ‘Plantio e Corte de Cana’, ‘Forró Nordestino’ e ‘Viagens a Trabalho e Negócios’.
"Estou muito alegre com essa exposição sobre meu trabalho na xilogravura. Eu ainda quero viver bastante. O que me inspira é a vida, é a continuação, é o movimento. É aquilo que eu vejo, aquilo que eu sinto", afirma J. Borges.
A exposição reserva um lugar especial para a poesia popular com um espaço dedicado à literatura de cordel. Cordelista há mais de 50 anos, os versos de J. Borges tratam do cotidiano da vida simples do campo, o cangaço, o amor, os castigos do céu, os mistérios, os milagres, crimes e corrupção, os folguedos populares, a religiosidade, a picardia, entre outros assuntos. A originalidade, irreverência e personagens imaginários são notáveis nas suas obras.
“O nordeste brasileiro ocupa um lugar importante no imaginário popular. Essas manifestações são ainda mais fortes na Literatura de Cordel. Narram lendas e verdades também. Daí surge J. Borges, que oferece ainda mais vida a esses contos numa infinidade de imagens. Ele encontrou uma maneira acessível de retratar os desafios cotidianos de um povo”, ressalta Raphael Callou, diretor da Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI), instituição que faz a gestão do MAR.
A mostra trará ainda 2 obras assinadas por J. Miguel e Bacaro Borges, filhos e aprendizes do artista, além da exibição de uma cinebiografia sobre vida e obra do artista, assinada pelo jornalista Eduardo Homem.
“A exposição retrata a magia da sua obra, tão importante para o povo brasileiro e para o mundo. A arte visual brasileira se tornou mais importante depois que J.Borges começou a criar seu trabalho de xilogravuras, tornando-se um dos maiores xilogravuristas do mundo. Sem dúvidas, ficará na memória do público para sempre”, afirma Angelo Filizola, curador da exposição.
O artista desenha direto na madeira, equilibrando cheios e vazios com maestria, sem a produção de esboços, estudos ou rascunhos. O título é o mote para Borges criar o desenho, no qual as narrativas próprias do cordel têm seu espaço na expressiva imagem da gravura. O fundo da matriz é talhado ao redor da figura que recebe aplicação de tinta, tendo como resultado um fundo branco e a imagem impressa em cor. As xilogravuras não apresentam uma preocupação rigorosa com perspectiva ou proporção.
Mais informações em www.museudeartedorio.org.br
Criado em 2022-01-28 21:50:39
Dilma Rousseff –
A maioria dos colunistas e parte do próprio noticiário da Folha de S. Paulo têm mostrado que Bolsonaro ficou assustado com a devolução dos direitos políticos do ex-presidente Lula, a ponto de defender a vacina e usar máscara, contrariando sua própria natureza de negacionista.
Mas o que ficou claro nos dois últimos dias é que também a Folha está com medo de um Lula que, com suas condenações anuladas e diante da justa e provável declaração de suspeição de Moro pelo STF, retoma seu protagonismo natural na política brasileira e pode ser ele mesmo candidato à presidência e/ou liderar um processo de reconquista da democracia e reconstrução do país.
Na edição de domingo (21/3), a Folha fabricou um longo texto cujo único objetivo é tentar manter a perseguição jurídica movida contra o ex-presidente Lula, na contramão da decisão e da tendência do STF.
O jornal produziu uma espécie de “cozido” em que mistura e repete todas as acusações forjadas, fabricadas e inventadas no contexto do lawfare promovido para me destituir do governo e, depois, impedir Lula de ser candidato a presidente em 2018, quando era favorito.
A Folha destaca processos que nunca tiveram andamento, inquéritos que não prosseguiram porque Lula sequer foi interrogado, acusações que prescreveram, ações que foram arquivadas por falta de provas a pedido do ministério público, denúncias rejeitadas, por ineptas, pela Justiça federal e até pelo TRF-3.
A intenção óbvia é manter a narrativa midiática persecutória que a própria Folha construiu, junto com o resto da mídia comercial brasileira.
A fragilidade do texto publicado domingo só é superada pela grosseira manipulação de uma pesquisa que a Folha mandou seu instituto de opinião fabricar sob medida para ser manchete da edição desta segunda-feira (22/3).
Nesta pesquisa, o Datafolha transforma os seus cerca de dois mil entrevistados em juristas amadores, porque os induz, de maneira totalmente indevida e absurda, a se colocar no papel de juízes para decidir se Lula é culpado ou inocente num dos julgamentos a que foi submetido.
Justamente o julgamento que o STF acaba de declarar nulo, sem valor jurídico.
Com esta inovação metodológica, a Folha transforma o julgamento de um cidadão pelo Poder Judiciário numa imitação barata de paredão do BBB.
Obriga leigos a prolatar sentenças por telefone, como se fossem juízes, mesmo sem terem sequer tido condições de ler os processos. E fabrica sob medida uma pesquisa para ser replicada no Jornal Nacional e na Rede Globo.
Com a Lava Jato desmoralizada pelo vazamento legalmente autorizado de seus abusos e com a decisão do ministro Fachin, a Folha assume o papel de viúva inconsolável de Moro.
Espera com isso influenciar no julgamento da suspeição do juiz, buscando absolver quem liderou crimes contra a imparcialidade da justiça e o sagrado direito de defesa.
Assim, a Folha se volta para a manipulação mais descarada e culpa Lula.
Pratica essa ignomínia porque tem medo. O medo ao ex-presidente Lula leva a Folha ao desespero.
E o desespero faz a Folha querer, novamente, interditá-lo. Mais uma vez subestima a inteligência e a memória do povo deste País.
Criado em 2021-03-22 20:08:18
Clarice Lispector é a personagem deste curta-metragem realizado em 1986, inspirado na obra da escritora. O filme mostra o encontro entre a escritora e uma cidade, Brasilia. Direção e roteiro de Zuleica Porto e Sérgio Bazi. Prêmio de melhor música (Guilherme Vaz) e melhor fotografia (Jacques Cheuiche) no Fesitval de Brasília.
Criado em 2016-07-19 02:26:43
Maria Lúcia Verdi –
Imersa na avalanche de horrores que constitui nossa realidade neste talvez incomparável momento histórico, refugio-me, na medida do possível, na literatura. Graças a minha amiga uruguaia Tamara Chiz, pude ler o romance Viralatas, de Fabián Severo, professor, poeta e romancista nascido em Artigas.
Viralatas é escrito em portunhol, “língua”, como alguns já sabem, com status na literatura da América do Sul, sendo o romance de Severo um grande exemplo dessa polêmica vertente. O romance de Severo nos agarra pela poeticidade e eficácia dessa língua, esse portunhol criticado pelos puristas e tão inelutável, prendendo-nos ao mundo asfixiante de uma cidadezinha de fronteira, cenário para um personagem que não vê saída para si e para seus conterrâneos.
A atmosfera em que está inserido o protagonista de Viralatas lembrou-me a da Argélia do inesquecível Mersault, protagonista do romance O Estrangeiro, de Albert Camus. Um sendo o contrário do outro, ambos lidam com o radical isolamento e com a falta de sentido da vida - o do uruguaio, sendo pura sensibilidade, luta por superar a morte da mãe, escreve para tentar sobreviver a essa perda; o do argelino-francês, sendo pura insensibilidade, indiferente frente à morte da mãe e a tudo o que o rodeia, acaba sendo condenado à morte mais por este fato do que pelo assassinato de um árabe.
Um vive no interior do Uruguay, Artigas, outro na Argélia ainda ocupada pelos franceses. Isolamento do sujeito, ocupações geopolíticas, posturas éticas e morais em crise frente aos dilemas que se apresentam – seja para a Europa em guerra de 1942, seja para o Uruguay do presente século, seja para o resto do mundo.
O romance do uruguaio, em prosa poética, descreve e questiona a situação dos seres da (de) fronteira, os excluídos, sem a graça da esperança. O estrangeiro de Camus, um cético, mata um árabe num acesso de “loucura” provocada pelo sol (e pelo absurdo da condição humana) e não sabe por que o fez. Ambos parecem vítimas das circunstâncias, manipulados por deuses inconsequentes, sem liberdade.
As atuais circunstâncias que vivenciamos no Brasil parecem brincadeiras de deuses perversos com os quais não podemos medir forças - deuses que, embora tendo nome, são inatingíveis.
Quais limites próprios às democracias (constituições, o ethos de cada país) permitiriam identificá-las como tal? No que se refere à nossa democracia, de imediato podemos questioná-la. Como tantas “coisas” que se passam nas fronteiras do pensamento e nos limites da realidade, colocando à prova nossa capacidade de compreensão – entre elas, os limites entre os poderes do Estado, os limites das infindáveis narrativas que se querem afirmar como verdadeiras - os enredos de Viralatas (foto) e de O Estrangeiro, tratam do “non sense” que nos envolve, às vezes mais, às vezes menos explícito.
Dois livros que nos tiram o ar, como o que nos está em torno, mas que podem nos sacudir favoravelmente, despertar em nós a urgência do ativismo.
Fronteiras por todos os lados: os já excluídos dormindo na rua a poucos quilômetros do centro da Capital; cercas de arame farpado protegendo as casas dos condomínios; a linguagem massificada dos meios de comunicação recortando os menos letrados do mundo das ideias.
Um modelo econômico que não considera o fato de sermos uma sociedade com milhões de miseráveis, de que o Estado tem, sim, responsabilidade pelos que sempre estiveram além dos limites do “incorporável” pela sociedade.
Não é admissível que tantas pessoas, de todas as idades, estejam abandonadas e que a desculpa seja: “eles preferem dormir na rua”.

Teremos ideia do que realmente são os espaços-tempo (os mundos ou não mundos) das populações de fronteira (qualquer fronteira: dos Estados, de cor, de classe social, de gênero, de isolamento psíquico)? Os refugiados de todo o planeta (tão perto: os venezuelanos em Roraima), os sem terra, os que vivem no limite do humano, confundindo-se com o lixo e os fiéis animais que os acompanham - cães, cavalos, galinhas. Aqueles que precisamos esquecer (negar? matar? remover?) para poder dormir à noite.
Como pode um governo, um Congresso, com essa realidade social congelar por vinte anos os investimentos no que é básico para a transformação? Até que ponto essa transformação interessa, é a eterna pergunta que ecoa.
