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Com Samira Pádua (*) -
O Serviço de Limpeza Urbana do DF (SLU) pretende colocar em funcionamento o aterro que fica entre Samambaia e Ceilândia (na DF-180) ainda em janeiro de 2017. Catadores serão selecionados para ser agentes da cidadania ambiental. Esse é o início do fim do Lixão da Estrutural, o maior da América Latina e uma ameaça ao meio ambiente.
A licença do Instituto Brasília Ambiental (Ibram) foi entregue ao Serviço de Limpeza Urbana (SLU) no dia 12 de dezembro e atesta que o local tem todas as condições ambientais previstas e está preparado para receber materiais não reutilizáveis. O documento tem validade de cinco anos.
A diretora-presidente do SLU, Kátia Campos, explica a importância dessa licença: “Ela indica que todas as condições ambientais previstas foram cumpridas e que o aterro está preparado para receber os rejeitos do tratamento dos resíduos”. Inicialmente, serão depositadas no local cerca de 900 toneladas por dia de rejeitos.
Nos próximos dias, a permissão deve ser publicada no Diário Oficial do DF e em periódico de grande circulação, para dar publicidade ao fato. “Licenciar o aterro é contribuir diretamente para que a destinação de resíduos ocorra de maneira correta”, avalia a presidente do Ibram, Jane Vilas Bôas.
O aterro terá 760 mil metros quadrados — dos quais 320 mil destinados a receber rejeitos (materiais não reutilizáveis) — e será construído em quatro etapas. A primeira tem 110 mil metros quadrados, divididos em quatro células de aterramento. A conclusão de apenas uma célula é suficiente para ativar o aterro.
A parte operacional da etapa 1 está pronta. “Estamos agora fazendo alguns acabamentos internos nas edificações”, detalha Kátia Campos. “A prioridade agora é a bolsa para os catadores [que forem selecionados para ser agentes de cidadania ambiental], e, passada essa etapa, devemos iniciar a operação do aterro já em janeiro”, adianta a diretora-presidente do SLU.
Catadores serão selecionados para se tornar agentes de cidadania ambiental Os catadores de material reciclável da Estrutural podem se candidatar a ser agentes de cidadania ambiental.
São 900 vagas, e os aprovados no processo seletivo atuarão como multiplicadores de informações voltadas à gestão e à educação ambiental e sustentável.
Somente poderá participar e ser selecionada uma pessoa por família. Os agentes receberão bolsa mensal de R$ 300. Os recursos vêm do fundo de assistência social da Secretaria do Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos.
De acordo com a Portaria nº 185, de 1º de dezembro de 2016, que regulamenta o Programa Agentes de Cidadania Ambiental — Inclusão ao Mundo do Trabalho na Área Ambiental, o catador tem de dispor de 12 horas mensais para participar de oficinas de capacitação e de mobilização comunitária para difundir boas práticas de separação de resíduos domésticos, com o intuito de criar condições mais favoráveis à coleta seletiva.
Para se candidatar é preciso ser catador de material reciclável e exercer essa atividade como principal ocupação para manter a família, ter no mínimo 18 anos e no máximo 65 anos, e morar na Estrutural. Além disso, é necessário estar inscrito no cadastro único para programas sociais do governo federal, o CadÚnico, e ter renda mensal per capita de até dois salários mínimos ou renda familiar mensal de até seis salários mínimos.
As inscrições devem ser feitas pessoalmente, no Centro de Referência de Assistência Social (Cras) da Estrutural (Quadra 5, Área Especial 2, Setor Oeste), das 8 às 18 horas. Os interessados precisam preencher a ficha de inscrição que está no edital e apresentar os seguintes documentos: original e cópia do RG, do CPF e do comprovante de renda (ou declaração de próprio punho); cópia de comprovante de residência (ou declaração de próprio punho); e declaração de que dispõe de 12 horas mensais para as atividades de mobilização, de segunda-feira a sábado, em horário comercial.
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(*) Samira Pádua é da Agência Brasília.
Criado em 2016-12-15 12:47:25
O Museu de Arte do Rio (MAR) retoma a sua programação musical no mês de março. O cantor Diogo Nogueira abre a temporada com o show Eu, Violões e Canções, amanhã, sexta-feira, às 19h30. O DJ Bieta inicia sua apresentação às 18h30 e vai até 22h. Entrada gratuita, com retirada dos ingressos na bilheteria a partir das 10h30 às 17h. Sujeito a lotação.
Diogo Nogueira estará acompanhado dos músicos Rogério Caetano (violão de 7 cordas) e Rafael dos Anjos (violão de 6 cordas), numa combinação única, cantando algumas das mais emblemáticas músicas do cancioneiro popular brasileiro.
Eles vão fazer um passeio pelo repertório brasileiro contemporâneo, histórico e moderno. No roteiro, “O Mundo é Um Moinho” (Cartola), “Minha Missão” e “Espelho” (ambas de João Nogueira/Paulo Cesar Pinheiro), “Rosa” (Otávio de Souza/Pixinguinha), “Como uma Onda” (Lulu Santos/Nelson Motta), “Violão Vadio” (Baden Powell/Paulo Cesar Pinheiro), “Evidências” (José Augusto/Paulo Sergio Valle), “Canta, Brasil” (Alcir Pires Vermelho/David Nasser), “Estrela” (Gilberto Gil), “Você é Linda” (Caetano Veloso) e “Tocando em Frente” (Almir Sater), entre outras, mostrando as diversas referências que o formaram.
“Cada edição do Mar de Música de 2022 será realizada com um tema de interesse público capaz de envolver, sensibilizar e mobilizar para causas sociais. No mês de março a primeira campanha será em benefício das vítimas da tragédia de Petrópolis, por meio da arrecadação voluntária de alimentos não perecíveis. A doação poderá ser entregue no ato da retirada do ingresso. A segunda campanha será no show de Letrux (25/3). Em apoio às mulheres em situação de vulnerabilidade social, será feita uma mobilização para doação de itens de higiene pessoal e beleza. Os itens serão destinados a instituições que cuidam de mulheres em situação de rua”, dizem seus organizadores.
Curadora
A jornalista, apresentadora, roteirista e pesquisadora musical Fabiane Pereira é a curadora das edições de 2022. Ela também apresenta o programa de rádio Faro, que tem como premissa a democratização do espaço radiofônico.
Fabiane é apresentadora e idealizadora do Papo de Música, um dos raros canais de entrevistas no Youtube que tem a Música como protagonista. Fabiane levou o prêmio de melhor jornalista de música do ano pelo WME Awards, em 2019 e 2021.
No dia 25 de março, como parte das comemorações do Mês das Mulheres, a cantora, compositora, poeta e atriz Letrux, comanda o projeto com o show Letrux Redux. Um dos nomes de maior destaque no cenário da música independente contemporânea, a artista vai apresentar no repertório, músicas dos dois álbuns lançados em seu projeto solo: o superpremiado Em Noite de Climão e o recente Aos Prantos.
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Serviço:
MAR de Música
Local: Museu de Arte do Rio - Praça Mauá, 5, Centro
Dia: 11 de março
Horário: das 18h30 às 22h00
18h30 - DJ Bieta
19h30 - Diogo Nogueira - “Eu, Violões e Canções”
Preço: Gratuito. (A retirada dos ingressos será feita na bilheteria do MAR a partir de quarta (09/03), das 10h30 às 17h. Sujeito a lotação).
Criado em 2022-03-10 16:47:13
Dioclécio Luz –
Na sexta-feira, dia 23 de abril, ao discursar na Cúpula dos líderes sobre o clima, o presidente Jair Bolsonaro anunciou que até 2030 acabaria com o desmatamento ilegal no Brasil. Também disse que sua meta é neutralizar as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) até 2050. Só uns poucos jornalistas questionaram essas promessas que, como se sabe, não têm nada de concreto. Afinal, isso está muito longe da alçada desse presidente do Brasil.
Talvez a razão para a fé desse jornalismo na autoridade esteja no departamento comercial da empresa. Talvez as finanças estejam determinando a linha editorial desses que fazem a notícia. Uma questão ética?
O leitor/telespectador talvez se surpreenda ao saber que o jornalismo tem alguns princípios – éticos, inclusive. Sim, há um código de ética para a sua prática. O artigo 12, por exemplo, estabelece que o leitor/telespectador não pode ser levado a confundir publicidade com matéria jornalística. O que é propaganda não é jornalismo. O que intencionalmente o “jornalismo” omite ou manipula não é mais jornalismo.
O departamento comercial está influenciando o jornalismo quando a entrada de dinheiro no caixa provoca mudanças na linha editorial. Vale o conselho de Bob Woodward sobre o caso Watergate: “follow the money” (siga o dinheiro). O leitor/telespectador deveria pensar nisso. Talvez ele esteja consumindo outra coisa que não é jornalismo.
A questão vem a propósito do dinheiro que o governo de Jair Bolsonaro despejou nos veículos de comunicação com a campanha de vacinação contra a Covid-19. Intitulada “Brasil imunizado, somos uma só nação”, ela foi veiculada de 16 de março a 6 de abril deste ano. A Lei de Acesso à Informação permitiu saber que nesses 20 dias, o governo gastou R$ 17,8 milhões para promover a campanha em jornais, novelas, humorísticos, filmes exibidos na TV, nos programas que fazem o “jornalismo de sangue” (ou “programas policiais”), reality show (Big Brother Brasil), “revistas eletrônicas” (Fantástico e Domingo Espetacular) e até programas que tratam da criação de cachorros e gatos (Encantadores de pets, na Band).
A TV Globo da família Marinho, como sempre, levou a maior parte da bolada: R$ 4 milhões. Em seguida, veio a TV Record de Edir Macedo, R$ 3,9 milhões. Em terceiro lugar o SBT de Sílvio Santos, que recebeu R$ 3,8 milhões. Isso mostra que televisão brasileira é o melhor negócio do mundo.
Qual a empresa fatura R$ 4 milhões em 20 dias de serviço?! E é apenas uma parcela do que a empresa fatura no período, vendendo um espaço medido em segundos. O cidadão que, com razão, reclama dos salários e vantagens recebidas pelos políticos, também deveria questionar o quanto essas empresas – concessões públicas! - pegam de recursos públicos e de uma pancada só.
O quadro abaixo mostra o quanto cada rede de televisão recebeu de recursos públicos nessa campanha:
BAND..........................R$ 1.009.798,70
GLOBO........................R$ 4.069.610,00
RECORD.......................R$ 3.906.210,00
REDE TV......................R$ 700.447,68
SBT.............................R$ 3.854.644,00
TV BRASIL................... R$ 176.840,13
TV A CRÍTICA.............. R$ 221.633,10
TV AMAZON SAT..........R$ 46.318,33
(Fonte: Ministério da Saúde/SGPR, Lei de acesso à informação, 26/04/2021).
A campanha foi uma criação da agencia Nova/SB e custou R$ 941 mil aos cofres públicos. Ela focou no público da TV aberta e foi veiculada nos programas de maior audiência; mas pela lista dos programas dá para notar as boas relações que seus apresentadores têm com o presidente.
A Record de Edir Macedo, líder da igreja Universal, é aliada de primeira hora do presidente. Idem Sílvio Santos - o dono do SBT costuma apoiar generais quando promovem golpes e capitães que anunciam golpes. A Globo, que historicamente apoiou golpes, critica politicamente Bolsonaro mas apoia as reformas que agradam as elites nacionais, como essas que Guedes está promovendo.
O governo pagou mais de meio milhão de reais somente para três programas de sangue da TV aberta. Cidade Alerta (Record), com Luiz Bacci, levou a maior parte da grana, quase R$ 395 mil. O programa de Luiz Datena, Brasil Urgente (TV Band), ganhou R$ 110 mil. Por fim, Sikêra Junior, com Alerta Nacional (REDETV), recebeu R$ 65 mil.
A preferência por esse tipo de programa tem a ver com a boa audiência, o seu estilo popularesco e, principalmente, por fazer a promoção da violência e das ações policiais, tão ao gosto de Bolsonaro e família. Os três apresentadores apoiam o presidente. Luiz Bacci festejou nas redes quando Bolsonaro foi eleito e, tal qual Bolsonaro, tem sido um ferrenho defensor da abertura do comércio nesse momento de pandemia; Luiz Datena já fez discurso em defesa do decreto presidencial que facilita a compra de armas e defendeu a reforma da Previdência proposta pelo governo; Sikêra Junior é escancaradamente um defensor do presidente e suas ideias.
A relação do presidente com esses apresentadores justifica as “entrevistas exclusivas” que Bolsonaro costuma lhes conceder. As tais “entrevistas exclusivas” costumam fugir de assuntos incômodos - como deve ser “uma boa conversa entre amigos”. Ou seja, não tem jornalismo. Em diversas ocasiões Bolsonaro manifestou que detesta jornalistas (principalmente mulheres) e as perguntas que fazem. O contato dele com a imprensa se resume a algo como “uma conversa de beira de estrada”, quando fala para os seus apoiadores na saída do Palácio da Alvorada.
A maior parte dos recursos públicos foi para os noticiários da TV Globo. Para divulgar a campanha nos intervalos do Jornal Nacional o governo pagou exatos R$ 1.619.560,00; para entrar no Fantástico foram mais R$ 1.253.620,00. A campanha também foi veiculada no Jornal da noite e Jornal Hoje da emissora. Somente com o jornalismo a Globo faturou R$ 3,1 milhões. O BBB da Globo faturou mais R$ 950 mil. A TV Record, do amigo Edir Macedo, recebeu R$ 850 mil para veicular a campanha no Jornal da Record e mais R$ 505 mil para o Domingo Espetacular – o que dá um total de R$ 1,3 milhão. O Jornal da Band embolsou R$ 345 mil.
O amigo Sílvio Santos, dono do SBT foi atendido: levou R$ 112 mil para veicular a campanha no humorístico A praça é nossa; mais R$ 347 mil para o Programa Sílvio Santos; cerca de R$ 83 mil para o Programa Raul Gil; outros R$ 160 mil para o programa Eliana; e R$ 500 mil para o Programa do Ratinho. A família Bolsonaro, e não somente o presidente, costuma frequentar os programas do SBT. Ratinho, bolsonarista convicto, “entrevistou” o presidente e seus filhos. Nesse caso, como de praxe, são conversas entre camaradas apresentadas ao público como “entrevistas exclusivas”.
A pergunta a ser feita pelo telespectador é: com esse dinheiro entrando no caixa da empresa o jornalismo optou por defender o governo ou sustentou a autonomia do jornalismo?
Nesse caso há, pelo menos, um bom exemplo. O site Poder 360 recebeu recursos (R$ 36 mil) para veicular a campanha de vacinação e mesmo assim fez matéria mostrando como o dinheiro público vai para as grandes redes de comunicação. O texto, publicado no dia 23 de abril, diz que desde o início do ano a TV Globo já embolsou R$ 9,8 milhões; a TV Record levou R$ 9,6 milhões e o SBT, R$ 9,09 milhões.
A publicidade governamental provoca alguns questionamentos. O primeiro diz respeito ao fato das empresas de comunicação se constituírem concessões públicas e ainda assim receberem recursos públicos para divulgar o que é de interesse público.
Uma outra reflexão deve ser feita sobre a pertinência e necessidade da campanha de vacinação. Talvez em Condições Normais de Temperatura e Pressão ela fosse necessária. Não é o caso. O Brasil tem um presidente atabalhoado, perdido, insensato, acusado de genocida, que não consegue falar uma frase coerente, incapaz de comandar um filhote de cachorro, quanto mais o país. Qual a eficácia de uma campanha como essa se o próprio presidente orienta a população a não seguir o que é certo, se ele anuncia que não irá se vacinar, se atuou para a pandemia se alastrar? Sendo assim, para que serviu essa campanha milionária paga com dinheiro público?
Os comentaristas e repórteres que exibem faces compungidas ao criticar o presidente por não usar máscara ou abraçar seus aliados fazem uma encenação teatral rasa que não vai ao cerne da questão. Não apontam a tragédia social e política mais evidente: há um governo militar (são 5.500 militares ocupando cargos civis) que a todo momento ameaça destruir a democracia; ataca as instituições republicanas, promove a violência, gera mais desigualdade, fome e mortes.
Desde a campanha à presidência até hoje Bolsonaro faz uso de um bordão dos nazistas, Deutschland uber alles, por ele traduzido em “O Brasil acima de todos”, anunciando seu perfil ideológico, e não se vê caras constrangidas na TV. Contra ele boa parte da sociedade se insurge - já se acumulam 109 pedidos de impeachment no Congresso -, mas a preocupação desse “jornalismo” é com o fato do presidente não usar máscara.
