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Danilo Firmino (*) –
São 5 horas e 52 minutos do dia 15/4/2020, uma quarta-feira. Esta é a terceira noite seguida da minha vida que varo a madrugada sem fazer “samba e amor até mais tarde”, como cantou Chico Buarque, para depois “sentir muito sono de manhã”.
É a terceira noite que experimento, após receber a notícia da morte do mestre Tantinho da Mangueira; e saber, sim, que ele está morto.
Claro, vocês que não são sambistas devem estar se perguntando: como esse cara disse que soube da morte do outro, e não queria acreditar que ele morreu? A pergunta meio esquisita só faz sentido porque para maioria das pessoas, a morte sempre foi sinônimo de sofrimento fúnebre, choro, desespero pelo que se foi. Mas para nós, sambistas, não. Tem algo mais nesse acontecimento.
À palavra morte, todo sambista/compositor condiciona um rito, uma palavra mágica e um gesto de amor a quem partiu, dando outro sentido às despedidas. A isso chamamos de gurufim. No dicionário, gurufim “é o ritual fúnebre nas comunidades afro-brasileiras, acompanhado de algum passatempo para tornar a atmosfera menos pesada; cerimônia onde as pessoas cantam e dançam para homenagear o morto”.
Sim, tenho que ser honesto e dizer que o medo dessa “senhora” bateu há umas três semanas quando soube que Ellis Marsallis morreu nos EUA vítima da Covid -19.
Acordei então para o que nos esperava, quem ainda não assistiu, assista o documentário Samba & Jazz (clique aqui - trailer no Youtube) mostrando o quanto se assemelham em vida e na morte as duas expressões culturais mais populares das sociedades negras brasileira e americana. O recorte está justamente em como lidamos com a morte.
Bem, chegou o momento do Tantinho, que não foi vítima do Covid-19, mas morreu no início do vírus. Ele foi enterrado no Cemitério de Irajá, subúrbio do Rio de Janeiro. Portanto, um dos destinos e até pedidos de muitos.
Meu mestre e padrinho Ivan Milanez sempre me falou: “enterro em Irajá é festa das boas”. Quem vivo estava, revive. Na festa dele, o sabido chegou até atrasado, e antes de fechar a cova levou o relógio de um, que distraído, cantava um samba. Testemunhas presentes no gurufim garantem que o finado fez isso para não perder a hora de voltar.
São essas histórias, e casos como este, que animam os gurufins e farão com que nós, agora, aprendamos como todo mundo morre. Eu, por exemplo, já perdi enterro estando no cemitério, com alguns amigos e amigas. Fomos tomar um “café” e a cova da dona da festa estava na frente da capela. Era só atravessar a ruazinha. Mas quando a gente voltou, já era tarde: "quem beijou, beijou: quem não beijou não beija mais". Só restou guardar o número da sepultura pra fezinha do dia seguinte.
Pois bem, até isso a malvada pandemia nos roubou: temos mortos e não temos gurufins. O samba terá que aprender a chorar como todo mundo sempre chorou... Alguns apostam nas transmissões ao vivo (lives) para um novo estilo de gurufim.
Esquisito. Eu não estou muito crente disso. Afinal, não me vejo olhando para o telefone ou para uma tela de um computador enquanto minhas lágrimas são desviadas da tristeza para um largo sorriso que canta e bate palmas, olhando o parceiro ou a parceira que se foi, esticada na mesa; enquanto lembramos de momentos felizes que vivemos juntos. Dá não, é muita confusão.
Na pandemia, nem vamos poder ver quem partiu! Beber demais também fica brabo, não se bebe morto não visto... Morte sem corpo é só ausência!
Mas sigamos. Vamos adiante que lá na frente tem samba... Segura essa gente bamba! Pode demorar, mas vai passar. Gurufim, não pode ter fim.
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(*) Danilo Firmino, do Coletivo Fala Subúrbio, é sambista, autor do samba enredo da Mangueira de 2019 (Maris, Marielles, Malês).
Criado em 2020-04-19 03:29:23
Aimê Rivero (*) –
A renomada socióloga e professora universitária Patricia Hill Collins, em coautoria com Sirma Bilge (**), presenteia seus leitores com um novo livro: Interseccionalidade, um oceano em eterna construção. Logo no prefácio avisa que a obra é um “roteiro de descoberta, não o retrato de um produto acabado”; mergulha termo adentro e, simultaneamente, mundo afora.
Através da ótica da interseccionalidade, Collins analisa estudos de caso como a Copa do Mundo da FIFA de 2014 no Brasil e o movimento das mulheres negras brasileiras, dois exemplos superficialmente distintos que se assemelham por possuírem marcos interseccionais que são imprescindíveis para a compressão total de ambos os casos.
É difícil conceituar de forma concreta o que vem a ser a interseccionalidade, contudo, Collins afirma que mesmo entre as inúmeras variações de significados, quem se utiliza do termo poderia concordar com a seguinte definição genérica: A interseccionalidade investiga como as relações interseccionais de poder influenciam as relações sociais em sociedades marcadas pela diversidade, bem como as experiências individuais na vida cotidiana. Como ferramenta analítica, a interseccionalidade considera que as categorias de raça, classe, gênero, orientação sexual, nacionalidade, capacidade, etnia e faixa etária - entre outras – são interrelacionadas e moldam-se mutuamente. A interseccionalidade é uma forma de entender e explicar a complexidade do mundo, das pessoas e das experiências humanas.
Collins defende o uso da interseccionalidade como ferramenta analítica, ou seja, aplicar seu uso em todo o procedimento de análise das relações de poder, de forma atenta para não simplificar e/ou generalizar questões amplas e complexas como desigualdade social e econômica, raça, idade, gênero, capacidade, etnia, religião, nacionalidade. A autora, inclusive, parece fazer questão de descrever, sempre que possível, a longa lista de categorias passíveis de identificação social, e consequentemente de opressão, diferindo da maioria dos discursos que tange pelo menos um dos campos mencionados. Isso se evidencia porque popularmente, dentro e fora do ambiente acadêmico, parece pairar uma nuvem de “etc”, de forma a remover a importância das nomenclaturas, bem como a associação com os processos sociais que estas acarretam (como heterossexismo, racismo, capacitismo). Collins, inclusive, questiona a substituição linguística que ocorreu com o termo “diversidade”, cuja fácil incorporação pelas instituições é questionável, uma vez que pode ser sinal de despolitização do termo.
A autora compreende que há seis ideias centrais que constituem a interseccionalidade – a saber: desigualdade social, relações de poder interseccionais, contexto social, relacionalidade, justiça social, complexidade. Ao explorar essas ideias centrais, elucida compressões que rompem com as normas estabelecidas pela ideologia neoliberal, que enxerga a desigualdade social como “algo natural, normal e inevitável”, ao invés de distinguir suas múltiplas facetas interseccionais; “a desigualdade social não se aplica igualmente a mulheres, crianças, pessoas de cor, pessoas com capacidades diferentes, pessoas trans, populações sem documento e grupos indígenas”.
Collins afirma também que o “uso da interseccionalidade como ferramenta analítica é uma maneira poderosa de analisar como as relações de poder interseccionais produzem desigualdades sociais”. As relações de poder interseccionais por sua vez se ramificam em quatro domínios de poder: estrutural (que se refere às estruturas das instituições sociais), disciplinar (julgamentos baseados no status quo), cultural (que dissemina o mito do fairplay ou meritocracia) e interpessoal (que é o modo como os indivíduos vivenciam a convergência dos outros três poderes).
Questões como as desigualdades sociais e econômicas são comumente explicadas de forma simplista, e a interseccionalidade propõe uma análise mais sofisticada, que abrange para além da classe. Isso porque os vários fatores envolvidos, e suas diversas relações, marcados pela localidade e contexto histórico, demonstram a complexidade do emaranhado que produz as desigualdades.
Collins também aponta para o surgimento e crescimento do populismo de extrema direita com base nas medidas neoliberais por parte dos Estados-nação sociais-democratas. O Brasil é um exemplo de como a constante privatização de serviços, a redução do Estado de bem-estar social e a rejeição da noção de bem público podem agravar as desigualdades sociais e culminar em um expressivo populismo de extrema direita. Collins analisa a influência da Copa de 2014 sobre a população, que se sentiu abandonada, e no seu consequente irônico resultado: as eleições de 2018.
O livro analisa o surgimento do movimento das mulheres negras brasileiras, e como as particularidades de sua opressão tornaram necessária a existência de um movimento próprio, que nem o movimento negro, a luta de classe ou o feminismo abarcavam por completo. É necessário entender as bagagens do Brasil enquanto corpo histórico marcado por genocídio, estupro, colonialismo, ditadura, e como esses fatores influenciam dialeticamente a individualidade coletivamente de forma interseccional.
"Nem o feminismo brasileiro, liderado por mulheres que eram sobretudo ricas e brancas, nem o movimento negro, que estava ativamente engajado em reivindicar uma identidade negra coletiva que identificava o racismo como uma força social, poderiam por si sós abordar de maneira adequada as questões das afro-brasileiras. Mulheres negras que participavam do movimento negro tinham aliados combativos quando se tratava de ativismo negro antirracista, mas encontravam muito menos compreensão a respeito do fato de que os problemas enfrentados pela população negra possuíam formas específicas de gênero", destacam as autoras.
Adiciona-se ao processo o mito da democracia racial e o colorismo, cuja premissa favorece pessoas com traços mais embranquecidos. As mulheres negras brasileiras criaram uma política identitária para abraçar suas necessidades, de natureza interseccional, e que não eram contempladas por outros movimentos.
Para o escopo acadêmico, Collins identifica duas características fundamentais que estabelecem a base para a interseccionalidade enquanto ferramenta analítica: 1) uma abordagem para entender as experiências e lutas das pessoas privadas de direitos; e 2) uma ponte entre teoria e prática para empoderar comunidades e indivíduos.
A interseccionalidade é um constructo enquanto ferramenta e não se restringe a ideologias partidárias, portanto seria errôneo associá-la à “esquerda” ou “direita”. A práxis é ampla, complexa e delicada, contudo, é uma possibilidade para a grande quantidade de grupos privados de direitos, de forma interseccional, de compreender o próprio lugar, enquanto coletivo e indivíduo, entender suas próprias demandas e romper com o véu que cobre os mecanismos de poder geradores de desigualdades.
Ao longo de oito profundos capítulos Collins interconecta o globo e por fim, questiona o rumo da interseccionalidade sem trazer respostas prontas. É um verdadeiro começo da mudança que precisamos.
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(**) Sobre as autoras

Patricia Hill Collins (na foto, acima) é professora emérita do departamento de sociologia da Universidade de Maryland. Foi a primeira mulher negra a presidir a Associação Americana de Sociologia. É considerada, ao lado de Angela Davis e bell hooks, uma das mais influentes pesquisadoras do feminismo negro nos Estados Unidos. Pela Boitempo, publicou também Pensamento feminista negro (2019).

Sirma Bilge (na foto, acima) é professora catedrática no Departamento de Sociologia da Universidade de Montréal, onde leciona cursos de graduação e pós-graduação sobre gênero e sexualidade, racismo, nacionalismo e relações étnicas, abordagens pós-coloniais e descoloniais.
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Ficha técnica:
Título: Interseccionalidade
Autoras: Patricia Hill Collins e Sirma Bilge
Tradução: Rane Souza
Capa 1: Flávia Bomfim (concepção e bordado © 2021)
Capa 2: Antonio Kehl (sobre pintura de Sirma Bilge © 2015)
Editora: Boitempo
Páginas: 288
Preço: R$ 67
Preço e-book: R$ 51
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(*) Aimê Rivero é estudante de Comunicação na UnB, dançarina, pesquisadora e educadora.
Criado em 2021-03-17 21:55:46
O Grupo de Institutos Fundações e Empresas (Gife) começa a demonstrar insatisfação com a destruição da democracia no Brasil pelo bolsonarismo. Entre os membros desse grupo está Jorge Paulo Lemann, da Fundação Lemann, que apoiou o golpe de 2016 contra a presidenta Dilma Rousseff. Paulo Lemann já pensa em construir a sua própria bancada no Congresso, formada por deputados e senados que receberam apoio de sua Fundação, como a deputada Tabata Amaral (PDT-SP).
O documento denominado Nota pública: 2019, Cidadania e Estado de Direito, assinado pelos empresários, contém duras críticas à erosão do ambiente democrático brasileiro produzida pelo governo Bolsonaro.
Abaixo, a íntegra da nota do Gife:
“No marco da erosão crescente do nosso ambiente democrático, o ano de 2019 tem sido marcado pela profunda hostilidade oficial à atuação do terceiro setor e da sociedade civil no Brasil.
Desde o chamado ainda na campanha eleitoral para literalmente “botar um ponto final em todos os ativismos no país”, a atitude predominante do governo federal em relação às organizações de promoção da cidadania e da participação social na vida pública tem sido a de fomentar a desconfiança e desqualificação, quando não a sugestão recorrente de criminalização da atuação dos mais diversos atores na sociedade.
Sem que possa surpreender, essa atitude abre caminho para a escalada da estigmatização e intimidação em múltiplos níveis da nossa vida pública. De forma também crescente, professores, jornalistas, artistas, cientistas e outras vozes plurais têm sido alvo de censura e desqualificação por seus trabalhos. A ação voluntarista e nebulosa da Polícia Civil do Pará deflagrada na última terça-feira contra o Projeto Saúde e Alegria e outras organizações dedicadas à preservação ambiental e à provisão de serviços para a população do estado constitui assim um passo a mais nesse processo, trazendo a novo e grave patamar o ambiente de ameaças à ação cívica no país. A cadeia que leva da prática oficial à mobilização do aparelho de estado e de bases virtuais de apoio na sociedade para o cerceamento e perseguição da pluralidade já não tem como ser ignorada pelos que prezam a liberdade, a democracia e a possibilidade de construção de soluções públicas no país.
Atacar a sociedade civil e todos que nos vários âmbitos da cidadania dedicam suas vidas e melhores energias para contribuir com nossa existência coletiva é atacar a própria perspectiva de uma sociedade exitosa, inovadora, capaz de mobilizar ideias, recursos e competências para enfrentar seus desafios – sociais, econômicos, ambientais ou de qualquer natureza.
Todos prezamos a ética, a transparência e a qualidade na ação pública – na política, na gestão governamental, no setor privado e assim por diante. O Gife, ao lado de diversos outros parceiros na filantropia, no investimento social e na sociedade em geral, dedica-se ao longo dos seus 25 anos à promoção desses valores e práticas, como ilustram nos últimos anos nossos Indicadores de Governança, Painel de Transparência, ação pela qualificação do ambiente legal e a sustentabilidade econômica da sociedade civil, entre inúmeros outros esforços. Mas isso não se confunde com o endosso a práticas arbitrárias e obscuras por agentes públicos, voltadas antes à instrumentalização do aparato de poder para fins particulares do que para algo que se identifique com os objetivos esperados da ética e da justiça.
A difusão de práticas com esse padrão tem também de forma inquietante tornado-se evidente no nosso cotidiano público, e é preciso lembrar com igual ênfase que não se coadunam em nada com a democracia, mas antes com regimes de exceção ou autoritários.
Neles, não avançamos. Uma sociedade civil livre, dinâmica e forte é parte fundamental de toda sociedade bem-sucedida. Pela razão simples de que é dela, de sua vitalidade e pluralidade, que vêm antes de tudo as energias, engajamentos e ideias que nos movem na formação de soluções e caminhos públicos em todas as dimensões – do cotidiano comunitário nas ruas, bairros e cidades ao debate de ideias e à colaboração com as políticas públicas nos vários níveis, passando pelas capacidades para acompanhar, monitorar e garantir a qualidade e integridade da ação governamental.
Nesse ano de 2019, procuramos renovar e aprofundar o compromisso com esses sentidos fundamentais, como sempre ao longo do tempo. O Censo Gife 2018, que lançamos hoje, atualiza o panorama dos recursos mobilizados por cidadãos e atores privados para a promoção da cidadania e do bem público no país, nos múltiplos temas, regiões e públicos com que dialogam.
Soma-se nesse espírito a 1ª Mostra Gife de Inovação Social – que reuniu em setembro mais de 300 iniciativas ilustrando como essa contribuição se faz na prática todos os dias pelo país, combinando esforços de fundações, ONGs, grupos comunitários, empresas, universidades, governos, órgãos de cooperação internacionais e outros atores para a criação e materialização de respostas concretas para nossos múltiplos desafios coletivos – ao lado da afirmação de novos horizontes para a continuidade dessa contribuição nos vários temas que nos convocam na agenda pública, por meio da série “O que o ISP pode fazer por” e de todas as demais ações pela atuação sempre mais fortalecida, qualificada e plural do terceiro setor e da sociedade, com o arco pleno, plural e vibrante de todos os seus atores no país.
