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Página 7 de 95

Entrevista: Peliano estreia no romance com “Degrau por Degrau”

Tatiana Carlotti (*)

“O serviço está combinado. Acertados os termos; um, dois, três embrulhos. Em fevereiro, na capital”.

É com este recado, escrito em um pedaço arrancado de um saco de pão, que o escritor José Carlos Peliano, economista, ex-pesquisador do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (NEPP) da Unicamp e um dos colaboradores de Carta Maior, Brasil Debate e www.brasiliarios.com , estreia na prosa com o romance “Degrau por Degrau”, que será lançado no próximo dia 29/9, no bar Genial (Vila Madalena), na capital paulista, e no dia 3 de outubro no Carpe Diem (104 Sul), Brasília.

O romance conta a história de Tino, um justiceiro guiado por códigos muito particulares. Um de ética, que consiste em “saber do serviço e o porquê” e executá-lo não “pelo mero desejo do contratante”, mas somente quando convencido da necessidade do ato de vingança e da eficácia do “olho por olho, dente por dente”.

E um código de honra: “cumprir a missão de um reparador de brutalidades e injustiças em lugar da justiça usual e oficial dos homens, muitas vezes cruel, parcial, demorada, falha e questionada”.

Motivações postas em ação quando Russo, intermediário nos serviços e amigo do protagonista, repassa a Tino mais uma oportunidade de trabalho: a vingança de uma jovem, entrevada em uma cama, após uma tentativa de estupro.

Descrita de forma objetiva, a demanda é destrinchada pelo narrador que, próximo do ponto de vista do protagonista, enuncia as reflexões de Tino, desde a escolha da sentença até a execução do justiçamento:

“Não havia dúvida, o acontecimento teve, de fato, quatro envolvidos: a vítima, mulher, três participantes homens. A vítima sofreu tentativa de agressão sexual praticada por um deles, o outro ficou por conta de dominar e segurar a empregada e o terceiro postou-se de olheiro para evitar a chegada inesperada de alguém. Tudo levava a crer que, se o ato pretendido fosse consumado pelo primeiro, em seguida viriam os restantes repetir a dose”.

A vítima, no caso, uma moça de 15 anos que “conseguiu lutar, se desvencilhar e escapar dos braços do agressor. Só que isso ocorre no patamar do mezanino, junto ao último degrau da escada. Ao se soltar, não dá tempo para se recompor e se pôr de pé, perde o equilíbrio e cai na escada, rolando aos trambolhões até em baixo. Degrau por degrau”.

Um trágico episódio que Tino passa a examinar, determinando a sentença que considera mais justa e as formas de aplicá-la, em um percurso narrativo que engloba reflexões em torno da justiça, da vida e da morte, entremeadas por episódios que revelam o cotidiano de um justiceiro, suas relações afetivas, memórias e expectativas.

Confira abaixo a entrevista com o autor.

Peliano, você já publica poesia. A que se deve essa necessidade de ingressar na prosa?

José Carlos Peliano - A diferença é de tempo corrido apenas, embora a forma conte bastante. Escrevo poemas que levam minutos, outros horas, já a prosa me leva a concentrar-me por dias. Ambas, poesia e prosa, podem ser fartas ou não, a depender da inspiração, do tema, do momento. A poesia vem de dentro, já a prosa vem de dentro também, mas com complementos de fora, sejam os personagens, as relações entre eles, as tomadas de cena, entre outros.

Foi uma satisfação escrever esse livro tanto pela história quanto pelos personagens e suas relações. Tinha a ideia na cabeça e o laptop nas mãos. O roteiro veio saindo com os dedos sobre as teclas, nada pré-concebido. Como se a história estivesse já guardada nalgum arquivo mental, só precisei acessa-lo. Quem ler o livro vai seguir esse caminho por onde passei e tenho certeza que não vai ficar indiferente. A narrativa foi feita com emoção.

Por que o gênero policial e o tema do justiçamento?

Peliano - A escolha foi feita exatamente para entrar na narrativa longa, nunca havia tentado antes. Mas de longa em tempo foi pouca uma vez que o livro foi escrito em quatro semanas, quase um mês. Já veio pronto. Minhas referências são policiais, antigos como Conan Doyle e Agatha Christie, atuais, estrangeiros, como Henning Mankell, Jo Nesbo, Camila Lackberg, Arnaldour Indridason, Patricia Cornwell, Scott Turow, e os brasileiros Jorge Amado e Luiz Alfredo Garcia-Roza, entre outros.

Eu me enveredo por um mundo duro, difícil e intrincado, mas nada incomum, crio e olho para cada personagem e vivencio suas situações construídas, dando-lhes pensamentos, diálogos, emoções, eu sendo todos eles ao mesmo tempo. Mas sem antes ter informações acumuladas tanto das fontes literárias de inspiração, quanto dos relatos das duas mães que tiveram suas filhas sacrificadas por estupradores, assassinos.

Uma das mães não disse, mas insinuou que talvez tivesse procedido à retaliação, a outra quis tomar a atitude, mas não teve coragem. Por conta disso achei por bem entrar no assunto e avaliar os lados envolvidos e qual solução deveria ser dada à luz dos fatos narrados e das possibilidades e limites encontrados em nossa sociedade.

Como foi o processo de construção da personagem Tino?

Peliano - Tino foi construído ao revés das ideias pré-concebidas e notícias que se tem das vinganças fatais e dos matadores de aluguel. Esses últimos são tratados, em geral, como frios, calculistas, desumanos.

Construí um personagem frio e calculista, sim, mas humano, no sentido de distinguir os pedidos de serviços e do jeito pessoal com que penetra da vida da vítima e se compadece do ataque sofrido. Dependendo do caso, pode negar o serviço ou nem cobrar pelo que foi feito.

Não sei exatamente se isso ocorre na vida real, mas tenho a intuição que sim. Não será nunca sabido, no entanto, pelo preconceito e o ódio que a sociedade tem, em geral, de um matador de aluguel, mas sim por total falta de conhecimento de sua personalidade e do meio em que viveu e vive.

Me lembro de um personagem vivido por Charles Bronson na série de filmes de nome Desejo de Matar, na década de 60, cidadão comum da classe média, profissional liberal, o qual desempenha o papel de um matador que se vinga clandestinamente de vítimas de delinquentes e assassinos.

Quem sabe não foi meu inconsciente que adaptou e trouxe Tino desde lá. Devo dizer, por fim, que os matadores históricos descritos por Erick Hobsbawm em seu livro Bandidos, tipo Robin Hood, Pancho Vila, Zapata e Lampião, são todos vistos em sua leitura sociológica como defensores sociais, justiceiros, batalhadores primitivos da liberdade.

Como justiceiro, acho que Tino é um personagem forte, marginal em face da lei, mas humano diante daqueles, vítimas da injustiça social, que não encontram amparo policial, nem da justiça oficial. Toma a si a dor do outro, avalia o que fazer e decide qual a melhor maneira, inclusive negando o serviço, se assim decidir.

Se há desigualdades no mundo de toda ordem, especialmente sociais e econômicas, há também reações a elas ao ponto de se lançar mão da violência quando a dor, a desgraça e o arbítrio ultrapassam os limites da resistência humana.
____________________________
(*) Entrevista publicada originalmente no site www.cartamaior.com.br

Criado em 2017-09-25 19:29:19

Juiz elogia professor que retirou celular de estudante

O juiz Eliezer Siqueira de Sousa Junior, da 1ª Vara Cível e Criminal de Tobias Barreto, interior de Sergipe, julgou improcedente pedido de indenização que a mãe de um aluno pleiteava contra o professor que impediu o uso de celular em sala de aula.

De acordo com os autos, o educador tomou o celular do aluno, pois este estava ouvindo música com os fones de ouvido durante a aula.

O estudante, representado por sua mãe, pleiteou reparação por danos morais diante do "sentimento de impotência, revolta, além de um enorme desgaste físico e emocional".

Na negativa, o juiz afirmou que "o professor é o indivíduo vocacionado a tirar outro indivíduo das trevas da ignorância, da escuridão, para as luzes do conhecimento, dignificando-o como pessoa que pensa e existe”.

O magistrado se solidarizou com o professor e disse que "ensinar era um sacerdócio e uma recompensa. Hoje, parece um carma".
Eliezer Siqueira ainda considerou que o aluno descumpriu uma norma do Conselho Municipal de Educação, que impede a utilização de celular durante o horário de aula, além de desobedecer, reiteradamente, o comando do professor.

Ainda considerou que não houve abalo moral, já que o estudante não utiliza o celular para trabalhar, estudar ou qualquer outra atividade edificante.
E declarou:

"Julgar procedente esta demanda, é desferir uma bofetada na reserva moral e educacional deste país, privilegiando a alienação e a contra educação, as novelas, os realities shows, a ostentação, o “bullying intelectivo”, o ócio improdutivo, enfim, toda a massa intelectivamente improdutiva que vem assolando os lares do país, fazendo às vezes de educadores, ensinando falsos valores e implodindo a educação brasileira”.

Por fim, o juiz ainda faz uma homenagem ao professor:

"No país que virou as costas para a Educação e que faz apologia ao hedonismo inconsequente, através de tantos expedientes alienantes, reverencio o verdadeiro HERÓI NACIONAL, que enfrenta todas as intempéries para exercer seu múnus [obrigação] com altivez de caráter e senso sacerdotal: o Professor."
Essa sentença deveria ser lida em todas as salas de aula do brasil. Aliás, por todos os brasileiros, seus filhos e netos.

Criado em 2017-01-19 16:08:37

É tempo de voltar a ler Karl Marx

Repensar Marx e os marxismos, do italiano Marcello Musto, reconstrói, com rigor textual e historiográfico, etapas da biografia intelectual de Karl Marx ainda pouco conhecidas ou mal compreendidas, como sua formação cultural durante a juventude, os estudos de economia política, os primeiros esboços do que viriam ser os escritos de O capital, assim como a divulgação e a recepção de alguns de seus principais trabalhos como os Manuscritos econômico-filosóficos, o Manifesto comunista e os Grundrisse.

Desde o fim dos anos 1980 e após a dissolução da União Soviética, Karl Marx vem sendo considerado por uma parcela da intelectualidade um pensador ultrapassado, condenado ao esquecimento. A crise econômica internacional de 2008, no entanto, trouxe de volta à discussão seu extenso trabalho e sua análise do capitalismo.