Parece mais interessante apresentar um sofisticado sistema de acompanhamento do genocídio da população brasileira, nos moldes das eleições ou da Copa Brasil, do que defender abertamente a saída de um governante que está provocando a morte de mais de 400 mil pessoas. E, claro, todos os dias se indignar porque o presidente está sem máscara na padaria.
Criado em 2021-04-29 21:48:41
Maria Lúcia Verdi -
O momento presente e a tentativa de compreender. Os infinitos relatos e a busca da lucidez. Proponho a leitura de texto de Roland Barthes publicado no jornal francês Le Monde em 1974, mas ainda pertinente. O intelectual, aquele que pretende analisar e ao mesmo tempo sonhar o momento presente – presença fundamental, mantenedora de uma distância necessária em relação à realidade histórica. O título do artigo, que traduzi do italiano, é: O que seria de uma sociedade que renunciasse a tomar distância?
“O processo que periodicamente vem sendo feito aos intelectuais (a partir do caso Dreyfus que viu, creio, o nascimento da palavra e da noção) é um processo mágico: o intelectual é tratado como poderia ser tratado um bruxo de uma tribo de comerciantes, homens de negócios e legisladores: o intelectual é aquele que perturba os interesses ideológicos.
O anti-intelectualismo é um mito histórico, ligado sem dúvida à ascensão da pequena burguesia. Poujade (NT: Pierre Poujade 1920/2003 - líder político francês populista, anti-intelectualista e xenófobo) deu recentemente a este mito a sua forma mais crua (‘o peixe apodrece a partir da cabeça`). Um processo do gênero pode periodicamente excitar o povão, como qualquer processo de bruxaria; não subestimemos o seu risco político: muito simplesmente é o fascismo, que tem como primeiro objetivo, sempre e em qualquer lugar, a liquidação da classe intelectual.
Os deveres do intelectual são definidos a partir dessas mesmas resistências, do lugar do qual partem; Brecht os formulou muitas vezes: trata-se de desconstruir a ideologia burguesa (e pequeno burguesa), de estudar as forças que movem o mundo e de fazer progredir a teoria. Sob estas fórmulas, evidentemente, está incluída uma grande variedade de práticas de escritura e linguagem (pois o intelectual se assume como um ser de linguagem, o que perturba exatamente a segurança de um mundo que contrapõe soberbamente às ‘realidades`, às `palavras`, como se para o homem a linguagem fosse apenas o cenário vazio de interesses mais substanciais).
A situação histórica do intelectual não é confortável; não devido a processos derrisórios que lhe venham feitos, mas porque é uma situação dialética: a função do intelectual é aquela de criticar a linguagem burguesa exatamente sob o reinado da burguesia; ele deve ser um analista e ao mesmo tempo um utopista, compreender ao mesmo tempo as dificuldades e os desejos loucos do mundo; quer ser um contemporâneo histórico e filosófico do presente: o que valeria e em que coisa se transformaria uma sociedade que renunciasse a tomar distância? E como observar-se se não falando desde si?”.
Criado em 2018-08-12 21:39:08
Angélica Torres –
É tudo culpa do PT e Lula e Dilma! Negros, gays, mulheres, pobres soltando as asinhas e achando que o mundo é deles também!
"Ah, a máxima culpa é toda do petismo!"
Como é isso, meu irmão, minha irmã, explica aí. Raciocina só um pouco se um partido com tarefas gigantescas a fazer, dantes nunca feitas no país, iria ditar regras, determinar, influenciar o comportamento sexual e social aos cidadãos. Ao bel prazer de quem? por quê? como? para quê?
Mas você continua berrando que foi um governo de depravados, de fracos, de corruptos. Um governo que não deu o rumo que devia, com mão pesada, chicote, censura, tortura, mortandade, pondo ordem no estilo e na devassa. É isto?
Dá pra ver e entender diferente.
Esse tal PT, que vem sendo chutado, esmurrado, pisoteado, induzido por difamadores a ser destruído e mortos os seus filiados, lembra aí que, no turno dele no trono, sobretudo acolheu os cidadãos sem distinção e conviveu muito bem com todas as diferenças.
Isso sim fez a diferença. Talvez porque se propôs a congregador de espíritos e corações e mentes e corpos, ciente da humanidade que, todos juntos, a constituem.
Talvez porque cumpriu em se ocupar de gente abandonada, nunca dantes assim claramente percebida por qualquer um de nós, cidadãos de bem e propriedades.
Talvez porque praticou ele próprio a humanidade que líderes religiosos pregam em nome das divindades.
Eles, os petistas, seriam mesmo, então, os grandes vilões do país, culpados por isso e aquilo e aquilo outro? Raciocina um pouco.
Temos todos participação coletiva nessa empreitada. Estamos e somos juntos. O carma que não deixa ninguém mentir, inventar, fakear, está aí pra todos cumprirem, cada um, com a parte que lhe cabe - ou que lhe sobrou - no latifúndio.
Mas muitos irão pagar feio e sem ter atuado no (nem aplaudido o) circo de horrores que se arma de ódios - e que poderá armar a lona e ficar em cartaz por quantos anos mais? Outros 21?!
Você que aposta no nazismo não aprendeu ainda que brincar com fogo leva a incêndio? Que dar com a cabeça na parede lesa o cérebro? "Merecer" estupro, seja físico, mental, emocional, espiritual, é da conta de que ser humano?
Sozinho com seus próprios botões, antes de apertar o botão da urna, pense bem em como você irá conseguir limpar, das suas próprias mãos, o sangue derramado pelo desgoverno em que está apostando nele.
Os alertas são incontáveis. Vira seu voto enquanto é tempo.
#Haddad13
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(*) Angélica Torres, para o blog PróPõe)
Criado em 2018-10-24 22:49:58
Romário Schettino –
Recebi hoje em casa o novo livro de poemas de Luís Turiba: Terráqueos, se virem... ou vice-versa.Tudo conforme o prometido, edição artesanal, caprichada, com distribuição pelos Correios. Os interessados podem solicitar seu exemplar pelo e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..
As 40 páginas foram impressas em casa, numa tiragem de 100 exemplares. O meu recebeu o número 11/100. O autor conta que levou três meses pesquisando como se apoderar dos meios de produção. “O resultado é esse produto bruto e sofisticado, mas poético como devem ser os instrumentos da resistência humana que estamos praticando”.
É preciso dizer também que Turiba utilizou-se do papelão para fazer a capa externa de cada livro, cortada uma a uma numa oficina onde o autor “corta, costura e chuleia”. “O Brasil é o país do papelão. Faz papelão na ecologia, na economia, na cultura, no Supremo, no Senado, principalmente na Educação. É papelão pra tudo quanto é lado”.
Nas pesquisas em busca de material reciclável, Turiba prova que o melhor papelão é o que vem do supermercado. Devidamente higienizado, compõe a capa do livro. “O vermelho sangue da pichação dessa capa tem um significado: sangue dos negros mortos à bala ou em pancadaria, sangue de tantos feminicídios, sangue das vítimas dos massacres na sociedade brasileira”.
Turiba ensina que “o papelão também tem seu valor agregado, é matéria prima da pobreza, onde se come a sobremesa, se sobremesa houvesse pra quem tem fome. É cama para quem mora na rua. É teto e grana curta para catadores e base de artimanhas de poetas, artistas plásticos e atores. Sem papelão não há carnaval, nem passeatas”.
Terráqueos, se virem, chegou às minhas mãos amarrado com palhas do orixá Obaluaiê, dono da Terra, rei da Saúde. Axé! Todo o trabalho contou com a participação de Luca, da escolha dos poemas á programação visual, incluindo fotos e desenhos.


Mas toda essa minuciosa produção não fica aí só no livro impresso, tem ligações na internet. O leitor é remetido para o YouTube onde está instalada a Rádio Quarentena Musical (clique aqui, ouça, se inscreva e participe com seus comentários).
Turiba sabe o que faz, há décadas nos brinda com sua poesia provocativa e sua criatividade antenada, desde os tempos da famosa revista brasiliense Bric-a-Brac. Seu olhar para as causas indígenas, meio ambiente, o sentido da vida em toda a sua extensão, pulsante, está transmutado em versos fortes como os desse poemeto recente: “sem nem /o sem cê-pê-éfe /nem pro / pê-éfe tem”.
Ou o antigo “Ou a gente se Raoni, /ou a gente se Sting. /Uma metade passa fome /outra metade faz regime”, que continua atualíssimo no que ele chama de “pandemônio social/político que tomou conta do Brasil e do mundo neste 2020”.
A seguir, transcrevo do livro um poema que fala do racismo e da luta contra o preconceito despertado pelo assassinato de George Floyd nos EUA. Vale também para o assassinato de João Alberto Silveira Freitas, ocorrido em Porto Alegre na véspera do Dia da Consciência Negra.
A conta chegou
o corpo de George Floyd
enforcado pelos joelhos de um
policial racista foi capaz de
ressuscitar um mundo
entorpecido de mortes e vírus
na América em Paris Londres
Sampa e Rio de Janeiro
ninguém morre de susto de bala
ou de vício na véspera do dia
do seu sacrifício no vazio em vão
de ocos e ecos de um crime
que vai e volta em repetecos
tecos tecos tecos tecos
essa conta vai chegar está chegando
e será paga com suor garra votos
e sangue sangue sangue sangue
se não for no inferno há de ser
no verão ora se não?!
quem há de duvi dar do ar
arrrr ah.... como viver sem respirar
por séculos seculares
(L.T.)
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Atenção: Encomendas do livro podem ser feitas pelo email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
Criado em 2020-11-21 16:47:16
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Completo 65 anos nesta segunda-feira, 24 de maio, e já vinha celebrando a data há uma semana.
A autocelebração é um troço muito fácil para nós, os geminianos. No meu caso, o Antônio cumprimenta o Carlos, e o Carlos re-vida, com trocadilho e tudo. O Queiroz assiste a cena morrendo de rir…
A gente contém multidões, diz o grande geminiano Walt Whitman, nascido a 31 de maio de 1819.
Não, não, diletos leitores e queridas leitoras, eu estou de gozação. Não acredito necas de pitibiriba nesse negócio de horóscopo, quiromancia, psicanálise (ouvem-se protestos na plateia, insuflados por taurinos nervosos como o Freud!), búzios, milagres de Nossa Senhora d’Abadia do Muquém, tratamento precoce de hidroxicloroquina… Nada disso, zero!
Sigo a tradição epicurista de 23 séculos que exilou os deuses no intermúndio para que não se imiscuíssem nos assuntos humanos. Acho absurda a ideia de que os astros – aglomerados de rochas e gelo ou bolas de gás – possam influenciar a trajetória dos seres humanos na Terra (tirante os efeitos das marés!), a depender do dia e da hora em que nascem.
Tradição – Em compensação, não acredito no livre arbítrio absoluto, no ideal da liberdade sem porteira do Sartre, um canceriano fronteiriço, do dia 21 de junho. Sou mais o Marx, para quem a gente faz a própria história, não segundo a nossa livre vontade, não sob as circunstâncias de nossa escolha, mas, sim, subordinados às condições que nos foram legadas e transmitidas do passado. “A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”, disse o Carlão.
Não concordo com o verbo “oprimir” nessa frase do Marx, taurino como o Freud. A minha convivência cotidiana com os poetas, filósofos, compositores e cientistas que já morreram, inclusive o próprio Karl, não tem nada de opressivo, au contraire. E aqui entra a primeira parte da tese que preparei especialmente para esta crônica: as pessoas buscam sentidos para a vida e nesse processo acham justificativas do arco da velha e do alto dos céus.
Algumas dessas justificações são classificadas pelos psicólogos entre os vieses cognitivos, a exemplo do viés de confirmação, que consiste no impulso da gente selecionar, privilegiar e interpretar informações de maneira tendenciosa, unilateral, com o objetivo de confirmar as nossas crenças ou hipóteses iniciais.
Vou ilustrar: desde criancinha ouço que as pessoas nascidas em Gêmeos – entre 21 de maio e 20 de junho – têm o espírito jovem, são curiosas, comunicativas, sagazes, alegres, ambíguas e volúveis (adaptáveis), igualzinho o planeta que rege o signo, Mercúrio, nome latino do deus grego Hermes.
O signo de Gêmeos, representado pelas figuras dos irmãos Castor e Pólux, filhos de Leda com Píndaro e com Zeus, herdou do deus Hermes-Mercúrio, filho de Zeus e Maia, as suas características: a fertilidade, a magia, a adivinhação, a guarda dos rebanhos, das estradas e das viagens. Ele foi o patrono da ginástica, dos ladrões, dos diplomatas, dos comerciantes, da astronomia e da eloquência.
Era o mensageiro dos deuses, o mestre da linguagem, do discurso eloquente e persuasivo, das metáforas, da prudência, da circunspecção, das intrigas, das razões veladas, da fraude e do perjúrio, da sagacidade, da ambiguidade. E por isso (estou copiando tudo isso da Wikipédia, viu!) era o patrono dos oradores, dos arautos, dos comerciantes, dos embaixadores.
Mais: ele inventou o fogo, a lira, a flauta de pã, o alfabeto, os números, a astronomia, algumas formas de música, as artes marciais, o cultivo das oliveiras, as medidas, os pesos etc. O cara era muito mais dotado do que o Thomas Edison e o Nikola Tesla juntos!
Hermes-Mercúrio foi o deus do comércio e do intercâmbio social, dos acordos e contratos, e da riqueza obtida através dos negócios. Foi o deus da amizade, da hospitalidade e, oba!, do intercurso sexual (também conhecido como foda).
Servia a Zeus nos banquetes do Olimpo e conduzia a sua carruagem, sendo assim precursor do Uber. Também acompanhava as almas dos mortos até o Hades (o inferno grego), e entregava os sonhos que Zeus remetia aos mortais (na época não tinha Whatsapp).
Pra completar, Hermes-Mercúrio era também um deus da medicina, amigo de Higeia, filha do maior deus dessa arte, o Esculápio (Asklēpiós em grego). Era capaz de restaurar a virilidade (bem antes do Viagra), afastar pragas, ajudar no parto e curar com base na fitoterapia.
Viés – Volto à demonstração da minha tese, já na segunda parte: a pessoa não acredita em horóscopos, mas, depois de ler essa tremenda folha corrida do deus que rege o seu signo, dificilmente escapa de tantos e quantos encantos. O modelo é bom demais para ser desprezado. E aí, num momento de fraqueza, a vítima, que antes era cética, rende-se ao chamado viés de confirmação. Busca espelhar-se no modelo e acredita ter, ou poder desenvolver, as suas características. Convenhamos, é muito mais fácil valer-se do conforto de uma muleta ideológica do que persistir na acidentada trilha da Ciência, de incertos resultados.
No meu caso específico, a minha mãe, do signo de Virgem (7 de setembro), sempre foi alegre, jovial, curiosa, arguta, comunicativa e de lua. Muito provavelmente, puxei dela e não do signo dos Gêmeos algumas dessas características, como o Darwin, o Mendel e o Paulo Freire explicam!
Acontece que eu cresci num ambiente de pessoas crédulas na influência dos astros, no qual não adiantava muito discutir essa bobagem. Eu não faria o menor sucesso contra-argumentando, por exemplo, que o Karl Marx nunca foi especialmente dotado para os assuntos financeiros, como consta da tabela de virtudes de seu signo, Touro. Se eu mesmo não fosse tinhoso que nem um miúra, teria sido sequestrado por um designer de mapa astral ou por uma cigana quiromântica ou que romântica, tanto faz!
Em todo caso, para não deixar de falar com os amigos e amigas que acreditam nessas superstições, recorri aos meus próprios recursos de prestidigitação para criar um modelo com o qual demonstro por a + b que os astros e estrelas de fato e verdadeiramente influenciam a nossa vida, ou pelo menos a minha.
Peça central do modelo é a lista que apresento abaixo, composta de geminianos e geminianas incríveis, astros e estrelas que eu admiro de maneira positiva ou negativa e que, de alguma forma, influenciam, inspiram, estimulam a minha caminhada sobre o planeta.
O engraçado é que não são geminianas incontáveis outras celebridades que eu admiro em medida semelhante. Só para mencionar alguns e algumas, refiro-me ao Beethoven, ao Engels, ao Noel Rosa, à Clarice Lispector e à Emily Dickinson, de Sagitário; ao Tom Jobim e ao Darwin, de Aquário; ao Einstein, de Peixes; ao Machado de Assis, de Câncer; ao Marx, de Touro; ao Villa Lobos, de Escorpião, e por aí vai. (Tá, eu sei que há sobreposições de signos, também não sou tão ignorante assim, não, uai!)
Por óbvio, mesmo correndo o risco de foder com o meu modelo, aqui está a prova de que qualquer pessoa, de qualquer signo, pode compor a própria lista e puxar a brasa para a sua sardinha ou, conforme o caso, para a sua picanha wagyu de R$ 1.800,00 o quilo!
