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Embaixador, ex-chanceler e ex ministro da Defesa do Brasil, Celso Amorim faz uma grave advertência: quando atos autoritários como a proibição de funcionamento do Instituto Lula são recebidos como algo normal e corriqueiro, é sinal de que caminhamos a passos largos para o fim da democracia.
Via Nocaute TV
Criado em 2017-05-12 12:36:53
Maria Lúcia Verdi –
Mallarmé queria o impossível e dele se aproximou como poucos na literatura universal. Seu impossível é a Obra Total (“Le livre”/”O Livro”) que refletiria o Absoluto em sua dispersão, em suas mil leituras possíveis.
Stéphane Mallarmé (nascido Étienne - Paris 18/3/1842-9/9/1898 - influenciou toda a literatura do século XX a partir, sobretudo, de um texto que, por meio de elipses, usos de diferentes tipos e tamanhos de letras e do branco da página, cria uma outra lógica para a poesia, para a escritura - “Um lance de dados jamais abolirá o acaso”, poema que inaugura poética nova, absolutamente antidiscursiva ou minimamente mimética.
Como num espelho frente a um espelho, sua produção se reflete entre si, os símbolos, os elementos principais dialogando, entrelaçando-se, aprofundando-se num turbilhão de sons e imagens que evocam a realidade de modo crescentemente hermético e abstrato. A preocupação com o significado sendo menor do que o amor ao significante - o som, que evoca e transcende.
Como apontaram os críticos, é o poeta do Nada, do Talvez e do Então:
SALUT\BRINDE
(tradução José Lino Grünewald)
Nada, esta espuma, virgem verso
Apenas denotando a taça;
[...]
Solitude, recife, estrela,
A não importa o que valer
O alvo desvelo em nossa vela.
Enfrentou a perda da mãe aos sete anos, da irmã e do filho de oito anos vivenciando, assim, reiteradamente, aquilo que é algo que o Eu não quer, não pode saber o que é, segundo a psicanálise. O poema inconcluso para o filho Anatole é um dos tantos dedicados aos Túmulos de seus mortos, Edgar Allan Poe, Baudelaire, Verlaine, Théophile Gautier.
PARA UM TÚMULO DE ANATOLE
filho saído de
nós dois – nos
mostrando nosso
ideal, o caminho
- nosso! Pai
e mãe que a ele
em triste existência
sobrevivemos como –
os dois extremos
[...]
vela
navega
rio,
tua vida que
passa, flui
[...]
Resistiu às perdas concretas e aos fantasmas interiores que o levaram aos infernos relatados em seu conto “Igitur ou a loucura de Elbehnon”, com o qual ele pretendia vencer a “impotência”. Já em Igitur a presença do lance de dados, do futuro Um Lance.
Sobreviveu graças à entrega completa, sistemática, à literatura aliada ao sacrifício tranquilizador de uma vida burguesa, em família. Aos vinte e um anos, casado, precisou sobreviver como professor de inglês em três monótonas cidades do interior da França, onde vivia em absoluto isolamento intelectual. Mente brilhante e terrivelmente sensível, o Tédio (para usar as maiúsculas que ele apreciava) o dilacerava.
BRISA MARINHA
(tradução Augusto de Campos)
A carne é triste e eu li todos os livros
[...]
Um Tédio, desolado por cruéis silêncios,
Ainda crê no derradeiro adeus dos lenços!
E é possível que os mastros, entre as ondas más,
Rompam-se ao vento sobre os náufragos, sem mas-
Tros, sem mastros, nem ilhas férteis, a vogar...
Mas ó meu peito, ouve a canção que vem do mar!
Em meio à platitude entorno começa a escrever uma de suas obras primas inacabadas, Hérodiade. A heroína deste poema, inicialmente pensado para ser uma tragédia a ser encenada, não é a Hérodiade bíblica, mãe de Salomé, mas sim Salomé, uma jovem que defende sua virgindade com a obsessão que nasce da incapacidade de amar e entregar-se. Simboliza a impossibilidade da entrega absoluta à literatura.
Mallarmé conviveu com este texto até o fim de sua vida, dele tendo realizado apenas três “cenas”. A impossibilidade é um dos conceitos chave para se aproximar da obra deste poeta. A escolha do nome Hérodiade tem a ver com a pura beleza do som deste nome que para o poeta é como uma romã, rubro em seu interior. Para os Simbolistas, o som tem tanta importância quanto o significado, o som é ritmo, música e a Música é o objetivo maior.
Uma das questões centrais para Mallarmé é a se sabemos o que é escrever. Questão que o persegue, quase o alucina, que se expressa na criação de uma linguagem que é, até hoje, um desafio para os leitores. A poesia, para ele, se inicia com a questão da linguagem, da etimologia, da busca da forma pura do dizer em uma sintaxe nova, completamente distante de conhecida clareza da expressão francesa. As analogias tem papel fundamental, elas são o instrumento para as evocações não descritivas dos objetos e dos sentimentos.
Mallarmé era apaixonado pela Linguagem – aquela que é o objeto observado e ao mesmo tempo o objeto da observação –; amava os dicionários, chegou mesmo a pensar em escrever sobre a origem das línguas, munindo-se de uma biblioteca sobre o assunto.
Leitor dos poetas românticos (sobretudo Victor Hugo e Musset), fascinado por Viliers d’Ille Adams (autor de “Axel”), Edgar Allan Poe e por Baudelaire, sua primeira poesia - ainda dialogando no molde da perfeição parnasiana – vem a ser um paradigma da perfeição simbolista, da qual se afasta aos poucos, conforme vai criando sua própria linguagem. Linguagem que deseja falar não da coisa em si, mas da sensação que ela provoca, afastando-se de qualquer descrição concreta com o auxílio do que ele chamou de “o demônio da analogia”. Buscar na poesia o onírico, transformar a realidade a partir de uma percepção que se autonomeia como a de um fantasma, de um morto. Mostrar, portanto, a realidade transfigurada, espectral, através de um canto, de uma “língua suprema” que reflita o Nada, a Ausência como realidade maior: “[...] a flor, a ausente de todos os buquês.”
A partir desse conhecimento profundo do Nada Mallarmé descobriu a inexistência de Deus: “A grandeza do homem é ter imaginado o absoluto.” A realidade, para ele, é e permanecerá impenetrável à compreensão humana, puro mistério. Acreditava que os poetas tinham por missão louvar as Gloriosas Mentiras (como a existência de Deus), além de oferecer uma “explicação órfica do mundo, o único dever do poeta”. As Gloriosas Mentiras seria uma das partes de “O Livro”.
Alguns críticos creem que a leitura de Descartes e de Hegel o auxiliaram a sair do Nada em que havia mergulhado até 1860, outros colocam em dúvida tais leituras. De todo modo, a questão colocada entre o indivíduo que escreve e o sujeito, o Eu que fala no poema, na literatura, é central em Mallarmé. Todas as vozes são máscaras do Poeta: a reedição de Hamlet na mesma encarnação da dúvida, sua referência maior; o bufão; o Mestre (Comandante) herói frente os naufrágios; um ser mitológico com o Fauno, do “A tarde de um Fauno” - e Mallarmé afirma: “Sim, eu fui fiel a mim mesmo” e mesmo Hérodiade. Quanto ele merecia ter visto Nijinsky dançar seu Fauno, em 1912, que inspirou o poema-sinfônico de Debussy!
A tarde de um Fauno
(tradução de Décio Pignatari)
[...] É o rodopio de carnes, que ele gira no ar
É a sua carnação, que ela gira no ar
Seu ligeiro encarnado a voltear no ar
Entorpecido de pesados sonos.
Sonho?
Sonolento de sonhos e arbustos.
Foi sonho?
Espesso de mormaço e sonos [...]
Curiosamente, ao voltar a Paris, aos 29 anos, Mallarmé publica oito números do jornal “A última moda”, onde escreve sobre decoração, culinária e moda e responde cartas das leitoras.
Em suas palavras é: “Com o nada se esconderia o nada”; podemos lembrar de Clarice Lispector, autora de obra também radical e misteriosa que, como ele, escrevia em revistas femininas com distintos pseudônimos para aumentar seus rendimentos.
Em 1872, ainda desconhecido, inicia as (que virão a ser legendárias) reuniões literárias das terças-feiras, em seu apartamento da rua de Roma - um grupo de amigos que misturava a Cabala com o Budismo e o pensamento de Hegel. Somente em 1884, publicado por Verlaine em “Os poetas malditos” e mencionado no romance “À rebours”, de Huysmans, começa a ser um nome na literatura da época.
Buscar a expressão pura da ideia, de uma palavra, um conceito, além de toda e qualquer representação o levou ao sonho da obra maior: “O Livro”, a ser composto por textos de distintos gêneros, em páginas soltas (para permitir infinitas leituras), como uma (inimaginável) construção arquitetônica, e do qual Heródiade e Igitur fariam parte.
Dele restaram 220 páginas com anotações sobretudo relativas ao cenário, mobiliário e ao detalhadíssimo ritual em que este Livro seria lido, ritual que levaria cinco anos de escuta para ser completado. Em sintonia com a ideia de Wagner sobre a Arte Total, Mallarmé busca em vários de seus textos as possibilidades visuais e sonoras do teatro (Hérodiade, O Fauno) - o idolatra. Sonha terminar “O Livro” que, segundo ele, existiria em algum lugar e do qual sua obra teria conseguido revelar fragmentos. O Poeta como o visionário de que Rimbaud falara.
O “Lance de dados”, pensado como uma sinfonia de vozes, traduzido magnificamente por Haroldo de Campos, talvez seja a concretização possível deste Livro idealizado, que, afinal, encontrou forma na síntese absoluta de ideias lançadas, criteriosamente, no espaço branco da página, analogon do céu estrelado – “a dispersão volátil do espírito”.
UM LANCE DE DADOS
JAMAIS
MESMO QUANDO LANÇADO EM CIRCUNSTÂNCIAS
ETERNAS
DO FUNDO DE UM NAUFRÁGIO
[...]
JAMAIS ABOLIRÁ
[...]
O ACASO
PS – Talvez seja insensato associar este poema ao momento presente, mas me atreverei. Não terminaremos de entender todos os fatores que fizeram com que a candidatura de alguém sem qualquer qualificação fosse levada a sério em nosso país. Talvez só mesmo por ser o Brasil, este mistério surreal até hoje sem solução.
O Lance de Dados se passa num naufrágio, um comandante envelhecido tenta vencer a força das águas - há o Acaso, e ele lança os dados na esperança de que algum sinal encorajador. O poema termina com uma possibilidade de “renascimento” que é vista no céu, nas sete estrelas do Septuor que apontam para o Infinito, de lá vem a mensagem do verso final:
“Todo pensamento emite um lance de dados”. Todo pensamento, portanto, é uma abertura para as possibilidades, para os jogos do Acaso. O fundamental é a resistência do pensamento, a resistência da criação.
Criado em 2018-10-27 18:33:38
Angélica Torres -
Receber a notícia da morte de Luiz Carlos Sigmaringa Seixas numa manhã de Natal é dor que extrapola a família dele para as de muitos amigos e de brasileiros que o amavam e o admiravam pela honrada atuação como jovem e generoso advogado de presos políticos durante a ditadura e mais ainda: pela confiança nele depositada pelo ex-presidente Lula, a ponto de virem a se tornar amigos íntimos e uma espécie de seu conselheiro particular, durante os seus dois mandatos na presidência da República.
Tivemos, eu e o jornalista Cristiano Torres, a meia sorte de conseguir entrevistá-lo em maio de 2016 sobre o impeachment de Dilma, então em marcha, para o Jornal Brasil Popular, à época com apenas cinco meses de existência para circulação na periferia do DF. “Meia sorte” porque, embora tenha aceitado nos receber, Sigmaringa não nos deixou anotar suas declarações para publicarmos a matéria. Disse, “falo com vocês porque são meus velhos amigos, mas não quero dar margem à má falação que sei que a imprensa fará em torno de qualquer coisa que eu disser”.
