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Alimenta-se de pequenos mamíferos, cobras, lagartos, rãs e sapos. Gavião-caboclo (Heterospizias meridionalis)
Também conhecido pelos nomes de gavião-casaca-de-couro, gavião-telha, gavião-fumaça e gavião-tinga. Mede de 46 a 60 cm de comprimento. Tem a plumagem ferrugínea. Alimenta-se de pequenos mamíferos, aves, cobras, lagartos, rãs, sapos e invertebrados. Nas queimadas, pousa em galhos à frente do fogo para apanhar pequenos vertebrados e insetos acuados. Constrói o ninho em árvores baixas ou palmeiras. Sua ocorrência vai desde o Panamá até a Argentina, incluindo todo o Brasil, exceto regiões densamente florestadas. Habita os campos naturais, pastagens, manguezais, mas também aparece na periferia de áreas urbanas. Fonte: Aves de Rapina Brasil e Wikiaves. Registro feito em 05.08.2015, em Alto Paraíso de Goiás (GO).

Criado em 2016-11-25 17:41:38
Entrevista de Maria Lúcia Verdi com a artista Teresa Poester
Teresa Poester e eu somos amigas desde crianças, é quase uma irmã, e a entrevista a seguir reflete isto. Admiradora do trabalho dela como artista e professora resolvi entrevistá-la, sobretudo movida pela emoção frente à publicação de um belo livro sobre sua obra, que por hora está disponível em formato ebook (veja aqui), publicado pela Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), no âmbito do projeto Percurso do Artista, do qual ela é a primeira mulher a ser contemplada e pelo qual ganhou o Prêmio Açorianos.
O livro reúne a síntese mais completa da trajetória de Teresa e é feito em co-relação com a mostra Até que meus dedos sangrem, realizada, entre 2019/2020, no Sala João Fahrion, o espaço expositivo da Reitoria da UFRGS, instituição da qual se aposentou como professora do Instituto de Arte e formou alunos durante vinte anos.
Vivendo entre o Brasil e a França desde 1998, Teresa Poester centra sua produção no desenho e no desenho aliado a outras práticas tais como pintura, fotografia, vídeo, instalação, performance, vídeo performance, vídeo animação, ilustração e cenografia.
Tenho o prazer de apresentá-la aos leitores deste site e espero que os artistas que ainda não a conhecem possam descobrir essa instigante artista gaúcha.
Teresa, vamos começar falando do teu livro disponível em ebook Até que meus dedos sangrem e depois sobre a tua trajetória como artista gaúcha com residência na França. Disseram que a História havia acabado, que a pintura havia acabado, dizem que o livro está acabando, mas não é o que me parece... Como é para ti ter um livro sobre a tua produção, vindo ao público neste momento?
Pois é a Malu, no século XIX se dizia que a fotografia iria acabar com a pintura, que o cinema iria acabar com o teatro e assim por diante, mas a pintura se revigorou. Se hoje muitos jovens costumam ler por computador, ainda boa parte do público não prescinde do objeto livro, mesmo que ele tenda a se tornar peça rara, até pela crescente carência de papel. Essa tendência também é cultural, na Europa é mais difícil aderirem às novidades. Desistimos de fazer o lançamento do livro em ebook na França, mesmo com a edição sendo traduzida e ilustrada em francês, porque o pessoal aqui é refratário a edições virtuais. Mas, por outro lado, o fato de ter também esse livro em ebook torna-o mais democrático e acessível.
O convite para participar do projeto Percurso do Artista, que inclui uma exposição e um livro, marca coincidentemente o encerramento de minhas atividades como professora da UFRGS. Fui a primeira mulher a participar desse projeto, que homenageia artistas-professores do Instituto de Artes. O livro é o que fica. E este é um registro mais completo do que os catálogos anteriores. É também, a meu ver, um objeto artístico, realizado por uma equipe primorosa, coordenada minuciosamente por Eduardo Veras, organizador e também curador da exposição Até que meus dedos sangrem, que dá nome ao livro. Ele foi meu colega na UFRGS, conhece bem meu trabalho e o lugar onde vivo aqui e no Brasil, sua formação de jornalista, assim como a de Luísa Kiefer, que escreveu o artigo inicial, marca um texto fluido e elegante, sem resquícios acadêmicos.
Tua infância em Bagé, a topografia, o horizonte, as cores, os tipos humanos te influenciaram muito? Continuam a se mover em ti ou são só retratos na parede?
Tua pergunta me lembrou de quando, apresentada a um conterrâneo, brincou comigo perguntando: és de Bagé mesmo ou dizes só pra te exibir? Acho que o fato de ter vindo para Porto Alegre com 8 anos e ter sido uma criança solitária, infeliz mesmo, durante os dois primeiros anos no colégio alemão que frequentei, alheio às minhas raízes, acentuou um saudosismo sobre tudo do meu pátio de Bagé. Conhecia o pampa e a cultura dos gaúchos, silenciosos, acostumados a perder a vista nas lonjuras de uma terra plana, como eu acreditava ser quando pequena, achando que cairíamos no abismo ao transpor a linha reta que limitava o mundo.
Na cidade, via carroças e homens a cavalo de lenço, chapéu e bombacha. Mas só vim compreender o que isso significava, esse horizonte em terra, quando estudei a relação do homem e o ambiente, sobretudo depois de meu doutorado sobre a formação da paisagem na pintura e na abstração. Percebi que minhas pinturas de paisagens dos anos 1980 e 1990 tinham relação essa vivência de Bagé e uma certa nostalgia da infância que se aguçou com a idade, principalmente depois que conheci a planície do Vexin, na região onde moro na França, que se assemelha à paisagem do Pampa. E, como em geral trabalho sozinha, sobretudo neste tempo de isolamento, sou capaz de ficar muito tempo em silêncio, nessa paisagem em que avisto longe. Por isso gosto quando tenho oportunidade de falar. Em suma, essas memórias continuam a me mover, talvez também através de retratos na parede - até meus próprios desenhos na parede – se revigorem, assim como as colinas de Montmartre se revigoram pelas pinturas de Utrillo ou as vistas de Veneza pelas aquarelas de Turner. Aqui estou dentro de um quadro impressionista. A paisagem onde viva tem esse poder catalisador.
Me lembro de uma pintura tua, que ainda tenho em pôster, onde está escrito sobre a cara do personagem do Chaplin, o vagabundo, “Sempre se tem dezessete anos em alguma parte do coração”. A nossa juventude, a tua, inquieta, instigante, desafiadora, sofrida, foi o que te abriu para esse amor aos alunos, essa capacidade de estar com os jovens?
Sempre se tem 20 anos em algum canto.... Como, volver a los 17. Essa visão meio idílica da juventude talvez faça parte da necessidade de regeneração, de reiterar os bons momentos. Na minha juventude, tudo o que eu pensava não tinha eco no mundo ao meu redor, desde muito cedo. Não entendia o amor direcionado a um gênero definido, a uma cultura ou ao que fosse. Não encontrei amigos ou psiquiatras capazes de me compreender. Ao contrário. Isso foi nos anos 1970 e sabemos que somente em 1990 a OMS retirou a homossexualidade da classificação de doenças (CID). Os médicos eram instruídos a tentar “curar” o paciente para adaptá-lo a uma vida saudável. Isso teve consequências penosas para mim.
O fato de ter sobrevivido a essas consequências se deve, sobretudo, ao poder regenerador da arte. Apesar dos preconceitos ainda terríveis em vários países (e crescente no Brasil de hoje autorizados pelo obscurantismo no qual vivemos), conviver com jovens estudantes de arte me mostra o quanto o mundo mudou em relação às liberdades individuais. Os jovens me renovam as energias em muitos sentidos. Lembro de uma personagem professora de Simone de Beauvoir diante de alunos sempre com a mesma idade frente a ela que envelhecia a cada ano. Cria-se a ilusão de um tempo congelado. Um espelho que prolonga a juventude.
E poder continuar desenhando ajuda a manter o lado criança. Esse convite à liberdade que representa uma folha de papel branco. O Território da folha, como um poema teu que serviu de título a uma exposição minha de paisagens: O mundo inteiro ali, à espera.

Paisagens - 70x90cm - Porto Alegre 1991
Imagino que deva ser muito limitador ser figura pública, mas por outro lado reconheço que deve ser bom ser reconhecido e admirado. O que é melhor, Teresa, ser amada ou ser admirada? Será que são coisas distintas? Acho que preciso admirar para amar.
Com a hiper exposição da vida privada nas redes e tal, muitas figuras se tornam públicas rapidamente. Percebo muita solidão nisso tudo. No meu caso, experimento algum reconhecimento na minha área em um determinado lugar, mas há muitos anos vivendo parte do tempo no exterior, na Espanha e na França, onde tenho poucos amigos e poucos me conhecem, experimento um sentimento de anonimato que me é muito confortável. Fernando Pessoa tem uma frase bonita quando compara a beleza do Tejo ao rio desconhecido que passa por sua aldeia: E por isso, porque pertence a menos gente, é mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Agora com o confinamento estamos mais e mais carentes. Sem dúvida, precisamos ser amados e, sobretudo, aprender a amar. É um aprendizado diário. Amor e admiração são indissociáveis, raros e difíceis.
Neruda disse numa entrevista à Clarice, que não conhecia bem nem o sentimento de angústia, nem o do estado de graça. O que você pode me dizer disso? Eu acho estranho que um poeta, um artista, diga não conhecer dois sentimentos que para mim são inerentes à criação - angústia e epifania.
Quando crianças, gostávamos de criar histórias dramáticas com sentimentos mais inventados do que vividos, ou, talvez, já pressentidos. Mais tarde vivi momentos de angústia intensa. E foram os momentos de graça, ou a lembrança deles, que me impediram de afundar. Na nossa adolescência, lendo Camus, percebi que a vida é uma opção e, se assumimos essa escolha, nos tornamos responsáveis por ela. Hoje, quando a mentalidade do Brasil demonstra tal grau de vulgaridade e decadência, se não nos apegarmos à vida, fica difícil resistir.
A felicidade e as inquietações são parte da criação. Mas as surpresas, os achados, são os momentos de graça que seguram as angústias.
Como é viver entre dois países, duas cidades, duas casas, duas línguas? Como tu, vivi muito fora do Brasil, mas não com o sentimento de, de fato, ter duas “existências” em lugares distintos. Sabia que era provisório, intervalar. É aflitivo, consola ou é simplesmente algo já naturalizado estar entre a França e o Brasil?
Aqui em Eragny sur Epte tenho casa, ateliê, e amigos em Paris. Mas minhas raízes estão bem ancoradas no Brasil, família, casa e amigos antigos. Quando estou aqui, é como se minha segunda casa fosse em Porto Alegre. Quando volto, levo um tempo pra chegar. De qualquer forma, como vivo há 23 anos com minha companheira que é francesa, isso já me coloca entre duas culturas. No Brasil moro numa cidade grande, Porto Alegre, e aqui, embora a uma hora de Paris, é campo. Morei alguns anos em Paris e achava que nunca iria me habituar aqui, mas agora não trocaria. Sempre gostei de morar na Europa, de certa confiança que ainda existe nas pessoas, sobretudo nas cidades menores. Mas é bom saber que tenho meu canto no Brasil e, quando estou lá, da mesma forma, saber que tenho esse refúgio aqui.

Personagens - lápis grafitel, 100x60cm - Porto Alegre, 1982 (Foto: Artur Poester)
Como é, para ti, esse tema tão afirmado e negado que é o da inspiração. Confesso que adoro a inspiração, quando ela vem é uma benção...
Acho que o que me move hoje são desafios a partir do trabalho anterior, do que vivencio e de propostas que recebo. Por exemplo, estou fazendo agora um projeto visual para a Villa Savoy, de Le Corbusier, onde tenho de contracenar com a peça do coreógrafo que me convidou. É, em geral, a partir do espaço que me sinto motivada a criar, mas às vezes é também de um material ou de um tema. Nessa última exposição, a situação política no Brasil e o espaço físico foram o ponto de partida. Seja em Bagé ou em Bruxelas, sempre vou antes ao local, faço muitas fotos.
A vontade de criar está sempre latente, mas precisa de um empurrão. A inspiração vem de um problema visual a resolver. Mas, muitas vezes, o resultado é mais ou menos previsível. A benção, para mim, é quando há um achado que depende também do acaso. É quando experimento um estado de felicidade que só a criação proporciona. Mas além de criar, mostrar é importante. Se o trabalho que não é mostrado não se completa, não respira. Penso no porquê fazer e pra quem vou mostrar, como e onde vou mostrar. Essas coisas me movem, ou, usando tuas palavras, me inspiram.
Você acha que desenha, pinta, filma e faz seus demais trabalhos movidos por uma necessidade visceral, por uma certa intuição estética, ou como é? No meu caso, acho que escrevo como um diálogo com o que leio, uma vontade de diálogo com esses outros que estão fora e em mim, que absorvi quase antropofagicamente, mesmo quando isso não é evidente.