No topo da minha lista estão duas pessoas que nasceram no mesmo dia que eu: o Bob Dylan e a Rainha Vitória do Reino Unido. É mole? Com um pedido de desculpas pela inveja que o meu catálogo possa causar, as demais figuras geminianas são as seguintes:
Escritores e escritoras
O maior poeta italiano, Dante Alighieri;
O maior poeta americano, Walt Whitman;
O maior poeta russo, Alexander Pushkin;
O maior poeta português moderno, Fernando Pessoa;
O maior poeta espanhol moderno, Federico García Lorca;
O fundador da literatura estadunidense, Ralph Waldo Emerson;
O poeta beat americano Allan Ginsberg;
O escritor alemão meio brasileiro Thomas Mann;
O poeta irlandês William Buttler Yeats;
O escritor britânico Ian Fleming, criador do 007;
A poeta brasileira Ana Cristina César;
O poeta árcade brasileiro Cláudio Manuel da Costa;
A poeta argentina Alfonsina Storni;
Musicistas
Chico Buarque, Maria Bethânia e João Gilberto;
O beatle Paul McCartney;
Martha Argerich, a maior pianista argentina,
Lang Lang, o pianista chinês mais famoso;
Os compositores alemães Richard Wagner e Robert Schumann;
O compositor russo Igor Stravinsky;
O compositor americano Cole Porter;
O trompetista e compositor americano Miles Davis;
O pianista e compositor americano Chick Corea;
O cantor e compositor americano Kanye West;
Ivete Sangalo e Frejat;
Atores e atrizes
As brasileiras Camila Pitanga, Sônia Braga, Débora Nascimento, Flávia Alessandra, Maria Fernandes Cândido e Débora Bloch;
Os brasileiros Marco Nanini e Othon Bastos;
As americanas Marilyn Monroe, Isabella Rossellini, Judy Garland, Angelina Jolie e Natalie Portman;
A australiana Nicole Kidman;
O ator italiano Alberto Soldi;
Os americanos Errol Flynn, Clint Eastwood, Gene Wilder, Morgan Freeman, Johnny Depp, Christopher Evans e Mark Wahlberg;
Os britânicos Ian McKellen e Christopher Lee;
Artistas
O pintor francês pós-impressionista Paul Gauguin;
A chargista Laerte Coutinho;
O diretor Joaquim Pedro de Andrade (Macunaíma);
A modelo britânica Naomi Campbell;
Políticos
Che Guevara;
Louise Michel, professora, escritora, poeta, enfermeira, uma das principais líderes da Comuna de Paris (1871);
Os ex-presidentes norte-americanos John Fitzgerald Kennedy e Donald Trump
O presidente chinês Xi Jinping;
O engenheiro Bernardo Sayão, um dos construtores de Brasília.
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso;
O revolucionário comunista brasileiro João Batista Franco Drummond;
O senador Teotônio Vilela, o menestrel das Alagoas;
O ex-governador gaúcho Olívio Dutra;
Atletas
O tenista espanhol Rafael Nadal;
O tenista sueco Björn Borg;
Bellini, zagueiro da seleção brasileira de 1958;
O corredor Rubens Barrichello (Desconheço a alegação de que esse cara nasceu de 10 meses, e já avisei que esta é uma lista positiva e negativa!)
Para completar esta crônica, fruto evidente da minha habilidade retórica supostamente geminiana e, sempre sem querer humilhar ninguém, gostaria de lembrar dois monumentos da literatura mundial que vieram à luz sob os influxos do signo de Gêmeos.
O primeiro é o seminal Ulysses, de James Joyce, aquariano ele próprio, publicado em 1922. A obra narra a jornada de Leopold Bloom durante o dia 16 de junho de 1904 em Dublin, na Irlanda. Trata-se de uma homenagem de Joyce à data do seu primeiro encontro com a musa Nora Barnacle, sua futura esposa. O romance é comemorado em todo o mundo nesse dia, apelidado de Bloomsday.
O segundo é o Grande Sertão: Veredas, do nosso Guimarães Rosa, ele próprio um canceriano.
Vejam esta cronologia: no dia 4 de janeiro de 1956, o jornalista José Condé contou em sua coluna Escritores e Livros do jornal carioca Correio da Manhã que Rosa tinha acabado de entregar ao editor José Olympio os originais do Grande Sertão, concluído em dezembro de 1955. No entanto, no dia 9 de fevereiro, Rosa conta, numa carta dirigida ao colega de Itamaraty Antônio Azeredo da Silveira, que havia entregue esses originais na primeira semana de fevereiro. Informa que já estava com o livro composto pois o editor José Olympio “tocou-o com ‘batedores’, mandou que passassem por cima de tudo, prioridade absoluta, um recorde de velocidade, veja Você – um recorde de velocidade.” No dia 9 de maio apenas diz a Azeredo que “O ‘Grande Sertão’ sairá breve”. Em 19 de maio, pede desculpas ao colega pela concisão da última carta dizendo que estava “no meio de coisas tolas, numa folga de agitação literária – últimas trabalheiras com o ‘Grande Sertão’ –...”
Deduzo dessas informações que o Rosa esteve envolvido na revisão das provas do livro até a segunda semana de maio, pelo menos. A última fase da impressão deve ter começado aí, devendo ter se estendido até o final de maio e, quem sabe, invadido o mês de junho para a conclusão da encadernação do catatau de 600 páginas.
O colofão da primeira edição informa o seguinte: “Êste livro foi confeccionado nas oficinas gráficas da Saraiva S. A., à Rua Sampson, 265, São Paulo, em maio de 1956 – ano XXV da fundação da Livraria José Olympio Editôra, Rio de Janeiro.”

O que eu afirmo com essas evidências é que o Grande Sertão: Veredas nasceu em São Paulo, sob o signo de Gêmeos, exatamente quando eu mesmo estava sendo parido no Hospital Nossa Senhora Aparecida em Anápolis, Goiás, no ano da graça de 1956. O batismo do livro, quer dizer, o seu lançamento, se deu no dia 17 de julho no Rio de Janeiro.
Pra terminar, proponho que vocês liguem aqui no YouTube a canção Sentimental do Chico Buarque, uma homenagem aos geminianos e geminianas, capazes de dar a volta por cima como quaisquer outros brasileiros e brasileiras, coitadxs!
Gemini, gemini, geminiano
Este ano vai ser o seu ano
Ou se não, o destino não quis
Ah, eu hei de ser
Terei de ser
Serei feliz
Serei feliz, feliz
Façam muitas manhãs
Que se o mundo acabar
Eu ainda não fui feliz…
Criado em 2021-05-24 03:30:03
Júlia Coury e Gabriel Toledo (*) –
No domingo, 22 de novembro, aconteceu a reunião de cúpula do G20, bloco composto pelos países com as mais expressivas economias do mundo. O Brasil é um dos participantes. Somados, esses países correspondem a aproximadamente 90% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, 80% do comércio internacional e cerca de 65% da população do planeta.
Todos os maiores veículos de comunicação, líderes e empresários no mundo estavam atentos para entender o posicionamento desse grande bloco em plena época de crise econômica global causada pela pandemia do coronavírus. As expectativas eram que o encontro traria soluções financeiras e econômicas para lidar com a atual crise – assim como o desempenhado durante a de 2008-2009.
Não à toa, o encontro de 2020 foi marcado por discursos relacionados à crise sanitária e troca de experiências entre os participantes.
Em nota conjunta, os países afirmam que injetarão US$ 1,1 trilhão na contenção dos danos trazidos pela doença. A busca por medidas de defesa do meio ambiente também foi tratada no evento como um dos desafios mais urgentes da atualidade com foco, principalmente, em abordagens ambiciosas para a redução de emissões de gases que contribuem para o efeito estufa.
Diferente do que se esperava, a reunião da cúpula do G-20 não trouxe propostas abrangentes, propostas coordenadas na contenção dos problemas climáticos e nem para a dívida externa. O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou estar decepcionado com o resultado do encontro, mesmo que os países tenham se comprometido em prosseguir com o programa global de imunização, nomeado Covax.
A participação do Brasil acompanhou o tom do evento de fortalecimento das organizações multilaterais e preocupação com as temáticas climáticas, diferente do posicionamento que vinha apresentando em outros eventos econômicos internacionais. O país, desde 2018, assumia uma política externa pouco contributiva para a agenda multilateral, na maioria das ocasiões similar à adotada por Trump. Assim, o Itamaraty assumia uma direção oposta dos organismos internacionais, insistindo que a prioridade era reforçar a soberania do país. Ações e decisões das agências, como a OMS, passaram a ser questionadas, colocando em xeque o papel das organizações internacionais e do multilateralismo.
Nos temas ambientais, a postura do governo brasileiro era combativa em relação às críticas de líderes estrangeiros, sem sinalização de comprometimento e engajamento com as metas do Acordo de Paris, mais uma vez seguindo a lógica “isolacionista” de Donald Trump. A postura americana, apoiada pelo Brasil, trouxe um enfraquecimento de algumas agendas e da coordenação internacional. Todavia, após a vitória de Joe Biden alguns membros do G20 concentraram seus discursos em ações que refletem a esperança de que o novo governo americano deve trazer para a cooperação internacional.
Bolsonaro seguiu o padrão apresentado na grande maioria de seus discursos que dialoga diretamente com seu eleitorado ao defender a agenda de costumes. Nessa perspectiva, ressaltou que defenderá a liberdade de cada indivíduo de decidir se deve ou não tomar a vacina do coronavírus e exaltou o impacto que o auxílio emergencial trouxe ao beneficiar 65 milhões de brasileiros. Esses dois pontos formalizam o aceno de Bolsonaro a sua base “dura” formada por conservadores e aos novos apoiadores devido ao suporte econômico durante a pandemia.
Ao mesmo tempo, o presidente moderou o tom para temas sensíveis ao encontro. Além de assumir o compromisso brasileiro na redução da emissão de carbono, defendeu os acordos multilaterais, o papel das organizações internacionais e a inclinação para participar de novos compromissos. A fala do presidente pode ser vista como uma sinalização de que o Brasil deve assumir uma postura mais moderada e proativa nos fóruns internacionais, após a derrota dos republicanos nos EUA.
Para o combate à crise financeira adotou como proposta a injeção de liquidez no mercado internacional, no valor de mais de US$ 10 trilhões por parte dos membros do G20. Para a reforma da Organização Mundial do Comércio (OMC), defendeu avanços nos três pilares: negociações; solução de controvérsias; e monitoramento e transparência – em grande parte travados pela atuação dos EUA dentro da organização. Endureceu o discurso ao afirmar que na reforma da Organização, o Brasil espera ambição para reduzir os subsídios para bens agrícolas seja a mesma adotada por alguns países na promoção ao comércio de bens industriais.
Um dos pontos centrais da declaração final do G-20 reflete esse novo momento. A fala foi interpretada como uma busca por um fortalecimento da ideia do multilateralismo, duramente abalado pelo isolacionismo de Trump.
Enquanto o primeiro discurso de Bolsonaro trouxe indicações positivas sobre o novo papel que o Brasil deve ocupar no sistema internacional, a segunda fala do presidente no evento causou certo desconforto diplomático ao tratar “a realidade dos fatos” em relação à situação ambiental brasileira. Declarou que nos últimos 40 anos, o Brasil passou por uma “revolução agrícola” que permitiu a preservação de mais de 60% do território brasileiro, com vegetação nativa, enquanto exporta um volume imenso de produtos agrícolas e pecuários sustentáveis e de qualidade. O presidente disse ainda que o desenvolvimento sustentável nacional passa pelas ações com 4 Rs: reduzir, reutilizar, reciclar e remover e, ainda, reforçou a importância na redução das emissões de carbono.
Reiterou a importância da preservação ambiental para gerar êxito aos acordos econômicos, reforçando a agenda de abertura econômica brasileira, e que a agenda ambiental influencia acordos decisivos. Por exemplo, devido ao alto índice de desmatamento e focos de incêndios, o Brasil sofre forte pressão global e coloca em cheque acordos de livre comércio entre Mercosul e UE. Ao final, Bolsonaro alegou que a pressão imposta pela comunidade internacional é feita por “nações menos competitivas e menos sustentáveis” e se disponibilizou para “tornar o mundo realmente mais desenvolvido e mais sustentável”.
O presidente Jair Bolsonaro não compareceu ao encerramento da cúpula do G-20, deixando seu lugar ocupado pelo chanceler Ernesto Araújo. O presidente brasileiro tampouco participou do debate público sobre pandemia e nem sobre mudanças climáticas. Durante o evento final, o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, fez questão de destacar qual será sua agenda para a presidência do G-20 em 2021. "Ninguém pode vencer os desafios globais sozinhos. Pandemia mostra isso", num recado claro contra países que optam pelo isolacionismo, ele ainda apontou que o multilateralismo não é uma opção, "É o único caminho sustentável". Assim, para negociadores e analistas, a presença do Brasil na cúpula refletiu uma perda de relevância internacional. "De protagonista por anos, os brasileiros são hoje meros observadores em muitos dos temas, coadjuvantes", afirmou um diplomata estrangeiro envolvido há anos nas cúpulas do G-20.
No texto final do evento, os governos se comprometem a manter seus compromissos assinados em Paris, inclusive o de comunicar estratégias de desenvolvimento a longo prazo para reduzir emissões de gases com efeito estufa. Também foi confirmado que o Brasil presidirá o G-20 em 2024, realizando a cúpula no país. Entre os demais países, a esperança é de que um novo capítulo internacional seja inaugurado em termos de cooperação em diversos temas.
No que se refere à pandemia, o rascunho da declaração estipula que os governos vão fazer todos os esforços para garantir que a vacina contra a covid-19 chegue a todos os cantos do mundo e que haverá um apoio aos países mais pobres. Para alguns diplomatas, tais pontos refletem uma mudança do grupo, diante do que já seria um adeus ao governo Trump.
O papel brasileiro neste novo cenário ainda é incerto. Na terça feira (8/12), no âmbito do comprometimento com o Acordo de Paris, o ministro Ricardo Salles anunciou que o Brasil terá como meta atingir a neutralidade nas emissões de gases causadores do efeito estufa até 2060. Nessa perspectiva, o país possui duas metas relacionadas: reduzir 37% das emissões em relação aos níveis de 2005 e chegar à redução de 43% das emissões na mesma comparação até 2030. Assim, para atingir esses objetivos o Brasil pretende zerar o desmatamento ilegal até 2030, reflorestar 12 milhões de hectares e assegurar 45% de fontes renováveis na matriz energética nacional.
Essas atitudes são uma tentativa do país se mostrar comprometido com o meio ambiente e com os acordos internacionais. Todavia, ao mesmo tempo que o país assume estaar empenhado nas agendas, a comunidade internacional cobra por resultados e práticas que comprovem que não se trata apenas de discurso.
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(*) Julia Coury, Consultora de Relações Governamentais da BMJ, graduanda de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo, membro do Elas No Poder. Gabriel Toledo, Consultor de Relações Governamentais da BMJ, graduado em Relações Internacionais pela ESPM.
(As análises e opiniões aqui contidas dizem respeito aos autores e não representam o posicionamento institucional das organizações às quais pertencem).
Criado em 2020-12-17 16:09:57
Ativistas vão se reunir no Eixão Sul, na altura da SQS 206, dia 4/12 (domingo), a partir das 9h para lançar o Manifesto do Movimento, eleger a primeira diretoria da Associação Andar a Pé - O Movimento da Gente, promover uma caminhada e recolher assinatura de um abaixo assinado pela revitalização das passagens subterrâneas do Eixão.
Professores, estudantes, jornalistas, advogados, médicos, engenheiros, arquitetos, andarilhos - decidiram criar a Associação Andar a Pé como forma de contribuir, coletivamente, para a humanização das ruas do Distrito Federal.
O manifesto, que marca o início das atividades do grupo, afirma que é preciso defender "uma cidade para o pedestre". Está escrito no documento que "dentre todos os modos de transporte, caminhar é o mais humano, natural, saudável e civilizado. A cidade foi inventada pela sociedade para proporcionar o encontro e a convivência entre as pessoas, situação que se efetiva quando ela permite andar a pé por suas vias e ocupar seus espaços. Quando tal conforto é proporcionado, ela enfim se humaniza".
Os membros do Andar a Pé observam que "nas cidades brasileiras, especialmente Brasília e seu Entorno, a predominância do automóvel é ameaçadora e hostil ao pedestre".
Eles também fazem críticas à falta de políticas públicas adequadas às necessidades do cidadão. O manifesto da Associação Andar a Pé afirma que "apesar de o ato de caminhar ser comum a todos os moradores da cidade como nenhum outro modo de deslocamento, não há política efetiva voltada ao pedestre, que possa torná-lo personagem principal desse espaço onde vivemos".
