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Romário Schettino –
Neste domingo (7/6), quando as ruas de várias cidades brasileiras ferviam com manifestações contra Bolsonaro, em defesa da democracia e contra o racismo, a GloboNews exibia uma longa entrevista – de quase duas horas – com Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede), conduzida pela jornalista Miriam Leitão.
Faltou o Fernando Haddad (PT). No primeiro turno, Haddad, sozinho, teve muito mais voto (29,2%) do que Ciro (12,4%) e Marina (1%). E o PSDB de FHC, representado por Geraldo Alckmin obteve apenas (4,6%) dos votos válidos.
Feito esse registro, nada impede que Haddad seja incluído em outro debate tão importante quanto esse, pois a pauta era, a rigor, a união de todos contra Bolsonaro. Pois é sabido que Haddad assinou o manifesto #TodosJuntos, apesar das críticas e ressalvas de Lula.
E o que disseram esses entrevistados? Todos disseram que são a favor da união para derrotar Bolsonaro. Todos acham que é necessário deixar de lado as diferenças e encontrar saídas democráticas para o desastre que é o governo que está aí. FHC disse que não “tem rancor de ninguém”. Segundo ele “é hora de olhar para frente com agendas mais amplas, não tenho motivos para ficar pensando no passado”. Ele propõe a construção de uma pauta comum para avançar, já que Bolsonaro “representa o atraso”. Imagine uma pessoa que ainda “acha que a terra é plana? Isso é impensável”.
Ciro Gomes disse estar de acordo com a união de todos, mas acrescentou: “Vamos deixar para o futuro a discussão sobre o motivo pelo qual chegamos ao fundo do poço, ao ponto de ser governados por um boçal.”
Fernando Henrique, mais ponderado, afirmou que sem liberdade não se faz nada. “Estamos no mesmo barco. É preciso ter esperança no futuro”, acrescentou, ao defender a união de todos.
Se Haddad estivesse no debate, talvez não deixasse passar esses recados sutis sem reagir. Pode ser que não, mas os petistas e os eleitores de Haddad sabem que Ciro o abandonou no segundo turno por pura pirraça e falta de visão histórica e política. Poderíamos, sim, estar em melhor situação hoje.
Em relação a FHC, pesa o fato de ele não ter movido uma palha para condenar o golpe de 2016, gestado por Aécio Neves & cia.
Marina também tem lá suas mágoas, mas parece estar disposta a passar por cima de tudo e se somar aos que não querem mais Bolsonaro em hipótese nenhuma.
E o que disse cada um sobre a conjuntura atual?
FHC: Bolsonaro não sabe governar. Estamos assistindo à destruição da economia, aumento de desemprego e falências. Atentados contra a liberdade de imprensa e uma pandemia administrada por 23 militares; o Ministério da Saúde, sem ministro. E quando chegarmos a 100 mil mortos, o que dirão os militares?
Marina: Bolsonaro aprofunda a crise com essas pedaladas pandêmicas. Esconde os números. Não podemos subestimar Bolsonaro. Temos que juntar a esquerda, o centro e a direita democráticas para enfrentar a crise.
Ciro Gomes: As divergências devem ficar guardadas. Vamos cuidar da vida, do emprego e da política. Quem não vier é traidor.
Marina: Eu acredito numa frente ampla contra este governo. Somos 70% da população que não aceita Bolsonaro, essa é uma verdade. Está no poder alguém que não gosta de negros, de índios, das mulheres. Eu nunca tive problema com quem aceita o diálogo.
FHC: Esconder números não dá mais. Agora tem a internet e outras formas de comunicação. O que não dá para aceitar é a falta de rumo. Não é possível, temos que ficar indignados, sim.
Marina: O que Bolsonaro fez com o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, é inaceitável. Uma falta de respeito. Tudo porque Virgílio mostrou as valas comuns com os mortos sendo enterrados por falta de espaço para tantas vítimas.
Ciro Gomes: Não temos vacina. Nunca vi um político dando receita de remédio como faz Bolsonaro. Essa manipulação dos números é crime e vamos impedir isso. As manifestações e os motivos para um impeachment são fortes. Falta acumular as condições. Bolsonaro ainda tem 30%, mas nós somos 70% e somos da vida, ele é da morte. Acho que em setembro podemos fazer o impedimento de Bolsonaro. PDT, PSB, PV e Rede estão juntos na construção do impeachment com o objetivo de salvar vidas, salvar empregos e salvar a democracia.
FHC: Para um impedimento é preciso ter gente nas ruas (o isolamento impede isso, por enquanto), crimes de responsabilidade (há vários) e disposição política. Bolsonaro está dando motivos e condições para um impeachment. Ele está cavando seu próprio fosso. Eu não votei nele, e mesmo que tivesse votado não tenho nada a ver com isso. Precisamos de liderança. Essa liderança tem que emergir, gente nova. O futuro é da geração do futuro.
Ciro Gomes: O governo está destruindo 1,5 milhão de empregos por mês. Não aceito votar em estagiários [pode estar falando do Huck] para o futuro.
FHC: Não acredito que as Forças Armadas estejam pensando em golpe. Temos que conversar com os militares com franqueza. Eles têm fuzis, nós não.
Ciro Gomes: Bolsonaro está mobilizando as PMs. O que ocorreu no Ceará foi a politização dos policiais contra o governo estadual. E isso estava sendo preparado para acontecer em mais dois estados [Bahia e Pernambuco].
FHC: A desigualdade está naturalizada no Brasil e a pandemia vai aprofundá-la. Quem vai pagar essa conta? Os pobres ou os ricos? Eu apoiei o projeto de renda mínima do ex-senador Eduardo Suplicy, consegui aprovar a taxação das grandes fortunas no Senado, mas foi barrada na Câmara. Bolsonaro está atrasado em todas as questões fundamentais.
O debate continua nas redes sociais, nos partidos políticos e na imprensa. É claro que nada vai acontecer sem o Partido dos Trabalhadores. Mas a questão não é saber se o PT vai ou não entrar no primeiro ônibus que passa. A questão é saber se vai ou não perder o bonde da história. Esse é um momento de reflexão em busca da melhor forma para o país sair dessa imensa crise. E a frente ampla pode ser uma porta da responsabilidade.
Criado em 2020-06-08 17:13:42
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Por volta de 1973, eu com 17 anos, pedi ao professor Oswaldo Verano, um pintor acadêmico de Anápolis, para reproduzir O Grito do Tarzan numa camiseta.
A minha performance foi um sucesso em dose dupla: nas costas da camiseta tinha mandado pintar o Top! Top! do Fradim do Henfil. Pensando bem, fui um homem-sanduíche da política e do bom humor.
Desenhado pelo Ziraldo Alves Pinto (epa!), O Grito do Tarzan estreou a série dos Pôsters dos Pobres do jornal O Pasquim. Foi publicado no dia 6 de novembro de 1969, em preto e branco. Exatos seis dias antes tinha tomado a presidência da República o general Emílio Garrastazu Médici, no lugar da Junta Militar dos Três Patetas, que havia assumido o Planalto após a morte do general Costa e Silva.
O mandato do Médici foi inaugurado, portanto, com o lancinante Grito do Tarzan, embora não fosse fácil distingui-lo dos pavorosos gritos que saíam dos porões da tortura. Era o humor do modesto Pasquim contra o formidável terror do Estado.
O glorioso pôster do Ziraldo tornou-se um dos cartuns mais pirateados na Europa. Concorreu com o pôster do risinho sardônico da Mona Lisa e com O Grito do Edvard Munch.
Na versão original, o berro saiu em português, começando com a letra i. Na versão em inglês, o Ziraldo trocou o i pelo e, acrescentando alguns agás, como no nome do Netanyahu: “Eeeeaaaahhuuuu…”
Que época aquela, cheia de Dons Quixotes na imprensa alternativa. Na década seguinte o jornalista Cláudio Mello e Souza, assessor pessoal do coleguinha Roberto Marinho, diria do Millôr Fernandes, um dos criadores do Pasquim: “O Millôr acha que ele é o inventor da liberdade de imprensa”.
Como soía, o Millôr fez piada do comentário, fiel a um de seus princípios de ouro: “Contra a extrema direita. Contra a extrema esquerda. E, sobretudo, contra o extremo centro”.

Criado em 2021-02-16 21:19:24
Guilherme Cadaval (*) –
“A vitória de Trump é possível porque o mainstream não consegue sequer imaginá-la”. Esta teria sido, segundo Giuliano da Empoli, a intuição capital de Steve Bannon, talvez a maior referência para a onda de governos de extrema-direita que pipocam com assombrosa coordenação por toda a superfície do globo terrestre. O que a imaginação sequer consegue conceber como possível, dificilmente poderá ser combatido, muito menos antecipado.
A vitória de Trump de fato tomou grande parte do mundo de surpresa, com exceção, é claro, da outra grande parte do mundo, constituída por seus apoiadores e simpatizantes. Mas o que Empoli mostra em Engenheiros do Caos, publicado no ano passado pela Editora Vestígio, é que o caminho para esta vitória começou a ser construído muito tempo antes, fruto de um encontro inusitado e explosivo, entre um especialista em marketing e um comediante, na Itália do início do século: Gianroberto Casaleggio e seu “avatar de carne e osso de um partido-algoritmo”, Beppe Grillo.
Trata-se do Movimento 5 Estrelas, melhor caracterizado pelo palavrão “tecnopopulismo pós-ideológico”. Toda a estrutura do movimento – que não é, nem um partido, nem uma associação, “mas um blog mesmo” – está baseada na coleta de dados de seus “eleitores-consumidores” sobre a satisfação de suas demandas. Pouco importa qualquer tipo de orientação ideológica, o que realmente conta é a possibilidade de engajar de maneira constante um número suficiente de pessoas, num tipo de ação que é a tradução política do Facebook e do Google.
De fato, a lógica reinante é a das redes sociais, onde não se filtra o conteúdo consumido, apenas se avança vorazmente para a próxima tendência, na velocidade de um desejo que não aceita esperar, que deve ser saciado imediatamente, por vezes antes mesmo que seja realmente formulado. Ora, por que com a política deveria ser diferente?
A revolução algorítmica na política, representada pelo M5E, soube explorar muito bem essa capacidade da internet, e especificamente das redes sociais, de engajar seus usuários constantemente. Para estes, internet é sinônimo de participação. Não é mais preciso se submeter à lentidão dos dinossauros políticos, com seus rituais demorados e ineficazes, pode-se fazer a revolução aqui e agora, com o clique de um botão.
Mas a partir de quê ocorre este engajamento? Trata-se de inflamar as paixões. A nova lógica das mídias faz o dinheiro circular a partir daquilo que gera maior engajamento, o que significa que ela acentua os conteúdos capazes de suscitar as emoções mais fortes, que são as que têm sucesso em manter o usuário constantemente atento. Para o jogo político, isso implica em uma mudança radical. Pois o movimento que consistia em falar ao eleitor médio, ocupando o “centro” de razoabilidade do espectro político, começa a tornar-se obsoleto. A lógica das redes joga o discurso para os extremos. A quantidade massiva de dados coletados permite individualizar cada eleitor a um nível tal, que é possível falar para grupelhos isolados, que não se misturam, que talvez nem saibam da existência um do outro, que podem facilmente apresentar reivindicações contraditórias, mas que se organizam em torno de uma mesma candidatura, de um mesmo projeto político.
O que une estes grupelhos seria, talvez acima de tudo, uma paixão em comum: a cólera. O tecnopopulismo pós-ideológico rearticula o conflito político em torno de uma oposição bastante simples entre o “povo” e a “elite”. Ele autoriza que a cólera daquele finalmente se expresse, nos termos violentos, chulos e politicamente incorretos que escandalizam a elite, ao mesmo tempo em que se oferece como seu porta-voz. Se para Lenin o comunismo era “os Sovietes e a eletricidade”, para os engenheiros do caos o populismo é “filho do casamento entre a cólera e os algoritmos”.
Os algoritmos oferecem, de maneira muito rápida, imediata, aquilo que a cólera deseja: a participação, o engajamento na cena política daqueles que sentem-se dela excluídos, e, assim, a sua consequente transformação. O que é fundamental compreender, segundo Empoli, é que a participação nestes movimentos, como o M5E, é uma “experiência muito gratificante” e “frequentemente alegre”. O sentimento de finalmente ser ouvido, de ter algum controle sobre os acontecimentos, e de não mais ser apenas um espectador passivo da história.
Sabemos que, até aqui, quem melhor soube galvanizar estes sentimentos na era dos algoritmos e do big data foram figuras como Trump, Orban e Bolsonaro, a “internacional dos nacionalistas”. Resta perguntar: onde estão os alquimistas da esquerda?
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(*) Guilherme Cadaval é formado em Filosofia pela UFRJ, onde concluiu mestrado e doutorado. É autor de “Escrever a mágoa: um cruzamento entre Nietzsche e Derrida”.
Criado em 2020-09-27 20:08:36
No ano do centenário de nascimento do educador e filósofo Paulo Freire (19/9/1921), a Autêntica Editora e a Fundação Perseu Abramo acabam de lançar o livro Paulo Freire: A prática da liberdade, para além da alfabetização, de Venício Artur de Lima.