Conheci Luiz aos 13 anos de idade, dentro da casa dos meus pais, amigo de turma que foi do meu também saudoso irmão na juventude e, anos depois, acabei vindo a ser assessora de imprensa da primeira candidatura dele para deputado federal, então, pelo PMDB. Foi por esse histórico que ele aceitou sem maiores problemas nos falar sobre o grave e atarantado momento, embora com explícita censura. No entanto, à revelia de sua proibição, escrevi a matéria, do contrário esqueceria o que nos tinha contado, e mandei para ele, numa última tentativa de obter o consentimento.
Qual o quê. Levei foi uma bronca, daquelas de irmão contrariado, em tom de “alta estimulação”, como se diz no jargão jornalístico. Por telefone esbravejou: “Você não pode me trair! Te pedi pra não publicar! Além do mais, você afirma coisas que eu não disse! Nunca fui amigo do Fux! Pelo amor de Deus, não avacalhe com meu nome e minha história”, falou, me fazendo rir. É claro que eu não iria traí-lo, era apenas um teste ao humor dele, dois ou três dias depois do nosso encontro.
Agora, nesse momento de tristeza, ponderei que não há mais porque deixar guardado o depoimento, que pode ter sido um dos últimos dele dado à imprensa. Seu irmão José Carlos, meu colega de faculdade e também amigo, que sabia do episódio, nos deu a permissão de publicá-la, o que fazemos como homenagem à sua memória, até porque é uma prova inconteste de sua boa fé na Justiça brasileira.
Ao fazer um prognóstico do que iria acontecer no quadro político de pernas para o ar, mesmo com toda a sua experiência jurídica sedimentada na ditadura militar, Sigmaringa não acreditava que Lula terminaria sendo preso por Sérgio Moro, como afirmou na entrevista. Aliás, tão longe e tão perto dos familiares de Sig, Lula certamente é o que mais estará sofrendo hoje a perda do grande amigo. (A seguir, a matéria original da entrevista.)
Sigmaringa Seixas: “Dilma não quer voltar a governar”
Conselheiro jurídico de Lula diz que o horizonte próximo é nebuloso
Brasília, 18.06.2016 - Ex-deputado federal pelo DF e deputado constituinte, conselheiro jurídico e amigo pessoal do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, o advogado Luiz Carlos Sigmaringa Seixas é tido por suas posições moderadas como uma pessoa de confiança dentro do governo, onde mantém até hoje amplo trânsito em diferentes partidos.Sigmaringa cultiva amizades com políticos que vão de Dilma Roussef e José Dirceu a José Serra e Michel Temer, e com magistrados como Luís Roberto Barroso e vários outros, do STF.
Reservado e avesso à imprensa, foi preciso insistir para que aceitasse conversar com os jornalistas Cristiano Torres e Angélica Torres Lima – mas não nos deixou gravar nem anotar a entrevista. Conta que a assessoria do ex-presidente o proíbe de falar à mídia, porém, após deixar escapar um impropério, exclamou: “Ora, falo se eu quiser!” Bem, não temos a memória de um Castelinho, mas registramos alguma coisa do bate-papo, que durou hora e meia, regado a café e água, em seu escritório de advocacia, em Brasília.
Sigmaringa começou dizendo, “se a Lava-Jato segue adiante, não fica um em pé. É o sistema, é o modus operandi do governo e o ambiente que favorecem. Te oferecem, ‘toma R$ 5 milhões’. Você fala categoricamente, ‘não, eu não quero!’ Mas há os que não resistem. Ulysses Guimarães disse certa vez, ‘os políticos de antes não eram bons, mas os que virão serão ainda piores que os de hoje’”.
Defensor de presos políticos durante a ditadura militar (1964-1985), Sigmaringa Seixas passou pelos três principais partidos brasileiros, começando pelo PMDB, em 1986. Reelegeu-se em 1990 pelo PSDB e em 1994, filiou-se ao PT. Em 1998, foi candidato a vice-governador na chapa de Cristovam Buarque, derrotada pela dupla Joaquim Roriz e Benedito Domingues. Reeleito deputado federal em 2002, ficou na suplência na eleição seguinte.
Ele conta: “Eu, Conceição Tavares e outros éramos do MUP –Movimento de Unidade Progressista, dissidência do PMDB, cujos membros integrariam o então futuro PSDB. Fui o último a abandonar o barco. Quando falaram em convidar o (José Roberto) Arruda, aí não deu mais. Fui então para o PT, mas nunca fui militante. Pela minha atuação jurídica como parlamentar, acabei me tornando advogado de Lula. Ficamos amigos. Ele hoje me liga dando bronca (imita a rouquidão de Lula), ‘ô Sig, pô, você não vem mais me visitar? Tá com medo de ser preso?’”.
Crise política ou golpe?? - Sigmaringa não considera o impeachment de Dilma Rousseff como golpe. “Não vou fazer o papel dos ‘fora, Temer’. É uma crise política, não se pode chamar de golpe. O comando estava equivocado, foram cometidos erros, a presidente se fechava em teimosia, não fazia concessões, não queria e não gostava de negociar. Passou a ser odiada e essa postura gerou o enfrentamento. Não era um problema de ordem econômica e sim política. Claro que podiam esperá-la cumprir o mandato, mas, no terreno da política, esse é um pensamento ingênuo. O certo seria ela, em um gesto de grandeza, renunciar e levar o vice a sair junto, para se fazerem novas eleições e o impasse poder ser resolvido”, pondera.
Lembra que Lula queria para seu sucessor Eduardo Campos, “que Dilma odiava. Ele tinha preparo intelectual e político, era considerado pronto para o cargo. Seria a passagem do governo PT para o PSB, outro de centro-esquerda, porque o ex-presidente não assediava Campos para o Partido dos Trabalhadores”, revela. Sigmaringa não é leitor da mídia alternativa, não frequenta redes sociais e pouco usa a tecnologia virtual. Portanto, não conecta informações internacionais da esfera geopolítica que dão pistas de sinistras conspirações imperialistas em torno da queda do avião que matou Eduardo Campos.
Também não olha por esse mesmo ângulo a crise na Petrobras, com Sérgio Moro à frente da Lava-Jato, no estilo Gene Sharp de operar, favorecendo o império norte-americano e o grande capital. Mas assistiu e se admirou com o documentário O Dia que durou 21 anos, de Camilo Galli Tavares (filho de Flávio Tavares, ex-militante da luta armada), sobre os bastidores da ditadura militar no Brasil, com base em documentos secretos que foram liberados pelo governo Obama, meio século depois.
O consultor jurídico de Lula confessa achar o momento confuso, com as diversas atitudes e condutas juridicamente equivocadas do governo interino de Michel Temer. “A presunção do domínio do fato colocou Sérgio Moro acima do STF, que morre de medo da mídia e da Polícia Federal. A condenação de José Dirceu pela ministra Rosa Weber foi a primeira ação do domínio do fato (“Não tenho prova cabal contra José Dirceu, mas vou condená-lo porque a literatura jurídica me permite”, declarou Rosa Weber), e foi o Moro quem a instruiu no processo. O erro vem desse início, quando permitiram tanto poder ao juiz paranaense. Daí em diante, virou esse vale-tudo em que o país se vê hoje”, avalia.
Sigmaringa Seixas esquiva-se de dizer que Lula, embora já com a saúde estável, pode sair candidato a presidente em 2018, e afirma que ninguém sabe o que vai acontecer no horizonte próximo. “Não há uma liderança sequer no cenário, o futuro é sombrio e misterioso, com a crise nos países europeus e essa decadência moral no Congresso brasileiro”.
Diz que o PSDB quer o trono, mas acredita que FHC não tem idade mais para assumi-lo. É de opinião que Dilma não quer voltar a governar. “E nem seria bom que volte; ela vai se sair bem, como vítima”, prevê. “Lula não será preso, mas incriminado por Moro como chefe de quadrilha. É como irão condená-lo. Depois vão absolvê-lo”, vaticina.
Criado em 2018-12-27 00:19:37
Romário Schettino –
O crime de Donald Trump, que Bolsonaro promete repetir no Brasil de 2022 tem nome: SEDIÇÃO. Isso significa sublevação contra qualquer autoridade constituída; revolta, motim. Por extensão, perturbação da ordem pública; desordem, rebuliço. Ou seja, golpe mesmo, sem ser rebuscado.
Lá, esse crime do presidente dos EUA pode ser punido até com a pena de morte, pois trata-se de uma traição à Constituição do país. Não foi à toa que Trump recuou e prometeu posse ordeira. Pesa sobre ele a destituição antes do dia 20. Aqui, o TSE quer pagar para ver. O STF, idem, o Congresso Nacional, idem. O Ministério Público, idem.
A grande imprensa pagou para ver em 2018 e hoje está esperneando. Os ataques diários de Bolsonaro à liberdade de imprensa são medonhos, assustadores. Essa história de dizer que se não houver voto impresso ele (Bolsonaro) vai fazer pior no Brasil é uma ameaça, não é apenas uma mera opinião. O presidente da República não pode fazer esse tipo de ameaça. É mais uma intimidação aos poderes constituídos da União, como aquela que fez na porta do Quartel General de Brasília incitando o povo contra o Congresso e o STF.
O jogo democrático tem que ser transparente e todos os cidadãos são obrigados a se submeter às regras legais, caso contrário é a balbúrdia, o caos, a barbárie.
A escandalosa invasão do Capitólio, ao vivo e em cores, acendeu a luz vermelha em todo o mundo democrático. O presidente americano passou o dia tuitando e chamando seus correligionários para a invasão do Congresso, que se reunia para confirmar a vitória de Joe Biden. Quatro pessoas morreram. Com essa trapalhada final, Trump poderá ter dificuldade de se reerguer politicamente, mas o trumpismo, ou o nacional populismo que ele representa, está espalhado nos EUA e em outras terras. No Brasil de Bolsonaro, copia fiel desse modelo, a tendência é resistir a qualquer mudança no atual cenário, com o governo impregnado de militares de extrema-direita.
O colunista da Folha de S. Paulo, Celso Rocha de Barros, chamou a atenção para a live que Bolsonaro fez no dia 31 de dezembro, na qual ele disse: "Agora, o MP do Rio, presta bem atenção aqui: imagine se um dos filhos de autoridade do MP do Rio fosse acusado de tráfico internacional de drogas. O que aconteceria, MP do Rio de Janeiro? Vocês aprofundariam a investigação ou mandariam o filho dessa autoridade pra fora do Brasil e procuraria uma maneira de arquivar esse inquérito? Um caso hipotético, falando de um caso hipotético. (...) Caso um filho de uma autoridade do Ministério Público do Rio de Janeiro entrasse no inquérito da Polícia Civil do Rio e ali um delator tivesse falado que ele participava de tráfico internacional de drogas. Fica com a palavra as autoridades do Ministério Público do Rio de Janeiro".
É uma chantagem bastante clara e ninguém se espantou com o fato de ser o presidente da República atuando no papel de chantagista, impunemente.
Celso Rocha acrescenta: “O familismo amoral, que é a doutrina central do governo Bolsonaro: nada mais natural do que uma autoridade agir contra a lei e contra seus próprios deveres para beneficiar um parente ou amigo. É o ponto de encontro entre chantageador e chantageado”.
As dezenas de pedido de impeachment estão na mesa do presidente da Câmara. Pelo visto, continuarão sobre a mesa da próxima gestão em fevereiro.
Motivos não faltam para abrir o processo de afastamento do presidente. A irresponsabilidade no trato com a pandemia, o escândalo envolvendo a Abin na defesa dos filhos do presidente, a intervenção no trabalho da Polícia Federal, “rachadinha” envolvendo toda a família, ameaça à lisura do sistema eleitoral etc etc.
A oposição ao governo joga todas as suas fichas na eleição das Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado, mas não está garantido que haverá grandes mudanças, pois a chave do cofre está nas mãos do Executivo. Não há nenhum sinal de republicanismo nos atos do presidente. A grana corre solta nos corredores e nos gabinetes do Legislativo.