Em Repensar Marx e os marxismos, Marcello Musto nos apresenta um pensador muito diferente daquele retratado durante todo o século XX por muitos de seus críticos e seguidores: “A obra de Marx abrange as mais diversas disciplinas do conhecimento humano e sua síntese representa um objetivo de difícil alcance mesmo para os estudiosos mais rigorosos. Como se não bastasse, a obrigação de respeitar a dimensão convencional de uma monografia tornou impossível analisar todos os textos de Marx e, menos ainda, todas as principais interpretações a seu respeito”, conta o autor no prefácio à edição brasileira.

Trecho

“A própria concepção política de Marx mudou profundamente. Sem adotar nenhuma das estreitas doutrinas socialistas e comunistas existentes – na realidade, distanciando-se delas –, ele amadureceu a plena consciência de que quem tecia a rede de ligações da sociedade eram as relações econômicas e que ‘religião, família, Estado, direito, moral, ciência, arte etc. são apenas formas particulares da produção e caem sob a sua lei geral’. O Estado perdeu, assim, a posição prioritária que detinha na filosofia política hegeliana e, absorto na sociedade, foi concebido como esfera determinada e não determinante das relações entre os homens. Segundo Marx, ‘somente a superstição política ainda pode ser capaz de imaginar que nos dias de hoje a vida burguesa deve ser mantida em coesão pelo Estado, quando na realidade o que ocorre é o contrário, ou seja, é o Estado quem se acha mantido em coesão pela vida burguesa’”.

Sobre o autor

Marcello Musto é professor de sociologia na York University, em Toronto, Canadá. É autor de O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (Boitempo, 2018), Another Marx: Early Manuscripts to the International (Bloomsbury, 2018) e Karl Marx: Biografia intelectual e política (Einaudi, 2018).

Entre os livros organizados por ele estão Karl Marx’s Grundrisse (Routledge, 2008); Marx for Today (Routledge 2012); Trabalhadores, uni-vos! Antologia política da I Internacional (Boitempo, 2014); Marx’s Capital after 150 Years (Routledge, 2019); The Marx Revival (Cambridge University Press, 2020); Karl Marx’s Writings on Alienation (Palgrave, 2021); Rethinking Alternatives with Marx (Palgrave, 2021) e Marx and Le Capital (Routledge, 2022).

A sua obra foi traduzida mundialmente em vinte e cinco idiomas e está disponível em www.marcellomusto.org
________________
Ficha técnica:
Título: Repensar Marx e os marxismos: guia para novas leituras
Título original: Ripensare Marx e i marxismi
Autor: Marcello Musto
Tradução: Diego Silveira e outros
Orelha: Michael Löwy
Capa: Daniel Justi
Páginas: 320
Preço: R$ 97
O livro está disponível a partir do dia 16/12/202.

 

 

 

 

 

Criado em 2022-11-18 15:37:56

Sal da terra

Como não é possível comemorar o Dia D na Livraria Sebinho, como fazemos todo ano, vai aqui a minha modesta homenagem ao poeta nacional Carlos Drummond de Andrade, nos 118 anos de seu nascimento (31/10), na forma de um poema mal cortado e pior cerzido:

Como Orfeu e a mulher de Ló
reviro os olhos para contemplar
dois acontecimentos relevantes
do ano mil novecentos e trinta:
a dita Revolução de Getúlio
e a edição de Alguma Poesia
do vate Carlos Drummond de Andrade -

De Carlos Drummond herdamos um metro
de paixão pra trinchar e cerzir versos
e também para destrinchar enigmas,
claros para quem pode e quer despi-los -

Pode ser que o nosso maior mistério
seja ainda a velha modernidade,
por Getúlio espanada e reciclada:
espessa e dura crosta de camadas
de pau, grão, povo e minérios, há eras
esgaravatadas por empregados
constrangidos pela calma e discreta
razão e mão da Máquina do Mundo -

Ferro, sangue e ouro dessa fundura
jorram, e um lodo amarelo gosma,
fedendo a tédio, rancor e troça,
de vez em quando as sobras transbordando
para acrescer verniz e novo emboço -

As atiladas lentes do poeta
míope nos permitem suspeitar
feias flores nas gretas do asfalto
- porém flores - consolo pras retinas
tão fatigadas de fatais abismos
em tudo semelhantes aos que viram
o pobre Orfeu e a mulher de Ló -

Eis a questão como grito de guerra:
depois de nossas gerações faltantes,
qual geração será o sal da terra?

Antônio Carlos Queiroz - ACQ - 24/10/2020

Fundo musical: Valsa da Dor de Villa-Lobos, executada por Nelson Freire, 01/01/2012, @ Universal Music Group


Criado em 2020-11-04 19:27:22

Artistas presos e torturados em delegacia de polícia em Brasília

Alexandre Ribondi –

Com mais de um mês de atraso, Brasília ficou sabendo que o artista plástico Pedro Sangeon, conhecido por seus desenhos da personagem Gurulino espalhados pelos muros da capital da República, havia sido preso enquanto criava mais uma grafitagem. Segundo o relato que ele mesmo fez nas redes sociais (quando conseguiu voltar a tocar no assunto), Sangeon e dois colegas estavam grafitando no Lago Norte (região administrativa do Distrito Federal) quando foram abordados por policiais militares, que os levaram para a 6ª. Delegacia de Polícia, no Paranoá.

Para a polícia, o que aconteceu no dia 28 de junho foi procedimento padrão. Os presos foram interrogados e liberados três horas depois. Para Sangean, foi um inferno. Ele e seus colegas tiveram os documentos e os celulares apreendidos, foram algemados a uma barra de ferro e obrigados a se despirem. A polícia os obrigou a fazer flexões enquanto eram alvo de chacotas e explicações como “Se vocês fossem bolsonaristas, o tratamento ia ser diferente”.  Além disso, foram chamados de comunistas. E tudo isso no mesmo mês em que Pedro Sangeon recebeu homenagem da Secretaria de Cultura do Distrito Federal pela sua importância na cidade. Sintomaticamente, a polícia os prendeu justamente quando escreviam a palavra Democracia.

Vale a pena ressaltar que os policiais, desde sempre, têm obsessão com a nudez - tanto masculina quanto feminina. Trata-se de técnica recorrente, com a intenção de fragilizar e humilhar o preso, além de denotar um erotismo que existe em todo jogo de dominação e poder. Afinal, o que mais explicaria a ordem de se despirem dada aos artistas plásticos apreendidos para “averiguação”? Nesse sentido, seria aconselhável que os policiais envolvidos recebessem atendimento psicológico para ver em que cavernas se escondem os seus desejos.

A denúncia de Sangeon chegou à Câmara Legislativa do DF que está tratando de tomar providências. O deputado Fábio Félix (PSol) anunciou que não se pode permitir “a criminalização da arte de rua”. A esse propósito, é bom acrescentar que nenhuma arte deve ser vista como criminosa ou como manifestação de menor importância, o que vem sistematicamente acontecendo com a presença de Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto, de onde diz chefiar a Nação. Seus constantes discursos de rancor e ódio à inteligência, às artes e à intelectualidade servem de base para que as pequenas autoridades, como a polícia civil lotada na delegacia do Paranoá, se sinta munida de poder para agredir e torturar artistas.

A deputada Arlete Sampaio, o deputado Chico Vigilante (ambos do PT) e Fábio Félix enviaram um ofício à Secretaria de Segurança Pública do DF exigindo averiguação. Para Arlete, que se dirigiu à plenária da Câmara Legislativa para denunciar o ocorrido, é “inaceitável que se faça uso da máquina do Estado para constranger pessoas por questões político-partidárias”.

Ela relata também que, nos primeiros momentos, Pedro Sangeon mostrou receio de levar adiante qualquer ação contra a polícia. A deputada relatou que “ele tinha medo de sofrer retaliações e perseguições”. Mesmo assim, foi convencido da importância de se dar continuidade ao caso, porque “poderemos responsabilizar o governo caso ele e seus colegas sofram qualquer perseguição política”.

Os responsáveis pelas agressões, enquanto isso, tentam criar um imbroglio para atravancar o avanço de investigações. A Polícia Militar afirma que efetuou as prisões e levou os detidos para a Delegacia. A partir daí, tudo o que teria acontecido é responsabilidade da Polícia Civil, cujo comando, naturalmente, disse que vai “fazer investigações”. Qualquer cidadão brasileiro já ouviu essa lenga-lenga policialesca antes e ainda ouvirá várias outras vezes. Todos os dias somos informados de novos e absurdos ataques à democracia, à liberdade de expressão no Distrito Federal e em todo o País.

O caso de Pedro Sangeon tem que ser tratado como ameaça à sociedade brasileira. E tem que provocar reação à altura. Ou, então, que nos preparemos para mais um longo período de ditadura subdesenvolvida, humilhante e perigosa.

Criado em 2020-09-02 20:49:29

Qual política linguística para o Brasil?

Marcos Bagno (*) –

A definição já clássica de política linguística é a de qualquer intervenção explícita do Estado na dinâmica social da língua ou das línguas faladas no território em que esse Estado exerce seu domínio. O estabelecimento de uma língua oficial ou de mais de uma língua oficial, por exemplo, é uma política linguística explícita, assim como proibir o uso de determinada língua também é. Instituir qual será a língua da administração pública, dos meios de comunicação e principalmente do ensino formal também é uma política linguística.

Mas nem toda política linguística é explícita. Existem também políticas linguísticas implícitas, quase sempre resultantes de uma ausência de intervenção do Estado na dinâmica social das línguas. Mas a ausência de política linguística também é uma política linguística. Quando o Estado deixa de atuar em determinado campo da vida social, essa ausência é uma política, é uma intervenção ao contrário, um abandono desse campo da vida social.

O Estado brasileiro tem se caracterizado desde sempre pelo abandono sistemático de amplos setores da vida social, num projeto deliberado de manter na pobreza, na indigência e mesmo na miséria mais abjeta a maioria da população. Maioria da população que, como se sabe, é essencialmente não-branca. O Estado brasileiro, salvo raras ocasiões, e ocasiões fugazes, representa os interesses de uma minoria: a minoria branca urbana de classe média e alta, com ênfase no setor masculino dessa minoria. Sempre foi assim. E tudo indica que essa configuração do Estado brasileiro vai se radicalizar plenamente a partir do próximo ano, quando terá início um governo que já se anuncia como uma aberração política e, mais do que isso, como uma aberração social, uma vez que será comandado por homens brancos que assumem sem rodeio uma ideologia racista, sexista, homofóbica, defensora de um autoritarismo homicida, uma ideologia que pode se transformar em política de governo, uma política que se apoia em dois pilares que são o contrário perfeito de toda forma de civilização: o ódio e a violência.