Tentando descansar um pouco disso tudo, viajo para o sul da Bahia. O que mais vejo, além do mar atemporal (embora não mais o mesmo, como os ambientalistas alertam) são placas: Propriedade particular, Propriedade Privada. Imagino um mundo sem propriedade privada, sem fronteiras e a angústia da impossibilidade de utopias faz-me sentir o estômago.
Na praia, os vendedores ambulantes me chamam de Baronesa em vez de Doutora ou Patroa, como em Brasília. As marcas do Império e de uma Lei Áurea ineficaz são evidentes a cada passo nessa Bahia que Caymmi consagrou, colocando claros limites a um suposto paraíso. Não há como fugir do nosso inferno, como nos mostra Severo, como nos mostrou João Gilberto Noll com seus personagens sempre no limite, em sintonia com os de Camus, na Trilogia do Absurdo.
Mas é nesta mesma Bahia que conheço um engenheiro florestal que me fala do coletivo independente Escola de Ativismo (www.ativismo.org.br e fb.com\ativismo), criado em 2012 para atuar na rede, oferecendo informações preciosas para os que pretendem resistir, enquanto sociedade civil, ou proteger-se das invasões cotidianas à privacidade.
Assim definem sua missão: “fortalecer grupos ativistas por meio de processos de aprendizagem em estratégias e técnicas de ações não-violentas e criativas, campanhas, comunicação, mobilização e segurança da informação, voltadas para a defesa da democracia, dos direitos humanos e da sustentabilidade.”
Navegando no site da Escola tenho um sentimento que se aproxima a certo alívio – talvez alguns limites sejam menos fixos do que parecem, certas impossibilidades menos definitivas, certas decisões não imutáveis, certas fronteiras transponíveis.
Uma sombra de esperança de que algo possa ser feito para que o mundo do Capital e da informação (e controle) não nos invadam. Camus, Sartre e Foucault: as questões apontadas pelo absurdo da realidade, pela ilusão de liberdade e pelo ostensivo controle dos cidadãos são cada vez mais pertinentes.
Ao terminar a leitura de Viralatas, abalada pelo relato da absoluta solidão do protagonista, imerso num permanente e infrutífero questionar-se, representante com voz dos marginalizados sem voz, ocorre-me pensar como será o processo de adormecimento dos poderosos do planeta.
Com que língua conseguirão silenciar uma realidade que grita? No nosso caso, o portunhol de uma fronteira impossível de controlar, com seus 17.000 quilômetros, talvez os embale de tal modo que adormeçam com imagens tranquilizadoras de um país inteiro sob ocupação militar.
Criado em 2018-03-12 21:56:47
Romário Schettino –
Observadores mais atentos da política nacional acham ser possível que o Partido dos Trabalhadores venha a surpreender nessas eleições municipais. Se não fizer um grande número de prefeitos, poderá receber votos suficientes para ter muitos vereadores. Com todo o bombardeio midiático contra o ex-presidente, Lula transfere votos. Esses analistas dizem ainda que não fosse o confinamento obrigatório, Lula estaria percorrendo o pais de Norte a Sul distribuindo seu prestígio. Enquanto isso, Lula trabalha nas redes sociais.
Mas é verdade que na corrida para 2022, o ideal para qualquer partido com pretensões presidenciais será o de ter prefeitos eleitos nas capitais. O PT pode se contentar com alianças como a de Porto Alegre, com o PCdoB, e ajudar a eleger Manuela D´Ávila, ex-vice na chapa de Fernando Haddad. Há outra esperança em Recife, Marilia Arraes (PT) pode ir para o segundo turno com João Campos (PSB). Uma disputa complicada para dois partidos do mesmo campo político. Poderiam estar juntos.
No entanto, em três capitais importantes como São Paulo, Jilmar Tatto tem apenas 1% dos votos, no Rio, Benedita da Silva está um pouco melhor, com 8% – dificilmente irá para o segundo turno – e em Belo Horizonte o candidato do PT, Nilmário Miranda, tem 1%. Em BH Alexandre Kalil (PSD) pode se reeleger já no primeiro turno.
O quadro é preocupante para o partido de Lula. A estratégia de sair sozinho em muitas cidades pode ter efeito colateral desastroso em função do antipetismo alimentado desde o golpe de 2016 contra Dilma Rousseff. Mas pode também reafirmar o ânimo petista de ir à luta na reta final dos pleitos.
Há também quem se mire no exemplo do prefeito de Maricá (RJ), que deve se reeleger com 70% dos votos. Com mais de 90% de aprovação, a gestão de Fabiano Horta se notabilizou pela tarifa zero no transporte urbano, por ter criado uma moeda social – a Mumbuca – e o passaporte universitário, que já atende a mais de cinco mil estudantes por ano. Maricá é uma cidade relativamente pequena, com 160 mil habitantes, mas está sendo usada como exemplo de gestão para outras campanhas eleitorais do partido.
Foi pensando nos grandes colégios eleitorais como os de São Paulo e Rio, que o ex-deputado federal Wadih Damous divulgou no seu twitter que “o apoio do PSol à candidata do PT, Benedita da Silva, no Rio e o apoio do PT a Guilherme Boulos em São Paulo seria um gesto de maturidade e inteligência políticas. As chances da ida de ambos para o segundo turno aumentariam bastante. Esse é o pragmatismo que devíamos praticar.” Embora não esteja desprovido de razão, Damous nem foi levado em consideração. Esse acordo deveria ter sido fechado lá atrás, quando Marcelo Freixo (PSol) foi praticamente obrigado a desistir de concorrer porque o sectarismo tomou conta do debate.
Lula está comprometido com Tatto e não vai voltar atrás. No segundo turno, o PT terá que repensar sua estratégia. Se Boulos conseguir, ficará mais fácil para o PT, mas se ficar entre o bolsonarista Russomano e o dorista Bruno Covas? Ambos pavimentam 2022 para um lado ou para o outro, nunca para o lado do PT. Lula sempre disse que no segundo turno a eleição é outra.
Lula está em silêncio na questão do novo ministro que vai ocupar a vaga de Celso de Mello. Espera que seja julgada procedente a suspeição do ex-juiz Sérgio Moro para que tudo volte ao seu leito normal. Kássio Marques é juiz garantista, como Celso de Mello. Aposta arriscada, mas não há escapatória para o futuro político de Lula.
Por fim, entre Lula e Bolsonaro há a Rede Globo. A Vênus do Jardim Botânico está desesperadamente em busca de uma terceira via. Quem sabe após os resultados eleitorais de 2020 o jogo possa ser jogado com mais clareza, sem fake news, sem golpes baixos, sem manipulação.
_____________________
Leia aqui matéria relacionada: "Em Maricá, o petista Fabiano Horta pode se reeleger prefeito com 70% dos votos"
Criado em 2020-10-12 16:40:37
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
O Carlos Afonso, amigo meu doutor dramaturgo, fez drama na sexta-feira me cobrando um comentário a respeito do 457º aniversário do Shakespeare: “Você que é o rei das efemérides”.
Eu, não, o Adoniran Barbosa é que era. Efeméridas são as aleluias, as siriruias, as mariposas que ficam “dando vorta em vorta da lâmpida pra se esquentá”.
Eu não havia feito até agora nenhum comentário porque sempre fico confuso no dia 23 de abril. É que o Gui também morreu nesta data, o que nos leva a um problema paradoxal, de não fácil solução:
1) Se morreu no mesmo dia em que nasceu, o Shkspr foi um natimorto e, portanto, não pode ter brilhado nos palcos do teatro elizabetano. (Não sei por que razão o pessoal diz Elizabeth I com zê e escreve “elisabetano” com esse. Em Portugal é “teatro isabelino). Alguns amigos da onça quererão cancelar meu argumento com a observação interesseira de que o cara morreu no mesmo dia de anos diferentes, com intervalo de 52 anos, mas para mim, sendo ele eterno (na Eternidade não existe tempo), esse desnível não faz a menor diferença;
2) Daí, prossigo com o meu raciocínio, é que deve ter surgido a primeira hipótese de que o Shkspr foi uma invenção do Francis Bacon, filósofo, alquimista e um dos fundadores da Revolução Científica. Francis inventou também a receita espanhola da pancetta e o torresminho, futura base da civilização estadunidense;
3) Outra hipótese é que Shkspr foi na verdade o nom de plume da própria rainha Elizabeth I, mulher prendada e armada a todos os títulos. Por isso é que ele/a fez a célebre dedicação a Mr. W. H., "the onlie begetter of these insving sonnets". A Bete teria se entregado aqui, cometendo o que os psicanalistas chamam de lapsus calami, quer dizer, um lapso com lápis. O contra-argumento realista, razoável, simpático e politicamente correto é que o poeta foi bi. Pode ter sido queer também, mas no século XVI queer significava só “strange, peculiar, odd, eccentric”.
4) Por outra, talvez o Shkspr tenha sido a criatura de um francês, Jacques Pierre, dado a ingresias a ponto de ter saxonado o nome para Shakes (de Jacques) Peare (de Pierre). Ao viajar da Ile-de-France para a Grã-Bretanha, parece que Jacques trocava d’ilhas para compor trocadilhos. (Piada velha, do Barão de Itararé!) Só na Megera Domada tem 176, tipo esses daqui:
PETRUCHIO: Come, come, you wasp, i’faith you are too angry.
KATHERINE: If I be waspish, best beware my sting.
PETRUCHIO: My remedy is then to pluck it out.
KATHERINE: Ay, if the fool could find where it lies.
PETRUCHIO: Who knows not where a wasp does wear his sting? In his tail.
KATHERINE: In his tongue.
PETRUCHIO: Whose tongue?
KATHERINE: Yours, if you talk of tales, and so farewell.
PETRUCHIO: What, with my tongue in your tail? nay, come again,
Good Kate; I am a gentleman.
(II.i.207–214)
Uma tradução dita livre:
PETRÚQUIO – Ora, ora, sua marimbonda, por que está tão irritada?
CATARINA - Se eu sou marimbonda, cuidado com o meu ferrão.
PETRÚQUIO – Então meu remédio é extraí-lo.
CATARINA – Ah, só se o imbecil soubesse onde ele fica.
PETRÚQUIO – Quem não sabe onde fica o ferrão da marimbonda? No rabo.
CATARINA - Na língua!
PETRÚQUIO - De quem?
CATARINA - Na sua, que só fala besteira! Tchau!