Todos os alertas estão ligados e o modelo Trump é muito mais perturbador do que parece.
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Leia matéria correlata da revista Exame.com neste link aqui
Criado em 2021-01-07 17:19:12
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Esta é a quinta entrevista da oitava edição do Guia Musical de Brasília, que acaba de ser publicada em forma impressa.
O que levou Patrícia Duboc, servidora da Câmara Legislativa, a lançar em 2018 o CD Pleno em Ti, de música inteiramente dedicada ao louvor de Deus? Teria ela iniciado uma carreira no mercado de música gospel? O sobrenome Duboc dá alguma pista mas antes complica que nos responde. Por isso fomos até ela para perguntar.
“A música para mim é um hobby, sem interesse financeiro no momento. A música me alimenta a alma, me anima, me faz viver. Com ela eu me conecto com as pessoas, com a natureza, com Deus. Eu não gosto de rotular a música. Música é música, não consigo colocá-la numa caixinha. Entendo que música gospel são orações cantadas, um meio de falar com Deus, falar de paz, frutos do espírito, alegria, angústia, plenitude. O meu álbum é o resultado de inspirações, de sentimentos que eu fui tendo ao ler a Bíblia. Não tinha a pretensão de lançar o álbum, mas depois de começar a publicar aqui e ali algumas canções, no YouTube, decidi lançá-lo”.
Antes da pandemia, Patrícia Duboc sempre cantou aos domingos em sua pequena Igreja de Cristo Internacional de Brasília, na 210 Sul. Mas também sempre se dedicou à MPB. É fã de Marisa Monte e de Tim Maia, por exemplo. E admira de montão a cantora Jane Duboc, sua prima de segundo grau e grande referência, mas sem qualquer ligação próxima, pelo menos por enquanto!
Pedigree - Durante a conversa ficamos sabendo que ela cresceu no Rio de Janeiro num ambiente musical. Durante o dia, a sua mãe trabalhava num banco, e à noite tocava piano e cantava na noite para ajudar no sustento das filhas, Patrícia e Flávia, e o irmão, Flávio. A avó também tocava piano e violão. E mais, Patrícia é bisneta de Barrozo Netto, importante pianista e compositor carioca (1881-1941), autor de Concerto para piano, da ópera A Rainha da noite e da suíte Vozes da floresta.
Na infância, Patrícia conviveu com o tio Maurício Duboc, acompanhador de sua mãe, cantor, compositor e coautor de muitos hits de Roberto Carlos (Falando sério, A Namorada, Sonho lindo), Chitãozinho e Xororó (Fogão de lenha) e Cauby Peixoto (Tua presença), entre outros e outras.
Pedigree ela já tinha, portanto. Teve oportunidade de estudar piano e violão quando criança mas não foi em frente. Aos 20 anos casou-se e teve duas filhas. Mudou-se para Brasília em 2001. A carreira musical teve início quase por acidente. Quando tinha nove anos, uma de suas filhas quis estudar violão, com o professor dando aulas em casa. Depois de alguns meses a filha desistiu e ela decidiu estudar o instrumento no lugar da filha, o que fez durante dois anos. Passou a praticar na igreja, onde também participa do coral. Depois de sete anos, passou a ter aulas de teclado e, o mais relevante, a tomar aulas de canto com Márcia Tauil.
Com o grupo de alunos de Tauil, Patrícia teve a oportunidade de se apresentar em muitos eventos e shows, inclusive um no restaurante KiFilé, organizado pelo Guia Musical de Brasília em outubro de 2019. Durante a pandemia, ela continuou a se apresentar em lives e a postar gravações no Facebook, em parceria com o cantor, fotógrafo e produtor Fred Brasiliense.
Projetos? Continuar a cantar, compor, quem sabe cantar com Jane Duboc!
Ouça aqui Colheita, composição de Márcia Tauil e Mana Tessari.
Criado em 2021-06-06 22:53:56
Hiaman Santos e Julia Coury (*) –
A luz apagou. Com o fim do Auxílio Emergencial, milhões de brasileiros encontram-se sem perspectiva. O Brasil passa atualmente pelo que, decerto, se desenha como o pior momento da pandemia de Covid-19 desde o primeiro caso de infecção pelo SARS-Cov-2 confirmado no país em fevereiro de 2020. A falta de oxigênio em Manaus gerou terror e perplexidade na população brasileira, além de marcar mais um capítulo trágico desta calamidade. No dia 30 de janeiro de 2021, o país registrou uma média móvel de 1071 óbitos, a mais alta desde julho de 2020. Este é o indicativo de que a emergência sanitária ainda está longe de ser contida. Suas consequências tampouco se restringem ao âmbito da saúde pública.
A pátria amada torna-se mãe gentil
O Auxílio Emergencial foi a principal medida adotada para conter as consequências econômicas e sociais da pandemia.
Desenhado pelo Congresso após intensa pressão da sociedade, o Auxílio previu o pagamento de R$ 600 mensais à parcela mais vulnerável da população - trabalhadores informais, desempregados, microempreendedores individuais (MEIs) e trabalhadores cuja renda mensal fosse de meio salário mínimo ou cujas famílias vivessem com até três salários mínimos. Para mulheres chefes de família monoparental, o benefício chegou a ser de R$ 1.200. O número de beneficiários, em setembro de 2020, foi de 67,7 milhões de brasileiros.
Prorrogação - Inicialmente, o auxílio seria pago durante os meses de abril e junho, mas foi prorrogado por mais dois meses (agosto e setembro). Para outubro, novembro e dezembro, foi instituído o Auxílio Emergencial Residual: o valor da parcela foi reduzido para R$ 300. Mães responsáveis pelo sustento familiar teriam o direito de receber até duas cotas. Os últimos pagamentos estavam previstos até o último 27 de janeiro.
Importante ressaltar que a proposta inicial do Ministério da Economia previa o pagamento de R$ 200. O Governo Federal apadrinhou a concessão do benefício somente quando percebeu as potencialidades de ganho político. De fato, a aprovação do presidente da República atingiu seu pico entre agosto e dezembro com a continuidade do auxílio, apesar de uma clara estratégia de propagação do vírus por meio do negacionismo da gravidade da pandemia e de seus efeitos deletérios na economia; demissão de ministros da Saúde e falta de uma coordenação estratégica nacional; além da disseminação de notícias falsas, incluída a aposta em medicamentos sem comprovação científica de eficácia.
Impactos - Já em maio de 2020, os impactos do auxílio emergencial para minorar a crise econômica podiam ser sentidos, segundo o Ipea. Em dezembro, o órgão revisou a expectativa de retração econômica em 2020 de -6% para -4,3%, para a qual pesou a cobertura de renda aos mais vulneráveis. A pandemia atingiu o país na esteira da mais lenta recuperação econômica depois da retração de quase -7% entre 2015-16.
Em meio a uma combinação de instabilidade política com catástrofe sanitária e uma economia já cambaleante, o número de famílias em extrema pobreza cadastradas no CadÚnico (Cadastro Único para programas sociais do governo federal) superou a casa de 14 milhões e alcançou o maior número desde o final de 2014. De acordo com o Ministério da Cidadania, esse total de famílias equivale a cerca de 39,9 milhões de pessoas na miséria no Brasil. O número é chocante e chega a ser equivalente a cerca de 19% da população brasileira.
Os frutos da gentileza
Em março de 2020, foi reconhecido o estado de calamidade pública. Durante a vigência do Decreto Legislativo, houve o abandono do teto de gastos, da meta fiscal e da regra de ouro. Dito de outro modo, as regras do orçamento público foram flexibilizadas para dar conta dos gastos necessários para conter a pandemia com efeitos até 31 de dezembro de 2020.
O gasto previsto exclusivamente com o Auxílio Emergencial era de R$ 322 bilhões até dezembro de 2020. Até aquele mesmo mês, haviam sido pagos cerca de R$ 293,1 bilhões com o Auxílio Emergencial e Emergencial Residual. A título de comparação, o custo do Bolsa Família é de cerca de R$ 32 bilhões por ano. Pode-se afirmar que o Auxílio foi o maior programa de transferência de renda da história recente do Brasil, na medida em que o custo mensal do programa correspondeu, aproximadamente, ao custo anual do Bolsa Família - criado em 2003 e principal programa de transferência de renda do país desde então.
Assim, a concessão do auxílio emergencial teve efeitos inesperados e mesmo paradoxais.
Apesar de uma crise sem precedentes e de escala mundial, o número de pobres caiu 13,1 milhões entre 2019 e julho de 2020, segundo a FGV. O estudo da FGV considera pobres as pessoas que recebem no máximo meio salário mínimo (R$ 522,50).
Pobreza - De fato, os níveis de pobreza caíram para os “menores patamares da história”, segundo a economista Laura Carvalho. O sociólogo Rogério Barbosa afirmou que houve ganhos para os 40% mais pobres, recuperando uma perda de renda observada desde 2014. Ainda de acordo com os cálculos de Barbosa, o índice de pobreza caiu de 18,7% em 2019 para 11% em 2020. Desta vez, entende-se pobreza como a situação de quem recebe até um terço do salário mínimo (R$ 348).
Desigualdade - Não é exagero afirmar que o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo. Pelo menos por um brevíssimo período, a desigualdade brutal brasileira também diminuiu. Os cálculos do sociólogo Rogério Barbosa indicam uma baixa histórica do índice de Gini, que mede desigualdade de renda. Este indicador caiu de 0,543 em 2019 para 0,492 em maio de 2020 - quanto mais próximo de “zero”, maior a igualdade na distribuição de renda. Para tanto pesaram, por um lado, o aumento da renda dos mais pobres por meio do pagamento do Auxílio Emergencial e, por outro, a perda de emprego e renda pelo miolo da pirâmide também. Sem auxílio, a desigualdade seria maior. Neste caso, o coeficiente de Gini seria de 0,569 (comparável à década de 1970).
Nassif-Pires e coautores (2020) encontraram a mesma tendência de redução da desigualdade, ainda que em patamares diferentes. Ao reduzir a pobreza para um nível histórico e compensar o aumento da desigualdade de renda do trabalho, que chegou a ser de 5%, o Auxílio produziu uma redução da desigualdade medida pelo índice de Gini de 0,67 para 0,56. Para os 50% mais pobres, o Auxílio mais do que compensou a perda de renda.
Esses avanços no combate à pobreza e desigualdade provavelmente ficarão restritos a um momento muito específico na história recente do Brasil. Sabe-se que as pandemias tendem a aumentar desigualdades. Pela temporariedade do benefício, o Auxílio postergou o aumento da desigualdade oriundo da crise sanitária causada pelo novo Coronavírus. Ainda assim, o avanço é admirável diante dos indicadores citados. Com a pandemia ainda em curso, o retorno de medidas de austeridade e de uma agenda liberal, a tendência é que a desigualdade no país volte a crescer.
Não veio a utopia. E tudo acabou. E tudo fugiu. E tudo mofou. Já diria Drummond.
Muda Brasil, muda de verdade!
No dia 28 de janeiro de 2021, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que, entre setembro e novembro de 2020, a taxa de desemprego alcançou 14,1%. Esse é o percentual mais alto para esse trimestre móvel desde 2012, quando a pesquisa da série histórica se iniciou. Estima-se que o total de desempregados no Brasil seja de 14 milhões. Ademais, segundo a PNAD-Covid, entre 20 e 26 de setembro de 2020, aproximadamente 15,3 milhões de pessoas não procuraram emprego por conta da pandemia. Em relação aos programas de crédito para empresas, existem críticas que o auxílio não chegou à ponta. O resultado foi lamentável, até julho de 2020, 716 mil empresas já tinham sido fechadas e não possuíam perspectiva de voltarem à atividade.
Foi nesse contexto de pandemia, desemprego e fim do Auxílio Emergencial que o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou na quinta-feira (4/2) a possibilidade de retorno do benefício social. Segundo Guedes, o auxílio seria concedido, no entanto, mediante o acionamento de “cláusulas necessárias” e, desta vez, estaria disponível para metade dos beneficiários que receberam o pagamento anteriormente. Uma das principais preocupações para a equipe econômica (e economistas em geral) é a questão da responsabilidade fiscal.