O ódio, mais especialmente o ódio de classe, ao lado da violência social têm sido a marca registrada, a espinha dorsal da formação da sociedade brasileira. E não poderia ser de outro modo num país em que a escravidão imperou por quase 350 anos e em que o genocídio planejado das populações indígenas foi um êxito quase total. Digo quase total porque ainda sobrevivem alguns grupos indígenas, que no entanto são alvo de ataques contínuos de interesses que até pouco tempo atrás estavam dispersos localmente, mas que a partir de agora serão abrigados pelas instituições mais altas da república.

Os dados da violência no Brasil são estarrecedores. No Brasil, uma mulher é assassinada a cada hora e meia. O Brasil é considerado o 5º pior país para se nascer mulher. No Brasil, um jovem negro é assassinado a cada 23 minutos. O Brasil é campeão mundial de assassinatos de lésbicas, gays e transexuais. O Brasil está entre os dez países com a pior distribuição de renda do mundo. No Brasil, 6 homens brancos detêm juntos uma riqueza que equivale à de cem milhões de trabalhadores. No Brasil, em 2017, ocorreram mais de 60.000 assassinatos com arma de fogo, mais do que o número de soldados estadunidenses mortos na guerra do Vietnã, que durou 20 anos. No Brasil, 75% da população entre 15 e 64 anos é analfabeta funcional.

O ódio e a violência, portanto, sempre caracterizaram a vida social brasileira. Agora, ao que tudo indica, o ódio e a violência vão se tornar política de Estado, projeto de governo. Um candidato a presidente que transformou em símbolo de sua campanha o gesto dos dedos em forma de revólver, e que venceu as eleições a bordo dessa monstruosidade, não terá nenhum obstáculo moral em implementar uma política de violência explícita e sem controle. Um político medíocre, que foi durante muito tempo uma figura caricata, vem catalisando todo o ódio latente naquela parcela da sociedade que não tolera nada que seja diferente dela mesma.

Mulheres, mulheres negras, homens negros, homossexuais, pobres, nordestinas e nordestinos, indígenas – juntas e juntos, constituem a maioria da população brasileira. Como será possível governar um país desprezando, humilhando e deixando morrer a maioria da população? Que sociedade doente é esta que elege seu próprio carrasco? Que aplaude quem diz que vai acabar com todos os direitos trabalhistas, que vai desmatar toda a floresta amazônica, que tem como ídolo o mais sanguinário dos torturadores?

Qual será a política linguística desses tempos sombrios que se anunciam? Ao que tudo indica, será a política do silenciamento, do silenciamento pela intimidação, pela ameaça. Não só pela ameaça em si, mas pelo cumprimento das ameaças, como temos visto nos últimos meses.

A política linguística que se sustenta no ódio e na violência está sendo costurada num ritmo veloz. Os ataques à liberdade de expressão, a proibição explícita da presença de jornalistas nacionais e estrangeiros em eventos de interesse público, o elogio e o orgulho da ignorância, da truculência e do desprezo do conhecimento – tudo isso já pode ser considerado como uma política linguística, não explicitada como tal, mas uma política linguística implícita.

No que diz respeito a nós, profissionais da educação, essa política linguística sustentada no ódio e na violência corre o risco de se tornar lei. A perseguição covarde à profissão docente, até agora dispersa e praticada por indivíduos isolados, pode vir a se tornar, mais uma vez, política de governo. A autorização formal para que estudantes filmem e gravem as aulas de professores acusados de praticar “doutrinação” em sala de aula é uma política linguística. Uma política linguística contra a linguagem, pura e simplesmente, contra a atividade primordial e primeira da espécie humana, que é o discurso, o exercício da capacidade de falar. Não querem que a gente fale. Porque também não querem que a gente pense. Querem que a gente se transforme em meras repetidoras e repetidores de um conjunto restrito de ideias imbecis, desprovidas da fundamentação mais básica, enunciadas na forma de palavras de ordem, de argumentação rasa, frases feitas e carentes do mínimo de coesão e coerência.

Um país que criminaliza a educação é um país que privilegia a ignorância.

Como é possível construir uma nação sem professoras e professores?

Eu, como profissional da linguagem, me recuso terminantemente a me sujeitar a essa política linguística do ódio e da violência.

Não vou me deixar intimidar por gente que demonstra uma evidente falta de inteligência até mesmo para expor suas ideias, que não são ideias, são vômito discursivo. Eu passei a infância e a juventude debaixo de um regime ditatorial torturador e assassino.

Aprendi, com meus pais, as formas de resistência e não vou abrir mão delas só porque um grupo de medíocres desequilibrados arrotam suas ameaças contra mim pessoalmente, contra a minha profissão e contra a maioria da população.

E uma dessas formas de resistência é exatamente o que estamos fazendo aqui: utilizar todo momento de fala pública para denunciar o ódio e a violência, para dizer que não aceitamos nenhuma forma de intimidação nem de censura. Falar é resistir. E não podemos de modo nenhum desistir de falar.

______________

(*) Texto apresentado por Marcos Bagno na XXVII Jornada do Gelne – Grupo de Estudos Linguísticos e Literários do Nordeste, Recife, 15/11/2018.

Criado em 2018-11-18 17:27:58

O PT é mesmo o mais corrupto?

Sandra Crespo –

Os governos do PT tiveram alguns erros - mas os acertos foram predominantes. O maior desses acertos refere-se à inclusão. Milhões de pessoas passaram a ter vida digna, com emprego, crédito e direito de ver seus filhos estudarem - seja nas universidades públicas e privadas, seja nos institutos técnicos de educação.

O outro acerto que acho bacana dos governos petistas é o do republicanismo. Esse, por sinal, foi solene e perenemente ignorado pela imprensa brasileira. Trata-se, primeiro, da decisão de Lula - seguida posteriormente por Dilma Rousseff - de escolher o 1º da lista tríplice para a Procuradoria-Geral da República.

O fato: nunca antes na história deste país o PGR fora escolhido pelo(a) presidente(a) com base na escolha de seus pares. Aliás, lembremos que o PGR mais notável do governo FHC foi um cidadão chamado Geraldo Brindeiro. Que, por ter ignorado denúncias graves como a compra de deputados para a emenda da reeleição do presidente, ficou conhecido como o Engavetador-Geral da República.

Pois, pois. Lula e Dilma, estadistas que foram, escolheram os PGRs sufragados pelos seus pares. Os primeiros da lista tríplice.

E o que eles ganharam com isso, além de processos e perseguições? Ganharam a pecha de terem “aparelhado” o Estado em seus interesses próprios.

Sem contar que os governos petistas criaram a Controladoria-Geral da União, órgão independente do Executivo, para exercer controle externo sobre o serviço público.

A CGU investigou e puniu, exonerando centenas de servidores a bem do serviço público. Quando Temer tomou o poder pelo golpe, uma das suas primeiras medidas foi retirar a independência da CGU ao governo, tornando-a um órgão “para inglês ver”.

Desde o golpe de Temer, ninguém questiona a escolha do PGR. A imprensa acha “natural” até a escolha de procurador que nem esteja na lista tríplice. E, agora, a própria autonomia universitária foi jogada no lixo. O “mito” escolhe o reitor amiguinho, para impedir a balbúrdia.

A CGU não mais existe. O importante mesmo é dizer, em colunas, artigos e editoriais, todos os dias, que os governos do PT “foram os mais corruptos da história”.

E assim vamos nadando no esgoto da hipocrisia. Os pobres perdem o emprego e os mínimos direitos. Os jovens perdem o futuro. O Brasil perde seu patrimônio.

Mas o que vale é a versão.

Então, imagino que está todo mundo muito feliz agora. Só eu e alguns amigos que não concordamos. Beleza. Tchau, nos vemos no inferno.

Criado em 2019-06-22 05:14:29

Sidarta Ribeiro lança “A história e a ciência do sonho”

Zuleica Porto –

Nascido e criado em Brasília, Sidarta Ribeiro é professor titular de neurociência e vice-diretor do Instituto do Cérebro da UFRN. Formou-se em Biologia pela UnB, fez mestrado em biofísica na UFRJ, depois doutorado em comportamento animal pela Universidade Rockfeller e pós-doutorado em fisiologia pela Universidade de Duke. Em O oráculo da noite nos oferece “uma breve história da mente humana pelo fio condutor do sonho”.

Considera a espinha dorsal do livro uma “teoria geral do sono e dos sonhos que compatibiliza passado e futuro para explicar a função onírica como ferramenta crucial do presente”. Sonhar, portanto, tem grande utilidade no cotidiano do sonhador, preparando-o durante a noite para a vida acordada do dia seguinte. De que forma e por quê?

Para entender as funções e razões do sonho, o autor aponta o longo caminho a trilhar: da biologia molecular, da neurofisiologia e da medicina até a psicologia, a antropologia e a literatura, sem esquecer a evolução da espécie, ou seja, toda a nossa história.

Mas não espere o leitor um texto árido e indecifrável para leigos como costumam ser os tratados científicos, pois não é só no território das ciências que Sidarta caminha; ele é escritor e amante de literatura. Com Entendendo as coisas, livro de contos, recebeu em 1996 o Prêmio Guimarães Rosa da Rádio França Internacional. O livro foi publicado pela L&PM em 1998. Enquanto escrevia e publicava artigos científicos em periódicos internacionais, também foi colaborador da revista Mente e Cérebro, com a coluna Limiar. As crônicas e artigos foram reunidos no livro Limiar – uma década entre o cérebro e a mente, publicado pela Vieira et Lent em 2015.

Então, o percurso do conhecimento sobre sono e sonhos oferece ainda o prazer de um texto primoroso e claro, quase em tom de conversa, onde não faltam as experiências oníricas do escritor e seus próximos, referências a várias obras literárias e acontecimentos históricos, e palavras que causam puro encantamento, como estas:

“Todas e todos que tiveram ideias bem-sucedidas e transformaram o mundo, aquelas e aqueles que conseguiram se transformar no que almejavam, todos sem exceção e por definição viveram os dias e as noites quando ainda não haviam realizado nada daquilo. E então sonharam.”

