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Página 52 de 95

STF cancela transferência de Lula e acaba com espetáculo

Romário Schettino –

O que estava se desenhando no início do dia de ontem (7/8) era uma espetacular transferência do ex-presidente Lula da Polícia Federal de Curitiba para uma prisão comum em São Paulo, provavelmente para o presídio de Tremembé. A grande imprensa já estava salivando.

Mas, em vinte minutos o Supremo Tribunal Federal (STF), por 10 votos a 1, decidiu revogar o despacho da juíza da 12ª Vara Federal de Curitiba, Carolina Lebbos, e determinou que Lula ficasse lá onde está até a decisão que irá tomar sobre o habeas corpus e o pedido de suspeição do então juiz Sérgio Moro que presidiu o julgamento.

Nos bastidores do Congresso Nacional não havia dúvida de que o ministro Sérgio Moro e a juíza Carolina Lebbos estavam juntos nessa manobra para desviar as atenções sobre os bombásticos vazamentos do site The Intercept Brasil e, ao mesmo tempo, humilhar Lula mais uma vez.

O tiro saiu pela culatra. Mais de 70 parlamentares, de 12 partidos de centro, de direita e de esquerda, com o apoio do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), foram ao presidente do STF, Dias Toffoli, para pedir a revogação da decisão da juíza, alegando que era injusta, arbitrária e absolutamente desnecessária, já que o próprio STF julgará nos próximos dias pedidos que poderão interferir diretamente na situação do ex-presidente Lula, preso há mais de um ano em Curitiba.

A deputada Luisa Erundina (PSol-SP) foi uma das que falaram: “Basta, não temos mais como suportar atitudes autoritárias de confronto à democracia e aos direitos humanos”.

O único voto contrário no julgamento de hoje foi do ministro Marco Aurélio, apenas por que entendia que os advogados de Lula deveriam ir primeiro ao TRF4, de Porto Alegre. Firula jurídica derrotada por ampla maioria.

Ao final da tarde, o senador Jaques Wagner (PT-BA) foi à tribuna para dizer que estava impressionado com “o caleidoscópio de partidos políticos que lá estiveram para manifestar perante o presidente do Supremo, a estranheza da decisão proferida pela juíza de Curitiba. Todos se manifestaram, independentemente, do seu viés político-partidário-ideológico”.

Vários senadores apoiaram a decisão do STF, O senador Eduardo Braga (AM), líder do MDB, prestou solidariedade e disse esperar que “o Supremo compreenda o momento que passa o Brasil, e que nós possamos ter respeito às questões humanitárias e às garantias individuais”.

Em nota, o Partido dos Trabalhadores reiterou o fato de que “Lula não deveria estar preso em lugar nenhum porque é inocente e foi condenado numa farsa judicial. Não deveria sequer ter sido julgado em Curitiba, pois o próprio ex-juiz Sergio Moro admitiu que seu processo não envolvia desvios da Petrobrás investigados na Lava Jato”.

A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, por sua vez defendeu que Lula não fosse transferido para um presídio comum. Ela se manifestou a favor de o petista continuar preso na superintendência da PF na capital paranaense ou em uma cela especial, de sala de estado maior, em São Paulo.

Ou seja, a VazaJato continua provocando delírios autoritários no ministro da Justiça Sérgio Moro. No STF, cresce o entendimento de que o procurador Deltan Dallagnol ultrapassou todos os limites e tem que ser afastado de suas funções, sob pena de tornar-se um zumbi sem qualquer credibilidade para o trabalho de coordenador Força Tarefa.

A cada divulgação do The Intercept mais o cerco se fecha contra Moro e Dallagnol. Os últimos diálogos que saíram no jornal El Pais envolvendo o ministro Gilmar Mendes estão provocando arrepios e irritação nos portadores de togas na Corte Suprema.

 

Criado em 2019-08-08 03:17:06

O singelo protocolo do vírus

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Acabo de receber o seguinte comunicado da síndica do meu condomínio: “Prezados Condôminos – Considerando o Decreto Distrital nº 40.961, de 08 julho de 2020, suspendendo os efeitos do Decreto nº 40.939, de 02 de julho de 2020, em virtude de decisão judicial, fecharemos novamente por tempo indeterminado a academia de nosso condomínio. O cumprimento rigoroso de tais medidas visa proteger os condôminos ao máximo da pandemia mundial que estamos vivendo. Contamos com a colaboração de todos...”

Mais um exemplo de que as autoridades, incluídos os síndicos, são em geral estúpidas. Elas seguem e impõem sofregamente os “protocolos”!

No dia 2 de julho, contrariando o bom senso e as melhores informações científicas, o governador do Distrito Federal havia decretado a reabertura de várias atividades comerciais e industriais. Como de praxe, o decreto incluía “protocolos e medidas de segurança”. Entre essas, a garantia mínima de dois metros entre as pessoas, a disponibilização de álcool em gel 70%, e a aferição da temperatura de todos os consumidores”.

Ora, lavar as mãos e fazer a higiene com álcool em gel, parece que já virou uma prática generalizada, menos, é claro, entre as populações das periferias que não têm água encanada disponível. Medir a temperatura dos consumidores é bom, mas, convenhamos, são raras as pessoas que saem de casa com febre. Quanto à distância mínima de dois metros, ora bolas! A “academia” do meu condomínio deve ter uns 30 metros quadrados. Provavelmente, abrigaria três atletas por vez, se eles não se mexessem demais…

Num país que acredita em curandeiros como João de Deus, o tarado de Abadiânia, o que esperar das pessoas, entregues voluntariamente à servidão das autoridades que governam por protocolos?

O presidente faz propaganda da cloroquina e grande parte da população começa a engolir toneladas desse medicamento fabricado pelo Exército e importado dos Estados Unidos, próprio para combater a malária. Alguns médicos charlatães distribuem protocolos de ivermectina, e outra parte do povo passa a consumir como pipoca arrobas desse antiparasitário, sem maiores efeitos contra a Covid-19, mas com a vantagem de, se não matar por intoxicação, livrará as vítimas por um bom tempo de lombrigas, piolhos, sarnas, chatos e bichos-de-pé.

Uma expressão lastimável da servidão voluntária é essa: você terceiriza para as autoridades, em geral idiotas, as suas decisões de como lidar com o novo coronavírus. Em vez de ouvir o seu médico e as recomendações da Organização Mundial da Saúde, você ouve o governador, advogado que ficou rico vendendo precatórios, agora especializado em protocolos.

Se você é síndico, esquece o que dizia há duas semanas sobre o distanciamento social, e se fia no decreto desse governador. Se a Justiça derruba o decreto, você suspende a abertura da academia, e diz que o “cumprimento rigoroso de tais medidas visa proteger os condôminos ao máximo da pandemia mundial que estamos vivendo”. Há duas semanas, as “tais medidas” previam o rigoroso distanciamento social…

Se você é londrino, corre ensandecido para o primeiro pub do seu bairro, confiado nos protocolos do Boris Johnson.

Se for americano, xinga de comunista o Dr. Anthony Fauci, o principal imunologista do país, e abre um crowdfunding para erigir uma estátua ao presidente Donald Trump sobre o pedestal da estátua do Cristóvão Colombo que um bando de native americans acaba de derrubar, lembrando que eles próprios são restos de vastas populações dizimadas pela guerra, escravização e epidemias trazidas pelos colonizadores.

Enquanto isso, o novo coronavírus segue um protocolo singelo e elegante: reproduzir-se e se espalhar, se espalhar e reproduzir-se, aproveitando as brechas abertas pelas autoridades protocolares.

 

Criado em 2020-07-09 18:33:44

São 90 dias e muitos ensinamentos, mas a luta continua

Danilo Firmino (*) –

Quem não passa no amor, aprende na dor... quarenta e cinco mil (45.000) mortos no Brasil! Pelo menos, até agora.

Há exatamente três meses, um domingo de sol forte e praia lotada no Rio de Janeiro. Era fim de verão. Assim foi primeiro fim de semana da quarentena estabelecida por um decreto pelo governo do Estado.

Um ponto facultativo indicava o início do isolamento social como forma dos cariocas enfrentarem o contágio da Covid-19. Segunda-feira, 16 de março, carros dos bombeiros começaram a estacionar nas praias pedindo que as pessoas voltassem para suas casas. As escolas suspenderam as aulas - primeiro as estaduais e logo em seguida as municipais e as particulares.

A vida havia mudado no Rio, no Brasil, no mundo. Uma chuva de decretos estaduais buscava garantir o isolamento social, seguidos de alguns decretos municipais. Na semana seguinte à do dia 16, as mortes começaram a acontecer no município do Rio de Janeiro. No início, dezenas.

A ausência de ações coordenadas começou a ser sentida pela população carioca. Ações claras e objetivas não tinham harmonia entre o Estado e o município. Em relação ao governo federal, era como se nada de anormal estivesse acontecendo. As três esferas de poder – municipal, estadual e federal – não se coordenavam nem se entendiam.

Na terceira semana já existia uma campanha diuturna para convencer as pessoas a cumprir o distanciamento social como forma de prevenção, evitando aglomerações que favorecessem o contágio. Sabia-se que no Rio, por questões peculiares e históricas, o sistema de saúde pública não comportaria uma pandemia. Portanto, naquele momento ganhar tempo para as instalações dos hospitais de campanha era crucial.

Foi no meio da terceira semana que uma bomba se abateu no Brasil, cujos efeitos colocaram o Estado do Rio com o maior índice de letalidade do país e um dos maiores do mundo.  Não era só o coronavírus que teríamos que enfrentar. O presidente Bolsonaro declarou ao mundo que tudo não passava de uma “gripezinha” e nada de isolamento social. Que se danem as pessoas, o importante era a economia. "Vão morrer mesmo!!

Estava decretado o caos que hoje, três meses depois daquele ensolarado domingo de sol do fim do verão, coloca o Brasil como campeão de mortes por Covid-19, somente atrás dos Estados Unidos.

O Estado do Rio de Janeiro caminha para 8 mil mortes registradas. É certo, porém, que esses números oficiais são subnotificados. Imaginemos o Estádio Nilton Santos (Engenhão) cuja capacidade máxima é de 46 mil pessoas. Sim, é esse o número de pessoas mortas do Brasil pela tal “gripezinha”. E olha que a tal curva ainda continua subindo.

O número de mortos no Rio de Janeiro, seria capaz de lotar o Estádio da Conselheiro Galvão – o do Madureira cuja capacidade é para 7 mil.

Mas certamente, o genocídio no Brasil poderá chegar a ser do tamanho de um Maracanã lotado com 80 mil pessoas – ou mortos em se tratando do coronavírus. No Rio de Janeiro, podemos chegar a 20 mil pessoas mortas, o que seria a capacidade do estádio de São Januário, quando os reais números vierem à tona.

Neste fim de semana, notícias dão conta de que no Rio de Janeiro o número de pessoas com os anticorpos para o Covid-19 aumentou bastante. Por exemplo: em um universo de 7.286 pessoas que doaram sangue para o HemoRio, 28% delas foram identificados os anticorpos para a Covid-19.

Essa pode ser, sem dúvida, uma notícia maravilhosa a acalantar nossos corações. Afinal, os cientistas e pesquisadores da Fiocruz, UERJ e UFRJ consideram que o pico da doença no Rio pode ter ocorrido no final de maio e o início de junho.

A informação acima é importante e deve estar sempre acompanhada da manutenção do distanciamento social, do uso das máscaras e da necessidade de higienização com álcool em gel etc.

Isto pode ser um passo para a flexibilização da quarentena, como indicam e afirmam os cientistas. Pode ser, mas tudo ainda é cedo. Não deve ser o fim dos cuidados e da diminuição da circulação como arma de combate ao vírus. Afinal, o vírus só pode ser considerado neutralizado após a descoberta da vacina.

Foram noventa dias para termos alguma notícia boa após a proposta de quarentena, que podia ter durado 15 dias se tivesse sido respeitada. Mas aconteceu o contrário. Foi combatida pelo Governo Federal e por um setor obscurantista da nossa sociedade, que pela fé no lucro desprezam a vida.

Mas quais são as vidas cabíveis de desprezo?

Tudo como dantes no quartel d’Abrantes! Os primeiros casos de Covid-19 no Estado do Rio foram registrados em Copacabana e na Zona Sul. A primeira morte registrada no Estado foi de uma senhora de 62 anos, em Miguel Pereira, mas ela contraiu o vírus de uma pessoa recém-chegada da Itália e moradora da Zona Sul que sobreviveu, diferente do destino maldito da pobre empregada doméstica.

E em todo decorrer da pandemia no Rio de Janeiro e até agora a lógica do primeiro evento não foi modificada. Ao ponto que em determinada semana todos os jornais estampavam que enquanto Copacabana tinha o maior número de casos, Campo Grande, na Zona Oeste da Cidade, tinha o maior número de óbitos por Covid-19.

As vidas desprezíveis e que poderiam ter sido poupadas foram as mesmas que sempre são descartáveis, e vivem nos territórios sempre renegados desta cidade. Foram mais uma vez os mais pobres que morreram sem os hospitais de campanha, e que ficaram literalmente largados e sem ar. Enquanto a minoria mais rica que trouxe a doença para cá eram contrários ao isolamento social e sobreviveram nas suas UTIs e CTIs garantidas pelos planos de saúde caros.

