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Página 47 de 95

Os EUA nasceram com as mãos nos coldres

Laurez Cerqueira –

Os Estados Unidos nasceram com as mãos nos coldres, prontos para sacar os Colt 45. Cresceram, são a maior potência do mundo. O futuro prometido, de referência da democracia, que até Karl Marx botou fé, deu lugar a um país terrorista, o mais temido da face da terra. Matam até os seus, em massacres nas escolas, nas ruas, presidentes da República, seus cidadãos, pela polícia, com ódio racista.

A morte é parte da vida da nação do norte desde criança. Ao ponto de varrerem do mapa duas cidades, Hiroshima e Nagasaki, no Japão, despejando bombas atômicas sobre populações de famílias indefesas, bombas napalm, incendiárias, agente laranja, sobre bairros civis, escolas e comunidades agrícolas, no Vietnam. Desde então, espalharam bases militares pelos quatro cantos, com armas apontadas para quem escolheu outro modo de vida e não aceita o domínio de suas corporações empresariais, bancárias, e seus negócios coloniais.

Têm a maior máquina de mídia e de propaganda do estilo de vida e do poder bélico, para justificarem as atrocidades e as invasões a países vulneráveis ao arsenal militar e o poderio econômico e político de suas corporações.

Montaram a indústria da guerra e academias militares, que formam monstros assassinos para atuarem como policiais do mundo. Por onde passam deixam rastros de sangue.

Uma parte da população é admirada e respeitada, por ter conseguido insurgir e sedimentar a democracia com valores e ideais de justiça e liberdade. Mas do ventre da sociedade também nasceu um poder marginal com seus  embaixadores da morte, que se espalharam pelo mundo em legiões para subordinar países aos seus interesses.

Justas ressalvas e homenagens devem ser feitas às cidadãs e cidadãos que lutam pela democracia real, contra a estupidez que se formou nos Estados Unidos e lhes deram como filho da escravidão humana, Wall Street, a mais terrível engrenagem do capitalismo especulativo, de geração da pobreza e da fome.

Nos Estados Unidos, famílias têm armas em casa como   utensílio doméstico. Pais dão armas de brinquedo  e de verdade  aos filhos, como presentes de Natal, para aprenderem a brincar com a morte.

Um país onde se mata presidentes eleitos como Abraham Lincoln, James Abraham Garfield, John Fitzgerald Kennedy, pratica atentado como aconteceu com Ronald Reagan, persegue e mata os seus como no macarthismo, fuzila crianças e jovens nas escolas, vive-se com o dedo no gatilho e as mãos sujas de sangue.

Aquele atirador de Las Vegas, que fuzilou 59 pessoas, ferindo mais de 100 outras, estava com dez fuzis no quarto do hotel, de onde disparou contra 40 mil pessoas que se divertiam num show.

Nestes tempos de pós-verdade, a jornalista Karen Armstrong, que escreveu Campos de Sangue e A História da Violência, denuncia a construção do inimigo, pelos Estados Unidos, utilizando a religião, para justificar as invasões bárbaras e a subordinação de países indefesos. Afinal, a indústria de armamentos está a todo vapor, fabricando armas para atender a demanda das guerras. As ações das empresas estão girando nas bolsas fazendo milionários.

Há países onde reinam a democracia e a paz entre os seus. Há armas nas mãos de quem mora nos Estados Unidos. Há flores nas mãos dos povos da Finlândia, Islândia, Noruega, Dinamarca, Holanda, Suíça, Suécia e outros países desenvolvidos, de cidadania avançada, que estão fechando presídios, transformando-os em escolas, teatros, bibliotecas, museus, para a educação integral da sociedade.

Os Estados Unidos não conseguem ser referência de sociedade civilizada por terem construído seu caminho com sangue, lágrimas e nunca terem conseguido superar a pobreza extrema de parte de seus cidadãos, o racismo, a discriminação de classe, o ódio, o militarismo e a guerra. São referências bélicas, de ganância, de doenças sociais graves, de ter a maior população carcerária do mundo, e de ser o furacão da decadência do capitalismo selvagem.

Não se trata de condenar uma nação. Mas, cuidado! Ela anda com a mão no coldre!

Criado em 2020-08-29 23:59:03

Festival de Cinema Luz da África

O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-Brasília) apresenta a mostra de filmes de diretoras africanas, ou afrodescendentes, premiados pelo New York African Film Festival. Luz da África vai ao ar de 1/9 a 19/9, com exibições on-line na plataforma www.bb.com.br/cultura.

A mostra acontece presencialmente de 1 a 5 de setembro, no cinema e demais espaços do CCBB, e em formato on-line de 6 a 19 de setembro.

Nessa plataforma haverá rodas de conversas virtuais com realizadoras e curadoras. Cada filme ficará disponível por apenas um dia, no período das 19h às 23h59.

A programação inclui projeção de filmes, shows musicais, rodas poéticas, contação de histórias, oficinas de bonecas, conversas virtuais etc. Veja aqui a página da mostra no Facebook.

“É assim que se cria uma única história: mostre um povo como uma coisa, como somente uma coisa, repetidamente, e é o que ele se tornará. A consequência de uma única história é que ela rouba das pessoas sua dignidade”. Essas são as palavras da escritora e ativista nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie que inspiram a primeira edição no Brasil de Luz da África, mostra de cinema produzido por diretoras africanas ou afrodescendentes, de diferentes nacionalidades e variados gêneros.

Essa edição de Luz da África vai apresentar 13 filmes selecionados entre a produção cinematográfica recente assinada por mulheres e premiada nas edições de 2017 a 2020 do NYAFF – New York African Film Festival, que acontece há 30 anos e que trabalha para dar visibilidade às artes e à cultura de países africanos. O recorte curatorial se concentrou na cinematografia feminina e leva a assinatura da atriz e ativista Maria Gal, da produtora e diretora Carina Bini e da música e pesquisadora Alissa Sanders.

A primeira semana será marcada pela abertura da mostra de forma0 presencial. Serão realizadas exibições ao ar livre, no Cinema do CCBB (mediante a retirada de ingressos para um número limitado de espectadores) e atividades como contação de histórias, roda de poesia, apresentações musicais e homenagens a países africanos em outros espaços do CCBB, na área externa. As atividades contam com a parceria de Embaixadas de países africanos no Brasil e seguirão os protocolos de segurança e prevenção à Covid-19.

O Festival – Durante 19 dias, o público brasileiro poderá conhecer um pouco da vida, da cultura e também das questões sociais que caracterizam a realidade de diferentes países, através do olhar e do pensamento de realizadoras africanas.

Dentre os 13 títulos selecionados pela curadoria, estão produções como Subira, de Ravneet Chandha, sobre uma mulher de espírito livre que luta contra os costumes tradicionais do país. De 2018, o filme foi o primeiro a ser indicado ao Oscar pelo Quênia. Também queniano, Lua Nova, de Philippa Ndisi-Herrmann, recebeu vários prêmios em 2018 ao abordar os impactos da construção de um moderno porto sobre a vida de uma pequena ilha islâmica.

A programação inclui ainda Min Alesh?, filme etíope de 2019, que fala sobre a paixão de uma mulher pela corrida e de como esse esporte pode ajudar a mudar a vida de toda a família. Também O Som das Máscaras coprodução Moçambique, África do Sul e Portugal, que promove uma viagem pelo passado e presente de Moçambique, através da dança e da contação de histórias.

A mostra contempla a produção brasileira, com filmes assinados por diretoras negras. Atual diretora da SPCine, a cineasta Viviane Ferreira assina Um dia com Jerusa, que tem a grande atriz Léa Garcia no elenco e que apresenta um tocante retrato de diferentes gerações de mulheres negras de São Paulo.

Da diretora Renata Martins, Luz da África exibe Sem Asas, que ganhou o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de Curta-metragem em 2019 e que apresenta uma história comovente e infelizmente bastante recorrente no Brasil. E a cineasta Sabrina Fidalgo comparece com duas produções, Alfazema e Rainha. Sabrina foi eleita pela publicação norte-americana Bustle como a oitava dentre as 36 diretoras do mundo que estão mudando os paradigmas em seus países.

Segundo informa a curadora e diretora da mostra, Carina Bini, a curadoria se preocupou em apresentar a multiplicidade de linguagens deste universo das narrativas com protagonismo feminino de diversas nacionalidades. “Acredito que os filmes da mostra trazem um olhar destas mulheres potentes, retratando a diversidade cultural que constitui o continente africano e todas as questões sociais que permeiam sua atualidade. Para nós, é mais uma ponte para nos aproximar e nos fazer conhecer mais a fundo o continente africano. O olhar para a cultura africana nos leva ao espelhamento de nós mesmos, num resgate de nossas raízes e ancestralidade que permeiam a grande maioria da população brasileira.”

A atriz e produtora Maria Gal, uma das curadoras, celebra a realização da mostra no momento atual do Brasil: “Poder contribuir para apresentar filmes que trazem representatividade de forma tão diversa é algo muito especial e simbólico neste momento em que a sociedade brasileira está mais atenta à pauta racial em contraposição com a realidade brasileira em que narrativas pretas assim como profissionais pretos na frente e por trás das câmeras ainda são tão invisibilizados”.

Programação

Semana presencial – de 1 A 5/9

Quarta, 1/9
19h – Pocket show “Luz da África”, com a cantora brasiliense Nãnan e o musicista convidado: Henrique Alvim
Local: Área Externa do CCBB-Brasília
20h – Exibição filme “Subira”
Local: Cinema CCBB-Brasília

Quinta, 2/9
19h – Exibição filme “Min Alesh?”
Local: Cinema CCBB-Brasília

Sexta, 3/9
19h – Dia em homenagem ao Gana, com performance cultural de música e dança realizada em parceria com a Embaixada de Gana no Brasil
Local: Área Externa do CCBB-Brasíia
20h – Exibição filme “Prof. Busia: o legado” (Sessão Especial Embaixada de Gana)
Local: Cinema CCBB-Brasília

Sábado, 4/9
17h – Roda “Conexões Poéticas à Sombra do Baobá” – com o Grupo Griot Legacy
Local: Área Externa do CCBB-Brasília

Domingo, 5/9
15h e 16h – Roda de Contação de Histórias Africanas – Boneca Abayomi (duas rodas com público, seguindo protocolo de distanciamento pelo Covid-19. Atividade com retirada de ingresso.
Local: Área Externa do CCBB-Brasília
19h – Exibição filme “The Sound of Masks (O Som das Máscaras)’’
Local: Área Externa do CCBB-Brasília

Programação on-line

SEGUNDA, 06/09
20h – Abertura da mostra on-line, com show/Live de Lenna Bahule.
Presença das curadoras Maria Gal, Alissa Sanders e Carina Bini.
LOCAL: PLATAFORMA DA MOSTRA

TERÇA, 07/09
19h – Exibição filme “Um dia com Jerusa”
LOCAL: PLATAFORMA DA MOSTRA

QUARTA, 08/09
19h – Exibição filme “Subira”
LOCAL: PLATAFORMA DA MOSTRA

QUINTA, 09/09
19h – Exibição filme “Iemanjá, Sabedoria Ecológica no Coração do Brasil”
LOCAL: PLATAFORMA DA MOSTR

SEXTA, 10/09
19h – Exibição filme ‘’Vibrancy of Silence – A Discussion with My Sisters (Vibração do Silêncio)’’
LOCAL: PLATAFORMA DA MOSTRA

SÁBADO, 11/09
17h – Roda de conversa “Olhar feminino nos Diálogos Culturais”.
Convidadas:
Mahen Boneti - diretora do NYAFF (New York African Film Festival)
Abena Busia - Embaixadora da República de Gana no Brasil e curadoras da mostra
LOCAL: PLATAFORMA DA MOSTRA
18h – Exibição filme “Ouaga Girls (Garotas de Ouaga)”
LOCAL: PLATAFORMA DA MOSTRA

DOMINGO, 12/09
16h - Roda de conversa “Amefricanidades, a descolonização do pensamento”. Convidadas:
Amanda de Moraes - Psicóloga do Programa FIRMINAS – Academia de Liderança de Mulheres Negras
Lucimar Brasil – Jornalista com formação em Impacto Social
LOCAL: PLATAFORMA DA MOSTRA
17h – Exibição filme “Min Alesh?”
LOCAL: PLATAFORMA DA MOSTRA
19h – Exibição filme “New Moon (Lua Nova)”
LOCAL: PLATAFORMA DA MOSTRA

SEGUNDA, 13/09
19h – Exibição filme “Subira”
LOCAL: PLATAFORMA DA MOSTRA

TERÇA, 14/09
19h – Exibição filme “Prof. Busia: o legado”
LOCAL: PLATAFORMA DA MOSTRA

QUARTA, 15/09
19h – Exibição filme “In Search (À Procura)’’
LOCAL: PLATAFORMA DA MOSTRA

QUINTA, 16/09
18h – Exibição filme “Um dia com Jerusa"
LOCAL: PLATAFORMA DA MOSTRA
20h – Debate “Olhar da Mulher no Cinema”. Convidadas:
Viviane Ferreira - cineasta, roteirista, produtora, diretora da SPCine;
Carina Bini - diretora e curadora da mostra
Maria Gal – curadora da mostra
LOCAL: INSTAGRAM - @mariagalreal  @atman.filmes e @ccbbbrasilia

SEXTA, 17/09
19h – Exibição filme “The Sound of Masks (O Som das Máscaras)”
LOCAL: PLATAFORMA DA MOSTRA

SÁBADO, 18/09
17h – Exibição filme “Iemanjá, Sabedoria Ecológica no Coração do Brasil”
LOCAL: PLATAFORMA DA MOSTRA
19h – Exibição filme “Min Alesh?”
LOCAL: PLATAFORMA DA MOSTRA

DOMINGO, 19/9
19h – Exibição “Sessão Cinema Brasileiro”
“Sem Asas” (sessão acessível)
“Alfazema”
“Rainha”
Local: Plataforma da Mostra

Criado em 2021-08-28 17:05:13

Narciso ferido

Memélia Moreira –

Narciso debruçou-se sobre o
Potomac, que de tão calmo
refletia imagens tal qual
espelho e com orgulho,
perguntou: "espelho, espelho meu
existe alguém com mais
votos do que eu?"
As águas se revolveram
respondendo:
"Sim Don Narciso,
Biden venceu"

 Nas três últimas semanas, os Estados Unidos e o mundo, atônitos, se perguntavam quem seria o próximo presidente. Os votos anunciavam vitória incontestável de Joe Biden, candidato do Partido Democrata com 306 votos no Colégio Eleitoral – bastavam 270. Mas o Republicano Donald Trump, não aceitou a vitória do concorrente e entrou com mais de 30 ações para recontagem de votos em cinco estados diferentes. Perdeu todas as ações e no final da tarde desta segunda-feira, 23 de novembro, jogou a toalha e autorizou o início dos trabalhos da equipe de transição para o novo governo. Ufa!

Ainda na campanha, Trump tentou criar a situação de suspense na qual se viveu os últimos 20 dias. Nas dezenas de entrevistas concedidas a jornais e televisões de maio a novembro, o presidente dos Estados Unidos jamais respondeu uma pergunta: "Vai acatar o resultado das urnas?" E ele deixava no ar a dúvida sobre uma transição pacífica, mesmo sabendo que sairia da Casa Branca pelas mãos da polícia, ele mantinha o comportamento de quem jamais aceitaria um não do povo americano.

Esse comportamento indicou apenas que Donald Trump, embora tenha chegado a ocupar a mais alta posição no estado, desconhece a sociedade em que vive. Talvez nunca tenha se interessado em observar a rejeição absoluta que o povo desse país à quebra da constitucionalidade. Golpe de estado? Nenhum americano acreditou ou acredita nessa possiblidade. Golpe de Estado, pra eles, só é bom nos países em que o Império exerce seu domínio. Melhor dizendo, "países pobres e subdesenvolvidos".

A Flórida é um Estado que integra o conjunto de "estados-pêndulos", ou seja, uma hora vota num partido e em outra hora vota em outro. Diferente da Califórnia, por exemplo, que sempre vota no Partido Democrata. Ou do Texas que sempre elege o Partido Republicano. Mas a Flórida, nas cinco eleições que acompanhei, apenas uma vez elegeu um governador do Partido Democrata. E, nos 15 dias depois das eleições, conversei e entrevistei eleitores republicanos. Quis saber o que aconteceria se Trump perdesse. Foram algumas dezenas de pessoas. Todas elas votaram em Trump e todas elas deram a mesma resposta. "Se ele perder, ele sai e entra o novo presidente". E eu retrucava, "mas ele não quer sair". As pessoas me olhavam como se eu fosse estúpida e respondiam, "A Suprema Corte tira ele de lá".

A crença do povo americano nas suas instituições beira a uma religião fundamentalista. Por isso, as entrevistas de respostas dúbias do presidente do país nunca foram consideradas ameaças a um povo que, ao mesmo tempo em que tem baixíssimo interesse pelo processo eleitoral, tem a mais absoluta certeza de que as instituições não falham.

E carregam com orgulho o epíteto criado pela máquina de lavagem cerebral que funciona discreta, mas eficientemente nesse país que internalizou no povo a certeza de que os "USA, são a maior democracia na face da terra".

Contradizer essa certeza fere o orgulho nacional. Portanto, o medo de um golpe de Estado foi nosso, nós dos países sempre ameaçados pela "maior democracia do mundo". Uma certeza que chega a provocar inveja de quem conhece as ditaduras. Foi também de alguns intelectuais e analistas da esquerda.

Trump sabia de sua derrota, o povo americano sabia da sua derrota desde o dia 7 de novembro, mas ele nunca, em nenhum momento deu sinais de que "concederia" a vitória a Joe Biden. E esse ritual é quase sagrado. Na verdade, é sagrado. Por isso, Trump foi perdendo mais e mais simpatias.  Chegou a criar um racha dentro de seu partido. Quanto mais dias se passavam sem conceder a vitória a Biden, mais seu prestígio naufragava.

