Total: 1890 results found.
Página 30 de 95
De hoje (28/6) até o dia 17 de julho o Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR) vai selecionar 12 jovens da Pavuna para participar do projeto Percursos Formativos, que passa por todas as áreas que estruturam o museu.
O programa é desenvolvido pela Escola do Olhar, polo educacional do museu, que pretende formar e promover jovens da rede pública de ensino e de regiões periféricas do município do Rio de Janeiro na produção da arte e da cultura. Este é o segundo curso promovido este ano, o primeiro, Cor-po-nós, aconteceu de 28 de janeiro a 1º de fevereiro.
Os jovens selecionados vão percorrer as áreas que estruturam o museu e suas competências, como: curadoria, museologia, educação, comunicação, produção cultural e administração, valorizando a formação e a prática.
O programa de formação também permite que os inscritos entrem em contato e diálogo com artistas atuais que trabalham com diversas linguagens, como a pintura, a colagem, o slam, além de outros espaços de arte e cultura.
O projeto será destinado a 12 jovens com idade de 16 a 21 anos, moradores do bairro da Pavuna, localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro, que sejam atualmente estudantes de escolas e institutos das redes públicas de ensino municipal, estadual e/ou federal do Rio de Janeiro, matriculados nos turnos da manhã ou da noite; ou ainda jovens com idade de 16 a 21 anos que já tenham concluído o ensino médio nos últimos dois anos em escolas das redes públicas de ensino municipal, estadual e federal do Rio de Janeiro. Será necessária a apresentação de histórico escolar oficial no momento do cadastro do participante selecionado.
O processo de formação cultural e prática profissional é composto por nove percursos formativos, no sentido literal de percorrer as diversas áreas e processos de um museu.
Integrados por aulas, oficinas, palestras, visitas, mão-na-massa, e outras experiências; os percursos devem ser cursados integralmente pelos participantes ao longo da formação de 3 agosto a 30 de novembro de 2022, com atividades presenciais e remotas às quartas, quintas e sextas-feiras, das 14h às 18h, salvo em dias de feriado, casos em que a reposição de aula será combinada, totalizando 174 horas de atividades presenciais, com indicação de atividades complementares, como a participação em eventos promovidos pela Escola do Olhar nos formatos remoto e presencial.
Os 12 selecionados receberão bolsas de estudo no valor de R$ 935 por mês, durante quatro meses.
Museu de Arte do Rio
Iniciativa da Prefeitura do Rio em parceria com a Fundação Roberto Marinho, o Museu de Arte do Rio passou a ser gerido pela Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI) desde janeiro deste ano, apoiando as programações expositivas e educativas do MAR a partir de um conjunto amplo de atividades para os próximos anos.
A OEI é um organismo internacional de cooperação que tem na cultura, na educação e na ciência os seus mandatos institucionais, desde sua fundação em 1949.
O Museu de Arte do Rio, para a OEI, representa um instrumento de fortalecimento do acesso à cultura, intimamente relacionado com o território, além de contribuir para a formação nas artes, tendo no Rio de Janeiro, por meio da sua história e suas expressões, a matéria-prima para o nosso trabalho”, comenta Raphael Callou, diretor e chefe da representação da OEI no Brasil.
Após o início das atividades em 2021, a OEI e o Instituto Odeon celebraram parceria com o intuito de fortalecer as ações desenvolvidas no museu, conjugando esforços e revigorando o impacto cultural e educativo do MAR, onde o Odeon passa a auxiliar na correalização da programação.
O Museu de Arte do Rio tem o Instituto Cultural Vale como mantenedor, a Equinor como patrocinadora master e o Grupo Renner como apoiador, todos por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
A Escola do Olhar conta com o patrocínio da Wilson Sons e Machado Meyer Advogados via Lei Federal de Incentivo à Cultura. Por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura – Lei do ISS, é também patrocinada pelo RIOgaleão e Icatu e tem a Cultura Inglesa como apoiadora Educacional. O Instituto Olga Kos patrocina os recursos de acessibilidade do MAR.
Por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, a BAT Brasil (ex-Souza Cruz) é patrocinadora do MAR de Música. O projeto conta com o apoio da Beck's.
O MAR conta ainda com o apoio do Governo do Estado do Rio de Janeiro e realização da Secretaria Especial de Cultura, Ministério do Turismo e do Governo Federal do Brasil, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
_____________________________
Serviço:
FORMULÁRIO DE INSCRIÇÃO:
https://docs.google.com/forms/d/1j4IVMnA_K0_KW1LUXtIgj5Ek7O6Xzpr1i61K1KDWce8/edit
EDITAL:
https://docs.google.com/document/d/1OWLvYoNBROwyTtIXAitxXaiatjh4ohz4/edit
Lançamento do edital online: 28 de junho de 2022
Inscrições online: 28 de junho a 17 de julho de 2022
Pré-Seleção dos candidatos a entrevista: 18 e 19 de julho
Resultado dos pré-selecionados para entrevistas: 20 de julho
Entrevista Virtual: 21 e 22 de julho
Resultado seleção final: 23 de julho
Aulas: 3 agosto a 30 de novembro de 2022
Criado em 2022-06-28 14:16:57
Frei Betto (*) –
Poucos ignoram minha solidariedade à Revolução Cubana. Há 40 anos visito com frequência a Ilha, em função de compromissos de trabalho e convites a eventos. Por longo período intermediei a retomada do diálogo entre bispos católicos e o governo de Cuba, conforme descrito em meus livros Fidel e a religião (Fontanar/Companhia das Letras) e Paraíso perdido – viagens ao mundo socialista (Rocco). Atualmente, contratado pela FAO, assessoro o governo cubano na implementação do Plano de Soberania Alimentar e Educação Nutricional.
Conheço em detalhes o cotidiano cubano, inclusive as dificuldades enfrentadas pela população, os questionamentos à Revolução, as críticas de intelectuais e artistas do país. Visitei cárceres, conversei com opositores da Revolução, convivi com sacerdotes e leigos cubanos avessos ao socialismo.
Quando dizem a mim, um brasileiro, que em Cuba não há democracia, desço da abstração das palavras à realidade. Quantas fotos ou notícias foram ou são vistos sobre cubanos na miséria, mendigos espalhados nas calçadas, crianças abandonadas nas ruas, famílias debaixo de viadutos? Algo semelhante à cracolândia, às milícias, às longas filas de enfermos aguardando anos para serem atendidos num hospital?
Advirto os amigos: se você é rico no Brasil e for viver em Cuba conhecerá o inferno. Ficará impossibilitado de trocar de carro todo ano, comprar roupas de grife, viajar com frequência para férias no exterior. E, sobretudo, não poderá explorar o trabalho alheio, manter seus empregados na ignorância, “orgulhar-se” da Maria, sua cozinheira há 20 anos, e a quem você nega acesso à casa própria, à escolaridade e ao plano de saúde.
Se você é classe média, prepare-se para conhecer o purgatório. Embora Cuba já não seja uma sociedade estatizada, a burocracia perdura, há que ter paciência nas filas dos mercados, muitos produtos disponíveis neste mês podem não ser encontrados no próximo devido às inconstâncias das importações.
Se você, porém, é assalariado, pobre, sem-teto ou sem-terra, prepare-se para conhecer o paraíso. A Revolução assegurará seus três direitos humanos fundamentais: alimentação, saúde e educação, além de moradia e trabalho. Pode ser que você tenha muito apetite por não comer o que gosta, mas jamais terá fome. Sua família terá escolaridade e assistência de saúde, incluindo cirurgias complexas, totalmente gratuitas, como dever do Estado e direito do cidadão.
Nada é mais prostituído do que a linguagem. A celebrada democracia nascida na Grécia tem seus méritos, mas é bom lembrar que, na época, Atenas tinha 20 mil habitantes que viviam do trabalho de 400 mil escravos... O que responderia um desses milhares de servos se indagado sobre as virtudes da democracia?
Não desejo ao futuro de Cuba o presente do Brasil, da Guatemala, de Honduras e ou mesmo de Porto Rico, colônia estadunidense, à qual é negada independência. Nem desejo que Cuba invada os EUA e ocupe uma área litorânea da Califórnia, como ocorre com Guantánamo, transformada em centro de torturas e cárcere ilegal de supostos terroristas.
Democracia, no meu conceito, significa o “Pai nosso” - a autoridade legitimada pela vontade popular -, e o “pão nosso” - a partilha dos frutos da natureza e do trabalho humano. A rotatividade eleitoral não faz, nem assegura uma democracia. O Brasil e a Índia, tidas como democracias, são exemplos gritantes de miséria, pobreza, exclusão, opressão e sofrimento.
Só quem conhece a realidade de Cuba anterior a 1959 sabe por que Fidel contou com tanto apoio popular para levar a Revolução à vitória. O país era conhecido pela alcunha de “prostíbulo do Caribe”. A máfia dominava os bancos e o turismo (há vários filmes sobre isso). O principal bairro de Havana, ainda hoje chamado de Vedado, tem esse nome porque, ali, os negros não podiam circular...
Os EUA nunca se conformaram por ter perdido Cuba sujeita às suas ambições. Por isso, logo após a vitória dos guerrilheiros de Sierra Maestra, tentaram invadir a Ilha com tropas mercenárias. Foram derrotados em abril de 1961. No ano seguinte, o presidente Kennedy decretou o bloqueio a Cuba, que perdura até hoje.
Cuba é uma ilha com poucos recursos. É obrigada a importar mais de 60% dos produtos essenciais ao país. Com o arrocho do bloqueio promovido por Trump (243 novas medidas e, até agora, não removidas por Biden), e a pandemia, que zerou uma das principais fontes de recursos do país, o turismo, a situação interna se agravou. Os cubanos tiveram que apertar os cintos. Então, os insatisfeitos com a Revolução, que gravitam na órbita do “sonho americano”, promoveram os protestos do domingo, 11 de julho – com a “solidária” ajuda da CIA, cujo chefe acaba de fazer um giro pelo Continente, preocupado com o resultado das eleições no Peru e no Chile.