“Da calúnia, algo fica”, diz um ditado espanhol. Parece ser essa, se não aspirações autocráticas mais profundas, a lógica das ações oficiais de difamação e intimidação expostas aqui.
Nos solidarizamos plenamente com o Projeto Saúde e Alegria e todos os demais agentes de cidadania vitimados por essa postura hoje no país, e convidamos todos a somar-se no empenho necessário para que possamos como sociedade defender nosso acúmulo democrático e construir de forma inclusiva e efetiva a partir dele, no rumo do país mais justo, dinâmico, sustentável e exitoso que precisamos e podemos ser”.
Criado em 2019-12-01 22:11:01
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Diz que era na véspera do eclipse de 1919, em Sobral, Ceará. Sem poder dar fé, vendo a piaba pelo preço que paguei.
Uma equipe do Real Observatório de Greenwich estava na cidade pra fotografar o eclipse total do Sol e as estrelas em volta do astro-rei. Depois eles iriam comparar essas fotos com outras tiradas da mesma região do céu, na constelação de Touro, sem a presença do Sol, pra ver se as estrelas tinham mudado as suas posições relativas. Se tivessem se arredado, pimba!, os astrônomos demonstravam que a luz se enverga quando passa pelo campo gravitacional do Sol. Eles queriam tirar a prova da teoria do Alberto Einstein, aquele físico de cabelo assaranhado que ficou famoso mostrando a língua e servindo de modelo para os Rolling Stones e o Gene Simmons do Kiss.
Nessa ingresia estava metido o Teotônio do Prado, cabra comum, nem alto nem baixo, sem graça, coitado, mas que diziam ser tão valente que metia medo nas pessoas. Mais nos ricos que nos pobres, porque há poucos meses ele tinha matado o prefeito de Palma, o antigo nome de Coreaú, cidadezinha distante seis léguas de Sobral. O zé-povinho o considerava um herói, com razão. O estranho é que ele estava ali, solto, faceiro, solícito e conversador.
O Prado fazia parte da comissão da prefeitura de Sobral encarregada de recepcionar os cientistas do eclipse. Como arranhava um pouco de inglês, foi encarregado de ajudar o Arthur Almeida, intérprete dos líderes da expedição, o irlandês Andrew Crommelin, e o inglês Charles Davidson, esse, um sujeito engraçado, de bigode e oclinhos. Além de intermediar as conversas dos gringos, o Prado dava uma mão na montagem dos dois telescópios e outros equipamentos no Jockey Clube. Ele também fazia curativos nos machucados da turma e providenciava remédios para quem tinha febre ou dor de cabeça.
Protuberância - Como todo mundo sabe, o dia amanheceu nublado em Sobral no dia 29 de maio de 1919, mas perto das 9h o vento esparramou as nuvens e bem na hora do evento os britânicos puderam tirar 19 fotografias num telescópio e oito no outro. Numa delas, a corona do Sol aparece magnífica. E nela se vê também uma protuberância se ejetando do disco, com alcance de mais de 500 mil quilômetros de largura e 142 mil quilômetros de altura. Menino, parece um tamanduá... dos grandes!
Depois do eclipse, Crommelin e Davidson viajaram até Belém do Pará, mas em meados de julho voltaram a Sobral para fotografar as estrelas no mesmo trecho do apagão. Como todo mundo sabe, a experiência do Ceará comprovou a Teoria da Relatividade Geral e com isso o próprio Einstein virou uma estrela. Seis anos depois, passando pelo Rio de Janeiro, o linguarudo escreveu, sem nenhuma modéstia, a seguinte frase: “A questão que brotou na minha cabeça foi respondida pelo ensolarado céu do Brasil”!
Pois em julho o Teotônio do Prado estava de novo no Jockey Clube, ajudando o tradutor Arthur Almeida na assistência aos britânicos. Ele estava orgulhoso de deixar as digitais no segundo capítulo daquele evento de repercussão universal. Dessa vez, com mais tempo, pôde conversar longamente com o Arthur. Esse, se coçando de curiosidade, quis saber o motivo da fama de braveza do Prado e esclarecer o mistério. Ô, Prado, você mata um prefeito mas fica livre, pimpão, respeitado, benquisto por todo mundo. Como é possível, homem, me conte aí a sua história!
Vapor Ceará – Os dois foram pro boteco do Joca e o Prado contou. Disse que no final de setembro do ano anterior tinha viajado pra Natal, Rio Grande do Norte, mode fazer um curso em sua especialidade, farmácia. Era o único farmacêutico de Coreaú. Passando por Fortaleza, se encontrou com o prefeito da cidade, o coronel Francisco Portela de Carvalho, que tinha acabado de chegar do Rio de Janeiro pelo vapor Ceará.
Arthur, eu dei um abraço no coronel Chico, vi que ele estava meio quente e tinha uma tossinha. Eu disse a ele, se cuide, homem, que isso pode virar pneumonia. Ele riu e falou que não era nada. Deve ser uma alergia ou um resfriadinho, Totonho. E lá fui eu pra Natal. Quando cheguei, rapaz, eu estava com febre e tossindo. Vixe Maria, que peste era aquela? Corri até uma farmácia, pedi um xarope, um vidro de aspirinas, e fui pro hotel. Mais tarde a coisa piorou. Eu estava com 40 graus! Peguei um carro de praça e fui até a casa de um médico amigo meu. Ele me examinou e disse que eu estava com o pulmão carregado, que só podia ser pneumonia, e que era conveniente eu ser internado imediatamente. Arthur, seu moço, foi uma calamidade! Eu fiquei duas semanas no hospital, entre a vida e a morte! Nos últimos dias, bem melhor, testemunhei magotes de gente chegando ali com aquela gripe.
O Arthur interrompeu a conversa pra pedir uma cerveja. E relatou que ele mesmo tinha escapado da gripe que devastou o Rio de Janeiro porque, por sorte, tinha viajado no início de setembro para a fazenda de um tio nos fundos de Parati. Quando soube do salseiro, resolveu ficar por lá, quieto. A cerveja chegou e o papo rolou de novo.
Daí, Arthur, eu fui pro hotel e fiquei lá mais uma semana quase. Mandei um telegrama pra avisar a família que eu estava bem, e pedi pra todo mundo ficar em casa para evitar o contágio. Quando eu me internei, soube que a gripe já tinha chegado em Coreaú a todo vapor. Duas semanas depois, o povo de lá estava no desespero. Danou-se! O que eu podia fazer? Pensei, pensei… Muita coisa, seu Prado! Você é farmacêutico, pode ajudar o Dr. Josias a combater a praga! O Dr. Josias é o médico da cidade.
Daí você arrumou a mala e picou a mula?
Nada de visitas - Não imediatamente. Eu precisava saber direito o que fazer. Justamente naqueles dias, o jornal A República começou a dar notícias da gripe, com as recomendações dos médicos e das autoridades. Entre elas, evitar aglomerações, principalmente à noite; não fazer visitas; tomar cuidados higiênicos com o nariz e a garganta; fazer inalações de vaselina mentolada, gargarejos com água e sal, com água iodada, com ácido cítrico, tanino e infusões contendo tanino, como folhas de goiabeira e outras; tomar como preventivo sal de quinino, nas doses de 25 a 50 centigramas por dia, e de preferência no momento das refeições; evitar toda fadiga ou excesso físico; mandar o doente para a cama logo nos primeiros sintomas, afastando o condenado dos contágios e de qualquer visita; evitar as causas de resfriamento para os sãos, os doentes e os convalescentes; e aplicar todos esses cuidados, com rigor redobrado, às pessoas idosas.
Rapaz, que lista enorme, caramba. Você decorou?
De cor e salteado! Aproveitei aqueles dias para estudar o assunto, né! E antes de voltar, comprei um grande estoque de remédios – Arsênico composto iodado, para prostração e coriza; Gelsemium, para febre com grande abatimento; Acônito, para febre alta e ansiedade; Eupatorium, para dores no corpo, pernas e costas; Bryonia, para o tifo pulmonar com catarro na pleura; Rhus, para dores reumáticas; Antimonium iod, para bronquite com expectoração; Antimonium tart 30, para bronco-pneumonia; Phosporus 30, também para bronco-pneumonia; Cuprum ars, para o tifo gastro-intestinal; Quininum ars para a convalescença. Dias depois eu soube que o quinino estava valendo ouro e só era achado no mercado negro, incluindo as falsificações.
Que história, compadre, não pare! Ô, Joca, mais uma!
Plano de combate - Chegando em Coreaú, fui direto pra casa do Dr. Josias, o médico, sem nem passar na minha casa. Expliquei rapidamente a situação, carregando nas tintas da desgraceira mundo afora, e pedi pra ele me acompanhar até o gabinete do prefeito. Lá eu contei tudo o que eu sabia da doença, do pandemônio, e dos cuidados para evitar a peste e talvez contê-la. Daí propus um plano de ação de três pontos. A gente precisava montar pelo menos um posto de atendimento no centro da cidade e outro no distrito de Araquém; obrigar o povo a ficar em casa; e providenciar um adjutório para os pobres, com mantimentos, querosene e remédios. Seu Arthur, não é de ver que a moléstia do prefeito riu na minha cara? Disse que esse plano era coisa de um maximalista, que a gripe espanhola não passava de um resfriado, que a prefeitura não estava ali para sustentar vagabundos e por aí foi. O sangue me subiu à cabeça e eu quase partia pra cima do coronel, não fosse o Dr. Josias me segurar. Saímos de lá, eu e o doutor, e fomos terminar a conversa na minha casa.
Que coisa, seu Prado!
Quando eu cheguei em casa fiquei ainda mais nervoso. Soube que o meu cunhado, o Zeca da Sônia, tinha acabado de morrer da gripe, e que vários amigos meus já tinham sido enterrados, o Tonho alfaiate, o compadre Benício do açougue e o meu primo Sebastião. A minha sogra, coitada, escapou por pouco. O pior, fiquei sabendo, é que a doença tinha começado a se espalhar em Coreaú três ou quatro dias depois do prefeito chegar do Rio. O desgraçado trouxe a doença! Também soube que o filho da égua, em vez de acionar a máquina da prefeitura para ajudar o povo, estava promovendo comícios, distribuindo vidrinhos de quinino em troca de voto. Ah, eu mato esse filho da puta! Gritei, me levantei da cadeira, e o Dr. Josias me segurou de novo.
Não estou acreditando! Como é que pode? Joca, outra!
Deboche - Vai daí o Dr. Josias e eu saímos para ir até a casa do vigário, o padre Antonino, sujeito razoável. Ele suspendeu as missas e as novenas logo depois do início do surto, pedindo aos papa-hóstias para rezar em casa. Deus está em todo lugar, não só na igreja, disse ele. Então eu desfiei o rosário da catástrofe e expus o meu plano. O padre topou na hora. Mas como convencer o prefeito, perguntou. Combinamos de procurar o coronel Chico, os três. Nem tinha dado as 9h na manhã seguinte e a gente já estava na prefeitura. O coronel nos recebeu de pé, cara de deboche. E com afronta. Ehê, berrou, lá vem o bando dos santinhos socialistas querendo salvar o mundo. Nem precisam começar a prosa que eu não vou executar o plano do Totonho nem que o bode tussa. Não vou parar a cidade por causa de um resfriado nem dar auxílio pra vagabundo. Não mesmo! Está encerrada a audiência! Ah, vocês estão convidados pro baile que vou dar hoje à noite no salão do lado da padaria do Rabelo. Quem estiver com febre que fique em casa tomando chá de limão com alho! De novo o sangue me subiu à cabeça, e outra vez o Dr. Josias me segurou. Saí dali fuzilando. Pedi desculpas ao médico e ao padre, e disse que precisava pensar um pouco. Na verdade, eu já estava decidido!
Decidido a quê, Prado? Não fique exaltado, compadre. Me desculpe a intimidade, mas já estou lhe chamando de compadre, viu! Fique calmo e me conte o resto da história. Vou pedir mais uma. Joca!
Arthurzinho, meu compadre, eu voltei pra casa mudo, caladinho. A mulher me olhou com medo, soltou um muxoxo. Me tranquei no quarto e só saí quando ela me chamou pro almoço. De tarde, fui pra farmácia. Eu precisava saber como ia o negócio e precisava detalhar o plano de contingência. Pedi ao João e ao Pedro, os meus meninos, pra fazer uns folhetos com a lista dos cuidados contra a gripe. Separei os remédios que tinha trazido de Natal, e fiz uma lista de conhecidos que podiam me ajudar a mobilizar o povo. O Dr. Josias e o padre Antonino também estavam preparando as listas deles, a meu pedido. Trabalhei na farmácia até as 7 e meia e de lá passei em casa pra tomar um banho. Nem jantei. Vesti o paletó e fui direto pra padaria do Rabelo. Ele se assustou com a minha cara, mas não disse nada. Pedi um café e uma broa da Palma. Seu moço, eu tremia que nem vara verde!
Meu Deus, já estou adivinhando o que vai acontecer!
Dali a meia hora, Arthur, ouvi uma algazarra. Era o prefeito chegando. Saí da padaria, me aproximei da figura, ele cercado dos puxa-sacos, tirei a garrucha do bolso do paletó e dei um tiro bem na testa do bruto. Pôu! Não deu tempo dele falar nem “ah”!
Caramba!
Todo mundo ficou em silêncio sem saber o que fazer. Ninguém se mexeu. Daí eu fiz um discurso gritado, quase chorando. Disse que aquele meu gesto extremado era uma medida profilática, necessária para salvar a vida dos cidadãos de Coreaú. Contei o que tinha acontecido comigo, o que era a gripe espanhola, contei as minhas conversas com o Dr. Josias, o padre Antonino, o meu plano de contingência, e as desfeitas do prefeito.
Caramba de novo!
Esse prefeito, minha gente, é que trouxe a gripe do Rio de Janeiro para a nossa cidade, e em vez de guerrear, ele se aliou à peste! Esse cabra era um perigo para as nossas vidas! O canalha do coronel Francisco Portela de Carvalho era uma ameaça sanitária! Não é mais! Arthur, seu moço, uma parte da multidão começou a me aplaudir. A outra ficou ainda em silêncio, abobada. Mas ninguém levantou um dedo contra mim. Ninguém. Daí eu perguntei quem é que podia se voluntariar para ajudar na mobilização contra a gripe, quem é que podia participar do meu plano de mobilização e combate contra a gripe. As mãos começaram a se levantar. Eu pedi ao Rabelo e a dois outros rapazes para anotar os nomes dos voluntários. Duas horas depois a gente tinha mapeado Coreaú inteirinha e também o Araquém, definindo quem iria tomar conta de cada rua, informando a população, distribuindo comida, remédio e querosene a quem precisasse.
Arriégua, como vocês dizem aqui no Ceará!
Ah, nem te conto! O delegado Saboia tinha aparecido logo depois do tiro. Mandou recolher o corpo do prefeito, ouviu calado o meu discurso até o fim, e só então me abordou pra dizer que eu devia comparecer à delegacia no dia seguinte para que ele pudesse lavrar o flagrante. Eu confio no senhor, seu Teotônio! Pois mal cantou o galo, eu estava na delegacia, com a cara amarrotada de pouco sono. O Saboia cumpriu as formalidades, eu toquei o piano, e ele disse, pra meu espanto, que eu estava em liberdade condicional até passar a epidemia.
Inacreditável!
O fato é que me deixaram comandar o esforço de guerra de Coreaú contra a gripe espanhola. No fim, tivemos o menor índice de baixas no Noroeste do Ceará, 27 mortos. Se a gente não tivesse agido, talvez fossem 270. Descobri depois que o delegado, na mesma noite do assassinato, agiu de maneira pragmática. Ele se acertou com o vice-prefeito, com os intendentes, com o juiz, com o promotor público, e com mais não sei quem, para me deixar livre durante a pandemia. Com a morte na cacunda, Coreaú podia muito bem esperar o julgamento, o Saboia pensou. A gripe foi desaparecer só em dezembro. O julgamento foi marcado pra fevereiro.
Meu Santo Padim Ciço Romão Batista, como vocês dizem, valei-me! Joca, solta a saideira!
Pois valeu mesmo! O julgamento parecia uma festa. Meu advogado arrolou 38 testemunhas para a defesa. Veio uma caravana de Sobral pra assistir. E o interessante é que a sessão não durou nem três horas…
Qual foi a linha da sua defesa? O que alegou o advogado alegou? Joca, cadê a cerveja, seu menino?