PETRÚQUIO – O quê, a minha língua no seu rabo? Ora, volte aqui, Cata. Eu sou um cavalheiro.
5) Mais uma hipótese é que o Shkspr talvez tenha sido o 17° Conde de Oxford, Edward de Vere (Deveras em português), que teria voltado como fantasma dois séculos e meio depois no papel do Earl-King, o bicho-papão do Goethe. (Caramba, acho que essa aqui só o Carlos Afonso, que é também cantor lírico, vai entender!)
6) Pessoalmente, não acredito na hipótese de que o Bardo tenha sido o Christopher Marlowe, embora esse cara, autor do Doutor Fausto, pudesse, sim, vender a alma ao Capeta para chegar aos píncaros da Glória e da Anne Hathaway, excepcional vendedora da Avon e, mais tarde, atriz de O Diabo veste Prada;
7) Por fim, tenho muita simpatia pela conjectura do bardólatra Harold Bloom, segundo quem a Dama Negra é que foi o Bardo. Eu acho que essa mulher era uma pedófila ou “comedora de anjos”, como depreendo do Soneto 78, inspirado no Fair Youth, o jovem mancebo a quem 126 dos 154 Sonetos foram dedicados: "So oft have I invoked thee for my muse…" (Tantas vezes te invoquei por musa...)
Tudo isso, claro, é especulação, palavra prima de “imaginação” ou de “sonho”, matéria da qual somos feitos, como dizia o Bardo.
Diz o Cafonso que o Shakespeare existiu mesmo, de carne, osso, warts and all. Quem senão ele poderia ter escrito Hamlet, a melhor peça de todos os tempos, obra de um diretor e ator de mão cheia, um cara com “muitas horas-voo de palco” e não de gabinete. Quem?
Eu é que não boto a mão no fogo enquanto não vir a prova do DNA extraída dos ossinhos do ídolo de Stratford-upon-Avon. Já apliquei meu ceticismo até a Jesus Cristo, para mim uma invenção de São Paulo até que me mostrem o exame do DNA dele, muito mais difícil nesse caso, tendo em vista a Ascenção.
Mas chega de lorota, o mais importante no caso do Bardo está no resumo desta frase do Millôr Fernandes, tradutor do elemento:
“Sheikispir sim, é que era bão: só escrevia citação!”
Criado em 2021-04-24 03:09:01
Luiz Philippe Torellly (*) –
“Só há um meio eficaz de assegurar a defesa do patrimônio de arte e de história do país: é a educação popular” (Rodrigo Melo Franco de Andrade).
As cidades são por natureza ecléticas, submetidas a um tempo que é diverso ao da vida humana. Natural que as novas gerações deixem suas realizações e formas de expressão materializadas no espaço. Contudo, se não houver um regramento, um arcabouço definidor, uma concepção cultural, ocorre o que vemos em muitas cidades do Brasil e do mundo: a destruição das culturas ancestrais e da expressão material de um povo. Um passeio por cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, apenas para citar algumas, nos mostra o poder destruidor dos interesses econômicos, da especulação imobiliária, na utilização do instituto da propriedade privada. Todas as cidades citadas têm mais de 400 anos. Afora alguns edifícios e igrejas, pouco restou das gerações passadas. Uma catástrofe.
Por que gostamos de Paris, Viena, Roma, Lisboa? Porque encontramos manifestações arquitetônicas e urbanas de várias épocas, em uma conformação razoavelmente harmônica, que nos passa uma ideia de unidade, de conjunto, mesmo os edifícios não sendo de um mesmo estilo ou período histórico. Exemplares isolados de boa arquitetura, acabam perdidos em meio a uma miríade de edifícios construídos com intento especulativo, em que a arte e a cultura não têm lugar.
O que fez Lúcio Costa quando concebeu o Plano Piloto de Brasília? Pensou e desenhou uma cidade inteira, com suas diversas funções e atividades e suas famosas escalas: monumental, residencial, gregária e bucólica, cada qual com suas prerrogativas e finalidades. A passagem do tempo demonstrou que ele acertou muito mais do que errou. A cidade é hoje densamente arborizada e agradável à vista e aos sentidos. Um grande parque urbano. Há um ordenamento que facilita o desenrolar da vida cotidiana. É claro que tem problemas, afinal vivemos em um país onde a desigualdade e a segregação caracterizam a sociedade e as cidades.
De maneira geral, a par de algumas disfunções e usos inadequados o Plano Piloto está bem preservado. O reconhecimento do significado cultural e artístico de âmbito mundial veio com o título de Patrimônio da Humanidade concedido pela Unesco em 1987. Nenhuma outra cidade erigida no século XX é detentora de tal distinção. Em qualquer compêndio de Arquitetura e Urbanismo, em qualquer língua, Brasília figurará com destaque.
Recentes incidentes envolvendo a conservação das edificações, seus usos e funções, tiveram relevante caráter educativo. No primeiro caso, houve a proibição de que as crianças e seus aparatos corriqueiros, utilizassem os pilotis como espaço de recreação. No segundo, o motivo foi a substituição de azulejos de um bloco na SQS 314, de autoria do arquiteto Eduardo Negri, que fez parte da equipe de Oscar Niemeyer e é responsável pela arquitetura de cerca de 100 edifícios residenciais no Plano Piloto. Negri, como outros arquitetos do período modernista, tinha como princípio incorporar elementos artísticos aos seus projetos. Daí os painéis de azulejos, que tem na obra de Athos Bulcão sua expressão máxima.
Esses casos geraram polêmica, manifestações nas redes sociais e ampla divulgação na imprensa. Mesmo alertados pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), de que deveriam restaurar os painéis, o síndico, o arquiteto responsável e a maioria dos moradores, optaram por substituir os azulejos. Cometeram um ilícito penal? Não. O tombamento de Brasília é de caráter urbanístico e das características gerais dos volumes, usos e atividades.
Não desrespeitaram a lei, mas foram responsáveis pela destruição de uma manifestação artística, que tem significado não apenas para os moradores, mas para toda a cidade na medida em que faz parte do cenário urbano. E mais, foram alertados pelas instituições públicas responsáveis pela preservação do patrimônio, do caráter significativo do bem em questão, mas mesmo assim insistiram em sua substituição, sem estudar alternativas.
Que lições podemos retirar desses episódios? Em primeiro lugar, cresce na sociedade local a consciência de que habitam e convivem em um espaço reconhecido como patrimônio cultural da humanidade. Que essa consciência precisa ser ampliada a ponto de transformar cada cidadão em “um cuidador” do patrimônio cultural. Que as práticas educativas sejam dirigidas a todos, crianças, jovens, síndicos, moradores, arquitetos e demais profissionais. Rodrigo Melo Franco de Andrade, homem sábio que era, já sabia da força da educação há mais de 80 anos atrás.
________________
(*) Luiz Philippe Torellly é arquiteto e urbanista.
Criado em 2020-10-29 18:10:47
Uirá Lourenço (*) -
Na semana em que se celebra o Dia Mundial sem Carro (22/9) vale refletir sobre a (i)mobilidade na capital federal. A data foi criada na França em 1997 e atualmente é comemorada em diversas cidades de vários países. E, para tratar de mobilidade, há que se atentar para as condições de segurança no trânsito.
Os jornais estampam o saldo dos últimos dias nas vias do Distrito Federal: nove mortes, incluindo duas crianças, um adolescente e um idoso atropelado. O alto limite de velocidade e a imprudência resultam em muitas famílias destroçadas.
Ao longo dos anos, houve poucas ações voltados à segurança no trânsito e ao incentivo dos meios alternativos ao automóvel. Apesar da fama de respeito ao pedestre, basta caminhar um trajeto curto na área central para constatar a situação vexatória de inacessibilidade. Um cadeirante ou um cego é incapaz de transpor os inúmeros obstáculos para ir da rodoviária do Plano Piloto à catedral.
Da mesma forma, apesar de se intitular capital das ciclovias, o ciclista sofre com graves problemas e em vários pontos, como na rodoviária e próximo ao Congresso Nacional, a ciclovia simplesmente desaparece.
E o que dizer do transporte coletivo? O metrô empacou nos 42km de extensão. O projeto do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) foi anunciado em 2008 e continua sem data para lançamento.
A ligação por trem entre Brasília e cidades do Entorno é algo bastante plausível, e também utópico. Quanto ao transporte por ônibus, não precisa ser especialista no tema, basta parar e perceber o absurdo: trabalhadores amontoados em veículos superlotados, obrigados a pagar tarifa elevada e perder horas no trajeto diário.
A expressão “pra gringo ver” descreve bem as ações voltadas a pedestres e ciclistas. Ciclovias no canteiro, onde é fácil construir, que terminam nos pontos onde mais se precisa de um caminho segregado e seguro.
Calçadas amplas e novas em canteiro arborizado ,onde passa pouca gente a pé, contrastam com calçadas totalmente deterioradas e invadidas por carros em locais movimentados, como a via W3 e o Setor de Rádio e TV Sul.
Em contraste com a lentidão nas ações voltadas ao transporte coletivo e saudável, nos últimos anos se executaram várias obras de ampliação do espaço aos carros, como a ampliação da Estrada Parque Taguatinga (EPTG), curiosamente chamada de Linha Verde.
E vários outros projetos de incentivo ao transporte individual motorizado foram propostos, como um viaduto no Sudoeste, um túnel em Taguatinga e a nova via Transbrasília.
Enquanto cidades modernas derrubam viadutos para criar mais espaços de lazer, aqui ainda se mantém o modelo atrasado. Além de pistas, túneis e viadutos, o modelo insustentável inclui a invasão de canteiros, calçadas e ciclovias por carros.
Até quadra de esporte vira estacionamento na tentativa de acomodar a frota crescente de carros. A ausência de fiscalização rígida contra os motoristas infratores resulta em caminhos a pedestres e ciclistas bloqueados diariamente.
O atual governador assumiu com um plano de governo promissor na área de mobilidade. Entre os objetivos, destacam-se: “ampliar o uso de bicicletas para deslocamentos diários casa-trabalho e casa-escola”, “facilitar o uso das calçadas pelos pedestres” e “promover acessibilidade para as pessoas com deficiência ou dificuldades de locomoção”.
Na prática o que se vê é mais do mesmo: rodoviarismo caro e atrasado, apesar das inúmeras leis que dispõem sobre o incentivo aos modos coletivos e saudáveis de transporte.