Quem melhor pode explicar a atual conjuntura de Cuba é seu presidente, Diaz-Canel: “Começou a perseguição financeira, econômica, comercial e energética. Eles (a Casa Branca) querem que se provoque um surto social interno em Cuba para convocar “missões humanitárias” que se traduzem em invasões e interferências militares.”
“Temos sido honestos, temos sido transparentes, temos sido claros e, a cada momento, explicamos ao nosso povo as complexidades dos dias atuais. Lembro que há mais de um ano e meio, quando começou o segundo semestre de 2019, tivemos que explicar que estávamos em situação difícil. Os EUA começaram a intensificar uma série de medidas restritivas, endurecimento do bloqueio, perseguições financeiras contra o setor energético, com o objetivo de sufocar nossa economia. Isso provocaria a desejada eclosão social massiva, para poder apelar à intervenção “humanitária”, que terminaria em intervenções militares”.
“Essa situação continuou, depois vieram as 243 medidas (de Trump, para arrochar o bloqueio) que todos conhecemos e, finalmente, decidiu-se incluir Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo. Todas essas restrições levaram o país a cortar imediatamente várias fontes de receita em divisas, como o turismo, as viagens de cubano-americanos ao nosso país e as remessas de dinheiro. Formou-se um plano para desacreditar as brigadas médicas cubanas e as colaborações solidárias de Cuba, que recebeu uma parte importante de divisas por essa colaboração.”
“Toda essa situação gerou uma situação de escassez no país, principalmente de alimentos, medicamentos, matérias-primas e insumos para podermos desenvolver nossos processos econômicos e produtivos que, ao mesmo tempo, contribuam para as exportações. Dois elementos importantes são eliminados: a capacidade de exportar e a capacidade de investir recursos.”
“Também temos limitações de combustíveis e peças sobressalentes, e tudo isso tem causado um nível de insatisfação, somado a problemas acumulados que temos sido capazes de resolver e que vieram do Período Especial (1990-1995, quando desabou a União Soviética, com grave reflexo na economia cubana). Juntamente com uma feroz campanha mediática de descrédito, como parte da guerra não convencional, que tenta fraturar a unidade entre o partido, o Estado e o povo; e pretende qualificar o governo como insuficiente e incapaz de proporcionar bem-estar ao povo cubano.”
“O exemplo da Revolução Cubana incomodou muito os EUA durante 60 anos. Eles aplicaram um bloqueio injusto, criminoso e cruel, agora intensificado na pandemia. Bloqueio e ações restritivas que nunca realizaram contra nenhum outro país, nem contra aqueles que consideram seus principais inimigos. Portanto, tem sido uma política perversa contra uma pequena ilha que apenas aspira a defender sua independência, sua soberania e construir a sua sociedade com autodeterminação, segundo princípios que mais de 86% da população têm apoiado.”
“Em meio a essas condições, surge a pandemia, uma pandemia que afetou não apenas Cuba, mas o mundo inteiro, inclusive os Estados Unidos. Afetou países ricos, e é preciso dizer que diante dessa pandemia nem os Estados Unidos, nem esses países ricos tiveram toda a capacidade de enfrentar seus efeitos. Os pobres foram prejudicados, porque não existem políticas públicas dirigidas ao povo, e há indicadores em relação ao enfrentamento da pandemia com resultados piores que os de Cuba em muitos casos. As taxas de infecção e mortalidade por milhão de habitantes são notavelmente mais altas nos EUA que em Cuba (os EUA registraram 1.724 mortes por milhão, enquanto Cuba está em 47 mortes por milhão). Enquanto os EUA se entrincheiravam no nacionalismo vacinal, a Brigada Henry Reeve, de médicos cubanos, continuou seu trabalho entre os povos mais pobres do mundo (por isso, é claro, merece o Prêmio Nobel da Paz).”
“Sem a possibilidade de invadir Cuba com êxito, os EUA persistem com um bloqueio rígido. Após a queda da URSS, que proporcionou à ilha meios de contornar o bloqueio, os EUA tentaram aumentar seu controle sobre o país caribenho. De 1992 em diante, a Assembleia Geral da ONU votou esmagadoramente pelo fim desse bloqueio. O governo cubano informou que entre abril de 2019 e março de 2020 Cuba perdeu 5 bilhões de dólares em comércio potencial devido ao bloqueio; nas últimas quase seis décadas, perdeu o equivalente a 144 bilhões de dólares. Agora, o governo estadunidense aprofundou as sanções contra as companhias de navegação que trazem petróleo para a ilha.”
É essa fragilidade que abre um flanco para as manifestações de descontentamento, sem que o governo tenha colocado tanques e tropas nas ruas. A resiliência do povo cubano, nutrida por exemplos como Martí, Che Guevara e Fidel, tem se demonstrado invencível. E a ela devemos, todos nós, que lutamos por um mundo mais justo, prestar solidariedade.
__________________
(*) Frei Betto é escritor (freibetto.org). É autor de 69 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org Ali os encontrará a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio.
http://www.freibetto.org/> twitter:@freibetto
Criado em 2021-07-13 20:46:54
Taissa Zin canta o Samba que elas querem - Mulheres Versão.
Criado em 2018-06-01 22:14:15
Alexandre Ribondi -
Hoje, sexta-feira, 2 de setembro de 2016, é o quarto dia de manifestações contra o impedimento de ex-presidente Dilma Rousseff na cidade de São Paulo. Na quarta-feira, 31 de agosto, a estudante paulista Deborah Gonçalves perdeu a visão do olho esquerdo após agressão policial. Em visita à China para participar do G20, grupo dos 20 países mais ricos do mundo, o recém-empossado presidente, Michel Temer, avisou que os tempos de turbulência acabaram.
A declaração do ex-vice-presidente serve para confirmar que a sua chegada ao poder e o futuro do seu mandato são e serão a mesma coisa: um pacote pesado de inverdades, manipulações e desprezo pela insatisfação popular. E mão pesada para fingir que não há mais turbulência no Brasil. Tanto que Michel Temer já avisou que não aceita ser chamado de golpista e que também não vai levar desaforo pra casa. A frase parece mais coisa de moleque arruaceiro do que de chefe de Estado, mas serve muito bem para anunciar os tempos que virão.
A presença de Temer na China. e a agenda marcada por encontros com chefes de outros países, já bastaram para que os assessores do Palácio do Planalto vissem a movimentação como aceitação definitiva do novo governo que, por sinal, foi analisado pelo jornal francês Le Monde como "comandado por um Maquiavel". A assessoria também tem afirmado, na primeira viagem internacional de Michel Temer, que o novo governo veio para consertar o País. Mas consertar exatamente o quê? Muitos dos detratores de Dilma Rousseff celebram o fim dos 13 anos de petisco e anunciam que a divisão criada pelo Partido dos Trabalhadores acabou e que o Brasil volta a ser um só.
Qualquer brasileiro mais ou menos instruído ou com conhecimento médio da história brasileira sabe que isso uma declaração dessa só pode ser fruto de mentira ou de medo da perda de privilégios mantidos por cinco séculos. O Brasil de Temer é dividido entre ricos e pobres, entre riquíssimos e paupérrimos, entre brancos e negros, entre homens e mulheres, entre herdeiros da colonização e índios e entre homossexuais e heterossexuais. Temer e seus iguais representam, desde o começo dos tempos brasileiros, os homens brancos e ricos, que veem os indígenas como empecilhos aos seus latifúndios e que, se procuram homossexuais na calada da noite, arrotam homofobia à luz do dia.
O governo destituído na semana passada percorreu caminho inverso. Com erros e acertos, Dilma tratou de redesenhar o mapa brasileiro. Criou programas que ofenderam a direita e a elite brasileiras, como o Bolsa Família, que não só garante escolaridade e saída da fome como dá poder à mulher pobre. Isso porque, junto com outro programa, Minha Casa, Minha Vida, o titular preferencial dos benefícios é a mulher, comprovado por 93% de participantes do sexo feminino. Além disso, não se pode esconder o fato de que temos programas como Mais Médicos, cotas para negros no terceiro grau, o ProUni, o Luz Para Todos, o Brasil Sorridente etc.
Então, os 13 anos do PT no comando dividiram qual país? O país deles, seguramente, que é uma nação de grande território e pouquíssimos habitantes, todos privilegiados. Quando Temer avisou, no seu primeiro discurso, que vai garantir a volta dos empregos para os 11 milhões de desempregados, ele foi afoito em seu desejo de mentir. É impossível que um governo como o dele, comprometido até o fundo da alma com o lucro capitalista no estilo terceiro-mundista consiga produzir riqueza que se espalhe.
A riqueza é deles, como sempre tem sido. De forma que devemos estar preparados para um governo com a manha masculina de mentir. O povo é a amante barata e pobre a quem tudo se promete e nada se cumpre. Os interesses internacionais são a esposa severa e autoritária, que exige a manutenção da fortuna e das aparências. Aliás, aparência é algo tão importante em governos montados em mentira que poderia ser sugerido ao Le Monde que não definisse Michel Temer como Maquiavel. Melhor seria dizer que esse homem embevecido com o poder que chega aos 75 anos é, por sua capacidade de mudar de cara, um presidente maquiável.
Criado em 2016-09-02 16:32:16
Maria Lúcia Verdi -
Visitei a mostra de Ralph Gehre, na galeria Referência, na semana passada. Fiquei calada frente ao “Jogo Simples”, mas impactada com a (nada simples) capacidade de síntese do autor, com a limpeza visual, com geometrias que brincam com as cores e as dobraduras provocando nosso olhar a procurar, a se jogar nas telas (foto).

Hoje volto à mesma galeria e encontro pinturas de Pedro Gandra (foto abaixo) e fotografias de Márcio Borsoi. O amor às cores que Ralph expõe explode no trabalho de Pedro. Um, a partir de um olhar arquitetônico, geométrico; outro, a partir de um mergulho delicado e onírico numa não–realidade, realidade que, no entanto, nos frequenta desde os contos de fadas.

Borsoi (foto abaixo) fotografa o rio Amazonas “Um rio que não me (lhe) pertencia” e que passa a ser seu, num movimento de retorno provocado pelo amor. Frente a uma das fotos me lembrei do magnífico conto do Guimarães Rosa, “A terceira margem do rio”. Que rio nos pertence, ou a que rio pertencemos? O dos sonhos, o da realidade? Ao dos devaneios, ao da vigília? De algum modo todos tratam dessa questão, a partir de subjetividades e propostas muito diversas. Viva a diferença!

