Bonus pages

  • Como Apoiar
  • Contato

Main Menu

  • Capa
  • Artigos
  • Política
  • Cultura
  • Cidades
  • Entrevistas
  • Colunas
  • Crônicas & Agudas
  • Vídeos
  • Como Apoiar
BRASILIÁRIOS.COM BRASILIÁRIOS.COM BRASILIÁRIOS.COM
  • Capa
  • Artigos
  • Política
  • Cultura
  • Cidades
  • Entrevistas
  • Colunas
  • Crônicas & Agudas
  • Vídeos
  • Como Apoiar
Pesquisar por:
Pesquisar somente:

Total: 1890 results found.

Página 35 de 95

Nise da Silveira, Heroína, sim!

Teresa Vignoli (*) -

Heroína com H maiúsculo, Nise da Silveira teve e tem
tamanha grandeza que os medíocres, com sua estreita mentalidade,
não a compreendem e nunca a compreenderão

Ainda estou pasma e indignada. Cheguei a ficar com taquicardia, logo que eu soube que aquele ser, cujo nome não merece ser mencionado, vetou a inclusão do nome da amada Nise da Silveira no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria – pertinentemente proposto pela deputada federal Jandira Feghali, por meio do Projeto de Lei 9262/17.

Os argumentos para o veto são tão toscos quanto tosca é a pessoa que os colocou.

O despresidente afirmou em seu veto:

(...) "não é possível avaliar a envergadura dos feitos da médica Nise Magalhães da Silveira e o impacto destes no desenvolvimento da Nação, a despeito de sua contribuição para a área da terapia ocupacional (…). Ademais, prioriza-se que personalidades da história do País sejam homenageadas em âmbito nacional, desde que a homenagem não seja inspirada por ideais dissonantes das projeções do Estado Democrático".

Como não é possível avaliar os feitos da Nise e seus benefícios para o Brasil? Como????  Só a ignorância extrema e a má-fé podem ser base para essa absurda afronta! Para esse tal despresidente e seus adeptos seria mesmo impossível avaliar, dada a sua falta de conhecimento e de inteligência.

Fui estagiária no Museu de Imagens do Inconsciente, na década de 1970, sob a supervisão da Nise. Foi uma experiência que me marcou profundamente e mudou meu olhar para as pessoas em estado psicótico, mudou meu olhar para o mundo e para mim mesma. Ela foi um exemplo ímpar de amor ao próximo e de dedicação à causa da humanização do tratamento em saúde mental e à causa da defesa dos animais. Foi uma pessoa à frente do seu tempo, que abriu portas para a manifestação da criatividade dos excluídos, dos que estavam nos tristes espaços que eram os manicômios.

Seu trabalho revolucionário teve raiz em sua viva sensibilidade, ao entrar em contato com pessoas com transtornos mentais graves. Nise estava cursando Medicina, quando visitou um presídio em Recife, há cerca de um século. Ali, observou que algumas detentas não seriam criminosas, mas pessoas com problemas psiquiátricos; começou, então, a desenhar-se o seu interesse pelo estudo dessas situações-limite. No ano seguinte à sua formatura, em 1927, foi para o Rio de Janeiro, onde, depois de estudo e estágio em Neurologia, passou em concurso para ser médica psiquiatra, em 1933. Passou a ser residente no então Hospital da Praia Vermelha.

Em 1936, foi denunciada por uma enfermeira por ter livros marxistas em seu quarto. Era a época da ditadura Vargas, em que os comunistas eram perseguidos – talvez por isso o argumento idiota de que a homenagem seria inspirada em “ideais dissonantes das projeções do Estado Democrático”. Conhecemos bem quem não respeita a democracia, não? Haja hipocrisia!!

Bem, mas vamos ao que importa. Este veto, divulgado nestes dias, gerou uma torrente de protestos e de homenagens à Nise. Um efeito que mostra a força da nossa Heroína, o seu valor imenso, como pessoa, cientista, médica, cidadã.

Nise é o oposto absoluto de tudo o que o inominável representa. Imensamente humana, empática com os oprimidos, com os seres em estado de sofrimento mental, com os animais e com as pessoas que estavam à sua volta. Nise era um gênio e usou a sua genialidade de forma ousada, intensa e corajosa a favor das pessoas alijadas da sociedade, os ditos loucos. Nise tinha uma espiritualidade fina e libertária, que floria nos seus atos de solidariedade, na vida real.

Nise adorava as Artes. Literatura, artes plásticas, música, teatro, cinema, fotografia, dança harmonizavam-se com seu interesse pela Psicologia e Filosofia. Era amiga de grandes artistas, os melhores da época. Muitos colaboraram com o seu trabalho ou frequentavam seus grupos de estudos. Nise respirava amor, vivia o amor no dia a dia. Pois é do lado dela que estou, que estamos os que sabem do seu valor.

Nise mudou a vida de inúmeras pessoas, Nise construiu um sólido trabalho de pesquisa sobre o psiquismo humano, Nise foi pioneira na humanização do tratamento em saúde mental, Nise fundou um tesouro inestimável, o Museu de Imagens do Inconsciente, um acervo com milhares de obras de pessoas antes abandonadas ao ócio dos pátios dos hospitais psiquiátricos. O Museu hoje é fonte de estudos e de pesquisas sobre os mistérios da psique, é fonte de encantamento para os que se deparam com a beleza e a significância das produções ali guardadas e também expostas em mostras nacionais e internacionais. Seu trabalho teve repercussão internacional, foi admirado por cientistas, artistas, psicólogos, estudiosos de várias áreas do conhecimento.

Nise viveu a vida com integridade ímpar, era de uma ética impecável. Era divertida e alegre, acolhedora, incansável na realização de seus ideais.

Nise voava e voa agora no Céu do Afeto e da Verdade, Nise ilumina os nossos corações, com a sua largueza de alma. Nise viveu, vive e viverá na memória de cada ato e de cada palavra sua, de cada semente que plantou de sabedoria e amor.

Nise respirava poesia. Por isso, pra fechar esse protesto/homenagem, seguem um belíssimo poema dela e o poema que em mim nasceu, ao lê-lo. O poema da Nise, que tive a honra de traduzir, está no livro Nise da Silveira – caminhos de uma psiquiatra rebelde, de Luiz Carlos Mello, lançado em 2014, leitura fundamental pra quem quiser conhecer sua vida e sua obra.

Voemos com a Nise! Honremos a sua luta!

               I

As montanhas escondem órgãos
                    gigantescos
                          quase sempre silenciosos                        

Quando o Poeta do Espaço

                eventualmente brinca

                       sobre seus teclados

Troveja

        II

O Poeta do espaço tem à sua

             disposição uma infinidade de

                                   licores

Hoje, o que ele irá beber?
Resina de abetos?
Luz azul?
Ou neve recém-caída?

III

O poeta do espaço
É um andarilho errante
Ele salta de um planeta a outro
De uma estrela a outra
em grandes passadas
ele não carrega nem cajado nem sacola
ele é livre.

        IV

Ao anoitecer o Poeta
do Espaço escreveu um poema
Sua pena foi um cirro branco
Sua tinta – pequenas nuvens irisadas
O poema durou apenas um instante
E ninguém o compreendeu.

[Nise da Silveira, julho de 1964.

 
À POETA DO ESPAÇO

A tua jornada de Luz continua,
querida amiga e mestra,
querida amiga dos homens, mulheres e animais,
querida guerreira de espadas de Paz.

Teus passos
entre planetas e estrelas
ecoam em nossos corações.

Acordam,
como o som de antigos tambores,
o pulsar da Vida e da Sabedoriaque vibra,
escondido, em todos nós.

Alquimista Verdadeira,
trabalhaste com fervor até deixar brotar,
das dores do Mundo, das mãos sofredoras,
o Ouro Puro do Ser
que fica como Herança Viva,
eternizada nas imagens criadas
pelos teus queridos artistas.

 
Vai, andarilha do Universo,
Vem, pois nesse espaço tudo é Uno.
Vamos, pois estás sempre entre nós,
pulando de estrela em estrela,
na direção do Sol
.                                                           

[Teresa Vignoli, 2007]
____________________
(*) Teresa Teca Vignoli, graduada em Psicologia pela UFRJ e especialista em Gestalt-terapia e em Psicologia Analítica Junguiana, atua como psicoterapeuta e é docente do SatoriGT, centro de formação em Gestalt-terapia de Campinas (SP). Tem proferido palestras sobre vida e obra de Nise da Silveira, convidada por universidades e outras instituições. Há 30 anos, oferece oficinas de escrita intuitiva para psicólogos, educadores e grupos diversos.
É autora dos livros de poesia AsaVerso, Chama Verbo e Entre Mundos e são, também, de sua autoria os textos sobre Nise da Silveira: https://medium.com/teresa-vignoli/nise-da-silveira-uma-guerreira-da-luz-9af1cb490080 (escrito após a sua morte, em 1999) e https://medium.com/@teresavignoli/nise-da-silveira-dial%C3%B3gica-por-natureza-5ef1c2b4ed7 (dirigido a alunos do curso de Pós-Formação em Gestalt-terapia, do Instituto @ecovieescoladavida, coordenado por Paulo de Tarso de Castro Peixoto).

 

 

 

 

Criado em 2022-05-29 00:14:29

Por que existem médicos brasileiros bolsonaristas?

Orfeu Maranhão Moreira Barros (*) –

Talvez a melhor pergunta seja "como o bolsonarismo cooptou a classe médica brasileira?".

Os médicos brasileiros não são bolsonaristas. Eles apenas odeiam o PT e, por isso, apoiam qualquer um que seja identificado como inimigo do PT.

O ódio ao PT surgiu devido ao programa Mais Médicos, lançado em 2013 pelo governo Dilma, para suprir a carência de médicos no interior do País e nas periferias das grandes cidades.

As razões pelas quais o programa Mais Médicos é tão odiado são óbvias: ele mostra de forma muito evidente que os médicos brasileiros são elitistas e preocupados mais em ficar rico que com a saúde do povo.

Esse programa foi uma tentativa correta e racional de enfrentar o problema da falta de médicos no interior do País e na periferia das grandes cidades. Dilma tinha boas intenções e escolheu a solução mais barata e mais simples. Mas, nem sempre a solução tecnicamente correta é a melhor estratégia.

O ódio é mal conselheiro e termina fazendo quem odeia a buscar alianças erradas. Foi o que aconteceu com os médicos.