Mas as eleições de 2020 vão passar à História dos Estados Unidos da América como a mais insólita de todas. A começar pela vitória de Biden, campeão de votos na História do país. É também a primeira vez que uma mulher mestiça é eleita vice-presidente– Kamala Harris tem pai nascido em Barbados e mãe na Índia. A eleição de 2020 foi recordista em comparecimento às urnas ou via correios. E elegeu um homem de 78 anos. O mais velho de todos os presidentes eleitos para dirigir os EUA. E mais, Trump estava praticamente eleito desde o ano passado e o Partido Democrata não tinha candidato. Ninguém queria enfrentar o republicano.

Nenhum comentarista político duvidava da vitória de Trump. A campanha mais parecia um passeio. A certeza era tão grande que o Partido Democrata escolheu Joe Biden para concorrer. Escolheu um azarão para não queimar nomes mais importantes.

Biden aceitou porque mesmo derrotado esta seria a coroação de sua vida política. Dos seus 78 anos de vida, o novo presidente dedicou 50 ao Congresso americano. Mesmo com cara de prêmio de consolação, não deixa de ser uma honra participar da disputa pela Casa Branca. Mas há sempre o inesperado – ou o destino, como querem alguns.

A epidemia do vírus corona, negada diariamente pelo presidente Trump, alcançava números altíssimos. Hoje se aproxima dos 250 mil mortos. New York se transformou numa cidade-fantasma. Ruas, restaurantes, comércio tudo fechado. E Trump receitando cloroquina e água sanitária para matar o vírus enquanto as estatísticas de mortes e contaminações cresciam, abalando moralmente um país que se considera invencível, apesar do Vietname. Mesmo assim, até maio, Trump continuava imbatível.

Mas chegou dia 25/5. Às 8h20 da noite, em Minnesota, o policial branco, Derek Chauvin transformou-se no maior cabo eleitoral de Biden. Louro, olhos azuis subjugou George Floyd, negro. Por 9 minutos e 30 segundos, o policial manteve sua bota no pescoço do negro e esse ainda conseguiu dizer 'não estou respirando". E morreu.

A morte foi o estopim para explodirem todas as iras de um povo, as violências, as homo e transfobias do presidente e, uma verdadeira batalha tomou conta do país da costa Leste à costa Oeste, com uma só palavra de ordem, Black Lives Matters (ou numa tradução livre, "Vidas negras importam" nessa horrível tradução. O verbo importar em português exige complementos). A rebelião quase se transforma em guerra civil e, na primeira pesquisa depois do assassinato, 13 dias depois da morte de Floyd, Trump teve sua primeira queda.

Daí em diante foi só caindo. Em agosto, quando a mestiça Kamala Harris foi escolhida para compor a chapa de Biden, os analistas já não tinham mais dúvidas. O democrata era o favorito. E assim foi.

Trump tem todas as características de uma personalidade narcisista. Nunca ouviu um "não" durante seus 74 anos. Cercado sempre de belas mulheres modelos, misses - ele foi dono do concurso "Miss USA" de 1994 a 2015 sua vida sempre foi um show. Com prazer perverso, dirigiu o programa The Apprentice no qual escolhia pessoas para dirigir algumas de suas empresas. E, quando a pessoa era eliminada, o atual presidente dizia aos berros com sorriso malévolo, You´re fired (você está demitido), ao vivo para milhões de pessoas.

Essa personalidade era a grande e talvez única preocupação da intelligentsia estadunidense. Afinal de contas ninguém pode prever as reações de um narciso ferido. A sociedade pensante foi ficando apreensiva acreditando cada vez mais que Trump poderia criar uma guerra civil.

Dinheiro ele tem para pagar mercenários e muitos dos seus seguidores estavam dispostos a esse conflito. Num país onde a Constituição garante aos cidadãos o porte de arma, sem qualquer controle, alguns intelectuais chegaram ao exagero de acreditar que os Estados Unidos poderia se transformar numa grande Síria.

Foi difícil a decisão de Donald Trump autorizar o processo de transição de Governo. Foi com ódio no rosto e nos gestos que ele enfrentou os holofotes das televisões depois do anúncio. Afinal de contas, 306 integrantes do Colégio Eleitoral e 79 milhões de americanos gritaram alto e bom som: You´are fired.

Mas não se enganem, ele se prepara para as eleições de 2024. Não combinou com os russos, republicanos que estão na fila, mas está deixando no ar a frase-ameaça de Arnold Scharzenneger no filme The Terminator: "I´ill be back".

Criado em 2020-11-25 16:03:55

A China pós Antonioni

Maria Lúcia Verdi -

Antonioni filmou “Chung Kuo” (China, o “país do meio”) em 1972, quatro anos antes da morte de Mao e do início da abertura para o mundo.

Filmou esplendidamente, mas sempre sob o controle da censura - mas do filme falará meu colega João Lanari, colaborador deste site.  São comovedoras as imagens que registram aquele povo em suas ações cotidianas, em sua luta, conforme se pode constatar na mostra em cartaz no CCBB (dias 18 e 21/5) sobre o mestre italiano.

Aqui decidi publicar alguns dos meus pequenos textos sobre a China, publicados em “O caractere do sono – entre o Oriente e o Ocidente”, de 2005, também depoimento de um estrangeiro sobre o país.

A alteridade radical foi mais sentida por Antonioni e seu grupo, pois já conheci uma China capitalista. No entanto, os que forem assistir ao documentário poderão verificar que pouco mudaram certos aspectos da realidade chinesa e do que é ser estrangeiro entre eles.

O primeiro texto, “Hutongs”, retrata as ruas onde viviam em mínimas casinhas as famílias chinesas, algo semelhante as nossas favelas antes do horror se instalar.

Os hutongs hoje são raríssimos, conservados para os turistas terem uma visão nostálgica do que não se pode imaginar na China atual.

I - HUTONGS

Final de inverno, tudo é cinza. Ruas iguais e tristes, casas mínimas, estreitas, uma grudada à outra. Aqui, ali, à entrada da porta, o vermelho explode no cinza, o deus da riqueza sorri – Não vá tropeçar no beiral.

Carvão empilhado geometricamente, bicicletas, lixo, todos os dejetos humanos e flores secas largadas a um canto, um resto de cor.

Hutongs, não-espaços a se abrir vertiginosamente, a negação da autossuficiência, o cheiro do humano, a náusea incorporada e o permanente som de risadas. A concentração da vida e o sentido do mundo – provisório, aleatório, sem razão.

II - HÁBITOS

Atravesso a rua distraída e por pouco não sou atingida por um escarro. Sim, terei escutado a preparação que antecede o escarro, mas não a registrei como um sinal de alerta.

O hábito de escarrar o tempo todo, a naturalidade com que os sons do corpo são liberados, de acordo com os preceitos da medicina chinesa tradicional.

A sujeira que domina os lugares públicos, contrabalançada pela artificial assepsia dos locais onde os estrangeiros circulam.

O modo como se compraziam em limpar o nariz detidamente, em qualquer lugar – tudo deriva de uma outra noção de limpeza, de nojo, de saúde, de naturalidade. Não posso, porém, justificá-los.

Certa vez, durante o intervalo de um concerto, vi uma linda mocinha ocupar-se com carinho das cavidades do nariz. Enjoada, me perdia a olhá-la, absorta. Não sei aonde a cena me conduzia. O percurso do pensamento. Mozart e o absurdo.

III - BARATO

Não importa se te interessa ou não, deves comprar, é barato, pode comprar. Te custa comprar? Por que não compras? É aflitiva a impossibilidade de tão somente contemplar as coisas.

Tudo deve ser imediatamente adquirido, de preferência muitos exemplares do mesmo produto – grandes negócios por todos os lados.

Empacotadores frenéticos, mercadorias que seguem noite e dia para o mundo. Comprar: um ato redescoberto todos os dias pelos chineses, ritualmente, como uma antiga e renovada religião.

O ato engrandecedor de comprar, de sentir-se dono, senhor, possuir uma e outra e outra vez algo novo, algo muito novo, reiterando a certeza de que, sim, eu posso ter, posso consumir, como no Ocidente de minha imaginação, ou como um mandarim da velha China.

IV - NO PARQUE

Há uma última luz da tarde entre as árvores e a música é nostálgica, uma melodia ocidental sem pretensões. Os pares parecem felizes em suas roupas de festa.

Movem-se numa pista de cimento, no meio de um velho parque de diversões, como se dançassem num salão dourado, bem ao gosto dos chineses.

Dourado, a cor do ouro, do poder, do Imperador, da força. Pela expressão dos rostos, duplamente iluminados neste fim de tarde, devem ver muito dourado enquanto dançam.

Esmeram-se nos passos, na coreografia. Aqui, um certo tempo não passou e querem vivê-lo. Vestidos como nos anos cinquenta, sessenta, setenta, à maneira ocidental, descontam os anos duros, os sacrifícios, os uniformes, e se entregam à música.

Estranha recuperação de um tempo perdido. Um tempo que eles não conheceram,não assim, livres para dançar qualquer música, vestir qualquer roupa – isso estava realmente do outro lado do mundo, na época em que essa música era um hit.

Agora podem parecer burgueses, alegres. Vejo-os, no seu ocidentalismo intensamente chinês, e sinto uma mal disfarçada emoção.

V - LÓTUS OUTRO

Meu olhar recorta, fixa, classifica, tenta decifrar, seleciona, costura, compara, aproxima, afasta, relaciona.

É com ele que posso contar nesses labirintos feitos de traços, entre cantos mudos de sereias amendoadas. O olhar, a intuição, a percepção, a experiência, as leituras – precários instrumentos de uma taxinomia de sobrevivência.  

Intuo a dimensão do que nunca virei a saber, creio ter consciência do que permanecerá sem decifrar, apenas entrevisto num sistema de similitudes, de simulacros, de correspondências apreensíveis.

Quase intolerável o conhecimento do limite. Não me iludirei: essa língua é interminável, memória de milhares de tons, milhares de desenhos traçando a face do universo – nela navego, adormecida no amplo mar de seus sons.

A fantasia de compreender o sentido do que vejo, do que vi, verei, aqui, lá, antes, depois, ontem hoje. Não poderei realizar a transmutação, não existe alquimia que me faça renascer nesta língua, flore deste pântano, deste lago, lótus outro.

Não há magia que permita renascer, reconstruir o que foi, o que constitui, me dá nome, delineia, mesmo que o tempo não fosse este encarar-se permanente, essa angústia de finitude.

Repito para meus olhos, meus ouvidos, minha boca, minhas mãos – as horas existem para que eu aprenda um pouco mais, entenda um pouco mais a transformação.

As horas existem para que o significante venha a mim, espírito alado, o significado multiplicado, fluido.

Caligrafias, pinturas, os sons dos cantos apenas como som, o bronze, a cerâmica, a porcelana, a pintura, a poesia, a música, a escultura, os jades, as concretudes possíveis, salvadoras – a China na minha mão.

Criado em 2017-05-11 19:21:56

Bolsonaro ping x imprensa pong

Romário Schettino –

Diante dos ataques diários e ensandecidos à imprensa feitos pelo ex-capitão e atual presidente Jair Bolsonaro (sem partido), com palavras de baixo calão, os jornalistas e as empresas de comunicação sobem o tom e reagem com palavras cada vez mais duras: “canalha”, “desonesto”, “autoritário”, “golpista”, “impedimento já” e por aí vão os comentários, editoriais e matérias jornalísticas.

O clima está tão tenso que ninguém se arrisca a botar o pé fora de casa sem antes observar atentamente os transeuntes. Até bater panela virou um problema, pois os radicais da extrema-direita ameaçam atirar nos vizinhos de esquerda. Ninguém está seguro, as ameaças de morte e afrontas verbais viraram rotina para os arrogantes e ignorantes bolsonaristas que, empunhando as bandeiras estadunidense, israelense e brasileira, cuspiram seus perdigotos na cara de enfermeiros e enfermeiras que protestavam em silêncio.

“Eles odiaram o nosso protesto silencioso”, disse uma enfermeira na porta do Palácio do Planalto.

Pessoas físicas estão sendo violadas em seus direitos de livre expressão e são atacadas em praças públicas – enfermeiras, jornalistas – quem mais? Já já estarão queimando livros a céu aberto, quebrando lojas e invadindo casas. Os repórteres são acuados, diariamente, no “chiqueirinho” do Palácio da Alvorada e obrigados a ouvir um “cala a boca” asqueroso. Aliás, as empresas deveriam proteger seus empregados e evitar que sejam humilhados dessa maneira. Estão expostos, inclusive, ao hálito contaminado de coronavírus. Cala a boca já morreu e eu não tenho medo de cara feia.

Os crimes de responsabilidade já ultrapassaram algumas dezenas. O mais grave deles é o que vem cometendo o presidente em relação à epidemia do coronavírus. Toda e qualquer tentativa dos governadores e prefeitos de manter as pessoas em suas casas é desestimulada quando Bolsonaro vai para as ruas, padarias, farmácias, redes sociais e em manifestações públicas para dizer que a quarentena “é um exagero dessa imprensa que está aí”.

Se isso não bastasse, Bolsonaro cria um problema político por dia. Agora está envolvido numa trapalhada sem tamanho com o seu querido ex-ministro Sérgio Moro. Esse rolo aumenta a pressão e deixa todo mundo mais estressado ainda.

O presidente ficou indignado com a decisão do Supremo Tribunal Federal que impediu a posse de Alexandre Ramagem para a direção geral da Polícia Federal. Pois foi esse mesmo STF que impediu Lula de assumir a Casa Civil de Dilma Rousseff, sob os aplausos dos que agora estão aí reclamando de ingerência ou invasão de competência. Foram esses bolsonaristas que acharam providencial o vazamento do suspeito depoimento de Palocci em pleno segundo turno só para favorecer Bolsonaro.

Mas não nos enganemos, Bolsonaro prepara a galope o autogolpe. Enquanto isso, a nação continua vivendo o seu suspense diário. Até o momento, nessa disputa, Bolsonaro faz apenas um ping e leva um imenso pong da imprensa. Veremos os próximos e eletrizantes rounds.

Criado em 2020-05-07 04:04:36

Assim caminha e mora a Humanidade

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Na terça-feira, 2/2, o País ficou chocado com a cena do padre Júlio Lancelloti, da Pastoral do Povo da Rua, quebrando a marretadas as pedras pontiagudas que a prefeitura de São Paulo mandou cimentar debaixo de um viaduto que serve de abrigo para moradores em situação de rua. O padre é um campeão dos Direitos Humanos em geral e dos direitos do povo pobre em particular, e por esse motivo tem sofrido ameaças de morte, denunciadas inclusive pelo Papa Francisco.

Eu também fiquei chocado, por razão ainda mais funda. Percebi na hora que o gesto do padre Lancelotti teve como objetivo garantir o direito de as pessoas em situação de rua dormir debaixo dos viadutos da cidade de São Paulo!

É um espanto que o Brasil tenha descido tão baixo, a ponto de ser necessário lutar pelo direito da moradia na sarjeta. O lógico, justo e humano não é lutar pela moradia digna para todos e todas e ponto? Ou teremos de dividir a briga em duas etapas, um “programa mínimo”, de habitação popular nas ruas e pontes, e um “programa máximo”, de moradia para o povo nos cafundós da periferia? 

Espanto não é bem o termo adequado. Morar na sarjeta é a norma na capital dos barões do café desde sempre, e no resto do País. O último censo da prefeitura de São Paulo, de 2019, identificou mais de 24 mil pessoas nessa condição, das quais, metade assistida na rede de assistência social, e a outra, vivendo debaixo de viadutos e nas calçadas.

Uma das maiores urbanistas do Brasil, Raquel Rolnik, previu, em fevereiro do ano passado, que se as autoridades não tomassem providências emergenciais para conter o problema, com números claramente subestimados, logo a cidade contaria com mais de 50 mil pessoas morando nas ruas. Rolnik referia-se ao agravamento das principais causas da equação – as remoções e a perda de moradias pela população pobre e miserável – sem cogitar, naquela altura, os efeitos extras da pandemia, que apenas começava.

Iniciativas emergenciais para o caso deviam, obviamente, começar pela maior e imediata oferta de abrigos municipais e de moradias populares, mas, atenção, adequadas às reais necessidades da população excluída.

“Quando nos referimos à rede de proteção capaz de acolher e apoiar os mais vulneráveis em momentos de crise, estamos falando da enorme falta que faz uma política pública, integrada e proativa nesta conjuntura”, disse Raquel Rolnik no seu blog. “As respostas que temos hoje: baseadas em ofertas de pacotes setoriais como são os abrigos ou a oferta de moradia em parcerias público-privadas que nada têm a ver com a demanda ou condição das pessoas; ou as políticas de saúde mental baseadas no internamento e reclusão já se mostraram ineficientes.”

NIMBY - Na conjuntura em que não têm mais qualquer perspectiva de emprego, os moradores em situação de rua fazem parte de um contingente populacional que pode ser descartado a qualquer momento, literalmente. A classe média paulistana, em geral, não admite sequer que os abrigos para essa gente, exatamente como acontece nos casos das usinas de tratamento de lixo ou de esgoto, sejam instalados em seus bairros. Assim que tomam conhecimento de uma iniciativa do tipo, logo entoam o clássico Not In My Back Yard (No meu quintal, não)!

Pior, as redes de autoproteção e sobrevivência organizadas pelos pobres logo se tornam alvos do racismo estrutural e do higienismo desses mesmos cidadãos de bem, tudo disfarçado com apelos à “segurança pública”.

Os miseráveis, esses radicais e extremistas que teimam em sobreviver, estão entalados entre a ativa omissão dos poderes públicos e o sentimento de lesa-humanidade dos eleitores dos chefes desses mesmos poderes (cheirosos!). Por isso, na minha opinião, nenhum milagre da Igreja nem a justa e santa ira do padre Júlio Lancelotti são capazes de sequer arranhar o problema. Obviamente, reconheço que a Pastoral do Povo da Rua é um dos raros recursos de socorro que sobraram para a gente obrigada a morar ao léu, e por isso merece toda a solidariedade dos que estão do lado de cá na luta de classes.

Raquel Rolnik costuma dizer que a situação dos moradores em situação de rua é o retrato mais fiel da administração de uma cidade. Estão aí para quem tem olhos de ver os retratos das administrações de Bruno Covas e do ex-prefeito e governador João Dória.