Bônus – Os jornais também mostravam que na cidade do Rio havia uma relação interessante. Os bairros em que a “gripezinha” – lembra nosso outro problema? – tinha tido mais votos eram também onde havia o maior número de casos de Covid-19. Mas sempre mantendo a relação (Copacabana maior número de casos – Campo Grande maior número de mortos. Barra da Tijuca maior número de casos – Ilha do Governador maior número de mortos).

A verdade é que todo povo e nação quando passa por uma grande dificuldade como a atual, tende a se unir em esforços para lutar e defender vidas, e sair maior da adversidade. Isto acontece até mesmo em esforços de guerra contra outras nações (guerra que sempre é ruim e pressupõe eliminar vidas), mas nós saímos menores se é que saímos.

Somos menores em quantidade de brasileiros, e somos menores em qualidade de Nação. A pandemia deixará veias abertas e o Brasil combalido pelo câncer covarde que ataca todo corpo quando este tem baixa imunológica, e sufocado pelo câncer do fascismo.

As instituições brasileiras precisam de uma pulsão enérgica e rápida, e o pulmão do Estado Democrático de Direito de uma pleurodese para prevenir novos fluídos ou ares ruins de ditadura que não cabe mais no espaço da nossa história!
_________________
(*) Danilo Firmino, do coletivo “Fala Subúrbio”, é compositor e líder comunitário.

Criado em 2020-06-17 15:16:59

Projeto Brecht na Biblioteca

Nesta adaptação de leitura dramática para vídeo, a Cia Burlesca aproveita os elementos cênicos presentes na peça didática Aquele que diz Sim e Aquele que diz Não, de Bertolt Brecht. Este é um novo experimento que relaciona as outras três leituras já realizadas das obras do dramaturgo alemão e que fazem parte do projeto Brecht na Biblioteca.

O elenco, formado por Julie Wezel, Lyvian Sena, Pedro Caroca e Pedro Henrick, se revezam para interpretar os personagens das peças lançando mão dos recursos do teatro épico para representar, dessa vez, espetáculos no formato de leitura dramatizada e filmados, evidenciando os típicos elementos brechtianos, como a narração presente nas rubricas, o distanciamento e os gestos dialéticos dos personagens. Esta leitura traz objetos em evidência para retratar o tempo e o espaço presentes na obra de Brecht. Uma nova aposta nessa segunda etapa sob direção de Patrícia Barros, que se conduzirá as próximas três leituras do projeto.

O projeto conta ainda com oficinas de teatro on-line que serão conduzidas pelos integrantes da Cia Burlesca. Com foco nas técnicas do teatro épico, os encontros virtuais serão voltados para estudantes, amadores, profissionais das artes cênicas e interessados no assunto. Que serão realizados encontros nas próximas leituras que encerram o projeto e serão divulgadas com antecedência nas redes sociais da Cia Burlesca e veículos de mídia impressa e virtual.

Livros são excelentes doses de esperanças para recomeços e infindáveis fontes de conhecimento histórico. E pensando nisso, a Companhia está fazendo uma campanha de arrecadação de livros ao longo do projeto que serão doados para o acervo físico da Biblioteca Pública de Brasília localizada na EQS 312/313. Quem tiver interesse em contribuir, basta entrar em contato com o grupo para combinar a coleta do material.

Este é um projeto de ocupação artística virtual da Biblioteca Pública de Brasília e conta com financiamento do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF).

As vídeo-leituras já realizadas até o momento, estão disponíveis no YouTube da Cia Burlesca.
__________________
Ficha técnica:
Direção: Mafá Nogueira e Patrícia Barros
Elenco: Julie Wetzel, Lyvian Sena, Pedro Caroca e Pedro Henrick
Palestrantes: Luiz Fernando Lobo, Sérgio de Carvalho e Túllio Guimarães
Produção: Cia Burlesca
Gestão: V4 Cultural
Designer gráfico: Nara Oliveira
Edição dos vídeos: Mafá Nogueira

___________________
Programação:
Leitura dramática da peça: Aquele que diz SIM e Aquele que diz NÃO
Dia: 1º de junho de 2021
Horário: A partir das 20h
Locais: www.youtube.com/ciaburlesca
e www.fb.com/bibliotecapublicadebrasilia
(Acesso gratuito e livre para todos os públicos)

Criado em 2021-05-30 03:32:01

Mais de 400 entidades da sociedade civil entram com pedido de impeachment de Bolsonaro

Enquanto Bolsonaro se reunia com governadores, um pedido coletivo de impeachment foi apresentado hoje (21/5) na Câmara dos Deputados.

Por videoconferência, os governadores cobraram de Bolsonaro a liberação de recursos para ajuda federal concreta e o estabelecimento de critérios científicos para a adoção de medidas de enfrentamento ao novo coronavírus. No mesmo momento, só que presencialmente, entidades, organizações da sociedade civil, partidos políticos e personalidades nacionais pedem o afastamento do presidente da República.

Entre os signatários do pedido de impeachment estão partidos políticos da oposição (PT, PCdoB, PSOL, PCB, PCO, PSTU e UP) e mais de 400 entidades e movimentos sociais, como a Associação Brasileira de Economistas pela Democracia, Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, Central de Movimentos Populares, Marcha Mundial de Mulheres, Movimento das Mulheres Camponesas, Andes – Sindicato Nacional, Fasubra, Movimento Negro Unificado, Associação Brasileira de Travestis e Transexuais, Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, entre outros. Também firmaram o pedido os ex-ministros da Justiça Tarso Genro, José Eduardo Cardozo e Eugênio Aragão, além de juristas como Celso Antonio Bandeira de Melo, Lênio Streck, Pedro Serrano e Carol Proner.

O documento entregue à Câmara acusa Jair Bolsonaro de cometer crimes de responsabilidade, atentar contra a saúde pública e arriscar a vida da população pelo comportamento à frente da pandemia do coronavírus. Acusa também também o presidente de atentar contra a Federação ao atacar diariamente os governadores, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal.

 

Criado em 2020-05-21 18:20:14

Bolsonaro e seus crimes de responsabilidade

Romário Schettino –

Diante dos inúmeros crimes de responsabilidade cometidos pelo presidente Jair Bolsonaro, representantes da sociedade brasileira ampliam seus pronunciamentos contra o desgoverno que impera no Palácio do Planalto. A indignação toma conta das redes sociais, do noticiário, e aumenta a suspeita de que Bolsonaro seja incapaz de continuar governando o país.

O insuspeito jurista Miguel Reale Jr., ligado ao PSDB, trata a declaração de Bolsonaro sobre o pai do presidente da OAB como motivo para “interdição”. “Estamos diante de um quadro de insanidade, das mais absolutas. Não é mais caso de impeachment, mas de interdição”.

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que teve o pai exilado durante a ditadura, disse que frase de Bolsonaro é “inaceitável”.

Uma frente suprapartidária, que inclui PT, PSol, Rede, PCdoB, PSB e PSDB pode estar se formando para livrar o Brasil da intolerância, do estímulo à violência, do extermínio de indígenas, do racismo, da misoginia, da homofobia e do flagelo dos direitos universais da pessoa humana.

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) emitiu hoje (29/7) nota de repúdio às declarações do presidente Jair Bolsonaro que disse saber o que teria ocorrido com Fernando Augusto Santa Cruz, pai do presidente da OAB nacional, Felipe Santa Cruz, desaparecido durante a ditadura militar.

Na nota, a OAB diz que “o cargo de mandatário da chefia do Poder Executivo exige que seja exercido com equilíbrio e respeito aos valores constitucionais, sendo-lhe vedado atentar contra os direitos humanos, entre os quais os direitos políticos, individuais e sociais, bem assim contra o cumprimento das leis”.

Com esse insulto à família Santa Cruz e o deboche com que Bolsonaro tratou o massacre da tribo indígena no Amapá, o presidente passou de todos os limites da decência e da irresponsabilidade.

Não adianta a grande imprensa tentar dourar a pílula dizendo que Bolsonaro tem um “estoque de declarações polêmicas”. Não são polêmicas, são criminosas, ferem a Constituição Federal e as leis brasileiras.

Eis a íntegra da nota da OAB:

“A Ordem dos Advogados do Brasil, através da sua Diretoria, do seu Conselho Pleno e do Colégio de Presidentes de Seccionais, tendo em vista manifestação do Senhor Presidente da República, na data de hoje, 29 de julho de 2019, vem a público, no uso das atribuições que lhe são conferidas pelo artigo 44, da Lei nº 8.906/1994, dirigir-se à advocacia e à sociedade brasileira para afirmar o que segue:

  1. Todas as autoridades do País, inclusive o Senhor Presidente da República, devem obediência à Constituição Federal, que instituiu nosso país como Estado Democrático de Direito e tem entre seus fundamentos a dignidade da pessoa humana, na qual se inclui o direito ao respeito da memória dos mortos.
  1. O cargo de mandatário da Chefia do Poder Executivo exige que seja exercido com equilíbrio e respeito aos valores constitucionais, sendo-lhe vedado atentar contra os direitos humanos, entre os quais os direitos políticos, individuais e sociais, bem assim contra o cumprimento das leis.
  1. Apresentamos nossa solidariedade a todas as famílias daqueles que foram mortos, torturados ou desaparecidos, ao longo de nossa história, especialmente durante o Golpe Militar de 1964, inclusive a família de Fernando Santa Cruz, pai de Felipe Santa Cruz, atingidos por manifestações excessivas e de frivolidade extrema do Senhor Presidente da República.
  1. A Ordem dos Advogados do Brasil, órgão máximo da advocacia brasileira, vai se manter firme no compromisso supremo de defender a Constituição, a ordem jurídica do Estado Democrático, e os direitos humanos, bem assim a defesa da advocacia, especialmente, de seus direitos e prerrogativas, violados por autoridades que não conhecem as regras que garantem a existência de advogados e advogadas livres e independentes.
  1. A diretoria, o Conselho Pleno do Conselho Federal da OAB e o Colégio de Presidentes das 27 Seccionais da OAB repudiam as declarações do Senhor Presidente da República e permanecerão se posicionando contra qualquer tipo de retrocesso, na luta pela construção de uma sociedade livre, justa e solidária, e contra a violação das prerrogativas profissionais.”

Brasília, 29 de julho de 2019

Diretoria do Conselho Federal da OAB

Colégio de Presidentes da OAB

Conselho Pleno da OAB Nacional

Criado em 2019-07-29 23:53:13

Céu e Castigo

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

É foda, cara! Você morre, acha que finalmente vai ter um pouco de paz e, de repente, puta que os pariu, é surpreendido por essa convocação absurda. Prova provada de que o Brasil é mesmo um filme de terror! Eu, um autor defunto, sendo obrigado a virar um defunto autor…

Estava enfim nos braços da dama de branco sobre lençóis mais brancos que o vestido dela, rescendendo a patchuli. Incrível, aqui os meus 79 anos não cortam o tesão. Uma, duas, três, a Gnossienne nº 1 marcando o ritmo. Só depois da maratona de uma tarde inteira de fuquefuque eu boto os Prelúdios Flácidos (para um cão) do Satie para… hum, o verbo não é bem “relaxar”. Porra, eu gosto da melancolia do segundo prelúdio, o Idílio Cínico.

Então, que nem um ciclone bomba levando tudo de roldão, ouço o berro do Marechal me chamando.

- Sant’Anna, seu pilantra, você vai ter que voltar pra Terra!
- Brincadeira, né, Mestre!
- Brincadeira, o caralho! Você vai descer e assumir o Ministério da Educação. Sem perhaps, você não pode recusar a missão!

Era só o que faltava! Chamei o Bruto nas falas, conversa desagradável, ele sem máscara e com cheiro de uma semana sem banho.

- Sant’Anna, é o seguinte: o imbecil do Bolsonaro estava cogitando nomear o seu xará olavista para a pasta, roteiro certeiro de mais um fiasco. Daí o pessoal do Centrão começou a chiar, e um deputado teve a ideia (que eu achei brilhante) de trocar o Sant’Ana do Bozo pelo meu Sant’Anna. É você, mano! Acaba de me ligar o bispo auxiliar de Brasília com a novidade, escolhido pra fazer a embaixada.

Obtemperei (Gostaram do verbo? Aqui no Paraíso os termos eruditos têm o seu lugar!):

- Mestre, com todo o respeito, e a minha reputação? Todo mundo sabe que eu sou um antifa histórico, sempre detestei aquele bando de azêmolas. Como é que agora eu vou sair da glória eterna de volta para o Inferno?

O Marechal deu uns tapinhas nas minhas costas, pigarreou (sem máscara, o Puto!), e lascou:

- Serginho, meu querido, essa é uma santa missão. Não podemos deixar o Brasil ir pra cucuia de vez. Você vai lá, bota o essencial nos eixos, com a ajuda do Centrão, é claro, e daqui a dois anos você volta pro bem bom. Vai ser canja ter sido o melhor ministro do atual governo.
- Mas, Mestre, ali só tem confusão. O que que eu vou dizer sobre o edital viciado para a compra dos computadores que o Decotelli assinou quando era presidente do FNDE?
- Ô, Serginho, esse edital já foi cancelado. Não me venha com essas churumelas do Elio Gaspari. Pense grande, só no essencial. Essas miudezas você deixa com o Centrão, garoto!

Fazer o quê? Estou arrumando a mala com os meus CDs do Satie e a calcinha da dama de branco como lembrança. Meu Deus, ficar dois anos sem vê-la, sem o cheiro do patchuli, com o fardo dos 80 anos, mais uma era inteira só pensando na morte, a minha obsessão. Santa missão é o caralho, isso é um castigo extra!