É claro que existe esse diálogo com o que vemos ou lemos, as músicas que escutamos. Há uma necessidade visceral e também uma tentativa de resposta estética ao que vejo nas grandes exposições ou catálogos e, principalmente, ao meu próprio processo, uma afirmação ou um contraponto ao trabalho anterior. E, sobretudo, à paisagem no meu entorno. Paradoxalmente, como se sabe, assim como a experiência e o conhecimento são fundamentais, também podem atrapalhar a criação. Arriscar sempre é o mais importante e o mais difícil, porque normalmente a criação vem parasitada por tudo que sabemos, por isso inventamos estratégias para impedir o movimento automático e previsível. Em 2012, criei o grupo Atelier D43, com alunos da UFRGS; em trabalhos coletivos, nos puxamos com elásticos, desenhamos com extensores longos e pesados ou através de uma tábua gráfica sobre sua projeção em papéis gigantescos. Esses trabalhos a várias mãos buscam sempre evitar o gesto automático e descobrir outras maneiras de desenhar.
Quanto ao absorver a cultura do outro, sim, quando a gente cria até o aparentemente espontâneo é condicionado pela cultura, e a cultura é a mistura com o que vem do outro. Sabes que trabalhei no antigo ateliê de Camille Pissarro a quatro mãos, com Dai Zheng, artista chinesa que conheceste em Pequim, e também com artistas franceses; os filmes feitos naquele ateliê, evidenciam a influência das diferentes culturas – no caso, a brasileira, a chinesa e a francesa - nos movimentos do corpo como instrumento do desenho. (Veja o vídeo aqui).

(Foto: Nelson Azevedo) Jardins de Eragny, lápis grafite - 150x150cm - Porto Alegre 2004
Iberê Camargo disse que só conseguia pintar quando conseguia esquecer o que aprendera. Para mim, pensando no exercício da escrita, o que mais me parece evidente é a intertextualidade entre o que escrevo e o que está escrito, seja pelos meus autores preferidos, seja por mim mesma anteriormente. Como é para ti a questão da busca, do perseguir algo, do alcançar algo. No teu trabalho tu achas que das figurações ao abstrato, há uma continuidade, uma síntese, uma conversa entre as diferentes fases que poderá, ainda, ir em outra direção?
Como falávamos, é extremamente paradoxal isso de esquecer o que o que sabe. Seria como pretender que o trabalho nascesse de uma espécie de geração espontânea. Para melhor compreender a obra de grandes artistas, e Iberê se incluiria aí, é fundamental entendermos suas influências. Certamente ele próprio, Guignard e tantos outros, não teriam pintado da mesma forma se não tivessem tido contato com a arte europeia e os mestres que os orientaram. Tudo nos influencia e não somos artistas acima de qualquer influência, ou cidadãos acima de qualquer suspeita, já que citamos Iberê...
No entanto, como disse anteriormente, tento criar estratégias para me surpreender com um novo gesto. Pois o desenho nada mais é do que o registro de um gesto, sua memória. Mas tenho consciência de que esse gesto carrega um conhecimento ancestral. Somos seres culturais e é bom também que sejamos. Os artistas jovens muitas vezes pensam descobrir a pólvora justamente por falta de conhecimento, de distanciamento. Nessa cultura da internet, o ontem já é descartável, passado. O que endossa essa sensação de geração espontânea.
Sobre a continuidade no meu percurso, um trabalho nasce como uma frustração do anterior. No portfólio do novo livro, cujo ebook que acaba de sair é o mote desta conversa, eu queria mostrar o desdobramento entre os períodos. Mas, figurativos ou abstratos, nunca foram desenhos ou pinturas realistas. A gestualidade, o tremor da mão na escrita do desenho, estão presentes talvez desde os primeiros trabalhos. E, depois dos anos noventa e de ter morado na Espanha, adquirindo mais vivências sobre pintura, eu queria trabalhar a linha no desenho de outra forma, não como um contorno da forma que rejeita a cor. A linha se tornou então um campo pictórico. Mas essas percepções nascem da prática. E o resultado é que vai embasando as ideias. Às vezes tudo se torna mais pensado do que eu gostaria. Mas o trabalho tem vida própria e segue seu rumo.
Clarice afirma que a criação não é uma compreensão, mas um novo mistério. Se por um lado concordo, também acredito que criar é uma compreensão. O que tu achas?
Concordo, mas, como tu, acho as duas coisas. E outras muitas! Como sabes, na visão oriental quem cria é a força cósmica que se manifesta através do artista e na noção mediúnica dos surrealistas, com o automatismo psíquico, o inconsciente criador é puro mistério. Quando experimento a sensação de não ter muito domínio sobre o que faço, de me deixar levar, há uma força no próprio trabalho que me leva por outros caminhos e, muitas vezes, surgem mais surpresas do que quando tenho um controle maior.
Compreender alguma coisa através da arte tem particularidades que incluem essa ideia de mistério como criadores e também como público. Por mais que tentemos racionalizar o gosto ou a emoção estética, sempre há uma parte do sensível, do irracional.

(Foto: Fernando Zago) - Instalação Grito Mudo - lápis de cor 7x3m - 2019
No mundo de hoje, hiper tecnológico e rapidíssimo sinto falta, e acho que tu também, da lentidão, de uma languidez preguiçosa, de receber e escrever cartas, de esperar respostas. Como estás vendo esse futuro que já está tão entre nós?
Pois é, fazemos parte de uma geração que viveu esse passado. Lembro de meu pai jogando xadrez por correspondência, esperando meses para receber o próximo lance. Nossa história também mostra essas mudanças. Tantas cartas que trocamos ao longo de décadas e, por outro lado, hoje, graças à comunicação instantânea, estamos próximas diariamente. Quando moramos longe do Brasil em outra época, telefonar era caríssimo, as cartas demoravam a vida. Hoje saímos e não saímos do Brasil. E, com o confinamento na pandemia, fez pouca diferença estar na França ou no Brasil.
Como professora, senti uma diferença enorme quando a internet substituiu, para muitos alunos, as pesquisas nos livros. Não há dúvida de que a enciclopédia virtual, abrangente e democrática, proporcionou grandes avanços na informação. Mas é complicado para um aluno de artes que nunca viu Van Gogh publicado, procurar o artista na internet da mesma forma como procura seu vizinho que desenha. Os alunos não percebem bem as diferenças. Cabe ao professor orientar-lhes, mostrar-lhes sites apropriados. Com a internet nem sempre cumprindo de forma confiável um papel informativo, a função do professor é, mais do que nunca, estimular a crítica e a reflexão.
Mas voltando à pergunta, esse futuro inimaginável há três anos, assusta sim. Sinto a angústia dos vírus que existem e dos que virão. Tenho medo de me acostumar nesse convívio virtual como vejo acontecer com certos jovens que não conheceram um tempo feito de outro tempo, com intimidade e profundidade nas relações. A tendência a me recolher no ateliê se acentuou com o confinamento, com a vida no campo e, principalmente, com a comunicação virtual. Sinto as consequências disso: leio menos, vou menos às salas de cinema, ao teatro, às exposições. Por outro lado, aqui tenho uma vida contemplativa em relação à natureza, às mudanças das estações, às relações com vizinhos ligados ao campo que me trazem outro tipo de aprendizagem.
Envelhecer traz muita coisa boa, somos tão mais serenas e compreensivas do que aquelas adolescentes feéricas do Instituto Nossa Senhora das Graças, das cônegas francesas de Santo Agostinho... Mas todo aquele ímpeto, todo aquele desejo de descobrir e aventurar-se faz falta, não faz?
Não sei se mais serena Malu, o que sinto é que aquele ímpeto muda porque nossa relação com o tempo muda. O tempo, antes abstrato, se torna concreto, tem um peso que aumenta e um tamanho que diminui dia a dia. Hoje, sentados num trem olhando para trás, vemos o caminho trilhado. A dimensão do tempo, se por um lado me dá certa tranquilidade, por outro, me traz ansiedade. Às vezes me propõem um trabalho pra mostrar daqui a 3 anos e penso que idade terei, se terei braços, coisas assim. O tempo, como o vento minuano de minha infância, vem de repente. Quero fazer tantas coisas. Mas não vejo essa inquietação como algo negativo, ao contrário, é o que me move.
E é claro que o tesão, o otimismo ou a ingenuidade da juventude fazem falta. Tem um poema de Ruy Espinheira Filho, poeta baiano de quem gosto muito, que diz algo assim: ....no tempo em que tudo viria, não como veio....viria luminoso e bom, como não veio. Mas, somando as boas e as difíceis vivências da juventude, sem dúvida, me sinto mais feliz hoje.
Há muitos anos Tom (Jobim) disse: “O Brasil, apesar de tudo, é um país de alma extremamente livre. Ele conduz à criação, ele é conivente com os grandes estados da alma”. O que diria o Tom frente a esse Brasil de hoje, Teresa?
Não sei o que o Tom diria na sua genialidade poética, mas estou certa de que sofreria vendo a fratura entre esse Brasil cantado em prosa em verso, que acreditávamos existir, e o que está aí. Esse país doente escolhido por uma enorme quantidade de pessoas que foram tudo, menos enganadas. Estamos vivendo a crônica de uma morte anunciada aos berros. Esse governo que debocha de seus cidadãos da forma mais violenta e vulgar fez aflorar uma realidade que não víamos, como um soco no estômago. Não há como voltarmos a nos iludir.
Houve uma fratura profunda não só no país, mas nas relações pessoais. Quando saí daí, percebi que não vivia no mesmo mundo de alguns amigos e amigas. Essas diferenças não se reduziam obviamente a opiniões políticas. Sabemos que o que houve no Brasil é inexplicável para qualquer pessoa de esquerda, centro ou direita, com a mínima noção de história ou de humanismo. Não sabemos o que dizer aqui. E acho que Tom tampouco saberia.
Criado em 2022-02-12 22:58:41
Angélica Torres -
Lula voltou e ao centro das atenções voltam com ele outro discurso e outro debate político, outras falas e outro alento entre as pessoas, outra vibração e outro astral em geral.
Lula voltou e sem dever nada a ninguém, ao contrário, recuperando pacificamente os dois anos surrupiados do governo de seu partido, quando com Dilma Rousseff à frente, e mais dois de juros – o que é muito pouco pra fazer jus à conta dos quatro anos de mandato oficial e a tanta perseguição, humilhação e sofrimento que a ele causaram (e, por tabela, a todos os que então votaram com o Partido dos Trabalhadores).
O que é mais extraordinário na biografia desse homem, em cartaz há 44 anos, é o fato de continuar oferecendo, para a reconstrução do país, a sua força de vontade, sua ímpar capacidade de articulação, seu carisma e o sentimento compassivo pelo povo mais desamparado. Lula foi derrubando seus inimigos invejosos um a um e arrebanhando todos num campo de força que soma a união de dez partidos políticos e de incontáveis adversários, quantos antes odiosos a ele, quantos maledicentes, quantos desejosos de vê-lo “apodrecer e morrer” na injusta prisão.
Nova era. Vida nova. Mas vai continuar difícil? Vai. Irão se decepcionar os ansiosos por resultados imediatos? Com certeza haverá ranger de dentes. Mas será diferente sem a quadrilha aboletada no poder, agora, trabalhar, lutar ao lado dele, pelo reerguimento do país. Será um enorme prazer. Parodiando a canção de Ivan Lins, "afinal de contas, aprendemos muito nesses anos/ não tem cabimento, entregar o jogo no primeiro tempo".
Dois anos ou mais (ou menos, quem sabe?) podem levar pra começarmos a ver resultados dos esforços que virão, porque a devassa foi brutal – e quanto ainda iremos descobrir de mais aberrações praticadas contra nossos direitos e interesses! Mais ainda, vamos combinar: esperemos atentamente pra ver o que vai acontecer, quando a nova relação geoeconômica multilateral bater à porta do Brasil dos BRICS e os brothers da América do Norte passarem a cobrar de seus súditos leais – os donos da grande mídia – os “direitos” a que eles se julgam ter sobre nossas riquezas e nossa soberania.
Ora, quase a metade da população vai novamente dar de inocente útil e entregar o jogo no primeiro tempo? Ou, pós-efeitos Lava e Vaza-Jato, já desenvolveu um cadinho de senso crítico e aprendeu que tem de ficar com barbas e madeixas de molho, pois o inimigo externo conta com lacaios e mercenários à sua disposição aqui mesmo, dentro do país?
Importantíssimo lembrar que aprendemos a ir para as ruas expor nossas posições e reivindicar os interesses. Aliás, participação é o que Lula tem repetido esperar do povo. Governança em conjunto, que nos 12 anos de mandatos ainda não tínhamos aprendido a praticar.
Enfim, estamos em literal estado de graça e nada, desde ontem, deve macular nossa alegria, nossa felicidade, pela volta da Democracia ao país. Apenas, ainda: que os vilões paguem pelo indizível sofrimento causado aos mais de um milhão de cidadãos vitimados pela Covid-19 e às famílias que os perderam, e, pior ainda: aos bebês sobreviventes e sequelados pelo vírus, bem como crianças, adolescentes, adultos e idosos que também escaparam da morte, mas não os efeitos danosos da doença ao organismo.
Que paguem pelas carências e amargura das famílias de milhões de desempregados; pela perversidade com que trataram toda a causa pública, que nos diz respeito. Que paguem pela destruição de nossas empresas e instituições e da reputação de tantos acossados; e das florestas de nossos biomas, da nossa educação pública, nossa ciência, nossas diferenças étnicas e de gênero.