Os médicos brasileiros não querem cuidar de pessoas pobres. A nossa medicina é preparada para cuidar dos ricos. Na maneira de pensar dos médicos, os pobres podem ter acesso à saúde, mas apenas se forem trazidos do interior e da periferia para ser internados nos hospitais centrais, com todos os custos pagos pelo governo. Isso não combina com o estado mínimo, mas os médicos não percebem essa incoerência. Eles não conhecem de economia.

A carreira de médico sempre foi uma garantia de ascensão social, reconhecimento e riqueza. Mas, atualmente está passando por uma longa crise. Há cada vez mais médicos disputando o mercado e cada vez menos recursos para serem gastos com saúde.

As escolas de medicina proliferaram em países vizinhos, para atender a demanda do mercado brasileiro. Os estudantes que não conseguem vagas nas faculdades públicas brasileiras podem se formar em escolas privadas, no Paraguai e na Bolívia, por preços mais acessíveis. Depois é só validar o diploma em uma escola brasileira.

Ao mesmo tempo, o mercado da saúde ficou cada vez mais restrito, devido à queda dos salários. As privatizações, as terceirizações e o arrocho salarial dos servidores públicos reduziu drasticamente a procura por planos de saúde.

Com menos pessoas com capacidade financeira para pagar pelos tratamentos em hospitais privados, o SUS aparece como único recurso para a população.

Os salários de médico do SUS, embora três vezes maior que a média dos salários dos servidores públicos, é muito pouco para a ambição dos médicos brasileiros. Muitos deles ganham mais de cem mil reais por mês, com o acúmulo de dois ou três vínculos empregatícios. Há médicos que têm emprego federal, estadual, municipal e ainda têm seu consultório particular. Essa situação cria uma falsa expectativa para os novatos, que se frustram com as dificuldades atuais da categoria.

Mas o PT não tem culpa dessa situação. Os problemas do setor de saúde começaram já nos anos 90 do século passado. O período coincide com o início da implementação das ideias neoliberais, que prega o estado mínimo. A crise se agravou nas duas primeiras décadas desse século. Exatamente o período em que tivemos pela primeira vez na história Presidentes da República filiados a partidos de esquerda.

A grande maioria de nossos médicos conhece bem apenas a área em que atua. Eles não estão preparados para entender de economia e política. Por isso, grande parte deles não é capaz de perceber que os problemas da medicina estão vinculados à financeirização da economia, principalmente devido à tomada dos planos de saúde pelos bancos e o encarecimento dos procedimentos médicos de diagnóstico e tratamento, devido ao domínio dos grandes oligopólios multinacionais sobre a indústria de remédios e de equipamentos hospitalares.

Nos últimos anos, uma propaganda muito bem dirigida, promovida pelas grandes empresas de mídia e pelos blogs da direita, convenceu os médicos de que todos os seus problemas era culpa do PT e do Lula. Uma prova da má vontade do PT com os médicos, segundo eles, era exatamente o programa Mais Médicos.

A propaganda da extrema direita foi muito bem aceita pelos médicos. Por serem em geral pessoas oriundas da classe média, eles acreditam que merecem pertencer à elite financeira. Esta seria uma justa compensação pela sua dedicação aos estudos.

Mas, há médicos inteligentes. Tirando esses que estão totalmente comprometidos com o Bolsonaro e com o tratamento precoce, que certamente não terão futuro, devido à perda da credibilidade, todos já começam a refletir e perceber que o ódio ao programa Mais Médicos foi uma tremenda bobagem. Mas isso não significa que eles passarão para a esquerda.

Por seu lado, os líderes do PT sabem que é inútil tentar acabar com a enorme rejeição dos médicos ao partido, em razão dos ideais pequenos burgueses da categoria.

Os médicos estarão ainda por muito tempo ligados à direita, com ou sem Bolsonaro.
______________


(*) Orfeu Maranhão Moreira Barros, Auditor Federal do Tribunal de Contas da União (1993–2015), aposentado.

Criado em 2021-06-17 17:32:17

Taguatinga em Pé de Guerra

Em 1960, na cidade-satélite de Taguatinga, no Distrito Federal, a luta de um grupo de lavadeiras que se organizam para defender uma bomba d’água, dedica à cidade por Sara Kubistchek enquanto primeira-dama do país.

A bomba é então requisitada pelo engenheiro Israel Pinheiro para auxiliar na irrigação de seu parreiral na Granja do Ipê, provocando uma reação das lavadeiras e a intervenção da Guarda Especial de Brasília.

Os guardas são expulsos da região a pauladas e a bomba fica garantida pela vigília permanente das mulheres, até quando Dona Sara consegue o registro de doação da bomba d’água para Taguatinga.

O filme conta com a atuação da atriz Izabela Brochado.

Criado em 2017-07-24 16:50:38

Brasília sob o olhar crítico de Girafa

Maria Lúcia Verdi -

"Sem Plano Nem Piloto - título da mostra de Luiz Jungmann Girafa, em exposição no Museu Nacional da República, em Brasília, até 5 de janeiro, explicita diretamente suas principais vertentes:  crítica irônica à Brasília de hoje e bem humorada autocrítica do artista.

Arquiteto de formação, fotógrafo, diretor dos ótimos curta metragens "Eu não sei" e "Diário vigiado", além de pintor, Girafa é um incansável caminhante que observa e registra atentamente, há décadas, os movimentos nos espaços de nossa peculiar capital.

Brasília, nascida do idealismo de seus criadores, está deturpada pela avidez imobiliária, as necessidades da população e o mau gosto. Cidades planejadas são naturalmente modificadas pelo homem, adaptadas às mudanças históricas. O Plano, alcunha pela qual os brasilienses se referem à cidade, está há muito sem piloto à altura de suas complexidades.

O artista, por seu lado, reconhece-se cheio de ideias, mas sem plano, o que testemunhei ao colaborador em seu atual projeto, o longa-metragem Enigma, em etapa de finalização. Filmado com atores e músicos de Brasília, totalmente experimental, compõe uma rica metáfora da cidade e suas questões contemporâneas. A, para nós, mitológica W3 se transforma no filme na estrada da vida, o antológico céu brasiliense nunca sendo mostrado. Girafa não tem um piloto, tem muitos, e eles o dirigem em múltiplas direções. Apresenta-se no Facebook com a frase: “não tenho emprego, tenho uso”.

Os títulos dos setores, das áreas em que é dividida a mostra - como é dividida a cidade - apontam para outra das paixões do pintor: a linguagem, a poesia, pela qual também se manifesta. Títulos criativos, brincalhões, que revelam o olhar agudo sobre o entorno e as circunstâncias políticas, sociais e emocionais que o configuram e desfiguram.  Alguns títulos que anotei: Ente asas; Setor de ruínas; Paisagem para um quarto; Eixo desentendido; Entrega de estrofes; Quatro sonhos que se cruzam; Setor de Palavaras da Ordem Norte, Sul, Leste; Zona morta para pessoas vivas; Cibenética ou faraônica.

"Sem Plano Nem Piloto" é um manifesto poético-político de forte intensidade visual. As várias brasílias são recriadas a partir de outras (e as originais) geometrias em fragmentos que revelam a mirada do arquiteto-fotógrafo comprometido com seu país.  Mas como diz o curador Renato Cunha, Girafa, filho desencantado do sonho utópico que foi Brasília, não consegue deixar de voltar a encantar-se pelos espaços, pela natureza e o céu do cerrado que nos acolhe e nós maltratamos.

A vida em blocos, a bela e ordenada monotonia da estética brasiliense esconde belezas inesperadas que o olhar do artista, ao mesmo tempo analítico e sonhador, isola e revela. Detalhes, traços, manchas, detalhes do humano que ele fotografa ou reconfigura na pintura. Figuras humanas geometrizadas, recortes de um quebra-cabeças que compõe um universo ao mesmo tempo subjetivo e coletivo. Os títulos agregam significado às narrativas visuais.

A instalação Eixe-o ou deixe-o, em clara alusão ao emblemático Ame-o ou deixe-o, de tempos que esperemos não retornem, merece comentário à parte. É um imperativo que vem de um o\Outro sem identificação: proporá um retorno à pureza da lógica que construiu a cidade?

Na sala escura, fotografias em branco e preto de detalhes da arquitetura e da população:  os sem teto e os raros pedestres desta cidade paradoxalmente antiga – aqui temos quatro rodas. Tão antiga como a moldura retangular que no chão delimita um bocado de terra vermelha, a do “quadrado” ou Distrito Federal. No canto superior dessa montagem onde a pintura é apenas a terra, um marco de ferro que remete ao marco da primeira cruz colocada no planalto eleito para a nova capital. Mas não é uma cruz. Nas paredes, as fotos sem cor têm, à direita e à esquerda, desenhados por jovens artistas voluntários,sob a orientação do autor,  fios unidos a formar uma “coisa”, figura que lembra um cordão umbilical, uma parte do intestino, o fluxo do significante.

O Museu Nacional República, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, nos presenteia com duas mostras importantes e totalmente diversas de dois artistas da cidade: Luís Humberto e Luiz Jungmann Girafa. Visitem-nas com todos os sentidos alertas.

Criado em 2018-12-16 01:12:12

Crítica - A mística sensual hindu nos palcos de Brasília

Angélica Torres -

Foi uma feliz decisão da atriz e compositora Fernanda Cabral e do ator e videasta André Amaro a de eleger e de levar com eles para o palco o místico poeta hindu Tagore (1861 ̶ 1941).

Restrito aos círculos literários acadêmicos, seu nome pode até soar familiar para o grande público, mas poucos sabem quem de fato foi Rabindranath Tagore e raros conhecem sua literatura, que lhe rendeu o Prêmio Nobel de 1913.

Inspirado nos 85 densos poemas que perfazem o seu romance O Jardineiro, o espetáculo Barca Nômade traz a poesia tagoreana ao conhecimento dos espectadores brasilienses, neste fim de semana e nos dois seguintes. Cecília Meireles, que foi grande admiradora e tradutora de sua obra, na certa, aplaudiria a escolha do casal de atores.

Entretanto, não foi com base em Cecília ou em Guilherme Figueiredo, dois de seus eminentes tradutores no Brasil, que se constituiu a versão da montagem que Brasília assistirá. Esta é resultado de um trabalho a oito mãos, desenvolvido a partir da tradução espanhola assinada por Mauro Armiño que serviu à estreia de Barca Nômade em Madri. Surgia assim uma compilação de vários dos poemas do romance, ora na íntegra, ora acasalados com outros poemas, ora subtraindo-se repetições, na busca de uma síntese discursiva contemporânea para o rigor da textura poética dos monólogos e diálogos do texto original de Tagore.