Legítima defesa - O cabra foi brilhante nas alegações, sem floreios. Depois de historiar a adoção do instituto da legítima defesa desde o Deuteronômio e o Código de Hamurábi, ele simplesmente elencou os pontos que regulam a matéria nos artigos 32, 33 e 34 do Código Penal. O crime do meu cliente evitou um mal maior? É claro que evitou! O meu cliente, infectado diretamente pelo prefeito, salvou a vida de quem, além da vida dos membros de sua família? Minhas senhoras, meus senhores, meritíssimo, senhor representante do Parquet, Teotônio do Prado salvou a vida de dezenas de cidadãos de Coreaú e dos municípios vizinhos com o seu plano de contingência sabotado pelo prefeito. Que ações promovidas pelo coronel Portela de Carvalho podem ser consideradas um mal maior em comparação com o seu assassinato? Foi ou não foi ele um agente consciente e malicioso da propagação da gripe? As testemunhas, em resposta, desfiaram fatos e mais fatos, incluindo os inferninhos que o coronel Chico andou promovendo na zona pra fazer a campanha do quinino. Teria havido meio menos prejudicial para deter o prefeito? Provou-se a probabilidade da eficácia do crime na contenção da epidemia? A discussão foi por aí…
Vou apelar agora ao meu São Sebastião, o santo flechado do Rio que nos protege contra a peste!
Não brinque, compadre! Foi um horror essa experiência! Eu ali, com medo de passar o resto da vida na cadeia, mesmo sabendo que matar em legítima defesa não é crime. Mas eu matei um homem, quase à traição! O juiz nem tinha terminado de perguntar se eu me considerava culpado ou inocente, e eu disse “culpado”! Houve protestos na galeria e alguns membros do júri gritaram. Inocente! Inocente! Até o promotor pegou leve. Formulou as acusações por dever de ofício. No fim, eu fui absolvido por unanimidade. O juiz desceu do pedestal e veio me abraçar! O promotor me cumprimentou como se eu fosse um igual! E eu saí dali pra rua que nem um santo em cima do andor, levado nos braços do povo. Você não é de ver que, menos de uma hora depois, um intendente do PTR e outro do PLP me ofereceram a candidatura de prefeito para as próximas eleições! Ô, raça!
Ô, Prado, que história, compadre! Você precisa escrever um livro contando essas aventuras. Mas me diga, o que é que você tem feito nessas últimas semanas, e o que pretende fazer nas próximas? Por que você não vai passar umas férias com a patroa lá no Rio? Vocês podem ficar na minha casa, vai ser uma honra!
Ah, meu amigo, eu tenho de tocar a farmácia. E o resto do tempo estou dedicando ao estudo da Teoria da Relatividade do compadre Alberto Einstein, que eu acho sensacional, o Isaac Newton que me desculpe! Imagine, o sujeito descobriu que a própria luz se verga porque percorre um caminho que é curvo na vizinhança de um corpo massudo! Vou até escrever um artigo sobre isso com o título “O espaço-tempo de Einstein se parece com as estradas do Ceará: tem também catabius”!
Você é engraçado, Prado! Pois eu vou contar pra todo mundo que aqui no Ceará a única coisa que não se verga é um sujeito chamado Teotônio do Prado! Saúde, compadre! Joca, a conta! Meu amigo Totonho, essa eu pago, você é meu convidado.
Criado em 2020-04-18 18:16:56
Samuel Pinheiro Guimarães (*) –
A Constituição de 1988 determina que o primeiro fundamento do Brasil como Estado Democrático de Direito é a soberania (Artigo 1°).
A soberania é o direito que tem um povo independente de determinar sua organização política, sua organização econômica, sua organização militar e sua organização social de acordo com seus objetivos de desenvolvimento, de democracia, de direitos para todos, sem interferência externa.
O parágrafo único do Artigo 1° da Constituição declara que todo o Poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes ou diretamente.
O Executivo, o Legislativo e o Judiciário representam o Povo e têm como dever supremo defender a soberania brasileira diante das constantes tentativas de reduzi-la, não necessariamente pela força, mas também pela pressão política e econômica, exercida por interesses públicos e privados externos, muitas vezes com cooperação interna.
As características do sistema internacional, onde exerce sua hegemonia o Império Americano, com o auxilio das Grandes Potências, Reino Unido e França, fazem com que a emergência de novas Potências, ainda que apenas regionais, seja dificultada.
Os Estados Unidos e outras potências como a França e a Grã-Bretanha, procuram reduzir a soberania dos Estados, em especial daqueles de maior dimensão e potencial, como é o caso do Brasil e, portanto, mais capazes de promover e defender seus interesses e se tornar, gradualmente, nações mais prósperas e Estados mais poderosos.
Em determinados casos, usam de sanções, na realidade agressões, para forçar outros Estados a adotarem certas políticas que reduzem sua soberania e seu direito de autodeterminação que o Império e aquelas Potências não toleram, apesar de ser um direito fundamental da Carta das Nações Unidas que aqueles mesmos Estados Unidos e todas as Grandes Potências subscreveram, mas que violam periodicamente sob os mais diversos pretextos.
Os princípios organizacionais do Império Americano, que devem ser obedecidos por suas “Províncias”, isto é, os Estados nacionais são:
- ter economia capitalista, aberta ao capital estrangeiro;
- não discriminar entre empresas nacionais e estrangeiras;
- não exercer controle sobre os meios de comunicação;
- ter pluralidade de partidos e eleições periódicas;
- não celebrar acordos militares com Rússia e China;
- apoiar as iniciativas políticas dos Estados Unidos.
Há tolerância no cumprimento desses princípios, como se pode ver no caso de monarquias absolutas do Oriente Médio, sempre que é do interesse do Império.
Os objetivos estratégicos permanentes dos Estados Unidos para o Brasil são:
- evitar que o Brasil sozinho, ou em aliança com outros Estados, reduza a influência dos Estados Unidos na América do Sul;
- ampliar a influência cultural/ideológica americana nos meios de comunicação;
- incorporar a economia brasileira à economia americana;
- desarmar o Brasil e transformar suas forças armadas em forças policiais;
- impedir a cooperação, em especial militar, com a Rússia e a China;
- impedir o desenvolvimento autônomo de indústrias de tecnologia avançada no Brasil;
- debilitar o Estado brasileiro;
- eleger líderes políticos favoráveis aos objetivos dos Estados Unidos.
No caso do Brasil, o Império e as Grandes Potências, com a conivência ou cooperação de amplos setores das classes hegemônicas, da mídia e do Judiciário brasileiros, conseguiram eleger um Presidente, Jair Bolsonaro, que tem como objetivo declarado alinhar seu Governo com os objetivos dos Estados Unidos e para tal destruir os fundamentos da soberania brasileira que são:
- a União e os seus órgãos e instrumentos;
- a unidade nacional entre os Estados da Federação;
- o sistema político e a relação harmoniosa entre Executivo, Legislativo e Judiciário;
- a economia brasileira;
- a coesão social e a tolerância política e religiosa.
O Governo de Jair Bolsonaro, e em especial o ministro Paulo Guedes, procura destruir instrumentos da União que são as empresas do Estado (e, portanto, do povo) e, em especial a Petrobras; os bancos públicos; humilhar e desqualificar os funcionários públicos; reduzir e transferir competências da União para os Estados e municípios; desregulamentar e reduzir a legislação de fiscalização das atividades econômicas; promover a auto-regulação pelas empresas.
Jair Bolsonaro antagoniza os governadores dos Estados, em especial os governadores do Nordeste, estimulando a desintegração territorial do Brasil e impedindo uma ação coordenada para promover o desenvolvimento e enfrentar crises como a pandemia do coronavírus.
Jair Bolsonaro ataca sistematicamente o sistema político, acusando o Legislativo, o Judiciário e os políticos de “não o deixarem governar” e açula sua militância digital, verdadeira e artificial (robôs) contra o Congresso e o Judiciário.
Jair Bolsonaro se empenha em destruir a economia brasileira com políticas de contração econômica, que privilegiam os bancos e detentores de dívida pública, políticas que geram dezenas de milhões de desempregados e subempregados, destroem os serviços públicos de saúde, educação, infraestrutura, destroem as empresas, por permitir taxas de juros escorchantes. Todas as medidas de Jair Bolsonaro/Paulo Guedes são contra os trabalhadores e pró-empresas.
Jair Bolsonaro estimula a intolerância religiosa e política, acusando seus críticos de comunistas e açulando sua militância digital.
Jair Bolsonaro estimula e promove a violência, admira e defende a tortura e torturadores, e estimula a impunidade de policiais, cujas vítimas preferenciais são pobres, trabalhadores e oprimidos.
Jair Bolsonaro subordinou a política externa brasileira e todo o seu governo aos interesses americanos.
Jair Bolsonaro atenta diariamente contra a soberania brasileira e por esta razão suprema não pode exercer o cargo de Presidente da República.
________________
(*) Samuel Pinheiro Guimarães – Secretário Geral do Itamaraty (2003-2009); Ministro de Assuntos Estratégicos (2009-2010).
Este artigo foi publicado originalmente no site GGN - https://jornalggn.com.br/
Criado em 2020-04-14 17:38:34
O filme, dirigido pela cineasta Maria Maia, um registro documental da primeira caravana do ex-presidente Lula, será exibido on-line de 17/3 a 23/3 no site do Festival Internacional de Cinema de Santos - Santos Film Fest.
Guiado pelas figuras de Antônio Conselheiro e Luiz Inácio Lula da Silva, o documentário parte da "Caravana da Cidadania Contra a Fome - Viagem ao Brasil Real", realizada em 1993, quando o ex presidente refez a viagem feita na infância, saindo de Garanhuns e chegando a São Paulo.
O longa foi filmado em Monte Santo e Canudos, mesma região que Euclides da Cunha visitou e descreveu em Os Sertões e onde Glauber Rocha filmou Deus e o Diabo na Terra do Sol. Com imagens históricas, o filme mostra Lula nos comícios e em conversas ao pé do ouvido com o povo, momentos em que ele, segundo a diretora, escutava as demandas do sertão.
3 Refeições percorre ainda a década de políticas públicas contra a fome no país, a partir de 2003, com Lula já na Presidência da República. Maria Maia entrevistou personalidades que sobressaíram nessa luta do combate à fome. Entre eles, João Pedro Stédile, líder do MST, Patrus Ananias e Tereza Campello, ministros na gestão Lula.
O festival selecionou também o longa Sônia e Lygia, outro filme de Maria Maia. Misto de ficção e documentário, este filme apresenta as memórias das irmãs multiartistas Sonia Lins e Lygia Clark, influenciadas na infância pelo avô Edmundo Lins. Intelectual e ministro do STF, com suas brincadeiras e espírito libertário, Lins despertou nas netas o sentido da arte que as levariam para suas criações artísticas.
Realizado em 2020, ano em que se comemorou o centenário de Lygia Clark, considerada uma das fundadoras da arte contemporânea brasileira e um dos principais nomes do movimento neoconcretismo, o filme traz um tom intimista e lírico, pautado pelas sensibilidades opostas, mas complementares e fascinantes, das irmãs.
A Diretora
Maria Maia é uma cineasta brasiliense nascida no Acre, graduada em Sociologia e Antropologia e mestre em Comunicação Social pela Universidade de Brasília (UnB). Poeta e cineasta, realizou 63 filmes, entre curtas, médias e longas, tendo trabalhado 20 anos como roteirista e diretora de filmes na TV Senado, onde produziu títulos de grande importância e sobre personagens da grandeza de Claude Lévi-Strauss, Candido Portinari, Glauber Rocha, Darcy Ribeiro, Chico Mendes, entre outros.
Também produziu filmes independentes, como os curtas Inferno e paixão; Espelhos Abomináveis; Deuses no Juruá (em codireção com Rogério Sganzerla); e os longas 3 Refeições e Sonia e Lygia. Ao longo de sua trajetória, teve filmes exibidos em mostras e festivais no Brasil, Londres, Paris, Capbreton (França), Milão, Buenos Aires e Los Angeles.
Santos Film Fest
Considerado o maior evento do gênero no litoral paulista e presente no calendário oficial da cidade, o Santos Film Fest ocorre desde 2016 e visa promover o cinema, especialmente o nacional; o resgate histórico; a formação de público; a democratização de acesso à cultura e o intercâmbio entre cidades e países. Anualmente são também homenageados grandes profissionais do audiovisual brasileiro.
Nesta edição especial, que será realizada on-line e gratuita entre os dias 16 e 23 de março, o Festival dá protagonismo à presença de mulheres no mercado audiovisual e homenageia Adélia Sampaio, primeira cineasta negra do Brasil.
Ao longo do festival, serão apresentados 75 filmes dirigidos ou produzidos por mulheres, entre curtas e longas-metragens, nacionais e internacionais, divididos em diversas mostras e categorias. E ainda promoverá um bate-papo nas redes sociais com os diretores para falarem sobre a produção dos seus filmes. Os filmes estarão liberados a partir do dia 17/03 no link do Festival.
Criado em 2021-03-16 02:11:39
Na abertura do 7º Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores (22/11), na Casa Portugal, em São Paulo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso em que ressalta a trajetória do partido ao longo de 39 anos de história em defesa dos direitos e da democracia.
O Congresso do PT terminou no domingo (24/11), e contou com a participação de cerca de 800 delegados nacionais e internacionais. Este é o maior encontro do partido em termos de participação da militância.
Pelo caráter histórico, e por ter sido realizado logo após Lula ter deixado a prisão em Curitiba, leia, a seguir, a íntegra do discurso de Lula:
“Companheiras e companheiros do PT, convidados de todo o Brasil e de outros países, minhas amigas, meus amigos,
Esperei muito tempo para poder falar livremente ao povo brasileiro. Esse dia finalmente chegou, e minha primeira palavra tem de ser de agradecimento, pela solidariedade, pelo carinho e pelas manifestações de quem não desistiu de lutar e vai continuar lutando pela verdadeira justiça.
Durante 580 dias fui isolado da família, dos amigos e companheiros, apartado do povo, mesmo tendo o direito constitucional de recorrer em liberdade contra a sentença injusta e fraudulenta de um juiz parcial. Um direito que somente agora foi proclamado pelo Supremo Tribunal Federal, para todos, sem exceção.
Com as armas da verdade e da lei, continuarei lutando para que os tribunais reconheçam, agora, que fui condenado por quem sequer poderia ter me julgado: um ex-juiz que atuou fora da lei, grampeou advogados, mentiu ao país e aos tribunais, antes de desnudar seus objetivos políticos. Lutarei para que seja anulada a sentença e me deem o julgamento justo que não tive.
Aos 74 anos de idade, não tenho no coração lugar para ódio e rancor. Mas quem nesse país já sofreu a humilhação de uma acusação falsa, por causa da cor de sua pele ou por sua origem social humilde, conhece o peso do preconceito e é capaz de sentir o quanto fui ferido em minha dignidade. E isso não se apaga.
Nada nem ninguém vai devolver o pedaço arrancado da minha existência, mas quero dizer que aproveitei esses 580 dias para ler, estudar, refletir e reforçar meu compromisso com o Brasil e com nosso povo sofrido. Voltei com muita vontade de falar sobre o presente e principalmente sobre o futuro do Brasil.
Mas logo depois da minha primeira fala, de volta ao sindicato onde passei o último momento de liberdade, disseram que eu deveria ter cuidado para não polarizar o país. Que seria melhor calar certas verdades para não tumultuar o ambiente político, para o PT não provocar uma ameaça à democracia.
Vamos deixar uma coisa bem clara: se existe um partido identificado com a democracia no Brasil é o Partido dos Trabalhadores. O PT nasceu lutando pela liberdade durante a ditadura. Não tentem negar essa verdade porque nós apanhamos da repressão, fomos perseguidos, presos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional por defender essa ideia.
Desde que foi criado, há quase 40 anos, o PT disputou dentro da lei e pacificamente todas as eleições neste país. Quando perdemos, aceitamos o resultado e fizemos oposição, como determinaram as urnas. Quando vencemos, governamos com diálogo social, participação popular e respeito às instituições.
Outros partidos mudaram as regras da reeleição em benefício próprio. Nós rejeitamos essa ideia, mesmo gozando de uma aprovação que nenhum outro governo jamais teve, porque sempre entendemos que não se pode brincar com a democracia.
Não fomos nós que falamos em fechar o Congresso, muito menos o Supremo, com um cabo e um soldado. Em nossos governos, as Forças Armadas foram respeitadas e os chefes militares respeitaram as instituições, cumprindo estritamente o papel que a Constituição lhes reserva. Nenhum general deu murro na mesa nem esbravejou contra líderes políticos.
Não fomos nós que pedimos anulação do pleito só para desgastar o partido vencedor; que sabotamos a economia do país para forçar um impeachment sem crime; que sustentamos uma farsa judicial e midiática para tirar do páreo o candidato líder nas pesquisas.
Não fomos nós os responsáveis, ativos ou omissos, pela eleição de um candidato que tem ojeriza à democracia; que foi poupado de enfrentar o debate de propostas, que montou uma indústria de mentiras com dinheiro sujo, sob a complacência da mesma Justiça Eleitoral que, desacatando uma decisão da ONU, cassou o candidato que poderia derrotá-lo.
