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Página 31 de 95

“Engole ele paletó” – Bozo virou fake-news

Luis Turiba (*) –

Meu pai Ico, redator do antigo Correio da Manhã e Jornal do Brasil nos anos 60, adorava cantar marchinhas de carnavais antigos.

Uma que jamais esqueci dizia assim: “Engole ele/ engole ele paletó/ engole ele paletó/ que o dono dele era maior” (ouça aqui). Era do David Nasser e J. Audi e foi sucesso no verão carioca de 1958.

Ao ver Bolsonaro ontem (22/4) na TV falando na Conferência do Clima, me lembrei dessa musiquinha.

A figura do nosso (ainda) presidente era uma fake news viva, reencarnada. Ele foi rediagramado num paletó cujo dono anterior (o defunto) era bem maior. Coisas do gabinete do ódio.

Quietinho, bem-comportado, lendo o texto assustado, parecendo não estar entendendo nada do que estava escrito, o cara dizia uma coisa e a imagem era outra. Algo ali não combinava, não havia verdade na cena. O coadjuvante não se encaixava no protagonista. O Brasil dele (sabemos qual) não cabia naquele que ele pretendia vender como “vendedor de verdades inventadas”.

De cara, na maior cara de pau, o cara tomou para si a Rio Eco-92 a primeira conferência mundial a tratar do clima na Terra, realizada no Rio de Janeiro, com a presença do comandante Fidel Castro, que na época deu um show de empatia e quase vira enredo da Mangueira no carnaval de 93.

Por falar em show, nosso fingidor está cada dia mais parecido com o personagem central do eterno conto O Alienista de Machado de Assis: todos em volta enlouquecidos e internados, menos ele, o dono da “verdade inventada. Acima de mim, só eu”.

O Brasil é um país em que cabe o sul, o som, o sol, o sal, o soul, o sim e até o céu – menos o Salles. Mas isso o presidente não sabe. E tome cloroquina e falsa vacina mineira.

Esse climão, a partir de hoje se globalizou. Educadamente, para não ouvir as tantas “verdades inventadas”, o presidente Joe Biden pediu para “ir ali e voltar já”, deixando o nosso poderoso com a broxa na mão sem escada em rede global.

Mais uma vez temos de apelar para Maria Bethânia, a que conhece as profundezas dos seres. Quando ela canta/recita seu poema-faísca de Iansã “Não mexe comigo que não ando só”, manda recado poderoso para quem sabe “pegar a visão”.

“Onde vai, valente? Você secou, seus olhos insones secaram. Não vem brotar a relva que cresce livre e verde, longe da tua cegueira. Seus ouvidos se fecharam à qualquer música, qualquer som. Nem o bem, nem o mal, pensam em ti, ninguém te escolhe.

Você pisa na terra mas não sente, apenas pisa. Apenas vaga sobre o planeta. E já nem ouve as teclas do teu piano. Você está tão mirrado que nem o diabo te ambiciona. Não tem alma, você é o oco do oco, do oco, do sem fim do mundo”.
______________
(*) Luis Turiba é poeta e articulista.

Criado em 2021-04-23 04:00:45

Consumo consciente da água e do dinheiro público

Romário Schettino -

A campanha deslanchada para economizar água no Distrito Federal é digna de registro. Comovente. Até porque não haveria outra maneira de evitar o colapso que se avizinha. Mas, convenhamos, o desprezo, a falta de planejamento sério, o gasto não ético, irresponsável, do dinheiro público são as causas principais de nosso desespero.

Desde que o GDF, junto com o governo de Goiás, colocou recursos e esforços na barragem de Corumbá IV estava previsto que sem a adutora concluída não seria possível resistir à falta de água. Hoje, a previsão é de que a água só chegará a Santa Maria em 2018.

O governo de Goiás não cumpriu sua parte e ninguém foi punido, só o consumidor brasiliense.

A Caesb também não investiu tudo o que tinha que investir a tempo e hora. Os vários governos do DF deixaram rolar e a imprudência tomou conta.

Hoje, somos obrigados a pagar taxa de contingência (a Adasa decidiu suspende-la a partir de junho, até porque sem água não haverá o que cobrar) e correr o risco de ficar sem água porque nem todo mundo tem reservatório suficiente para assegurar o gasto mínimo.

O caos chegou aos restaurantes. Casa cheia e banheiros sem água. Mau cheiro, falta de higiene. O desconforto é enorme. Nem parece a capital do país.

As famílias são orientadas a não lavar banheiro, não lavar roupa, não usar a máquina de lavar louça, não tomar banho de banheira, não lavar o carro, a não fazer nada no dia do rodízio.

A seca deste ano pode ser ainda pior do que a do ano passado. Brasília sem água é o fim do mundo. Aliás, qualquer lugar sem água não está habilitado a ter população de qualquer espécie.

E onde estavam os governos que não cuidaram dessa previsível situação? Não adianta exclamar: Nunca pensei que iria passar por isso!

Estava previsto sim. Os técnicos sabiam que se não fosse feito o tinha que ser feito o resultado era esse mesmo. Grupos Trabalho, criados em convênio com o Banco Mundial, tiveram que ser desfeitos porque o governo de plantão precisava dos cargos de confiança para abrigar aliados políticos. Pura irresponsabilidade com a questão hídrica.

A população colabora, acolhe os avisos e economizam, mas a Caesb sequer consegue estancar os vazamentos que explodem em vários pontos da cidade. O noticiário tem mostrado isso diariamente.

O cidadão está em casa com as torneiras fechadas e os canos da Caesb jorrando água durante dois três dias seguidos.

Que prioridade é essa? A Caesb informa que determinado tipo de vazamento é normal.

O que não é normal é que no meio do racionamento o serviço de reparos demore até três dias para entrar em ação.

Só nos restar esperar que a migração de volta para o litoral não chegue a desequilibrar a exitosa marcha para o Oeste.

Criado em 2017-05-16 15:36:48

A poética da militância e do confinamento

A poeta acreana-brasiliense Maria Maia estará com seu novo livro PoemAção. neste sábado, 25/6, às 17h, na 36ª Feira do Livro de Brasília, para uma tarde de autógrafos com recitação de suas poesias no estande da Academia Taguatinguense de Letras (ATL), no Complexo Cultural da República, Esplanada dos Ministérios.

Maria Maia revela que o PoemAção reúne três originais escritos durante a pandemia Covid-19: Poemas do Confinamento e Poemas Militantes, além do PoemAção, propriamente dito.  A poeta, que é também cineasta, fotógrafa e artista plástica, expõe neste novo livro toda a tensão humanista-pacifista que molda sua personalidade inquieta e realizadora.

Diretora de mais de 50 documentários produzidos em 20 anos de atividade cinematográfica para a TV Senado, Maria Maia é autora também do livro Villa-Lobos pelo mundo afora toca a Alma Brasileira (Imagem no Ar Edições, 2019), além de Desejante e Quase Toda Poesia, ambos de poemas, lançados em 2018 também pela Imagem no Ar Edições.

Em PoemAção, a poeta e mestre em Literatura Maria Lúcia Verdi destaca que, “sintonizada com a realidade sociocultural brasileira, que vem registrando em oportunos filmes, comentando em poesia e recortando em fotografias e pinturas”, Maria pratica poesia “como exercício de sobrevivência ante os impasses do cotidiano (...) e que iluminações acontecem nessa luta da artista”.

No prefácio do livro, a professora de Literatura e também poeta Luciana Barreto chama a atenção para a cosmovisão oriental de Maria: “Cabe apontar, ainda, como a filosofia chinesa da dualidade ancora e inscreve o seu melancólico ser-estar no mundo”. PoemAção sai com projeto gráfico da Tagore Editora; capa, além de ilustrações e fotos do miolo são de Maria Maia
__________________
POEMAÇÃO
Lançamento: Livro de poesias de Maria Maia.
Tarde de autógrafos: Dia 25/6, às 17h - Feira do Livro de Brasília/Estande da Academia Taguatinguense de Letras (ATL) - no Complexo Cultural da República, Esplanada dos Ministerios.
Lançamento: Dia 29/6, no Bar Beirute da Asa Sul, a partir de 19h.

Criado em 2022-06-24 22:54:06

Mudanças no caso Marielle são preocupantes

Marcelo Freixo –

Os recentes acontecimentos sobre as investigações do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes são muito graves. Houve vazamento de informações sigilosas e interferência externa na delação premiada de Júlia Lotufo, viúva do miliciano Adriano da Nóbrega, chefe do grupo de matadores profissionais responsável pela execução.

O delegado Moysés Santana, que realizava um importante trabalho nas investigações, foi substituído. E as promotoras Simone Sibilio e Letícia Emile, ambas há três anos no caso, pediram demissão devido a essas interferências. É um prejuízo ENORME para a apuração do crime.

O governador Cláudio Castro, o procurador-geral de Justiça no Rio de Janeiro, Luciano Mattos, e o chefe da Polícia Civil, Alan Turnowsky, têm a OBRIGAÇÃO de vir a público explicar o que está acontecendo. Exigimos transparência e responsabilidade.

As execuções de Marielle e Anderson envolvem gente com poder político e econômico que desde o princípio está sabotando as investigações. As autoridades precisam cumprir com seus papéis e reagir. É um crime político contra a democracia. É o atestado de óbito do Rio de Janeiro, Estado sequestrado pelo crime organizado e seus cúmplices no sistema político. A barbárie não pode vencer, a barbárie não pode ficar sem a resposta das instituições democráticas.

Continuamos a perguntar: quem mandou matar Marielle? E por quê?

Criado em 2021-07-13 20:29:08

A produção agrícola do MST sem agrotóxicos e sustentável

Um exemplo para o Brasil!

Criado em 2018-03-19 17:32:33

O bom gay

Alexandre Ribondi -

O programa Casos de Família, apresentado todas as tardes no SBT, mostrou, numa quarta-feira de setembro, tema que chamou a minha atenção.

Tratava-se de "O problema não é ele ser gay. É querer que todo o mundo saiba". Fiquei para ver e o que os familiares dos homossexuais que foram ao programa insistiam em deixar claro é que não tinham nada contra a orientação sexual das pessoas.

O que eles pedem é que os homossexuais sejam discretos com os seus desejos, seus amores, e seus beijos. O som da palavra 'discreto' me lançou para dentro de uma máquina do tempo que me levou aos anos 70, época em que começamos a discutir o que a sociedade heterossexual esperava de nós, para que eles conseguissem conviver conosco, sem desconforto e livres de situações embaraçosas.

A primeira, e talvez única medida, numa sociedade que começava a estar disposta a discutir o assunto e a ser até mesmo vagamente tolerante, era sermos discretos.

Enquanto isso, a tolerância deles consistia em nos aceitar em empregos, nos convidar para festinhas de aniversário e churrascos, ir conosco a bares e bebermos juntos. Eles também seria autores de frases como "o cara é gay mas é legal" ou "taí um gay que sabe se comportar".

Criou-se, então, a cultura do bom gay, que passou a existir para ser tolerado e nunca para ser aceito. Isso porque o bom gay deixou de esconder a sua orientação com pretensas namoradas, mas seu namorado nunca foi convidado a participar da roda.

Deixar de lado a namorada de mentira foi um grande passo, a bem da verdade. Nos anos 60, na minha cidade no Espírito Santo, havia um homem, pela casa dos 30 anos, professor secundário, que tinha uma namorava bonita, sorridente, de pouquíssimas palavras, e com as pernas gravemente retorcidas pela poliomielite.

Assim, as coisas se encaixavam: ele não a satisfazia porque gostava de rapazes e ela não fazia exigências porque, naqueles dias e naquela cidade tacanha, ela, portadora de deficiência física, acreditava que não mereceria nunca nada melhor. Mas se o bom gay deixou de esconder a sua orientação, ele ainda não tocava no assunto e, justamente por isso, era bom.

Quando convidado para um almoço com os colegas de trabalho, ele ia - mas sozinho. E ninguém falava do assunto, fingindo acreditar que ele era solteiro assexuado. Se brigasse com o namorado, ninguém daria um pio sobre o assunto.