A temática fiscal tem sido usada como o principal argumento para não se levar adiante propostas como: extensão do Auxílio Emergencial Residual, ampliação do Programa Bolsa Família e criação de programas ainda mais amplos de garantia de renda. O que esses projetos têm em comum? Essencialmente, todos visam garantir uma receita mínima que assegure dignidade humana. Um deles é a Renda Básica, que, de acordo com uma pesquisa realizada pela Frente Parlamentar da Renda Básica, foi o tema de mais de 40 projetos de Lei ou PECs apresentadas pela Câmara ou pelo Senado em 2020.
Renda Básica - Para a economista Laura Carvalho, existem duas vias possíveis para desenvolver o projeto de Renda Básica sem que haja desequilíbrios orçamentários. A primeira opção seria remanejar recursos do orçamento destinados a outros itens, particularmente benefícios sociais (como Abono Salarial, Seguro Defeso, Salário-Família, entre outros), preservando, por ora, o modelo atual do teto de gastos. Uma segunda possibilidade seria “financiar a expansão das transferências por meio da tributação maior da renda dos mais ricos”. Esta última demandaria uma modificação na regulação do Teto de Gastos, já que uma maior arrecadação de impostos não criaria espaço adicional dentro do desenho atual já sufocado com os gastos correntes. Os estudos desenvolvidos por Laura Carvalho indicam que, com a elevação da alíquota efetiva de tributação do IRPF (Imposto de Renda da Pessoa Física) dos 20% mais ricos, passível de aumento proporcional à renda, seria possível beneficiar os 30% ou até os 50% mais pobres com valores superiores ao Bolsa Família e para mais beneficiários, chegando a uma redução de 8,9% do Índice de Gini.
Outras propostas estão sobre a mesa. O pesquisador Sergei Soares defende a criação de um benefício a todas as famílias com crianças, como existe nos países ricos, sem aumentar o endividamento público. Para tanto, seriam fundidos o Bolsa Família, o abono salarial e o salário-família (para além da restrição das deduções para dependentes no imposto de renda). A proposta tramita no Congresso como uma PEC e, pelas pesquisas, pode levar a uma queda de 30% na pobreza infantil com um benefício universal, quase fiscalmente neutro, devido ao ganho de cobertura (os valores básicos seriam os mesmos dos benefícios do Bolsa).
Assim, o desenvolvimento e execução de programas voltados para a distribuição de uma renda universal proporciona base para a construção de políticas públicas de impacto intersetorial. De acordo com Monica de Bolle, a transversalidade e a universalidade são fundamentais para garantir cidadania e justiça social para todos. É primordial que a população nas margens da cidadania fadadas às estruturas de desigualdades: negros, pobres, mulheres, membros da comunidade LGBTQIA+, tenham seus direitos econômicos e sociais respeitados. A Renda Básica tem como uma de suas principais consequências trespassar essas imensas injustiças históricas e promover dignidade.
Brasil, para onde?
Sabe-se que os programas de transferência de renda no Brasil têm impacto substancial na redução da pobreza e desigualdade, além de dinamizarem a economia e a arrecadação estatal. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) o programa possui um efeito multiplicador, e a cada R$ 1 gasto com o programa (entorno de 0,4% PIB) 'gira' R$ 2,4 no consumo das famílias e adiciona R$ 1,78 no PIB (Ipea). O Bolsa Família esteve na vanguarda do combate à pobreza nos anos 2000. Ainda que hoje se saiba que a redução da desigualdade tenha sido menor do que antes se imaginava, houve um efeito positivo na elevação da renda da parcela mais pobre (para discussão aprofundada sobre a concentração de renda no topo no Brasil, ver Ferreira de Souza, 2016).
No contexto atual de uma calamidade pública (ainda que não reconhecida juridicamente, mas ainda válida no mundo real), os impactos do Auxílio Emergencial reforçam o papel do Estado na promoção do bem-estar social. Milhões saíram da pobreza por meio deste programa e há evidência de que a desigualdade diminuiu. Esta experiência, bem como a do Bolsa Família, dá sustentação às propostas de desenho de uma renda básica que possa ser fiscalmente responsável e garantir uma vida digna a milhões de brasileiros.
Nos parece que está aí um dos remédios, quiçá o principal, para as mazelas sociais que abundam na sociedade brasileira há tempos. Não é aceitável que uma parte substancial da população viva ao deus-dará. Dito de outro modo, não é concebível que 40 milhões de brasileiros subsistam! Somente existe uma direção de marcha, Brasil. Rumo a um projeto de país que supere as desigualdades brutais e elimine a miséria.
_______________
(*) Hiaman Santos, Internacionalista pela Universidade de São Paulo e finalista do Programa Trainee de Gestão Pública do Vetor Brasil.
Julia Coury, Internacionalista pela Universidade de São Paulo, consultora de Relações Governamentais e articuladora política do site Elas No Poder.
(As análises e opiniões aqui contidas dizem respeito aos autores e não representam o posicionamento institucional das organizações a que pertencem).
Criado em 2021-02-08 18:28:27
O vice-governador do Distrito Federal, Renato Santana (PSD) foi demitido, hoje (3/1) da Administração de Vicente Pires, cargo que ocupava interinamente, por ter sido, segundo ele, contra o aumento das passagens de transporte coletivo.
Rollemberg não gostou da manifestação do administrador Santana contrária à medida de reajuste das passagens no apagar de 2016.
Veja a nota oficial que Santana publicou em sua página no Facebook:
“Sugeri a demissão de quem sugeriu ao governador apenas uma alternativa para reverter a crise com o aumento de passagens!
E fui demitido de Vicente Pires [da Administração] sem nenhuma ligação do governador! Estive a frente de 31 regiões administrativas nos últimos 2 anos! Sempre que precisou me acionou e fui prontamente atender, por entender que essa é a forma de colaborar com a cidade, trabalhando!
Não vou jamais deixar de dar e expressar meu ponto de vista acerca das coisas que afetam a vida do cidadão na cidade que nasci e hoje tenho a oportunidade, a missão de colaborar com a gestão!
Ontem (2/1) deixei mensagem de whatsapp ao governador [Rodrigo Rollemberg] sugerindo a suspensão das tarifas e assumi o compromisso de apontar alternativas que possam minimizar o impacto financeiro e fazer voltar a girar a economia da capital da República!
Sugeri uma auditoria/revisão nas gratuidades, porque certamente há um descontrole que vem de anos! Por exemplo, hoje um cidadão que ocupa área pública no Distrito Federal, uma varanda de bar por exemplo, não paga pela utilização por não termos instrumentos que permitam esse pagamento!
Quem utiliza área com outdoor nas regiões administrativas passa pela mesma coisa! Sem medo de errar, temos mais de R$ 1 bilhão/ano somente nesse tema! Dá trabalho fazer isso? Dá sim, e é por isso que precisamos contar com a mão-de-obra dos 160 mil servidores que temos no quadro do GDF. O fácil é fazer o óbvio?
Não posso concordar, tendo alternativas! Continuarei trabalhando!”
Assinado: Renato Santana da Silva, servidor público do GDF há 22 anos e há dois como vice-governador do DF.
Criado em 2017-01-04 00:37:49
De hoje (12) até o dia 29/5, no SESC Tijuca (Rua Barão de Mesquita, 539, Tijuca – Rio), peça em cartaz com texto baseado em Nelson Rodrigues: “A vida não é justa”. De quinta a sábado às 20h30 e domingos às 19h30. O espetáculo é de autoria da juíza Andréa Pacha, adaptado por Delson Antunes e dirigido por Tonico Pereira.
Fazem parte do elenco Emiliano Queiroz, Léa Garcia, Lorena da Silva, Marta Paret, Duda Barata, Lui Nacif, Bruno Quixote e Rafael Sardão. Atualmente a peça emprega diretamente 24 profissionais.
Trecho do texto utilizado na peça: “Nélson Rodrigues tinha razão: se as pessoas conhecessem a intimidade uma das outras, ninguém se cumprimentaria.”
“Avida não é justa” é um jogo no qual os atores e os personagens se revezam, ora na tarefa de vítima, ora na função de acusado, trazendo para a reflexão temas como diversidade, igualdade, justiça, respeito, tolerância e conflitos relacionais. O amor acaba, divórcios acontecem, investigações de paternidade são necessárias, os filhos sofrem, reconciliações ocorrem, situações inusitadas e cômicas transformam-se em soluções e as famílias adquirem novas estruturas.
O espetáculo é composto por um prólogo e 8 cenas, a juíza está em todas elas.
PRÓLOGO: Todos em cena
1ª Cena: MOLHADINHA 25; com Léa Garcia, Emiliano Queiroz e Bruno Quixotte.
2ª Cena: CASAMENTO NÃO É EMPREGO; com Duda Barata , Bruno Quixotte e Daniel Dias da Silva.
3ª Cena: QUEM CUIDA DELE?; com Marta Paret e Daniel Dias da Silva.
4ª Cena: TEM COISA QUE NÃO SE PERGUNTA; com Daniel Dias da Silva e Duda Barata.
5ª Cena: SAGRADO É UM SAMBA DE AMOR; com Léa Garcia, Bruno Quixotte e Daniel Dias da Silva.
6ª Cena: O QUE OS OLHOS NÃO VEEM; com Duda Barata, Marta Paret e Bruno Quixotte.
7ª Cena: MAS EU AMO AQUELE HOMEM…; com Marta Paret, Bruno Quixotte, Duda Barata e Léa Garcia.
8ªCena: RECONCILIAÇÃO; com Léa Garcia e Emiliano Queiroz.
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Ficha técnica:
Cenário e iluminação: Paulo Denizot e Janaina Wendling.
Figurinos: Fernanda Fabrizzi.
Trilha Sonora: Máximo Cutrin.
Produção: Barata Produções
Duração: 60 minutos. Classificação etária indicativa: 14 anos
Ingressos: R$ 7,50 para comerciários; R$ 15,00 para jovens de até 21 (vinte e um) anos, estudantes e maiores de 60 (sessenta) anos; R$ 30,00 para os demais.
Local: SESC TIJUCA – Rua Barão de Mesquita, 539, Tijuca – Rio de Janeiro RJ. Informações: (21) 4020-2101
Criado em 2022-05-12 20:49:58
Maria Lúcia Verdi –
Neste último dia 9 de outubro cumpriu oitenta anos um importante poeta que vive entre nós, Francisco Alvim. Poeta e embaixador aposentado viveu as agruras da ditadura, sabe do que se trata e disso também trata em sua obra.
Resistiu na vida e na obra. Irônico, por vezes doloroso retratista da nossa sociedade patriarcal, machista e, sem dúvida, incompreensível, Chico Alvim é também um lírico. Foi duas vezes premiado com o Jabuti pela sua poesia, em 1981 (Passatempo e outros poemas) e em 1988 (Poesias Reunidas).
Mas como não estamos muito para o lirismo e sim para o comprometimento com a palavra que está na boca de todos: DEMOCRACIA, aqui trago alguns poemas desta figura que sempre se colocou ao lado da liberdade e dos direitos humanos:
ELE
Quero uma metralhadora
Pra matar muita gente
Eu mato rindo
OBRIGAÇÃO
Não é questão de gostar
É de ter de ser
CONSELHO
Nosso negócio é a tortura
Sempre que falarem o nome dele
Invente
MOÇO, FORTE
Vem cá
você por acaso me chamou de ignorante
você é que me chamou
chamei a administradora
me chame outra vez
porque aí sim você vai ver
a ignorância
ora vá andando
eu estou aqui trabalhando
e você
à-toa um caralho
perdi dez mil cruzeiros
por culpa de vocês
chiu olha as senhoras
chiu olha o respeito
________________________
O FILHO - Pedro Alvim, filho de Chico, professor de artes na UnB, resiste com a palavra didática e com uma pintura muito especial. Absolutamente fora de um mercado que estimula a produção de obras que se assemelhem para que possam ser vendidas, a pintura de Pedro se aproxima da obra do pai com uma estética que, nos temas e figuras, sejam atemporais que históricas, esboçam uma realidade muitas vezes difícil de decifrar, de explicar.