O autor é um pioneiro no estudo da obra de Freire, o que vem fazendo há cerca de 50 anos, sempre enfatizando sua relação com a comunicação e a cultura.
O livro é um convite a refletir sobre a obra freireana e os tempos atuais. Ele nos traz a ideia-força de que o pensamento de Freire não pode ser reduzido a um método de alfabetização de adultos, porque vai além, à medida que seu compromisso maior é com a humanização do homem e sua liberdade.
Segundo Juarez Guimarães (UFMG), em seu prefácio ao livro, “o mérito exponencial, subversivo e possibilitador de uma nova compreensão do pensamento de Paulo Freire deste livro de Venício Lima, sintético e súmula de cinco décadas de pesquisa e reflexão, é o de identificar Freire como um pensador da política que se expressa na educação e na cultura”.
Raquel Paiva, professora emérita da UFRJ, em seu texto presente no livro, lembra que “um conhecimento fundamentado a partir da compreensão, necessariamente evoca um envolvimento orgânico e dialógico. Este é o sentido a que se referia Paulo Freire ao conceituar Venício como o pesquisador e professor brasileiro que o compreendeu, que realizou a tarefa de posicionar-se ao seu lado com a escuta atenta e dedicada”.
O livro está em fase de pré-venda na Amazon ao preço de R$ 49,80. À venda também nos sites Americanas.com, Livraria da Travessa, Submarino. Em breve, nos distribuidores e também nas livrarias.
Criado em 2021-09-14 21:05:44
José Dirceu (*) –
Lá se foi 2020 e nada mudou. Ao contrário tudo se agravou. Os desafios do Brasil e de nosso povo ficaram ainda maiores. Tragicamente, não temos nenhum plano de vacinação e nem como enfrentar o agravamento da pandemia. Nunca houve um governo criminoso e irresponsável como o atual, na realidade um governo militar, autoritário, de extrema direita, obscurantista e fundamentalista. Um governo corrupto começando pela família do presidente e, também, corruptor ao capturar as instituições –como a Polícia Federal, a Receita Federal, o Coaf, o Ministério Público– e colocá-las a serviço da impunidade para benefício do presidente, sua família e grupo de áulicos, dos policiais e militares agora acima da lei.
O governo de Bolsonaro foi ainda além ao estimular o armamento da população e apoiar as milícias, ao contrapor-se ao isolamento social e à vacinação universal pública e gratuita. Enfim, uma terra arrasada onde grassa a violência e a barbárie, que incluem o desprezo pelo meio ambiente, pela cultura e ciência, pela liberdade e democracia. Temos um governo que simplesmente nega o novo mundo que emerge na crise, com alinhamento total aos Estados Unidos de Trump e hostil à China e à União Europeia. Um governo que abandonou o Mercosul e a integração sul americana, nossa natural e necessária aliança geopolítica, solução e saída para o desenvolvimento nacional.
O ano que não acabou deixa uma herança de estagnação e aumento da pobreza, desemprego e desalento, precarização e sucateamento dos serviços públicos. Só austeridade – menos para as Forcas Armadas e seus oficiais –, privatização, mercado, especulação. Sem crescimento e com aumento de desemprego, ainda enfrentamos um cenário de juros reais para o consumidor, as famílias e as pequenas e médias empresas, o que, ao lado da estrutura tributária, expropria a renda nacional e reduz o Brasil a um país de subconsumo, de alta concentração de renda, riqueza e propriedade.
Teto de gastos, regra de ouro, corte de salários e gasto (exceção fica por conta das elites militares e do Judiciário) são apresentados como solução para um dos maiores países do mundo que só cresceu historicamente quando rompeu com essa ortodoxia e se lançou aos desafios e sonhos visionários de seus líderes com Getúlio, JK e Lula. Nossa história nos ensina que só com o Estado e o investimento público, com distribuição de renda e um projeto nacional será possível devolver ao país e seu povo autoestima, orgulho, confiança e coesão social.
Vivemos à beira de um precipício. Nossa democracia, Estado Nacional e de Bem Estar estão em risco de um colapso ou ruptura, de serem capturados de novo por uma ditadura depravada e decadente. É hora de dar um basta e encerrar o ano de 2020 derrotando de uma vez por todas, antes que seja tarde, a camarilha que assaltou o poder em Brasília.
Não há mais dúvidas. Bolsonaro e seu bando não podem e não devem continuar governando o Brasil. É preciso impedir a marcha acelerada do governo em direção ao suicídio nacional.
Não podemos esperar por 2022 para derrotar este desgoverno. Nossa tarefa principal, em 2021, é remover Bolsonaro do cargo de presidente, de forma legal e constitucional, e mobilizar o país para a vacinação e para um plano de emergência que evite uma catástrofe social já às nossas portas com o aumento do desemprego, da pobreza, da inflação e fim do auxilio emergencial.
De imediato, devemos barrar todas suas iniciativas no Parlamento e recorrer ao Judiciário para obrigá-lo a vacinar a população e respeitar a Constituição, impedir que continue aparelhando as instituições e que venha a controlar a mesa das duas casas legislativas. Para isso, é necessário unir todos os democratas, progressistas, nacionalistas na luta contra Bolsonaro e constituir, desde já, uma Frente Popular de esquerda para organizar a resistência popular, lutar pela vacinação pública e gratuita, pelo auxílio emergencial, por um plano de investimentos para criar empregos e renda e para disputar as eleições presidenciais em 2022.
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(*) Artigo publicado originalmente no site Poder 360
Criado em 2021-01-05 17:14:12
Maria Lucia Verdi -
Estamos nos preparando para um futuro que desconhecemos. Preparação que une um estilo de vida cada vez mais dependente da tecnologia - que modificou uma série de visões e valores que possuíamos até o século vinte - e a busca por uma vida alternativa.
Comidas cruas, exercícios psicofísicos de toda ordem, infindáveis livros de autoajuda, que poderão, segundo esse pensamento cor-de-rosa, auxiliar o ser do século XXII que já se anuncia.
Olhando os corpos nas academias, o esforço físico e financeiro que se despende com eles, pode-se pensar que treinamos para sermos guerreiros - como os personagens de Blade Runner, entre outros - em uma radical, eterna luta de classes que só se acirra.
O capital e as corporações internacionais expressam o único verdadeiro discurso de poder.
O que mais se vê, no planeta, é uma construção babélica de interesses e mentiras, fundamentalismos absurdos e um mundo do espetáculo que, com a ajuda da mídia, seduz a todos.
Pouco se vê, se lê, sobre os bons experimentos, ações sustentáveis e os distintos tipos de resistência que, por toda parte da Terra, também existem - por que será?
Por uma racionalização cética (a do capital) que já sabe qual é a parte vencedora dessa guerra, que prefere não investir em anacrônicos idealismos?
Me parece que sim, haja vista Trump retirar os EUA do acordo sobre o clima.
Será um excessivo negativismo ler desse modo a realidade que nos invade a cada segundo, com sua crueza, irracionalidade e injustiça?
Ao mesmo tempo, existem, como nunca antes no nosso país – agora falemos apenas dele – incontáveis movimentos sociais e individuais relacionados à produção de arte e poesia.
Aqui não haveria espaço para mencionar nem uma parte deles, portanto, me atenho a um comentário sobre a produção de poesia.
Convidada para mediar e participar da mesa de mulheres - nomeada “Empoderosas em polvorosa” e que se reunirá na Feira do Livro de Brasília, dia 22/6, às 18h30 - pesquisando na rede sobre movimentos poéticos no Brasil, fiquei surpresa com a quantidade deles.
Sendo de uma outra geração, não tão ligada às redes sociais, não tinha ideia de quantos estão por aí resistindo por meio da poesia, fazendo dela praticamente um ofício sério do século XXI.
Empoderosas, gracioso neologismo criado pelos poetas Noélia Ribeiro e Luiz Turiba, nos fala de poder mas talvez não exatamente do, bastante discutível, “empoderadas”.
Em poderosas palavras, com elas, se pode atuar - a linguagem é instrumento de transformação.
Em polvorosa, sim, estão como nunca, as mulheres de um país onde o feminicídio é brutal, inqualificável.
Em polvorosa para tentar mudar uma sociedade machista, comandada por uma elite perversa, levando essa luta com poesia engajada.
Criado em 2017-06-14 11:44:35
Romário Schettino –
Eu odeio
O ódio
Racista
O ódio
Fascista
O ódio
Supremacista
O ódio
Terrraplanista
O ódio
Bolsonarista
Odeio quem
Odeia os índios
Quem odeia
Os negros
Quem odeia
As mulheres
Quem odeia
Os gays
Quem odeia
A ciência
Quem odeia
A cultura
Quem odeia
A humanidade!
Odeio ter que odiar
Mas não dá pra aceitar.
Criado em 2020-06-05 18:02:24
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Uma das ideias mais comuns entre a massa é a de que alguém ou algum fenômeno “muda o curso da história”. Esse senso é também um dos mais bizarros, sem lógica nem noção.
Costuma se dizer que Charles Darwin, que nessa sexta-feira, 12 de fevereiro, completou 212 anos de nascimento, teria mudado a história da ciência com a publicação da Teoria da Evolução. Na verdade, Darwin abriu um caminho da história caminhando, aproveitando-se, aliás, da contribuição de seus ascendentes científicos. Ele não inventou a roda do nada nem tomou qualquer atalho de uma suposta estrada principal.
Ninguém muda o curso da história porque a história não tem curso pré-determinado nem finalidade. Imprevisível, pode tomar qualquer rumo. E olhem que digo isso mesmo sendo determinista, no sentido preciso de considerar que certos fatores relevantes determinam resultados pertinentes.
Em nosso universo único as causas costumam (eh! eh!) preceder os efeitos, é simples assim. E eu sei que alguns efeitos tornam-se depois causas e por aí vão.
É óbvio que o relaxamento nas regras do isolamento social, do uso das máscaras e do álcool em gel, as fake news sobre a cloroquina e a falta da vacina acarretaram o desastre da pandemia no Brasil, nos Estados Unidos e na Suécia, por exemplo. O contrário de tudo isso, com base em evidências científicas, deu resultados diferentes e benignos na China, na Coreia do Sul e na Nova Zelândia.
A história é a investigação e a narrativa de acontecimentos subordinados a fatores econômicos, sociais, culturais, a fenômenos naturais etc, que já causaram (atenção ao tempo do verbo!) os efeitos correspondentes, congruentes. Por isso a gente trata mais do passado que do presente ou do futuro quando fala de história.
É verdade que, vista em ampla perspectiva, a história apresenta padrões que, se mantidas determinadas condições, podem ser repetidos no aqui, no agora e no porvir. Ninguém, porém, garante, porque as trilhas da história são em geral imprevisíveis, por definição.
Quem previu a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética? Quem previu que a China viria a se tornar a segunda potência mundial e que, se mantida a toada atual, logo será a primeira? Quem previu a eleição do Trump e a do Bolsonaro?
Por outro lado, alguém aí sabe o que acontecerá nas eleições de 2022? Qual seria o curso da história do Brasil até, digamos, 2026? Quem pode garantir que o destino atual (ou a sina) do País é o bolsonarismo, e que, se for eleito o Fernando Haddad ou o Flávio Dino ou o Ciro Gomes ou o João Dória, um deles estará mudando esse prévio, suposto itinerário? Só depois da festa ou da desdita teremos a resposta, acreditem!
Uma das conquistas filosóficas do trabalho de Darwin foi o enterro da teleologia, a ideia da época do Aristóteles de que a vida ou a história tem finalidade. Para acreditar nesse conceito é preciso crer também que alguma divindade extra-histórica criou o mundo dotando-o de algum propósito.
Ora, humpf! Que pecado teriam cometido os dinossauros para serem punidos com a extinção? E o que fizeram de errado as milhões de espécies extintas durante as outras cinco extinções em massa registradas no planeta, a sexta delas acontecendo exatamente em nossa época, o Antropoceno?
A história da Terra, com 4,54 bilhões de anos, inclui esses acontecimentos, mas eles não constituem desvios de nenhuma trajetória de paz, amor e harmonia. A queda do asteroide em Chicxulub, na província de Iucatã, México, há coisa de 66 milhões de anos, que fodeu com os dinossauros e abriu a janela para o desenvolvimento dos mamíferos, não alterou qualquer roteiro previamente estabelecido pelo deus da substância Ometecuhtli. Esses fatos são meros capítulos da história, narrados depois de acontecidos.
(Ouvem-se protestos na plateia. O orador é vaiado. Voam ovos, tomates e cartelas de cloroquina sobre o palco!)
Calma, pessoal! Ao contrário do que parece, eu não sou um niilista, tipo de gente que em nada acredita. Na verdade, prezo muito a ideia dos existencialistas de que nós mesmos damos sentido às nossas vidas. E fecho com a afirmação do Marx, do início de O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, de que “Os homens (ele se esqueceu de mencionar as mulheres!) fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”.
O que é eu poderia fazer na manhã desse sábado frio e chuvoso, sem a folia do carnaval, senão escrevinhar pensatas atrevidas, ouvindo o Nelson Cavaquinho?
O sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de chegar aos corações
Do mal será queimada a semente
O amor será eterno novamente
Criado em 2021-02-13 18:30:30
Laurez Cerqueira –
São filhos do bico do lápis e do papel manteiga, do urbanista Lúcio Costa, certamente em estado de graça, quando desenhava as quadras de Brasília, os primeiros blocos com pilotis. No meio do gramado, lá estavam eles, imaginados para acolher os moradores e suas prosas, nos banhos de sol das manhãs brilhantes, de céu azul da cor do mar. Para contemplar tardes silenciosas, de sombras compridas, até a boca da noite, antes de subir para o apartamento, tomar banho, jantar e dormir.
Os banquinhos espalhados por Brasília são patrimônio arquitetônico da cidade. Deveriam ser cuidados pelos governos, feitas manutenções periódicas, mas estão abandonados feito cães sarnentos, alguns nem existem mais nos lugares em que foram colocados.
Certas pessoas, aquelas que vêem o mal por todos os cantos, não gostam dos banquinhos. Dizem que servem para jovens fumar maconha, atrair bandidos, pintados pela violência massificada por programas de TV, esses que vendem sangue todos os dias. Não percebem que os banquinhos são pontos de encontros amorosos, de alegria, de gargalhadas excitadas nas paqueras de adolescentes.
Que tal recuperar os banquinhos? O correto seria o governo fazer esse trabalho, os impostos para isso são pagos, mas as dúvidas, se vão assumir a responsabilidade ou não, são maiores do que a esperança.
Com certeza geraria empregos para quem trabalha na construção civil, impostos de materiais vendidos para a obra e recolhimento de contribuições previdenciárias para os trabalhadores de carteira assinada.
Caso o governo continue sem dar importância à recuperação dos banquinhos, moradores deveriam assumir essa tarefa cidadã, mas, com uma condição: consultar os órgãos que cuidam do patrimônio arquitetônico da cidade sobre essa possibilidade.
Se concordarem, fazer respeitando rigorosamente o padrão original, com supervisão técnica dos órgãos do governo. Isso é fundamental. Quem estiver recuperando precisa ter consciência de que está lidando com um patrimônio histórico e cultural da cidade, que ficará para as gerações futuras. Não poderia, portanto, meter as mãos na obra conforme seu gosto pessoal.
Não sei quem, talvez pessoas obtusas, cobriram alguns com azulejos coloridos, pintaram e bordaram com cores vibrantes. Espalharam outros tipos por aí, de formato diferente, nada a ver com os banquinhos originais planejados por Lúcio Costa.
“Da tradição quero apenas o fogo, a cinza não me interessa”. Ouvi essa frase nas noites de Brasília. Não sei de quem é. Perdoe-me autor e leitores, mas não poderia deixar de citá-la. Afinal, a gente quer a chama, que ilumina. Antropofágicos que somos, costumamos cultivar a ancestralidade reinventando a tradição. Porém, os banquinhos, bom seria recuperá-los preservando a originalidade deles, imaginada pelo criador.
Enfim, o desprezo pelos banquinhos precisa acabar. Foram criados para o convívio dos moradores, assim como os pilotis, os parquinhos para as crianças, os gramados, jardins, árvores, quadras de esporte, tudo isso imaginado e desenhado amorosamente para o bem viver.
Salve os banquinhos da cidade!
Criado em 2020-09-19 03:06:25
De 13 a 18 de setembro, chega à sua segunda edição o Festival Plural - Música e Diversidade com apresentação de shows, mostra de cinema, concurso fotográfico e atividades formativas voltadas para todos, todas e todes. A programação estará disponível no palco virtual do festival no YouTube. - youtube.com/c/FestivalPlural
Participam desta edição do festival personalidades das artes e da política cuja atuação dialoga com movimentos contemporâneos de equidade de gêneros, democratização, pluralidade, respeito e reflexão. Também estão na pauta a luta contra a LGBTfobia e a defesa de educação para todos/as/es.
O festival convidou para sua nova edição o cantor e letrista pernambucano Johnny Hooker e a cantora mineira Urias. Também fazem parte da programação musical as duplas Mar Nóbrega & Carol Nóbrega, Haynna e os Verdes, Moara e Rosa Luz, que são de Brasília, sede do festival.
Visibilidade LGBTQIAP+ aliada à construção de novos padrões de comportamento, ganha as telas do festival em uma Mostra de Filmes, curtas-metragens. A mostra, em parceria com a 14ª edição do festival cearense For Rainbow – Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual e de Gênero, idealizado por Verônica Guedes, prestigia curtas nacionais de protagonismo Queer.
Também tem artes cênicas e visuais com apresentações de performers, sendo Élle de Bernadini, Denilson Tourinho, Kael Studart e Jaja Rolim. No campo das artes visuais, um concurso vai premiar 10 fotografias enviadas pelo público. Convidado para somar à programação, fazendo-a chegar a um público mais expressivo, o ativista e influenciador digital Spartakus irá cobrir e comentar ações pontuais do festival.
A cena Ballroom volta a ganhar protagonismo nesta 2ª Edição de Plural com a realização do Baile das Casas em parceira com a COB.TV, plataforma de difusão da cultura Ballroom no Centro Oeste do Brasil com foco no público LGBTQIAP+, preto e periférico.
As trocas de saberes, fortalecimento da autoestima, inclusão trabalhista e o fortalecimento das pautas anti-LGBTfóbicas se darão em duas Rodas de Conversa sob os temas “A Resistência e a Representatividade LGBTQIA+ no Parlamento Brasileiro", com quatro parlamentares e mediação de Érika Loka Carvalho; e “Economia e Mercado Cultural LGBTQIAP+”, com Artur Santoro (produtor), Barbara Iara Hugo (curadora de Artes Visuais), Mc Delacroix (rapper), Dário Bezerra (For Rainbow) e Sandro Rosa (Oi Futuro), com mediação de Marta Carvalho. O festival oferece, também, duas oficinas de Introdução à Produção Musical e de Vogue.
Segundo Yuri, em Plural “queremos contribuir com a ampliação da visibilidade LGBTQIAP+, no que se refere às questões dessa população, abrindo espaço para a expressão e fruição dos valores artísticos disponíveis em quantidade e qualidade no Distrito Federal e em todo o país”.
Na primeira edição, o festival contou com 26 convidades naturais de sete estados brasileiros, que preencheram as mais de 12 horas de programação assistida por mais de 12 mil pessoas de todo o Brasil. Também realizada de maneira virtual, em razão da pandemia de Covid-19, a primeira edição tem toda sua programação disponível no canal do Festival: youtube.com/c/FestivalPlural.
Minibiografia das atrações
Johnny Hooker despontou com o álbum Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito! que rendeu o Prêmio da Música Brasileira de Melhor Cantor e figurou entre os melhores de 2015 da Revista Rolling Stone. Seu 2º álbum solo Coração gerou uma aclamada participação no Rock in Rio 2017. Seu single Flutua foi premiado como Clipe do Ano no MTV MIAW 2018. Suas músicas e vídeos possuem mais de 70 milhões de streamings/views e já fizeram parte de seis trilhas sonoras de programas da TV Globo.
Urias começou a cantar interpretando canções de O Rappa e Alcione, desfilou na São Paulo Fashion Week, na Casa de Criadores e é embaixadora da Adidas na América Latina. Hoje, se prepara para lançar no segundo semestre a continuação de seu primeiro álbum, Fúria, que teve a primeira parte divulgada em maio, com os mesmos produtores que assinam trabalhos de Pablo Vittar, Anitta, Iza e Ludmilla. A parte I do projeto trouxe singles como Foi Mal e Peligrosa, ambas lançadas recentemente e que já somam com os clipes mais de 1 milhão de visualizações no YouTube. E para aqueles que duvidam dessa força, fica o convite para conhecer o próximo single de Urias previsto para meados de outubro.
Dona de voz potente, Moara tem dois EPs lançados. Em 2021, entre 20 vagas mundiais, ficou em primeiro lugar no festival francês Rootstock Music. No ano de 2019, teve seu EP “Do começo ao fim?” indicado aos 20 melhores EPs do ano pelo portal MultiModo e, em 2018, foi indicada na categoria “discos de MPB” pela Folha de S. Paulo ao lado de nomes como Elza Soares e Gal Costa. Moara já se apresentou em festivais como Afete-se, Rootstock Music Festival, COMA, SIM São Paulo entre outros.
Haynna e Os Verdes é uma banda samambaiense que surgiu em 2016. O álbum de estreia homônimo, em novembro de 2018, conta com 11 faixas e foi indicado em duas categorias do Prêmio Profissionais da Música 2019, como melhor intérprete de rock e melhor intérprete de blues, finalista nesta última. Formada por Haynna, Dani da Silva, Jhonata Pikeno, Rian Sodré e Ricelly Lopez, a banda é conhecida por se apropriar de ritmos negros que embranqueceram como o rock, o blues e o brega.
Mar Nóbrega, não binárie, é compositore, multi-instrumentiste e produtore musical, trabalha com sua irmã Carol Nóbrega na produção musical e violoncelo. Mar participa como instrumentista em vários grupos brasilienses, entre eles Puta Romântica e Sereia Luzia da Estrela Molhada. Carol Nóbrega fez sua carreira no Sul da Bahia e é compositora e multi-instrumentista.
Ros4 Luz é artista visual, rapper e criadora de conteúdo. Participou do YouTube NextUp 2017, Youpix Builders 2018, foi Alumni do U.S. Department of State, em 2019, e Embaixadora Rujan Brasil 2021. Participou dos filmes “Chega de Fiu-Fiu” e “Estamos Todos Aqui”. Lançou seu 1º EP, Rosa Maria Codinome Rosa Luz, em 2017, e em 2021 lança seu 2º, Deise Ex Machina, com apoio da União Libertária de Pessoas Trans e Travestis. Já cocriou projetos para ONU Brasil, All Out International e Netflix.
Spartakus Santiago é youtuber, apresentador da MTV, top 20 criadores negros mais inovadores pela Forbes. É formado em Nova York pela Miami Ad School. Utiliza as suas plataformas para falar sobre questões sociais através da cultura pop, analisando álbuns e clipes de artistas como Lady Gaga e Beyoncé.
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Programação:
13/9 (segunda-feira)
15h às 18h - Oficina de “Introdução à Produção Musical com o Logic PRO”, com Malka Julieta
14/9 (terça-feira)
15h às 18h - Oficina
de “Introdução à Produção Musical com o Logic PRO”, com Malka Julieta
19h - Roda de Conversa sobre "A resistência e a Representatividade LGBTQIA+ no Parlamento Brasileiro"
Com: David Miranda (Deputado Federal/RJ), Fábio Félix (Deputado Distrital/DF). Filipa Brunelli (Vereadora/Osasco) e Thainara Faria (Vereadora/Araraquara)
Mediação: Érika Loka Carvalho
20h30 - Vídeo Performances com Denilson Tourinho (BH) e Kael Studart (DF)
21h - Mostra de Filmes, curtas-metragens
15/9 (quarta-feira)
15h às 18h - Oficina
e “Vogue”
19h - Roda de Conversa, sobre “Economia e Mercado Cultural LGBTQIAP+”
Com: Artur Santoro (Produtor), Barbara Iara Hugo (Curadora de Artes Visuais), Mc Delacroix (Rapper), Dário Bezerra
(For Rainbow) e Sandro Rosa (Oi Futuro)
Mediação: Marta Carvalho
20h30 - Vídeo Performances com Élle de Bernardini (SP) e Jaja Rolim (PT/DF)
21h - Mostra de Filmes, curtas-metragens
16/9 - (quinta-feira)
19h - Live com Spartakus (BA)
20h - Baile das Casas
17/9 (sexta-feira)
Mostra de Fotografia
20h - Rosa Luz (DF)
- Haynna e os Verdes (DF)
- Johnny Hooker (PE)
18/9 (sábado)
- Mostra de Fotografia “Viver”
20h - Moara (DF)
- Már Nóbrega e Carol Nóbrega (DF)
- Urias (MG)
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Serviço:
Festival Plural - II Edição
De 13 a 18 de setembro de 2021
Local: Canal do Festival no YouTube - www.youtube.com/festivalplural
Classificação indicativa: Livre para todos os públicos
Bilheteria: Acesso gratuito
Informações: @Festival.Plural, no Instagram, e @Plural.Festival, no Facebook
Patrocínio: Oi
Apoio: Oi Futuro
Criado em 2021-09-04 01:31:32
Profissionais e usuários da saúde no Distrito Federal divulgaram, para coleta de assinaturas, uma carta aberta à população contra os ataques à Reforma Psiquiátrica e à Política Nacional de Saúde Mental.
A carta conclama os coletivos antimanicomiais de todo o país a se unirem na proposta da 5ª Conferência Nacional de Saúde Mental, e informa que aguarda a posição da Secretaria de Saúde do DF sobre o assunto, “para garantir o impedimento de qualquer retrocesso na configuração da ainda tão deficitária saúde mental da capital do Brasil”.
Por fim, o documento exige que a Secretaria de Saúde assuma “formalmente o compromisso de ampliar a rede de atenção psicossocial local, inserindo no rol de seus equipamentos residências terapêuticas, centros de convivência e cultura, mais unidades de acolhimento e CAPS”.