Na semana e em especial no dia 22, o GDF promoveu atividades para incentivar os modos saudáveis de locomoção.
Por outro lado, executa obras de ampliação do espaço aos carros no norte do DF, com diversos túneis e viadutos para deleite motorizado, numa região bastante carente de transporte coletivo e inacessível a pé e por bicicleta. Em vez de exemplo em sustentabilidade, a capital federal cada vez mais agrava a imobilidade e fica sufocada pela frota crescente de automóveis, que resulta em congestionamentos, estresse, sedentarismo e poluição.
Com cofres públicos vazios e risco iminente de racionamento de água, o atual governo desperdiça preciosos recursos em obras para devastar grandes áreas, aterrar nascentes, aumentar o nível de impermeabilização do solo e incentivar o uso de carro.
Fica a pergunta aos gestores públicos: por que não seguir as leis e os compromissos de governo e implantar um modelo de mobilidade moderno, com segurança e incentivos a quem deixa o carro em casa?
______________
(*) Uirá Lourenço é servidor público, ambientalista e colaborador do Mobilize Brasil.
Artigo publicado no jornal Correio Braziliense de 28/09/2016.
Criado em 2016-09-28 18:07:08
Inês Ulhôa –
Agende aí. Dia 25 de janeiro, às 16h, será transmitido no canal do YouTube da Editora UnB, lançamento virtual da obra A música e a dança popular na aprendizagem das artes cênicas: jogos rapsódicos, de Luís Carlos Laranjeiras. Participação especial de Ricardo Dourado Freire, professor no Instituto de Artes/UnB, Ingrid Dormien Koudela, professora associada/USP/ Artes Cênicas e tradutora de literatura alemã.
O longo currículo de Laranjeiras no mundo das artes cênicas dá o tom dessa obra ímpar e complexa que deixa uma marca inestimável na história da dança e da música na prática do teatro na educação.
A proposta dessa obra é apresentar um programa de ensino e prática do teatro, com quatro jogos rapsódicos de aprendizagem das artes cênicas, com as instruções, letras, ritmos, músicas e partituras dos Cocos, das Cirandas, das brincadeiras de roda e dos Sambas rural e de Caboclo, com uma abordagem interdisciplinar para a estética do teatro musical popular brasileiro e a aprendizagem do atuante.
De acordo com o autor, o jogo rapsódico é uma tentativa de sistematizar e organizar tais práticas artísticas e os saberes e experiências das tradições populares para integrá-los como brincadeiras musicais, corporais e narrativas aos processos criativos e pedagógicos das artes cênicas.
“Violas, tambores e flautas, pé, cintura, voz e palma; cordas, couros e sopros, pés, cinturas, palmas e vozes poéticas do Brasil – eis a síntese instrumental e a síntese corporal-musical das ‘anscestralidades brasileiras, as teatralidades ancestrais, conjunto de danças, músicas e brincadeiras das tradições musicais, corporais e narrativas afro-brasileiras, ameríndia/indígenas e luso-ibéricas, que traduzem as referências artísticas e pedagógicas e a significação cultural dos jogos rapsódicos”, resume Laranjeiras.
__________________
Youtube da Editora UnB
https://www.youtube.com/watch?v=rGcaYE7eyVg
Criado em 2022-01-20 23:42:54
Maria Lúcia Verdi –
Retornei ao tema do Carnaval após meu primo Marcelo Spalding Verdi me informar que o monstro do samba da Beija Flor seria o Frankenstein, o que se confirmou no desfile.
Acho que não me lembrei dele por não ter lido a letra do samba quando escrevi o artigo anterior. Entusiasmada com a menina cantando, citei imediatamente certos versos no texto em andamento apenas a partir da escuta.
E ainda não havia visto o desfile da Paraíso do Tuiuti quando escrevi o primeiro texto sobre esse Carnaval histórico. Uma desenvolve seu tema a partir da metáfora de um monstro lendário, a outra a partir de um tema atemporal e concreto, mas também citando um ser espiritual lendário, o nosso Calunga.
Tentarei não repetir o que vem sendo apropriadamente dito sobre “que monstro é esse o Frankenstein”, inspirador da criação dos letristas da Beija Flor, talvez menos monstro do que o “pai” incapaz de aceitar sua própria criatura por achá-la “abjeta”. O abjeto, o estranho, o feio, o fora da norma, o miserável, o incômodo é o que é alvo de preconceito, de intolerância, um dos temas da Beija Flor.
Aqui citarei trechos do texto “Frankenstein e o espectro do desejo”, de Richard Miskolci, sociólogo paulista do Núcleo de Pesquisas em Diferenças, Gênero e Sexualidade. Para ele, há uma leitura psicanalítica e uma sociológica do romance, das quais vale a pena tomar conhecimento.
Escutemos: “Uma análise sociológica de Frankenstein poderia contribuir para o projeto de desenvolvimento de uma contra-história, na reconstituição daquilo que autores como Adorno, Horkheimer e Marcuse definiram como alternativas históricas que assombram a sociedade estabelecida como forças e tendências subversivas. A possibilidade do rompimento de normas ou convenções culturais é reconhecível nessas forças sem nome ou materialidade documental, mas cuja existência moldou a constituição do que somos. No fundo, essa contra-história poderia ser melhor compreendida como uma contra-memória, na qual a fantasia e o fantasmático não são desqualificados como superstição”.
Contar a nossa contra-história a partir da história da escravidão no mundo e do fato de que a Lei Áurea não significou a “libertação” foi um importante ato didático realizado pela Tuiuti. A nossa contra-memória, o saber oral dos quilombolas, dos povos indígenas, suas experiências de dor e resistência tem muitíssimo a nos ensinar.
Numa sociedade como a brasileira, religiosa, mística e marcada pela superstição, além de tão concretamente violenta e assustadora, bem distintos tipos de monstros tem tido existência.
O médico e alquimista Victor Frankenstein, o criador da criatura nunca designada por ele com um nome, torna-se “monstro” ao querer ter os poderes divinos de criar a partir do inerte, retalhos dos corpos de marginais e assassinos rejeitados pela sociedade.
Na bateria da Tuiuti, feitores estão vestidos com tecidos diferentes entre si, um “patchwork” que alude à mestiçagem racial da maioria deles e de todos nós, bem com “ao peso de sua função”; assim como a criatura, feita a partir de uma mistura de corpos, expõe sentimentos contraditórios, sendo capaz de boas ações e de matar sem piedade.
A psique humana é labiríntica. Cito Mikolci: “O caráter múltiplo do monstro, deste um constituído de muitos, lembra a ideia inicial de Freud sobre o inconsciente como um lugar onde todos os outros vivem dentro de nós mesmos. Outros sociais, portanto, todos os condenados, marginais, excluídos ou reprimidos, os que cruzaram a linha da transgressão - subversão da ordem, dos valores ou da moral vigentes”.
O cérebro inserido na criatura é do corpo do falecido mestre de Victor Frankenstein - que ela viesse a ser capaz de sentir e necessitar amor parece não ter sido considerado pelo médico em sua busca desesperada, ambiciosa por vencer a morte, como também vemos no belo filme de Kenneth Branagh “Frankenstein de Mary Shelley”.
Criar vida e depois renegar o criado, criador abandonar a criatura, em nosso aqui e agora, é clara metáfora para um Estado que não deseja responsabilizar-se pela maioria de seus filhos, ocupando-se apenas dos que se inserem na “norma”, dos que já tem os instrumentos para, mal ou bem, sobreviver “no mundo”. A Tuiuti encarna esse não-pai na figura de Temer Vampiro Neoliberal, nele centralizando o abandono e a desmedida autoconfiança em suas decisões antidemocráticas e temerárias; a Beija Flor possui toda uma ala de Vampiros (“Vampiros Sanguessugas Exercem Seus Podres Poderes”), como sabemos existirem, desde sempre e por todos os lados, em nossa ex-colônia sugada e entregada. Os políticos - representados tendo na gola a Praça dos Três Poderes - como morcegos-vampiros “que se alimentam do sangue que sugam do povo brasileiro até a última gota”.
O subtítulo da obra de Mary Shelley é “o moderno Prometeu”. O moderno Prometeu do século XXI continua acorrentado e perpetuamente mutilado, num sofrimento sem fim. Terá o povo brasileiro recebido o fogo de seus deuses (Senhores) por algum heroico Prometeu?
Se pensarmos nos expoentes de nossa cultura letrada e popular (os sambistas tantas vezes o comprovaram) diremos que sim; se olharmos à nossa volta diremos que não. É um povo que não recebeu do Estado as condições básicas para se desenvolver, povo exposto em chagas, pela Paraíso do Tuiuti.
Um país que nunca tratou radicalmente a tremenda, universal, questão da escravidão, conforme a escola mostra e conforme vemos todos os dias: “Eslavos foram escravos e originaram este termo, africanos também foram. Os de olhos claros ou os da Guiné... parafraseando Candeia: Todas as raças já foram escravas também...” (libreto explicativo oficial da Escola). E a escravidão universal de hoje é ao Grande Capital, como explicita a Escola de Nilópolis.
Diz o libreto da Beija Flor: “É chegada a hora de juntarmos os retalhos das nossas consciências, que deixamos no baú empoeirado do nosso comodismo, e costurarmos as fantasias dos abandonados e dos excluídos. Nesse cortejo popular, os verdadeiros monstros da nossa sociedade desfilarão sem máscaras, para serem reconhecidos e malhados na quarta-feira de cinzas! Que as Marias, damas de casa e do povo, sejam as nossas Pietás, retratando a luta de todos que apenas desejam ser amados e respeitados”.
Aqui, nesta terra das contradições mais gritantes (haja vista a resistente alegria dos carnavais, não obstante tudo) ter um povo respeitado parece tarefa de Sísifo, para ficarmos com o mito - algo da ordem do impossível.
Uma obra escrita há duzentos anos revela o drama da ambição desmedida e questiona a ética, de uma elite (a que o médico Viktor F. pertence e a nossa) capaz de “experimentar” qualquer coisa na tentativa de realizar objetivos questionáveis, sofra quem sofrer. Lemos na explicação do enredo da Beija Flor: “[...] o monstro do Dr. F. é a nossa realidade invertida, é a nossa culpa escancarada e jogada em nossas caras, mas da qual fugimos”.
