Bonus pages

  • Como Apoiar
  • Contato

Main Menu

  • Capa
  • Artigos
  • Política
  • Cultura
  • Cidades
  • Entrevistas
  • Colunas
  • Crônicas & Agudas
  • Vídeos
  • Como Apoiar
BRASILIÁRIOS.COM BRASILIÁRIOS.COM BRASILIÁRIOS.COM
  • Capa
  • Artigos
  • Política
  • Cultura
  • Cidades
  • Entrevistas
  • Colunas
  • Crônicas & Agudas
  • Vídeos
  • Como Apoiar
Pesquisar por:
Pesquisar somente:

Total: 1890 results found.

Página 37 de 95

Impromptu

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Esta é a terceira entrevista da oitava edição do Guia Musical de Brasília, que acaba de ser publicada em forma impressa.

No senso comum a ideia de improvisação remete às gambiarras, coisas mal feitas, realizadas às pressas. Em música ou no teatro, porém, o sentido é o da obra aberta na qual se mobilizam ao máximo os recursos dos artistas para a criação durante a performance. Improvisação aqui significa criar de maneira instantânea, em oposição, embora não absoluta, à composição, de maturação mais demorada.

Bach, Mozart, Beethoven, Schubert e Chopin são exemplos de grandes improvisadores. A Sonata para Piano nº 20 em Sol Maior, op. 49, nº 2, por exemplo, provavelmente foi criada de supetão por Beethoven para agradar os amigos e alunos. Com a evolução de sua surdez, ele foi deixando de se apresentar em público, e, portanto, de improvisar, tendo passado a focar mais nas composições para publicação. Schubert e Chopin chegaram a carimbar várias de suas peças com a palavra impromptu, improviso. 

Os estudiosos da matéria dizem que a arte da improvisação caiu em desuso na Europa em meados do século 19, tendo ressurgido exuberante no século 20 no jazz e outros estilos.

O Guia Musical de Brasília andou discutindo o assunto com a sua maior autoridade no Distrito Federal, o saxofonista e professor Ademir Júnior. Ele é o autor de Caminhos da Improvisação, um catatau de 500 páginas, em versão impressa e digital, que se tornou uma das principais referências da matéria para todo tipo de instrumentista no País e no Exterior.

Ademir Júnior compara a improvisação à construção de um discurso que o músico elabora com os recursos que domina no âmbito das escalas, dos arpejos e dos intervalos. Ele propõe que a gente pense numa criança de três anos, que fala mas ainda não lê nem escreve. Com o passar dos anos, ela vai agregar vocabulário, expressões e outros conhecimentos até ser capaz de expressar as suas ideias de maneira livre e criativa. Extrapolando, a gente logo pensa nos políticos ou nos líderes estudantis e sindicais, capazes de discursar de improviso em qualquer situação. Assim também fazem os músicos de jazz, de chorinho, do hip hop ou os poetas do repente e do slam, por exemplo.

Vocação - Ademir Rodrigues Pereira Júnior nasceu em Brasília em 1976, de pais que vieram de Itapajé, interior do Ceará. A sua vocação foi incentivada pelo pai, antigo corneteiro da Aeronáutica que se tornou clarinetista da Polícia Militar.

O próprio Ademir virou músico do Corpo de Bombeiros por concurso público, depois de estudar flauta doce (desde os sete anos), clarineta (desde os dez), sax tenor (desde os 18), trompete (aos 24) e, agora, aos 45, flauta e piano.

Piano, ele acha que começou atrasado, mas tem como projeto dominar o instrumento para tocar e produzir música com mais recurso depois que se aposentar dos Bombeiros, daqui a sete anos.

Sua formação musical inclui passagens pela banda do Sesi de Ceilândia, pela Escola de Música de Brasília, onde participou da Banda Filarmônica, e pelo curso de extensão na UnB, com o mestre clarinetista Luiz Gonzaga Carneiro, dos 13 aos 18 anos. Ali ele percorreu todo o currículo do bacharelado de clarineta, embora não fosse aluno regular da universidade. 

Os estudos de saxofone, iniciados aos 18 anos, coincidiram com os estudos que já vinha fazendo de harmonia, tendo como mestre o húngaro Ian Guest. Dos conhecimentos de jazz e música erudita que adquiriu na época até a improvisação foi um pulo. A partir de 2005 e até 2009 ministrou o primeiro curso da matéria no Curso Internacional de Verão da Escola de Música. De toda essa experiência resultou o livro Caminhos da Improvisação, lançado em outubro de 2017.

Ademir participa da banda do Corpo de Bombeiros e dirige a Orquestra JK, uma big band. Tem já uma alentada discografia, na qual se destacam os álbuns Camaleão 1, 2 e 3. O título tem a ver com a facilidade com que transita em vários estilos. “Eu procuro ser o mais fiel possível em cada estilo. Samba tem que soar como samba, baião como baião”. Seus horizontes vão bem além do Brasil, no entanto. Ele interpreta também tango, salsa, merengue e rumba, para citar alguns ritmos das Américas.

No ano passado, ele lançou o álbum O Brasil do Saxofone, em parceria com o músico francês Baptiste Herbin, um artista que, como ele, representa os fabricantes Henri Selmer e Vandoren. O CD, inteiramente gravado no Clube do Choro, é resultado de uma turnê que os dois realizaram em Nantes, Rouen e Paris, na França, e em Brasília, São Luís, Recife e Goiânia, no Brasil.

Em março Ademir pegou a Covid-19. Foram 23 dias desde os primeiros sintomas com nove dias de internação. Assim que saiu do hospital, porém, ele pegou o saxofone para acessar as suas memórias harmônicas. Depois de 20 minutos de improvisação, contou ele no Facebook, a saturação do oxigênio saltava de 94 para 96 ou 97.

Criado em 2021-06-02 21:56:35

Museu Nacional da Bíblia: arquitetura, entre a laicidade e o fundamentalismo

Fabiano Sobreira (*) –

A separação entre Estado e religião é um princípio estabelecido desde os movimentos iluministas e revolucionários do século XVIII. A laicidade foi um dos pilares da Revolução Francesa, cuja Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) já estabelecia a premissa de que a política não deveria se confundir com a crença. O Estado laico não é contrário à religião; apenas define que a crença (ou descrença) é uma manifestação de cada indivíduo, e deve ser respeitada, como direito do cidadão.

O Brasil é, oficialmente, um Estado laico, desde a fundação da República (1889). Na Constituição de 1988 a separação entre religião e política é ressaltada no Artigo 19, segundo o qual é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios estabelecer cultos religiosos ou igrejas, ou subvencioná-los.

Nesse sentido, o que significa – no atual contexto – a promoção de um concurso de arquitetura (Edital 22/2020 – SECEC/DF) para a construção, na capital do país, do Museu Nacional da Bíblia, financiado por recursos públicos ?

Sob a perspectiva do Estado laico, estabelecida na Constituição Federal, não cabe ao poder público financiar igrejas ou espaços de culto e de celebração de uma religião específica. Construir um museu dedicado ao livro sagrado da religião cristã é uma iniciativa que entra em conflito com esse princípio republicano. De acordo com declarações das autoridades responsáveis pela iniciativa, no Distrito Federal, não se trataria de um “templo religioso”, mas de um espaço dedicado a uma obra que é uma expressão cultural da sociedade. Sob essa perspectiva, seria mais apropriado pensar em um espaço destinado a celebrar – enquanto expressão cultural – a sacralidade em diversas religiões. Afinal, a escolha de uma, entre diversas manifestações religiosas, entra em conflito com o mesmo artigo do texto constitucional, segundo o qual é vedado ao Estado, no que se refere à religião, “criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si”. Assim como a Bíblia é o livro sagrado dos cristãos, o Alcorão é o livro sagrado do Islã, o Torá é o texto central do Judaísmo, os Vedas para o Hinduísmo, o Tripitaka para o Budismo, entre outros textos sagrados, além de toda a tradição oral da sacralidade dos povos originários e das religiões de matriz africana. Todas essas manifestações, inclusive a opção por não segui-las, caracterizam a diversidade cultural brasileira, em especial na sua capital.

Fundamentalismo - No que se refere ao aspecto político, é importante contextualizar que tal iniciativa (o Museu Nacional da Bíblia) tem o apoio de grupos que fazem interpretações fundamentalistas do referido texto sagrado cristão, para justificar ações misóginas, homofóbicas, racistas, totalitárias, de alienação social e de violência contra os praticantes de outros credos. Entre 2016 e 2019 foram registrados no Brasil mais de 1.100 casos de intolerância religiosa, principalmente contra as manifestações de matriz africana. Enquanto em 2015 foram registrados 179 casos, em 2019 o número de denúncias dobrou: 354 registros.

Ainda que a iniciativa fosse reformulada em sua temática, a fim de não afrontar os princípios do Estado laico e ainda que os interesses políticos envolvidos fossem revistos e não acolhessem grupos fundamentalistas, resta ainda uma questão: a pertinência do investimento de mais de 20 milhões de reais em um equipamento cujo interesse público é questionável, diante de um cenário de pandemia e de escassez de recursos: as escolas públicas não dispõem de estrutura para acolher alunos e professores com segurança; milhares de pessoas estão desabrigadas, sem moradia e sem condições sanitárias mínimas; faltam leitos e oxigênio nos hospitais.

Totalitarismo teocrático - A iniciativa de construção de um Museu Nacional da Bíblia, financiado com recursos públicos, na capital do país, utiliza como estratégia o concurso (instrumento que, assim como a laicidade, faz parte do conjunto de princípios defendidos pelos iluministas). Dessa maneira, tenta revestir de uma imagem democrática e republicana uma iniciativa que em sua origem tem bases totalitárias e teocráticas; tenta atribuir teor cultural e de amplo interesse público ao que, em essência, é um equipamento que serve aos interesses de grupos restritos e intolerantes, e não à diversidade.

A iniciativa apenas reforça a importância de se compreender a Arquitetura como uma expressão da ética, para além das questões estéticas. A promoção e o projeto desse equipamento público (assim como a recusa em participar de tal iniciativa) passam, necessariamente, por uma tomada de posição política, entre a laicidade e o fundamentalismo.
_______________
(*) Fabiano Sobreira, arquiteto e urbanista, editor de www.concursosdeprojeto.org

Criado em 2021-01-19 21:14:57

Balanço da imobilidade em Brasília

Uirá Lourenço (*) -

O ano termina sem mudanças no cenário de imobilidade. Passados dois anos do novo governo, questões estruturantes continuam na promessa. A integração do transporte coletivo por meio de bilhete único continua sem prazo para virar realidade.

E a prometida expansão do metrô também não avançou. Melhorias no transporte público são urgentes, de forma a diminuir o uso do carro e evitar o colapso total das vias.

Um estudo prevê o apocalipse viário em 2020 e os congestionamentos diários em todo o Distrito Federal indicam que a cidade não suporta a frota motorizada crescente, rumo à marca de 2 milhões. Em Águas Claras, os congestionamentos se iniciam nas garagens dos prédios residenciais.

No entanto, em vez de investir nos transportes coletivos e saudáveis (não motorizados), como reza a cartilha da mobilidade moderna, o atual governo retomou neste ano obras para construir túneis e viadutos na região norte.

Além da devastação, as obras milionárias na Saída Norte levarão ainda mais carros para o centro de Brasília e não resolverão o tormento de quem usa ônibus todos os dias: transportados em veículos superlotados, muitas vezes sem abrigo no ponto e sem calçadas nem travessia segura ao desembarcarem.

E outros projetos caros semelhantes, com foco na fluidez automotiva, aguardam na fila.

Os dados sobre acidentes e mortes no trânsito também indicam o retrocesso. Reportagem do Correio Braziliense (16/11) mostrou que as mortes aumentaram neste ano.

Em média, ocorrem 32 mortes por mês no trânsito do DF e em maio, o mês mais violento, houve 48 mortes. Números vergonhosos que exigem um programa sério focado na segurança e não na mera fluidez automotiva. Mas o governo não tem um programa de redução do limite de velocidade nas vias, uma ação simples e adotada em cidades modernas que buscam a redução do massacre nas vias.

Não bastasse a ausência de programa para redução da velocidade, os órgãos de trânsito não atendem às solicitações de melhoria na segurança. Uma ampla análise ilustrada da ciclovia na W4 Norte, onde há muitas escolas e faculdades, revelou problemas sérios e indicou soluções.

Realizado voluntariamente e protocolado em vários órgãos do GDF em junho de 2015, o trabalho foi ignorado e persistem os inúmeros obstáculos no caminho. E no fim de 2015 foi protocolada solicitação de melhorias aos pedestres na W3 Norte.

Com fotos e vídeos que revelam a grave insegurança na altura da 513/713 Norte, solicitou-se ao Detran a instalação de faixa e semáforo. Passado um ano sem qualquer providência, um pedestre foi atropelado e morto no exato local da solicitação.

Os riscos aos pedestres são altos em razão do excesso da velocidade e da imprudência. Além da perda de tempo, os congestionamentos causam impaciência e estresse.

Apesar da fama de respeito ao pedestre, atropelamentos na faixa de travessia ainda ocorrem, como o que matou uma criança de 6 anos neste mês, no Riacho Fundo. Perigo na travessia e também perigo ao caminhar por calçadas esburacadas e invadidas por carros. Os caminhos são inacessíveis mesmo na Esplanada dos Ministérios e em setores movimentados como o Setor Comercial e o Setor de Rádio e TV.