Que paguem pelos ataques aos praticantes de diversos credos, portando a Bíblia na mão esquerda e faca, pistola, granada, na direita. Poderemos então nos sentir passados a limpo, com a conta do carma da ditadura militar finalmente acertada. E, então, é cuidar pra não cairmos mais sob a maldição de Sísifo – pelo menos por um século de intervalo, no mínimo, entre a subida e a descida da ladeira, carregando pedras na cabeça e nos braços! 
Criado em 2022-11-01 13:49:30
Romário Schettino –
Com a opção do PSDB pela pré-candidatura de João Doria à Presidência da República e o lançamento de Sérgio Moro pelo Podemos, o tabuleiro político começou a se movimentar com mais frenesi. Ciro Gomes deu uma pequena murchada, mas Geraldo Alckmin tomou fôlego para uma eventual chapa com Lula.
Tudo pode mudar, é claro, como as nuvens de Magalhães Pinto. Mas o quadro atual é mais ou menos esse. Tem também a tentativa de reeleição de Bolsonaro utilizando-se de projetos demagógicos de última hora, como o Auxílio Brasil mal ajambrado.
O fato é que estão na frente das pesquisas Lula com 40%, Bolsonaro com 20% e os outros com algo em torno de 5% cada um. A famigerada terceira via desmilinguiu-se e, dependendo das alianças, Lula pode ganhar no primeiro turno. Nessas eleições, o eleitorado paulista será definidor, assim como Minas Gerais o foi em 2002, com José Alencar na chapa de Lula. Essa possibilidade é admitida por experientes analistas políticos brasileiros.
Segundo essas mesmas fontes, é preciso que Lula se eleja junto com bancadas fortes na Câmara e no Senado não só com grandes quadros políticos, mas também com jovens mulheres e negros, indígenas, trabalhadores urbanos e rurais, LGBTQI. “Tudo tem seu tempo. Alckmin tem que escolher um partido, por exemplo”, diz um dos analistas.
A militância do PT precisa levar em conta todos esses aspectos ao avaliar a entrada, ou não, de uma figura como Alckmin na chapa. Lula sabe negociar como ninguém, já deu provas disso.
Portanto, quem estiver mais bem preparado para o debate ganha não só o eleitorado como as eleições já no primeiro turno.
Ao ser entrevistada no programa da jornalista Miriam Leitão, na Globonews, Márcia Cavallari do Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria) disse que “a preocupação com a fome e a miséria voltou a ser um dos cinco mais importantes temas apontados pelo eleitor. Isso é a primeira vez que acontece desde a eleição de 2002”. Os outros temas atuais são: desemprego, segurança, saúde e educação. São essas as soluções para o necessário crescimento econômico.
A pandemia, com a vacinação, deixou de ser assunto principal embora continue a ser importante, principalmente para servir de munição contra Bolsonaro que insiste em defender a morte.
No mesmo programa, o cientista político Jairo Nicolau, da FGV (Fundação Getúlio Vargas), disse que “60% dos eleitores que recebem até dois salários mínimos manifestam intenção de votar no ex-presidente Lula”.
As boas lembranças do tempo do Lula são muito fortes entre os mais pobres e o discurso anticorrupção já não faz tanto sucesso, até porque a realidade mostrou que toda a narrativa bolsonarista e morista era falsa. Sérgio Moro foi para o governo que ajudou a eleger, participou dele e não tem nenhuma experiência política. Denúncia de corrupção é o que não falta contra Bolsonaro.
Lula está derrubando todos os processos contra ele e provando que Moro não só foi parcial como injusto e imoral.
Criado em 2021-12-08 16:00:55
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
São supersticiosas e têm ideias inadequadas as pessoas que acreditam em fake news, as que buscam charlatães como o tarado de Abadiânia para curar suas doenças, aquelas que fazem campanha contra as vacinas, e os idiotas que acreditam na Terra plana.
Essas pessoas são levadas a crer em absurdos por ouvir dizer, isto é, terceirizam as suas opiniões. Ou, então, elas se fiam em percepções vagas, superficiais, imaginativas, para analisar o que acontece no seu entorno. De experiências particulares sacam conclusões universais, por indução.
Ideias adequadas, isto é, as que se conformam com os dados da realidade, têm as pessoas que usam a razão para entender o que se passa à sua volta. Elas tiram conclusões das propriedades gerais ou universais das coisas e dos fenômenos, por dedução.
Um terceiro gênero de compreensão da realidade, que o filósofo Benedito de Spinoza chamava de “ciência intuitiva”, e que hoje a gente poderia traduzir livremente como “método científico”, é o que nos assegura o conhecimento verdadeiro. Aqui não basta submeter a coisa singular à razão. É preciso ir além na sua análise. Conhecer verdadeiramente uma coisa só é viável se você a destrincha a partir de suas causas.
Conhecimento - O primeiro gênero de conhecimento – derivado da nossa imaginação, quer dizer, do que os nossos sentidos nos apresentam de imediato – é a fonte de toda superstição, disse Spinoza. Não é que toda percepção desse gênero seja falsa. Afinal, graças às informações básicas que nos proporcionam os sentidos é que a gente toma a maior parte das decisões no dia a dia. Porém, é mais próprio da natureza racional humana agir com base em ideias adequadas, consequentes do juízo e do pensamento científico. Quem age de maneira consciente – sabendo que o que sabe é verdadeiro – não costuma ser levado ingenuamente pelas ondas nem aderir às manadas. Ao contrário, preserva a sua liberdade.
Divago sobre essa específica teoria do conhecimento porque amanhã, sexta, 21, é o aniversário da morte de seu formulador, o filósofo holandês Benedito de Spinoza, autor da monumental Ética demonstrada à maneira dos geômetras, um dos marcos fundadores da filosofia dos tempos modernos. Spinoza morreu em 1677, aos 44 anos, de uma afecção pulmonar, na cidade de Haia, nos Países Baixos. Filho de uma família de judeus portugueses fugida das fogueiras da Inquisição, Spinoza tem sido considerado ou uma peste ou um santo nos últimos três séculos e meio.
Por que peste? Porque ele derrubou a base das religiões abraâmicas (judaísmo, cristianismo e islamismo) ao demonstrar que as Escrituras nada têm de sagradas. Em vez de terem sido ditadas a partir do céu, foram redigidas por homens comuns, cheios não de graça mas de imaginação, ao longo de séculos. Desde sempre os intérpretes das Escrituras são, em geral, espertalhões (Malafaia e Edir Macedo, presente!) que buscam significados ocultos ou extravagantes nas entrelinhas da Bíblia para dominar o rebanho (ou matilha, alcateia) dos fiéis.
Deus sive Natura - Spinoza também contestou a noção do Deus pessoal de Israel, um senhor geralmente pintado com uma longa barba, ora colérico, ora magnânimo, cheio de vontades, preocupado com a sua adoração por homens e mulheres. Resumindo, Javé (ou Jeová) é uma divindade com a cara de seus adoradores, cuspida e escarrada. Para Spinoza, no entanto, Deus é a única substância existente (substância aqui significa apenas uma coisa que não depende de outra para ser), um ente impessoal, pilar e estofo do Universo ou de tudo o que existe. Deus se confunde com a própria realidade. “Deus sive Natura”, disse Spinoza, “Deus, ou seja, a Natureza”.
A substância única teria infinitos atributos, dos quais conhecemos apenas dois, a extensão (os corpos) e o pensamento. As coisas singulares – estrelas, planetas, vento, você, eu, árvores, micróbios – seriam expressões (modos) dessa substância.
Para Spinoza, a alma é mortal como o corpo, do qual constitui a imagem; qualquer religião verdadeira está assentada num único princípio, o do amor ao próximo; e milagres não existem, simplesmente porque contrariam as leis da Natureza e, portanto, seriam até um insulto a Deus, cujas leis são exatamente as mesmas.
Provavelmente por causa dessas ideias subversivas, heréticas, quando ainda estavam sendo polidas, Spinoza foi expulso de sua sinagoga aos 24 anos, e obrigado a se mudar de Amsterdã. Mais tarde, também por causa dessas ideias “perniciosas”, ele seria execrado pelos protestantes e censurado pelo Vaticano. Durante muito tempo foi perigoso ser acusado de “spinozista”, sinônimo de “ateu”.
Formação - Depois da excomunhão, Spinoza frequentou aulas de anatomia da Universidade de Leiden; estudou latim com Franciscus van den Enden, um ex-jesuíta que foi enforcado por participar de um complô contra o rei francês Luís XIV; estudou a obra de Maquiavel, de Hobbes, de antigos pensadores judeus, como Maimônides, de Descartes etc; poliu lentes de microscópio e telescópios, mais para pesquisar do que para ganhar dinheiro; e, ao longo de sua curta vida, manteve contato com alguns dos intelectuais mais proeminentes da Europa, entre eles o filósofo e matemático Gottfried Wilhelm Leibniz, o primeiro secretário da Royal Society, Henry Oldenburg, e o astrônomo Christiaan Huygens.
Spinoza foi também considerado uma pestilência porque rompeu com a tradição filosófica, ao proclamar o monismo, a teoria da substância única, em confronto com o dualismo mainstream de Descartes, que respalda a ideia religiosa do espírito separado do corpo; ao dizer que a Natureza não tem finalidade, como defendiam Platão e Aristóteles; e ao proclamar que a humanidade é parte da Natureza, não estando acima nem dela separada, não sendo “um império dentro de outro”, como escreveu.
Paixões - Spinoza afirmou, contra os estoicos, que os homens não conseguem domar as suas emoções pela razão. Somos seres racionais mas, ao mesmo tempo, tomados por afetos (paixões, se negativos), queiramos ou não. Fazem parte! Um afeto negativo não pode ser controlado pela razão, mas somente por outro afeto mais forte e de sinal contrário. O ódio, por exemplo, só pode ser vencido pelo amor. A raiva, pelo bom humor; a arrogância, pela auto-ironia; o ciúme, pela confiança, e assim por diante.
Spinoza deu pano pra manga ao proclamar que não existe o que se chama de “livre arbítrio”, uma falsa ideia da liberdade. Os homens se consideram livres porque, embora sejam conscientes de suas ações, ignoram as causas que as determinam, disse ele.
Para o filósofo holandês, nós podemos conhecer o mundo nos mínimos detalhes, com certo esforço. Embora não inteiramente, digo eu, por motivos práticos: é vasto e tem detalhes demais. Mas, teoricamente, tudo o que existe pode, sim, ser conhecido. Segundo Spinoza, o real é racional, quer dizer, pode ser escrutinado pela razão e pela ciência. Nessa perspectiva, é uma cascata medonha o conceito da coisa-em-si incognoscível do Kant!
Pernicioso por um lado, Spinoza foi adotado como santo secular por muitos pensadores, mesmo discordando dele. Talvez por causa de sua vida modesta, frugal, como a do seu precursor, o grego Epicuro (341 a.C. - 270 a.C.), franciscana, coerente com os princípios éticos que pregava. Anotem aí a latere: ele pode ter sido um santo, mas não careta. Bebia, fumava, fazia teatro, explodia de raiva de vez em quando, e tinha o prazer sádico-infantil de assistir aranhas caçando moscas. Fruto da cultura e educação de sua época, era machista, sim senhor!
Iluminismo radical - Algumas ideias de Spinoza – como a da defesa da república democrática como o melhor regime político – se mostraram muito sedutoras no início do século 18, quando a burguesia subia ao palco da história para revirar o mundo à sua semelhança. Segundo o historiador Jonathan Israel, Spinoza é o principal inspirador da ala radical do Iluminismo, sintetizada nas figuras dos filósofos franceses Julien Offray de La Mettrie e Denis Diderot, em contraste com os luminares da ala moderada, Voltaire e Jean-Jacques Rousseau, por exemplo.
As ideias dos iluministas moderados acabaram prevalecendo na Revolução Francesa, mas, diz Israel, o principal desafio da Revolução, proclamado por Robespierre num discurso em novembro de 1792, era praticamente idêntico ao que foi identificado pelos iluministas radicais do início do século: “Le secret de la liberté est d’éclairer les hommes, comme celui de la tyrannie est de les retenir dans l’ignorance”. (“O segredo da liberdade é de esclarecer os homens, assim como o da tirania é de mantê-los na ignorância”.)
A filosofia de Spinoza – mesmo com as interpretações criativas e distorcidas, derivadas do influente verbete “Spinoza” do Dicionário Histórico e Crítico compilado pelo cristão calvinista Pierre Bayle, que o chamou de “cabalista”, “oriental”, “materialista” e “místico entusiasta” – foi levada em alta conta, de maneira raivosa ou entusiástica, pelos principais filósofos do idealismo e do pós-idealismo alemão, entre eles Friedrich Heinrich Jacobi, Moses Mendelssohn, Gotthold Ephraim Lessing, Friedrich Schleiermacher, Johann Gottlieb Fichte, Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling, Georg Wilhelm Friedrich Hegel e Ludwig Feuerbach.