A seguir, a íntegra da carta. Ao final, link para a assinatura do documento:
“O Ministério da Saúde (MS), por meio da Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, instituiu um Grupo de Trabalho para alterar a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e o modelo assistencial em Saúde Mental no país. É com grande indignação que recebemos a notícia de que, a partir desse GT, entrará em curso um processo de revogação das Portarias que organizam toda a Política Nacional de Saúde Mental ancorada em modelo comunitário e humanizado.
A indignação cresce quando nos deparamos com argumentos falaciosos e ideológicos para sustentar esse processo que, na verdade, representará um retrocesso de décadas na assistência à saúde mental de brasileiras e brasileiros. A nova proposta exclui a participação de outros profissionais que atuam na saúde mental, outros campos científicos de saber, a sociedade civil e, sobretudo, os sujeitos que necessitam dos serviços. Fere o princípio democrático do planejamento de políticas públicas, resguardado por nossa Constituição Cidadã.
A política em vigor atualmente está sustentada em anos de luta pela Reforma Psiquiátrica e Reforma Sanitária, que implantou o SUS com base na Universalidade e na Integralidade dos serviços, e nas orientações da OMS para o campo da Saúde Mental com respeito à dignidade e aos direitos humanos; contou com o envolvimento do Estado, da Sociedade Civil e das Instituições de Estudo e Pesquisa. A revogação das Portarias da Política de Saúde Mental se baseia num único documento redigido pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), chamado de Diretrizes para o Modelo Integral em Saúde Mental no Brasil.
O documento é repleto de contradições, imprecisões e falseamentos: desconsidera a atual compreensão do conceito de saúde e faz a atenção retornar ao modelo centrado no médico, nas internações e hospitalizações generalizadas e compulsórias, com intervenções agressivas e invasivas, na medicalização excessiva e no retorno da eletroconvulsoterapia.
As diretrizes propostas no documento da ABP propiciam a segregação, além de estimular a privatização do SUS de forma direta e indireta, por isso destacamos alguns aspectos a serem observados:
1) o posicionamento acerca da assistência a pessoas que fazem uso abusivo de álcool ou outras drogas é moralista e incoerente, visto que a drogadição não é reconhecida como problema de saúde pública, ao passo que o tratamento indicado – com centralidade médica, intervenção medicamentosa e internações duradouras – serviria para normalizar comunidades terapêuticas religiosas que submetem pessoas a tratamentos prolongados, em regime de confinamento e reclusão, sem profissionais de saúde habilitados;
2) o Estatuto da Criança e do Adolescente não é garantido inteiramente, pois as novas diretrizes oferecem um modelo de atenção que desconsidera a voz e os direitos de pessoas menores de 18 anos, desrespeita diversas ciências que abordam o desenvolvimento humano, limita a atuação de profissionais variados e reduz as possibilidades e o alcance de tratamentos a crianças e adolescentes ao estabelecer que todo atendimento deverá ser referendado apenas pela Associação de Psiquiatria;
3) sob o argumento de que Consultórios na Rua, Residências Terapêuticas e Unidades de Acolhimento deveriam ser financiadas e ofertadas somente pela política de assistência social, o documento sugere o cancelamento destes serviços, tal medida é especialmente preocupante pois desampara completamente pessoas cujo sofrimento psíquico está relacionado de forma mais direta aos contextos de pobreza e vulnerabilidade social.
Vemos explicitamente e nas entrelinhas a intenção de implantar um modelo de atenção pautado no controle, na opressão, no aprisionamento e no desrespeito às individualidades tanto quanto às comunidades, pois sabemos, ante o racismo e as desigualdades que estruturam nossa sociedade, que as principais vítimas de tal retrocesso serão mulheres e homens pretos e pobres das nossas periferias.
Diante de tamanho ataque, publicizamos, enquanto profissionais de saúde, estudiosas/os e da saúde mental e trabalhadoras/es do SUS, nosso posicionamento contrário a este golpe desferido contra os direitos de cidadania de todas e todos os usuários da Política Nacional de Saúde Mental.
Exigimos não só a manutenção, mas o fortalecimento da política que foi historicamente conquistada e coletivamente construída! Exigimos que qualquer mudança passe pelo crivo da democracia, ouvindo amplamente a sociedade e todos os envolvidos com as políticas públicas, por meio dos instrumentos consagrados do controle democrático, como as Conferências de Saúde.
Conclamamos os coletivos antimanicomiais de todo o país a se unirem na proposta da 5ª Conferência Nacional de Saúde Mental! Aguardamos, ainda, um posicionamento da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal sobre o assunto, para garantir o impedimento de qualquer retrocesso na configuração da ainda tão deficitária saúde mental da capital do Brasil.
Exigimos que a SES assuma formalmente o compromisso de ampliar a rede de atenção psicossocial local, inserindo no rol de seus equipamentos residências terapêuticas, centros de convivência e cultura, mais unidades de acolhimento e CAPS!”.
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Caso concorde com os termos dessa carta, assine aqui:
Criado em 2020-12-13 18:04:17
Maria Lucia Verdi -
Refletindo sobre lucidez e loucura, sobre o que Lacan diz quando afirma que os deuses pertencem ao real, enquanto espero uma amiga na – mítica para os brasilienses – Av. W3, escutei uma conversa entre dois moradores de rua, ambos velhos, barbudos, com olhos tremendos. A conversa foi mais ou menos assim:
- Está difícil né?
- Mais que difícil, meu filho, dificílimo.
- Mas o senhor está se sentindo bem?
- Eu estou é cansado. Há anos observando isso aqui e não tem jeito...
- Isso aqui... a que o senhor se refere exatamente... me diga...
- À vida, meu filho, mas eu vou lhe falar. Você vai ser a primeira pessoa para quem eu vou me revelar. Isso tudo me pesa demais... O que eu fiz deu tudo errado.
- O senhor pode ser mais claro?
- Estou tentando tomar coragem. Agora eu preciso agir, preciso. E escolhi o senhor para ser o primeiro a quem vou contar.
- Eu ser o primeiro para quê? Do que que o senhor está falando? Me desculpe...
- Meu filho, é que, é que... eu sou Deus. Sei que isso parece coisa de maluco, mas é simples assim, eu sou Deus... Eu falo isso quase com vergonha, não me gabo... Olha só o sofrimento por todo lado, o horror...Deu tudo errado.
- Ah! O senhor é deus. Entendo, entendo. Mas será que deu tudo errado mesmo? A natureza é uma beleza, cada criança, cada flor, cada animal renovam a esperança... e o céu lá nos lembrando do nosso tamanho... Não deu tudo errado.
- O senhor acha mesmo? E o que os homens estão fazendo com as crianças, com a natureza? Há um tempo estou na terra, sabe? Resolvi encarar e vir eu mesmo, não só meu filho, coitado. Porque está muito sério tudo e afinal eu sou o pai. Vim, virei juiz, solteirão, católico, tentando fazer alguma coisa, mas...
- Sei, estou entendendo. Eu concordo, também acho que está tudo errado, por isto resolvi viver assim, perambulando. O que me distrai é o movimento das ruas, observar essa gente toda indo atrás de alguma coisa.
- Vir morar por aí, viver debaixo as estrelas. O senhor é um puro. Não tem mais gente assim não. Por isto posso lhe confessar - não sei por onde começar a tentar essa salvação.
- Talvez voltar com a palavra de deus, a sua palavra, não? E ver se as pessoas conseguem escutar, escutar de verdade.
- Eu preciso me misturar com quem talvez escute, os excluídos, os que estão fora de tudo, sem-terra, sem nada, os que estão no abismo da miséria, mas não por escolha, como o senhor.
- Acho que dá até pra dizer: os que não existem, não é? É, pode ser que dali ainda possa surgir alguma coisa, do nada.
- Tem que ser, tem de ser... Tentar outro tipo de criação.
- Acho que o senhor está mesmo começando a pensar como deus.
- Quem sabe o senhor me ajuda?
- Desculpe, eu não consigo... Mas apoio a sua decisão, tente de novo sim. Só que eu não consigo ser apóstolo, nem do senhor nem de ninguém, me desculpe, estou... estou fora do reino dele... E eu vou indo.
Acho que cabe aqui citar um trecho de Hegel mencionado pelo polêmico Slavoj Zizek no seu “Acontecimento – uma viagem filosófica através de um conceito”. Lembra Zizek que Hegel vê a loucura como uma retirada do mundo real, “o fechamento da alma em si mesma” e aproximação dela à “alma animal”, cito Hegel via o pensador esloveno: “O ser humano é essa noite, esse nada vazio, que contém tudo em sua simplicidade – uma riqueza infinita de representações, de imagens, das quais nenhuma lhe pertence – ou que não estão presentes. Essa noite, a interioridade da Natureza que existe aqui – o Eu puro – em representações fantasmagóricas, é noite à sua volta; surge então uma cabeça ensanguentada aqui – mais adiante, outra aparição branca, e elas desaparecem também de repente. É essa noite que se percebe quando se olha um ser humano bem nos olhos: uma noite que se torna terrível”.
Criado em 2017-06-04 13:27:05
Romário Schettino –
O Brasil só teria condições de quebrar uma possível patente de vacina contra o coronavírus se for considerado um país em desenvolvimento, segundo os critérios da Organização Mundial do Comércio (OMC).
O presidente Jair Bolsonaro concordou em começar a abrir mão do tratamento especial e diferenciado que o Brasil tem na OMC, como quer Donald Trump. Em troca, os EUA prometeram apoiar a entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o "clube dos países desenvolvidos”, também conhecido como o "clube dos ricos".
Por outro lado, e ainda bem, a China já informou que se descobrir uma vacina vai deixar sua fórmula aberta e acessível a todos os países. O presidente chinês, Xi Jinping, disse na ONU que a vacina chinesa será "um bem público mundial".
Para falar sobre a pandemia do Covid-19, o site entrevistou o infectologista Fábio Crespo (43), formado em medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos, em 2002.
Atualmente, Fábio trabalha no Sistema Único de Saúde (SUS) atendendo pacientes com HIV e tuberculose, como servidor da Secretaria Municipal de Saúde de Londrina (PR). É também plantonista da emergência e da UTI do Hospital do Coração de Londrina. Ele fez residência médica no Instituto de Infectologia Emilio Ribas.
Outra habilidade de Fábio está relacionada ao triatlo. Desde 2014, o médico paulista vem participando de competições como atleta amador. Essa prática esportiva tem, segundo ele, “ajudado a superar os obstáculos no trabalho e na vida”.
Sobre a produção de vacina a curto prazo, Fábio Crespo disse: “os laboratórios já estão trabalhando na produção de vacina, mas não vejo solução a curto prazo, pois para produzir uma vacina eficaz e segura exige tempo”.
A seguir, os principais trechos da entrevista:
Você é um triatleta. Essa é uma condição que te dá tranquilidade como pessoa imune ao coronavírus?
Clinicamente falando, o que se sabe é que o vírus diminui a oxigenação dos tecidos do organismo. Ele destrói os alvéolos do pulmão e provoca trombose. Os sedentários, os idosos, aqueles que possuem problemas cardíacos, os obesos, o diabetes, são os mais propensos a sofrer com a chamada tempestade inflamatória causada pelas formas graves do coronavírus. Essa condição de triatleta pode ser que ajude, mas não me dá tranquilidade como pessoa imune ao coronavírus.
Como está a situação da cidade de Londrina? Há isolamento social? Muita ou pouca adesão?
Londrina está começando a entrar na curva de crescimento mais acelerado, talvez pelo aumento do número de testes e talvez pelo aumento das formas graves internadas em UTI. Os últimos dados que tenho dizem que em Londrina são 403 casos confirmados, 197 curados, 24 óbitos, 292 aguardando exames e 2.058 descartados.

No início no mês de março houve um isolamento social com maior adesão e conseguimos achatar a curva, mas depois houve um afrouxamento das medidas mais restritivas. Nesse momento há um isolamento social, porém com menos adesão que no início.
Como é a rotina no hospital em que você trabalha? Teve casos de contaminação entre os funcionários? Algum óbito?
No hospital onde trabalho a rotina, por enquanto, está tranquila, com um número de pacientes internados em UTI e Enfermaria por Covid19 flutuando com tendência a aumento. Houve casos isolados de contaminação entre os funcionários, mas provavelmente o vínculo epidemiológico foi extra-hospitalar. Não houve óbitos entre os funcionários, houve pacientes confirmados com Covid-19 que faleceram na UTI.
Você receitaria cloroquina para um doente afetado pelo coronavírus? O que acha do protocolo do Ministério da Saúde?
A cloroquina é conhecida há mais de 300 anos pelos Incas. É originada de uma planta chamada chinchona. Na Segunda Guerra Mundial foi amplamente usada na cura de malária. O protocolo tem que ser usado com restrições. É preciso considerar a Consulta Centrada na Pessoa (CCP) e analisar caso a caso para individualizar o tipo de conduta e tratamento. Eu receitaria apenas se o paciente manifestasse o desejo em tomar e mesmo assim avaliaria se teria contra indicações ao medicamento, como problemas cardíacos, hepáticos; e mesmo assim esclareceria que esse medicamento no momento não mostrou benefício clínico e faltam trabalhos clínicos mais bem controlados para estabelecer eficácia em humano para Covid-19.