Certas imagens dialogam, como encontrar um boto cor-de-rosa numa foto (esplendida) de Borsai e uma baleia vermelha num quadro do Pedro. Nos trabalhos dos dois há muita água - ela explode em azul na pintura de Gandra, como nas geleiras da Patagônia; nas fotografias de Borsoi ela se mostra cinza, melancólica como é a realidade do Norte do nosso país - e o fotógrafo nos mostra a beleza da melancolia. Há como uma ponte entre a foto de um galho submerso no rio e a pintura da menina vermelha submersa no azul, alçada por formas vermelhas, uma delas um barquinho, como os botes do rio de Márcio Borsoi.
Ralph abstrae, o azul pode ser do céu, da água, mas, sobretudo, é o azul do espaço concreto que ele decide pintar de azul – evocações sutis, recortes. Seu exercício metódico com as cores e as formas me recordaram os monges tibetanos construindo mandalas; frutos da mesma concentração, as pinturas de Ralph seriam mandalas de um século super invadido por imagens, que necessita respirar o vazio.
Minha formação não é em artes plásticas, me atrevo a falar por outro viés sobre o que as artes visuais me provocam. Esses três artistas trazem três mundos que estimulam, merecem ser vistos. Conhecemos a arte concreta brasileira, o construtivismo, mas o jogo de Ralph, apesar dos laços com essa tradição, é outro. Conhecemos (ou não) a realidade da Amazônia, mas o modo como Márcio Borsói a expõe em alguns momentos torna-a atemporal, universal. Conhecemos a fantasia, o romantismo alemão, o imaginário fantástico, mas o modo como Pedro Gandra o recria é apenas seu.
_________________
Serviço:
Exposição I: Imagens de um rio que não me pertence – Márcio Borsoi
Exposição II: Caminho para Lula – Pedro Gandra (Curadoria de Marília Panitz).
Local: Galeria Referência - CLN 202 Bl. B Loja 11 (subsolo), Brasília-DF
Em exibição até 30 de agosto.
Criado em 2019-07-28 20:33:56
Angélica Torres –
Sinopse da ópera: o último pedido de Evo Morales ao povo boliviano, antes de renunciar para evitar banho de sangue, foi de garantia de convivência pacífica com o fim à violência – "não podemos nos enfrentar entre nós, os irmãos bolivianos", justificou. No entanto, os golpistas continuam a perseguir e abater indígenas e lideranças populares: os ataques não cessaram mesmo com o presidente renunciado.
Meditando na moral da História: se Evo tivesse lido o "Bhagavad Gîta", talvez não entregasse o seu país e povo aos hermanos-patrícios desalmados. Krishna teria, como fez a Arjuna nesse poema épico da milenar mitologia hindu, incentivado a guerra aos familiares do clã a que ele pertencia – e o derramamento de sangue por consequência –, mas não por ser, ele, Krishna, uma divindade diabólica.
Arjuna era da casta dos guerreiros, que cumprisse, então, com o destino daquela sua encarnação. E que se dedicasse aos métodos pra se encaminhar à casta dos espiritualistas na nova encarnação, ou que aprendesse a técnica para sair da roda espiralada de existências terrenas e entrar na felicidade eterna do éter criador.
Mas Evo Morales é indígena e não indiano. Segue outra cosmogonia, outros rituais, outra fé. E claro que a guerra entre os clãs alegada no poema é uma metáfora da incessante luta existencial do ego com o Eu superior. Mesmo assim, o tal ensinamento é universal e vale também aplicado à matéria. À luz antológica de Krishna concluo, assim, que guerreiro o grande Evo não é.
Estaria o estadista indígena no topo das quatro linhas ascendentes de castas (servo, comerciante, guerreiro e espiritualista), mas deixando seu povo entregue à sanha dos ímpios da vez histórica – ao contrário dos venezuelanos, equatorianos, chilenos, cubanos? Seria ele mais hermano dos brasileiros atuais: pela paz a todo custo, sem lançar mão do esforço de combate?
É um jogo de xadrez o cenário de guerra que se apresenta à América Latina (como era também o campo de batalha do Gîta). Os países que se põem em favor de sua soberania resistem, mas até quando estarão se impondo à onda fascista que o cafona, caquético Donald Trump impulsiona, assessorado por Steve Bannon, no jogo do poder mundial narcisista e desvairado?
É guerra declarada por ele ao continente, invadindo inicialmente através da "rede fake", em que todos estamos enredados. Acenar e ordenar a volta do regime militar aqui na América do Sul e no Caribe? É preciso que alguém diga ao Trump: Caro, larga desse seu mau gosto. Deixa de ser besta e vira homem, se comporte, antes que a manhã já te seja muito tarde.
Precisam também dizer a ele que faça como Mallarmé: leia os "Upanishads", chegue até o "Bhagavad Gîta" e depois reinvente a roda da fortuna com nova linguagem e feição, como o poeta fez com o poema "Um lance de dados", e muito mais finesse, beleza e elegância do que a sua miséria espiritual permite.
Mais ainda, que seja expulso da cola da nossa América junto com os seus vassalos, os traidores lesa-pátria, comprados em cada um dos países perseguidos, que se prestam ao papel ainda mais vil de caçar, torturar e assassinar os seus mais desamparados patrícios.
Temos um grande líder de volta à ativa no pedaço e muito o que fazer por todo lado. São nossas, agora, a vez e a hora.
Criado em 2019-11-11 19:11:17
Romário Schettino –
Que político existe hoje no Brasil que seja capaz de falar por mais de duas horas e meia – entre discurso e entrevista coletiva à imprensa – e atrair tantas atenções? Lula é o único. Sua retórica, insuperável. Lula pautou a imprensa nacional e internacional. Falou como uma pessoa renovada, tranquila, impactante.
Não percamos tempo em comparar Lula com Bolsonaro, um beócio de carteirinha, incapaz de juntar duas frases sem dar um coice na língua e outro em seus interlocutores.
O STF foi obrigado a reconhecer que Lula estava certo desde o início, há cinco anos, quando dizia que a República de Curitiba não tinha competência para julgá-lo. Gilmar Mendes defendeu a suspeição de Sérgio Moro como juiz do processo do tríplex de Guarujá, e um dos motivos foi o fato de Moro ter agido politicamente para se beneficiar com o cargo de ministro da Justiça condenando Lula ao arrepio da lei e criminosamente.
Lula deu uma aula de estadista, experiente e capaz de transformar os direitos do povo em esperança. Não se esqueceu de nada. A começar pelo lançamento de uma campanha em favor da vacina contra o coronavírus. Até cobrou a ausência do Zé Gotinha, que Bolsonaro demitiu como se fosse coisa do PT, quando o personagem, suprapartidário, veio lá do governo Sarney. Lula chamou Bolsonaro de imbecil por não saber como combater a pandemia do coronavírus
Lula falou de economia, defendeu o patrimônio nacional e criticou a fome de privatização de Paulo Guedes, que chamou de entreguista a serviço dos interesses dos Estados Unidos.
Mas o mais importante foram os sinais políticos para 2022. Embora não tenha dito claramente que é candidato, o ex-presidente deu a entender que está aberto a todas as possibilidades, inclusive a de ser candidato da centro-esquerda. De qualquer maneira, candidato ou não, a definição passará por ele.
Por isso, Ciro Gomes perde tempo atacando Lula quando diz: “Posso até acreditar na inocência do Lula, mas duvido de sua honestidade”. Ao ser perguntado sobre o que achava da declaração de Ciro, Lula disse: “Ciro até hoje não aprendeu a respeitar as pessoas. Se continuar assim, quando chegar aos 70 anos, não terá mais como se corrigir”.
O chamado Centro ainda não se manifestou sobre a liberação dos direitos políticos de Lula. Todos esperam novos sinais, mas nada irá adiante sem um encontro prévio do campo progressista (PT, PCdoB, PSOL, PSB, REDE e PDT).
Para derrotar Bolsonaro hoje, dono do cofre, é preciso contar com alguns setores do MDB, PSDB, DEM e outros partidos menores. E a capacidade de costurar essa colcha de retalhos é do Lula.
Criado em 2021-03-11 00:12:31
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
O Dêividy, filho do seu Jessé e da dona Mariana, se trancou no quarto e a mãe teve que arrancá-lo de lá pro almoço. Goiano é mesmo criativo na hora de escolher nomes pra renca – Dêividy!
– Ô, moleque, você está fazendo outro estilingue? Eu já não disse pra você parar de caçar passarinho? Isso é coisa das antigas, da época ca gente era ignorante e não tinha preocupação com o bem-viver do planeta.
– Não vou caçar passarinho, não, mãe!
– Uai, pra que então?
– Campeonato... Quem sabe daqui a uns dez anos o Comitê Olímpico não inclui a gente nos Jogos!
– Hum, sei não!
O pirralho comeu, voltou pro quarto, e continuou a caprichar na fatura da arma. Saiu pouco antes da janta, todo serelepe.
Mais tarde a mãe iria checar o estilingue, uma peça elegante, feita com elástico de garrote e forquilha de pau de jabuticabeira, conforme as instruções do tio Licurgo. Notou que o filho tinha também um saco de seixos de beira de rio, redondinhos. Era ainda o tempo de ajuntar pedras. Mal sabia ela que no dia seguinte, 7 de Setembro, o filho tinha um encontro marcado com um garoto duas vezes mais alto e forte que ele, fedelho de maus bofes, que o havia desafiado para um duelo ao pôr do sol.
Criado em 2021-08-30 11:50:36
Luiz Martins da Silva –
O país, ficamos sabendo, tem uma outra presidenta, a jovem Adeyula Dias Barbosa Rodrigues, de Vila Velha (ES). Ela é estudante universitária em Gestão de Recursos Humanos. Trabalhava como cuidadora, mas está desempregada. Tem dois filhos e se mantém com ajuda da mãe e do companheiro, pequeno assalariado. A moça tentou obter o Auxílio Emergencial para enfrentar a pandemia, mas ao buscar explicação para a negativa encontrou para si o registro de uma outra profissão, mas também o demonstrativo de que é muito fácil chegar lá.