O mesmo compromisso com as cores, com uma certa luz, uma certa imprecisão. Dia 18/10, nesta quinta, a partir das 19h, pai em filho poderão ser abraçados na Matéria Plástica, Condomínio Privê Morada Sul (Altiplano Leste), Rua 23, casa R 49, em Brasília. Compareça! Prestigie!
Criado em 2018-10-17 19:30:07
Romário Schettino –
Recebi pelos Correios o meu exemplar do livro do fotógrafo André Dusek, O ouro bruto – Serra Pelada em três tempos, que registra a história dramática do maior garimpo a céu aberto do mundo, feita em três visitas: 1980, 1996 e 2019.
A primeira visita aconteceu em 1980, em pleno regime militar brasileiro, e foi realizada a convite do Major Curió, quando André e o jornalista Zanoni Antunes estavam em outro garimpo, o “Goiaba”, perto de Conceição do Araguaia, a serviço do jornal Correio Braziliense. As fotos, publicadas no jornal brasiliense correram o mundo e ficaram famosas. Estavam ali registrados os dramas de cerca de 100 mil homens trabalhando, em condições precárias, buscando do sonho de ficar rico em meio à lama misturada com o ouro.
Na apresentação do livro, Milton Guran, fotógrafo e antropólogo, diz que “aquela foi uma grande aventura fotográfica acolhida internacionalmente, uma experiência iniciática que marca para sempre a vida de um fotógrafo”.
Dezesseis anos depois, em 1996, André voltou a Serra Pelada, mas o cenário era outro. Do garimpo já não existia mais nada. Dusek registrou a cratera gigante coberta por um grande lago. O garimpo havia sido fechado oficialmente em 1992 por Fernando Collor de Mello. Os poucos moradores resistiam e ainda lutavam pela sobrevivência. Mas a esperança foi finalmente soterrada quando a Cia. Vale do Rio Doce descobriu uma grande jazida a 430 metros de profundidade, que seria explorada apenas por extração mecanizada. Estava proibida a extração manual.
Na terceira visita, em 2019, André Dusek, registra a completa desolação. A antiga agência da Caixa Econômica, que havia comprado a maior parte das 45 toneladas de ouro que saíram de Serra Pelada, não existia mais. Uma comunidade pobre e desamparada ocupa o local.

A saga das fotos
Dusek relata no livro a saga dos negativos da primeira viagem: “Os negativos foram salvos milagrosamente de um incêndio e de um alagamento”. Isso porque a Ágil Fotojornalismo, agência recém-criada por um grupo de fotojornalistas de Brasília, em 1985, sofreu um incêndio criminoso, “até hoje não esclarecido”. E o alagamento ocorreu na casa de seu pai, o artista plástico Milan Dusek, quando um vazamento na caixa d´água molhou muitos envelopes do arquivo que preservava centenas de filmes. De novo os negativos de Serra Pelada saíram intactos para o bem da história do Brasil.
É por isso que essas fotos estão aqui transformadas em livro para a preservação da memória nacional. Uma história muito bem contada em texto e fotos pelo excelente André Dusek.
Por fim, é preciso dizer que o livro tem uma edição primorosa, com projeto gráfico de Clarissa Teixeira/André Dusek e com capa dura. Tradução para o inglês de Paula Simas e Margarete Oliveira.
O autor
André Dusek nasceu no Rio de Janeiro em 1956 e se mudou para Brasília em 1975. Formou-se em jornalismo na UnB, em 1979. Trabalhou na revista Manchete, Correio Braziliense, sócio da Agência Ágil de Fotojornalismo. Trabalhou na revista Isto É e no jornal Estado de S. Paulo. Atualmente vive em Florianópolis (SC).
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Como comprar o livro:
Escreva um e-mail – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. – para o André Dusek e solicite o número da conta bancária dele Forneça seu endereço completo, inclusive com CEP e um número de telefone para que o livro seja enviado.
Valor: R$ 90, mais o Correio, R$ 27,90, total: R$ 117,80.
Criado em 2021-01-04 02:28:20
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Esta é a quarta entrevista da oitava edição do Guia Musical de Brasília, que acaba de ser publicada em forma impressa.
A frase parece banal, mas cada artista tem um programa de trabalho refletindo a sua filosofia de vida. O programa pode não ser explícito, e às vezes é confuso, sendo revelado de qualquer forma por suas obras. No caso de Virgínia Feu Rosa o programa é claríssimo e pode ser sintetizado numa só palavra, doçura, marca de sua voz, reconhecida pelos críticos.
Para checar, ouça o samba Vem me ensinar, de autoria da cantora, a terceira faixa do EP Irradia, que estreou no YouTube (ouça aqui) em fevereiro de 2020.
Diz o samba:
Nuvens de preocupações a me afligir
Mas a Luz ao fim do túnel ali surgia
Vejo o sol que me aquece e me anima
Mostrando um caminho a me amparar, me ensina!
Vem pra cá, vem pra cá, vem me ensinar
Girassol, seu amarelo irradia
Suave e calmante alegria
Exalando essa doçura que fascina
Fascina sem sequer se esforçar, me ensina!
Vem pra cá, vem pra cá, vem me ensinar
Me ensina porque também quero ter
Alegria só por desabrochar
Vem pra cá, vem pra cá, vem me ensinar
Essências - De uns dois anos para cá é que Virgínia decidiu deixar mais evidente a sua mensagem de compositora e cantora, uma mensagem voltada para o autoconhecimento e para a reconexão com a natureza, algo mais “essencial”, menos “intelectual”, diz ela. Para ilustrar o que busca, ela cita uma de suas canções favoritas, Balada do Louco, de Arnaldo Baptista, Rita Lee e Roger Ranson. “Temos que nos reprogramar. Não existe essa história de normal. Todos nós somos únicos. Temos que abraçar essa singularidade. Não podemos abafar isso”. Trilhando o novo caminho, ela se tornou vegana e passou a se dedicar à meditação.
Virgínia nasceu no Espírito Santo, viveu na Inglaterra dos 11 aos 15 anos, mudando-se para Brasília em seguida. Aqui participou do Coral Sinfônico da UnB, estudou teoria e canto popular na Escola de Música, e fez flauta transversal e piano com professores particulares. Iniciou a carreira artística por volta de 2008, cantando em bares.
Depois de formada em Direito, ingressou no Tribunal de Justiça do DF por concurso, estava com a vida estável, ela diz, mas sentiu que lhe faltava alguma coisa além das convenções e obrigações impostas pela sociedade. Foi a música que preencheu a sensação de vazio.
Em 2014 fez uma turnê pela Europa (Munique, Chipre, Suécia) com um tributo a Nara Leão, nos 25 anos de desaparecimento da musa da Bossa Nova. Virgínia já era fã de Tom Jobim, Vinicius, Elis Regina, Chico Buarque, Caetano, Gilberto Gil, Djavan, na MPB, de Louis Armstrong e Ella Fitzgerald no jazz, e também frequentava a música pop com Madonna e A-ha, por exemplo. No entanto, Nara foi uma revelação para ela, justamente pela doçura, em contraste com a intensidade de Elis.
O encanto cresceu ainda mais quando descobriu que o pai de Nara Leão, o advogado Jairo Leão, é primo em primeiro grau de sua avó paterna. Todos capixabas.
Em 2013 o Fundo de Apoio à Cultura aprovou o projeto de seu CD, Primeiro Impacto, lançado em 2016, “um fruto do Cerrado, um fruto de Brasília”. São 13 faixas, das quais três de sua autoria, Naiê Naiam, Tortos Caminhos, em parceria com César de Paula, e Enamore-se de si, com Hallison Nogueira. O CD inclui canções de Oswaldo Montenegro, Clodo, Climério e Clésio, Hamilton Holanda, entre outros.
Ao compor, Virgínia leva em conta as lições aprendidas com a professora Valéria Klay, que privilegia a técnica do canto natural, tanto para não forçar as pregas vocais como para preservar as nuances individuais dos cantores e cantoras.
Antes da pandemia, Virgínia já havia decidido apostar ainda mais nas redes sociais para mostrar o seu trabalho. Estava mais do que preparada, portanto, para enfrentar a crise. Nos últimos meses lançou EPs e programou várias lives, que podem ser acessadas no YouTube e na sua página do Facebook.
Criado em 2021-06-04 21:42:35
Guilherme Cadaval (*) –
Quando das primeiras notícias da detecção de um novo membro da família do coronavírus na província chinesa de Wuhan, o agora infame Sars-CoV-2, a primeira reação dos mercados foi, naturalmente, de queda. Temia-se uma interrupção nas cadeias de produção. Contudo, logo em seguida a este primeiro sobressalto, eles atingiram novos picos por um mês ou mais. Atinavam que o novo coronavírus seria apenas uma reprise da Sars de 2002, que foi rapidamente contida, e, por isso, não haveria motivo para pânico.
Talvez seja este o movimento mais característico, mais próprio, disto a que chamamos, ou que ouvimos ser chamado, sempre tão enigmaticamente, com o nome de “mercado”. Se o bicho pega, ele se retrai, fica à espreita, aguardando, mas sua expectativa é sempre a de um retorno tão rápido quanto possível a uma pretensa normalidade.
O último livro do geógrafo britânico David Harvey, Anticapitalismo em tempos de pandemia: marxismo e ação coletiva, publicado pela Editora Boitempo, é justamente um esforço no sentido de evitar um retorno irrefletido ao “normal”, a fim de abrir espaço para um repensar de nossas estruturas institucionais.
De fato, o vírus pegou de surpresa, em quase todos os lugares, autoridades públicas e sistemas de saúde, os quais, imersos em quarenta anos de um banho-maria de políticas neoliberais, “deixaram o público totalmente exposto e mal preparado para enfrentar uma crise de saúde pública desse calibre”, e isso apesar de “sustos anteriores como a Sars e o ebola terem fornecidos avisos abundantes e lições convincentes sobre o que seria necessário fazer”.
Esta exposição, evidentemente, não é homogênea. Não estamos todos “no mesmo barco”. A pandemia demonstra muito claramente o seu recorte de classe, gênero e raça, uma vez que as pessoas mais vulneráveis, a classe trabalhadora contemporânea – aquela que tem de escolher entre ficar em casa e passar fome, ou sair para trabalhar e se expor a um vírus potencialmente fatal – é, em sua absoluta maioria, constituída por pobres, negros e mulheres.
Segundo Harvey, essa força de trabalho “há muito vem sendo socializada para se comportar como bons sujeitos neoliberais, o que significa culpar a si mesmos ou a Deus se algo der errado, mas jamais ousar sugerir que o capitalismo talvez venha a ser o problema”. É claro, quem batalha diariamente pela sua sobrevivência e de sua família, não vai querer colocar o seu sustento em risco. Mas a pandemia contribui para tornar mais evidente a falácia da tese neoliberal de que toda a responsabilidade, pelo sucesso como pelo fracasso, recai sempre sobre o indivíduo, possibilitando enxergar uma transformação que não seja individual, mas coletiva. Em vez de dizer que queremos todos “voltar a trabalhar, recuperar aqueles empregos perdidos e restaurar tudo da forma que estava antes, talvez devêssemos dizer: porque não sair da crise criando uma ordem social inteiramente diferente?”.
A pandemia fornece um momento oportuno para refletir sobre alternativas ao status quo de um sistema capitalista que sempre esteve disposto a sacrificar vidas em prol da produtividade e do acúmulo ilimitado de riquezas. Curiosamente, a estrutura que possibilitaria um rearranjo radical desta ordem social, é a mesma que a sustenta. Porque não pegar a capacidade produtiva da sociedade burguesa – alta tecnologia, inteligência artificial, máquinas autônomas – e usa-la para construir uma sociedade na qual o capital não corra todo para o topo da pirâmide, e na qual todas as pessoas tenham garantidos os insumos básicos para a subsistência, como moradia, alimentação e saúde? Por que não?