Para concluir, o manifesto é taxativo: "É fundamental que toda política dirigida ao direito de caminhar seja implantada e articulada com as demais: de mobilidade urbana sustentável, saúde pública, segurança, educação, dentre outras. Enfim, é necessário que a cidade viva para o pedestre e assim libere sua alma, humana e cidadã".
Serviço:
Lançamento do Manifesto e eleição da primeira diretoria da
Associação Andar a Pé - O Movimento da Gente
Dia: 4/12 (domingo)
Hora: A partir das 8h30
Local - Eixão Sul - Na altura da 206 Sul
Atividades: Caminhada, recolher assinaturas em um abaixo assinado, leitura do Manifesto, palavra aberta aos convidados e eleição da primeira diretoria da Associação Andar a Pé - O Movimento da Gente.
Criado em 2016-11-29 02:04:17
Lançado originalmente na França, em 2020, o jogo de tabuleiro Kapital!: quem ganhará a luta de classes?, criado por Michel Pinçon e Monique Pinçon-Charlot, chega ao Brasil pelas mãos das editoras Autonomia Literária e Boitempo.
O jogo de tabuleiro marxista traz, de forma lúdica e divertida, a compreensão da luta de classes entre dominados e dominantes em um percurso de reviravoltas, e revoluções, onde cada jogador precisa acumular os diferentes tipos de capital conforme as teorias de Pierre Bourdieu.
Os jogadores, nesta adaptação brasileira, competem na tentativa de acumular o máximo de capital em todas as suas formas (financeiras, sociais, culturais e simbólicas) em um percurso repleto de reviravoltas e acontecimentos da nossa conjuntura.
O objetivo deste jogo é mostrar que as desigualdades sociais não são naturais, mas resultado de uma condução política realizada em favor dos mais ricos. De forma lúdica e divertida, o jogo faz com que os participantes vivenciem e compreendam as relações de classe, ao longo de um percurso de 76 casas (expectativa de vida no Brasil) que os conduzirá desde o nascimento até ao paraíso, seja fiscal ou não.
Em uma luta impiedosa, você terá a vontade e o desejo de mudar as coisas, mas para ter esperança de mudar o mundo, é preciso antes de mais nada compreendê-lo. Um jogo que mostra que a vida não tem pressupostos iguais para todos, para reunir a família e os amigos e discutir: “quem vencerá a luta de classes?”.
Cada caixa de Kapital! contém: 1 tabuleiro • 16 personagens • 100 cartas de ação • 400 notas de Kapital • 1 dado • 1 manual de regras do jogo.
Qual é o objetivo do jogo?
O principal objetivo é acumular pontos. Chegar em primeiro lugar significa obter pontos a mais. Acumular mais capital de um determinado tipo (simbólico, por exemplo). E, claro, inverter as relações de classe!
Cada jogador desempenha uma função atribuída a ele no início do jogo.
Existe apenas um dominante por partida, que joga para manter seu status social (e seu dinheiro). Os outros jogadores que atuam para derrubar as relações de classe são os dominados. Os jogadores se movem pelo tabuleiro rolando um dado. Para cada quadrado, puxam uma carta de ação correspondente à sua classe social (dominada ou dominante). Essas ações os fazem ganhar ou perder cartas de Kapital. Casas especiais no tabuleiro trazem surpresas e reviravoltas e podem embaralhar o resultado.
Quem são os autores?
Michel Pinçon e Monique Pinçon-Charlot (na foto, abaixo)são sociólogos, diretores de pesquisa no CNRS (Centro Nacional da Pesquisa Científica) e trabalham no CSU (Culturas e Sociedades Urbanas) do IRESCO (Instituto de Pesquisa sobre as Sociedades Contemporâneas) em Paris, França.

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Ficha técnica:
Título: Kapital! quem ganhará a luta de classes?
Autores: Michel Pinçon e Monique Pinçon-Charlot
Adaptação: Guilherme Temudo Cianfarani
Tradução: Gabriel Voliche
Edição: João Candido Maia
Criado em 2022-02-17 03:19:33
Romário Schettino –
Rio de Janeiro - A decisão do ministro Luiz Fux, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), de autorizar a realização, na próxima sexta-feira (30/4), do leilão da Companhia Estadual de Água de Esgoto do Rio de Janeiro (Cedae), provocou indignação e movimentação da sociedade civil. Preocupados em reverter essa situação, 142 entidades enviaram à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) pedido de audiências públicas em caráter de urgência até o dia 30/4.
Na carta, as entidades afirmam que "o BNDES fez alterações no Edital que não foram submetidos a nenhuma audiência pública específica da matéria, tampouco a qualquer processo de Consulta Pública".
Dessa forma, as audiências ocorridas anteriormente não teriam validade uma vez que o Edital foi alterado e as diversas lacunas que existem nos documentos resultam em riscos jurídicos, econômicos, sanitários e na exigibilidade do Direito Humano à Água.
A carta faz um breve histórico sobre o processo de privatização e chama atenção para o fato de que amanhã (29/4), pela manhã, estará em votação na Alerj o Projeto de Decreto Legislativo (PDL Nº 57/2021), de autoria do deputado estadual André Ceciliano (PT), que propõe sustar os efeitos do Decreto 4.7422/2020 que autorizou o Edital de concessão da Cedae.
No entanto, da forma como proposto não garantirá tal suspensão porque permite a edição de um novo decreto de mesmo teor, por parte do governo estadual, caso seja aprovada a renovação do Regime de Recuperação Fiscal por parte do governo federal de Jair Bolsonaro.
Outro ponto importante do Decreto 4.7422/2020 e do PDL Nº 57/2021 é relativo ao futuro porque impõe aos cidadãos fluminenses que nos próximos 35 anos os serviços de saneamento sejam geridos pela iniciativa privada, o que é ilegal haja vista a legislação estadual que diz que o tempo máximo para este tipo de concessão é de 25 anos.
A Carta afirma ainda que a sociedade não sabe o que está em risco com a privatização, como a falta de fornecimento de água nas "áreas favelizadas e nas periferias, onde se localiza o déficit de saneamento, já que a modelagem estabelece diversos condicionantes como a área ser segura´, o que, na prática, servirá para que as empresas privadas deixem de prestar os serviços nesses territórios. Nunca é demais destacar que serão as mulheres, as crianças, os jovens e as pessoas negras aquelas mais impactadas pela desigualdade na prestação do serviço."
As entidades concluem a carta afirmando que "no futuro haverá provas de que esse processo deu-se em desacordo com a vontade da sociedade e sem nenhuma preocupação com os riscos à garantia do direito humano à água e ao esgotamento sanitário da população do Estado".
STF autoriza o leilão
Com a decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luiz Fux, que derrubou uma liminar da Justiça do Trabalho no Rio que suspendia o leilão da Companhia Estadual de Água e Esgoto do Rio de Janeiro (Cedae), marcado para esta sexta-feira (30/4), as portas estão abertas para a privatização da empresa.
A decisão de Fux também impede que tribunais de primeira e segunda instância proíbam até que haja uma decisão futura sobre a questão.
Fux ordenou que o Tribunal Regional do Trabalho e o Tribunal Regional Federal da Segunda Região fossem comunicados, e o sindicato autor da ação fosse intimado para que se manifestassem. Os sindicatos alegaram que, diante do leilão, podem ocorrer demissões em massa de cerca de 4 mil funcionários da empresa.
A seguir, a íntegra da carta dirigida aos deputados estaduais do Rio de Janeiro:
Carta da Sociedade Civil aos parlamentares da Açerj sobre o Decreto 47422/2020[1] e sobre o Projeto de Decreto Legislativo de autoria do Deputado André Ceciliano (PT)
BREVE HISTÓRICO
Em 2020 foi aprovada a Lei Federal 14.026/2020, que alterou a Política Nacional de Saneamento (Lei 11.445/2007) e aprofundou o processo de mercadorização das águas no Brasil. Nesse contexto, o vice-governador Cláudio Castro (PSC) deu continuidade ao processo de concessão da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (CEDAE), a qual teve início em 2016, quando o governo de Luiz Fernando Pezão (PMDB) deu aval para que a Companhia entrasse no Programa de Parcerias e Investimentos (PPI) de Moreira Franco e Michel Temer. Em 2017, devido ao Estado do Rio de Janeiro ter decretado “Estado de Calamidade Financeira", a CEDAE foi dada como garantia do Plano de Ajuste Fiscal firmado entre o Governo do Estado do Rio de Janeiro e a União Federal. Desde então, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) vem desenhando a modelagem financeira de concessão da Companhia que se tornou pública em junho de 2020.
Conforme publicado no Diário Oficial do estado do Rio de Janeiro de 8 de Junho de 2020, páginas 15 e 16, e dia 24 de junho páginas 16 e 17, ambos na Parte I do Poder Executivo, e posteriormente divulgado na página http://www.rj.gov.br/consultapublica/ , o governo de Claudio Castro (PSC) autorizou a realização de uma Consulta Pública online dos documentos da modelagem financeira, a partir da qual foram realizadas 3 audiências públicas nos dias 25/06/2020, 07/06/20 e 04/08/2020. No entanto, após esse processo, o BNDES alterou dados na modelagem os quais não foram submetidos a nenhuma audiência pública específica da matéria, tampouco a outro processo de Consulta Pública.
Alguns exemplos de alterações: na modelagem inicial os 4 blocos de concessão incluíam os 64 municípios atendidos pela CEDAE, no entanto, 17 municípios não aderiram à modelagem, entre eles Teresópolis, Macaé,
Angra dos Reis e outros; que provavelmente terão os serviços prejudicados pelo fim do subsídio cruzado. É importante lembrar que a modelagem contempla apenas a área de distribuição dos serviços, portanto a Cedae seguirá responsável pelo tratamento da água. Preocupa o fato que a perda da sua unidade como empresa pública resulte em grave impacto no seu orçamento, colocando em risco a sua própria viabilidade econômico financeira e técnica e, consequentemente, a qualidade da água. Outra questão muito importante é que a modelagem propõe o sistema unitário para o esgotamento sanitário nas áreas favelizadas e periferias, no entanto, este tipo de sistema está em desacordo com o prescrito tanto no marco regulatório, a Lei Federal n.11.445/2007, quanto na sua revisão na Lei Federal n.14.026/2020. O sistema unitário no Brasil traz maiores riscos de poluição dos corpos hídricos e a saúde pública. Ainda sobre áreas favelizadas e periferias, onde se localiza o déficit de saneamento, a modelagem estabelece diversos condicionantes como a “área ser segura”, o que, na prática, servirá para que as empresas privadas deixem de prestar o serviços nesses territórios. Nunca é demais destacar que serão às mulheres, as crianças, os jovens e as pessoas negras aquelas mais impactadas pela desigualdade na prestação do serviço.
Apesar dos fatos, o vice-governador Cláudio Castro (PSC), que chegou a colocar em dúvida o processo de privatização da Cedae dizendo que “O Rio, com pressa, já fez maus negócios simplesmente pela questão financeira, isso não se repetirá” [2], autorizou a abertura do Leilão da Cedae (Edital 01/2020) com base na “nova” modelagem do BNDES no apagar das luzes do ano legislativo de 2020 por meio do Decreto 47422/2020.
Entendemos que uma decisão desta natureza teria que ser respaldada por uma Lei e não por um Decreto, já que se trata da alienação do patrimônio público à iniciativa privada. Em suma, todos os 70 deputados da Alerj e seus respectivos eleitores estão sendo desrespeitados.
Na semana de 05/04/21 o Decreto 47422/2020 tornou-se objeto de debates nesta Casa parlamentar devido à proximidade do dia 30/04/2021 – data limite para o certame do Leilão e período previsto para votação Projeto de Decreto Legislativo (PDL), de autoria do Deputado André Ceciliano, que propõe sustar os efeitos do Decreto 47422/2020, no entanto, da forma como proposto não garantirá tal suspensão porque permite a edição de um novo decreto de mesmo teor, por parte do governo estadual, caso seja aprovada a renovação do Regime de Recuperação Fiscal por parte do governo de Jair Bolsonaro. Ou seja, trata-se de um Decreto de barganha entre os poderes. Apesar do PDL ter recebido diversas emendas ainda não sabemos qual será o desdobramento dos fatos.
Outro ponto importante do Decreto 47422/2020 e do PDL é relativo ao futuro porque impõe aos cidadãos fluminenses que nos próximos 35 anos os serviços de saneamento sejam geridos pela iniciativa privada.
É notório nos debates da Alerj que há muitos interesses em jogo. Parte dos parlamentares defende o argumento de que a concessão da Cedae aumentará a arrecadação do Estado haja vista a previsão da outorga mínima de 10,6 bilhões pelo Edital 01/2020. No entanto, estes argumentos são questionáveis porque: i) Apenas 85% (9 bilhões) desse valor irá para o Estado e 15% para os municípios; ii) Destes 9 bilhões, 4,5 bilhões já estão comprometidos com o pagamento da dívida contraída pelo Estado junto ao Banco BNP Paribás, iii) A Cedae é a única estatal do estado que tem lucro anual de 1,3 bilhões, o que significa que em poucos anos ela própria já retornará aos cofres públicos o valor pela qual está sendo alienada.
Entendemos que outras estratégias políticas devem ser adotadas para garantir receitas maiores ao estado, em vez de privatizar o patrimônio público. Algumas delas são: auditoria independente da dívida do estado, a redução dos altos salários do Poder Judiciário e dos cargos comissionados nos poderes Executivo e Legislativo, o fim das isenções fiscais concedidas de forma indiscriminada a grandes empresas, a efetiva cobrança das dívidas bilionárias de grandes empresas com o estado e o combate à sonegação, estas associadas no plano nacional à taxação das Grandes Fortunas e dos lucros exorbitantes do sistema financeiro.
Destacamos ainda que até o momento, os principais grupos econômicos financeiros que demonstraram interesse no Edital 01/2020 já são grandes empresas que operam no mercado financeiro, como a BRK Ambiental, AEGEA Saneamento e Participações S.A., Iguá Saneamento S.A., Saneamento Ambiental Águas do Brasil S.A., GS InimaBrasil LTDA e outras que já operam em outros setores de infraestrutura e energia do país como a Conen Engenharia, Encibra Estudos e Projetos de Engenharia, Equatorial Energia, China Gezhouba Group Corporation (CGGC), China Communications Construction Company (CCCC) e State Grid (que é uma estatal chinesa). De acordo com a pesquisa “Quem São os Proprietários do Saneamento no Brasil” [1], as cinco primeiras empresas controlam 85,3% dos contratos de privatização já existentes e estão em 87,8% dos municípios onde o serviço é privatizado. Na verdade, essas empresas são grandes grupos econômicos controlados por fundos de investimento, cuja lógica exclusiva é a da pilhagem, de gerar rentabilidade para seus acionistas à custa do fundo público e dos direitos da população. Portanto, é preciso ter claro que não há nenhuma preocupação por parte delas com a universalização do saneamento no Estado.
Nesse sentido, em nome da democracia que deve pautar os trabalhos da Alerj, se faz necessário a realização de audiências públicas para efetiva discussão de tema de relevância ímpar. Aos parlamentares cabe realizar a vontade expressa da sociedade, que já demonstrou não saber as implicações de tão açodada ação no sentido de privatizar a distribuição de água no estado do Rio de Janeiro - conforme está registrado nos documentos protocolados na Consulta Pública e nas diversas intervenções da sociedade civil nas audiências. No futuro haverá provas de que esse processo deu-se em desacordo com a vontade da sociedade e sem nenhuma preocupação com os riscos à garantia do direito humano à água e ao esgotamento sanitário da população do Estado.
CRISE HÍDRICA NO ESTADO DO RIO
No ano de 2015 o estado do Rio de Janeiro enfrentou graves problemas de insegurança hídrica. Na época, os principais reservatórios de abastecimento estavam com baixíssimas reservas o que levantou amplos debates sobre a questão climática. Segundo o Plano Nacional de Segurança Hídrica (PNSH), ao tratar do índice de segurança hídrica (ISH), sinaliza que o grau de segurança na Região Metropolitana do Rio de Janeiro em 2019 é mínimo em virtude dos elevados riscos às dimensões humana, econômica e ecossistêmica (ANA, 2019). O ano de 2020 começou e terminou com sérios problemas no abastecimento de água na região metropolitana do Rio de Janeiro.