Criado em 2020-07-01 20:24:25

George Floyd e o racismo eclesiástico: quando o chicote estala na batina

Padre Gegê –

(Quando um padre negro não consegue respirar).

Este texto é a narrativa de um padre negro numa Igreja estruturalmente branca e racista. Papa Francisco ao se posicionar diante do estrangulamento de George Floyd pelo policial branco afirma: "não se pode fechar os olhos ou tolerar o racismo". As palavras do bispo de Roma fundamentam minha fala, o meu protesto antirracista.

Ouvindo e seguindo o Papa pode-se dizer que, diante do racismo, a Lei suprema é: "não fechar os olhos ou tolerar". Esse posicionamento exige, em especial de cada católico, o assumir, em nome do Evangelho libertador, a bandeira antirracista. Conforme adverte Angela Davis, "não basta não ser racista, é preciso ser antirracista". Agora, como ser antirracista numa Igreja racista? Mas, a Igreja católica é racista? Respondo sem evasiva: SIM! E, historicamente no Brasil, foi no passado e é no presente amálgama de todo processo colonizador escravocrata.

Na obra O que é racismo estrutural?, Silvio de Almeida oferece fundamental instrumento de compreensão e análise do racismo para além dos casos isolados ou interpessoais. Para o autor "todo racismo é estrutural". Dessa feita, o racismo é o modus operandi da sociedade. E a Igreja não foge a essa lógica. A filósofa Djamila Ribeiro na indispensável obra Pequeno manual antirracista sublinha que "falar sobre racismo no Brasil é, sobretudo, fazer um debate estrutural".

É a partir dessa compreensão que falo em "racismo eclesiástico", isto é, o racismo que é gestado e estruturado na ambiência hierárquica da Igreja - "racismo institucional".

No dia 18 deste mês de junho completo 26 anos de padre. Assumo, diante do corpo negro de George Floyd e dos sem número de corpos negros tombados pelo racismo no Brasil (Ágatha, João Pedro, Miguel, Marielle...), o compromisso de falar do racismo eclesiástico a partir do meu corpo negro. A propósito, louvo o histórico programa Em Pauta do canal GloboNews (3/6), que no contexto do assassinato de George Floyd, abordou o racismo no Brasil a partir das trajetórias das jornalistas, isto é, a partir de seus corpos em movências insubmissas. Por que a Igreja não segue esse exemplo e coloca com sinceridade o racismo em pauta?

Da minha parte, começo a falar, a partir das marcas de meu corpo. Meu corpo é o lugar do discurso. Falo, pois, do racismo da e na Igreja sob cujo joelho branco eclesiástico impede padre preto de respirar.

A primeira partilha que faço desse "estrangulamento" sistêmico-eclesial refere-se ao âmbito educacional. Desde que entrei no caminho de formação para o sacerdócio até o presente momento, ingressei em 8 espaços acadêmicos de orientação católica: (01) Faculdade Eclesiástica de Filosofia, (02) Instituto Superior de Teologia João Paulo II, (03) PUC-RJ - Mestrado em Teologia, (04) Universidade Santa Úrsula (início do curso de psicologia), (05) PUC-RJ - Psicologia, (06) IJOPA - Convalidação/Licenciatura em Filosofia, (07) Universidade Católica de Brasília (Virtual) - Pós em Filosofia (TCC inconcluso) e  (08) PUC- SP - Doutorado.

Em nenhum desses 8 espaços supracitados tive uma professora ou professor negro. Repito, nenhum sequer. E nem vou considerar agora a ocultação das temáticas sobre o negro e o racismo nas grades curriculares. Em geral, todo o meu processo de (de)formação acadêmica se deu sob a batuta do supremacismo branco e suas epistemologias colonialistas. No que se refere especificamente à formação para o sacerdócio no Seminário Arquidiocesano São José, sem dúvida, fui (de)formado por bispos brancos, reitores brancos, diretores espirituais brancos, professoras e professores brancos, livros e autores brancos; tudo branco para forjar uma Igreja branca a serviço de um mundo branco.

Por que não nos é apresentada, por exemplo, a potente obra Teologia Negra de Ronildo Pacheco? O que há de negro na formação presbiteral?

Por minha conta e risco, transgressoramente, cursei pós-graduação em História da África e do Negro no Brasil na Universidade Cândido Mendes. Foi um oásis no deserto da branquitude colonial esclesiástica. A propósito, qualquer diocese do Brasil, como a do Rio de Janeiro, erigida em território que contou com grande ingresso da população negra escravizada que não abraçou (e nem abraça) a Lei 10.639 - que faz obrigatório o ensino sobre a história da África e do Negro no Brasil - deixa escancarado, ipso facto, o racismo que promove. Não deveria ser a Igreja, em virtude de seu passado colonial escravocrata, a primeira a abraçar a Lei 10.639? Levando a sério as palavras de Papa Francisco, como "fechar os olhos ou tolerar" essa situação de racismo mascarado?

O processo de formação para a vida clerical (bispo, padre e diácono) implica, sob variadas formas, assumir a branquitude como paradigma. O clero é branco. A Igreja é branca!

Assumir a negritude, no contexto eclesiástico, é remar contra a maré e não raro, como no meu caso, transitar/capoeirar por entre arames farpados. Meu pai Jerônymo (falecido este ano) e meu irmão mais velho, Lázaro (falecido ano passado), certamente, morreram achando que como padre minha vida estivesse mais livre do racismo. Ledo engano! Quero, pois, que meus sobrinhos adolescentes, Mariana e José Augusto, saibam que o racismo eclesiástico me conduziu ao adoecimento.

O racismo adoece e mata em qualquer lugar. Sou, pois, um sobrevivente do racismo estrutural que constrói a sociedade e também o sistema eclesiástico. A partir do meu corpo ferido pelos arames farpados digo sem evasiva: para o sistema eclesiástico de brancura, vidas negras não importam.

No próximo escrito vou tratar sobre os 10 anos que estive à frente da paróquia Nossa Senhora de Fátima (Paciência/RJ) sem obter o título de pároco. Ser pároco é ocupar um lugar de poder no sistema eclesial. Só me tornei pároco, na paróquia que hoje lidero [Santa Bernadete, Bonsucesso], porque reivindiquei a função junto ao então arcebispo metropolitano, Dom Euzébio. Tive que "brigar" para obter o que meus irmãos de ofício, mormente, obtêm naturalmente e num tempo reduzido de vida sacerdotal. Como ler essa ferida que sangra em meu corpo desconsiderando o arame farpado do racismo social e eclesiástico?

Estou em isolamento porque fui infectado pelo novo coronavírus. Pelo que tudo indica, não morrerei de Covid, graças a Deus; mas nada, nem na sociedade e nem na Igreja, me garante que não morrerei de racismo - vírus, quase sempre "invisível", disseminado em toda sociedade e também na Igreja.

O racismo mata George Floyd, mata Ágatha, João Pedro, Miguel, Marielle e a lista segue ad infinitum. Eu já morri várias vezes... Meu pai e meu irmão morreram muitas vezes antes da morte derradeira. Adverte Conceição Evaristo, a mater Generosa das Letras Pretas: "A terra está coberta de valas e a qualquer descuido da vida a morte é certa. A bala não erra o alvo...".  E lembra ainda Conceição:  "A certidão de óbito, os antigos sabem, veio lavrada desde os negreiros". E isso é triste, isso é trágico; mas isso é fato!

Transitar como homem negro em 8 espaços acadêmicos de orientação católica sem poder me reconhecer em nenhum professor ou professora é sim joelho branco em meu pescoço preto e chicotada colonial na pupila dos meus olhos. A invisibilidade do negro é uma das facetas mais cruéis do racismo brasileiro. E essa ocultação sistemática a Igreja também promove sem constrangimento ou culpa.

Quantos párocos negros têm as paróquias da zona sul ou da Barra da Tijuca? O chicote que estala na batina, estala na pupila.

Em outra partilha, no contexto da celebração dos meus 26 anos de padre, vou tratar da violência mais racista inscrita em meu corpo na ambiência eclesiástica. Um bispo branco ajoelhou-se em meu pescoço e, seguindo o protocolo escravocrata, impediu-me de ingressar no corpo docente da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. É como se dissesse: lugar de negro é limpando o banheiro da faculdade ou servindo café.

Desde que nasci em 1967 (e não era tempo de pandemia) luto contra o isolamento social; desde que pisei no seminário até o presente momento, luto contra o isolamento eclesial.

Vidas negras importam?

Embora o sistema eclesiástico, na prédica, sustente que todos somos iguais em Cristo, na prática constrói esquemas de castas segundo os quais uns são tratados como mais humanos que outros. Esse é um legado colonial.

Há clérigos que vivem no "paraíso eclesiástico" e gozam de todas as benesses e privilégios que o mundo branco escravocrata pode ofertar a um mortal. Há outros que vivem no "purgatório" e movidos pela lei do carreirismo lutam, despudoradamente, pela seleção eclesial das espécies. Outros há que vivem no "inferno eclesiástico". Esse é o meu lugar! E é desse lugar-senzala que nasce minha "escrevivência". E, no rastro de Conceição Evaristo, minha escrita preta enseja, confessadamente, "acordar a casa grande de seus sonos injustos". O racismo eclesiástico promove um contingente presbiteral de vulnerabilidade; o racismo eclesiástico produz asfixia.

Escreve com sensibilidade engajada a teóloga Maria Clara Bingemer (PUC-RJ):  "A forma como Floyd foi assassinado é reflexo direto de uma segregação branca, que mergulha suas raízes na escravidão (...). A frieza com que o policial branco fincou seu joelho sobre o pescoço da vítima, com as mãos no bolso, demarca a posição da supremacia branca...esmagando a função mais vital do outro enquanto ser humano: sua possibilidade de respirar".

E Nelson Rodrigues, oportunamente, reflete em posição antirracista: "Não caçamos pretos, no meio da rua, a pauladas, como nos Estados Unidos. Mas fazemos o que talvez seja pior. A vida do preto brasileiro é toda tecida de humilhações. Nós o tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilânime de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite". E diz ainda Nelson Rodrigues: "Acho o branco brasileiro um dos mais racistas do mundo".

E é pela violência fria e inclemente desse racismo mascarado brasileiro, como incansavelmente denunciou Abdias Nascimento, que o chicote também estala na batina do padre negro. Com ou sem remorso, o poder eclesiástico, tal como meu corpo o vivencia e narra, é, física e/ou simbolicamente, joelhos brancos em pescoço negro. Por isso, meu corpo assumidamente preto grita no interior de uma Igreja estruturalmente branca: "Eu não consigo respirar"!

Mas a história do povo negro não termina aí. É preciso fazer justiça ao legado de resistência, enfrentamento e insurgência de nossos antepassados.

Nossa história, desde Áfricas, passando pelos tumbeiros e os mais diversificados processos de escravização, jamais foi a história de corpos passivos estrangulados silenciosamente no chão colonial. Nenhum sistema escravocrata, inclusive o eclesiástico, bem como nenhum joelho de policial branco ou de qualquer poder genocida do Estado, jamais vai compreender que mesmo com o pescoço esfolado sempre restará algo de insurgente na boca preta.

No livro, Em Crítica da Razão Negra, Achile Mbembe nos ajuda a saber que em cada negra ou negro transformado em "farrapo humano" pela colonialidade jamais restará somente os órgãos esticados no chão. Diz Mbembe: "resta também a fala, último sopro de uma humanidade devastada, mas que, até às portas da morte, se recusará a ser reduzida a um monte de carne... mesmo cortado em dois, o supliciado continua a proferir uma recusa. Não para de repetir a mesma frase: "'Não quero morrer desta morte'".

Veja aqui o padre Gegê em atuação na sua igreja

Criado em 2020-06-09 15:43:11

Texto de Lina Meruane é adaptado para teatro on-line internacional

A peça Sangue no Olho será transmitida desta sexta-feira, 28/5, até 13/6, sextas e sábados às 20h e domingos às 18h.  É um espetáculo inédito apresentado por artistas situados simultâneamente em diferentes cidades: Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Évora (Portugal).

Com adaptação e direção de Delson Antunes, o espetáculo Sangue no Olho segue a trajetória da personagem Lina, uma escritora chilena radicada em Nova York, que carrega desde jovem uma doença misteriosa em seus olhos. Um dia, quando vai a uma festa, uma das suas veias oculares estouram e seu globo ocular se enche de sangue.

Enquanto aguarda as pesquisas que possam desvendar a progressão da doença e as possibilidades de tratamento, a protagonista volta para o Chile e lá tem que se defrontar com seu conturbado relacionamento familiar.

Lina enfrenta o destino com uma determinação descomunal. Ela precisa aprender a usar os “olhos da mente” e sabe o quão difícil é esse aprendizado. Ela tem ao seu lado seu incansável companheiro Ignácio.

O espetáculo acompanha a luta ávida e sufocante de Lina, contra esse inimigo invisível e implacável: a cegueira. Ao mesmo tempo, a obra investiga as relações humanas, a dependência do outro, as manipulações, e os jogos de poder que sustentam as relações amorosas, profissionais e familiares.

Aliando cenas de muita tensão, conflitos e expectativas com outras recheadas de humor e afeto, Sangue no Olho nos apresenta, através de seus personagens, uma conjunção de amores, ódios, temores e esperanças. “É uma inspiração vigorosa para enfrentarmos os tempos sombrios que vivemos”, aponta o diretor Delson Antunes.