O autor considera que o inconsciente, constituído pela soma das nossas memórias e de todas as combinações possíveis entre elas, compreende não só tudo o que fomos, mas também tudo que podemos ser. Como indivíduo e como espécie. Alimentados por esse imenso e desconhecido inconsciente, sonhos podem não só orientar o sonhador em decisões pessoais, mas ainda gerar inventos, templos, poemas, peças musicais, estratégias bélicas, e mesmo sinalizar os rumos de acontecimentos históricos.

E vamos aos sonhos.

A máquina de costura, por exemplo, é resultado de um sonho. Seu inventor, Elias Howe, queria colocar o olho da agulha na parte de trás, como nas agulhas comuns. E então, sonhou: um rei bárbaro lhe deu 24 horas para terminar a máquina e fazê-la costurar, caso contrário a punição seria a morte. Não conseguia resolver o problema, até que foi levado à execução. Reparou que os guerreiros que o conduziam levavam lanças perfuradas no topo; acordou com a solução do problema e colocou o olho da agulha na ponta. Seu invento causou uma completa transformação na produção têxtil durante a Revolução Industrial. E como se fosse pouco, a implementação do código binário nas tecelagens inspiraria os circuitos integrados de computador. Tudo a partir de um sonho.

Em O itinerário de Pasárgada, considerada a autobiografia intelectual do poeta, Manuel Bandeira diz que foram numerosos os poemas feitos durante o sonho, mas só conseguiu lembrar de dois: alguns versos iniciais e finais de “Palinódia” e o poema “Lutador”, do qual ele lembrou quase integralmente. Foi dormir impressionado com a palavra “transverberado”, e no dia seguinte de manhã “acordo com o soneto pronto na cabeça, com título e tudo”. Bandeira diz que interpreta os dois poemas sonhados como “obra alheia”.

A mesma impressão que teve o músico Paul McCartney com a melodia de “Yesterday”; sonhada por ele, pensou que fosse de outra pessoa. Diz que durante um mês perguntou a vários conhecidos do meio musical se conheciam a melodia, até convencer-se que era de sua autoria mesmo.

Há também os “sonhos grandes”, que marcam transições de fases da vida ou grandes mudanças na vida do sonhador, como o da própria esposa do autor no início do trabalho de parto do segundo filho do casal. São sonhos repletos de simbolismos e representações poderosas, muitas vezes ecoando conteúdos ancestrais.

Durante muito tempo, sonhei com uma casa em ruínas, que eu precisava reparar. Quando li as memórias de C. G. Jung, encontro um sonho em que o pensador está em uma casa desconhecida, que, no entanto, ele considera como “sua”. Vai descendo até encontrar uma caverna e dois crânios humanos, o que o leva a entender que a casa era uma representação da consciência. Só então me dei conta de que a “casa que eu precisava reparar” era a minha psique.

Teria muito mais a comentar sobre O oráculo da noite, mas deixo às leitoras e leitores o prazer da descoberta do que se estende por quase 500 páginas. Sonhemos e, como aconselha Sidarta Ribeiro, anotemos nossos sonhos. Entre tudo que seus conteúdos podem nos proporcionar, quem sabe entre tantos sonhadores alguém tenha o sonho revelador de como sair da enrascada em que está metido nosso Brasil?

_____________________

Serviço:

Lançamento do livro: O oráculo da noite – a história e a ciência do sonho

Autor: Sidarta Ribeiro

Dia: 4 de setembro – quarta-feira – às 19h30

Local: Livraria da Travessa – Rua Voluntários da Pátria, 97 – Botafogo – Rio de Janeiro.

Editora: Companhia das Letras, 2019

Criado em 2019-09-03 20:07:15

Andorinha do campo

Andorinha-do-campo (Progne tapera) – Mede cerca de 17,5 centímetros. É uma espécie grande, cor de fuligem, garganta e abdômen brancos, e a parte inferior da cauda, também é branca. Os jovens possuem penas azuis. Tem a voz rouca e metálica e um canto melodioso. Habita o campo e a paisagem aberta de cultura. O casal costuma dormir junto no ninho (o que não é comum em aves). Pousa sobre fios elétricos. Alimenta-se de cupins, formigas, moscas e abelhas. Para procriar usa vários tipos de ocos, e é extensamente dependente do ninho do joão-de-barro, onde prepara uma tigela macia, utilizando esterco. É também conhecida como andorinha, chabó (Araraquara, SP), major, taperá e uiriri (AM). Fonte: Wikiaves. Registro feito em 31.01.2015, em Florianópolis (SC).

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Criado em 2016-11-24 01:18:36

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Criado em 2016-07-20 21:57:46

Olimpíadas 2016 em drops

Sandra Crespo –

I -  Imagem melhor é da Globo mesmo. Mas tem que engolir frases do tipo "aí os índios encontram os povos".

II - Linda demais a cerimônia, gente de deus(es) e deusas! O Brasil ainda deve ter jeito, ah, se tem.

III - Agora na parte das delegações, cuja precisão de imagem já não é tão fundamental, acho que na Band os comentários são mais inteligentes e valeu o changement.

IV - Legal ver as delegações tão animadinhas! Pegaram o espírito rapidinho.

V - O Temer nem precisou de vaia. Ele se vaiou por antecipação! Kkkkkkkk! Ele pediu para o COI não citá-lo como presidente do Brasil! Ou seja, Temer é um penetra na festa. Pois era DILMA que deveria estar ali, na tribuna das autoridades, representando o Brasil. Até o Galvão teve de admitir que aquilo era "totalmente fora do protocolo ".

VI - É muito fofo mesmo ver os atletas plantando sementes no Brasil. As plantas devem crescer em um parque em Deodoro, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro.

VII - Tonga sensualizou no Maracanã. (Tonga é um país, gente!)

VIII- Já passou da zero hora e a cerimônia não acaba - a chama vai chegar na Candelária!

Criado em 2016-08-06 00:34:34

Anotações de uma viagem a Portugal – III – Final

Maria Lúcia Verdi –

Escrever as (?) últimas anotações sobre o que vi de arte no Porto já em Londres, destino final desta viagem em tempos dramáticos. Privilegiada por poder distanciar-me fisicamente de um sofrido território, aproximando-me dos afetos e da Arte, ela, o que me alenta nesses tempos sombrios. Tendo família no velho continente, posso me permitir essa viagem num momento em que o câmbio torna quase impraticável afastar-se, para a maioria absoluta da população.

Havia escrito sobre a mostra Entrelaçar, de Ai Wei Wei, atualmente na Fundação Serralves (algo como o Inhotim português), no Porto, aproximando seu trabalho do de Franz Krajcberg, mas fiz bobagem (o vinho, os reencontros) e não salvei o texto. Recuperar momentos, função impossível da escrita, se trata sempre da luta com o irrecuperável. De todo modo, a perda pode abrir outros caminhos. Recuperar a partir do aqui e agora e suas novidades. Here, there and everywhere.

A reflexão central do paralelo perdido entre o artista chinês e o polonês-brasileiro se tratava do fato de Krajcberg retirar da floresta pedaços de troncos e raízes calcinados e expô-los como eram, como são após os incêndios, sem manipulação; e o fato de Ai Wei Wei manipular, com uma equipe sofisticada, dentro da milenar tradição da refinada artesania chinesa, o que retira da mata atlântica. Essa questão me tocou - a imediatez contraposta ao “mumificado”.

Ambos os artistas lutam pela proteção do meio ambiente, mas tratam o tema de modo distinto. Krajcberg é mais “modesto” no trato de suas esculturas enquanto objetos de arte, Wei Wei ambiciona uma quase imortalidade, fundindo em ferro o material recolhido. Krajcberg tornou-se brasileiro, aqui viveu a maior parte de sua vida. Atrevo-me a dizer que, o primeiro, talvez por mais identificado com ou por ter aprendido a aceitar, embora criticamente, nossa cultura do instante, da falta de memória e compromisso; o segundo, atavicamente ligado à tradição chinesa de reproduzir e imortalizar a produção artística das distintas dinastias transporta para seu país o molde da árvore brasileira e lá a transforma em outra coisa, em uma escultura resistente ao tempo, com a qual se identifica a ponto de dizer “Esta árvore sou eu.”

Abro breve parêntese sobre a questão do imortal na cultura chinesa. A começar pelos Imortais do Taoismo e do Budismo, cultuados (de modo pragmático, visando à obtenção de algo) no dia a dia pelos chineses, até o desejo de continuidade\permanência presente nas reproduções perfeitas de objetos museológicos que encontramos nos antiquários chineses e que mesmo os mercados populares exibem - distintas qualidades para distintos poderes aquisitivos. É possível ter em casa praticamente qualquer objeto que nos tenha fascinado. As técnicas milenares de reprodução desenvolvidas pelos chineses são inigualáveis, a cópia que realizaram do interior e exterior da árvore escolhida para ser o centro de Entrelaçar, é impactante e o trabalho e verba empregados impressionante. Creio que o vídeo sobre essa execução, verdadeira epopeia, algo que recorda as filmagens de Fitzcarraldo por Herzog, esteja disponível na internet.

Wei Wei veio, em 2017, a convite de Marcelo Dantas, realizar uma obra in situ no Brasil. Visita a Mata Atlântica e resolve dela “apropriar-se” por meio de exemplares de troncos e raízes que, transportados para a China, serão fundidos em ferro e expostos. Associo a este seu ato, a esta sua produção, o Exército de Terracota, a “instalação” funerária feita pelo primeiro Imperador da China. Qin Shi Huang, apavorado frente à inevitável mortalidade, resolve mandar executar miniaturas de seu exército e seu mundo, enterrando-as consigo como proteção no indesejado além-túmulo. As réplicas dos inúmeros objetos, dos guerreiros e dos cavalos são inesquecíveis e comovedores os pedaços dos corpos que jazem no chão.

Antes de sair da China publiquei O caractere do sono – entre Oriente e Ocidente, do qual cito o texto escrito sobre Qin Shi Huang: O exército de Qin Shi Huan a dizer do medo da morte do Primeiro Imperador. Elixires ineficazes, alquimias impossíveis. Ao norte, ao sul, ao leste e ao oeste – tudo aos pedaços, cacos do impossível desejo. O que fundamenta a eternidade? Pedaços e mais pedaços de guerreiros. O braço solto, armado à espera da inimiga, o rosto isolado no monturo olímpico, para sempre ele mesmo. O Imperador não pode não morrer. Cavalos para sempre. Guerreiros para sempre. Todos a dizer do sorriso daquela dama, a ubíqua, omnisciente Senhora, exaustos de renascer a cada olhar.