Em pleno verão a água que saía das torneiras tinha cor, odor e gosto, os noticiários informavam que a má qualidade da água devia-se a presença de quantidades elevadas de geosmina na água, uma substância produzida por cianobactérias geradas pelo lançamento indevido de esgoto sanitário a montante do maior manancial do Rio de Janeiro, onde é o ponto de captação da Estação Guandu, principal estação da Companhia
Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) que é responsável pelo abastecimento de 70 % da população da região metropolitana do Rio de Janeiro. À época, devido ao aumento da demanda por água potável, o preço da água engarrafada e dos caminhões pipa subiu vertiginosamente. Grande parte da população que não possui renda para comprar água passou a conviver com problemas de saúde como diarreia, problemas de pele e dores de cabeça.
Passados alguns meses, em novembro de 2020, mais uma vez a população passou a conviver com o desabastecimento de água devido a um reparo emergencial em um dos motores da Elevatória do Lameirão, que fica no bairro de Senador Vasconcelos e faz parte do Sistema Guandu de abastecimento. Se estivéssemos num período “normal” já seria um problema grave, mas com a pandemia de Covid-19 a ausência de abastecimento de água regular e de qualidade tornou-se um problema gravíssimo de saúde pública haja vista que a higienização das mãos é uma das medidas de prevenção da transmissão do Coronavírus. Dada a gravidade do ocorrido, tanto a Defensoria Pública como o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro perpetraram ações judiciais para que a Cedae entregasse água regular e adequada à população bem como desse desconto nas contas correspondentes ao período em que o consumidor ficou sem o serviço[3].
Os fatos acima relatados demonstram o agravamento da degradação do manancial do Guandu, mas também reflete o processo de sucateamento da Cedae e de precarização das políticas públicas de saneamento básico nos últimos governos, que são exatamente aqueles defensores do processo de privatização em curso. Prova desse sucateamento é que no ano de 2020 foram demitidos 54 funcionários da companhia, alguns dos quais tiveram que ser reconduzidos às suas funções após eventos relativos à crise da geosmina.
Sendo a Cedae é uma empresa pública superavitária, entendemos que seus recursos deveriam ser aplicados exclusivamente no saneamento básico, o que melhoraria não só as condições sanitárias do Rio de Janeiro como conduziria de forma mais efetiva para a estratégia de universalização dos serviços de saneamento com qualidade.
Exigimos a reversão do fraudulento processo de privatização em curso e defendemos que a Cedae funcione de modo transparente como empresa pública, indivisível, cujos lucro anual de 1,3 bilhões advindos pela prestação de serviço seja prioritariamente revertido na ampliação, manutenção e conservação de sua infraestrutura de saneamento e na melhoria da qualidade de seus serviços.
No entanto, diante das baixíssimas taxas de tratamento de esgoto no estado do Rio de Janeiro, para além de uma Cedae pública, exigimos que os contratos estabelecidos entre municípios e a Cedae definam as metas de expansão do abastecimento de água e esgotamento sanitário; assim como as prefeituras atuem na fiscalização destes contratos junto à Cedae e que as companhias municipais de saneamento e as concessionárias privadas que operam no território fluminense estejam sujeitas à regulação pública e ao controle social. Defendemos ainda a efetiva democratização do Conselho de Administração da Cedae, garantindo assento aos consumidores, à academia e à sociedade civil, bem como a realização de concurso público para a Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico do Estado do Rio de Janeiro (Agenersa), que atualmente possui menos de 20 funcionários de carreira e será a agência responsável pela fiscalização dos contratos dos grupos econômicos financeiros que pleiteiam o Edital 01/2021. Tal situação demonstra a fragilidade da regulação pública sobre entes privados, uma situação que dificilmente se alterará devido ao próprio Regime de Recuperação Fiscal que proíbe a realização de novos concursos.
Considerando este cenário, entendemos que na gestão privada a participação social, o controle social, a transparência e publicidade das decisões sobre investimentos prioritários e sobre intervenções de obras a serem executadas pela futura gestão não estão de acordo com os princípios democráticos da gestão pública nem com a defesa do direito humano à água.
SOLICITAÇÕES
Tendo em vista o exposto, as entidades abaixo subscritas vem, por meio desta, solicitar aos parlamentares desta casa a realização de uma audiência pública em caráter de urgência sobre a matéria, impreterivelmente antes do dia 30/04/2021, para qual sejam convocados:
- Marcelo Verdini Maia, conselheiro substituto do Tribunal de Contas do Estado responsável pelo Processo TCE 100.167-5/21 que trata do EDITAL DE CONCORRÊNCIA PÚBLICA INTERNACIONAL Nº 01/2020
- André Dickstein, promotor de Justiça do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro que, à época da Consulta Pública, colocou óbices ao Edital do BNDES e reivindicou a importância do controle social e transparência no processo, especialmente no que se refere ao valor das outorgas mínimas previstas pelo BNDES de 10,6 bilhões.
- Representante do Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente (Gaema), do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) que tem acompanhado a crise hídrica do estado e os riscos de que a Cedae não tenha mais receita para seguir com as obras de ampliação de seu sistema, com destaque para as obras do GUANDU-2, que beneficiariam a Baixada Fluminense.
- Representante do Instituto Rio Metrópole
- Representante da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro
- Representantes do Observatório dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS)
- Representantes da FIOCRUZ / UFRJ/ UFF/ UEZO, a
- Representantes dos trabalhadores da CEDAE, vinculados aos sindicatos de classe como o Sindágua-RJ e o SINTISAMA
ENTIDADES QUE SUBSCREVEM A CARTA
TERESÓPOLIS (ACERDAT-RJ)
DE MIGUEL PEREIRA, PATY DO ALFERES RJ E ADJACÊNCIAS (ADEFIMPA-RJ)
(ALMA)
FLUMINENSE DARCY RIBEIRO (APG/UENF)
(ASIBAMA)
(FAMEJA)
DE GUANABARA (FAPP-BG)
CAXIAS
URBANISMO DA UFRJ (LEAU/UFRJ)
MEIO AMBIENTE)
(SINFA-RJ)
(SINDIQUÍMICA-CAXIAS)
(SINTUFRJ)
ESGOTOS DO ESTADO DA PARAÍBA (SINDÁGUA-PB)
(SINTERGIA-RJ)
JANEIRO E REGIÃO (SINTSAMA-RJ)
SERVIÇOS DE ESGOTOS DE NITERÓI E REGIÃO (SINDÁGUA-RJ)
PARACAMBI, BELFORD ROXO, QUEIMADOS, JAPERI, SEROPÉDICA E MESQUITA (SINCOVANI)
DE CAXIAS (SEPE-CAXIAS)
TRABALHADORES DA CASA DA MOEDA DO BRASIL)
SERVIÇOS DE ESGOTO DE CAMPOS E REGIÃO NORTE E NOROESTE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (STAECNON)
(UNEAFRO)
[1] Decreto nº 47.422 de 23 de dezembro de 2020, que dispõe sobre a concessão da prestação regionalizada
dos serviços públicos de abastecimento de água e esgotamento sanitário e dos serviços complementares dos
municípios do estado do Rio de Janeiro. Disponível em:
http://www.concessaosaneamento.rj.gov.br/publicacoes-oficiais/DOERJ_28.12.2020_Decret_Art_5.pdf
Acesso em 01/04/2021.
[2] MEDEIROS, Pedro. Claudio Castro diz que governo pode reconsiderar a privatização. Jornal O Globo, Rio de
Janeiro, 29 de outubro de 2020. Disponível em: https://oglobo.globo.com/rio/claudio-castro-diz-quegoverno-pode-reconsiderar-privatizacao-da-cedae-24718512 Acesso em 23/03/2021
[3] DPRJ cobra da CEDAE solução para a falta d´água no Rio de Janeiro e Nilópolis. Site Defensoria Pública, 26
de novembro de 2020. https://defensoria.rj.def.br/noticia/detalhes/10891-DPRJ-cobra-da-Cedae-solucaopara-a-falta-d-agua-no-Rio-e-Nilopolis Acesso em: 23/03/2020
Criado em 2021-04-28 22:11:04
Maria Lúcia Verdi -
Maria Augusta Ramos, Guta, Maria Ramos, a diretora de O Processo mas também dos longas “Desi”; “Brasília, um dia em fevereiro”; “Justiça”; “Juízo”; “Futuro Junho”; “Morro dos Prazeres”; “Seca”, é de Brasília, embora viva entre Rio e Amsterdam.
Amigas há mais de vinte anos, propus a ela uma conversa–entrevista que fosse além do que significou O Processo ter sido ovacionado por mais de cinco minutos em Berlim.
Teriam o despojamento de Brasília, o traçado, a vastidão influenciado sua estética? Concordando, disse-me que, para ela, “a primeira representação de cidade é o espaço brasiliense”. Nas primeiras vezes que foi ao Rio de Janeiro, sentia-se perdida no espaço urbano, no caos da cidade tradicional. Contou o quanto “a lógica formal da cidade, os enquadramentos” a marcaram.
Com formação em música e mestrado em música eletroacústica feito em Paris, crê que “tudo na música é formal”. Seja a estética de sua cidade natal, seja sua formação a encaminharam para o registro racional, estruturado de uma cinematografia muito particular.
Mas também a família influenciou. Conta um pouco sobre sua família, não diversa da família patriarcal brasileira, onde tantas vezes a mãe defende valores machistas: “Conheci o machismo em casa, a partir de uma mãe conservadora, com atitude machista em relação a mulher. Paradoxalmente, ela me estimulava para ser uma profissional. Estudava muito, três quatro horas por dia de piano. A minha ambição, capacidade de trabalho, o desejo de deixar uma marca, comunicar, tiveram a influencia dela, da demanda materna querendo me incutir o lema: eu sou o que faço. A frase repetida: `se não estudar você não vai ser ninguém´”.
Criada com repressão sexual, mas com o estímulo para ser reconhecida, precisava afirmar-se com seu trabalho. O cinema é sua antiga e permanente paixão. Paixão pelo cinema de arte que havia frequentado na adolescência na Cultura Inglesa, como tantos de nós. Mas “naquela época a Embrafilme estava quebrada, sem possibilidade de mudar da música para o cinema”.
Guta tinha dificuldade de romper com uma possível carreira na música, e se decide por fazer mestrado em música em Paris, o que faz. Mas como no fluxo da vida sempre surgem outros caminhos, decide, então, mudar de rumo, tentar estudar cinema. Acaba por entrar para a Academia de Cinema de Amsterdam, enfrentar a dificuldade do aprendizado da língua, o casamento, a crise existencial dos 27 anos e mergulhar na sua busca de uma vocação.
Estudar cinema em Amsterdam a transforma no que já era e não sabia. Quer aprender como filmar, encontrar e desenvolver uma sua linguagem - rompe com a música e decide-se pelo cinema documental.
O ethos do trabalho estimulado em casa ela reencontrou na Holanda calvinista: “Na Holanda as pessoas vivem para trabalhar”. Bateu a cabeça, experimentou, e se descobriu. Após o primeiro filme estava certa de que aquela era a sua escolha profunda, apesar das imensas dificuldade de fazer cinema: “Buscar verba, lidar com a produção, com a equipe, com o acaso - é sempre uma aposta”.
Mas Maria Ramos não se identificava com os documentários tradicionais, não a “comoviam”. Na Holanda foi apresentada aos grandes documentaristas holandeses e ao cinema reflexivo de Joris Ivens, Johan Van der Keuken e do francês Raymond Depardon, autores de filmes de observação, de busca de uma excelência estética e ética: “Documentários, mas produtos artísticos extremamente formais, que questionam a realidade mais do que tentam explicá-la ou propor soluções”. Isto era o que queria fazer nos documentários: “Uma construção com círculo dramático, algo com algum mistério”. Ou seja, inovar...
Trabalhou para a TV holandesa, fez vários curtas, lá havia espaço para suas propostas e incentivos: “Produtores que ajudavam, não se faz um filme sozinha”.
Reconhece conhecer pouco do cinema brasileiro, embora muito do europeu e do asiático. Tem em Antonioni, Ozu, Bresson e Chantal Akerman, referências fundamentais. Justifica ter maior paixão por esses cineastas do que, por exemplo, por Glauber Rocha, devido a essa formação europeia. Confessa que seu maior interesse era o cinema de ficção e não o documentário.
Aplicou-se nos estudos da arte cinematográfica, muita técnica, intensa busca da forma - decoupagem, efeitos de diferentes lentes, som, edição, montagem - o que faz a diferença do cinema de arte. E isso tudo ela queria aplicar para documentar o que via na e da realidade, seu objeto de interesse e estudo, formada que foi por um olhar sociológico, nascido da leitura de Marx, de Freud, dos pensadores da Escola de Frankfurt.
“Você comunica pela forma e não pelo conteúdo, a forma define o conteúdo. Bresson e Van der Keulen concordam no dito: a forma é o que eu quero dizer. A maneira como você filma define o conteúdo. Uma câmera em movimento ou uma câmera estática muda a percepção do que está sendo dito, a percepção do conteúdo vai ser diferente por parte do espectador. Com a câmera em movimento você vai perceber outros objetos do que quando ela está estática, colocando o espectador como observador”.
Os documentários de Maria Augusta, feitos sem comentários e entrevistas, com cenas construídas a partir dos “personagens” - as pessoas documentadas neles funcionam como personagens. Personagens que vão se revelando a medida em que se desenvolve o filme, seguindo uma narrativa que é próxima da ficção. Documentários formais, reflexivos - que nome dar à sua estética?
Maria Ramos, a musicista, não usa música nos filmes. Sem trilha sonora, a música será a que vem da realidade do dia a dia, nas ruas, nos prédios, nas instituições, nos corredores do poder. Na sua proposta de cinema, formal, construído, os documentários são feitos com a matéria da realidade na qual o som tem 50% de participação: “A autenticidade do documentário está também relacionada ao som direto do que está sendo filmado. A música seria uma distorção”.
A narrativa é tecida a partir da imagem e do som do entorno da cena. Os sons concretos, que pertencem à realidade filmada, também são personagens - os sons e ruídos serão trabalhados, isolados, realçados ou não para assim funcionarem. Os sons do momento da filmagem de cada cena, o desejo da escuta total ao espaço-tempo do presente. Realismo absoluto.
Em todos seus longas, às vezes escutam-se sons independentes das imagens na tela, sons fora do campo da imagem: “A pessoa sai do quadro e a câmera não a segue, apenas se escuta o que ocorre, há uma sugestão, as lacunas das imagens, da continuidade em elipse provocam a imaginação. Provocam um espaço, um tempo para o espectador pensar, se ver dentro do que está na tela. Na edição é preciso incluir o tempo para o espectador ter uma pausa”.
Erika Bauer, cineasta e professora de cinema da UnB, pergunta qual a reação de Maria Augusta frente à realidade das novas tecnologias, das novas mídias, considerando até mesmo dificuldade dos jovens em ir ao cinema, do uso do celular como instrumento de filmagens que serão logo compartilhadas em redes sociais. Resposta: “Tenho compromisso com minha linguagem estética, um cinema reflexivo, de questionamento, que necessita de tempo para pensar, que se traduz no ritmo da edição. Não me proponho a aprender outro tipo de linguagem para atrair público mais jovem, eles mesmos o fazem. Acredito que alguns jovens poderão se identificar com uma proposta de cinema que não é didática, educacional, que vise contar a história do Brasil... É uma questão poética”.
Afirmação interessante pois, se não se propõe a contar a História do Brasil, não se pode não ver o quanto toda sua filmografia se ocupa de aspectos da realidade da sociedade e da história contemporânea do país. Talvez queira dizer que traz a sua versão da História com as histórias de seus cidadãos-personagens, uma poética, como disse.
E Guta continua: “Para mim o registro pelo celular feito pelos jovens – essa prática de todo mundo sair filmando, isso não é arte, arte tem de envolver um pensamento poético, artístico que vem de uma reflexão seja ela do audiovisual, artes plásticas, da literatura. Filmar qualquer coisa de qualquer maneira é uma banalização. Se você usar o celular usando a reflexão, com um objetivo artístico, tudo bem”.
E comenta algo importante sobre o Mídia Ninja: “Eles têm uma função essencial mas estão registrando muito mal, não tem experiência de cinematografia e, com arrogância, acham `que é assim mesmo`. Você perde muito do registrado devido à filmagem ruim. Não é verdade que com uma câmera qualquer um pode fazer cinema. É preciso conhecer o que foi feito antes, estudar”.
Dando como exemplo a poesia concreta e o quanto os poetas concretos estudaram a tradição para chegar ao poema mínimo e visual, Guta critica o fato de que “hoje em dia as pessoas querem fazer arte com três palavras sem passar por nada, ligar a câmera sem passar por nada”.
O Processo levou dois anos para ser filmado. “Dúvidas, desafio, insegurança, aposta” marcaram a decisão da diretora. Tudo muito difícil, confronto constante, sempre os “temas complicados” que não terminam de seduzi-la. Sente que cada filme é como o primeiro, sempre um novo desafio, quer estar à altura, se entrega, sofre. Lembra das dificuldades para filmar “Justiça”, lidar com o universo dos menores encarcerados, das dificuldades em lidar com a polícia para filmar “Morro dos Prazeres”.