Nesse processo, André Amaro e Fernanda Cabral contaram com a colaboração do dramaturgo brasiliense Maurício Witczak e da diretora russa radicada na Espanha, Irina Kouberskaya, que optou por apostar em uma narrativa de intensa plasticidade cênica, como um poema visual, em tradução paralela, somando-se ao texto retrabalhado.

Irina Kouberskaya vale-se de uma vasta gama de cores exuberantes e de tons pastéis no cenário, nos figurinos, nas luzes. Tira partido da videocenografia criada por André Amaro, produzindo efeitos mágicos sobre os atores e na estética minimalista dos elementos de cena: a cortina ao fundo, um pequeno barco de madeira, a pá usada como diferentes metáforas, uma ânfora, uma pandereta, a camisa bordô do viajante (expressivamente manuseada como alegoria espanhola pela mulher solitária em devaneio frente a um touro) e todos empregados individualmente em uma cena e outra.

A pesquisa musical de Fernanda Cabral é também um recurso que faz jus a Tagore, até porque, como dramaturgo, ele se permitia um perfil próximo ao do menestrel, incluindo composições próprias nas exibições de suas peças. Fernanda cria uma trilha sonora que embasa performances de breves danças ritualísticas, arquetípicas do Oriente, mas também de gestuais dos modernos balés ocidentais, que ela e seu parceiro desempenham entre um quadro e outro da poesia falada.

Os figurinos leves, com transparências sobrepostas e adereços de flores e grinalda para os longos cabelos dela, ele quase sempre de peito nu em cena, são expedientes que ressaltam a beleza dos corpos de ambos e preparam a plateia para a contemplação do ponto alto do espetáculo: a cena em que ela cede à sedução do viajante mendicante e a misancene dos jogos de amor, como preliminares, em uma sutil referência ao Kama Sutra, instala-se com especial delicadeza e erotismo por todo o palco metamorfoseado em alcova.

Ela – De que me serviria um jardineiro? Ele – Conservaria fresca a trilha por onde andas a cada manhã e, a cada passo, os teus pés seriam abençoados pelas flores que margeiam o teu caminho. Ela – E o que desejas como recompensa? Ele – Que me dês permissão para recolher, com um beijo, o pó que porventura venha a pousar sobre os teus pés. Ela, após uma pausa – Quero que sejas o jardineiro do meu jardim...

Não haveria momento melhor para colocar o amor sob os holofotes da ribalta – ele, que não está no ar e nem tem sido objeto de um ideal de elevação à nossa autoestima no país. Também, ainda sob essa ótica do momento, não haveria autor melhor para ser tirado do ostracismo – ainda que em O Jardineiro, Tagore esteja entregue ao lirismo do personagem, que é um bodisatva, um monge andarilho misticamente apaixonado.

Isso dito, por Tagore representar a suprema expressão do escritor bengali nacionalista, crítico dos males perpetuados na Índia colonizada pelo império britânico; chegou a visitar a América Latina, interessado em compreender suas semelhanças com as da sociedade colonial indiana. Tagore se dividia, portanto, entre as duas castas superiores da humanidade, de acordo com a classificação de Krishna, descrita no Bhagavad Gîta: a do guerreiro e a do espiritualista.

Filho de um brâmane abastado, Rabindranath Tagore nasceu em Calcutá, província de Bengali, nos primórdios da era moderna (1861). Complementou seus estudos na Inglaterra e ao voltar para a Índia, cultivou uma vida de riquezas artísticas e intelectuais. Poeta e músico, pintor e ator, folclorista e educador, místico por excelência e agudo observador do comportamento humano e das estruturas sociais, traduziu ele próprio muitos de seus variados textos e canções do bengali para o inglês, esforço que lhe abriu as portas do mundo.

Ao ganhar o Nobel de Literatura, sua obra grassou por outros países europeus e latino-americanos, reunindo entre seus tantos admiradores poetas como W.B.Yeats e Ezra Pound, além da escritora argentina Victoria Ocampo. Feminista e antifascista, Ocampo recebeu-o como hóspede, em San Isidro, cidade da província de Buenos Aires, em 1924, quando, a caminho das comemorações da independência do Peru, ele adoeceu no navio. Um ano depois o poeta retribuiria à cortesia da amiga, dedicando-lhe a coletânea de poemas Purabi.

Em O Jardineiro, fonte de inspiração da peça que entra em cartaz hoje, sexta-feira, 29/3, no Espaço Renato Russo (508 Sul), o sábio, erudito, multifacetado Rabindranath Tagore parece ensejar e reforçar uma visão patriarcal típica do Oriente, na figura do viajante que implora por acolhimento na casa de uma mulher solitária e precavida contra prováveis decepções amorosas. Mas o desenlace mostra tratar-se de uma abordagem espiritualista, sob o conceito do encontro dos princípios masculino e feminino como símbolo de unidade para o alcance da sabedoria e do iluminamento.

Já o tratamento do sutil erotismo dado à peça parece vir da escola tibetana do budismo, com suas famosas imagens de budas (metonímia de homens santos) abraçados lânguida e sensualmente às suas consortes, embora também representando a mesma união acima citada.

No entanto, uma lúdica, quase cômica, coreografia do casal simulando dois cervos, coroa o espetáculo com um toque final de significativa alusão mundana, calcada em versos do último diálogo entre ambos, como estes: “Se fosse apenas uma flor redonda e pequena e doce, a arrancaria de um galho para colocá-la em seu cabelo. Mas é um coração, minha amada. (...) Meu coração não é meu, pertence a todos”.

Contudo, que o espectador interprete a mensagem da cena, assim como de todo o enredo condensado, e tire a sua própria conclusão.

Criado em 2019-03-29 01:56:05

Museu da Bíblia ou Teatro Nacional

Romário Schettino –

Matéria publicada no site da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF dá conta de que o secretário Bartolomeu Rodrigues está cumprindo a tarefa de conduzir parte do projeto que vai erguer em Brasília o Museu Nacional da Bíblia. A outra parte é de responsabilidade da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação (Seduh).

Esse compromisso, assumido pelo governador Ibaneis Rocha (MDB) durante a campanha eleitoral vem gerando questionamentos, críticas e protestos quanto à sua conveniência ou prioridade. Setores do Movimento Cultural estão consultando o Ministério Público sobre a possibilidade de questionar judicialmente a decisão do governador. Os deputados distritais também serão procurados para reverter o processo já iniciado pelo GDF.

O Movimento Cultural lembra que o Teatro Nacional de Brasília (TNB) continua fechado há mais de sete anos e outros espaços estão inconclusos, como o Museu de Arte de Brasília (MAB), ou desativados, como o Espaço Cultural Renato Russo (508 Sul), só para citar alguns.

Não tem o menor sentido gastar dinheiro e tempo para criar um novo espaço que não vai funcionar como deveria. O Museu Nacional de Brasília até hoje não tem uma estrutura funcional adequada. É uma gambiarra atrás da outra, sem orçamento próprio e sem quadro de pessoal.

Inicialmente fala-se em gastar R$ 26 milhões, mas a experiência tem mostrado que pode chegar a R$ 80 milhões, como ocorreu com o Estádio Mané Garrincha, que só foi concluído com um gasto superior a três vezes o orçamento inicial. E o mais grave, qual a garantia de que de fato a gestão do museu será laica?

Bartolomeu assumiu a secretaria em dezembro de 2019. Agora, a Secec “comandará a Comissão de Licitação do equipamento cultural com expectativa de captação de 100% de emendas parlamentares, que são verbas públicas. Segundo o secretário, "deste total, R$ 14 milhões já estão garantidos".

“Por ser um equipamento que evoca tema religioso, surgem questionamentos baseados em interpretações apressadas, muitas preconceituosas, que precisam ser desmistificadas. Antes de tudo, o projeto nasce dentro dos padrões museológicos mais rigorosos. Não se está pretendendo erguer um templo de fé e de orações”, afirma o secretário Bartolomeu.

Em defesa da ideia de ter um Museu da Bíblia em Brasília, o secretário de Cultura lembra que este será “um espaço cultural e curatorial, que vai permitir experiências de conhecimento sobre uma das mais importantes escrituras da humanidade, sobre a qual deitam as raízes da civilização ocidental”.

“A Bíblia influenciou fortemente as artes, literatura, filosofia e pensamento científico. Até o mais ardoroso ateu sabe disso. E não por menos museus similares existem várias partes do mundo, a exemplo do Museu da Bíblia de Washington”, lembra ele.

Por fim, o secretário afirma que este será um equipamento “que vai ampliar a diversidade cultural do Distrito Federal, que em nada fere o estado laico, mas contribuirá sensivelmente, com uma proposta curatorial balizada pela arte e pela formação do conhecimento, para reunir, em seu espaço apreciativo, pessoas de diversas religiões e credos ou até agnósticas e ateias. Por que, não? A Bíblia continua sendo fonte de inúmeros estudos, tenha ou não propósitos religiosos.”

Concurso arquitetônico

O site da secretaria informa que a obra será erguida numa área de 7.500 metros quadrados no Eixo Monumental, nas proximidades da EPIA e da antiga Rodoferroviária. Nesse momento, o projeto entra em sua primeira etapa: o lançamento do Concurso Nacional para a escolha da proposta mais adequada, que atenda às especificidades legais e ao Programa de Necessidades, elaborado colaborativamente entre a Secec e a Seduh. Esse documento contou com o apoio técnico qualificado de arquitetos e museólogos.

Desenho não é de Niemeyer

O secretário aproveita para corrigir o que ele chama de "outro equívoco que está sendo difundido em redes sociais e até mesmo na imprensa: a imagem do museu a partir de um desenho atribuído ao arquiteto Oscar Niemeyer".

“Não usaremos a matriz de Niemeyer. O que será construído é algo que ainda não vislumbramos, pois virá justamente do resultado do concurso.”

Segundo Bartolomeu, “todo o processo de inscrição, apresentação das propostas e julgamento será feito por meio de um portal on-line a ser lançado brevemente. O Edital está em fase de revisão técnica e deverá ser apresentado tão logo esta termine”.

Criado em 2021-01-17 22:15:28

Como é que chama mesmo a cruza de Cruz-Credo com Mula sem cabeça?

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Eu tenho alguns amigos que se recusam a pronunciar o nome do Bolsonaro. Escrevem B*, B…, ou recorrem aos famigerados nicks do elemento, tipo Coisa-Ruim, Coiso, Bozo, Belzebozo, Bolsolini, Bolsorritler, Inominável, Capiroto e Mal Lavado etc.