Neste final de ano, um flagrante da inacessibilidade na área central de Brasília: um pedestre de muletas cai ao tentar passar pela calçada sem rampa e com grande desnível.

Há muitos anos, o entorno da rodoviária do Plano Piloto está abandonado, com calçadas destruídas e sem acessibilidade. Passados diferentes governos, permanece a situação vexatória aos moradores e turistas. Um cadeirante ou cego é incapaz de percorrer a curta distância entre a rodoviária e o Museu da República ou a Biblioteca Nacional.

Apesar da realização de mais um megaevento na capital federal em 2016 (dez jogos das Olimpíadas foram realizados no estádio Mané Garrincha), não houve qualquer investimento em mobilidade urbana. A exemplo do que ocorreu na Copa do Mundo, as Olimpíadas não deixaram qualquer legado positivo.

Pelo contrário, o “bicicletário” do estádio se deteriorou por completo e, nos dias de jogo, se permitiu uma verdadeira farra motorizada, com carros estacionados em todos os cantos livres, inclusive calçadas, canteiros e ciclovias.

Para fechar o ano, a Câmara Legislativa resolveu dar sua contribuição na imobilidade e aprovou lei que libera as faixas de ônibus para carros e motos na maior parte do dia. Uma medida infeliz, que incentiva o uso do carro no dia a dia e prejudica os usuários de ônibus.

Os deputados poderiam se inspirar em bons exemplos e propor medidas inovadoras. Em cidades europeias, a moda é pagar a quem usa bicicleta para ir ao trabalho, restringir o uso do carro na área central e converter estacionamentos em parques e áreas de lazer.

Na capital federal se penaliza o ciclista com caminhos descontínuos, longos e inseguros. Em vez de restrição ao uso do carro, mantém-se o modelo ultrapassado de construir mais vias, túneis e viadutos, que aumentam a poluição e os congestionamentos.

E no dia 30/12 o Governo do Distrito Federal anunciou o segundo aumento da tarifa do transporte coletivo em dois anos de governo: a passagem de ônibus e de metrô passa de quatro para cinco reais.

Além da desintegração e do desconforto diário, o trabalhador ainda terá que pagar, no mínimo, R$ 10 por dia no trajeto casa-trabalho. Eis mais um bom motivo para afugentar as pessoas do transporte coletivo.
Vale lembrar que, em novembro de 2016, o secretário de mobilidade afirmou, ao apresentar as ações do governo, que o maior desafio do governo era aumentar a participação do transporte coletivo (de apenas 32% no Distrito Federal, bem inferior aos 46% do Rio de Janeiro e de Curitiba) e prometeu priorizar o transporte coletivo e não motorizado de forma integrada. No entanto, o aumento anunciado de 25% no preço das passagens deve diminuir ainda mais o uso de ônibus e metrô.

Apesar da insistente propaganda governamental de que Brasília está no rumo certo, qualquer leigo percebe que seguimos no rumo da imobilidade.

Além de mudanças de infraestrutura e tecnologia, são urgentes mudanças culturais: as classes abastadas precisam se dar conta de que o transporte coletivo é para ser usado por todos, numa estratégia de diminuir o caos e a poluição.

Como diria Peñalosa, que promoveu melhorias em Bogotá: a cidade avançada não é aquela em que os pobres andam de carro e, sim, aquela em que o rico usa transporte coletivo.
______________________
(*) Uirá Lourenço é servidor público, ambientalista e colaborador do Mobilize Brasil. Versão ampliada do artigo originalmente publicado no Correio Braziliense, de 26/12/2016.

Criado em 2017-01-02 21:43:53

Rio recebe o maior espetáculo imersivo do mundo sobre Monet

A partir do dia 19 de março até 12 de junho o Rio vai receber um espetáculo original e inédito com projeções de 285 obras do pintor ícone do impressionismo: Monet à Beira D’Água. Essa é considerada a maior exposição multimídia do pintor no mundo.

Essa exposição de Claude Monet (1840-1926) “é um misto de luz, arte, cor, música e formas, projetadas no chão e nas paredes, dando ao visitante a sensação de estar dentro das obras do pintor”, dizem os curadores.

A tenda de 15 metros de altura já está instalada no Boulevard Olímpico, na Região Portuária do Rio, na Rua Venezuela. Na estrutura de mais de dois mil metros quadrados, será possível vivenciar as 285 obras licenciadas do pintor projetadas em painéis com sete metros de altura.

As pinturas serão apresentadas em sequências de animações digitais 2D e 3D, formando oito narrativas audiovisuais, cada uma enfatizando um aspecto da obra do mestre impressionista, numa roupagem nova e contemporânea. A exposição é um convite à viagem, à exploração de territórios, à caminhada e ao passeio.

“O espetáculo apresenta uma viagem imaginária de Monet seguindo um roteiro à beira d’água em busca de paisagens que mudam com a atmosfera, pintadas por ele nas margens de rios, mares e lagos. Tudo isso apoiado numa curadoria que propõe ao público conhecer a obra de Monet a partir da água”, explica o diretor executivo da exposição, Leo Rea Lé, um dos membros da startup brasileira MIRA (Museum of Immersive Roaming Arts – Museu Itinerante de Artes Imersivas), desenvolvedora do espetáculo.

A exposição Monet à Beira D'Água também vai realizar uma intervenção nas dependências do Museu de Arte do Rio nomeada de Impressões à Beira Mar. A partir dos 4 eixos curatoriais da exposição (água, luz, território e tempo), o MAR terá no térreo a Estação MAR com uma linha do tempo da vida de Monet. Já no 4° andar, o público poderá ver a mostra Impressões à beira-mar com cartões postais da coleção MAR.

“O Museu de Arte do Rio será a primeira estação dessa viagem ao mundo de Claude Monet, com o lançamento internacional desse projeto que deve seguir posteriormente por São Paulo, Los Angeles e várias outras cidades. É um presente para o Rio de Janeiro, em seu mês de aniversário, e uma oportunidade para todos os cariocas e turistas conhecerem de forma imersiva algumas obras de um dos pintores de maior reconhecimento em todos os tempos. O MAR, mais uma vez, mostra sua capacidade criativa e oferta arte e educação para todos”, comenta Raphael Callou, Diretor da OEI, responsável pela gestão do MAR.

Dentre as principais obras de Monet presentes na exposição, estão as séries da Estação Saint-Lazare (1877), da Catedral de Rouen (1893), do Lago das Ninfeias (1895-1926), do Palácio de Westminster (1904) e do Grand Canal de Veneza (1908).

“A água é o tema central da exposição”, como explica o curador Naum Simão. “A partir desse tema orientamos a escolha das obras e sua organização em oito subgrupos temáticos, que chamamos de narrativas:  Uma Viagem de trem; Campos e Moinhos; O Mar e a Luz (foto, abaixo); Passeio pelo Lago; Arquitetura do Tempo; Horizonte Nevado; Paisagens “en vert” e Flores de Tinta. Foram 28 meses de produção, envolvendo ao todo a dedicação de mais de 60 profissionais”, explica.

Tecnologia de ponta

Neste museu imersivo, ilustração e animação se misturam a projetores, computação gráfica, programação RV, design de som e softwares variados a fim de conceber um produto inovador. A exposição utiliza tecnologia de ponta para criar uma experiência multissensorial em 360 graus.

“Levaremos as pessoas para uma jornada através das margens do Rio Sena, do Jardim de Giverny e da Costa da Normandia. Sem esquecer suas viagens para Londres, Veneza, Amsterdam e Noruega. Para isso, utilizaremos projetores de 12 mil lumens, sistema de som tridimensional em alta definição, trilha sonora original, animações, efeitos visuais, sonoros e especiais”, detalha o diretor artístico, Renato Sass.

Monet À Beira D´Água no Rio de Janeiro é uma realização da Produtora Rua 34, apresentado pela B3, e tem como apoiadores a Nova Transportadora do Sudeste, Bayer, Renner, BNP Paribas, Repom, Embaixada da França no Brasil e a Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI), além da parceria com o Museu de Arte do Rio.
________________
Serviço:
Monet À Beira D’Água
Local: Rua Venezuela, 194 - Gamboa, Boulevard Olímpico - Região Portuária
Data: de 19 de março a 12 de junho
Ingressos:  https://site.ingressorapido.com.br/monet/
Informações: @monetabeiradagua

Criado em 2022-03-14 15:54:24

Correios, com lucro de R$ 1,5bi, estão na mira da privataria

A sanha privatista do governo Bolsonaro/Guedes inclui a rentável Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. A empresa, conforme divulgado hoje (20/5), teve lucro de R$ 1,5 bilhão, em 2020, o maior na última década. Os dados, segundo o Estadão, foram enviados pelo presidente da estatal, Floriano Peixoto Vieira Neto, ao Ministério da Economia.

Discussão sobre venda está na Câmara dos Deputados e aguarda a criação de uma comissão especial para analisar a proposta do governo.

O secretário de Comunicação da Federação Nacional dos Trabalhadores dos Correios (Fentect), Emerson Marinho, afirma que o resultado mostra a “alta capacidade” da estatal de manter o serviço à população mesmo em um ano de pandemia. Em relação à privatização, ele vê o desempenho como prova de que não há “argumento sólido” para vender a companhia. “Nenhum empresário vende nada que dê lucro, pelo contrário, investe mais para dar mais lucro.”

Esta empresa de lucros bilionários, nas palavras do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atua “em mais de dois mil municípios onde não existem agências bancárias, é a única instituição a atender moradores e pequenos negócios locais”.

Lula foi enfático: “Em defesa do patrimônio do povo brasileiro, e por serviços postais eficientes e acessíveis a toda a população, é preciso dizer não à privatização dos Correios.”

A proposta para dilapidar os Correios corre em regime de “urgência” na Câmara dos Deputados, o que demonstra o caráter lesa-pátria desse governo e seus aliados no Legislativo.

Mobilizações em defesa da empresa pública vêm crescendo nas redes sociais e também nas ruas, puxadas pela Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Correios (Fentect).

“Faça chuva ou faça sol, os carteiros vão, de porta em porta, onde o povo está. E agora a garantia desses profissionais está em risco”, declarou o ex-presidente Lula em sua conta no Twitter.

A proposta do governo não define qual será o modelo de privatização, mas abre caminho para a venda dos Correios ao liberar à iniciativa privada a operação de serviços que hoje são de monopólio da União.

Criado em 2021-05-20 22:38:40

Wagner Moura explica a reforma da Previdência

via Diário do Centro do Mundo

Criado em 2017-03-13 21:46:51

Os simbolistas: eles queriam outra coisa - II Paul Valéry

Maria Lúcia Verdi -

Neste segundo artigo sobre o quarteto simbolista de que nos ocuparemos dia 8 de novembro, na Aliança Francesa de Brasília, na quinta edição do Poesia do Mundo, comento brevemente o último deles, Paul Valéry (1871-1945), mais conhecido no Brasil pelo poema “O cemitério marinho” (1920) .

A intenção dessas matérias é introduzir o que será apresentado por Francisco Alvim, Angélica Torres Lima , Maria Maia e eu - estimular o desejo de encontro e escuta dessa poesia tão particular, que sonhava alto a poesia pela poesia.

João Cabral de Mello Neto em um dos poemas que dedicou a Paul Valéry ressalta a característica principal deste autor - a lucidez, este essencial e complexo aspecto da inteligência:

«Uma lucidez que tudo via

como se a luz ou se de dia;

e que, quando de noite, acende

detrás das pálpebras o dentre

de uma luz ardida, sem pele,

extrema e que de nada serve:

porém luz de uma tal lucidez

que mente que tudo podeis.”

Uma luz, uma lucidez, “e que de nada serve”. A poesia não tem de ser útil, embora possa sê-lo e o tenha sido em tantos momentos históricos; disso falou Valéry ao explicar o nome de seu último livro de poemas, “Charmes” (1922), escolhido por enfatizar o caráter “esotérico, mágico, não utilitário da poesia”.

Paul Valéry já foi definido como “uma mente no espelho”. Uma mente que se mostrou em sua obra, de forma emblemática, na figura mitológica do Narciso, em distintas vestes.  Ocupado numa auto observação metódica, com o “rigor ostinato” de que fala Leonardo da Vinci, de quem o jovem  Valéry tratou em sua primeira grande obra: “Iniciação ao método de Leonardo da Vinci” (1895). 

Esta lucidez, enquanto benção e maldição, o perseguiu a vida inteira; nela, a busca pela perfeição formal, pelo conhecimento obsessivo de si por meio da anotação diária de seus pensamentos. Cinquenta anos dedicados à escritura dos Cahiers (Cadernos), 261 volumes de reflexões sobre tudo o que compõe (e descompõe) a vida. Tal lucidez deu à luz ao personagem Senhor Cabeça (Monsieur Teste), um “monstro” nas palavras do autor, puro intelecto, um dos seus alter egos.

“Monsieur Teste”, juntamente com “Eupalinos, ou arquiteto” (diálogos entre Sócrates e Fedro no mundo dos mortos) e “Meu Fausto” fazem parte da sonhada obra “Comédia Intelectual”, obra inacabada, na qual Valéry pretendia analisar “as regras do jogo” que movem o homem, seja em seu conflito existencial seja na vida em sociedade. Seria “a obra total” como a que também sonhara Mallarmé (figura central para compreender Valéry e de quem falaremos no  próximo artigo) com o seu “Le Livre” (O Livro), igualmente inacabado.