Um erro ou um meme, até agora de autoria obscura, a colocou na chefia do Estado brasileiro. E pensar que tanta gente tem-se engajado na hashtag #forabolsonaro sem desconfiar que a façanha está ao alcance de poucas teclas. E, mesmo por vias de um fake, os recursos digitais servem também para que se constatem algumas pertinências. Bem que o Brasil precisa de uma pessoa de elevada competência na gestão dos recursos humanos e, neste momento, muito mais, de uma pessoa CUIDADORA dos maiores recursos do Brasil que são os humanos, os brasileiros.
O capital, essa abstração metafísica e sem pátria, cuida-se muito bem e dentro de sua própria estrutura, mercantil e global. E neste momento em que temos um presidente pateticamente preocupado em salvar a economia (atrelada às oscilações externas), bem que o Brasil precisa de uma pessoa que melhor cuide, aqui, de vidas, pois, como já foi lema numa outra época, sem hashtags, "O melhor do Brasil são os brasileiros".
Tivéssemos governantes mais atentos ao Brasil e à sua imensa população, estaríamos, hoje, com uma economia menos dependente de exportações e mais confiante no seu mercado interno. Os nossos produtores não teriam de ficar fazendo escolhas, como quem cata feijão, entre o melhor e o pior; o melhor, claro, para exportação; o xoxo, para os brasileiros. Não haveria tanto desespero em acelerar as importações de respiradores da China e teríamos, além de respiradores nacionais, um sistema de saúde aberto e suficiente para todos os cidadãos. Não teríamos um SUS sabotado e sucateado, haja vista faltar luz na UTI de um hospital do Rio de Janeiro, provocando a morte de infectados pelo Covid-19.
Oh, Adeyula! Por favor, você que é uma criatura tão boa, tão pura, tão brasileira, entre na política, faça alguma coisa por nós, venha nos salvar. Nem precisa, de cara, já aparecer na sua carteira profissional "Presidente da República". Precisamos de uma pessoa que saiba o que é ser povo e, quem sabe, a que se destinam as letras da Constituição e da democracia, instituições do povo e para o povo e que, se levadas em conta, concretizariam as singelas aspirações populares: saúde, educação, emprego, renda, segurança e respeito.
Receba, Adeyula, nossos votos, nossas felicitações, como brasileira, mãe e cidadã. E também os votos para que sendo oficialmente uma presidenta da República não esteja impedida de receber tão oportuno auxílio emergencial.
Criado em 2020-05-09 14:08:27
Guilherme Cadaval (*) –
Foi em 2015, se não me falha a memória, a primeira vez que tive contato com um livro de Preciado. Tratava-se do Manifesto Contrassexual, a cuja leitura nos entregamos por um semestre durante um curso de pós-graduação. O fascínio foi imediato. Nunca havia lido nada daquele tipo, ao menos certamente não no contexto de uma faculdade de filosofia. Não sei, de fato, se se pode classificar tranquilamente o Manifesto como um livro “de filosofia”. Se ele ali participa de alguma maneira, é sob a forma de uma dissidência radical.
O Manifesto foi primeiro lançado no ano 2000, quando sua autora ainda respondia pelo nome de Beatriz. De lá para cá, Preciado viveu e vive uma travessia. Não à toa o livro que hoje trago chama-se Um apartamento em Urano: crônicas da travessia, publicado em 2020 pela Editora Zahar. Seu autor: Paul B. Preciado. Mas é preciso se desfazer do fetiche acumulado nos pontos de partida e de chegada, e atentar para a travessia. Como diz Preciado: “Não sou um homem. Não sou uma mulher. Não sou heterossexual. Não sou homossexual. Tampouco sou bissexual. Sou um dissidente do sistema sexo-gênero. Sou a multiplicidade do cosmos encerrada num regime político e epistemológico binário gritando diante de vocês”.
O livro reúne uma série de crônicas escritas por ele entre 2010 e 2018, para o jornal francês Libération e outras mídias europeias. E pode-se dizer que as travessias são muitas. Não apenas a passagem do “feminino” ao “masculino” – entre todas as aspas possíveis – mas também a constante mudança de localidade geográfica. Preciado afirma que os textos foram escritos sobretudo “em aeroportos e quartos de hotel”, enquanto se deslocava entre os mais diversos pontos do globo: “A viagem traduz o processo de mutação, como se a deriva exterior tentasse relatar o nomadismo interior. Nunca acordo duas vezes na mesma cama... nem no mesmo corpo”
A “deriva exterior”, assim como o “nomadismo interior”, colocam em evidência uma certa porosidade de toda fronteira. No limiar de um “regime político e epistemológico binário”, não há verdadeiramente identidade, não há mesmo, frequentemente – como Preciado constata algumas vezes nas suas lidas com as autoridades: “Meu corpo trans não existe nos protocolos administrativos que garantem o estatuto da cidadania” – existência, em sentido jurídico. Afinal, como classificar, em que lugar encaixar um corpo que se assume um dissidente do sistema sexo-gênero? Que passaporte conceder a este corpo em constante travessia? E mais: quem poderá concedê-lo, quem jamais poderia arrogar para si uma tal autoridade?
Preciado nos convida, de uma forma infinitamente múltipla da qual será aqui impossível dar conta, a uma experimentação corporal que escape, por um lado, aos limites do “eu ocidental e de sua absurda pretensão de autonomia individual”, por outro, de qualquer naturalização, substancialização ou essencialização deste corpo. O corpo nunca é natural, pelo contrário, é um efeito do regime político-epistemológico sob o qual se movimenta, a partir do qual se identifica desta ou daquela maneira, segundo as normas impostas desde a infância. Experimentar com o corpo significa, pois, abrir um espaço de dissidência, traçar uma linha de fuga que abale as estruturas mesmas desse regime, e o faça aparecer em sua ficcionalidade arbitrária, em sua violência brutal.
Num dos textos mais bonitos de Um apartamento em Urano, Preciado nos conta a história de Alan, menino trans de dezessete anos que foi um dos primeiros a obter o direito de mudar de nome no documento nacional de identidade do Estado espanhol, e que tirou a própria vida após anos de assédio e intimidação sofridos nos centros escolares em que estava matriculado. Mas “como é possível que a escola não tenha sido capaz de proteger Alan da violência? A resposta é simples: a escola é o primeiro espaço de aprendizado da violência de gênero e sexual”. A inexistência a qual é submetido o corpo trans não é apenas teórica, de ordem ontológica: ela é, primeira e principalmente, material. Sua existência inexistente é recebida com insultos, violência, os quais, em última instância, tem como objetivo acarretar a morte deste corpo dissidente. Mas: quem defende a criança queer?
Atravessemos uma fronteira, imaginemos uma “instituição educativa mais atenta à singularidade de cada estudante que à preservação da norma. Uma escola microrrevolucionária, onde seja possível potencializar uma multiplicidade de processos de subjetivação singular. Quero imaginar uma escola onde Alan poderia continuar vivo”.

_________________
(*) Guilherme Cadaval é formado em Filosofia pela UFRJ, onde concluiu mestrado e doutorado. É autor de Escrever a mágoa: um cruzamento entre Nietzsche e Derrida.
Leia mais sobre Paul B. Preciado aqui
Criado em 2021-04-23 05:03:31
Nos últimos dois anos, mais de dois mil bares e restaurantes fecharam as portas. É o maior desemprego do setor. Garçons, cozinheiros, os próprios músicos que não têm mais onde tocar e a cidade ficando totalmente fora da cena cultural.
Essa é a avaliação do deputado distrital Ricardo Vale (PT), autor do projeto de lei 445/2015, que altera a Lei do Silêncio no Distrito Federal.
Segundo Vale, "os empresários ficam com medo de botar música nos bares" por causa da fiscalização do Ibram e da Agefis. "O resultado é a queda na arrecadação, que deixa de ser feita pelo Estado", arremata o distrital.
Para sair desse impasse é que a discussão, que já dura dois anos, está chegando a uma solução.
O projeto que altera a Lei do Silêncio pode ser aprovado em um mês, se depender dos parlamentares. O substitutivo apresentado pelo deputado Ricardo Vale tenta o consenso, mas a polêmica continua em um ponto fundamental: os limites de decibéis.
Vale propôs 75 decibéis, no máximo, durante o dia para ser tolerado pelos moradores. À noite, cinco decibéis a menos. A música deverá parar à meia noite em ambientes que não contam com isolamento acústico. Além disso, o substitutivo prevê multas de acordo com o tamanho dos empreendimentos e não iguais a todos os tipos de comércio, como ocorre atualmente.