Com O processo, mesmo sendo o oitavo longa, as dificuldades se multiplicaram. A consciência de que fazia algo que era um documento especial e de que queria filmar para todos os públicos, o brasileiro, o estrangeiro, pessoas de todas as origens e orientações. “É tão do Capitalismo, do pensamento de mercado, isso de que você tem de filmar para um certo público. Meu comprometimento é com a estética e a ética e não com um determinado público”.
O jornalista Romário Schettino pergunta se ela pretendia realizar um filme imparcial, resposta: “O filme é honesto enquanto parcial, subjetivo, não se pretende um filmes isento, imparcial. Acho que mesmo assim, ele dá conta de um processo complexo, apesar da esquerda ter sido mais retratada”.
Também pergunta Romário sobre a ausência de legendas de apresentação das pessoas filmadas: “A cartela com os nomes, o partido das pessoas documentadas: nenhum dos meus filmes as empregou. Pela situação colocada, no Processo, como nos filmes anteriores, você vai descobrindo os personagens pela fala, gestos, pelo que dizem. Prefiro evitar o `carimbo` Fulano do PT, do PSDB - prefiro descobrir o personagem, problematizar a pessoa retratada”.
É contra o facilmente digerível, não quer um cinema facilitado, quer a atenção, a escuta e participação do público: “Nem mesmo um parlamentar é unidimensional, as pessoas são contraditórias, complexas, é preciso fugir do maniqueísmo”.
No caso do público estrangeiro vendo seus documentários, premiados em vários festivais internacionais, “ele descobre quem é quem pelos argumentos, pelas falas, para ele siglas, instituições e nomes nada significam. Aos poucos as situações se esclarecem”.
O cineasta, ensaísta e professor de cinema da UnB, João Lanari pergunta se a diretora de O Processo gostaria de ter tido mais tempo para a edição: “É sempre bom ter mais, mas acho que o filme é exatamente o que é; estou feliz com a montagem. Karen Akerman, a montadora, e eu editamos durante seis meses, diariamente. Eu venho de formação profissional onde um projeto tem inicio meio e fim, em um tempo determinado. Se eu não estivesse feliz com o produto, não teria exibido, teria continuado trabalhando nele. Não faria outro filme com as tantas horas que tenho filmadas. O Processo é o retrato daquele momento”.
Respondendo à outra colocação de Lanari, diz: “Se tivesse tido acesso às bases dos senadores pró-impeachment eles teriam sido mais contemplados, teria sido interessante, mas não tive acesso aos bastidores da direita. Mas os argumentos da direita são contemplados”.
O que vejo na cineasta premiada, na mulher batalhadora, é uma inteligência que não se conforma com o que estamos vivendo e que busca, numa linguagem peculiar, expor essa realidade. O que me impressiona na obra de Guta é o fato dela conseguir, com um naturalismo às vezes chocante mostrar os horrores brasileiros, esfrega-los na nossa cara, ao mesmo tempo em que, sem qualquer sentimentalismo, toca nosso coração ao mostrar a situação das crianças, dos jovens encarcerados, das prisões atoladas, de uma população de excluídos que precisa ser educada, atendida, que precisa que o Estado lembre-se dela.
____________________
Filmes longas de Maria Augusta Ramos:
Brasília, um dia em fevereiro (1995), vencedor do prêmio do júri no Festival de Documentários do Rio de Janeiro - "É Tudo Verdade".
Desi (2000), primeiro lugar no IDFA, mais importante festival de documentários da Holanda.
Justiça (2004), ganhador de 9 prêmios internacionais.
Juízo (2008), filme que trata do sistema judiciário brasileiro.
Morro dos Prazeres (2013), mostra a convivência numa comunidade carioca após implantação da UPP.
Futuro Junho (2015), filmado semanas antes da Copa de 2014 em São Paulo.
Seca (2015), aborda a ausência de água numa comunidade nordestina brasileira.
O Processo (2018), sobre o impeachment da presidente Dilma Roussseff. Exibido no Festival de Berlim.
Entre os vários filmes de curta-metragem estão:
Eu acho que o que eu quero dizer é... (1993)
Boy e Aleid (1994)
Two Times at Home (1996)
The Secret of the Vibrato (1998)
Rio - um dia em agosto (2002)
Maria Augusta Ramos também dirigiu, em 1998, a série de episódios de documentários de média-metragem para a TV holandesa "Butterflies in Your Stomach".
Criado em 2018-07-14 04:15:22
Angélica Torres –
Não é uma inverdade afirmar que o PT não conseguiu se manter como o partido dos sonhos de muitos que apostaram alto nessa esperança. Mas são também muitas as condicionantes que influenciaram esse quadro - o que não é o mote deste artigo.
Indo sem rodeios ao que interessa, é necessário, sobretudo, ressaltar o que outros muitos já analisaram, mas que reforço, ou lembro ou alerto ao meu modo, sem me arvorar em juiz de acusações. Apenas com noção de justiça cidadã.
Pra começo de conversa, além de ter as maiores condições para frear a onda perigosa que se aproxima, o PT detém o direito de, no mínimo, reaver os dois anos do mandato surrupiado de Dilma Rousseff, para terminar o que não puderam - e que era não apenas um seu direito. Era obrigação dela, para com seus eleitores, completar o trabalho.
Eu que não sou filiada, mas votei em Dilma, sempre me indignei, perplexa, com o dar de ombros a esse direito legítimo, não pelo óbvio lado da direita, mas de esquerdas que também a repudiava e que até hoje a acusa e recrimina o partido por todos os males despejados sobre o país.
Se nada provaram contra ela e Lula, então, que voltem ao Palácio do Planalto. Só que nem assim serão compensados. Continuarão lesados, porque, no caso de o partido ser reeleito para a Presidência, terão no fim das contas apenas dois anos para tentar encarrilhar o Brasil de novo, mas agora inteiramente destroçado, no caminho que vinha sendo construído.
Ou seja, foram e continuam injustiçados pela direita e também pelos das esquerdas que lhes torcem o nariz, insistindo na ignorância, ou no descaso, a essa simples mas real aritmética.
Não parece nada digno aproveitar a onda golpista e reforçar a barbaridade cometida contra eles e contra o povo brasileiro - sem falar em Lula, perversamente engaiolado -, sejam quais forem as críticas a seus governos (legitimados nas urnas, lembram?).
Seria também arrogante não admitir que o PT vem se mostrando mais poderoso em dar a volta por cima do que qualquer um de nós poderia supor, com tanta lambada que levou, que ainda leva e que sabe que continuará levando. Isso não significa pouco.
É o partido mais forte e coeso que continua a existir no Brasil, com todos os passos em falso que deu e os defeitos que naturalmente tem, mas que a experiência os fez visíveis e o bom senso e a responsabilidade devem impedir que se repitam e se sedimentem.
Quem não erra? Quem não tem defeitos? Quem não deve, não pode, ter o direito e o dever de corrigi-los?
Além do que, considerando a atual realidade, é palpável que Fernando Haddad e Manuela d'Ávila representem o novo e não só nas caras jovens e bonitas de ambos, mas na aura transparente, em seus firmes, inteligentes, discursos humanistas, no estilo que acenam como irão governar.
E mais: rodeados pelos bons candidatos dos demais partidos à esquerda, que vão se unir na hora H, serão depois convocados a participar da reconstrução do país. Ele, Haddad, já anunciou essa sua disposição.
Isso não é uma bagatela. Significa muita coisa e mais ainda. Significa fazer justiça com união de forças, ainda que tardia. Significa futuro. Felizmente agora com muito mais conhecimento de causa e efeitos.
Oxalá!
Criado em 2018-09-18 20:06:03
Romário Schettino –
Já era esperado, mas o percentual de 88,09% dos votos válidos (76.285) dados a Fabiano Horta, prefeito do PT reeleito em Maricá (RJ), superou todas as expectativas. Horta já é considerado um fenômeno nacional. Além disso, a governabilidade está garantida com 16 vereadores da base e apenas um da oposição. O PT passou de 3 para 4 vereadores. O PCdoB e o PDT ficaram com 3 cada um. Os outros seis são dos partidos da coligação.
Um dos segredos desse sucesso, além do modo petista de governar, foi a ampla aliança que Horta conseguiu articular, unindo ao PT mais cinco partidos: MDB, PDT, Avante, PCdoB e Cidadania. O vice eleito na chapa puro sangue é o petista Diego Zeidan, provável sucessor em 2024.
Fabiano Horta se reelegeu ancorado em politicas públicas sociais como a tarifa zero no transporte público – sucesso internacional – e a renda universal – paga com a moeda social, conhecida como Mumbuca – de circulação exclusivamente local.
Como plano de governo de continuidade, Horta propõe ampliar as vagas na educação infantil, manter o programa Passaporte Universitário, implementar centro comunitário de idiomas e ampliação dos Centros de Educação Pública Transformadora. Na saúde, as propostas incluem a ampliação de atendimento no Hospital Che Guevara com exames de alta complexidade e cirurgias, expansão do programa saúde da família, implantação da maternidade municipal, entre outros.
Também há propostas para ampliar o Renda Básica da Cidadania, implantação de um Restaurante Popular e a criação de um ‘Banco de Alimentos’. Para o próximo governo, Fabiano Horta propõe a ampliação do transporte gratuito para toda a cidade, além de expandir a quantidade de ciclovias e parques e praças públicas, água para todos e saneamento básico.
Maricá é uma das cidades pioneiras no Brasil na implementação de um auxílio emergencial durante a pandemia da Covid-19, crédito para micro e pequeno empresário e investimento na agricultura familiar e orgânica. Veja o plano de governo completo de Fabiano Horta aqui.
A cidade tem atualmente 161.000 habitantes e vive basicamente da produção de petróleo. A exploração do campo de Lula, pela Petrobras, é o principal responsável por garantir consideráveis receitas de royalties ao cofres da prefeitura, valor que tem crescido ano a ano. Em 2017, Maricá se tornou a cidade do Estado do Rio que mais recebeu royalties (R$ 746,78 milhões).
Desempenho do PT – Na avaliação de Fabiano o desempenho eleitoral do PT foi positivo, mas ele está empenhado agora em ajudar, no segundo turno, a eleição do candidato petista Dimas Gadelha (na foto, abaixo) no município vizinho de São Gonçalo, que recebeu 117.346 votos válidos (31,36%). A disputa lá é com o Capitão Nelson (Avante), que teve 85.399 votos (22,82%).

O prefeito Horta esteve no primeiro turno em São Gonçalo, mas vai dar prioridade total nesta segunda rodada. No programa de governo de Dimas estão as propostas vitoriosas de Maricá. Horta considera que uma “vitória em São Gonçalo consolidará o partido na região”. São Gonçalo é o segundo maior município do estado do Rio, com mais 1 milhão de habitantes.
Leia matéria correlata no link aqui
Criado em 2020-11-19 03:04:58
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Vocês já notaram que as pessoas “de bem” em geral, com as honrosas exceções de praxe, quer dizer, pró-vida, contrárias ao aborto e à eutanásia, costumam ser a favor do armamento da população, da pena de morte e da execução sumária de quaisquer viventes que tomam por “bandidos” (isto é, que não sejam nem policiais nem milicianos)?
Comentário à margem: por falar em bandidos de vera, alguém aí tem notícias do sargento da Aeronáutica Manoel Silva Rodrigues, aquele carinha da comitiva do presidente Bolsonaro preso em Sevilha em junho de 2019 por contrabandear 39 quilos de cocaína?
Essa gente não está nem aí para os 420 mil mortos na pandemia nem se preocupa com a probabilidade desse número estar duplicado até o fim do ano.
A turma sai na rua sem máscara, defende o tratamento precoce da cloroquina, pilota motos sem capacete e repete as patacoadas do seu Capo, como essa última: “Preferimos morrer lutando a perecer em casa”. “Lutar”, no caso, significa promover festas clandestinas ou aglomerações públicas e carreatas de SUV para esculachar o Supremo e o Congresso, pedir o voto impresso e a volta da ditadura.
Engraçado, não se percebe nenhuma movimentação desses caras em defesa do general de três estrelas Eduardo Pazuello, ex-ministro do Coronavírus, com o depoimento agendado para a CPI da Pandemia no próximo dia 19.
Como é que é? Não pode chamar o Papazu de “general” para não provocar o Exército? Mas rapá! Será que isso é mais grave do que computar (e segue a contagem...) as baixas equivalentes a quatro guerras do Paraguai?
Ah, antes que esqueça: escolher vacina é outro traço interessante do caráter desses filhotes da Peste com a Gangrena – refiro-me aos mais espertinhos, bem entendido. Hoje cedo encontrei a Dona Santinha do Pau Oco, aquela minha vizinha católica avivada vivaldina pró-vida. Perguntei:
– Já vacinou, Dona Santinha?
– Ainda não, seu Carlos. Tô esperando a minha vez.
– Mas, Dona Santinha, a sua fila não abriu dia 30? Vai me dizer que a senhora está escolhendo vacina!
– Que isso, seu Carlos, imagine, pra mim tanto Pfizer!
Criado em 2021-05-10 19:26:58
Mateus Porto Schettino (*) –
Madri (Espanha) – Nos últimos meses, diversos veículos de comunicação vêm anunciando a existência de um boom das bicicletas elétricas nas cidades. Periódicos locais e de circulação nacional, webs e blogs especializados destacam o aumento do uso e das vendas desse tipo de veículo atribuídos à situação da pandemia.
Em geral, os textos exaltam as vantagens da e-bike e anunciam um futuro promissor para esse tipo de veículo. Por outro lado, pesquisadores tentam definir com precisão a eficácia dos sistemas de pedal assistido em comparação com outros modos de transporte, estimar o custo global da tecnologia e a aceitação do produto no mercado.
Manter a tendência de crescimento depende da nossa decisão sobre qual pode e deve ser o papel das bicicletas elétricas no contexto da mobilidade urbana em relação a outros usos da via pública. Portanto, interessa discutir suas vantagens, mas também seus inconvenientes e limitações.
Façamos, pois, algumas perguntas sobre a bicicleta elétrica:
É uma novidade? – A bicicleta elétrica foi inventada pouco depois que a convencional. Em 1817 o alemão Karl Freiherr von Drais apresentou um protótipo de madeira bastante rudimentar e, em 1890 o inglês John Kemp Starley introduziu a bicicleta moderna no mercado. Já nessa época foram registradas várias patentes de motores elétricos para bicicletas nos Estados Unidos, sem muito sucesso até metade do século passado.
Nos anos 40, a indústria automobilística se dedicou à II Guerra Mundial e as bicicletas elétricas tornaram-se uma alternativa à reduzida oferta de veículos a motor. Outro período de alta foi depois da crise do petróleo de 1973, quando a grande vantagem era não depender das flutuações do preço do óleo cru.
Nos anos 80, o suíço Egon Gelhard inventou a bicicleta elétrica que é utilizada hoje em dia. O sistema chamado pedal assistido consiste em ajudar a pessoa que conduz a bicicleta com a tração do motor elétrico, mas este só se põe em marcha se houver a pedalada.
Nos anos 90, as grandes marcas contavam com o novo modelo comercial, mas o produto não teve grande aceitação do mercado. Foi em 2005, com o auge das baterias de lítio, que se retomou a produção de forma significativa.
Desde essa época, as vendas cresceram progressivamente, até que recentemente registrou-se um incremento vertiginoso na demanda. O repentino interesse pelas bicicletas em geral, e as de pedal assistido em particular, estaria relacionado com outra crise histórica. Dessa vez, é a crise ambiental, que gera mudança climática e pandemias, que nos obrigam a mudar nossos hábitos de mobilidade. E as bicicletas, são, mais uma vez, parte da solução.
Há um boom? Antes da pandemia, em 2018, foram vendidas mais de 2,5 milhões de bicicletas de pedal assistido na União Europeia, destando-se a Alemanha e Países Baixos com 23,5% do total. Na Espanha, entre 2013 e 2018 foram vendidas pouco menos de 276 mil unidades (4,2% do total do vendido no país).
Depois do confinamento total, o movimento nas oficinas e a demanda por peças mostraram que muitas pessoas estavam recuperando suas velhas bicicletas enquanto outras foram às compras. Segundo a Associação de Marcas de Bicicletas da Espanha, as lojas registraram um aumento na demanda em torno de 400% em relação ao período anterior à pandemia. Venderam-se principalmente modelos econômicos, mas as elétricas também foram bastante procuradas.
Como em todas as capitais europeias, o uso de bicicletas também foi notável em Madri. Além das bikes particulares, aumentou o uso de bicicletas públicas. Em uma Madri sem turistas, o BiciMAD, dotado apenas de elétricas, registrou, entre abril e maio, a média de 300 adesões diárias.