“O que eu sei fazer me entedia; o que eu não sei fazer me entristece.” Valéry dizia só amar problemas, tentar dizer o indizível. Dizer o indizível a partir da máxima elaboração formal, do uso de figuras, símbolos, analogias e mitos que dissimulam o mais possível o assunto do poema, construindo uma poesia hermética, exigente. “Não cabe ao autor, mas ao outro fornecer os seus sentimentos. A finalidade de uma obra – honesta – é simples e clara: fazer pensar. Fazer pensar, a contragosto, o leitor. Provocar atos internos” (Cadernos). Tal postura ele a empregava na ensaística, na crítica, na poesia, nas crônicas, em qualquer produção literária.

Sem se engajar politicamente, mas refletindo sobre a política em “Olhares sobre o mundo atual” (1933), ele julgava com ceticismo essa arte decadente: “um mecanismo destinado a impedir que as pessoas tomem parte diretamente naquilo que lhes concerne”. O conhecido niilismo de Valéry talvez esteja relacionado a um profundo realismo desenvolvido desde cedo, à dificuldade de sobreviver como gostaria, lutando para ganhar o suficiente para manter família e alguns prazeres.

Durante os vinte anos que trabalhou no Ministério da Guerra e em uma agência de informação estudava matemática, filosofia, ciências, mitologia e psicologia. Seu sonho era compreender tudo, Descartes, além de Leonardo sendo seu modelo. O futuro membro da Academia Francesa de Letras chegou a passar por sérias dificuldades financeiras, sendo notada a avidez como comia à mesa de alguns abastados amigos. Ou quando pede ajuda para ter outro par de sapatos. 

Ao fim da vida, em 1944, Valéry  se dedica (encomenda que lhe rendeu um bom pagamento) à tradução – na verdade, uma transposição para o francês  do latim de Virgílio – das “Bucólicas” , considerada pela crítica como um verdadeiro testamento  poético. A obra é precedida por um estudo sobre Virgílio e a Arte da Tradução. Traduzir: este conceito tão amplo, é assim comentado nos Cadernos pelo poeta: “Tudo o que me é dito – tudo o que leio me aparece como devendo ser traduzido.”

Valéry deixa-se enredar radicalmente por Eros aos sessenta e seis anos, e por ele inspirado, redige o diálogo consigo mesmo que é o inacabado “Meu Fausto” (publicado postumamente em 1946), inspirado por mas bem distinto do de Goethe. Nas cartas ao objeto de seu amor, a jovem Jeanne Voilier - cujo pseudônimo literário era Jean e a quem  o poeta chamou de “Meu terrível tu, meu amor” -, bem como nos  poemas que dedicou a ela, Valéry é um homem comum, frágil, submetido aos poderes misteriosos do Amor. Jeanne\Jean teve inúmeros amantes, homens e mulheres, tendo se dedicado ao Direito e à editora que herdou de seu último amor, Robert  Denöel e vivido até os 93 anos.

Mas o amor já havia enredado o pai de família Valéry quando, em 1920, encontrou Catherine Pozzi, beldade frágil, ao contrário da Messalina Jeanne. De Catherine Pozzi, também poeta, falaremos no dia 8 de novembro. Ao que tudo indica, Paul Valéry entregou-se mais à Jeanne do que à Catherine. Talvez pela maior complexidade da primeira, mais próxima às figuras mitológicas que ele tanto utilizou em sua grande poesia, da qual “La Jeune Parque\A Jovem Parca” (1912).

A Jovem Parca é a luta entre a razão e a sensibilidade (a sensualidade), ente o desejo de pureza e o apelo à carne, também ela outro alter ego do poeta. Trecho da tradução de Augusto de Campos da Jeune Parque será lido na noite dedicada a esses simbolistas que queriam outra coisa, outras coisas, e delas falaremos na noite do Poesia do Mundo V. Encerro com trecho de “Ébauche d`un serpent\ Esboço de uma serpente”, traduzido por Augusto de Campos:

“Sol, sol!...Ilusório arquiteto!

Tu, Sol, que mascaras a morte,

Sob o azul e o ouro de um teto

Onde as flores têm sua corte;

No arco-íris das tuas cores,

Tu, traidor dos traidores,

Dos meus laços o mais perfeito,

Poupas a pena de saber

Que o mundo é apenas um defeito

Ante a pureza do Não-ser!”

Criado em 2018-09-08 03:30:25

Poesia praticada como alento de vida

Angélica Torres –

Todo poeta passa do momento crucial de dar um basta na disciplina de só acumular poemas para o de juntar energia e se inaugurar publicamente como tal, estando ou não maduro para tanto. Maria Maia, cineasta e artista plástica acreana-brasiliense, vive em 2018 essa fase feliz: lançou há menos de dois meses Desejante, seu primeiro livro, constituído de poemas mais recentes, e na próxima terça, 20/11, a partir das 18h, lança no Beirute (109 Sul - Brasília), Quase toda poesia, reunindo cerca de 300 poemas produzidos nos últimos 42 anos.

O projeto na verdade vinha sendo gestado desde 2010 e só se tornou viável pelo patrocínio do Fundo de Apoio à Cultura (FAC-DF). Maria Maia poderia ter produzido vários livros, com tantos poemas escritos em quatro décadas. Mas preferiu se colocar em dia com a vasta produção, juntando todos em um só e distribuindo os poemas em onze blocos – “Metafísicos e Concretos”; “Poemas Amigos”; “Poemas Brasílicos”; “Outros Cantos”; “Quase Hai Cais”; “Doídos”; “Amoráveis”; “Elementais”; “Poética”; “Queridos” e “Confessionais”.

Neles estão presentes, em conteúdo e forma, a intimidade com que ela trama suas palavras e a sensibilidade e delicadeza com que se conduz na vida. E a poeta não esconde a influência que os irmãos Campos exerceram em sua formação literária – Haroldo com suas esplêndidas traduções viabilizando um universo de conhecimentos e a poesia de Augusto a tocando especialmente e estimulando o seu próprio pendor para versejar.

 “Saí em busca desse manancial que eles dois nos ofereceram, e como poeta procurei o ritmo, mais que a rima, nos meus versos”, tendência que, aliás, deu a ela outra vertente de trabalho  ̶  a de poeta-letrista de canções em parceria com amigos músicos. Amplamente reconhecida pela excelência de suas performances, Maria Maia promete recitar alguns poemas no lançamento e também convidar amigos a se juntarem a ela no sarau. (Abaixo, a capa do livro, desenhada pela própria Maria Maia)

Engajamento - “A poesia precisa resgatar a oralidade, ser transmitida em praça pública e nos dar alento pra lutar pela humanidade, instaurar a conexão e a compaixão com os que nada têm, nem mesmo forças pra lutar, porque, mesmo na barbárie é necessário haver resistência”, assevera Maria Maia. Ela enfatiza que o pior exílio é o cumprido na própria pátria, mas lembra que a poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen passou o salazarismo na resistência e sobreviveu. “O exemplo dela me interessa”, afirma.

Maria recorda os muitos movimentos poéticos que Brasília manteve nos anos 1990, quando, ressalta, durante o governo de FHC, se vivia mal no país – “o povo nordestino comia palma ralada como cuscuz e não dispunha de água”. Agora, continua ela, quando o fascismo se instaura com vigor, é preciso fazer ainda mais poesia, gerar a arte, a esperança e levá-las aos espaços públicos. “Isso porque, entre os humanos, que devemos pôr para frente, há também os inumanos, que só se interessam por destruições. Fascistas vivem numa falta sem fundo, nada supre sua pobreza de espírito”, analisa.

Apesar do discurso progressista de Maria Maia, o leitor não vai encontrar em Quase Toda Poesia um bloco inteiramente dedicado ao tema. Há alguns poemas de teor sociopolítico distribuídos pelo livro e são esses, por sinal, os que mais motivam a leitura apaixonada da poeta, como Dossel Brasília, no qual está o seguinte trecho:

(...) Os funcionários, bancários e atendentes/ os balconistas, sapateiros, professores e serventes/ os cantores, diaristas e estudantes/ desempregados, famintos, atores e o povo em geral / assistem atônitos ao frenesi das lacraias e dos lacaios do capital/ que sem dó nem pena transformam o Brasil em nação guabiru (...).  E como em “Quarto e Sala”: No quarto/sonho paz/ sonho pão/ sonho terra. Na sala/ admirável mundo novo que a tela descerra:/ nova dor, nova fome, nova guerra.

Palavras de artistas - O livro é apresentado/prefaciado por Ana Miranda, que inicia o texto cantando a beleza da poeta: “Maria Maia é tão linda! Primeiro vejamos o semblante: a delicadeza. Ela lembra uma libélula, uma porcelana, algo assim (...)” e pelo cineasta e professor João Lanari, que compara o sopro da poeta ao da respiração de João Gilberto: (...) “Os poemas da Maria também respiram, impressos na folha branca, por abstração (...)”.

O poeta Chico Alvim a brinda com um poema de sua lavra: Maria Maia existe?/ Que dúvida mais insólita/ Pois você não a vê ali?/ É que quando você lê/ os poemas dela ou ouve/quando ela os diz/sobretudo aqueles em que / ela excede a si/ (quando desnasce e nasce)/ é a poesia que está dizendo / eu é que existo nela/ eu é que estou ali.

E o artista, fotógrafo e músico da extinta banda Marciano Sodomita, Rogério Maldonado, a homenageia não menos carinhosamente, assim: “Maria é traço, é cor, palavra, som, imagem, luz e movimento. Uma florzinha do Norte que adotou o Cerrado. Tal qual as flores daqui, é pequena, tem aparência delicada e a incrível força de resistir, renascer, crescer e florescer, após o longo período da seca”.

Serviço:

Lançamento do livro: QUASE TODA POESIA – De Maria Maia (Imagem no Ar Edições, 2018 – 312 páginas).

Lançamento: Dia 20 de novembro, terça-feira, a partir das 18h.

Local: Bar Beirute (Quadra 109 Sul), Brasília.

Preço: R$ 20,00

Projeto gráfico: Wagner Hermusche.

(*) São da autora a ilustração da capa e as iluminuras no pé de cada página.

Criado em 2018-11-17 14:39:15

Morre Maria Duarte, ex-secretária e militante da cultura do DF

Romário Schettino –

Artistas, produtores culturais, professores de arte-educação do Distrito Federal acordaram hoje (30/12) com uma notícia triste. Vítima de câncer, morreu Maria Duarte, militante da vida cultural da cidade há cinco décadas.

Maria Duarte era muito querida por todos. No Facebook, dezenas de manifestações de pesar. Além de Cidadã Honorária de Brasília, Maria Duarte foi uma revolucionária diretora do Sesc da Asa Sul, onde criou o Teatro Garagem, escreveu livros (dentre eles, Educação pela Arte – o caso Brasília) e exerceu o cargo de secretária de Cultura do DF no primeiro governo do PT, período em que fui seu secretário Adjunto. Por isso, sou também testemunha de sua paixão pela cidade e dedicação à cultura.

Segundo a família, há um ano e meio ela lutava contra um câncer de estômago. “Minha mãe lutou o tempo todo por um mundo melhor”, disse a filha Natália Duarte ao site Metrópoles.

O sepultamento será amanhã, quinta (31/12), às 13h, no Campo da Esperança, no Plano Piloto de Brasília.

A jornalista Maria do Rosário Caetano disse que a morte de Maria Duarte deixa no “meio educacional e cultural de Brasília uma grande, imensa, lacuna. Como responsável pelo setor cultural e recreativo do Sesc Brasília ela fez uma  enorme diferença”.

Maria do Rosário lembra que “Maria Duarte transformou o Sesc da 914 Sul num centro cultural vivo, aberto, democrático e fertilizador. Lá vicejou o grupo teatral de Humberto Pedrancini, shows e sessões cinematográficas, oficinas e seminários. Destaco um, em especial: Paulo Freire a Educação Brasileira, organizado pela Frente Cultural de Brasília, de sucesso imenso (auditório do Sesc abarrotado e gente brigando para entrar). O seminário resultou até em livreto, com texto de equipe dela (mestrandas em Pedagogia, pela UnB), que localizou nos arquivos do MEC (ainda em tempos de ditadura militar) fotos de núcleo de alfabetização de adultos pelo Método Paulo Freire, além de textos do professor Venício Artur de Lima e Francisco Weffort. Ela deixa muitas saudades! Muitas mesmo!”.

O ator e diretor de teatro Humberto Pedrancini, assim registrou a morte de Maria Duarte: “Morreu hoje minha mestra e amiga Maria Duarte, criadora do Teatro Sesc/Garagem.  Mulher maravilhosa, amava a arte e cultura como poucos! À arte e à cultura dedicou sua vida! A ela minha gratidão, incentivou-me sempre, me orientava e puxava minhas orelhas quando eu exagerava na farra! Devo-lhe muito!”.

Alexandre Ribondi, diretor e dramaturgo,  lembrou a importância da passagem de Maria Duarte pelo Sesc: “Eram os anos 1970 e havia em Brasília uma mulher muito especial. Era a Maria Duarte, diretora do Sesc Asa Sul. Contra os preconceitos e os risinhos de deboche, foi ela quem abriu as portas do Sesc para que o Grupo Homossexual Beijo Livre pudesse se formar e se reunir. Ela também ocupou o cargo de secretária de Cultura do DF na gestão PT - aí, ela realmente nos representou.  A morte de Maria Duarte me deixa com uma dor incalculável no peito. Brasília é o que é hoje por causa de mulheres como ela. Um beijo, Maria Duarte. E divirta-se por aí, minha querida”.