Marx, em A guerra civil na França, afirma que as classes trabalhadoras “não têm nenhum ideal a realizar, mas sim querem libertar os elementos da nova sociedade dos quais a velha e agonizante sociedade burguesa está grávida”.
A revolução não se dá num único golpe, mas se desenrola numa série de processos históricos que transformam as circunstâncias e os homens. Estamos, não há dúvida, no meio de uma dessas transformações, cujas sequelas serão sentidas pelas próximas décadas.

David Harvey: “A pandemia contribui para tornar mais evidente a
falácia da tese neoliberal de que toda a
responsabilidade, pelo sucesso como pelo fracasso,
recai sempre sobre o indivíduo, possibilitando enxergar
ma transformação que não seja individual, mas coletiva.”
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(*) Guilherme Cadaval é formado em Filosofia pela UFRJ, onde concluiu mestrado e doutorado. É autor do livro Escrever a mágoa: um cruzamento entre Nietzsche e Derrida.
Criado em 2021-01-28 16:04:10
A propósito do aumento das passagens do transporte coletivo do Distrito Federal, a Associação Andar a Pé - O Movimento da Gente divulgou nota pública manifestando-se contrária ao ato do governador Rodrigo Rollemberg (PSB), que elevou em até 25% o preço das passagens no último dia de 2016.
Os ativistas do Andar a Pé se associam à população que foi às ruas protestar contra o aumento considerado "abusivo" das tarifas. Ontem (2/1) centenas de pessoas estiveram na Rodoviária do Plano Piloto para exigir do GDF a revogação da medida.
O presidente da Câmara Legislativa, Joe Valle, decidiu convocar sessão extraordinária para revogar o Decreto do Governador. Rollemberg disse à imprensa que se a CLDF anular o aumento vai à Justiça, mas que disse também que "prefere chegar a um acordo com os parlamentares sobre a solução mais adequada para o caso".
O governador afirmou que há um rombo de R$ 600 milhões anuais nas contas para sustentar o sistema de transporte coletivo do DF e que um dos motivos é a gratuidade sem limite para os estudantes. A ideia, segundo ele, é encontrar uma forma de diminuir essa gratuidade generalizada.
Leia abaixo a íntegra da nota da Associação Andar a Pé:
"Associação Andar a Pé – O Movimento da Gente
Manifesto contra o aumento de passagens
A Associação Andar a Pé - O Movimento da Gente manifesta-se frontalmente contra o abuso cometido pelo Governo Rollemberg ao aumentar os preços das passagens do transporte público coletivo do Distrito Federal nos últimos dias de 2016, trazendo graves consequências aos usuários e pedestres de nossa cidade.
Apoiamos os argumentos e reflexões levantados pelo Movimento Nossa Brasília e aqueles publicados no Blog Brasília para as Pessoas e reforçamos que este ato é um atentado contra nossos objetivos comuns em defesa da mobilidade ativa, ambientalmente sustentável e socialmente inclusiva no DF e Entorno.
Exigimos que o GDF cancele imediatamente as medidas anunciadas e que seja instaurado debate público em torno de melhorias que coloquem o usuário do sistema de transporte coletivo e o pedestre como beneficiários de uma política moderna de mobilidade urbana.
Brasília, 3 de janeiro de 2017.
Associação Andar a Pé - O Movimento da Gente".
Criado em 2017-01-03 13:25:01
De 23 a 26 de março, na Zona Norte do Rio, será realizada a Primeira Conferência de Arte, Beleza e Moda de Madureira (OFio). O evento é totalmente organizado por treze mulheres negras, gays, trans e PcD (Pessoa com Deficiência), que têm como objetivo mostrar seu olhar inclusivo ao mundo do empreendedorismo.
As inscrições podem ser feitas pelo site do Sympla e o evento presencial será na Duto Roof, que fica na Rua Carvalho de Souza, 237, Rooftop, Madureira - Rio de Janeiro.
Essas mulheres pretendem levar informações, dados estatísticos, para que as pessoas possam se tornar independentes financeiramente por meio de três pilares: arte, beleza e moda, driblando dificuldades e preconceitos.
“Nesse evento, diversos nomes da área da beleza, estética, comportamento, moda e universo digital se reunirão em Madureira numa celebração da potência e da inovação afro urbana”, dizem as organizadoras.
O encontro conta com uma programação completamente voltada para o ramo da cultura, estética negra, trazendo as principais tendências, influenciadoras, autoridades, novidades científicas e tecnológicas das áreas de moda, beleza, cosmética e saúde.
O evento acontece com restrição de público, num formato BETA e tem como objetivo disponibilizar as principais tendências, influenciadores, autoridades, novidades científicas e tecnológicas, além de validar novas metodologias, linguagens e dinâmicas de aprendizado híbridos. A intenção é circular inteligências, estimular inovações e construir pilares que auxiliem novas modelagens de negócios.
Ainda segundo as organizadoras, empreender é um universo privilegiado, dominado por regras complexas e arranjos institucionais excludentes. OFIO sinaliza 3 pontos focais sensíveis para o desenvolvimento sustentável de novos negócios nesse ramo, são eles:
NEGACIONISMO: a prática de invisibilizar e estereotipar o potencial socioeconômico e cultural dos subúrbios.
PRECONCEITO: a falta de diversidade da indústria criativa e a seletividade das oportunidades.
ESCASSEZ: ausência de investimento para desenvolvimento de iniciativas, agentes, negócios e soluções que estão fora do eixo capital.
OFIO vai pautar a convergência, entregando conteúdos interativos através de um programa que inclui masterclass, produção de podcasts, workshops e compartilhamento digital dos processos nas redes sociais do projeto.
O evento é realizado pela DUTO, agência desenvolvedora de negócios potenciais criativos, patrocinado pela Prefeitura do Rio, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, e acontece na primeira Zona de Cultura do Rio, Madureira. É organizado em parceria com Gabriela Azevedo, Fundadora e Diretora Executiva do TRANÇA TERAPIA, sob curadoria da Stylist e Diretora Criativa, Rafaela Pinah e conta com a produção geral de Yasmin Gomes da Gestora e Fundadora da HULP FINANÇAS.
A conferência é gratuita, as vagas são limitadas e as inscrições dos participantes podem ser realizadas pelo link do sympla mediante preenchimento do questionário seletivo.
Programação:
23/3 - Abertura (18h às 23h)
TAINA DE PAULA - Arquiteta e Urbanista - @tainadepaularj - Vereadora, Arquiteta e urbanista, especialista em Patrimônio Cultural pela Fundação Oswaldo Cruz e Mestre em Urbanismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É membro da Comissão de Gênero do CAU-RJ e atualmente é Coordenadora Regional do Projeto Brasil Cidades.
24/3 - (14h às 22h)
PAINEL 1
Novas narrativas no mercado de moda (14h às 16h)
LELE MARTINS - Blogueira. É produtora de conteúdo para as redes sociais, palestrante e modelo. Nas redes, é conhecida como @blogueirapcd e nelas fala sobre capacitismo, moda e desconstrução. Além disso, é estudante de Ciências Sociais, e realiza uma pesquisa direcionada à vivência de pessoas negras com deficiência no Brasil.
MANU MENDES - Comunicadora e Digital Influencer. MBA em redes sociais.
PAINEL 2
Gestão de negócio e desenvolvimento de produto (17h às 19h)
SAMANTA CONSTANTINO - CEO & Founder das: @hairsamanta @samantaeducational - Ubuntu Beauty. Terapeuta Capilar (Tratamento de Queda Capilar, Alopecia, Psoríase, Dermatites, Caspas, Oleosidade Excessiva), Especialista em Soluções Capilares, Mentora de Carreira Beauty, Especialista em Cabelos Afro e Tranças Afro, Educadora, Palestrante, Mentora de Empreendedorismo, Gestora de Branding, Personal Branding.
ISABELA MELO - Empresária e Cabeleireira I @hidrabella - 28 anos, é cabeleireira, empresária no ramo da beleza, proprietária de um espaço focado em cabelos cacheados/crespos e desenvolvedora de uma linha de produtos chamada HIDRABELLA.
Happy Hour das 19h às 22h (Djset)
25/3 - (14h às 22h)
PAINEL 1
A potência do mercado das tranças e os desafios (14h às 16h)
LARISSA AZEVEDO - Empresária e Trancista | @black.azevedo - 27 anos, nascida em Madureira cresceu em Valença, interior do Rio de Janeiro onde depois de anos trabalhando com cabelos se descobriu apaixonada em tranças resultando hoje na Black Azevedo.
JULLY VICTORIANO - Especialista em Faux Locs. É nascida e criada na Zona Oeste do Rio, mais especificamente em Bangu. Trabalha com tranças/dreads há oito anos, e hoje em dia é a sua maior fonte de renda. Jully é produtora de moda e trancista especializada em faux locs, uma das pioneiras do método no Rio.
Intervalo das 16h às 17h (Djset)
PAINEL 2
A importância do conteúdo digital no desenvolvimento de carreira (17h às 19h)
JACY CARVALHO - Afrohairstylist e Empreendedora Iinstagram.com/jacycarvalho I youtube.com/jacycarvalho I tiktok.com/@jacycarvalho - Trancista, uma das maiores referências em estética e beleza afro, CEO das empresas @ciaracabelos e @viagempreta e proprietária do maior canal do Youtube voltado para a temática de tranças no Brasil.
ERICA ANDRADE - Trancista conhecida como Kika Tranças, ela tem um trabalho orientado nas áreas de cabelo afro, investimento, mercado financeiro e transição de carreira.
Happy Hour das 19h às 22h (Djset)
26/3 (das14h às 22h)
PAINEL 1
Inovação, empreendedorismo e alta performance como ferramenta de transformação (17h às 19h)
JUH DE PAULA - CEO da Femme Fit Power e Especialista em Emagrecimento - Escritora Profissional de Educação Física, especialista em emagrecimento e treinamento de alta performance para mulheres.
LORENA COIMBRA - Diretora e Fundadora da Foodtech Consultoria - Proprietária da Foodtech consultoria e Sócia-fundadora na Hort-e - Mentoria de Negócios de Alimentos. Mestra em Ciências e Tecnologia de Alimentos na IFRJ com foco em tecnologias emergentes e engenheira de alimentos, especialista em desenvolvimento de produtos e em segurança de alimentos.
PAINEL 2
Moda, Estilo de Vida e Marketing Digital (14h às 16h)
MONIQUE BERÇOT - Influencer e Ceo da LUXUOSODIA I @MoniiqueBercot - Seu propósito na internet é ajudar as pessoas a aproveitarem o melhor da vida, logo, compartilha suas descobertas, experiências e vivências na certeza que está dando um passo que quem a acompanha ainda não deu, mas que quando der, será certeiro.
MANNU VIANA - Influencer - @manuuvianaa - Emannuely Viana, atua como criadora de conteúdo digital para o instagram e youtube, com foco no universo da beleza, casa, maternidade e lifestyle.
Encerramento às 19h.
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A equipe:
GABRIELA AZEVEDO - Trancista e idealizadora do Trança Terapia - @trancaterapiaoficial - é poeta e articuladora cultural.
YASMIN GOMES - Produtora Executiva, Empreendedora e Mentora Financeira - @yasgcp @hulpfinancas - tem 24 anos, é carioca, nascida e criada numa comunidade em Realengo, atualmente reside em Madureira.
RAFAELA PINAH - Pesquisadora, curadora de conteúdo e fundadora da Coolhunter Favela - @rafaelapinah - é moradora da Cohab de Realengo, Zona Oeste do Rio.
Criado em 2022-03-16 21:11:04
Publicado pela primeira vez no Brasil e com tradução direta do francês, Escritos políticos abrange uma seleção de artigos jornalísticos de Frantz Fanon. Redigidos originalmente para o El Moudjahid, jornal da Frente de Libertação Nacional da Argélia, do qual Fanon foi colaborador de 1957 a 1960. O livro estará disponível a partir de 16 de junho.