E se se separasse, depois de anos de vida conjugal, poderia chegar no trabalho com os olhos inchados de choro e insônia, mas nunca diria o motivo, para evitar constranger a heterossexualidade reinante, que não saberia o que dizer diante de tamanha anomalia.

Para eles, na época, homossexual não amava nem sofria com separações. Homossexual apenas fazia sexo. E era um ser solitário, comparado às baratas que somente saem à noite.

O bom gay foi uma das grandes invenções para garantir a manutenção da sociedade heterossexual, que não precisaria fazer nada, não seria levada a revisitar seus valores profundos, não teria que ensinar aos seus filhos o respeito às diferenças.

Mas no final dos anos 70, ainda com os militares empoleirados no poder, grupos de homossexuais brasileiros começaram a ser formados e colocaram a boca no trombone. Em Brasília, surgiu o Grupo Homossexual Beijo Livre.

Em São Paulo, havia o grupo Somos. Juntos, em vários estados da federação, os gays passaram a lutar não somente pelo fim da ditadura, mas pelo início das reivindicações de direitos e respeito absoluto. Inverteram a ordem: a homossexualidade não era mais um problema. Problema a ser resolvido era a homofonia.

A partir daí também, a sociedade heterossexual descobriu que nem todo gay é bom. Tem também os que falam de sua vida pessoal, os que choram abertamente quando sofrem por amor, os que contam os detalhes da lua da mel, os que conquistam amores na frente das pessoas.

E os que se abraçam e se beijam na frente de todo o mundo. Nesse ponto, sintomaticamente, muitos passaram a receber o que recebem os seres maus: pontapés, chutes, socos e tiros. Por isso é que no ano de 2016 do século XXI, eu me sinto no direito de ficar horrorizado quando pedem discrição.

Em outras palavras, pretendem exigir que cada um de nós seja um bom gay, para não provocar constrangimentos.

Mas por que as pessoas se sentem à vontade de dizer isso a um homem adulto?

Porque para eles o homossexual nunca é um homem maduro e competente, nunca é cidadão com total posse de seus direitos.

É um ser que deve receber instruções de bom comportamento, para aprender a conviver com os outros, os normais. Eles somente serão felizes quando conseguirem reduzir as diferenças a pó.

Criado em 2016-09-21 22:26:18

Entrevista: Jansy Berndt de Souza Mello

Maria Lúcia Verdi –

Psicanálise beija-flor? Algo além do corpo, algo que reside num espaço entre o som e o silêncio

Haveria sob a lua

alguma coisa nova

se os calmos rios

que à noite a repetem

numa aula de constância

que o próprio fluxo esquece

recusarem sua imagem

quando anoitece.

(Jansy B. de S. Mello – INDAS E VIDAS)

Brasília - Dando prosseguimento às entrevistas que estou realizando para este site, compartilho hoje esta que realizei com a psicanalista Jansy Berndt de Souza Mello, contando com a colaboração dos jornalistas Angélica Torres Lima e Celso Araújo, aos quais agradeço.

Entrevistar alguém como Jansy é uma honra. A ela eu poderia praticamente perguntar sobre qualquer coisa, mas me concentrei em sua atividade como psicanalista, tradutora de Nabokov, esposa e mãe. Celso e Angélica proporcionam vê-la enquanto amante do teatro e mulher compromissada com a ética e a liberdade. Boa leitura!

Jansy, como mulher que desempenhou múltiplos papéis – psicanalista, formadora de analistas, ensaísta, tradutora, esposa, mãe, avó e até mesmo poeta – como se sente neste sem par século XXI?

Jansy B. S. Mello - Acho que você está tão perplexa quanto eu quanto aos novos paradigmas da modernidade porque, pelo menos como me parece estar acontecendo, as teorias, crenças e práticas sociais que vinham se mantendo e mantendo nossa civilização durante vários séculos, começaram a se esboroar para dar lugar a algo completamente novo.

Gosto de uma frase de Ian McEwan quando ele lamenta ter perdido o “conjunto concêntrico das suas identidades’ (“I valued my concentric set of identities,” no Channel 4 News, referindo-se às mudanças pelo Brexit) que lhe serviam como garantias para sua autoimagem por representarem um ritual, ou uma rotina, estabelecidos por uma fantasia particular sobre o que é dignidade, o que são verdade, sexo, família, pátria, raça, e assim por diante, que se acreditava serem a expressão comum de uma verdade única e absoluta.

Tendo sido casada com Humberto Haydt, figura emblemática e polêmica da psicanálise brasiliense, poderia nos dizer algo sobre esse casamento entre dois psicanalistas tão diversos? Acredita dispor do distanciamento necessário para avaliar a obra dele?

A dúvida está no que vem primeiro, se o meu casamento com Humberto altera ou influencia minha apreciação da obra dele ou se, ao contrário, o fato de eu ter me encantado com sua escrita me levou a ir me aproximando dele cada vez mais. Conheci o Humberto em Brasília quando eu tinha 20 anos e, como eu morava no Rio de Janeiro e ele em Brasília, os dois primeiros anos de convívio se deram principalmente através de uma intensa troca de cartas.

Nesta fase era possível receber dele, por dia, pelo menos três envelopes longos e brancos com sua letra pontiaguda e regular com mensagens que ele mesmo se encarregou de encadernar mais tarde... Naquela época ele não era psicanalista e seu estilo era apaixonante e apaixonado.  Mais tarde, deixei de ter o mesmo entusiasmo pelo que ele escrevia, mas, então, ele já tinha muitos seguidores para ocuparem meu lugar.

A inteligência do Humberto era excepcional, seu talento para escrita e para poesia assim como sua habilidade clínica eram especiais. Durante mais de vinte anos acompanhei de perto sua produção, também porque datilografava seus manuscritos, pesquisava algumas fontes bibliográficas e ocasionalmente os traduzia para o inglês. Na verdade, não foi apenas o que ele escreveu mas, e acima de tudo, nossas conversas regulares o que manteve nosso casamento durante os outros tantos vinte anos.

Você considera a maternidade um desafio? Mãe biológica de três filhos e adotiva de mais três, como foi para você educar crianças e jovens?

Nunca tive tempo para considerar a maternidade como um desafio porque o movimento e o barulho em casa eram incessantes e não havia espaço bastante para pensar sobre o que se sucedia a cada instante. Ter muitas crianças e jovens em volta era divertido, cansativo e exasperante, mas, sempre, enriquecedor, porque me obrigava a uma atualização constante de tudo, desde a música popular dos mais diferentes gêneros aos programas de televisão, a vida no bairro e na escola, a força do momento presente. Por isso não tenho como resumir o que experimentei naquela fase ou como oferecer alguma conclusão significativa a partir do que vivi, nem mesmo agora quando tenho tempo de sobra para pensar no assunto. Freud dizia que educar é um dos impossíveis (os outros dois são governar e psicanalisar) e só posso concordar com ele. Segundo ele, faça o que fizer, a mãe sempre estará equivocada, o que não quer dizer que ela não faça acertos, pois as palavras erro ou acerto não recobrem o tema. Vale ressaltar que Freud não tinha a menor intenção de desencorajar as mães de disciplinarem os seus filhos. Pelo contrário, ele queria que elas confiassem naquilo que percebiam como sendo necessário para a criança sem terem que se submeter às regras estabelecidas por outras pessoas.  Filhos, dizia Humberto, já nascem prontinhos como filhos, mas, os pais, tem que aprender com eles o que é serem pais. Minha vida doméstica aconteceu aos trancos e barrancos, mas sei que fiz o melhor que pude. Alegria, balbúrdia e educação...

Angélica Torres de Lima pergunta: Segundo Foucault, o incesto foi uma prática popular durante muito tempo e até o final do século XIX exerceram-se contra ela pressões sociais diversas, tendo sido sua proibição obra de intelectuais. No entanto a prática abrange diversas e antigas culturas, em que foi também proibida, mas nunca abolida, poderia se dizer que proibir não é solução, e que, consentida ou com coerção, ela se confunde com abuso sexual? Qual a posição e o papel da psicanálise nessa questão?

A pergunta demarcou bem um período da história da filosofia e da psicanálise e, portanto, vou me deter neste em especial. Não creio que Freud conhecesse as informações colecionadas por Foucault, embora ele tivesse lido extensamente os trabalhos dos pesquisadores do século passado.

O tabu do incesto nas culturas estudadas por antropólogos como Evans-Pritchard (teria que consultar a bibliografia de Freud) associava-se a um “totem” e às relações de troca entre famílias e grupos sociais distintos, favorecendo inclusive o comércio e a demarcação de territórios a partir dos casamentos que seriam “exogâmicos”. Assim, a interdição ao incesto não decorria de uma proibição acadêmica, porque ela vinha, desde os primórdios, associada ao totem e às suas leis como um dos fundamentos da organização social daquelas culturas.

Como foi apontado por Jacques Lacan, Freud fez duas leituras conflitantes a respeito do incesto. A primeira, mais antropológica, enfocada principalmente no livro editado postumamente “Neuroses Transferenciais: uma síntese” e no “Totem e Tabu”. Nestas obras ele desenvolveu a teoria a respeito do pai da horda primeva e sua relação com o totem, imprecisamente como depois se concluiu, já que Freud ignorou outras organizações sociais que não seriam ordenadas por um totem.

A segunda foi o estabelecimento da sua teoria sobre o Complexo de Édipo e as fantasias incestuosas dos filhos, fossem eles meninos ou meninas.  Na teoria de Freud o tabu, ou seja, a proibição dava-se por meio da sociedade e da família e estava relacionada à figura paterna e ao que ele conceituou como sendo o Superego, “o herdeiro do complexo de Édipo”.  

Quando Freud descobriu ou criou a psicanálise prevalecia a ideia dos universais na cultura e, desta forma, as angústias associadas ao momento Edípico seriam peculiares a todos os seres humanos. No entanto, quando menciono os trabalhos seminais de Freud na psicanálise, estou me referindo ao que eram, para ele, tais fantasias universais, assim como aos rumos inconscientes que estas fantasias seguiriam e, jamais, às práticas incestuosas enquanto tais.

Em relação ao incesto e o abuso sexual, lembro que a este abuso será preciso acrescentar-se a pedofilia, dada a diferença de idade entre pais e filhos, ou seja, a ocorrência de uma construção perversa que desafia os valores tradicionais da nossa civilização e que vem se expandindo de modo assustador por meio do tráfico de crianças. Como mencionei acima, nas sessões de psicanálise, aliás pouco frequentadas pelos perversos, se lida com o incesto enquanto fantasia universal, e sobre os sintomas neuróticos gerados pelas proibições do superego do paciente ou seja, em outras palavras, não se trata de uma proibição externa, mas, do efeito da censura inconsciente feita pelo superego e produzindo o recalcamento.

Sabemos que as doenças da atualidade são diferentes daquelas que deram partida às investigações de Freud e, deste modo, falar de neuroses e de recalcamento não serve para se lidar com a maioria dos problemas do mundo atual. Quanto aos múltiplos divórcios e casamentos nos quais se criam como se fossem irmãos os filhos de pais diferentes ou então, bebês de proveta de pais desconhecidos que mais tarde poderão se casar com irmãos biológicos igualmente desconhecidos, tudo isso demanda uma reformulação do que se entende por “incesto” no campo da genética e do parentesco. 

Para a psicanálise não é pela biologia que se entende o que se liga ao tema do incesto, mas através da organização simbólica das famílias de pais e filhos, sejam eles geneticamente ligados ou não, como também pelas fantasias que cada membro desse grupo cultiva a respeito dos próprios familiares.

Para mim o mais chocante que vem sendo revelado pelas notícias e estatísticas atuais mais do que o incesto advém da pedofilia e do abuso da criança por um adulto, qualquer que seja ele (pai ou estranho), algo que se descobre estar acontecendo em uma escala enorme nos colégios, seminários, ginásios, vizinhança. Trata-se de uma doença social, não é mesmo?  Há muito a se dizer sobre isto e muito ainda a estudar sobre aquilo que se entende a partir da disciplina psicanalítica, ou seja, essa infantilização dos homens, essa assustadora parada na sua evolução psicossexual.