São essas pessoas que agora nos dizem para não polarizar o país. Como se polarização fosse sinônimo de extremismo político e ideológico. Como se o Brasil já não estivesse há séculos polarizado entre os poucos que têm tudo e os muitos que nada têm. Como se fosse possível não se opor a um governo de destruição do país, dos direitos, da liberdade e até da civilização.
Aos que criticam ou temem a polarização, temos que ter a coragem de dizer: nós somos, sim, o oposto de Bolsonaro. Não dá para ficar em cima do muro ou no meio do caminho: somos e seremos oposição a esse governo de extrema-direita que gera desemprego e exige que os desempregados paguem a conta.
Somos e seremos oposição a um governo que rasga direitos dos trabalhadores e reduz o valor real do salário mínimo. Que aumenta a extrema pobreza e traz de volta o flagelo da fome. Que destrói o meio ambiente. Que ataca mulheres, negros, indígenas e a população LGBT; ataca qualquer um que ouse discordar.
Somos, sim, radicais na defesa da soberania nacional, da universidade pública e gratuita, do Sistema Único de Saúde, público, gratuito e universal. Nós não somos meia oposição; somos oposição e meia aos inimigos da educação, da cultura, da ciência e da tecnologia. Nós não aceitamos mais censura, tortura, AI-5 e perseguição a adversários políticos.
Andam negando essa verdade científica, mas a Terra é redonda e nós estamos, sim, em polos opostos: enquanto eles semeiam o ódio, nós vamos mostrar a eles o que o amor é capaz de fazer por este país.
Companheiras e companheiros,
Já foi dito que o PT nasceu para mudar o Brasil. E mudou. Porque trazemos na origem o compromisso com os trabalhadores, com os mais pobres, com os que carregaram ao longo de séculos o peso da exclusão e da desigualdade. Porque pela primeira vez fizemos um governo para todos os brasileiros e brasileiras, e isso fez toda a diferença em nosso país.
Se fosse para governar apenas para uma parte da população, o Brasil não precisaria do PT.
Para o mercado decidir quem pode e quem não pode se aposentar, quanto vai custar o gás de cozinha, o combustível, a energia elétrica, visando somente o lucro, o Brasil não precisaria do PT.
Se fosse para entregar ao estrangeiro as riquezas naturais, o petróleo, as águas, as empresas que o povo brasileiro construiu, o Brasil não precisaria do PT.
Se fosse para queimar a floresta, envenenar a comida com agrotóxicos, deixar impunes crimes como os de Marielle, Mariana, Brumadinho, ignorar desastres como o óleo no litoral do Nordeste, quem precisaria do PT?
Para o filho do rico estudar nas melhores universidades do mundo e o filho do trabalhador ter de largar a escola pra sustentar a família, o Brasil não precisaria do PT.
Se é para alguns terem mansão em Miami e muitos viverem debaixo do viaduto; para o rico ficar isento até do imposto de herança e o trabalhador carregar o peso do imposto de renda, o Brasil não precisaria do PT.
Para manter a mais escandalosa concentração de renda do planeta Terra, para o rico continuar cada vez mais rico e o pobre ficar cada dia mais pobre, aí mesmo é que o Brasil não precisaria do PT.
Porque o maior inimigo do Brasil hoje e desde sempre é a desigualdade, esse vergonhoso fosso em que 1% da população detém 30% da renda nacional e para a metade mais pobre sobram 17%, as migalhas de um banquete indecente.
Mas se este país quer superar a chaga imensa da desigualdade, recuperar a soberania e o seu lugar no mundo, se quer voltar a crescer em benefício de todos os brasileiros e brasileiras, o Partido dos Trabalhadores é mais do que necessário: ele é imprescindível.
Esta é a enorme responsabilidade que estamos recebendo. O Brasil nunca precisou tanto do PT. E o PT tem de ser grande o bastante para corresponder ao que o país espera de nós. Tem de estar unido, forte e cada vez mais conectado com o povo brasileiro.
Temos a responsabilidade de renovar o partido, compreender o que mudou na sociedade brasileira nesses 40 anos e buscar as respostas para os novos desafios. Fomos forjados na luta em defesa da classe trabalhadora.
O peso da injustiça recai hoje sobre os motoristas de aplicativos, os jovens que perdem a saúde e arriscam a vida fazendo entregas em motos, bicicletas, ou mesmo a pé. Os que não têm a quem recorrer por seus direitos, porque a única relação de trabalho que conhecem não é a carteira profissional, mas um telefone celular que ele precisa recarregar desesperadamente.
Esse é o lugar que resta aos deserdados de um modelo neoliberal excludente, cada vez mais desumano. Um mundo em que o mercado é deus e em que a solidariedade deixa de ser um valor universal, substituída por uma competição individualista feroz.
É com esse mundo novo que o PT precisa dialogar, sem abrir mão de nossos compromissos históricos, mantendo os pés firmes no presente e mirando sempre o futuro. Se as formas de exploração mudaram, a injustiça e a desigualdade permanecem e são cada vez mais cruéis. Temos de estar mais organizados, mais fortes, conscientes e mais decididos do que nunca a construir um país mais generoso, solidário e mais justo. É por isso que o Brasil precisa tanto do PT.
Companheiras e companheiros,
Salvar o país da destruição e do caos social que este governo está produzindo não é tarefa para um único partido. Fomos eleitos e governamos em aliança com outras forças do campo popular e democrático. Por mais que tentem nos isolar, estamos juntos na oposição com partidos da centro-esquerda e estamos com os movimentos sociais, as centrais sindicais e importantes lideranças da sociedade.
Embora tantos tenham cometido erros antes e depois dos nossos governos, é somente do PT que exigem a autocrítica que fazemos todos os dias. Na verdade, querem de nós um humilhante ato de contrição, como se tivéssemos de pedir perdão por continuar existindo no coração do povo brasileiro, apesar de tudo que fizeram para nos destruir. Preciso dizer algumas verdades sobre isso.
O maior erro que nós cometemos foi não ter feito mais e melhor, de uma forma tão contundente que jamais fosse possível esse país voltar a ser governado contra o povo, contra os interesses nacionais, contra a liberdade e a democracia, como está sendo hoje.
Deveríamos ter feito mais universidades do que fizemos, mais reforma agrária, mais Luz Pra Todos, mais Minha Casa Minha Vida, mais Bolsa Família e mais investimento público.
Teríamos de ter conversado muito mais com o povo e com os trabalhadores, conversado mais com os jovens que não viveram o tempo em que o Brasil era governado para poucos e não para todos.
Também tínhamos de ter trabalhado muito mais para democratizar o acesso à informação e aos meios de comunicação, apoiado mais as rádios comunitárias, fortalecido mais a televisão pública, a imprensa regional, o jornalismo independente na internet.
Antes que a Rede Globo me acuse outra vez pelo que não disse nem fiz, não ousem me comparar ao presidente que eles escolheram. Jamais ameacei e jamais ameaçaria cassar arbitrariamente uma concessão de TV, mesmo sendo atacado sem direito de resposta e censurado como sou pelo jornalismo da Globo.
Eu sempre disse que jamais teria chegado onde cheguei se não tivesse lutado pela liberdade de imprensa. Hoje entendo, com muita convicção, que liberdade de imprensa tem de ser um direito de todos, não pode ser privilégio de alguns.
Não pode um grupo familiar decidir sozinho o que é notícia e o que não é, com base unicamente em seus interesses políticos e econômicos.
Entendo que democratizar a comunicação não é fechar uma TV, é abrir muitas. É fazer a regulação constitucional que está parada há 31 anos, à espera de um momento de coragem do Congresso Nacional. É fazer cumprir a lei do direito de resposta. E é principalmente abrir mais escolas e universidades, levar mais informação e consciência para que as pessoas se libertem do monopólio.
Enfim, penso que teríamos de ter lutado com mais vontade e organização, fortalecido ainda mais a democracia, para jamais permitir que o Brasil voltasse a ter um governo de destruição e de exclusão social como voltou a ter desde o golpe de 2016.
A autocrítica que o Brasil espera é a dos que apoiaram, nos últimos três anos, a implantação do projeto neoliberal que não deu certo em lugar nenhum do mundo, que vai destruir a previdência pública e que ao invés de gerar os empregos que o povo precisa está implantando novas formas de exploração.
A autocrítica que a democracia e o estado de direito esperam é daqueles que, na mídia, no Congresso, em setores do Judiciário e do Ministério Público, promoveram, em nome da ética, a maior farsa judicial que este país já assistiu.
O mundo hoje sabe que, ao contrário de combater a impunidade e a corrupção, a Lava Jato corrompeu-se e corrompeu o processo eleitoral e uma parte do sistema judicial brasileiro. Deixou impunes dezenas de criminosos confessos que Sérgio Moro perdoou e que continuam muito ricos.
Como podem dizer que combateram a impunidade se soltaram pelo menos 130 dos 159 réus que ele mesmo havia condenado? Negociaram todo tipo de benefício com criminosos confessos, venderam até o perdão de pena que a lei não prevê, em troca de qualquer palavra que servisse para prejudicar o Lula.
Que ética é essa que condena dois milhões de trabalhadores, sem apelação, destruindo empresas para salvar os patrões acusados de corrupção?
Não tem moral, não tem autoridade para discutir ética quem deu cobertura aos procuradores de Deltan Dallagnol e Rodrigo Janot quando eles entregaram a Petrobrás aos tribunais dos Estados Unidos, um crime de lesa-pátria que já custou quase U$ 5 bilhões ao povo brasileiro.
Temos muito o que falar sobre ética, sobre combate à corrupção e à impunidade. Mas acima de tudo temos que falar a verdade.
Meus amigos e minhas amigas,
Alguns professores de deus defendem um modelo suicida de austeridade fiscal e redução do estado, que não deu certo em nenhum lugar do mundo. Tiveram o apoio da mídia e das instituições para culpar os governos do PT por tudo de ruim que havia no Brasil. Mentiram que tirando o PT do governo tudo se resolveria, por obra do mercado e do ajuste fiscal. E os problemas se agravaram ainda mais.
Os indicadores econômicos do Brasil pioraram: a balança comercial em queda, a economia paralisada, setores da indústria destruídos, o investimento público e privado inexistente, o rombo nas contas aumentado irresponsavelmente por razões políticas. O custo de vida dos pobres aumentou e as pessoas voltaram a cozinhar com lenha porque não podem comprar um botijão de gás.
É preciso dizer umas verdades sobre isso também.
A primeira delas é que o Brasil só não quebrou ainda por causa da herança dos governos do PT. Por causa dos 370 bilhões de dólares em reservas internacionais que acumulamos e querem queimar na conta dos juros. Por causa dos mercados internacionais que abrimos e que uma política externa irresponsável está fechando. Por causa do pré-sal que descobrimos e que estão vendendo na bacia das almas.
O Brasil só não está passando por uma convulsão social extrema por causa da herança dos governos do PT. Porque não conseguiram acabar com o Bolsa Família, último recurso de milhões de deserdados. Porque milhões de famílias ainda produzem no campo, para onde levamos água, energia, tecnologia e recursos em nosso governo. E também porque não conseguiram destruir ainda os sistemas públicos de saúde, educação e segurança, mas fatalmente isso irá ocorrer pela criminosa política de cortes do investimento público.
Sempre acreditei que o povo brasileiro é capaz de construir uma grande Nação, à altura dos nossos sonhos, das nossas imensas riquezas naturais e humanas, neste lugar privilegiado em que vivemos. Já provamos que é possível enfrentar o atraso, a pobreza e a desigualdade, desafiando poderosos interesses contrários ao país e ao povo.
Soberania significa independência, autonomia, liberdade. O contrário é dependência, servidão, submissão. É o que está acontecendo hoje. Estão entregando criminosamente a outros países as empresas, os bancos, o petróleo, os minerais e o patrimônio que pertence ao povo brasileiro. Trair a soberania é o maior crime que um governo pode cometer contra seu país e seu povo.
A Petrobrás está sendo vendida em fatias às suas concorrentes estrangeiras.
Fiquem alertas os que estão se aproveitando dessa farra de entreguismo e privatização predatória, porque não vai durar para sempre. O povo brasileiro há de encontrar os meios de recuperar aquilo que lhe pertence. E saberá cobrar os crimes dos que estão traindo, entregando e destruindo o país.
Tão importante quanto defender o patrimônio público ameaçado é preservar os recursos naturais e nossa riquíssima biodiversidade. Utilizar esse patrimônio, fonte de vida, com responsabilidade social e ambiental.
Um país que não garante educação pública de qualidade a todas as suas crianças, adolescentes e jovens não se prepara para o futuro.
Mas parece que enfiaram o Brasil à força numa máquina do tempo e nos enviaram de volta a um passado que a gente já tinha superado. O passado da escravidão, da fome, do desemprego em massa, da dependência externa, da censura, do obscurantismo.
O Brasil precisa embarcar de volta para o futuro. E não tem ninguém melhor para pilotar essa máquina do tempo do que a juventude desse país. Porque essa juventude, seja ela branca, negra ou indígena, ela quer ensino de qualidade, quer adquirir conhecimento, quer de volta as oportunidades de trabalho digno, sem alienação e sem humilhações.
Essa juventude quer e merece um mundo melhor do que este em que estamos vivendo.
Hoje me coloco à disposição do Brasil para contribuir nessa travessia para uma vida melhor, vida em plenitude, especialmente para os que não podem ser abandonados pelo caminho.
Sem ódio nem rancor, que nada constroem, mas consciente de que o povo brasileiro quer retomar a construção de seu destino; de que temos de fazer juntos um Brasil soberano, democrático, justo, em que todos e todas tenham oportunidades iguais de crescer e sonhar.
O futuro será nosso, o futuro será do Brasil!
Muito obrigado!
Luiz Inácio Lula da Silva”.
Criado em 2019-11-27 04:08:25
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Há 40 anos morria em Paris, aos 75, o grande Jean-Paul Sartre, companheiro da Simone de Beauvoir.
Diferentemente de Foucault, que no fim da vida viria a namorar o neoliberalismo (segundo documentou Daniel Zamora Vargas, professor assistente da Universidade Livre de Bruxelas), Sartre declarou que o marxismo é a “filosofia insuperável de nosso tempo”, admitindo que o existencialismo era uma ideologia dentro do marxismo. “Enquanto interrogação sobre a práxis, a filosofia é ao mesmo tempo uma interrogação sobre o homem, quer dizer, sobre o sujeito totalizador da história”.
Em 1973, lembra o Zamora Vargas, Sartre fundou o jornal radical Libération, que hoje nem se dignou a lembrar o fato. Au contraire, publicou uma longa entrevista com o senador conservador dos Républicains, Bruno Retailleau, defensor da cloroquina…
Homem público, corajoso, defensor da liberdade como poucos (“Estamos condenados a ser livres”), Sartre foi acompanhado por 50 mil pessoas no seu féretro.
Sartre costuma ser lembrado por uma frase dúbia pinçada de sua peça de teatro “Huis Clos” (Entre Quatro Paredes), “L’enfer c’est les autres”, como se os outros fossem infernais, e não você mesmo, voltado apenas pro seu próprio umbigo. Como esclareceu Sartre numa entrevista a John Gerassi, em dezembro de 1971, “o inferno é a atomização, a incomunicabilidade, o egocentrismo, a sede de poder, de riquezas, de glória. O paraíso, ao contrário, é muito simples – e muito duro: consiste em cuidar dos outros. E isso não é possível de maneira regular a não ser no seio de uma coletividade”.
Ah, que saudade da época, ali por volta de 1973, em que eu, adolescente pré-marxista, morando em Anápolis, Goiás, ia a Brasília e passava numa livraria da 102 Sul, Ao Livro Técnico, para comprar a última edição dos “Temps Modernes”, a revista que o Sartre fundou com esse nome, inspirado no filme do Charles Chaplin.
Que tempos aqueles, em que alguns dos nossos companheiros e companheiras, como o Hamilton Pereira, eram seviciados nas prisões apenas por semear esperanças. E elas brotavam aqui e ali, contrariando a ordem dos gafanhotos!
Criado em 2020-04-15 20:27:34
Maria Lucia Fattorelli (*) –
Durante toda a semana passada, Paulo Guedes e Henrique Meirelles, ambos com longo histórico na atuação no mercado financeiro, participantes da alta cúpula de grandes bancos, fizeram de tudo para desviar o foco do imensurável rombo de trilhões de reais que está escondido na chamada “PEC do Orçamento de Guerra” (PEC 10/2020): a mais escandalosa transformação de trilhões de papéis podres dos bancos em “dívida pública”.