Outro fator de crescimento relacionado com a pandemia são as vendas feitas pelo comércio eletrônico, os pedidos de comida e entrega em domicílio, que incrementaram o uso das bicicletas elétricas pelos entregadores.
As bikes elétricas são boas por que requerem pouco esforço? – Entre as principais justificativas para não usar a bicicleta convencional está o fato de se chegar suando no trabalho. O motor elétrico resolveria este inconveniente, permitindo que mais pessoas saiam de bicicleta. Segundo pesquisas do setor, 39% dos espanhóis estariam dispostos a utilizar uma bicicleta elétrica para ir ao trabalho.
No entanto, ver o menor esforço como uma vantagem só reforça o velho conceito de mobilidade ancorado na comodidade herdada da motorização. Associar a locomoção à comodidade desestimula hábitos saudáveis de mobilidade. Resolver inconvenientes com o uso do motor elétrico ofusca outras possíveis soluções para o problema.
Por exemplo, equipar os espaços de trabalho com vestiários ou simplesmente facilitar a circulação do ciclista em uma rede cômoda, segura e bem conectada. Redes que, com o traçado adequado de ciclovias, reduzem o impacto que possa ter as subidas íngremes e a disputa por espaço com os carros.
As pesquisas revelam que pior do que o suor inconveniente, como um dos principiais motivos para não se usar a bicicleta, está o risco de acidentes graves. As pessoas também afirmam que a principal razão para se utilizar as bicicletas é fazer exercício, não contaminar o meio ambiente e economizar dinheiro.
É mais rápida? – Um motor com potência nominal de 500W permite que a bicicleta elétrica alcance velocidades entre 35 e 38 km/h, dependendo do diâmetro do aro (26´´ ou 28´´). Sem dúvida uma velocidade alta que deve ser levada em conta para a segurança no trânsito. O risco de lesões graves em caso de acidente aumenta, assim como o perigo para pedestres se as bicicletas elétricas circulam pelas calçadas.
Entretanto, a velocidade média em áreas urbanas depende de outros fatores, como o motivo e o tipo de itinerário, condições de tráfego e infraestrutura, capacidade física e destreza para conduzir a bicicleta.
Em um estudo realizado em Madri, usuários do BiciMAD registraram velocidades ligeiramente inferiores às dos ciclistas habituados em viagens para o trabalho (15,71 e 15,75km/h). A grande diferença foi marcada pelos entregadores (19,6km/h em média, excluindo as cargo-bikes, de 11,4km/h).
Não poluem? – A bicicleta elétrica tem uma eficiência muito alta em comparação com os automóveis e motocicletas. Entretanto, não está livre de emissões, pois depende de energia elétrica externa. Na Espanha, a eletricidade consumida ainda provém, em boa parte, da queima de combustíveis fósseis.
É preciso considerar o custo global, valorizando o benefício de não poluir durante o deslocamento, bem como ter em conta a energia consumida e as emissões implícitas desde a extração do material para a fabricação, até a gestão dos resíduos (bateria inclusive).
Um estudo da Faculdade de Engenharia Civil de Estradas, da Universidade Politécnica de Madri, concluiu que a bicicleta elétrica emite cerca de 300 kg de CO2 durante sua vita útil, percorrendo em media 20 mil km. Uma pegada de carbono 16 vezes menor que a de um automóvel convencional, mas muito superior à de uma bicicleta mecânica.
E é mais barata? – É preciso fazer uma distinção entre a economia doméstica e os serviços púbicos. No primeiro caso, fora o preço da bicicleta elétrica (em torno de 1.200 euros) ou da adaptação de uma bicicleta convencional (500 euros), estima-se um gasto mensal de 29 euros com a manutenção de uma bike elétrica para uma circulação de 300 km.
No segundo caso, estudos do Observatório da Bicicleta Pública na Espanha indicam que o custo dos sistemas por bicicleta/ano variam da seguinte forma: convencional: 1.081 euros; elétrica: 3.172 euros e misto: 1.986 euros. Em ambos os casos, além do custo da energia e o trabalho periódico com a manutenção típica de qualquer bicicleta, as elétricas tem o motor, a bateria, componentes elétricos e eletrônicos, que exigem cuidados extras com a chuva.
A complexidade dos consertos geram mais custos e dependem de serviços técnicos especializados. A mecânica convencional não envelhece, mas o motor elétrico dura uns de 10 anos e as baterias entre um e dois anos, sendo que uma nova pode custar entre 200 e 400 euros.
O governo financia? – O incentivo é justificado pelo potencial de redução do uso do automóvel privado. Portanto, é preciso considerá-lo no conjunto das políticas de financiamento do transporte. Estudos recentes demonstram que o governo espanhol decidiu aportar 1,3 milhão de euros na subvenção para compra de aproximadamente 6.700 unidades, entre 2013 e 2015 (2,4% de todas bikes elétricas vendidas entre 2013 e 2018). A partir de 2015, só a Área Metropolitana de Barcelona e Agência Energética do Pais Basco, continuaram subvencionando a compra de bicicletas de pedal assistido.
Durante a pandemia, apesar dos pedidos dos fabricantes e das associações de ciclistas, não foi adotada nenhuma medida concreta de fomento ou financiamento por parte do governo do Estado. Por outro lado, o presidente do Governo anunciou a dotação de 3.750 milhões de euros para impulsionar o setor automobilístico, sendo 250 milhões de euros para a renovação do parque industrial particular.
Recentemente, as Comunidades de Madri e Valencia concederam ajuda para a compra de bicicletas elétricas. No caso madrilenho, foram aprovados, em outubro, incentivos para o fomento da Mobilidade Emissões Zero. O orçamento total é de 3 milhões de euros, sendo 1,2 milhão de euros para bicicletas, 250 mil euros para patinetes, 575 mil para ciclomotores e 950 mil em bônus de mobilidade “compartilhada”, concedidos pelo desmantelamento dos carros com mais 10 anos de uso.
As ajudas pagam até 50% do preço das bicicletas (no máximo 600 euros), patinetes (150 euros), ciclomotores (700 euros) e 1.250 por bônus. Estabelecem critérios específicos para cada tipo de bicicleta, mas excluem as bicicletas convencionais e o transporte público.
Resumindo, a bicicleta elétrica pode contribuir com mudanças no modelo de mobilidade urbana mais sustentável e ser um modo de transporte extremamente eficaz. Para isso, as políticas para sua promoção devem focar na substituição do uso do automóvel privado pelo uso das bicicletas elétricas. Em nenhum caso deve estimular a competição com o caminhar, com as bicicletas mecânicas ou com o transporte coletivo. Por isso, é importante adotar política de push and pulll em que são incentivados os modos de mobilidade saudáveis ao mesmo tempo em que sejam restringidos o uso indiscriminado do carro.
Por fim, se se quer que as elétricas, junto com todo tipo de bicicletas, tenham uma maior presença na paisagem de nossas cidades, é indispensável pacificar o trânsito e construir redes de ciclovias seguras e de qualidade, confortáveis e eficientes. Um entorno urbano que anime cada vez mais as pessoas a usarem a bicicleta e permita que essa invenção maravilhosa desenvolva todo o seu potencial e nos ajude a sair pedalando, com assistência elétrica ou não, da situação em que estamos metidos.
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(*) Mateus Porto Schettino (foto) é professor da Escola de Arquitetura, Engenharia e Desenho da Universidade Europeia de Madri, Espanha.
(Este artigo foi publicado originalmente no site www.antena3.com

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Referências
The Bicycle in the land of electric (auto)mobility. Edorta Bergua Jiménez, en Hábitat y Sociedad (issn 2173-125X), n.º 13, novembro de 2020, pp. 107-124. Disponível em: http://dx.doi.org/10.12795/HabitatySociedad.2020.i13.07
Fiebre ciclista con el desconfinamiento. ABC, publicado dia 24/05/2020 https://www.abc.es/economia/abci-fiebre-ciclista-desconfinamiento-estamos-desbordados-lista-espera-15-dias-202005240313_noticia.html
El sector que será uno de los pocos que cierre 2020 en positivo. La Gaceta de Salamanca, publicado dia 28/09/2020. https://www.lagacetadesalamanca.es/nacional/el-sector-que-sera-uno-de-los-pocos-que-cierre-2020-en-positivo-DH4768630
Las bicicletas públicas de Madrid registran 300 nuevas altas al día desde abril… Business Insider, publicado el 21/05/2020. https://www.businessinsider.es/bicimad-registra-300-nuevas-altas-dia-abril-plena-pandemia-644047
Estudio Conecta - Fomento del uso de la bicicleta en Madrid (Coca-Cola Company 2015) https://docplayer.es/44067805-Fomento-del-uso-de-la-bicicleta-en-madrid.html
España apuesta por la bicicleta eléctrica: el 39% la utilizaría para ir a trabajar. Hibrido y Eléctricos. Publicado no dia 12/06/2020. https://www.hibridosyelectricos.com/articulo/bicicletas-electrica/espana-apuesta-bicicleta-electrica-utilizaria-ir-trabajar/20200612120245035868.html
Estudio Conecta - Fomento del uso de la bicicleta en Madrid (Coca-Cola Company 2015) https://docplayer.es/44067805-Fomento-del-uso-de-la-bicicleta-en-madrid.html
Evaluación de una bicicleta eléctrica como alternativa de movilidad en la Ciudad de Cuenca. Santiago Javier Ordoñez Luna (2016). Disponível em: http://dspace.uazuay.edu.ec/bitstream/datos/6339/1/12509.pdf
Tesis doctoral. La huella digital de la ciudad ciclista. Visualización y análisis de rutas ciclistas gps. Gustavo Romanillos (2018). Disponível em: https://eprints.ucm.es/50818/
Trabajo fin de Grado. Evaluación de una bicicleta eléctrica como alternativa de movilidad en la Ciuda de Cuenca. Santiago Ordóñez (2016). Disponível em: http://dspace.uazuay.edu.ec/bitstream/datos/6339/1/12509.pdf
¿Cuál es la huella de carbono exacta que produce una bicicleta eléctrica? Nueva Movilidad, publicado no dia 23/07/2020 https://www.nuevamovilidad.com/bicicletas-electricas/cual-es-la-huella-de-carbono-exacta-que-produce-una-bicicleta-electrica/
Lo que debes saber de una bicicleta eléctrica. Twenergy, publicado no dia 5/09/2019 https://twenergy.com/bicicletas-electricas/lo-que-debes-saber-de-una-bicicleta-electrica-1818/
Olvídate de jubilar tu bicicleta: cómo darle una nueva vida convirtiéndola en eléctrica En Confidencial publicado em 20/10/2020 https://www.elconfidencial.com/tecnologia/2020-10-20/convertir-bicicleta-tradicional-mecanica-electrica-kit_1972502/
Análisis de los sistemas de bicicletas compartidas en España Sistemas públicos – Informe ejecutivo Observatorio de la Bicicleta Pública en España Para la Red de Ciudades por la Bicicleta. Disponível em: https://www.ciudadesporlabicicleta.org/wp-content/uploads/2019/03/Estudio-bicicleta-compartida-en-Espa%C3%B1a-2019-Sistemas-con-Estaciones-Informe-ejecutivo.pdf
¿Cuánto cuesta una bici eléctrica? Heraldo.Es, publicado em 26/10/2017 https://www.heraldo.es/noticias/aragon/zaragoza/2017/10/26/cuanto-cuesta-una-bici-electrica-1204083-2261126.html
The Bicycle in the land of electric (auto)mobility Edorta Bergua Jiménez, en Hábitat y Sociedad (issn 2173-125X), n.º 13, noviembro de 2020, pp. 107-124. Disponível em: http://dx.doi.org/10.12795/HabitatySociedad.2020.i13.07
Criado em 2020-12-15 14:00:24
Texto e fotos de Uirá Lourenço -
No dia 8 de novembro, o atual secretário de Mobilidade do Distrito Federal, Fábio Ney Damasceno, apresentou as propostas do governo para enfrentar os problemas na mobilidade urbana.
Vale destacar que, apesar da relevância do tema, não houve qualquer divulgação no portal governamental da secretaria de Mobilidade (Semob).
Soube do evento por meio de mensagem compartilhada em grupo de e-mail que trata da mobilidade no DF. Apesar de a Semob constar como realizadora do evento, só havia informações na página do Sinduscon-DF (Sindicato da Indústria da Construção Civil), onde foi realizada a apresentação.
A palestra foi no estilo de tantas outras que tentam fazer crer em mudanças no modelo. Priorização do transporte coletivo e dos modos ativos, compromisso com a qualidade de vida, reforma de terminais, BRT, VLT e ampliação do metrô.
Foi apresentada a distribuição modal no DF, comparada com outros centros urbanos (32% no DF, contra 46% no Rio de Janeiro), e como maior desafio o secretário apontou “aumentar a participação do transporte coletivo e não motorizado”.
Apesar do diagnóstico correto (alta taxa de motorização, grandes deslocamentos, poluição, estresse, precariedade do transporte coletivo) e do compromisso com os modos coletivos e saudáveis, há muitas propostas de túneis, viadutos e ampliações viárias.
Além das obras do Trevo de Triagem Norte (TTN) e da ligação Torto-Colorado, túnel em Taguatinga, obras na via do aeroporto e a nova via Transbrasília.
Algo curioso é o argumento de ter que alargar e criar túneis para viabilizar melhorias no transporte público (em particular o BRT). Assim ocorreu no BRT Sul e na EPTG (“Linha Verde”), e está ocorrendo na região norte com o TTN.
Amplia-se o espaço aos carros e, depois, se cria o corredor para ônibus. Em vez de reequilibrar o uso do espaço viário e transferir espaço ao transporte coletivo, amplia-se a capacidade aos carros e limita os ônibus a uma faixa.
Ou seja, em vez de fazer uma dieta adequada e restringir o consumo de energia, alarga-se o cinto e se agrava a enfermidade. O que se passa atualmente no norte do DF simboliza bem a contradição entre o que se diz e o que se faz.
As obras em ritmo acelerado devastam boa parte da região, prejudicam os recursos hídricos em momento de escassez de água e não resolvem os graves problemas de imobilidade a quem depende do transporte coletivo e passa a pé e de bicicleta.
Na parte relativa à mobilidade saudável (ativa) chamou atenção o foco nos ciclistas. Entre as ações favoráveis aos pedestres, comentou-se de forma genérica sobre requalificação de calçadas, sem detalhes sobre locais, orçamento e cronograma de obras.
As ações aos ciclistas incluem a instalação de bicicletários em estações de metrô e terminais de ônibus, e a ampliação do sistema de bicicletas compartilhadas, que atualmente conta com 40 estações. A proposta é criar cinco estações de bicicletas na UnB, chegar a 100 estações no Plano Piloto e ampliar o sistema para outras administrações regionais.
O secretário Fábio Damasceno também comentou sobre o mapeamento das ciclovias para identificar gargalos e, então, poder criar uma rede cicloviária conectada.
Segundo o secretário, o mapeamento está sendo contratado, por meio de financiamento do BID. Vale ressaltar a realização voluntária, e sem qualquer ônus ao governo, de levantamento detalhado da ciclovia da W4/W5 Norte. A análise da ciclovia, detalhada e ilustrada, foi entregue ao GDF (ao governador, à Semob, ao Detran e ao DER-DF) em junho de 2015. O trabalho disponibilizado no portal Mobilize foi totalmente ignorado e, passado mais de um ano, o trajeto de bicicleta pela Asa Norte continua desconfortável e inseguro.
O secretário mencionou o projeto “Mobilidade ativa no entorno das estações de metrô”, que beneficiaria pedestres e ciclistas. A proposta, elaborada pela Segeth (Secretaria de Gestão do Território e Habitação), consiste em medidas de humanização como redução de velocidade em vias locais (30 km/h) e faixas elevadas de travessia. Não foi apresentado cronograma de execução do projeto.
As promessas por dias melhores continuam: segurança a pedestres e ciclistas e melhorias no transporte coletivo. As apresentações realizadas pelos secretários, os anúncios e os vídeos governamentais também destacam as mudanças. Ciclovias, calçadas acessíveis, corredores de ônibus e VLTs.
Na trajetória de acompanhar as políticas locais de mobilidade há 10 anos, já ouvi muitas promessas e muitos programas ambiciosos. A bola da vez se chama Circula Brasília. As semelhanças entre o programa atual e o programa apresentado em 2010, pelo então secretário de transportes, são nítidas.
Os anúncios governamentais ao longo dos anos, produzidos em diferentes governos, vendem a ideia de uma cidade exemplar, com respeito a pedestres e ciclistas e foco na segurança. Mas as fotos da realidade desmentem facilmente a propaganda governamental. A situação de imobilidade e inacessibilidade é crítica em todo o DF, tanto nas regiões administrativas mais distantes, quanto na região central.