Vamos agora a um intervalo cultural, com a canção do Dorival Caymmi:

Eu nasci pequenininho
Como todo mundo nasceu
Todo mundo mora direito
Quem mora torto sou eu

Para encerrar o nosso programa, caros e caras ouvintes, leio na Folha de S. Paulo de 30 de outubro passado que o prefeito Bruno Covas está muito bem instalado num apartamento de 70 metros quadrados na Barra Funda, zona oeste de São Paulo, alugado por R$ 4.000,00 mensais.

É um “apê de quarentão com filho adolescente”, disse ele, decorado pela ex-mulher, Karen Ichiba. O imóvel tem vistas para o Memorial da América Latina, o terminal Barra Funda, o Allianz Parque e a serra da Cantareira.

A decoração, escreveu a repórter Marília Miragaia, tem um jeitão utilitário – mesa de jantar, rack para TV e sofá. Aqui e ali, objetos pessoais – ímãs de diferentes países e fotos cobrindo a geladeira, entre elas a do avô Mário Covas, ex-governador. Na prateleira ao lado, a réplica do capacete de Ayrton Senna. A única escrivaninha é usada pelo filho, Tomás, de 15 anos, cuidador de Volpi, o cachorro da casa.

Complemento, sempre segundo a Folha: o prefeito cozinha macarrão, ovo mexido e hambúrguer. No freezer tem comida congelada com opções fit. O prefeito também pede refeições pelos aplicativos. (Eu imagino que entregues por um motoboy que qualquer dia desses será obrigado a se mudar para debaixo da ponte).

Casa “casa” mesmo é a do Dória! - O apartamento de Covas é coisa de classe média “média”, digamos. Casa mesmo, assim, na lata, é a mansão do governador João Dória, situada na rua Itália no Jardim Europa.

Com 3.304 metros quadrados de área construída num terreno de 7.031 metros quadrados, é uma das dez maiores casas da cidade de São Paulo. A fachada, de 83 metros de comprimento, é decorada com a bandeira do Brasil. Diz a Folha que atrás do muro tem campo de futebol e quadra de tênis. A sala de jantar é forrada de quadro de Di Cavalcanti. Em 2016, Dória pagou R$ 285 mil de IPTU.

Ah, o governador não se mudou dessa mansão para a residência oficial do Palácio dos Bandeirantes quando assumiu o posto, em janeiro de 2019. Porém, para se sentir chez soi no Palácio, resolveu reformar a suíte máster. Mandou forrar o piso de vinil escuro e pintar as paredes de não sei quantos tons de cinza (o jornal não diz).  O projeto da reforma foi assinado pela designer Jóia Bergamo (morou!). 

Os “móveis luxuosos” que adornam o cafofo, no valor de R$ 372 mil, foram angariados pelo governador como “doações”, informa a Folha.

Caríssimxs, assim caminha e mora a Humanidade.

E pra esquecer, nóis cantemos assim, co Adoniran Barbosa: ouça aqui

Criado em 2021-02-05 18:57:15

Culturette de direita

Betty Almeida (*) –

A socióloga Maria Sena, em carta aberta ao cineasta José Padilha (leia aqui a carta), corrobora sua defesa em relação aos filmes Tropa de Elite 1 e 2 e porque vai filmar a história de Marielle, embora seja branco. Por isso, diz Maria Sena, José Padilha não é fascista. Mas por outras razões, afirma que ele é. E ela aponta outros trabalhos do diretor, onde sua má-fé criptofascista pode ser vista pelos mais atentos. Seu prestígio e seu voto, lembra ainda Maria Sena, ajudaram a eleger o atual presidente.

Vi Tropa de Tropa de Elite 1 na televisão, não tive estômago para ver o 2. É verdade que José Padilha tem em seu currículo filmes como Os Carvoeiros (1999) e Ônibus 174 (2002). Mas lamento que a história de Marielle irá ser contada por ele. Quem sabe, nos surpreenderá.

O fato é que no Brasil está surgindo uma intelectualidade inclinada, de alguma forma, à direita, ou manifestamente apoiadora da direita. Por muito tempo, o brilho de nossos intelectuais de esquerda ofuscou a tosca e raquítica produção da direita, com exceções como Nelson Rodrigues, que não era propriamente político.

Mas hoje, com fascistas e criminosos comuns na Presidência, Câmara e Senado, tudo o que pende à direita ou sugere crítica à esquerda tem palco e é publicizado. Obstáculos de todo tipo ao lançamento de um filme como Marighella destinam-se a desacreditar denúncias de censura. A musa popular só inspira, ao que parece, o rap, de público restrito.

Atravessaremos, ao que parece, uma longa noite de obscurantismo e esterilidade cultural.

Assim, que brote um novo teatro da herança de Augusto Boal e José Celso Martinez Corrêa, que Sérgio Ricardo, Edu Lobo, Geraldo Vandré inspirem novos compositores populares, que  Drummond e João Cabral despertem jovens poetas, que os espíritos de Graciliano Ramos e Antonio Callado iluminem novos literatos, que o Cinema Novo e  documentaristas como Eduardo Coutinho, Vladimir Carvalho e Silvio Tendler conduzam as câmeras de jovens cineastas.

Mas, sobretudo, que vereadores e deputados estaduais que os partidos de esquerda conseguirem eleger se aproximem do povo iludido pela doutrinação do whatsapp, instagram e youtube, que os entregadores se politizem e se organizem, que os identitarismos, a luta pelo ambiente e pela causa indígena se consolidem como forças de oposição à intolerância, que os jovens voltem a querer ficar do lado dos fracos e oprimidos. Porque tantos que tiveram energia para lutar contra a ditadura hoje começam a se sentir velhos e impotentes.
__________________
(*) Betty Almeida, doutora em Eletroquímica, é biógrafa de Honestino Guimarães. Publicou Paixão de Honestino, pela Editora UnB, em 2016.

Leia o texto relacionado aqui

Criado em 2020-08-28 16:20:53

Mostra Internacional de Cinema de Arquitetura no CCBB-Brasília

A partir de amanhã, 17 de agosto, a 5 de setembro, o Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília promove o Cinema Urbana - Mostra Internacional de Cinema de Arquitetura. Além das exibições presenciais (de 17 a 29/8), no cinema e nos jardins do CCBB-Brasília, a programação estará disponível on-line, de 30/8 a 5/9, na plataforma InnSaei.TV.

A programação virtual inclui também painéis temáticos, que poderão ser acompanhados pelo canal da Mostra no YouTube.

A ideia, segundo os organizadores do evento é “promover a reflexão sobre o espaço urbano, resgatando a memória e projetando o futuro”. A partir dessa premissa nasceu o Cinema Urbana, que chega à terceira edição, em formato expandido.

Durante o Cinema Urbana, os espectadores serão convidados a participar da votação popular. A mostra estreia no Dia Nacional do Patrimônio Histórico e, para celebrar a data, será exibido o filme Tudo é projeto, que homenageia Paulo Mendes da Rocha, renomado arquiteto brasileiro.

A solenidade contará com depoimentos de arquitetos convidados e poderá ser acompanhada virtualmente pela plataforma InnSaei.TV. Tudo é Projeto ficará disponível para visualização somente no dia 17 de agosto, das 18h30 às 23h59. 

Em seu formato virtual, a mostra exibirá quase todos os títulos exibidos presencialmente, com exceção de Aeroporto Central, de Karim Aïnouz, e A Pista (La Jetée), de Chris Marker. Serão três mostras: competitiva de curta e de longa-metragem, mostra hors-concours e mostra RIFCA (com filmes indicados por festivais parceiros da Rede Interamericana de Festivais de Cinema, Cidades e Arquitetura). Um total de 25 filmes, produzidos em 14 países como Alemanha, Portugal, Reino Unido, Hong Kong, China e Brasil.

Cinema Urbana tem direção da arquiteta e urbanista Liz Sandoval, que assina a curadoria, ao lado do arquiteto e urbanista André Costa e da cineasta e pesquisadora Lorena Figueiredo. A realização é do Centro Cultural Banco do Brasil e patrocínio do Banco do Brasil.

A Mostra – As produções selecionadas para Cinema Urbana 2021 tratam de questões como a superlotação das cidades, a arqueologia visual, a gentrificação, a ganância imobiliária, assim como a relevância do trabalho de arquitetos e artistas.

A mostra competitiva de longas-metragens é composta por cinco títulos inéditos, enquanto a mostra competitiva de curtas inclui oito filmes. São produções como o brasileiro Konder: o protagonismo da Simplicidade, sobre um dos maiores nomes do Movimento Moderno na arquitetura brasileira; o português Brisa Solar (sobre a cidade de Maputo, capital de Moçambique, nascida do ideal modernista); e Para onde ir com a história, produção alemã que mostra o crescimento da extrema-direita na cidade de Dresden.

O júri responsável por indicar os vencedores da mostra competitiva será formado por Catarina Mateus (arquiteta e urbanista, Diretora Criativa e Programadora do Habitante – Festival de Cinema, Cidade e Arquitetura do Equador, Membro da RIFCA), Luiz Sarmento (arquiteto IPHAN e Diretor de Cultura do IAB Nacional) e Juliane Peixoto (artista visual e professora do curso de Áudio e Vídeo do IFB campus Recanto das Emas).

Hors-Concours - São cinco os filmes reunidos na Mostra Hors-Concours, como o norte-americano A Machine to Live In, de Yoni Goldstein, Meredith Zielke, documentário que explora e conecta a arquitetura de Brasília e o misticismo.

Homenagens especiais – O arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha é tema do filme que abre a programação, Tudo é Projeto, e o arquiteto português Nuno Portas é tema do documentário A Cidade de Portas.

Os 61 anos de Brasília serão lembrados com produções como Galeno, Curumim Arteiro, do diretor brasiliense Marcelo Díaz, sobre a vida e a obra de um dos mais importantes artistas plásticos do DF, e Luis Humberto: O Olhar Possível, de Mariana Costa e Rafael Lobo, com um olhar poético sobre o fotógrafo carioca radicado em Brasília e um dos grandes nomes do fotojornalismo brasileiro.

Painéis de debates – Ao longo da programação, serão realizados três painéis temáticos, em formato virtual, contando com a participação de arquitetos, professores, especialistas de vários países para discutir temas como a arquitetura das cidades latino-americanas e o diálogo entre a arquitetura de Paulo Mendes da Rocha e Nuno Portas. Ao final, um debate reunirá os vencedores das mostras competitivas. Os painéis poderão ser acompanhados pelo canal do YouTube da mostra.

Mostra RIFCA - Para a última semana de programação, Cinema Urbana reservou uma seleção de seis títulos indicados por festivais parceiros que integram a RIFCA - Rede Interamericana de Festivais de Cinema, Cidades e Arquitetura, criada com o objetivo de ultrapassar as fronteiras territoriais e expandir novos diálogos sobre a cidade através da cinematografia latino-americana.

PROGRAMAÇÃO

Dia 17/8 (terça-feira) – Dia Nacional do Patrimônio Histórico

18h30 às 23h59 – Exibição em formato on-line da solenidade de abertura do festival, em homenagem ao arquiteto Paulo Mendes da Rocha (1928 – 2021), seguida do filme Tudo é Projeto (76 min).
Presença de Heloísa Moura (presidenta do IAB -DF), Maurício Goulart (Iphan-DF – arquiteto e urbanista) e Luciana Sabóia (arquiteta e urbanista, coordenadora PPG-FAU UnB).
Local: Acessível pela plataforma innSaei.TV

Dia 18/8 (quarta-feira)

18h – Painel temático 01 "Cidades Atlânticas: diálogo com dois arquitetos: Paulo Mendes da Rocha e Nuno Portas"
Com: Renato Anelli, Joana Mendes da Rocha, Humberto Kzure, Teresa Prata - mediação: Abílio Guerra (Portal Vitruvius)
Local: Acessível  no canal da Mostra no YouTube.

Dia 29/8 (domingo)

16h - Lançamento da Mostra On-line - Painel Temático 02 "Integrações curatoriais latino-americanas: cidade, arquitetura e cinema” – Com membros da RIFCA e mediação da realizadora audiovisual Kate Kliwadenko (kliwadenkonovas.com) e da arquiteta e curadora Marina Frugoli.
Local: Acessível em www.youtube.com/c/MostraCinemaUrbana

De 30/8 a 5/9 (*)

Toda a programação ficará disponível para visualização na plataforma Innsaei.tv, de 0:00 às 23:00.
(*) Os filmes Aeroporto Central, de Karim Aïnouz, e A Pista (La Jetée), de Chris Marker, não participarão da programação on-line. E A Cidade de Portas terá uma sessão exclusiva pela plataforma InnSaei.TV, no dia 4/9.

Dia 3/9 (sexta-feira)

19h - Sessão Vencedores Competitiva - Painel Temático 03, com transmissão do debate com ganhadores pelo YouTube às 20h30, com um (1) representante de cada filme e mediação do curador André Costa Gonçalves, arquiteto e doutor em cinema pela Universidade de Brasília.
Local: Acessível em www.youtube.com/c/MostraCinemaUrbana

Dia 4/9 (Sábado)

Das 18h às 22h – Reprise Sessão Hors-Concours - A Cidade de Portas (81 minutos)
Local: Acessível pela plataforma InnSaei.TV
________________

Serviço:
Cinema Urbana - Mostra Internacional de Cinema de Arquitetura
Data: 17 de agosto a 5 de setembro de 2021
Local: InnSaei.TV e no canal da Mostra no YouTube
Horários: ver programação no site do CCBB-Brasília
Mais i
nformações: (61) 3108-7600 ou pelo e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Criado em 2021-08-17 00:41:21

Ativistas desmentem Bolsonaro na ONU

Ativistas do movimento social e sindical protocolaram hoje (30/9) na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Brasília, uma carta aberta ao Secretário Geral António Guterres em que apontam as mentiras contidas no discurso do presidente Jair Bolsonaro.

No documento, os signatários rejeitam – ponto a ponto – as declarações de Bolsonaro na Assembleia Geral do dia 22/9.

A carta pede desculpas, não apenas à ONU, mas a todos os chefes de governo presentes na Assembleia Geral. Durante a entrega do documento, os ativistas realizaram um ato em “protesto ao que consideraram uma afronta ao mundo e um desprezo à verdade”.

A seguir, a íntegra da Carta Aberta ao Secretário-Geral da ONU, António Guterres:

“Nós, que assinamos esta carta, brasileiras e brasileiros, representantes de entidades diversas, de comunidades, temos orgulho de enfrentar, honestamente, a dura lida para sobreviver dignamente num dos países de maior desigualdade em todo o mundo.

E nessa lida diária, seja no trabalho, ou na busca do trabalho, que se faz cada vez mais escasso, para sustentar a nós e a nossas famílias, nos comportamos com honradez.

Até pouco tempo atrás, andávamos de cabeça erguida, orgulhosos de sermos filhos de uma nação soberana e respeitada por seu combate à pobreza, à desigualdade, à injustiça.

No entanto, na terça-feira, 22 de setembro em curso, assistindo, pelas redes sociais, ao discurso com que o Senhor Jair Messias Bolsonaro, ora presidente do Brasil, abriu a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas – ONU, esse orgulho cedeu lugar a uma enorme vergonha.

Para nós, foi difícil acreditar que ele, representante de nosso país naquela Assembleia pudesse, com tanta desenvoltura, fazer um discurso agredindo, frontal e despudoradamente, a verdade sobre o que realmente está acontecendo no Brasil, perante mandatários de todo o mundo, como se o caos que seu governo provocou e vem provocando fosse algo desconhecido.

Assim, nós nos sentimos na obrigação de, respeitosamente, desvendar a dolorosa realidade, escondida sob um discurso delirante, de um País que já foi exemplo de diplomacia pela paz e pela solidariedade entre os povos, a essa instituição e, por meio dela, a todos os representantes das nações presentes.

E, antes de qualquer retificação do que ali foi dito, enviamos, por seu intermédio, nossa mensagem de desculpas a todos os países presentes, assim como queremos fazer ecoar, na ONU, nosso pedido para que o mundo civilizado e solidário nos ajude a combater a tragédia que se abate sobre nosso meio ambiente, sobre nossos direitos, nossa soberania, nosso patrimônio coletivo, sobre nossas vidas, nossa gente, enfim.

Não vamos, aqui, repetir as palavras tão irresponsavelmente ditas. Queremos, apenas e a bem da verdade, por mais que isso nos entristeça e nos cause constrangimento, mostrar como nosso povo hoje vive, sob o governo Bolsonaro/Mourão e um parlamento que vem representando os interesses de 1% da população, se tanto.

Quanto à pandemia:

- há, em primeiro lugar, um genocídio em marcha no Brasil, país mergulhado numa imensa dor, oculta sob o número inacreditável de quase 150 mil mortes provocadas pela Covid-19.

E essa tragédia, essa dor que poderiam ter sido evitadas têm responsáveis.

Em primeiro lugar denunciamos que, quando a pandemia já matava milhares de pessoas na Ásia e na Europa, o governo do presidente Bolsonaro e do vice-presidente, General Mourão, adotou o ‘negacionismo’ como forma prioritária de ação no enfrentamento da doença provocada pelo Coronavírus.

Antes da pandemia, já havia cortado e deixado à míngua os institutos de pesquisas e universidades públicos que sempre tiveram papel fundamental na descoberta de vacinas, de tratamentos de endemias, de doenças, como a Aids, e as que assolam um país tropical como o Brasil.

Uma das primeiras providências de seu governo foi acabar com o “Programa Mais Médicos”, por meio do qual médicos cubanos atendiam à população nos mais longínquos lugares desse país de dimensões continentais.