Mais do que proibir - por isto ser inútil, como Angélica observa muito bem - trata-se de adquirir uma compreensão e uma maior conscientização desta patologia a partir dos múltiplos recursos e teorias que estão disponíveis, muitos surgidos graças à psicanálise.

No Brasil de hoje os suicídios, assassinatos, feminicídos e estupros são mais e mais frequentes. Os livros de autoajuda são campeões de venda, as igrejas evangélicas invadiram o país. Diferentemente das psicoterapias a psicanálise é longa e complexa. É possível se imaginar uma maior e efetiva participação da psicanálise na sociedade?

Sim, mas não da maneira como vejo algumas sociedades de psicanálise e grupos de psicanalistas tentarem fazer.  Digo isso porque a psicanálise, no meu entender, descreve um tipo de método, de teoria e de filosofia bastante peculiar, que demanda uma forma de assistência dosada e discreta, como se medida em um conta gotas. Não gosto da imagem que foi proposta um dia, de um beija flor carregando água no bico para apagar um incêndio pois, do ponto de vista material, ele seria bem mais útil se convocasse alguns elefantes para essa tarefa.

No sentido desta anedota tenho para mim a psicanálise como meu beija flor, capaz de convocar rebanhos embora frágil demais para carregar o necessário para abranger e apagar incêndios. Sua utilidade social existe e é significativa, mas isto não implica numa mudança na postura clínica do psicanalista. O serviço que ela pode prestar à sociedade é quanto ao esclarecimento do funcionamento mental e do inconsciente, assim como na descrição de algumas importantes características dos indivíduos e na clarificação das dinâmicas da criança na família e na sociedade.

A psicanálise “beija-flor”, como a considero, é pouco abrangente para o atendimento aos grandes grupos humanos, o que não impede que o conhecimento de Freud por parte dos psicoterapeutas não enriqueça sua forma de atender seus pacientes, quer ao no nível individual ou no grupal.

Não entendo por que se tenta reivindicar o termo psicanálise para validar o que é feito na clínica social. Existem centenas de formas de psicoterapia, muitas de fundo analítico, que podem ser estendidas a população de modo bastante eficaz.

Em seu livro “Indas e vidas” há um poema que termina com os três versos “Quando se fala de amor\ já se tirou\ o corpo fora”. Lembro-me de um verso de Manuel Bandeira que diz que “os corpos se entendem, mas as almas não.” Penso também na afirmação do psicanalista Jacques Lacan que diz ser impossível a relação sexual. Aproximo livremente três associações - poderia me dizer algo sobre isso?

De fato, você abordou três temas nessa questão. Em um dos seus poemas Manuel Bandeira, a quem eu muito admiro, observa que os corpos se entendem e as almas não, mas eu não sei se a conclusão que se tira disso seria uma que ele próprio abraçaria, porque um momento poético não veicula uma verdade única... Também não acho que nestes versos ele escreva sobre a impossibilidade da relação sexual como proposta na conhecida frase de Lacan. Sua associação é bem instigante!

A questão vem de Lacan ser extremamente crítico quanto à prevalência da dimensão do imaginário em nossa vida, uma vez que o imaginário deveria estar em equilíbrio com as duas outras dimensões por ele descritas, o real e o simbólico. É por esse motivo, ligado ao uso excessivo do imaginário na apreensão de si próprio e do mundo, que tudo aquilo que remete à palavra “relação” (como na dita “relação sexual”), seguindo Lacan, pertence exclusivamente ao registro do imaginário, assim sugerindo esta incompletude ou até os desencontros das fantasias de cada um.

Portanto, quando os corpos se engajam no sexo as almas (estas incógnitas) gozam, sem se fundirem... Já no meu poema eu critico as palavras sedutoras relacionadas à expressão banal “tirar o corpo fora”, para me referir ao se fugir da responsabilidade daquilo que é dito na fala, mas ainda sugerindo algo que existe mais além, algo mais além do corpo... como me parece que você destacou quando escutou o poema sem os comandos da lógica.

Quando e como teve início seu interesse pela obra do escritor russo Vladimir Nabokov? Como é a experiência de traduzir uma prosa tão plena de experiências e de riqueza linguística – um russo que escrevia em inglês como muito poucos entre os próprios escritores de língua inglesa?

Meu interesse por Nabokov foi simultâneo ao meu convívio com a obra de Samuel Beckett e do psicanalista Wilfred Bion e este último foi quem me despertou para Beckett. Nabokov chegou até mim por meio do seu romance mais polêmico que é “Lolita”. Se os dois escritores diferem completamente entre eles, tem algo que partilham e isto também com Bion (de quem eu era intérprete quando vinha ao Brasil fazer seminários e conferências).

Todos três tinham em comum a insistência em dizerem ou apreenderem o indizível e de lidarem com o desconhecido, com as lacunas e os abismos.  Tanto Nabokov quanto Beckett eram poliglotas e, sem ter a competência deles, consigo me expressar em várias línguas.  Tive o alemão como língua materna (que eu não domino) nos primeiros anos de vida, depois veio o português e o inglês, mais uns lampejos do francês. Com isso, uma espécie de química se produziu sobre o meu modo de habitar a linguagem, mas não sei dizer qual foi.

Talvez eu possa acrescentar um outro componente, buscando entender melhor algo ligado a essa “química” e que vem associado à minha mãe musicista. Disso me lembrei agora apenas porque há pouco falei da minha língua materna. Foi graças a ela, suas cantigas de ninar de Schubert ou de Brahms, a música sempre presente a minha volta que passei a carregar comigo algo que reside num espaço entre o som e o silêncio em um campo que não é controlado pelo significado.

Apenas depois de conhecer melhor a obra de Lacan pude entender a importância do que para ele é o conceito de “significante” em Psicanálise e que faz parte deste espaço encantado. Foi também com o tempo que deixei para trás Beckett e Bion, para mergulhar não mais no mundo da Psicanálise teórica, mas envolver-me com o permanente mistério da palavra e do significante.

Fale mais sobre Wilfred Bion, psiquiatra e psicanalista discípulo de Melanie Klein que desenvolveu técnicas de trabalho em grupo, algo inovador à sua época.

Não sou seguidora de Bion, mas tive a oportunidade de conviver bastante com ele nas várias vezes que veio ao Brasil. Foi por ter mergulhado tão intensamente em seu mundo que acabei me tornando uma das suas divulgadoras. O maravilhoso na clínica de Bion vem do seu trabalho com grupos como foi por ele aplicado ao pequeno grupo formado pelo casal analítico com seu mundo interno familiar, assim como ainda da influência que sobre ele teve a psicanalista Melanie Klein, particularmente quanto ao conceito de identificação projetiva.

Para Bion as palavras eram enganadoras e mentirosas, mas ele acreditava numa verdade que se poderia apreender apesar delas, percepção esta que o levou a reformular a forma de se entender e trabalhar com a transferência em análise, desde sempre um dos pilares da teoria e prática freudianas.  Para Bion há transformações que afetam não apenas o paciente como também ao analista, aliás, transformações a serem buscadas como uma das metas da psicanálise por conduzirem ao que ele chamou de “uma evolução em O” (“O” representa o desconhecido, o absoluto, o lugar da verdade última). Mais adiante elaboro um pouquinho mais sobre isso que está ligado ao que um crítico literário, Georg Steiner, chamou de “o real da presença”.  

O jornalista Celso Araújo, sabedor do seu interesse pelo teatro, pergunta: Que espetáculos e dramas lhe comoveram e interessam?

Como você sabe, a partir do seu próprio convívio com ele enquanto diretor teatral, Humberto Haydt era apaixonado pelo teatro e suas obras mais importantes, já como um lacaniano “total”, são as peças da trilogia de Édipo. No entanto, nunca me envolvi nas suas produções senão como espectadora e, é claro, como ouvinte particular enquanto sua escrita ia se fazendo.

Na minha juventude eu apreciava Bernard Shaw mais do que a Shakespeare (que o próprio Shaw estranhamente rejeitava) por causa do seu humor e rebeldia. Minha admiração de jovem nasceu a partir do musical “My Fair Lady” que foi inspirado na sua obra Pygmalion. Dali as leituras e o interesse se estenderam até “Saint Joan”, “Major Barbara” e demais peças teatrais, que não vi serem encenadas, aliás.

Em seguida, me dediquei principalmente a Beckett e tive a sorte de estar no Rio durante ensaios de duas ou três das suas peças com Sergio Britto, no Teatro dos Quatro, em 1978, sempre como amadora, pouco comprometida. Tanto que tinha me esquecido que certa vez, a convite da Folha de São Paulo, participei de um debate sobre “teatro e psicanálise” a partir do filme da peça Rei Lear de Shakespeare, com Lawrence Olivier no papel do rei. Esta foi uma experiência desafiadora e com a qual aprendi muito porque, ao parar para me aprofundar por escrito sobre o tema a ser apresentado, como agora, acabei lembrando ou fazendo descobertas daquilo que não sabia que eu sabia.

Naquela época ao pensar naquilo que ligaria psicanálise e teatro me dei conta de que grande parte das minhas conclusões havia sido profundamente influenciada pela experiência que tive com Wilfred Bion - para quem a presença física do analisando e do analista, numa mesma sala, seria um componente essencial da clínica psicanalítica. Hoje em dia não sei o que ele diria sobre os atendimentos via Skype. Não faço ideia! Talvez ele aceitasse esta nova forma pela qual as pessoas se mantêm em contato virtual (mas muito sensorial) independentemente da distância que as separa.

Mas, retomando, eu via na psicanálise o mesmo componente que se obtinha durante uma apresentação teatral: a da presença física do ator e da sua plateia partilhando as “vibrações” da sua proximidade.  É por isso que ainda entendo que tanto a psicanálise quanto o teatro implicam o corpo no tempo: nos dois a presença física do ator ou do analisando se oferece concretamente a uma plateia para dar voz, na atualidade da experiência, a uma visitação do passado ou do futuro, em sua expressão mais exaltada ou trivial.

O teatro antigo, como o de Shakespeare, se fundamentava na concepção, no sentido, da natureza humana apoiada na ideia do caráter sendo moldado pela vontade e pelas circunstâncias, que é peculiar ao pensamento ocidental da sua época e até bem recentemente. Mesmo assim, se nas suas tragédias, comédias e poemas ele retratou o drama do homem enquanto joguete do destino e do acaso, nelas havia ainda lugar para a revolta e para ideias como as de liberdade, beleza e progresso espiritual.

Nos tempos de hoje as pressões que nos esmagam e nos desarticulam em nada se assemelham a uma “providencia divina” ou ao “destino indiferente”, como naquelas eras, porque a força mítica ressurge agora das lideranças brutas e cegas que dela se apropriam para ganho próprio, desfazendo a dialética que nasce do confronto do humano com aquilo que é maior do que ele e do qual, mesmo derrotado, ele poderia sair engrandecido.  Vejo esta ameaça atualmente como sendo, em grande parte, proveniente da luta do homem contra aquilo que o atrai para baixo, dissolvendo seus valores humanos e o conduzindo ao silêncio.

Criado em 2019-06-06 01:38:13

Fernanda Cabral: uma estrela no horizonte

Angélica Torres –

Após ciganear pelo mundo a partir da Espanha, onde viveu por 15 anos, Fernanda Cabral parece estar convicta de sua volta ao Cerrado e faz questão de afirmar essa decisão de filha pródiga em Tatuagem Zen. Neste segundo CD, também autoral, a única das canções cuja letra ela assina sozinha é justamente “Cerrado”, em que canta “pra você todo o meu canto faço”. Tatuagem Zen dá-se a entender, portanto, como uma declaração de amor a Brasília.