Os linguistas recorrem à classe dos tabuísmos para explicar a razão de tanta gente usar eufemismos e disfemismos quando se referem ao Intragável, preferindo-os ao seu nome próprio. O mesmo fenômeno acontece nos Estados Unidos, onde a escritora Joyce Carol Oates nunca escreve Trump, mas T***p.  

Em casa, quando eu era moleque (tudo bem, ainda sou!), a gente não podia dizer “desgraça” por temor de que ela ouvisse o berro e o interpretasse como invocação. Em vez de xingar alguém de  “desgraçado”, eu esculhambava a vítima com um termo mais ameno, “desgramado”.

Já o Riobaldo Tatarana, preocupado em negar a existência do Diabo, encontrou 92 sinônimos para se referir ao Cujo, três vezes mais do que havia registrado o filólogo português Leite Vasconcelos (1858-1941). Xu!

Um desses amigos a quem pedi esclarecimento me disse que o seu motivo é outro. “Não é tabu. É que eu não quero contribuir para a coleta algorítmica do nome da Besta”. Escrevendo o nome do Canho no Whatsapp ou no Facebook, ele acha que estará cevando a agenda-setting dele. 

De chofre (ou de enxofre!), eu percebi que o Adversário também se atualiza tecnologicamente. No filme Errementari, o Ferreiro e o Diabo, de Paul Urkijo Alijo, baseado num conto do folclore basco, o Drão gótico é distraído quando alguém em fuga espalha grãos-de-bico pelo chão. É que o Malino tem a compulsão de parar para contá-los.

Hoje, ao que tudo indica, os Arrenegados (são Legião!) estão contratados como programadores de algoritmos nas redes sociais. Eles agora contam posts, likes e dislikes para medir o engajamento e o rankeamento das interações dos usuários com vistas a enredá-los nas teias do web feed. Sabem mais da vida do freguês (gostos, preferências, taras, posição no espectro político etc) do que o próprio freguês.

Obviamente, podem muito bem costumizar os algoritmos para reconhecer o nome do Ocultador por trás de siglas como B* ou B…

Em compensação, nós vamos ficando cada vez mais confusos. Se em vez de Lira, o sub-Cabrobó da Câmara dos Deputados, alguém o chama de L**a, o que me garante que eu não vou baralhar esse símbolo com o nome do Lula?

De um jeito ou de outro, somos alvos da tramoia dos criadores dos chatbots, cuja semelhança com a serpente primordial é que eles também nos dão botes, não porém para que tenhamos acesso ao fogo do conhecimento, mas sim para que fiquemos paralisados até o ponto da incomunicação!

Xô, Duba-Dubá, Rasga Embaixo, Rincha Mãe, Sangue d’Outro, Tranjão, Bolsonaro!

Criado em 2021-06-10 00:27:04

Carta aberta à Humanidade

“Vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança”. (Hanna Arendt)

"O Brasil grita por socorro. Brasileiras e brasileiros comprometidos com a vida estão reféns do genocida Jair Bolsonaro, que ocupa a presidência do Brasil, junto a uma gangue de fanáticos movidos pela irracionalidade fascista. Esse homem sem humanidade nega a ciência, a vida, a proteção ao meio-ambiente e a compaixão. O ódio ao outro é sua razão no exercício do poder.

O Brasil hoje sofre com o intencional colapso do sistema de saúde. O descaso com a vacinação e as medidas básicas de prevenção, o estímulo à aglomeração e à quebra do confinamento, aliados à total ausência de uma política sanitária, criam o ambiente ideal para novas mutações do vírus e colocam em risco toda a humanidade.

Assistimos horrorizados ao extermínio sistemático de nossa população, sobretudo dos pobres, quilombolas e indígenas. Nos tornamos uma “câmara de gás” a céu aberto. O monstruoso governo genocida de Bolsonaro deixou de ser apenas uma ameaça para o Brasil para se tornar uma ameaça global.

Apelamos às instâncias nacionais – STF, OAB, Congresso Nacional, CNBB – e às Nações Unidas.

Pedimos urgência ao Tribunal Penal Internacional (TPI) na condenação da política genocida desse governo que ameaça a civilização. Vida acima de tudo!"

Já assinaram, entre outros e outras: Dom Mauro Morelli, Padre Júlio Lancellotti, Leonardo Boff, Chico Buarque de Holanda, Carol Proner, Zélia Duncan ...

Assine você também esta Carta Aberta clicando aqui

 

 

Criado em 2021-03-07 04:32:40

Debate acalorado no GT sobre reajuste das passagens

Ziidenor Ferreira Dourado (*) -

Muita polêmica marcou a instalação, quinta-feira (5/1), do Grupo de Trabalho da Câmara Legislativa criado por ato do presidente Joe Valle (PDT) para discutir uma proposta de solução para a crise provocada pelo reajuste das tarifas de ônibus e do metrô em até 25%.

Os debates acalorados envolveram deputados distritais, representantes dos usuários, do empresariado e o secretário de Mobilidade do GDF, Fábio Damasceno, que defendeu a posição oficial do governo.

Na próxima quarta-feira (11/1), às 11h, o GT se reunirá novamente para apresentação de um esboço das propostas que serão debatidas pelos deputados distritais na sessão extraordinária convocada para o dia 12 de janeiro, às 15h.

Entre as questões mais debatidas destacaram-se a crescente diferença entre as tarifas pagas pelos usuários e a chamada tarifa técnica, bancada pelo governo, as fraudes no uso do cartão do passe livre, a falta de transparência sobre os custos do sistema, como também uma possível revisão da política de concessão de gratuidade, sobretudo envolvendo estudantes da rede privada.  

Ao abrir a reunião, o presidente Joe Valle destacou a necessidade de o Legislativo garantir um debate amplo da questão a fim de se buscar um acordo com o GDF. "Precisamos de uma solução definitiva para acabar com o pagamento de subsídios de R$ 600 milhões por ano, pois do jeito que está até mesmo com o reajuste atual não teremos recursos para bancar o sistema", alertou o parlamentar.

Um dos dois coordenadores do Grupo de Trabalho, deputado Wasny de Roure (PT), criticou duramente o governo atual por não ter feito "um estudo profundo", logo após assumir em 2015, a fim de reduzir os custos do sistema com o pagamento dos subsídios. "De 130 milhões em 2013 o custo passou para R$ 640 milhões em 2016. Há algo a ser explicado à sociedade, pois o governo não fez o dever de casa", advertiu o distrital petista.

O deputado Cláudio Abrantes (Rede), também coordenador do GT, condenou "a forma açodada" como o governo decidiu pelo aumento das tarifas, sem discutir o problema com os representantes da sociedade e também com os deputados distritais. Lembrou ainda que a CPI dos Transportes apontou sugestões para melhorar a eficiência do sistema e apontou falhas nos processos de auditoria.

Desemprego - O presidente da Associação Comercial do DF, Cléber Pires, disse que os empresários do DF receberam "uma fatura nova para pagar logo no começo do ano", embora ainda enfrentem muitos problemas como o número crescente de empresas que fecham em virtude da crise. Afirmou que com as tarifas cobradas agora os empresários terão que recorrer a demissões para reduzir seus custos.

Entre os estudantes o clima era de revolta. Vários deles, como Guilherme Camargo, anunciaram que vão intensificar a mobilização nos próximos dias para a reversão do reajuste e enfatizaram que também vão lutar contra qualquer redução das gratuidades para estudantes de escolas privadas e também de cursinhos.

O deputado Professor Israel Batista (PV) fez um discurso emocionado em defesa dos projetos que apresentou para garantir passe livre aos estudantes. "Não vou aceitar qualquer retirada de direitos. O custo do passe livre para os estudantes só representa 0,6 % do orçamento do DF", protestou, enfatizando que muitas famílias já gastam muito mantendo seus filhos em escolas particulares e cursinhos.

Secretário – Representante do governo no debate, o secretário de Mobilidade, Fábio Damasceno, fez uma longa explanação para justificar as dificuldades orçamentárias do governo em bancar a diferença entre os custos da tarifa usuário e da tarifa técnica e assegurou que o governo não tinha como adiar a concessão do reajuste.

Ele defendeu ainda que o governo atual vem atuando firme no combate às fraudes no sistema, como a comercialização de cartões de passe livre para estudantes, mas admitiu "problemas" com a implantação da integração entre as linhas. Ele anunciou que o "novo bilhete único" trará benefícios à população.
_____________________
(*) Ziidenor Ferreira Dourado, repórter da Coordenadoria de Comunicação Social da Câmara Legislativa do DF.

Criado em 2017-01-06 12:08:41

Os sonhos do Clube da Esquina não envelheceram

Heriberto Porto (*) -

Este é um momento que eleva a música do Clube da Esquina ao patamar de movimento musical, reconhecido na história da música brasileira como nunca foi.  São 50 anos do disco que inaugurou o movimento e este é o ano em que o seu principal representante, Milton Nascimento, completa 80 anos e anuncia seu afastamento dos palcos, depois de fazer a última turnê.  Também participa desta confluência, que estabelece 2022 como marco, o fato do disco Clube da Esquina ter sido considerado o melhor disco brasileiro de todos os tempos, em uma lista recente onde participaram 162 especialistas de diversas áreas.  Essa lista foi publicada no podcast Discoteca Básica, considerado um dos melhores do Brasil.

Mas o que significa o Clube da Esquina para a música brasileira?

O nome Clube da Esquina surgiu de uma esquina onde Lô Borges encontrava seus amigos no Bairro Santa Tereza de Belo Horizonte, no final dos anos sessenta.

Já o movimento musical, liderado pelo genial Milton Nascimento, começou em 1970, durante a gravação do disco Milton.  Esse disco teve como base o grupo instrumental Som Imaginário (Wagner Tiso, Tavito, Novelli, Zé Rodrix, Robertinho Silva, Luiz Alves e Fredera) com as participações dos mineiros Lô Borges e Toninho Horta. Aí se formava o embrião do Clube da Esquina, cariocas e mineiros. O disco Clube da Esquina de 1972 é assinado por Milton e Lô Borges e conta com a mesma formação do anterior, além de Beto Guedes, Alaíde Costa e o próprio Lô Borges como cantores e Eumir Deodato e Wagner Tiso como arranjadores. Este disco comporta muitas particularidades: a sonoridade multidimensional da mixagem, a gravação em apenas dois canais (!!!), a distribuição das músicas em forma de “trilha sonora”, onde cada música é a continuação da outra, além da reunião de músicos de diversas procedências, com distintas influências. Esse foi o caldeirão que iria influenciar diversas gerações de músicos, compositores, poetas e cantores.