E as manifestações de pesar continuam chegando de todas as partes no universo virtual. O ator e ativista cultural, Guilherme Reis, também ex-secretário de Cultura do DF, comentou em sua página no Facebook: “Para fechar esse ano tão triste e tão difícil, perdi hoje uma amiga. E todos nós perdemos uma mestra, uma pessoa muito importante para Brasília, em especial para a história da Educação e da Cultura no DF. Maria Duarte foi fundamental, junto com outras pessoas, para definir a vocação cultural do Sesc, foi uma grande Secretária de Cultura, uma das companheiras na aventura bonita que foi a realização do Festival Latino-americano de Arte e Cultura, na UnB. Mas, antes de tudo, foi uma grande amiga. Uma amiga de tantos amigos. Nos últimos anos, Maria, que não descansava, vinha lutando, junto com o seu companheiro da vida toda, Ítalo, pela implantação de uma política nacional de incentivo ao turismo pedagógico para oferecer a experiência da arte para crianças e jovens do meio rural. E a gente vai ficando órfão de gente como ela.”

Do ator Pedro Eugênio, atualmente morando no Rio de Janeiro, veio a declaração: “Nossa! Lembro muito dela quando fazia teatro no Sesc em 75/76. Era uma grande incentivadora das artes na direção do Sesc”.

Antônio Biancho, por sua vez, disse que teve a “honra de participar da inauguração do Teatro Garagem com a peça A Capital da Esperança, do Grupo De Teatro Carroça. Era um projeto completo, foi fundamental para a minha formação. Educação pela Arte. Viva Maria Duarte”.

Assim era Maria Duarte, uma lutadora imprescindível, que deixa sua marca na cidade que tanto amou em vida.

Criado em 2020-12-30 21:54:09

Barco no estaleiro

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) -

Esta é a segunda entrevista da oitava edição do Guia Musical de Brasília, que acaba de ser publicada em forma impressa.

Há um ano e meio, da última vez que nos encontramos pessoalmente, o Joel de Oliveira estava eufórico, talvez um pouco mais do que o normal. Barco à deriva, música que ele tinha composto em parceria com o violonista Sthel Nogueira, e que fora inspirada por um amigo que finalmente havia encontrado o amor de sua vida, estava com a estreia marcada para dali a alguns dias no Empório Minas 104, na Asa Norte.

O evento marcaria um grande passo em sua carreira de cantor e produtor musical, essa era a razão da euforia. O programa que ele vinha desenvolvendo no Empório seria descontinuado a seguir porque o estabelecimento tinha sido vendido, mas já estava acertada a sua migração para outro restaurante quase vizinho, o Esquina 104. Enquanto isso, ia de vento em popa o projeto Música e Poesia para Todxs, que Joel produzia há quase três anos com a Banda Top Três no Feitiço Mineiro, na 306 Norte. Ali ele dava oportunidade para cantores amadores e poetas já escolados se apresentarem todas as segundas-feiras.

Naquela altura dos acontecimentos, não podíamos prever que o próprio Brasil iria se tornar um barco à deriva em meio ao vendaval da pandemia da Covid-19, nem que os projetos do Joel, e os de toda a torcida do Flamengo, diga-se,  seriam interrompidos nos meses seguintes. Em meados de maio, quando nos preparávamos para relançar o Guia Musical de Brasília, tivemos a grata satisfação de saber que o Joel não apenas havia sobrevivido à tempestade como já estava reparando o seu próprio barco num estaleiro.

Novo empreendimento - Como é do conhecimento de todo mundo, o Feitiço Mineiro encerrou as suas atividades comerciais, também em consequência da crise da pandemia. Em contrapartida, a notícia boa é que o Joel, em associação com Alexandre Silveira de Oliveira e Jerson Alvim, constituíram uma empresa, a AJJ Restaurante e Realizações Artísticas Limitada, para tocar um restaurante no mesmo endereço, com o nome Feitiço das Artes. Sem ser seu sucessor, o novo Feitiço pretende preservar a tradição culinária e cultural do antigo estabelecimento, mantendo, com prioridade, o projeto Música e Poesia para Todxs. Por óbvio, o ritmo do relançamento dependerá do comportamento do coronavírus e das decisões das autoridades sanitárias.

A história de Joel em Brasília tem elementos em comum com outros músicos que foram transferidos de seus empregos no Rio de Janeiro. Natural de Campo Grande, Zona Oeste do Rio, ele se mudou para o Distrito Federal em janeiro de 1977. Tinha acabado de sair da Petrobras e veio para Brasília para trabalhar na Portobrás. Tinha se casado há uma semana, e por isso os seus dois filhos nasceram candangos.

O gosto pela música ele herdou do pai, “que batia umas cordazinhas de violão”. Foi também incentivado por um professor de inglês, que organizou um festival da canção no Colégio Freire Alemão, onde cursava o antigo Científico, hoje Segundo Grau. Por uma razão que já revelava os seus dotes, Joel foi o apresentador do festival e, ainda por cima, compôs o jingle do evento.  

Já em Brasília, as suas primeiras apresentações como crooner foram viabilizadas pelo amigo Sérgio, do Madureira Exporta Samba. Depois teve a oportunidade de cantar aos sábados num programa da Rádio Nacional. Em 1979, cursando ciências sociais no Ceub, integrou-se ao coral do Centro de Cultura do Centro-Oeste, então dirigido por sua amiga Sônia Ferreira.

Desse coral sairia um grupo que concorreu ao primeiro festival da canção organizado pela Caixa Econômica Federal, em 1981. Joel foi o intérprete do grupo, classificado em primeiro lugar com a canção A Ilha, de autoria de Duílio Cury. Ele diz ter muito orgulho do prêmio até hoje, também porque o festival foi presidido pelo jornalista Irlam Rocha Lima, “essa figuraça da cultura musical do Correio Braziliense”, diz ele.              

Moinho - Após o festival, conta Joel, seguiu-se uma pausa, quebrada volta e meia em alguns karaokês. Até que, junto com o violonista profissional Beto Cardoso, também carioca, que havia acompanhado Tim Maia, Emílio Santiago, Alcione etc, organizou um projeto chamado O Mundo é um Moinho, cujo objetivo era resgatar músicas antigas e de qualidade. No curto período em que existiu, coisa de seis meses a um ano, ele não soube precisar, “o projeto se apresentou bem”.

Mais tarde, já no início de 2016, Joel lançou o projeto Música e Poesia para Todxs, com a banda Top Três, formada por Beto Cardoso, Manga Batera e Zambinha Baixista.

Diferentemente do anterior, que organizava shows de músicos profissionais, o novo projeto foi criado “para dar oportunidade a quem gosta de cantar e que por uma razão qualquer nunca se inseriu no contexto musical de Brasília”, diz Joel. A iniciativa “fez com que as pessoas percebessem (o mundo da música) e se percebessem (como artistas)”, completa.

Segundo Joel, o projeto, “no qual predomina a boa e velha MPB”, foi viabilizado no Feitiço Mineiro graças à sensibilidade de seu produtor, Jerson Alvim. E teve a grande sacada de agregar a poesia à música, atraindo muitos poetas que há tempos militam no cenário cultural do Quadradinho.

Joel chama atenção para um detalhe do nome do projeto. Na palavra “todos” o segundo “o” foi trocado pelo xis, “flexão de gênero”, diz Joel, “onde cabe todo mundo, de todas as idades, de todos os sentimentos, porque a gente quer um ambiente quase sagrado nos quesitos alegria, respeito e paz. Não é fácil de alcançar, mas é a nossa proposta”.

Agora é esperar a calmaria para ver esse barco singrando de novo!

Criado em 2021-05-31 19:43:57

Cultura e salto civilizatório

Ana Cristina Campos (*) –

Desde a sessão do Congresso Nacional de 2016, que aprovou o impedimento da presidente Dilma Rousseff, até a trágica  ascenção  de Jair Bolsonaro à Presidência do Brasil, busco a companhia de Sigmund Freud  nos seus  escritos relativos ao papel da Cultura na harmonização da vida comunal e consequente elevação dos patamares de civilização dos povos. Tais reflexões, pouco evocadas dentre o conjunto de sua obra entre nós, deveriam merecer  mais atenção nesta quadra da história humana, especialmente a brasileira.

No seu texto de 1927, O Futuro de uma ilusão, Freud faz o esboço de sua teoria sobre o  “Mal estar na Civilização”. Nele, está o entendimento de civilização como sendo todo o conhecimento e capacidade que o homem adquiriu com o fim de controlar as forças da natureza e extrair dela a satisfação das necessidades humanas. E, além disso, todos os regulamentos necessários para ajustar as relações dos homens uns com os outros, especialmente a distribuição da riqueza disponível.

Este processo civilizatório exige uma série de renúncias instintuais (relativas aos instintos) que se tornam indispensáveis à existência comunal e são estas renúncias que produzem o “mal estar”, entre as quais Freud destaca as mais estruturais para o arcabouço da cultura ocidental com berço na Europa, a saber: o canibalismo, o incesto e o desejo de matar:

“Quando a civilização formulou o mandamento de que o homem não deve matar o próximo a quem odeia, que se acha em seu caminho ou cuja propriedade cobiça, isso foi claramente efetuado no interesse comunal do homem, que, de outro modo, não seria praticável, pois o assassino atrairia para si a vingança dos parentes do morto e a inveja de outros, que, dentro de si mesmos, se sentem tão inclinados quanto ele a tais atos de violência. Assim, não desfrutaria de sua vingança ou de seu roubo por muito tempo, mas teria toda possibilidade de ele próprio em breve ser morto. Mesmo que se protegesse contra seus inimigos isolados através de uma força ou cautela extraordinárias, estaria fadado a sucumbir a uma combinação de homens mais fracos. Se uma combinação desse tipo não se efetuasse, o homicídio continuaria a ser praticado de modo infindável e o resultado final seria que os homens se exterminariam mutuamente. (...) A insegurança da vida, que constitui um perigo igual para todos, une hoje os homens numa sociedade que proíbe ao indivíduo matar.” (Freud, O Futuro de uma ilusão)

A civilização, portanto, “tem de proteger contra os impulsos hostis dos homens, tudo o que contribui para a conquista da natureza e a produção de riqueza. As criações humanas são facilmente destruídas e a ciência e tecnologia que as construíram, também podem ser utilizadas para sua aniquilação.” (Freud)

O processo de civilização é então vivido como  uma série de sentimentos  indesejáveis, a saber,  como “frustração”, que é o fato de um instinto não poder ser satisfeito; como “proibição”, o regulamento pelo qual essa frustração é estabelecida, e como “privação” a condição produzida pela proibição. Se os seres humanos ainda não conseguiram criar uma vida comunal livre de coerção social e repressão aos instintos, “isso se deve ao fato de nenhuma cultura haver ainda imaginado regulamentos que assim influenciem os homens, desde a infância”.

Mas Freud diz mais:

“Se, porém, uma cultura não foi além do ponto em que a satisfação de uma parte de seus participantes depende da opressão da outra, parte esta talvez maior - e este é o caso em todas as culturas atuais -, é compreensível que as pessoas assim oprimidas desenvolvam uma intensa hostilidade para com uma cultura cuja existência elas tornam possível pelo seu trabalho, mas de cuja riqueza não possuem mais do que uma quota mínima. Em tais condições, não é de esperar uma internalização das proibições culturais entre as pessoas oprimidas. Pelo contrário, elas não estão preparadas para reconhecer essas proibições, têm a intenção de destruir a própria cultura e, se possível, até mesmo aniquilar os postulados em que se baseia.”

Resumidas assim suas premissas e deixando de fora o tema da Religião, que não faz parte do foco deste texto mas que Freud considera  como um obstáculo importante ao desenvolvimento cultural, a questão  decisiva  que se coloca então é saber se, e até que ponto, é possível diminuir o ônus dos sacrifícios instintuais impostos aos humanos, reconciliá-los com aqueles que necessariamente devem permanecer e fornecer-lhes uma compensação.

Entre as compensações construídas pelos humanos diante de sua condição de insegurança, fragilidade e desamparo, além da coerção social e renúncia aos instintos, estão algumas vinculadas aos processos de invenção e contemplação:

- os deslocamentos de libido, que consistem em reorientar os objetivos instintivos de maneira que iludam a frustração do mundo externo. Obtém-se o máximo quando se consegue intensificar suficientemente a produção de prazer a partir das fontes do trabalho psíquico e intelectual como, por exemplo, a alegria do artista em criar, em dar corpo às suas fantasias, ou a do cientista em solucionar problemas ou descobrir verdades.

- a fruição das obras de arte, cujo poder de satisfação, por intermédio do artista, é tornada acessível inclusive àqueles que não são criadores.

- fruição da beleza , que dispõe de uma qualidade peculiar de sentimento, tenuemente intoxicante. (O Mal estar na Civilização: 29/30/32).

Tais observações  nos conduzem, entre outros caminhos, a  pensar na utilidade da arte e sua função “ terapêutica” no sentido de nos poder fazer suportar a complexidade da vida, como criadores e/ou espectadores, quer seja louvando-a , desafiando-a ou questionando-a  e, sendo assim, nos impele a duvidar de sua superfluidade. Ao não identificá-la como supérflua, fica a Arte instaurada no  patamar das necessidades humanas.