Guedes e sua equipe realizaram diversas reuniões com senadores que, segundo os jornais, vararam madrugada adentro. O ex-Pactual quer que os senadores aprovem a “PEC do Orçamento de Guerra” de qualquer jeito! Quer que façam como Rodrigo Maia na Câmara dos Deputados: lá, a PEC foi protocolada na quarta-feira à tarde e aprovada em segundo turno na sexta-feira à noite.
Para convencer senadores, Guedes passou a pregar a venda de Reservas Internacionais para aplicar os recursos nos gastos com a pandemia!
Meirelles, por sua vez, passou a pregar a impressão de dinheiro para ter recursos para combater a pandemia. O ex-presidente do Bank Boston (que foi vendido para o Itaú em 2006 quando ele era presidente do Banco Central) virou o seu discurso do avesso.
Meirelles foi o responsável pela explosão do enxugamento de moeda existente no caixa dos bancos, abusando do volume das Operações Compromissadas que, na prática, corresponde à remuneração da sobra de caixa dos bancos. Foi durante a sua gestão à frente do Banco Central que esses ilegais “depósitos voluntários” da sobra de caixa dos bancos atingiu quase meio trilhão em 2009 e, não por coincidência, naquele ano verificou-se uma queda repentina do PIB, completamente fora da curva!
Como acreditar que essas pessoas de repente passaram a ficar “boazinhas”?
Como acreditar que a mesma pessoa que há poucos meses pregava o fim da aposentadoria de trabalhadores rurais, que teriam que pegar na enxada até morrer; a redução do BPC dos miseráveis idosos para apenas R$400,00 e só após os 70 anos, entre outras maldades, de repente, está pregando a venda de Reservas Internacionais para aplicar recursos nos gastos sociais de combate à pandemia?
Como acreditar que a mesma pessoa que defendia o enxugamento de moeda ao extremo, e que à frente do BC provocou a escassez brutal de moeda no mercado, como algo imprescindível para a economia, de repente, está pregando impressão de moeda para irrigar a economia, a fim de aplicar recursos nos gastos com a pandemia?
Não estamos lidando com principiantes! Não sejamos ingênuos.
O que está por trás dessa guinada nos discursos de Guedes e Meirelles, caciques históricos da cúpula do mercado financeiro?
Divulgação feita por diversos meios de comunicação em novembro/2019, portanto, bem antes da pandemia do coronavírus, indicava a “existência, nas carteiras dos maiores bancos, de créditos privados podres acumulados nos últimos 15 anos, chega a quase R$ 1 trilhão: R$ 915 bilhões, sem correção da inflação, de acordo com levantamento da Ivix, especializada em reestruturação de empresas em crise, a pedido do jornal O Estado de S. Paulo”.
Repararam? Quase R$ 1 trilhão de papeis podres nas carteiras de grandes bancos.
Isso, sem calcular correção monetária pela inflação! Se corrigir, chegaremos a vários trilhões de reais!
Essa papelada podre não afetou em absolutamente nada os imensos lucros que esses mesmos grandes bancos acumularam nos últimos anos, apesar da grave crise que vem abalando a economia brasileira desde 2015! Enquanto o PIB caiu e seguiu estagnado, milhões de empresas quebraram e o desemprego explodiu, o lucro desses bancos seguiu batendo recorde sobre recorde a cada trimestre! Ademais, os bancos já deduziram de seus lucros tributáveis as eventuais perdas com esses papéis podres em suas provisões bilionárias, que só em 2015, por exemplo, foi de quase R$190 bilhões. Assim, já se ressarciram desse prejuízo!
A “PEC do Orçamento de Guerra” que os grandes caciques do mercado financeiro tanto querem aprovar coloca o Banco Central para comprar esses papéis privados de bancos em mercado de balcão (mercado secundário, conforme § 9o do artigo 115 da PEC 10/2020), onde as negociações acontecem por telefone, sem supervisão, sem regulação, sem controle algum, fora das bolsas de valores, entre 2 partes completamente independentes: E o Banco Central vai ser uma dessas partes independentes!
O Banco Central vai pagar com recursos do Tesouro Nacional, isto é, com o nosso dinheiro.
Conseguem imaginar um funcionário do Banco Central comprando essa papelada podre, em contato direto com o representante da Tesouraria de algum desses bancos, comprometendo bilhões e até trilhões de dinheiro público em uma negociação telefônica? O atual presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, atuou exatamente na área de Tesouraria do Santander e sabe como são feitas essas operações!
Não poderá haver investigação alguma dessas operações feitas pelo Banco Central no desregulado mercado de balcão com o nosso dinheiro: A MP 930/2020 coloca a diretoria e alguns funcionários do Banco Central acima da Lei de Improbidade Administrativa.
A própria PEC 10/2020 já admite que não teria como fiscalizar operações feitas no desregulado mercado de balcão, e restringe até mesmo a atuação do TCU, que somente “apreciará a prestação de contas, de maneira simplificada”, conforme consta de seu § 13o, artigo 115. O rastreamento dos gastos noticiado pelo TCU, não alcançará as operações realizadas no desregulado mercado de balcão pelo Banco Central, cujos operadores estarão imunes, conforme MP 930/2020, que já está valendo!
Considerando que o dinheiro existente no orçamento federal não será suficiente para essa farra, o Tesouro Nacional irá emitir mais e mais títulos da dívida pública, que esses mesmos grandes bancos irão comprar, pois nenhum país do Planeta paga os juros que o Brasil paga!
Em vez de representar um socorro aos gastos com a pandemia, essa “PEC do Orçamento de Guerra” (PEC 10/2020, § 9o do artigo 115) promove a reciclagem dos trilhões de papéis podres acumulados nos bancos por títulos da dívida pública brasileira!
Os bancos ficarão livres da papelada podre, que será substituída pelos títulos mais rentáveis do mundo! O Tesouro Nacional, ou seja, nós, o povo, ficaremos com uma dívida pública gigante, que para ser paga exige contínuos cortes de gastos sociais; cortes de investimentos públicos; privatizações do nosso patrimônio, contrarreformas etc., aprofundando esse modelo que a própria pandemia do coronavírus está provando, escancaradamente, que não dá certo!
É hora de arrancar todas as máscaras e enxergar o que está por trás dessa “PEC do Orçamento de Guerra”: a escandalosa troca de trilhões de papéis podres acumulados nos bancos por títulos da dívida pública brasileira, que passará a crescer de forma exponencial!
O Senado não pode permitir essa trapaça! Os § 9o e 10o do artigo 115 que a PEC 10/2020 devem ser sumariamente suprimidos e a MP 930/2020 rejeitada!
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(*) Maria Lúcia Fattorelli é Coordenadora Nacional da Auditoria Cidadã da Dívida, trabalhou como Auditora no Ministério da Fazenda e estudou Administração na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Criado em 2020-04-14 17:04:01
No mês em que se completam os 150 anos de nascimento de Rosa Luxemburgo, a Editora Boitempo lança o livro Rosa Luxemburgo e a reinvenção da política, do cientista político Hernán Ouviña. A ativista política, filósofa e economista marxista polaco-alemã nasceu no dia 5/3/1871 e morreu, assassinada por um grupo paramilitar, em Berlim, no dia 15 de janeiro de 1919.
Esse livro oferece uma introdução à vida e obra da pensadora, revelando o potencial de seus escritos para o contexto político latino-americano. Ouviña destaca nos textos de Rosa a abordagem de temas caros para a militância do século XXI, como ecossocialismo, antipatriarcalismo, anticolonialismo e internacionalismo, além da valorização das formas de vida comunitárias e não capitalistas.
“Sem perder de vista as contribuições teóricas da autora, Hernán indica como a trajetória política de Rosa pode ajudar a recriar a luta emancipatória na contemporaneidade, a partir de uma compreensão da teoria marxista não como um sistema acabado a ser ´aplicado´, mas como uma caixa de ferramentas e um estímulo para o pensamento crítico e a ação disruptiva”, descreve a editora brasileira.
Os capítulos deste livro buscam abrir uma janela por onde espreitar as diferentes inquietações e urgências que, para Rosa, remetem a problemas candentes e núcleos traumáticos que precisam ser discutidos, encarados e resolvidos de forma coletiva e sem receituário prévio para a construção do socialismo como um projeto civilizatório alternativo.
Trecho do livro
“Rosa navega na contracorrente e, apesar de tais adversidades, exercita uma militância criativa de qualquer ângulo que se observe. Assume sua condição subalterna para superá-la e fazer dessa possível limitação uma virtude autoafirmativa, trincheira onde se protege e luta a plenos pulmões, contra ventos e marés. Rompe cada um dos mandatos que a sociedade lhe pretende impor e pratica com extrema ousadia um ativismo febril e intransigente, sempre em favor dos/as mais fracos/as ou subjugados/as por esse sistema. E, para os inimigos, recomenda um método infalível que sempre dá bons resultados: “Polegares nos olhos e joelhos no peito!”.
Sobre o autor

Hernán Ouviña (na foto, acima) é graduado em ciência política e doutor em ciências sociais pela Universidade de Buenos Aires (UBA), professor da Faculdade de Ciências Sociais da UBA e pesquisador do Instituto de Estudos Latino-Americanos e Caribenhos da mesma instituição. É autor e organizador de livros e materiais voltados para o pensamento crítico e a realidade latino-americana, entre eles Zapatismo para principiantes (2007); Gramsci y la educación: pedagogía de la praxis y políticas culturales en América Latina (2011) e Reinventar a los clásicos: las aventuras de René Zavaleta Mercado en los marxismos latinoamericanos (2018).
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Ficha técnica
Título: Rosa Luxemburgo e a reinvenção da política: uma leitura latino-americana
Autor: Hernán Ouviña
Tradução: Igor Ojeda
Prefácio: Silvia Federici
Coedição: Boitempo/Fundação Rosa Luxemburgo
Preço: R$ 41
Preço e-book: R$ 29
NdoE: Leia mais sobre Rosa Luxemburgo no site Wikipédia clicando aqui
Criado em 2021-03-13 17:20:32
Em um discurso carregado de emoção na tribuna da Câmara, a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ) protestou contra a atitude “preconceituosa e racista” do deputado Coronel Tadeu (PSL-SP) que destruiu uma placa com a charge de Latuff que denuncia a violência policial contra os negros.
Para Benedita da Silva, a atitude do Coronel Tadeu na tarde de terça-feira (19/11) foi como se ele tivesse dado um tapa na cara de cada negro e de cada negra da Câmara. “Fomos colocadas novamente no tronco. Veio o chicote e tirou da parede o que demonstrava naquela charge, a realidade de milhões e milhões de brasileiros. Somos 54 milhões de brasileiros, que lamentavelmente não estão representados nesse Legislativo”, desabafou. Benedita afirmou que "é inaceitável que a gente possa ser violentado dessa forma", justamente às vésperas do dia 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra.
A deputada carioca relembrou a sua luta em 1988 para assegurar na Carta Magna Cidadã os direitos das minorias. “Continuaremos lutando pelo nosso direito, fui uma constituinte, lá nós garantimos que tivéssemos direitos e aqueles que nos negam não passam de um grande racista. Nós sabemos conviver com os brancos, mesmo sendo por eles chicoteados”, ensinou.
A deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) também protestou veementemente e anunciou que vai denunciar o Coronel Tadeu no Conselho de Ética Legislativa. “Essa atitude é inaceitável. O crime de racismo é inafiançável e o coronel tem que ser punido”, argumentou.
O painel com uma charge do artista Carlos Henrique Latuff de Sousa fazia parte da exposição na Câmara em comemoração ao Dia da Consciência Negra. “É a primeira vez que o racismo ousou nessa Casa, e ousou muito na nossa presença. Iremos tomar providências porque foi uma violência inaceitável, o presidente Rodrigo Maia terá que punir esse deputado”, afirmou.
A deputada Benedita da Silva cobrou do presidente da Câmara a reposição do quadro arrancado e quebrado pelo Coronel Tadeu. “A Mesa tem que tomar uma providência, é uma exposição feita pela Curadoria da Câmara, é patrimônio público, foi dinheiro público que o deputado do PSL rasgou”. Benedita da Silva anunciou ainda que está tomando as providências cabíveis contra “aquele que veio como ladrão roubar a alegria do dia”. (Veja o vídeo com a íntegra do discurso da deputada federal Benedita da Silva neste site)
Latuff indignado
“Quando faz isso, ele está confirmando a violência policial”. A declaração é do chargista Latuff, que teve uma charge arrancada e destruída nesta terça-feira (19/11) pelo deputado federal Coronel Tadeu (PSL-SP). O trabalho integrava a mostra (Re)Existir no Brasil – Trajetórias negras brasileiras, exibida no Congresso Nacional em razão do Mês da Consciência Negra. (Charge, abaixo).

“Essa charge eu fiz em 2013, como parte de minha denúncia contra a violência policial”, disse Latuff ao site Sul21 ao comentar o episódio. Ainda de acordo com o chargista, a manifestação do deputado só comprova a mensagem. “Poxa, policial é tão forte, tão valente, tão armado, tá pronto pra tudo, mas não suporta uma única charge, uma simples charge, um cartaz exposto no Congresso Nacional. Isso vem confirmar o velho ditado que a caneta é mais poderosa que a espada”.
Latuff diz ainda que a manifestação violenta só comprova que suas charges estão revelando uma realidade. “Não há nenhuma fake news nessas charges sobre violência policial. Se você tem um parlamentar, que por acaso é um policial militar, que destrói, de maneira violenta, uma charge exposta nos corredores do Congresso Nacional, e que revela exatamente isso, uma cena de execução por parte da polícia, que é uma cena muito comum, todo mundo conhece no Brasil, a imprensa, qualquer cidadão. Quando um policial faz isso, ele está passando um atestado, está confirmando a violência policial”.
Criado em 2019-11-20 19:40:22
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Tomado de remorso depois de saber que Jesus Cristo seria condenado à morte, Judas Iscariotes voltou ao Templo para devolver as 30 moedas de prata que havia recebido em troca do beijo. Pequei, traindo sangue inocente, gritou. Problema seu, responderam os sacerdotes, mais interessados em demonstrar mansa lealdade ao Império e ativo compromisso com a Pax Romana. Não queriam ser confundidos com esses rebeldes que sempre aparecem em Jerusalém na semana da Páscoa. Transtornado, Judas atirou as moedas contra os maiorais do Sinédrio e saiu em desabalada carreira em direção à sua casa.
Os sacerdotes recolheram o dinheiro, deixando de guardá-lo na caixa de ofertas, por ser preço de sangue. Deliberaram comprar com ele o Campo do Poteiro, ou Campo de Sangue, assim chamado pela cor da argila, onde planejavam construir um cemitério para os forasteiros.
Ao chegar em casa, relata o Evangelho de Nicodemos, Judas perguntou à mulher onde tinha guardado a corda. A mulher estava sapecando um frango depenado que tinha acabado de destroncar. Homem, o que que você vai fazer com essa corda? Vou me enforcar, pois traí e entreguei o Mestre aos sacerdotes e anciãos. Ele será condenado à morte, mas, segundo a profecia, ressuscitará no terceiro dia. Ai de nós! A mulher deu uma risada. Não seja bobo, marido, é mais fácil este galo cocoricar do que o seu mestre ressuscitar depois de três dias! Mal acabou de falar, o bicho se levantou em cima das brasas, bateu as asas e cantou três vezes. Apavorado, Judas pegou a corda e sumiu no mundo.
Crucifica-o! - A essa altura, Pôncio Pilatos recebia Jesus, o olho roxo, manietado, das mãos da turba enfurecida. Crucifica-o! Ele prega o calote contra o Imperador! Diz que é o Messias! Proclama ser o rei dos judeus! Indiferente aos berros, Pilatos interroga o acusado. Você é o rei dos judeus? É você que está dizendo, responde o Nazareno.
O præfectus dirige-se à multidão. Não vejo crime algum nesse pobre diabo! Vaias. Mais vaias. Muitas vozes insistem que o Nazareno tem pregado a sedição em toda a Judeia e na Galileia. Ele é galileu? Com esse detalhe Pilatos resolve fazer política, encaminhando o acusado a um adversário de longa data, Herodes Antipas, o governador da Galileia, de passagem por Jerusalém.
Assim que os guardas levam o prisioneiro, junto com uma carta cheia de salamaleques e um parecer declarando que o caso era da jurisdição do preclaro, augusto e sereníssimo governador da Galileia, um estafeta chega à casa de Pilatos trazendo um pergaminho lacrado com o selo de Augusto, Imperator Cæsar Divi Filius. É uma convocação urgentíssima. O governador deve partir imediatamente para Roma, com a roupa do corpo, como se diz. Gravíssimo assunto de Estado. Pilatos obedece a ordem sem piscar, depois de jogar duas mudas de túnica na mochila e oscular a esposa, dando-lhe um carinhoso beliscão na calipígea. Não sei quando volto, caríssima! O Augusto tem manias que até hoje não entendo. Com os olhos embevecidos de vaca morta, Pilatos dá um tchau, já sentindo saudades. Admirabile femina! Desce as escadarias suspirando, cada vez mais desconfiado de que ela está se convertendo à causa dos comunistas primitivos. Imagine, hoje mesmo disse que tinha sonhado com esse estranho profeta de Nazaré!