Ao criticar o spinozismo como um “acosmismo”, ou seja, como uma “negação do mundo”, por supostamente ser estático e excluir a existência das coisas singulares, do indivíduo, do sujeito – estariam afogados no Todo – Hegel exclamou: “Ao começar a filosofar, você precisa primeiro ser spinozista. O espírito deve se banhar no éter da Substância una em que tudo o que se acreditava verdadeiro pereceu”. A frase, em tom irônico, costuma ser interpretada como um elogio.
O certo é que, no sistema de Spinoza, o Todo (Infinito) determina mas não deleta os seus modos finitos (as singularidades), aí incluídos o sujeito, isto é, as pessoas em ação, livres do maniqueísmo do bem ou do mal (relativos e não absolutos), contraditórias, ora egoístas, ora altruístas, movidas pelo desejo (a sua essência), ávidas de conhecimento (sua suprema alegria), buscando ampliar a sua potência de existir (conatus) e a sua liberdade.
Deus aut Natura - Feuerbach, o crítico do hegelianismo que fundamentou o materialismo dos jovens Karl Marx e Friedrich Engels, disse que Spinoza, ao se referir a Deus, na verdade estava falando da Natureza. “O segredo, o verdadeiro sentido da filosofia de Spinoza, é a Natureza”. Com essa observação, Feuerbach interpretou o spinozismo como um sistema filosófico materialista. Baseado nisso, Gueorgui Plekhanov, o fundador do marxismo na Rússia, inspirador de Lênin, escreveu que “Feuerbach é o Spinoza que deixou de chamar a Natureza de Deus depois de passar pela escola de Hegel”.
Na célebre polêmica com Eduard Bernstein, o líder neokantiano do Partido Social-Democrata Alemão, Plekhanov chegou a dizer, para espanto de algumas correntes do bolchevismo, que o materialismo de Marx e Engels, que passaram pela escola de Feuerbach, era “uma espécie de spinozismo (eine Art Spinosismus)”.
Talvez Plekhanov tenha razão, embora não se deva incluir aqui aquele ramo do marxismo que reintroduziu na História a finalidade (“teleologia” em linguagem filosófica) copiada de Hegel, como se o mundo caminhasse, necessariamente, em direção ao Comunismo. Para Spinoza não há finalidade alguma na História ou na Natureza, com o que concordaria mais tarde o naturalista Charles Darwin, também partidário da ideia de que o ser humano não tem predicados de superioridade no seio da Mãe Natureza, isto é, não é um império dentro de outro.
Estética - Uma grande curiosidade histórica, paradoxal mesmo, é que Spinoza, mesmo sem ter formulado, como Kant e Hegel, uma estética – talvez por vislumbrar um potencial de alienação nas artes, devido ao fato de serem filhas da imaginação – parece ser o filósofo que mais encantou os artistas a partir do final do século 17, em vários países. A sua ontologia, interpretada como um panteísmo (Deus em tudo), fascinou os românticos alemães na sua volta à Natureza idealizada. Eu acho que essa leitura alegremente torta do naturalismo spinozano pode ser explicada pela teoria da “angústia da influência” do crítico americano Harold Bloom.
Como já não tenho espaço-tempo para encompridar essa nossa conversa, listo a seguir uma pequena amostra de escritores, poetas e pensadores influenciados pelo nosso filósofo (olhem aí a intimidade!): Novalis, Johann Wolfgang von Goethe, Johann Gottfried von Herder, Friedrich Hölderlin, Erich Auerbach e Heinrich Heine, na Alemanha; George Eliot, Matthew Arnold, Samuel Taylor Coleridge e William Wordsworth, na Inglaterra; Ralph Waldo Emerson e Herman Melville, nos Estados Unidos; Machado de Assis (dedicou-lhe um soneto), Clarice Lispector, Nise da Silveira e Marilena Chauí, no Brasil; Jorge Luis Borges (dedicou-lhes dois sonetos), na Argentina.
Einstein - O físico Albert Einstein é outra figura que se filiou explicitamente ao pensamento do filósofo holandês, em especial ao seu panteísmo determinista. Certa vez, indagado se acreditava em Deus, disse que acreditava no “Deus de Spinoza”. Como Spinoza, Einstein tinha imensas reservas às religiões organizadas, concordando que são “asilos da ignorância”. Em janeiro de 1954, numa carta dirigida ao filósofo alemão Eric Gutkin, Einstein afirmou que “A palavra de Deus não é para mim nada além da expressão e produto da fraqueza humana, a Bíblia uma coleção de lendas veneráveis mas ainda bastante primitivas”. Numa entrevista ao escritor George Sylvester Viereck, afirmou: “Eu sou fascinado pelo panteísmo de Spinoza. E admiro ainda mais as suas contribuições para o pensamento moderno. Spinoza é o maior dos filósofos modernos porque ele é o primeiro que trata a alma e o corpo como uma coisa só e não como duas coisas separadas”.
Sintetizando um importante capítulo do seu pensamento, Spinoza disse ter feito um esforço cuidadoso para não ridicularizar, não lamentar nem desqualificar as ações humanas, por mais extravagantes ou condenáveis que fossem. Seu objetivo foi compreendê-las como naturais (quer dizer, como parte deste mundo e não de algum universo paralelo ou sobrenatural). Com justa razão, dizem que ele é o filósofo da alegria e da liberdade.
Bertrand Russel, na sua monumental História da Filosofia Ocidental, anotou que “Spinoza é o mais nobre e o mais amável dos grandes filósofos”. Acho que só vão discordar do Russel os que acreditam em fake news, nos Joões de Deus, na imunidade miraculosa ao sarampo e na Terra plana.
Como? Vocês acham que eu peguei pesado? Tudo bem, admito que essa última frase é uma provocação. Mas de tipo spinozista, pô!

Criado em 2020-02-20 04:35:29
Antônio Carlos Queiros (ACQ) - Para celebrar o Dia Mundial do Livro, resolvi passear com os netos no Zoológico, lembrando a eles que os primeiros livros foram escritos sobre peles de cabra, carneiro, cordeiro ou ovelha preparadas para o nobre propósito com o nome de “pergaminhos”, porque, ao que parece, tiveram origem na cidade grega de Pérgamo.
Criado em 2023-04-24 19:57:03
Luiz Martins da Silva –
Houve um tempo em que saber ler implicava muitas vantagens, algumas, boas surpresas, senão confiram comigo.
De menino já descobri uma ligação entre leitura e futuro. E eu bem que reforçava essa crença. Só de ouvir zum-zum sobre repartição de tarefas, eu já me atracava com lápis e caderno. Tirar leite das criações? Eu não levava jeito para espremer úberes, mas, perguntassem quanto era 9 x 7 e eu tacava um 63, na bucha. E o contrário, 7 x 9? Dá na mesma, e ainda, dava uma esnobada: “A ordem dos fatores não altera o produto”. Até fingiam que compreendiam esta pérola.
Por mim, estávamos, até hoje, lá com as vacas, cabras, carneiros, porcos, galinhas, perus, peixes no açude, horta e, claro, meu melhor amigo, um gato rajado de manchas amarelas, para onde eu corria, lá ia ele, rabo empinado, acompanhou-me desde as primeiras palavras, primeiros fonemas, ele era o meu querido e inesquecível Mimi. A verdade é que eu gostei de vir a conhecer as letras e os números. Mas eu sempre fui e serei, também – e, talvez, principalmente –, um bucólico.
Mas, de seca em seca, a sina do sertanejo é arribar, aprendiz de aves, arribações. Pois. Vai-se para uma primeira cidade; depois, para uma cidade maior; e, por último, para a Capital. Brasília veio como a grande novidade, a Capital das capitais, pois cidade “planejada”, exemplo de “modernidade” para todo o mundo, estava lá, bem escrito e documentado para leituras, na revista O Cruzeiro.
Mesmo na primeira cena urbana eram várias as mudanças, de casa em casa, o aluguel, até que se comprasse uma e, depois, vender esta uma para a migração mais longa, Brasília. Enquanto isso, vamos às aventuras de quem sabia ler, ainda mais, leitura de encantos, “romances”.
Uma das coisas boas das cidades eram as feiras e as festas religiosas. As primeiras, todos os domingos. As outras, no de vez em quando, mas, em especial as que tinham leilões e barracas. Era quando o adro da igreja também se assemelhava a uma grande feira, com diferenças. Eram noturnas e não havia a sacaria de farinhas, cereais, rapaduras e toda sorte de bichos, desde os de comer às jiboias, lagartos, macacos... De passagem pelas feiras dominicais, seja nas vendas, seja nas compras, era costume alguém, algum tio/tia passar lá em casa e, aí, eu já sabia. Lá vinham os elogios: Esse menino sabe ler, escrever e “tirar contas” nas quatro operações.
Um determinado tio de longe, não era de sangue, passou a frequentar mais o lá em casa, depois das feiras, para que eu lesse para ele uns “romances”. Ler ele lia, assinava bem o nome, votava; também sabia lidar com os números. Mas, dizia, na minha voz a leitura saia mais escorrida e como que, na minha voz, a voz das próprias ‘pessoas’ romanceadas. Isto eu viria aprender um pouco mais tarde, como fazer, verdadeiramente, uma leitura; quase interpretação; com entonações dramáticas. “Quando esse menino lê, até parece que eu escuto os suspiros das pessoas do romance”. Certa vez, ele ficou encantado com uma tirada que eu mesmo inventei. Um dos romances contava a vida de um vaqueiro. Pois, não é que eu cantarolei o aboio do vaqueiro? Esse tio passou, também, a trazer para mim, de presente, um ou outro “romance”, o mais famoso, O pavão misterioso.
Havia os “romances” de castigo. Esses não eram tão emocionantes quanto os dos valentões. Também apreciava muito as histórias dos humildes que terminavam bem, enaltecidos e admirados por todos pelos desafios ultrapassados e, ainda, terminarem, nas histórias, bem casados e prósperos. Este era o caso de personagens que, além de heróis, eram também muito engraçados: Trancoso, João Grilo, Pedro Malazarte e outros. Houve um caso inesquecível, um sujeito que tinha muita fome e ia comendo tudo que achava pela frente, um dia, deram, de propósito, muita comida para ele. Ele comeu tudo e, por último, comeu os pratos também.

Meu pai, homem muito aferrado ao chão e às pelejas da sobrevivência sobre a terra (de principal profissão, lavrador), resmungava: “Muita fantasia!”. Desdenhava daquelas invencionices, “D’onde já se viu...!” Meu ‘tio’, não. Ele ficava extasiado com aqueles enredos e rimas. Um rapaz pobre, expulso pelo próprio pai, sai pelo mundo sem ter nem o que comer, mas o destino vai lhe destinando surpresas. Por fim, rico, retorna à casa paterna e ainda tira da miséria o pai cruel.
Os valentões iam, desde brigas com onças, nos matos onde viviam, até brigas em que se metiam nas cidades, por se indignar com injustiças e coisas erradas. Um deles (preso porque socorreu uma criança que apanhava de um adulto desalmado e acabou se metendo numa briga feira e ferindo feio o agressor), acabou revirando toda a cadeia. Com sua própria força, forçou as grades da cela, libertou todos os presos e deixou encarcerados os soldados e o próprio delegado. “Bem feito!” Exclamava o meu ‘tio’, satisfeito, ao final, com o “romance” e com a leitura do menino que sabia ler bem.
Outro tipo de valentões era o dos que enfrentavam monstros. Um ‘cabra’ desses deu cabo de uma serpente que, além de descomunal no tamanho, pasmem, tinha sete cabeças. Deu trabalho, mas o ‘nosso’ herói, mesmo depois de muito enroscado, conseguiu se desvencilhar e cortar cada uma daquelas cabeças que, por si só, prometiam engolir por sete vezes o destemido lutador. E ele, com muita habilidade e rapidez, foi se safando. Em vez de ter sido devorado, escapou sete vezes e matou as sete vidas da serpente monstrenga.
As serpentes se foram, os heróis, também. As mudanças, as cidades, as décadas... Mas, não se foram as recordações e as lembranças que fui acumulando de ter me valido umas quantas vezes de ser ‘um menino bom de leitura’. Numa dessas, vida difícil numa das cidades, meu pai, que já não era mais lavrador, mas, pedreiro, pegou um ‘serviço’ grande e precisou de levar todos os filhos como ajudantes, até eu fui convocado. Aconteceu que, na hora de prover tijolos para a fieira, um deles caiu sobre uma das minhas unhas. Doeu muito, a unha ficou escura, apostemou, veio a cair. Em casa, já no primeiro dia de padecimento, tanta dor, valheu-me minha mãe: “Ele não vai, ele não leva jeito para essas rudezas, ele é mais é das leituras”.
De algum modo, com as leituras, eu também fui, como um herói modesto e silencioso, vencendo as serpentes de sete cabeças que foram aparecendo pelos meus sete caminhos, pelas minhas sete cidades, pelas minhas sete vidas... Mas, então, das minhas sete profissões, uma delas veio ser a de escrever. De tanto ler, também peguei gosto pela escrita. Houve um tempo, até bem longo, de jornalista. Houve o tempo, do professor concursado. Chegou o tempo das memórias. Escrever, como um Marco Polo depois de um mundo viajado, mais do que um, O livro das maravilhas.