No Brasil, o campo artístico cultural sempre desempenhou papel relevante nos projetos de poder ao longo de nossa história. Ora no auxílio à construção da ideia do Brasil como Nação, com Pedro II; ora como difusor do projeto de um  Brasil trabalhador, na Era Vargas; ora como sinalizador de um processo de distensão política, ao final do regime militar, em contraponto à censura que, sob o pretexto de estabelecer um freio à expansão do comunismo no Ocidente, constituiu-se no braço ativo do ideário da  Segurança Nacional; ora como um recurso econômico capaz de impulsionar a economia, a partir da criação do Ministério da Cultura (MinC) e do lema “Cultura é um bom negócio”; ora reconhecendo a centralidade do campo para a conquista da soberania nacional e popular, a diversidade de manifestações artístico culturais, fortalecendo as expressões regionais e profissionalizando o setor, nos governos Lula e Dilma; e finalmente, no Governo Bolsonaro, o movimento de destruição de todo este processo de construção institucional, em nome do combate ao que apelidaram fantasiosamente de  “marxismo cultural”, da moralização dos costumes, da introdução de um viés religioso como instrumento de contenção da criatividade e da liberdade de expressão e pensamento, corrompendo o ideal de  Estado Laico e a  própria  ideia de Democracia, e da radicalização da política neoliberal, fundada sobre  os valores da competição, individualismo e meritocracia, imposta à periferia do sistema como forma de pagar a conta da crise que as próprias economias neoliberais centrais, criaram, possibilitando assim sua sobrevivência.

Com o argumento da contenção de gastos e de que a Cultura não é um setor  indispensável da vida cotidiana, mesmo  tendo um dos mais baixos orçamentos da Esplanada dos Ministérios, não temos mais o MinC. Todos os governos de perfil autoritário, com exceção de Getúlio Vargas que fez um uso adequado do campo cultural/educativo, têm como primeira iniciativa abolir a pasta da Cultura.

Este desejo voraz de  destruição  está diretamente ligado ao  alto Poder e capilaridade que a Cultura possui já que é o resultado dos encontros, trocas  e escolhas estéticas e éticas entre os diversos grupos que compõem a Nação no seu cotidiano ao longo da História. Mas talvez este  investimento precário no campo artístico-cultural e os movimentos para destruir os que existem seja,  ao mesmo tempo, uma forma dos “ excluídos da criatividade” penalizarem os “criativos”, vistos como aqueles que têm o privilégio de desenvolver seus potenciais de invenção. Uma espécie de vingança contra artistas, intelectuais e semelhantes, por parte daqueles que se acham privados do gozo estético e criativo, por um sistema mecânico e alienante de trabalho e um sistema educacional que insiste em negligenciar o papel estrutural das Artes, Ciência e Pensamento para o desenvolvimento humano.

Há uma imagem produzida durante a campanha presidencial de 2018 que mostra o Presidente Messias com uma criança ao colo simulando porte de arma. Ela sintetiza o macabro presente que testemunhamos, ao ferir dois princípios básicos para a concretização do processo civilizatório, o  “não matarás” que rechaça todo incentivo ao homicídio; e por não ter havido punição a este  incentivo, a imagem fere o princípio basilar sem o qual nenhuma civilização é possível, o Direito.

Ao encerrar suas reflexões sobre o “mal estar na civilização”, Freud adverte:

“A questão fatídica para a espécie humana parece-me ser saber se, e até que ponto, seu desenvolvimento cultural conseguirá dominar a perturbação de sua vida comunal causada pelo instinto humano de agressão e autodestruição.” (Freud, 199:,111).

Este é o desafio lançado aos governantes, políticos, economistas, artistas, educadores, sociedade em geral, elites em particular e diz respeito diretamente, ao Ministério da Cultura.

Resta saber quem vencerá, civilização ou barbárie.
______________
(*) Ana Cristina Campos é produtora cultural e pós-graduada em História pela UnB.

Fonte: Sigmund Freud – O Futuro de uma ilusão. O Mal estar na Civilização e outros trabalhos. Ed . Imago. Vol XXI

Criado em 2021-01-06 21:37:52

Pedestres abandonados em Brasília

“Vamos por cima / Por que é que temos que entrar / Neste buraco aí?” (Liga Tripa)

Romário Schettino

Existe uma cidade onde as calçadas são as piores do mundo? Existe, Brasília. Por que? Porque aqui o poder público é incapaz de tratar esse assunto com a prioridade e a seriedade que ele exige.
 
Brasília, cidade feita para os carros, com amplos gramados, muitas árvores, frutíferas inclusive, tem seus momentos de abandono e falta de compreensão sobre o que é governar para o cidadão. Todos os poderes – Executivo. Legislativo, Judiciário – são omissos.
 
É possível andar a pé nesta cidade cantada em verso e prosa pelos arquitetos e urbanistas brasileiros e estrangeiros? Essa é a pergunta para a qual os ativistas da recém-criada Associação Andar a Pé – O Movimento da Gente buscam respostas.
 
Claro que é possível, tanto assim que muita gente faz isso, apesar das imensas dificuldades e perigos. Mas poderia ser bem melhor se os planos de mobilidade urbana deixassem de privilegiar o automóvel. (Calçadas esburacadas numa entrequadra da Asa Norte, fotografadas por Sandra Crespo)


 
A primeira atividade do Movimento Andar a Pé, realizada num domingo de dezembro, no Eixão Sul, abriu com a coleta de assinaturas para a revitalização das passagens subterrâneas que, desde que foram inauguradas, nunca serviram para o fim a que se destinam: permitir que os pedestres cruzem a rodovia de um lado para o outro.
 
Houve uma época em que, na Asa Norte, elas foram soterradas. Alegava o governo que se transformaram em abrigo para mendigos. Com esse argumento absurdo, simplista, o número de mortes na travessia era tão grande que a estrada ficou conhecida como o Eixão da Morte.
 
A incompetência, ou desleixo, dos governantes impede a busca de soluções. Os trabalhadores continuam arriscando suas vidas tanto por cima como por baixo. Assaltos, violência sexual, imundice, escuridão, todo tipo de perigo.
 
Um concurso para a revitalização das passagens foi feito pelo GDF, um projeto ganhou a concorrência, mas foi solenemente engavetado. O povo continua correndo dos carros a 80 quilômetros por hora, sem faixas de pedestre, sem semáforos e na escuridão da noite. O Eixão sempre foi mal iluminado.
 
Para contrapor à fama de Eixão da Morte, inventaram o Eixão do Lazer, que fica fechado para os carros aos domingos e feriados. Essa boa iniciativa, no entanto, não resolve o problema do dia-a-dia do cidadão que exige uma cidade humanizada.
 
Os ativistas do Movimento Andar a Pé querem calçadas dignas de uso no Plano Piloto e nas cidades, contínuas, niveladas, sem buracos. Os pedestres não deveriam ser obrigados a disputar a rua com os carros, mas ter onde andar, simplesmente, como bípede que é.

Andar a Pé é saudável, moderno e não-poluente. A redução da velocidade e do número de carros é a meta da civilização do Século XXI.
 
Para tratar bem o pedestre e dar a ele o direito de se locomover é fundamental melhorar o transporte coletivo – ônibus, metrô, VLT –, construir ciclovias inteligentes. É preciso abandonar o rodoviarismo individualista e predatório.

A propósito, veja letra da música ”Horário de Verão”, de autoria de Caloro, Aldo Justo, Sérgio Duboc, Paulo Tovar e Toninho Alves, do Grupo Liga Tripa:

Vamos por cima
Por que é que temos que entrar
Neste buraco aí?
Vamos por cima
Por que é que temos que entrar
Neste buraco aí?
Calçada marginal
Caminho de rato aberto na grama
Atropelando a faixa presidencial
Vamos pro alto
Que o tempo no asfalto
Não dá mole a ninguém
Parada obrigatória versus parada dura
Caminho de Bruno todo dia
Depois da hora normal
Parada obrigatória versus parada dura
Caminho de Bruno todo dia
Depois da hora normal.

Criado em 2016-12-17 23:18:15

MAB expõe mobiliário de Sergio Rodrigues feito para a UnB

Em cartaz até 31 de março, mostra expõe a história e o trabalho de um dos ícones do design de móveis feitos para a Universidade de Brasília (UnB).

Sergio Rodrigues e o Mobiliário Moderno da Universidade de Brasília é uma mostra para os amantes da arquitetura do mobiliário moderno. A exposição conta com o acervo de um profissional que ganhou notoriedade mundial ao acreditar que os móveis deveriam refletir a cultura de sua origem, além de proporcionar o conforto adequado ao clima e ao jeito mais descontraído de viver.

Com o auge de sua carreira nos anos 50 e 60, Sergio trabalhou com design de móveis de acordo com o modernismo no Brasil, trazendo a identidade brasileira para seus projetos tanto nos desenhos, quanto nos materiais tradicionais, como couro, palhinha e madeira - exaltando a cultura brasileira e indígena.

Contemporâneo de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, seu mobiliário foi utilizado em larga escala na construção da capital brasileira Brasília. Ao todo, a mostra conta com quatro poltronas da UnB, assim como a linha do tempo e a especificação de cada peça, conforme a época da criação.

"Naquela época (início de Brasília) não se tinha tempo de pensar em desenhar móvel nenhum. Nós usamos móveis correntes no mercado, selecionando como o Palácio exigia. O principal designer a quem solicitei móveis foi Sergio Rodrigues”, afirmou o arquiteto e urbanista Lúcio Costa.

Para idealizar o mobiliário modernista da Universidade de Brasília Sergio Rodrigues usou como referência o sistema de casas pré-fabricadas, das quais possuía atuação.

Em 1961, Darcy Ribeiro, depois de visitar uma exposição de Rodrigues no Museu de Arte Moderna no Rio (MAM-RJ) o convidou para construir os pavilhões OCA I e OCA II, edifícios feitos para servir de alojamentos provisórios para professores e funcionários da UnB, edificações pioneiras no campus. Sua experiência na UnB continuou com a incumbência, dada por Darcy Ribeiro, para mobiliar o auditório da universidade.

Para o idealizador da exposição, o arquiteto e urbanista José Airton Costa Junior, sua pesquisa, catalogação, exposição criação de um livro foram os resultados do desafio a que se propôs como forma de homenagear o grande mestre da Arquitetura e do Design brasileiros, Sergio Rodrigues.

“Sergio fazia de tudo. Sua obra é conhecida, principalmente, por sua arquitetura de casas pré-fabricadas em madeira, pelo design de mobiliário, por sua dedicação aos ambientes internos e por suas criativas ilustrações”, disse Airton.

José Airton conta ainda que foi exatamente uma de suas histórias que inspirou a criação desse projeto de livro, da catalogação e da exposição. “Há 60 anos, Sergio virava uma noite montando as poltronas do auditório onde seria a cerimônia de inauguração da UnB. Na manhã que se seguiu a essa noite, em 21 de abril de 1962, a UnB foi oficialmente inaugurada e as poltronas projetadas por Sergio estavam quase todas prontas – somente uma não ficou concluída a tempo, mas ele tratou de ficar em pé escondendo o lugar vazio”.

Para a produtora executiva da mostra, Erika Albuquerque, trabalhar com assuntos que envolvam o legado de Sergio Rodrigues é mergulhar no que há de mais sofisticado e genuíno do design brasileiro.

"Coletar suas obras e reavivar parte de sua trajetória para conhecimento ou reencontro do público, é manter e perpetuar a memória de nosso patrimônio material e cultural, valorizando nossa história, nossas referências nacionais, e, também, direcionar a atenção dos mantenedores à sua preservação", arremata Erika.
___________________
Serviço:
Exposição: Mobiliário de Sergio Rodrigues para a Universidade de Brasília
Local: Museu de Arte de Brasília
Em cartaz até 31 de março
Entrada Franca
Link com outras fotos da exposição:
https://drive.google.com/drive/folders/1FdGgrPgzGP6OhclWC5oKMH_-U5t2rVjH?usp=sharing

Criado em 2022-03-11 17:05:39

Lula defende a Eletrobrás: "Privatização ameaça soberania e aumentará conta de luz"

"Em defesa da soberania e da segurança energética do Brasil, e para evitar que o governo Bolsonaro leve ainda mais nosso país à escuridão, é preciso dizer não à privatização da Eletrobrás", disse o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em nota divulgada à imprensa.

Tramita na Câmara dos Deputados a Medida Provisória 1.031/21 que autoriza a venda da estatal que responde por 30% da energia gerada no país. Lula alertou que a venda da estatal vinculada ao Ministério de Minas e Energia vai elevar consideravelmente as tarifas de energia.

"A Eletrobrás é a maior empresa de energia da América Latina. São 48 usinas hidrelétricas, 62 eólicas, 12 termelétricas, duas termonucleares e uma solar. Além de mais de 70 mil quilômetros de linhas de transmissão, suficientes para dar uma volta e meia ao redor da Terra", disse Lula.

Para Lula, privatizar a Eletrobrás é "entregar de bandeja" esse patrimônio duramente construído pelo povo brasileiro. "É permitir que interesses privados passem a controlar as barragens e as vazões das águas, bem como o acesso a importantes fontes hídricas do nosso país", afirmou.

Leia, a seguir, a íntegra da nota de Lula:

“Está em curso mais um crime contra o povo brasileiro e o futuro do nosso país. O alvo da vez é a Eletrobrás, que Bolsonaro quer vender a preço de banana, colocando em risco a soberania e a segurança energética do Brasil.

Se esse crime não for evitado, a privatização da Eletrobrás vai também elevar consideravelmente as tarifas de energia, levando a conta de luz a fazer companhia aos preços abusivos do gás de cozinha, da carne e dos demais alimentos, que não param de subir.