Um show – Nisso (acompanho aqui a narrativa de Lucas), Herodes Antipas recebe Jesus com uma alegria surpreendente. Há tempos queria conhecê-lo em pessoa. Quem sabe o maluco executasse alguns de seus “sinais” num show privado? Quem sabe transformasse dois barris de água em terroir de Marsala? Vai que... alguns quilos de estanho em ouro! Jesus se cala. Cabisbaixo, suporta as indecentes propostas do governador e a gritaria dos homens do Templo. Herodes reage com desprezo. Manda cobri-lo com um de seus mantos debruados, entrega-lhe uma cana soltando o pendão como se fosse um cetro, e o chama de “meu rei”. Logo o jogo o enfastia e ele manda devolver o acusado às mani pulite de Pilatos, exonerando o Nazareno das acusações.
Quando voltam à mansão de Pilatos com o prisioneiro, os guardas ficam sabendo que o governador tinha acabado de sair em missão secreta, desconhecendo que a essa altura ele já devia ter zarpado do porto de Jafa em direção ao porto de Óstia. Os pretorianos passam alguns minutos sem saber o que fazer. A turba continua os protestos. Para evitar o linchamento do cliente, o capitão decide recolher Jesus à cadeia, na mesma cela em que se encontra um miliciano chamado Barrabás. O jeito, pondera, é aguardar a volta do governador.
Mais rápida que a tartaruga de Zenão, pois na época não havia ainda o rastilho de pólvora, a notícia se espalha e alcança Judas no exato momento em que ele se prepara para saltar de cima de um toco com a corda em volta do gorgomilho, a outra ponta amarrada no galho de uma frondosa olaia (pata-de-vaca, Cercis silquastrum). Judas respira fundo, aspirando um fiapo de esperança. Afrouxa o nó e sai correndo em direção ao xilindró. Estava disposto a libertar o Mestre para se livrar das chamas da Geena, o lixão de Jerusalém onde se queimavam corpos de animais e gente indigna em fogo alimentado por enxofre. Por macabra analogia, Jesus havia apelidado o Inferno com esse nome, Geena (Geh Ben-Hinom), Vale do Filho de Hinom.
No percurso até o presídio, Judas convoca meia dúzia de simpatizantes de Cristo. Ali chegando vê que a missão não será fácil. Nota que as hordas do Templo cercam o edifício e, junto com elas, muitos de seus companheiros acompanham o coro. Crucifica-o! Crucifica-o! Soltem Barrabás!
Profecia adiada - Atônito, aproxima-se de Tomé, um dos Doze, que se assusta ao vê-lo. Um fantasma? Tomé toca-lhe os braços, o rosto, dá-lhe um soquinho na barriga e um piparote no nariz. Como então, você não se enforcou? A profecia gorou? Aos trancos, Judas resume suas últimas horas e quer saber o que está acontecendo. Por que tantos dos nossos aderiram ao partido da Paixão? Por que desejam pregá-lo na cruz?
Com espanto ouve a explicação de Tomé. Eles querem a consumação das Escrituras! Sabe aquele sujeito que decepou a orelha do secretário do Sumo Sacerdote com a espada? Ele contou pra todo mundo a bronca de Jesus mandando que abaixasse a espada e dizendo que, se quisesse, poderia pedir ao Pai o envio de doze legiões de anjos para libertá-lo. Mas se agisse assim, rematou o Mestre, como é que as Escrituras se cumpririam?
Judas ficou pálido. Compreendeu que o seu próprio destino tinha sido apenas adiado. Entendeu que o seu fim estava próximo de qualquer maneira, conforme havia profetizado Jeremias nos mínimos detalhes, incluindo as moedas de prata e a compra do Campo do Poteiro. Judas lamentou que fosse apenas um joguete nas mãos do Pai na cena da traição no jardim de Getsêmani. Confuso, logo ficou envergonhado, e pediu perdão por esses mesquinhos pensamentos de vítima. Aos poucos, recuperou a autoestima, acrescida de uma boa dose de orgulho. Não era ele um dos discípulos favoritos do Mestre? Era! Não terá sido por essa razão que o Pai e o Filho, sintonizados, o escolheram para a missão de trair o Filho do Homem com um gesto de amor, o beijo? ¡Ni puta duda! Sem o beijo, anote aí, Tomé, não haveria a Paixão! Sem a Paixão, as profecias não seriam e não serão cumpridas! Sem o sangue da Paixão não haveria nem haverá Salvação!
Contrito, Judas aceitou com todas as forças dos ossos e da alma o seu papel. Nobre papel! O Iscariotes deu-se conta de que não era, afinal, um simples joguete. Em verdade, em verdade vos digo, era um instrumento do Pai! A traição é a chave de toda a cristologia, afinal de contas.
Barrabás! - Mesmo conformado, e absolutamente convencido de que tinha executado com o beijo uma missão de transcendental relevância, Judas armou-se de coragem, tomou fôlego e a plenos pulmões começou a conclamar todos os que se julgavam justos para lutar pela libertação do Mestre.
Como iriam se cumprir de qualquer forma as profecias, Judas esperava com essa nova performance limpar o nome, receoso de que os futuros cronistas só se lembrassem da cena do beijo no jardim. Calculou que assim seria porque nenhum cristão havia testemunhado a sua conversa com os sacerdotes do Templo, quando se discutiu a diferença conceitual entre os messias da tradição judaica e o novo messias cristão.
Atentos aos seus apelos, logo se formaram dois grupos na multidão. Um pedia o sacrifício de Jesus e a libertação de Barrabás, conforme facultava a norma da tradição pascal. O outro grupo, menos numeroso, clamava pela liberdade do Nazareno. Gente, escute! O Mestre não quer ser rei dos judeus coisa nenhuma. O reino dele não é deste mundo! Jesus é inocente! Judas gritou essas verdades até ficar rouco, afônico, exausto.
Tomé o afastou para um canto, deu-lhe água e o consolou. Judas lhe contou que havia se metido numa trama de mal-entendidos. Temendo que o Mestre se envolvesse em confusão e fosse perseguido pela guarda romana, como sempre aconteceu com outros profetas durante as festas da Páscoa, e com mais medo ainda de sobrar pra sua turma, disse que tinha resolvido entregá-lo aos sacerdotes e anciãos. Por quê? Cogitou que logo o liberariam, quando percebessem que Jesus não era um rebelde mas um místico cordial, um pacifista, que pregava não a revolução anticolonial mas a intervenção do Pai na terra para a instauração do reino dos Céus.
(Meio século depois essa expectativa não realizada seria chamada de “Apocalipse” pelos fundadores da Igreja, como informa o historiador Bart D. Ehrman, fonte principal deste trecho da minha Crônica & Aguda. Cristo foi, portanto, um pregador apocalíptico como, antes dele, João Batista.)
Sim, disse Judas, eu os informei de que Jesus admitiu ser o Messias, mas somente interna corporis, para nós, os Doze. Expliquei que ele nunca se proclamou assim em público, coisa que todos os candidatos a messias costumam fazer. Os sacerdotes, querido Tomé, tomaram a minha palavra muito ao pé da letra. Entenderam o termo “messias” no sentido tradicional, "o ungido de Deus" disposto a retomar dos romanos o governo da Palestina para o povo de Israel. E eu, um idiota, não consegui convencê-los de que a gente usa a palavra “messias” (Christos, em grego) no sentido de ungido de Deus destinado a governar o reino dos Céus que se aproxima!
Sinto muito, Judas! Perdeu, playboy, agora é tarde! Consummatum est! Palavras de Tomé.
Pergaminhos - Enquanto se desenrolava o cabo de guerra na porta da cadeia de Jerusalém, o sumo sacerdote Caifás reunia o Conselho no Sinédrio para encontrar uma solução para o impasse, palavra latina que significa beco sem saída. Como que por milagre (e pelo menos dois evangelhos apócrifos a consideram exatamente assim), a solução apareceu mais cedo do que se esperava. Um escriba do Templo, que há anos tinha trabalhado como copista na mansão de Pilatos, havia surrupiado, por curiosidade literária, uma coleção de manuscritos do governador, guardando-a durante anos. No meio da discussão ele se lembrou dos pergaminhos e foi buscá-los.
Entre a coleção havia alguns projetos e plantas de construção de aquedutos e cloacas nas cidades administradas por Roma. Um dos rolos fazia referência à peste que há mais de 400 anos havia assolado a cidade de Atenas (talvez um surto de febre tifoide, transmitida pela bactéria Salmonella typhi, como se descobrirá no século XXI), vencida com muito esforço e método segundo o plano traçado e executado por Péricles. Um dos parágrafos, sublinhado pelo esperto escriba do Templo, dava conta de que a prática dos atenienses de lavar as mãos com sabão parece ter sido fundamental para a erradicação da epidemia. Ora, nos tempos de Pôncio Pilatos, a expressão “lavar as mãos” significava tomar uma decisão de maneira dúbia, aparentemente descompromissada, para mitigar ou enfatizar a responsabilidade de quem tomasse a iniciativa conforme as consequências. Pronto, estava ali naquele trecho do manuscrito a garantia da condenação do Nazareno!
A condenação - Se a sentença se anunciou bruta, mais que depressa a mão cega de Caifás deu início à execução. Sem titúbeo nem piedade no coração, o Sumo Sacerdote catou o pergaminho e correu até a cadeia de Jerusalém, onde os ânimos continuavam atiçados. Trepando na varanda de uma casa defronte ao presídio, ele pediu silêncio, abraçado ao documento como um troféu olímpico. Com a voz tonitruante, proclamou:
Filhos, filhas, ouçam bem! O nosso governador Pôncio Pilatos precisou se ausentar de Jerusalém por ordem de Augusto e só deve retornar em duas ou três semanas. Como todos sabem, ele tentou, sem sucesso, declinar a competência do julgamento de Jesus de Nazaré, réu confesso de heresia, sedição e lesa-majestade, ao governador da Galileia, Herodes Antipas. Aquela autoridade preferiu abrir mão de suas prerrogativas de juiz natural, devolvendo o feito ao nosso governador. Até há pouco, achávamos que o julgamento do rebelde impenitente estivesse suspenso. Trago a vocês um evanguelion, uma boa nova! Antes de embarcar em Jafa – e isso também era segredo até agora –, o governador redigiu a sentença contra o Nazareno, condenando-o, como esperávamos que o fizesse, à pena de morte, a ser executada na cruz. O veredito acaba de chegar às nossas mãos, trazido pelo bigueiro que conduziu o governador até o porto. Justiça se fez e justiça se fará imediatamente, com a execução da pena infamante no madeiro! E digo-lhes mais: a peça condenatória foi redigida com rigor e estilo. Tem grande qualidade literária. Credo, quer dizer, estou certo de que o nosso governador será lembrado sæcula sæculorum por ter evitado uma catástrofe civilizatória em nossa comunidade e em nosso país.
Vou ler o trechos mais relevantes da sentença de condenação, saltando os arrazoados para não cansar ninguém com o juridiquês. Filhas, filhos, ouçam bem o que Pilatos dixit!
… Tendo chegado a nós a notícia de que uma peste se espraia pelos céus e águas da pátria, conspurcando o corpo e o espírito do povo, tenho que tomar providências, algumas duras, outras brandas, todas sobremaneira eficazes…
… O sacrifício do cordeiro (aqui Caifás trocou a palavra “rebanho” por “cordeiro”) se mostra premente, inafastável. De suas entranhas a pestilência ameaça derrubar o Exército, o Tesouro e o Povo, e devastar o Império…
… Não posso vacilar. Diante dos apelos dos sacerdotes (aqui houve a troca da palavra “tribunos” por “sacerdotes”), corto o mal ainda na raiz…
… Lavo as minhas mãos do sangue desse inocente (“desse inocente” no lugar de “desses infectados”)…
Caifás abriu então um parêntese exegético. Disse que Pilatos se referiu àquele homem da Galileia que se diz “o cordeiro de Deus” e que se proclama “inocente”. E deu por concluso o discurso com uma última proclamação. Eis aí a decisão do nosso governador. Vamos exigir aos pretorianos que a executem sem delongas. Que crucifiquem o condenado! E que libertem Barrabás, premiado pela exclusão pascal. Que os guardas façam isso já! Dum loquimur, ætas fugit! (Enquanto falamos, o tempo foge!)
Vísceras – A maior parte da multidão se alvoroça, a parte minoritária cai em desolado silêncio. Judas tenta com gestos desesperados pedir um aparte. Exige conferir a autenticidade do pergaminho e a assinatura de Pilatos. Caifás finge não ouvir. Pensando melhor, chama o elemento para lhe mostrar o chamegão do governador no pé do pergaminho, tendo o cuidado de cobrir a parte superior do documento com as referências à peste, a Péricles e a Atenas.
Enquanto a turba força as portas do cárcere para dali resgatar os dois prisioneiros, e mais os dois ladrões que serão também crucificados por economia processual, um homem de capuz se aproxima sorrateiramente de Judas e o esfaqueia no abdome, sumindo na multidão sem deixar vestígio. Três estocadas. As vísceras se espalham pelo chão. Judas tenta gritar. Tomé não pode fazer mais nada. Do atentado resultaram as narrativas divergentes sobre o suposto suicídio do presumível traidor (Mateus 27:5 contra Atos 1:18).
Os acontecimentos seguintes, que na sexta-feira incluíram a Via Crúcis, a crucificação, o rasgão da cortina no Templo, a ventania, a sede do crucificado mitigada com vinagre, o golpe de lança no coração, a deposição do corpo e o enterro, e que, no domingo, referiram a remoção da pedra do túmulo e a ressurreição, todos eles transcorreram conforme os Evangelhos canônicos e apócrifos, relatos literários tão dramáticos quanto os eventos narrados na Ilíada, na Odisseia, na Eneida, no Rei Lear e nos Sertões.
Quase adiados pela fortuita convocação imperial de Pôncio Pilatos, é curioso que esses derradeiros episódios tenham se realizado nas datas profetizadas, dando origem à Páscoa dos cristãos. Mais curioso ainda é o fato de nos dias correntes os seguidores do Messias estarem divididos entre as seitas que festejam mais a Morte do que a Vida, e as que preferem celebrar a Ressurreição.
No Palatino - Dias depois da Paixão, estando em Roma sem noção do que havia se passado em Jerusalém, Pôncio Pilatos acordou de manhã no seu amplo cubiculum no Palácio Augustano do Monte Palatino. Fez as abluções de costume, serviu-se do café da manhã (ientaculum) que lhe trouxeram e se vestiu com uma das túnicas ainda amarrotadas na viagem. Estava pronto para se reunir com a comitiva de três servidores do Império lotados na Helvécia, representantes, conforme lhe informou o secretário ad hoc, do Ordo Imperi Sanitarius, præcipua Imperii agentura quæ valetudinem, salutem et curam sanitatis gentium curat contra morbos epidemiasue, Genavæ urbe Helevetiæ situs. Quer dizer, da Organização Imperial da Saúde, agência especializada na saúde, cuidados sanitários e segurança contra doenças e epidemias, com sede na cidade de Genebra, na Helvécia.
O secretário explicou a Pilatos que a sua convocação para essa audiência havia se dado pelo mérito de seus conhecimentos sanitários, em que se destacam a experiência na construção de sistemas de água potável e cloacas de Jerusalém e outras cidades da Palestina. O que mais chamou a atenção dos helvéticos, no entanto, foram os seus hábitos de higiene, em especial a obsessão de lavar as mãos. É que, desde os tempos de Péricles, renomados esculápios têm comprovado a eficácia dessa prática na manutenção da saúde e higidez dos cidadãos. Como disseram os helvéticos, o hábito só não se universalizou ainda porque muita gente acha que a prática é coisa feita, prática de incantationem (bruxaria).
Pilatos ficou vermelho ao ouvir os elogios e não, como alguém pode supor, por causa do reflexo dos raios de sol da hora quarta da matina sobre a sua capa carmesim. Cumprimentou os membros da comissão sanitária e deles ouviu o objetivo da missão. Estavam ali para convidá-lo a integrar o CIMCMT, o Comitê Imperial Máximo para o Combate ao Morbo Transalpino. Mais precisamente, para participar da guerra contra a terrível peste que estava grassando na província transalpina, denominada "varíola" por causa das pelotinhas purulentas que pipocam na pele dos infectados. Oriunda provavelmente do Egito, essa é a razão pela qual muitos a estavam chamando de “peste do Cairo” ou “praga nilótica”, termos obviamente preconceituosos e contraproducentes no âmbito das relações diplomáticas.