O protocolo do Ministério da Saúde estabelece o uso precoce da cloroquina ou hidroxicloroquina (entre o segundo e o quinto dia do início dos sintomas), mas ao mesmo tempo exige vários critérios de prescrição levando em conta fatores de risco do paciente e exames laboratoriais, o que pode tornar bem difícil a prescrição no âmbito da Atenção Primaria do SUS (nos postos de saúde).
Você nota alguma possibilidade de produção de vacina no curto prazo? Qual a perspectiva que você tem quanto ao cenário pós-pandemia?
Os laboratórios já estão trabalhando na produção de vacina. Não vejo solução a curto prazo, pois para produzir uma vacina eficaz e segura exige tempo.
Quanto ao cenário pós-pandemia, o que posso dizer é que é preciso mudar os hábitos alimentares principalmente baseados em animais selvagens que têm maior semelhança taxonômica com o homem, pois o “pangolim”, um mamífero de escamas (parecido fisicamente ao nosso tatu) atribuído como hospedeiro intermediário vendido nos mercados livres chineses é mais semelhante filogeneticamente ao homem do que o boi ou o frango por exemplo. Creio que enquanto não houver vacina, vamos ter que conviver endemicamente com esse vírus com ondas intermitentes de aumento e diminuição do número de casos.
Um laboratório (Moderna, dos EUA) já produziu uma vacina a partir do RNA. Foi usada com poucos efeitos colaterais, testada em 45 pacientes com 3 grupos de 15 pessoas que receberam doses diferentes e produziram anticorpos protetores. Esse pode ser um caminho. O problema é que essa tecnologia de vacina de RNA poucos laboratórios têm no momento e a capacidade de produção mundial gira em torno de 5 bilhões de doses em um ano. Ou seja, inicialmente não vai dar conta dos 7 bilhões de habitantes do planeta
Como vê o negacionismo da pandemia e o movimento anticiência em pleno século XXI?
O negacionista busca se proteger negando o grave problema da pandemia. O movimento anticiência acontece quando temos um fenômeno natural novo e pouco conhecido e previsível como essa pandemia do novo coronavírus.
O fato concreto é que onde há uma alta incidência de casos de doença, a cidade tem que parar, não há outra maneira de deter a expansão do vírus. Agora, todas as medidas têm que levar em conta a densidade demográfica da região afetada e tomar as medidas adequadas para se evitar o contágio, o estrangulamento da rede hospitalar e o número de mortes. É importante termos em mente que os dois principais fatores de propagação desse vírus é a densidade demográfica e o comportamento social. Então as medidas preventivas se basearão nesses dois fatores.
Criado em 2020-05-31 19:51:58
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
O major Fonseca partiu de Brasília para Manaus na primeira semana de janeiro. Fazia parte da missão precursora da Operação Cloroquina. Estava um trapo quando chegou ao aeroporto Eduardo Gomes, por volta das 23h. Enjoado, não tinha conseguido comer nada durante a viagem. No hotel, tratou de tomar duas garrafinhas de água de coco, preocupado com as taxas de açúcar. Era diabético e hipertenso. Tomou um banho, se acalmou, e desabou na cadeira diante da mesinha com luminária para continuar a ler A Grande Arte de Rubem Fonseca.
Fã de romances policiais, o major era ainda mais fã do comandante Fonseca. Dizia brincando que talvez fossem parentes. Costumava inflar a hipótese com o fato de sua família ser originária de Santos Dumont, cidade vizinha de Juiz de Fora, a terra do escritor.
A leitura foi ficando tão empolgante que o major se esqueceu do enjoo e, depois, da fome. Já passava das duas quando aconteceu o acidente.
Na altura da história em que Mandrake, o advogado detetive, conta que depois do xadrez a sua nova obsessão agora era a faca, a “primeira criação tecnológica do homem”, Fonseca, frenético, acabou quebrando em dois o marcador do livro, feito de plástico duro. Uma das metades, afiada como dente de piranha, saiu rasgando a palma de sua mão esquerda. Um talho largo e profundo, de onde brotou um igarapé de sangue. Baita susto! A pressão caiu. Faltou ar. A vista embaçou. O major despencou sobre a mesinha e o livro deslizou no chão.
Corta para a manhã seguinte. Fonseca tinha pedido na portaria que o acordassem às 7h. Como não atendia as insistentes chamadas do interfone, pediram à camareira, depois de quase uma hora, para bater na porta do major. Nada. E nenhum barulho de chuveiro. Extrapolando a obrigação, a moça resolveu abrir a porta. Égua! Lá estava o Fonseca estatelado sobre a mesa, a poça de sangue no chão e o livro mostrando a metade do marcador como se fosse uma língua.
A camareira não se abalou talvez porque, como descobri, é também fã de casos de crimes e leitora da Agatha Christie. Antes de dar o alarme, foi tomada pela irresistível curiosidade de abrir o livro na página marcada com a “língua”. Com extremo cuidado para não alterar a “cena do crime”, como relatou depois aos amigos.
Rapidamente botou os olhos na página manchada com as digitais do Fonseca, talvez a última que ele teria lido “antes de ser covardemente assassinado, ao que parece à traição”. Maria Júlia, esse é o nome da camareira, leu o seguinte depoimento de Mandrake, que a deixou cismada:
De volta ao hotel, lia meus sinistros livros. Uma coisa que me fascinava era o problema do sangue, a terrível quantidade que jorrava em qualquer manobra, do corte da garganta ou da subclávia, e que podia esguichar na boca ou nos olhos do matador; a necessidade de manter a boca fechada e os olhos atentos para não ter uma reação de nojo (o sangue é doce e enjoativo) ou para não ficar cego temporariamente; o som gorgolhante que podia sair da garganta do sujeito, impossível de ser evitado. Também era provável a emissão de fezes e urina, e o matador devia arregaçar a bainha das calças e as mangas da roupa para que não ficasse manchada de sangue (era sempre mais fácil limpar os próprios braços e os sapatos). Se o ataque fosse pela frente, o pescoço podia continuar como alvo principal, mas o coração também devia ser considerado uma alternativa excelente.
Consciente de que devia avisar a administração do hotel o quanto antes, para não dar nenhum motivo de ser envolvida “na trama”, Maria Júlia repôs o livro exatamente ao lugar de onde o havia catado, e tratou de ligar para o chefe.
Seguiu-se o pampeiro usual – a chegada da ambulância do SAMU, as viaturas da polícia, os primeiros depoimentos etc. Assim que se viu livre da burocracia, Maria Júlia já estava, como se diz, xiringando a sua teoria para os colegas e a família. Todos a ouviram com a descrença de sempre.
Com a imaginação digna do Woody Allen, a camareira levantou a hipótese de que o narrador do romance do Rubem Fonseca – que ela não tinha lido e portanto não sabia que o advogado é um cidadão de bem – teria saltado do livro para a vida e daí, no momento seguinte, para a artéria no pescoço do major. “Pena que não deu tempo de checar”, disse esbaforida. “Vou ter de esperar o resultado do IML”.
Disse mais Maria Júlia, provocando risinhos amarelos entre os trabalhadores do hotel: “Eu acho que o assassino se apoderou da alma do coitado do hóspede para poder continuar entre nós, os vivos”. A Joana deu uma tossidinha, ameaçando contradizê-la, mas foi logo cortada: “Você sabe que isso pode ter acontecido, como naquele filme do Brad Pitt que assistiu lá em casa comigo… Como é que mesmo? Encontro Marcado”.
O laudo saiu menos de duas horas depois da chegada do corpo no Instituto Médico Legal. A causa mortis do major Fonseca foi um infarto fulminante, provavelmente engatilhado por severa hipoglicemia e um nível baixíssimo de hemoglobina glicada.
Caso resolvido. Acontece que a versão de Maria Júlia logo se espalhou mais que o coronavírus na cidade de Manaus e municípios vizinhos, Novo Airão, Presidente Figueiredo, Rio Preto da Eva, Careiro, Iranduba, e, pasmem, até Boa Vista. Rá! É desse jeitim que surgem as histórias dos milagres, as fake news e também certos contos de entretenimento da subliteratura.
Criado em 2021-02-12 16:03:33
Luiz Philippe Torelly (*) –
Não há compêndio de arquitetura e urbanismo, em qualquer língua, em que não figurem fotos e textos sobre Brasília. Sua construção nos anos 50 atraiu os olhares de todo o mundo para o que estava acontecendo no Planalto Central do Brasil, até então uma vasta extensão desocupada e de escassa relevância econômica.
Prevista desde a primeira Constituição republicana de 1891, Brasília reunia anseios seculares de integração do território nacional. Sua localização no encontro das três grandes bacias hidrográficas do país, Amazônica, Prata e São Francisco, é um dos aspectos da vasta simbologia que a cerca.
O autor da proposta que seria vitoriosa no concurso para a construção da nova capital, o arquiteto Lúcio Costa, realizou um projeto urbanístico que até hoje é objeto de debates e polêmicas, mas uma dúvida nunca restou: era o melhor plano entre os 26 concorrentes. Os membros do júri da época, e os especialistas da atualidade, são unânimes em apontar esse fato relevante e inquestionável. Com uma morfologia logo identificada com o formato de um avião, a cidade é resultado do cruzamento de dois eixos, como na ancestral tradição greco-romana: cardus e decumanus. Lúcio Costa promoveu uma síntese das ideias urbanísticas da antiguidade clássica, até os princípios urbanísticos modernistas.
Uma das ideias-força do plano é a das escalas, devidamente associadas e decorrentes do uso do solo predominante em cada uma delas: monumental, residencial, gregária e bucólica.
Cada uma teria funções e atividades específicas e de maneira geral, pode se dizer que decorridos 60 anos da fundação da cidade, elas obedecem ao proposto originalmente.
Escala monumental – A escala monumental, localizada ao longo do eixo de mesmo nome, concentra as atividades político-administrativas e confere à nossa urbs os principais símbolos arquitetônicos que a definem. A Praça dos Três Poderes e os palácios do Planalto e do Supremo Tribunal Federal, o Congresso Nacional, os ministérios das Relações Exteriores (Itamarati) e da Justiça e a denominada Esplanada, composta pelos demais ministérios todos iguais entre si. Em seu terço final localizam-se equipamentos culturais, como a Catedral, o Museu Nacional, a Biblioteca e o Teatro Nacional.
Todos os edifícios da escala monumental, compreendidos entre a Rodoviária (de Lúcio Costa) e a Praça dos Três Poderes, são de autoria de Oscar Niemeyer, responsável assim pelos símbolos mais marcantes da arquitetura brasiliense.
Escala residencial – A escala residencial alinhada ao longo do eixo rodoviário é formada por superquadras e unidades de vizinhança, onde se abrigam predominantemente residências e algumas atividades complementares, como pequeno comércio, escolas, lazer e templos. É um modelo que resistiu bem ao tempo pela força de sua concepção e qualidade de desenho. Generosas áreas verdes qualificam os espaços, embelezam e amenizam os efeitos do clima.
Escala bucólica – A escala bucólica composta por amplos gramados e vegetação nativa, tem por principal objetivo assegurar o formato do plano piloto e preservar as amplas vistas que caracterizam a cidade. São locais de lazer contemplativo e recreação. Ter o horizonte como elemento paisagístico e de deleite, é uma das boas características presentes no plano piloto e muito rara nas maiores aglomerações urbanas.
Escala gregária – A escala gregária foi criada como sendo a do encontro e lazer, bem como das atividades características das áreas urbanas centrais. Comércio variado, bancos, magazines, edifícios de uso público e comerciais, escritórios e prestações de serviços. Seu elemento de articulação, a Rodoviária, ponto de cruzamento entres os eixos monumental e rodoviário, ao mesmo tempo em que se constituí em uma articulação de interesse local e metropolitano, permite fácil acesso de pedestres e veículos aos denominados setores centrais: comercial, hospitalar, diversões, bancário e de autarquias.

Infelizmente, por vários fatores a escala gregária não funcionou como havia proposto Lucio Costa. Enquanto as demais cumprem com bom desempenho suas atividades, o mesmo não acontece com a nossa área central.
Antes de mais nada é importante destacar que áreas centrais em muitas grandes cidades do planeta, apresentam problemas de diversas naturezas. Congestionamento, problemas ambientais, trânsito, transportes, violência, decadência e abandono.
A área central de Brasília não é diferente. Explicito algumas questões com o objetivo de ampliar o debate na busca por boas soluções que ensejem novos usos e sua revitalização. Em primeiro lugar, temos um vício original: as áreas centrais foram ocupadas exclusivamente com o uso institucional e comercial. Além disso, sua implantação foi sendo feita de forma gradativa ao longo dos anos sem que o seu projeto original de monofuncionalidade fosse enfrentado. Ainda hoje subsistem vários lotes vazios, que poderiam ser remanejados ou utilizados com destinação diferente da original.