Além disso, ativamente, tratou de destruir o Sistema Único de Saúde (SUS) – o maior sistema de saúde pública do mundo – e seus mecanismos de atendimento à população, por meio de seu então Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, depois demissionário, mostrando ser, antes de tudo, um governo privatista, insensível à situação do povo que deveria proteger, principalmente aquelas pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Coerente com essa política irresponsável quanto à pandemia, em vez de orientar e financiar os institutos de pesquisas para descobrirem vacina e tratamento para a doença, optou:

- por confrontar e desqualificar publicamente as orientações da Organização Mundial de Saúde – OMS;

- por gastar milhões de reais de recursos públicos comprando um imenso estoque de cloroquina e hidroxicloroquina, que “receita” ao povo, em todas as oportunidades, sem nenhuma evidência científica de que as substâncias tenham efeito no combate à Covid-19, em vez de investir na compra de leitos, de equipamentos de proteção aos trabalhadores/as da saúde, analgésicos, de tubos respiratórios para os doentes graves, na maioria, pobres, que morreram e morrem à míngua;

- por desqualificar a Ciência e a pandemia, segundo ele, “Uma gripezinha”, levando a população a se expor à doença, em vez de protegê-la com orientações, com cuidados e com o próprio exemplo, como quem deveria organizar o combate à doença:

- por incentivar e promover aglomerações, sabotando o isolamento e garantindo, na Justiça - pasmem! - o direito de ele próprio não usar máscara, dando ao povo péssimo exemplo, pois são as máscaras o único meio de proteção ao alcance de toda a população;

- por sugerir a seus seguidores invadirem hospitais e a agredirem profissionais de saúde expostos à doença, no tratamento dos pacientes, por não contarem com proteção adequada;

- por tornar o Brasil o país que menos aplicou testes para detectar a doença, não fazendo planejamento algum para comprar e distribuir máscaras, medicamentos, etc.;

- por atacar governadores, prefeitos que seguiam e seguem orientações para a preservação da vida, quando sua obrigação legal e intransferível era e é articular o combate à pandemia, com todas as providências que isso implica, com os 26 Estados, o Distrito Federal, além dos 5.570 municípios, iniciativa que não tomou;

- por obrigar governadores e prefeitos a recorrerem à Suprema Corte-STF, para garantirem o direito de Estados e municípios adotarem medidas sanitárias, de isolamento e de distanciamento social, boicotadas e desqualificadas pelo governo Bolsonaro/Mourão;

- por colocar no Ministério da Saúde, em vez de profissionais da área, militares que nada entendem de saúde ou de doença, deixando o principal órgão para elaborar políticas de combate à Covid-19 vários meses sem titular;

- por adotar medidas voltadas, prioritariamente, para a defesa de ricas e grandes empresas, em detrimento dos trabalhadores/as e dos pequenos empresários/as, que geravam milhares de empregos, fazendo com que a tragédia da pandemia se fizesse acompanhar de desemprego, de miséria e fome.

Esse foi e é o real exemplo de combate à pandemia propugnado pelo governo Bolsonaro/Mourão.

Quanto ao meio ambiente:

- enquanto a Amazônia – bioma que teria levado 10 milhões de anos pra se formar - o Cerrado, que teria 40 milhões de anos, e o Pantanal ardem em chamas, seu governo quer fazer o País se esquecer de que ele, Bolsonaro, assim como Ricardo Salles, aquele que nomeou ministro do meio ambiente, por diversas vezes e publicamente, incentivou queimadas e formação de pastos para beneficiar seus principais financiadores e apoiadores, quais sejam os grandes latifundiários, exportadores de soja e carne.

- O sistema de monitoramento da NASA mostrou que 54% dos focos de incêndios na Amazônia estão relacionados ao desmatamento.

No Pantanal, organizações de proteção ambiental – também acusadas irresponsavelmente e combatidas pelo governo – detectaram a destruição 141 mil hectares de vegetação, área maior do que a da maioria das grandes cidades brasileiras.

- Quase todos, senão todos, os casos de incêndios na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal têm origem criminosa, pois são provocados por apoiadores deste governo: fazendeiros, grileiros, garimpeiros, invasores e extratores ilegais de madeira em terras públicas, reservas florestais e terras indígenas.

- Tais invasões e incêndios criminosos não têm sido combatidos devidamente. Pelo contrário, o governo deu e dá sinais inequívocos e públicos de que agirá em favor daqueles que tomarem terras, derrubarem florestas para estabelecer pastos e campo. Assim, os contraventores invadem áreas imensas e dela tomam posse, seguras de que receberão títulos de posse, financiamento, apoio.

- O dito ministro do Meio Ambiente é o mesmo que, além de suspender trabalhos de fiscalização, cancelar operações, desautorizar servidores que denunciavam a destruição, cancelar multas, enfraquecer a legislação de proteção ambiental claramente, tem protegido criminosos ambientais.

Para indignação geral, chegou a trazer a Brasília, em aviões da Força Aérea Brasileira-FAB, viagem paga com recursos públicos, para reunião consigo, garimpeiros ilegais que atuavam em reserva indígena.

Em outra reunião, desta vez com a Presidência da República e todos os seus ministros, filmada e divulgada para todo o Brasil, o mesmo ministro defendeu que o governo aproveitasse a distração criada pela pandemia para “passar a boiada”.

“Passar a boiada na pandemia”, significa aproveitar a comoção nacional causada pelas milhares de mortes por Covid19, para destruir o que resta da legislação que protege o meio ambiente, sem que isso seja percebido pelo povo.

Isso facilitaria, ainda, a elaboração de decretos e portarias que facilitariam o cometimento de crimes ambientais, num exercício de crueldade sem limites.

- Como se estivesse zombando das afirmações que fez em seu discurso, logo depois, no dia 28 desse mesmo mês de setembro/2020, Jair Bolsonaro e a Advocacia-Geral da União avalizaram proposta do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles que, na reunião do Conselho Nacional de Meio Ambiente-Conama, colocou em pauta uma minuta de resolução revogando três resoluções daquele Conselho:

- Resolução nº 284, de 30 agosto de 2001, que estabelece regras para o licenciamento de empreendimentos de irrigação;

- Resolução nº 302, de 20 de fevereiro de 2002, sobre parâmetros, definições e limites de áreas de preservação permanente de reservatórios artificiais e o regime de uso do entorno;

- Resolução nº 303, de 13 de maio de 2002, a qual cria parâmetros, definições e limites de Áreas de Preservação Permanente.

Esse novo ataque à legislação, que visa a preservar o meio ambiente, colocou em risco os manguezais, as restingas, com o objetivo de atender a demandas da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), de ruralistas em geral, de especuladores imobiliários, de proprietários de terrenos enfim, demandas dos mesmos que vêm destruindo o Brasil, em busca do lucro desmedido.

Bolsonaro prevê, ainda, regulamentar mineração em terras indígenas e sinalizou, novamente, interesse em viabilizar exploração de nióbio no País. Então, mais ameaças e destruição no Brasil.

É dessa forma que criminosos, matando os rios, matando os peixes, matando a mata, matando a bela fauna brasileira se sentem não apenas incentivados, mas autorizados a cometerem toda a sorte de crimes por causa do desmonte das políticas de contenção do desmatamento e da fiscalização.

- Coerente, ainda com essa política, o governo desqualificou o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - INPE, instituição federal brasileira, dedicada à pesquisa e à exploração espacial, e demitiu, por divulgar dados de desmatamento, seu diretor, Ricardo Galvão, eleito “Cientista do Ano”, pela prestigiada revista científica, Nature.

Quantos aos povos originários:

- Os indígenas e os caboclos a quem ele, o presidente, sem corar, culpou pelos desmatamentos, pelos incêndios e pela destruição são os que, verdadeiramente, lutam dia e noite por sua preservação e são as maiores vítimas dos crimes ambientais promovidos pelo latifúndio, por garimpeiros ilegais, missões religiosas, grileiros acobertados por este governo.

Assim, contrariamente a essa afirmação descabida e desonesta, é preciso reafirmar que são eles vítimas primeiras dos incêndios e do desmatamento criminosos e, não, seus autores.

O governo Bolsonaro/Mourão não assistiu, como afirmou, a mais de 200 mil famílias indígenas com produtos alimentícios e prevenção à Covid-19.

Pelo contrário, na lei sobre o tema, ou seja, no projeto de apoio às comunidades indígenas, aprovado no Senado Federal, ele vetou artigos que o obrigavam a fornecer água potável, material de higiene e limpeza e cestas básicas às aldeias, assim como proibiu a entrada de equipes da organização Médicos sem Fronteiras para dar assistência aos afetados pela Covid-19.

Quanto à fome, ao desemprego e ao auxílio emergencial:

- Desde o golpe sofrido pela presidenta Dilma Rousseff, destituída da presidência sem que tivesse cometido crime algum, o Brasil, que havia saído do Mapa da Fome, já tem, pelo menos 10 milhões de pessoas em pobreza absoluta, enquanto o presidente do País, na ONU, diz “alimentar o mundo”.

E essa fome vem do desemprego brutal que assola os trabalhadores que, desde as iniciativas de cunho neoliberal aplicadas após o golpe parlamentar de 2016, perderam seus direitos trabalhistas e levaram à falência milhares de pequenos e médios negócios.

Esse governo acabou com políticas sociais que combatiam a desigualdade em um dos países mais desiguais do mundo, como sempre foi o Brasil.

- A Organização Internacional do Trabalho – OIT, neste mês de setembro/2020, divulgou dados segundo os quais o Brasil tem a mais alta taxa de desocupados do mundo, mesmo sem se contabilizarem os diversos trabalhos precários como sendo desemprego.

- O Brasil é um grande produtor e exportador agropecuário, mas o atual governo destroçou a agricultura familiar, que, até 2014, era o responsável pela produção de 70% dos alimentos consumidos pelo povo brasileiro.

O governo Bolsonaro /Mourão acabou com o Ministério do Desenvolvimento Agrário, órgão que promovia a agricultura familiar, os pequenos agricultores, o MST, cortando financiamento, subsídios para aqueles que são os que, realmente, colocam comida na mesa do povo.

O governo Bolsonaro/Mourão devolveu nosso País à condição de uma grande fazenda, com as casas grandes dos privilégios e a senzala da fome e da violência para a maioria.

Desde o ano de 2019, houve uma queda de 30% nos Investimentos Estrangeiros Diretos no Brasil, sendo que, nos primeiros oito meses de 2020, o Brasil sofreu fuga de capitais no valor de, pelo menos, US$ 15,2 bilhões.

- No que se refere ao auxílio emergencial aprovado pelo Congresso brasileiro, o presidente da República, depois de muita pressão, propôs conceder R$ 200 por mês.

Os partidos de oposição a seu governo, conseguiram fazer o valor chegar a R$ 600,00, na verdade cerca de US$ 100, fato lamentado por seu Ministro da Economia, Paulo Guedes, que representa os interesses dos bancos privados, trata os servidores públicos como “inimigos” – é essa denominação dele - e pouco se afeta com a miséria que seu governo dissemina pelo Brasil, com suas medidas de amparo aos ricos e de espoliação dos pobres.

Dizer que o governo federal entregou US$ 1000, cerca de R$ 5.566,10, a cada pessoa que necessita do auxílio emergencial, não passou de um exercício de escárnio. Agora, a proposta presidencial é reduzir o auxílio para pouco mais de US$ 50.

Poucas pessoas no Brasil têm salário que alcance mil dólares. Essa inverdade, assim como as demais ditas ao longo do discurso, zomba da miséria, da fome, da situação a que o povo vem sendo levado desde o golpe de 2016.

E temos que lembrar a humilhação a que aqueles que lograram alcançar o auxílio emergencial foram submetidos, em longas filas, em aglomerações sem fim, em esperas intermináveis. Sem contar o recebimento do parco benefício por centenas de pessoas que dele não necessitavam, em detrimento de gente que precisava muito e não recebeu. Desorganização, incompetência e má vontade no trato das necessidades do povo.

Ao contrário do que afirmou, seu governo tem investido, isso sim, em ampliar as desigualdades, aumentando salários de servidores do Judiciário, das Forças Armadas, com isso comprando apoio para sua permanência na Presidência - a Câmara dos Deputados já recebeu mais de 50 pedidos de impeachment, os quais são ignorados pelo seu presidente, Rodrigo Maia - pois o governo vem, ainda, comprando, parlamentares com dinheiro e cargos na estrutura de poder do Estado.

Quanto aos direitos humanos:

“Direitos Humanos” é expressão amaldiçoada por este governo. Tanto o é que a Alta Comissária de Direitos Humanos da ONU, Senhora Michelle Bachelet, denunciou a militarização de instituições civis, a violência policial, os ataques a ativistas, a líderes comunitários e jornalistas.

A violência doméstica, o feminicídio, a cultura do estupro, o genocídio da juventude negra, nas ruas e favelas das grandes cidades, os ataques à população LGBTQI+ vêm se tornando a marca do desapreço do governo brasileiro pelo direito à vida, aos direitos, à Justiça e à cidadania.

O discurso do ódio, que foi a tônica da campanha eleitoral de Bolsonaro/Mourão contra a diversidade da plural sociedade brasileira, contra as organizações políticas e sociais, contra outros povos, outros países, contra religiões que fogem à estrutura evangélico-neopentecostal, vem embalando e justificando a desmedida violência no Brasil.

Quanto ao respeito à autodeterminação dos povos:

Mesmo na chamada grande imprensa brasileira - propriedade de seis ou sete famílias muito ricas - que vem, historicamente, privando o povo brasileiro de um direito humano chamado “Informação Fidedigna”, não foi publicada conclusão ou prova de que a Venezuela tenha qualquer responsabilidade com relação ao derramamento de óleo no Atlântico, trazido pelas correntes marítimas à costa brasileira.

Sobre esse incidente, o que restou provado fartamente foi a inoperância do governo brasileiro, que levou meses para tomar as primeiras providências em relação ao desastre que atingiu o litoral de dez Estados.

O Brasil tem por tradição defender a soberania e a autodeterminação dos povos. No entanto, o presidente brasileiro e seu governo não têm respeitado nossa Constituição, atuando como um agente provocador na região, alimentando o ódio e a discórdia entre países, diferentemente do que preconiza o artigo 4º da Lei Maior do Brasil, além de fazer, da própria soberania brasileira, que tem que defender como dever de ofício, coisa de somenos importância.

E a visita do secretário norte-americano Mark Pompeo, para discutir a crise na Venezuela com o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo - um ‘terraplanista’ que vem destruindo a respeitada tradição diplomática brasileira – é boa prova do que afirmamos.

Conclusão:

O governo do Brasil afrontou o mundo com um discurso que primou pela falta de apreço à verdade e mostrou, em última instância, que sabe o que seria correto fazer pelo Brasil, mas se dá ao desfrute de dizer ao planeta, que o faz, contra todas as evidências e provas.

Esta carta recupera informações obtidas por meio de áudios, vídeos, documentos, leis, artigos na imprensa, veiculados insistentemente nos meios de comunicação e redes sociais nacionais e internacionais, além de ter fundamento, sobretudo, na realidade que vivemos neste Brasil sofrido.

É preciso dizer, finalmente, que o comportamento do presidente do Brasil na Assembleia da ONU condiz com a forma fraudulenta por meio da qual se elegeu, apoiando-se em larga divulgação de mentiras - as chamadas Fake News - calúnias e injúrias sobre figuras públicas, sobre partidos políticos, sobre a própria História do Brasil.

Pedimos, mais uma vez, consternadas/os, desculpas!

Que a verdade prevaleça e que a denúncia do genocídio, do desmatamento, das queimadas que vêm nos destruindo como nação, destruindo nossos povos originários, nosso meio ambiente ganhe voz de quantos lutam pelo respeito à Mãe Terra e a tudo, todas e todos os que nela têm sua morada.

Receba nosso agradecimento respeitoso ao Senhor e a todas e todos os da Organização das Nações Unidas.”

                  

Assinam esta carta:

-Associação Comunitária da Expansão Setor O;

- Casa da Justiça de Ceilândia;

- Central dos Movimentos Populares – CNP, organizada em dezoito Estados, contando com 418 entidades;

-Central das Cooperativas de Trabalho de Materiais Recicláveis do DF - Centcoop;

-Centro de Educação Popular Paulo Freire- Cepafre;

- Centro de Preservação e Conservação Ambiental - Cpcam;

- Confederação Nacional das Associações de Moradores - Conam, que congrega delegados(a)s em 23  Estados, com mais de 20 mil associações comunitárias;

- Conselho Nacional de Saúde;

-Cootraempo Cooperativa de Empreendedores populares de Santa Maria/DF;

-Coletivo de Mulheres das Organizações Religiosas do Distrito Federal – COMOR/DF;

- Coletivo Resistência_Ação;

- Coletivo Uni-vos!;

-Comissão de Gênero da Aliança de Negras e Negros Evangélicos do Brasil –ANNEB;

- Comitê Anti-imperialista General Abreu e Lima;

-Ecotrabalhismo;

- Escola Feminista de Brasília;

- Frente Nacional de Luta Campo e Cidade - FNL ;

- Frente Unificada de Cultura do DF;

- Fórum de Cultura do DF;

- Fórum da Secretaria Executiva da Reforma Urbana;

- Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Socioambiental – FMCJS;

- Instituto Teko Porã Amazônia;

-Levante Popular da Juventude;

- Movimento Negro Unificado-MNU;

- Movimento Negro Evangélico do Distrito Federal-MNE-DF;

- Movimento Social de Mulheres Evangélicas do Brasil –MOSMEB;

- Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST;

- Marcha Mundial do Clima;

- Movimento Renovar Nosso Mundo;

-Núcleo de Evangélicas e Evangélicos do Partido das Trabalhadoras e dos Trabalhadores do Distrito Federal – NEPPT/DF;

- Núcleo de Base do Partido dos Trabalhadores no Congresso  Nacional Marisa Letícia;

- Núcleo de Base 1º de maio do PT Gama/DF;

- Núcleo em Defesa da Democracia – NDD Margarida Alves;

- Núcleo Resistência Socialista Lula Livre da Zonal de Santa Maria-PT/DF;

-Observatório Nacional do Direito à Água e ao Saneamento/RJ;

-Partida Nacional Feminista;

-Partida Feminista/DF;

- Partido dos Trabalhadores do Distrito Federal - PT/DF:

. Zonal de Águas Claras-PT/DF;

. Zonal de Brasília – PT/DF;

. Zonal de Brazlândia – PT/DF;

. Zonal da Candangolândia – PT/DF;

. Zonal de Ceilândia- PT/DF;

. Zonal do Cruzeiro-PT/DF;

. Zonal do Gama – PT/DF;

. Zonal do Guará- PT/DF;

. Zonal da Estrutural-PT/DF;

. Zonal do Núcleo Bandeirante-PT/DF;

. Zonal de Planaltina – PT/DF;

. Zonal do Paranoá- PT/DF;

. Zonal do Recanto das Emas-PT/DF;

. Zonal do Riacho Fundo 1 – PT/DF

.Zonal do Riacho Fundo 2 –PT/F

. Zonal de Santa Maria-PT/DF;

. Zonal de Sobradinho PT/DF;

. Zonal de São Sebastião-PT/DF;

.Zonal de Samambaia- PT/DF;

. Zonal de Taguatinga- PT/DF.