Conversando outro dia, com um conterrâneo, sobre esses passados de casos e aventuras, ele me contou de um avô que, a despeito de suas condições, interioranas e modestas, orgulhava-se de uma competência. A vida do sertanejo, por si só, é uma vida de emendas, de frases de desafios seguidas de outras de vitórias, ligadas por conjunções adversativas. Têm adversidades para contar, mas, também as superações. Contou-me, em várias vezes em que nos encontramos, desse seu avô heroico: “Não leio bem, mas sou bem algarismado”. Referia-se ao fato de ter aprendido a compensar. O que não lhe favoreceu a leitura, desenvoltura na tabuada. Até, de trás pra frente. Nove vezes oito, 72. Ou, oito vezes nove, 72, do mesmo jeito.

Criado em 2021-02-23 21:08:12
Patricia Porto da Silva (*) –
A definição de candidaturas para a Presidência da República em 2022 parece condicionada ao desenrolar das investigações da CPI e de como ficará, ao final, a situação política de Jair Messias Bolsonaro. Se o atual presidente puder disputar o próximo pleito, as projeções apontam como certa a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva. Caso seja impedido de se candidatar, a ausência de Bolsonaro abrirá espaço para uma candidatura de centro ou centro-direita.
Segundo pesquisa publicada em final de junho, pelo Ipec (o instituto de pesquisas substituto do Ibope), Lula teria hoje 49% dos votos, contra 23% de Bolsonaro, quantitativo superior à soma dos concorrentes. Lula venceria em primeiro turno. Pesquisa da CNT também aponta para vitória de Lula contra qualquer um dos demais pré-candidatos existentes.
Daí a pergunta: A quem interessa o impeachment de Bolsonaro? À sociedade como um todo, que não terá que aguardar o final do mandato para se livrar de um presidente homofóbico, negacionista, desbocado, avesso ao diálogo, negligente com a saúde pública e a proteção ao meio ambiente?
Algumas análises, entretanto, denunciam ações “de bastidores”, protagonizadas por setores da elite, cujo objetivo seria “sobretudo – mas não exclusivamente – impedir que o ex-presidente Lula vença as eleições em 2022 e o PT e a esquerda retomem o governo”. (Doyle, H. “Militares, empresários e políticos conspiram para tirar Bolsonaro das eleições”, In: Congresso em Foco, 24/06/2021, disponível aqui.
Vivaldo Barbosa alerta que as esquerdas estão embarcando em projetos do conservadorismo. Nossas elites “mais uma vez se mexem de forma sorrateira na política, como sempre fizeram. (...) querem promover a retirada de Bolsonaro pelas mãos de seus representantes. (...) precisam com urgência de algum artifício que lhes dê legitimidade e oportunidade para preparar outra solução, enganadora (como sempre!), visando enfrentar as forças populares. (...) sabem que não têm força política, eleitoral e moral para enfrentar a esquerda nas eleições de 2022 dada a liderança popular de Lula.” (Barbosa, V. In: Brasiliários.com, 28/06/2021. Disponível aqui.
Vivaldo deixa implícita uma crítica à posição da esquerda em relação ao projeto de impeachment, levada por uma estratégia da direita em defesa de seus próprios interesses e contra a esquerda.
O Brasil é um país de pouca tradição democrática. Em 130 anos de República, teve 35 presidentes, oito deles afastados do poder. A República já começou com um golpe.
João Goulart foi afastado do governo por golpe militar, sucedido por 25 anos de ditadura. Dos quatro presidentes eleitos no período pós-ditadura, dois foram afastados por impeachment - Fernando Collor e Dilma Rousseff.
Ninguém duvida que o impeachment contra a presidente Dilma Rousseff foi um golpe. Não o tradicional, ostensivo, com tanques na rua. Mas sutil, disfarçado, sorrateiro.
O impeachment contra Collor também parece ter sido promovido por setores dominantes - os mesmos que construíram sua candidatura e levaram-no a vencer Lula com ostensivo apoio da grande mídia, notadamente da Rede Globo. Collor foi inocentado, anos depois, dos crimes que lhe foram imputados para justificar seu afastamento.
Cabe notar que as pressões que precederam o impeachment de Fernando Collor se iniciaram quando estava em curso uma aproximação entre ele e o então governador Leonel de Moura Brizola. Collor mostrara entusiasmo e manifestara intenção de incorporar à sua proposta de governo, em âmbito nacional, o projeto do CIEP.
Sobressai, portanto, a impressão de que o instrumento do impeachment esteja sendo usado no Brasil como disfarce para acobertar, sob o manto da moralidade e do combate à corrupção, intenções subterrâneas.
Convém sublinhar que não se quer desmerecer o instrumento em si, recurso legítimo do sistema democrático. O que está em foco é a forma como tem sido utilizado, oportunista e casuística. Ao invés de servir à democracia, estaria servindo ao autoritarismo atuante na condução da política brasileira. Prática velada de golpismo, sem desgaste provocado por um golpe ostensivo perante a opinião pública, interna e externa.
Parece de todo relevante o alerta dirigido aos movimentos e partidos de esquerda. Um novo golpe parece estar sendo gestado. Não exatamente contra Bolsonaro, mas uma forma de ditar, desde agora, quem será seu sucessor na presidência.
Militantes da esquerda lotaram as ruas e proveram o apoio que as elites precisavam para legitimar o impeachment contra Fernando Collor. Por incrível que pareça, estiveram presentes também nas “jornadas de junho”, ao lado de movimentos de direita como o MBL, cujo líder pousou em foto de primeira página, esta semana, ao lado de uma sorridente Gleisi Hoffman, unidos na entrega do “superpedido” de impeachment.
Faltando pouco mais de um ano para terminar o mandato de Bolsonaro, - que provavelmente não será reeleito -, sendo Lula o favorito na próxima eleição, seria consequente, do ponto de vista político, as correntes progressistas respaldarem o impeachment de Bolsonaro? Estarem na rua, facilitando o trabalho da elite?
É válido que façam coro aos mesmos atores que armaram o golpe contra Dilma Rousseff em 2016? Ou seria melhor assumir postura mais crítica, altiva, desconfiada e cautelosa, ante a lembrança da experiência do golpe disfarçado de impeachment praticado contra a presidente eleita Dilma Rousseff?
Ora, parece enganosa a ideia de que expurgar Bolsonaro do poder resultaria, por si só, em melhora da situação do País. A narrativa estaria no fundo camuflando a necessidade de mudanças de fato. Pode sair Bolsonaro, mas as elites espoliadoras continuarão aqui, elegendo e destituindo presidentes com o perfil que desejam, e um poder legislativo dominado por representantes seus, para aprovar ou reprovar o que elas querem.
Seria bem mais consequente aguardar a oportunidade da campanha eleitoral para enfatizar, junto à população, os equívocos cometidos pela direita. Apontar como a campanha de Bolsonaro foi apoiada por grupos empresariais e pela grande mídia - agora querendo se livrar dele com endosso da esquerda.
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(*) Patricia Porto da Silva é professora com graduação em Letras e Biologia e mestrado em Educação. Servidora aposentada da Agência Nacional do Petróleo (ANP).
Criado em 2021-07-06 21:37:16
José Carlos Peliano (*) -
Na minha época vestida de calças curtas, cabelo à Príncipe Danilo, merendeira escolar pendurada ao lado da cintura, ouvidos grudados na Rádio Nacional para acompanhar Histórias do Tio Janjão ou Aventuras do Anjo, às voltas com óleo de fígado de bacalhau, Rum Creosotado ou Biotônico Fontoura, era muito comum ouvir a expressão “fazer e acontecer”, então de uso corriqueiro.
Tipo, o menino passou muito bem de ano e vai para a série seguinte “fazer e acontecer” ou o pintor sicrano “faz e acontece” belas obras em seu atelier. Ou de uma forma apimentada, fulano vai à festa à noite “fazer e acontecer” ou fulana viaja ao Rio de Janeiro passar o final de semana, imagine só, tem tudo para “fazer e acontecer”. Muito comum nos anos cinquenta e sessenta como hoje escuto, por exemplo, entre outras variantes, fulano “vai descolar” um bom emprego ou uma boa farra à noite ou ela se vira para viver nas “quebradas” ou vai no final de semana para “as quebradas”.
A expressão é rica em significantes, que levam a vários significados, com licença de Lacan e seguidores, e exprime dois atos concomitantes, o de fazer e o de acontecer. O ato de realizar algo e o de usar o que se faz ou o que se fez e dele usufruir. Quem faz, portanto, acontece, seja para si ou para outrem ou para muitos. Afinal, acontecer figurativamente se desdobra em “a conta é ser”, assim, faz-se para ser.
Chama a atenção que o ato de fazer traz em si embutida a dimensão de pensar sobre ou imaginar ou conceber, seja pensar no próprio ato em si, seja pensar com anterioridade até a execução do ato mesmo de fazer – forma imediata de planejar. Mais ainda, o ato de acontecer exprime não só o resultado do fazer como também e principalmente a dimensão de aprender. Fez-se, aconteceu e de todo o processo ficou o conhecimento e a aprendizagem dos atos de fazer e acontecer, que recorrentes se mantém se renovando a cada vez, quando repetidos.
Desdobra-se, então, “fazer e acontecer” em conceber, fazer, acontecer e aprender. Agora, para quem já fez e aconteceu, o novo “fazer e acontecer” traz em si a concepção e o aprendizado embutidos, embora possam ser feitas adequações aos dois atos para serem realizados noutro momento. E na maioria das vezes a repetição nunca é mais a mesma, sempre se altera de uma forma ou outra.
Assim, a expressão “fazer e acontecer” é oportuna e importante porque traz de forma livre e apreendida a conjunção de dois tipos básicos e históricos de operações humanas, a dimensão física e a mental. Para que qualquer coisa seja feita dela participa diretamente partes de nosso corpo, por exemplo, entre outros: mãos (ceramista), pernas (ciclista), pés (corredor) e corpo (nadador). Ao mesmo tempo, a preparação e o acompanhamento mental da coisa a ser feita trazem o uso da memória, do pensamento, da atenção e das noções de espaço, tempo e movimento – e do “piloto automático”, que vem junto com cada um de nós.
Ao fim e ao cabo, nosso organismo se envolve diretamente nos atos de fazer e acontecer. Mais umas partes que outras dependendo do que for levado à execução imediata ou pré-concebida. Logo, a separação entre operação ou trabalho intelectual (mental) e operação ou trabalho físico é usada para distinguir e informar as naturezas específicas de cada dimensão que se inter-relacionam na prática.
Foto de Marina Mestrinho Peliano.
Lembro das corridas de fórmula 1 quanto o piloto no box instrui os mecânicos quais os problemas no carro estão dificultando sua rolagem nas pistas. Aí quem acontece (o piloto) aprende na prática para indicar a quem faz (mecânicos) onde a coisa está pegando. Do mesmo modo, na linha de montagem, o supervisor escuta os operários para saber o que está dificultando o bom fluxo dos equipamentos e máquinas. Nos dois exemplos, observa-se que os atos de fazer e acontecer estão separados por funções, como ocorre predominantemente na sociedade com exceções específicas.
Um marceneiro, por exemplo, é uma das exceções como qualquer outro autônomo ou artesão. Eles mesmos fazem e acontecem, sabem exatamente o caminho das pedras ou melhor das madeiras ou dos objetos com que executam seus trabalhos.
Anos atrás, quando pesquisava a automação microeletrônica na produção industrial soube de um caso emblemático ocorrido numa empresa metal mecânica de Minas Gerais. Um torneiro mecânico, acostumado a operar o torno manual na confecção de peças, se deparou com uma nova máquina de tornear, operada não mais manualmente, mas por controle ou comando numérico computadorizado, adquirida pela empresa. Ele acompanhou toda a programação da nova máquina realizada pelo profissional responsável. Ao terminar a programação e o profissional levá-la à máquina para um teste, ele teria sido advertido pelo torneiro mecânico de que a máquina poderia se danificar uma vez que ele, o programador, não havia capturado corretamente todos os movimentos feitos manualmente para serem inseridos na programação. O teste foi realizado mesmo assim. A máquina travou e a seguir se rompeu.
Eu mesmo passei por experiência parecida ao revés – não do que funcionava para o que não funciona, mas desta situação para aquela. Tinha meus trinta e poucos anos e passava por uma situação momentânea de baixo astral. Estive com Nise da Silveira no Rio, inesquecível amiga, e ela me recomendou voltar à Brasília e construir minha casa junto com os operários, tijolo a tijolo. Ou seja, construir o lado de fora para reconstruir meu lado de dentro.
Não deu outra, em pouco tempo voltei a estar de alto astral.
Em seguida a esta experiência, me desentendi com o arquiteto da obra e fiquei somente com o mestre e os operários. Uma descoberta. Juntos, eu e todos eles, conseguimos levantar o resto da casa com eficácia, eficiência e perfeição em tempo mais rápido do que vinha sendo com a direção do arquiteto.
Duas revelações aí. Eu mesmo fiz e aconteci psicológica e operacionalmente com a construção de minha casa. Fez parte fundamental a participação do mestre e dos operários pela interação das tarefas ao mostrarmos que boa parte do conhecimento, se não, todo ele, “faz e acontece” ou vem com a prática e o dom tácito da experiência, saber, experimentação e observação.