Sem falar no risco de apagões, como o que aconteceu em novembro no Amapá. Uma série de falhas cometidas pela empresa privada responsável afetou o abastecimento de energia elétrica e água encanada, além dos serviços bancários, internet e telefonia, levando o caos à população.

A Eletrobrás é a maior empresa de energia da América Latina. São 48 usinas hidrelétricas, 62 eólicas, 12 termelétricas, duas termonucleares e uma solar. Além de mais de 70 mil quilômetros de linhas de transmissão, suficientes para dar uma volta e meia ao redor da Terra.

A empresa foi também responsável pela operação do programa Luz para Todos, criado no nosso governo, que levou energia elétrica a quase 17 milhões de brasileiros que viviam na escuridão, em pleno século 21.

Privatizar a Eletrobrás é entregar de bandeja esse inestimável patrimônio duramente construído pelo povo brasileiro. É permitir que interesses privados passem a controlar as barragens e as vazões das águas, bem como o acesso a importantes fontes hídricas do nosso país.

Em defesa da soberania e da segurança energética do Brasil, e para evitar que o governo Bolsonaro leve ainda mais nosso país à escuridão, é preciso dizer não à privatização da Eletrobrás.”
__________________
Leia aqui matéria relacionada ao assunto: Partidos de Oposição vão ao STF para tentar barrar votação da MP da Eletrobrás

Criado em 2021-05-19 15:04:38

Um vídeo que repõe verdades. Aécio mente, como sempre!

Criado em 2017-03-08 22:17:05

Os simbolistas: eles queriam outra coisa - I Baudelaire

Maria Lúcia Verdi -

Bertold Brecht se perguntava que tempo era este “em que uma conversa sobre árvores chega a ser uma falta\ pois implica em silenciar sobre tantos crimes”. Há cinco anos tenho desenvolvido, em Brasília, o projeto Poesia do Mundo, que apresenta a leitura, em língua original, por nativos, de autores que me tocaram ao longo da vida e suas traduções. Já foram escutados poetas argentinos, chineses, de língua alemã e, numa edição especial, a poesia do sem par Francisco Alvim.

Poesia tem a ver com a resistência, a resistência frente ao impossível da vida, frente à página branca, frente ao abismo paralisador do ser.  Além da linguagem do silêncio, da intimidade e busca é também linguagem do grito, das ruas e da transformação. Neste ano tão desafiador, resolvi focar num movimento poético que muito pouco tem a ver com um discurso comprometido e ideológico, mas que tem tudo a ver com a linguagem da busca de um significado maior no estar vivo e pensar, da busca pela expressão possível dos mistérios e das epifanias em que estamos imersos.

Dia 8 de novembro, na Aliança Francesa, parceira entusiasta do projeto, serão lidos textos de quatro dos maiores representantes do Simbolismo francês, – Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé e Valéry – que chegarão até nós nas vozes dos poetas Francisco Alvim, Maria Maia, Angélica Torres Lima, além da minha. Nesta matéria, e na próxima, adiantarei um pouco do que se trata e compartilharei trechos desses marcos da poesia universal.

Charles Baudelaire (1821-1867) inaugura a modernidade na poesia com uma obra atenta à dor do homem comum, à fealdade, ao mal (mesmo à beleza do mal); autor de As Flores do Mal (traduzido no Brasil três anos após sua publicação), coloca a poesia francesa no mapa internacional. Num período em que o Romantismo imperava (Victor Hugo e Lamartine, semi-deuses) ele traz, num realismo que nada exclui do real como matéria poética, versos com uma sonoridade nova.

A Cidade (Paris) o fascina e assusta com seus contrastes desgarradores, a moda, os artifícios da civilização o atraem em sua máscara de Dandi (dândi enquanto sinônimo de artista superior e lúcido), mas, por outro lado odeia o burguês. Sua maior paixão chama-se Jeanne Duval, uma prostituta a quem dedicou alguns de seus mais belos poemas. Vivendo no momento histórico do pleno desenvolvimento do capitalismo, Baudelaire tem dificuldade em lidar com o dinheiro, trabalha muito, reescreve sem cessar mas tem horror a ser útil.

Paradoxo vivo, Baudelaire fraqueja, desespera, e a partir do fracasso frente à potência que move a vida, a partir de uma impotência radical, cria uma obra pujante, enorme. Segundo ele, sua energia “brota do tédio e do devaneio”. Conta que “Muito criança senti no coração dois sentimentos contraditórios: o horror da vida e o êxtase da vida”. Divido entre o Bem e o Mal, entre Deus e o Diabo, sua poesia é êxtase e dilaceração. Vítima do spleen (tédio) romântico observa uma sociedade em transformação, quer ser reconhecido, quer a ascensão social, mas não sabe lutar por ela. Proponho a leitura de “A falsa moeda”, do seu Pequenos Poemas em Prosa, traduzidos por Aurélio Buarque de Holanda.

“Enquanto nos afastávamos da tabacaria, meu amigo fez uma cuidadosa separação de suas moedas: no bolso esquerdo do colete insinuou pequenas peças de ouro; no direito, pequenas peças de prata; no bolso esquerdo da calça, um punhado de volumosos soldos; e enfim, no direito, uma peça de prata que ele particularmente examinara.

- “Singular e minuciosa distribuição!” – disse eu comigo.

Encontramos um pobre que nos estendeu o boné, a tremer.

 – Não conheço nada mais inquietante que a eloquência muda desses olhos súplices que, para o homem sensível que neles sabe ler, encerram, ao mesmo

tempo, tanta humildade e tantas censuras. Ele aí descobre algo que se aproxima dessa profundeza de sentimento complexo própria dos olhos lacrimejantes dos cães batidos.

A dádiva de meu amigo foi muito mais considerável que a minha, e eu disse-lhe: - Você tem razão, depois do prazer de espantar-se, não há prazer maior que o de causar uma surpresa.

- Era a moeda falsa – respondeu calmamente, como para se justificar de sua prodigalidade.

No entanto, no meu miserável cérebro, sempre ocupado em procurar complicações onde elas não existem (com que exaustiva faculdade me brindou a natureza!), entrou de súbito a ideia de que tal procedimento, da parte de meu amigo, só era desculpável pelo desejo de criar um acontecimento na vida daquele pobre-diabo, talvez mesmo de conhecer as consequências diversas funestas ou de outra espécie, que uma moeda falsa pode engendrar quando nas mãos de um mendigo. Não poderia ela multiplicar-se em moedas verdadeiras? Não poderia, também, arrastá-lo à prisão? Talvez um taberneiro ou um padeiro, por exemplo, mandasse prende-lo como fabricante de moeda falsa. Também poderia acontecer que a moeda falsa viesse a tornar-se, para um pobre, humilde especulador, o germe de uma riqueza de alguns dias. E assim a minha fantasia se espraiava, emprestando asas ao espírito do meu amigo e tirando todas as deduções possíveis de todas as hipóteses possíveis.

Ele, porém, rompeu imprevistamente o meu devaneio retomando as minhas próprias palavras:

- Sim, você tem razão: não há prazer mais doce do que surpreender um homem dando-lhe mais do que ele espera.

Fitei-o no branco do olho, e espantei-me de ver que nos seus olhos brilhava uma incontestável candura. Então percebi nitidamente que ele quisera fazer, ao mesmo tempo, uma caridade e um bom negócio; ganhar quarenta soldos e o coração de Deus; conquistar o Paraíso economicamente; enfim, pilhar de graça o diploma de homem caridoso. Quase lhe perdoaria o desejo do criminoso prazer de que pouco antes o supunha culpado; acharia curioso, singular, que ele se divertisse em comprometer os pobres; mas não lhe perdoarei jamais a inépcia do seu cálculo. Se nunca nos podemos escusar de ser maus, há, contudo, algum mérito em saber que o somos; porém o mais irreparável dos vícios é fazer o mal por estupidez”.

Texto machadiano, lúcido, cético e sutil, oportuno para um momento em que o Capital é senhor, o Falso moeda corrente e a Dúvida sobre a natureza humana escancarada a todo momento como um acontecimento antigo e sempre novo.

Criado em 2018-08-22 22:25:21

Uma coletiva fotográfica em tons de resistência

Angélica Torres -

Nesta quinta-feira, 25/10, a partir de 18h30, será oferecido, a convidados e amantes de fotografias, o coquetel de abertura da mostra Quadrantes, em exposição na Galeria de Arte do Anexo IV da Câmara dos Deputados (o prédio amarelo, na via paralela à Esplanada dos Ministérios ).

A mostra reúne os fotógrafos Gisa Müller (Chapada dos Veadeiros), Luca Bonacini (Roma), Philipi Bandeira (Brasília) e Tayana Cruz (Salvador), com seus trabalhos importantes - ainda mais em se considerando o triste momento vivido no país e também no mundo. As fotos versam sobre quilombolas, indígenas, o povo de Sarajevo e a arquitetura do berço das civilizações. Gisa Müller e Luca Bonacini estarão presentes ao coquetel de abertura.

Com seu ensaio sobre a religiosidade dos Kalunga do Vão do Moleque (Cavalcante-GO), a carioca e ex-cidadã brasiliense, hoje vivendo em Alto Paraíso, Gisa Müller, homenageia nossos ancestrais afrobrasileiros e a resistência com que preservaram sua cultura original.

Gisa conta que lembrou de um verso de Khalil Gibran, quando decidiu fotografar personagens e cenas da festa de romaria da comunidade, que vive isolada do convívio com os brancos, por quase 300 anos: "Quero tocar o coração do homem por meio da beleza" ponderou a fotógrafa.

"Quero também fazer um protesto, na abertura da mostra, com o meu projeto em defesa desse povo lindo, que foi insultado por um certo candidato à presidência do país", disse ela, referindo-se a Bolsonaro, por conta de uma de suas frases inacreditáveis contra os negros brasileiros.

Gisa afirmou ainda desejar, com o seu projeto "Retratos da Fé Kalunga”, que o encontro de amigos, proporcionado pela coletiva, ajude a fortalecer o ânimo e a esperança de dias muito melhores para o Brasil.

Junto com a Mídia Ninja, a fotógrafa prepara ainda um levante pacífico de quilombolas e outras minorias, para uma performance, no dia seguinte, sexta-feira, partindo em procissão, às 15h, da rodoviária do Plano Piloto em direção ao prédio Anexo da Câmara dos Deputados, onde está a exposição.

Sarajevo, Gaviões e arquitetura histórica

Os convidados e visitantes da mostra vão conhecer também as fotografias que o romano Luca Bonacini apresenta em Pessoas e palavras de Sarajevo, abrangendo um panorama dessa população, 20 anos após o fim da guerra.

Gavião: Paideia Parkatejê, do documentarista Philip Bandeira, traz jogos e festas dos indígenas da aldeia Parkatejê, no Pará, feitas durante as gravações de um filme sobre o cacique Krokrenum.

Já a arquiteta Tayana Cruz, em Arquitetura: uma poesia da forma, exibe fotos de monumentos antigos das cidades europeias visitadas por ela há dois anos - várias, berço de civilizações no contexto arquitetônico mundial.

___________________

Serviço:

Quadrantes 3 - Gisa Müller, Luca Bonacini, Philipi Bandeira e Tayana Cruz. Abertura em 26/10, a partir de 18h30. Visitação até 7/11, de 2a a 6a, das 9h às 17h. Na Galeria de Arte do Anexo IV da Câmara dos Deputados, 10o andar. Entrada franca.

Veja o catálogo da exposição em:

http://www2.camara.leg.br/a-camara/visiteacamara/cultura-na-camara/historia-arte-e-cultura/exposicoes-2018/quadrantes-3

Criado em 2018-10-24 22:59:01

PT lidera com folga segundo turno em São Gonçalo (RJ)

Romário Schettino -

Pesquisa de intenção de votos em São Gonçalo, segunda maior cidade do Rio de Janeiro, com mais de um milhão de habitantes, aponta que o candidato Dimas Gadelha (PT), com 43% dos votos, aparece com folga na frente de Capitão Nelson (Avante), com 27%. Brancos e nulos são 18% e não souberam ou não responderam 12%.

A pesquisa, que é praticamente a última antes da eleição do próximo dia 29 de novembro, foi feita pela Inteligence Serviços ouvindo 600 eleitores entre segunda (23/11) e terça-feira (24/11) e divulgada hoje pelo jornal O Dia.

Dimas Gadelha, que foi o candidato mais votado no primeiro turno, com 31,36% dos votos válidos, conta com o apoio de prefeitos de municípios próximos como Rodrigo Neves (PDT), de Niterói, e Fabiano Horta (PT), de Maricá. Além de Axel Grael, pedetista eleito no primeiro turno em Niterói.

O vice de Dimas Gadelha, Marlos Costa,do PDT, faz parte da aliança costurada pelo ex-prefeito de Maricá, Washington Quáquá (PT) para viabilizar essa possível vitória na maior cidade do Estado depois do município do Rio de Janeiro. O IDH de São Gonçalo é baixo e a violência urbana atinge níveis alarmantes.

Para combater a  pobreza extrema, a ideia de uma moeda digital, como a Mumbuca, criada pelo então prefeito de Maricá Washington Quaquá e ampliada pelo atual Fabiano Horta, faz parte do programa de governo de Gadelha e deverá ser implantada com o nome de Tamoio, como parte do programa Renda Básica da Cidadania.

“Sou médico e por formação meu compromisso sempre será com o povo. A implantação da moeda social Tamoio em São Gonçalo vai revolucionar a economia da cidade”, promete o candidato petista. Além disso, faz parte de seu programa de governo a criação de pelo menos cinco mil empregos no curto prazo e reformular as estratégias de enfrentamento da epidemia do coronavírus na cidade.