“Liberte o cativeiro social!...Não sou escravo de nenhum senhor” afirma o samba enredo da Paraíso do Tuiuti, as vozes dos escravos clamando por algo que nunca lhes foi dado pela Terra\Estado\Senhores que os receberam. Os senhores nunca foram pais embora com certa ambígua cordialidade tenham tentado nos fazer acreditar no contrário, após a Lei Áurea. Até hoje as grandes famílias brasileiras se mantêm no poder graças a artimanhas dessa ordem, além de outras bem pouco gentis. (A seguir, cena da Paraíso do Tuiuti - Foto Pública - Gabriel Nascimento/Riotur):

O Estado que abandona, e que hoje vive uma guerra civil na cidade símbolo do país, é composto por restos humanos, cadáveres e restos em vida. Lemos no libreto da Beija Flor: “A incerteza caminha lado a lado com os bandidos soltos pelas ruas, e a sensação constante de insegurança, o medo de acontecer algum infortúnio ou `fatalidade´, a ideia de `sair de casa sem saber se vamos voltar a salvo´, ratificam a naturalização de uma violência avassaladora que tomou conta do Brasil, e fez especificamente do Rio de Janeiro, uma cidade partida”.
Continuo com as explicações sobre as alas e alegorias relacionadas ao samba enredo da Beija Flor, contidas no libreto: “[...] um rato, animal que vive nos esgotos e se prolifera em meio ao lixo, e simboliza a sujeira, a imundície. Ainda na parte dianteira, observa-se a imagem do Palácio do Congresso Nacional, localizado em Brasília, a `Capital dos Monstros´ onde há sujeira por todos os lados. Ao lado do Congresso, aparece a imagem da face da ‘estranha criatura‘, criação que foi fruto da ambição desmedida do Dr. Frankenstein, e representa as `monstruosidades´ que são resultado das desastrosas decisões que por vezes levam o povo brasileiro à fome.”
O edifício da Petrobras da Beija Flor, que se transforma numa favela, “representando o empobrecimento da população em função da ambição e corrupção desmedida” tem seu contraponto no neo-tumbeiro da Tuiuti.
Assim diz o libreto oficial da escola: “A alegoria é dividida em dois níveis para evidenciar a marcante desigualdade social do Brasil. Na parte inferior a plástica do carro 03, “Tumbeiro”, retorna para atualizar a situação da massa trabalhadora, poeticamente, colocando-os no lugar dos escravos antigos. Na parte superior a classe dominante extrai e concentra cada vez mais as riquezas geradas pelo trabalho do povo e se articula, econômica e politicamente, para sua manutenção e de seus privilégios. À frente, a mão do trabalhador brasileiro continua acorrentada ao velho tumbeiro demonstrando que o antigo regime exploratório dos ricos sobre os pobres avança em golpeantes reformas...”.
A “criatura” de Victor Frankenstein transforma-se em distintas imagens do abjeto: “É o ‘monstro do lixo‘, abandonado, sujo, em meio à lama, ao esgoto. As questões ecológicas também são o retrato da imagem da rejeição, com o lixo espalhado por toda a cidade, e nas inúmeras tubulações de esgoto que aparecem nas laterais da alegoria. Esta é toda ambientada na cidade do Rio de Janeiro, em que vemos a imagem do Corcovado, entrecortado por túneis, que levam às ruas e avenidas da cidade por onde circulam veículos, mas também levam às ciladas da vida quotidiana. Não vemos a imagem do Cristo Redentor, mas na parte inferior, a figura do Pensador, de Rodin, que aparece representando a desilusão diante do abandono da sociedade, o caos do dia-a-dia em que vivemos”. Em vez do Cristo, da religião, o Pensador que reflete.
Todos os temas já mencionados e os subtemas explicitados pela Beija Flor – o trabalho escravo; as prisões como escola do crime; a infância abandonada; os impostos não revertidos em benefício do povo; as igrejas que exploram os fiéis; o descaso com a saúde pública e a educação; os sem teto; a voz das ruas que se expressa como pode – são explicados pelo que a Tuiuti expôs: somos uma ex-colônia escravagista que nunca enfrentou de frente as questões centrais da eterna dependência do capital e das metrópoles.
Nas alas e alegorias “o magnata da exploração e a costureira escravizada”, o “trabalho informal”, o “guerreiro da CLT” e o “manifestoches” a Escola Paraíso do Tuiuti traz o poder da síntese das imagens em toda sua força semiótica. Inesquecíveis.
“Por que o povo do samba quer libertação, e para isso, dá voz às ruas, exercendo a sua cidadania no palco mais democrático e diversificado da nossa cultura popular”, diz a Beija Flor, enquanto a Tuiuti coloca seu segundo casal de mestre salas e porta bandeira como “nobres maltrapilhos que bailam para driblar as mazelas sociais e as adversidades da vida com alegria e leveza, como se rodopiar fosse uma forma de contornar os problemas ocasionados pelo descaso”.
Os sambas clamam por algo que é só nosso: a capacidade de espelhar nos grandes desfiles sérias questões sociais e históricas ao som da música e da alegria, mistério brasileiro, pura alquimia inexplicável que faz do nosso povo algo digno de muito cuidado e atenção.
A Tuiuti, segundo suas palavras, pretende mostrar “que a relação é ruim não só para o escravo, aquele que sofre no corpo e na alma e carrega por toda existência suas feridas abertas, como também para o escravizador, pois não se pode ser feliz provocando a dor alheia ao fazer uso de tão degradante instituição”.
Ou seja, questiona algo também apontado pela Beija Flor quando se dedica a um “monstro” que também é humano, assim como seu criador teve seu lado “monstruoso” - à complexidade da existência. E continuando a leitura do libreto: “Impiedosa a escravidão se reinventa e o cativeiro ganha novo requinte de crueldade, ainda é possível ouvir o estalar de seu açoite pelos campos e metrópoles. A alforria não cabe na carteira e a lei não protege nem os sexagenários. O controle social não nos permite enxergar que estamos todos no mesmo barco. Um Temeroso Tumbeiro”.
O Brasil de hoje parece sim estar assombrado, enfrentando monstros multiplicados, sendo a sensação de impotência e desânimo regra geral: “Ganância veste terno e gravata. Onde a esperança sucumbiu”.
Vejamos como explica esse sentimento Miskolci: “Ser assombrado equivale a entrar em um estado animado em que uma violência social reprimida ou irresolvida se faz conhecer, mesmo que de forma oblíqua”. Os dois sambas-enredo trazem, marcadas a ferro, a essência de nossa História fantasmática, embora – afinal, é carnaval! – apostem no poder do samba, da catarse coletiva como elixir da resistência e da transformação. Tomara que sim.
E recorro, mais uma vez, a Miskolci: “Uma história crítica das normas e convenções sociais exige atenção ao invisível, ao que não se manteve por meio de documentação oficial, conhecimento reconhecido ou materiais acessíveis, antes em ausências, formas alternativas de conhecimento e experiências não reconhecidas”.
Que os meninos abandonados neste nosso país possam ser reconhecidos como forma alternativa de conhecimento. Que as dramáticas experiências vividas pela camada social que se alimenta “de luz” e vive ao relento, enfrentando os monstros que assombram a falta de tudo, possam servir como instrumento para o repensar político do país, para a necessária reconstrução.
Beija Flor e Paraíso do Tuiuti deram-se as mãos ao interpretar e expor uma radiografia do Brasil.
Criado em 2018-02-16 23:34:38
Romário Schettino –
Numa previsão realista, o atual prefeito de Maricá (RJ), Fabiano Horta, tem chance de se reeleger com 70% dos votos. O sucesso de sua gestão vem de longe, desde 2008, quando o PT elegeu Washington Quaquá e o reelegeu em 2012. Em 2016 foi a vez de Fabiano dar continuidade ao modo petista de governar. A aprovação do governo Fabiano Horta supera 90%.
A atual coligação do PT inclui cinco partidos: MDB, PDT, Avante, PCdoB e Cidadania. Dos 17 membros da atual Câmara de Vereadores, a oposição tem apenas três cadeiras. A tendência é manter essa composição.
Entre os outros candidatos a prefeito estão Ciro Fontoura (Republicanos, PRTB, PTB, e PMB); Cesar Augusto, do PMN e Chiquinho, da coligação PSDB, Solidariedade e PSL.
Três políticas públicas são consideradas fundamentais na aceitação da administração petista no município de Maricá: o tarifa zero no transporte público, a moeda social chamada Mumbuca e o passaporte universitário.

Tarifa zero – Os Vermelhinhos (na foro, acima), como são chamados os ônibus da empresa pública, fazem parte de uma frota de 50 veículos, que circulam transportando de graça todos os moradores. O financiamento deste serviço sai do Orçamento do município, que é produtor de petróleo.
Lançado em 2013, o programa Tarifa Zero, com os populares ônibus vermelhinhos da Empresa Pública de Transportes (EPT), se transformou em referência por ser um modelo onde não há relação com eventuais concessionárias, estando o transporte público a cargo de uma autarquia.
Alguns contratos ainda estão em vigor, mas serão encerrados e, em breve, todo o transporte urbano será público. Moradores da cidade contam que habitantes da vizinha São Gonçalo quando querem ir à praia vão de ônibus até a rodoviária de Maricá e, de lá, tomam os vermelhinhos para irem tomar banho de mar.
Os administradores têm consciência de que os royalties podem diminuir, ou se até mesmo se extinguir, pois é sabido que o petróleo é uma fonte finita de recursos. Por isso, foi criado um fundo soberano para, no futuro, financiar ou subsidiar o transporte público no município. O fundo hoje já conta com mais R$ 300 milhões em caixa.
Em um seminário sobre tarifa zero, a pesquisadora Judith Dellheim, da Fundação Rosa Luxemburgo, relatou que o modelo é aprovado pela população em vários países, especialmente na Europa, onde a discussão sobre direito à mobilidade é mais avançada. “Temos o desafio de mostrar que transporte o público gratuito é bom. Em Tallin, na Estônia, há uma experiência prática, 71% da população está a favor da tarifa zero, seja por razões sociais, ambientais ou de tráfego”.
Para Carlos Henrique de Carvalho, do IPEA, o subsídio ao transporte público deve ser pago pelos mais ricos “por meio de imposto progressivo, cobrança de taxa ambiental e do uso do espaço pelo veículo.”
Moeda Social – A prefeitura de Maricá usa, há cinco anos, royalties do petróleo para reduzir desigualdade usando banco comunitário como repassador oficial dos seus programas de renda mínima.