São poucos trabalhos apresentados por Wei Wei em Entrelaçar, esculturas desfiadas de um mesmo novelo temático, Natureza a ser preservada e o artista como sujeito e objeto frente a essa questão. No meio da ampla sala, os corpos copiados em gesso de Wei Wei e de uma mulher que é uma modelo brasileira. Corpos brancos (anjos? não-corpos? materialidade transcendida?), deitados sobre prosaico colchão, artefato industrial (a China que todos consumimos, diariamente, por toda parte), distantes da grama de hipotético paraíso. Na altura da cabeça do clone do artista esparramam-se sementes vermelhas de Ormosia arbórea, olho-de-cabra, árvore endêmica da América do Sul. Os quatro elementos, dois corpos, colchão e sementes que formam a instalação, trazem a imediata (e óbvia) ideia do sexo como força vital geradora de criação; curiosamente as sementes vermelhas surgem unicamente da cabeça do artista, a figura feminina estando deitada de lado, como distante daquele dasparrame, daquela ejaculação mental.

A peça-chave da mostra é a Pequi Tree, a reprodução em ferro, a partir de molde feito na Mata Atlântica, em Trancoso, de árvore de mais de trinta metros. Como qualquer morador do centro-oeste, conheço árvores de pequi. Consultei amigos e de fato parece impossível, pela altura e forma, que a Pequi Tree seja de fato um pequizeiro. Também estranhei a informação de que seja, como diz o texto introdutório, “um exemplar com mais de 1.200 anos.” Lembrei-me da performance de 1995 do irreverente artista chinês quebrando o que diz ser uma urna da dinastia Han (206 aC-220 aC.). Tendo vivido cinco anos na China, creio que o vaso quebrado era uma cópia, o que não desvalorizaria o simbólico dessa performance. Diz um provérbio chinês: “Um grande copista é um grande artista”.

Me pergunto como Wei Wei terá identificado árvore de mais de 1.200 anos, no meio da floresta. Sabendo, como todos, da sua atitude sempre provocadora e desmistificadora, acho possível que a questionável datação e o nome dado à árvore escolhida para ser incorporada-imortalizada sejam blefes de quem sabe o quanto o mundo da arte é feito de ficção e disso se beneficia. No entanto, se são verdadeiras ou falsas essas informações, não é o fundamental em Entrelaçar.

O que é o fundamental, me pergunto. Talvez o fundamental seja o desejo de incorporação anímica à árvore que ele traz para a China aos pedaços, como uma relíquia, em moldes feitos por onze especialistas chineses. Todo o processo durou três anos, nunca um trabalho do artista exigiu tanto esforço e tempo, mais de cem pessoas envolvidas no processo. E fundamental também me parece o fato de o artista ter submetido seu próprio corpo ao mesmo processo de reprodução a que a árvore foi submetida, dolorosa moldagem, feita por especialistas alemãs. É aflitivo o registro em vídeo do processo, que durou três horas, o suor escorrendo do rosto e a dor acompanhando essa execução, principalmente na área genital. Ao contrário do momento da foto entre as frutas, puro prazer e entrega a um antropofagismo idílico, essa entrega do próprio corpo ao processo de moldagem é de outra ordem

Visitei essa mostra num momento em que Portugal é o país com maior número de vacinados contra o Covid da Europa e quando o país se preparava para eleições distritais, eleição vencida, no Porto, pela terceira vez, por Rui Moreira, presidente da Câmara, sem partido. Precisava sair do horror político-sanitário que estamos vivendo no Brasil, da falta de perspectiva de mudança imediata. Estar, por duas semanas, numa realidade tão diversa e poder mergulhar, mesmo que superficialmente, no romantismo e sua releitura e na produção de um artista tão polemico foi um bálsamo.

Sair do tempo presente em meu país, reencontrá-lo de outro modo em outros territórios, rever-me nesse espaço de origem (avô português e uma misteriosa história) numa cidade acolhedora, onde os espaços trazem à mente tantos espaços brasileiros, Minas, Bahia, Rio, Maranhão, Recife. Uma viagem fora do quarto, longe dos livros. O prazer de voltar a assistir um concerto numa Casa da Música que, como todo espaço de espetáculos em Portugal, exige comprovante de vacinação, máscara e distanciamento. Uma tranquilidade que não sei quando teremos.

Viagem. Intervalo. Recorte. Distração. Encantamento. Continuidade e pergunta. Talvez não por acaso vejo com certa melancolia os turistas barulhentos da Ribeira, em frente ao rio Douro. Impermanências. Desejo de continuidade. Pequenas imortalidades.

Criado em 2021-10-09 00:39:36

A ventura de amar os livros

Angélica Torres -

 “Mais livros, menos armas”. Esse slogan, que virou um mantra do Brasil humanista, progressista, esperançoso, condiz muito com a história da cabeleireira cearense-brasiliense Rosa Ventura. Espiritualistas não costumam desprezar encontros fortuitos que têm algo de mágico – “um lance de dados jamais abolirá o acaso”, diria Mallarmé. Por que iríamos a nos topar, assim, por acaso, senão para ela me contar que aprendeu a amar os livros, literalmente, pelas mãos de Raquel de Queiroz (a primeira mulher a entrar para a Academia Brasileira de Letras e a receber o Prêmio Camões)?

“Você é jornalista e escritora, não é? Pois, sabe, eu tinha nove anos, quando fui com uma tia, ela também ainda uma menina, à fazenda Junco, da Raquel, em Quixadá, onde eu nasci. Morávamos numa fazenda não muito longe”, Rosa começou a contar sua história, por si, romanesca. Foram recebidas pela escritora, que quis saber quem era aquela menina loirinha, nunca antes vista em sua fazenda. E as duas foram gentilmente convidadas a entrar no casarão pra tomarem o café da manhã.

Rosa se impressionou com o tamanho da mesa e com as muitas gostosuras ali expostas. “Foi a primeira vez que comi pão francês, porque só tínhamos farinha de tapioca e de cuscuz na casa da minha mãe, que na verdade era a minha avó, que me criou; ela era a cozinheira da fazenda de Raquel”. A escritora era um bom ser humano. Tratava os empregados com educação e respeito, todos lá gostavam dela, Rosa conta.

Quando as meninas já iam embora, Raquel de Queiroz voltou à sala com uma pilha de livros nos braços, perguntando se elas gostavam de ler. Tímidas, nem responderam, mas saíram levando alguns volumes, cada uma. Entre os da pequena Rosa Ventura estava um exemplar de O Quinze, o romance de estreia da escritora, que lhe abriu as portas do reconhecimento no meio literário.

Sobre ele, aliás, o poeta e também acadêmico da ABL Antonio Carlos Secchin relembra em depoimento publicado na recém-lançada revista Bric à Brac, de celebração aos 100 anos da Semana de Arte Moderna. Diz Secchin que Raquel era ainda uma menina, quando publicou O Quinze, em 1930, sobre a seca de 1915. “(...) É importante, porque esse livro se insere diretamente no ciclo da Geração de 30 do romance nordestino, que vai ter Jorge Amado, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, a própria Raquel e, antes dela, José Américo de Almeida (...)”.

Essas qualidades do famoso romance, entretanto, não cativaram a menina, que só abriu os seus livros para ler quando passou a morar em Brasília, na adolescência, buscando melhores chances de vida do que aquela, árida, na roça. “Não gostei d’O Quinze. Achei difícil, parei e não retomei mais. Mas li os outros e o que eu mais gostei foi um de espiritismo”. Raquel de Queiroz não era espírita, mas esse livro estava por lá, na casa dela.

Na foto, Rosa adolescente, formada em costuras.

Rosa também não se tornou espírita, mas reconhece que aquele encontro com a escritora a levou a buscar por mais livros. Não é comum que cabeleireiras entrem em livrarias e que saiam com um volume para ler no ônibus, indo ou voltando do salão de beleza onde trabalham, para casa.

Pois essa personagem era a Rosa Ventura, que se sentiu chamada por um livro sobre o Buda. Leu, gostou e acabou comprando outros mais, de mestres budistas, mas também de outros temas. O resultado é que ela própria passou a frequentar um templo na L2 Sul, tornando-se uma praticante das lições do budismo.

Lições de leituras - Esse percurso, iniciado no dia em que conheceu Raquel de Queiroz, não à toa explica a aura da “personagem” Rosa, desde a amabilidade com que trata as pessoas ao dom de fazer tudo bem feito na profissão, com gosto, serenidade zen e uma notável honestidade com suas freguesas.

Explica também, de acordo com seu relato, as pazes feitas com a mãe, com o passar do tempo. Rosa foi fruto de uma relação indesejada pelo avô, ao saber da gravidez de sua filha. Os pais de Rosa não puderam se casar, proibidos por ele. Mas a avó, a cozinheira da fazenda Junco, não aceitou a imposição do marido e acolheu a bebê, entre os seus 19 filhos. (Foto de Rosa Ventura: a família reunida)

Mais tarde, sua mãe se casou de novo e não a levou para viver junto a ela. A mágoa, no entanto, se resolveu com a idade e certamente que também com os sábios ensinamentos dos livros lidos e a sua sensibilidade para interpretá-los.

Um dos desfechos inesperados nessa história toda foi que os pais legítimos de Rosa se reencontraram, quando sua mãe enviuvou, e se casaram. Isso, após anos sem nunca mais terem se visto. Estão juntos há mais de duas décadas. Tem ou não tem a mão invisível de uma Raquel de Queiroz por trás desse enredo de origem rural, desembocado na modernista capital do país?

Mas a protagonista da história real, como deve ocorrer com uma boa pupila, suplantou a mestra – que os céus a tenham, apesar de seu erro de  raciocínio e de cálculo: Raquel apoiou a ditadura militar que, todos sabem, levou o Brasil a viver o aperreio de longos 21 anos de descaminho.

Já Rosa – que viu falir na pandemia o salão de beleza de que era gerente e acomodou um seu pequeno salão no singelo espaço da ourivesaria do companheiro, numa sobreloja da cidade, morando hoje ali nas adjacências com os cinco filhos que ambos criam juntos, há treze anos – pois, em sua literária história e junto com sua família, Rosa Ventura sonha com um Brasil pacífico, progressista, justo e inclusivo para os mais pobres.