Ao longo dos anos ocorreram mudanças nas dinâmicas urbanas. No caso de Brasília um fator que teve forte impacto foi o surgimento dos shopping centers. Na área central da cidade eles são cerca de cinco, todos de grande porte. Concentram muitas lojas e serviços e oferecem estacionamento, segurança e ar-condicionado. Novos edifícios mais modernos e com confortos inexistentes nos mais antigos foram sendo construídos. Isso tudo gerou uma nova centralidade superconcentrada. O resultado foi o esvaziamento gradual, espaço urbano degradado, abandono. Não só as áreas centrais foram atingidas, as avenidas W3 Norte e Sul, apresentam processo de degradação semelhante e com inúmeros imóveis desocupados.
A solução tem unanimidade: acontecimento raro em se tratando de Brasília. Incentivar o uso habitacional nos edifícios vazios e requalificar paisagísticamente a região. Depois de muitos anos de debates e recomendações para incorporar o uso habitacional no SCS, finalmente o GDF aquiesceu.
No documento Brasília Revisitada (1987) Lúcio Costa já propunha o fim do uso comercial exclusivo na zona central de Brasília. Em 2016, a Portaria nº 166, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), retirou os entraves legais que impediam a adoção de uma nova dinâmica urbana para essas áreas. A expectativa é que uma nova urbanidade se instaure, ampliando a oferta de habitação até 60m², sem que a população de rua que hoje ali está instalada seja marginalizada.
O uso habitacional no Setor Comercial Sul e sua movimentação decorrente não só qualificam o espaço, como dinamizam a economia e geram novos empregos.
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(*) Luiz Philippe Torelly é arquiteto e urbanista.
Criado em 2020-09-16 21:27:03
O livro A Nave 508: Espaço dos Insistencialistas, da artista visual Suyan de Mattos, será lançado no dia 10 de setembro, às 19h, no Bar e Restaurante Beirute da 109 Sul. A publicação recupera a história do Espaço Cultural 508 Sul de Brasília, um dos locais mais emblemáticos da cultura brasiliense. Todos os protocolos de segurança e prevenção à Covid-19 estão garantidos.
Entrevistas, pesquisa de acervo e fotografias fazem parte da obra que se dispôs a recriar a atmosfera que marcou a arte dos anos 1970 e 1980 no Distrito Federal. O Teatro Galpão, Teatro Galpãozinho e o Centro de Criatividade renascem em entrevistas e pesquisas bibliográficas feitas pela Suyan. O livro teve organização de texto e coedição de Kuka Escosteguy.
Com uma tiragem de mil exemplares, parte será enviada àqueles que colaboraram na vaquinha on-line feita para conseguir recursos para sua realização. Cinco por cento da tiragem será encaminhada ao Fundo de Apoio à Cultura (FAC). E a terceira parte será colocada à venda na Banca da Conceição (308 sul) e na livraria do Chiquinho, no Minhocão da Universidade de Brasília.
Embora tão relevante para a capital brasileira, a história deste espaço cultural nunca havia sido registrada oficialmente. As informações encontravam-se na memória de cada um que participou dessa aventura. Da mesma forma, as imagens fotográficas permaneciam guardados em gavetas e caixas de papelão pelos próprios artistas e/ou fotógrafos da época. Para conseguir reconstituir toda essa história, Suyan de Mattos fez entrevistas com 53 pessoas. Desta forma, o local voltou à vida, pelas palavras de quem mais o conheceu de perto. “A história oral permite apreender como a memória de um grupo se constitui e se transmite, como reforça sua identidade e assegura sua permanência”, explica a autora.
Todo o trabalho começou em 2017, depois de conversa da autora com o jornalista TT Catalão. “Ele falou da importância de recuperarmos a história desse local, tão marcante para a arte de Brasília”, diz Suyan.
Inicialmente, o projeto contemplaria um livro e um vídeo com registro das entrevistas, gravadas pelo diretor e produtor Markus Avaloni. Depois, optou-se por lançar apenas a obra escrita. Dentre as conversas gravadas, quatro delas estão sendo exibidas no perfil do projeto no Instagram (a_nave_508): com o cantor e compositor Oswaldo Montenegro, com o artista gráfico Alex Chacon, com o ator e diretor Dimer Monteiro, já falecido, e com o poeta e jornalista TT Catalão, in memoriam.
Diariamente, de segunda a sexta-feira, sempre às 19h, pelo Instagram do projeto, Suyan de Mattos também entrevista outros artistas que foram fundamentais para a história do Galpão. As conversas ficam disponíveis para visualização no perfil a_nave_508.
O livro A Nave 508: Espaço dos Insistencialistas é dividido em três partes. A primeira contempla a história do Teatro Galpão. A segunda recupera a trajetória do Teatro Galpãozinho. E a terceira dedica-se ao Centro de Criatividade. Em cada uma delas, três capítulos: narrativa histórica, depoimentos e fotografias.
Para compor esse mosaico, foram entrevistados artistas cênicos (atores, atrizes, bailarinas e bailarinos), artistas visuais, músicos, produtores culturais, diretores, ex-diretores do espaço, dentre muitos outros. Pelas páginas do livro passam os depoimentos de nomes como João Antonio (idealizador de todo o espaço), Hugo Rodas, Fernando Villar e Guilherme Reis (responsáveis por alguns dos maiores sucessos do Teatro Galpão), a atriz Iara Pietricovsky, o ator, diretor e produtor Neio Lúcio, a bailarina e diretora Eliana Carneiro, o ator e diretor Humberto Pedrancini, dentre muitos outros, que fizeram a história do local. “Eles atestam a importância daquele espaço para a consolidação do teatro e das artes visuais brasilienses contemporâneos”, revela Suyan.
Um pouco de história
Berço da ousadia, palco de liberdade e experimentação, o espaço começou a ser concebido em 1973, sob a gestão de Ruy Pereira da Silva na direção executiva da Fundação Cultural do Distrito Federal. Galpões utilizados para estocagem de materiais da Novacap foram destinados para a realização de atividades culturais.
Primeiro, nasceu a Galeria A, com exposição do arquiteto japonês Kenzo Tange. Em seguida, foram inauguradas mais duas galerias, B e C. No início de 1974, o embaixador Wladimir Murtinho, então Secretário de Educação e Cultura, autoriza a transformação de um dos galpões em teatro. E em 1975, inaugurava-se o Teatro Galpão, com a peça O Homem que Enganou o Diabo e Ainda Pediu o Troco, de Luiz Gutemberg, sob a direção de Laís Aderne. O sucesso foi enorme e o lugar se transformou em centro de produção e formação artística. A partir daí, uma sequência de estreias revelou nomes de atores e diretores da cidade e possibilitou ao público de Brasília o contato com trabalhos inventivos que renovaram o teatro brasileiro contemporâneo, como os do grupo carioca Asdrúbal Trouxe o Trombone.
Em 1977, os outros galpões foram ocupados. Nascia o Galpãozinho, espaço que se destinou a grupos de teatro amador e cuja história ficou marcada por ser o palco do Jogo de Cena, conduzido pelo ator Léo Neiva. Também surgiu o Centro de Criatividade, que se transformou em uma casa de artes, ponto de reunião de artistas, que teve a direção de artistas como Luiz Aquila e coordenadores com o talento do artista Alex Chacon.
Pelo palco do Teatro Galpão passaram montagens antológicas como O Beijo no Asfalto e O Exercício, ambas dirigidas por Dimer Monteiro; João sem Nome, musical de Oswaldo Montenegro; Flicts, dirigido por Ary Pararraios; Os Saltimbancos, Trabalho nº 1, Trabalho nº 2, Trabalho nº 3, O Noviço e a peça Besame mucho, sob a direção de Hugo Rodas e produzida pela Candango Promoções Artísticas; A Revolução dos Bichos, dirigido por Guilherme Reis; O último rango, de J. Pingo, Vidas Erradas ou Pode vir que não morde, de Fernando Villar; A Gema do Ovo da Ema, de Murilo Eckardt; Ladies da madrugada, dirigida por Ricardo Torres; dentre muitas outras.
Em 1982, o Teatro Galpão paralisou suas atividades para só abrir dois anos depois. Em 1986, todo o espaço teve que ser fechado por problemas estruturais. A narrativa de A Nave 508 chega até esse momento.
Mas a história do Galpão seguiu. Após permanecer 10 anos fechado, o local voltou às atividades em 1996, já com o nome de Espaço Cultural 508 Sul. Em 1999, em homenagem ao líder da banda Legião Urbana, que havia falecido três anos antes, o local ganha o nome de Espaço Cultural Renato Russo.
Dez anos depois, novo fechamento do local, para reforma das instalações e adequação à acessibilidade. E em 2016, o espaço foi novamente entregue à população, reformado e contando com o novo Teatro Galpão e o Teatro de Bolso Robson Graia, Sala Marcantonio Guimarães, galerias, ateliê de pintura, biblioteca de artes, gibiteca, musiteca, sala Multiuso e Galpão das Artes.
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Ficha técnica:
Livro: A Nave 508: Espaço dos Insistencialistas
Autoria e Coordenação Geral: Suyan de Mattos
Organização de texto e coedição: Kuka Escosteguy
Revisão de texto: Palco y Letras
Elaboração do projeto, Gestão e Produção executiva: Marcia Gomes e Hugo Gomes pela GC Incentivem Produções Culturais
Projeto gráfico, diagramação e Web Design: Cleber Cardoso Xavier
Produção de vídeo: Markus Avaloni
Decupagem: Leci Augusto
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Serviço:
Lançamento: A Nave 508: Espaço de Insistencialistas
Local: Beirut
Bar e Restaurante – CLS 109
Data: 10 de setembro de 2021
Horário: das 19h às 21h
Preço do exemplar: R$ 40
(À venda na Banca da Conceição (308 sul) e na Livraria do Chiquinho - Minhocão da UnB.
Criado em 2021-09-04 01:18:15
Emerson Leal (*) –
A China é um país de 1,4 bilhão de habitantes. Nos últimos dias notícias promissoras têm vindo de lá. Por exemplo, sobre a “pobreza absoluta”, na qual viviam 80 milhões de pessoas (cerca de 5,5% da população) em 2013. O país tinha estabelecido uma meta de eliminá-la até o final de 2020 e conseguiram cumpri-la no final do mês de novembro passado. Vamos lembrar que o Brasil (com uma população 7 vezes menor) tem hoje 14 milhões de brasileiros miseráveis e famintos (cerca de 6,5%) e mais de 50 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza. E os EUA, com uma população de 330 milhões de habitantes, têm 53 milhões de norte-americanos vivendo abaixo da linha da pobreza. A diferença é que no Brasil e nos EUA esses números têm aumentado e, na China, diminuído.
Segundo estimativas de peritos internacionais, o setor industrial dos EUA é metade do da China; no setor agrícola, a China já os ultrapassou. Uma competição acirrada entre os dois países ocorre também na área de P&D. As tecnologias emergentes, como inteligência artificial, robôs e big-data são alvos de uma disputa cada vez maior entre ambos. A tendência, hoje, é que nos próximos anos a China ultrapassará o PIB dos EUA. Numa área estratégica como a da tecnologia 5G, o Tio Sam não possui ainda uma empresa com liderança global para nadar de braçada. Trocando em miúdos, os EUA estão atrasados nesse quesito, tendo dificuldades em competir com a China no fornecimento global dessa tecnologia.
Apelando para a lógica do capitalismo gângster, os Estados Unidos proibiram a empresa Huawei chinesa de fornecer equipamentos de rede de telecomunicações com tecnologia 5G para empresas prestadoras de serviços desse tipo em território americano. Como se não bastasse, a Huawei foi ainda alvo de espionagem efetuada pela National Security Agency. Partindo para uma ofensiva digna de larápios pegos de calça curta, neste mês de dezembro de 2020 o diretor de inteligência dos EUA, John Ratcliffe, denunciou em artigo publicado no Wall Street Journal um suposto “roubo por parte da China de segredos comerciais e tecnologia de defesa dos EUA”, sem qualquer prova (ora, a China está na frente e o mais provável é que seja o inverso). Como se não bastasse, acusou ainda a China de representar hoje em dia “a maior ameaça aos Estados Unidos e a maior ameaça à democracia e à liberdade no mundo desde a Segunda Guerra Mundial". Haja hipocrisia!
Após esse jogo sujo de tentar ‘apagar’ os resquícios da Guerra Fria jogando gasolina na fogueira, Pequim deu o troco: Hua Chunying, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, rejeitou as acusações e chamou tudo de “mentiras e boatos espalhados pelos EUA com o objetivo único de desacreditar a China”. E completou: “Esperamos que os funcionários dos Estados Unidos finalmente respeitem os fatos e parem de inventar e difundir seu vírus político e suas mentiras”!
Na sua Guerra Fria – suja! – contra a China, os EUA têm apelado frequentemente para as Lawfare’s, o conhecido mecanismo de usar e manipular a lei como “arma de guerra” para detonar adversários políticos. Os exemplos são inúmeros. Conclusão: só o desespero pode explicar tamanha agressão aos fatos e tanta insolência do Tio Sam.
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(*) Emerson Leal, Doutor em Física Atômica e Molecular pela USP de S. Carlos.
Criado em 2020-12-12 00:05:01
Maria Lucia Verdi -
Nesta última semana, para conseguir respirar, tenho revisto - bem como visto alguns pela primeira vez - filmes de Michelangelo Antonioni na mostra retrospectiva em cartaz no CCBB.