Surgia ali uma música que nem era rock, nem regional, nem bossa nova, nem erudita, nem jazz, nem samba, mas era tudo junto, com um tratamento instrumental e musical muito novo. O mago percursionista Robertinho Silva nos trouxe os ecos da África vindos de Minas e não do Rio ou da Bahia. Era a marujada, era o congado chegando pela primeira vez em nossos ouvidos.  A harmonia de Toninho Horta, ousada, diferente, influenciou músicos do mundo inteiro, e segue influenciando até hoje.  Pairando sobre esta instrumentação pós-moderna, a voz forte, o falsete limpo e lindo de um anjo chamado Milton Nascimento.  Para completar, cito os poetas Ronaldo Bastos e Fernando Brant e Márcio Borges como os parceiros nas composições que marcaram os sonhos de muitos jovens desde 1972. 

Este disco, junto com os outros do Milton Nascimento (até 1981), e os discos da “turma do clube” ( Lô Borges, Beto Guedes, Wagner Tiso, Novelli, Nelson Ângelo, Toninho Horta, Flávio Venturini, Tavito...) que seguiram depois, confirmam o movimento Clube da Esquina como um dos mais importantes já surgidos no Brasil. Durante muito tempo se via a  “ nova música brasileira” restrita à Bossa Nova e à Tropicália, sem considerar este movimento tão musical que reverberou até novos compositores como Simone Guimarães, Sérgio Santos, Renato Braz e tantos outros.

A fama duradoura - diria eterna - do disco Clube de Esquina se deve menos à divulgação da mídia do que à capacidade dos jovens de ainda escolherem aquilo que é melhor para se escutar, da beleza de sempre querer cantar/sonhar juntos: Tudo que Você Podia Ser, O Trem Azul, Um Girassol da Cor de seu Cabelo e Nada Será Como Antes.
_________________
(*) Heriberto Porto é flautista e toca na Marimbanda. É professor do Curso de Música da UECE e doutorando em música pela Unicamp.

Criado em 2022-06-07 17:06:04

ABI pede demissão do ministro Salles no Dia Mundial do Meio Ambiente

Romário Schettino –

Como o assunto meio ambiente não tem sido relevante desde que Jair Bolsonaro assumiu o Palácio do Planalto, o presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Paulo Jeronimo, escreveu uma carta aberta para lembrá-lo de que sábado, 5 de junho, é o Dia Mundial do Meio Ambiente, declarado pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Jerônimo diz em sua carta que “duas razões fazem do Brasil um personagem presente quando se trata hoje de meio ambiente em qualquer debate: o fato de termos em nosso território a maior parte da Amazônia, tido como o pulmão do mundo; e a política criminosa que vem sendo desenvolvida pelo governo brasileiro desde que Bolsonaro assumiu a Presidência”.

A ABI acrescenta que “o desmatamento ganha contornos nunca antes vistos e é de tal monta que parece ser uma política deliberada, o que, se verdadeiro, seria um crime inominável”.

Mesmo descrente que alguma coisa mude no governo atual em relação ao tema ambiental, a ABI convoca a população para continuar as críticas e protestos e propõe que Bolsonaro aproveite a data e exonere o ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, que já disse ser preciso aproveitar a pandemia para “passar a boiada” e avançar na extinção das normas de preservação do meio ambiente.

A propósito, a ABI lembra que além do péssimo desempenho do ministro, “agora as coisas são mais graves, Salles enfrenta também denúncias de corrupção.”

Salles é alvo de pedido de um inquérito por parte da Procuradoria Geral da República por suspeição de praticar advocacia administrativa, dificultar a fiscalização ambiental e embaraçar a investigação de infração que envolve crimes de uma organização criminosa.

A carta aberta da ABI lembra que a denúncia foi firmada pelo vice-procurador-geral da República, Humberto Jacques de Medeiros, e enviada ao Supremo Tribunal Federal (STF). A  relatora é a ministra Cármen Lúcia, que tem como base a notícia-crime enviada pelo ex-superintendente da Polícia Federal no Amazonas, Alexandre Saraiva ao Supremo. A acusação se relaciona com a maior apreensão de madeira da história do Brasil. Foram 226.763 metros cúbicos de madeira, num valor estimado seria de R$ 129 milhões. Segundo o delegado, teria havido interferências indevidas do ministro para proteger os criminosos.

Ricardo Salles é investigado também em outra ação no STF, pelo ministro Alexandre de Moraes, relacionada com a facilitação de exportação ilegal de madeira.

Criado em 2021-06-03 20:41:32

A nova versão da Noviça Rebelde

É como dizem: Um clássico nunca envelhece. Você assiste 50 anos depois e parece que foi feito ontem. Talvez essa seja a magia do cinema.
 
FICHA TÉCNICA:
Roteiro e Direção: Marcelo Laham
Direção de Fotografia e Edição: Philip Silveira

ELENCO:
Crianças:
Chiara Scalett
Bia Dalmolin
Sofia Penna
Roberto Justino
Bruno Shiraishi Costa

Tia Marcela: Bruna Guerin
Loures: Alexandre da Costa Pereira

Arranjo Musical: Fabio Luchs e Tadeu Mallaman
Gravação e Mixagens: Flávio Pereira

Som Direto: Claus Stellfeld
Making Of: Graci Zapatta
Arte Final: Rafael Branco
Direção de Arte e Produção Geral: Camila Boudakian
Ass. Produção: Mauro Félix
Legendas: Gabriela Leite
Mídias Sociais: Beatriz Gabriel
Imagens Aéreas (Drone): Heitor Florence

Agradecimentos:
Alice Silveira
Camila Falbo
Luiz Ladeira
Marina Penna
Isa Dalmolin
Tomoko Shiraishi
Claudia Lima

FACEBOOOK: https://www.facebook.com/EmbrulhaOficial.
TWITTER: https://twitter.com/embrulhaoficial
INSTAGRAM: https://www.instagram.com/embrulhaofi...

Criado em 2017-07-12 12:02:09

A poética do cotidiano

Maria Lúcia Verdi –

É um desafio escrever sobre a mostra “A reforma do olhar possível”, do mestre Luís Humberto, atualmente em exibição no Museu Nacional da República, em Brasília. Proposta e apresentada com competência pelos fotógrafos Rinaldo Morelli e Usha Velasco, a mostra é um poema de cores e luzes sobre o espaço do cotidiano do fotógrafo. Fotos que são pinturas.

Ao refletir sobre a capacidade da fotografia de contar histórias, sugerir narrativas possíveis, diz Rinaldo, no belo catálogo da mostra: “Luís Humberto, nestas fotografias, conta um pouco de sua história recente. Supera-se diante dos novos desafios, compreendendo os limites como propostas de novas possibilidades”.

A história que as fotografias expostas contam é a do cenário em que se insere alguém, um sujeito, que enfrentou o desafio da doença e o fez com garbo. Este sujeito não se sujeita à limitação física, seu refinado olhar e sensibilidade estão muito além dela. É um sujeito pleno, que aponta para a luz, para o recorte, para a lucidez, para a salvação pela arte.

Ícone da fotografia brasiliense, professor emérito da UnB Luiz Humberto é lembrado por Usha Velasco, em seu texto, como o professor que exigia que os alunos dissessem “coisas”, não se calassem frente às imagens. “Ele nos ajudou a construir ferramentas para pensar”.  A fotógrafa recorda o jovem arquiteto Luís Humberto e seu compromisso com a democracia ao demitir-se da UnB em 1965; o seu peculiar olhar de fotojornalista, e sintetiza uma vida de entrega à fotografia e de notório reconhecimento pela sociedade.

Amo o minimalismo, a luz e suas propostas, as geometrias banais do cotidiano. O poema visual composto por Luís Humberto tem alguns eixos: a homenagem ao olhar – muitas fotos dedicadas aos pares de óculos da casa, companheiros da leitura, da escrita, da fotografia possível; à luz que transforma as coisas e produz epifanias; aos objetos triviais que nos acompanham.

Abre o catálogo foto de um trinco de porta e das sombras projetadas nela e na parede detrás. Entramos respeitosamente no espaço do casal Luís Humberto e Márcia. Ele nos revela a suavidade do olhar, a justeza dos recortes que a visão filosófica do artista (como adiantou Celso Araújo) executa, no espaço de convivência da família. As cores, os detalhes nos lembram pequenos Koans orientais onde histórias são contadas ou perguntas são feitas sem que haja respostas a não ser a da própria letra dos textos - como nas fotografias do “olhar possível”.

A intimidade de alguém que vive com uma limitação é revelada na sua negação do limite. O que vemos é a perfeita sintonia com a Beleza, com a transcendência de uma realidade que pode ser dura, cansativa, repetitiva. Daí a filosofia que se depreende das fotos: a da superação, a da aceitação. Superar, sublimar, por meio da Arte, antiga lição. Nas quatro fotos de agendas, uma está vazia, duas anotadas com os compromissos que os dias trazem e uma que expõe, manuscrita, a palavra: sobrevivência.

Na foto da biblioteca, colocada, no catálogo, logo após a foto recém mencionada, conseguimos identificar os títulos de alguns poucos volumes: À Sombra das Raparigas em Flor, do “Em busca do Tempo Perdido”, de Proust; Uivo\Howl, de Allan Ginsberg; O Apanhador no Campo de Centeio, de J. Salinger; um volume que sei ser de Guimarâes mas não reconheço qual seja, minha edição é outra; e, o que chama o olhar do leitor que o leu – A Cerimônia do Adeus, de Simone de Beauvoir.

Nada precisa ser explicado. A máquina fotográfica é apenas o instrumento para, como disse Usha, provocar pensamento e êxtase. Numa tarde os vi de relance, Luís Humberto e Márcia, num shopping, num desses que uma das fotografias registra a partir de um ângulo e um reflexo provocadores. Eles dialogaram com meus pensamentos e inquietudes. Aqui, o poema:

Meio do dia

O anjo sem asas sobre a geladeira
A montanha - dois chapéus asiáticos
Na pintura de Pedro Alvim um pátio,
um canto de casa carro, mangueira

(observo Preta em seu espaço
a qualquer hora ela morre
quase quatorze anos é muito
surda e sem faro a vida custa)

Meio da tarde, corredor de shopping
de esguelha vejo o artista
- a dignidade em cadeira de rodas
A vida resiste mesmo quando cansa
Segue-o a mulher, a musa agora outra
(onde o mesmo?)
Abro o livro, a musa na plenitude de mãe
o sorriso abre, abre abre

(numa dessas noites olharei para o tapete
a forma estará  imóvel)

Meio da noite
Tudo silenciado menos a geladeira
O som das necessidades
a manutenção dos corpos

(Preta bebe água com sofreguidão
talvez tenha  mais tempo, me digo
E para quê mais? pergunta-me desde dentro
a que se esforça
por beber água)

PS: Agradeço a Luís Humberto por me dar uma lição: beber água não deve ser um esforço.