Em síntese, os representantes do OIS disseram o seguinte a Pilatos: Variola morbus contagiosus hominis et animalium fuit. Fons est virus quod præcipuæ per aerem transmittitur. A doença contagia homens e animais, transmitida por algum veneno, principalmente pelo ar. Tempestas incubationalis a quinque ad septemdecim. A incubação leva de cinco a sete dias. Variola hominis aut variola vera magnæ contagionis nota est, ab alta temperatura, dolore capitis, dolore ossis sacri regionis et nausea oritur. A varíola humana ou varíola verdadeira é altamente contagiosa, provocando febre, dor de cabeça, dores na região do osso sacro e náuseas. Diei tertii fine impetigo apparet. Morbus per 35-45 dies tenet. As erupções da pele surgem no final do terceiro dia. E a doença dura de 35 a 45 dias. Est etiam variola nigra vel variola hæmorrhagica cum eruptionibus sanguinis et magnæ mortalitatem. Há também a espécie da varíola negra ou varíola hemorrágica com erupções de sangue e grande mortalidade.
Pilatos ouviu calado. Deu um profundo suspiro. Estatelou os olhos sobre os helvéticos, como se desconfiado. Pediu uma bacia d’água ao secretário, que a trouxe incontinenti com uma toalha de linho, fecit in Ægypti. Lavou e enxugou as mãos. Espalmando o queixo de talhe grego para demonstrar circunspeção, solicitou mais detalhes a respeito da epidemia. Como e quando a doença chegou à Helvécia? Qual é a velocidade da propagação? Já atingiu todas as regiões da Gália Transalpina? Quais são os alvos preferenciais, mulheres ou homens, velhos ou jovens? As vacas se contagiam? Os helvéticos fervem o leite que bebem? Os queijos apresentaram mais furos depois da crise sanitária? Os doentes têm sido segregados? Que medicamentos estão sendo usados no tratamento? Pasta de enxofre com óleo de fígado de esturjão? Chá de sabugueiro e tisana de salgueiro-chorão? Vinho fervido com mastruz?
A primeira sessão da audiência durou até a hora sexta (meio-dia), com pausa para o prandium. Retomados, os trabalhos continuaram até a prima vigilia, quando Pilatos se retirou para se preparar para a cena com Augusto, quando comunicaria ao imperador o primeiro relatório sobre a calamidade transalpina.
As notas taquigráficas do colloquium com os representantes do OIS e do provável engajamento de Pilatos no combate à peste da Helvécia se perderam. De todo o episódio restaram as brevíssimas menções registradas pelo médico e filósofo Galeno de Pérgamo (129-217) no seu compêndio sobre a Peste Antonina ou Praga de Galeno, que devastou o Império Romano entre os anos 165 A. D. e 180 A. D. e vitimou os imperadores Lúcio Vero e Marco Aurélio.
Criado em 2020-04-11 16:31:18
Numa clareira da Mata Atlântica, uma Indígena Contemporânea e um Homem Branco, doente, bebem Ayahuasca. A indígena inicia um ritual xamânico de cura e a partir do momento que encontra uma pedra estranha - na verdade um grande embrulho, um ‘murundu’ de livros, começam a surgir diante dela os autores desses livros. Artistas russos (escritores e cineastas) aparecem diante da indígena e falam, ora para ela, ora para o homem branco, sobre suas ideias a respeito da relação do homem com a natureza, pensamentos e sentimentos.
Murundu de Livros é um longa e, ao mesmo tempo, o primeiro episódio da série I.R.M.A. – Invasão Russa na Mata Atlântica e está em fase de edição e finalização. O filme poderá ser visto em sessões para convidados, on-line e presenciais, a partir de maio.
O trabalho, explicam as criadoras do projeto, “tem a marca da força feminina: além de ter como personagem principal uma mulher indígena interpretada pela atriz Célia Maracajá. A série é dirigida por Celina Sodré e Clara Choveaux e tem a direção musical e a trilha sonora original, assinada por outra mulher, a pianista e compositora Raisa Ritcher”.
Trata-se da estreia de Celina Sodré e Clara Choveaux como diretoras de cinema e, também, traz o lançamento da novíssima Companhia de Cinema I.R.M.A. O projeto ganhou, em dezembro de 2020, o fomento do Desenvolve Cultura, Edital Aldir Blanc, da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro. Mais de 30 atores participaram, na segunda quinzena de fevereiro, da filmagem desse primeiro episódio, Murundu de Livros, dentro de uma floresta, na serra carioca, em Nova Friburgo (RJ). A trama, noturna, mescla a Mata Atlântica, com personagens russos, questões ambientais e literatura.
Entre árvores e em torno de uma fogueira, surgem personalidades como Fiodor Dostoievski, Tchecov e Tolstoi. Além de Célia Maracajá como a Indígena Contemporânea e Henrique Gusmão como Homem Branco, participam da trama Bruce Gomlevsky como Vsevolod Meyerhold, Jefferson Schroeder como Anton Tchecov e Miwa Yanagizawa como Akira Kurosawa. São ao todo 32 atores, que desenvolvem trabalhos em parceira com a diretora de teatro Celina Sodré no Instituto do Ator, localizado na Lapa (RJ). Grande parte desse elenco interpreta os personagens dos livros e filmes dos autores e cineastas que estão nos títulos do ‘murundu’.
Nesse roteiro, desenvolvido por Celina Sodré e Henrique Gusmão, os remédios são os próprios livros e a cura vem das palavras. E a temática do meio ambiente ultrapassa as fronteiras da ecologia dos noticiários jornalísticos e passa para o âmbito artístico. Quem assina a direção de fotografia de I.R.M.A. é Dudu Mafra. A produção da série com os quatro episódios faz parte das comemorações dos 30 anos do Studio Stanislavski, companhia teatral fundada em 1991, por Sodré, no Rio de Janeiro.
Elenco de Murundu de Livros:
Aercio Bloris, Aléssio Abdon, Amanda Brambilla, Ana Andrade, Ana Clara Hibner, Branca Temer, Bruna Felix, Bruce Gomlevsky, Carlos Tonelli, Carolina Exaltação, Célia Maracajá, Conrado Nilo, Evelin Reginaldo, Henrique Gusmão, Igor Federici, Israel Eyer, Jefferson Schroeder, Jonyjarp Pontes, Layra Guimarães, Leonardo da Selva, Marcus Fritsch, Maria Marinho, Mariana Rosa, Michael Sodré, Miwa Yanagizawa, Raisa Richter, Raíza Rameh, Rogério Klein, Valquiria Oliveira e Tássia Leite.
Legenda:
Criado em 2021-03-13 17:14:25
A Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP), vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nota oficial conclamando o país para a “urgente necessidade de ética na política”.
Eis a íntegra da nota:
“Ao longo do corrente ano, a nação brasileira tem sido surpreendida por inquietantes notícias, referentes ao comportamento do Presidente da República, que incluem confissão de atos ilícitos, obstrução da Justiça, envolvimento com milícias, hostilidade contra dignitários estrangeiros, ataques violentos aos meios de comunicação, postagens nas redes sociais incompatíveis com o decoro do cargo, violação da Constituição pela incitação a atos ilegais, ofensas e ameaças à autonomia da Suprema Corte e a seus membros, apoio a práticas de tortura pelos órgãos de repressão.
Tudo isso vem contribuindo para um clima de confronto e desrespeito, incompatível com uma convivência minimamente civilizada necessária ao diálogo democrático. Tais descalabros se repetem a cada dia, sem que os mecanismos constitucionais que dão estabilidade ao Estado Democrático e são os garantidores da ordem jurídica, façam valer o sistema de pesos e contrapesos necessários a coibir estes excessos, incompatíveis com o cargo exercido, bem como evitar um estado de anomia, de exceção e autoritarismo, gerando o temor de que o país seja levado a um impasse democrático.
O noticiário escandaliza a opinião pública, ao divulgar as atitudes do chefe do governo e de seu grupo mais próximo, relatando fatos absolutamente inaceitáveis, tais como, considerar hienas predadoras da ordem democrática, órgãos públicos ou entidades privadas, merecedoras do mais profundo respeito, como o Supremo Tribunal Federal, a Ordem dos Advogados do Brasil e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. As universidades federais, os sindicatos, os movimentos sociais, também não são poupados. Até mesmo regiões geográficas do país como a Amazônia e o Nordeste, atingidas por profundos desastres naturais ou provocados, têm sido ignoradas, tratadas de forma não republicana, num menoscabo ostensivo incompatível com o equilíbrio federativo. A Constituição da República parece não mais vigorar.
Minimizar estes graves desvios éticos, considerando-os dificuldades naturais ao processo político-institucional, caracterizam uma indiferença que não contribuirá para a superação dos momentos difíceis que se estão anunciando. É urgente que os democratas brasileiros não se omitam e, como já o fizeram em momentos anteriores, enfrentem o desafio de participar da luta para assegurar ao país a tranquilidade merecida, restaurando-se a Ética na Política.
Cabe lembrar o que afirma o Papa Francisco na Exortação “Alegria do Evangelho” (n.57): “a ética é sentida como uma ameaça, porque condena a manipulação e a degradação da pessoa”.
Assim, todos nós, civis e militares, empresários e trabalhadores, estudantes, servidores públicos, mulheres e homens, temos o direito e o dever cívico de levantar a nossa voz para defender a soberania do país, nossas riquezas, os direitos do povo e o futuro do Brasil, com Justiça e Paz.
É urgente a implantação da ÉTICA NA POLÍTICA”.
Brasília, 8 de novembro de 2019
Comissão Brasileira Justiça e Paz - Coordenação
Criado em 2019-11-10 02:02:54
Antônio Carlos Queiroz (ACQ)
É tempo de incerteza e aflição, tempo de ler poesia, hora de ler o poema Corona, de Paul Celan (1920-1970), o grande poeta judeu-romeno de expressão alemã.
Qual é o objeto desse poema? Memória do Holocausto ou lembrança de seu caso com a poeta austríaca Ingeborg Bachmann (1926-1973) na destroçada Viena de 1947-8?
É tempo de revelar ao público o sublime amor de um casal no escurinho do quarto ou hora de dizer toda a verdade sobre as atrocidades da guerra? Andando no fio da navalha, Celan deixa as interpretações em aberto.
Corona pode ter relação com a coroa da cápsula de uma papoula (Papaver somniferum), de que se extrai o ópio. O título do poema pode ter sido inspirado nas coroas de papoula com que os ingleses relembram até hoje a catástrofe da Primeira e da Segunda Guerra Mundial.
Sheridan Burnside, da Universidade de Londres, propôs o conceito de senselessness - falta de sensibilidade por anestesia - para a interpretação de Mohn und Gedächtnis (Papoula e Memória, 1952), o livro de Celan com o poema Corona.
Para que suportasse a memória do Holocausto ou as suas frustrações amorosas, Celan precisou sentir-se meio anestesiado, como se estivesse sob o efeito do ópio ou da morfina. Aqui se misturam outras lembranças afetivas, como os bolos de sua infância na Romênia, cobertos com sementes de papoula.
Acontece que as trevas conquistaram o ópio. O poeta suicidou-se no dia 20 de abril de 1970, afogando-se no Sena, em Paris.
À guisa de esperança, irmã siamesa do medo, acrescento: só podemos ver a coroa do Sol durante um eclipse.

Corona
Paul Celan/ACQ
O outono come sua folha na minha mão: somos amigos.
Tiramos o tempo da casca das nozes e o ensinamos a sair:
o tempo volta pra casca.
No espelho é domingo,
no sonho a gente dorme,
a boca diz a verdade.
Meu olho baixa até o sexo da amada:
nós nos olhamos,
murmuramos escuridões,
nos amamos como papoula e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
como o mar no raio de sangue da lua.
Ficamos abraçados na janela, eles nos veem da rua:
está na hora de saberem!
Está na hora da pedra se dispor a florescer,
da inquietação disparar o coração.
Chegou a hora da hora.
Está na hora.
Paul Celan
Aus der Hand frißt der Herbst mir sein Blatt: wir sind Freunde.
Wir schälen die Zeit aus den Nüssen und lehren sie gehn:
die Zeit kehrt zurück in die Schale.
Im Spiegel ist Sonntag,
im Traum wird geschlafen,
der Mund redet wahr.
Mein Aug steigt hinab zum Geschlecht der Geliebten:
wir sehen uns an,
wir sagen uns Dunkles,
wir lieben einander wie Mohn und Gedächtnis,
wir schlafen wie Wein in den Muscheln,
wie das Meer im Blutstrahl des Mondes.
Wir stehen umschlungen im Fenster, sie sehen uns zu von der Straße:
es ist Zeit, daß man weiß!
Es ist Zeit, daß der Stein sich zu blühen bequemt,
daß der Unrast ein Herz schlägt.
Es ist Zeit, daß es Zeit wird.
Es ist Zeit.
Criado em 2020-04-04 21:35:09
Lúcia Iwanow (*) –
A hora do acerto de contas chegou mais cedo do que se pensava e alguns devem ao Brasil, no mínimo, um tardio pedido de perdão por terem levado o País, seu povo e a eles próprios à sordidez e ao desespero que hoje vivemos. Tempos de trevas que levaremos tempo para superar.
Primeiramente, responsabilizemos aqueles e aquelas que consideraram que não era nada grave votar num político racista, violento, homofóbico, machista; um ser inculto, desqualificado e despreparado; que faz apologia do estupro, da violência; que defende ditadura e tortura; que defende a supremacia branca; que defende a morte dos mais vulneráveis, como favelados, índios, mulheres, negros, crianças, idosos, deficientes; que é contra tudo que lembre igualdade e direitos; que é contra os serviços públicos de saúde, educação, energia, num país de desempregados ou subempregados; que é contra ciência, educação, pesquisa, tecnologia; que odeia solidariedade entre os povos, civilidade, cultura e civilização; que incentiva e apoia a destruição da natureza; que permite envenenar as pessoas com agrotóxicos proibidos no mundo todo.
E ele, o presidente sociopata, só está fazendo o que prometeu durante o tempo todo em seus quase 30 anos inúteis de parlamentar. Então, não se pode se fingir surpresa diante da barbárie que ele instalou no Brasil.
Não acharam, ainda, que era irresponsabilidade colocar na Presidência da República alguém que levaria o Brasil ao estado de colônia dos Estados Unidos; ao status de república evangélica neopentecostal, com todo o atraso que isso implica.
Tudo bem votar numa pessoa que sequer disse qual era seu plano de governo. Um cara que só pregou ódio e atraso. Um cara, comprovadamente, envolvido em tudo o que é tipo de crimes. Um miliciano! Ele e a família de delinquentes!
Nazifascistas cordiais - Mas devemos esse estado de coisas também e principalmente, aos homens e mulheres ditos de bem, pacatos, boa gente, simpáticos, bem falantes, caridosos, religiosos, os nazifascistas proverbialmente cordiais, que acharam e acham que tudo bem tirar uma presidenta honesta, que não cometeu crime algum contra seu povo e seu país:
- que tudo bem se ela recebeu o tratamento mais indigno, machista e desrespeitoso que se pode dispensar a uma mulher;
- que tudo bem se um juiz rasga a Constituição, lei maior de uma nação, para perseguir um operário, que nada fez de mal ao Brasil, pelo contrário, tirou 36 milhões de brasileiros da miséria e elevou o Brasil ao patamar de nação civilizada;
- que tudo bem se os direitos da classe trabalhadora, que levaram séculos e ceifaram vidas para serem conquistados foram destruídos;
- que tudo bem se o Brasil é um dos países mais perigosos do mundo pra mulheres e crianças viverem;
- que acham normal 1% da população deter 50% das terras de um dos maiores territórios nacionais do mundo; que acumulam terras improdutivas, mas acham que os povos originários não têm direito ao seu quinhão e muito menos, ainda, os que plantam e produzem alimentos saudáveis;
- que tudo bem se o Brasil, ainda hoje, tem a cara das capitanias hereditárias, status a que gostariam de voltar, pensando, sempre, que estarão na casa grande e não na senzala;
- que tudo bem assinar embaixo da injustiça e, ainda, fazer galhofa, porque têm a Lula um ódio de classe sem limites, quando na verdade, não são ricos, não detêm os meios de produção; são apenas sabujos!
- que tudo bem fingir não saber muito bem que se o Papa, Obama, Putin, líderes do mundo inteiro respeitam o operário, é porque sabem que ele não é criminoso, mas vítima da elite mais cruel e atrasada do mundo e que foi preso apenas para não se eleger presidente mais uma vez. Aplaudem a farsa gigantesca!