Fernanda Cabral compõe melodias, é instrumentista versada em violão, banjo, percussão e teclados, faz arranjos para cordas e é intérprete de seu próprio repertório – além de ser professora de canto, especialista em musicoterapia e atriz. Todo esse cabedal posto numa obstinada entrega de lealdade e profissionalismo para com a música vem lhe atraindo o reconhecimento de famosos da área.

Em Praianos, seu primeiro CD também inteiramente autoral e ainda com uma asa em Madri e outra em São Paulo, ela recebeu a benção de Chico César como parceiro. É dele a letra da canção-tema, que cantam juntos, e também a de “Hora H dia D”. No novo disco as parcerias cresceram e ela tem Ney Matogrosso, Fernando Brant e novamente Chico César abrilhantando o seu trabalho.

O diferencial entre os dois CDs é que Tatuagem Zen inspira-se na poesia. São parceiros seus os poetas Lau Siqueira, Cássia Janeiro, Paula Calaes e o espanhol Pablo Guerrero, “além dos que são chamados de letristas, mas que para mim também são poetas, como Chico César, Fernando Brant, Makely Ka e Juliano Holanda”, ela faz questão de enfatizar.

Com a cineasta Elisa Cabral, Fernanda assina a parceria de “Desenho do Sonho”. São de ambas a melodia e a letra, em que expressam o amor entre elas em dupla via: “Brisa ou vento na areia/traça esse ponto distante/une esse canto de encontro/do teu sorriso ao meu”. Elisa Cabral é mãe de Fernanda e vive em João Pessoa.

A canção “Pássaro”, ponto alto do CD, é uma soma certeira do poema de Chico César e melodia de Fernanda, com as vozes dela e de Ney Matogrosso em sequência. O resultado desse duo, aliás, foi chamado por César de “um casamento tímbrico”. A primeira vez que se ouve a canção, fica-se de fato sem saber quem dos dois faz os dois solos da faixa.

Tatuagem Zen distribui baladas que espelham coerência entre equilíbrio e suavidade da persona de Fernanda, além de dois baiões e um ijexá (forró), este em parceria com o também brasiliense Alberto Salgado (prêmio da Música Brasileira Edição 2017). A única melodia não assinada por ela cabe a Leo Minax, seu parceiro também no CD anterior. A cadência é um destaque em seu trabalho, bem como o cuidado com a escolha do elenco de músicos talentosos que a rodeiam.

Evoluções

Conheci Fernanda Cabral quando ela ainda vivia em Madri e lá pude assistir na virada do milênio a um seu recital. No repertório, canções famosas da MPB e ela à moda do João, sentada num banquinho com um violão, no palco de um bar repleto de moças e rapazes. Eles de olhos grudados em sua figura longilínea, os longos cabelos negros, o estilo hippie chique, o modo recatado de se portar, a voz quase tímida, sem grandes pretensões como cantora, e todos a aplaudindo calorosamente davam a perceber o potencial da jovem musicista, que logo depois se lançaria em carreira internacional, afirmando-se como compositora.

A evolução que ela vem conquistando passo a passo mostra-se no novo CD, produzido por Sacha Ambach: Tatuagem Zen sai com o selo da gravadora de Ney Matogrosso, que se encantou com a magia da origem da canção “Pássaro”. Relato aqui. Fernanda subiu até o alto de um morro em Catolé do Rocha, no final de um curso de teatro que ministrou para adolescentes do Instituto Cultural Casa de Béradêro.

A tarde caía sobre a bela paisagem da cidadezinha paraibana quando, de súbito, ela avistou uma águia voando em sua direção. O pássaro contornou-a e rumou de volta à mesma direção de onde tinha vindo, mas logo retornou fazendo o mesmo trajeto e passando rente a ela, as duas se olhando em mútua cumplicidade. Ao saber da cena, Chico César escreveu o poema e o mandou para Fernanda, que o musicou de um fôlego só.

Com o ingresso da voz de Matogrosso nesse enredo, “Pássaro” ganhou ainda mais ares de xamanismo poético, que calha muito bem com o clima de condão e telúrico do CD – até porque a letra da canção Tatuagem Zen, de autoria de Lau Siqueira, parece espelhar esse misterioso encontro entre a águia e a cantora. O curioso é que ele desconhecia o episódio.

A última faixa também se harmoniza com essa atmosfera: “Floresta Invertida” louva a trama das raízes nas selvas, em letra de Makely Ka. E o disco se encerra com um coro dos Guarani-Kaiowá, povo a quem Fernanda Cabral dedica a canção. Tatuagem Zen será lançado em show no Clube do Choro de Brasília, em 23 de outubro de 2019, com a participação de alguns convidados de sua “cantautora”. Boa sorte a ela e ao seu trabalho.

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(*) Resenha publicada originalmente no site:

www.fernandacabral.com

Clip Roda Menino:

https://www.youtube.com/watch?v=Kn_Q28qU930

Mais de Praianos ouça em:

https://soundcloud.com/fernanda-cabral

 

Criado em 2019-10-21 23:48:08

Eugenio Giovenardi, o ecossociólogo do Cerrado

Romário Schettino –

O que faz um ecossociólogo no Planalto Central do Brasil? Para responder a essa e a muitas outras questões relacionadas ao meio ambiente, à preservação e recuperação da natureza e à sobrevivência da humanidade entrevistei o gaúcho Eugenio Giovenardi (87 anos).

A experiência transmitida por Eugênio em seu livro Reencontro – O que aprendi da natureza, e em outros títulos publicados, é útil para todas as pessoas interessadas no trato com a vida em seu sentido mais amplo possível. Biodiversidade para ele não é apenas catalogar a riqueza biológica da natureza, é colocá-la na relação direta com o que chama de biocomunidade, ou seja, a vida harmoniosa que deve existir entre os mundos vegetal e animal, o homem e a água, elo vital para a sobrevivência de todas as espécies.

Nesse seu livro, Eugênio conta que “estamos vivendo, segundo opinião de especialistas internacionais em biodiversidade, a sexta grande extinção em massa de espécies vegetais e animais”. Segundo ele, “a sexta extinção é, porém, a primeira de grande proporção causada por uma única espécie: a humana. Em pouco menos de duas gerações, foi reduzida pela metade a população de milhares de mamíferos, répteis, anfíbios e peixes”.

Seus alertas são realistas e baseados em estudos realizados ao longo de 40 anos dedicados ao assunto. Interessados no livro devem escrever para o e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. que ele envia pelo correio.

A seguir, a íntegra da entrevista:

Seu livro “Reencontro - O que aprendi da natureza”, (Editora Kelps, 2017), revela a sua rica experiência na recuperação da vida integrada ao que você chama de biocomunidade. Como o senhor chegou à necessidade de estudar esse fenômeno e por quê?

Eugennio Giovenardi – Quando me transferi para Brasília, em 1972,  vindo do Sul, não conhecia o Cerrado, um bioma que se revelou extraordinário por duas razões: o silêncio planetário e a vegetação sofrida. As duas estações bem definidas, meses de chuva e meses de estiagem me induziram a conhecer melhor o ecossistema em que vinha viver. Adquiri, em 1974, uma área de 70ha no sul do DF, sujeita a fogo, a pisoteio de gado magro, a lenhadores e carvoeiros. As primeiras tentativas de exploração do solo, por ignorá-lo, se tornaram infrutíferas. Percebi que devia, antes de tudo, conhecer o Cerrado, o bioma, o ecossistema.

As primeiras chuvas lavaram o solo. Li, no livro Os Sertões, de Euclides da Cunha, que  os romanos produziram trigo na Tunísia, há cinco mil anos, captando e detendo em pequenas barragens, na forma de arcos convexos, a água da chuva. Fiz isso em todas as grotas e canais de escoamento das águas pluviais. Em cinco períodos de chuvas, retidas nas barragens, a paisagem vegetal mudou e as nascentes rebrotaram. Conto isto em meu livrinho O Retorno das Águas.

Decidi, então, transformar esta área em reserva vegetal e animal. Conversei com vizinhos para evitar fogo, caçar e cortar árvores. Ao longo de 40 anos, a paisagem se transformou. A biodiversidade se expandiu, o ecossistema está em franca regeneração. Pássaros e animais retornaram a seu habitat original. Tornei-me, com o apoio de minha família, um hóspede deste refúgio que denominei Sítio das Neves.

O que é ecossociologia? Como se tornou um ecossociólogo?

E.G. –Ao longo dos anos, em permanente contato com as árvores, os pássaros, os animais de terra, a variedade  inumerável de insetos que compõem a biodiversidade e a cadeia trófica – as vidas se alimentam de vidas – passei a observar as relações de todas as vidas do ecossistema entre si, as relações que elas tinham comigo e as que eu poderia ter com elas. Percebi a linguagem das árvores  e o comportamento dos animais para com elas. Só o comportamento humano destoava. O ser humano quer decidir o que fazer com a natureza e dominá-la. Não sabe dialogar com o ecossistema.

A ecossociologia é a observação crítica das relações de convivência entre todos os seres vivos, interativos e interdependentes, que habitam a mesma casa, o mesmo bioma, o mesmo ecossistema.

Seu livro fala muito sobre a cooperação entre as árvores e os animais (ou o mundo vegetal e o animal com a essencial participação da água). Essa harmonia vital exige um equilíbrio ambiental que está cada vez mais ameaçado. Como resolver esse problema no mundo atual?

E.G. – A  natureza, os diferentes biomas, os ecossistemas estão em permanente perda em razão do tempo, das mudanças constantes do clima e de sua função de alimentar todos os seres vivos. O sistema natural da sobrevivência das espécies determina  uma graduação da atividade predatória dos seres vivos que possibilita constante regeneração biológica e reprodução de todas as espécies animais e vegetais. O equilíbrio se rompeu com expansão, a ocupação espacial do planeta e a ação equivocada do homo sapiens impondo à natureza e aos ecossistemas sua organização social, econômica e política, sem dar tempo à regeneração dos ecossistemas. Em outras palavras, a espécie humana tira dos ecossistemas mais do que eles podem dar. Um novo olhar sobre a natureza, melhor compreensão e conhecimento dos ecossistemas sugerem, com urgência, substituir o modelo capitalista, ou que outras denominações lhe queiram dar, para a bioeconomia, uma economia que respeite a interação de todas as vidas. Melhor conhecimento da natureza, maior interação com os ecossistemas.

O instituto Earthwatch, durante debate na Sociedade Geográfica Real de Londres, chegou à conclusão de que as abelhas são os seres vivos mais importantes do mundo. A Corporação de Apicultura do Chile realizou um estudo em que foi determinado que as abelhas são o único ser vivo que não é portador de nenhum tipo de patógeno, independente de ser um fungo, vírus ou uma bactéria. O senhor conhece esse estudo? Concorda com ele?

E.G. – Impressionei-me com as informações veiculadas sobre o tema. Vi, no Jardin des Plantes, em Paris, um apiário universal para atrair abelhas melíferas [que produz mel] e não melíferas com a finalidade de conhecer a amplitude  da função específica das abelhas no processo de regeneração e reprodução vegetal. Registram-se, no planeta, mais de 20 mil espécies de abelhas. Elas são responsáveis pela polinização do universo vegetal. As abelhas garantem a reprodução de todas as espécies vegetais. E são, ao mesmo tempo, alimento de milhões de pássaros.

O crescimento populacional é espantoso. Somos cerca de sete bilhões de seres humanos no Planeta, em poucos anos chegaremos a mais de 10 bilhões. Como resolver o impasse entre esse crescimento, a geração de lixos, destruição da natureza e consumo desenfreado?

E.G. – A evolução cerebral e orgânica da espécie humana lhe propiciou possibilidades especiais para se adaptar a diferentes climas, buscar entre as espécies vivas o alimento e compreender o mistério da reprodução do milagre da vida. Deu-lhe também a capacidade de organizar suas relações com o mundo exterior, com os diferentes ecossistemas e com a própria espécie com distintas formas culturais e idiomas específicos. O equívoco da espécie humana, relativamente às demais espécies vivas, se manifestou na concepção, mais e mais difundida, de que pode dominar a natureza, apropriar-se do espaço físico, e estabelecer a ordem do universo. O critério de dominação que preside a organização social da espécie humana se estabelece igualmente sobre as espécies vivas e sobre a própria espécie.

