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Página 45 de 95

Use e abuse: a crônica do spray milagroso

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

A comitiva de dez pessoas liderada pelo ministro Ernesto Araújo partiu para a capital de Israel no dia 6 de março com a missão de assinar um acordo para produzir no Brasil um “spray milagroso” contra a Covid-19 sob investigação no Hospital Ichilov de Tel Aviv.

A delegação saiu cercada de mau agouro, ceticismo e gozações. Pra começar, viajou num sábado, dia de orações e não de trabalho. Que spray seria esse, ainda na primeira fase inconclusa, testado em apenas 30 pessoas?

As gozações uniam insultos à injúria, sugerindo que na composição da droga entrava água do Mar Morto, essência de goiaba da goiabeira onde Jesus trepava, lasquinhas da cruz do Calvário, pitada de sal da estátua da mulher de Ló, e até fiapos de uma meia usada pelo pai fundador Ben-Gurion.

O chanceler Araújo manteve o sangue frio, convencido de que estava sob ataque, mais um dos tantos desferidos pelo Pavoroso Movimento Comunista Globalista Mundial Internacional Alienígena (PMCGMIA).

Em Tel Aviv teve alguma dificuldade de ser recebido pelas autoridades, todas ocupadas na exitosa campanha de vacinação com o imunizante da BioNTech-Pfizer, Netanyahu no comando. Araújo ficou puto com uma oficial de chancelaria da comitiva, que, achando graça de um clipe do primeiro-ministro na televisão, perguntou se por acaso o dragão do anúncio não seria uma alusão ao jacaré do presidente Bolsonaro. No último segundo, Araújo conseguiu conter a ira, engolindo em seco a insolência, certo de que essa funcionária só podia ser outro cavalo de Troia do PMCGMIA.

As tratativas no Hospital Ichilov correram bem. A comitiva saiu de lá com um protocolo de intenções, segundo o qual a fórmula do spray receberia a licença para ser fabricado no Brasil pela Fiocruz assim que fosse aprovado pela Anvisa de Israel e, claro, pela Anvisa do Brasil.

O princípio da droga, explicou o chanceler, tinha como alvo um trecho do genoma de ácido ribonucleico do coronavírus e, por isso, seria batizado com a sigla SARNA, de “Spray Anti-RNA”.

Sabe aquela moça que fez a piada do dragão? Pois é, ela comentou assim na lata com o colega do lado: “Esse spray não vai funcionar no Brasil”!

Escrevo essas memórias no ano 2050, 29 depois do Ano do Cancelamento, quando 20% da população do País foram riscados do mapa pela Peste. A oficial de chancelaria tinha razão. O spray milagroso não funcionou porque multidões tomavam ivermectina como quem bebia Matte Leão em meados do século passado.

Criado em 2021-03-03 16:05:32

Coronavírus: As lições que deixamos de aprender

Geniberto Paiva Campos (*) –

O processo de urbanização, o convívio humano mais próximo, a interação com animais e suas mutações genéticas, a mundialização/globalização, um sistema de transporte cada vez mais eficaz, transformou o mundo numa “aldeia global”. O Homem deixou de ser caçador/coletor e se fixou à terra. E foi, gradativamente, incorporando às suas atividades diárias os avanços tecnológicos, sequer suspeitados em épocas recentes.

Desde o início do século XX, as populações voltaram a ser periodicamente assoladas por pandemias virais que têm cobrado um alto custo em vidas humanas. A mais recente foi a do coronavírus. Com início provável em 2019. E com origem na China.

Em alguns países, o impacto desse vírus teve uma evolução peculiar. E bastante complicada, com número elevado de óbitos. Sendo o Brasil um desses países. Em outros locais, independentemente de formas de governo e outras varáveis, a nova pandemia foi enfrentada com competência, visão estratégica e respeito à Ciência e ao conhecimento médico-sanitário. Em tais situações, o coronavírus foi bem controlado e a sua população pagou um preço aceitável no enfrentamento da pandemia, mesmo não dispondo, ainda, de vacinas e remédios específicos para aplicação na fase viral aguda.

Na evolução da pandemia atual, o Brasil ocupa um dos primeiros lugares, superado, apenas, pelos Estados Unidos e pela Índia, em número de pacientes infectados e de óbitos. Neste último item, estamos próximos de 150 mil mortes, aceitas com incrível naturalidade e indiferença pelos nossos atuais dirigentes. E o pior, desconhecendo, ingenuamente, a taxa de letalidade do vírus.

O desafio imposto pela pandemia está a exigir, desde o seu início, um combate inteligente e eficaz. Caso contrário, poderá se transformar num grave transtorno, com repercussões muito além da área da saúde pública. Como, aliás, já vem acontecendo em alguns setores.

A chegada do coronavírus ao Brasil foi precedida pela instalação de um governo de perfil neoliberal, de um comportamento cuja ortodoxia ultrapassa qualquer expectativa, mesmo a mais otimista dos criadores e seguidores da seita. Governo fruto de uma eleição presidencial onde a manipulação e a fraude, ambas escancaradas, exerceram papel decisivo no resultado final. Fato geralmente  ignorado (convenientemente?) por alguns intelectuais e acadêmicos, os quais preferem atribuir a atual situação do país “aos erros e omissões da Esquerda...”

O acesso de um grupo de fanáticos ao poder no Brasil, não é resultado do acaso. Trata-se de uma operação cuidadosamente planejada e executada pela liderança neoliberal, com o apoio de partidos políticos, e governos estrangeiros, que diante de seguidas derrotas eleitorais, decidiram – sem se importar com as consequências - mais uma vez, abdicar dos seus valores e compromissos democráticos. Os resultados desastrosos de mais uma aventura golpista, obedecendo aos padrões latino americanos, estão presentes no atual governo, o qual coloca o Brasil no rumo do abismo.

Estamos sob o domínio do capitalismo financeiro, segundo Edgar Morin (2011), desconectado da economia real, voltado para o interesse exclusivo dos especuladores (...) mergulhamos, enfim, prossegue Morin, no antagonismo “de um mundo desarticulado, onde se agravam ondas ideológico-político-religiosas que intensificam os ódios cegos e suscitam histerias que favorecem as guerras e as expedições punitivas.”

Foram vários os erros – elementares – cometidos pelo governo em sua forma atabalhoada de enfrentar a pandemia. Caracterizada por falsos e equivocados entendimentos, incapacidade gerencial e comportamentos erráticos, na vã tentativa de minimizar uma crise. Séria e desafiadora em todas as suas nuances. E de trágicas consequências. Foram ultrapassados os limites da irresponsabilidade.

Mas, enfim, o que se espera dos cidadãos brasileiros, conscientes da grave situação sanitária que o país atravessa? A pandemia precisa ser enfrentada, apesar do grupo de fanáticos que nos governa.  Ouçamos as orientações da nossa colega, a médica Lígia Bahia, doutora em Saúde Pública e professora da UFRJ. Ela defende alguns pontos fundamentais. É um esforço sério para “despolitizar” a pandemia e enfrentá-la com inteligência e sabedoria. E claro, humildade.

Eis as recomendações da dra. Ligia: 1. Preservar o isolamento social; 2. Não pode abrir as atividades; 3. Não está na hora de voltar às aulas; 4. Tem de usar máscara e lavar as mãos, o tempo todo; 5. Evitar transportes lotados; 6. Não andar de Uber; 7. Não ir para a rua; 8. Não vá ao shopping; 9. Se tiver que fazer compras, faça de forma muito rápida; 10. Não abusar dede pedidos de entrega em casa; 11. Se tiver que cortar o cabelo, tente fazê-lo num local aberto; 12. Não pode ir à praia; 13. Não pode beber cerveja no bar; 14. Continuar pagando as pessoas que prestam serviço e que devem continuar em casa; 15. A gente pode começar a ver parentes muito queridos: se estivermos quarentemados e os parentes também; 16. Não pode fazer reunião com 15 pessoas; 17. Não pode fazer festa de aniversário; 18. Pode ver a mãe muito idosa, porque a gente já está há muito tempo assim; 19. Pode fazer caminhadas ao ar livre.

Saiba que seguindo estas recomendações você estará se protegendo e protegendo os outros. E que venha a vacina, enfim. Lembrando que vacina não tem ideologia...  
_________________
(*) Geniberto Paiva Campos, do Instituto Sapiens. Brasília, outubro, 2020.

Criado em 2020-10-05 00:19:08

Valentina Vannicola e Nana Moraes reabrem galerias do CCJF do Rio de Janeiro

Depois de longa paralisação de suas atividades em decorrência da pandemia, o Centro Cultural Justiça Federal do Rio de Janeiro reabre as suas salas de exposição com as mostras de fotografia Valentina Vannicola (Inferno de Dante e Riviere), realizada em parceria com o Istituto Italiano di Cultura do Rio, e Nana Moraes (Ausência e Correspondência Fotográfica), com curadoria de Milton Guran.

Artes visuais, música, artes cênicas, cinema, literatura e outros segmentos da cultura, passam paulatinamente a contar de novo com uma programação presencial que ocupará um dos mais belos espaços da cidade. Localizado na Cinelândia, no Centro da cidade do Rio, e contando com salas de exposição, teatro, cinema e outros espaços, o CCJF funciona no antigo prédio do Supremo Tribunal Federal que foi totalmente reformado há vinte anos para funcionar como centro de arte e cultura.

Sua reabertura reforça também a política da nova gestão iniciada em abril de 2021 com direção geral da desembargadora Simone Schreiber, direção executiva de Daniela Pfeiffer e curadoria de artes visuais de Evandro Salles.

As exposições

  • Valentina Vannicola

A artista italiana Valentina Vannicola realiza a sua primeira mostra no Brasil. Sua obra é pertencente ao gênero da “fotografia encenada”, onde a componente literária funciona como uma pista a ser seguida, aprofundada e reinterpretada: é uma espécie de input para dar início ao processo criativo livre e pessoal que conduz a uma imagem que toma forma primeiramente em um esboço.

A imagem é então concretizada no clique final, fruto de um complexo trabalho de produção em que a autora assume o papel de roteirista, figurinista, diretora e, também, fotógrafa. Serão apresentadas no CCJF duas séries diferentes de trabalhos. A primeira com 15 fotografias e um desenho inspiradas em trechos específicos do texto do Inferno de Dante e a segunda, intitulada Riviere, com 14 fotografias que realizam uma reconstrução poética de uma história real.

O Inferno de Dante imaginado e recriado por Valentina Vannicola, é apresentado por ocasião das homenagens ao 700º aniversário da morte de Dante que ocorre em 2021. As imagens dão forma a um percurso em espiral nas quais se alternam os pecadores descritos pelo poeta no primeiro dos três cânticos, descrevendo os horrores da alma humana e seus sofrimentos. Ambientadas nos arredores de Tolfa (Roma), local de origem da artista, as fotografias foram realizadas envolvendo os próprios moradores como atores. Protagonista, no mesmo nível da ação, é a paisagem árida da maremma lacial que, com os tons infinitos de ocre, marrom, prata, bronze, dourado, confere às imagens um preciso significado emocional e conceitual.

Já Riviere é a reconstrução poética de uma história real em torno de uma ilha e seus habitantes. Seguindo uma suposta e fantasiosa visualização tida por seu avô Aquilino, a artista reconstrói um lugar imaginário que se localiza entre realidade e ficção.

  • Ausência

 Nas palavras do curador e fotógrafo Milton Guran:

“A exposição inédita Ausência – Correspondência fotográfica, é mais um produto do trabalho de Nana Moraes sobre a relação entre mães presidiarias e seus filhos, levado a efeito de 2012 a 2016 no complexo de Gericinó, em Bangu (RJ). Foram mais de 15 visitas ao presídio para entrevistas as mulheres participantes, inúmeras viagens por várias cidades para entrevistar os filhos dessas mulheres, e mais de cinquenta cartas trocadas.