O Teatro online é uma nova forma de fazer teatro que emergiu no período de pandemia, com teatros fechados e restrições para eventos com risco de propagação do vírus. Vários artistas e coletivos teatrais vêm se reinventando a partir da utilização de plataformas on-line para atrair uma proximidade com o público, mesmo que virtualmente, oferecendo à plateia a arte da interpretação ao vivo para o conforto e segurança de sua casa.

Sangue no Olho é um espetáculo inédito desenvolvido por artistas em diferentes cidades: Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Évora (Portugal), que se uniram para criar uma peça teatral on-line, adaptada da obra da autora chilena Lina Meruane, grande expoente da literatura latinoamericana.

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Ficha técnica
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Adaptação e direção: Delson Antunes
Elenco: Letícia Abadia, Anna França, Chico Sant´Anna e Iuri Saraiva
Assistente de Direção: Beatriz Pinheiro
Coordenação de Produção: Letícia Abadia e Anna França
Produção: Raphael Veiga
Cenário e direção de arte: José Dias
Iluminação: Aurélio de Simoni
Trilha Sonora: Diogo Cerrado
Designer: Karol Kanashiro
Técnica e dramaturgia virtual: Leonardo Rodrigues
Idealização: Letícia Abadia

Expediente:
Temporada on-line – dias 28, 29 e 30 de maio, 4, 5,6, 11,12 e 13 de junho de 2021.
Sextas e Sábados às 20 horas e Domingos às 18 horas.
Ingressos: R$ 20, R$ 30, R$ 50 e R$ 100 na plataforma Sympla
Classificação Indicativa: 14 anos
Duração: 80 min
No dia 13 de junho (domingo), após a apresentação será realizado um bate-papo com a autora Lina Meruane.
Link para compra de ingressos:
https://www.sympla.com.br/produtor/sanguenoolho
Site do espetáculo: https://teatrosanguenoolho.wixsite.com/espetaculo
Instagram: @teatrosanguenoolho

Criado em 2021-05-28 03:53:33

Hélio Doyle: “É preciso uma frente democrática para derrotar o fascismo”

“Há um golpe em andamento no Brasil. O presidente Jair Bolsonaro quer o poder total, ele não sabe como conviver com a democracia. Com apoio de alguns setores militares, ele constrói seu plano autoritário de governo organizando milícias violentas país afora, prontas para entrar em ação”. Estas foram as primeiras afirmações do jornalista Hélio Doyle, consultor em comunicação e política e professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB), no programa Diálogo do Sul, transmitido pelo YouTube.

Desse Diálogo do Sul participaram Ana Prestes, socióloga de UFMG, João Vicente Goulart (filho do ex-presidente João Goulart), Leandro Grass, deputado distrital pela REDE-DF, Rafael Parente e Tiago Nascimento.

Hélio também acha que é “importante dar entrada com o maior número possível de pedidos de impeachment do presidente pelos inúmeros crimes de responsabilidade já cometidos, mas está claro que não há condições objetivas para que esses pedidos tenham sucesso na Câmara dos Deputados”. Além da busca de apoio no chamado Centrão para impedir qualquer votação de impeachment, as oposições não estão podendo sair às ruas por causa do isolamento social imposto pela pandemia. Bolsonaro continua mobilizando seus apoiadores.

Enquanto isso, Doyle sugere a construção de uma frente ampla nacional para derrotar o fascismo que assumiu o poder no Brasil. Para alimentar esse debate, o jornalista distribuiu entre amigos, colegas, personalidades e dirigentes partidários o que ele chama de 28 pontos para derrotar o fascismo e construir um projeto para o Brasil.

A seguir, a íntegra do documento assinado pelo jornalista Hélio Doyle:

28 pontos para derrotar o fascismo e construir um projeto para o Brasil

Este documento apenas alinha algumas questões ligadas à conjuntura e propõe a construção de uma frente democrática contra o projeto fascista de Bolsonaro e de uma frente popular para elaborar e apresentar um projeto para o Brasil e disputar as eleições de 2022.

As ideias são expostas sucintamente em cada ponto, podendo ser desenvolvidas em discussões posteriores. Parte-se do princípio de que, para formular estratégias políticas, é preciso analisar com realismo e profundidade a situação concreta, atendo-se aos fatos, à correlação de forças e às contradições existentes na sociedade — e não aos nossos desejos e ilusões. 

1

O Brasil passa por dois flagelos: a pandemia do Covid-19 e o governo de Jair Bolsonaro. Não é preciso citar aqui os males que ambos causam ao país, mas é importante ver que há uma correlação entre eles — a postura, o discurso e as atitudes de Bolsonaro impedem que a pandemia seja correta e eficazmente combatida, tanto no aspecto sanitário quanto no econômico. Bolsonaro é o maior óbice ao enfrentamento eficaz e eficiente do Covid-19 e é responsável pelos resultados nefastos da pandemia, presentes e futuros.

2

Teria sido preciso, pois, afastar Bolsonaro da presidência para lutar adequadamente contra a pandemia e minimizar seus reflexos na economia. Bolsonaro deixou claro, por suas posições políticas e ideológicas e pela postura anticientífica, que sob seu comando a pandemia não seria combatida como se deveria e a população não teria a necessária assistência devida pelo Estado. Não houve até agora, porém, condições objetivas para que o afastamento ocorresse, por impeachment, decisão judicial ou, como chegou a ser cogitado, interdição por transtornos mentais.

3

O afastamento de Bolsonaro, porém, não se justifica apenas por sua postura diante da pandemia, minimizando-a, insuflando o desrespeito a medidas sanitárias internacionalmente recomendadas e não tomando as medidas econômicas necessárias para assegurar o distanciamento social dos mais pobres, com a manutenção dos empregos e o suporte aos autônomos e às empresas. O presidente vem acumulando também claros crimes de responsabilidade, arrolados em mais de 30 pedidos de abertura de processo de impeachment, e é objeto de inquérito no Supremo Tribunal Federal. Há muito mais motivos para decretar o impeachment de Bolsonaro do que havia para afastar Fernando Collor e Dilma Rousseff da presidência. 

4

O mais grave motivo para afastar Bolsonaro da presidência, porém, é seu projeto político inspirado pelo seu guia Olavo de Carvalho: destruir as instituições democráticas do Estado e da sociedade civil, alterar a Constituição de 1988, assumir poderes absolutos e reprimir violentamente seus opositores. Um projeto de conteúdo fascista, em andamento, que pressupõe um golpe ou autogolpe. Por isso Bolsonaro aposta na polarização e na radicalização, na organização de um partido sob seu total comando, em uma militância sectária, violenta e armada e na cooptação das Forças Armadas para apoiar seu projeto. Todas as ações e as falas de Bolsonaro e de seus seguidores mais próximos, entre os quais seus filhos, dirigem-se para a consecução desse projeto por meio de um golpe. Caso não seja possível concretizá-lo até 2022, a reeleição é etapa fundamental para isso: ou ganha força política para viabilizá-lo, com a vitória, ou alega fraude e mobiliza suas bases para o golpe, em caso de derrota. 

5

As forças políticas e sociais que defendem a democracia e se opõem ao fascismo bolsonarista e à sua necropolítica precisam afastá-lo com urgência da presidência não só pelas razões juridicamente objetivas — os inúmeros crimes de responsabilidade e comuns cometidos por ele — como para impedir a consecução do golpe antidemocrático e de conteúdo fascista que planeja. Os riscos são reais e nem mesmo a realização de eleições em 2022 protege o país dessa ameaça, pois os bolsonaristas não se conformarão com uma derrota e partirão para o confronto. 

6

Destituir Bolsonaro é hoje a tarefa central para os democratas de todos os matizes. Faltam, porém, as condições objetivas que existiam quando houve os impeachments de Collor e Dilma: não há, devido à quarentena, mobilizações populares para pedir o afastamento; não há garantia de haver dois terços dos votos na Câmara para abrir o processo; e não há, aparentemente, a disposição da maioria do segmento empresarial e financeiro em promover o impeachment. Além disso, o país passa por uma pandemia que exige atenção prioritária e os parlamentares estão dispersos, reunindo-se virtualmente, a distância. Tentar abrir um processo de impeachment agora pode ter efeito contrário ao desejado, pois o pedido pode ser derrubado pelos deputados.

7

Bolsonaro, assim, continua a avançar no seu projeto político. A pandemia é encarada por ele como uma oportunidade para construir as condições necessárias para seus planos: acirramento das contradições entre bolsonaristas e a oposição, ocupação das ruas por sua militância, acirramento da violência, insatisfação social diante da inevitável recessão econômica e instauração de um ambiente de confronto e caos social que leve à decretação de estado de sítio e à intervenção das forças armadas a seu favor. Além disso, sua postura de privilegiar a economia e os negócios e se opor ao distanciamento social o aproxima de segmentos empresariais de todos os portes.

8

Temendo o enfraquecimento político e perda de apoiadores, Bolsonaro procura se eximir de qualquer responsabilidade pela disseminação do vírus e pelas mortes e, também, pelas consequências econômicas negativas da pandemia. Joga a culpa em governadores, prefeitos e no Supremo Tribunal Federal. Mas, mesmo que seja considerado culpado pela maioria da população e enfrente dificuldades políticas — com a possibilidade de um processo de impeachment depois da pandemia— e protestos nas ruas, ele acha que o quadro lhe beneficiará, já que aposta no caos para dar o golpe com apoio das forças armadas. Acredita que enquanto mantiver pelo menos 25% de apoio na população, a simpatia e sustentação de militares e policiais e o suporte de milícias armadas e digitais, terá condições de se manter na presidência e caminhar para o golpe.

9

Em suma: mantendo-se no poder, Bolsonaro tentará dar seu golpe em qualquer circunstância, pois conta para isso com o que considera essencial: o apoio de uma base social cujas principais características são a defesa do capitalismo em sua versão ultraliberal; a ideologia de extrema-direita e o ódio visceral à esquerda; o conservadorismo em relação a temas comportamentais; o fundamentalismo cristão tosco; e a retórica nacionalista, mas com postura na prática submissa aos Estados Unidos. Essa base social é composta de pessoas de todas as classes sociais, de muito ricos aos extremamente pobres, do empresariado ao lumpesinato.

10

A base social do bolsonarismo tem seu braço armado: indivíduos que integram todos os escalões do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, das polícias militares e das demais forças policiais; membros das milícias criminosas que atuam nas cidades; milicianos rurais, que são fazendeiros e seus capangas e jagunços. Militares, policiais e milicianos urbanos e rurais têm sido beneficiados por inúmeras medidas tomadas pelo governo e constituem hoje um importante sustentáculo de Bolsonaro. E é com esse braço armado que ele conta para vencer nos confrontos nas ruas, intimidar e enfrentar os oposicionistas e criar o caos social que leve ao estado de sítio ou à intervenção das Forças Armadas — a seu favor, naturalmente.

11

Bolsonaro perdeu o apoio de uma parcela dos que o apoiaram nas eleições de 2018 e acabou a ilusão, em setores da direita e do centro que nele votaram, de que, em seu governo, ele e os fundamentalistas cristãos e extremistas ideológicos poderiam ser controlados pela pretensa racionalidade e sensatez de militares estrelados e da equipe econômica ultraliberal. Segmentos do empresariado urbano e rural e do capital financeiro que apoiaram Bolsonaro apostando na execução da política econômica ultraliberal, das privatizações e das reformas pregadas por seu ministro Paulo Guedes decepcionaram-se com os fracos resultados depois de um ano de gestão e com as dificuldades colocadas, pelo próprio presidente e pela ala ideológica e fundamentalista do governo, ao ambiente de negócios que desejam.

12

O empresariado não é homogêneo e unido. Há muitas contradições internas que envolvem o grande capital industrial, comercial, financeiro e rural, assim como entre os empresários que atuam no mercado interno e os exportadores. Os interesses desses segmentos, embora sejam os mesmos em termos mais amplos, diferenciam-se diante de políticas e ações específicas do governo. Daí afloram contradições entre cada um desses setores do empresariado — e suas subdivisões — e o governo. Em decorrência delas, parte dos empresários pensa em alternativas a Bolsonaro, mas outra parcela ainda acredita que poderá atingir seus objetivos acertando os rumos de sua gestão e se opõe a seu afastamento.    

13

Como reflexo disso, contudo não somente por isso, também há contradições entre o governo de Bolsonaro e os políticos de centro, de direita e mesmo de extrema-direita que o apoiaram nas eleições. A maioria deles representa e reflete interesses empresariais, mas a postura de oposição ao governo, em diferentes níveis, deve-se também a questões eminentemente políticas e referentes às disputas eleitorais e de poder. As ameaças de Bolsonaro e de seus seguidores ao Congresso Nacional e a hostilidade aos políticos contribui para afastá-los do governo. As pretensões eleitorais de quadros do centro e da direita também os distancia de Bolsonaro.

14

Não se pode, igualmente, subestimar a contradição entre segmentos empresariais e de extrema-direita que defendem um governo autoritário como necessário para implementar as medidas econômicas impopulares, de um lado, e políticos que precisam da vigência de práticas democráticas para exercer seu papel, de outro. A questão democracia versus ditadura também leva os principais empresários da comunicação e do jornalismo, aos quais não convêm um regime autoritário, a se opor agora a Bolsonaro. Assim como há militares que acham que a ordem social e o desenvolvimento econômico só acontecerão em um regime forte e autoritário, há os que querem as Forças Armadas cumprindo apenas seu papel constitucional em uma democracia, opondo-se a qualquer golpe.