Mumbuca (foto abaixo) é a moeda social eletrônica que circula em Maricá. Mais de 3.500 estabelecimentos comerciais estão credenciados no Banco Mumbuca e estão aptos a receber pagamentos por meio dos cartões emitidos pela prefeitura.
O Banco Mumbuca pegou emprestado o nome do rio que corta vários bairros da cidade, na região Metropolitana do Rio de Janeiro, para batizar a instituição financeira. O Mumbuca já nasceu digital, no formato de cartão magnético, de uso restrito nos estabelecimentos comerciais locais cadastrados. Com o cartão é possível pagar restaurante, farmácia, loja de material de construção, papelaria, barraquinha de cachorro-quente etc.
Na pandemia a prefeitura vem distribuindo R$ 1.000 por mês para os profissionais liberais (taxistas, camelôs etc), os chamados micro-empresários individuais (MEI).

Passaporte universitário – A política de maior aprovação no governo de Fabiano é o Passaporte Universitário. Os alunos são bancados pela prefeitura na rede privada de Maricá e o critério de entrada é uma prova seletiva.
Os alunos oriundos das escolas públicas devem se inscrever no programa para solicitar o bolsa auxílio. Segundo Denize Cardim, coordenadora do programa, este ano o crédito concedido aos contemplados é de R$ 518,30 mensais. “Os candidatos que estudam em instituições em uma distância superior a 80 km do endereço residencial receberão o valor de R$ 1.036,60. Atualmente o desembolso mensal gira em torno de R$ 113.507,70 para todos os contemplados, oriundos de escolas públicas”, explica Denize.
O crédito para os contemplados, que atualmente são mais de cinco mil por ano, dura de acordo com o tempo do curso, mas para isto os alunos devem fazer requerimento semestral apresentando a grade de horário e atestado de matrícula atualizado.
“Muitos alunos saíram de seus empregos ou se afastaram da cidade para obter o estudo na melhor qualidade e necessitam do auxílio para pagamento de aluguéis, custos de materiais escolares, internet e alimentação. A permanência do pagamento do auxílio ajuda a contribuir para a permanência e a diplomação dos beneficiados”, afirma Denize Cardim no site da prefeitura.
Protagonismo – Fabiano Hora terá protagonismo nas campanhas eleitorais do PT por causa do sucesso de sua administração no município de Maricá, especialmente durante a pandemia, quando Maricá na contramão da debacle da economia nacional conseguiu gerar emprego, projetou Fabiano como um dos quadros mais preparados do partido.
O prefeito tem sua administração bem avaliada pela população e o ponto alto foi a inauguração do Hospital Che Guevara durante a pandemia do coronavírus. Foi acertada a opção por priorizar o atendimento às vítimas do coronavírus, inclusive aos pacientes de municípios vizinhos. A experiência exitosa de Maricá na pandemia, já que a cidade foi a única com mais de 150 mil habitantes no estado a criar mais empregos formais do que perder em plena quarentena.
Além de candidato à reeleição, Fabiano estará presente na campanha de Benedita da Silva e em dezenas de outras campanhas majoritárias do PT Brasil afora.
Criado em 2020-10-06 17:33:28
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Coaracy, a minha amiga evangélica histórica, acompanhava com muita apreensão o julgamento da arguição de descumprimento de preceito fundamental nº 811 (ADPF 811) na sessão de hoje, 7 de abril, no Supremo Tribunal Federal. A medida, apresentada pelo Partido Social Democrático (sic), questiona um decreto do governo de São Paulo respaldado na decisão do Supremo de suspender a realização de cultos e missas presenciais, uma modalidade cristã fundamentalista do direito de ir e vírus.
Fizeram sustentação oral o advogado-geral da União, o ministro terrivelmente evangélico André Mendonça, o procurador-geral Augusto Aras, o procurador-geral do Estado de São Paulo, Rodrigo Menicucci, representantes de partidos e uma penca de amici curiæ, amigos da Cúria, digo, da Corte.
Dos amici curiæ, o advogado Paulo Iotti foi o único a defender o direito à vida sobre o suposto direito ao fanatismo e à morte.
Os demais, dublês de rábulas com caça-dízimos, promoveram um show de avivamento pentecostal. Soube-se mais tarde que o advogado Luiz Cunha, o orador representante do PTB de Roberto Jefferson, é uma espécie de piolho do pangaré do principal Cavaleiro do Apocalipse: Cunha é o professor de tiro de Renan Bolsonaro, o Zero Quatro.
Enquanto aguardava o retorno da sessão do intervalo para o xixi e os conchavos, a Coaracy me mandou pelo Zap vários Salmos (6:5, 30:9, 88:10-12, 115:17), todos com a mesma tese que deveria ser óbvia para os evangélicos: Deus não pode ser adorado nem pelos mortos nem no interior dos sepulcros.
Logo depois a minha amiga zapeou mais um versículo na mesma linha, dessa vez do profeta Isaías (38:18-19): "Porque não te louvará a sepultura, nem a morte te glorificará; nem esperarão em tua verdade os que descem à cova".
Não é, definitivamente, o que pensa o necrossinistro Kássio Conká, outro evangélico entusiasta, que numa canetada decidiu, no sábado, 3/4, derrubar liminarmente a decisão do plenário do Supremo que havia autorizado os governadores e prefeitos a fechar temporariamente os templos religiosos como medida para conter a disseminação do coronavírus. Na segunda, 5/4, o ministro Gilmar Mendes barrou a sentença de Conká, o que obrigou o presidente Luiz Fux a levar a discussão ao plenário.
Por sinistra coincidência, comemorou-se nessa quarta o Dia Mundial da Saúde. Depois do registro recorde de 4.211 mortos no dia anterior, as secretarias de Saúde contaram mais 3.733 vítimas, elevando os óbitos a mais de 341 mil, o equivalente às baixas fatais de três guerras e meia do Paraguai.
Ainda durante o intervalo da sessão, a Coaracy me disse: “Temos uma escolha: a sabedoria dos Salmos ou o uso da mirra", referindo-se ao bálsamo aromático com que os judeus untavam os corpos dos mortos. “Ô, Corinha, nem isso! A gente nem está podendo chegar perto dos mortos”! Essa foi a resposta que dei à minha amiga luterana, protestante não fanática, pouco antes da retomada do julgamento, com a manifestação do ministro Gilmar Mendes.
Foi um voto muito extenso e técnico o do Gilmar, nem por isso com menos sentimento. Sobraram críticas ferinas aos negacionistas, incluindo o ex-sinistro Ernesto Araújo, por lançar o Brasil no rol dos países párias. Posso resumir o voto de Gilmar numa frase: parece que a Constituição não tutela o suposto direito à morte pregado pelos fariseus que falam em nome de Deus!
Pelo adiantado da hora, o ministro Luiz Fux suspendeu os trabalhos, convocando a continuidade da sessão para esta quinta, 8/4. O sinistro Kássio Conká será o primeiro a usar o microfone. Se ele obedecer o comando dado pelo chefe Jair Messias, Conká deve pedir vistas à ADPF, para manter suspensa por mais algum tempo a determinação do plenário do Supremo que autorizou o fechamento temporário das igrejas. Se Conká bater continência ao Coiso, obrigará Fux a tomar alguma providência para fazer valer a decisão do plenário. Ou a tomar uma dose de hidroxicloroquina e deixar rolar o massacre.
Quem viver...
Criado em 2021-04-08 02:23:05
Luiz Philippe Torelly –
Cresci sob a expectativa de que o Brasil era o país do futuro. Toda uma mística foi criada nesse sentido, alimentada pelo positivismo e a crença no poder da ciência que dominou o país, a partir do último quartel do século XIX. Depois veio Stefan Zweig e seu livro vaticínio "Brasil País do futuro".
Alguns espasmos alimentaram a crença, sempre sucedidos por desastres políticos. Jânio sucedeu JK, Sarney sucedeu 21 anos de Ditadura Militar, Collor veio em seguida, depois do golpe de 2016, Temer e Bolsonaro.
Homens de claro matiz fascista, com o discurso anticorrupção, mas todos envolvidos com ela. Personalidades esquizoides, autoritárias e impulsivas, logo se perderam no lodaçal da política. Ocuparam o poder quase a metade do tempo de 1960 até a atualidade.
Quem os colocou no poder? A aliança das classes financeiras, empresariais e a imprensa conservadora: Globo, Estadão, Folha, naturalmente ora com armas, ora com campanhas difamatórias, ora com votos.
Em curto espaço corro o risco de fazer generalizações grosseiras. Mas vou fazer provocações para estimular o debate. Desde a adolescência procurei ler os livros que tentavam explicar o Brasil: Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Charles Boxer, Caio Prado Júnior, Euclides da Cunha, Vianna Moog, Raimundo Faoro, Mario de Andrade, Celso Furtado, Luiz Felipe Alencastro, Lilia Schwarcz, Jessé Souza e muitos outros. O Tom Jobim disse que o Brasil não é para amadores. Estava com a razão.
Se olharmos o mapa mundi, veremos que os grandes países em extensão territorial, tenham sido colonizados ou não, estão bem melhores que o Brasil. Rússia, China, EUA, Canadá e Austrália. O que aconteceu com nosso país, com tanta terra agriculturável, bom clima em grande parte do país, riquezas naturais e minerais, petróleo.
Charles Boxer, historiador inglês e maior conhecedor do império marítimo português, definiu o Brasil como a "vaca leiteira" de Portugal. O território foi sugado por três séculos: mil toneladas de ouro, diamantes e pedras preciosas em profusão, madeiras, especiarias, açúcar, algodão. Fechado ao comércio internacional o país só podia comercializar com Lisboa. Não tinha universidades nem imprensa. Poucos sabiam ler e escrever. Em uma época em que o mundo se globalizava e eram necessários investimentos para a construção de navios, Portugal e Espanha expulsam e perseguem os judeus. Seus capitais vão para a Inglaterra e Holanda, que passam a liderar o comércio mundial. A partir do século XVII os países ibéricos declinam rapidamente.