Nesse trabalho, Nana pratica o que se pode chamar de “fotografia de escuta”, na medida em que ela empresta seu talento de fotógrafa às vozes das pessoas envolvidas no projeto, numa relação de compaixão e simbiose crítica, que marca definitivamente o resultado do projeto. A exposição é composta por pranchas bordadas pela autora reunindo fotos e frases. Essas pranchas integram um livro sobre o projeto, atualmente no prelo. Nas paredes, serão apresentadas imagens em grande formato, reproduzindo cartas das mães presidiárias e fotografias documentais feitas no presídio e nas residências dos filhos das presidiárias. Complementa e exposição uma projeção de um vídeo com as 40 imagens que constituem a narrativa completa dessa experiência estética e existencial pelas próprias mulheres envolvidas.”

A fotógrafa Nana Moraes é diretora do Retrato Espaço Cultural e coordenadora do Espaço Educação Valda Nogueira. Desde 2018 é coordenadora de formação do FotoRio.  Colabora há mais de trinta anos para os mercados editorial, cultural e publicitário.


___________________
Serviço:
Exposições – Valentina Vannicola (Inferno de Dante e Riviere) e Nana Moraes  (Ausência e Correspondência Fotográfica).
Abertura: 27 de outubro de 18h às 21h.
Período: de 28 de outubro de 2021 a 7 de fevereiro de 2022
Horário: de terça a domingo de 11h às 19h
Local: Centro Cultural Justiça Federal • Av. Rio Branco 241, Centro, Rio de Janeiro • https://www10.trf2.jus.br/ccjf/

 

Criado em 2021-10-24 04:06:59

A Ford alça voo do Brasil

Olívio Dutra (*) –

O desenvolvimento econômico e material com menor custo para si e maior aporte de subsídios e recursos públicos para expansão de seus negócios, norteiam o planejamento estratégico das empresas transnacionais, em especial as do setor automobilístico. A sua instalação, em um território ou país no globo, é uma decisão de mercado, avaliada por satélites e importa-se pouco com impactos sociais, econômicos, ambientais e culturais, tanto quando de sua aterrissagem como quando de sua decolagem.

Assim pretendia agir a Ford há 20 anos no Rio Grande do Sul. Encontrou resistência do Governo da Frente Popular, que se instalava, a essa lógica perversa. Orquestrou, com suas influências políticas e sua generosa conta publicitária, uma oposição insidiosa ao novo governo. Pretendia sequer prestar contas do dinheiro público já recebido. Não logrou o intento. Perdeu, inclusive, no Judiciário. O resto da história é sabido.

A Ford agora está alçando voo para outras paragens, fora do Brasil, depois de ter torcido por um novo governo federal que flexibilizasse as leis trabalhistas, previdenciárias, enfraquecesse os sindicatos, desregulamentasse normas de controle público, etc.

A estratégia é a mesma, os discursos de seus, às vezes, discretos outras nem sempre, declarados apoiadores, é que são diferentes segundo as conveniências das políticas dos governantes com os quais se alinham.

Mais um momento semelhante aquele da condenação da Ford a ressarcir o Estado do Rio Grande do Sul por quebra unilateral de contrato, para lembrar de pessoas importantes que mantiveram paciência, coesão e firmeza na sustentação da política da Frente Popular de respeito à coisa pública, ao dinheiro público e na afirmação e prática de um governo democrático, participativo e republicano sob o qual o RS se desenvolveu social e economicamente acima da média nacional do período: Miguel Rossetto, Zeca Moraes (in memoriam) e sua equipe, Paulo Torelli, Guaracy Cunha, Flávio Koutzii, Sérgio Kapron e outros(as).
______________
(*) Olívio Dutra foi governador do Rio Grande do Sul de 1999 a 2002.
Este artigo foi publicado originalmente no site Sul21.

Criado em 2021-01-13 19:12:20

Direitos Humanos em 2 minutos - Ep #10

Em 2015, o menino sírio Aylan se afogou durante a travessia com sua família pelo Mar Mediterrâneo em direção à Europa. Tornou-se símbolo da insensibilidade de países que fecham fronteiras. De acordo com a ONU, há 51,2 milhões de refugiados no mundo, fugindo de guerras e desastres naturais ocorridos em seus países. (Fonte: Imprensa Digital, 2015)

Direitos Humanos em 2 minutos (DH2) reúne artistas, realizadores e ativistas para explicar, de maneira lúdica e acessível, temas complexos como racismo, violência de gênero, justiça fiscal, migração, mobilidade urbana e mudanças climáticas, entre outros.

São 12 filmes curtos, com os atores Iara Pietricovsky e Alexandre Ribondi em cena – os dois dividem também a direção do projeto. Os textos são de Ribondi.

Foi elaborada também uma cartilha sobre direitos humanos, com os principais conceitos e legislações relativas aos temas apresentados no projeto. Esperamos que a cartilha seja uma fonte para professores, alunos e movimentos sociais interessados em discutir direitos humanos de maneira transformadora.

Saiba mais em dh2minutos.org

Criado em 2016-09-14 18:32:31

O que bascula em meu ouvido

Maria Lúcia Verdi -

Uma palavra
- basculante –
adentra a tarde
Nuvens, nuvens
e a palavra paira
bascula em meu ouvido
abre horizontal recorte

Basculante como basta
como enculare
como ascoltare
como avante

Escutar a vida
desde a breve
entrada do alto
Mínimo recorte
Não mais o escancarar de janelas,
portas, as vozes das gentes,
os sons das ruas
- apenas vagas intermitências,
o ar mínimo

Seguir pelo basculante
(restritos)
aleatórios
voos de pássaros
riscos no céu

(outras terras
outras vozes
- desejos de amplidão)

Criado em 2017-07-26 01:17:06

Alerj instala a Comissão do Impeachment de Witzel

Romário Schettino -

Rio de Janeiro – A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro instalou hoje, quinta-feira (18/6), às 13h, a Comissão Especial do Impeachment do governador Wilson Witzel (PSC). O início do processo por crime de responsabilidade, foi aprovado no dia 10 deste mês por unanimidade.

Na reunião de instalação, foi decidido que a Comissão será presidida pelo deputado Chico Machado (PSD) e terá como relator o deputado Rodrigo Bacellar (SDD/Solidariedade), amos eleitos por unanimidade.

A sessão de instalação foi presidida pelo deputado Eliomar Coelho (PSol), o mais idoso entre os que compõem o colegiado. Bacellar anunciou que vai pedir à Procuradoria Geral da República (PGR), ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), à Polícia Federal (PF) e ao Ministério Público do Estado (MPRJ) a íntegra da investigação sobre desvios na saúde, revelados nas operações Favorito e Placebo.

O deputado Waldeck Carneiro (PT), que faz parte da Comissão do Impeachment, disse ao brasiliarios.com que um “eventual afastamento do governador dependerá de quais aspectos serão levados em conta na investigação parlamentar”. São três as operações da Polícia Federal: a Favorito, a Placebo e a Mercadores do Caos. Os problemas não estão apenas na Secretaria de Saúde, estão também na Secretaria de Ciência Tecnologia.

Segundo o deputado petista, no primeiro semestre do ano passado, “Witzel cometeu crimes de incitação ao crime, quando por diversas vezes defendeu e estimulou a prática de mirar na cabecinha. Esse crime está tipificado no Código Penal”.  

“Qualquer que seja o resultado desse julgamento, Witzel ficará enfraquecido politicamente. Se continuar à frente do governo poderá se tornar um governador cassado com mandato”, diz Waldeck.

Dos 69 deputados votantes, todos foram favoráveis à abertura do processo de afastamento do governador Wilson Witzel (PSC). A decisão foi tomada na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), dia 10 de junho. O deputado Rosenverg Reis (MDB), ao ser chamado, não respondeu. Deputados do partido do governador votaram contra ele.

O pedido de impeachment contra Witzel, protocolado pelos deputados Luiz Paulo e Lucinha, ambos do PSDB, tem como base as denúncias do Ministério Público Federal que colocam o governador como suspeito de envolvimento em esquema de desvio de recursos públicos na saúde e a votação do Tribunal de Contas do Estado que recomendou pela reprovação das contas do governo referentes a 2019.

Para a deputada estadual Dani Monteiro (PSol), autora de projeto de lei que impõe transparência aos gastos públicos no Rio de Janeiro durante a pandemia, “as acusações contra o governador [Witzel] precisam ser investigadas e é essa a decisão da Assembleia Legislativa, não à toa, em decisão unânime”. Ela disse que desde o inicio de seu mandato faz oposição em sintonia com a bancada dos cinco deputados do PSol. “Somos contra a política econômica privatista e o que chamamos de necropolítica na segurança pública, aquela em que o governador autoriza a polícia a 'mirar na cabecinha', lembra a deputada.

“As denúncias de irregularidades na saúde em um momento tão crítico são avassaladoras. Há um estado de calamidade em vigor, mas isso não significa que o governo pode fazer o que bem entende sem dar satisfações à sociedade. A transparência é premente em todos os momentos, mas em uma emergência como a que estamos vivendo, os gastos e ações precisam ser explicados e Witzel terá amplo direito de defesa. É assim que podemos preservar o processo democrático, dando a ele a seriedade que tem, para que se conquiste um Rio de Janeiro socialmente mais justo e economicamente mais independente e próspero", conclui a deputada.

A sentença final, que determinará a saída ou permanência do governador, caberá a uma comissão composta por cinco deputados, cinco desembargadores e pelo presidente do Tribunal de Justiça do Rio. Antes disso, o plenário precisará aprovar a denúncia final, por 36 votos (maioria absoluta), que já acarreta no afastamento temporário de Witzel.

Caso o impeachment de Witzel seja confirmado, e é quase certo que isso ocorra, assume o vice, Cláudio Castro. Com perfil tido como "conciliador", ele era a aposta de Witzel para acalmar os ânimos de parlamentares da Alerj em meio aos atritos entre o agora ex-secretário de Desenvolvimento Econômico Lucas Tristão e o Legislativo fluminense.

Criado em 2020-06-18 04:00:40

Enfrentar a Onda antes que ela vire Tsunami

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Dias atrás eu decidi escrever um livrinho que talvez chamarei de Filosofia para o meu neto de 11 anos.

Projeto modesto, sem a pretensão de O Mundo de Sofia do Jostein Gaarder. Não quero recontar para o Zeca uma história da Filosofia Ocidental a partir das biografias de alguns pensadores emblemáticos, nem muito menos discorrer, por exemplo, sobre as especulações do Leibniz sobre as razões de Deus ter criado o melhor dos mundos possíveis, incluindo nele o Trump e o Bolsonaro, fato que parece demonstrar uma de duas possibilidades excludentes: 1) Ele não é assim tão poderoso, e portanto não é Deus; ou, se é, não é um deus de infinita bondade e misericórdia, podendo ser então o seu contrário.

A história da Filosofia o meu neto que trate de pesquisar, assim que (ou se) tomar gosto pela coisa.

Meu objetivo agora é apenas discutir a potencialidade de qualquer pessoa, com pelo menos meia dúzia de neurônios, pensar com a própria cabeça, sem ficar repetindo as teses ou antíteses da chamada doxa ou, o que dá na mesma, a opinião filosófica popular de boteco, as ideias de segunda mão, as convicções do tipo Moro, e as soluções simples para problemas complexos, erradas quase sempre, por suposto.  

Partirei da ideia geral de que as diversas correntes filosóficas, e não apenas as ocidentais, têm basicamente a preocupação de descrever o mundo de diferentes maneiras. De onde viemos, para onde vamos, qual o sentido da vida, qual é a cotação do dólar, por que o preço da gasolina está tão alto, o que é a verdade, essas perguntas tidas como clássicas desde o histórico dia em que, segundo a tradição, Tales de Mileto caiu dentro de um poço.

Tales, considerado bem antes do Olavo de Carvalho o primeiro filósofo do mundo ocidental (de occidere, cair, pôr-se – não o Tales, o Sol), explicou que olhava para o céu fazendo cogitações sobre a verdade quando tropeçou numa irregularidade da via pública e caiu na cisterna.