15

Há, porém, uma questão que, independentemente de Bolsonaro, une os diferentes segmentos empresariais — inclusive os da comunicação —, os políticos do centro à extrema-direita, os militares das três forças e os policiais de todas as corporações: o temor de que a esquerda e a centro-esquerda voltem a eleger um presidente da República. Para todos eles, que trabalharam intensamente para derrubar a presidente Dilma Rousseff, inviabilizar a eleição de Lula e construir uma alternativa liberal ou ultraliberal de poder, é inadmissível que o PT ou qualquer partido ou pessoa com posições à esquerda volte ao Palácio do Planalto. Isso, no entender da direita, seria fatal para seus interesses econômicos e políticos.   

16

Por isso, Bolsonaro só será afastado do poder antes de 2022 se as forças políticas de centro e de direita e a expressiva maioria do empresariado entenderem que não há mais condições efetivas para que continue no comando e que seu governo contraria seus interesses empresariais e políticos, sendo melhor apostar no seu vice, general Hamilton Mourão. Mas farão isso apenas se o afastamento não beneficiar a esquerda, agora ou nas eleições de 2022. Ou seja: a alternativa a Bolsonaro — seja imediata, por impeachment, ou distante, por eleição — tem de estar na direita e compromissada com seus interesses. Isso é fundamental para o projeto econômico e político desses segmentos.

17

Como a maioria dos deputados e senadores é conservadora, representa segmentos empresariais e se coloca entre o centro e a direita, o impeachment, assim, só prosperará se as contradições com Bolsonaro e seu governo se acirrarem, por fatores internos a esses segmentos ou devido a uma grande mobilização popular e da sociedade pelo afastamento do presidente. A centro-esquerda e a esquerda não têm força parlamentar para viabilizar o impeachment e não podem, durante a pandemia, mobilizar seus militantes e a população para manifestações de rua em apoio ao afastamento. Mas quando houver condições para se mobilizar, essa terá de ser uma prioridade.

18

São, pois, várias as razões pelas quais o processo de impeachment não avança, embora haja mais de 30 pedidos apresentados. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, do DEM, alinhado a segmentos empresariais e defensor de medidas econômicas ultraliberais, não autorizará o início do processo enquanto não sentir que tem respaldo empresarial e tiver absoluta segurança de que será aprovado. E que, além disso, a abertura do processo não provocará o apoio institucional das Forças Armadas a Bolsonaro. Maia sabe que, mesmo vindo a ser de interesse dos segmentos empresariais, o impeachment pode ser difícil em um momento em que Bolsonaro coopta deputados do chamado “centrão”, coloca seus apoiadores nas ruas e incentiva a violência. E quando, devido à pandemia, os deputados estão dispersos, reunindo-se virtualmente, e os que defendem o afastamento não saem às ruas.

19

Nada impede, porém, que os que desejam o afastamento de Bolsonaro da presidência apresentem pedidos de impeachment e insistam para que o presidente da Câmara inicie a tramitação. É preciso manter aceso, em qualquer circunstância, a palavra de ordem de “Fora Bolsonaro”. Além disso, há também ações no Supremo Tribunal Federal que podem levar à abertura do processo. Mas só a pressão popular é que poderá levar os setores hoje recalcitrantes a apoiar o impeachment. A resistência bolsonarista ao impeachment, no Congresso e nas ruas, só poderá ser derrotada com grandes mobilizações populares e a formação de uma frente ampla democrática, unindo forças políticas e sociais da direita à esquerda. Para cumprir a tarefa principal, que é derrotar o adversário comum, é preciso unir forças divergentes e até antagônicas, sem sectarismo e exclusões.

20

Uma frente ampla democrática pela destituição de Bolsonaro não significa tentar estabelecer um programa comum nem assumir compromissos com o futuro governo e para as eleições de 2022. Essa frente não é uma coalizão para governar ou uma frente eleitoral, mas uma união de forças com um objetivo específico, e que se dissolve quando esse objetivo é atingido. Afinal, quem vai assumir a presidência após a destituição constitucional de Bolsonaro é o general Hamilton Mourão, vice-presidente da República.

21

A ascensão de Mourão, naturalmente não entusiasma a esquerda, mas é a única saída constitucional possível, já que o Tribunal Superior Eleitoral não irá impugnar a chapa vitoriosa em 2018, embora haja razões para isso. Mourão, um defensor da ditadura de 1964 e de seus métodos, claramente de direita, irá certamente continuar a implementar medidas econômicas e sociais ultraliberais e contrárias aos interesses dos trabalhadores e da maioria do povo. Mas, aparentemente, não cultiva pretensões autoritárias e golpistas, defende o diálogo político e provavelmente será mais pragmático na política externa, não se alinhando incondicionalmente aos Estados Unidos e Israel, como Bolsonaro. Com Mourão na presidência, o processo político tende a caminhar com normalidade para as eleições presidenciais e parlamentares de 2022, o que é positivo.

22

As pesquisas de opinião e a observação da realidade têm mostrado que o pensamento conservador e de direita é hoje amplamente majoritário no Brasil e não há nenhuma indicação de que esse quadro irá ser alterado até as eleições, com ou sem o afastamento de Bolsonaro. As análises de cenários têm de considerar esse dado. Supondo que o golpe não tenha se concretizado e Bolsonaro se mantenha na presidência até 2022 ou, mesmo sofrendo impeachment, não perca os direitos políticos (como ocorreu com Dilma), ele deverá ser candidato a presidente. Mantendo uma base social na faixa de 25% a 30% do eleitorado, muito provavelmente irá ao segundo turno. Mas, se Bolsonaro for afastado da presidência e perder os direitos políticos, a probabilidade de vitória de um candidato identificado com a centro-direita tende a ser maior do que a de um candidato de esquerda.

23

Bolsonaro acredita que irá para o segundo turno e a polarização política levará seu opositor a ser o candidato da esquerda. Acha que será novamente vitorioso, pois terá novamente o apoio da maioria do eleitorado e dos setores políticos e empresariais que não querem a volta do PT e dos “comunistas”. Bolsonaro teme ir para o segundo turno com um candidato da centro-direita, ou mesmo da direita democrática, que possa receber os votos da esquerda para impedir que se reeleja. Ou seja, acredita que contra um candidato de esquerda, a direita estará com ele; contra um de direita, a esquerda estará contra ele. Se for derrotado, Bolsonaro alegará fraude (mais uma vez) e mobilizará seus apoiadores para irem às ruas e provocar o caos, até com derramamento de sangue, e assim receber o apoio das Forças Armadas. O golpe que pretende será então realizado. 

24

Diante do cenário negativo, o caminho para os partidos políticos de esquerda e de centro-esquerda, hoje enfraquecidos socialmente e no Congresso, é constituir organicamente uma frente popular que faça uma oposição organizada e consistente ao governo —seja de Bolsonaro ou de Mourão —, formule um projeto para o Brasil e se prepare para defendê-lo ao disputar as eleições parlamentares, para governador e para presidente da República. É cedo para traçar uma tática eleitoral, pois há muitas variáveis e até mesmo possíveis mudanças na legislação. Mas é importante que os partidos que integrarem a frente popular estejam unidos na disputa e acumulem forças desde já, no próprio processo de construção da unidade e do projeto para o país, na retomada do trabalho político junto à população e às entidades da sociedade, na ação parlamentar, no exercício dos governos municipais e estaduais e no desenvolvimento de mecanismos de comunicação eficazes.

25

Uma frente popular não representa a descaracterização ou a extinção dos partidos que a integram, mas a unidade em torno de princípios e de um programa comum, adequado à realidade e à conjuntura do momento. Os partidos continuam com seus programas, definem conjunta e democraticamente os candidatos majoritários e cada organização define seus candidatos proporcionais. Mas atuam unidos nos parlamentos, nos governos e no processo eleitoral, somando suas forças específicas para o cumprimento de programas comuns. Isso, inclusive, não impede que, em determinadas circunstâncias especiais, um partido assuma posição divergente dos demais. A frente popular deve ser replicada, no plano social, por uma ampla unidade de entidades de todos os tipos (comunitárias, sindicais, representativas de segmentos, culturais).    

26

Para constituir a frente popular é preciso, depois de os partidos deixarem em segundo plano suas diferenças e divergências e abandonarem posturas sectárias e hostis:

  1. Elaborar uma carta de princípios e um programa comum, a ser referendado pelas bases e direções de cada um dos partidos.
  2. Elaborar plataformas comuns para a ação parlamentar no Congresso Nacional e nos legislativos estaduais e municipais.
  3. Integrar os partidos da frente popular, mediante debate amplo de programas de governo, nas administrações estaduais e municipais sob direção de um deles.
  4. Iniciar o debate para a elaboração de um programa de governo e uma tática eleitoral nacional para as eleições de 2022, considerando a correlação de forças e as possibilidades reais, assim como de programas para os estados e para o Distrito Federal.

27

A formação de uma frente ampla democrática é essencial para destituir Bolsonaro. A frente popular é essencial para a esquerda se reerguer, exercer seu papel político e disputar com força as eleições de 2022. Sua constituição é um processo complexo, difícil e demorado, mas por isso mesmo precisa ser imediatamente iniciado, tendo em vista a extrema urgência quanto à formulação de propostas para questões que já estão sendo colocadas — reformas tributária, administrativa, eleitoral e outras — e a proximidade das eleições em 2022. Os partidos de esquerda têm de ir além da simples oposição a medidas apresentadas pelos ultraliberais e ter propostas alternativas. Devem também apresentar à sociedade um projeto amplo para o país. Não será fácil, mas a caminhada começa com o primeiro passo.

28

Esse primeiro passo deve ser, em reunião dos principais dirigentes dos partidos que aceitam, em princípio, discutir a formação da frente popular, definir princípios básicos, metodologia de trabalho e calendário. Um grupo garantidor de três a cinco pessoas, não filiadas aos partidos, pode acompanhar o processo e mediar, dirimir questões controversas e procurar superar divergências que surjam e não sejam incompatíveis com a criação da frente.

Criado em 2020-05-17 00:33:30

A dor do abandono e o prazer do erótico

Romário Schettino –

Ganhei de presente um livro fascinante, desses que a gente começa a ler e não para. É um romance curto, 200 páginas, escrito por um jovem escritor americano, Garth Greenwell, 41 anos. “O que te pertence” (What belongs to you), editora Todavia, leva o leitor do erotismo gay às mais profundas reflexões sobre perdas, abandonos e, sobretudo, os conflitos humanos.

A história nasce a partir de um encontro fortuito de um professor de inglês em Sófia, na Bulgária, com um rapaz de programa, Mitko, em um banheiro público do Palácio Nacional da Cultura, local destinado ao cruising, com o qual passa a ter relações sexuais. Mas não fica só nisso, eles vão se envolvendo emocionalmente até tudo se tornar impossível, desesperador e, ao mesmo tempo, apaixonante, terno, doce e amável. A narrativa leva o leitor a compreender as tristezas, as alegrias, os prazeres. É como se Eros entrasse e saísse dos corpos a cada momento.

No entanto, quem pensa que vai ler apenas a descrição de cenas de sexo gay vai se surpreender com a riqueza dos relatos de vida que envolve o narrador, sem nome, as memórias da infância, suas relações com o pai conservador e a mãe submissa e confusa em seus desejos.

Durante uma de suas viagens de trem, o narrador descreve o que vê numa criança de seis anos, que viaja acompanhada de sua avó. Seu olhar terno para aquela infância tenta imaginar o futuro do menino no Leste Europeu, onde a juventude, sem perspectiva, como a de Mitko, perambula à procura de afeto e carinho. E o pior, sem estudo e sem trabalho.

A certa altura o narrador do romance diz que “o amor não é apenas uma questão de olhar para alguém, mas também de olhar junto com esse alguém, de encarar o que ele encara”. Não deixa de ser uma maneira correta de ver o mundo, o amor e a vida.

Não é por acaso que James Wood, famoso crítico de literatura do The New Yorker, considera este um dos melhores livros de 2016. E o The New York Times proclama: “É um clássico instantâneo a ser saboreado por todos os amantes da boa ficção: o esforço de um homem gay para entender seu próprio coração”.

Essa ficção tem também seu lado autobiográfico. Greenwell nasceu em Kentucky em 1978, um dos estados mais homofóbicos dos Estados Unidos, de onde saiu para sobreviver e viver sua homossexualidade. É poeta, crítico, cantor lírico e professor. Viveu na Bulgária, onde aprendeu búlgaro e ensinou inglês.

A partir deste romance, tornou-se um dos nomes mais promissores da ficção contemporânea. Esse seu livro foi eleito um dos melhores de 2016 por mais de uma dezena de publicações mundo afora. Atualmente, Garth vive em Iowa City.

É um livro para saborear uma vez e, se possível, mais de uma vez.

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Ficha técnica:

Romance: O que te pertence (What belongs to you)

Autor: Garth Greenwell (EUA)

Tradução: José Geraldo Couto

Editora: Todavia – São Paulo - 1ª edição/2019 – 208 páginas.

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O site português Comunidade Cultura e Arte fez uma esclarecedora e importante entrevista com o autor deste livro no dia 15/7/2018, antes de sua publicação no Brasil, que pode ser lida aqui:

https://www.comunidadeculturaearte.com/entrevista-garth-greenwell-nao-quero-ser-um-leitor-que-apenas-le-livros-que-mostram-o-mundo-que-conheco/

Criado em 2019-07-28 21:04:46

Da arte de fazer inimigos

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Até que ponto os escritores devem levar em conta a opinião da crítica e a opinião d@s leitor@s? Parece óbvio que os escribas interessados em vender cada vez mais estão sempre medindo o humor de uma e outr@s que nem o carinha na porta dos shoppings verifica a temperatura dos que estão se arriscando fora da quarentena. São populistas, digamos.