O planeta é limitado em espaço e em alimentos potenciais para a sobrevivência igualitária das espécies vivias. O desmatamento operado em mais de três quartos do planeta, as mudanças climáticas permanentes, os regimes irregulares de chuvas, a escassez de água e alimentos para mais de dois bilhões de pessoas, a desigualdade consciente mantida para salvar fortunas dos mais fortes indicam que a organização social da espécie humana terá que ser repensada para harmonizar sua permanência no planeta.

A escritora suíça Susan George, em seu livro “O relatório Lugano” (Editora Boitempo), critica o neoliberalismo e atribui a essa ideologia a falta de interesse pelo adequado planejamento familiar. A dinâmica do mercado explorador da mão-de-obra barata e o desprezo pelas vidas humanas, especialmente a dos mais pobres, é também outro fator do desinteresse. Qual sua opinião sobre essa tese?

E.G. – Há generalizada convicção em amplos setores acadêmicos, instituições de pesquisas comportamentais no campo da biologia,  psicologia, sociologia, antropologia e economia de que a organização social do homo sapiens sofrerá profundas modificações nas próximas cinco décadas. Será uma imposição das dificuldades de sobrevivência da espécie humana criadas pelo modelo econômico vigente. Denomine-se capitalismo ou neoliberalismo.

O senhor acredita que as doenças modernas (Covid-19, por exemplo) são frutos do desequilíbrio da natureza? Por que isso acontece?

E.G. – Não tenho dúvidas sobre as reações das espécies vivas, dado que todas defendem a própria vida e buscam sua reprodução. Vírus e bactérias são seres vivos. Diante de ameaças ou riscos de extinção, todos os seres vivos buscam alimentos adequados e espaço para se multiplicarem.

Então o vírus é mesmo um ser vivo?

E.G. – O vírus é uma força viva que precisa de outro ser vivo para se reproduzir. Até nova definição biológica de vírus, tenho-o como um organismo vivo.

As variações climáticas são graves problemas. Chuvas torrenciais, secas bravas, aliadas à falta de planejamento dos órgãos responsáveis pelo meio-ambiente podem estar contribuindo para a aceleração do aparecimento de desastres urbanos e rurais? Como evita-los?

E.G. – Um novo olhar sobre os ecossistemas é necessário para melhorar os conhecimentos sobre  o tempo e a forma de sua regeneração, para controlar o consumo de bens e o aumento da população humana e da população animal agregada (bilhões de animais domésticos de todas as espécies), e para estimular as comunidades locais protetoras do ambiente ecológico. Precisamos de um novo paradigma de atitudes e comportamentos para sobreviver às mudanças climáticas em curso.

Qual o papel da Anvisa na defesa da agricultura saudável?

E.G. – Os defensivos ou agrotóxicos são as vacinas contra as pragas vivas que destroem plantações. Resultado: tudo acaba na água e no ar. Ou seja, poluição invisível mas captada pelos organismos vivos. Usam-se mais de 400 venenos contra organismos vivos. O papel da Anvisa é atestar que o veneno é realmente eficaz. Algumas medidas de precaução são sugeridas ou impostas. Se o ecossistema vai na vala comum com a praga, quem sofre somos nós os seres vivos.
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Quem é Eugênio Giovenardi

Nascido no dia 28 de junho de 1934, o gaúcho Eugênio Giovenardi é filósofo, teólogo, sociólogo e escritor. Vive em Brasília desde 1972 e possui uma extensa carreira de formação intelectual.

Fez filosofia na Faculdade São Boaventura, Marau (RS). Teologia na Faculdade São Lourenço, Porto Alegre. É bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Rio Grande do Sul. Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade de Ijuí (RS), com especialização em sociologia do desenvolvimento.

Também tem especialização em economia do desenvolvimento pela Universidade de Loughborough, Inglaterra, 1972. Bolsista do Governo Francês, Paris, de 1967 a 1969, bolsista da Fundação Gulbenkian, Lisboa, de setembro a dezembro de 1969. Bolsista da FAO na Universidade Tecnológica de Loughbrough, Inglaterra, de 1971 a 1972.

Experiência profissional

Eugênio foi consultor do Banco Nordeste do Brasil, para treinamento de Agentes de Desenvolvimento Rural, de janeiro a abril 2003. Consultor do BID, de 2000 a 2001, para assuntos de geração de postos de trabalho e melhoria da renda. Consultor do PNUD (1995-2000) para assuntos de capacitação, educação e treinamento em assentamentos rurais da Reforma Agrária e Alfabetização de adultos junto ao Incra/Ministério do Desenvolvimento Agrário.

Além disso, ocupou o cargo de consultor da Organização Internacional do Trabalho (OIT), de 1987 a 1994, e diretor de projetos agroindustriais rurais e de geração de oportunidades de trabalho remunerado na agricultura e em bairros marginais de Bogotá e cidades intermédias da Colômbia, países andinos e América Central.

Atuou como coordenador de Fomento Cooperativo do Banco Nacional de Crédito Cooperativo, em Brasília, de 1974 a 1987. Superintendente Nacional Adjunto da Superintendência Nacional de Cooperativismo do Ministério da Agricultura, 1985/1986. Consultor do Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição, 1973/75. Consultor de Projeto FAO/BRA para desenvolvimento de cooperativas, São Paulo, (1970-1971). Professor convidado da Fundação Getúlio Vargas (Rio de Janeiro), para cursos de pós-graduação em cooperativismo (1984/1985) e professor convidado da Unisinos, São Leopoldo, Rio Grande do Sul, para cursos de doutorado em cooperativismo. (1980-84).

Em Brasília, atuou também como professor de Sociologia Aplicada à Administração, na Universidade Ceub (1973) e foi professor de Sociologia Geral na Universidade UDF, de 1974 a 1975.

Durante trinta e cinco anos trabalhou com associações cooperativas, trabalhadores camponeses e urbanos, desenvolvendo pedagogias de aprendizagem participativa em processos produtivos integrados (produção, comercialização, agroindustrialização), geração de postos de trabalho não agrícola.

É autor da Metodologia de Desenvolvimento Empresarial Participativo para cooperativas com base em complexos econômicos da cadeia produtiva. Também participou da organização de grupos de interesse e empresas de serviços cooperativos.

Trabalhou também com modelos de gestão, multiplicadores, treinamento de agentes comunitários para a geração de empregos. É autor do método Capacitação Imersa – uma pedagogia da aprendizagem – para profissionais de orientação tecnológica a produtores rurais. Eugenio possui experiência em aplicação e difusão de sistemas simples e eficazes de controle da erosão, captação e retenção de águas da chuva e preservação de nascentes.

Trabalhos técnicos publicados:

Em espanhol

- Estruturas de Pobreza em el Agro. Por qué son pobres los campesinos? (PNUD/OIT), 1993, Bogotá. (esgotado).
- Metodologia del desarrollo empresarial participativo (2 volumes) - PNUD/OIT, 1993, Bogotá.
- Planificación Prospectiva (PNUD/OIT), Bogotá, 1993.
- Formas y tipos de integración empresarial (PNUD/OIT), Bogotá, 1993.

Em português

– Sistema ITOG (Investimento, Tecnologia, Organização e Gestão) de desenvolvimento empresarial (PNUD/INCRA), Brasília, 1996.
– Renda – Meta Focal – Indicador básico de investimento, (PNUD/INCRA), Brasília, 1996.
– Capacitação imersa – Uma pedagogia da aprendizagem (PNUD/INCRA), Brasília, 1996.
– Modelo de Gerência com Indicadores (PNUD/INCRA), Brasília, 1997.

Obras literárias

1 −  O homem proibido (Os filhos do cardeal) - romance. Editora Paralelo 15, 1997 (Traduzido para o espanhol, publicado em Havana, Cuba, pela Editora José Martí, junho/2000 e para o finlandês, Editora LIKE, Helsinque, março/2001, e para o inglês, 2006, edição E-book).
2 – Versos Irregulares, Paralelo 15, 1998, Brasília.
3 – Em nome do sangue (romance) editora Movimento, 2002, Porto Alegre, ganhador do Prêmio Açorianos de Literatura, 2003. (traduzido para o finlandês, LIKE, Helsinki, 2005, Edição de Bolso, em finlandês, 2006).
4 – Ventos da Alma, Editora SER, 2003, Brasília.
5 – Solitários no Paraíso, Poema – Editora Movimento, Porto Alegre, 2004.
6 − A Saga de um Sítio – Crônicas – LGE, Brasília, DF, 2007.
7 − AS pedras de Roma, Romance,  MaisQnada, Porto Alegre, 2009. Traduzido para o inglês: - The Stones of Rome, Novel, Kelps, 2019.
8 – Heliodora – Romance, Editora Francis, Brasília, DF, 2010.
9 –  Silêncio – Romance intimista, Thesaurus, Brasília, DF, 2011.
10 – Sutilezas do Cotidiano – Crônicas – Kiron – 2012.
11 – As árvores falam – Crônicas, Editora Movimento, Porto Alegre, RS, 2012.
12 – O último pedestre – romance, Editora Kiron, Brasília, DF, 2013.
13 – Sutilezas do Cotidiano – Crônicas, Editora Kiron, Brasília, DF, 2013.
14 -  No meio do caminho - Editora Movimento - 2014
15 -  Ecossociologia – Ensaio sobre relações ser humano-natureza
16 – Ecologia – Prosperidade sem destruição dos ecossistemas.
17 – Reencontro – As lições da natureza, Editora Kelps, 2017.
18 – Anarquismo literário, Editora Kelps.
19 – Aldebarã e eu, KELPS, 2018
20 – A velhice do tempo – Ensaio – 2019/20
21 - Caliandra – Poesia – 2020 – Kelps -
22 – Os pobres do campo –  - Como construir estruturas de riqueza no campo. Tomo Editora Porto Alegre, 2003
23 − O retorno das águas – Retenção de águas da chuva e preservação de nascentes. Editora SER, edição bilíngue, Brasília, 2005.

Títulos

- Acadêmico do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal
- Sócio da Associação Nacional de Escritores, Brasília
- Acadêmico da Academia de Letras do Brasil
- Sócio do ICOMOS/Unesco.
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Link para acessar o blog do entrevistado - clique aqui

 

 

Criado em 2021-02-15 20:01:46

Livros são armas!

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

A sacralização da palavra impressa, com o correspondente fetiche pelos livros, é um fenômeno antigo, potencializado pela invenção da prensa mecânica no século XV. Antes, só os muito ricos possuíam livros, objetos raríssimos, copiados um a um a mão. A interpretação deles, então, era privilégio de homens muito poderosos.

No caso da Bíblia, esses caras se diziam capazes de desvendar a mente de Deus e, na condição de seus embaixadores plenipotenciários, impunham o domínio político sobre as massas ignaras e supersticiosas. Em vez de alguma Constituição Cidadã, exibiam as Escrituras Sacralizadas!

Livros sempre foram usados como armas. Na Europa da Idade Média, quando o continente ainda era disputado por mouros e cristãos, poucos conventos possuíam uma Bíblia completa. Surgiram então as “bíblias romanceadas”, mais concisas, paráfrases da Vulgata ou de paráfrases anteriores, como a Historia Scholastica de Petrus Manducator, muito mais eficientes do que a versão canônica na vulgarização da doutrina cristã e no combate aos infiéis islâmicos ou judeus.

Para redigir essas linhas andei folheando a primeira parte de um desses artefatos, o Pentateuco da Bíblia Medieval Portuguesa (@ Heitor Megale), provavelmente composto por volta de 1320, em galego, e foi muito divertido encontrar 15 menções de Jesu Christo logo no Gênesis. Algumas bíblias romanceadas mesclavam o Gênesis com o Apocalipse numa espécie de resumo executivo do Textão Sagrado.