Em termos mais técnicos, Tales disse que a causa necessária e suficiente de sua desventura teria sido o desnível na calçada, e que seus efeitos foram o tropicão e o tombo. Disse também que o fator de risco do acidente, a greta ou paralelepípedo solto, era de responsabilidade da secretaria de obras da prefeitura de Mileto, motivo pelo qual ameaçou o prefeito com uma ação por danos físicos e morais. O prefeito contestou. Disse que talvez o fator de risco fosse de sua responsabilidade, mas que a causa do pequeno desastre foi a distração do próprio pensador, que nunca olhava por onde andava ou vice-versa. (Como se vê, a dialética acompanhou a Filosofia desde o início).

A verdade - Uma moça que passava pelo local no exato momento do acontecido registrou história bem diferente no Boletim de Ocorrência. Ela contou que desde o começo Tales procurava algo no fundo do poço, tendo caído no seu interior ao escorregar no chão molhado. Acrescentou que, conversando com outras mulheres que ali costumavam ir para abastecer seus potes, cântaros, talhas e moringas, descobriu que Tales queria encontrar nada menos do que a verdade. O maior espanto, concluiu a moça, é que ele supôs tê-la encontrado, e a prova é que desde então passou a dizer, para quem quisesse ouvir, que a água é o princípio de todas as coisas, a substância primordial do mundo. Unindo a verdade à água, Tales julgou ter demonstrado a pureza da origem do Universo. 

Pensadores muito posteriores a Tales continuaram a acreditar nessa hipótese, que influenciou, entre outros, Pôncio Pilatos, Ignaz Philipp Semmelweis, Louis de Pasteur, Joseph Lister e, claro, Noel Rosa, o filósofo da Vila, compositor de um samba que homenageia essa rica tradição epistemológica:

A verdade, meu amor, mora num poço
É Pilatos lá na Bíblia quem nos diz
Que também faleceu por ter pescoço
O autor da guilhotina de Paris

Humor - Um dos capítulos do livro que dedicarei ao meu neto tratará do humor, assunto ligado à água desde sempre, na forma de lágrima e catarro (mau humor) e apenas na forma de lágrima (bom humor), quando a gente até chora de tanto rir.

O capítulo começa com o seguinte conto à guisa de ilustração:

Enxuta, esfuziante, serelepe, a sessentona Paulucha Krislov estava meio passada. Volta e meia sumia nas andanças pela casa os óculos, as piranhinhas, o vidrinho de Rivotril e até a escova de dentes. Preocupada, arranjou uma cordinha para os óculos.

Alívio!

Lembrou que desde criança costumava trocar o anel de uma mão para outra, ou, se não, enrolava no fura-bolo um fio colorido de tricô para se lembrar de alguma obrigação inadiável.

Um dia amarrou a escova de dentes num cordão e este no cinto do roupão. Depois foi a vez da piranha, de uma caneta e do cortador de comprimidos.

Em três meses o roupão parecia um armário de ferramentas. A cada passo fazia barulhos que lembravam uma carroça com mudança de pobre. Paulucha achou que estava na hora de procurar o médico. Anotou o compromisso para o dia seguinte com batom, no espelho do banheiro.

Evocações - Não sei que impressão lhes causa essa historinha, que certamente poderá acontecer com qualquer um de nós, se, e somente se, a gente escapar da Covid-19.

A mim o conto evoca as páginas mais apaixonantes do Montaigne sobre a condição humana, reunindo a alegria contida e o êxtase das melhores conquistas e dos momentos mais sublimes à miséria das dores nos rins empedrados, do sangue esvaindo das feridas nos combates, das lágrimas derivadas de algum descontentamento.

Fico pensando também em A Cerimônia do Adeus da Simone de Beauvoir, em que ela relata os cuidados que dispensou ao Sartre já no final da vida, ele se desmanchando quase cego, sem os dentes, com incontinência urinária e os intestinos soltos por causa de remédios bravos.

O grande filósofo do existencialismo, informa Simone, não tinha, paradoxalmente, uma relação muito harmoniosa com o próprio corpo, e assim tentava se abstrair, como se fosse possível, na esfera do puro espírito ou, como ele diz, na pura subjetividade. Eis o pedaço de um diálogo sobre o tema:

Simone - Lembro-me, também, que você teve uma dor de dentes terrível, na Itália, dor que você tentava controlar através da ioga. Você dizia: basta isolá-la; a dor está presente, mas só existe a dor e isso não se espalha pelo resto do corpo.

Sartre - De fato, eu pensava que era possível quase suprimir a dor, assimilando-a à subjetividade. No fundo, a relação subjetiva de mim para comigo mesmo não devia ser muito agradável, já que eu considerava que se podia suprimir da dor seu caráter de dor, assimilando-a à subjetividade pura.

Simone - O que você está querendo dizer é que a sua presença corporal não lhe deve ser agradável, de vez que exatamente você a assimilava à dor. E quando doente você era resignado, ou impaciente ou se sentia satisfeito, no fundo, por relaxar um pouco, já que estava cansado e ficava de cama? Ou, ao contrário, sentia-se irritado por ser obrigado a ficar de cama?

Sartre - Havia de tudo. Isso dependia do período da doença.

Comédia - Para não derrubar na depressão o meu neto nem os 14 ou 15 leitores e leitoras que vão se interessar pelo meu livrinho, vou anexar algumas historinhas mais amenas, como o diálogo do juiz Maxwell (Liam Dunn), o pai de Judy (Barbra Streisand), com o oficial de Justiça (Graham Jarvis), na comédia Essa pequena é uma parada, de Peter Bognadovich:

Juiz Maxwell - você está vendo essa pílula amarela aqui?
Oficial de Justiça - Sim, senhor.
Juiz - Sabe pra que serve?
Oficial - Para quê, senhor?
Juiz - Pra me lembrar de tomar esta pílula azul!
Oficial - E a azul é para quê, senhor?
Juiz – Sei lá! Eles ficaram com medo de me contar!

Tragédia – A desgraceira que o País enfrenta necessariamente entrará no livro quando a gente chegar ao tema da Política para tratar de responder à questão sobre o melhor regime para o alcance do bem comum.

Como sair do buraco em que estamos? Como opor a Virtù (o nosso poder de fogo político potencial) à Fortuna (as circunstâncias políticas que nós herdamos)? 

Que tal discutir a adoção de uma República democrática e popular do tipo adotado pela Comuna de Paris há 150 anos, em nada parecida com o regime de tortura, racismo e cloroquina atual?

Que tal se em nossa República houvesse drástica separação da Igreja dos assuntos do Estado, admitindo-se porém a mais ampla liberdade de culto em ambientes privados?

Que tal se o Estado já não fosse um Estado na acepção tradicional com as castas burocráticas hoje penduradas nele?

Que tal se não houvesse mais patrões nem exploração de mais valia? Que tal se o trabalho deixasse de ser alienado?

E se a gente adotasse a igualdade de gênero, e acabasse com o racismo estrutural, a xenofobia, e qualquer tipo de discriminação, aliás, como já prevê a Constituição de 1988?

E se a Cultura e a Educação, em bases científicas, fossem postas ao alcance de qualquer pessoa, independentemente de idade?

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Discutir Filosofia não é discutir o sentido da nossa vida e da vida das pessoas que convivem conosco em nossa aldeia? E por acaso a Terra não é a nossa aldeia?

Vixe, parece que vai ser difícil escrever esse livro! Vou ter que desenvolver em poucas páginas um argumento sólido desde o Big Bang até o Brasil do Bolsonaro e da Damares para tentar demonstrar ao Zeca que talvez nem tudo esteja perdido, se ele, obviamente, decidir estudar a Onda de maneira filosófica, séria, antes que ela vire um Tsunami, e aí babau!

A Onda estará nas últimas páginas do livro.

Criado em 2021-03-02 14:14:19

O sonho de Glaziou

Luiz Philippe Torelly –

Uma antiga marchinha de carnaval dos anos 60 dizia assim: “Brasília não tem praia, Brasília não tem mar, mas tem o Lago do Paranoá.” Era uma resposta dos nativos adotivos ao enorme contingente de cariocas que viviam se lamuriando com saudades de Copacabana. Muitos dos mais jovens talvez pensem que o Lago sempre existiu, pois é impossível pensar Brasília sem ele, de tal sorte estão amalgamados. Igualmente muitos devem achar que se trata de mais uma das muitas invenções do criador de Brasília, Lúcio Costa, ou de seu arquiteto maior Oscar Niemeyer.

Na verdade o autor da ideia de criação do Lago Paranoá foi o engenheiro, botânico e paisagista francês Auguste François Marie Glaziou, integrante da 2ª Missão Cruls ocorrida de 1894 a 1896.

A determinação de interiorizar a capital constava da 1ª Constituição republicana de 1891. Em 1892 foi nomeado o astrônomo belga naturalizado brasileiro Luiz Cruls, para realizar o primeiro relatório de impacto ambiental que se tem notícia no Brasil, com levantamentos da fauna, flora, hidrografia, clima, relevo, geologia e estabelecer as coordenadas de demarcação do quadrilátero da nova capital, bem maior que o atual, com 14.400Km². Os trabalhos duraram até 1894, quando foi publicado o Relatório Cruls, uma proto-certidão de nascimento de Brasília. Teríamos que aguardar 60 anos para que o dispositivo constitucional se tornasse realidade e as obras tivessem início.

Glaziou veio para o Brasil em 1858 fixando-se no Rio de Janeiro, então capital do Império. Exerceu os cargos de Diretor de Parques e Jardins da Casa Imperial e Inspetor dos Jardins Municipais. Dentre seus trabalhos mais importantes e que são referências no paisagismo brasileiro, destacam-se o Passeio Público, a atual Praça da República, antigo Campo de Santana e os jardins da Quinta da Boa Vista, residência da família imperial, todos no Rio de Janeiro.

Glaziou como outros viajantes que por aqui passaram, se impressionou positivamente com o clima, a flora e a fauna, e as demais condições geográficas. Vale a pena fazer a transcrição de um pequeno trecho da carta de Glaziou, quando ele se refere a possível criação do lago:

“A todas essas riquezas oferecidas ao homem laborioso, nesse centro de planalto, juntam-se mais os recursos e a vantagem que lhe proporcionarão ainda abundantes águas piscosas. Entre os dois grandes chapadões conhecidos na localidade pelos nomes de Gama e Paranoá, existe uma imensa planície sujeita a ser coberta pelas águas da estação chuvosa: outrora era um lago devido à junção de diferentes cursos de água formando o Paranoá; o excedente desse lago, atravessando uma depressão do chapadão, acabou com o carrear dos saibros e mesmo das pedras grossas, por abrir nesse ponto uma brecha funda, de paredes quase verticais pela qual se precipitam hoje todas as águas dessas alturas. É fácil compreender que, fechando essa brecha com uma obra de arte forçosamente a água tomará ao seu lugar primitivo e formará um lago navegável em todos os sentidos, num comprimento de 20 a 25 quilômetros sobre uma largura de16 a 18.”

O Lago Paranoá já havia sido profetizado alguns anos antes, em 1883, por Dom Bosco, em seu sonho profético sobre Brasília. Glaziou, observador atento da natureza, não só constatou a viabilidade de formação do Lago, como também indicou a solução técnica que foi adotada décadas depois.

Brasília e seu lago estavam fadados a se tornar realidade. Desde o século XVIII a interiorização da capital foi preconizada para permitir uma ocupação mais racional das dimensões continentais do país. Sempre criticada desde a época do início de sua construção, não tenho dúvidas que Brasília cumpriu o papel que dela se esperava: integrar o território nacional e ocupar os enormes vazios demográficos da região centro-oeste, hoje o grande celeiro do país.

Para concluir, uma pequena estória sobre o Lago do qual foram protagonistas o presidente Juscelino Kubitscheck e Gustavo Corção, colunista de O Globo. Corção homem de ideias conservadoras sempre fora contra a construção de Brasília. Criticava-a regularmente em sua coluna. Dizia que o lago nunca encheria, pois a terra era arenosa e absorveria toda a água. Quando finalmente o lago atingiu a famosa cota mil. JK, conhecido por seu bom humor, enviou o seguinte telegrama a Corção: Encheu!

Criado em 2020-10-02 16:11:51

Diálogos sobre afetos, preconceitos e democracia no Brasil

Série de palestras online e presencial com nomes da literatura reflete sobre temas como afetos, preconceitos e democracia no Brasil. Os encontros que ocorrerão no Distrito Federal a partir de amanhã, 5/10, vão até o dia 29 de outubro.