“Aqui em casa somos todos Lula. Quem diz que precisa de armas ignora precisar mesmo é de ler bons livros e se educar, pra viver em coletividade com dignidade. Hoje leio grandes autores que incentivam a sermos mais humanos, amorosos, respeitosos uns com os outros, jamais a pegarmos em armas, que é o que ‘o outro’ estimula, imitando Hitler”, diz.

Venturosa pupila, pessoa especial, interessante, essa Rosa.

 

 

Criado em 2022-10-01 01:27:06

Justiça volta a suspender a obra do Museu da Bíblia

Romário Schettino –

O Juiz Carlos Maroja, da Vara do Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Fundiário do Distrito Federal, expediu liminar suspendendo o Edital nº. 18/2021, da Secretaria de Cultura do DF, destinado à escolha do projeto arquitetônico para o Museu Nacional da Bíblia. A informação foi divulgada hoje (22/8) pelo blog do jornalista Chico Sant´Anna (*).

A deliberação do juiz atende ação apresentada pela deputada distrital Julia Lucy (Novo) e determina a paralisação de todos os atos que digam respeito “ao planejamento e execução de um museu na área do Eixo Monumental.”

Na ação pública, a parlamentar alega que a obra do Museu da Bíblia é “faraônica”, orçada em mais de R$ 26 milhões, que não foi precedida de audiência pública; e que o gasto de R$ 122 mil, a serem pagos com recursos públicos, “para a escolha de um projeto desnecessário em plena pandemia implica em inversão na prioridade da alocação de recursos já escassos”.

A Lei Orgânica do DF, em seu artigo 362, inciso II, estabelece como pré-requisito de validade do processo decisório envolvendo patrimônio cultural a realização de audiência pública.

A deputada Julia já disse ao Correio Braziliense que é cristã, mas acha que a “construção de um museu durante o período pandêmico não dá!” Ela acha também que a “prioridade do GDF deveria ser a instauração da CPI do IGES, a reforma do Teatro Nacional, a revitalização do Cine Itapuã. Prioridades, governador [Ibaneis Rocha], prioridades”.

O Governo do Distrito Federal alegou, em sua defesa, que “a mera realização de estudos para o museu, que fora idealizado por Niemeyer e previsto desde 1995, não representa prejuízo para a Administração ou ao interesse da coletividade”. Disse ainda que uma decisão da Justiça impedindo a continuidade do projeto “impediria o GDF de incentivar e promover o turismo; que o museu criará postos de trabalho; que as experiências dos museus da Bíblia situados em Barueri e Washington – DC demonstram a atratividade e lucratividade desse tipo de museu; que o museu terá relevância cultural e histórica”. O Ministério Público do DF optou por ficar do lado do GDF, contra uma suspensão do projeto do Museu da Bíblia.

O que o governador Ibaneis não diz é que o Teatro Nacional teria muito mais importância para a cultura e o turismo da cidade do que um museu nitidamente neopentecostal, evangélico, fora de propósito e nitidamente inconstitucional.

O juiz Carlos Maroja, em sua sentença, ressalta que o Plano Piloto é tombado internacional e nacionalmente, que a implantação do Museu da Bíblia pode representar a descaracterização “de outro monumento”, o próprio Eixo Monumental, e lembra que a sociedade de Brasília tem questionado a construção desse novo monumento “em dias em que a população lastima que um outro monumento nacional do porte de um Teatro Nacional apodrece há anos, inacessível tanto ao sempre carente setor cultural candango como a uma população ainda mais carente de arte e cultura”.

“O projeto (do Museu da Bíblia) submetido à impugnação neste feito impacta diretamente em bem cultural tombado como Patrimônio Histórico e Mundial da Humanidade: a concepção urbanística de Brasília, mais notadamente em sua escala monumental, a qual repousa exatamente sobre o leito do Eixo Monumental […]. É simplesmente inconcebível que qualquer autoridade pública se volte contra os efeitos do tombamento, que é, repita-se, medida de proteção a Brasília que vincula todos os poderes públicos à obrigação jurídica de protegê-la adequadamente.”

“A mera vontade política do Governador do Distrito Federal – continua o texto da liminar – não é elemento suficiente para a execução de “atos que envolvam modificação do patrimônio arquitetônico, histórico, artístico, paisagístico ou cultural do Distrito Federal”. Para que qualquer ato deste porte – inclusive estudos prévios, diga-se de passagem – a apreciação em audiência pública é obrigatória, […]não se pode concluir, a priori, que a instalação de museu da Bíblia seja algo necessariamente afrontoso ao monumento (Brasília) tombado. Mas, para que tal aspecto primordial seja devidamente enfrentado, torna-se imprescindível, antes de mais nada, auscultar a sociedade sobre a ideia, sob pena de se empreender alteração possivelmente temerária do monumento nacional.”

Museu da Democracia  - A sentença também faz menção ao Memorial da Liberdade e Democracia – visto por alguns como museu dedicado a João Goulart. Aprovado no governo de Agnelo Queiroz, a instalação desse memorial, que visava abrigar os registros e a documentação dos anos de chumbo da Ditadura Militar, teve a decisão revogada pelo sucessor, Rodrigo Rollemberg, mesmo tendo sido aprovada pela Câmara Legislativa e de já contar com recursos federais e de patrocinadores privados. O tapume e a pedra fundamental da obra projetada por Niemeyer tiveram que ser retirados.

“Um fato notório ocorrido nos idos de 2015 reforça a convicção da necessidade do prévio e amplo debate sobre qualquer intervenção no Eixo Monumental: na época, cogitou-se instalar ali um Museu dedicado a João Goulart. Após a percepção da intensa rejeição social à intervenção sobre a escala monumental (e não necessariamente à figura histórica que seria homenageada), numa discussão em muito similar à que atualmente envolve o projeto mencionado na demanda, o governo retratou-se da decisão. Se não pelo respeito às diretrizes constitucionais, a lição do evento histórico recente recomendaria, no mínimo por cautela, que os atos relativos à intervenção no monumento nacional fossem precedidos de oitiva da população”, registra a sentença.

Como a decisão é provisória, a próxima etapa será o julgamento do mérito. Para isso, o GDF será chamado para apresentar novos argumentos. É provável que o governo tente derrubar a liminar numa instância superior, antes mesmo do julgamento do mérito.

O curioso é que recentemente o próprio secretário de Cultura do DF, Bartolomeu Rodrigues, mesmo sendo o responsável pela pasta que organiza a seleção para escolha do projeto arquitetônico da obra, afirmou ao ator. dramaturgo e diretor de teatro, Alexandre Ribondi, numa live da Casa dos 4, ser contra a construção do Museu Nacional da Bíblia, que não tinha projeto museológico, nem sabia qual seria o acervo deste monumento.

Essa live da Casa dos 4 teve ampla repercussão em todos os outros meios de comunicação, numa demonstração de que as novas tecnologias podem interferir positivamente no debate coletivo. O polêmico Museu da Bíblia é apenas um dos temas relevantes para a cultura brasiliense. Oxalá a discussão continue ocupando espaços cada vez mais democráticos, gerando resultados e avanços significativos na cultura local e nacional. E que as trevas deem lugar à luz o mais rápido possível.

Criado em 2021-08-23 03:32:18

A temporada do Diabo em Brasília

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Dia desses encontrei no metrô uma senhora de seus 47 anos com aparência de 68, grisalha, cardigã negro, colar nambikwara de algodão com dentes de onça, unhas encardidas de tabaco. Falante, ela puxou conversa e logo supus que fosse antropóloga ou professora de francês, pelo jeitão existencialista. Sem papas na língua essa Gorette, a não ser quando falou en passant do filme do Fernando Meirelles. Desceu o cacete no Bolsonaro, na Damares, na Regina Duarte e até no Ibaneis. Só não desfiou todo o rosário porque teve que saltar na estação da 108. Antes de dar tchau, exclamou: “Alguém precisa contar a história da visita do Diabo a Brasília”!

Em vez de rir, senti um calafrio percorrendo os nervos ciáticos calcanhar acima. Logo eu, um materialista encanzinado! De enxofre me lembrei do Mestre, da Margarida, do Ivã Sem Teto, Woland, Behemote, a turma toda do romance do Mikhail Bulgakov sobre a visita do Demo a Moscou nos anos 30. Me assaltou um misto de curiosidade e angústia: e se o Capeta estiver mesmo passando uma temporada em nossa Capital, como aconteceu na ficção do escriba russo?

Smoking gun - Indícios para calcar essa terrível hipótese sobejam e abundam nesses 400 e tantos dias desde que tomou posse o Bozo. Poupo xs leitorxs do catálogo de bagaceiras executadas pelos filhos do homem, pelo Weintrouble, pelo Santini, pelo Weingarten et caterva. Porém, mesmo com tantos sinais – fortes sinais! – não há, por enquanto, o que os americanos chamam de smoking gun (o cano do revólver fumegando), isto é, a prova irrefutável de que o Cramunhão anda aprontando em Brasília. Com base nas evidências circunstanciais, só mesmo por forte convicção lavajatista a gente poderia lacrar a conclusão de que o Coiso está entre nós.

Para complicar, convenhamos, há gente tão ruim, mas tão ruim, que é capaz de jogar a culpa de suas maldades nas costas do Danado só pra se eximir das responsabilidades.

Deixando de lado a teoria do domínio de fato, resolvi presumir até prova em contrário a inocência de Belzebu, mesmo tendo ele esse nome tão caro à bancada do boi. Vai daí, tomado de estranho entusiasmo, passei dias matutando no assunto. Foi bom porque botei em dia os meus conhecimentos demonológicos, revendo as biografias de Satã do Alberto Cousté, Robert Muchembled, Elaine Pagels, Henry Ansgar Kelly, e também o interessantíssimo trabalho de Fred Parker, “O Diabo enquanto Muso – Blake, Byron e o Adversário”. Por causa desse tratado, revisitei o Blake, o Byron, o Milton, o Marlowe, o Goethe, o Baudelaire, o Dostoievsky, o Bulgakov, o Thomas Mann e, por último, o nosso Guimarães Rosa, todos eles especialistas na esfera da Fera. No fim, cunhei com meus borbotões o título óbvio para a reportagem que talvez eu ainda venha a batucar: “O Diabo na Esplanada, no meio do redemunho”!