Criado em 2020-11-26 00:46:53

O mestre das baquetas sinfônicas

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Publicamos aqui a entrevista do maestro Ney Rosauro para o Guia Musical de Brasília, que está de volta nesta sexta-feira, 28 de maio, depois de ficar suspenso desde o segundo semestre de 2019 pela falta de financiamento, agravada pela pandemia.

Nos próximos dias, publicaremos as demais entrevistas da oitava edição: Joel de Oliveira, cantor e produtor do projeto Música e Poesia para Todxs; Ademir Júnior, sax tenor, autor do best seller Os Caminhos da Improvisação; Patrícia Duboc, cantora de MPB e gospel; Virgínia Feu Rosa, dona de uma das vozes mais delicadas do Distrito Federal; e Paula Zimbres, rara contrabaixista de sólida formação teórica, agora também explorando a voz.

A primeira entrevista que eu e o publisher do Guia Musical de Brasília, Joaquim Barroncas, fizemos com Ney Rosauro, 68, um dos maiores percussionistas sinfônicos do mundo, aconteceu em novembro de 2019, antes do início da pandemia e do longo hiato de nossa publicação.

Mais de uma hora depois da conversa, que aconteceu em seu apartamento no Sudoeste, nos fundos do Hospital das Forças Armadas, a gente saiu com a sensação de ter percorrido os quatro movimentos do seu Concerto nº 1 para Marimba e Orquestra, o mais popular para esse instrumento em todo o mundo, executado por centenas de orquestras de todos os continentes. Os movimentos são Saudação, Lamento (por não termos conhecido o Rosauro antes), Dança (durante a qual colhemos informações preciosas sobre a formação da vida cultural de Brasília) e Despedida (com a expectativa de voltar ali outras vezes).

Na parte de cima do duplex do Rosauro há uma enorme varanda coberta, o estúdio com os instrumentos e o computador, e um reservado com um grande armário para acomodar as partituras, os métodos didáticos, cópias de seus álbuns, além de uma pequena coleção de guitarras e contrabaixos.

Nascido no Rio de Janeiro de uma família gaúcha, Rosauro mudou-se para Porto Alegre ainda criança, e para Brasília, aos 18 anos, no final de 1969, para estudar na UnB. Na época tocava violão e guitarra. Como não havia cursos para esses instrumentos, teve que optar pelo curso de composição e regência. No primeiro ano, estudou violino. Depois, oboé e flauta. Ao longo do curso, fez também piano. “No último ano, em 1977, fui para o curso de verão da Escola de Música de Brasília tocando contrabaixo, o instrumento que eu mais gostava, e ali conheci o Luiz D’Anunciação, que veio do Rio trazendo uma marimba e um vibrafone. Eu fiquei encantado e resolvi que iria parar com a música popular para estudar percussão sinfônica”.

Anunciação - Abramos um parênteses para explicar quem era Luiz D’Anunciação. Sergipano, conhecido como Pinduca, era ninguém menos do que o papa da percussão no Brasil naquela época. Tendo iniciado a carreira ainda nos anos 40, formou-se nos seminários de música da Universidade Federal da Bahia no final dos anos 50, estudou percussão na Universidade do Colorado, vibrafone com Phill Krauss, em Nova York, e marimba com José Bethancourt, em Chicago. Instrumentista, percussionista, compositor, pesquisador, professor, foi ele quem preparou o naipe de percussão da Orquestra Sinfônica Brasileira quando essa fez a excursão pela Europa sob a direção de Isaac Karabtchevsky nos anos 90. 

E agora façamos um flashback para entender um pouco mais a decisão de Rosauro de trilhar os caminhos da música erudita. Ele conta que no início dos anos 70, recém-chegado a Brasília, enturmou-se com uma moçada que se reunia na 206 Sul, “um pessoal meio hippie”, diz ele, que costumava sentar sobre a estrutura (manilhão) de um poço de visita de um bueiro. Ali mesmo esses moços começaram a tocar, criando a primeira banda de rock autoral de Brasília, a Margem, que atuou entre 1970 até 1974.

Lemos na capa do álbum comemorativo de 40 anos que o grupo foi criado por Peninha (guitarra e vocal), Ney Gaúcho-Rosauro (guitarra, baixo e vocal) e Sérgio Boré (percussão e vocal) no final de 1971. Tonicesa Badu (violão, guitarra e vocal) se juntou depois, assim como o Baduzinho (percussão). Badu e Peninha saíram e foram substituídos respectivamente por Anninha Chaves, nos vocais, e Nanche Las Casas (violão, guitarra e vocal). Nessa época, a banda tocava em Brasília e Goiânia, e fez uma apresentação histórica para os detentos da Papuda.

Temas do Cerrado - A temática, diz Rosauro, incluía as tribos do Planalto, os gramados da cidade, o vento frio do Cerrado, mas também – está escrito na capa do álbum – as gírias da época, o inconformismo, o amor, o “cotidiano de jovens cabeludos que viveram a adolescência em um período político conturbado, em uma cidade em construção”. Uma das canções da banda, Medo do Escuro, inspiraria depois uma música de Renato Russo, como ele mesmo disse ao Peninha.

Um fato transformaria a Margem numa espécie de usina musical, diz Rosauro. “Com a ajuda do pai do Badu, a gente comprou uma aparelhagem completa. Tínhamos P.A., microfones, bateria, tudo. Daí começaram a surgir várias bandas no entorno. Não tocávamos sozinhos, fazíamos um festival, chamando as outras – Bueiro, Biscoito Celeste, os irmãos Clodo, Tetê (Catalão) e a turma da Cozinha. Eles pegavam carona na aparelhagem da gente. Surgiu então um ‘Som Brasília’”.

Para escutar algumas músicas da banda, visite o site SoundCloud e procure por “Banda Margem”.   

Retomando o fio da meada: Rosauro conta que quando conheceu Luiz D’Anunciação já estava meio cansado de tocar em bares e um pouco decepcionado com a música popular. “Sabe, ficar tocando à noite, bebendo, se drogando? Eu já estava querendo estudar música a fundo, avançar com a música erudita”.

Decisão tomada, ele começou a estudar percussão no Rio de Janeiro, enfrentando jornadas de 22 horas de ônibus durante dois anos. Depois, ganhou uma bolsa e foi para Würzburg, Alemanha, estudar com um dos pioneiros da percussão na Europa, Siegfried Fink. De volta a Brasília, começou a dar aulas na Escola de Música, tendo sido o fundador de seu curso de percussão. Nessa época entrou na Orquestra do Teatro Nacional, que acabava de ser criada pelo maestro Cláudio Santoro. Em seguida voltou para a Alemanha para fazer mestrado.

Doutor em Miami – No segundo retorno daquele país, foi para a Universidade Federal de Santa Maria, Rio Grande do Sul. “Eu queria fazer currículo para poder dar aula na UnB. Meu sonho era dar aula na UnB”. Daí fez doutorado na Universidade de Miami. Em 1995, passou num concurso para a UnB, mas teve o azar disso acontecer na transição do governo FHC para o governo Lula, quando a burocracia prevaleceu.

“Passaram seis anos e eles não me contrataram. Eu pensei: minha vida acabou, estou arruinado. Nisso me ligam dos Estados Unidos, me chamando para uma audição. Disseram que tinham interesse em me contratar como professor. Eu não queria morar nos Estados Unidos, mas eles me ofereceram um ótimo salário, bolsas para os meus filhos e o custeio da mudança. Ah, eu fui embora. Foi bom porque daí é que a minha carreira internacional despontou”.

A mudança para os Estados Unidos aconteceu no ano de 2000, e nos próximos dez anos ele foi o diretor dos estudos de percussão da Universidade de Miami. Há cinco anos, Rosauro pediu demissão para se tornar um músico freelancer. Por quê? “Eu já estava cansado. Lá é muito bom para ganhar dinheiro mas é preciso trabalhar muito. Eu chegava a trabalhar seis, sete dias por semana. Lá eu tinha muitas vantagens, como o sponsorship da Yamaha, que me cedeu vários instrumentos. E lá eu desenvolvi dez modelos de baquetas para a Vic Firth, a fábrica de baquetas mais importante do mundo. Tudo isso são privilégios, mas eu queria voltar para o Brasil, porque aqui tenho muitos amigos, posso chegar numa roda de choro e tocar sem compromisso”.

Ney Rosauro já fez concertos e deu aulas em 45 países. Publicou onze CDs e editou mais de 100 obras de métodos didáticos para percussão. Hoje, os direitos autorais sobre a execução de suas obras são a sua principal fonte de renda. Aqui entram também o aluguel (EZ-Rent) de suas partituras para orquestras e a venda de seus manuais didáticos. A aquisição de suas partituras para orquestras e dos manuais didáticos pode ser feita através de seu website: www.neyrosauro.com

Compromisso - Rosauro não se preocupa, porém, só com a parte comercial do negócio. Ele diz que se sente responsável pela difusão da educação musical da percussão no Brasil, pois os estudantes daqui têm pouco acesso aos materiais didáticos. Ele escreveu o único método brasileiro de caixa clara, além de onze outros métodos para o ensino dos instrumentos de percussão, todos voltados para o mercado brasileiro. Sua série de métodos didáticos estão agora disponíveis de graça para os alunos de percussão no seu website. 

Ficamos curiosos sobre o termo mallets. Rosauro nos explica que tanto são as baquetas como os instrumentos de percussão com barras, os barrafones, quer dizer, a marimba, o vibrafone e o xilofone, uma marimba menor. Portanto, quando se diz “música para mallets” quer se dizer música composta para esses instrumentos.

Rosauro faz questão de nos mostrar as baquetas que ele criou para a firma Vic Firth. Quatro modelos para marimba, três modelos para vibrafone e outras três híbridas, para marimba e vibrafone, além de um modelo para caixa clara. As pontas das baquetas para marimba são feitas de lã, mais moles, porque as placas da marimba são de madeira e podem se quebrar. Para o vibrafone, as baquetas têm as pontas mais duras, feitas de corda. As híbridas misturam os dois materiais.

Na dissertação de mestrado de Eduardo Fraga Tullio, da Universidade Federal de Goiás, sobre as composições de Luiz D’Anunciação, Ney Rosauro e Fernando Iazzetta – um atestado da relevância artística e pedagógica de Rosauro – descobrimos que ele criou até mesmo um estilo para segurar as baquetas. Diz o Tullio que existem três formas principais de segurá-las na técnica das quatro baquetas, amplamente utilizada no Concerto nº 1 para Marimba e Orquestra. “Na primeira, chamada ‘Tradicional’, as baquetas ficam cruzadas na mão, apoiada pelo dedo mínimo. Na segunda, chamada ‘Burton’, a baqueta externa é pressionada contra a palma da mão apoiada pelo dedo médio. Esta segunda maneira tem uma variação chamada ‘Extensão do grip Burton’ elaborada por Ney Rosauro. No estilo ‘Rosauro’ a baqueta externa é apoiada pelo dedo anular – este estilo também merece menção, uma vez que é muito utilizado no Brasil por ex-alunos dele. Na terceira chamada ‘Stevens’, as baquetas não se cruzam. A primeira baqueta é segurada pelos dedos polegar e indicador e a segunda baqueta é apoiada pelos dedos anular e mínimo”.

Concerto nº 1 - Tullio informa que o Concerto nº 1 para Marimba e Orquestra foi escrito entre junho e julho de 1986 em Brasília, dedicado a Marcelo, um dos filhos do compositor. A estreia aconteceu no mesmo ano nos Estados Unidos com a Manitowoc Symphony Orchestra sobre direção de Manuel Prestamo. Com o sucesso comercial da gravação do concerto em CD e vídeo em 1990 pela percussionista inglesa Evelyn Glennie com a London Symphony Orchestra, o concerto rapidamente tornou-se conhecido em todo o mundo. Na verdade, é o concerto de marimba mais popular de todos os tempos, tendo sido tocado por mais de 3.000 orquestras.

Ainda segundo Tullio, “a parte solo explora muitas possibilidades da técnica de quatro baquetas. Originalmente escrito para marimba e orquestra de cordas, o concerto contém quatro movimentos, diferente da forma de concerto tradicional (rápido, lento e rápido), a terceira parte apresenta um tempo médio antes do final vigoroso. O modo brasileiro pode ser sentido por toda a peça, que contém fortes padrões rítmicos. A música foi composta com a intenção da marimba liderar o material temático e com isso a parte da marimba pode ser tocada quase como uma peça solo sem precisar do acompanhamento da orquestra”.

O Concerto está disponível no YouTube (ouça aqui) em várias versões, ao lado de outras importantes peças, como o Concerto nº 2 para Marimba e Orquestra, os Prelúdios para Marimba, os Concertos nº 1 e 2 para Vibrafone e o mais recente, o Duplo Concerto para Marimba e Tímpanos. 

Rosauro nos conta que continua compondo, embora em menor escala. De agora em diante ele pretende tocar mais música popular, usando os mallets, participar de rodas de choro, e se dedicar às vídeo-aulas pela Internet. Ele interrompe a conversa para nos dar uma canja na marimba, executando um chorinho com sabor de jazz. E de novo nos surpreende: “Assim que eu voltei para o Brasil há dois anos e meio, comecei a tocar cavaquinho, pois é mais fácil eu carregar esse instrumento do que colocar uma marimba nas costas”!