A programação inclui debates que abordam os dilemas sociais atuais e propostas para o fortalecimento da democracia, cuidado como meio ambiente e a promoção da diversidade. Presenças confirmadas de Elisa Lucinda, Fernando Morais, Sérgio Vaz, Mario Prata, Fabrício Carpinejar, Ignácio de Loyola Brandão, Xico Sá e Renato Janine.

Os encontros presenciais ocorrerão em Taguatinga (Centro Cultural Taguaparque) e em Sobradinho (Ginásio de Esportes de Sobradinho), Distrito Federal. E serão também transmitidos online e ao vivo pelo canal do YouTube da Associação dos Amigos do Cine Cultura.

Nesta edição serão dois convidados por semana em sessões duplas realizadas num dia em Taguatinga e noutro em Sobradinho.

A entrada para as palestras é franca, mediante retirada de ingressos até uma hora antes do início. As palestras começarão sempre às 19h30, sujeitas à lotação dos espaços e observando os protocolos de segurança sanitária devido à pandemia da Covid-19. Uso de máscara é obrigatório para todo o período de permanência no evento. Para acompanhar virtualmente, basta acessar o link do canal do evento no YouTube.

Diálogos – A programação deste ano começa com a participação da poeta, jornalista, atriz e cantora Elisa Lucinda, mediada pelo poeta Hamilton Pereira. Em tempos de desinformação e negacionismo, a democracia se fragiliza e provoca reflexões sobre como combater a falsidade ideológica e os discursos de ódio.

O segundo encontro será com o cronista Ignácio de Loyola Brandão, que parte de uma reflexão sobre o momento atual da pandemia e suas implicações para o futuro, considerando o presente um tanto distópico, no qual a realidade parece carregar traços de ficção.

Apresentada por Xico Sá, a terceira palestra segue com a mesma proposta de uma reflexão para um mundo pós-pandêmico. O autor cearense parte da contextualização das grandes transformações do século 20, para a compreensão dos fenômenos atuais e futuros.

Para a mesa seguinte, o evento traz novamente o poeta, escritor e agitador cultural Sérgio Vaz. Fundador da Cooperativa Cultural da Periferia (Cooperifa) e apontado em 2009 como um dos 100 brasileiros mais influentes pela revista Época. Sérgio, conhecido como o poeta da periferia vai falar sobre “A literatura que vem da periferia”. Vaz promove um mergulho nos imaginários das periferias e das culturas marginalizadas que não estão no radar da grande mídia ou do show business.

O quinto convidado da série é o escritor e dramaturgo mineiro Mario Prata. Ele conversa com a plateia sobre o espaço social das pessoas que não são mais jovens e de como o envelhecimento gradual da população brasileira pode gerar uma população que terá uma maioria de idosos diante de uma minoria de crianças e adolescentes.

“Liberdade, neuroses e depressão em um mundo em mutação” é tema do sexto encontro de Diálogos Contemporâneos 2021. O assunto será abordado pelo premiado cronista e escritor Fabrício Carpinejar. Em sua conversa, ele trata de como os dramas individuais existencialistas são afetados pela dinâmica da globalização e pela influência das redes sociais.

A penúltima palestra dessa edição trará o ex-ministro da Educação, professor e filósofo Renato Janine Ribeiro para um diálogo sobre o desenvolvimento sustentável no Brasil, no momento crítico de devastação ao qual o país foi relegado pelo enfraquecimento de políticas públicas voltadas à proteção ao meio ambiente.

A programação se encerra com a participação do escritor e jornalista Fernando Morais, autor de best-sellers históricos como Olga e Chatô, o Rei do Brasil. Em sua palestra, Morais aborda os modos com os quais o autoritarismo cresce no País, a partir da promoção de uma guerra cultural.

Programação:

1 - A democracia, os direitos e a liberdade de expressão em tempos de fake news, negacionismo e pós-verdade.
Palestrante: ELISA LUCINDA – autora de "Coleção Amigo Oculto" (infantojuvenil), "Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada" (romance) e “Livro do Avesso, o Pensamento de Edite” (poesia).
Mediação: Hamilton Pereira.
Data: 5 e 6 de outubro
Local: Centro Cultural Taguaparque (5 de outubro) e Ginásio de Esportes de Sobradinho (6 de outubro).
Horário: 19h30

2 – Literatura, pestes, pandemias e distopias – ficção e realidade.
Palestrante: IGNÁCIO LOYOLA BRANDÃO - cronista do jornal O Estado de S. Paulo e autor de “Zero”, “O Verde Violentou o Muro", "Veia Bailarina” e "Não Verás País Nenhum". Doutor Honoris Causa pela Unesp e membro da Academia Brasileira de Letras.
Mediação: José Carlos Vieira.
Data: 7 e 8 de outubro
Local: Centro Cultural Taguaparque (7 de outubro) e Ginásio de Esportes de Sobradinho (8 de outubro).
Horário: 19h30

Xico Sá

3 – Cenários para um mundo pós-pandemia – o fim do século XX e o futuro que nos espera.
Palestrante: XICO SÁ - Escritor e jornalista, cronista do jornal “El País” e do “Diário do Nordeste”, participou dos programas “Amor e Sexo” e “Saia Justa”. Autor de dezenas de livros,
sua obra mais recente é “Crônicas para Ler em Qualquer Lugar”.
Mediação: Cristiane Sobral (Taguatinga) e Maria Clara Xavier (Sobradinho).
Data: 12 e 13 de outubro.
Local: Centro Cultural Taguaparque (12 de outubro) e Ginásio de Esportes de Sobradinho (13 de outubro)
Horário: 19h30

4 – A literatura que vem da periferia
Palestrante: SÉRGIO VAZ - Poeta e agitador cultural, autor de oito livros. Cofundador do Sarau da Cooperativa Cultural da Periferia (Cooperifa).
Mediação: Sabrina Falcão (Taguatinga) e Tamara Naiz (Sobradinho)
Data: 14 e 15 de outubro.
Local: Centro Cultural Taguaparque (14 de outubro) e Ginásio de Esportes de Sobradinho (15 de outubro).
Horário: 19h30.

5 – O envelhecimento e o espaço social dos que não são mais jovens.
Palestrante: MARIO PRATA - Escritor, dramaturgo, jornalista e cronista. Escreveu 3 mil crônicas e cerca de 80 títulos, entre romances, contos, roteiros e peças teatrais.
Mediação: Leda Gonçalves.
Data: 19 e 20 de outubro.
Local: Centro Cultural Taguaparque (19 de outubro) e Ginásio de Esportes de Sobradinho (20 de outubro)
Horário: 19h30

6 – Liberdade, neuroses e depressão em um mundo em mutação.
Palestrante: FABRÍCIO CARPINEJAR - Escritor e cronista do jornal O Tempo e comentarista do programa "Encontro com Fátima Bernardes". Autor de 47 livros, recebeu mais de 20 prêmios, sendo duas vezes o Prêmio Jabuti.
Mediação: Conceição Freitas.
Data: 21 e 22 de outubro
Local: Centro Cultural Taguaparque (21 de outubro) e Ginásio de Esportes de Sobradinho (22 de outubro)
Horário: 19h30

7 – Sustentabilidade ambiental e o Brasil no centro debate mundial.
Palestrante: RENATO JANINE RIBEIRO - Ex-ministro da Educação, filósofo, escritor e professor titular da USP. Autor de "A sociedade contra o social" (Prêmio Jabuti de 2001), "A boa política" (2017) e "Ao leitor sem medo" (1984). Atual presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Mediação: Cynara Menezes.
Data: 26 e 27 de outubro
Local: Centro Cultural Taguaparque (26 de outubro) e Ginásio de Esportes de Sobradinho (27 de outubro)
Horário: 19h30

8 – Guerra Cultural e a arquitetura da destruição - o projeto de demolição da democracia.
Palestrante: FERNANDO MORAIS - Jornalista e escritor, recebeu três vezes o Prêmio Esso e quatro vezes o Prêmio Abril de Jornalismo. É autor de "Olga", "Chatô, o Rei do Brasil", "Corações Sujos", "A Ilha" e "Os Últimos Soldados da Guerra Fria".
Mediação: Tereza Cruvinel.
Data: 28 e 29 de outubro
Local: Centro Cultural Taguaparque (28 de outubro) e Ginásio de Esportes de Sobradinho (29 de outubro)
Horário: 19h30

Fernando Morais

________________
Serviço:
DIÁLOGOS CONTEMPORÂNEOS
Locais: Centro Cultural Taguaparque, Pistão Norte, altura da QNA 56, Taguatinga (às terças e quintas); Ginásio de Esportes de Sobradinho, Q2, AE 3, Setor Esportivo de Sobradinho
(às quartas e sextas); e online pelo canal do Diálogos Contemporâneos no YouTube
Datas: de 5 a 29 de outubro de 2021, sempre de terça a sexta-feira.
Horário: 19h30
ENTRADA FRANCA.

Criado em 2021-10-04 21:45:39

FENAJ condena ataques cibernéticos e ameaças à Repórter Brasil

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) soma-se ao Sindicato dos Jornalistas de São Paulo (SJSP) no repúdio aos ataques cibernéticos, seguidos de ameaças, sofridos pela ONG Repórter Brasil neste início deste ano.

Os reiterados ataques cibernéticos tiraram, mais de uma vez, o site do ar e foram seguidos de ameaças e chantagens para a retirada de reportagens do site, compreendendo o período de 2003 a 2005. Houve ainda tentativa de invasão física da sede da Repórter Brasil.

Para a FENAJ, os ataques cibernéticos ao site da Repórter Brasil, seguidos de chantagem e ameaças, “são gravíssimos e exigem uma ação imediata, por parte das Polícias Civil e Federal, para identificação dos responsáveis”.

“É a primeira vez que temos no Brasil um ataque cibernético com objetivo assumido de censura, portanto, assumidamente um ataque à liberdade de imprensa”, diz nota.

A Fenaj e o Sindicato exigem que os responsáveis sejam investigados e que as denúncias tenham resposta à altura por parte das autoridades competentes.

Criado em 2021-01-13 18:54:59

Direitos Humanos em 2 minutos - Ep #11

Após a abolição da escravidão, o Estado brasileiro cedeu terras aos imigrantes italianos enquanto os afrodescendentes ficaram à própria sorte. Cem anos depois, a Constituição brasileira de 1988 reconheceu a necessidade de políticas reparatórias e de proteção da cultura. Nos últimos 20 anos, jovens negros passaram a ter acesso à universidade por meio de ações afirmativas. (fonte: Imprensa Digital, 2015)

Direitos Humanos em 2 minutos (DH2) reúne artistas, realizadores e ativistas para explicar, de maneira lúdica e acessível, temas complexos como racismo, violência de gênero, justiça fiscal, migração, mobilidade urbana e mudanças climáticas, entre outros.

São 12 filmes curtos, com os atores Iara Pietricovsky e Alexandre Ribondi em cena – os dois dividem também a direção do projeto. Os textos são de Ribondi.

Foi elaborada também uma cartilha sobre direitos humanos, com os principais conceitos e legislações relativas aos temas apresentados no projeto. Esperamos que a cartilha seja uma fonte para professores, alunos e movimentos sociais interessados em discutir direitos humanos de maneira transformadora.

Saiba mais em dh2minutos.org

Criado em 2016-09-14 18:42:10

Papo de índio

Maria Lúcia Verdi -

Recentemente, estava lendo “Ailton Krenak”, publicado pela Azougue Editorial, quando visitei a mostra “Dja Guata Porã, ou Rio de Janeiro indígena”, no Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR).

Seria tão importante que mostras como Dja Guata Porã fossem itinerantes pelo país! A relevância dela está em nos trazer, não apenas a informação histórica, etnológica e antropológica sobre as nações indígenas do Estado do Rio, mas, sobretudo, em estar montada como uma instalação didática que divulga uma luta que se afirma. Luta se tornou mais conhecida no Brasil e no mundo desde 1970 e, mais do que nunca, após a disseminação da internet.