Observar a trajetória do grande italiano, a permanência de certas escolhas estéticas e temáticas e suas transformações formais e discursivas, quando simultaneamente testemunho o interminável desdobrar das histórias ligadas às narrativas das delações é algo curioso, para dizer o mínimo.
Antonioni só desvela o velamento das coisas e dos seres.
Não há verdades, o sentido de tudo é aberto, mutante, as narrativas dramáticas são quase mínimas e revelam, sempre, a incerteza de tudo, a impossibilidade de uma versão definitiva.
Cineasta e cronista de seu tempo por mais de seis décadas, verdadeiro pintor que deixa em cada filme alguma imagem (quadro) inesquecível, é um observador cético do teatro do humano.
Quais são os motivos, o que aconteceu ou acontecerá numa trama, importa e não importa frente aos magníficos retratos do homem em situação frente a si mesmo e ao outro.
Porém aqui, agora, neste impensável roteiro que, não obstante, tem de fato lugar no palco exausto que é nossa terra, busca-se entender motivos, desvendar ações, esclarecer situações que permanecem envoltas numa densa névoa, como aquela presente em tantos dos filmes do Maestro.
Como nas tragédias shakespearianas, em nosso palco, um golpe dentro de um golpe, uma cena patética superando a outra, o desesperador sentido de que é sem fim, sem fundo, interminável o circo de horrores que se projeta.
“Sei da correção dos meus atos”, disse aquele que se nega a renunciar. Desde Maquiavel se sabe que verdade e política não andam juntas, o Príncipe tendo o direito de mentir.
Mas não mentir assim. Evidencia-se que no ethos brasileiro deixou de existir – se em algum momento existiu – algo que se nomeava como a Ética.
Retornamos ao sempre recorrente Macunaíma, o qual, ao ser perguntado sobre algo que havia dito ou feito, respondia de modo malandro, falsamente ingênuo: “Eu menti”. Engano, falsidade, fraude, embuste, impostura por todos os lados.
Sentimos o desespero que muitos dos personagens de Antonioni expressam frente a um mundo onde a falsidade burguesa, a falta de valores, o vazio da existência, imperam soberanos.
Tantos deles desistem, suicidam-se, deixam-se morrer em vida, matam alguém.
Quando Polonius pergunta a Hamlet o que ele lê, ouve a resposta: “Palavras, palavras, palavras...”
O que lemos e ouvimos parecem ser apenas palavras destituídas de sentido, destituídas de qualquer verdade, como em tantas cenas dos filmes de Antonioni. A construção babélica de depoimentos, provas, falas, se transforma num enorme, monstruoso moinho de vento. Qual é a luta possível?
É preciso identificá-la. Não será ela a mudança de uma constituição que, em 1988, não poderia prever o caos que se instalaria no país?
Uma votação da urgente reforma política e a possibilidade de renovarmos os quadros políticos por meio de eleições diretas?
No ótimo catálogo da “Aventura Antonioni”, em uma das entrevistas com o cineasta, ele cita Lucrécio: “Nada se parece consigo mesmo neste mundo onde nada é estável.
De estável há somente uma violência que subverte tudo." Essa violência que subverte tudo, que parece ter sempre existido, se reinventa com tal maestria em nosso pobre país que resistimos com dificuldade, com dor.
Essa violência é a violência de uma sociedade que nunca conseguiu resolver questões intestinais, que não conseguirá transformar-se enquanto não houver uma profunda revolução em sua estrutura.
E tal revolução pode estar vindo à tona.
Criado em 2017-05-31 14:07:46
Romário Schettino –
O que estão fazendo os artistas visuais brasilienses durante o confinamento obrigatório provocado pela pandemia do coronavírus? Para responder a esta e outras perguntas, um grupo de amigos se reuniu para criar o projeto 40Antenas e algumas parabólicas - Uma forma de registrar presságios e rastros do isolamento social.
Depois de muitas trocas de ideias pelo Whatsapp e por outras ferramentas disponíveis no mundo virtual, o grupo chegou à conclusão de que deveria dar início a um processo de produção, seu registro e seleção de obras de artistas visuais da cena contemporânea de Brasília. Tudo para ser exposto na sétima semana dC (depois do Corona).
“O número 40 enfatiza uma licença poética ao fato de estarmos atualmente vivendo na quarentena”, diz Suyan de Mattos, coordenadora do evento, junto com Hilan Bensusan, na curadoria, e Cirilo Quartim na coordenação gráfica. O acompanhamento crítico é da experiente curadora Marília Panitz.
Como o registro do processo criativo é peça importante, os 40 artistas convidados trocam ideias pelo Whatsapp, enviam o produto de seus trabalhos para um banco de dados no google drive e disponibilizam os vídeos e as fotos da produção no Instagram (40antenasdc). O elo entre todos eles se dá por meio da tecnologia disponível na internet, como o que utilizamos para viabilizar esta entrevista.
Como é produzir no confinamento e como vocês esperam encontrar as pessoas no futuro?
Marília Panitz – O isolamento está fazendo com que as produções tenham um entrelaçamento interessante, todos estão trabalhando em suas casas, mas interagindo no Instagram e no Whatsapp. Os artistas vêem as imagens e os vídeos daquilo que todos estão fazendo. O Cirilo Quartim criou também um banco de dados no google drive onde os artistas vão arquivando seus processos criativos/históricos. Assim vamos desenhando o que será essa exposição, que pensamos levar para a passagem subterrânea da 109/209 Sul de Brasília. O Hilan, a Suyan e eu estamos acompanhando os registros da produção poética fruto do isolamento.
Cirilo Quartim – O google drive é o lugar onde estão sendo depositados os trabalhos individuais para serem submetidos à curadoria e ao acompanhamento crítico da Marília e, assim, chegarem à exposição. O Instagram é o lugar onde são colocados os processos, o que cada artista está fazendo enquanto produz na quarentena. Pode ser, por exemplo, o que faço enquanto realizo uma pintura, os bastidores deste trabalho. (Abaixo, obra de Cirilo Quartim)

Por que a 109/209 Sul?
Hilan – Quando começamos a pensar no projeto era importante saber quando, como e onde os trabalhos seriam expostos. Não tínhamos como especificar datas porque estamos numa pausa que não sabemos quanto tempo vai durar. Definimos apenas que será na Sétima Semana dC (depois do Coronavírus. Não sabemos exatamente o que será, é uma espécie de mensagem jogada ao mar. Como não podemos especificar nada só podemos dizer que vai ter um depois, que será fora de nossas casas. E aí pensamos: o que é tipicamente fora em Brasília? As ruas do Plano Piloto? Elas não são tão pedestres. Por isso, pensamos nas passarelas subterrâneas, e na 109 Sul, que tem uma história, perto do Beirute etc. Ao mesmo tempo a passarela é um lugar fechado, confinado e, ao mesmo tempo, é uma rua. É como se fosse a chegada do sol, daí a ideia de escolher uma passarela, uma galeria pública.
Marília – Então, todo esse trabalho ficará ali na passarela durante 24 horas e depois irá para a Galeria deCurators, na 412 Norte, que é nossa parceira.
Cirilo Quartim – Além disso, vamos produzir um catálogo com todo o trabalho realizado. Um registro importante para a história.
Os artistas de maneira geral estão sofrendo restrições com a quarentena, muitos estão sem remuneração por seu trabalho. Como o artista plástico sobrevive?
Marília – O que eu tenho notado durante esta quarentena são as laives. Muitos artistas estão mostrando na internet suas criações e seus pontos de vista. Alguns museus estão fazendo isso também, colocando na rede seus acervos. Há muitos leilões virtuais etc. Essa é uma forma do artista ganhar dinheiro e fazer circular recursos onde não está chegando.
Hilan – Depende muito do tipo de trabalho que a pessoa faz. Há quem trabalhe em ateliê, mas a ideia do projeto é refletir essa mudança, já que não se sabe quanto tempo vai durar o confinamento. Nossa iniciativa é refletir sobre a necessidade da presença. Eu, por exemplo, que trabalho com performance preciso do público. Como o teatro, também preciso da presença física. Uma performance filmada não é exatamente uma performance. Essa é uma mudança enorme, ninguém vai pensar sobre isso melhor do que a gente mesmo. Talvez o mundo nunca mais volte a ser como era. Essas marcas estarão presentes de alguma maneira no depois de tudo isso que está acontecendo. A sobrevivência é um problema, há quem tenha fontes de renda independente e outros que vivem situações dramáticas.
Mas como sobreviver se não há mercado nem financiamento público?
Marília – Esse é um problema, há artista que produz independentemente do mercado. Esses, especialmente, dependem do financiamento. Algumas instituições privadas e estatais estão publicando seus editais para dar um respiro neste momento de quarentena, como o CCBB, o Itaú Cultural, o Fundo de Apoio à Cultura (FAC). O Museu Nacional de Brasília também está pensando em algo que possa movimentar a área das artes plásticas nas redes sociais, já que ele está fechado e não pode ser visitado. Os museus, em geral, estão voltados para tours virtuais e cursos online que são muito úteis.
O que vocês acham da crise na política cultural brasileira? A secretária nacional, Regina Duarte, não consegue emitir sequer uma nota de pesar pela morte dos grandes artistas. O que esperar disso tudo?
Marília – Eu não esperava nada diferente num governo como esse que está aí. Cultura é a raiz de toda subversão existencial, para eles quanto mais isso não existir é melhor. Eu fico mais voltada para o que fazem as instituições que não estão ligadas diretamente ao governo federal. Aqui em Brasília tivemos, por pressão do movimento cultural, a troca do secretário de Cultura, Adão Cândido, por outro muito mais interessante, que é o Bartolomeu Rodrigues, que embora não seja um cara da área, está disposto a ouvir as pessoas. Acho que o Bartô está fazendo alguma coisa. Não que esteja tudo resolvido, claro que não. Eu não quero dar uma de Poliana, mas vejo iniciativas da sociedade civil como positivas. Ou se faz alguma coisa ou vai tudo por água abaixo. O objetivo do governo federal é acabar com toda e qualquer atividade criativa que não esteja de acordo com seu ponto de vista. Por isso eu acho que a nossa salvação está em ações locais.
Por que não uma secretaria da Cultura regional, como o que os nove governadores do Consórcio Nordeste fizeram quando criaram o Comitê Científico, que está cuidando da pandemia?
Marília – Pois é, nos discursos do neurocientista Miguel Nicolélis, que coordena esse Comitê Científico, a cultura está presente. A cultura faz parte de qualquer postura mais humanista.
Hilan – Eu acho que esses governos vão sofrer um baque depois da quarentena. As pessoas não vão sair da mesma forma que entraram no confinamento. As relações entre as pessoas serão bem mais fortes para enfrentar o desmonte que está acontecendo de maneira geral no país. A vida pública, urbana, a participação política vai ficar mais intensa com a presença da arte, dos filmes, das imagens. A gente não vai se relacionar com tudo isso da mesma maneira. (Abaixo, performance de Hilan Bensusan, foto de Annarkista de Cristo)).

Vocês acham que os artistas sairão dessa quarentena mais unidos?
Hilan – Não sei se mais unidos, mas mais necessitados. Talvez haja uma união temporária.
Cirilo – A arte na quarentena virou artigo de sobrevivência. Você vai escutar uma música, seguir uma série, ver mais filmes. Já está havendo uma revalorização de tudo isso, um reencantamento. As pessoas que não ligavam para a arte estão vendo como os artistas são fundamentais para a sanidade mental e para a sobrevivência do Planeta. Eu comecei como pintor, cheguei à intervenção urbana e agora, no isolamento, voltei para a pintura e refiz o meu ateliê, comecei do zero. Foi bom ressignificar minha vida artística aproveitando a temática da pandemia.
Hilan – Essa experiência coletiva, ainda que separados, compulsória, é rara na humanidade. É experiência de parar, não ficar no ritmo frenético, ter dor, mas ter tempo, ter medo, mas ter tempo. É um novo portifólio de sentimentos compartilhado por muita gente. É uma interrupção coletiva. Isso vai deixar marcas.
Marília – Já temos várias experiências na forma de circulação da produção artística. O cinema está mais avançado com os canais que exibem filmes. A música junta músicos em várias partes do mundo para uma edição primorosa, como essa do chorinho tocado pela família Ernest Dias, produzida pelo Instituto Moreira Salles. Tem uma amiga, atriz, que está se perguntando o que fazer. Eu disse a ela, você vai ter que descobrir.
Cirilo – O Hilan falou sobre essa ideia de fazer uma performance na internet. Ou seja, não deixa de ser performance. É como o café descafeinado, não deixa de ser café. Mas ele pode explicar melhor que eu.
Hilan – Eu já discuti isso no coletivo internacional de que participo. Uma coisa é você fazer um vídeo de uma performance na rua, com público. Outra coisa é uma laive, que você tem um elemento aleatório de pessoas que estão ali junto com você. Quando você faz uma performance numa laive, seu trabalho já se transformou. Na rua, é diferente, as pessoas podem agir de um jeito ou de outro. A performance é quente nesse sentido, mas é justamente essa variedade da presença que a gente está sendo obrigado a pensar neste momento.