Eis o principais pontos do PL 445/2015 que alteram a atual Lei do Silêncio:
Alteração dos limites
Diurno 75 db - compreendido entre as 7 horas e as 22 horas ou, nos domingos e feriados, entre as 8 horas e as 22 horas;
Noturno 70 db - compreendido entre as 22 horas e as 7 horas do dia seguinte ou, nos domingos e feriados, entre as 22 horas e as 8 horas. (art. 3º, VIII e IX, art.4º)
Tratamento acústico
Os estabelecimentos com finalidade econômica deverão tratar acusticamente os ambientes para funcionarem com música, eletrônicas ou ao vivo, a partir da meia noite. (art. 4º, §2º)
Medições de Ruído
As medições dos ruídos deverão ser alternativamente e exclusivamente na área residencial:
1 – do reclamante
2 – Mais próximas da fonte emissora
3 – Se não houver identificação da reclamação, na área residencial mais próxima da fonte emissora.(art. 5º)
Informação aos frequentadores
Deverá haver informação aos usuários quanto aos volumes praticados no interior dos estabelecimentos, garantindo a escolha da permanência ou não dos usuários no recinto. (art. 5º, §3º)
Carnaval
Até 95 db fora de área residencial e 85 db nas áreas residência, durante 8 horas por dia, até uma hora da manhã, nas festas de pré-carnaval e carnaval. (art. 9º, III)
Cultos Religiosos
Até 95 db fora de área residencial e 85 db nas áreas residenciais, por até duas horas por dia, entre 10 horas da manhã e 22 horas. (art. 9º, V)
Boas práticas
O poder executivo deve promover medidas de incentivos para o tratamento acústico nos estabelecimentos, instalações ou espaços, que exerçam atividades potencialmente poluidoras. (art. 10º, §1º)
Haverá por parte do ente público responsável pela fiscalização a adoção de certificação para os estabelecimentos que adotarem boas práticas para o conforto acústico de seus clientes, bem como para a comodidade dos cidadãos. (art. 11º)
Fiscalização
Será realizada pelo Ibram, mas no momento da fiscalização o fiscal deverá se identificar perante o responsável pelo estabelecimento e demonstrar a correção da calibragem do seu equipamento. (art. 12º, parágrafo único)
Sansões
Aos infratores primários, será aplicado apenas sansão de advertência escrita. Aos demais casos, as outras sanções serão precedidas de tentativa de acordo nas Câmaras Regionais de Conciliação e Mediação de Convivência Urbana. (art. 13º, §1º e §5º)
O ente público responsável pela fiscalização deverá manter em sua página na internet, lista com todos os estabelecimentos, obras ou atividades que tenham sido autuados, bem como aqueles que estivem com as emissões sonoras suspensas temporariamente. (art. 13º, §6º)
Câmaras Regionais de Conciliação e Mediação de Convivência Urbana
As Câmaras são instâncias colegiadas destinadas à promoção do diálogo e do entendimento entre moradores e empreendedores culturais, nas cidades do Distrito Federal, para a conciliação e mediação de conflitos. A composição das Câmaras será decidida em regulamento. (art. 18º, §2º)
As câmaras poderão majorar os limites desta proposta de lei através de acordo de conforto acústico, para tanto será necessária aprovação de pelo menos 80% comunidade vizinha diretamente impactada. (art. 20º, §2º)
Para rescisão do acordo é necessário o descumprimento dele, ou que seja demandada formal e justificadamente por mais da metade da população vizinha diretamente impactada. (art. 20º, §4º e §5º)
Comunidade vizinha diretamente impactada
Proprietários ou locatários de imóveis habitacionais e comerciais próximos ao estabelecimento emissor de sons e ruídos, conforme distancia estabelecida em regulamento. (art. 3º, XII)
Disposições Finais e Transitórias
Criação Pelo Poder Executivo, de Comitê de Acompanhamento desta Lei, que deverá construir um sistema com informações diversas, sobre as reclamações e sanções previstas, propor ações de formação técnica para a atuação dos agentes governamentais e do setor privado e propor soluções para simplificar a obtenção de alvarás licenças relacionadas às posturas urbanas no DF. (art. 21º)
Os padrões adotados nesta Lei podem ser revistos a cada dois anos, a fim de incorporar novos conhecimentos nacionais e internacionais, quando necessário. (art. 22º)
Os estabelecimentos que tiverem pressão sonora acima de 85db em ambiente interno deverão disponibilizar placas alertando aos usuários dos riscos à saúde por conta da permanência naquele espaço. (art. 24º)
Revisão das multas pendentes na entrada em vigor desta lei, possibilitando inclusive o arquivamento, daquelas em que os fatos que geraram a sanção não sejam enquadrados com infração nesta proposta. (art. 25º)
Criado em 2017-05-17 14:37:04
Lançamento nesta quarta-feira, 29/6, a partir das 19h, no Bar Beirute da 109 Sul. PoemAção é o terceiro livro da autora e reúne três originais escritos durante a pandemia – Poemas do Confinamento e Poemas Militantes, além do PoemAção propriamente dito.
Ao final desta matéria, leia o prefácio de Luciana Barreto, poeta e professora de literatura.
Embora formada socióloga, antropóloga e mestre em Comunicação Social pela UnB, Maria Maia trilhou sua trajetória profissional na estrada das artes. Além de poeta, tornou-se cineasta, fotógrafa e artista plástica de vasta produção. Como diretora e roteirista, realizou em duas décadas 64 documentários para a TV Senado, em Brasília, onde vive desde a adolescência.
Maria Lucia Verdi, também poeta e mestre em Literatura, enfatiza que em PoemAção, Maria pratica sua arte “como exercício de sobrevivência ante os impasses do cotidiano”.
Maria Maia publicou o livro Villa-Lobos pelo mundo afora toca a Alma Brasileira (Imagem no Ar Edições, 2019), além de Desejante e Quase Toda Poesia, ambos de poemas, lançados em 2018 também pela Imagem no Ar Edições.
Críticas retiradas do livro Quase toda poesia, destacam-se alguns fragmentos:
Ana Miranda, romancista: “Maria Maia nasceu no Acre, mas tem lembranças cearenses e o acento de sua fala é cearense. (...) Ela pinta em papel. Sua poesia é feita de pinceladas, talvez nem tanto, talvez apenas poeiras sopradas”.
João Lanari, cineasta, professor, escritor: “O projeto dessa poesia é despedaçar o campo do sujeito: tarefa dionisíaca, sem dúvida”.
Francisco Alvim, poeta e diplomata: “Maria Maia existe? / Que dúvida mais insólita / Pois você não a vê ali? É que quando você lê / os poemas dela ou ouve / quando ela os diz / sobretudo aqueles em que / ela excede a si / (quando desnasce e nasce) / é a poesia que está dizendo/ eu é que existo nela / eu é que estou ali”.
____________________
Serviço:
POEMAÇÃO
Livro de poesias, com fotos e ilustrações, de Maria Maia. 365 págs, R$ 50
Lançamento: 29/06, 4ª-feira, no Bar Beirute da CLS 109 Sul, a partir das 19h.
_____________________
A seguir, prefácio de Luciana Barreto (*):
A poesia como perseguição do Real, o poema como um círculo riscado à roda de sóis-sustos-luas – delicada e gravemente estendidos, retidos e colhidos a cada instante –, a palavra como gesto de atenção, sequência e rigor. Pois o entendimento de Sophia de Mello Breyner acerca da arte poética mais do que se ajusta, mas imanta e ilumina a voz da escritora, pintora, cineasta Maria Maia, a qual cotidianamente emerge como urgente, inevitável, vital. Tal como o Tai Chi Chuan que diuturnamente prática, PoemAção modula, em seu dorso, a contração-expansão do que nos é cíclico, o exercício de tensão-distensão ante o mundo que ora avulta violento, repulsivo, ora esplende terno, amoroso.
Estruturado em três grandes atos – PoemAção, Poemas do Confinamento e Poesia Militante –, como chamamento dos mais imperativos – “Preciso de um poema” –, ao longo de quase 350 páginas do seu terceiro livro-solo de poesia, Maria igualmente nos convoca a pactuar, com fôlego e coragem e por meio de “palavras vibrantes” que lhe escavam e “penetram adentro seus sentidos”, com o seu engajamento contundente face a um Real habitado tanto por crianças, flores e passarinhos quanto por mortos, náufragos e canalhas: “É preciso que gritemos”, incita. E complementa: “Falo e avanço/ (não me calo)” – afinal, “a poesia não espera” e “escorre pelas eras feito fera acuada/ escapando pelas portas e janelas”.
Mesmo admitindo em si a “louca da casa”, que “já nasceu cheia de asas”, a poeta não dissocia o dom da imaginação da ação resoluta: “Imagino as coisas e as ponho em ação”. Ivone Gebara, religiosa feminista e ativista admirável, adverte quanto às acepções dicionarizadas em torno do verbo “imaginar”, as quais arbitram como significado “conceber a imagem de algo que não é real, que não está presente no imediato, que ainda não existe”, sublinhando, porém, o seu poder em desvelar o que justamente brota da poesia, desocultando, assim, mais do que os fatos e as retinas instantaneamente dão a ver. Ao creditar somente ao imaginário “a ilusão de completude”, Maria reafirma o seu comprometimento lúcido com o Real.
Em seu corajoso PoemAção, através de suas lupas e lunetas e nas palavras que a “lavram” e a “abrasam”, cria e destrói mundos, (re)encenando, portanto, a imaginação como potência constitutiva de realidades possíveis, ao alcance de nossos destinos, ideologias e alteridades, mantendo-lhe os “nervos tesos” e riscando o céu feito raio: “Sem a poesia, q me atavia, me esvaio”.
Cabe apontar também como a cosmovisão oriental da poeta, ou seja, a filosofia chinesa da dualidade, ancora e inscreve o seu melancólico ser-estar no mundo: “Sou simplesmente feita de Terra e de Tao/ Na matéria etérea do universo sou vida gerada/ Bem sei q dentro de tudo o q há sou quase Nada […]”. E diante de sua letra por vezes irradiadora de sentidos, por outras, falha, estéril, ao evocar a galáxia heteronímica de Fernando Pessoa, bem como os pares opostos e complementares do Ying e do Yang – “A tristeza abissal de Pessoa/ Não escorre à toa /Sua toada por mil vozes habitada/ Nos coloca diante do Tudo e do Nada” –, a artista invoca o transcendente, tangendo “a existência devastadora do Absoluto”, como demarcava Baudelaire diante do espantoso Nada que a tudo sustém. Em seu halo metafísico, acrescenta a poeta: “A poesia põe o poeta frente ao Tudo e ao Nada/ Fogo, terra, água e ar sempre transmutados/ Assoprando a música das esferas”.
Inquietamente movida por indagações ontológicas, Maria lança ainda seus dardos acerca das insistentes e renováveis aporias: a que viemos? O que nos precede e nos ultrapassa? “Em flor/ recolho/ no poema/ a máquina do mundo/ Dante/ Camões/ Drummond a encontraram” – e junto à poeta e aos vates de outrora o mesmo desconcerto ante o enigma-esfinge que a tudo gira e regira, em incessante moto-contínuo por entre astros, esferas e existências. Atenta à realidade sensorial que lhe dilata os poros e a “pele fria”, mergulha, então, no mistério inefável e admite o inescapável ao alcance dos cinco sentidos: “A Máquina do Mundo já não me apraz/ Entrar na noite simplesmente me atrai mais”.