E, que maravilha, com a raiva de um homem a quem falta um dedo, fazendo eco aos meios de comunicação mais venais do mundo e a pastores vendilhões do templo, elegeram outro a quem faltam cérebro e humanidade.
Essa gente - Essas pessoas de bem nunca se movimentaram pra punir os verdadeiros bandidos. Nunca participaram de qualquer mobilização por Justiça, por direitos e, agora distribuem textos piegas, falsamente indignados com corrupção, com impunidade, como se não fossem eles mesmos corrompidos pela leniência, pela omissão e pela indiferença.
Defendem, na maior cara de pau, sem sequer saber direito do que falam, condenação em 2ª instância para todos, quando nunca se interessaram por isso, mas agora querem mirar Lula, achando que enganam alguém.
Na verdade, das profundezas de suas mentes obtusas, de suas almas opacas, de sua cultura aligeirada, acham que bandido bom é bandido morto, desde que seja bandido pé de chinelo, favelado, ladrão de galinha, porque foram às ruas junto com os maiores bandidos desse País para impedir qualquer perspectiva de igualdade que vinha sendo construída pelos governos do PT.
“Lutavam contra a corrupção do PT”, um partido que fez 40 anos, num País que tem 520 anos, cuja elite sempre foi de direita e, sim, a mais corrupta do mundo.
Ah, “esquerda e direita são iguais”, “Todos os políticos são iguais”, e baixam o tom de voz revirando os olhinhos, sabendo que estão enganando um interlocutor menos favorecido pela educação, pela informação, pelo discernimento. Igualando todos – honestos e desonestos – no consenso dos iguais na vilania e na mediocridade.
Gente que quer país padrão Fifa, mas sonega impostos. Cheios de deus no coração, não conhecem o sentimento de empatia, que é colocar-se no lugar do outro e sentir sua alegria e sua dor.
O Brasil tem 1% de ricos, que elegem, com financiamento privado de campanha, um Congresso Nacional que lhes defende os interesses. Os omissos e omissas são a massa de manobra desse 1% muito rico, mas não se enxergam, ou se envergonham!
Mesquinhos e cínicos fazem parte daqueles que fizeram de Jesus Cristo, ao longo dos séculos, a figura em nome de quem mais se espoliou, se torturou, se discriminou e se matou.
Genocídio - Agora, vem um vírus que não enxerga se a pessoa é rica ou pobre, mas que, obviamente, matará mais os mais pobres.
E o presidente brinca com a vida de milhares de brasileiros e nos expõe ao mundo como o país mais boçal da terra. Nós, que éramos admirados, viramos párias. Um país de imbecis!
E, com seus aliados, os empresários podres de ricos, considera que tudo bem, o vírus só matará velhos e ainda se dá ao desfrute de receitar remédio que não foi aprovado pela comunidade científica em nenhum outro país!
Um presidente que cometerá o maior genocídio de que se terá notícia nos últimos séculos, deseducando, mentindo, descaracterizando a doença e a tragédia que virá se ele continuar impunemente a infectar, não apenas os corpos, mas as mentes de população desamparada e sem comando.
Tenho medo dessa gente: dos eleitos e de seus eleitores! Nesse momento grave, escutemos os cientistas, os educadores, os políticos e as autoridades que têm responsabilidade com o povo!
E que ele, o presidente boçal e seus asseclas sejam apeados do governo deste país infeliz. Impeachment ou interdição! O que for mais rápido, antes que seja mais do que tarde!
Quem sabe, assim, nos salvemos!
_________________________
(*) Maria Lúcia de Moura Iwanow é co-fundadora do Sinpro-DF, da CNTE, da CUT e do DNTE/CUT.
Criado em 2020-04-13 15:57:58
Chega às livrarias nos próximos dias a nova obra da escritora italiana Silvia Federici. O livro intitulado, O patriarcado do salário – notas sobre Marx, gênero e feminismo – traz ao leitor uma série de artigos que abordam a relação entre marxismo e feminismo do ponto de vista da reprodução social.
A filósofa italiana retoma as diversas discussões presentes nas obras de Karl Marx e Friedrich Engels e aponta como “a exploração de trabalhos, como o doméstico e o de cuidados, exercido pelas mulheres sem remuneração, teve e tem papel central na consolidação e na sustentação do sistema capitalista”, informa a nota de divulgação da Editora Boitempo.
A obra também revisita a crítica feminista ao marxismo e traz para o debate “perspectivas contemporâneas sobre gênero, ecologia, política dos comuns, tecnologia e inovação, Federici reafirma a importância da linguagem, dos conceitos e do caráter emancipador do marxismo. Ao mesmo tempo, esclarece por que é preciso ir além de Marx e repensar práticas, perspectivas e ativismo a fim de superar a lógica social baseada na propriedade privada e desenvolver novas práticas de cooperação social”.
Sobre a autora

Silvia Federici (foto, acima) nasceu na Itália em 1942 e é escritora, professora e militante feminista. No fim da década de 1960, mudou-se para os Estados Unidos. Lá, em 1972, ajudou a fundar o International Feminist Collective (Coletivo Internacional Feminista) e, então, lançou uma campanha por salários para o trabalho doméstico. Pela Editora Boitempo, em 2019, publicou Mulheres e caça às bruxas.
Trecho do livro
“Depois que a esquerda aceitou o salário como a linha divisória entre trabalho e não trabalho, produção e parasitismo, uma enorme parcela do trabalho não assalariado que as mulheres realizam dentro de casa para o capital passou despercebida das análises e estratégias de esquerda.
De Lênin a Gramsci, toda a tradição da esquerda concordou com a ‘marginalidade’ do trabalho doméstico para a reprodução do capital e com a marginalidade da dona de casa para a luta revolucionária. Para a esquerda, na condição de donas de casa, as mulheres não sofrem por causa da evolução capitalista, mas pela ausência dela.
Nosso problema, ao que parece, é que o capital não organizou nossas cozinhas e nossos quartos, o que gera uma dupla consequência: a de que nós aparentemente trabalhamos em um estágio pré-capitalista e a de que qualquer coisa que fazemos nesses espaços é irrelevante para a transformação social. Pela lógica, se o trabalho doméstico é externo ao capital, nossa luta nunca causará sua derrocada.”
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Serviço:
Título: O Patriarcado do Salário – Volume I
Autora: Silvia Federici
Tradução: Heci Regina Candiani
Editora: Boitempo
Criado em 2021-03-11 15:32:15
Bruno Ávila, Manuella de Carvalho Coelho e Wilde Cardoso Gontijo Júnior (*) –
Nos próximos meses, Brasília completará 60 anos. Talvez o ícone maior do urbanismo modernista, nossa cidade, no entanto, já não respira os modernos ares dos anos dourados.
Na década de 1960, o modernismo começava a dar sinais de falência nas maiores cidades do planeta, mas, no Brasil e para muitos brasileiros, Brasília, símbolo de um país que rumava para o futuro como grande potência mundial, era onde as ideias mais brilhantes e o modo de vida mais moderno poderiam encontrar refúgio. O modernismo e o moderno se fundiam nas cabeças dos moradores da nova capital do país.
Esse modernismo, no entanto, impôs à cidade duas grandes características. A primeira era o zoneamento dos usos definindo a ocupação da cidade – as atividades seriam “organizadas” no espaço de forma a criar nichos para hospitais, hotéis, bancos, autarquias, garagens, gráficas e comércio em geral. A segunda estabelecia o modo de transporte rodoviário como a forma predominante de deslocamento pelas “vias” da cidade.
Apenas a zona residencial das superquadras parece ter escapado dessa rígida organização: ali se projetaram prédios para moradia, mas também escolas, bibliotecas, postos de saúde, igrejas, clubes sociais, cinemas, postos de combustível, lojas de conveniência e comércio local – quase sempre diversificado. Nesse espaço também se permitiu às pessoas da vizinhança circular a pé em todas as direções por caminhos verdes, calçadas largas e com mínima interferência dos automóveis.
Os anos se passaram e essas áreas residenciais parecem cada vez mais vivas. Além da ocupação planejada, quiosques diversos se espalham pelas superquadras onde podem ser encontrados sapateiros, costureiras, chaveiros, bancas de revista, centros culturais, cachorros quentes, etc. As árvores cresceram, as pessoas fazem jogging ou passeiam com seus pets nas calçadas. Os pilotis ainda são praticamente de livre circulação e a segurança das pessoas é bastante razoável nos diversos períodos do dia e da noite.
Por outro lado, o centro da cidade, com espaços destinados a usos específicos, não se comporta da mesma forma. Vibrante durante o horário comercial em dias úteis são praticamente desertos durante a noite. Durante os finais de semana, a desocupação ocorre em todos os horários, exceção feita aos setores de diversões norte e sul.
Diagnóstico recente do centro da cidade mostra outras faces dessa situação. Cerca de 5.000 salas estão vazias nos vários setores, 1.600 somente no Setor Comercial Sul onde sete edifícios estão totalmente desocupados. São 70 os lotes para edifícios que se encontram vazios em todos os setores centrais. Concentrando muitas atrações comerciais, o centro da cidade não possui, mesmo com tais vacâncias, vagas para estacionamento de automóveis.
Os carros não cabem nos espaços oficiais e quase sempre invadem os espaços verdes ou as calçadas dos pedestres. As ruas e becos são ocupados por pessoas que vivem na rua e muitas áreas se transformaram em buracos para o consumo de drogas inviabilizando a circulação livre e segura das pessoas.
O centro do Plano Piloto está envelhecendo rápido demais e não cabe mais no conceito de cidade moderna – apesar de modernista. Sua área comercial mais densa já não se diferencia do centro das grandes cidades brasileiras – Jane Jacobs certamente incluiria Brasília no seu célebre livro, talvez invertendo seu título para Vida e Morte de Grandes Cidades.
É preciso fazer reviver o centro de Brasília incorporando as pessoas durante todo o tempo na vida de seus espaços urbanos. Um exemplo de sucesso existe aqui e pode ser nossa referência: as superquadras, onde os usos múltiplos estão cada vez mais presentes e a modalidade de transporte principal pode ser o andar a pé ou de bicicleta.
Todos nós conhecemos pessoas que prestam serviços trabalhando em seus apartamentos nessas zonas ditas residenciais e já não precisam de carro para o deslocamento diário.
É hora de discutir a moradia no centro da cidade, para as mais diversas faixas de renda, de forma complementar às demais atividades existentes, dinamizando seus lugares para a ocupação segura das pessoas. Brasília precisa voltar a ser moderna de novo.
__________________
(*) Bruno Ávila, arquiteto e urbanista, do Instituto de Urbanismo Colaborativo (Courb), Manuella de Carvalho Coelho, arquiteta e urbanista, do Movimente e Ocupe seu Bairro (MOB) e Wilde Cardoso Gontijo Júnior , engenheiro, da Associação Andar a Pé – o Movimento da Gente (Andar a Pé).
Criado em 2019-11-22 01:02:33
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Pã, pã, pã… pã!
Batem as panelas!
Ponderam os pandeiros!
Pã, pã, pã… pã!
Fora, panaca!
Fora, pangaré!
Fora, pancista!
Fora, pancrácio,
filhotes e paniguados!
Pã… pã, pã, pã!
Abaixo a pandilha!
Abaixo a panelinha!
Abaixo o pântano!
Pã, pã… pã!
Controlar o pânico
e a caixa de Pandora!
Pã, pã, pã… pã!
Sem panem no pandu nem circenses!
Pampeiro na economia em pandarecos!
E o pândego pançudo pregando:
“Sem pão, comam pandeló”!
Pã, pã, pã, pã… pã!
Não se faz política com o pâncreas,
mas precisamos parar a pantomima
pior que a pandemia!
Com pancada, talvez!
A paz a gente comemora com
canções de uma flauta de Pã!
Criado em 2020-04-02 20:54:08
Wilde Cardoso Gontijo Junior (*) –
Recentemente o Governo do Distrito Federal colocou uma placa de propaganda da recuperação do Eixo Rodoviário de Brasília. O asfalto foi renovado, as faixas de rolamento repintadas e os taxões que separam a “faixa presidencial” central recolocados.
O Eixão foi reformado, mantendo suas mesmas características rodoviárias. Foi recuperada sua situação original.
No entanto, apesar de tantos re-isso, re-aquilo, a manchete estampada na placa do GDF foi questionada por alguns: Revitalização do Eixão? Será que esse termo cabe bem para representar o que foi realizado pelo governo? Uma obra como essa revitaliza essa rodovia?
Para responder a tal questão podemos recorrer ao Aurélio: revitalização é o conjunto de medidas que visam criar nova vitalidade, dar novo grau de eficiência a alguma coisa. O mesmo dicionário diz que tal substantivo é aplicado à revitalização de um conjunto urbanístico, de uma região, por exemplo.
Diria sem pestanejar que, segundo o Aurélio, o que foi feito deu nova vida ao asfalto e poderia sim ser chamado revitalização.
Poderíamos ainda recorrer às definições do Código de Trânsito do Brasil. Afinal, muitos em Brasília talvez não saibam, mas o Eixão é classificado como RODOVIA e está sob a responsabilidade do Departamento de Estradas de Rodagem.
Segundo esse Código, rodovia é uma via rural pavimentada. Pode soar estranho: uma via rural? Essa é a definição oficial no país e é assim que foi assumido pelos tomadores de decisão em Brasília: uma rodovia no centro da cidade.
Imagina-se, então, que tal rodovia estava em decadência no exercício de suas funções e, para revitalizar sua capacidade de rodagem de veículos, torná-la mais eficiente no exercício de sua função, nada como melhorar o pavimento e a sinalização da pista.
Diria mais uma vez sem qualquer dúvida: isso foi realmente feito! A rodovia Eixão está mais pronta do que nunca para ser uma via eficiente, fazendo rodar em seus quase 14 quilômetros, os veículos individuais que trazem e levam milhares de brasilienses todos os dias.
Resolvida a questão etimológica, a pergunta que não quer calar é: por que no título desse artigo foi feita referência ao mais famoso personagem da nossa atualidade – esse tal coronavírus. O texto e o título desse artigo se referem ao mesmo assunto?
Afirmaria peremptoriamente: sim, é o mesmo artigo. E vou tentar explicar o porquê.
O Eixão original, conforme proposto pelo seu idealizador, revitalizado ou não, dividiu a cidade em duas partes totalmente distintas. Acima ou abaixo dele, as pessoas circulam, se encontram, convivem. A cidade está viva nessas partes. As árvores florescem e envolvem as residências e os comércios, as igrejas e as escolas. A vida acontece.
Entre as duas partes, no entanto, existe o Eixão. Seco, sem árvores e onde não se pode ver a gente da cidade. Poderoso muro formado por veículos em velocidade, sem obstáculo algum, sem semáforos, sem passantes a pé para atrapalhar seu desfile majestoso pela via urbana. Piso perfeito, sinalização exclusiva, soberano que passa por Brasília sem vê-la, sem se relacionar com quaisquer das partes, sem conviver com a cidade, sem precisar da sua gente.
O Eixão é o maioral do isolamento social na cidade. Com ele ninguém pode. Com ele não há conversa, devemos aceitá-lo como ele é: não tem vacina. Aos domingos, permite-se um afrouxamento a esse isolamento cotidiano: das 7 às 18 horas ele descansa e abre-se aos cidadãos. Já não é a rodovia dos carros, é o Eixão do lazer. A partir do final do dia, no entanto, retoma seu posto para que, impune, volte a impor o distanciamento social aos brasilienses. É assim e ponto.
É o nosso coronavírus urbano. Agora revitalizado. Os acidentes entre veículos e pessoas já lhe proporcionaram o apelido de Eixão da Morte. Mas ele vive e, agora, revitalizado "revive". As pessoas devem passar por baixo de suas faixas de rodagem, em passagens sujas, escuras, perigosas. Parecem escombros de uma cidade bombardeada na guerra. Mas ele está lá: ao ar livre, limpo, renovado, protegido desses seres que submergem sob seu asfalto.
Revitalizado? Sim, forte como nunca, os carros consolidam sua hegemonia “nas cidades”: a de cima e a de baixo.
O coronavírus provavelmente encontrará sua vacina e nos deixará. Poderemos voltar a nos encontrar, nos abraçar, nos beijar.
E “as cidades”, vão se encontrar algum dia? Quem sabe algum dia ela possa ser efetivamente uma única Brasília, conectando suas partes, enchendo suas ruas de vida, de gente, sem isolamento social promovido por criações do próprio ser humano – nossos vírus, sejam carros ou rodovias em plena malha urbana. Propostas existem. Quem sabe.
A seguir, proposta de revitalização do Eixão feita por Amanda Sicca – canteiro central com árvores, passagens de pedestres e semáforos.


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(*) Wilde Cardoso Gontijo Junior, coordenador da Associação Andar a Pé – o Movimento da Gente.
Criado em 2020-04-12 18:05:38