Ora, não foi à toa que o Karl Marx disse que as ideias tornam-se forças materiais quando ganham as massas organizadas. E é exatamente por essa razão que me preocupa o fetiche dos livros e a sacralização da palavra impressa, agora também digitalizada.

Atenção: O Capital do Marx, A Pedagogia do Oprimido do Paulo Freire, e a Areopagítica: Discurso Sobre a Liberdade de Expressão, do John Milton, são livros.

Livro, segundo o Houaiss, é (1) uma “coleção de folhas de papel, impressas ou não, reunidas em cadernos cujos dorsos são unidos por meio de cola, costura etc, formando um volume  que se recobre com capa resistente, e (2) obra de cunho literário, artístico, científico etc. que constitui um volume [Para fins de documentação, é  uma publicação não periódica com mais de 48 páginas, além de capa.]”

Também são livros, portanto, o Mein Kampf, do Adolf Hitler, O Imbecil Coletivo, do Olavo de Carvalho, e Contra a Maré Vermelha, de Rodrigo Constantino.

O grande Monteiro Lobato, criador da Emília, a pirralha mais genial do Brasil (cujo nome é uma homenagem à esposa do educador Anísio Teixeira),  decretou que “uma nação se faz com homens e livros”. Bobagem das grandes! Pra começo de conversa, uma nação se faz com homens e mulheres, sem discutir aqui os gêneros, né! E depois, como é fácil perceber, livros servem também como armas de destruição em massa...

Estão abertas as inscrições para o debate!

Criado em 2021-08-24 14:23:26

Estado, governo e absolutismo

Luiz Martins da Silva –

Numerosas autoridades brasileiras não sabem a diferença, ou fingem não saber, e transmitem ao geral da população a ideia de que o presidente da República é uma espécie de chefe supremo. E que, entre outros privilégios, é, ele próprio, a Constituição. As outras instituições, Legislativo e Judiciário (e nele as polícias) estão a serviço do Executivo e, em especial, de si próprio.

Quando um presidente afirma que as Forças Armadas estão com ele, passa para o povo a incorreta noção de que elas são do Governo quando, na realidade, são do Estado. O mesmo acontece em relação a muitos outros recortes do Estado, como as Relações Exteriores e a diplomacia. Nessa esteira de confusão, por ignorância ou fingimento, subordinados, a começar pelos de nível ministerial, agem, emitem distorções e zombarias desqualificando e troçando de posições políticas contrárias, sejam as de comuns, sejam as de chefes de outros Estados, por vezes cometendo danos morais coletivos, tratando, por exemplo, a China e os chineses (nossos principais parceiros comerciais) simplesmente como atores do Mal, da maldade e da criação premeditada da pandemia, algo diariamente negado por cientistas de várias partes e centros de pesquisa.

Sabe o governo que tem limites, mas, testa-os a cada dia. A tática é a seguinte: num dia, pisa na fronteira do razoável; no dia seguinte, volta atrás e desautoriza, haja vista, manifestações ostensivas antidemocráticas. Neste momento trágico, o Presidente da República descolou-se do enfrentamento dos dois maiores desafios nacionais: o ataque à pandemia (com mais de sete mil mortos) e as conquistas democráticas. E daí? Desdenha para um lado; por outro, faz spoiling de ameaças: 'Esta semana vou pegar pesado!' Ele próprio adota atitudes nada sanitárias. Ele próprio ostenta ter com ele as tropas. Em ambos os casos, parece confiar que as marés do destino estão em seu melhor favor. O Brasil e o mundo estão mesmo dispostos a tolerar esse novo fenômeno de Absolutismo?

Criado em 2020-05-04 15:04:59

A cidade nova... pela janela

Marília Panitz (*) –

“O prazer que há em viajar dentro do próprio quarto está a salvo do ciúme inquieto
dos homens; ele tampouco está ao sabor da fortuna.
Haverá, com efeito, criatura tão infeliz, tão abandonada que não lhe reste um reduto para o qual
possa se retirar e onde possa se esconder do mundo?
Não é preciso outra coisa para dar início à viagem.
”
Xavier de Maistre – Viagem ao redor do meu quarto

Quando Brasília completou sessenta anos, estávamos no início da pandemia e do consequente confinamento (pelo menos nós, que acreditamos na ciência e que temos um mínimo garantido para que possamos nos isolar). Ao invés da festa que ressalta a escala monumental da cidade, comemoramos de dentro de casa, na escala residencial, como é definida pelo poeta Lucio Costa (as outras são a gregária e a bucólica, que atravessa as demais e da qual usufruo, de meu posto de observação). O que nos unia então, ao festejo tradicional, que ressalta os seus maiores ícones, de certa forma, os criadores de identidade da capital, para quem não vive ou viveu nela, era o céu. Quem mora aqui tem efetivamente o céu por companhia (minha filha, moradora de São Paulo, sempre manifesta sua saudade com essa frase: “que falta me faz esse céu”).

A circunstância da quarentena mudou meu olhar sobre Brasília, depois de cinquenta anos de convivência. Acostumada a dominar suas ruas largas, seus jardins, seus cantos ligados à minha prática de ensino e curadoria de arte… ou a vê-la de cima, nas inúmeras chegadas e partidas, passei a ver a sua vida pela janela.

O tal momento de emoldurar-se no marco entre o dentro e o fora sempre me remete ao interior do Brasil, ao profundo de nossa cultura – e não foi na abissal profundeza do país-continente que o “avião-borboleta” pousou, para inaugurar um novo centro de decisões do país? –, esse lugar de troca rápida, de informação em pequenas pílulas (ao contrário das visitas), de ver o movimento, se inteirar “das modas”. Também fora do Brasil, a imagem dos confinados interagindo pelas janelas, em uma Itália devastada pelo vírus, correu mundo.

Mas não é esta a janela modernista, a janela do Plano Piloto. Esta é solitária. O meu horário de janela tem sido, neste um ano e um mês, o fim da tarde, quando acompanho o espetáculo celeste por trás e acima da arquitetura de minha quadra. E o que se apresenta para mim é sutil, cheio de detalhes poéticos que se entregam aos poucos, já que minhas janelas são voltadas para o nascente. É no amanhecer que o espetáculo de cores se apresenta em toda a sua magnitude, mas aí eu não o vejo, a não ser nas noites insones – como para Clarice Lispector, Brasília, algumas vezes, é a minha insônia.

Minha prática cotidiana (recém descoberta) de amor à cidade pelo seu ângulo mais discreto, se aproxima muito mais do método da personagem Auggie, do filme Cortina de Fumaça de Jim Jarmusch e Paul Auster.

Todos os dias, à mesma hora, da mesma janela, com os mesmos enquadramentos, capturo imagens do entardecer. Como ele diz a seu espantado interlocutor: “São todas iguais, mas cada uma é diferente de todas as outras. […] É isso que recomendo. Sabe como é. Amanhã, depois de amanhã e sempre… o tempo se arrasta com seu passo miúdo”. Agora, com um ano completado nesse exercício, talvez eu faça, como Auggie, um álbum das mesmas fotos diversas – para serem vistas uma após a outra, minha contagem de tempo.

O que chama a atenção dos moradores de cidades tradicionais ou daqueles que daqui partiram e descobrem essa falta, é a visão panorâmica que as superquadras proporcionam a seus moradores. Essa ideia inovadora de posicionamento dos edifícios e seu gabarito máximo de seis andares impedem os “emparedamentos” da organização urbana de grandes centros. A grande descoberta do pensamento modernista em termos de urbanismo (que remonta às indicações da Carta de Atenas) é esta garantia de um espaço – mesmo entre prédios – para buscar o horizonte.

Eu que venho do sul do Brasil e sou de família da região de fronteira com o Uruguai, tenho predileção por essa linha reta no encontro do céu com a terra. A paisagem da campanha gaúcha é das mais belas que conheço. O que não implica um desamor às montanhas (como poderia?); nada, porém, se iguala a este lugar para descansar os olhos. E o planalto central, com outra configuração e outro bioma, me restitui isso… daqui da minha janela!

Em abril, comemorarei o aniversário de Brasília, através da janela. Estar em casa me ensinou a olhar o que já tenho visto distraidamente por cinquenta anos: que o monumental e o mínimo são versões de uma mesma proposta de vivência do espaço, sob o mesmo céu e sobre a mesma planura.

Viva Brasília, por mais um ano… a cada novo aniversário, a cidade inventada vai se tornando mais orgânica. Como dizia seu criador, abandona a redoma e deixa de ser “flor de estufa”.

E eu vejo isso emoldurada pela minha janela…
_______________________
(*) Marília Panitz é graduada em Artes Plástica, mestre em História da Arte, curadora e professora universitária. Busca sempre o horizonte em sua vida e, nessa pandemia, a janela é recurso de resistência, beleza e arte.

(Texto publicado originalmente no site Maria Cobogo).

Criado em 2021-04-19 16:26:50

Andar a Pé promove Safári Urbano pela Calçadas de Brasília

Nos dias 12 e 13 de maio de 2017, próximo final de semana, a Associação Andar a Pé – o Movimento da Gente, com o apoio do UniCeub e da UnB, promoverá o Safari Urbano pelas Calçadas de Brasília.

A atividade reunirá dezenas de agentes envolvidos com o bem estar do pedestre e a defesa da qualidade do espaço urbano para a aplicação do método Safari Urbano – Modelando Calçadas, desenvolvido pela prefeitura de Nova Iorque (EUA).

Esse método foi criado para avaliar a qualidade das calçadas segundo a percepção do próprio pedestre. Brasília é uma das pioneiras na sua utilização. Após sua aplicação no Plano Piloto, deverá, numa segunda etapa, também ser utilizado para avaliação das calçadas nas demais cidades do DF.

A Associação Andar a Pé foi criada para defender o pedestre em Brasília, na expectativa de reverter as precárias condições oferecidas por aqui, como nas demais cidades brasileiras, oriundas de décadas de abandono dos governos. A Associação busca o desenvolvimento pleno desse importante meio de mobilidade urbana.

Programação:

I – ATIVIDADE INTERNA (tarde 12/05 – sexta-feira)

(Local: Auditório Biblioteca UniCeub)

14h00 – Apresentação da Associação Andar a pé.

14h30 – A experiência de andar a pé em Brasília. (Paulinha Pedestre)

15h45 – Apresentação do Método e dos 5 roteiros.

17h15 – Organização das equipes e logística da atividade da manhã do sábado.

 
II – ATIVIDADE EXTERNA (manhã de 13/05 – sábado)

(Local: área central de Brasília – 5 roteiros)

RODOVIÁRIA – ESPLANADA DOS MINISTÉRIOS

SETOR COMERCIAL SUL

SETOR COMERCIAL NORTE

W3 SUL

QUADRAS RESIDENCIAIS DA ASA SUL

III – ATIVIDADE INTERNA (tarde de 13/05 – sábado)

(Local: Auditório Biblioteca UniCeub)

14h – Apresentação dos resultados de cada equipe (20 min por equipe)

16h – Discussão Final acerca dos resultados, sugestões para os próximos eventos e para o método.

Para mais informações, acesse nossa página do Facebook – Andar a Pé, contate os nossos coordenadores pelo e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Criado em 2017-05-01 00:26:50

Debate com Ailton Krenak hoje no Beijódromo da UnB

A retrospectiva da carreira do cineasta inglês Adrian Cowell se encerra hoje (24/6), às 17h, no Beijódromo (Memorial Darcy Ribeiro da UnB), online pela plataforma Amazônia Flix e pelo canal de youtube do Núcleo de Estudos Amazônicos (NEAZ), com entrada franca.

O encerramento contará com a participação ilustre de Ailton Krenak, autor de livros como Ideias para adiar o fim do mundo (2019), O amanhã não está à venda (2020) e A vida não é útil (2020), reconhecido internacionalmente como uma das mais importantes lideranças indígenas da atualidade, fazendo reflexões sobre as questões abordados na mostra e sua relevância para a atual conjuntura.