Em seu condão de doar sentido ao que observa e a circunda, desde a materialidade mais visível à miragem do Mistério do Amor e da Existência, Maria Maia confere à Poesia o papel de protagonista no leito da vida, veículo que transcorre como brado e como prece, por alternar, não paradoxalmente, impotência e exultação, clamor e realização, no arco Yin e Yang: “Tao: fêmea-obscura-primeva/ Gerou os opostos complementares/ Yin Yang em permanente mutação/ Dança da luz e das trevas/ Tecendo o universo/ Em todas as suas 10 mil manifestações”.
Em suas ampliadas passagens para a alteridade, a poeta reverencia nomes diversos da palavra, da dança, do teatro, da música, do cinema, da cena política, compondo a sua constelação particular de homenagens: Luís Inácio Lula da Silva, Hugo Rodas, Sousândrade, Mario Peixoto, Gilka Machado, Mário Faustino, Maria Bethânia, Chico Mendes, Chico Alvim, Bandeira, Hilda Hilst, Orides Fontela, Caetano Veloso, Augusto dos Anjos, Paulo Leminski, Ana Cristina César, Augusto e Haroldo de Campos, Ferreira Gullar, Reynaldo Jardim, Torquato Neto, Malu Verdi, Eudoro Augusto, Nuno Ramos, Celso Araújo, Bené Fontelles, João Cabral, Zuleika de Souza, Cecília Meireles, António Vieira, Gregório de Matos, Jorge de Lima, Luiz Carlos Barreto, mestre Woo, entre muitos e muitos outros, os quais generosamente amalgama em seus testemunhos poéticos como artífices de sua comovida formação como artista e cidadã.
Alberto Caeiro, o mestre zen-budista da plêiade pessoana, assim ensinou a seus pares: “a poesia nos ensina a ver como se víssemos pela primeira vez”. E o “pasmo essencial” ante a “eterna novidade do mundo” e “a aprendizagem de desaprender” reverberam no imaginário da autora de PoemAção, na nitidez do seu olhar-girassol: “Deus é como uma criança criando mundos/ Tirando de si mesmo o engenho mais profundo/ Uma criança imaginando, brincando, construindo/ Uma criança entretida com a vida/ Uma criança sorrindo” – o que reforça novamente a importância capital da imaginação, e como diz Valter Hugo Mãe: “apenas os que desistiram guardam o sonho para o tempo de dormir”. E como lembra Debora Diniz, “uma feminista não desiste, por isso sempre imagina”, assertiva que coaduna plenamente com o humanizador gesto poético-político de Maria Maia.
Entre deusas greco-romanas, indígenas sagradas, mães guerreiras, mênades, musas, magos e bacantes diversos – e em seu firme projeto de “uma poesia por dia pra sair da agonia” –, a poeta borda e desborda, a exemplo da amorosa Penélope, os seus tantos mantos: “Sou uma mulher rendeira/ Cheia de tramas verdadeiras/ Nos finos fios da poesia me atavio/ Tecendo e tramando certeira/ As histórias se sucedem no meu bilro/ E assim dia a dia sobrevivo”. E em seu projeto de seguir cotidianamente com a Palavra, a remissão a Paulo Freire se faz inevitável: “É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo.” Para a nossa poeta acreana, ainda o aconselhamento luminoso de ter de se “sustentar o espírito noite e dia/ e manter qnd possível a alegria”.
E sob o influxo propositivo do esperançar, com pés e mãos bem plantados, mas com seus tantos olhos de águas e céus, é de modo telúrico que Maria Maia se faz e se refaz “sob o sol ou sob a lua, fontes eternas de luz”, cujos “mente, espírito, carne e sangue” assinalam o Tao e devolvem ao infinito a que vêm os seus poemas-em-ação: “Toma a tocha da poesia e passa adiante”. Cumpra-se, pois.
_______________
(*) Luciana Barreto, poeta e professora de literatura.
Criado em 2022-06-28 00:39:58
Luiz Inácio Lula da Silva –
O que está acontecendo em Cuba de tão especial pra falarem tanto?! Houve uma passeata. Inclusive vi o presidente de Cuba na passeata, conversando com as pessoas. Cuba já sofre 60 anos de bloqueio econômico dos EUA, ainda mais com a pandemia, é desumano.
Já cansei de ver faixa contra Lula, contra Dilma, contra o Donald Trump... As pessoas se manifestam. Mas você não viu nenhum soldado em Cuba com o joelho em cima do pescoço de um negro, matando ele... Os problemas de Cuba serão resolvidos pelos cubanos.
Se Cuba não tivesse um bloqueio, poderia ser uma Holanda. Tem um povo intelectualmente preparado, altamente educado. Mas Cuba não conseguiu nem comprar respiradores por causa de um bloqueio desumano dos EUA.
Os americanos precisam parar com esse rancor. O bloqueio é uma forma de matar seres humanos que não estão em guerra. Do que os EUA tem medo? Eu sei o que é um país tentando interferir no outro.
O presidente Joe Biden deveria aproveitar esse momento para ir à televisão e anunciar que vai adotar a recomendação dos países na ONU de encerrar esse bloqueio.
Criado em 2021-07-13 20:38:01
Criado em 2018-04-16 13:27:09
Alexandre Ribondi -
O Presidente cujo nome não merece ser pronunciado deu uma entrevista recentemente a um jornal carioca, cujo nome também não precisa ser dito, em que afirma que "fala bem e que tem certa formalidade ao construir frases".
O jornalista do tal jornal até chegou a mencionar que ele, o presidente soltou, durante a entrevista, preciosidades como 'data venia' e 'não obstante'. Isso não é falar bem. É falar o que já não existe, é proferir defuntos, é querer ser aceito como culto pelos burros ao seu redor. Mas o tal presidente nem existe mesmo.
Ele, o inominável, falou da esposa, que vai ter gabinete no Palácio presidencial para comandar o programa Criança Feliz. Ela, com seu sorriso e sua beleza delicada, representa à la lettre (viram que fino? é francês…) a mulher de chefe de estado subdesenvolvido: faz programas de caridade, enquanto usa roupas caríssimas e perfumes endinheirados. Isso porque ela, assim como seu marido, não acredita em divisão de rendas.
É natural que uma mulher pode ser e se comportar como quiser: submissa, dona do própria nariz, selvagem, delicada como um botão de orquídea.
Pode até fingir ser recatada e do lar, o que acaba por ser mentira que todos sabemos porque não há mulher que, por mais de porcelana que aparente ser, não arda em lavas de vulcão no fundo do peito e das partes pudendas - o tal presidente, aliás, deve adorar essa expressão.
Mas mesmo com todo o direito de ser quem quiser ser, uma primeira-dama, nessas alturas do campeonato brasileiro, virar promotora de caridade é um retrocesso para o país diante de si mesmo e do mundo.
O homem do Palácio disse, ainda, que quando se senta à mesa com seus pares para deliberar sobre a Nação, sente-se como Carlos Magno e os Cavaleiros da Távola Redonda.
Esse erro crasso e ridículo pode ter acontecido por deslize, falta de atenção e, se foi parar na página do jornal, é porque o jornalista responsável pela matéria é profissional pífio, que nem faz ideia do que é a távola.
Nunca deve ter lido sobre o assunto e está a léguas de saber que távola é sinônimo de mesa, é the table dos ingleses, la table dos franceses.
Está tudo trocado. Os Cavaleiros da Távola Redonda são do rei Arthur que, segundo as várias lendas que vêm desde o século V, era o guerreiro defensor da Grã-Bretanha quando atacada por homens e inimigos sobrenaturais.
Já o Rei Carlos Magno, iniciador da dinastia carolíngia, existiu mesmo. No século IX, foi o primeiro imperador do Sacro Império Romano-Germânico, foi rei dos lombardos e rei dos francos. Mas nunca teve uma 'table ronde', nem cavaleiros à volta dela.
Mas por que o homem do Palácio confundiu os dois? Talvez por desprezo às lendas e mitos, já que ele deve ser homem com os pés no chão.
Ou talvez porque sua geração é francófila, e ele ainda deve se referir aos cabeleireiros como coiffeur e não como hairdresser.
Ou talvez, é interessante supor, ele receie ser visto indevidamente no cenário do grande amor nutrido pelo rei Artur pelo seu cavaleiro Lancelote (dizem que havia sexo, mas lenda é lenda).
E ninguém vá pensar que ele anda tendo taquicardias por causa de Renan, de Jucá ou outros dos seus comparsas.
Mas pode ser mesmo que ele tropeçou e quis se referir ao rei Arthur - porque, assim como ele, o golpista também servirá como base para lendas e mitos que contam a inacreditável história de quando o Brasil foi para o brejo de Avalon.
Definitivamente grave é o jornalista não ter consertado o tropeção presidencial - mas sabemos que ele nem presidente é, fala a língua pátria de maneira obsoleta e tem uma cultura rala.
O jornalista, por sua vez, é o que seus colegas de profissão se tornaram: arrivistas sociais, estrelinhas da mídia que se preocupam apenas com um lead fraco e inconsistente.
Mais importante que saber do que está falando é ter o cabelo bem penteado, a maquiagem bem feita e a roupa com corte perfeito.
Se o entrevistado tivesse dito que se sentia O Conde de Monte Cristo e os Cavaleiros da Távola Redonda, o revisor de texto que deveria existir no peito de cada jornalista não reagiria.
Isso é uma espécie de crise no jornalismo de hoje, que não só vendeu a alma em nome da fama e da glória, como o Fausto (eis outro nome que os jornalistas deveriam pesquisar).
Eles venderam cueca, calcinha e coração para se tornarem o que são hoje: bonitinhos e burros.
Criado em 2016-09-12 14:41:39
Maria Lúcia Verdi –
Brasília - Tudo o que vemos e lemos mostra-nos o horror sem limites. Por todos os lados a traição, a mentira, a violência - um quadro que não poderia ser mais desolador, mais absurdo. Mas hoje é Dia dos Namorados e resolvi contar uma história de amor, a história de Júlia dos Santos Baptista, nascida (oportuna) na Vila da Esperança, no Núcleo Bandeirante e protagonista de uma história que já foi alvo de matéria de trinta minutos na televisão holandesa, entrevistada pelo Jô Soares de lá.
É bom parar para escrever um conto de fadas tornado realidade graças à força de vontade da protagonista, também exemplo dos poderes de Eros, velho deus brincalhão, eterno menino que hoje comemoramos.