A conclusão para mim a tirar dessas experiências citadas é que a divisão entre operação ou trabalho intelectual e manual, na maioria dos casos, tem muito mais a ver com uma determinação cultural dominante e imposição de uma hierarquia social dela derivada, que estabelecem fins econômicos, do que para a realização das várias partes de uma operação ou trabalho em si mesmos. Dessa hierarquia é que nasce o embrião da desigualdade e preconceito social que se alastra capitalismo afora. Isto é, aqueles que pensam, criam e mandam e aqueles que executam, fazem e obedecem com as diversas repercussões consequentes.
Tal como afirma Richard Sennett em O Artífice, p. 22, Record, São Paulo, 2008, “a história traçou linhas ideológicas divisórias entre a prática e a teoria, a técnica e a expressão, o artífice e o artista, o produtor e o usuário; a sociedade moderna sofre dessa herança histórica”.
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(*) José Carlos Peliano, poeta, escritor, economista.
Criado em 2022-01-27 21:12:19
João Lanari Bo –
Vivemos em uma época em que, para muitos, um sanduíche de pão preto com alface pode significar a própria natureza. Mas, se o sanduíche é solicitado no celular, o pedido é imediatamente registrado em nossos perfis digitais, para o que der e vier. Qualquer preferência que tenhamos, por menor que seja, é rastreada e catalogada em imensos data centers espalhados pelo mundo, identificando nossos anseios e frustações, desejos e interdições. Neste caso, ponto para o perfil ambientalista.
São meia dúzia de empresas globais que se aproveitam desses dados, à nossa revelia: os usual suspects, Google, Facebook, Amazon, Apple, Microsoft... e novos entrantes, como Uber e Netflix. Essa turma destronou petroleiras e fabricantes de automóveis, tornando-se as maiores empresas do planeta. O que eles fazem com a avalanche de dados é segredo guardado a sete chaves: por meio de fórmulas matemáticas complicadíssimas e da indefectível publicidade, ganham montanhas de dinheiro.
Os famosos algoritmos da Netflix, por exemplo, captam nossas intempestivas preferências por meio da análise dos cliques que disparamos procurando um filme ou uma série: no tempo que gastamos avaliando os conteúdos, na paciência em aguentar uma narrativa maçante ou na obsessão em assistir um episódio depois do outro – um loop infernal, no-end story. Assim, numa bela noite estrelada, surge na cartela da programação infinita a série Away, sobre uma missão ao planeta vermelho.
Não é um futuro longínquo: Trump garante que a NASA vai mandar “americanos” para Marte nos próximos quatro anos, os chineses lançaram em julho último uma espaçonave para pousar no planeta vermelho com veículo Rover, e até os Emirados Árabes Unidos colocou uma sonda no espaço, também em julho, para orbitar no cobiçado corpo celeste vizinho. Rússia e Europa adiaram para 2022 plano conjunto de lançar um robô Rover. E o atual star do capital privado, Elon Musk, tenciona enviar a Marte, até 2050, 1 milhão de pessoas, lançando três foguetes Starship por dia e criando "muitos empregos"!
Marte tornou-se palpável, pelo menos politicamente. A Netflix não perdeu tempo e produziu Away, construindo uma ficção a um só tempo científica e melodramática, ao gosto dos cliques que os telespectadores generosamente forneceram à rede. A narrativa oscila entre os percalços da viagem e os dramas pessoais dos cinco tripulantes, cada um em sua particularidade cultural e emocional, mostrados em flashback. Até aí morreu Neves, diria a sabedoria popular: todos sabemos que o espaço exterior já foi dramatizado inúmeras vezes, sobretudo a partir de 2001, uma odisseia no espaço.
A diversidade da equipe – cinco origens diferentes, resultado de um acordo internacional – e, sobretudo, a gestão dessa diversidade, é o traço inovador da série. Uma americana, um russo, uma chinesa, um indiano e um ganense naturalizado canadense – órfão de pais assassinados – compõem uma espécie de entente científica-exploratória programada para plantar a semente da vida no planeta vermelho. O comando é da americana (Hilary Swank), mas as decisões são consensuais e compartilhadas. Um modelo que parece emanado da paz perpétua kantiana, onde a razão tem mais força do que o poder.
Kant, quem diria, acabou em Marte. O filósofo de Königsberg, cuja regularidade de horários ajudava seus concidadãos a acertar os relógios, afirmava que é obrigação da humanidade buscar a paz, mas que esse dever “não pode ser instituído ou assegurado sem um contrato dos povos entre si”. Um tal contrato, continua Kant, seria feito por meio de uma liga de tipo especial, que se pode denominar liga de paz [...] que deveria ser distinta do tratado de paz em que este simplesmente procura pôr fim a uma guerra.
Pois a liga kantiana, finalmente, começou a materializar-se, pelo menos no mundo etéreo da viagem interplanetária, conforme, de alguma maneira algorítmica, às expectativas de uma parcela da audiência digital. As interações entre os personagens são, em última análise, a matéria ficcional da série, um espaço de diálogo que se eleva acima dos interesses imediatos das nações e projeta-se no espaço interestelar. Em momento de tensão, o russo diz à chinesa: “Pátria é uma ideia... fronteiras não existem”.
Os russos sempre cultivaram raízes místicas e filosóficas em seu imaginário cosmológico, apesar dos pesares. A Guerra Fria remou contra esse idealismo, naturalmente. Para Nikolai Fiódorov, pensador cristão ortodoxo do século 19, a colonização do espaço poderia levar à perfeição da raça humana, com uma existência despreocupada e imortal. Uma variante mística de Kant.
A despeito do infantilismo de Trump e das reações dos competidores, parece existir entre os cientistas que se debruçam sobre a alteridade espacial um nível de comunicação que extrapola mundaneidades empobrecedoras. Away atualiza essa possibilidade para o reino ficcional das transmissões over-the-top, como são conhecidos os provedores de conteúdo tipo Netflix. Oxalá Kant prevaleça no final da série, nem que seja na segunda temporada!
E o Brasil, como é que fica nessa empreitada? Pelo menos já temos um Ministro-astronauta...
Criado em 2020-09-26 15:40:19
A Sessão Solene da Câmara Legislativa do DF em comemoração aos 20 Anos da TV Comunitária será realizada nesta sexta-feira, dia 15/9, das 19h às 22h, com transmissão ao vivo pelo Canal 12 na NET e pela página da emissora no Facebook. A iniciativa é do deputado distrital Ricardo Vale (PT).
Durante a solenidade haverá apresentação dos cantores Myrlla Muniz, Márcio Bomfim, Damellis Castillo e do DJ Allen.
A sede da TV Comunitária fica no SIG Quadra 3, Bloco B, Ed. Bernardo Monteverde II. Compareça! Prestigie!
Criado em 2017-09-11 19:06:49
Roberto Amaral (*) -
No momento em que escrevo dizem as folhas que o desfile do presidente Lula pela Esplanada em carro aberto, a caminho do Palácio do Planalto para a solenidade da posse – nesse 1º de janeiro de 2023 que tanto demora a chegar – está ameaçado, como igualmente ameaçado está o discurso ao povo, após a recepção da faixa (que até este momento não se sabe de quem receberá), no parlatório do palácio concebido por Niemeyer – uma tradição inaugurada em 1961 e só interrompida durante os longos e trágicos 21 anos da ditadura militar instalada em 1º de abril de 1964, arcaísmo político-ideológico ao qual ainda se filiam, majoritariamente, os fardados brasileiros.
A eventual frustração deveremos a questões de segurança, jamais cogitadas em quaisquer transmissões de cargo na história republicana, pois o clima de festa e confraternização democrática foi, desta feita, substituído pelo temor à violência de grupos de extrema-direita financiados pelo poder econômico mais atrasado e estimulados pelo discurso do presidente ainda incumbente, e, segundo consta, neste momento curtindo precatado exílio, acantonado em uma das muitas propriedades de Donald Trump.
Assessores do presidente Lula já não temem um atentado contra a democracia representativa – insistentemente reivindicado pelo capitão-presidente, mas uma Dallas brasiliense, e ninguém razoavelmente sensato confia nos serviços de segurança civis e militares postos à disposição da extrema-direita brasileira, como é o clamoroso caso do Gabinete de Segurança Institucional. Os receios, de especialistas e já agora da militância petista e da sociedade, lamentavelmente, não são de todo desarrazoados, e dizem muito do país a que fomos reduzidos após quatro anos da insídia bolsonarista. Falam dos dias de hoje e nos previnem sobre os dias de amanhã, que poderão ser ainda mais graves, se não soubermos conhecer as lições que a história insistentemente nos fornece.
Desde a redemocratização de 1946 não se conhecia campanha eleitoral tão brutal quanto a de 2018, anunciadora (para quem quisesse ver) de um governo absolutamente delinquente, como este que chega ao fim, deixando um passivo moral, ético e político agravado pela corrupção do papel constitucional prescrito para os quartéis. Passivo cujo enfrentamento não pode ser negligenciado, sob pena do suicídio da república.
O registro histórico não conhece pleito presidencial levado a cabo em termos tão polarizados e ao mesmo tempo tão despolitizado quanto o recém-encerrado, travado do primeiro ao último dia, mais precisamente até aqui (pois ele se prolonga como se ao invés de dois tivéssemos três turnos) sob permanentes ameaças golpistas, acenos de ruptura da ordem constitucional, sob a renitente tentativa de desqualificar o sistema eleitoral com o claro objetivo de deslegitimar o pronunciamento da soberania popular. Comportamento delinquente no qual se esmerou o ministro da defesa que está dando no pé. Tampouco se vivenciou, antes, nas vésperas da posse do presidente, clima social tão carregado de tensão, medo e angústia. Assombrado pela súcia governante, o processo eleitoral foi marcado por dúvidas quanto à sua realização e receios de que o veredito popular não fosse respeitado. A consolidação da via democrático-republicana se apresentava ameaçada por uma extrema-direita com perigosas relações com a caserna – que desde 1889 procura, com êxito até aqui, constituir-se em autarquia política diante do estado e da sociedade, a qual pretende curatelar, para ditar os rumos da nação, subordinados aos seus ditames.
A campanha eleitoral de 1950 (como a anterior, de Dutra, em 1945, a primeira após a queda do Estado Novo) e a posse de Vargas (derrotando o brigadeiro Eduardo Gomes, o candidato da direita) se deu sem contestações. A história de sua deposição pela intentona militar de 1954 escreve outro capítulo. Eleito Juscelino Kubitscheck, tendo João Goulart como vice, em 1955, os militares que haviam deposto Vargas em 1954 ensaiam um golpe de Estado (episódio registrado como o “11 de novembro”), mas são derrotados em pouco mais de 24 horas por uma ala legalista do exército, e a posse do eleito se dá tranquila e alegre, a última no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. Tranquilas foram igualmente as muitas posses que se seguiram ao fim da ditadura de 1964. Nada que lembre o cenário de hoje.
No coroamento de quatro anos de pregação golpista, o bolsonarismo, derrotado nas urnas, organiza, país afora, hordas de desordeiros que, acampados nas portas de quartéis, interditando estradas ou promovendo vandalismo, como os da noite de 12 de dezembro em Brasília, convulsionam o país, apelam pela rejeição da vontade eleitoral e a implantação de uma nova ditadura militar, preferentemente sob a chefia do capitão. Às maquinações intramuros sucedem-se ameaças de insurreição em plena luz do dia, protegidas pelo silêncio dos serviços de segurança e o estímulo dos ainda governantes, inclusive de chefias militares.
Qual o papel dos órgãos de segurança das forças armadas, da Abin, da polícia federal, das polícias militares e civis da União e dos estados na defesa da república?
Nesse quadro de fomentada insegurança, o ainda presidente da república primeiro silencia e em seguida se evade do cargo com o claro objetivo de estimular as piores especulações golpistas, e os chamados chefes militares, o ministro da defesa e os comandantes das três forças anunciam o covarde abandono de seus postos, estabelecendo criminoso vazio de poder, em momento de transe político consabidamente grave.
Há poucos dias foi frustrado um atentado terrorista que visava a explodir um caminhão tanque estacionado nas proximidades do aeroporto de Brasília. Nada se deve, porém, a operação dos muitos órgãos de segurança instalados na capital da república, mas tão-só ao acaso de um motorista haver descoberto um “objeto estranho” na carroceria de seu caminhão, e haver tido a iniciativa de chamar a polícia, que descobriu tratar-se de bananas de dinamite. Preso, o terrorista confessou que o intento seu e de seus comparsas era interromper o fornecimento de energia elétrica da capital, e com isso instaurar o clima de caos necessário para ensejar a intervenção dos miliares, repondo a “ordem” mediante o golpe de Estado. Empresário no estado do Pará, o terrorista levara para Brasília um verdadeiro arsenal de guerra, e se articulava com grupos de criminosos acampados à frente do quartel-general do exército na capital, que deveria cuidar da proteção dos poderes da república. Quem não age, prevarica; prevaricam o presidente homiziado e prevaricam seus ministros.
É escandaloso o vínculo político e operacional entre os terroristas e os quartéis, em Brasília e em todo o país, denunciador de algo entre a omissão delinquente e a ação direta, de estímulo à insurgência e à desobediência (como o exemplo grotesco do general comandante da 10ª Região Militar, em Fortaleza).