País pequeno, população escassa e fanática religiosamente, Portugal dá início a colonização aprisionando o índio. Em seguida dedica-se ao tráfico de africanos escravizados. Em cerca de 350 anos mais de 5 milhões são trazidos para trabalhar nas lavouras, mineração e demais serviços comerciais, industriais e domésticos. A maioria tinha uma expectativa de vida laboral de 7 anos, tal o esforço, carga de trabalho e maus tratos envolvidos. Não foram incorporados como cidadãos à sociedade nacional. Após o término da escravidão foram deixados à própria sorte, sem terras, sem educação, sem apoio governamental.
O latifúndio é o irmão gêmeo da escravidão. Sem braços para ocupar tamanho território, o governo colonial concedia sesmarias gigantescas para a agricultura e pecuária. A casa de Garcia D'ávila próxima a Salvador Bahia, foi o maior latifúndio do mundo, indo do litoral até o Rio São Francisco, com 800 km de frente. O índio e o africano escravizados foram os braços dessa empreitada, que permanece até hoje. Apenas 2% das propriedades ocupam mais de 50 % da terra agrícola. Continuamos a ser dominados pelo poder latifundiário, agora associado ao financeiro e industrial. Em 1850 a Lei de Terras sacramentou o modelo colonial e criou dificuldades para a pequena propriedade, que 170 anos depois ainda permanecem, apesar de tantas lutas e mortes.
O pouco que sobrou, obra de governos comprometidos com o desenvolvimento do país, desde 1930, ameaça ser destruído. Quase todos os grandes investimentos feitos no país foram de iniciativa pública. As maiores empresas nacionais, obras de energia e infraestrutura e os insuficientes avanços sociais, foram alcançados pelo investimento público.
Agora até o SUS que se mostrou eficaz diante da mortal pandemia querem privatizar. O Brasil tem que mudar. Já!
Criado em 2020-11-01 21:27:49
Renata Florentino (*) -
Brasília experimenta o final de seu período de seca com a incerteza sobre o abastecimento de água para sua população. No mesmo contexto de eventos climáticos, o inventário de gases de efeito estufa divulgado pelo próprio governo de Brasília aponta que cerca de metade das emissões do DF tem origem nos meios de transporte.
Somado a isso, são frequentes as notícias de aumento da frota e a banalização das áreas públicas sendo degradadas pelo uso improvisado como área de estacionamento irregular, dada a demanda insaciável por espaço que o automóvel possui.
Assim chegamos [hoje, 22 de Setembro] ao Dia Mundial Sem Carro de 2016.
Há também notícias positivas no cenário. Desde 2005 o DF segue na tendência nacional de queda da violência no trânsito contra ciclistas. Em Águas Claras, onde se começou a implantar ciclofaixa na Avenida Araucárias, o número de ciclistas cresceu 40% em menos de um ano, conforme contagem de ciclistas feita no local.
Isso mostra que a população quer mais alternativas de mobilidade sustentável, tem disposição e vontade, basta contar com um espaço urbano que ofereça segurança. Brasília tem que ter B de Bicicleta.
Temos fôlego e vocação para isso. Brasília é uma cidade plana que tem muito a ganhar se conseguirmos firmar a bicicleta como uma opção de mobilidade, que pode, inclusive, complementar as opções de transporte público entre as cidades do DF.
Mas para isso, é preciso oferecer aos homens e às mulheres das nossas cidades a possibilidade de sair de casa de bicicleta e conseguir chegar até uma estação do BRT, ônibus ou metrô.
Mais bicicletas no trânsito ajudam a acalmar nossas ruas, para que sejam amigáveis a idosos, crianças, pessoas com deficiência, a toda a população, e não apenas aos automóveis.
Quanto mais habitada e viva, mais segura a cidade se torna. Podemos atrair mais gente para nossos espaços públicos, aumentando a qualidade de vida, se mudarmos para melhor o desenho urbano de nossas vias internas, com mais calçadas e cruzamentos adequados.
Ao mesmo tempo em que os benefícios de uma cidade viva e sustentável são conhecidos, há a persistência no erro em se anunciar obra faraônicas de incentivo ao uso do automóvel como solução para congestionamentos.
Mais espaço para carros atraem mais carros para as ruas, como aconteceu na EPTG após a linha verde, que voltou a engarrafar muito antes do previsto.
É preciso aprender com os erros e diversificar as opções de deslocamento para a população. Nesse sentido, é urgente a adaptação do projeto do Trevo de Triagem Norte, para que seja uma obra mais sustentável em termos ambientais e de mobilidade.
O Código de Trânsito já é velho conhecido da população e a Política Nacional de Mobilidade Urbana já está em vigor há quatro anos. Precisam sair do papel. Só assim as pessoas e a vida terão a preferência.
Sabemos que avançar nesse cenário requer que governo e sociedade trabalhem juntos, mas exige também que o governo articule todos os seus órgãos, secretarias e administrações regionais na mesma direção: um futuro melhor para todas as cidades do DF.
___________________
(*) Renata Florentino é coordenadora geral da ONG Rodas da Paz e
mestre em sociologia pela UnB.
Criado em 2016-09-22 18:54:44
Neste domingo, 23/1, a partir das 17h, no Quiosque Passatempo (EQNL 17/19 – Taguatinga Norte/Distrito Federal). Show gratuito, não recomendado para menores de 18 anos. Obrigatório o uso de máscara.
A banda Baratas de Chernobyl se apresenta ao lado do grupo Os Merah. Eles fazem um rock’n’roll autoral e se destacam no cenário local e nacional. Criada na Ceilândia em 2014, a banda Baratas de Chernobyl conquistou a capital federal e todo Brasil.
Com influências do rock’n’roll da década de 80 e de músicos como Joy Division, Echo and the Bunnymen, The Cure, The Smiths, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Hojerizah, dentre outros, o grupo agora apresenta nova formação.
Os fundadores Elvis Rutherford (vocal), Márcio Vilas Boas (baixo), Ney Corrêa (bateria) se juntam aos novos parceiros André Merah (guitarra) e Alê Santos (guitarra) para fazer um som autoral ao lado do grupo Os Merah.
Na nova fase, o Baratas expandiu as influências, “mas quem conhece o nosso trabalho vai continuar identificando nossa essência oitentista”, confirma, animado, o vocalista Elivs Rutherford.
Já o grupo Os Merah se apresenta com versões originais do rock nacional. Os Mutantes, Barão Vermelho, Secos e Molhados, Raul Seixas, Joelho de Porco, Tim Maia, dentre outros artistas fazem parte do repertório. Há também versões de rock internacional que englobam The Beatles, Stones, The Doors, Erick Clapton, The Who, The Cult, Pink Floyd dentre outros. O grupo é formado por Bruno Merah (vocal), André Nunes (guitarra/voz), Célio de Moraes (baixo/voz) e Diego Alencar (bateria).
Criado em 2022-01-20 23:37:57
Em reunião realizada ontem (15/3) com vários parlamentares, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) manifestou apoio à instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da pandemia e reforçou os pedidos de impeachment que estão sobre a Mesa Diretora da Câmara dos Deputados.
Representantes da diretoria da ABI reuniram-se, por meio virtual, com os deputados federais Alessandro Molon (PSB-RJ), Jandira Feghali (PCdoB-RJ) , Glauber Braga (PSOL-RJ), Tulio Gadelha (PDT-PE) e Ivan Valente (PSOL-SP) para analisar os pedidos de impeachment do então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello (substituído por Marcelo Queiroga) e do presidente Jair Bolsonaro feitos pela Casa dos Jornalistas.
Além disso, foi debatida a possibilidade dessas demandas por impeachment evoluírem para a instalação de uma CPI da pandemia, que apure a responsabilidade do governo federal pela morte, até o momento, de mais de 280 mil brasileiros contaminados pelo coronavírus.
O pedido da ABI de impeachment de Pazuello foi protocolado na Câmara dos Deputados em 6 de janeiro deste ano. Nele, a entidade aponta crimes de responsabilidade, negligência e inabilitação cometidos pelo ministro da Saúde no combate à pandemia de Covid-19. Já o processo para o afastamento de Bolsonaro deu entrada em abril de 2020 e é uma das 68 ações com o mesmo objetivo protocoladas na Câmara dos Deputados e engavetadas pelo, na época, presidente da Casa Rodrigo Maia.
O presidente da ABI, Paulo Jeronimo, disse que, além do impeachment, a entidade apoiará a instalação da CPI, que já tem aprovação no Senado Federal e busca adesões também na Câmara. Segundo Jeronimo, apoio aos impeachments e à CPI não são iniciativas antagônicas. Ao contrário. Elas devem ser mantidas e ocorrerão em paralelo.
Tampouco a substituição de Pazuello à frente da Saúde altera a determinação da ABI e dos parlamentares. “Independentemente de trocar ministro, temos que apurar os crimes do governo federal cometidos na pandemia. Para isso, estamos coletando assinaturas para aprovação de uma CPI também na Câmara. Se toda a oposição assinar o documento, atingiremos 130 assinaturas. Vamos precisar de mais 40 adesões e vamos buscá-las ”, ressaltou a deputada Jandira Fegahli. Ela lembrou que criação de CPI é instrumento constitucional, apoiado no direito contra hegemônico, em defesa das minorais.
Segundo a deputada do PCdoB, com assinaturas suficientes, a CPI da pandemia já foi protocolada no Senado e parlamentares ingressaram no Supremo Tribunal Federal (STF), a fim de pressionar o presidente Rodrigo Pacheco a instalar a Comissão. O ministro do STF Luís Roberto Barroso é o relator do processo.
“Levantando e escancarando os crimes cometidos na pandemia, a CPI é o melhor instrumento de acumulação de forças para se construir uma saída para o impeachment de Bolsonaro”, acredita Jandira.
A opinião é compartilhada pelo deputado Ivan Valente. Segundo ele, é importante manter pressão pelo impeachment e, ao mesmo tempo, abrir flanco para a CPI da saúde. Em seu entender, a sociedade deve pressionar Arthur Lira (presidente da Câmara dos Deputados) e Rodrigo Pacheco ( presidente do Senado) a investigarem tudo o que está contido nos pedidos de CPI relacionados à política sanitária. “É necessário formar uma massa crítica na sociedade”, disse ele.
Para o deputado Alessandro Molon, a CPI da Câmara deve continuar a coletar assinaturas, mas o caminho mais curto para uma comissão de inquérito sobre a atuação do governo em relação à pandemia é a pressão sobre Rodrigo Pacheco, no Senado.
O presidente da ABI se comprometeu a mobilizar entidades da sociedade civil para a construção de uma agenda de audiências com os presidentes do Senado e da Câmara.