O conceito de arte para os povos indígenas é distinto do nosso, para eles, arte é indissociável da vida concreta, cotidiana, permeia qualquer atividade, não é algo para ser pendurado.

A mostra expõe documentos, mapas, fotografias, vídeos, objetos e instalações sobre a arte de viver e sobreviver dessas Nações do Estado do Rio.

No Brasil, hoje, existem quase 900.000 indígenas, segundo o que aponta o Censo do IBGE de 2012, 305 etnias falantes de 274 línguas originarias.

Os movimentos e associações indígenas, bem como a Rádioweb “Yandê”, se fazem mais visíveis na vida do carioca, conforme o que ocorreu durante a ocupação da aldeia Maracanã, antigo Museu do Índio.

No Rio, atualmente, há um movimento de resistência cultural conhecido como Ressurgência da etnia Puri, sendo comovedor ouvir, na mostra em questão, os depoimentos de alguns dos poucos sobreviventes.

As nações indígenas, que tradicionalmente eram inimigas entre si, se uniram para poder encarar o Brasil.

A situação dos povos indígenas hoje é outra em relação a cinquenta anos atrás, houve crescimento populacional, seus representantes são reconhecidos em foros e instituições internacionais, mas ainda é uma minoria da sociedade brasileira que compreende a real complexidade da questão indígena e é solidária. “Eu acho que teve uma descoberta do Brasil pelos brancos em 1500 e depois uma descoberta do Brasil pelos índios na década de 1970 e 1980”. (AK).

Segundo Krenak, os índios não querem ser aculturados, querem permanecer “seres humanos”, como se chamam, mantendo tradições culturais antiquíssimas graças à educação pela oralidade.

A Mostra contém depoimentos de professores de distintas línguas e exemplares de livros bilíngues de alfabetização – existem hoje no país 3.085 escolas indígenas, com 20.238 professores e 283.300 alunos.

Querem perpetuar suas línguas, suas cosmovisões, embora saibam ser o português arma fundamental para que se relacionem com as contraditórias instituições brasileiras - “A importância de ser bilíngue e de ter liberdade para pensar é continuar uma narrativa, seja recebida nos sonhos, nos ritos, nisso que eles chamam de religião.” (A.K.)

Querem ter o direito de permanecer como são, mas não como estão, confinados ou mesmo sem terra. Aceitam a tecnologia e a informação na medida em que elas os ajudem a melhorar de vida, a usufruir, de modo respeitoso, dos frutos da natureza de suas terras.

Nós, os brancos, queremos sempre ser outra coisa, ainda que ancorados em casas e apartamentos protegidos; eles, ancorados em seus seres atemporais e luminosos, nos assustam com seu desejo de permanência.

Vêm de um passado e apontam para um futuro que desconhecemos, querem “nos educar” a cuidar da Terra para que possamos sobreviver e nós devolvemos essa atitude com desencantada ironia.
 
“Ailton Krenak” é leitura provocadora num momento em que os discursos políticos estão desacreditados. Em distintas entrevistas e textos, Ailton relata a história do movimento indígena, bem como da histórica criação da Associação dos Povos da Floresta, com os seringueiros e os ribeirinhos unidos às nações indígenas na luta pela sobrevivência de suas comunidades, por meio da atualização de conhecimentos tradicionais.



São bem-vindas as reservas extrativistas, as cooperativas,  as “mini usinas” domésticas de tratamento de produtos da terra, bem como centros de pesquisa, que devem apoiar um tipo de desenvolvimento benéfico aos povos da floresta: “...um planeta inteiro precisa de gente com o espírito inteiro, com gestos equilibrados e com um mandamento harmônico.”
 
Raízes da aventura humana, disse Ailton, e eu me pergunto por que ainda nos assustam os seres humanos que foram chamados de índios pelos portugueses.

Creio que, além dos interesses econômicos nas terras demarcadas ou por demarcar, há um temor pelo que os índios simbolizam e os civilizados perderam: a liberdade, a espontaneidade, a conexão profunda com a natureza – a qual, segundo eles, representa o sagrado – e, primordialmente, o apego ao “ser” e não ao “ter”.

Uma pequena instalação me comoveu em particular, síntese dolorosa que é: o artista colocou uma rede num cubículo mínimo onde cabe praticamente apenas uma pessoa e, dentro da rede, um álbum de fotografias de parentes indígenas com poucas fotografias, muitos espaços vazios. Só isto (foto).



A rede dependurada tem a forma de uma canoa, a canoa é uma das imagens que eles usam para falar do planeta - uma frágil canoa onde seria preciso mover-se com delicadeza e cuidado.

Outra bela imagem é a de que precisamos “segurar o céu” para que ele não caia sobre nós, como vem ocorrendo com a nossa civilização.

Segurar o céu através da conexão do corpo e da mente com a natureza em torno e com o cosmos - se nos desconectarmos, ele cai.

“O espírito do nosso povo continua podendo viajar na face das águas, no vento, na floresta, através dos pássaros, através de muitos outros elementos da natureza. E eu tenho uma inabalável fé de que enquanto a gente puder fazer isso, o novo povo vai existir. ”, diz Ailton.

Para Krenak, os nossos pensamentos podem se conectar e conectando-se podem transformar a realidade.

Podemos “entrar nos sonhos” deles, dos poderosos que comandam os destinos do planeta, “fazer confusão no cérebro deles” - quem sabe, transformar a lógica do Capital, nos perguntamos com melancólico ceticismo.

Ailton é um dos tantos líderes e mesmo sábios indígenas como Raoni, Mário Juruna, David Yanomami, Marcos Terena e tantos xamãs e pajés, que apontam numa mesma direção: agir como o arco e flecha, que é puxado para trás para poder lançar a flecha para a frente.

A mostra Dja Guata Porã e a leitura de Ailton Krenak nos fazem vislumbrar algum fio de esperança, mesmo que frágil, num futuro que, desejamos, esteja sim sendo construído: “Estou experimentando com muita frequência essa visão: tudo que eu tenho é daqui pra frente [...]

É como se daqui pra frente você tivesse a eternidade, daqui pra trás só há o que você já viu.

E daqui pra frente tem tudo que pode vir a acontecer. ”Ailton, natural da região onde ocorreu o desastre do rio Doce (Uatu para os Krenak) tem programa semanal de rádio, o Papo de índio...

Criado em 2017-07-11 17:06:10

Cineastas repudiam cancelamento do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Romário Schettino -

Um grupo de 15 entidades que congrega cineastas e trabalhadores em audiovisual no Distrito Federal divulgou hoje (8/6) uma carta de repúdio ao cancelamento do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, anunciado pelo secretário de Cultura e Economia Criativa, Bartolomeu Rodrigues.

No documento, os cineastas (veja a íntegra abaixo) dizem que a alegação de falta de dinheiro não se sustenta, já que estava previsto no Orçamento. “O GDF alega que precisou contingenciar recursos para bancar medidas emergenciais de combate à Covid-19. Por que da Secretaria de Cultura, governador? Logo da prima mais pobre dentre as secretarias?”, perguntam.

Eles ainda afirmam que “a cultura é um dos setores mais atingidos pelo distanciamento social durante o combate à pandemia e esse cancelamento vem na contramão da recente aprovação, na Câmara Federal e no Senado, da Lei Aldir Blanc, uma espécie de socorro aos profissionais do audiovisual. O GDF deveria somar nesse sentido e não remar em sentido contrário”.

A Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo (ABCV) marcou para quarta, 10/6, uma reunião de emergência para tratar do assunto.

O evento ocorreria em outubro e agora a Secretaria de Cultura deveria lançar os editais para convocar os interessados na disputa e estabelecer regras de participação. “Porém, com o orçamento contingenciado, ficamos sem um tostão furado para realizá-lo. Já comuniquei ao Grupo de Trabalho que há duas semanas se encarregou do planejamento, que infelizmente iremos cancelar o Festival”, disse Bartolomeu à imprensa.

Quem deu a notícia do cancelamento foi a jornalista Ana Maria Campos, do Correio Baziliense, na edição deste domingo (7/6). Essa triste novidade para produtores, atores, diretores e espectadores já provocou caloroso debate nas redes sociais.

Bartolomeu Rodrigues, o Bartô, disse que o motivo é que “o caixa da pasta está zerado”. Pelo que se sabe, a decisão de retirar a verba do orçamento foi do secretário de Economia, André Clemente Lara de Oliveira, que alega falta de dinheiro para o combate à pandemia.

Segundo o Correio, no orçamento da Secretaria de Cultura, havia R$ 3 milhões para o Festival de Cinema. Bartô acreditava que só gastaria metade com as despesas do evento. Mas mesmo esses recursos foram contingenciados pela Secretaria de Economia por causa do impacto da crise do novo coronavírus. “Hoje não consigo nem mesmo limpar os equipamentos públicos de uma pichação, por exemplo, porque não temos dinheiro”, acrescentou Bartô.

Como o orçamento virou fumaça, a ideia de realizar o festival de forma remota, com exibição dos filmes no drive-in, também foi desmanchada. Havia também conversas com a Netflix, Amazon, Facebook e Instagram. “Estávamos, é certo, muito animados e com possibilidade de realizarmos um festival totalmente diferenciado, instigante, inovador, fazendo jus à sua tradição”, afirmou Bartô à colunista do Correio.

Segue a íntegra da carta de repúdio ao cancelamento do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, assinada por 12 entidades do setor de audiovisual da cidade:

“Após a edição catastrófica de 2019, quando o Governo do Distrito Federal tentou censurar as manifestações no 52º Festival Brasília de Cinema Brasileiro, o evento sofre mais uma tentativa de desmonte. Alegando falta de verba para seu financiamento, o atual Secretário de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal, Bartolomeu Rodrigues, o Bartô, anunciou o cancelamento, neste ano, do Festival de Cinema de Brasília, obviamente com a anuência do Governador Ibaneis Rocha (MDB).

A alegação de falta de recursos não se sustenta, já que os mesmos foram previstos em orçamento. O GDF alega que precisou contingenciar recursos para bancar medidas emergenciais de combate à Covid-19.

Por que da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, governador? Logo da prima mais pobre dentre as secretarias de governo? A cultura é um dos setores mais atingidos pelo distanciamento social durante o combate à pandemia e esse cancelamento vem na contramão da recente aprovação, na Câmara Federal e no Senado Federal, da Lei Aldir Blanc, uma espécie de socorro aos profissionais do audiovisual. O GDF deveria somar nesse sentido e não remar em sentido contrário.

O Festival de Brasília não é bancado exclusivamente pelo GDF. Recebe apoio de várias grandes empresas via leis de incentivo, que podem ser articuladas via Secretaria. São recursos que são injetados na economia local em função do Festival Brasília. Além disso, o Festival Brasília movimenta de várias formas a economia local: atrai pessoas de fora que consomem em hotéis, bares, restaurantes, transporte, visitas turísticas, etc.

É notória a importância do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro para o Distrito Federal e para o Brasil. É o mais antigo festival do gênero e um dos poucos dedicados exclusivamente ao cinema nacional. Ocorre anualmente em Brasília, no histórico Cine Brasília.

O cinema brasileiro, os cineastas de Brasília e o público que lota anualmente o Cine Brasília durante o festival, não merecem esse cancelamento abrupto. É uma má notícia que chega em um domingo de protestos em defesa da democracia e de tristeza pelos números absurdos da Covid-19 no DF e no Brasil (nacionalmente, são mais de 700 mil pessoas atingidas e mais de 36 mil mortes).

A notícia, dada em primeira mão pelo jornal Correio Brasiliense no domingo, 7 de junho de 2020, e, sem qualquer aviso prévio às associações de profissionais do cinema e do audiovisual de Brasília, entristeceu ainda mais o domingo no Distrito Federal. Há poucos dias atrás houve uma reunião das ditas associações com o Secretário Bartolomeu Rodrigues, na qual foi pactuado que haveria o Festival e logo em seguida foi montada pelo Secretário uma comissão de trabalho para tal. Segundo representantes das referidas associações, haverá tentativas no sentido de reverter essa decisão junto ao Secretário e junto ao GDF.