Na minha carreira de jornalista nunca dei muita pelota para os críticos. Na época do jornal Movimento, um amigo dizia que eu era excessivamente sarcástico ou mordaz. É fato! Embora eu domine um catatau de palavrões, nunca fez meu estilo xingar os inimigos, e olhe que na época estavam entre eles os generais Geisel e Figueiredo. A ironia, a farpa, o escárnio, o deboche e o sarcasmo foram melhores armas contra esses canalhas, que, além do mais, eram bem capazes de levar a gente pro pau de arara. Foi melhor não ter dado murro em ponta de sabre.

Faço esse longo nariz de cera para contar dois causos que me aconteceram desde que eu entrei (já saí!) no Facebook, e depois que passei a mandar as coisas que escrevo para uma lista de amigos e amigas do Whatsapp, sem que ninguém me pedisse, aliás. Foi invasão mesmo! Daí descobri que tenho um talento especial para fazer inimigos, na contracorrente do “clássico” do Dale Carnegie.

Primeiro caso – Em dezembro de 2018, fiz alguns comentários no Facebook sobre a prisão do João de Deus, o tarado e charlatão de Abadiânia, Goiás. Num deles, lamentei que algumas personalidades com responsabilidade pública, entre elas o Lula, a Dilma, o ministro Luiz Roberto Barroso e o governador Rodrigo Rollemberg, tenham promovido a superstição e não a ciência ao visitar o tarado. Houve reações imediatas. Uma amiga disse que eu estaria jogando a culpa dos estupros sobre as próprias vítimas do cabrón. Outra amiga, ex-assessora da Dilma, disse que eu deveria me retratar sob pena de ela iniciar uma campanha de cancelamento contra mim (na época, a palavra “cancelamento” não estava ainda na moda). Uau! Eu a deixei à vontade para começar a cruzada. Foi pena que ela não tivesse levado a pornográfica ameaça adiante, quando eu teria a oportunidade de enfrentar as forças do obscurantismo também infiltradas na esquerda. Eu até compreendo que, no desespero, uma pessoa doente busque a medicina dita alternativa, óleo de cobra e embaixadores do além. Mas fazer isso uma autoridade pública, que deveria dar o exemplo, é o fim da picada (não necessariamente da cobra)!

Leio agora na coluna do Tony Goes, na Folha, que a Globoplay estreia amanhã, 23, às 23h15, a minissérie de seis episódios Em Nome de Deus, produzida pela equipe do Conversa com Bial, a mesma que detonou o desgraçado de Abadiânia. A série, diz o Goes, seria “uma autêntica ‘Brazilian Horror Story’” e “revela um lado escabroso do caráter brasileiro”. Imperdível!

Segundo caso – Esse já me aconteceu na lista do Whatsapp, quando resolvi compartilhar a notícia de que um laboratório americano, Gilead Sciences, em convênio com a Food and Drug Administration (FDA, a Anvisa dos Estados Unidos), havia obtido resultados positivos no tratamento da Covid-19 com o uso do antiviral remdesivir, desenvolvido inicialmente para combater o Ebola. Os estudos demonstraram a capacidade do medicamento inibir a replicação do novo coronavírus em células epiteliais do trato respiratório, diminuindo em consequência os dias de internação do paciente. Resultados modestos, mas ainda assim promissores.

Amigo meu reagiu dizendo o seguinte: “Nenhuma novidade. Pesquisador cubano já havia anunciado a existência desse mecanismo e o interferon atua de acordo com esse princípio. Anúncio sugere propósito de credenciar pesquisa e medicamentos americanos”. Ele se referiu, obviamente, ao interferon alfa 2B, que militantes de esquerda vinham divulgando há semanas como sendo “a” cura miraculosa da Covid-19. Mesmo irritado com essa fake news, eu tentei explicar ao tal amigo as diferenças dos efeitos das duas drogas. Sem sucesso. O cabra me contra-atacou com  duas frases reveladoras: “A sua defesa da FDA me surpreende. Sigo a posição oficial da China que pede para não politizar a ciência”. 

Reveladoras por quê? Primeiro, porque o próprio sujeito “politizou a ciência” –  opondo a China aos Estados Unidos nesse caso específico como se, aliás, os cientistas dos dois países não estivessem colaborando nas pesquisas com o remdesivir e dezenas de outras drogas – e quis atribuir o “crime” a mim! Logo eu que não sigo “posição oficial” de ninguém, desconfiado que sou, na condição de grouchomarxista, de qualquer clube, igreja ou panelinha que me aceite como sócio. 

Em segundo lugar, porque ele fez uma leitura equivocada da minha militância comunista. Quem foi que disse a ele que eu odeio liminarmente os Estados Unidos   que nem “late por princípio” o cão do poema Morte do Leiteiro de Carlos Drummond? Eu posso ser ignorante, mas entendo um tiquinho de imperialismo, pô! Não sou desses que arrancam os cabelos (verdade que já não tenho muitos!) na luta contra os “anglo-saxões”. Minhas referências na matéria são o Lênin, o presidente Mao, o Amílcar Cabral e o Ho Chi Minh, entre outros, e não o Samuel P. Huntington, do Choque das Civilizações.

Na boa, escrevi uma carta a ele, dizendo que essa discussão me fazia lembrar uma cena do filme Círculo de Fogo (Enemy at the Gates), sobre o herói soviético Vassili Zaitsev (Jude Law) na Batalha de Stalingrado. O comissário Danilov (Joseph Fiennes) está na casa de Tânia Tchernova (Rachel Weisz) recrutando-a para o serviço de tradução dos informes interceptados dos alemães. Tânia havia estudado em Berlim. Danilov fica surpreso com a estante dela abarrotada de livros em alemão. Tânia percebe o choque do rapaz e, com certa malícia, deixa-o à vontade para levar alguns livros pra ler no quartel. Danilov diz: “Sei não! O que será que eles vão pensar de mim chegando ao quartel com livros do Goethe e do Schiller?” “Uai, responde Tânia, aí tem alguns do  Marx também!”

Conclusão: o tal amigo do Whatsapp me bloqueou, no mínimo me xingando de cripto-agente ou inocente útil do imperialismo ianque! Uma pena, mas fazer o quê? Vou continuar apegado ao princípio do “melhor perder um amigo do que perder uma piada”. Piadas boas são raras. Amigos, a gente sempre pode escolher entre os 7.793.139.985 de habitantes que o planeta tem nesse exato momento, segundo o Worldometer.

Bônus: assim provocador, já fui comparado a um velho anarcomunista russo da década dos 30 que volta e meia era preso sob a acusação de trotskismo, por fazer gozações com a direção do Partido. Um dia um amigo o encontra na Praça Komsomolskaya, em Moscou:

- Camarada Piétia, você por aqui!
- Pois é, solto há dois meses, que nem um passarinho!
- Rapaz, por que então você não foi no último encontro do Partido?
- Uai, camarada, se soubesse que era o último, eu teria ido!

 

Criado em 2020-06-22 22:20:27

Como o Brasil cai fácil em ciladas!

Anna Koretta (*)

Daqui dos recônditos de meu confinamento na Itália acompanho a cena brasileira com inquietação e palpitações no peito. Estão armando uma cilada para a esquerda. PT, PSol, PCO não deviam trair o povo que dizem defender. A quarentena precisa ser respeitada.

Boulos e seus sem tetos nas ruas de São Paulo, cariocas rodeados por famélicos favelados, mineiros, paranaenses, gaúchos, torcidas organizadas de futebol e quem mais, expostos à sanha de ímpios que têm Trump e Bolsonaro por trás. Reparem: Bannon já se intrometendo no Itamaraty!

Conversa fiada que o chefão rompeu com ele. A quem querem convencer? Para as boiadas dormirem tranquilas, essa. Tudo tramado de modo a aparentar ruptura. Na verdade o marqueteiro da maquiavelicamente brilhante campanha do patrão está é com outros encargos noutras plagas, a serviço de seus exclusos interesses, que não beneficiam a população da sua própria pátria – que dirá a dos países de que suga suas riquezas naturais.

Vem mais mortandade para os frágeis com a quebra do isolamento nesse grande país chamado Brasil, que é o mesmo de uma parte dos meus antepassados e meu também. A esquerda que aderiu aos protestos de amanhã está cega. Não vê que obedece exatamente ao que Bolsonaro prega e que sua vassalagem usurpadora do nosso verde-amarelo apoia, fanaticamente.

Pensa a esquerda revoltada que está em franca desobediência civil quando caiu foi de quatro na arapuca, ao aderir e engrossar as fileiras dos cultuadores da Estrela da Morte. A horda não dá ponto sem nó.

Repensa, Brasil. Ligue os fatos todos. Black Blocs de volta à cena, com policiais violentos sempre infiltrados – e a acusação da barbárie resultante recaindo sobre os que se manifestam pacífica e democraticamente. Sempre assim onde aparecem... por quê?? Reflitam.

E agora, todos mascarados! Eles, os anarquistas uniformizados de trajes pretos e os militantes inocentes como a flor, também. Que baile de máscaras interessante promete ser esse! Mirem-se menos narcísicamente no espelho das ocorrências atuais pelas ruas do Império que tanto lhes impressiona, ó militância pueril.

Anonymous também de volta e anunciando com alarde que vai publicar sabe-se lá o quê e que não cumpre – e neste momento, em que Trump "corta relações" com Bolsonaro no Twitter? Curioso gesto, dubiamente sintomático, envolvendo dois aliados presidentes de extrema direita, justo nesta hora de racha na esquerda quanto aos protestos, por quê?

Os direitistas extremados todos estão se divertindo tanto em saber que, mais uma vez, a tática da fanfarrona enganação caiu com a sutileza de uma pluma no meio dos inimigos, os atiçando a fazer o que seus estrategistas planejam. A guerra híbrida, gente! Lembrem-se de que esse engenho existe e que não é ficção?

Mais: presidente e vice ameaçam em seus discursos os dispostos a participar dos protestos. A polícia já mobilizada pra "baixar o pau". E por quê a insistência dos apelos do cientista político Luís Eduardo Soares? O que mais ele sabe, ou pressente, que lideranças e jovens militâncias não desconfiam?

Vocês não podem crer que vão enfrentar militares, meganhas e milicianos com estilingues, bodoques e sebo nas canelas-para-quê-te-quero. Prudência, gente jovem. Não ajudem a sinistrose a sufocar ainda mais o nosso povo desamparado, nossos amados nem ainda assim tão velhos e, pior, nossos anciãos.

Meu coração está inquieto e me dando toques. Ouçam as pancadas que ele anuncia dos perigos obscuros nos desvãos das avenidas e ruas do país. O que o Brasil precisa agora é de pressionar as instituições para que o defendam com fibra, garra e presteza. O Congresso, o Supremo, a Procuradoria estão repletos de provas que incriminam a quadrilha da famiglia no poder.

Os brasileiros já batalharam muito nas ruas. Há oito anos dão mostras explícitas, às autoridades, de sua consciência política e social, de sua coragem e dignidade, de que não fogem à luta em defesa de sua soberania, de seus muitos bens culturais, do fortalecimento de suas muitas conquistas em meio a tantas poças de suor, sangue e lágrimas.

Dirijam suas forças à cobrança a seus representantes nas instituições do Estado, ô patrícios companheiros! Organizem-se melhor em estratégias e táticas, em vez de se exporem, adolescentemente, arrogantemente, a ameaças e perigos largamente anunciados – e de sacrificarem mais vítimas às rondas do Covid.

Não se precipitem. Tudo ainda é possível de ser salvo, sendo bens materiais do país e recuperados, em se tratando de direitos confiscados do povo. A esperança novamente estapeada, torturada, combalida, mais injustas prisões, mais traumatismos, mais traumas psicológicos, mais asfixia, as vidas perdidas, não.
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(*) Anna Koretta é socióloga aposentada e escritora. Vive na Itália desde os anos 1970.

Criado em 2020-06-06 19:37:07

MAB abre para visitação pública com Tarsila do Amaral e Orlando Brito

O Museu de Arte de Brasília (MAB) abre suas portas ao público a partir desta sexta-feira (28/5). O museu volta a funcionar, depois de 14 anos de reformas, com duas exposições. Uma, no hall, com seis gravuras da artista Tarsila do Amaral (1886-1973) pertencentes ao acervo do MAB. A mostra celebra os 135 anos do nascimento de uma das mais importantes artistas do Brasil, que revolucionou a arte brasileira.

Tarsila foi a primeira artista a criar uma arte verdadeiramente nacional, nas palavras de Mário de Andrade. Sua pintura Abaporu (1928) fundou o movimento artístico da Antropofagia e é um dos quadros brasileiros mais conhecidos dentro e fora do país. A obra pertence atualmente ao Museu de Arte da América Latina de Buenos Aires (MALBA). As gravuras em exibição foram expostas pela última vez no MAB em 2004 e fazem parte de uma série de dez obras criadas pela artista paulista em 1971, cujos temas são paisagens antropofágicas e vistas de praias e do interior.

No Pilotis do MAB está a mostra Brasília: cenário do Poder reúne 18 fotografias realizadas entre 1966 e 2021 pelo fotógrafo e jornalista Orlando Brito, profissional reconhecido na cobertura política em Brasília. Mineiro e de família pioneira na capital, Brito começou sua vida profissional no jornal O Globo e depois migrou para a Veja, onde ficou por 16 anos. Foi também editor de fotografia do Jornal do Brasil, no Rio. Autor de diversos livros de fotografia, tornou-se hors concours” do Prêmio Abril de Fotografia, que ganhou 11 vezes.