- Rede de Educação Ambiental e Políticas Públicas – REAPOP;

-Rede Pequi de Artesanato, afiliada à Rede de Economia Solidária Feminista;

- Secretaria de Mulheres do PT DF.

- Setorial Comunitário Nacional;

-Secretaria de Mulheres do PT/DF.

- Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica – Sinasefe/ Secção Brasília.

Criado em 2020-09-30 17:24:13

Stefan Zweig, o Brasil de ontem e de hoje, e o cansaço de ser - III (Final)

Maria Lúcia Verdi -

Com este terceiro capítulo, encerro meus comentários sobre a vida e obra do escritor austríaco Stefan Zweig.

"Aqueles que anunciam que lutam a favor de Deus são sempre os homens menos pacíficos da terra. Como crêem receber mensagens celestiais, têm os ouvidos surdos a qualquer palavra de humanidade". Stefan Zweig

Em São Paulo, Stefan Zweig visita o Museu do Ipiranga, o Butantã e a Penitenciária. Tendo em vista a atual crise carcerária, é duro lermos a boa impressão obtida no então presídio-modelo: “Todo o pendor para uma atividade artística é favorecido pelos dirigentes, o estabelecimento tem uma orquestra e vários penitenciários aprendem a pintar e a desenhar”.

Mas, claro, nos perguntamos se podemos confiar nesse narrador mediador.

Quando menciona aqui sentir um “outro sentimento do tempo”, menos tenso e competitivo, fala a partir da nostalgia de um mundo que acabou, não percebendo o que esse lírico anacronismo significa para a organização da sociedade brasileira.

Diz ser o Brasil de então “uma boa terra para pessoas idosas que já viram muita coisa desse mundo e desejam silêncio e vida retirada numa paisagem bonita e tranquila, a fim de meditarem em tudo o que viveram e aproveitaram”.

É isto o que Zweig e sua mulher Lotte fazem em Petrópolis, distantes do convívio e da vida social, tal isolamento tendo contribuído para a decisão final de quem tinha privado do convívio com as grandes inteligências do seu tempo.

Em 1942 Getúlio proíbe que se fale alemão no país. O sentimento de alteridade em relação ao seu entorno, a condição inexpugnável de judeu errante alemão que se acirra, as notícias que chegam sobre a intensificação do pesadelo alemão o impedem de seguir vivendo:

“Não podemos negar que foi nossa pátria que levou esses horrores ao mundo... Se um escritor pode deixar o próprio país, não pode, porém, desvincular-se da língua com que foi criado e com que pensa. Foi nesta língua que por toda vida lutamos contra a autoglorificação do nacionalismo, e é ela a única arma que nos resta para continuar a lutar contra o espírito criminoso e malfeitor que destrói o mundo e lança a dignidade do homem à lama”.

Numa passagem do livro, o autor conta que, em São Paulo, no Butantã, havia tomado nas mãos, fascinado, um “frasco de tamanho médio” que continha o veneno de oitenta mil serpentes concentrados em “pequenos cristais esbranquiçados” (...) “...nunca vira e tivera eu nas mãos a morte em forma tão concentrada como o instante em que segurei esse frasco frio e frágil.”

Curiosamente, compara o poder aniquilador do frasco de veneno de cobras a “um milagre maior do que o dos contos de As mil e uma noites”.

Ao ler essa passagem é inevitável lembrar do frasco de Veronal que conterá as pílulas com que se suicida em 22 de fevereiro de 1942, durante o carnaval.

A asmática e frágil Lotte toma veneno de rato e se deita ao lado do marido e chefe morto (ela tinha sido secretária de Zweig).

Nas cartas que envia aos amigos e na que agradece ao Brasil e ao povo brasileiro está “aliviado” com sua decisão pelo suicídio, diz-se “demasiado impaciente” para aguardar o eventual fim do pesadelo europeu.

Na carta para sua primeira mulher, a escritora Friderike Von Winsternit, companheira intelectual por muitos anos, explica a decisão mencionando solidão e falta dos livros.

Homem do século dezenove, apesar de seu amor à reflexão e à psicanálise – era amigo pessoal de Freud, de quem escreve o elogio fúnebre - não suporta a realidade desesperançada.

Como vários de seus personagens, e muitos de seus amigos, busca a solução que já havia mencionado em seu diário, solução que, para a psicanálise, pertence aos fortes.

Como escrevera na biografia sobre Tolstói, ao interpretar a drástica mudança na vida do grande russo e explicá-la pelo conhecimento radical e devastador do Nada, seu destino fez com que também vivenciasse o Nada e o cansaço de ser.

Como Freud, percebe a preponderância dos instintos sobre a barbárie – com tal consciência, para que viver mais?

Os ideais pacifistas de Zweig, sua crença na importância de uma Europa unida, só vieram a ver a luz muitas décadas depois, com a criação da - como tudo, hoje em crise - União Europeia.
 
O presente – o dele, o do Brasil que retratara e o nosso - talvez seja desvendável unicamente através de lentes ainda não completamente forjadas.

(Fim)

Criado em 2017-05-10 14:10:29

O simbólico gesto de Jean Wyllys

Romário Schettino –

Acabei de ler, no portal Uol do dia 23/4, um artigo contundente de Mariana Belmont. Nele, a jornalista faz uma defesa pública do ex-deputado federal Jean Wyllys.

Mais do que uma defesa, Mariana elogia aquele que ousou cuspir no deputado homofóbico em plena votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

São delas as palavras: “Uma das melhores formas de começar o texto essa semana é agradecendo publicamente a Jean Wyllys, por seu ato de coragem ao cuspir na cara do sociopata, na época deputado federal, e hoje presidente da República”.

“Jean, sabemos o que isso te causou pessoalmente e publicamente. Muita gente entendida de alianças e teorias de paz acreditava que aquilo que você fez foi errado, mas, mano, eu sempre estive com você nessa, mesmo você não sabendo quem eu sou”, diz a colunista.

E Mariana avança, critica o que ela chama de “bundamolismo” de certa esquerda brasileira quando se trata de enfrentar poderosos e escroques. “Alguns de nós olhamos para a história e ficamos arrependidos de não ter cuspido nesse presidente junto com Jean. Por isso, Jean, obrigada por realizar tão fortemente um sonho de muitos brasileiros. As imagens dos últimos dias me reforçaram a essa vontade”, conclui.

Mariana tem razão, temos que agradecer Jean Wyllys por ter realizado o que muitos brasileiros gostariam de fazer, mas que só ele foi capaz de traduzir em gesto.

O que estamos vendo nos últimos dias, nas últimas horas, reforça a vontade de repetir Jean Wyllys. Os dias, ou meses, de Bolsonaro no governo estão contados. Pelo menos é o que se espera e o que dizem os analistas mais espertos deste país.

Criado em 2020-04-24 16:15:15

Quem dinamitará os canhões de Navarone?

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Volta e meia o cérebro nos apronta cada uma! Amanheci o domingo ensolarado lembrando cenas de Os Canhões de Navarone, um dos melhores filmes de guerra que já vi, com um elenco de tirar o chapéu, direção soberba e épica trilha sonora.

Para fazer babar os mais velhos, listo as feras: Gregory Peck, David Niven, Anthony Quinn, Stanley Baker, Anthony Quayle, Irene Papas, Gia Scala e James Darren. O diretor, J. Lee Thompson.

A música foi composta por Dimitri Tiomkin, o único soviético que brilhou em Hollywood. O próprio Tiomkin, excessivamente modesto, dizia não ser nenhum Prokofiev. No entanto, Anna, A Lenda de Navarone e Missão Cumprida, peças da trilha sonora, são algumas pérolas de seu imenso repertório.

Os Canhões de Navarone (1961) integra um ciclo de grandes produções britânicas junto com A Ponte do Rio Kwai (1957), O mais longo dos dias (1962) e Fugindo do Inferno (1963).

Eis a trama: O ano é 1943 e dois mil soldados britânicos estão encurralados na ilha fictícia de Kheros, território da Turquia ainda neutra, pressionada pelos nazistas e também pelos Aliados a entrar na guerra. A Marinha britânica não tem como resgatar os militares porque seus navios entrariam na linha de tiro de dois gigantescos canhões alemães instalados na íngreme (e também fictícia) ilha de Navarone. A solução é explodi-los. Mas como? Os aliados mandam um comando liderado pelo major Roy Franklin (Anthony Quayle) até a fortaleza com a missão de dinamitar os canhões. Franklin convence o capitão alpinista e poliglota Keith Mallory (Gregory Peck) a entrar na empreitada. O coronel grego Andrea Stavros (Anthony Quinn), namorado da guerrilheira Maria (Irene Papas), faz parte do grupo, a despeito de odiar o capitão Mallory, a quem jura matar depois da tremenda tarefa, por culpá-lo pela morte de sua família. O cabo Miller (David Niven) é o especialista em explosivos. Anna (Gia Scala), que teria escapado da prisão e das torturas dos nazistas, é amiga de Maria.

O cérebro realmente nos prega peças. Estou aqui conversando com o meu zíper: e se a ilha de Kheros fosse hoje o Brasil, e Navarone o Palácio do Planalto? Quem seriam o major Roy Franklin e o capitão Keith Mallory? Quem faria o papel do coronel Stavros? E o do fogueteiro cabo Miller? Quem se atreveria a interpretar Maria?

Voluntárixs da Pátria, tem uma cópia dublada do filme no YouTube, partida em duas partes: aqui a parte 1e aqui a parte 2

Criado em 2021-01-31 18:17:00

Sobre a interrupção da gravidez de menina vítima de estupros

Geniberto Paiva Campos –

O caso de uma criança de 10 anos de idade, seguidamente violentada, desde os 6 anos, por um parente em seu ambiente doméstico, e que resultou numa gravidez precoce, tornou-se em seu desfecho, emblemático do eterno conflito civilização x barbárie.

Este conflito incide em todas as sociedades humanas, e independe do seu grau de desenvolvimento econômico, social, político, artístico, científico ou cultural. São exemplos eloquentes a Itália e a Alemanha, nas primeiras décadas do século passado, os quais resultaram num dos mais violentos conflitos bélicos da nossa História: a II Guerra Mundial. Quando milhões de pessoas morreram – entre civis e militares - e, pela primeira vez foram utilizadas armas atômicas, pondo em risco a própria sobrevivência da humanidade. Mais uma prova de que a estupidez humana não tem limites.

Alguns países, embora apresentem atrasos e retrocessos nos campos político e/ou democrático - caso do Brasil atual – guardam em seu aparato legal leis que tratam de assuntos específicos, que representam conquistas civilizatórias, as quais permanecem vigentes. É o caso da lei que trata do aborto, por exemplo. Vigente no país, em sua configuração atual, desde 2012.

O debate sobre a criminalização x descriminalização do aborto permeia a sociedade brasileira há algum tempo. E configura dois campos opostos: os movimentos religiosos (católicos e evangélicos) x movimentos feministas.

Esta configuração faz com que o debate sobre o tema - periodicamente modificado, mas não muito bem assimilado pelos contendores – assuma características de irracionalidade, valendo lembrar que a adoção de métodos anticoncepcionais eficazes, hoje aceitos com naturalidade por toda a sociedade, representou um importante avanço sobre o tema, mas não logrou fazer avançar o debate, em direção à racionalidade e fortalecendo o processo civilizatório.

As repercussões, digamos “políticas” do caso presente – interrupção legal da gravidez ocasionada por estupro, numa criança de dez anos de idade - é um claro exemplo desse antagonismo estéril. E, ao que parece, irredutível. Pois a atual lei brasileira sobre o aborto é clara, a interrupção da gravidez é legalmente permitida, em três condições: 1. risco de vida para a gestante; 2. gravidez resultante de estupro; 3. anencefalia fetal.

Fica claro que a aceitação dessas condições representa um avanço significativo na descriminalização da interrupção da gravidez. E, valendo acrescentar, um passo importante para fazer do Brasil um país civilizado.

Os contendores precisam começar a perceber que a “batalha do aborto” somente deveria ter um vencedor: as mulheres brasileiras e o seu irredutível direito à reprodução. Uma visão medieval sobre esse direito somente nos conduzirá para as trevas da barbárie. Afinal, os avanços tecnológicos, em todas as áreas, estão mudando o mundo. E é o nosso entendimento sobre isso – com humildade e inteligência - que nos conduzirá para a CIVILIZAÇÃO! Ou, se preferirmos ignorá-lo, para a BARBÁRIE.

Criado em 2020-08-26 15:25:15

Judith Butler e a não violência

Guilherme Cadaval (*) –

Foi o filósofo inglês Thomas Hobbes quem afirmou, no seu Leviatã, que, no estado de natureza, antes da formação da sociedade, os homens viveriam em constante conflito uns com os outros, resumindo tal pensamento na famosa frase: “guerra de todos contra todos”. Seria, de fato, precipitado excluir a dimensão potencial de conflito que subjaz todo laço social. Mas seria talvez igualmente arriscado acompanhar esta fantasia hobbesiana do momento de criação da sociedade civil, imaginando que um contrato, livremente aceito por indivíduos sempre autossuficientes e soberanos, foi o que bastou para por fim à violência. No mínimo, poderíamos nos perguntar: que indivíduo é esse que, sempre independente, parece já existir como adulto? E mais: que indivíduo é esse cujo gênero é sempre masculino? A fantasia da instauração da sociedade civil pressupõe, de forma oculta, uma violência inaugural pela qual se apaga a condição de dependência generalizada no princípio de toda vida humana, tomando, ao mesmo tempo, o gênero como sempre determinado de antemão.

O novo livro da filósofa norte-americana Judith Butler, A força da não violência, publicado a pouco pela Editora Boitempo  (com prefácio de Carla Rodrigues e tradução de Heci Regina Candiani), busca justamente, opondo-se à hipótese hobbesiana, colocar a tese de que “nenhum corpo pode sustentar-se por si mesmo. O corpo não é, nem nunca foi, um tipo de ser que subsiste por si mesmo”.

Com efeito, tanto quanto podemos, e mesmo devemos, pensar o potencial destrutivo de todo laço social, é também preciso pensar a interdependência radical que marca toda vida humana, interdependência que é posta de lado na fantasia da origem da sociedade. Desse modo, um dos primeiros alvos de uma reflexão crítica sobre a violência deve ser a noção de indivíduo soberano.

Mas o que precisa florescer a partir de uma tal reflexão é que a interdependência é condição necessária da igualdade. Afinal, se a “maioria das formas de violência está comprometida com a desigualdade”, uma “ética da não violência deve pressupor e afirmar o valor igual das vidas”.

Essa afirmação não é, contudo, simples. Se pensarmos que o contrato que instaura a sociedade, supostamente pondo fim à violência irrestrita do estado de natureza, de fato torna justificável uma violência mantenedora exercida no interior de um estado de direito, a crítica – e a afirmação da igualdade radical das vidas – topa com um obstáculo bastante complicado: algumas vidas são dignas de ser vividas, são, no vocabulário de Butler, “enlutáveis”, enquanto outras não o são.

Assim, uma ética da não violência precisa enfrentar o problema da “distribuição diferencial do direito ao luto”. Pois afirmar que a “igualdade se estende formalmente a todos os seres humanos é esquivar-se da questão fundamental a respeito de como o humano é produzido, ou melhor, quem é produzido como ser humano reconhecível e valioso e quem não o é”.

Essa distribuição desigual do direito ao luto distorce nossas formas de pensar sobre a violência e a não violência. Afinal, através de qual quadro referencial classificamos algo como violento? O que chamamos “violência”? Um estado pode acusar aqueles que tentam critica-lo de violência – veja-se o exemplo recente da queima da estátua do bandeirante Borba Gato em São Paulo, “crime” que sentenciou o ativista Paulo Galo a uma prisão preventiva por tempo indeterminado – enquanto vê no seu uso da força uma violência justificada e de acordo com a lei, direito inquestionável do estado de defender-se do que o ameaça.

Nesse sentido, pensar a não violência, como nos propõe Butler, significa “contribuir para a formação de um imaginário radical de direito ao luto”, de um luto que não se dê apenas com a morte do corpo, mas que seja parte constitutiva do corpo vivo, pensar toda vida – não apenas a humana – como digna de luto, tomando distância da realidade tal como ela se constitui hoje e “deixando abertas as possibilidades que pertencem a um novo imaginário político”.
______________
(*) Guilherme Cadaval é formado em Filosofia pela UFRJ, onde concluiu mestrado e doutorado. É autor de Escrever a mágoa: um cruzamento entre Nietzsche e Derrida.

Criado em 2021-08-08 22:53:23

Será 2020 a vez das mulheres?

Júlia Coury (*) –

As campanhas eleitorais para vereadores e prefeitos no Brasil se iniciaram neste domingo (27/9) e nós já começamos a especular como todos os obstáculos encontrados em 2020 irão impactar o período eleitoral. No entanto, uma característica importante já se faz presente mesmo antes das panfletagens e do tempo de televisão, apesar do esforço de inúmeras iniciativas para atrair mais mulheres para política, a porcentagem de mulheres candidatas se manteve praticamente igual ao percentual determinado por Lei, situação semelhante ao ocorrido nas eleições de 2018. O assunto gerou impacto na mídia nacional e internacional e trouxe informações que explicitam que a paridade de gênero dentro do ambiente político brasileiro ainda tem um longo caminho a ser percorrido.

Na quinta-feira (24/9), foram divulgados pela ONU Mulheres e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) dados que posicionam o Brasil em 9º lugar entre 11 nações da América Latina quando avaliados os direitos políticos das mulheres e a paridade política entre homens e mulheres. O projeto, denominado Atenea, pior avaliou o país nos aspectos referentes a cotas, Poder Judicial, e compromissos com a igualdade na Constituição. A classificação final rendeu ao Brasil o Índice de Paridade Política (IPP) de 39,5 (escore vai de 0 a 100), abaixo dos resultados do México, Bolívia, Peru, Colômbia, Argentina, Honduras, Guatemala e Uruguai. Esse diagnóstico deixa claro os desafios encontrados para promover a participação política das mulheres no país e, consequentemente, de acordo com os Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da ONU, para atingir uma democracia mais consistente.