Outro ponto levantado pelo movimento cultural é que a realização do festival traria dinamismo ao setor e distribuição de recursos em cachês de seleção e prêmios a serem distribuídos de forma local e nacional, ou seja, o festival poderia sim minorar o impacto da crise que atinge principalmente o mercado cultural e não contingenciar tais recursos. Os produtores culturais e cineastas afirmam ainda que estão dispostos a discutir como será o Festival de Brasília em 2020: se presencial, online ou híbrido.

Dácia Ibiapina, realizadora e professora aposentada de audiovisual da Universidade de Brasília, afirma: “O FBCB é a principal vitrine do cinema brasileiro e congrega anualmente em Brasília os filmes mais importantes e mais instigantes do cinema brasileiro com seus diretores, atores, equipes técnicas. É um festival político e não pode deixar de ser já que ocorre na capital federal. 2020 promete. Com a pandemia da Covid-19, certamente vai se discutir no Festival de Brasília 2020 os impactos da referida pandemia no cinema e no audiovisual, além das políticas públicas de fomento ao setor, ou a falta que elas fazem, durante o governo Jair Bolsonaro, marcado pelo desmonte da Ancine e do Fundo Setorial do Audiovisual. Desde 1965, quando foi criado o FBCB, ele só não aconteceu durante a ditadura militar: anos de 1972, 1973 e 1974. O sonho de todo cineasta do DF é ter um filme exibido no FBCB. Uma garantia de que o filme será visto e discutido no DF, no Brasil e até mesmo no exterior, tendo em vista que por aqui passam durante o Festival de Brasília curadores dos festivais mais importantes do Brasil e do mundo.”

O descaso com o cinema nacional se reafirma mais uma vez com a falta de articulação política por parte dos governos distrital e federal e sistemático desmonte dos espaços de interação e debates sobre o mercado audiovisual.

Em anos mais recentes, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro promove também um ambiente de mercado, onde empresas nacionais e internacionais comparecem para ver e adquirir direitos de exibição de filmes, séries e outros produtos/obras audiovisuais. O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro tem grande importância para o cinema nacional e não pode ser cancelado.

Os realizadores de todo o país estão se articulando, dentro e fora das redes sociais, para que garantir a realização da edição 2020. As nossas ações serão mais amplas e farão ainda mais barulho que as do ano passado, além de desencadear outros protestos. Afinal a história do festival se confunde com a história da cidade, não podemos deixar de realizar por falta de verba e articulação política!

O Festival de Cinema de Brasília é um patrimônio Nacional. Símbolo da Resistência do Cinema Brasileiro por décadas. Somos muitos em torno desta simbologia: público, trabalhadores, equipes técnicas, grupo de realizadores, produtores, exibidores, curadores, escritores e críticos. É necessário a nossa união em torno da realização do Festival. Chega de desmonte. Vamos transformar essa luta local em uma luta Nacional, uma luta pelo Cinema Brasileiro. O Festival de Cinema pode cumprir novamente seu papel histórico: Baluarte da Resistência contra a opressão e o desrespeito contra realizadores e trabalhadores do audiovisual”.

Assinam:
Associação Cultural FAISCA
Ceicine – Coletivo de Cinema em Ceilândia
Aspec – DF Associação dos Produtores em Economia Criativa
APAN – Associação dos Produtores Audiovisuais Negros
Cineclube Catraca
Cine Joaquim
Convergência Audiovisual
Festuni – Festival de Brasília do Cinema Universitário
Verberenas
ABCV – Associação Brasileira de Cinema e Vídeo
Movielas
API - Associação das Produtoras Independentes do Audiovisual Brasileiro
Frente Unificada
Cineclube BCE/UnB
Cinecleo

Criado em 2020-06-08 18:58:11

“Em redor do buraco tudo é beira”

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Uma das tragédias na terra de Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e Paulo Freire é o fato de grande parte do povo ter letramento deficiente e ser fraco nas contas.

Os jornais noticiaram nesta quarta-feira, 24 de fevereiro, que 95% dos estudantes terminam a escola pública sem o conhecimento adequado de Matemática.

Os dados, apurados pelo Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb), são ainda mais terríveis porque muitos desses alunos não puderam no ano passado frequentar as escolas, fechadas por causa da pandemia. Para completar a desgraça, não tiveram plena compensação nas aulas remotas.

Apenas 5% desses alunos, cursando o terceiro ano do Ensino Médio, puderam resolver problemas com dados probabilísticos ou com a aplicação do teorema de Pitágoras.

Um dos gargalos a resolver é a formação dos professores de Matemática, diz Cláudio Landim, coordenador da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas. Hoje, grande parte dos professores ensina sem dominar a matéria, diz Landim.

Como é que um país pode se desenvolver sem massa crítica suficiente, quer dizer, engenheiros, químicos, físicos, biólogos, médicos, sociólogos, técnicos em eletricidade… professores de Matemática? Não pode!

Me deu um banzo daqueles depois de ler essa notícia. Liguei pra um amigo, desolado. Desolado eu, não ele! A valência foi o meu amigo ter me animado com uma historinha. Consegui sair do buraco e alcançar a beira. Daí me lembrei de um caso do Ariano Suassuna no qual o personagem diz que “em redor do buraco tudo é beira”. Ouça o caso aqui

Gente, o Brasil está todo na beira!

Mas chega de conversa mole e vamos à historinha:

Hipotenusa Buarque de Moraes quis saber se podia enfrentar os seus vizinhos juntos, dois cadetes da Aeronáutica recém-chegados. Convidou-os para um jantar no seu apartamento, exigindo que usassem máscaras.

Os cadetes, muito quadrados, brocharam na hora do vamos ver. Eram bolsonaristas e não entendiam nada de trigonometria.

Muito chateada, Hipotenusa passou o resto da noite dobrando papel. No dia seguinte, vendeu os origamis numa plataforma online, comprou vinho e se preparou para um novo encontro com outra dupla de cadetes, dessa vez, do Corpo de Bombeiros.

Criado em 2021-02-24 21:43:59

Os dez livros que abalaram o mundo

Luiz Philippe Torelly (*) –

No hoje longínquo e lendário ano de 1968, Nelson Rockefeller, herdeiro de uma das mais ricas e predadoras famílias do mundo, veio ao Brasil em uma das clássicas visitas de “boa vizinhança” à ditadura militar. Os ventos da revolta já estavam assanhando corações e mentes. A guerra do Vietnã exibia a escalada de violência americana, despejando mais bombas do que em toda a Segunda Guerra Mundial. Os estudantes franceses convulsionavam o país e traziam consigo os operários. Naqueles dias, dois livros caíram em minhas mãos: Meu amigo Che, de Ricardo Rojo, e O Manifesto Comunista, de Marx e Engels. A fracassada aventura do Che em terras bolivianas e a luta de classes atearam, literalmente, fogo em minhas ideias.

Dias antes da chegada do magnata americano, fui ao banheiro da escola e havia um pequeno cartaz com os seguintes dizeres: “Rockefeller vem aí. Pau nele!”. Nos dias seguintes, houve protestos e passeatas por todo o país. Nossa antes movimentada e algo feérica W3 era o palco das batalhas campais com a polícia. O ano de 1968, todos sabem como terminou: edição do AI-5, acirramento da ditadura, fechamento do Congresso, prisões, tortura e morte.

A curiosidade despertada pela leitura é um novelo inesgotável, um livro puxa o outro. Nessa fiada, vieram A origem da família, da propriedade privada e do estado, de Engels, e Eros e civilização, de Herbert Marcuse. O primeiro, para mim, à época, tal qual O Manifesto Comunista, explicava tudo. Era a chave para o entendimento do mundo. O segundo, uma mistura explosiva de sexo, psicanálise, filosofia e marxismo, abria portas até então lacradas para um “calango” de Brasília. Era o mundo da chamada contracultura.

A entrada na Universidade multiplicou as leituras e interesses. Mas já havia uma “picada aberta” por onde vieram As três fontes constitutivas do Marxismo, de Lênin, dissecando as principais influências do pensamento socialista: o socialismo utópico francês, que mais tarde pude estudar com detalhes nas aulas de Teoria da História da Arquitetura e do Urbanismo; a filosofia alemã, especialmente Hegel; e a economia política britânica de Ricardo e Adam Smith. O contrato social, de Rousseau, foi muito importante para um posicionamento na linha do tempo e para a percepção dos conflitos entre os direitos individuais e os coletivos e do quanto injusta era a nossa sociedade. Deu para ver também que o caminho era mais longo e conflituoso do que eu pensava.

Fui brevemente seduzido pelas ideias anarquistas, ao ler Anarquismo: roteiro da libertação social, de Edgard Leuenroth, tipógrafo revolucionário que liderou as primeiras greves proletárias no Brasil. Um dos maiores centros de documentação dos movimentos operários, localizado na Universidade de Campinas – Unicamp, leva seu nome em homenagem à sua dedicação e pioneirismo. Por esse tempo, também tive um flerte prolongado com o trotskismo. A história da Revolução Russa, uma monumental resenha crítica daqueles dias de outubro de 1917, narrada na terceira pessoa, tornou Leon Trotsky alvo da minha admiração permanente, revivida recentemente com a leitura de O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura. A descrição da tomada do Palácio de Inverno pelos revolucionários, depois retratada por Sergei Eisenstein, é inesquecível. Além disso, a “Libelu” – tendência trotskista do movimento estudantil nos anos 1970 – tinha festas ótimas, onde as socialistas eram mais bonitas. Rumo à Estação Finlândia, do crítico americano Edmund Wilson, embora demasiado objetiva e algo desapaixonada, é uma obra essencial para quem quer estudar a História do Socialismo. Rigorosa e bem construída, ajuda a entender afinal o que é materialismo histórico e materialismo dialético.

De Babeuf, revolucionário francês guilhotinado pelo Diretório, passando por Saint-Simon, Fourier, Proudhon, Marx, finalmente chegando ao desembarque de Lênin em São Petersburgo e à Revolução Russa, a leitura desse livro foi fundamental para entender o encadeamento das ideias socialistas e como se chegou a 1917. Embora escrito no início dos anos 1940, também anunciou as origens da desagregação do socialismo “real” que ocorreria cinquenta anos depois.

Fecho esta crônica, escrita mais pela saudade do tempo em que fiz essas leituras do que qualquer outra coisa, com um dos livros mais emocionantes de todos os tempos: Os dez dias que abalaram o mundo. A epopeia do jornalista e revolucionário John Reed através da Rússia, até chegar ao epicentro da revolução comandada por Lênin, não é só uma grande obra de história e literatura, mas sobretudo uma aventura existencial e filosófica. Se tiverem que escolher um dos livros que citei para ler, escolham Os dez dias. Vocês não se arrependerão.

Caros leitores, não pensem que sou um revolucionário ou algo do gênero. Embora as ideias da juventude continuem vivas em um avô que já começou a “subir a montanha” à procura de uma visão panorâmica que ajude a entender a vida e o passar célere do tempo. Penso como Camus: “Feliz é quem foi jovem em sua juventude e feliz quem foi sábio (pretensão) em sua velhice”.

Confesso que tenho saudade de um tempo em que alguns faróis ideológicos nos eximiam da angústia das escolhas e eliminavam nossa perplexidade. Mas, ao mesmo tempo, me sinto desapegado para pensar a esmo e valorizar minha experiência. Parafraseando Ítalo Calvino, acho que trouxemos para o século XXI muitas coisas que deveríamos ter deixado no passado, a crença em um progresso perpétuo, consumo, guerra, preconceitos étnicos e religiosos, exclusão e pobreza.
_____________
(*) Luiz Philippe Torelly, autor de Os dez livros que abalaram o mundo. Drops, São Paulo, 2015.

 

Criado em 2020-09-25 19:49:28

A política como prática da liberdade

Hoje, 19 de setembro, Paulo Freire faria 100 anos. Para celebrar essa data e homenagear um dos intelectuais brasileiros mais importantes da nossa historia, o site Brasiliários publica o prefácio do livro Paulo Freire: A prática da liberdade, para além da alfabetização, do professor e pesquisador Venício Artur de Lima.