Suas fotos normalmente ultrapassam o registro fotojornalístico e trazem um discurso poético-artístico a ponto de terem sido incorporadas aos acervos de instituições como o Museu de Arte de São Paulo, os Museus de Arte Moderna do Rio e de São Paulo e o Centre Georges Pompidou, de Paris. Na mostra, imagens do período da ditadura militar, da Constituinte (como a foto, acima, de Ulysses Guimarães em frente ao Congresso Nacional em 1988), das Diretas Já e da pandemia da Covid-19.

O MAB exibe ainda 10 painéis que contam a história do museu e de seu acervo. O público também poderá conhecer as transformações pelas quais passou na mais recente reforma. Entre as imagens reproduzidas estão as de obras de artistas como Rubem Valentim, Fernando Carpaneda e Célia Matsunaga.

Também apresenta, pela primeira vez, imagens de uma parte do acervo de design do MAB. Em celebração ao reconhecimento de Brasília como Cidade Criativa em Design pela UNESCO em 2017, o MAB reabrirá como um museu de arte e de design, com um acervo de cerca de 20 móveis autorais, incluindo peças raras de Sérgio Rodrigues e de Jorge Zalszupin e obras de designers jovens premiados da cidade, como Eduardo Borém e Raquel Chaves.

O museu vai oferecer um horário expandido de visitação, de 9h às 21h, todos os dias à exceção de terça-feira, diferenciando-se de outros museus da Secec, que abrem de sexta a domingo. Quatro exposições vão ocupar o hall, o pilotis e a área externa.

Para a segurança dos visitantes, serão adotados os protocolos de segurança de praxe: obrigatoriedade de máscara para entrar, medição de temperatura dos usuários na entrada, distanciamento monitorado entre as pessoas e álcool gel disponibilizado.

“Cumprimos mais um compromisso assumido com o público da capital e do Brasil, ao reabrir o MAB, completamente revitalizado e em condições de conforto e segurança sanitária, permitindo acesso ao acervo de valor incalculável”, destaca Bartolomeu Rodrigues, secretário de Cultura.

Outra novidade será a possibilidade de circulação de animais de estimação na área externa e nos pilotis de modo experimental, desde que responsáveis pelos “pets” respeitem a convivência com os visitantes e a higiene do local, das obras e dos equipamentos do museu. “Caso não haja incidentes sérios nas semanas seguintes à abertura, a política será tornada permanente”, diz Marcelo Gonczarowska, gerente do MAB.

Haverá, neste momento, máquinas automáticas de venda de lanches. Um café está previsto para funcionar nos pilotis, mas depende de licitação que será feita em junho e ficará sob a responsabilidade de Organização da Sociedade Civil ainda não definida.

O arquiteto e urbanista Luiz Philippe Torelly sugere à Secretaria de Cultura que realize no MAB exposições temporárias com obras do acervo das instituições federais localizadas em Brasília e que estão trancafiadas em salas e escondidas do público. O arquiteto se coloca à disposição para debater essa possibilidade quando houver interesse da Secec.

Leia aqui artigo relacionado ao tema proposto por Torelly.

Criado em 2021-05-28 02:40:54

Marcelo Freixo: “Por que não serei candidato a prefeito do Rio”

O deputado federal Marcelo Freixo (PSol-RJ) escreveu uma carta à militância de seu partido, aos seus eleitores e aos demais partidos do campo democrático explicando as razões pelas quais desiste de ser candidato à prefeitura do Rio de Janeiro em 2020.

O deputado concorreria ao cargo pela terceira vez, depois de ficar em segundo lugar nas disputas de 2012 contra o ex-prefeito Eduardo Paes e de 2016 contra Marcelo Crivella.

Em entrevista ao jornal O Globo, Freixo explicou que não conseguiu uma frente ampla com os partidos de esquerda. E disse: “A esquerda precisa ter maturidade”.

Freixo chegou a receber uma promessa de aliança com o PT e o PCdoB, mas o PDT e PSB não toparam. A ideia era lançar uma chapa encabeçada por Freixo e com a deputada federal Benedita da silva (PT) como vice, mas a iniciativa sofreu forte resistência de setores do próprio PSol. Equivocadamente, e candidatos ao fracasso, lançaram-se à disputa eleitoral os inexperientes deputado federal David Miranda e o vereador do Rio Renato Cinco.

“Ou o PSol tem a maturidade de entender o momento que o Rio está enfrentando, ou não dá para fazer mais sacrifício pessoal do que já fiz a minha vida inteira. Não é possível concorrer com menos estrutura agora, em 2020, do que em 2016”, disse ele, com razão à colunista Berenice Seara, do jornal Extra.

Com a saída de Freixo, a disputa tende a ser polarizada entre o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) e o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM). Na última pesquisa Ibope divulgada em dezembro do ano passado, encomendada pelo Globo e pela Folha de S. Paulo, Freixo apareceu na segunda colocação.

O vereador Tarcísio Motta (PSol-RJ) acha que é possível uma mudança de decisão de Freixo: “Espero que a desistência não se concretize, mas vamos continuar defendendo uma união das esquerdas“.

Eis a integra da carta de Freixo:

“Depois das duas catástrofes que se abateram sobre o Brasil, Bolsonaro e a pandemia, não podemos pensar como pensávamos antes, nem agir como agíamos antes.

Estamos enfrentando um dos maiores ataques da nossa história à democracia e à vida dos brasileiros. Bolsonaro se comporta como um aspirante a ditador que usa ilegalmente o cargo mais importante do País para alimentar uma guerra à democracia. Seu projeto de poder autoritário está retirando direitos e destruindo a dignidade do povo brasileiro com uma voracidade inédita.

Diante destes ataques, agravados pela ação genocida do presidente em meio à pandemia, a urgência da luta em defesa da vida e da democracia se impõe como um dever ante a realização dos nossos projetos pessoais. Por isso, decido sacrificar o meu desejo de disputar novamente a prefeitura do Rio de Janeiro para dedicar todos os meus esforços à construção de uma frente ampla que una nacionalmente o campo democrático no enfrentamento ao fascismo.

Não é fácil abrir mão da minha candidatura, tanto do ponto de vista pessoal quanto político. Mas a escolha se faz necessária para que, em vez de cuidar exclusivamente da minha campanha, eu possa trabalhar pela formação dessa aliança nas eleições municipais deste ano, tanto no Rio de Janeiro, cidade tão desigual e assolada pelo crime organizado e pela associação entre milícias e política, quanto em outras capitais do país. Assumo esse compromisso porque entendo que o pleito de 2020 será um passo decisivo para criarmos pontes, acumularmos forças, amadurecermos um novo projeto de Brasil e derrotarmos o bolsonarismo em 2022.

Além de me dedicar a essa articulação nacional em prol da unidade do campo democrático antifascista, seguirei enfrentando as duras, porém necessárias, batalhas que estamos travando no Congresso Nacional, onde obtivemos vitórias relevantes. Nós aprovamos a renda básica emergencial, garantindo R$ 600 para socorrer os brasileiros na crise quando o governo queria pagar apenas R$ 200; barramos a destruição da legislação que impede o acesso indiscriminado de armas e munições e derrotamos a excludente de ilicitude.

Foram conquistas importantes, porém insuficientes, na Câmara dos Deputados contra a agenda autoritária e violenta do governo Bolsonaro. Diante disso, é fundamental a minha permanência nesta trincheira de lutas que se torna ainda mais necessária diante das consequências da aliança entre o centrão e o governo, que passará a ter uma tropa de choque para seu projeto autoritário e genocida.

Não estamos diante de uma eleição como as outras. O desafio diante de nós é a própria sobrevivência das pessoas e da democracia. Não faz nenhum sentido, nesse momento dramático, pensar apenas em nossos projetos pessoais, em nossos partidos, valorizando nossas divergências. Quem for antifascista, hoje, é meu irmão, minha irmã. Chegou a hora de termos grandeza: ou demonstramos desprendimento e capacidade de diálogo, já, ou mereceremos o pior julgamento da história, por não nos unirmos para impedir a destruição da democracia e da vida do povo brasileiro”.

Criado em 2020-05-16 20:10:27

Moro e Dallagnol arrastam o Brasil para o esgoto da história

Romário Schettino –

Nunca, jamais na história da República brasileira nenhum escândalo de tamanha proporção deixou o Judiciário e o Executivo em saia justa semelhante. Os vazamentos publicados pelo site The Intercept Brasil, em um país sério, já teria provocado, no mínimo, a queda do ministro da Justiça, Sérgio Moro, e abertura de inquérito administrativo contra o procurador Deltan Dallagnol.

As conversas que vieram a público nos últimos dias, independentemente da origem das fontes, são verdadeiras, reais e não foram contestadas. O que interessa aqui são os conteúdos dessas conversas. Os hackers detidos e confessos não alteram em nada o que já foi publicado, nem o que ainda virá. Nada pode desviar o foco, queiram certos meios de comunicação, como a TV Globo, ou não.

Banqueiros de J.P. Morgan, Goldman Sachs e Deutsche Bank foram convidados para conversar com Deltan Dallagnol e o ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Fux em eventos secretos para discutir como saquear as riquezas nacionais ligadas à Petrobras. Não foi por acaso que esses bancos compraram a BR Distribuidora.

Os corruptos brasileiros, comprovados, merecem a cadeia de acordo com a lei, o Estado Democrático de Direito, com ampla defesa e o devido processo legal. Mas essa gente – procuradores, juízes, ministros –, se misturar com empresários e banqueiros para, sorrateiramente, usar os cargos que ocupam em benefício próprio, não é apenas vergonhoso, é criminoso. É crime de lesa-pátria.

Os tais encontros secretos foram organizados pela XP Investimentos em junho de 2018. Não foi à toa que a representante da XP contactou o coordenador da força-tarefa da Lava Jato, Deltan Dallagnol, e prometeu que o “bate-papo” com os banqueiros seria “privado, com compromisso de confidencialidade”, e, mais, que já havia feito um evento parecido com o ministro do STF Luiz Fux e, suprema vitória, “não saiu nenhuma nota na imprensa”. Claro, os jornalistas, com raras exceções, só publicam declarações oficiais e releases.

Dallagnol aceitou e pediu que a XP conversasse com a agência que organiza os eventos pagos do procurador, a Star Palestras, que acabou coordenando a contratação. O Intercept já revelou, com base nos chats secretos da Lava Jato, que Deltan Dallagnol disse ter faturado quase R$ 400 mil com palestras e livros em 2018. Entre as empresas que pagaram pela presença do procurador, está uma investigada pela própria Lava Jato. No caso da XP, segundo o Intercept, não está claro se a ida do procurador foi remunerada.

Dallagnol e seus colegas discutiram, no Telegram, o potencial risco para suas imagens ao se sentarem com banqueiros, mas acabaram decidindo que valia a pena. “Achamos que há risco sim, mas que o risco tá bem pago rs”, escreveu Dallagnol em um chat privado com seu colega na força-tarefa, o procurador Roberson Pozzobon, em fevereiro de 2018. Pozzobon pediu um tempo: “Mas de fato é nessa questão dos bancos que a coisa é mais sensível mesmo. Vamos conversar com calma depois”.

Enquanto os escândalos vão pipocado na internet, o presidente Jair Bolsonaro continua fazendo piadas, brincando de governar, debochando de tudo e ameaçando o jornalista Glenn Greenwald de prisão.

O ministro Sérgio Moro interfere nas investigações sigilosas da Polícia Federal e anuncia que tem a lista dos hackeados, depois desmente. Moro edita uma portaria (sugestivamente de número 666), inconstitucional, ameaçando Glenn de deportação, por ser ele um jornalista norte-americano. Tudo para espantar o cerco que se fecha em torno dele.

Com a volta das sessões do Congresso Nacional, dia 6 de agosto, e do Supremo Tribunal Federal, alguma coisa vai acontecer. Uma consequência natural seria a liberdade imediata para Lula. Espera-se, também, que pelo menos uma cabeça seja dada a prêmio, resta saber se a de Moro, primeiro, ou de Dallagnol, depois.

A República não aguenta mais tanta zombaria e desrespeito. Talvez esteja na hora de entrar em cena uma Frente Única contra Bolsonaro. Por que não?

Criado em 2019-07-27 20:51:45

Juneteenth Independence Day

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

O sábado amanheceu azul
Azul cianose
O céu parece gritar
I can’t breathe!
I can’t breathe!

Um passarinho azul logo me conta
que “Nós o povo” acaba de derrubar
em San Francisco as estátuas de
Juníparo Serra – predador de homens e almas
Ulysses Grant – o general unionista
Francis Scott Key – senhor de escravos

São Juníparo, franciscano espanhol, fundou
Los Angeles, San Francisco, Sacramento e San Diego –
cidades com cheiro de sacristia
sobre ossadas de povos indígenas

Grant, o general e primeiro presidente da União
que trocou a escravidão pelo apartheid 

Key, compositor do Hino Nacional –
E a bandeira estrelada em triunfo vai tremular
Sobre a terra dos livres, dos valentes o lar
Entenda-se: terra dos brancos livres
e dos pretos pensos em árvores

Tenho uma gaitinha mas não toco blues –
Ouço Strange Fruit na voz de Billie Holyday,
canção de Abel Meeropol, judeu comunista –
Depois me comove o moleque Keedron Bryant
com I just wanna live, escrita por sua mãe, Johnnetta

Ei, bros in arms, comemoro daqui o Juneteenth –
Chegou atrasada a notícia da liberdade –
A liberdade, ainda não

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Ouça aqui a canção do Keedron Bryant , um hit mundial

 

 

 

Criado em 2020-06-20 18:05:05

Meu Deus, 5 anos!