A importância de mais mulheres na política vai além de conquistar uma democracia mais diversa. Em pesquisa publicada no Journal of Economic Behavior & Organization, de autoria dos pesquisadores Chandan Cuma Jha e Sudipta Sarangi, analisou-se que a corrupção é menor nas regiões onde mulheres participam em maior número no governo. O estudo avaliou mais de 150 países, inclusive o Brasil. De acordo com os resultados, o impacto de mais mulheres não atinge somente os níveis de corrupção, mas também reduz a probabilidade de suborno. Além disso, áreas como a educação e a saúde passam a ter mais investimentos dentro do orçamento público total, sendo este um canal através do qual as mulheres, como legisladoras, podem combater a corrupção.

O diagnóstico feito pelo Pnud e ONU Mulheres revelam o caminho longo a ser percorrido pelo Brasil para alcançar a paridade política. As instituições recomendam, como passos em busca da paridade, impulsionar ações que promovam o acesso de negras e mulheres indígenas ao poder político, bem como intensificar o controle público sobre partidos políticos, com ação de punição diante do descumprimento da legislação de cotas.

O ponto positivo é que algumas iniciativas nessa direção já vêm sendo tomadas: em 2018, uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou que partidos deveriam destinar ao menos 30% dos recursos de financiamento de campanha e do tempo de propaganda gratuita para candidaturas femininas. Em 2020, essa cota de 30% da candidaturas de mulheres foi expandida para as disputas pelos cargos em Diretórios Nacionais, Regionais e Municipais dentro dos partidos, e aprovou-se que o dinheiro do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral seja destinado de forma proporcional às campanhas de candidatas e candidatos negros.

O ponto negativo, de acordo com um levantamento do G1 feito com base nas atas das convenções partidárias, foi que mesmo com mais atuação em busca da paridade de gênero a cada 10 candidatos a vereador nas 26 capitais do país apenas 3 são mulheres. A proporção de 34%, de acordo com o TSE, se mantém em uma situação muito parecida à das últimas eleições municipais, em 2016, nas quais 32% dos candidatos eram mulheres, e continua abaixo da média da população brasileira - fonte: Folha de São Paulo.

No Brasil, 52,6% do eleitorado brasileiro é feminino. Sem contar que a pandemia do novo coronavírus traz ainda mais obstáculos para as campanhas femininas das eleições de 2020. Com as medidas de isolamento social e a necessidade do distanciamento físico, as campanhas eleitorais tiveram que sair das ruas e ir para as redes sociais, o que dificulta muito a conexão e conversa dos eleitores com as candidatas.

A esperança é que as candidatas concorrentes recebam mais votos e sejam eleitas em maiores números. Para apoiar o aumento de mulheres eleitas, organizações não-governamentais como o Elas no Poder, Vamos Juntas, Goianas na Urna, Impulsa Voto, Vote Nelas entre outras, estimulam e promovem mentorias políticas, e incentivam a sociedade civil ao voto em representantes mulheres. Afinal, este é outro desafio latente: em 2016, as mulheres representaram 86% dos 18,5 mil candidatos sem votos.

Gosto de lembrar que a diversidade de gênero e raça, de mulheres brancas e pretas, vai além da representação visual feminina dentro das Casas Legislativas, ela, principalmente, proporciona diferentes pontos de vista e vivências, que abraçam outros segmentos da sociedades na hora da tomada de decisões relevantes - relutando contra a política tradicional, de homens como os principais decisores. São essas líderes mulheres as representantes de inúmeras responsabilidades e papéis sociais unicamente ligados à população feminina e, as quais podem adequar o desenvolvimento de políticas públicas mais inclusivas. Precisamos de diversidade e representação política da população para sermos todos ouvidos.  É por isso que, nestas eleições, eu voto em mulheres!
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(*) Julia Coury, estudante de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo, membro do “Elas No Poder, Talento Politize” e finalista do programa Talentos do Legislativo 2020.

Este artigo foi escrito com a contribuição de Haline Floriano, graduada em Comunicação Social pela Universidade de São Paulo e Assessora de Comunicação na ONG “Movimento Voto Consciente São Paulo”.

(Lembrando que as análises e opiniões aqui contidas dizem respeito à autora e não representam o posicionamento institucional das organizações).

Criado em 2020-09-27 21:42:37

Stefan Zweig, o Brasil de ontem e de hoje, e o cansaço de ser - II

Maria Lúcia Verdi -

Hoje, no Capítulo II desta série, comento outros aspectos da vida e obra do escritor austríaco Stefan Zweig, que suicidou-se em Petrópolis (RJ), em 1942. Biografia que também foi tratada no filme "Adeus, Europa", de Maria Schrader.

Compreender a história de uma ex-colônia construída por uma classe dirigente em cima de cemitérios indígenas (Airton Krenaki) e de uma dolorosa diáspora africana, era um desafio grande demais para quem que vivera no seio de uma família riquíssima, no bojo do império austro-húngaro.

De fato, obras como as dos irmãos Villas-Boas, Berta e Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Manuela Carneiro da Cunha e mesmo “Tristes Trópicos” são posteriores a 1940, mas Stefan Zweig poderia ter se informado sobre José Bonifácio, Capistrano de Abreu, Curt Nimuendaju, entre alguns outros.

Talvez um de seus pecados tenha sido relacionar-se quase exclusivamente com a elite brasileira, seus pares.

Em sua autobiografia, se refere ao mundo que vira na Europa como harmonioso, tolerante, cordial, calmo, perseverante, polido e gentil e, sintomaticamente, usa os mesmos adjetivos ao falar do conflituoso Brasil do Estado Novo.

Entre 1938 e 40, quando escreve o “País do futuro”, o Modernismo havia ocorrido há mais de uma década e as grandes interpretações sobre o Brasil já estavam publicadas.

Embora não soubesse português, sabia espanhol, caso não estivesse deprimido poderia ter buscado uma visão mais abrangente.

Perceber o Brasil de então apenas como “calmo, tolerante” é não compreender corretamente os conflitos sociais, as marcas da escravidão, os abusos de poder, o patriarcalismo aviltante, o autoritarismo, as mazelas de uma sociedade contraditória, até hoje liberal e escravagista.

O humanista comprometido, o incansável pacifista, viajando pelo mundo desde 1934, deixando-se embalar por uma ideia de Brasil desde quando o visitou pela primeira vez, em 36, aqui julgando viver “um povo único e livre”.

Uma terra que, em suas palavras - pensando em seu povo perseguido e sempre errante -“faria a felicidade de tantos refugiados”.

Havia deixado um mundo por onde andara sem passaporte, um mundo da cultura e da esperança destruído pelas guerras e imagina reencontrá-lo nesse Brasil, rítmico cadinho de raças e de cores.

Vítima das teorias de seu tempo, assim como Euclides da Cunha, escreve:

“A raça brasileira, que, por uma importação de negros durante três séculos, está ameaçada de se tornar cada vez mais escura, cada vez mais africana, clareia visivelmente, e o elemento europeu, em oposição ao elemento primitivamente crescente, de escravos analfabetos, eleva o nível geral da civilização.”

Desconhece, também, as dificuldades enormes enfrentadas pelos imigrantes, seja pela mal estruturada política de imigração, seja pelas dificuldades de adaptação aos trópicos.

Encontramos trechos como: “...nada é tão típico do brasileiro quanto o fato de ser ele um ente humano sem história...”.

Reconhece as inegáveis qualidades do país e de seu povo, prevê acontecimentos relacionados às riquezas naturais da terra, mas não consegue observar claramente as idiossincrasias brasileiras.

Tampouco intui o que se processava no Brasil e na América Latina, nos anos trinta, com relação ao que vem a ser apontado pelos estudos pós-coloniais.

Não se conecta com o que Antonio Candido chama de “atmosfera de fervor” dos anos trinta, no que se refere ao “engajamento político, religioso e social no campo da cultura”, em “A revolução de 1930 e a cultura”. É difícil ver o presente, como ele uma vez remarcara.

Pouco percebeu da produção cultural e artística, até mesmo Aleijadinho, em sua peculiar expressão, o confunde - examina-o apenas por padrões europeus. Escreve: “... (não existem) religião originariamente brasileira, música brasileira antiga, não existem lendas populares conservadas através dos séculos e nem mesmo os modestos inícios de uma profissão artística.” Apenas Carlos Gomes e Villa Lobos.

Zweig não foi sensível ao grande samba que lhe estaria próximo, caso estendesse o ouvido, nem às lendas populares que poderia ter conhecido por relatos orais. Cita Machado de Assis superficialmente, analisa o óbvio em Alencar (o índio europeizado), lembra alguns poetas árcades, cita Rui Barbosa.

Quando descreve o Mangue, a beleza das raças misturadas e as ruas antigas, não faz referência às mulatas de Di Cavalcanti ou a Lasar Segall, mas sim a Rembrandt, que, segundo ele, poderia tão bem tê-las retratado num “clair obscur”.

Pelas ruas vê Cézanne, Van Gogh, nunca Portinari. A miscigenação o encanta, a confluência de culturas, e nelas vê um dos grandes trunfos do país, em oposição ao horror do arianismo.

Afirma que “Aspirações à emancipação ou feminismo ainda não encontraram terreno aqui”, o que, embora, em geral, correspondesse à verdade, elimina personagens da história do Brasil, como Xica da Silva, Chiquinha Gonzaga, Pagu, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, para citar as mais relevantes.

Zweig, na verdade, quer rever\reviver um mundo, voltar a sentir emoções que sentira na infância, na sua “Europa da esperança”: “ Aqui havia colorido e movimento; os olhos não se cansavam de olhar e, para onde quer que os dirigisse, sentia-me feliz.

Apoderou-se de mim uma ebriedade de beleza e de gozo que excitava os sentidos, estimulava os nervos, dilatava o coração e, por mais que eu visse, ainda queria ver mais.

”“Brasil, país do futuro” é uma apaixonada história romanceada, mas pouco confiável - nas palavras de Afrânio Peixoto, “o mais favorecido dos retratos do Brasil. ”

Mas Zweig acerta em algumas percepções da psicologia do brasileiro, cada vez mais comprovadas: “O brasileiro, por natureza, não é radical, nem revolucionário”.

Grande intérpretes de almas, tendo-as estudado seja nas excelentes e variadas biografias que produz, seja em novelas eminentemente psicológicas, se não avalia bem nossa História, bem interpreta o espírito brasileiro daquele tempo.

Ao se referir ao Brasil que luta pela independência de Portugal comenta algo que, hoje em dia, soa com uma dura ironia do destino da Nação: “... com mão leve e hábil ainda seria possível sem dificuldade, conservar a posse do país”.

Certos comentários sobre o caráter dos brasileiros do final dos anos 30 e início dos quarenta reiteram uma perda dolorosa, uma grande mudança no ethos nacional:

“É raro ouvir alguém falar alto ou dirigir-se a outra pessoa encolerizado, aos gritos. (...). Mesmo quando se divertem em massas, as pessoas aqui se conservam calmas e discretas, e essa ausência de tudo o que é forte e brutal, dá à sua alegria suave um delicioso encanto(...). Tudo o que é brutal repugna ao brasileiro, está verificado por estatística que o assassínio quase nunca é praticado com premeditação, é quase sempre espontâneo, é um crime passional... Crimes ligados à astúcia, cálculo, rapacidade e perversidade são muito raros”.  Tristeza.

(Continuação amanhã - Capítulo III)

Criado em 2017-05-09 14:30:22

Para Brasília

Romário Schettino –

I

Brasília veste-se de azul
para comemorar os seus
60 anos bem fornidos,
mais curtidos,
apesar do vírus e dos vampiros
que rondam
suas casas, urnas,
avenidas e palácios.
Brasília ainda é uma mulher de sorte,
tem entre seus amantes
poderosos dentes de alho e olhos de lince.

II

A cidade e seu habitante
Fazem, juntos, aniversário.
Uma canta a vitória de ser a mais bela,
Um canta a glória de viver ao lado dela!

III

As delícias impertinentes
dos prazeres
tornam os anos mais doces,
apesar dos amargos da rotina.
Os inesperados momentos de quarentena
são mais valiosos do que
a ameaça de surpresas!
Continuemos nos amando com os impulsos
da corrente sanguínea e com
a ativação dos neurônios inteligentes
de Vênus.

Criado em 2020-04-21 03:30:53

“Futuramente aqui: Bunda!” - Considerações sobre o projeto do Museu Nacional da Bíblia

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Vou meter a minha colher no caldeirão do debate sobre o plano do governador Ibaneis Rocha de ereção do chamado Museu Nacional da Bíblia em Brasília, a cargo do secretário de Cultura Bartolomeu Rodrigues.

Juro que pensei duas ou três vezes sobre o tom a empregar neste artigo. Deveria ser sóbrio como o profeta Jeremias ou o filósofo Bento de Spinoza? Irônico como Jó? Blasfemo como Diderot? No fim, a maior inspiração me veio do pintor Michelangelo Buonarroti, um profundo conhecedor da Bíblia dos judeus e um tremendo gozador… divino, evidentemente!

Eu poderia iniciar o artigo com uma cena imaginária. Tipo assim: logo depois de eleito, o governador Ibaneis Rocha Barros Jr. tem uma noite agitada. Sonha que ainda é menino em Corrente, no Piauí, caçando passarinhos de baladeira. Lembra-se então da aula de religião no Colégio das Irmãs Mercedárias, durante a qual aprendeu a história de São Pedro. Uma das fontes é o Capítulo 16 do Evangelho de Mateus. Ibaneis ri do trocadilho infame de Jesus: “18 - Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; 19 - E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”.

Ibaneis acorda suando, preocupado, mas com um senso de revelação. Esse sonho tem sido recorrente nos últimos 30 e tantos anos, e foi justamente por causa dele que nomeou um de seus filhos João Pedro, e um segundo, Mateus. Dessa vez, Ibaneis acha que acabou de receber um sinal, como se o pardalzinho azul do Whatsapp do Céu quisesse lhe dizer alguma coisa, como se, que nos perdoem o sincretismo, baixasse nele o espírito de Simão Pedro Barjonas.

“Ibaneis, sujeito, tu és rocha! E sobre essa rocha, sobre essa rocha… Caralho, o que é que eu vou construir sobre essa rocha? Óbvio, seu moço, o Museu da Bíblia que eu prometi aos pastores. E, claro, a minha reeleição! Aleluia”!

Ibaneis salta da cama e põe mãos a essa obra que, supõe, só pode ser do Senhor. Dali a 11 meses e dezoito dias, ainda ruminando a cena da caça com baladeira, ele atiraria a pedra fundamental do Museu, no meio do Eixo Monumental, nas imediações da Rodoferroviária. Durante o culto-solenidade, estava cercado de pastores exaltados empunhando a Bíblia, entre eles Ronaldo Fonseca, pastor da Assembleia de Deus e ex-secretário-geral da Presidência no governo Michel Temer.

Uma primeira observação: não tenho a menor sombra de dúvida – sombra medida pelos graus atrasados do relógio de sol de Acaz – que esse Museu Nacional projetado pelo governador Ibaneis, com a pretensão de ser a maior de sua gestão, se chegar a ser construído, será um monumento ao fanatismo e ao fundamentalismo religioso, asilo da ignorância e da superstição. Pior, o governador pretende que a obra seja financiada com dinheiro público, captado por meio de emendas parlamentares. Dinheiro de impostos, arrecadado do conjunto da população muito diversificada em termos de crenças, para ser destinado a um rebanho específico de crentes, os evangélicos neopentecostais. Mais: a obra não tem valor firme. Já disseram que custaria 80 milhões de reais, depois baixaram para 63 milhões, e agora oscilaram o orçamento para 26 milhões. A julgar pela experiência recente do Estádio Nacional, por exemplo, é provável que logo, logo esses 26 milhões serão multiplicados por cinco ou por dez, como aconteceu nos milagres da multiplicação dos pães no deserto e dos peixes à beira do Mar da Galileia. 

Ao contrário do que diz o secretário Bartolomeu Rodrigues, o museu não seria, absolutamente, “um espaço cultural e curatorial, que vai permitir experiências de conhecimento sobre uma das mais importantes escrituras da humanidade, sobre a qual deitam as raízes da civilização ocidental”. Seria, isso sim, um bastião do proselitismo neopentecostal.

Antes, porém, de demonstrar com a clareza da sarça ardente essa grave afirmação, vou recapitular o histórico do projeto.

1) A ideia original do Memorial da Bíblia foi apresentada à Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) no dia 10 de dezembro de 1991 pelo deputado evangélico Peniel Pacheco na forma de um projeto de lei que recebeu o número 286/91. Na justificativa, Pacheco disse que Brasília precisava de um monumento para enaltecer “o livro dos livros – a eterna Bíblia”, fonte do “verdadeiro significado da existência humana e dos desígnios divinos." O deputado disse ainda que o memorial seria um ponto de encontro com a "mensagem de Deus aberta a todos os povos" e que o monumento da Bíblia seria o maior patrimônio espiritual da humanidade. (Essas informações foram retiradas da monografia “A Influência religiosa na atuação de distritais evangélicos na Câmara Legislativa do Distrito Federal”, julho de 2009, de autoria de Lygia Maria Bitencourt Moura Oliveira, bacharelanda de Ciências Sociais na UnB.)

2) A redação final do projeto de Peniel Pacheco foi aprovada pela Câmara Legislativa no dia 26 de junho de 1995 e publicada no Diário da CLDF no dia 19 de julho de 1995. Rezava o seguinte:

Art. 1° - Fica destinado para construção do Memorial da Bíblia o terreno em forma retangular, com área de 15.000 m², situado no Eixo Monumental, próximo ao entroncamento deste com a Estrada Parque Indústria e Abastecimento - EPIA.

Parágrafo Único - O terreno referido no caput deste artigo mede 100,00m de frente por 150,00m de comprimento, estando limitado pelas vias S-1 e N-1 Oeste que formam o Eixo Monumental de Brasília.

Art. 2° - Na área destinada por esta Lei será construído o Memorial da Bíblia, conforme projeto do arquiteto Oscar Niemeyer constante dos anexos 1, 2, 3, 4, 5 e 6, vedando-se a sua destinação para outros fins.