_________________

Serviço:

Exposição: A reforma do olhar possível (Fotografias de Luis Humberto)
Visitação até o dia 6 de janeiro de 2019, das 9h às 18h30.
Local: Museu Nacional da República – Esplanada dos Ministérios – Brasília – DF
Entrada franca.

Criado em 2018-11-21 23:59:18

Ao suor e às lágrimas da face de Lula

Angélica Torres -

Na manhã em que morreu o pequeno Arthur Lula da Silva, ao imaginar lágrimas escorrendo pelo rosto do avô, sozinho no cárcere, me veio à memória outra cena, esta real, ocorrida em 1986, e outro líquido de natureza igualmente tão humana, também inundando a face do então líder sindicalista, cena que me marcou profundamente quando o conheci e o entrevistei, por iniciativa própria, fora da pauta de reportagem, por pura curiosidade.

O país acabava de entrar em plena era de renascimento. Três repórteres da grande mídia, uma de um jornal local e eu pela Voz do Brasil fazíamos então a cobertura do Ministério da Reforma Agrária (MRA). Tínhamos viajado no dia anterior, num avião bimotor, acompanhando os ministros Dante de Oliveira (Reforma Agrária), Paulo Brossard (Justiça) e o delegado Romeu Tuma, da Polícia Federal, em visita ao Bico do Papagaio, área de sangrentos conflitos agrários.

As três autoridades tinham ido conversar com as lideranças de posseiros, grileiros e fazendeiros dos três estados de confluência da região – Goiás (hoje Tocantins), Maranhão e Pará –, sobre a situação de violência em que se achavam há mais de uma década, a fim de vislumbrarem a possibilidade de uma solução para o quadro de tamanha complexidade.

O calor abafado era infernal em toda a área. Suávamos em bicas, exceto Brossard. Em seu terno cinza impecável, sob seu indefectível chapéu Panamá, o homem mantinha a pele alva levemente rosada e sem uma gota sequer de suor marejando no rosto, enquanto nos dava seus depoimentos ao final de cada uma das três tórridas cidades visitadas. Aquilo me deixou muito intrigada.

Voltamos de noite para Brasília com bastante material para escrever nossas matérias. No dia seguinte, antes de ir para a redação da Voz e depois para o ministério, não resistindo à curiosidade, passei por conta própria na Praça 21 de Abril, da Asa Sul do Plano Piloto, onde eu soube que Lula, candidato a deputado constituinte por São Paulo, faria um comício.

Não me lembro mais qual era o tema exato do comício, mas a cena inteira é inesquecível. Lula descia sozinho pela escada de um palanque improvisado, no momento em que cheguei à Praça; tinha acabado de discursar. Havia uma grande clareira em volta do palanque e nenhum repórter na disputa por entrevistá-lo. Jovem, em início de carreira, ainda tímida, mas corajosa na pele de repórter – ossos do ofício... – pensei rápido: vou fazer a ele uma pergunta sobre reforma agrária.  Sicolácolô. Se não, ao menos conheci o famoso Lula de perto. E fui ao seu encontro.

Também não lembro qual foi a pergunta que fiz. Ao vê-lo ali tão próximo, o suor lhe escorrendo por todo o rosto, a camiseta molhada pelo esforço do discurso, feito sob o sol da cáustica seca brasiliense de 1 hora e pouco da tarde, lembrei-me imediatamente do ministro Paulo Brossard e de sua arte de não suar, trajando terno e chapéu, em pleno calorão brabo de Imperatriz do Maranhão, mais ou menos àquela mesma hora da tarde anterior.

Senti muita vontade de comprar uma garrafinha d’água para Lula, mas não pude fazer esse gesto de boa samaritana. A imagem do ministro bem nascido, bem criado, bem estudado e encaminhado na vida, sem termos de comparação com a daquele cabra extraordinário à minha frente, falando em uma língua política inusitada, com dicção, narrativa, inflexão, conteúdo, sinceridade, rouquidão, totalmente inovadores em relação aos políticos grã-finos e pasteurizados que estávamos acostumadas a entrevistar, eu e minhas colegas setoristas do MRA (Eliana Lucena, do Estadão; Marcinha Brandão, de O Globo; Rosane Garcia, da Folha de S. Paulo; e Joyce Russi, do Jornal de Brasília) – era algo assim tão novo quanto foi para os da nossa geração ouvir João Gilberto e Beatles pela primeira vez –, que, adeus, garrafinha d´água!

Foi um choque. Entrei em estado de poesia, quando se adentra por um universo paralelo e individual, cutucada pela Musa. Fiquei mirando a figura, observando aquela seriedade carismática que marcava sua expressão facial de líder de massas, a barba cerrada e o farto cabelo muito negros – que me evocaram o verso do poeta cubano Nicolás Guillén, no poema “Che Comandante”: “rosto de barbas que clareiam/ marfim e azeitona em pele de santo jovem/ firme voz que ordena sem mandar/ que manda companheira/ ordena amiga/ terna e dura de chefe camarada!” – e agora sobrepondo essa imagem rude e verdadeira à do ministro da Justiça.

Naquele momento, percebi que algo surpreendente estava mesmo nascendo no Brasil que acabava de se libertar da ditadura militar, e todos podendo testemunhar, formar ideia e opinião, participar, cada qual com seu juízo, amplo ou limitado, leviano ou responsável, da prerrogativa cidadã.

Os que acompanharam com atenção e sensibilidade a trajetória de Lula não são de se perturbar com críticas e ironias de adversários, e até mesmo de amigos, a uma admiração que taxam de “exagerada”. Alguns se comprazem em alfinetar, citando, por exemplo, a célebre frase de Brecht, da peça A Vida de Galileu: “Infeliz da nação que precisa de heróis”.

Pois, tomo a liberdade de interpretá-la sob outro ângulo: este, que não rebaixa o herói em si, mas os que desrespeitam e aviltam o país e seu povo, como golpistas lesas-pátrias, fascistas torturadores e moleques psicopatas, tornando a figura de um herói, como Luiz Inácio Lula da Silva, necessária como parâmetro e antídoto, ao seu povo.

O tempo está se encarregando de mostrar mais coisas que muitos não conseguiam discernir. Hoje, na pureza de seu próprio sacrifício, uma criança de apenas sete anos vividos faz o papel desse fio condutor ao avô, iluminando-o, para os de fora divisarem melhor o processo familiar de tantos outros sacrifícios, suores e lágrimas. Às suas e às de sua família juntamos as nossas lágrimas e o nosso mais solidário apoio, Presidente Lula.

Criado em 2019-03-03 17:50:58

Movimento cultural cobra agilidade na liberação dos recursos da Aldir Blanc no DF

Romário Schettino -

Em carta aberta ao secretário de Cultura e Economia Criativa, Bartolomeu Rodrigues, divulgada hoje (8/1), o Movimento Organizado da Cultura do DF (MOC-DF) pede agilidade e transparência no cronograma de liberação dos recursos da Lei Aldir Blanc destinados aos trabalhadores do setor.

Os signatários da carta dizem que estão “inquietos diante da falta de diálogo entre o gestor da lei no DF e os beneficiários dos recursos aprovados no Congresso Nacional”.

Segundo Neide Nobre, uma das organizadoras do Movimento, o montante destinado aos trabalhadores da cultura no DF “não foi executado em sua totalidade até o momento, e os artistas inscritos e classificados não conseguem ter acesso ao dinheiro, muito menos às informações claras e diretas”. Para eles, “os canais de orientação têm se mostrado insuficientes para atender às demandas dos processos e esclarecimento das dúvidas dos interessados, contrariando a transparência em sua aplicação, como manda a Lei”.

O Movimento alega que os e-mails disponibilizados pela Secec, envolvendo os servidores responsáveis pelos incisos I (Mariana Abreu), II (Sol Montes) e III (João Moro), previstos na lei, “estão esgotados sem a necessária contrapartida que o momento exige”.

Na carta ao secretário, os signatários temem a perda dos recursos por falta de agilidade do órgão responsável pela sua distribuição.

Por fim, os signatários do documento pedem a “imediata atualização e publicação das informações que impedem o recebimento do dinheiro pelos beneficiários, além de um calendário de pagamentos, a fim de tranquilizar os trabalhadores e trabalhadoras da cultura que têm esse direito legalmente”.

A palavra do secretário

O secretário Bartolomeu Rodrigues disse, em resposta ao questionamento do MOC, que “não está havendo entraves, os recursos foram empenhados e encaminhados aos bancos”.

Bartolomeu busca tranquilizar os interessados dizendo que “tudo está sendo feito dentro do programado, como ocorre nas demais unidades da federação. Os empenhos foram feitos às vésperas do ano novo em todo o país. As pendências, decorrentes de divergências identificadas nos depósitos pelos agentes financeiros, estão sendo comunicadas aos interessados pelos canais normais com vistas a saná-las na maior brevidade possível”.

Criado em 2021-01-08 21:54:33

Em terra firme

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Esta é a sexta e última entrevista da oitava edição do Guia Musical de Brasília, que acaba de ser publicada em forma impressa.

Paula Zimbres é uma raridade no cenário musical de Brasília e do Brasil porque raras são as mulheres contrabaixistas. Raras, fortes e lutadoras.

Quem é do ramo se lembra, por exemplo, de Carol Kaye, que tocou com os Beach Boys, Richie Valens, Nancy e Frank Sinatra; de Gail Ann Dorsey, da banda de David Bowie; de Kim Gordon, fundadora do grupo punk Sonic Youth; de Tina Weymouth, da banda Talking Heads; de Kim Deal, dos Pixies; de Meshell Ndegeocello, que já tocou com os Rolling Stones; e da incrível Esperanza Spalding, que fez parcerias com Milton Nascimento e canta em português.

Embora o contrabaixo não seja um instrumento que atraia muitos músicos, todo baixista tem emprego garantido pela razão de que qualquer conjunto precisa dele. Bruno Vaiano, editor da revista Superinteressante compara o baixo à massa do bolo se a guitarra fosse o chantilly. Ninguém comenta a massa, mas sem massa não tem bolo. Tocar a nota mais grave do acorde para sustentar a harmonia é uma das funções do baixo. Uma outra é definir e dar precisão ao ritmo. Sem baixo a música fica solta, sem chão, sem sustentação.