Criado em 2016-11-21 17:58:04
“Eu sou trezentos, trezentos, e cinquenta” Mário de Andrade
Luiz Philippe Torelly (*) -
Mário de Andrade foi um intelectual múltiplo, plural. O alcance de seu radar era vasto: literatura, poesia, música, etnografia, folclore, arquitetura, artes plásticas, fotografia, crítica literária, políticas culturais, enfim, um universo de interesses que não encontra paralelo na atualidade. Junto com outros intelectuais e artistas, participantes ou não do núcleo original da Semana de Arte Moderna de 1922, mudou a face da cultura brasileira, que passou a olhar não só para as vanguardas europeias ou estar presa aos valores tradicionais da aristocracia cafeeira, sua financiadora.
Começou a voltar-se para um Brasil que era invisível. Para manifestações culturais confinadas aos muitos sertões, que não ecoavam nos grandes centros, voltados para o velho mundo. Entre as décadas de 20 e 40 o mundo mudou muito e o Brasil também.
O modernismo nascente deu início a uma simbiose e descoberta da cultura popular, produzida por brasileiros de todos os quadrantes, que não tinham acesso à educação formal, ao cinema, aos livros e bibliotecas. Produziam sistemas próprios de expressão e criatividade, que criaram o samba, o frevo, o maracatu, o fandango, a congada, a literatura de cordel com raízes no medievo português, a arquitetura vernacular, uma culinária vastíssima baseada em produtos e receitas locais, entre muitas outras manifestações.
Mário foi uma das figuras de proa da Semana e 22, que até hoje são reconhecidas como marcos da formação cultural contemporânea. Junto com Oswald de Andrade, Villa-Lobos, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Graça Aranha, Ronald de Carvalho, Guilherme de Almeida e até Plínio Salgado, formou o núcleo original do movimento em São Paulo. A elite paulistana ligada à indústria cafeeira, a principal atividade econômica do país na época, estava representada pela figura de Paulo Prado, autor do livro Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira e de Olívia Penteado, uma das mecenas do movimento.
O futurismo, movimento político e estético surgido na Itália, personificado na figura de Marinetti, foi uma das raízes vanguardistas ligadas ao modernismo. Polêmico, pregava uma ruptura com o passado e uma adesão à velocidade da modernidade e ao maquinismo. Identificado com o fascismo, sua influência foi se desvanecendo com a mesma rapidez que surgiu, deixando como marca um nacionalismo mais extremado na obra de alguns dos participantes como Guilherme de Almeida, Menotti Del Picchia e Ronald de Carvalho.
A semana é um marco importante como uma referência, mas as ideias já estavam circulando também em outros centros. O país à época ainda não tinha uma identidade nacional, que os meios de comunicação como o rádio, ajudariam a construir. O autor de Macunaíma, a obra mais célebre de Mário Andrade, marcou definitivamente o cenário cultural brasileiro e continua a ser uma referência obrigatória.
Um dos mais importantes livros de “descobrimento” do Brasil, escrito em forma de diário, com informalidade, humor e elevada percepção para o prosaico e o inusitado, O Turista Aprendiz narra duas viagens de Mário. A primeira, em companhia da aristocrata do café e mecenas dos modernistas Olívia Guedes Penteado, sua sobrinha Margarida Guedes Penteado e da filha de Tarsila do Amaral, pintora do célebre Abaporu, Dulce do Amaral Pinto. O périplo se inicia em maio de 1927 e dura três meses. Do Rio de Janeiro a Iquitos, no Peru, navegando pelos rios Amazonas, Solimões e Madeira.
Na segunda viagem, Mário parte sozinho para o Nordeste em novembro de 1928, onde permanece até fevereiro do ano seguinte. É recepcionado, entre outros, por Ascenso Ferreira, Jorge de Lima, Cícero Dias e Câmara Cascudo. O contato com a floresta e o sertão, com os diversos tipos humanos e manifestações culturais, a religiosidade, os folguedos, as danças, as músicas, quase sempre impregnadas de sincretismo e superstição, causam grande impacto em nosso “turista”, consolidando uma visão de nacionalidade abrangente em oposição às concepções regionais até então majoritárias.
O relato das viagens etnográficas, como ficaram conhecidas, reforçam valores já presentes na Semana de Arte Moderna de 1922. Valores esses que, em nosso ambiente, onde passado e presente coexistem com grande proximidade, demonstram-se paradoxais e contraditórios: ao mesmo tempo críticos das instituições e pregando a ruptura com o passado acadêmico, mas identificados com ideias liberais e conservadoras. O resgate de um Brasil de feição mestiça e desgarrado dos padrões europeus de então, mais indígena, mais africano, mais caboclo e caipira, inicia uma nova síntese cultural que procura abarcar as múltiplas faces da brasilidade. Tratava-se de reinventar o País a partir do seu reconhecimento e indeterminações. Não é por acaso que uma das principais obras de Mário, Macunaíma, vem à luz em 1928, entre as duas viagens. É perceptível a influência do universo amazônico na construção do livro e de seus personagens.
Como na famosa “viagem dos paulistas a Minas”, de 1924, denominada por Oswald de Andrade como a “viagem de descoberta do Brasil”, da qual além de Mário, fizeram parte Olívia Guedes Penteado, Paulo Prado, Tarsila do Amaral e o poeta suíço Blaise Cerdras - formulador de uma proposta para criação de uma instituição de proteção ao patrimônio histórico no Brasil - Mário recolheu farto material para suas formulações futuras, inclusive 902 fotos com sua “Codaque”.
Ao assumir a Diretoria do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, em 1935, nosso autor põe em prática muito do aprendizado de suas viagens. Foi uma experiência inovadora e intensa de difusão de manifestações culturais eruditas e populares, com forte viés educativo. O que acabou por polir suas formulações para a elaboração, em 1936, do “anteprojeto de preservação do patrimônio artístico nacional” sob encomenda do então Ministro da Educação e Saúde do governo Getúlio Vargas, Gustavo Capanema.
O inovador e visionário documento de Mário de Andrade para a criação do então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) constituiu-se em referência central para a elaboração do Decreto-Lei Nº 25, de 1937, que estabeleceu o conceito de patrimônio cultural e propôs como principal instrumento o tombamento.
Conceitos como o de arte ameríndia e popular, bastante abrangentes, incluindo o que hoje denominamos de saberes, fazeres e falares, bem como o de paisagem cultural – sem ainda receber esta denominação – estão nele presentes, o que lhe confere impressionante contemporaneidade após tantos anos. As sementes lançadas irão germinar ao longo das últimas oito décadas, antecipando em vários aspectos – especialmente na dimensão imaterial – as iniciativas e convenções da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), referência internacional na preservação do patrimônio cultural, criada em 1946, bem como na “Carta de Veneza”, de 1964, cuja influência na preservação do patrimônio cultural em todo o planeta foi marcante e ainda se faz presente.
As circunstâncias históricas e políticas que caracterizaram no Brasil a concepção de preservação do patrimônio, especialmente no IPHAN, além da ausência de outros instrumentos que não o tombamento, determinaram que as ações de proteção se concentrassem quase que exclusivamente, até os anos 1990, na identificação e na proteção de monumentos, edifícios e conjuntos urbanos de relevante interesse histórico e artístico, na denominada “pedra e cal”, no excepcional e monumental. Os bens móveis, que desde o Brasil-Colônia, com a criação do Museu Nacional, em 1818, já recebiam certa atenção governamental, foram, antes mesmo da criação do IPHAN, valorizados pela criação de museus, como o do Ipiranga, em 1909, pelo Governo do Estado de São Paulo, e o Museu Histórico Nacional, em 1922. A constituição de 1988, especialmente os artigos 215 e 216, iriam alterar substancialmente esta realidade resgatando concepções do anteprojeto de Mário.
Tal política se amplia em escala após 1937, e se soma ao esforço de reconhecimento internacional por intermédio da divulgação de livros e textos de escritores estrangeiros, como o francês German Bazin, o inglês John Bury e o austríaco Stefan Zweig – autores, respectivamente, de Arquitetura Religiosa Barroca no Brasil, Arquitetura e Arte no Brasil Colonial, e Brasil, País do Futuro. Esse período, acertadamente denominado de “fase heroica” coincide com os 30 anos, de 1937 a 1967, em que Rodrigo Mello Franco de Andrade dirigiu a Instituição, a ponto de simbolizar o patrimônio no Brasil, o que a tornou uma das mais importantes do mundo.
A hegemonia modernista promove uma notável revisão de paradigmas e de ressignificação da herança cultural brasileira. Nessa dialética tradição/modernidade é fundamental lembrar que as artes em geral e a arquitetura em particular, foram e continuam sendo, entre outras coisas, eficazes instrumentos de irradiação de ideias e conceitos. O resgate do barroco, estilo dominante nos séculos XVII e XVIII, em especial o mineiro, até então relegado por ser considerado excessivo e trágico em sua visão de mundo e metáfora da vida celestial, valoriza aos olhos do País e do mundo um legado que, embora de origem ibérica, revela a contribuição singular de arquitetos, artistas, mestres e músicos brasileiros. Esses, cuja maioria, mesmo ao largo de uma formação acadêmica regular, em condições muito peculiares, produziu um conjunto de realizações de grande beleza e apuro técnico. Antônio Francisco Lisboa, “o Aleijadinho”, mestres Ataíde e Valentim, o compositor José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita, entre muitos outros, foram reconhecidos por autores como Affonso Ávila, Lucio Costa, Robert Smith e Lourival Gomes Machado representantes legítimos da originalidade da produção artística aqui desenvolvida. Isso, em contraste com uma cultura repetitiva dos padrões europeus que até então eram a referência de um país que iniciava sua urbanização e procurava no academicismo a sua feição civilizatória.
Transcorridos mais de 90 anos das viagens de Mário de Andrade e 85 de seu anteprojeto para o SPHAN, sobrevivem muitos paradoxos no país. Vivemos uma realidade em que a concepção de cultura e de imaginário no Brasil foram ampliadas com a incorporação das manifestações e referências populares. Além disso, foi reduzida a importância da excepcionalidade e da monumentalidade, que ainda ocorrem em um contexto social onde as mazelas centenárias permanecem, bem como as disparidades e assimetrias interpessoais e inter-regionais, apesar da crescente modernização. São as famosas “ideias fora de lugar”, para as quais, Roberto Schwarz nos chama a atenção em seu clássico ensaio homônimo. Infelizmente, vivemos um momento inusitado e de jamais visto de violência ideológica.
O Governo Federal, desde a ascensão do regime inqualificável de Jair Bolsonaro, passa a destruir sistematicamente a estrutura de fomento e preservação da cultura e das artes, que foi duramente construída ao longo de um século. Não há paralelo sequer com as práticas nazistas adotadas pelo III Reich. Hitler, ao mesmo tempo que se declarava opositor e destruía manifestações artísticas e culturais, usava em seus propósitos autoritários, de uma estética totalitária que refletisse os ideais da raça ariana que tentava inaugurar. O governo brasileiro apenas destrói. Não tem propósito ou projeto, sequer vagas ideias por mais esdrúxulas que pareçam.
A leitura de “O Turista Aprendiz” não é a de um livro histórico, datado. É a de uma realidade onde ainda se confrontam manifestações culturais ligadas à tradição, ao território, às relações com a ecologia, aos fazeres e saberes do cotidiano, em oposição a uma outra muitas vezes desenraizada, pois relacionada a valores exógenos, descompromissados com o cotidiano, que são próprios de uma cultura urbana mais cosmopolita, nem sempre afeita à dialética de transformação, onde a cultura assume seu papel libertador e semeador do futuro.
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(*) Luiz Philippe Peres Torelly é arquiteto e urbanista.
Criado em 2022-02-11 19:32:25
Em seu primeiro discurso como relator da CPI da Covid-19, instalada nesta terça-feira (27/4), o senador Renan Calheiros (MDB-AL) afirmou: “A comissão será um santuário da ciência, do conhecimento e uma antítese diária e estridente ao obscurantismo negacionista e sepulcral, responsável por uma desoladora necrópole que se expande diante da incúria e do escárnio desumano”.
E arrematou: “Não podemos virar as costas para a Nação. Há a ameaça real de virarmos um apharteid sanitário mundial. Ninguém nos quer por perto, brasileiros são discriminados no mundo e corremos o risco de boicote aos nossos produtos”.
O relator confirmado na primeira reunião disse que se pautará por “isenção e imparcialidade”. E que desde já se declara impedido de relatar qualquer assunto relativo ao estado de Alagoas, onde seu filho é governador.
Conforme o previsto, a CPI, que vai investigar as ações do governo Bolsonaro e o uso de verbas federais na pandemia de covid-19, elegeu o senador Omar Aziz (MDB-AM) como presidente, que indicou Renan Calheiros (MDB-AL) para a relatoria. O vice-presidente eleito foi o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP).
O senador Calheiros ressaltou: “Estaremos discutindo aqui o direito à vida, não se alguém é direita ou da esquerda. Minhas opiniões ou impressões estarão subordinadas aos fatos”.
Em seu discurso, Calheiros destacou que independente de suas valorações pessoais, a investigação “será técnica, profunda, focada no objeto que justificou a instalação da CPI”.
“É impossível esquecer todos os dias fúnebres em mais de um ano de pandemia, mas é impossível apagar abril, o mês mais mortal, e o dia 6 de abril, com uma morte a cada 20 segundos. Esses números superlativos merecem uma reflexão, merecem um minuto de silencio.”
O relator é o responsável por elaborar o relatório final do colegiado e tem grande influência sobre os trabalhos de uma CPI. Há acordo para o senador alagoano ocupar o posto, o que foi confirmado após a queda da liminar de primeira instância que impedia a posse de Renan na relatoria.
A Justiça Federal de Brasília tentou impedir a relatoria de Renan Calheiros por meio de uma liminar concedida na segunda-feira (26/4) a pedido da deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP).
Ela alegou afronta ao princípio da moralidade pública pelo fato de Renan responder a processos por improbidade e ser pai do governador de Alagoas, Renan Filho (MDB) – que pode vir a ser um dos alvos dos trabalhos da comissão.
A decisão do juiz de primeira instância foi derrubada pelo juiz federal Francisco de Assis Betti, que ocupa interinamente o cargo presidente do TRF-1.
Betti disse que o veto a Renan abriria “a possibilidade de grave risco de dano à ordem pública, na perspectiva da ordem administrativa, diante de uma interferência do Poder Judiciário no exercício de prerrogativa conferida pelas normas regimentais internas das Casas Legislativas e que são inerentes ao exercício da própria atividade parlamentar”.
Entrevista Coletiva
Em entrevista coletiva registrada pela Agência Senado, logo após a instalação da CPI da Pandemia, o relator Renan Calheiros disse que "tem muita coisa já produzida no que se refere a provas, a postagens, a atos publicados", e que cabe agora à CPI "dar as respostas que a sociedade cobra".
Calheiros acrescentou que “a CPI investiga se por ação, omissão, desídia ou irresponsabilidade alguém colaborou para que a matança avançasse. Vamos apurar, mas com critérios. Só valerão provas efetivas. Não vamos condenar por convicção ou fazer power points contra ninguém”.
Também durante a entrevista, o vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), disse que o curso das investigações pode fazer com que a CPI solicite formalmente à Casa Civil o documento, cuja existência foi revelada pela imprensa no final de semana, em que são listadas 23 acusações que o governo deve sofrer no decorrer dos trabalhos.
“Foi uma contribuição importante do governo para ajudar nas investigações. Aponta alguns aspectos que estarão em nosso plano de trabalho, e a questão dos povos indígenas, que estava passando ao largo. O roteiro da Casa Civil é uma colaboração para as investigações, e talvez seja necessário e de bom tom solicitarmos oficialmente este roteiro”, afirmou Randolfe.
Também presente à coletiva, o presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM), informou que na reunião de quinta-feira (29/5) deverão ser aprovados os requerimentos para que sejam ouvidos os ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta, Nelson Teich e Eduardo Pazuello, além do atual, Marcelo Queiroga. Também deverão ser aprovados requerimentos com solicitação de informações ao governo. Aziz ainda destacou o caráter propositivo que, a seu ver, a CPI terá.
“Mais que apontar culpados, a sociedade espera soluções práticas para a vacinação, falta de oxigênio, de kits hospitalares, medicamentos, UTIs e EPIs. Esta CPI será diferente de todas que vocês já viram, porque pesquisas mostram que é a CPI que está praticamente na casa de todos os brasileiros”, disse Aziz em referência à pandemia.
A seguir, a íntegra do discurso do senador Renan Calheiros: Aqui
Criado em 2021-04-27 20:11:01