Exorcismo - Mais alguns dias, voltei a encontrar no metrô a Gorette, a mulher do colar nambikwara, dessa vez trajando um casacão de couro marrom com tachas pontudas de metal e um enorme button na lapela com a cruz de São Damião. Ela perguntou se eu tinha levado em conta a sua sugestão de reportar a visita do Cafuçu em Brasília. Respondi que não penso em outra coisa desde então, nique, subitamente, voltei a sentir aquele calafrio, do calcanhar até a altura da vértebra C1. Credo!

Pois eu vou lhe dar outra dica para a sua investigação, disse Gorette. A coisa está tomando tamanha proporção que já criaram até fórmulas para exorcizar o Cabrunco, completou. Diante da minha cara de “cuma?”, ela explicou. Você já prestou atenção na letra do Real Resiste do Arnaldo Antunes? É uma lista de jaculatórias! E mais não disse porque logo desceu na Estação 108.

Chegando em casa, lá fui eu estudar a música do Antunes:

Autoritarismo não existe
Sectarismo não existe
Xenofobia não existe
Fanatismo não existe
Bruxa fantasma bicho papão
O real resiste

Percebi logo que a letra flui não apenas na chave da ironia, vai além!

É só pesadelo, depois passa
Na fumaça de um rojão
É só ilusão, não, não
Deve ser ilusão, não não
É só ilusão, não, não
Só pode ser ilusão

Ilusão? - Obviamente, o real ocupa aqui o lugar da resistência ao pesadelo, ou ao que parece ser um pesadelo na atual conjuntura. Contei 16 palavras e expressões do repertório de ações do atual governo: miliciano, terraplanista, homofobia, desmatamento, trabalho escravo, extermínio, tirania eleita pela multidão etc. E somei uma dúzia de criaturas mitológicas, geralmente vinculadas ao Mal: bruxa, bicho-papão, zumbi, mula sem cabeça, demônio, dragão, lobisomem etc, com seus efeitos pra lá de reais: medo, depressão, horror e opressão.

Ao que tudo indica, o Antunes está dizendo que as desgraceiras do bolsonarismo devem ser racionalmente rejeitadas assim como a gente descarta os contos da Carochinha. Mas será mesmo possível equivaler os termos concretos da primeira lista com os entes de imaginação da segunda? Miliciano eu sei que existe, mas duvido dos lobisomens. “É só pesadelo, depois passa”. Será?

Qual é a do Arnaldo Antunes? Ele quer dar uma chacoalhada em chave irônica na consciência algo paralisada da opinião pública? Estará ele conclamando as massas para uma atitude que nos acorde de um sonho ruim, motivo da TV Brasil censurar a  música? Ou será que o Antunes está sabendo de alguma coisa muito mais escabrosa (o calafrio de novo!), e resolveu, como quer a Gorette, nos oferecer uma arma para combater o Trevoso na singela forma de um rol de jaculatórias – "preces a jato" em latim eclesiástico -, contendo nada menos que 52 conspícuos “nãos”?

Torto? - Não tenho ainda respostas definitivas para tantas dúvidas e, como uma interrogação puxa outra, elenco mais algumas. Será que o Capiroto estaria de visita entre nós? Veio em voo comercial ou pegou carona num avião da FAB? Terá alugado um apartamento pelo Airbnb ou estaria hospedado na Granja do Torto? (Torto? Por que a residência oficial da Presidência leva o nome do Desgraçado?) Ele anda de Uber ou de carro oficial? Pede comida pelo iFood ou almoça na cantina do Planalto? Já foi ao Clube do Choro?

Torvelim, voragem, vertigem! Neste exato momento, enquanto revejo a última temporada do guapo Lúcifer na Netflix (Ih, me entreguei: sou fã do Tom Ellis!), não paro de fazer perguntas.

Se o Canhoto existe, tudo é permitido?

Javé não estaria nos testando como quando sacaneou o pobre do Jó naquela aposta com o Chifrudo?

Pensem comigo! O Diabo há? Ou o que existe é só homem humano e mulher humana? A Regina Duarte? O Jair? O Mourão? E o Tchutchuca, caraca?

Travessia? Aliança? Nonada?

Criado em 2020-02-09 14:27:47

Ih, chegaram os Idos de Março!

Antônio Carlos Queiros (ACQ) -

O 15 de março corresponde aos idos de março do antigo calendário romano, famosos porque foi nessa data, no ano 44 antes da Era Comum, que um bando de senadores aristocratas, liderados por Cássio e Bruto, assassinaram o divino ditador Júlio César, configurando o ápice da crise da República, que resultaria na fundação do Império Romano.

A decepção de César com o seu amigo Marco Bruto traduzida na frase "Et tu, Brute!" (Até tu, Tuta!) é apócrifa, mas foi apropriada pelo Shakespeare. Na verdade, César teria xingado seus agressores em grego, língua com que ele transava com a sua amante egípcia, Cleópatra Filopátor.

Eu não sei por que dizem ter sido um assassinato brutal e não um assassinato cassiano. O fato é que Júlio César morreu com 23 facadas, mas apenas uma delas, no peito, teria sido fatal, segundo o Suetônio, o que mostra quão avançada era a medicina legal dos romanos.

Da próxima vez que você pedir uma Cæsar Salad, exija do maître o número exato de facas para a decoração do prato.

Eu acho de mau gosto usar catchup nesse caso, mas gosto e cu cada qual tem um, já dizia o Plutarco, outro biógrafo do Júlio, que foi sucedido (o Júlio, não o Plutarco) por Augusto, fato que determinou a sequência dos meses depois das festas juninas.

A sangrenta conquista da Gália parece ter sido a principal façanha militar de Júlio César, mas os gauleses não se conformam até hoje com a derrota de seu líder, Vercingétorix. Tanto é que continuam a produzir filmes de animação do Astérix e do Obélix, nos quais César é sempre pintado como idiota e os romanos como loucos varridos.

A frase "Alea iacta est" (Os dados foram lançados), que César pronunciou em janeiro do ano 49 antes da Era Comum, ao pular o corgo Rubicão para se tornar ditador, inspirou outro gaulês, Stéphane Mallarmé, a compor o primeiro poema tipográfico, "Un coup de dés jamais n'abolira le hasard" (Um lance de dados jamais abolirá o acaso). O poema, de difícil compreensão até para os concretistas, costuma ser usado pelos militantes da chamada obra absolutamente aberta para combater o determinismo histórico.

Dizem que a mãe do César foi quem inventou o parto cesariano. Tinhoso desde o útero, o futuro cônsul teria se recusado a cruzar o rubicão vaginal, obrigando Aurélia a ordenar à parteira: "Gladium transeo!" (Passe a faca!).

Desde o primeiro vagido estava selado o destino de Júlio César, em latim, Gaius Iulius Cæsar, ou IMP•C•IVLIVS•CÆSAR•DIVVS!

Quem não quiser acreditar, que conte outra, ora!

Criado em 2023-03-16 00:59:29

O homem que fazia discos, ou, a missão sagrada

Luiz Martins da Silva –

Eu sabia que Helival não era cascateiro, pelo contrário, sujeito sério, na faculdade e, depois, no trabalho, onde chegara antes, já admitido, eu é que era estagiário. Um dia, pedi-lhe detalhes sobre o homem do disco-voador. Por acaso eu vou lá hoje, me disse. Posso ir junto? Quer ir, vamos, mas hoje estou indo só pra ver se ele avançou em alguma coisa, ‘tava muito parado’.

O homem fazia disco-voador, mas não tinha telefone. O jeito era ir lá. Pedimos a kombi do jornal e fomos ao Núcleo Bandeirante. Coincidência, chegamos no exato momento em que artesão de OVNI estava com a mão na massa, quero dizer, nos arames. Um aranzel danado, uma prolixidade de hastes ligando o meio da nave à cobertura, que era de lona. O homem estava lá em cima, atrepado, nos acabamentos.

Camiseta, bermuda, sandália, uns 45 anos. Mas aquele jeitão dele, ali, naquela coisa, de certa maneira confirmou uma desconfiança que eu já levava no íntimo: maluqueira. Foi então, que eu me lembrei, o Helival era ao mesmo tempo comunista e místico, ligado em leituras esotéricas. Mas era bom repórter, texto bom, faro perfeito, descobridor de boas histórias. Só que aquela tava parecendo boa demais. Àquela época, a cidade andava cheia de “cascateiros”. 

Na maior desfaçatez, “jornalistas”, assim, entre aspas, inventavam cada uma... Um tal de bebê anjo, que depois virou bebê diabo, deu até em romaria numa cidade-satélite, sem que ele existisse, de fato. A famosa “Loira do Chevette Branco”, que também nunca existiu, vivia assustando a cidade. Era puríssima ficção. E uma dupla, repórter e fotógrafo, ia para a rua, na maior cara de pau, para registrar depoimentos, “povo fala”, se é que eles não inventavam também as conversas. O que não era ficção, pena que não fosse, a censura mandava pegar leve, o escabroso crime, o Caso Ana Lídia, a menina loirinha, um anjinho de cabelos cacheados, vítima de um falso sequestro, o próprio irmão se prestara à farsa, mas depois que a gangue pegou o dinheiro eles se entupiram de drogas, abusaram, mataram, queimaram a menina e a enterraram num matagal.

O bando era formado por “filhinhos de papai”, os papais eram ministros, senadores... só o irmão da criança é que estava mais pra pé rapado, classe média baixa. Hoje, Ana Lídia é mártir, túmulo muito visitado, ex-votos, milagres... O crime prescreveu, talvez algum dia alguma comissão da verdade dê nomes oficiais aos bois, o vulgo sempre os soube. O Tropicalismo já era uma das páginas mais importantes na história da cultura brasileira, mas Caetano estava em Londres, gemendo versos do tipo so looking for flying socers in the sky.

E nós, na terra vermelha do Cerrado, testemunhando um cara ultimando retoques de um disco-voador. Ele falava pouco, dizia que estava prestes a dar por encerrada a missão que recebera, botar o disco pra voar, aquilo era um conhecimento que lhe fora passado por seres outros, remanescentes dos Vímanas, dos Atlantes, algo assim. Tempos depois, fiquei sabendo, pelo próprio Helival, que o disco tinha voado, subira pouco mais de 50 metros, mas voara. Uma proeza bem mais pobre do que a de Santos Dumont, mas o autor se deu por descompromissado com as entidades desencarnadas que lhe haviam cobrado a obrigação. Não houve cobertura. O fato mais midiático do mundo, sem cobertura alguma, mas o homem não tinha o menor faro para notícia, não avisou a ninguém, nem ao fiel Helival, que o acompanhara, passo a passo. Houve testemunhas, poucas, sumidas, sem depoimentos. Não foi possível sequer reconstituir o fato, que hoje conto de memória. A preocupação daquele fabricante de disco-voador não era sair na imprensa, mas se livrar de um encargo espiritual, dívida finalmente resgatada.