Art. 3° - Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Art. 4° - Revogam-se as disposições em contrário.

Sala das Sessões, 26 de junho de 1995 (Redação Final aprovada na Sessão Ordinária do dia 26.06.95.)

3) O Projeto de Lei nº 286/91 tornou-se a Lei nº 900, de 11 de agosto de 1995, pela sanção do governador Cristovam Buarque, com o veto do artigo 2º, que previa a utilização do suposto projeto do arquiteto Oscar Niemeyer na sua construção. Esse veto nunca foi derrubado pela CLDF. A Lei nº 900 está assim redigida:

Lei nº 900, DE 11 de agosto de 1995

Destina terreno para a construção do Memorial da Bíblia e dá outras providências.

O Governador do Distrito Federal,

Faço saber que a Câmara Legislativa do Distrito Federal decreta e eu sanciono a seguinte lei:

Art. 1º - Fica destinado para construção do Memorial da Bíblia o terreno em forma retangular, com área de 15.000m², situado no Eixo Monumental, próximo ao entroncamento deste com a Estrada Parque Indústria e Abastecimento - EPIA.

  • 1º - O terreno referido no caput deste artigo mede 100,00m de frente por 150,00m de comprimento, estando limitado pelas vias S-1 e N-1 Oeste que formam o Eixo Monumental de Brasília. (Parágrafo renumerado(a) pelo(a) Lei 2951 de 22/04/2002)
  • 2° - A responsabilidade de edificação, administração e manutenção do Memorial da Bíblia de que trata o caput deste artigo será do Conselho Nacional de Pastores do Brasil – CNPB. (Parágrafo acrescido(a) pelo(a) Lei 2951 de 22/04/2002)

Art. 2º – Vetado

Art. 3º - Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Art. 4º - Revogam-se as disposições em contrário.

Brasília, 11 de agosto de 1995

107° da República e 36° de Brasília

Cristovam Buarque

4) As observações constantes nos parágrafos primeiro (renumeração) e no segundo (acréscimo) referem-se à alteração proposta pelo deputado evangélico Leonardo Prudente, pai, no dia 11 de agosto de 1995, no mesmo dia da sanção de Cristovam, outorgando ao Conselho Nacional de Pastores do Brasil a responsabilidade de edificação, administração e manutenção do Memorial. Essa mudança foi sancionada pelo governador Joaquim Roriz no dia 22 de abril de 2002. Prudente justificou a proposta nos seguintes termos: “Justifica-se a presente alteração para desonerar o Poder Executivo de tal missão, mesmo porque do ponto de vista orçamentária (sic) não há qualquer previsão para a sua efetivação o que tornaria mais uma lei sem aplicabilidade (sic).”

5) No dia 3 de junho de 2019, o governador Ibaneis Rocha recebeu o secretário de Assuntos Religiosos, Kildare Araújo Meira, para tratar da Lei nº 900. Participou do encontro o reverendo Erní Walter Seibert, diretor-executivo da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB). Seibert informou que seria feito um acordo da SBB com o Conselho Nacional de Pastores do Brasil para a viabilização do museu. A SBB tem know-how. A entidade inaugurou seu primeiro Museu da Bíblia em Barueri, São Paulo, e diz já ter distribuído, até 2016, 150 milhões de exemplares de Bíblias e Novos Testamentos no País.

Segunda observação – Vou repetir tintim por tintim o que disse o secretário Bartolomeu Rodrigues para justificar o projeto na entrevista que concedeu à Agência Brasília divulgada na página da Secretara de Cultura no dia 14 de janeiro de 2021. Diz ele:

1) “O Museu da Bíblia será um espaço cultural e curatorial, que vai permitir experiências de conhecimento sobre uma das mais importantes escrituras da humanidade, sobre a qual deitam as raízes da civilização ocidental”.

2) “A Bíblia influenciou fortemente as artes, a literatura, a filosofia e o pensamento científico. Até o mais ardoroso ateu sabe disso. E, não por menos, museus similares existem em várias partes do mundo, a exemplo do Museu da Bíblia de Washington [EUA].”

3) (“O espaço será aberto a todos, independentemente de orientação religiosa”). (…) “Por ser um equipamento que evoca tema religioso, surgem questionamentos baseados em interpretações apressadas, muitas preconceituosas, que precisam ser desmistificadas” (...) “Antes de tudo, o projeto nasce dentro dos padrões museológicos mais rigorosos. Não se está pretendendo erguer um templo de fé e de orações”.

4) “Será um equipamento que vai ampliar a diversidade cultural do Distrito Federal, que em nada fere o Estado laico, mas contribuirá sensivelmente, com uma proposta curatorial balizada pela arte e pela formação do conhecimento, para reunir, em seu espaço apreciativo, pessoas de diversas religiões e credos ou até agnósticas e ateias”. (…) “Por que não? A Bíblia continua sendo fonte de inúmeros estudos, tenha ou não propósitos religiosos.”

Ingenuidade - Em princípio, não descarto a boa fé do secretário de Cultura. Mas, cá para nós, é preciso ser muito ingênuo para acreditar que o Conselho Nacional de Pastores e a Sociedade Bíblica Brasileira respeitarão as intenções por ele agora esboçadas. As duas entidades são, afinal, compostas por “pregadores da Palavra”, prosélitos, notórios mercadores evangélicos da fé popular.

Para constatar isso, basta ver as peças publicitárias do Museu da Bíblia de Barueri, modelo para o museu brasiliense. Um vídeo de 15 de janeiro de 2008, que pode ser visto no YouTube, informa que o museu de Barueri tem raridades como um exemplar da Vulgata de São Jerônimo, outro da Septuaginta, uma réplica da prensa de Gutenberg, que imprimiu a primeira Bíblia no idioma alemão, e uma biblioteca de 225 metros quadrados de obras dedicadas às Escrituras, com exemplares do livro em mais de mil idiomas, estudos acadêmicos e de referência etc.

Noutro vídeo, datado de 19 de maio de 2015, o apresentador, Ricardo Costa, mostra um mapa do Brasil com aldeias de povos indígenas (em verde) que já dispõem de Bíblias completas em seus idiomas, e outros (em azul) que têm apenas o Novo Testamento ou fragmentos dele. “A gente vê que tem muitos lugares que a Bíblia… a tradução da Bíblia precisa chegar para esses povos indígenas pelo Brasil”.

Afronta - Uma afronta criminosa ao artigo 231 da Constituição Federal é o que o apresentador Ricardo Costa e o Museu da Bíblia cometem nessa apresentação. O artigo estabelece: “São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”. Quem foi que disse que os Evangelhos fazem parte dos costumes, crenças, tradições e bens desses povos? Não fazem! Entregar a Bíblia para os povos indígenas corresponde a um estupro cultural!

Num dos encontros com o governador Ibaneis Rocha, o presidente da Sociedade Bíblica do Brasil, Assir Pereira, disse que o ponto previsto para a localização do museu tem um significado. “Está onde seria o leme do corpo do avião [o desenho do Plano Piloto de Brasília]”. Como se vê, os caras não escondem que a sua intenção é sequestrar na sua aeronave evangélica o povo do Distrito Federal e, em seguida, por meio do turismo, o povo brasileiro. Esse, sim, é o verdadeiro significado da metáfora do leme do avião!

Fica evidente que o Museu Nacional da Bíblia, tal como está concebido, com a previsão de ser administrado exclusivamente por denominações evangélicas,  representadas pela Conselho Nacional dos Pastores do Brasil e pela Sociedade Bíblica do Brasil, atenta contra o princípio constitucional da laicidade do Estado Brasileiro.

O artigo 5º da Constituição de 1988 diz que “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: […] Inciso VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;”

Ora, onde está dito que a direção do museu terá um conselho paritário de representantes de todas as principais religiões praticadas no País, muitas das quais, aliás, também têm seus livros sagrados? Qual será o espaço para os judeus, os muçulmanos, os católicos romanos, os católicos brasileiros, os espíritas kardecistas, os umbandistas, o pessoal do Candomblé, os budistas, os xintoístas etc, e também os agnósticos, os ateus, os materialistas e os estudiosos da Bíblia como literatura, que nem eu? Em nenhuma carta de intenção ou protocolo consta essa exigência democrática, pelo que sei. 

Enganação - O Museu da Bíblia de Washington é outro modelo para o museu brasiliense, segundo o secretário Bartolomeu Rodrigues. Esse museu, no entanto, também está longe de respeitar a diversidade religiosa, mesmo entre as pessoas que têm na Bíblia a sua principal referência.

Um artigo da revista britânica The Economist, de 17 de novembro de 2017, informa que o museu apresenta as visões dos protestantes, dos judeus e dos católicos romanos, mas ignora o ponto de vista dos cristãos ortodoxos, o impacto da Bíblia sobre o Islã, e as opiniões dos estudiosos que afirmam que o livro não contém uma história coerente.

Obviamente, aquele museu não leva em conta, muito menos, o que pensam os agnósticos e os ateus sobre a Bíblia, e não será o secretário Bartô que mudará essa mesmíssima postura por parte dos organizadores do Museu da Bíblia em Brasília.

Segundo registra o verbete correspondente em inglês da Wikipédia, eis o que disseram sobre os organizadores do museu de Washington, financiado pela família Green e pela National Christian Foundation, os estudiosos da Bíblia Joel Baden, da Yale Divinity School, e Candida Moss, da University of Birmingham: "Eles enganaram o público em geral ao promover um programa de estudos e um museu que contam apenas a história que os Green desejam contar, sem reconhecer que estudiosos e especialistas passaram décadas, na verdade séculos, trabalhando para fornecer relatos muito diferentes da Bíblia e de sua história”.

Moss acrescentou: “Não é realmente um museu da Bíblia, é um museu do protestantismo americano. Todo o seu propósito é mostrar este país como um país cristão governado pela moralidade cristã”. 

E Baden completou: “Sua promoção de três minutos é uma demonstração fascinante desse problema. Pelo menos metade é uma reconstituição da história americana que não tem qualquer relação com a Bíblia - a assinatura da Declaração de Independência, por exemplo, ou a Guerra Revolucionária. A preocupação é a do museu retratar uma história da Bíblia que culmina no protestantismo e na América”.

Por que o Museu da Bíblia de Brasília adotaria uma abordagem diferente?

O secretário Bartô diz que os questionamentos agora levantados são “baseados em “interpretações apressadas, muitas preconceituosas, que precisam ser desmistificadas”.

Ora, o criticismo bíblico, que desmistificou a sacralidade do livro, apontando os seus verdadeiros autores (“homens comuns de grande imaginação”), já completou três séculos e meio. Os julgamentos aqui não têm nada de apressados. O Tratado Teológico-Político, do filósofo holandês Bento de Spinoza, dedicado à questão, foi publicado em 1670. Nele, Spinoza demonstrou como é que os autointitulados intérpretes da “Palavra de Deus”, rabinos, padres e pastores, distorcem e inventam sentidos ocultos para as Escrituras com o propósito de impor o seu poder político sobre as massas ignorantes. Era assim desde os tempos do reino dos hebreus, foi assim no século XVII e, pelo que se vê, continua assim até hoje. Spinoza sabia do que falava. A sua família, de origem judia, teve que fugir das fogueiras da Inquisição portuguesa, uma instituição católica lastreada na Bíblia interpretada pelo Vaticano, muito ativa em plena Idade Moderna e não na Idade Média!  

Falso Messias - O secretário Bartolomeu garante que “não se está pretendendo erguer (com o Museu) um templo de fé e de orações”. Baseado em quê diz isso? Será que não leva em conta o fato de seu chefe, o governador Ibaneis, ser um aliado chegado do presidente Jair Messias Bolsonaro, cujo lema inclui a frase “Deus acima de todos”, justamente para manter cativa a sua base neopentecostal?

Anotem aí: assim que for anunciado o projeto arquitetônico vencedor, no próximo dia 23 de março, se se confirmar o cronograma da Secretaria de Cultura, todas as autoridades “terrivelmente cristãs”, federais e distritais, a começar pelo presidente Bolsonaro, a ministra Damares Alves, o ministro André Mendonça e os parlamentares da Bancada da Bíblia, vão fazer o que puderem para fincar esse presbitério fundamentalista no coração de Brasília. O museu, se vier a ser construído, será mais um quartel-general, nas proximidades do Forte Apache, do projeto fascista & neopentecostal bolsonarista.

O que fazer? - Para não me estender muito mais, me pergunto o que poderíamos fazer para barrar esse projeto, que, além de ser uma desgraça cultural em si, não leva em conta prioridades como a reabertura do Teatro Nacional, fechado há sete anos.

Ainda não pensei detidamente em nada. Ontem, acabei me lembrando da piada do milionário que anunciou a construção de uma mansão à beira do Lago Paranoá, que iria atravancar a via pública no local. Um dia, caminhões despejaram areia e pedras na beira do terreno. Na manhã seguinte apareceu num montinho uma placa com a última palavra em letras garrafais: “Futuramente aqui: BUNDA!” O milionário arrancou a placa, e mandou que tocassem a obra. De vez em quando, a placa ameaçadora reaparecia, para logo ser removida. Quando a mansão ficou pronta, o milionário organizou uma festa de inauguração. Minutos antes da recepção, a placa brilhou soberana, em tamanho monstruoso, com uma só palavra: “BUNDA”. Foi um vexame, que não impediu a festa. As semanas se passaram e a placa sempre voltava a aparecer no jardim babilônico em frente à casa. Um dia, puto, o milionário resolveu erguer um muro. Lindo, branco, gigantesco. Mal secou a tinta, surgiu a pichação, de 20 m por 10 m: “BUNDA”. O milionário perdeu a calma. Viu que estava lidando com guerrilheiros, e que não tinha como vencer aquela guerra.  Dia seguinte, mandou derrubar o muro e a mansão. Mudou-se para Miami e lá passou cinco ou seis anos. Quando voltou, sentiu saudades. Resolveu reerguer a mansão no mesmo terreno, o mesmo projeto. Os caminhões trouxeram areia e pedras. Na manhã seguinte, num montinho de areia, o aviso numa plaquinha: “Futuramente aqui: BUNDA!”

Glorioso traseiro - A piadinha, clássica e vulgar, me fez lembrar de outra historinha, clássica clássica, dessa vez envolvendo o arquiteto, escultor, poeta e pintor renascentista Michelangelo Buonarroti. Como todo mundo sabe, Michelangelo, que se considerava um escultor, foi praticamente obrigado pelo papa Júlio II a pintar o teto da Capela Sistina com cenas do Velho Testamento, entre 1508 e 1512. Segundo algumas hipóteses, ele teria encontrado uma maneira subliminar de mostrar a sua insatisfação com o papa contratante na seção em que Deus é retratado criando o Sol, a Lua e as plantas. De um lado do afresco, Javé aparece de frente, separando o Sol da Lua. Do outro, ele aparece de costas, mostrando seu glorioso traseiro, gesto considerado um insulto já naquela época. Esse painel fica logo acima do altar-mor, de maneira que ao rezar a missa o papa Júlio II sempre via Deus mostrando-lhe a bunda. Maledetto Buonarroti! Para qual bispo o papa podia reclamar? 

A cena de Deus semipelado não está descrita no livro de Gênesis. Como Michelangelo era um sério leitor do Velho Testamento, é possível que ele tenha encontrado uma abonação para justificar o insulto no capítulo 33:17,19-23 do livro do Êxodo. Ali, Javé manifesta grande intimidade com Moisés, inclusive dizendo que o conhece pelo nome. Promete tratá-lo com misericórdia, e diz que se mostrará a ele em sua glória, mas só de costas, não de frente, “porquanto homem nenhum verá a minha face e viverá”. De acordo com o ex-jesuíta e biblista Jack Miles, em Deus, Uma Biografia, é possível que Deus, ao tomar esse cuidado, tenha querido esconder de Moisés a sua genitália, kahod em hebraico, significando também “fígado” e “glória”, segundo o linguista e estudioso da Bíblia Marvin H. Pope.

Leitores espertinhos poderão me perguntar: “O que é que você está sugerindo”? Ora, eu não estou sugerindo coisa nenhuma. Imitando o Cristo, eu também sou capaz de escrever em forma de parábolas. Como diz Mateus, quem tem olhos de ver, veja; e quem tem ouvidos de ouvir, ouça!

Criado em 2021-01-19 03:16:23

Militarismo e religião

Laurez Cerqueira (*) -

O desarmamento do mundo e o fim do militarismo poderiam ser uma utopia para o período pós-pandemia. O mundo gastou US$ 1,73 trilhão com Forças Armadas, em 2019. Somente os Estados Unidos gastaram US$ 684,6 bilhões, 39% do valor global, segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. Se esse imenso volume de recursos gasto na indústria da morte fosse sendo reduzido ano a ano e investido na indústria da vida, em Educação e Saúde, no combate à fome e à pobreza extrema, certamente a humanidade começaria a se livrar das misérias medievais.

Esse assunto não é novidade. Já foi revirado pelo avesso ao longo da história do pensamento, porém, parece que se transformou em tabu. Não se fala mais nisso, é muito pouco comentado mesmo em círculos restritos de intelectuais e acadêmicos.

A Idade Média durou mil anos e deixou para os séculos futuros heranças que impedem a humanidade de evoluir para sociedades capazes de conviver em paz, em harmonia, construídas com concórdia, verdade e fraternidade, sentimentos unificadores do ser humano. Evoluímos em muitos aspectos, mas o ódio, pai da violência, persiste, com seu dedo em riste. Nada justifica as cercas físicas, territoriais, as guerras, as cercas morais, a opressão em nome de crenças vazias.

Religiosos obscurantistas ainda hoje tentam invadir hospital para impedir que uma criança de 10 anos, engravidada por um tio, faça aborto autorizado pela justiça. Negam a ciência no combate à pandemia da Covid-19, assim como negam os avanços, por exemplo, da astronomia, da física e da genética, em pleno século XXI.