Os textos acompanham o cotidiano do colonialismo francês na Argélia, o desenvolvimento da luta de libertação nacional do povo argelino e a formação do movimento internacional dos países colonizados e do terceiro mundo em meados do século XX.
Exibindo um texto vigoroso, ao mesmo tempo poético, os artigos reunidos nessa obra trazem ao leitor os desdobramentos teóricos ocorridos em uma fase decisiva do pensamento de Fanon. Além disso, permitem observar o seu trabalho de agitação política e sua visão estratégica a respeito de conflitos de grande escala que, no seu entendimento, abriam um horizonte de cura revolucionária para a alienação da humanidade.
Trecho
“Por sua própria natureza, a revolução argelina não pode deixar de brilhar e suscitar ajuda e simpatia no exterior. Foram-se os tempos sombrios em que a mártir Argélia gemia como numa imensa masmorra. Quebrando as correntes e as grades, o povo argelino retomou o contato com os povos irmãos. A revolução argelina, segura do apoio de todas as forças de liberdade, já é vencedora. Todas as estratégias colonialistas estão fadadas ao fracasso. Não está longe o dia em que toda a Argélia estará interditada para o Exército francês”.

O autor
Frantz Omar Fanon (1925-1961/na foto, acima) foi um dos mais importantes pensadores e revolucionários do século XX. Nascido na Martinica, Departamento Ultramarino da França, formou-se em medicina e psiquiatria antes de fazer parte da guerra de independência argelina, nas fileiras da Frente de Libertação Nacional, onde atuou como organizador, jornalista, médico, embaixador.
Fanon, autor de obras importantes como Pele negra, máscaras brancas e Os condenados da terra, é hoje reverenciado no mundo todo como um dos principais intelectuais do terceiro-mundismo, do pan-africanismo, do anticolonialismo e do marxismo periférico.
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Ficha técnica:
Título: Escritos políticos
Título original: Écrits politiques, et Ecrits sur l'aliénation et la liberté
Autor: Frantz Fanon
Tradução: Monica Stahel
Prefácio da edição brasileira: Deivison Mendes Faustino
Introdução: Jean Khalfa
Orelha: Talíria Petrone
Quarta capa: Angela Davis e Boaventura de Sousa Santos
Capa: Edson Ikê
Número de páginas: 160
Apoio: Instituto Francês
Disponível a partir do dia: 16 de junho de 2021
Criado em 2021-05-21 19:02:16
Como é viver a sexualidade aos 60 anos?
Alexandre Ribondi conta suas experiências que fazem você ROLAR de tanto rir. Divirta-se!
Em cartaz no Teatro Brasília Shopping, em todos os finais de semana de maio de 2017.
Bora agendar uma risadaria com a gente?
Criado em 2017-04-11 23:26:59
Maria Lúcia Verdi –
O que movia a escritura de Rimbaud? Qual desejo teria sido o mais potente? Fama? Amor? Dinheiro? Em um trecho icônico ele diz: “Il faut être absolument moderne” (Sejamos absolutamente modernos). Em seu tempo (1854-1891), o que este peculiar poeta francês propunha, com tal afirmação, tem a ver com a quebra dos tabus estéticos, linguísticos e morais. A partir dele o verso, a prosa e o verso livre são outros, o conceito de liberdade é outro. A aventura passa a ser experiência-limite, chave para a percepção profunda da vida.
Ser absolutamente moderno, portanto, significaria ser um outsider, anarquista nas artes e na vida. Hoje, o conceito está muito ampliado com as mudanças de paradigmas comportamentais e as transformações trazidas pela sociedade do consumo e do espetáculo, sociedade que homogeneíza sem estimular o pensamento crítico independente.
A literatura de Rimbaud – sobretudo seus “Uma estação no inferno” (1873), “Iluminações” (1872\1874?) e o poema “O barco bêbado” (1871) - marcaram todo o século XX: de Picasso, Nabokov e Henry Miller a compositores contemporâneos como Patty Smith, Bob Dylan, Van Morrison, Serge Gainsbourg, e Jim Morrison, entre tantos outros, incluídos os nossos Leminski, Raul Seixas e os Tropicalistas.
Poemas seus foram musicados; filmes, peças de teatro, performances e instalações foram produzidos a partir de uma frase, um verso ou um episódio de sua vida. A todos atraíram a revolta, a inquietude, a franqueza com que o jovem autor expõe seus fantasmas e pensamentos. Com haxixe e absinto, ou sem eles, dependendo do momento, Rimbaud viajava.
“O barco bêbado”, tradução de Augusto de Campos:
“Sim, chorar eu chorei! São mornas as Auroras!
Toda a lua é cruel e todo sol, engano:
O amargo amor opiou de ócios minhas horas.
Ah! Que esta quilha rompa! Ah! que me engula o oceano!
Da Europa a água que eu quero é só o charco
Negro e gelado onde, ao crepúsculo violeta,
Um menino tristonho arremesse o seu barco
Trêmulo como a asa de uma borboleta”.
A imagem do jovem andarilho que escapa continuamente da domesticidade tediosa da natal Charleville; do fugitivo que se desloca a pé de um país a outro na Europa, fugindo da família e da platitude burguesa; do anti-monarquista engajado; do viajante atraído por regiões inóspitas e perigosas - tudo isso fez e faz com que Rimbaud seja um ícone do não-conformismo.
Escreveu entre seus 15 e 19 anos uma obra que é referência até hoje. De família religiosa, filho de mãe exigente e autoritária e pai ausente, a pressão para que seguisse a religião foi substituída pela que fizesse fortuna. “Eu sou escravo de meu batismo [...] O inferno não pode atacar os pagãos”. Se em “Confidências de um seminarista” diz ter sido “nascido para o amor e a para a fé”, com a idade isto vem a mudar.
A busca pelo ditame materno: “sucesso material”, o levou a trabalhar duro com exportação de café, venda de armas e comércio diversificado e sobreviver em Chipre, Somália, Galla, Egito, Harar e Aden, até mesmo como mercenário. Sua saúde se ressentiu seriamente com as condições do clima, do trabalho e do absoluto isolamento intelectual.
Sonhava ser rico sem trabalhar - poder dedicar-se apenas ao desregramento dos sentidos e à consequente poesia - mas trabalhou duro a vida adulta toda, tendo abandonado, aos vinte anos, sem explicações sua vocação poética. Expatriado, dedicado a fazer fortuna, vive, até sua morte, sem comprar obras literárias, apenas tratados científicos e manuais técnicos que o auxiliavam no trabalho. Solidão, tédio, e a angustiante impossibilidade de voltar ao seu país sem ter resolvido a questão econômica; mas também vivências incríveis na Europa e, sobretudo, na África.
Aluno brilhante, jovem culto, latinista premiado, estudioso de várias línguas, leu tudo o que havia na biblioteca de sua cidade natal, tendo sido saudado como um novo Shakespeare. Escreve poemas líricos, sociais, religiosos, eróticos. Confesso que alguns textos lembram-me desabafos dos adolescentes de hoje, confusos, perdidos entre tantas informações, facilmente manipuláveis, buscando um escapismo idealizado, sem maior objetivo do que poder obter os gadgets que acham necessários para a convivência com seus pares, o “ouro”. Rimbaud queria o ouro, foi atrás dele de um modo violento e mesmo misterioso, deixando para trás a parte iluminada de si, o poeta visionário que foi. Mas o poeta permanece nos textos.
Ao que tudo indica, Rimbaud foi abusado sexualmente no seminário quando menino. Thimothina, a jovem por quem se apaixonou perdidamente ridicularizou seus versos e não o quis. O encontro com Verlaine (então casado) foi a descida ao inferno da paixão fora da norma, mas também, felizmente, a entrega à elaboração literária dessa queda no abismo da qual resultou “Uma estadia no inferno”. O relacionamento passional entre Rimbaud e Verlaine, – “nós fazíamos amor como tigres” - os versos e as cartas eróticas, escândalo na época, hoje são quase conservadores.
A violência desse amor - que leva Verlaine a atirar no braço esquerdo do amante quando este lhe informa que está decidido a deixá-lo - aponta para a atemporalidade das forças pulsionais. Como ainda hoje, tais tipos de descontroles continuam ocorrendo entre todos os gêneros.
“O eu é um outro”, disse, e tudo depende disso: reconhecer que somos muitos, que ser humano é ser contraditório. É um grande desafio, mas não há saída para a vida em sociedades democráticas fora do respeito frente à diferença do outro, do autocontrole frente a opinião alheia. Sem armas e sem violência, defender-se com a razão, com argumentos lúcidos, com o apoio a práticas sociais que tratem a violência na base, que apostem na educação sem preconceitos e comprometida com o pensamento.
Após o tiro, Verlaine esteve dois anos preso. Segundo a opinião de muitos, este episódio foi um dos principais motivos pelos quais Rimbaud, pouco depois, abandonou a literatura.
Em “Uma estadia no inferno” lemos: “Uma tarde, sentei a Beleza nos meus joelhos. – E a julguei amarga. – E eu a injuriei”. A beleza a que se refere está com letra maiúscula, é a Beleza do cânone, do bom gosto acadêmico que rejeita. E diz ter herdado de seus ancestrais vários vícios: “a idolatria, o amor ao sacrilégio [...] cólera, luxúria” e, “sobretudo a mentira e a preguiça”. Mas buscava a pureza, considerava-se um puro: “os criminosos me desgostam como se eles fossem castrados”.
Marcado pelo cristianismo e em permanente confronto com ele, certas imagens e personagens bíblicos estão presentes em sua obra como referência, diálogo, oponentes. É irreverente, mas conhece a culpa. Quer distanciar-se do cânone, mas escreve aos líderes do Parnasianismo de sua época movido pelo desejo de se ver publicado.
“Nenhum dos sofismas da loucura – da que leva aos hospícios, - foi esquecido por mim: poderia repeti-los todos, domino o sistema.” (Alquimia do verbo, “Uma estadia no inferno”)
“Vamos em direção do Espírito. É mais-que-certo, oracular, o que ora digo. Compreendo, mas incapaz de me explicar sem palavras pagãs, preferiria emudecer. [...] Espero Deus com verdadeira gula. Sou de raça inferior por toda a eternidade.” (Sangue mau, “Uma estadia no inferno”).
As alucinações o perseguiam. O poeta deve ser “um visionário” por meio do desregramento de todos os sentidos, deve encontrar as correspondências secretas. “Quero desvelar todos os mistérios: mistérios religiosos ou naturais, morte, nascimento, futuro, passado, cosmogonia, o nada. Sou mestre em fantasmagorias.”
Define-se como “um selvagem” (e assim é definido pelos outros) e vai atrás da vida violenta, sem conforto ou proteção. E termina por “achar sagrada a desordem” do seu espírito. Finaliza “Uma estadia no inferno” dizendo: “serei livre para possuir a verdade numa alma e num corpo.”
“Par delicatesse j´ai perdu ma vie” (Por delicadeza perdi minha vida), uma das inúmeras afirmações que problematizam a compreensão de sua obra. Delicadeza com o desejo (o ditame) da mãe? Com a família de Verlaine? Nos seus tempos de estudante, escreve: “E eu sou um grande babaca – Jesus, eu não me chuto- Mas, enfim, eu não espio os outros e não escrevo cartas anônimas, e guardo para mim mesmo a minha santa poesia e o meu pudor.”
Rimbaud preferiu deixar o conforto francês, viver entre pessoas simples, sem cultura, entre paisagens áridas onde seu silêncio ecoava. Pagou caro: adoeceu, teve uma perna a amputada e morreu aos 37 anos, em Marseille.
Buscava a sua verdade, por mais que ela fosse múltipla, perigosa, assustadora. Coerente frente às suas incoerências. “Mestre do silêncio”, como se define, desaparece, vai de fato viver o silêncio em lugares inóspitos, longe da civilização. Já havia escrito uma obra.