Os 40 e alguns artistas convidados, por ordem alfabética, são:
Ananda Giuliani
Bárbara Paz
Camila Cidreira
Capra Maia
Carlos Lin
César Becker
Cintia Falkenbach
Cirilo Quartim
Cleber Cardoso Xavier
Danna Lua Irigaray
Gabriela Mutti
Gisel Carriconde Azevedo
Hieronimus do Vale
Hilan & Aha Non
Iguinho Krieger
Isadora Dalle
Jamila Maria
Jean Peixoto
José Roberto Bassul
Julio César Lopes
Lara Ovídio
Laura Dorneles
Leopoldo Wolf
Lino Valente
Lis Marina Oliveira
Luciana Ferreira
Luciana Paiva
Ludmilla Alves
Luisa Günther
Léo Tavares
Marcelo Campos
Márcio Borsoi
Mariana Destro
Mateus Lucena
Matias Mesquita
Nivalda Assunção
Nyuki
Rafael da Escóssia
Raísa Curty
Raissa Studart
Romulo Barros
Suyan de Mattos
Thalita Caetanoo
Tumulto – Natasha de Albuquerque e Fernando Carvalho
Valéria Pena-Costa
Zuleika de Souza
___________________
Ficha técnica:
Curadoria: Hilan
Bensusan & Suyan de Mattos
Acompanhamento crítico: Marília Panitz
Coordenação gráfica: Cirilo Quartim
Música: Phill Jones
Criado em 2020-05-07 23:04:50
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) -
Nos últimos anos eu pude comprovar o preceito de que a prática da tradução é a melhor maneira de compreender um poema. A lição parece óbvia mas envolve tremendas condicionantes. Os resultados dependem, por exemplo, do conhecimento que o tradutor ou tradutora tem da língua-fonte e da língua de chegada, e das prescrições das teorias de tradução (da equivalência, descritiva, polissistêmica, culturalista, Skopos, materialista histórico-dialética, pós-colonial etc) e das escolas literárias que ele ou ela frequenta (impressionista, estruturalista, neocrítica, recepcionista etc).
O que acontece quando o tradutor não é acadêmico mas um amador eclético que nem eu? Ora, a coisa flui de maneira desbragada, atropelando constrangimentos. Valha porém a observação dos estudiosos de que qualquer tradutor ou tradutora, seja da academia seja autodidata, sempre pode ser enquadrade numa escola ou noutra, ou ter os pés em várias. De toda maneira, permanecem de pé muitos limites.
Para encurtar a conversa, informo que nos meus exercícios de tradução me inspiro nas lições e práticas de gente como Umberto Eco (“Quasi la stessa cosa”), George Monteiro, Paulo Henriques Britto, José Lira, Augusto de Campos, Giuseppe Ierolli, Flávio R. Kothe, Amalia Rodríguez Monroy, Claire Malroux, entre outros e outras, tudo junto e misturado.
Que São Jerônimo me livre e guarde porque, como disse Sancho Pança, “al freír de los huevos lo verá", e, como dizem os ingleses, “The proof of the pudding is in the eating”, e como eu mesmo digo, a questão da aproximação & fidelidade se resolve na hora do vamos ver, isto é, no momento de confrontar o texto original com a tradução.
Ontem eu fui até as duas da madrugada tentando traduzir o poema abaixo de Emily Dickinson, um dos meus xodós, que está brilhando, na pele da moleca Hailee Steinfeld, na excelente série versão millennial da Apple TV (qualquer dia desses escrevinho uma crítica sobre):
After a hundred years
Nobody knows the Place
Agony that enacted there
Motionless as Peace
Weeds triumphant ranged
Strangers strolled and spelled
At the lone Orthography
Of the Elder Dead
Winds of Summer Fields
Recollect the way -
Instinct picking up the Key
Dropped by memory
Spoiler - Antecipo aqui como entendi esse poema escrito por volta de 1868, e depois conto os truques que mobilizei para compor a minha versão.
O poema trata da distinção entre a vivência e a sua memória. Emily Dickinson diz, basicamente, que, depois de muitas décadas, quem morreu será esquecido, assim como desaparecerão os próprios campos de batalha onde caíram os que participaram da guerra pela vida. O mato cobrirá os epitáfios dessa gente, narra o poema, a serem decifrados em tempos seguintes por curiosos que por lá passarão. Mas os ventos da renovação revelam os caminhos percorridos pelos que se foram, e o instinto, isto é, o impulso da comum natureza humana, agora decifra os seus segredos já dissolvidos na memória. Acho que é mais ou menos isso o que a Emily quis dizer.
Primeira estrofe - Na primeira tentativa que fiz ao verter a primeira estrofe, encontrei uma solução razoável para Place e Peace, mas acabei regularizando de maneira empobrecedora a sintaxe dos dois versos finais:
Depois de cem anos
Ninguém sabe o Espaço
Onde a Agonia atuou
Imóvel como a Paz
Ora, se a poeta quisesse essa dicção, ela simplesmente teria escrito algo mais direto e trivial do tipo:
After a hundred years
Nobody knows the Place
Where Agony enacted
Motionless as Peace
Por que razão, porém, ela optou por esse verso à primeira vista contorcido, com o advérbio de lugar pleonástico there?: “Agony that enacted there”. Tenho duas hipóteses não concorrentes. A primeira é que, com a sua sofisticação, a poeta quis figurar um complexo “Espaço Agonia”, que se apresentou naquele palco de maneira inerte como a Paz. A segunda hipótese é que ela quis distinguir o “Espaço” da “Agonia”, tendo essa atuado no cenário da Morte de maneira estática.
Com essas ideias na cabeça, compus nova versão, mais próxima do original:
Depois de cem anos
Ninguém sabe o Espaço
Agonia que atuou lá
Imóvel como a Paz
Algo porém me dizia que a estrofe podia ser melhorada. No quê? Depois de matutar, pimba!… achei que na transposição do verbo know, com outro de seus significados, “reconhecer”:
Depois de cem anos
Ninguém reconhece o Espaço
Agonia que atuou lá
Imóvel como a Paz
Com a noção do resgate dos campos que haviam sumido, ainda assim não fiquei completamente satisfeito. Mesmo sendo razoável a solução para a relação de “Espaço” com “Paz”, incluindo a rima frouxa (slant rhyme) “-paço – Paz”, optei pela substituição de “Espaço” por “Praça”, chegando um pouco mais perto do original. Foi o que fiz:
Depois de cem anos
Ninguém reconhece a Praça
Agonia que atuou lá
Imóvel como a Paz
Segunda estrofe - A segunda estrofe me deu uma canseira. Como vocês devem saber, a forma poética mais utilizada por Emily Dickinson é a do common meter ou hymnal stanza, característico dos cantos da igreja calvinista. Dickinson se familiarizou com os ritmos dessa forma ao frequentar em criança os cultos do sábado na companhia dos pais, de famílias da Nova Inglaterra de origem puritana.
No common meter, alternam-se versos de quatro pés (tetrâmetro iâmbico) e três pés (trímetros iâmbicos). O que interessa aqui é uma lição do poeta e tradutor Paulo Henriques Britto, para quem os versos de seis e sete sílabas dos poemas de cordel são os mais adequados para a transposição dos versos emilianos para o português brasileiro. Esses versos às vezes deslizam para oito e até nove sílabas, irregularidade muito comum também nas letras da música popular brasileira.
Por isso eu procurei, ao longo da minha versão, manter essa métrica, definindo, portanto, um limite. Outro parâmetro relevante preservado foi o das rimas, ainda que frouxas, oblíquas (slant), na segunda e na quarta linha de cada estrofe.
Reparem no verso “Weeds triumphant ranged”, que significa algo como “Ervas daninhas triunfantes se espalharam”.
Considerei que “mato” seria uma escolha melhor do que “ervas daninhas”, expressão comprida demais. Mas, se fosse manter no mesmo verso o adjetivo “triunfante” e ainda o verbo “se espalhar” ou “se espraiar”, estouraria a medida.
Até pensei em trocar “triunfante” pelo mais curto “ovante”, mas meu padrinho São Jerônimo me deu um puxão de orelha, desancando o surto patriótico no instante em que eu estava entoando o Hino da Proclamação da República: “Nosso augusto estandarte que, puro / Brilha, ovante, da Pátria no altar”! Af!
Labutei, labutei e finalmente cravei o verso “Cresceu triunfante o mato”.
O segundo verso, cheio de aliterações, me foi outro grande desafio. “Estranhos erraram e entoaram”, talvez? Além de romper o metro, achei que não deu muito grude o verbo “errar”, no sentido de perambular, vaguear. Num certo momento, achei uma síntese: “Errantes soletraram”. Os “errantes” entraram aí como peregrinos que já haviam percorrido os velhos caminhos. E o verbo “soletrar” compareceu com o sentido imediato do correspondente em inglês, da leitura letra a letra no esforço de decifração das mensagens escritas nas lápides. Por fim, fiquei com a solução “Caminhantes soletraram”.
Foi uma pena eu não ter conseguido reproduzir as sibilantes aliterações do verso Strangers strolled and spelled, mas tradução literária é assim mesmo, um jogo de perdas e ganhos.
Um desvio relax: a palavra “sibilantes” lembra os sons assoviados da letra esse ao longo desse verso, mas bem que a gente podia inventar uma falsa etimologia, atribuindo o termo à voz das sibilas, as antigas profetisas gregas e latinas, que também enfeitiçavam o freguês com seus encantamentos (spell), né!
Retomo o fio da meada: nos dois versos seguintes – At the lone Orthography/ Of the Elder Dead – enfrentei a expressão “solitária Ortografia”. Mas por que “solitária”? A “Praça Agonia” não é um cemitério com inúmeras tumbas? Optei então pela transposição mais lógica de lone com outro de seus sentidos, “retraído”, “retirado”, “esconsa”, “longe do alcance”.
A estrofe resultou assim finalmente:
Cresceu triunfante o mato
Caminhantes soletraram
A retraída Ortografia
Dos Finados Anciãos
Terceira estrofe - O maior problema da terceira estrofe estava no primeiro verso – Winds of Summer Fields (Os Ventos dos Campos de Verão). A conotação aqui é a renovação propiciada pelas lavouras semeadas nas terras amolecidas e férteis dos campos do verão. Nessa nova estação, seguinte ao inverno, os antigos caminhos se tornam mais arejados, e os instintos, isto é, os impulsos condicionados pela vivência ou pela natureza humana, despertados, se tornam capazes de decifrar a chave, ou seja, de desvelar os segredos das gerações passadas, já perdidos na memória.
Um problema: eu tenho uma pinimba com as quatro estações. Como sempre vivi no Planalto Central, jamais consegui entender fisicamente as diferenças entre a primavera, o verão, o outono e o inverno. Por aqui eu conheço apenas as duas estações verificadas nesse ângulo do planeta – as águas e a seca –, conforme registrou em 1894 o astrônomo e engenheiro belga Luís Cruls no Relatório da Comissão Exploradora do Planalto do Central.
Por esse motivo, o verão é algo meio abstrato e a expressão “Campos de Verão” pouco significa para mim. É claro que correndo ao dicionário eu sou capaz de chegar a uma compreensão intelectual dessa estação, mas prefiro traduções mais viscerais. Nesse caso específico, por sorte eu me lembrei de um poema do Patativa de Assaré, *O Poeta da Roça*, cuja primeira estrofe flui assim: “Sou fio das mata, cantô da mão grossa,/ Trabaio na roça, de inverno e de estio. / A minha chupana é tapada de barro, Só fumo cigarro de paia de mío.”
Com esse rompante ou repente na cabeça, fiz uma negociação: mantive a ideia do verão (estio), desprezei o efeito da “estrangeirização” e desse jeito resolvi em termos brasileiros – “Roças de Estio” em lugar de “Campos de Verão” – a equação do verso.
A última estrofe do poema ficou assim conformada:
Os Ventos nas Roças de Estio
Rememoram a via -
O Instinto encontra a Chave
Perdida na memória
Confissão: antes de tascar o verbo “encontrar” no terceiro verso, eu tentei o verbo “reaver” – “O Instinto reave a Chave”. Achei ótima a solução assonante, antes de descobrir decepcionado que os gramáticos não abonam essa forma desse verbo defectivo. Tudo bem, é esquisito dizer “reavo” mas por que não se pode falar ele ou ela “reave”? A razão é que “há” é a forma da terceira pessoa do presente do verbo “haver”, que gerou o verbo reaver (re-haver). Caralho!
Com a transcrição do poema inteiro da Emily Dickinson em brasileiro aí embaixo, vou encerrar este papo, ao que parece mais pernóstico que cabeça.
Peço a compreensão de todos vocês, com a esfarrapada desculpa de que as crônicas são veículos que os escribas usam para jogar conversa fora como se estivessem conversando miolo de pote com os amigos e amigas numa varanda ao cair da tarde, as andorinhas voejando arriba pra lembrar que uma só não faz verão e talecoisa.
Depois de cem anos
Ninguém reconhece a Praça
Agonia que atuou lá
Imóvel como a Paz
Cresceu triunfante o mato
Caminhantes soletraram
A retraída Ortografia
Dos Finados Anciãos
Os Ventos nas Roças de Estio
Rememoram a via -
O Instinto encontra a Chave
Perdida na memória
Criado em 2021-02-10 03:41:46