Cristiano Torres –

Inacreditável que estou publicando este texto. Esta é uma história que em verdade eu gostaria de não conhecer. Mas é impossível deslembrar.

Tenho um filho de 6 meses e desde o primeiro dia da gravidez desenvolvi uma sensibilidade inédita, absurda, muito diferente das minhas crenças éticas de até 15 meses atrás.

Da fé intelectual na necessidade da bondade humana, diante dos horrores deste planeta-escola (“Meio Purgatório, Meio Inferno”), surgiu uma angústia pelo sofrimento infantil que vai do meu filho batendo a cabeça no berço às vítimas de guerra de extermínio que se semeiam aos montões na Terra.

Não dá, simplesmente não dá!

Preciso respirar muito para não desejar as piores torturas possíveis a uma pessoa indefinível como esta mulher, Sari Gaspar Costa Real, absolutamente incapaz de amor e compaixão para com uma criança de 5 anos.

5 anos, meu Deus!

Que ser desprezível, que escravo sem mente, uma fundamentalista do conforto, é uma pessoa que se comporta assim com uma criança indefesa como o Miguel, uma criança em busca, desesperada, pelo acolhimento do colo de sua mãe.

Sou filho de hippies, nasci sob a influência da Era de Aquário, quando era criança tinha como ídolos Gandhi e Martin Luther King. É um imperativo categórico, para mim, sempre defender a vida e o amor acima de todas as coisas.

Mas como é difícil, Miguel, como é difícil!

Tento me concentrar em você e no Jorge para encontrar a força e a fé necessárias para ter clareza e ver através das lágrimas.

A força necessária para ter compaixão por seres insuportáveis como esta, incapaz de um simples gesto de responsabilidade que permita a uma criança estar viva e em segurança.

Este planeta não é feito para os fracos, infelizmente. Está aí uma meta para todos. Fazer deste lugar, uma casa segura para todos, principalmente os mais frágeis.

O resto é perfumaria.

Criado em 2020-06-05 16:28:11

Nelson Sargento: Bamba, baluarte, griot e mestre imortal da nossa cultura

Rafael Mattoso (*) –

Hoje pela manhã, enquanto conversava com Gabriel Moura sobre sua apresentação no Baile Charme Show do Circo Voador, uma informação me deixou paralisado. Recebi a mensagem da querida Regina Zappa, mas não consegui assimilar facilmente a notícia de que Nelson Sargento havia falecido.

Estando há mais de um ano imersos em uma crise pandêmica que já ceifou mais de 450 mil vidas, só em nosso pais, o que torna ainda mais doloroso a perda de um grande mestre.

Nelson Mattos foi um artista que sempre cantou, pintou e escreveu sobre a realidade, dureza e beleza de seu povo, principalmente a partir de seu olhar e experiências compartilhadas no Morro da Mangueira. Certamente o Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, nossa cidade e o país como um todo aplaudem de pé o espetáculo final desse astro que agora seguirá brilhando no céu, ao lado das mais belas estrelas.

Segundo o Dicionário da História Social do Samba, de Nei Lopes e Luiz Antonio Simas, “baluarte é o nome dado ao sustentáculo de um reduto, fortaleza inexpugnável. O termo foi incorporado ao universo das escolas de samba para designar aquele indivíduo, geralmente veterano, que se destaca como grande defensor dos valores da sua agremiação e das tradições do samba, não medindo esforços nem sacrifícios”. Nelson Sargento era sem sombra de dúvida um dos nossos maiores baluartes, um bamba que preservou por 96 anos as tradições, patrimônios culturais da cultura popular.

Didu Nogueira, que teve o prazer de conviver com Nelson, chamou minha atenção para a grande memória e vivencia artística de seu ídolo e amigo, chamado carinhosamente de “Mais velho”. Didu afirma que “Nelson era um dos poucos que vivenciou essa ambiência originária do samba, ele trazia consigo o som dos tambores africanos em seus ouvidos e melodias.”

É curioso perceber que Nelson Sargento parte na mesma semana do Dia Mundial de África. Logo ele, nosso Griot que sabia como poucos preservar e transmitir as histórias, conhecimentos, canções e mitos do seu povo. Assim como a tradição dos griot africanos que têm por compromisso coletar e memorizar versos de antigas canções e épicos e transmiti-las geração após geração.

Paulão Sete Cordas nos disse que “Nelson é um dos grandes artistas do nosso país. Artista genuinamente popular nos deixa uma obra rica e extensa, seu repertório será incorporado ao que existe de melhor no mundo do samba.”

Para Paulo César Feital: “A música brasileira cria um novo vazio, um buraco imenso. Nelson era um dos últimos representantes da monumental geração de Cartola, Nelson Cavaquinho, Mano Décio e Silas de Oliveira.

Com certeza o samba fica mais pobre, ele tinha um tamanho incomensurável. A música brasileira hoje está de luto e há de chorar muito de saudade. Infelizmente, o mundo vai ficando mais carente, pobre de talentos e pessoas boas”.

“Em Mangueira
Quando morre
Um poeta
Todos choram
Vivo tranquilo em Mangueira porque
Sei que alguém há de chorar quando eu morrer...
"


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(*) Rafael Mattoso é historiador, professor, pesquisador da história dos subúrbios do Rio de Janeiro.

Criado em 2021-05-28 01:16:48

Consórcio Nordeste usa ciência para combater Covid-19

Os nove governadores que compõem o Consórcio Nordeste estão apostando no método científico para combater o coronavírus. Por isso mesmo chamaram para coordenar a Comissão Científica do Consórcio, o mundialmente renomado neurocientista Miguel Nicolélis.

Nicolélis disse que essa resolução é histórica. “Não me lembro na historia do Brasil recente de uma decisão tão audaciosa”, disse ele sobre a contratação de médicos formados no exterior, estudantes e voluntários para atuarem no combate à pandemia do Covid-19.

“Nós estamos oferecendo, em cada estado do Nordeste, a possibilidade de 15 mil médicos brasileiros e estrangeiros, que estão no Brasil sem poder praticar a medicina, fazerem um processo rigoroso de revalidação do seu diploma em seis meses”, disse à imprensa Nicolélis.

A primeira iniciativa do Consórcio foi criar a Brigada Especial de Saúde com o objetivo de reforçar as equipes de saúde no combate ao novo coronavírus. Para multiplicar o contingente de profissionais em campo, foi feita a contratação temporária, por seis meses, de estudantes, médicos, voluntários para atuarem na prevenção e assistência à população.

Segundo Nicolélis, a estratégia de atuação dos profissionais contratados será feita com base em informações fornecidas pela própria população, por meio do aplicativo “Monitora Covid-19”, desenvolvido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Ele afirma que a implantação da medida será imediata.

“Como as pessoas vão poder fornecer seus dados clínicos pelo aplicativo, a gente vai ter uma noção de onde estão os novos focos e onde estão os pacientes que precisam de ajuda imediata”, explica. “A brigada vai ser o braço efetuador dessa estratégia”. Ele diz que a partir das localizações onde estão os focos, a equipe de profissionais de saúde vai agir nos municípios e, caso confirme a infecção pelo coronavírus, vai isolar as pessoas para que não haja a contaminação.

Nicolélis comemora a agilidade dos governadores em aprovar a medida. “Em duas semanas a ideia foi da cabeça da gente para uma resolução aprovada. Tempo recorde. Isso é algo muito importante”, aponta.

Estratégia - O médico sanitarista Hêider Pinto, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e membro do Comitê Científico do Consórcio Nordeste, ressalta que os médicos contratados atuarão de forma móvel, identificando e se deslocando para os principais centros de atenção à pandemia.

“Você pode ter intercâmbio entre os profissionais. A gente pode imaginar que algumas regiões do interior do Piauí vão começar a ter um pico da pandemia depois de Fortaleza. Então você poderia ter uma situação em que profissionais de Fortaleza possam atuar no interior do Piauí”, explica Hêider.

Antes de ir a campo, os novos profissionais passarão por avaliações e treinamentos para a atuação junto à população. “Nós não vamos cobrar dele nada mais e nada menos do que se cobra dos médicos brasileiros. Muitas vezes, nas avaliações para médicos formados fora do Brasil, se um padrão muito mais alto do que para os médicos brasileiros”, admite Hêider.

O médico sanitarista afirma que uma das principais correções que se busca com a instituição da Brigada de Saúde é a atenção primária – ou seja, a prevenção e contenção da doença logo nos primeiros sintomas. “Já que não se faz intervenção clínica no início e a unidade básica de saúde é um lugar onde as pessoas podem contaminar outras, a atenção primária tem papel fundamental no enfrentamento da pandemia”, afirma.

Ele diz que as medidas coletivas, como o isolamento social, são importantes, mas é possível avançar. “Eu posso mobilizar os profissionais da atenção primária para irem até as pessoas que estão no domicílio, com suspeita, fazer o reforço e tomar medidas”.

Entrevistas - Em duas entrevistas concedidas à GloboNews, registradas pela colunista Miriam Leitão, Miguel Nicolélis falou sobre o trabalho e alertou para dois grandes riscos:

1 - “Esta é uma guerra biológica, uma guerra multidimensional, híbrida, diferente de todas as tradicionais. O front da guerra muda constantemente. E você tem que ter a habilidade de se mover no tempo do vírus. É um inimigo centrado em atingir seu objetivo, que é sobreviver às nossas custas. E nós deveríamos estar centrados no objetivo de eliminar essa invasão a qualquer custo”.

2 - “Havia a hipótese de alguns pesquisadores americanos, que tinham a esperança de que ele [o vírus] não prosperaria da mesma forma em clima quente. Isso não está tendo confirmação. O colapso de Manaus é muito assustador. No Nordeste, o número de mortes com síndromes respiratórias agudas graves é impressionante”.

Por fim, Nicolélis explica que o primeiro passo para vencer esta guerra é conhecer o inimigo: “Para isso a ciência tem que ser colocada em primeiro plano. Tem que ser reconhecida como uma arma mais poderosa que a humanidade tem para sair da defensiva e armar o contra-ataque. Todas as vezes que os políticos bateram de frente com a biologia, a biologia ganhou de goleada”.

Ele contou à GloboNews que a revista “The Lancet” publicou um estudo na última semana que lhe tirou o sono com a informação de que o vírus sobrevive por 30 dias nas fezes das pessoas infectadas, depois que elas não têm mais o vírus nas vias respiratórias. Isso num país sem saneamento seria uma tragédia sem precedentes. Precisa ser confirmado com mais pesquisas.

Consórcio - O Consórcio Nordeste é um grupo formado pelos nove governadores da região: Paulo Câmara (PSB-PE), Flávio Dino (PCdoB-MA), Fátima Bezerra (PT-RN), Rui Costa (PT-BA), Wellington Dias (PT-PI), Renan Filho (MDB-AL), Belivaldo Chagas (PSD-SE), João Azevêdo (PSB-PB) e Camilo Santana (PT-CE).

Esse grupo de governadores criou um “ministério da saúde” regional para enfrentar a crise, já que o presidente da República não está dando a devida atenção à crise. Vive tropeçando em problemas diversos, criando crises políticas e não está nem aí para a guerra sanitária.

Nicolélis x CFM

Miguel Nicolelis rebateu hoje, domingo (3/5), pelo Twitter, a declaração de Mauro Ribeiro, presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), em que ataca o emprego de profissionais formados no exterior nas chamadas Brigadas Emergenciais de Saúde. Essas Brigadas vão travar a batalha porta a porta contra a Covid-19, principalmente nas cidades do interior.

“Tem que ler o juramento de Hipócrates para este senhor! Ele já esqueceu qual é a função da medicina: servir a humanidade, diminuir o sofrimento do ser humano, salvar vidas! No juramento não se fala em nenhum lugar que local do diploma invalida o dever do médico em servir a sua causa”, dispara o cientista.

“A pandemia expos a obscenidade e vilania daqueles que preferem que seres humanos sejam deixados à própria sorte e morram sem atendimendo médico do que abrir mão do seu corporativismo obsceno. Por que o presidente do CFM não se oferece para ser parte das Brigada então? Por que ele não vai para a trincheira?”, indagou Nicolelis.

A Associação Brasileira de Médicos e Médicas pela Democracia (ABMMD) se opõe ao CFM e defende a solicitação dos governadores nordestinos de contratação de médicos brasileiros formados fora do Brasil para que possam enfrentar a pandemia e salvar vidas.

Como adiantou em entrevista ao Fórum Onze e Meia, Nicolelis diz que vivemos uma guerra, com batalhas no campo sanitário e no de informação, para combater mentiras propagadas por Jair Bolsonaro.

“É uma guerra! Que parte desta frase ainda não foi entendida pelos arautos do corporativismo de plantão que votaram no pandemônio e não mexem um dedo para atuar no combate à pandemia?”, diz o cientista, indignado com a posição do CFM.

O coro de Bolsonaro com o presidente do CFM, que já criticou “os governos do PT por popularizarem a medicina“, tem um alvo claro: a política de combate porta a porta proposta pelo Conselho Científico comandado por Miguel Nicolélis para combater o coronavírus.

Criado em 2020-05-03 15:25:33

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