Sua obra terminal talvez tendo sido uma vida aventurosa que coloca em xeque qualquer classificação. Uma vida que se enfrenta com o mundo. Um mundo que hoje parece acabar-se em sua forma conhecida em todos os lugares da terra. Um mundo onde é necessário debater o conceito de fronteiras – geográficas, sexuais, amorosas, políticas, espirituais etc...- algo apontado pela obra e pela vida de Rimbaud.
Dia 8 de novembro, às 19h30, na Aliança Francesa de Brasília, ouviremos a poesia de Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé e Valéry em francês e em português. Sejam todos bem-vindos!
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“O outono. Nossa barca arvorada sobre as brumas imóveis se volta para o porto da miséria, a cidade imensa cujo céu se mancha em labareda e lodo.” (Adeus, “Uma estação no inferno”).
“A vida é farsa que todos temos de levar. [...] O mais sagaz será deixar tal continente, onde a loucura ronda a prover de reféns todos esses miseráveis.” (Sangue mau, “Uma estação no inferno”).
Criado em 2018-10-08 19:01:57
Angélica Torres -
Em seu último livro de poemas, sob a perplexidade de um sensível e compassivo olhar masculino, Carlos Machado busca compreender a condenação da mulher de Ló, transformada em estátua de sal, no intrigante episódio bíblico da destruição de Sodoma e Gomorra.
Todos os poemas que compõem o livro A Mulher de Ló (Patuá, 2018) são indagações do poeta em torno da desobediência dessa “mulher sem nome” à ordem divina de, durante a fuga, não olhar para trás, aonde as duas cidades ardiam em chamas. É também do poeta o aviso ao leitor: “Tento resumir a história sem adicionar nenhum juízo de valor”.
De fato, Machado não julga a mulher nem a fúria divina. Também não julga a suspeita atitude de Ló (ou Lot), sobrinho de Abraão, de oferecer suas duas filhas virgens a sodomitas, prontos a agredirem os forasteiros (anjos) enviados para avisá-lo da destruição de Sodoma e assim salvar sua família. Não critica sequer o incesto praticado pelas filhas com o pai embriagado, a fim de garantirem sua descendência, após a mãe ter sido convertida em estátua de sal.
Mas, como ocultar ao leitor, seja fiel ou ateu, o embaraço sentido diante de insólitos e inexplicáveis registros de personagens bíblicos protegidos pela bondade divina, que o poeta chama de “desejos do chão”? Ninguém chorou quando / seu corpo vivo / foi convertido em sal.// Ninguém sofreu. / Pelo menos os escribas / disso não dão notícia (fragmento do poema “Pós-sal”).
A poeta russa Anna Akhmatova, a polonesa Wislava Szymborska e eu própria, entre talvez outros mais, publicamos poemas em defesa dessa mulher, transgressora de um veto do Criador, assim como Eva, de acordo com a narrativa patriarcal que marcou a ferro a condenação à autonomia do gênero feminino, ainda e sempre e cada vez mais vigente.
Portanto, ter todo um livro dedicado por um poeta ao tema, sob a perspectiva de uma curiosidade pintada em tons inegavelmente feministas, é no mínimo alvissareiro – sobretudo no estado de coisas da vida brasileira atual. Ao olhar para trás / a mulher de Ló / girou para a frente a roda do desejo.// Filha de Eva,/ a mulher de Ló quis saber – vislumbra Machado em “Para a frente”.
O POETA

Baiano de Muritiba, Carlos Machado (foto acima) edita quinzenalmente, há quatro anos, a página poesia.net no Facebook e há 16 anos, o site Alguma Poesia. Publicou os livros Tesoura Cega (Dobra Editorial, 2015) e Pássaro de Vidro (Hedra, 2006), além de Cada Bicho Com Seu Capricho (MOVpalavras, 2015), de poemas para crianças.
Com A Mulher de Ló, esse editor primoroso, jornalista arauto de seu tempo, poeta humanista e ativista, faz um explícito e amplo convite à reflexão sobre a precária condição existencial e social da mulher, desde o Gênesis até os dias atuais. Um gesto apenas / ̶ e a implacável / execração dos séculos, verseja ele no poema “A mulher sem nome”.
Ainda que não oficialmente, pois se trata de um poeta, Carlos Machado põe-se ao lado dos homens que atuam nos movimentos feministas, estudando causas e meios de combate ao aumento crescente dos índices da violência de gênero, revelados graças aos registros das delegacias da mulher instaladas pelo país.
Se com seus questionamentos Machado não chega a conclusão alguma, convoca de modo pungente à urgência de se manter os olhos bem abertos em relação às “mulheres de Ló”, como no poema “Prisão”: Hora da revista / no pátio das mulheres./ A guarda armada berra/ lá de cima:/ ̶ Quem é aqui a mulher de Ló? / E todas gritam, /inclusive aquela que pergunta: / ̶ Sou eu – uma clara referência do poeta, aliás, à cena semelhante ocorrida na história bíblica de Spartacus.
No posfácio, a poeta e cronista Dalila Teles Veras acentua com propriedade que “os poemas sugerem, apontam, acusam, indicam, levantam véus, pensam e fazem pensar, sobretudo através de perguntas” (...) e que “remetem a situações dramáticas destes nossos tempos hipócritas que tentam ocultar e justificar a misoginia, a violência e os castigos aplicados às mulheres, prática de um verdadeiro mal social, historicamente repetido e culturalmente construído e assimilado”.
O livro é, assim, instigante, e chama a atenção dos que conhecem o célebre episódio bíblico não só pelo título, mas também pelo tom cor-de-rosa que estampa a capa, o delicado “rosa bebê”, com o qual as meninas são tradicionalmente identificadas, desde o berço.
Um dos livros integrantes do selo “Donizete Galvão de Poesia”, em homenagem a esse poeta mineiro, falecido em 2014, que foi o grande amigo de Machado, A Mulher de Ló chega em hora oportuna. Se demorasse mais um pouco, talvez, o poeta pudesse ter dificuldades em publicá-lo, considerando os ares ameaçadores que rondam o gênero no país.
Termino a resenha com um verso do meu “A Mulher de Lot” (de O Nome Nômade, 7Letras, 2015), endereçado originalmente à Akhmatova e Szymborska: (...) Mulheres, aos lotes, agradecem (...): verso agora dirigido também a ele, terno e comovente aliado da luta contra essa dor antológica da humanidade.
FOGO E SAL
(Carlos Machado)
Quero me casar com a mulher de Ló.
Meu desejo é abraçá-la
despida de corpo
estátua de fogo e sal.
Minha cobiça é desposar
o símbolo.
E que venham os anjos
com suas ameaças e astúcias.
Que estrebuchem de ódio
os marm’anjos raivosos
os prepostos do grão-marajá.
Quero me casar com a mulher de Ló.
___________________
A MULHER DE LÓ – Livro de poemas de Carlos Machado (Patuá, São Paulo, 2018). Preço de capa: R$ 38. Encomendas pelo site da Editora Patuá.
Criado em 2018-11-27 16:14:46
Romário Schettino –
O recente ataque do presidente Jair Bolsonaro à ex-presidenta Dilma Rousseff é de deixar corado de vergonha todos os brasileiros. Está cada vez mais claro que o Brasil tem um fascista, um sociopata no governo. E corrupto, segundo o consórcio global de jornalistas investigativos – Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP) - leia nota ao final deste artigo.
A definição mais simples diz que a sociopatia é um distúrbio mental caracterizado pelo desprezo por outras pessoas. Ou, ainda, segundo os especialistas, é característica de “quem tem transtorno de personalidade antissocial, costuma mentir, infringir leis, agir impulsivamente e desconsiderar sua própria segurança ou a segurança dos outros”.
Pandemia - O comportamento de Bolsonaro em relação à pandemia cabe muito bem nessa definição. O presidente simplesmente “desconsidera a segurança dos outros”. Não está nem aí para os quase 200 mil mortos pela Covid-19. E o pior é que ninguém se move para detê-lo antes que seja tarde demais. Bolsonaro tem que ser afastado da presidência a bem do serviço público e da decência.
Ao cobrar de Dilma a comprovação de que fora torturada pela ditadura brasileira, de maneira debochada, o presidente, além de misógino, comete crime de lesa humanidade. Não é admissível que uma autoridade tenha o direito de desprezar os princípios humanitários e permanecer ileso.
Em nota publicada em seu blog, Dilma disse que o presidente “Bolsonaro tem índole de torturador. Quem não se sensibiliza diante da dor de outros seres humanos, não merece a confiança do povo brasileiro”. Na GloboNews, Otávio Guedes, classificou o ato do presidente como uma “canalhice”. A jornalista Miriam Leitão, no O Globo, o chamou de "mensageiro da morte".
A indignação veio de todos os lados, amigos e adversários políticos de Dilma não suportaram ficar em silêncio diante de tanta vilania.
Dignidade - O ex-presidente Lula afirmou que “o Brasil perde um pouco de sua humanidade a cada vez que Jair Bolsonaro abre a boca. Minha solidariedade a presidenta Dilma, mulher detentora de uma coragem que Bolsonaro, um homem sem valor, jamais conhecerá."
FHC, em sua conta pessoal do Twitter, afirmou que 'brincar com a tortura dela (Dilma) - ou de qualquer pessoa - é inaceitável'.
No Twitter, Rodrigo Maia escreveu: "Tortura é debochar da dor do outro. Falo isso porque sou filho de um ex-exilado e torturado pela ditadura. Minha solidariedade à ex-presidente Dilma. Tenho diferenças com a ex-presidente, mas tenho a dimensão do respeito e da dignidade humana."
A bancada do PT na Câmara dos Deputados, em solidariedade a Dilma, afirmou que “é inaceitável um presidente da República debochar de alguém que sofreu tortura, um crime contra a humanidade. A atitude do capitão-presidente não condiz com a democracia e nem com o principal cargo da República. Revelou ser um insano amante das trevas e dos abjetos torturadores dos anos de chumbo que mancharam a história do Brasil entre 1964 e 1985”.
Mas é preciso muito mais do que essas declarações. Bolsonaro comete crimes de responsabilidade todos os dias. Agora mesmo o Ministério da Saúde diz que não tem seringa nem agulhas para vacinar a população por absoluto desinteresse com a saúde do povo. O que falta para abrir o processo de impeachment contra Bolsonaro? A eleição da Câmara pode significar algum rumo nesse sentido. É o que se espera das negociações que os partidos de esquerda estão fazendo para eleger uma Mesa que derrote Bolsonaro.
O corrupto do ano
O consórcio global de jornalistas investigativos concluiu o Projeto de Relatório sobre Crime Organizado e Corrupção (OCCRP – Organized Crime and Corruption Reporting Project) e elegeu Jair Bolsonaro como a Personalidade do Ano em Crime Organizado e Corrupção.
Segundo os jornalistas investigativos, o principal motivo da vitória do presidente do Brasil foi o fato de ele ter se “cercado de figuras corruptas, usado propaganda para promover sua agenda populista, minado o sistema de Justiça e travado uma guerra destrutiva contra a região da Amazônia, o que enriqueceu alguns dos piores proprietários de terras do país”.
A OCCRP citou ainda as acusações de envolvimento do clã Bolsonaro com o crime de “rachadinha”, no qual o parlamentar é acusado de recolher salários de funcionários fantasmas do gabinete, mas disse que “os juízes o escolheram por causa de sua hipocrisia — ele assumiu o poder com a promessa de lutar contra a corrupção, mas não apenas se cercou de pessoas corruptas, como também acusou injustamente outros de corrupção”.
Drew Sullivan, editor do OCCRP e um dos nove jurados, afirmou que acusações pairam sobre demais integrantes da família presidencial. São citados o vereador Carlos Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro, ambos do Republicanos.
“A família de Bolsonaro e seu círculo íntimo parecem estar envolvidos em uma conspiração criminosa em andamento e têm sido regularmente acusados de roubar do povo.” disse Sullivan.
Para ler diretamente no site da OCCRP e conhecer os nove jurados do prêmio, clique aqui (site em inglês).
Criado em 2020-12-31 01:10:34