Criado em 2021-01-08 11:34:35

O pato e a luta contra o coronavírus

Patrícia Porto da Silva (*) –

Setores mais fortes da economia privada, bancos, empresas do agronegócio, indústrias, operadoras de seguros e planos de saúde, e demais organizações que operam no Brasil, com alto rendimento financeiro, deveriam ser os primeiros a oferecer ajuda ao Estado na atual crise da pandemia do coronavírus. Só o banco Itaú teve R$ 20 bilhões de lucro líquido ano passado.

No entanto, entidades representativas deste setor econômico até o momento sequer se pronunciaram a respeito. O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, que entre 2013 e 2015  soltou o pato na rua para ajudar a derrubar o governo Dilma Rousseff, ao que se sabe, até agora não se mexeu.

As demandas geradas pela pandemia não eram previstas, mas lançaram o país em situação de calamidade pública comparável a uma guerra mundial. Há exemplos históricos de união da sociedade em momentos como esse; foi assim que países se reergueram após grandes catástrofes.

De fato, há iniciativas de pessoas comuns, oferecendo os mais variados tipos de ajuda. Doações de água e produtos de limpeza são feitas em comunidades carentes. A chamada para trabalho voluntário acaba de atrair mais de seis mil inscritos. Jovens se oferecem para ajudar nas compras, artistas fazem apresentações gratuitas, professores de educação física produzem vídeos com exercícios que podem ser feitos em casa.

Gente simples tirando coelho da cartola, movidos por espírito de solidariedade e desejo de vencer coletivamente o desafio.

Diante disso, é estranho que representantes da elite ainda não tenham apresentado uma proposta conjunta para contribuir com o país de cujas concessões e isenções se beneficiam há décadas. Tal contribuição poderia ser feita na forma de instalações e equipamentos hospitalares, cestas básicas para a população, entre outros quesitos imprescindíveis para superação deste momento dificílimo que ameaça a sociedade brasileira com efeitos aterrorizantes.

Coisas que representariam apenas uma fração do que o extenso universo de consumidores brasileiros tem proporcionado ao setor mais rico da economia privada, em termos de lucratividade e saúde financeira.

Seria uma ótima oportunidade, por sinal, para a Vale recompensar parte dos prejuízos causados pelos desastres de Mariana e Brumadinho. Essa compensação não deveria se restringir aos diretamente atingidos, mas se estender a toda a população, em vista dos danos ambientais incalculáveis e talvez irrecuperáveis a se prolongarem por gerações.

Esperemos, pois, que os setores mais  privilegiados da economia reconheçam sua responsabilidade e sua dívida com a sociedade brasileira, e participem concretamente na luta contra o avanço da pandemia do Covid-19 e suas terríveis consequências.
____________
(*) Patrícia Porto da Silva estudou letras na PUC-RJ, biologia na UERJ, mestrado em educação na UFRJ, professora inativa da rede pública do Rio de Janeiro. Ex-funcionária da Agência Nacional do Petróleo (ANP).

 

Criado em 2020-03-21 03:28:16

Os três reis magos pretos que encontrei

José Carlos Peliano (*) –

Não vinham em camelos nem em sonhos
estrela guia não apareceu em qualquer quadrante
suas roupas deixavam de trazer acabamentos e brilhos
mãos vazias, sem reinos, credenciais e compromissos.
O primeiro, era uma menina, rainha Maria das Graças,
pernas defeituosas e cruzadas de nascença
se arrastava sentada no chão apoiada nas mãos abertas
me pediu comida no restaurante de estrada em João Pessoa
convidei-a, peguei-a e a sentei na cadeira ao meu lado
alegre, espontânea, falava de tudo e saboreava o prato
dei-lhe boa recompensa ao final e a pus de volta ao chão
despediu-se de mim enviando um beijo estalado
retribuído do mesmo jeito em saudação sentida
seu sorriso nunca deixou de deixar estar comigo.

O segundo, um menino descalço de olhos tristes
magro de pés andarilhos sem horas marcadas
veio a mim quando eu entrava no carro para partir
seu rosto como uma flecha cruzou meu coração
dei-lhe um abraço de natal com a ajuda que pedia
agradeceu-me com sorriso tímido e se foi levando o sol da tarde.

O terceiro, um homem em cadeira de rodas
sem as pernas com as quais nasceu
cantarolava sons de embalar as horas
entre sorrisos leves e voz de mansidão
recebeu com mais sorrisos minha ajuda
de olhos bem abertos me enviou um abraço redondo marejado
voltou em seguida às suas cantigas de paz no coração.

Os três me deram presentes sem tempo, carinho e tamanho
carregados de gratidão, reconhecimento e valor
não que eu fosse um salvador imprevisto ou especial
mas apenas um como eles, amigo, irmão, companheiro
seus olhares, expressões, gestos e presença
deixaram em mim a força do ser humano
perdido nos confins de cada um de nós pelo mau uso
mas que pode ser um dia enfim resgatado
quando nos tocar fundo o sentimento de igualdade
fraternidade, mãos dadas, passos juntos
na construção conjunta de um mundo feito de natais
sem reis, apenas magos do amor e compaixão.


_________________________
(*) José Carlos Peliano, poeta, escritor, economista.

Criado em 2021-12-24 02:28:41

A naiveté canalha de Slavoj Zizek

João Lanari Bo (*) –

O filósofo/psicanalista/cinéfilo Slavoj Zizek deve ter levado um susto quando acordou e deu de cara com a postagem do ministro Ernesto Araújo, do Itamaraty, intitulada, em tom de manchete sensacionalista: “Chegou o comunavírus”. O coronavírus, disse, “nos faz despertar novamente para o pesadelo comunista”, e Zizek, “um dos principais teóricos marxistas da atualidade”, escreveu uma:

obra-prima de naiveté canalha, que entrega sem disfarce o jogo comunista-globalista de apropriação da pandemia para subverter completamente a democracia liberal e a economia de mercado, escravizar o ser humano e transformá-lo em um autômato desprovido de dimensão espiritual, facilmente controlável.

Ao susto, seguiu-se, certamente, uma gargalhada. Como pode ele, Zizek, um anarco-marxista, para dizer o mínimo, alguém que especula a partir de Hegel e Lacan combinado com Hitchcock e Tarantino, lido e relido por um público fiel em um nicho limitadíssimo do respeitável público, um heterodoxo à margem da academia – vide seu conflito com a poderosa Judith Butler, por exemplo – ser tachado de:

provavelmente o escritor marxista mais lido nos últimos trinta anos. Influencia faculdades e círculos intelectuais “progressistas” ao redor do mundo, que por sua vez influenciam a mídia, que influencia os políticos, que tomam decisões muitas vezes inconscientes da raiz ideológica dos conceitos “pragmáticos” pelos quais se deixam guiar.

É uma pancada, pensaria o filósofo, equivalente à ingestão da sopa de Wuhan, a suposta origem da pandemia. “O globalismo é o novo caminho do comunismo”, afirma peremptoriamente Araújo, que arremata:

Controlar a linguagem para matar o espírito, eis a essência do comunismo atual, esse comunismo que de repente encontrou no coronavírus um tesouro de opressão.

Como se a globalização, processo comandado pela disseminação da tecnologia pelo globo, que suscita e acelera fenômenos globais, da reflexão acadêmica às pandemias, e todos os “globalismos” possíveis, do bem e do mal, fosse algo controlável ou descartável. Hélas! a insistência nos supostos heroísmos e espiritualidades sob perigo sugerem que o mundo se afigura como uma arena política ao estilo de “Game of Thrones”, com anões, parasitas, tiranos musculosos, espertalhões e louras feiticeiras – todos puxando o tapete, uns dos outros, em nome do espírito universal!

E o livrinho do Zizek, afinal o pivô desse devaneio crítico? Cento e poucas páginas de reflexão sobre o “novo normal” que vivemos, com sacadas, melhores ou piores, mas sempre instigantes. Por exemplo: o uso propositalmente provocativo do termo “comunismo” para designar uma suposta solidariedade global que poderá emergir da pandemia. A reação do ministro brasileiro, nesse particular, ocupa provavelmente o topo da reação extremada: a sonoridade mesma das palavras - comunismo, comunista – parece deflagrar surtos histéricos em alguns ouvintes, talvez motivados, diria Freud, por traumas ligados a impulsos libidinais reprimidos.

Que dizer, então, de um mundo em que Boris Johnson nacionaliza ferrovias, Donald Trump manda cheques para a população, e o Estado se apresenta, hélas, insubstituível? A solidariedade - e a OMS - não é uma conspiração maoísta-leninista, é uma necessidade, diz Zizek.

A pandemia, sublinha, não veio para nos punir por estarmos explorando o mundo natural: tais argumentos têm apenas uma função de reassegurar a nós, humanos, nossa naiveté. A grande dificuldade de aceitarmos esse tsunami, insiste, é que esse “mecanismo estúpido de autorreplicação", como ele descreve o vírus, "não esconde um significado mais profundo". É o que é, emergiu desse complexo de agenciamentos, tangíveis e intangíveis, que move o mundo.

É sempre duro lidar com essa barreira do real, real aqui no sentido lacaniano: um real que desconhecemos, mas que sabemos ser incontornável e real, como a morte.

Desnecessário ressaltar que a última coisa a fazer, nessa hora, é jogar lenha na ordem simbólica da política, como faz o post do ministro. Teorias conspiratórias não tem serventia: Kant, outra referência de Zizek, diria que a deontologia contemporânea mais do que nunca implica uma concepção da razão prática que impõe um dever de cooperação internacional.

Em meio a tantos “ismos” demonizados – globalismo, cientificismo, climatismo, migracionismo, antinacionalismo – faltou o principal: oportunismo. Afinal, o que parece embasar o post é o velho e útil oportunismo: ser capaz de escrever algo com tintas de pretensão intelectual, citando Foucault e Agamben, e, ainda assim, ser compreendido pela chefia. Em suma, agradar (outros gastam apenas um curto e grosso twitter para obter o mesmo efeito).
___________________
(*) Editora Boitempo lança “Pandemia”, livro de Zizek sobre a pandemia.

Criado em 2020-04-26 21:33:16

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