Júlia é filha de João da Costa Baptista, natural de Salvador, Bahia, candango que ajudou a construir a capital e de Maria Nazaré dos Santos, nascida em Boa Saúde, Rio Grande do Norte - vinte e cinco anos mais jovem do que o marido. Com a morte de mãe, aos doze anos a menina passou a cuidar do pai e dos quatro irmãos, todos vivendo com a modesta aposentadoria dele.
Aprendeu com a mãe a costurar, o que veio a lhe servir, pois ela mesma confeccionou o vestido de noiva com que se casou com um jovem advogado de família tradicional holandesa, usando o mesmo véu que as mulheres da família usam para se casar há cento e cinquenta anos. Me esclareceu: “Aqueles vestidos eram caretas demais!”.
Júlia e Allard van der Ven se conheceram em Natal, em 1994, quando os dois estavam em férias com um grupo de amigos. Ela trabalhava no Bradesco e ensinava matemática na Ceilândia durante o estágio do curso de Economia na UDF. Ao ver a musa morena caminhar na areia a flecha de Cupido foi direto no coração do branquela holandês. Conversas, aproximação, separação rápida após a flechada, cartas, telefonemas, vários acidentes de percurso - entre eles a dúvida de Allard quanto a se poderia bancar este amor frente à família e aos amigos – o desnível social era brutal, Júlia vinha do que eles chamariam de favela, ele pertencente à classe alta holandesa, empregado em uma grande multinacional.
Mas o amor venceu. Júlia foi para Amsterdam viu que daria conta daquela diferença toda e decidiram que, depois que ela terminasse o curso de economia, voltaria para a Holanda. Voltou, aprendeu holandês em um ano, tiveram dois filhos ao mesmo tempo em que ela se descobria pintora. Hoje, pintora (fotos abaixo) conhecida na Holanda e vencedora de concurso da ECT para os selos comemorativos dos 50 anos de Brasília, ela possui atelier em Amsterdam e em Águas Claras. Águas Claras é perto da Ceilândia onde cresceu e onde mora sua família. Lá a artista há quinze anos faz um trabalho social de grande interesse.


Há quinze anos, anualmente e por três meses, conversa com alunos das escolas públicas da cidade sobre a importância da expressão artística, do patrimônio histórico e, sobretudo, da necessidade de cada um aprender a perseguir seus sonhos e a resistir às limitações que a vida impõe. Mostra um vídeo sobre seu trabalho, conta sua história de vida e do nascimento das pinturas (seis viraram selos) da Coleção Brasília (exposta em 2014 na galeria do STJ) inspiradas pelo desejo de fazer seus filhos conhecerem e amarem a arquitetura de Niemeyer e a proposta urbanística de Lúcio Costa. As crianças a entrevistam e, pelas cartinhas que li, entusiasmam-se com aquela conterrânea bem sucedida.
No último fim-de-semana conheci Júlia, graças aos amigos comuns Geo e Sérgio Arruda, e fui ao seu ateliê. Fiquei cativada pela sua espontaneidade, seu compromisso com o social e a educação: “Uma de minhas principais motivações é contribuir para a educação fundamental dos meus conterrâneos mirins. Acompanho os estudos dos meus filhos e percebo o quanto me faltou na infância. Esses `gaps` (faltas) de conhecimento sinto até hoje.”
Angustiada frente à realidade brasileira de hoje, me explica que lê sobre o Brasil na mídia internacional, mas que continuava sem poder entender o que havia ocorrido, apesar das explicações de Eliane Brum. “Como alguém poderia realmente explicar o que estamos vivendo? É injustificável!” Eu e as amigas com quem estávamos utilizamos todas as leituras possíveis, de Sérgio Buarque e Gilberto Freire a Jessé de Souza, mas ao final o espanto continuava.
Tendo em mente o que o Museu da Pessoa fez registrando vidas comuns e especiais resolvi falar sobre Júlia, mulher pobre que venceu profissional e amorosamente. Talvez seja um modo muito próprio de comemorar esse dia para tantos tão improvável (me incluo) e de desejar a todas as mulheres a força, a determinação dessa menina da Ceilândia. Encontrar príncipes encantados é para poucas, mas vencer profissionalmente e afirmar-se como ser pensante é possível para todas as estudantes deste Brasil que precisa resistir. E um viva aos enamorados de todos os gêneros!
Criado em 2019-06-12 14:48:18
Angélica Torres (*) –
Ciro Gomes acha muito bacana marcar seu nome na política com uma estratégia mais caquética, coroneleira, velhaca, tô pra ver outra. Solta cada pérola, como esta: “Lula faz política 24h por dia”. Ora, ele queria que, por estar imobilizado politicamente no cárcere, o ex-presidente fizesse o quê? Tricô?
O cabra não consegue esconder a inveja por ver Lula, cada vez mais brilhante e carismático, assediado e entrevistado pelos melhores jornalistas do país, dentro da cela. E não satisfeito, chuta mais bola fora ofendendo a dois deles, o Moreira Leite e o Kiko Nogueira, mentindo, se contradizendo, dando bobeiras e não sacando a cafonice do estilo.
Aliás, ele acha lindo usar o termo “repto” e insistir no charmoso modelito réptil, destilando veneno e deselegância de dez em dez minutos também à Dilma e PT, e agora até à mídia independente (DCM e 247), angariando uma bela onda de repúdio e revanche, nova colheita bichada. Batendo pezinho com essa mania, não vai lograr novamente mais do que a rabeira nas eleições.
Não é praga. É vaticínio.
No novo show que deu no UOL, ele podia ter anunciado o lançamento de uma dupla sertaneja com o Messias Bolsonaro. A criatura se amarra em provocar, ou torturar, as plateias de um lado e outro (a do adversário e a dele próprio), com vara curta e muito grossa.
Não lhe caem fichas que o máximo que consegue é trair a própria inteligência e pensar que engambela a do público, por ficar arrotando ter muito conhecimento do Direito. Ora, nos poupe.
Tem o descaramento de acusar Lula de desmoralizar o que resta da Justiça no Brasil, quando dez minutos depois é ele quem afirma, com todos os tons de cinza-chumbo na voz, que “não há mais Justiça no país, lei não há, não se sabe o humor do juiz, chibata moral do Brasil inteiro”.
Lula em suas declarações desmoraliza, sim, o juiz Sérgio Moro e os procuradores que o perseguiram, e ainda hoje, implacavelmente, mas sempre ressalta a importância do Judiciário e reafirma a crença de que o irão inocentar.
A figura, entretanto, não sossega o facho e segue grunhindo: “a petezada perdeu a noção e agora chama de fascista o eleitorado de SP, MG, RS, RJ que levou Lula ao poder” e ainda, “Lula produziu Bolsonaro”.
Ciro será o benedito que não flagrou a contradição posta na mesma conversa? Pouco antes havia culpado a tramoia internacional, com Steve Bannon e as fake news à frente, pelo quadro trágico que hoje estamos pintados nele.
Com a mesma tática do golpe baixo, atacou juntos Dilma e o PT com “sua burocracia fraudulenta”, ao dizer: “O PT quer esquecer que Dilma foi uma péssima executiva”.
Ora, quem vê os petistas a toda hora defendendo a honra da presidente derrubada, ou não levando em conta Eduardo Cunha atravessado como uma tora de baobá em seu caminho? E mais, a brutal armação yankee entrando de sola na confusão dos diabos pra tomar posse do país e impedindo, oficialmente, desde 2013, que ela pudesse governar – e de cabeça fria – a tragédia que já se abatia sobre nós?
Ciro é tão pirado que tem o desplante de usar o nome de Noam Chomsky, um declarado defensor de Lula, contra seus próprios correligionários, só porque foi por ele citado como uma possível saída para o impasse do país; mas não foi isso o cúmulo da entrevista.
O mais bizarro foi ele dizer que o PT votou a favor da reforma da Previdência “por baixo da mesa” e, ainda, que “ódios e paixões amalucados estão destruindo o Brasil”. Além do presidente eleito, quem é o outro odioso e passional que entra nessa história?
Ando desconfiada do caráter dos que aplaudem Ciro Gomes e agridem Lula, PT e Dilma, à sua imagem, semelhança e moda. Como não enxergam a estratégia? Fazem o mesmo que os apoiadores do monstro: ignoram a farsa à mostra em suas palavras e atitudes, quando na verdade não ocultam o preconceito de classe explícito a tudo o que Lula representa e que não querem reconhecer que lá no fundo eles nutrem.
Ver uma entrevista de Lula, elegante até quando fala mal de inimigos e adversários, e depois assistir à de Ciro é de doer, de lascar o cano.
Eu que não sou filiada ao PT e nem a partido algum, mas que não engulo a maldade feita com eles, e que tampouco sou amiga dos jornalistas insultados, fiquei assim, parodiando o poeta baiano Nelson Maca, com a gramática da ira não na ponta, mas estirada em toda a língua.
_________________
(*) Angélica Torres, jornalista da área cultural e poeta.
Criado em 2019-10-16 22:51:09
Romário Schettino –
Uma decisão surpreendente, embora tardia, no âmbito do Supremo Tribunal Federal (STF), balançou o coreto e as estruturas políticas nacionais na tarde desta segunda-feira (8/3). O ministro Edson Fachin anulou os quatro processos contra Lula, que foram julgados pela Lava Jato de Curitiba.
A decisão, apesar de apenas considerar a incompetência do juiz Sérgio Moro para conduzir e julgar os processos, teve uma repercussão imediata: recoloca na disputa eleitoral de 2022 o ex-presidente Lula, que estava com seus direitos políticos cassados pela lei da Ficha Limpa.
Pesquisa recente, divulgada pelo Estadão, revela que Lula não é só o mais desejado, mas também o menos rejeitado pelo eleitorado. Talvez seja por isso que a decisão de Fachin tenha provocado desconforto em Bolsonaro. Qualquer um, menos Lula, sonha o presidente de plantão.
O mundo político está em polvorosa e os juristas estão surpresos. O fato é que ainda tramita no STF o pedido de suspeição de Sérgio Moro, que está nas mãos de Gilmar Mendes. Esse aspecto não está resolvido, embora Fachin tenha dito que essa suspeição esteja superada com a nova decisão.