O prefácio deste livro é assinado por Juarez R. Guimarães, professor de Ciência Política e coordenador do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros, Cerbras, de Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Segundo Juarez, “o mérito exponencial, subversivo e possibilitador de uma nova compreensão do pensamento de Paulo Freire deste livro de Venício Lima, sintético e súmula de cinco décadas de pesquisa e reflexão, é o de identificar Freire como um pensador da política que se expressa na educação e na cultura”.

O livro está em fase de pré-venda na Amazon ao preço de R$ 49,80. A versão impressa, editada pela Autêntica Editora em parceria com a Fundação Perseu Abramo, estará à venda nas livrarias a partir do dia 8 de outubro.

A seguir, a íntegra do prefácio do professor Juarez Guimarães:

Os pensamentos humanistas têm um verdadeiro horror ao vício da departamentalização dos saberes e a uma certa cultura analítica que compreende a totalidade a partir da justaposição funcional dos conhecimentos especializados sobre as diferentes esferas da vida social. Nas tradições da filosofia política clássica, renascentista e moderna, o princípio da totalidade elabora as relações de mútua compenetração com as particularidades, o singular e o universal.

Não há maior equívoco do que classificar o pensamento de Paulo Freire na pasta da educação, promovendo uma ruptura ou colocando como mero fundo de inspiração a sua relação com a cultura do humanismo. Mas é assim, como “pensador da educação” que ele tem sido quase invariavelmente identificado.

O mérito exponencial, subversivo e possibilitador de uma nova compreensão do pensamento de Paulo Freire deste livro de Venício Lima, sintético e súmula de cinco décadas de pesquisa e reflexão, é o de identificar Paulo Freire como um pensador da política que se expressa na educação e na cultura. É um passo coerente, que vai além de toda uma trajetória de pesquisa: já a sua tese de doutorado, editada em 1981, trilhava o caminho da interdisciplinaridade e procurava pensar a obra de Paulo Freire a partir do campo da comunicação pública.

Esta departamentalização da recepção das obras de autores que tinham exatamente a busca de uma visão histórica da totalidade, o seu alfa e ômega, não é, decerto, um limite apenas para pensar Paulo Freire: Celso Furtado, “economista”; Antônio Candido, “crítico literário”; Florestan Fernandes, “sociólogo”; Caio Prado Jr., “historiador”; Milton Santos, “geógrafo”. Um caso clássico: Mary Woolstonecraft, a grande pensadora, fundadora do feminismo moderno e autora do clássico A Vindication of the rights of Woman, de 1792, foi, à sua época recebida como uma pensadora da educação...

O que se ganha ao pensar a obra de Paulo Freire como uma criação no interior de uma tradição política moderna, a do humanismo cívico, é nada menos do que a possibilidade de bem compreendê-lo. Esta tradição, de Rousseau a Tomas Jeferson, de Mary Woolstonecraft a Gramsci, em suas várias matrizes modernas, sempre pensou a educação no plano da política ativa na cidade, como fundamento da cidadania, como elixir da liberdade, que se quer pública, comunicativa, intersubjetiva, expressão de sujeitos autônomos que mudam o mundo.

Talvez a singular e de sentido universal contribuição de Paulo Freire a esta tradição de pensar a educação a partir da política da liberdade seja a de, inserido em um contexto periférico de opressão, radicalizá-la como uma práxis de superação de um sujeito historicamente oprimido. Encontramos já em Émile, de Rousseau, a crítica à educação que Freire chama de “bancária” (depósito de conhecimento), a formação como consciência da autonomia do sujeito que se preparara para ser cidadão. Mas Émile não é propriamente um sujeito em estado de opressão: em Paulo Freire, mais do que um exercício da formação em liberdade, a educação é umas práxis de libertação. O conflito entre opressor e oprimido está no centro do pensamento de Paulo Freire, no centro mesmo da personalidade do oprimido, e se conecta às estruturas históricas da dominação. Se não se pode ler Émile sem O contrato Social, por uma razão mais forte ainda não se pode ler Pedagogia do Oprimido sem a política da libertação de Paulo Freire.

Por isto, esta obra é visceralmente uma práxis da liberdade. A revolução paulofreireana, a radicalidade de seu pensamento que o tornou hoje objeto central de execração da cultura mais regressiva da história brasileira, desde aquela que legitimava o genocídio de índios ou a escravidão dos negros, é o de ser um verdadeiro epicentro da cultura da emancipação dos brasileiros e latino-americanos.

Neste exato sentido, este livro de Venício Lima é, ao mesmo tempo, um documento de reparação e uma moção de esperança. Porque o que pode refundar a democracia brasileira é este sentimento político radical de liberdade que sopra na obra de Paulo Freire.

Uma polêmica clássica e contemporânea

Devemos às obras de grandes historiadores eruditos do pensamento político clássico, renascentista e moderno a releitura da gênese da Modernidade, antes referida de modo antipluralista, à beira do sectário, apenas ao liberalismo. A documentação de um momento maquiaveliano nas revoluções dos séculos XVII e XVIII, a longa viagem do humanismo cívico na fertilização de culturas da emancipação contra o domínio colonial, o patriarcado, a escravidão e o racismo, levaram à incontornável identificação de um conceito de liberdade anterior ao próprio nascimento do liberalismo. Este conceito de liberdade, irmanado à ideia de igualdade, formulado a partir das noções de autonomia do cidadão e da soberania popular, está na origem das declarações de sentido universalizante dos direitos humanos na Modernidade.

Esta verdadeira revolução na consciência do passado que nos formou é, por isso mesmo, uma chave imprescindível para a compreensão dos impasses democráticos da contemporaneidade. A modernidade deixa de ser vista apenas como um desenrolar historicamente progressivo da história do liberalismo e passa ser, ela própria, um lugar, desde sempre, do conflito entre os que querem dominar e os que não querem ser dominados. A cultura da liberdade nasce deste conflito no centro da política.

Esta consciência nova do passado atualiza a presença da obra de Paulo Freire na cultura política brasileira. Não por acaso ele é o único autor brasileiro clássico, no sentido que formou uma irradiação e uma herança de ideias em movimento, que traz a liberdade e a superação de seu outro, a opressão, no título de suas obras nucleares. Em quatro sentidos, a sua concepção de liberdade é afim a este conceito de liberdade que formou as revoluções democráticas da modernidade.

Em primeiro lugar, a sua identificação com o sentido de autonomia, que a vincula à noção de igualdade estrutural: não pode ser livre aquele que está submetido a uma situação de escravidão, servidão ou dependência estrutural de um outro.

Em segundo lugar, o sentido intersubjetivo, público e dialogal da construção da liberdade. Ela não preexiste à comunidade política, não pode ser naturalizada, depende da vida pública.

Em terceiro lugar, ela reivindica o sujeito ativo, não conformado e não conformista, mas criativo e disposto à transformação do mundo como criador.

Por fim, ela só pode existir em uma cultura cívica, que institua o amor à liberdade compartilhada entre os cidadãos e cidadãs, a fraternidade. Ela demanda, pois, uma revolução cultural dos valores que antes legitimavam a opressão.

O modo como Paulo Freire se vincula a esta tradição é através do socialismo democrático. Daí o seu diálogo com Marx e com os autores humanistas do marxismo.

Uma obra de 1968

Esta perspectiva política da obra de Paulo Freire permite melhor situá-la em seu contexto de criação: ela é atravessada pela imaginação libertária de 1968. Pedagogia do Oprimido, identificado como uma espécie de ponto elevado a partir do qual se pode perscrutar toda a obra freireana, é um livro todo ele escrito em fogo e liberdade. Queima nas mãos do leitor. Escrito desde o Chile, parece sair mesmo das barricadas de 1968.

É muito feliz, neste sentido, o segundo capítulo deste livro ao trazer à tona os modos de presença de Frantz Fanon na obra de Freire. A conjuntura de 1968 ligou a luta pela liberdade nos países capitalistas centrais, contra os regimes burocráticos do Leste Europeu e as lutas anticoloniais. Paulo Freire escreve sobre a liberdade em meio ao subdesenvolvimento, ali onde a colonização e suas permanências exerce sobre o oprimido sua potência de desumanização. A moção de Fanon, que reivindica a legitimidade do uso da violência contra o colonizador e seus necropoderes, é recepcionada pela cultura da emancipação de Freire como uma contraviolência, como uma reação a uma violência de origem e estrutural.

Se 1968 marcou o dramático e feliz reencontro das esquerdas no século XX com o fundamento da liberdade, após décadas de dominância do estalinismo, o livro de Paulo Freire é o grande documento na história intelectual dos brasileiros do reencontro de um pensador com Marx livre, fora dos dogmas e pensado a partir da emancipação. Todo o livro é vazado pelas referências e diálogos com as tradições humanistas da leitura de Marx, inspirando-se, mas indo muito além das reflexões dos cristãos brasileiros iniciadas no fim dos anos 1950 pelo jesuíta e eminente filósofo Henrique de Lima Vaz.

No centro do livro, como se fosse uma âncora, o terceiro aforisma das chamadas “Teses sobre Feuerbach”, de Marx, que Freire cita na nota 15:

A doutrina materialista sobre a modificação das circunstâncias e da educação esquece que as circunstâncias são modificadas pelos homens e que o próprio educador tem de ser educado. Ela tem, por isto, de dividir a sociedade em suas partes – a primeira das quais está colocada acima da sociedade. A coincidência entre a alteração das circunstâncias e a atividade ou automodificação humanas só pode ser apreendida e racionalmente entendida como prática revolucionária. (Pedagogia do Oprimido, 1968)

Esta tese, para ser melhor compreendida, deve ser pensada como uma crítica ao dilema da cultura do Iluminismo – educar os homens para mudar as circunstâncias ou mudar as circunstâncias para educar o homem? – e às teses socialistas autoritárias ou substitucionistas. A síntese está escrita em letras garrafais em Pedagogia do Oprimido: “Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão.” A coincidência entre o ato da mudança e a mudança do sujeito faz toda a fortuna da obra de Freire.

Paulo Freire, em documento quase perdido e que Venício Lima, que o recebeu do autor manuscrito, publica nesta edição, afirma a pedagogia da revolução, a função pedagógica do partido da transformação, ele próprio transformado no processo de libertação. A sua obra é, neste sentido, uma grande moção de fundação de um socialismo democrático em um período de profundo impasse das vanguardas e da própria história da matriz histórica dominante do marxismo no Brasil, que havia cindido tragicamente socialismo e liberdade.

Paulo Freire e o pensamento político brasileiro

A relação entre educação e democracia é certamente um dos temas mais ricos e constituidores das tradições do pensamento brasileiro que buscaram um caminho para romper os impasses da formação. Esta relação esteve no centro do pensamento liberal de Rui Barbosa – formulando um progressivismo capacitário de inclusão progressiva dos pobres e negros na ordem política –; do pensamento republicano democrático de Manoel Bomfim – a universalização da educação como modo de constituir a soberania popular e, depois, a necessidade de uma revolução para produzir a reforma almejada da educação –; dos pensamentos desenvolvimentistas – que concebiam a educação como fundamento do progresso soberano e autônomo do país –; das utopias antropológicas e civilizatórias de Darcy Ribeiro – a educação pública como expressão mesma de nossa singularidade como civilização multiétnica.

Paulo Freire dissolve o impasse entre reforma e revolução através da educação como prática da liberdade, isto é, diferenciando a “educação sistemática” após a revolução do “trabalho educativo” que a precede. Ao exaltar o sentido pedagógico da política que se quer libertadora, ao propor uma dialética entre mestre e aluno, entre vanguarda e povo, o que Paulo Freire está fazendo é assentar os fundamentos de um pensamento e de uma perspectiva socialista democrática. Está, pois, fundando ou refundando esta tradição no pensamento político brasileiro, dando corpo a ela, abrindo um caminho para sua formação.

“Não há palavra verdadeira que não seja práxis”, diz Paulo Freire. Romper a dura crosta da cultura do silêncio, formar o direito público de voz, construir com quem nunca pôde falar e ser ouvido a plena expressão e possibilidade de formar o poder, a soberania popular é uma democracia radical, nos fala a obra da vida inteira de Venício Lima.