Trajetória - Sem músicos na família – o seu pai, Paulo Zimbres, foi o arquiteto que projetou Águas Claras – ela se interessou pela música desde pequena. Quando sua avó materna fez 60 anos, resolveu estudar piano e pediu a Paula para acompanhá-la. Resultado: ela própria começou a tomar aulas com a professora Elaine Barros, por dois anos.

Mais tarde prestou atenção na MPB, e passou a estudar violão. Perto da adolescência foi atraída pelo rock. Em vez da guitarra foi o baixo que encheu os seus ouvidos. “O som grave, sólido, firme”! Estudou baixo com Nelsinho Rios e depois Fernando Nantes. Participou de algumas bandas de rock mas voltou a se interessar por MPB e jazz. Frequentou os cursos de verão da Escola de Música, onde descobriu outro baixista, o professor Oswaldo Amorim. Na Escola, terminou o técnico, dela se tornando professora temporária por vários anos. Na UnB, cursou composição e piano, sob as orientação do professor Sérgio Nogueira Mendes.

Em 2012, lançou o primeiro álbum, Água Forte, produzido pelo grande pianista André Mehmari. Cinco anos depois, lançou o segundo, Moinho, que ela própria produziu. Desde então passou a musicar poemas (de Guimarães Rosa, Cecília Meireles, por exemplo) e a interpretar músicas de Milton Nascimento, Egberto Gismonti e Gilberto Gil.

Paula participa de um sexteto, com Cairo Vitor (violão); Renato Galvão (bateria); Thanise Silva (flauta); Pedro Tupã (percussão); e Iara Gomes (piano). Além de tocar baixo, ela também canta, uma novidade mais recente em sua carreira.

Formação - Outra de suas raras qualidades é a sólida formação teórica. Depois do bacharelado em Composição, ela fez mestrado em Musicologia, pesquisando a influência da música erudita na música popular instrumental brasileira. Sua dissertação, de 2017, tem o curioso título “Gismontipascoal: A música instrumental brasileira como releitura pós-moderna do ideal modernista”.

Quando o Guia Musical de Brasília a entrevistou, pouco antes do início da pandemia do coronavírus, no final de 2019, ela disse que estava batalhando um doutorado, não disponível na UnB, para continuar as pesquisas. Em fevereiro deste ano, anunciou que havia sido aceita pela Unicamp com um projeto sobre as formações camerísticas na música instrumental brasileira e suas relações com os ideais do movimento modernista.

Em seu perfil do Facebook, Paula comentou os problemas que enfrentou durante a pandemia. “Foi difícil acostumar a dar aula sem tocar junto, foi difícil acostumar a fazer tudo por vídeo, a ficar olhando pro meu próprio rosto na tela enquanto falo, a cuidar do tecnológico e do musical ao mesmo tempo”.

Todo mundo logo passou a fazer lives. Ela, porém, diz que relutou “em entrar no mundo das lives, e só o fiz poucas vezes, sempre por ter recebido um convite carinhoso de algum coletivo nutrido por pessoas lindas: primeiro o Festival 40 Minutos, depois o @BrasíliaSomosNós, e mais tarde o Mosaico Cultural DF”.

A vida doméstica acabou tomando quase todo o seu tempo. “Tudo estava dentro de casa, tinha crianças para ver crescer, sementes para germinar, composteira para cuidar, horta com muitos cheiros, livros para ler, instrumentos vários. E tempo - tempo conturbado, tempo desordenado, tempo nervoso, mas tempo. E nesse vir para dentro, deu tempo de encontrar novas conexões. Lembro de ler, no começo da pandemia, um texto especulando que esse período de isolamento talvez gerasse um movimento em direção ao minimalismo nas artes – fazer mais com menos recursos – e que isso poderia ser muito interessante. E realmente, ao fazer essas lives cada um teve que inventar um jeito de tocar sozinho, de fazer sua música ressoar tendo só a si mesmo. No meu caso, me apaixonei pela combinação de baixo e voz: foi o recurso que achei para minhas lives e meus vídeos, e que tem me trazido muita alegria”.

Aqui vai o endereço do site de Paula Zimbres para quem quiser acompanhar a sua caminhada: www.paulazimbres.com

 Ouça aqui uma canja, a Ladeira da Preguiça do Gilberto Gil.

 

 

Legenda:

Criado em 2021-06-09 02:06:07

Brasil vive a sua produção de horror

Verenilde Pereira –

Início da tentativa de escrever sobre orquídeas, o "homem comum", o jornalista "gagá", as flores desconhecidas, nossas mortes e um mínimo de Hannah Arendt.

Apesar de tudo ainda existe, sim, uma imensidão de azul sobre nossas cabeças. Uma beleza tão densa que às vezes chega a ser assustadora. Choveu muito nas últimas semanas em Brasília, resta muito verde - há umidade nas árvores, nos arbustos, nos galhos e folhas. Estouram begônias, orquídeas, papoulas, as onze horas, margaridas e tantas flores desconhecidas.

O mundo parece restaurado em áreas do Plano Piloto. Em alguns momentos os carros deslizam, obedecem a sinais e faixas de pedestres, há uma solenidade no ar como se nada do mundo estivesse danificado.

Tudo diferente de tantas cidades amazônicas, região que nunca deixou de escorrer em mim, às vezes de forma voluptuosa como alguns rios, às vezes de forma mais amena. Mas Brasília é a cidade onde encontrei quem me ajudasse a sustentar a vida - e isso não é pouca coisa. Me salvei da juíza que, aliás, basta um clique aqui para eu ver seu rosto escorrendo na tela, com seus colares e jóias falsas, sua opulência material. Temo rever seu perfil. Lembro da imagem postada do presidente, logo após a posse, em uma viagem ao nordeste (Bahia, se me lembro), onde ele aparece ao lado de um tanque de roupas para lavar. Ela escreve ao lado que o ato (forjado) é uma prova de que o presidente não é machista. Hábil em torturar, ela talvez nem tenha ideia das desgraças capaz de produzir. Mas existe a natureza viçosa. 

Existe o lago na esquina onde se pode chorar à vontade antes do sol nascer, ou quando ele vai indo embora.  Chorar pelos rostos que nunca mais serão tocados, pelos que sumiram entre os quase dois mil mortos diários durante esses últimos dias. Afinal, as gotas somem nas águas ou nos finos pingos de chuva. O mundo novamente se restaura. Mas continua o jogo apreensivo de quando se sonha mas a realidade vem à tona com o barulho do celular e anuncia os que a partir de então, provocaram a imensa falta. Ou quando nos chega a voz tão digna e corajosa de cientistas como Margareth Dalcomo anunciando as possibilidades de um triste mês de março.

Ou Miguel Nicolelis, tão honesto e sábio, anunciando como o Brasil, com o uso criminoso que se faz do vírus, ameaça espalhar o mal para o mundo com as novas e fortes cepas, ainda mais letais. É possível ouvir a imensa e incansável voz de Natália Pasternak e seu "porra! máscara é só um pedaço de pano na cara, afinal, qual a desculpa para não usar"? Medo de ligar o celular e sentir o luto dos moradores do Japiim, meu bairro em Manaus, com a morte da médica ELIANA VITORINO SHERAMM, que atendia a comunidade com seu alerta a favor da ciência, as informações e o cuidado como atendia seus pacientes. Mas morreu em consequência do vírus.

Quando mortes assim acontecem, em lugares como o Japiim, nas raras etapas em que a população é tratada com dignidade, é como roubar das pessoas um eixo que conduzia fortemente suas vidas. Conheço bem o Japiim onde muitos votaram no genocida. Alerto que o resultado de uma eleição não é o único motivo para explicar a complexidade daquela região, mas este é outro longo e difícil assunto. Sinto náuseas quando leio que a população de lá merece os assassinatos por asfixia pelos votos ao genocida.

A questão não é simples mas a estupidez generalizada não permite essa percepção, talvez eu escreva sobre isso nas madrugadas de um outro sábado. Enfim, falávamos sobre o lago ali na esquina e o lirismo existente em certas partes do mundo. O que não impede que, novamente, surja à sua frente o senhor com seu terno impecável, os sapatos perfeitamente engraxados, a barba branca bem aparada, os cabelos bem cuidados, e ainda carregando uma tragédia pessoal que não alterou o tom e a firmeza de sua voz nacionalmente conhecida. Antes da epidemia o encontrei rapidamente.

Devo ter olhado para ele com alguma insistência porque tentava relacionar a pessoa com o que viria acontecer. Vaidoso, ele percebeu que estava sendo reconhecido, talvez esperasse o pedido de autógrafo como já vi acontecer. Não fossem as características de alguém da classe mais favorecida, ou por ser uma celebridade, um jornalista reconhecido, seria mais um HOMEM COMUM. Alguém que foi chamado de "gagá" pela jornalista Juliana Morrone. Adjetivo que eu não usaria. Nem todo "gagá" serve para fortalecer ou ser porta-voz de alguém que se autodenuncia, aliás, que admite ser um estuprador quando diz que não estupraria uma deputada por ela ser feia.

Apesar do tempo que se impõe na vida de todos, esse senhor demonstrou muita virilidade nos braços, nas mãos, na entonação da voz, um tanto enrouquecida, quando criticou os colegas jornalistas que alertavam para o perigoso uso da cloroquina e os custos de um produto não comprovado cientificamente, apesar das milhares de toneladas fabricadas pelo Exército.

Indignado e louvando seu ídolo genocida, que recentemente havia se recuperado do vírus, ele questionou e anunciou entusiasmado: como duvidar da eficácia da cloroquina se o próprio presidente "é a comprovação CIENTÍFICA (sic) de que a cloroquina dá certo?". Isso significa apenas ser "gagá"? Antes da pandemia ele poderia ser visto aqui perto, caminhando com seus ombros já curvados, num local onde agora caem abacates, limão, pitangas. Seria apenas um HOMEM COMUM.

Há sutilezas na produção do horror. Há perplexidades. Senti isso quando vi, de longe, pela primeira e única vez, o ministro Pazuello, logo que assumiu o ministério da Saúde. Vi seu perfil, suas características físicas a mim tão comum, de homem do Norte. Notei sua roupa desconfortável, imaginei o menino que deve ter sido, usando a farda pesada e grossa do Colégio Militar de Manaus, naquele calor de quase 40 graus. Sei de sua voz potente mas incapaz de esconder as mentiras que profere e depois tenta desmentir para logo depois mentir novamente.