Os advogados de Lula, Cristiano Zanin Martins e Valeska Teixeira Zanin Martins, consideram que a decisão de Fachin “é o reconhecimento de que sempre estivemos corretos nessa longa batalha jurídica, na qual nunca tivemos que mudar nossos fundamentos para demonstrar a nulidade dos processos e a inocência do ex-presidente Lula e o lawfare que estava sendo praticado contra ele”.
Em nota, distribuída à imprensa, os advogados afirmam que a “decisão [de Fachin], portanto, está em sintonia com tudo o que sustentamos há mais de cinco anos na condução dos processos. Mas ela não tem o condão de reparar os danos irremediáveis causados pelo ex-juiz Sergio Moro e pelos procuradores da “lava jato” ao ex-presidente Lula, ao Sistema de Justiça e ao Estado Democrático de Direito”.
A seguir, a íntegra da nota dos advogados de Lula:
“Anotação dos processos de Lula pelo STF.
Recebemos com serenidade a decisão proferida na data de hoje [8/3] pelo Ministro Edson Fachin que acolheu o habeas corpus que impetramos em 3/11/2020 para reconhecer a incompetência da 13ª. Vara Federal Criminal de Curitiba para analisar as quatro denúncias que foram apresentadas pela extinta “força tarefa” contra o ex-presidente Lula (HC 193.726) — e, consequentemente, para anular os atos decisórios relativos aos processos que foram indevidamente instaurados a partir dessas denúncias.
A incompetência da Justiça Federal de Curitiba para julgar as indevidas acusações formuladas contra o ex-presidente Lula foi por nós sustentada desde a primeira manifestação escrita que apresentamos nos processos, ainda em 2016. Isso porque as absurdas acusações formuladas contra o ex-presidente pela “força tarefa” de Curitiba jamais indicaram qualquer relação concreta com ilícitos ocorridos na Petrobras e que justificaram a fixação da competência da 13ª. Vara Federal de Curitiba pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal no julgamento da Questão de Ordem no Inquérito 4.130.
Durante mais de cinco anos percorremos todas as instâncias do Poder Judiciário para que fosse reconhecida a incompetência da 13ª. Vara Federal Criminal de Curitiba para decidir sobre investigações ou sobre denúncias ofertadas pela “força tarefa” de Curitiba. Também levamos em 2016 ao Comitê de Direitos Humanos da ONU a violação irreparável às garantias fundamentais do ex-presidente Lula, inclusive em virtude da inobservância do direito ao juiz natural — ou seja, o direito de todo cidadão de ser julgado por um juiz cuja competência seja definida previamente por lei e não pela escolha do próprio julgador.
Nessa longa trajetória, a despeito de todas as provas de inocência que apresentamos, o ex-presidente Lula foi preso injustamente, teve os seus direitos políticos indevidamente retirados e seus bens bloqueados. Sempre provamos que todas essas condutas faziam parte de um conluio entre o então juiz Sergio Moro e dos membros da “força tarefa” de Curitiba, como foi reafirmado pelo material que tivemos acesso também com autorização do Supremo Tribunal Federal e que foi por nós levado aos autos da Reclamação nº 43.007/PR.
Por isso, a decisão que hoje afirma a incompetência da Justiça Federal de Curitiba é o reconhecimento de que sempre estivemos corretos nessa longa batalha jurídica, na qual nunca tivemos que mudar nossos fundamentos para demonstrar a nulidade dos processos e a inocência do ex-presidente Lula e o lawfare que estava sendo praticado contra ele.
A decisão, portanto, está em sintonia com tudo o que sustentamos há mais de cinco anos na condução dos processos. Mas ela não tem o condão de reparar os danos irremediáveis causados pelo ex-juiz Sergio Moro e pelos procuradores da “lava jato” ao ex-presidente Lula, ao Sistema de Justiça e ao Estado Democrático de Direito”.
Criado em 2021-03-08 22:40:18
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Excerto do diário do general Carlos Minímov, admirador do marechal Mikhail Kutuzov, e especialista nas velhas táticas do recuo dialético ofensivo (*).
O medo é natural, instintivo, inevitável, sendo o irmão siamês da esperança. Eu sinto medo, às vezes até pânico, e quanto maior é o meu temor mais admiro a coragem e a disposição dos lutadores para o sacrifício.
Sei por minha longa experiência na caserna que os homens intrépidos, vocacionados ao martírio, se estrepam em proporção muito mais alta do que os tímidos e acanhados. Coisa de dez por um. Por isso faço o que posso, e mesmo o que não posso, para animar, incentivar, estimular ao máximo os sacrifícios... nas fileiras do inimigo. Quanto mais entusiasmo e fanatismo entre eles, mais baixas do lado de lá.
Doravante, cada homem além das nossas trincheiras, que vier a se exceder na bravura, fará jus a um presente nosso, confeccionado na marmoraria que a minha divisão acaba de instalar com parte do ralo orçamento que nos coube: uma lápide ou urna cinerária, ou pelo menos uma coroa de flores de plástico com a inscrição em letras douradas: "Aqui jaz um homem de bem, patriota indômito. Saudades."
O Alto Comando aprovou a minha proposta com o voto de Minerva do comandante.
Estou muito orgulhoso de meus soldados. Eles me admiram como herói. Pelos meus cálculos, venceremos a guerra a tempo de passar o Natal em casa.
Infelizmente, não temos recursos para cunhar medalhas para a tropa. Para compensar, vamos distribuir fitinhas de São Jorge Guerreiro e sortear na noite do bingo 100 vales-peru, 100 vales-cidra, 200 cachecóis e 200 Pikachus de pelúcia entre a rapaziada.
Eu acabo de receber um zap da minha mãe com as bênçãos e os parabéns por nossa tremenda vitória na Batalha do Sovaco da Cobra.
Ela achou sensacional a ideia do tenente Yuri Trêtov de espalhar miguelitos e bolinhas de gude na estrada antes da chegada da cavalaria do general Bassuel Bragóvno.
Sentiu não estar aqui conosco para as comemorações com pratos da cozinha francesa. Eu lhe contei que estava delicioso o steak tartare, feito com as sobras da carnificina. Ela entendeu que o melhor tempero foi mesmo a nossa "fome cavalar". Às vezes eu me preocupo com o humor da minha mãe!
No fim da mensagem ela me pediu para ler o versículo 34 de Mateus 6. Eu li: "Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o amanhã cuidará de si mesmo. A cada dia basta o seu próprio mal".
Mães!
----------------
* O recuo dialético ofensivo, conforme ficou registrado no Corta Essa, a coluna de assuntos militares e similares (de _smile_) do antigo jornal Movimento, consiste na seguinte armadilha: você recua as suas tropas de maneira franca e decidida, em desabalada carreira, para que o inimigo pense tratar-se de uma fuga. O adversário avança então os seus pelotões, descartando as manobras que havia planejado cuidadosamente. Decide com temeridade aproveitar o que supõe ser uma oportunidade. Quanto mais você recua, em velocidade de dar inveja aos fãs do Lewis Hamilton, mais o inimigo avança sobre o seu território. Quando percebe, é tarde demais: as forças dele estarão irremediavelmente cercadas num _cul-de-sac_ napoleônico, enredadas pelo malicioso movimento em pinça do nosso exército!
Criado em 2021-08-25 18:24:47
Luiz Martins da Silva –
O Estado brasileiro, leia-se, classes dominantes encasteladas, tem mantido com a sociedade brasileira (na verdade, é um conjunto de nações, se contados os povos indígenas) uma relação predatória. Na colônia, exploração absoluta e se valendo de regimes de escravidão ainda não de todos esgotados, alguns a caminho do genocídio. No império, o surgimento da política em favor dos privilégios dos já privilegiados; na República, o surgimento do gosto dos militares brasileiros por assumir o "controle" das situações.
Mas, vamos logo para o momento atual, momento este em que os seres humanos, ao mesmo tempo cidadãos, contribuintes, servidores, força de trabalho e uma metade da população entre a miséria, a pobreza e a viração, lá vem, de novo, o Estado, a pedir o sacrifício de todos e, agora, das próprias vidas das pessoas, em nome de quê? De salvar a economia porque, se não, estaremos todos na mais profunda das crises, algo nunca visto em tempo nenhum, a recessão das recessões.
Acontece que o país precisa, sim, de um grande e atrasado Plano de Salvação, mas é de vidas. Tá difícil de entender ou vamos pedir as crianças para que desenhem o que está acontecendo? Os governadores se sucedem em entrevistas para dar conta das toneladas de aparelhos e suprimentos e de hospitais de campanhas. OK. Paralelamente, dão outras entrevistas para dar satisfações à orientação do Palácio do Planalto de que é preciso ir planejando a volta ao "normal". Não existe normal mais normal do que o direito à vida. É fazer o impossível pelos que estão nos leitos de morte e outro impossível para que os imprudentes entendam o que é o apelo Fique em Casa.
Isto é lá hora de o Estado pedir socorro à sociedade? Hora, por exemplo, de uma revolução sanitária: Toda a saúde do país a consolidar um único Sistema Único de Saúde. Nunca a proposta do SUS fez tanto sentido. E correr atrás do prejuízo. As medidas de testes e bloqueios, os lock downs (como adoramos a língua do Tio Sam!), eram lá do início da pandemia! Tantas vidas e tantos bilhões de reais!
Mas, tudo bem! Aliás, nada bem, se o Presidente da República continuar obsessivamente nesta de organizar prematuramente o Desfile da Vitória nesta guerra. De quem? Da Economia? Quanto às mortes, há muito ele já disse: “Não joguem isto no meu colo?” E também bronqueou com esta: "Não sou coveiro!" Pois devia ser! Compareça, por favor a um desses cemitérios de chão pelo Brasil, dê uma mãozinha, melhor que subir em carro para ser aplaudido por manifestantes ávidos por uma ditadura. São ou não sem noção? Quer abraçar? Pois abrace os parentes dos que choram, caso contrário, eles não irão chorar pelo Senhor, estando por baixo, ou festejá-lo, estando nas alturas.
Criado em 2020-05-08 17:03:05