Um livro, talvez? - Eu e o Joaquim achamos que a conversa foi ótima e que está na hora de parar de alugar o nosso anfitrião. Mas ele quer relatar mais fatos que vai puxando lá dos anos 70 e 80. Por exemplo, diz que foi o diretor da primeira rodada dos Saltimbancos em Brasília, montado por Hugo Rodas. Informa que nessa época, junto com Ricardo Vasconcelos e o Rodolfo Cardoso, criou o primeiro protótipo de trio elétrico na cidade, Flor do Planalto. “Nós tocávamos nos bares da Asa Norte mas nunca saímos em cima de um caminhão. Com esse bandolim aí”, diz,  se levantando para nos mostrar o instrumento.

“O Reco do Bandolim ia lá várias vezes no trio elétrico dar uma canja”, conta. “O primeiro bandolim que o Reco teve fui eu que emprestei pra ele. E ele deixou o bandolim no chão, foi dar ré e o carro passou por cima. O primeiro bandolim que o Reco comprou foi para me pagar! Depois eu tive uma banda com ele, a quem chamávamos de Jimmy Reco. O irmão dele, o Ivan tocava na banda, chamada Carência Afetiva”.

Já nos levantando para sair, Rosauro nos parou com uma exclamação: “Ah, vejam esse baixo! Era o baixo que eu tocava na Margem. Na época era branco, agora é amarelo. Eu ganhei quando tinha 18 anos”.

Diante de tantas histórias, sugerimos ao Ney Rosauro para escrever um livro com a memória dos primeiros movimentos culturais de Brasília. É claro que ele já havia pensado nisso.

Atualização – Agora, no final de maio, Rosauro estava passando alguns dias com a esposa perto de Baden-Baden, no sudoeste da Alemanha, na casa dos sogros. Por telefone e pelo Whatsapp trocamos algumas palavras sobre o que ele fez nos últimos meses.

No começo da pandemia, Rosauro estava em Florianópolis, onde ficou até junho do ano passado, um período muito produtivo durante o qual compôs uma Suíte Brasileira para Vibrafone e Orquestra de Cordas, com sete movimentos – Maracatu, Bossa Nova, Choro, Coco, Dança, Valsa e Frevo. Dessa suíte ele desdobrou outra, para flauta e marimba, em quatro movimentos – Valsa, Coco, Dança e Choro. Por fim, compôs uma peça para vibrafone em dois movimentos, Interlúdio e Choro, que vai integrar um CD de seu amigo mexicano Israel Moreno, professor da Universidade de Ciências e Artes de Chiapas.

Ele também investiu muito na Ney Rosauro Percussion School, gravando 25 vídeos-aulas que estão à disposição do público brasileiro gratuitamente no seu canal do YouTube. Os vídeos foram baseados em seus materiais didáticos e contêm até mesmo dicas práticas, de como enrolar baquetas, por exemplo.

Ney Rosauro diz que este ano está trabalhando em ritmo menos acelerado. Saindo da Alemanha, voltará para a sua casa em Miami, onde já estava passando uma temporada que aproveitou para botar as leituras em dia. Na verdade, devorou mais de dez livros sobre a música popular brasileira, incluindo autores como Mário de Andrade, Sérgio Cabral, Ruy Castro, Nelson Motta, Regina Zappa, Ismael Caneppele e Caetano Veloso. “Imagine, eu ainda não tinha lido a biografia do Ary Barroso”!

Outra novidade desse período é que ele andou tomando aulas de piano com Renato Vasconcelos. "Eu já devia ter feito isso há mais tempo", comenta.

Ney Rosauro deve voltar ao Brasil apenas no final de junho, a tempo de se preparar para a estreia de sua nova Suíte com a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, em setembro.

Criado em 2021-05-28 23:36:25

Impasse das políticas identitárias

No jornal Le Monde Diplomatique deste mês topei com um texto muito pertinente dos franceses Stéphane Beaud (sociólogo) e Gérard Noiriel (historiador) sobre os "Impasses das políticas identitárias". Traduzi as partes que me pareceram mais importantes. Embora eles se debrucem sobre a realidade francesa, muitos aspectos do que eles abordam valem, me parece, para o Brasil também. Especialmente o que chamam de "americanização" das questões sociais.

A seguir, o resumo do texto traduzido:

"A questão racial ressurgiu brutalmente no centro do noticiário, em 25 de maio de 2020, quando as imagens do assassinato de George Floyd, filmado por uma passante com um smartphone, foram difundidas sem cessar nas redes sociais e nos canais de informação. O homicídio daquele afro-americano por um policial branco de Mineápolis desencadeou uma imensa onda de emoção e de protestos no mundo inteiro. Uma multidão de atores sociais – militantes antirracistas, jornalistas, políticos, intelectuais, especialistas, artistas, escritores etc. – intervieram nos Estados Unidos e outros lugares para dar sua opinião sobre aquele crime e seu significado político.

Na França, há uns quinze anos, a denúncia pública dos crimes racistas ou de fatos que alimentam suspeitas de discriminação racial assume regularmente na mídia a forma de “questões raciais” que se autoalimentam quase sem parar. Após a petição intitulada Manifesto por uma República francesa antirracista e descolonizada, assinada por 57 intelectuais e divulgada pelo site Mediapart em 3 de julho de 2020, o semanário Marianne reagiu em 26 de julho de 2020 publicando um Apelo contra a racialização da questão social, assinado por mais de oitenta personalidades e umas vinte organizações.

A comparação das duas petições mostra como funciona aquilo que Pierre Bourdieu chamava de jogo das “cegueiras cruzadas”. A crítica justificada das violências racistas de alguns policiais e do “racismo de Estado” nas colônias francesas até o final da guerra da Argélia levou os peticionários de Mediapart a defender um projeto político centrado nas questões raciais e descoloniais, ocultando os fatores sociais. Inversamente, os autores do apelo publicado em Marianne relembram o papel central que a classe social desempenha nas desigualdades que afetam a França de hoje, mas seu próprio combate identitário, resumido pelo slogan “Nossa República laica e social, uma chance para todos!”, incita-os a afirmar que “nosso país jamais conheceu a segregação”, afirmação que nenhum historiador, nenhum sociólogo sério pode chancelar. Esses enfrentamentos identitários, em que cada campo mobiliza sua pequena tropa de intelectuais, colocam os pesquisadores que defendem a autonomia de seu trabalho numa posição impossível.

Essa racialização do discurso público foi amplamente beneficiada pela revolução digital que eclodiu durante os anos 2000. O desenvolvimento extraordinário da indústria midiática deu o remate final àquilo que Jürgen Habermas tinha chamado de “colonização do mundo vivido”. Essas imensas máquinas de fabricar informação são alimentadas vinte e quatro horas por dia graças a um combustível que explode as jazidas emocionais enterradas em cada um de nós e que nos fazem reagir instantaneamente e instintivamente diante das injustiças, das humilhações, das agressões. A “sensacionalização” do noticiário político, nascida com a imprensa de massa no final do século 19, atingiu hoje seu paroxismo, substituindo cada vez mais a análise arrazoada dos problemas sociais pela denúncia dos culpados e pela reabilitação das vítimas.

As empresas estadunidenses globalizadas que possuem as redes sociais aceleraram brutalmente aquele processo, pois os bilhões de indivíduos alcançados por essas redes não são mais apenas os receptores passivos dos discursos fabricados pela mídia, mas atores que participam da difusão desses discursos e mesmo da sua elaboração.

As redes sociais, assim, fizeram nascer um espaço público intermediário que ultrapassa o quadro dos Estados nacionais, contribuindo fortemente para a americanização das polêmicas públicas, como ilustra a rapidez com que são importadas expressões como color-blind (“cego à cor [da pele]”), Black Lives Matter (“Vidas negras importam”), cancel culture (“cultura do cancelamento”) etc.

Sendo o racismo hoje um dos temas políticos mais aptos a mobilizar as emoções dos cidadãos, compreende-se por que sua denúncia ocupa um lugar cada vez mais central na mídia. Constatar esse fato não significa – será preciso lembrar? – negar ou minimizar a realidade do problema, e isso não impede em nada constatar ao mesmo tempo que as expressões de formas descomplexadas de racismo se multiplicam, elas também, na mídia.

As pessoas oriundas da imigração pós-colonial (países do Norte da África e da África subsaariana) – que pertencem em sua maioria às classes populares – foram as primeiras vítimas dos efeitos da crise econômica a partir dos anos 1980. Elas sofreram múltiplas formas de segregação, seja no acesso à moradia, ao emprego ou em suas relações com os agentes do Estado (controles de identidade pela polícia com base na fisionomia). Além disso, essas gerações sociais tiveram de enfrentar politicamente o desmoronamento das esperanças coletivas conduzidas no século 20 pelo movimento operário e comunista.

A linguagem radicalizante que apresenta a cor da pele como a variável que determina o conjunto das práticas econômicas, sociais e culturais de nossos concidadãos esmaga a complexidade e a sutileza das relações sociais e das relações de poder. Todas as pesquisas sociológicas, estatísticas ou etnográficas mostram, porém, que as variáveis sociais e étnicas agem sempre em concerto e com intensidades diferentes. Embora toda a arte das ciências sociais consista em dissecar finamente, segundo os contextos (geográfico, histórico, interacional), o jogo das variáveis em ação, ocorre que não se pode compreender nada do mundo em que vivemos se esquecermos que a classe social de pertencimento (medida pelo volume de capital econômico e de capital cultural) permanece, a despeito do que se possa dizer, como o fator determinante em torno do qual se apoiam as outras dimensões da identidade das pessoas.

Ao ocultar as relações de poder que estruturam nossas sociedades, esses discursos identitários contribuem para acentuar as divisões no interior das classes populares – objetivo que desde os anos 1980 tem sido buscado pelas forças conservadoras para romper a hegemonia da esquerda. Situar o combate político no plano racial apresentando todos os “brancos” como privilegiados é incitá-los a se defender com o mesmo gênero de argumentos. Dado que na França os “brancos” são maioria, os “não brancos” estão condenados a permanecer eternamente minoritários.

Acreditar que atos de contrição como o de Jeff Bezos (em seu tweet da Amazon em reação ao assassinato de George Floyd: “O tratamento injusto e brutal dos negros em nosso país deve cessar”, 31 de maio de 2020) poderiam conduzir os indivíduos definidos como “brancos” a renunciar a seus “privilégios” é reduzir a política a lições de moral, o que é habitual nos Estados Unidos e tende a se tornar habitual na França.

Uma vez que a experiência estadunidense é mobilizada incessantemente hoje em dia quando se trata de evocar a questão racial, é útil recordar a análise apresentada recentemente pelo filósofo Michael Walzer para explicar o fracasso relativo do movimento antirracista negro estadunidense, fracasso que explica por sua vez por que o racismo permanece um problema central nos Estados Unidos.

No balanço que [Walzer] faz em retrospectiva, ele levanta a questão essencial das alianças políticas que devem ser feitas no campo das forças progressistas:

“Nós pensávamos que o nacionalismo negro, mesmo que fosse compreensível, era um erro político: para se fazerem ouvir, as minorias devem se engajar em política de coalizão, os judeus aprenderam isso há muito tempo. Você não pode ficar isolado quando representa 10 ou 2% da população. Você precisa de aliados e deve elaborar políticas que favoreçam as alianças. Foi o que o nacionalismo negro recusou e foi isso que o conduziu, acredito, a um impasse. (...) As ‘políticas de identidade’ tomaram a dianteira na política dos Estados Unidos e levaram a movimentos separados: os negros, os hispânicos, as mulheres, os gays. Não houve solidariedade entre essas diferentes formas de luta pelo reconhecimento. Black Lives Matter, por exemplo, é uma expressão fundamental da ira legítima dos negros, ligada principalmente ao comportamento da polícia. Mas os hispânicos não recebem tratamento melhor. Não existe, que eu saiba, um Hispanic Lives Matter e nenhum esforço coordenado para a criação de uma coalizão de grupos étnicos para uma reforma da polícia”.

Dada a americanização da nossa vida pública, podemos recear infelizmente que a constatação de Walzer também esteja a ponto de se verificar na França. Sem dúvida, numerosas vozes se fazem ouvir, reivindicando regularmente a “convergência das lutas”. No entanto, aquelas e aqueles que militam nesse sentido devem agir a partir de agora no âmago de um novo sistema comunicacional que se impôs com a revolução digital dos anos 2000. Antes, para promover uma causa no espaço público, bastava que ela fosse definida e defendida coletivamente por organizações que reuniam um grande número de militantes. Hoje, basta que alguns ativistas – que se erigem em porta-voz desta ou daquela reivindicação sem terem recebido o mandato de ninguém – chamem a atenção da mídia. Daí a multiplicação das ações espetaculares, como as dos militantes que interditam peças de teatro em nome do combate antirracista. A complacência dos jornalistas diante desse tipo de ação alimenta polêmicas que dividem constantemente as forças progressistas. Enquanto a liberdade de expressão e o antirracismo sempre estiveram associados até agora pela esquerda, esses happenings ultraminoritários acabam por opô-las umas às outras. O que abre uma verdadeira avenida para os conservadores."

Criado em 2021-01-05 02:47:23

  • Início
  • Anterior
  • 32
  • 33
  • 34
  • 35
  • 36
  • 37
  • 38
  • 39
  • 40
  • 41
  • Próximo
  • Fim

Quem somos | Pacto com o leitor | Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros | Política de Privacidade e Cookies | Por que o nome BRASILIÁRIOS

Copyright © 2016 BRASILIÁRIOS.COM.

SiteLock