O evento celebrou a história do ativista brasileiro Chico Mendes e pautou questões relevantes para a defesa do meio ambiente brasileiro
_________________
Mostra Adrian Cowell de Cinema Socioambiental – Até 24 de junho
Sessões Beijódromo - UnB
Sexta (24) - às 17h
Plataforma Amazônia Flix
Acesso aos filmes  - https://amazoniaflix.com.br/
Link para a Mostra https://mostraadriancowell.com.br/

 

Criado em 2022-06-24 15:44:34

Fenaj repudia ameaça de Wassef à jornalista Juliana Dal Piva

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro e a Comissão Nacional de Mulheres da Fenaj repudiam veementemente a ameaça do advogado Frederick Wassef à jornalista do UOL, Juliana Dal Piva.

Segundo a nota da Federação, “a jornalista vem desempenhando importante trabalho de investigação e expondo possíveis crimes cometidos por Jair Bolsonaro, com uma série de reportagens e podcast documental, nos quais expôs supostos crimes cometidos pelo presidente da República enquanto Deputado Federal, como a “rachadinha” – apropriação de parte do salário de assessores”.

As entidades dos jornalistas afirmam que não aceitarão “que o presidente e seus apoiadores sigam ameaçando jornalistas e colocando suas vidas em risco. Exigimos dos órgãos responsáveis imediata apuração da ameaça e proteção à jornalista.”

Os jornalistas querem que a Comissão de Ética da OAB instaure procedimento disciplinar contra Wassef. “Basta de ameaças às jornalistas, à imprensa, ao livre exercício do jornalismo e à liberdade de expressão, pilares de qualquer Estado Democrático", afirma a nota da Fenaj.

Criado em 2021-07-11 22:18:42

Mulheres em movimento

Direção Maria Maia.

Uma homenagem às mulheres!

Criado em 2018-03-09 17:30:24

Pobreza de espírito na guerra contra as drogas

Alexandre Ribondi -

As drogas viciam? Sim, mas o elemento que mais produz o vício não é químico. É a vida que se leva. Essa é a conclusão a que chegou o professor de psicologia canadense, Bruce Alexander, que já lançou dois livros considerados importantes para a questão: Peaceful Measures: Canada's Way Out of the War on Drugs (Medidas Pacíficas: a saída canadense para a guerra contra as drogas) e The Globalization of Addiction: A Study in Poverty of the Spirit (A globalização do Vício: um estudo sobre a pobreza de espírito).

O conteúdo dos livros vai no caminho inverso de tudo o que pensamos sobre drogas e vícios e coloca não apenas os usuários e os traficantes em cheque, mas também os outros, que se consideram inocentes ou incapazes de lidar com a situação quando ela acontece perto deles.

Em primeiro lugar, uma situação chamou a atenção. Uma pessoa que, por exemplo, sofre um acidente e passa por um longo período de recuperação em um leito de hospital.

Para atenuar as dores, os médicos aplicam doses forte de diamorfina, que é a cocaína pura, mais potente do que a encontrada nas ruas.

Esses pacientes, ao voltarem para casa, não estão viciados e não demonstram precisar de doses contínuas de droga. Isso deveria também ocorrer com os usuários de drogas, mas não acontece.
Diferentemente disso, as ruas das cidades brasileiras (e de quase todo o mundo) vivem cheias com o que associamos com a falência da dignidade humana e da esperança.

E aí surgiu a questão: por que eles se tornam viciados e os pacientes em recuperação não?

Foi, então, feito um estudo detalhado. Com ratos, aqueles mesmos a que sempre recorremos para entender o organismo humano.

Colocado sozinho em uma jaula, o rato tinha à escolha duas fontes de água: uma pura e outra misturada com cocaína. O que aconteceu foi o que se esperava.

O animal posto em prova se tornou viciado com o tempo, passou a recusar a água pura e acabou por morrer de overdose.

Isso serviria para mostrar que as drogas matam. Mas Bruce Alexander resolveu levar o experimento mais longe. Criou o que ele chamou de Parque dos Ratos, o que era um verdadeiro paraíso para os roedores.

Esse parque oferecia canos para serem percorridos, fêmeas e machos que podiam copular à vontade e duas porções diferentes de água: uma com heroína ou cocaína, e outra pura.

O resultado foi surpreendente. Nessa situação de bem-estar e de satisfação pessoal e coletiva, os ratos não procuraram a água contaminada e os que procuraram passaram a evitá-la depois.

Nenhum deles se viciou ou morreu de overdose.

Experiências com ratos precisam ser verificadas com seres humanos. E isso foi feito nos anos 1970, no Vietnam.

Acontece que 20% dos soldados serviram de cobaia para uma experiência com heroína, o que poderia significar que os Estados Unidos teriam que lidar, mais tarde, com uma horda de ex-combatentes com medalhas no peito e com o vício no corpo.

No entanto, somente 5% deles continuaram as aplicações de drogas. O restante voltou para as famílias e esqueceu que, um dia, para suportar o horror de estar numa guerra que não era deles, num país que não conheciam, injetaram drogas no corpo. 

Por que sabe-se tão pouco sobre o psicólogo canadense, sua pesquisa e seus livros? Uma das possíveis respostas parece estar na maior pesquisa já feita, em escala global, sobre o uso e o vício em cocaína, no início da década de 1990, levada a cabo pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Foram feitas pesquisas em 21 cidades de 19 países e Bruce Alexander foi um dos pesquisadores envolvidos. Mas um representante da Assembleia Mundial de Saúde (o principal órgão decisório da OMS) conseguiu proibir a publicação dos estudos feitos, aparentemente porque os resultados pareciam contradizer o mito dominante do vício em drogas, no que diz respeito à cocaína.

Para os pesquisadores, no entanto, "o uso ocasional de cocaína não leva a problemas sociais ou físicos". Mas os fundos da pesquisa foram cortados e a publicação adiada - até hoje.

Em 2009 tornou-se disponível no Wikileaks.

O que provavelmente se quis esconder é que a solução para o uso de drogas nunca é individual em clínicas ou prisões. A solução é coletiva, o que implicaria em alterar nosso modo de vida, os valores que acreditamos importantes e a maneira de criarmos laços de afeto.

Essa perspectiva pode ter efeitos desastrosos, por exemplo, na economia. Um único complexo presidiário no estado norte-americano da Georgia tem lucro anual de US$ 50 milhões e a empresa responsável por isso chega a investir dois milhões de dólares em lobby junto ao Congresso do país.

Querem leis mais duras para que a população carcerária cresça e o lucro aumente.

Mas se uma pessoa se torna usuária de drogas pela má qualidade de vida que leva, a prisão vai certamente piorar a situação.

Porque, para o professor Alexander, o contrário de vício não é a desintoxicação. O contrário de drogas é uma receita simples, mas que tem desaparecido das nossas sociedades: conviver.

E conviver é uma empreitada demorada e árdua porque significa dialogar, perguntar, compreender e, sobretudo, amar.

E quer dizer também que não é apenas o usuário que deve mudar ou ser corrigido em prisões e clínicas.

Somos todos nós que devemos mudar. Sem lucros para governos e empresas.

Criado em 2016-10-18 23:13:48

O bruxo Hugo Rodas e a indesejada das gentes

Maria Lúcia Verdi –

Fui assistir “Adubo ou como aprender a sutil arte de escorregar pelo cano” sem saber do que se tratava. Bastava saber que era do Hugo (Rodas). Fora de Brasília por muitos anos perdi várias de suas produções, entre elas esta, montada há quatorze anos e apresentada em todo o Brasil com o merecido êxito.

Como todos, abalada pelas mortes recentes de Beth Carvalho, Antunes Filho e Andrade Júnior, não imaginava o que iria enfrentar domingo à noite, exatamente após o desabafo de uma amiga narrando a morte de seu amor.

O tema central é o mais corriqueiro e universal possível, a morte. A morte vista por todos os ângulos, o trágico, o cômico, o lírico, o irônico, o grotesco, o escrachado, o refinado, o filosófico-existencial e o caricatural.

O espetáculo é uma homenagem à palavra, ao discurso, ao diálogo, construído a partir de uma notável seleção de textos, entre outros, de Sêneca, Bukovski, Nietzsche, Baudelaire, Nelson Rodrigues, Juliano Cazarré, de um grupo de Alcoólatras Anônimos e um conto indiano, incorporando-os antropofagicamente a textos e falas breves criadas pelos próprios atores.

Uma colcha de retalhos que retrata o fluxo da vida costurada genialmente por Hugo, o provocador. Um texto atemporal e aberto que a cada temporada tem a capacidade de se atualizar a partir das circunstâncias históricas em que o público está inserido.

Os fragmentos textuais se desenvolvem em cenas a partir dos diálogos de um grupo de amigos, criando uma reflexão sobre - como diz o título - uma aprendizagem, a mais difícil delas, a da aceitação da nossa efemeridade e da falta de respostas às grandes questões da existência. O público se engancha visceralmente no ritmo de cada instigante história. A lição da sutil arte é dada de todos os modos, com socos, risadas amargas, pancadas, lágrimas e apertos na garganta. É tão denso que por momentos queremos parar a cena e pedir que repitam.

Num momento em que a bobajada, a pobreza, a vulgaridade, a banalidade e a falta de inteligência estão tão presentes é alimento para a mente e a alma ver\vivenciar obras do calibre de “Adubo”. Somos adubados pela dramaturgia e pela direção da peça, pela ininterrupta demanda de compreensão, pelo apelo à nossa inteligência e sensibilidade.

Adubados por uma obra que nos remete ao que não deve ser esquecido: somos humanos, pura contradição e espanto frente à vida e à morte. Anjos e demônios, escorregamos pelo cano terrivelmente frágeis - um abismo nos encara desde o nosso nascimento. Esse abismo está desenhado a giz num enorme quadro-negro ao fundo do cenário, criado por Sônia Paiva – nele, as imagens desenhadas são apagadas e substituídas, como o que nos ocorre na vida.

A peça começa e termina com a história da morte de um cachorrinho, o Balu, inspirada no desenho Calvin e Haroldo - o que a morte do bichinho de estimação coloca para as crianças inconformadas e um pai que se confunde todo ao tentar explicar o acidente que matou o cãozinho.

A questão de Deus, da justiça divina é colocada com humor agudo e aponta diretamente para o absurdo de certas explicações que estamos habituados a ouvir e que hoje em dia produzem templos milionários. “Adubo” traz as questões que os bêbados dos bares reiteram, que a filosofia reapresenta e as crianças nos colocam. O final da peça, eminentemente poético, apresenta a única verdade inquestionável: o caráter misterioso da existência, suportável apenas com a ajuda da arte e da fantasia.

Ao perguntar a Hugo se ele fizesse hoje, quatorze anos depois, esta montagem, se ele a faria assim tão tremenda, escuto a resposta: “Sim, faria igual. Eu sou uma insolência para mim mesmo”. Uma insolência é algo fora do comum, do habitual, como um Diretor que destila o tema da morte e diz nunca ter pensado nela - em sintonia com a personagem feminina que afirma, em determinado momento, ser a vida o problema, não a morte.

Os atores são notáveis: Abaete Queiroz, Rossana Viegas, André Araújo e Pedro Martins. Realizam todas as proezas interpretativas exigidas por Hugo como numa amostragem caleidoscópica do que é a arte teatral.

“Adubo”, para mim, traz a síntese do pensamento, da lucidez tremenda e antiburguesa do uruguaio que nos escolheu. Pena que esteve em cartaz no Espaço Cultural da 508 Sul, de Brasília, apenas no final da semana passada.

Não esqueçamos que no Museu Nacional a mostra de Mila Petrillo oferece o registro fotográfico de praticamente todas as encenações que o Bruxo já desenvolveu em Brasília.

Este ano Hugo ainda nos premiará com o retorno do icônico “Saltimbancos”, e, para encerrar um ano tão surreal, a montagem de “Poema”, baseado na obra de Artaud e na questão da loucura. Nada mais oportuno.