Os tempos de hoje, construídos pela erva daninha da conciliação que anima a impunidade – senhora do crime continuado –, certamente se projetarão no futuro imediato, e já ameaçam o terceiro mandato de Lula. O projeto da extrema-direita, hoje, visível a olho nu, é a implantação de um governo paralelo cujo objeto é a inviabilização do governo constitucional-democrático e de seus compromissos programáticos. Em poucas palavras: Lula pode governar, desde que não insista em seu discurso de campanha, porque se um governo do PT é admissível, um governo petista será intolerável. A extrema-direita – o mercado financeiro e seu braço armado, os militares –, não se consolou com a amplitude da coalizão política que patrocinou a candidatura e a eleição de Lula, e não nutre o mínimo respeito pela expressão da soberania popular, em país que busca sua republicanização. Dita ao presidente eleito objetivos e limites na economia e na política, interfere na escolha de novos dirigentes, indica o que deve ser feito e o que haverá de ser evitado, como se, realmente, o processo eleitoral fosse uma farsa: seja qual for o veredito das urnas (quando as eleições são inevitáveis), a troca de governantes só se justifica quando não há a troca de governo, pois este haverá de ser, sempre, o governo da casa-grande e de seus herdeiros, vigiado pelo dito “mercado” e contingenciado pelas forças armadas, o “braço forte” da classe dominante brasileira. Um processo que caminha na contramão da cidadania, que exclui as grandes massas do mercado de consumo e os trabalhadores do mercado de trabalho, transformados em “peças”, como eram os africanos escravizados e vendidos em praça pública, e assim, dispensados de direitos, senão aqueles mínimos que asseguram sua sobrevivência como força de trabalho, sem a qual não há como o capitalista extrair a mais-valia.
O complexo econômico-militar, repito, exige que o futuro governo petista abandone o petismo sob pena de sua inviabilização, mesmo sem precisar de mais uma vez lançar mão de golpe de estado clássico, como aquele que interrompeu o mandato do presidente João Goulart, que ousara defender a reforma-agrária e pôr em curso um vasto programa de alfabetização de adultos. Os militares dizem ao futuro ministro da defesa que o recebem muito bem e muito bem o tratarão enquanto ele não se meter na vida da corporação; que ele pode escolher seus auxiliares, a começar pelos comandantes das três forças, desde que essa escolha coincida com a escolha da caserna, que se chama “ordem de antiguidade”, em que tudo é considerado, exceto o mérito, exceto a visão de mundo, exceto os compromissos com a Constituição.
Vimos, com as experiências de 2016, e principalmente com o ocorrido em 2018, que o golpe pode operar-se por dentro do sistema e nos termos da institucionalidade. A iminência do “governo paralelo”, porém, não deve ser vista como um determinismo ou fatalidade histórica, pois há ainda muito recurso à disposição das forças democráticas.
A disputa política não se encerrou com a apuração dos votos no segundo turno, e prosseguirá no governo e principalmente na sociedade, o campo privilegiado da batalha democrática.
A realização do pleito e a posse iminente de Lula, constituem, em si, duas grandes vitórias do povo brasileiro que se consolidarão na medida em que nossos estrategistas compreenderem que a estabilidade do governo depende tanto da ampliação da base de apoio político quanto do combate à extrema-direita, na sociedade e na caserna.
Distantes ainda do projeto alternativo da esquerda brasileira, a tarefa de hoje tem dois polos que ao final se unificam: a defesa do futuro governo Lula, dando-lhe condições de corresponder às expectativas das grandes massas, e o combate sem trégua à extrema-direita, em todos os planos, em todos os campos.
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(*) Com a colaboração de Pedro Amaral
Criado em 2022-12-31 11:53:01
No 20º episódio da República Popular das Letras (RPL) a jornalista Noemia Barbosa Boianovsky e o professor Luiz Humberto de Faria Del'Isola discutem com Antônio Carlos Queiroz (ACQ) alguns mitos que envolvem a construção de Brasília.
Entre eles, o sonho de Dom Bosco (cascata monumental que já havia sido utilizada por Monteiro Lobato em 1935 na campanha do petróleo); a teoria de que esta região era um deserto nos anos 50 (“No princípio era o ermo”), e o “massacre” da Pacheco Fernandes, que ajudou a mobilizar os trabalhadores da construção civil na fundação do primeiro sindicato no Distrito Federal.
Noemia e Luiz Humberto são autores de A Bailarina Empoeirada – História do Povo de Brasília, volumosa obra de referência para quem pretende se aprofundar na saga da mudança do DF para o Planalto Central.
Que tal curtir e se inscrever na página da República Popular das Letras (RPL), dedicada à promoção da Cultura e ao combate do obscurantismo e do negacionismo!
Veja aqui a íntegra da entrevista:
https://www.youtube.com/watch?v=tqsX_xgFi7g
Criado em 2022-09-21 15:08:39
Nesta quinta-feira (22/12), com abertura às 18h30, tem início o 2º Festival Interativo de Música e Arquitetura (II FIMA), na Academia Brasileira de Letras, Teatro R. Magalhães Jr., Rua Presidente Wilson 203. Entrada franca. Em sua segunda edição, o Festival convida o público a viver mais uma experiência imersiva que une música e arquitetura.
Além do Rio de Janeiro, o FIMA estará presente também nos estados do Maranhão, Pará e Minas Gerais com historiadores da arte e arquitetos abrindo caminhos para que músicos brasileiros consagrados possam apresentar obras musicais que dialoguem com a arquitetura, a arte decorativa e a história destes icônicos edifícios, que representam alguns dos mais importantes patrimônios materiais do nosso país. Com patrocínio do Instituto Cultural Vale por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, todas as apresentações do FIMA têm entrada gratuita.
O Palacete do Petit Trianon, na Academia Brasileira de Letras, e os Palácios do Catete e Imperial de Petrópolis estão entre os locais que receberão os concertos no estado do Rio de Janeiro.
Idealizador e diretor artístico do evento, o músico e produtor cultural Pablo Castellar revela que nesta segunda edição serão celebrados, em sua maioria, palácios dos períodos colonial e imperial. “Ofereceremos ao público, através de um diálogo cativante e multissensorial entre a música e a arquitetura do FIMA, a oportunidade de apreciar, valorizar e construir um sentimento de pertencimento em relação a estes valiosos patrimônios culturais de nossa sociedade que ao longo dos séculos também abrigaram personagens icônicos de nossa história”.
Concerto de abertura
O concerto de abertura desta nova temporada do FIMA será no dia 22 de dezembro, quinta-feira, celebrando os 100 anos da formidável réplica do Petit Trianon de Versailles - que após sediar o pavilhão francês na Exposição Internacional do Centenário da Independência em 1922, foi doado pelo governo da França, no ano seguinte, à Academia Brasileira de Letras. No salão onde tomam posse os imortais da ABL, vão se apresentar o sopranista Bruno de Sá, que vem encantando o mundo lírico com sua raríssima voz, e o virtuoso piano da maestra Priscila Bomfim. O duo será acompanhado dos comentários do arquiteto e professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Gustavo Rocha-Peixoto.
Considerado “uma voz poderosa com tons de mel (…) uma real descoberta” pela revista brasileira Concerto – na qual, inclusive, estampa a capa da edição deste mês de dezembro - e arrancado elogios do jornal francês Le Monde (“o sopranista brasileiro deixou estupefato o mundo lírico...”), o jovem Bruno de Sá destacou-se ao receber o OPER! Prêmio 2020 na categoria “Melhor Revelação do Ano”. Como artista exclusivo da Erato/Warner Classics, seu primeiro álbum solo “Roma Travestita” foi lançado em setembro de 2022, recebendo elogios da imprensa e do público em todo o mundo. Primeira mulher e diretora musical a reger óperas da temporada oficial do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, a pianista e maestra Priscila Bomfim já regeu importantes orquestras brasileiras e, em 2022, estreou óperas inéditas dos compositores Mario Ferraro, Armando Lôbo, Arrigo Barnabé e Tim Rescala.
O programa fará uma viagem pela história e pela arquitetura do palacete, desde a sua concepção na França - construído no século XVIII pelo Rei Luis XV para a sua amante, a Madame de Pompadour, passando pelo reinado de Luiz XVI, que o ofereceu à esposa Maria Antonieta - até chegar à esplanada do Castelo, no Rio de Janeiro, para as celebrações do centenário da Independência e, em seguida, tornar-se a primeira sede própria da Academia Brasileira de Letras. Assim, serão interpretadas obras de compositores dos séculos XVII ao XXI, passando por nomes como Scarlatti, Broschi, Piccinni, Mozart, até chegar aos brasileiros Villa-Lobos, Ovalle, Santoro e Miranda.
Os acadêmicos também estarão representados com música: “Azulão”, do compositor Jayme Ovale com poesia de Manuel Bandeira, assim como as escritoras brasileiras, como “Retrato”, de Ronaldo Miranda com letra de Cecília Meireles. A escritora tinha todos os méritos, livros e condições para entrar na ABL (mas não entrou, porque naquela época mulheres ainda não eram admitidas, o que só veio a acontecer no dia 4 de novembro de 1977, com a posse de Rachel de Queiroz). A escritora foi distinguida pela ABL em 1938 com o Prêmio Olavo Bilac e com o Prêmio Machado de Assis, postumamente, em 1965.
Nas semanas dos aniversários dos municípios do Rio de Janeiro e de Petrópolis, o FIMA irá celebrar dois importantes palácios destas cidades. No dia 4 de março, o festival estará no Palácio do Catete apresentando a soprano Daniela Carvalho com os comentários do pesquisador e historiador deste museu Marcus Macri. Já no dia 18 de março, celebrando os 180 anos de Petrópolis, o FIMA estará no Palacio Imperial. O coral dos Canarinhos de Petrópolis, que comemora os 80 anos de fundação de seu conjunto, irá apresentar, acompanhado ao piano pelo seu maestro Marco Aurelio Licht, um programa de música coral da época do Império trazendo obras de Marcos Portugal, Mozart, Verdi, Offenbach e Carlos Gomes, com comentário de Maurício Vicente Ferreira Júnior, diretor do museu. O FIMA também realizará um concerto de encerramento em local ainda a confirmar.
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SERVIÇO:
Abertura dia 22/12, quinta-feira – II FIMA na Academia Brasileira de Letras (ABL) - Rio de Janeiro
Horário: 18h30
Local: Teatro R. Magalhães Jr.
Endereço: Rua Presidente Wilson 203
Entrada Franca
Livre
Segue o link para mais informações sobre o evento:
https://www.youtube.com/watch?v=rtMgd9znd-k
https://www.youtube.com/watch?v=NXckzCe56_8
(*) As senhas para assistir o concerto deverão ser retiradas gratuitamente na própria Academia Brasileira de Letras (ABL) 1h antes do espetáculo sendo solicitado apenas o nome, e-mail e CPF (respeitando as regras da Lei Federal de Incentivo à Cultura e da LGPD). A entrada será realizada pelo portão de acesso principal da ABL localizado ao lado direto do Petit Trianon.
Criado em 2022-12-21 15:57:23
Reproduzimos aqui a entrevista da presidente da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), Nísia Trindade Lima, ao site do Instituto Ciência Hoje, no dia 11 de maio, assinada pela jornalista Valquíria Daher:
Mal atende o telefone, Nísia Trindade Lima avisa, com delicadeza, que precisará atrasar a entrevista em dez minutos porque recebeu um chamado do Ministério da Saúde. Seus dias têm sido assim desde que os casos da covid-19 passaram a se multiplicar no Brasil.
São reuniões virtuais consecutivas, isolamento social até dos filhos e imensas e incontáveis responsabilidades como presidente da Fiocruz.
É a primeira mulher no cargo nos 120 anos, completados em maio, da instituição que está no centro do combate à pandemia no país.
“É duro, é difícil, mas o tempo todo estou trabalhando, e isso nos dá esse sentido de urgência e da importância de estarmos dedicados a esse objetivo”. Comparo-a ao general Patton em meio à Segunda Guerra, mas
Nísia discorda: “Fala-se muito de guerra, não gosto dessa metáfora. Para mim, a imagem que expressa essa pandemia é uma crise sanitária e humanitária”. A desigualdade brasileira em meio a esse “desastre” é uma das maiores preocupações da socióloga. “Não há democracia na circulação do vírus. Falam que o vírus é democrático, e ele pode, de fato, atingir a todos, como atinge, mas a capacidade de proteção e de resposta a isso é diferente num país desigual como o nosso”, diz ela, referindo-se aos milhões de brasileiros sem acesso à água e impossibilitados de evitar aglomerações.
Nesta entrevista exclusiva à Ciência Hoje, Nísia fala da importância do Sistema Único de Saúde (SUS), de como criar condições para quando uma vacina chegar estar disponível a todos e da iniquidade de gênero dentro da própria Fiocruz.
CIÊNCIA HOJE: Quando a Fiocruz foi criada, há 120 anos, as ameaças eram as epidemias de varíola, peste bubônica e febre amarela. Hoje, a instituição segue como referência para combater epidemias e está no centro do enfrentamento da covid-19. Pode falar um pouco dessa trajetória?