Venício e Freire

Há, decerto, uma diferença fundamental entre cultuar, fazer o culto, de um autor e cultivar um autor, apropriar-se de suas conquistas e desenvolvê-las criticamente. É desta ordem, a de uma dialogação crítica, que está a relação de cinco décadas de Venício com a obra de Freire e que este livro condensa e atualiza.

O conceito que sintetiza toda a obra de Venício, referência incontornável para quem pretende estudar os dilemas históricos da formação de uma opinião pública democrática no Brasil, e que dialoga com o centro mesmo das teorias freireanas é o de cultura do silêncio. Pois o oprimido começa a superar a sua condição na medida mesmo em que é capaz de falar de si em sua própria linguagem – “não há palavra verdadeira que não seja práxis” –, de biografar-se em uma narrativa de sentido, humanizando-se através do diálogo com o seu mundo e o mundo dos outros. A opressão é um roubo da fala, um silenciamento de voz, “uma estrutura constituinte de mutismo”. A obra de Venício é a crítica da permanência desta “estrutura constituinte de mutismo” na democracia brasileira pós-constituinte de 1988.

A sua pesquisa sobre este conceito, levou-o, necessariamente, ao caminho de sua historicização, das origens da sociedade colonial, da formação do Estado nacional, do Império à República, dos vários regimes da república, da ditadura ao processo de redemocratização: a longa continuidade das estruturas institucionais de silenciamento dos povos indígenas, dos negros, dos trabalhadores, das mulheres, dos camponeses em meio a seus esforços, sempre reprimidos, de fazer emergir as suas vozes livres.

É possível e necessário, pois, escrever a história da formação do Brasil a partir da cultura do silenciamento, nas suas formas coloniais, modernas e contemporâneas. É este o sentido inscrito de classicização da obra do próprio Venício. Pois nenhum outro clássico da formação do Brasil trouxe ao centro da narrativa o direito dos brasileiros, o seu direito inalienável, como cidadãos e cidadãs, a falarem em democracia e pluralismo através de sua própria voz.

“Falar, por exemplo, em democracia e silenciar o povo é uma farsa”, afirma Paulo Freire em Pedagogia do Oprimido. A frase é tipicamente, no sentido autoral, de Venício Lima, no sentido de ser expressiva do seu trabalho crítico sobre a separação entre o direito de voto e o direito de voz na democracia liberal brasileira.

A cultura do silêncio é o par de oposição à educação e à política como dialogicidade que propõe Freire, como bom humanista, que não separa a isonomia da isegoria. A obra de Venício, ao dar um estatuto conceitual e uma documentação histórica à cultura do silêncio, ilumina com luz própria a obra freireana.

Ouro Preto, Inverno de 2021.
______________
O pdf do livro do Venício A. de Lima está disponível no site da Perseu Abrano – leia aqui

Criado em 2021-09-19 16:27:00

PT decide apoiar Baleia Rossi para a presidência da Câmara

Em nota oficial, o Partido dos Trabalhadores anuncia seus compromissos para a eleição da Mesa Diretora da Câmara dos Deputados e define apoio ao candidato Baleia Rossi.

A bancada do PT na Câmara deliberou na tarde de hoje (4/1), por 27 votos a favor, 23 contra, uma ausência e uma abstenção (a deputada Luisiane Lins não votou porque está de licença), que vai apoiar já no primeiro turno o candidato do bloco formado por 11 partidos políticos, deputado Baleia Rossi (MDB-SP), a partir de compromissos firmados pelo candidato com os partidos de oposição (PT, PSB, PDT, PCdoB), em defesa da democracia, da independência do Poder Legislativo e de uma agenda legislativa que contemple direitos essenciais da população. Decisão apertada, divide a bancada, mas não deixa de ser a mais correta.

Dentre os compromissos listados, estão:

1 - Lutar pelos direitos do povo brasileiro, pautando projetos que garantam efetivamente o direito à vida e à saúde, por meio do adequado enfrentamento da pandemia do novo coronavírus, garantindo:

2 - O acesso universal à vacina;

3 - A renda emergencial e/ou a ampliação do Bolsa Família;

4 - A geração de emprego e o fim do arrocho salarial;

5 - A segurança alimentar, com apoio à agricultura familiar e assentamentos da Reforma Agrária, garantido comida barata ao povo.

6 - Tributos sobre a renda dos mais ricos;

7 - Defesa dos direitos das classes trabalhadoras, com liberdade para organização e modernização de entidades sindicais.

O documento divulgado à imprensa afirma ainda que “os compromissos apresentados ao candidato Baleia Rossi pelas bancadas do PT e dos demais partidos de oposição têm o sentido de enfrentar a agenda de retrocessos pautada pelo governo de extrema-direita no campo dos direitos humanos e dos direitos constitucionais, e em defesa do estado democrático de direito e da soberania nacional.”

Dessa forma, o PT “entende que esta aliança é necessária para derrotar as pretensões de Jair Bolsonaro de controlar a Câmara dos Deputados e, neste sentido, destacamos o compromisso de que serão utilizados todos os instrumentos do Poder Legislativo, como a instalação de CPIs, a convocação de autoridades, a edição de decretos legislativos, o exame e resposta institucional a todos os crimes praticados por autoridades do executivo, inclusive o presidente da República.”

A nota, assinada pela presidente do PT, Gleisi Hoffman, e pelo líder do partido na Câmara, Ênio Verri, deixa claro que a aliança com partidos com os quais diverge ideológica e politicamente, “se dá exclusivamente em torno da eleição da Mesa Diretora da Câmara, não se estendendo a qualquer outro tipo de entendimento, muito menos às eleições presidenciais.”

“O PT continuará lutando, dentro e fora do parlamento, pela soberania nacional, contra as privatizações de empresas estratégicas ao desenvolvimento, contra a agenda neoliberal que compromete o presente e o futuro do país, em defesa dos direitos dos trabalhadores, pelo impeachment de Jair Bolsonaro e pelo resgate dos direitos políticos e cidadãos do ex-presidente Lula”, conclui a nota.

Confira o voto de cada parlamentar petista:

Pelo apoio ao deputado Baleia Rossi no primeiro turno:

Airton Faleiro
Alencar Santana Braga
Alexandre Padilha
Benedita da Silva
Beto Faro
Carlos Veras
Carlos Zaratini
Enio Verri
Erika Kokai
Gleisi Hoffmann
João Daniel
José Airton Félix Cirilo
José Guimarães
Leo de Brito
Leonardo Monteiro
Marília Arraes
Merlong Solano
Nilto Tatto
Patrus Ananias
Paulão
Paulo Guedes
Paulo Pimenta
Professora Rosa Neide
Rejane Dias
Rubens Otoni
Valmir Assunção
Vicentinho

Por uma candidatura própria e de esquerda:

Afonso Florense
Arlindo Chinaglia
Bohn Gass
Célio Moura
Frei Anastacio Ribeiro
Helder Salomão
Henrique Fontana
Jorge Solla
José Ricardo
Joseildo Ramos
Marcon
Maria do Rosário
Natália Bonavides
Odair Cunha
Padre João
Paulo Teixeira
Pedro Uczai
Reginaldo Lopes
Rogério Correia
Rui Falcão
Waldenor Pereira
Zé Carlos
Zeca Dirceu

Abstenção:
Zé Neto

Ausente:
Vander Loubet

OBS: a deputada Luizianne Lins está de licença da Câmara Federal

Criado em 2021-01-05 01:40:24

Direitos Humanos em 2 minutos - Ep #12

A cada dois dias uma mulher morre por complicações decorrentes do aborto clandestino no Brasil. A maioria delas é negra e pobre. Entre as mulheres brasileiras, de todas as classes sociais, que já realizaram pelo menos 1 aborto, 81% já tem filhos, 88% tem religião e 64% são casadas. (fontes: Organização Mundial da Saúde- OMS e Pesquisa Nacional do Aborto, 2010).

Direitos Humanos em 2 minutos (DH2) reúne artistas, realizadores e ativistas para explicar, de maneira lúdica e acessível, temas complexos como racismo, violência de gênero, justiça fiscal, migração, mobilidade urbana e mudanças climáticas, entre outros.

São 12 filmes curtos, com os atores Iara Pietricovsky e Alexandre Ribondi em cena – os dois dividem também a direção do projeto. Os textos são de Ribondi.

Foi elaborada também uma cartilha sobre direitos humanos, com os principais conceitos e legislações relativas aos temas apresentados no projeto. Esperamos que a cartilha seja uma fonte para professores, alunos e movimentos sociais interessados em discutir direitos humanos de maneira transformadora.

Saiba mais em dh2minutos.org

Criado em 2016-09-14 19:30:18

Jardim Botânico do Rio - o mesmo que é sempre novo

Maria Lúcia Verdi -

“Eu ia ao Jardim Botânico para quê? Só para olhar. Só para ver. Só para sentir. Só para viver. [...] Lá a vida verde era larga. Eu não via ali nenhuma avareza: tudo se dava por inteiro ao vento, no ar, à vida, tudo se erguia em direção ao céu. E mais: dava também o seu mistério.” (Clarice Lispector)

Volto  mais uma vez ao Jardim Botânico. Nunca me canso do mesmo que há por lá. Paro frente ao reflexo da foto de Jobim no vidro - sua letra, seu amor por um espaço do Rio que se mantém como oásis numa cidade que tenta, com enorme dificuldade, resistir à devastação que já acabou com o Estado.


No espaço Tom Jobim a Sumaúma, a maior árvore da Amazônia ali, na nossa frente - espanto que se repete frente a essa alucinada vontade de céu. Em alguns bancos, que formam o Espaço Clarice Lispector, frases de sua crônica “O ato gratuito”, a fuga vespertina para o Jardim que a liberava. Sinfonia de árvores e plantas do planeta. Transfigurações.


A força do Pau-Brasil, a primeira riqueza expatriada. Os nomes dos que plantaram as árvores resistindo no metal. Dom João VI, silencioso, protegido da vida lá de fora, talvez intua o que o tempo fez com a cidade – afinal, as pessoas falam e falam das mazelas da cidade, do estado, do país, do mundo e.... quem sabe afirmar o limite da escuta?


Finalizada a restauração das obras de Mestre Valentim, Eco, Narciso e as Aves Pernaltas agora dispõem de um melhor espaço. As aves pernaltas como as que vi na China, sobretudo as da Cidade Proibida. Ecos, repetições, correspondências, reencontros - matérias da vida. Por todos os lados reflexos, desdobramentos, continuidades, quedas do olhar em um outro tempo.


Na janela do casarão colonial, a montanha refletida – a beleza do que enquadro e a tristeza da situação das ex-colônias. Respiro, tento apenas olhar.


As Ninfeias, possíveis parentes dos Lótus orientais, parecem mais frágeis, mas tem a mesma explosão de cor, em frente a elas as Vitórias-Régias. Os bambus também ecoam a Ásia - o som dos bambus com o vento, as curvaturas de que são capazes. Como aprendi, um mundo pode ser construído com bambus, resistentes e flexíveis como deveríamos ser. A Ásia que enviou, a pedido de Dom João, 51 chineses para que tivéssemos aqui a delicadeza do chá. Aqui, no Brasil distante, o mesmo sofrimento do trabalho semiescravo.


O desenho da árvore como torre contra o céu. Vontade de céu nas pequenas esculturas vegetais como miniaturas de montanhas - o mínimo e o máximo, em cada um, um vôo. Como são possíveis, meu deus\Deus, tais formações, tais delicadezas?


Mas no Jardim também há sugestões de queda, entradas para algum Hades vegetal. A minha mente não mente. Às vezes peço que minta, mas ela é firme. Detalhista, me olha, esparrama o olhar e me diz: respira.


Nas manchas dos troncos, abstrações e devaneios. Nas formações das lianas, nas geometrias de certos galhos, esculturas contemporâneas, ecos de Tunga. Naquilo que cai pelo chão, inesperadas composições, instalações naturais.

No Jardim Botânico se congela por um pouco a angústia do tempo, do tempo em que vivemos. Precisamos deste pouco.

Criado em 2017-07-02 17:57:05

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