As sequências de atitudes subservientes entristecem, envergonham. Mas para ele tudo parece ser um mérito. Quem não lembra do encontro que teve, durante sua convalescença (também pegou o vírus) com seu patrão genocida? Mesmo depois de desmentido e humilhado publicamente no caso da compra da vacina chinesa, ele aparece com sua camiseta amarela e a voz estridente anunciando "Senhores, é simples assim: um manda, outro obedece".

Havia pessoas morrendo asfixiadas em Manaus em conformidade a uma política oficial de extermínio. Mas o patrão responde que ele é "um dos melhores ministros da Saúde" do país.

Difícil não pensar em Hannah Arendt quando em abril de 1961, como repórter da revista The New Yorker ela foi fazer a cobertura do julgamento de Adolf Eichmann, um réu nazista, oficial da Gestapo, que havia organizado a exportação de milhares de pessoas para os campos de extermínio.

Como a maioria de centenas de jornalistas do mundo inteiro que ali estavam e esperavam encontrar alguém capaz de demonstrar a monstruosidade que fora capaz de produzir, ou alguém cruel e arrependido, ali estava um HOMEM COMUM, embora dotado de uma espantosa incapacidade de refletir, de pensar. Coincidências: Eichmann era oriundo da classe média. Havia sido um aluno medíocre, chegou a ser tenente mas era considerado inferior entre seus colegas. Desrespeitado e ambicioso, fazia de tudo para subir na carreira e ter maiores proventos financeiros.

Hannah Arendt se surpreende de como, apesar dos atos monstruosos, seu agente era bastante ordinário: Nem demoníaco nem monstruoso, apesar de sobressair nele sua "OBEDIÊNCIA CADAVÉRICA" e os clichês que utilizava em seus discursos burocráticos que acobertavam a realidade da qual fazia parte. Seu vazio de pensamento, a rarefação de sua consciência, sua incapacidade de exercer um pensamento independente deu origem ao que Hannah Arendt definiu como a "banalidade do mal" que, não tem raiz em patologias ou no cristianismo, mas na aterrorizante IRREFLEXÃO. Sem a pretensão de estabelecer conexões exatas com o holocausto e os HOMENS COMUNS que o produziram, mas também sem condição de não fazer um paralelo.

Lembro dos provavelmente mais de 260 mil mortos no Brasil e na possibilidade, segundo cientistas, de pelo menos três mil mortos diários nas próxima semanas. O país tem uma população de pelo menos 210 milhões pessoas. Precisamos chegar aos seis milhões organizados pelo prestativo e obediente Eichmann que disse ser capaz de mandar para as câmaras de gás até seu pai, se isso lhe fosse ordenado pelo nazista alemão? Por que deixamos que isso acontecesse? Está clareando, certamente o céu lá fora se arruma para surgir deslumbrante. Há homens e mulheres que desejam ardentemente entrar para a história, seja lá de qual maneira. Perplexidades. Flores desconhecidas e o medo de ligar o celular...
____________
OBS: Desculpem o texto longo. Ler é um ato de generosidade... a intenção é partilhar. Bom dia! Boa noite!

Criado em 2021-03-07 04:21:30

PM reprime, com violência, ato contra o “tarifaço” de Rollemberg

O protesto contra o aumento das passagens do transporte coletivo do Distrito Federal, mais conhecido como o tarifaço do governador Rodrigo Rollemberg (PSB), realizado nesta quarta-feira (4/1), na Rodoviária do Plano Piloto, terminou com a cavalaria da PM atropelando manifestantes no Eixo Monumental. Cenas gravadas pelos militantes viralizaram na internet mostrando a correria, gritos, spray de pimenta e toda sorte de truculência.

A presença ostensiva da PM, do Batalhão de Polícia Especial, helicópteros e frota de viaturas, tentou intimidar a movimentação dos estudantes. Baculejos em quem carregava mochilas, apreensão de qualquer material líquido, paus de bandeira fizeram parte da estratégia de impedir a livre manifestação, mas nada disso foi o suficiente para amedrontar os jovens que, por volta das 17h, gritaram palavras de ordem: “Mãos para o alto, 5 contos é um assalto”, “Transporte público não é mercadoria, é um direito” e sairam em caminhada até o Eixo Monumental, onde ocorreram os atos de violência por parte da polícia.

O encontro na rodoviária foi mobilizado nas redes sociais pelo Levante da Juventude e pelo Movimento Passe Livre (MPL), seguidos por centenas de usuários de ônibus e metrô, sindicalistas, bancários, rodoviários. Um eleitor de Jofran Frejat lembrou-se da prometida tarifa de 1 real, feita na última campanha eleitoral. O deputado distrital Raimundo Ribeiro (PPS) também aproveitou para distribuir panfleto defendendo o cancelamento dos aumentos.

O PMDB-DF está na Justiça contra o Decreto de Rollemberg, que terá 10 dias para explicar os motivos da decisão tomada nos últimos minutos de 2016.
Enquanto isso, a crise se instala no GDF. O vice-governador Renato Santana (PSD) foi exonerado do cargo de Administrador de Vicente Pires por discordar do aumento decretado pelo governador Rollemberg.

O clima azedou também na Câmara Legislativa. O presidente Jor Valle (PDT) marcou para quinta-feira da próxima semana sessão extra para debater e votar Decreto Legislativo que suspende o Decreto do Executivo. Rollemberg promete ir à Justiça contra a CLDF se o aumento for revogado.

Setores conservadores da imprensa apoiam a decisão do governador alegando que o sistema é deficitário e tem de ser alimentado com verbas públicas. O governo diz que não tem dinheiro para cobrir a diferença (R$ 600 milhões anuais) porque existem inúmeras isenções de tarifas, inclusive para estudantes que supostamente podem pagar suas passagens.

A Associação Andar a Pé – O Movimento da Gente, que defende o direito dos pedestres, divulgou nota protestando contra o aumento. Andar a Pé considera abusiva a tarifa de R$ 5 e propõe que seja aberto amplo debate público para que se encontre solução mais adequada para a atual crise no transporte público do DF. “Essa situação afeta, inclusive, o direito de ir e vir das pessoas”, diz a nota.

Criado em 2017-01-05 02:57:16

Inscreva-se na República Popular das Letras (RPL)!

Está no ar desde a terça da semana passada, o podcast literário República Popular das Letras (RPL), produzido pelo jornalista Antônio Carlos Queiroz, o ACQ, nos estúdios da 8itobits de Brasília.

Semanal, o programa, veiculado no YouTube, pretende promover conversas informais, nem por isso menos densas, sobre literatura e assuntos culturais em geral. O diapasão será a chamada haute vulgarisation, cara ao historiador Eric Hobsbawm.

O primeiro episódio, com a participação do compositor Clodo Ferreira e o radialista Ruy Godinho, discutiu a questão das letras de músicas como poesia. No segundo, que vai ao ar nesta terça-feira, 17 de maio, a livreira Cida Caldas conta a história da Livraria Sebinho. No terceiro, a diplomata e escritora Maria Lúcia Verdi e o historiador Daniel Faria apresentarão a desconcertante obra do escritor e engenheiro Samuel Rawet, o judeu polaco-brasileiro da equipe de Oscar Niemeyer, que foi responsável pelos cálculos estruturais do Congresso Nacional.

Estão nas próximas pautas da RPL os romances da chamada “jornada do herói”, desenvolvidos por escritores como J. R. R. Tolkien e George R. R. Martin; o livro de viagens O Mundo é uma Escola, do ex-senador Cristovam Buarque; a filmografia do documentarista Vladimir Carvalho; a poética da Literatura de Cordel, segundo o repentista Chico de Assis e o antropólogo João Miguel Sautchuk; a poesia política de Pedro Tierra; o Direito e a Literatura na concepção do professor Cristiano Paixão, da UnB; a poesia de Nicolas Behr e de Chico Alvim; a secular influência literária do filósofo Bento de Spinoza etc etc.

Ao acessar a República Popular das Letras, faça a sua inscrição para não perder nenhum dos bate-papos!

No segundo episódio da RPL, um podcast sobre cultura, música e literatura, a conversa é com a livreira Cida Caldas sobre a história da Livraria Sebinho. E ela explica o que é a toscaixa, onde são guardadas as coisas do arco-da-velha encontradas dentro dos livros usados que chegam à livraria.  Assista! https://youtu.be/01Ha19ESNPw

Criado em 2022-05-17 16:26:56

Bolsonaro, Ibaneis e os Jogos da Morte

Meio milhão de mortos ainda não bastam? Ao responder a essa pergunta/denúncia o Coletivo Resistência_Ação divulgou hoje (1/6) nota condenando a decisão do presidente Jair Bolsonaro de sediar a Copa América em quatro estados brasileiros (Rio de Janeiro, Goiás, Mato Grosso e Distrito Federal).

A seguir a íntegra da nota:

“A poucos metros do Setor Hospitalar, onde centenas de pessoas lutam pela vida, o governador do Distrito Federal pretende copiar a irresponsabilidade do governo federal aceitando o que governos de outros países recusaram, devido à maior crise sanitária de todos os tempos.

Assim é que, num dos piores momentos da pandemia, com hospitais lotados, população sem renda, número de mortes assustador, o presidente da República e o governador do DF decidiram abrir as portas a jogos em que poucos ganhariam e todos perderiam.  Um jogo em que muitos perderiam, simplesmente, a vida.

Jogos da Copa América em Brasília ameaçariam de morte toda a população de quem deveriam cuidar por dever de ofício e mostrariam absoluta falta de respeito com as famílias vitimadas pelo vírus.

Essa postura do governador Ibaneis, particularmente, é apenas mais uma demonstração da gestão vacilante e pouco responsável da pandemia no Distrito Federal.

Mesmo com os jogos acontecendo sem torcida, as delegações que aqui chegassem, teriam vindo de muitos lugares distintos, muitos aeroportos percorridos, muitas variantes possíveis do coronavírus. Além disso, seriam canais de transmissão de variantes daqui para os países participantes da Copa América.

Que espetáculo seria esse, governador? Circo para o povo que morreria sufocado nos corredores dos hospitais? O teatro da morte? A canção da ameaça? O balé do perigo?

A população do DF precisa fechar as portas da cidade a esta insanidade assassina.”

 

 

Criado em 2021-06-02 01:59:59

  • Início
  • Anterior
  • 30
  • 31
  • 32
  • 33
  • 34
  • 35
  • 36
  • 37
  • 38
  • 39
  • Próximo
  • Fim

Quem somos | Pacto com o leitor | Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros | Política de Privacidade e Cookies | Por que o nome BRASILIÁRIOS

Copyright © 2016 BRASILIÁRIOS.COM.

SiteLock