“Pazuello assumiu a Pasta da Saúde com 14 mil mortos por Covid e entrega o Ministério com mais de 278 mil mortos. Só neste ano, em pouco mais de dois meses, já foram 80 mil mortos”, ressaltou o deputado Tulio Gadelha. Mas, para ele, “a questão não é apenas o Pazuello. O problema é o chefe do Pazuello”.
Jandira Feghali lembrou que “crimes na pandemia foram feitos pelo governo. Mesmo que troque o ministro, os crimes estão lá, já foram cometidos e precisam ser apurados” .
ABI está ao lado de Felipe Neto
O youtuber Felipe Neto foi intimado a depor na Delegacia de Crimes de Informática da Polícia Civil após ter chamado o presidente Jair Bolsonaro de genocida, em razão da sua gestão à frente da pandemia.
Em vídeo publicado no Instagram, Felipe diz ter ficado muito espantado por ter sido acusado de crime contra a segurança nacional. “Vou enfrentar como sempre enfrentei as tentativas de silenciar desse governo. Eles querem propagar o medo. Mas um povo nunca deve ter medo do governo”.
Assista aqui ao vídeo na íntegra
Criado em 2021-03-16 17:59:36
A cada uma hora e meia, uma mulher é morta no Brasil. Na maioria dos casos, quem mata são os maridos e namorados. (Fonte: Ipea, 2013)
Direitos Humanos em 2 minutos (DH2) reúne artistas, realizadores e ativistas para explicar, de maneira lúdica e acessível, temas complexos como racismo, violência de gênero, justiça fiscal, migração, mobilidade urbana e mudanças climáticas, entre outros.
São 12 filmes curtos, com os atores Iara Pietricovsky e Alexandre Ribondi em cena – os dois dividem também a direção do projeto. Os textos são de Ribondi.
Foi elaborada também uma cartilha sobre direitos humanos, com os principais conceitos e legislações relativas aos temas apresentados no projeto. Esperamos que a cartilha seja uma fonte para professores, alunos e movimentos sociais interessados em discutir direitos humanos de maneira transformadora.
Criado em 2016-07-23 00:41:50
Maria Lúcia Verdi -
Estou sem conseguir manter a frequência com que escrevia meus artigos para este jornal, isto me incomoda. O último, sobre o BRICS de Literatura tem mais de mês. Estou assim porque o que está acontecendo no Brasil, e no mundo, é tão complexo e assustador que não sei bem como me expressar.
Como tantos da (tradicionalmente chamada) esquerda, materialista (com abertura para o mistério), preocupada com os direitos humanos e com o meio ambiente, com um mundo comandado pelas grandes empresas - as origens delas (os países de onde provêm esses capitais) misturadas num único objetivo: o lucro e o desenvolvimento de um “mundo” que pertence a uns poucos. Que “mundo” têm os demais? Que direito têm os demais a um mundo no sentido (tradicionalmente chamado) de humano?
Escuto poucas colocações que enfrentem o pensamento único, as radicalizações, que coloquem dúvida, que busquem argumentos que tentem desvelar a (sempre velada) verdade. Refiro-me a todos os lados ideológicos. Todos parecem deter certezas num cenário em que, evidentemente, as certezas inexistem, no qual o que mais se vê, é a profundidade do “buraco” em que estamos, o Brasil e o mundo.
Um exemplo recente: numa discussão sobre estética, num âmbito literário, tenta-se desautorizar alguém (embora pessoa da área) pelo fato de ela ter “se mandado para a direita”. Hoje chamamos pessoas e classificamos atitudes de fascistas com excessiva facilidade. Já vimos isto antes e muitas vezes e isto é perigoso.
O tema do respeito ao outro, da ética, parece estar mesmo fora “de moda”. Penso em Dostoievski, um dos maiores entendedores da psique humana e no quanto ele, entre outros, já apontava para o perigo das atitudes comandadas pela moda. Classificamos pessoas muito rapidamente e mantemos rótulos sem nos questionarmos mais sistematicamente se elas os merecem.
Amigos, por todos os lados, Brasil, Estados Unidos, Argentina, Inglaterra etc... rompem amizades de anos porque a percepção do “melhor”, do mais acertado é diferente. A opção por uma linha mais ou menos neoliberal, por um Estado mais ou menos poderoso (ou mais ou menos responsável pelas políticas públicas) é suficiente para que numa mesa, ou numa rede social, pessoas amigas “deletem” umas às outras. Deletar é tão simples, mas é tão complexo.
Penso em Shakespeare, em Freud, em Proust além do já citado grande russo e de outros estudiosos da alma (ou do cérebro, ou do coração) humana. Quem deles acreditou em qualquer simplificação sobre a natureza humana? Longe disso, todos apresentam o labirinto das contradições que nos formam. Mas certamente os detentores do poder, legitimamente ou não (Putin, Trump, Temer, Lula e tantos haveria que citar) lidam com maiores desafios do que nós, simples mortais. O ego dessas pessoas, de todos os que detêm menores ou maiores poderes, tende a exceder seus naturais limites, a se iludir com as possibilidades do poder e, de ilusão em ilusão, grandes erros se tornam tristes realidades - decisões equivocadas são tomadas a torto e à direita, em todo o planeta.
Pobre planeta. Está tão sem rumo que seus habitantes precisam – e cada vez mais vemos excelentes documentários científicos sobre o tema – apelar para a esperança de que inteligências de outras origens, fora mesmo da nossa galáxia, possam vir a nos ajudar ou que já estejam tentando nos ajudar. A questão seria identificá-las e segui-las!
Daqui dessa Terra explorada há tanto, com sua gente sacrificada há tanto, está difícil enxergar saídas inovadoras, racionais, justas e eficientes que deem solução para a questão da fome e da distribuição de riquezas.
Enquanto escrevo este artigo, minha filha Letícia me envia um link com o samba enredo da Beija Flor. A primeira frase já me deixa tonta: “Sou eu, espelho da lendária criatura”, “monstro carente de amor e ternura”. Uau, me digo! De quem eles estão falando, será de Édipo e da Esfinge? E o samba segue se perguntando sobre que fé é esta a das pessoas que abandonam “ao léu” os que vemos por todas as nossas cidades, qual religião? E questiona: “pátria amada, por onde andarás?”. E sintetiza, num verso perfeito, o que eu dizia acima em tantas palavras: “Teu livro eu não sei ler, Brasil”.
Assista aqui ao Samba Enredo da Beija Flor 2018, por Giovana Galdino:
Teu livro eu não sei ler, Brasil. Sou eu, espelho da lendária criatura, um monstro carente de amor e de ternura. O samba fala em primeira pessoa, é o povo brasileiro quem fala. O povo feio, miserável, carente de tudo visto como um monstro também carente de amor e de ternura? Todos, mesmo os pertencentes à elite que comanda esse cenário carnavalesco que desde sempre é o nosso - cruelmente barroco e surreal Brasil - somos carentes de amor. Mas isto não justifica uma série de coisas injustificáveis. Por outro lado, pela carência, pode explicar muita coisa quando pensamos nos crimes cometidos pela população “descamisada”.
Poderá a lendária criatura do samba ser o monstro da Bela e a Fera? O que não será para sempre monstro, vindo a revelar sua outra face após o período de provação a que a Bela é submetida? Será este o período em que estamos sendo postos à prova na nossa capacidade de resistir? Não sei a resposta. Ou será referência à criatura demoníaca que há em todos, como a do lendário Dr. Jekyll e o Sr. Hyde, de Stevenson, personagem do filme “O médico e o monstro”?
Mas também o samba da Beija Flor nos recorda um conto magnífico de Machado de Assis, “O espelho”, no qual o protagonista, um militar respeitado e com alta autoestima ao se ver na circunstância em que, no sítio afastado de uma parente, não mais colocando seu uniforme, aos poucos vai perdendo a segurança sobre si, a ponto de se desconhecer. Sem o símbolo exterior de poder sua identidade se desvanece. Para salvar-se do desespero precisa voltar a colocar o uniforme e olhar-se no espelho. Seria interessante ver nossos políticos sem todos os tantos sinais exteriores de seu poder, observar quem resistiria a um enfrentamento com a solidão e a verdade de si.
Não tenho certezas a não ser de que é necessário o espelho, milhões de espelhos espalhados pelo Brasil e pelo planeta. Vejamo-nos realmente, sem ilusões, sem narrativas justificadoras – eduquemo-nos. Que possamos saber ler o Brasil, que o Brasil se faça capaz de ser lido, que as máscaras caiam neste carnaval de 2018. Num certo, óbvio sentido, há muito nosso Carnaval já deveria ter acabado.
Criado em 2018-02-10 23:36:20
Romário Schettino –
A pandemia atrasou o início das campanhas eleitorais deste ano, mas agora as cidades estão em plena atividade política. Em Macaé (RJ), são onze os candidatos à prefeitura, mas a maioria apenas para tentar eleger algum vereador. O candidato do PT, Igor Sardinha, está entre os que têm chance de ser eleito junto com mais dois vereadores.
Inspirado no sucesso da prefeitura petista de Maricá (RJ), Igor Sardinha tem como principais projetos a implantação do Renda Básica com moeda social e a tarifa zero no transporte com empresa pública de transporte. Dois projetos exemplares de política pública e de proteção social reconhecidos em todo o Brasil.
Experiência Igor Sardinha tem, em 2017 iniciou trabalho na Prefeitura de Maricá como secretário de Desenvolvimento Econômico e teve papel destacado na construção das medidas de socorro econômico e social durante a pandemia do novo coronavírus.
Igor é advogado, pós graduado em gestão pública, foi vereador em Macaé em dois mandatos. Por dois anos, 2011 e 2016, foi considerado “Vereador Destaque do país” pela União dos Vereadores do Brasil. Nas últimas eleições foi candidato do PT à prefeitura de Macaé.
A centro-direita tem oito candidatos, a centro-esquerda tem um, na coligação PT/Avante, com apoio informal do PSol, e a esquerda tem dois, um do PCO e outro do PSTU. O atual prefeito, Aluísio dos Santos (PSDB) não é candidato, mas apoia Welberth Oliveira, do PTB.
Ex-prefeito Riverton registrou candidatura, mas tem processos de inelegibilidade e já foi solicitado seu impedimento pelo Ministério Publico Eleitoral.
Criado em 2020-10-06 17:17:55