Na Câmara Legislativa do Distrito Federal, o religioso deputado Rafael Prudente conseguiu aprovar um projeto de lei proibindo a nudez nas manifestações artísticas. Não se sabe até agora como ficarão, por exemplo, as obras do escultor Ceschiatti, distribuídas pelos palácios de Brasília, com exuberante erotismo, como a “Contorcionista”, no hall do Teatro Nacional, a estátua da Justiça, com suas avantajadas mamas, na frente do Supremo Tribunal Federal, “As Irmãs”, no Itamaraty, e outras obras, agora sob censura.  Esse senhor não poderia ir a uma tribo de índios recém contatados, nem, por exemplo, visitar o museu do Louvre, em Paris, ver telas de Rafael Sanzio, esculturas de Michelangelo, enfim, por ser uma pessoa de mentalidade medieval.

Impérios religiosos transnacionais foram criados, apoiados em crenças tenebrosas, moral opressiva, bárbara, com suas histórias manchadas de sangue, por práticas de torturas, mortes e perseguições a quem ousasse ou ouse, ainda hoje, discordar das imposições de igrejas.

Religião e militarismo sempre conviveram de mãos dadas, na manutenção da ordem que interessa aos poderosos. Uma controla o corpo e a outra a mente. Aqui foi assim, quando os portugueses atracaram as naus nas praias do sul da Bahia, os índios estavam nus, nas areias brancas, em perfeita harmonia com a natureza.

As primeiras providências dos navegantes foram celebrar uma missa, catequizar, instalar o deus único e a culpa no coração dos índios, para que, com medo do pecado, aceitassem a dominação. Taparam as genitálias dos índios com roupas. Para dominar, as religiões vão direto ao sexo, proíbem. Escravizados, açoitados, torturados, os índios viram nações inteiras serem exterminadas e até hoje são mortos para tomarem-lhes as terras onde sempre viveram.

O mundo gasta centenas de bilhões de dólares dos contribuintes com academias militares e armas, para atacar o "inimigo externo e interno", ensinar a matar, lançar bombas incendiárias sobre escolas, famílias indefesas, como os Estados Unidos fizeram no Vietnam, e também para varrer do mapa cidades com bombas atômicas, como em Hiroshima e Nagasaki, como os mesmos Estados Unidos fizeram na Segunda Guerra Mundial e tantas outras atrocidades praticadas pelo militarismo.

Impedem a democracia de prosperar com mentiras e golpes, implantam a ferro e fogo regimes ditatoriais, torturam, matam, perseguem, privam de liberdade quem pensa diferente, todas essas barbaridades em nome da ordem.

Guardadas as devidas exceções, as academias militares têm formado monstros assassinos com dinheiro público e têm os Estados Unidos como referência de militarismo. Um país que nasceu com a mão no coldre, pronto para matar.

O governo Bolsonaro anunciou que vai tirar R$ 242 bilhões da educação e da saúde e anunciou que vai dar às Forças Armadas (indústria da morte) R$ 9,2 bilhões para comprar armas, em plena e devastadora pandemia. Num momento em que, segundo o IBGE, o Brasil aumentou a pobreza, chegando a 52,5 milhões de pessoas passando o dia com R$ 7,70.

Deu aos militares R$ 26,5 bilhões de bonificação, um reajuste de 73%, com acréscimo anual. A União bancou R$ 121,2 mil, em 2019, para cada aposentado das Forças Armadas, 17 vezes o de aposentados do INSS, quase o dobro da despesa por servidor público (R$ 71.600) e (R$ 6.900) para os aposentados do setor privado.

No governo Bolsonaro, o aumento de gastos com o Ministério da Defesa é maior que os dos ministérios da Educação, Saúde, Agricultura e Relações Exteriores. A maior parte dos gastos é com a folha de pagamento dos militares.

Leon Tolstoi, na sua magnífica obra Guerra e Paz, dizia que todas as formas de violência são igualmente más. Não só a guerra, mas todas as formas de compulsão inerentes ao Estado são criminosas. Dizia ele que o verdadeiro cristão deve abster-se de participar das funções do Estado e que a ordem social só poderá melhorar quando todos os homens e mulheres tiverem aprendido a amar-se uns aos outros.
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(*) Laurez Cerqueira, jornalista, autor, entre outros trabalhos, de “Florestan Fernandes - vida e obra”; “Florestan Fernandes – um mestre radical”; e “O Outro Lado do Real”. Este artigo foi publicado originalmente no site Brasil 247.

Criado em 2020-08-21 18:46:52

Lançado manifesto pela refundação da Federação Internacional de Arte Revolucionária e Independente

Romário Schettino -

Com o mundo dominado pelo avanço da extrema-direita neofascista na política, com a disseminação das fake news, surge no horizonte uma nova entidade em defesa do humanismo, do respeito à liberdade de expressão, das artes e da cultura. A Federação Internacional de Arte Revolucionária e Independente (FIARI) veio para agitar o cenário.

Neste sábado, 31 de julho, foi lançado em reunião virtual o manifesto pela refundação da FIARI. Fazem parte do grupo intelectuais e artistas de seis países: Argentina, Bélgica, Brasil, Espanha, México e Suíça.

O manifesto foi escrito em quatro idiomas: português, espanhol, francês e inglês, com onze assinaturas iniciais: Jorge Antunes, Josep Manuel Berenguer, Paloma Carvalho Santos, Luca Forcucci, Manuel Rocha Iturbide, Roberto Rutigliano, Vladimir Safatle, Daiara Figueroa, Gerson Valle, Gabriel Valverde e Françoise Vanhecke.

A FIARI original foi criada em 1938, na Cidade do México, por três grandes revolucionários: Léon Trotski, André Breton e Diego Rivera. Essa iniciativa teve vida efêmera porque um ano após sua fundação eclodiu a 2ª Guerra Mundial e dois anos depois Trotsky foi assassinado.

“A nova FIARI quer montar barreiras e trincheiras contra a ameaça que paira em várias partes do mundo, com o avanço da extrema-direita”, diz em um dos trechos o documento.

No encontro virtual de hoje (31), além da leitura do manifesto foi apresentado o endereço do site www.fiari.art com informações sobre os objetivos da federação internacionalista e convite aos interessados para participar da iniciativa. Em breve será lançado o terceiro número do jornal Clé, primeiro na internet e depois, impresso.

A seguir, a íntegra do manifesto de criação da nova FIARI:

“No dia 25 de julho de 1938, na cidade do México, um manifesto com análises e propostas que ainda hoje são vigentes foi redigido e divulgado por três grandes revolucionários: Léon Trotski, André Breton e Diego Rivera. Estava fundada a Federação Internacional de Arte Revolucionária e Independente (FIARI).

Hoje, 83 anos depois, vemos a necessidade de refundação do coletivo

internacional, porque a luta empreendida pelos criadores da FIARI precisa ser implementada e renovada neste momento grave em que a crise do capitalismo se expressa também em uma crise das artes e da cultura em geral.

A FIARI teve vida efêmera porque um ano após sua fundação eclodiu a 2ª Guerra Mundial e dois anos depois Trotsky foi assassinado. Em 1938 o stalinismo e o nazismo impunham a perseguição às artes com o autoritarismo e o dirigismo cultural. A nova FIARI, a que agora damos vida, quer montar barreiras e trincheiras contra a ameaça que paira em várias partes do mundo, com o avanço da extrema-direita.

No Brasil, forças intolerantes que pareciam pertencer ao passado, voltaram à cena política desde meados da década de 2010, com posturas patéticas dignas do pior período da peste negra, a doença política contagiosa que pensávamos ter sido extinta no final da Segunda Guerra Mundial. Na Europa e em outras partes do mundo, esse mesmo vírus parece se desenvolver cronicamente. Testemunhamos em todo o mundo o avanço de partidos de extrema direita e atos de intolerância, racismo e barbárie perpetrados por indivíduos e grupos.

A ameaça à democracia grassa em várias partes do mundo, com projetos voltados ao nacionalismo xenófobo, ao falso moralismo religioso, à economia neoliberal e capitalista, pautados no costume, na educação e na prática cultural alienante e reacionária.

Grupos de extrema-direita se organizam dominando meios de comunicação, redes sociais, igrejas, espaços de poder, praticando o proselitismo do atraso. Usando de recursos infames como a mentira, as chamadas “fake news”, e o revisionismo histórico – inclusive no que concerne à história das artes, e em especial à história da música– esses agrupamentos nos ameaçam. Mas ao contrário do que acontecia em 1938 quando o fascismo estava em ascensão, em 2021 vivemos um aumento das forças que exercem resistência contra a injustiça social e a opressão do capitalismo, como demonstram as atuais mobilizações e rebeliões, em várias partes do mundo.

Ao defendermos a liberdade de criação, não pretendemos absolutamente justificar o indiferentismo político e longe está de nosso pensamento querer ressuscitar uma arte dita ‘pura’ que de ordinário serve aos objetivos mais do que impuros da reação. Temos um conceito muito elevado da função da arte para negar sua influência sobre o destino da sociedade. Consideramos que a tarefa suprema da arte em nossa época é participar consciente e ativamente da preparação da revolução. No entanto, o artista só pode abraçar a luta emancipadora quando está compenetrado subjetivamente de seu conteúdo social e individual, quando faz passar por seus nervos o sentido e o drama dessa luta e quando procura livremente dar uma encarnação artística a seu mundo interior.

O imperialismo, o negacionismo, a xenofobia, a intolerância e o fanatismo são algumas das manifestações das forças de extrema direita que ameaçam a paz, a liberdade, a autodeterminação dos povos e também a arte e os bens culturais da humanidade. O nosso repúdio se estende ao gesto hediondo de se destruir uma obra de arte, às guerras e aos crimes nelas cometidos: hoje a destruição deliberada de um bem ou patrimônio cultural durante uma guerra, é considerada como um mero “crime de guerra”.

Defendemos a tese e proposta de que esse tipo de ação passe a ser caracterizado, pelo Tribunal Penal Internacional, como “crime contra a humanidade”. Isso dará mais ênfase à gravidade dos atos contra os bens culturais, por se constituírem em verdadeiras ações perniciosas que ferem diretamente a essência da dignidade da pessoa humana.

O luxo, o consumo e a ostentação que o universo burguês copiou da aristocracia se constituem em outra ameaça à liberdade na criação artística. O lucro desenfreado, tratado como lógica do progresso, deve ser repudiado. Os interesses mercadológicos da ideologia capitalista, que se revelam no consumismo, provocam a degradação das relações sociais que, por sua vez, compromete o processo de fruição da arte e o interesse pelas novas e revolucionárias propostas artísticas. A obtenção de lucro, desesperadamente buscada pelos donos dos meios de produção, provocam a alienação e a onomania do consumidor. Assim, o supérfluo, a banalidade, o simplório e a mediocridade, presentes na cultura de massas imposta pela indústria da cultura com seu forte poder mercadológico de persuasão, ocupam integralmente o lugar da real satisfação das necessidades.

A postura utilitarista na sociedade capitalista determina que aquilo que não gera lucro é inútil para o capital e, portanto, totalmente desnecessário. O capital não tem o menor interesse em erradicar as causas do sofrimento humano e os impactos ambientais são sempre difíceis de ser evitados e combatidos porque os grandes grupos econômicos ganham muito com eles e, como o custo da ecologia é alto demais, eles preferem o marketing de «greenwashing».

Nesse mesmo cenário não é só o planeta que é vilipendiado, explorado e destruído: o bem estar, a vida humana, as culturas ancestrais autóctones e a vida de todas as espécies são ameaçadas. Neste momento de pandemia, em que um vírus dizima milhões de seres humanos, a ciência avança rapidamente e, com ela, também a indústria farmacêutica. É hora de nosso combate se voltar à luta pela quebra de patentes para que a vacina passe a ser acessível a toda a humanidade com a maior urgência possível.

A nova FIARI busca uma aliança mundial de artistas independentes preocupados com a vida, com a liberdade de expressão e de criação artística, com a proteção das culturas indígenas ancestrais, com a proteção da biosfera terrestre e com a luta contra todos os tipos de controle e barreiras à arte e à cultura, bem como todas as formas de autoritarismo e dirigismo.

Vemos-nos ameaçados pelo capitalismo, pela lei do mercado e pela indústria da cultura que pretendem reduzir a arte a um mero serviçal do capital. Mas ao repudiarmos o capitalismo liberticida e ao nos posicionarmos por um projeto que defende a liberdade individual como um valor fundamental baseado em uma organização de ajuda mútua coletiva, repudiamos também qualquer projeto autoritário.

É urgente a necessidade de os trabalhadores progressistas da área artística e que se identificam com o conceito de independência política da classe operária, se agruparem em uma organização internacionalista. Ainda hoje, o status de artista é pouco reconhecido em todo o mundo e é muitas vezes associado ao trabalhador autônomo, com uma postura de risco que o coloca em uma posição frágil. Isso se evidenciou durante a crise do Covid-19.

As contradições da luta de classes se escancaram no mundo. A ideologia da classe dominante avança sobre os artistas, e não só sobre as obras de arte, tentando massacrar integridades intelectuais, emocionais e criativas.

Buscando a emancipação da humanidade e a proteção do planeta Terra, reconhecemos que a arte é questão estratégica nesse mister. Aqueles propósitos só podem ser alcançados com nossa organização revolucionária e internacionalista, praticando e preconizando a arte necessária: aquela que não se resume à mera introdução de variações em modelos pré-fabricados, mas que busca expressar os sonhos interiores da humanidade de nossos dias. A revolução é o processo contínuo e vivo que deve estar presente em qualquer manifestação artística.

As teses da FIARI continuam atuais. Precisamos atualizá-las porque hoje é enorme a quantidade de jovens que buscam a arte como meio de expressão, e não como simples fazer divertido e decorativo. As novas gerações hão de identificar a produção artística como meio de comprometimento com o sentir e o pensar de seu tempo e de sua história. Reverberando, hoje, as ideias da FIARI, oferecemos ferramentas para que artistas, organizados, se reconheçam como trabalhadores que, mesmo com suas especificidades, têm os mesmos problemas que todos os outros trabalhadores.

A independência e o compromisso com os problemas da humanidade são condições imprescindíveis para o processo de criação artística em que a imaginação não fica atrelada a constrangimentos e fórmulas.

Os inimigos da arte revolucionária estão à espreita. O avanço tecnológico, em especial a robótica, tende a provocar o fim de várias profissões, tornando possível a diminuição da jornada de trabalho do ser humano.

Espera-se que o tempo destinado ao lazer aumente em um futuro próximo. Portanto, é necessário envidar esforços para que as tecnologias modernas sejam democratizadas, acessíveis também nos países pobres. Neste contexto, colocamos na agenda da nossa luta a prática artística e educativa que visa a solidariedade entre os povos, rejeitando o trabalho infantil e exigindo a redução do tempo de trabalho onde esta conquista da sociedade ainda não se concretizou.

Ao defendermos uma revolução nas artes, devemos também defender uma revolução educacional que garanta o desenvolvimento da sensibilidade humanística nas novas gerações. Isso só será possível com a introdução das artes nos currículos escolares, a partir do jardim de infância.

A escola tem servido para produzir e educar consumidores, em vez de formar cidadãos. O avanço da extrema direita nas instâncias de poder tende a agravar esse problema. A imaginação, a capacidade de crítica e de opção vêm sendo atrofiadas. Os meios de lazer, entretenimento, a arte vulgarizada, a falsa-arte, ofertados pela indústria da cultura, vêm embrutecendo populações.

A educação sempre se preocupou em bem formar o indivíduo para o trabalho: agora será preciso que ela também se ocupe de formar o indivíduo para o lazer.

O objetivo do presente manifesto é encontrar um terreno para reunir todos os defensores revolucionários da arte, para servir a revolução pelos métodos da arte e defender a própria liberdade da arte contra os usurpadores dos poderes. Milhares e milhares de pensadores e de artistas isolados, cujas vozes são encobertas pelo tumulto odioso dos falsificadores arregimentados, estão atualmente dispersos no mundo.

Numerosas pequenas ações locais tentam agrupar à sua volta forças jovens, que procuram vias novas.

As artes revolucionárias independentes devem unir-se para a luta contra as perseguições reacionárias e proclamar bem alto seu direito à existência. Uma tal união é o objetivo da Federação Internacional de Arte Revolucionária e Independente (FIARI) que julgamos necessário recriar.

Não temos absolutamente a intenção de impor cada uma das ideias contidas neste manifesto, que nós mesmos consideramos apenas um primeiro passo na nova via. A todos os representantes da arte, a todos seus amigos e defensores que não podem deixar de compreender a necessidade do presente manifesto, pedimos que ergam a voz imediatamente. Endereçamos o mesmo apelo a todas as publicações independentes de esquerda que estão prontas a tomar parte na criação da Federação Internacional e no exame de suas tarefas e métodos de ação.

Quando os primeiros contatos internacionais tiverem sido estabelecidos pela imprensa, pela correspondência, pelas redes sociais, procederemos à organização de modestos congressos locais e nacionais, exposições, concertos, publicações. Na etapa seguinte deveremos nos reunir em um congresso mundial que consagrará oficialmente a refundação da Federação Internacional.

O que queremos:

- A independência da arte para a revolução, e a revolução para a liberação definitiva da arte;

- Uma cultura livre de opressão e de vigilância;

- Uma educação livre das regras do mercado e da vigilância, fomentando ideias;

- O repudio à lógica do capitalismo de vigilância;

- O repúdio à submissão ao mercado;

- O repúdio à cultura dominante de vigilância;

- O repúdio ao lucro como lógica do progresso;

- O repúdio à violência contra minorias e grupos identitários.

- A arte e a cultura livres, independentes e plurais;

- Uma dimensão ritualística da arte, que inclua a cura, a estética e todos os aspectos mágicos e míticos;

- Uma epistemologia que inclua arte e ciência, e que se estenda às dimensões do saber ancestral dos povos originários;

-  A categorização como “crimes contra a humanidade” para as ações de destruição deliberada de bens e patrimônios culturais;

- A quebra de patentes de insumos de vacinas contra a Covid-19 agora, e sempre que a humanidade for ameaçada por novas pandemias.

Assinam:

Jorge ANTUNES
Josep Manuel BERENGUER
Paloma CARVALHO SANTOS
Luca FORCUCCI
Manuel Rocha ITURBIDE
Roberto RUTIGLIANO
Vladimir SAFATLE
Daiara TUKANO
Gerson VALLE
Gabriel VALVERDE
Françoise VANHECKE

Criado em 2021-07-31 23:44:55

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