Criado em 2019-05-08 15:16:05

Peter Handke leva o Nobel de Literatura mas esnoba prêmios

Angélica Torres –

Lula tem razão. O amor é a mais certa resposta, é o grande antídoto, ao ódio. Tem-se essa mesma impressão ao rever Asas do Desejo, o filme de Wim Wenders, escrito por ele com Peter Handke, o novo Nobel de Literatura. Quem viu o filme sabe o que isso quer dizer. O prêmio para Handke anunciado hoje, deixa muitos brasileiros na expectativa do resultado de amanhã para o da Paz. O páreo é duro.

Lula concorre com outros poderosos – o papa Francisco e a adolescente sueca ativista ambiental, Greta Thunberg, mas também com o nosso cacique Raoni, nome no qual apostam os sites internacionais. Logo se saberá para que prato vai pender a balança, se para o da luta política ou se para a ambientalista.

No entanto, podemos manter distanciamento, sabendo que o Nobel é comparado ao Oscar. O que conta de fato são o lobby e o peso político do candidato que sai vencedor. O governo de Obama foi notório em guerras e mortandade, o que em nada afetou a escolha de seu nome ao prêmio. No caso de Handke, por exemplo, em tempos de crescentes manifestações humanistas mundiais, decorrentes da conscientização dos males do neoliberalismo, apesar de o atributo ser literário, o lado controverso do romancista, dramaturgo, roteirista e poeta, não por isso, teria também atrapalhado o júri.

Se autor de mais de 80 títulos e tido como o mais lido em língua alemã, o austríaco Handke também coleciona críticas por suas polêmicas declarações e posições políticas. No meio editorial, conta-se que não acreditavam em sua premiação, pela sombra que ainda pende sobre ele. Durante a guerra na ex-Iugoslávia, o escritor tomou partido dos sérvios: expôs-se em livro com suas ideias e impressões após o massacre de Srebrenica, em que morreram mais de oito mil bósnios; aceitou depois ser condecorado por Slobodan Milosevic, presidente da Sérvia acusado de genocídio e mais tarde, viu-se novamente criticado e repudiado por discursar em seu enterro.

No entanto, Asas do Desejo, que tem sua poesia na base de todo o roteiro, e em especial o poema Als das kind kind war (“Quando a criança era criança”), recitado pelos protagonistas Bruno Ganz e Solveig Dommartin –, arrebatou plateias do mundo todo, sobretudo por ser o filme um tributo ao amor em final de milênio conturbado, carregado de maus presságios para o vindouro, já que o enredo, um libelo de esperança à humanidade, contrapõe-se à memória do nazismo, raiz da 2ª Guerra Mundial.

No Brasil, mais do que o romancista, foi pelo roteiro desse filme e mais outro, também com Wim Wenders, extraído de seu livro O medo do goleiro diante do pênalti, que seu nome tornou-se conhecido. Em entrevista publicada na imprensa portuguesa, Handke declarou seu amor pelo cinema, mas hoje diz se considerar um contador de histórias.

Mesmo portando vários prêmios na bagagem, ele afirma que o melhor para o escritor é uma recompensa pequena – e dos que podem ler em sua língua original. “Esses são os verdadeiros leitores do escritor. Não sou uma boa pessoa para prêmios, gosto para os outros, me sinto muito estranho, não é algo bom para mim. Gosto mesmo é de quando um leitor me escreve uma carta”, revela.

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Leia aqui o poema Quando a criança era criança:

https://alfonscsb.blogspot.com/2007/05/criana-quando-criana-peter-handke.html

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Olga Tokarczuk, a outra ganhadora é engajada e de esquerda

Romário Schettino

Olga Tokarczuk (foto), a outra ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura deste ano, nasceu em 1962, em Sulechów, na Polônia, e hoje vive em Breslau, também na Polônia. Formada em psicologia na Universidade de Varsóvia, estudou os trabalhos do psiquiatra suíço Carl Jung (1875-1961) e chegou a trabalhar como psicoterapeuta por um tempo.

Segundo o Nobel, a verdadeira inovação de Olga veio com seu terceiro romance, "Prawiek i inne czasy" ("Primitivo e outros tempos"), de 1996. O volume é "um excelente exemplo de nova literatura polonesa após 1989", avaliou o comitê do prêmio.

"A obra-prima de Olga Tokarczuk, até agora, é o impressionante romance histórico 'Księgi Jakubowe' ('Escrituras de Jacó'), de 2014. Ela mostrou nesse trabalho a capacidade suprema do romance de representar um caso quase além da compreensão humana", acrescentou o comitê.

No livro, Olga conta a história de Jacob Frank, figura histórica altamente controversa do Século 18 e líder de um misterioso grupo herético judeu que se converteu, em diferentes épocas, ao Islã e ao catolicismo. Aplaudido pelos críticos, o livro provocou violentas reações em grupos de direita na Polônia, e a autora chegou a receber ameaças de morte.

Além de "Os vagantes", seu único livro até agora lançado no Brasil, a editora Todavia planeja lançar, em novembro, o romance "Sobre os ossos dos mortos". A obra retrata "uma professora de inglês aposentada [que] costuma se dedicar ao estudo da astrologia, à poesia de William Blake, à manutenção de casas para alugar e a sabotar armadilhas para impedir a caça de animais silvestres", segundo o material de divulgação.

O texto descreve o volume como "subversivo" e "macabro", que "parte de uma história de crime e investigação convencional para se converter numa espécie de suspense existencial", ao abordar "temas como loucura, injustiça e direitos dos animais".

Politicamente engajada à esquerda, ecologista e vegetariana, Olga costuma criticar a política do atual governo nacionalista conservador, do partido Lei e Justiça (PiS).

Criado em 2019-10-11 01:08:58

Morre Luis Humberto, o fotógrafo da luz

Romário Schettino –

Morreu na madrugada desta sexta-feira (12/2), aos 86 anos, em Brasília, o fotógrafo Luis Humberto Pereira, referência do fotojornalismo brasileiro, vítima de complicações em decorrência de um linfoma no sistema nervoso central.

Uma parte de sua obra está nos livros Fotografia: Universos & arrabaldes (1983) e Brasília, Sonho do Império, Capital da República (1981). Em 2007, ele publicou ainda Do Lado de Dentro de Minha Porta, do Lado de Fora de Minha Janela, que também foi transformado em exposição.

Nos anos 70-80 Luis Humberto transformou o Jornal de Brasília numa espécie de laboratório. Ele montou uma equipe altamente qualificada, com alunos da UnB e profissionais da área, que revolucionou o uso da fotografia como elemento fundamental da notícia. Foi um período que impressionou  pela qualidade do trabalho. Quem tiver acesso aos jornais desse período entenderá do que se trata. Tudo realizado, ousadamente, em plena ditadura militar. Sua vida profissional na imprensa sempre foi no sentido de valorizar o fotojornalismo.

Nos últimos anos, Luis Humberto vinha se dedicando a ensaios domésticos. Com a dificuldade de mobilidade por causa do Parkinson, ele passou a registrar o ambiente ao redor a partir da perspectiva da cadeira de rodas. Ao falar sobre o ensaio A reforma do olhar possível, disse ele ao jornal Correio Braziliense à época: “Comecei a fotografar, a olhar as coisas de outra maneira, descobrir coisas, trabalhar num universo de dimensões menores, o que não desqualifica, mas faz você mergulhar em outra escala de coisas. Você vai descobrindo coisas que têm um certo encanto, é um jogo”. Esta exposição foi comentada pela poeta Maria Lucia Verdi aqui no Brasiliários.

Uma outra homenagem feita a Luis Humberto está neste link do Festival Foto BSB. Vale conferir.

Muitos depoimentos circularam hoje na internet. Destacamos alguns:

Poeta Maria Lúcia Verdi:

“Acabo de saber da morte de Luis Humberto. A emoção me invade, invade a todos que conheceram seu trabalho como fotógrafo e arquiteto, a todos que o conheceram como pessoa iluminada pela inteligência e sensibilidade, em iguais proporções. Foi um gigante ao enfrentar a doença que o abateu, um exemplo. Acompanhou-o sempre a doce Marcia Noronha. Luis Humberto permanece conosco em suas obras. Descanse em paz”.

Fotógrafo José Roberto Bassul:

“Hoje perdemos Luís Humberto, um gigante na arquitetura, na fotografia e sobretudo na coragem. Na UnB desde a sua fundação, professor de arquitetura e, depois, de fotografia, foi coautor, com o grande Alcides da Rocha Miranda, do prédio da Faculdade de Educação. É de Luis Humberto, aliás, o icônico painel de azulejos do edifício, que muitos atribuem a outro grande mestre, Athos Bulcão.

Em 1965, demitiu-se da Universidade, junto com 223 professores, em solidariedade aos 15 colegas que haviam sido expulsos pela ditadura sob a acusação de serem subversivos... Só retornou nos anos 1980 em decorrência da Lei da Anistia.

Saiu arquiteto, voltou fotógrafo. E que fotógrafo imenso! Nesse intervalo, havia refundado as bases do fotojornalismo. Na Veja, onde trabalhou com Pompeu de Sousa, outro gigante, no Jornal do Brasil e por onde mais passou, enfrentou a ditadura com suas imagens irônicas e desmoralizantes. Ajudou a desnudar o fascismo que nos destruía e que agora torna a nos ameaçar.

Tive a fortuna de estar e conviver com ele em muitas ocasiões. Antes de conhecê-lo, contudo, quase morri por sua causa. Explico. Aos 14 anos, estudante de fotografia, vi uma imagem feita pelo LH que me inspirou profundamente. Era uma foto, feita de baixo para cima a partir da via S1, do talude cimentado que conduzia o olhar até o edifício do Banco do Brasil. Quis então copiá-lo disfarçadamente...

Com a câmera no rosto, caminhei em direção ao talude tentando encontrar um ângulo que pelo menos não fosse uma cópia escrachada... Não percebi que estava no meio da rua e fui violentamente atropelado. Me recuperei, mas nunca mais tentei um plágio...

Há uns três anos, contei essa história pra ele, e rimos muito! Luís Humberto foi um farol. Agora é uma estrela-guia!”

Fotógrafo Milton Guran:

“Luis Humberto revolucionou o fotojornalismo político ao desmontar visualmente a hipócrita liturgia do poder da ditadura militar. Todos nós, repórteres fotográficos que com ele convivemos em Brasília e todos os que vieram depois lhe somos devedores. Ser humano especial, ele foi uma das vozes lúcidas no campo fotográfico quando quase ninguém falava, um guia que orientou uma geração de fotógrafos em Brasília e pelo Brasil agora. Participou e fortaleceu a luta pelos direitos autorais dos fotógrafos e pela criação da União dos Fotógrafos de Brasília. Seu exemplo e sua obra ficarão para sempre. Que descanse em paz, luz eterna”.

Ator e diretor de teatro Alexandre Ribondi:

“Eu sempre pensei no Luis Humberto como Luz Humberto. Assim mesmo: uma luz elegante na cidade”.

Fotógrafo André Dusek:

“LUIS com "s" agora é LUZ com "z". Estive com Luis Humberto em outubro passado na 305 Sul para entregar meu livro OURO BRUTO retribuindo o seu livro A REFORMA DO OLHAR POSSÍVEL que ele me deu no ano anterior Devido ao isolamento social entreguei o livro pro porteiro e conversamos pela janela do apartamento. Em 2019 almocei com ele e a sua mulher Márcia. Conversamos muito, aliás eu ouvi mais do que falei diante do mestre que gostava muito de falar. Ele desde o começo da minha carreira carinhosamente me chamava de "o maior fotógrafo de Brasília" devido minha altura de 1.94m. Fotojornalistas ficamos órfãos. LH influenciou várias gerações com seu jeito diferente e ousado de fotografar o poder na época da ditadura. Ele sempre foi meu ídolo. Vai fazer muita falta”.
_______________
Leia aqui matéria relacionada à exposição de Luiz Humberto realizada em novembro de 2018.
Lei aqui artigo de Rubens Fernandes Júnior publicado no site da Revista de Fotografia Zum
E aqui, homenagem do site O Observador

Criado em 2021-02-12 17:45:20

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