NÍSIA TRINDADE LIMA: A história do século 20 em relação à saúde pública, e até numa visão mais profunda do Brasil, passa pela Fiocruz. E por quê? O trabalho científico realizado na instituição se volta aos grandes problemas, epidemias urbanas de peste bubônica, varíola e febre amarela, além de outros problemas como as chamadas doenças dos sertões, a Doença de Chagas, marcante na trajetória da instituição.
É possível pensar a própria história da sociedade brasileira por esse ângulo da saúde pública, porque a expansão de projetos vistos como modernizadores no território brasileiro sempre colocou questões ambientais, de qualidade de vida, da emergência de doença… E a Fiocruz representa essa história, sempre trazendo aportes científicos dos seus pesquisadores, associando a ciência às necessidades da saúde pública. Neste momento, estamos enfrentando a grande pandemia do século 21, algo que também vai além da saúde.
É um grande desafio para uma instituição de ciência e tecnologia vinculada ao Ministério da Saúde (MS) e que, ao longo de sua trajetória, participou do movimento da reforma sanitária na Constituição de 1988, da criação do Sistema Único de Saúde (SUS) e busca unir esse esforço de ciência, tecnologia e inovação com a constituição de um sistema universal em um país continental e extremamente desigual. Se fizermos um paralelo em termos de pandemia, é importante lembrar que cientistas da saúde pública, como Carlos Seidel e Carlos Chagas, foram personagens chave na organização de ações de mitigação da Gripe Espanhola no início do século 20.
Então é uma tradição que se atualiza hoje, com uma instituição que se espraia de Manguinhos, onde tudo começou, por todas as regiões brasileiras, com presença de institutos e escritórios em dez estados, e trabalhando toda a cadeia, do conhecimento até a produção.
O mais importante é a necessidade de o país ter uma ciência forte e instituições científicas e universitárias onde se possa gerar conhecimento para compreender a dinâmica da doença na relação com a sociedade e o ambiente e também apoiar o desenvolvimento de políticas públicas
CH: Quais lições podemos aprender com o combate às epidemias do passado na atual crise?
NTL: Muitos falam que a perspectiva histórica nos ajuda a entender melhor o presente e os desafios que temos. Por outro lado, é difícil tirar lições do passado. Dizem que é como tentar mirar o futuro com um retrovisor. Mas é possível falar de alguns aprendizados e legados.
O mais importante é a necessidade de o país ter uma ciência forte e instituições científicas e universitárias onde se possa gerar conhecimento para compreender a dinâmica da doença na relação com a sociedade e o ambiente e também apoiar o desenvolvimento de políticas públicas. O país precisa fortalecer sua base cientifica e tecnológica. Neste momento vemos, de uma maneira muito triste, que muitos insumos de saúde, como equipamento de produção individual (EPI) e respiradores, não estão acessíveis e isso independe do poder de compra, porque dependemos de importações de produtos que agora estão escassos. É importante ter um desenvolvimento industrial que permita ao país sua autonomia e impulsionar o desenvolvimento em outras áreas. Esses são os principais aprendizados: a importância de se investir em ciência e tecnologia e associá-las ao que chamamos de complexo econômico e industrial da saúde. O SUS requer inovação e tecnologia, requer uma base produtiva.
CH: A ciência tem ocupado um lugar central no combate à pandemia, no momento em que muitos movimentos anticientíficos buscam diminuir sua relevância. De que maneira a relação ciência e sociedade vai se estruturar após a atual situação?
NTL: Podemos ter esperança, mas não convicção absoluta de que o valor social da ciência venha a ser mais respeitado e fortalecido nesse processo. Cabe à ciência – nesse sentido amplo, em todas as áreas do conhecimento – dar as respostas e informar políticas públicas para proteger a sociedade. Essa é a aposta muito importante que nós temos, mas nada disso é dado. E aí entra a política com ‘P’ maiúsculo. Não podemos apenas fazer esse enunciado da importância da ciência e não trabalharmos cotidianamente para essa construção coletiva. Precisaremos de um pacto pela vida, como bem coloca a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência na Marcha Virtual pela Ciência.
CH: Você é autora do livro Louis Pasteur e Oswaldo Cruz: tradição e inovação em saúde. Por que se valoriza tanto a figura de Oswaldo Cruz, mas não se tem a mesma visão dos cientistas no Brasil contemporâneo?
NTL: São várias razões. Oswaldo Cruz se tornou um símbolo, assim como o castelo de Manguinhos simboliza a possibilidade de fazer pesquisa científica de alto nível num país de periferia e, sobretudo, uma ciência cujos resultados são mais visíveis à população. Talvez menos visível, mas quem sabe até mais importante, foi o fato de ele ter formado uma escola.
Ou seja: sua memória, seu trabalho foi sendo atualizado por gerações de pesquisadores, entre os quais me incluo. Assim essa matriz histórica é permanentemente atualizada e tem o Oswaldo Cruz como pioneiro e referência maior. Outro fator é que a ciência era feita de uma forma diferente.
Hoje em dia, cada vez mais, coletivos e grandes equipes são importantes, e, ainda que as lideranças continuem a pesar, essa figura individualizada do cientista já não existe da mesma forma. E um terceiro aspecto não menos importante é que a ciência no Brasil se democratizou, eram pouquíssimos cientistas no Brasil no início do século 20. Hoje temos muito mais pesquisadores e em todas as regiões do Brasil.
Temos também a ideia de ciência cidadã, com a participação ativa da população na construção do conhecimento científico. A base científica se ampliou, e é essa base que precisa ser preservada neste momento. A figura de Oswaldo Cruz permanece na medida em que essa ciência vai se reproduzindo. Se não, ele vai virar um símbolo de um passado longínquo, e isso nós não podemos admitir.
CH: E o hospital de campanha? Além de tratamento dos pacientes, auxiliará nas pesquisas em andamento?
NTL: Não estamos chamando nosso centro hospitalar de hospital de campanha porque ele terá uma permanência, como uma ampliação das ações do nosso Instituto Nacional de Infectologia, que já carecia de melhor estrutura para o atendimento de pacientes graves. O hospital é um dos que vão fazer parte desse grande estudo clínico Solidariedade, da Organização Mundial da Saúde (OMS), que está analisando medicamentos já conhecidos para avaliar sua eficácia e sua segurança quando administrados a pacientes da covid-19. Ele vai permitir também, como vai ser um complexo com um grande número de leitos, uma revisão de protocolos, um conhecimento mais amplo das características da doença em sua forma grave no Brasil. Será também um grande laboratório de estudo do comportamento dessa doença nas pessoas com a manifestação mais grave.
CH: Por que a Fiocruz foi considerada referência para a covid-19 nas Américas pela OMS?
NTL: Esse é um reconhecimento ao Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo, que tem mais de 60 anos de atividade e a história marcada pela resposta à epidemia de meningite na década de 1970. Esse reconhecimento da OMS significa que o diagnóstico do vírus, e também o estudo de suas mutações – e aí o Brasil é um grande laboratório –, será feito em todas as Américas tendo como referência o nosso laboratório.
CH: Um dos compromissos de seu programa de gestão é defender o direito à saúde universal e o SUS. Como o sistema está enfrentando a covid-19?
NTL: A pandemia, pela velocidade de transmissão e pelos casos graves que requererem longos períodos internação e atenção especializada de alto custo, é um problema para todos os sistemas do mundo, até mesmo no inglês, que é robusto. Por outro lado, vemos os Estados Unidos, uma nação rica, mas que enfrenta com dificuldade a pandemia por não ter um sistema público. Então é importante acentuar que o SUS, neste momento, é uma fortaleza, mas também adoece, porque há outros problemas a serem enfrentados. Teríamos problemas em qualquer situação como o mundo todo, mas soma-se a isso um subfinanciamento histórico. O legado dessa pandemia é que esse sistema precisa ser fortalecido. E a estratégia da saúde da família e da atenção básica, que cresceu no início do século 21, também requer um olhar especial, porque tem proximidade nos territórios. Outro ponto no enfrentamento da pandemia é a extrema desigualdade no Brasil, que implica condições de vida sem saneamento, sem água, o que torna as medidas de higienização muito difíceis de serem implementadas. O mesmo se diz em relação ao isolamento. Além das medidas de saúde e fortalecimento da assistência, tem que se trabalhar medidas de proteção social. As pessoas não podem, ao escapar da covid-19, morrerem de fome.
CH: Como é ser a primeira mulher presidente da Fiocruz em 120 anos e estar no centro do enfrentamento dessa crise só comparável à Gripe Espanhola?
NTL: Essa é uma crise planetária, que coloca em xeque o modelo civilizatório, expõe a vulnerabilidade do mundo todo. É um desafio impensável para a minha geração, que participou da construção do SUS, da retomada do processo democrático no país. Meu papel é coordenar esforços da potência que é a Fiocruz, a principal instituição de Ciência e Tecnologia em Saúde da América Latina, fazendo com que atue como um sistema de forma sinérgica. Lidamos com essa pandemia como uma grande crise sanitária e humanitária multidimensional, que requer conhecimento de todas as áreas da ciência. Salvar vidas, fortalecer o nosso SUS e ter uma agenda para um processo que vai se alongar, lutar por uma vacina e garantir o acesso de toda a população à vacina e a outros meios para proteger sua saúde, esses são os grandes desafios.
Como primeira mulher a presidir a Fiocruz, enfrento esse desafio com sentimento ambíguo. Tenho me esforçado para reforçar o nosso Comitê de Equidade e Gênero em torno de uma série de questões, mas destaco uma: mulheres são maioria entre nossos trabalhadores e pesquisadores, mas minoria nos cargos diretivos. Que a minha posição na presidência não sirva só como um exemplo, mas como um motor de reduzir essa iniquidade. E eu falo de um sentimento ambíguo porque, neste momento da pandemia, eu vejo várias colegas na linha de frente. Isso dá orgulho.
Por outro lado, essa pandemia revela uma sociedade muito desigual, e essa desigualdade também se expressa entre os trabalhadores da saúde. Temos visto adoecimento dos profissionais e incidindo de uma maneira muito intensa sobre a enfermagem, e, nesta categoria profissional, a maioria é de mulheres. Vemos também aumentar a violência contra as mulheres, num momento que era para estarmos defendendo, como parte do pacto pela vida, um pacto pela paz e por relações sociais de respeito a direitos humanos, dignidade e respeito às diferenças.
CH: As ciências sociais têm sido deixadas em segundo plano nos investimentos do atual governo. Como socióloga, qual a importância das ciências sociais nessa pandemia?
NTL: As ciências sociais são importantes em várias áreas, mas, falando especificamente das emergências sanitárias, são fundamentais para pensarmos a dinâmica da circulação de um vírus e seu impacto na sociedade. Além disso, as ciências sociais trabalham com a percepção sobre risco, com as políticas públicas. É impossível enfrentar uma pandemia sem esses recursos.
As ciências sociais é que vão permitir que entendamos, por exemplo, que medidas e que comunicação vão ser, de fato, eficientes numa sociedade tão desigual como a nossa. Como mostrou o sociólogo Norbert Elias em O processo civilizador, muitos hábitos que desenvolvemos têm a ver com diferenciação de classe, e esse trabalho foi uma referência importante para estudos sobre as epidemias.
Há uma dimensão social muito importante quando falamos que todos podem pegar a doença, mas, ao mesmo tempo, são proteções diferentes de acordo com relações sociais e de poder desiguais. Se ainda tivéssemos entre nós um historiador como Eric Hobsbawn, ele talvez dissesse que o século 21 está começando agora, porque a pandemia vai botar em xeque essa circulação de pessoas e de mercadorias do mundo dito globalizado. Vai evidenciar também as diferenças entre os países com mais e menos condições de proteção e que a proteção depende também de um forte arranjo de política pública do Estado e de uma forte solidariedade social. Tudo isso é sociologia.
CH: Cientistas ligados a Fiocruz de Manaus, entre outros, foram ameaçados por conta das pesquisas que conduzem. Como vê essa situação de coerção da pesquisa e busca de cerceamento do livre pensar por certos grupos sociais?
NTL: A ciência só pode existir com liberdade e ética, são dois princípios básicos. Não quer dizer que os cientistas podem fazer tudo o que querem, por isso, temos comitês de ética que se fortaleceram muito no Brasil. No caso específico que você cita, a minha posição é a que está na nota do nosso conselho deliberativo.
Criado em 2020-05-13 15:40:32
Marcos Helano Montenegro (*) (**) -
Em artigo anterior ficou demonstrado que no Distrito Federal as embalagens de vidro não podem ser consideradas recicláveis. Isso porque o custo de transporte dos cacos de vidro para as fábricas de vidro mais próximas daqui inviabiliza seu aproveitamento.
Assim, as embalagens de vidro descartadas no DF são tratadas como rejeito e encaminhadas para aterramento. Em Brasília, ao contrário das garrafas de vidro, tem sido viável a reciclagem tanto das garrafas de plástico quanto das embalagens de alumínio.
Instalar uma fábrica de vidro mais perto de Brasília é uma decisão de natureza privada própria da indústria de artefatos de vidro.
É claro que incentivos fiscais disponibilizados pelo GDF poderiam aumentar a atratividade da região para receber tal indústria.
Caberia, como em qualquer caso, cuidar para que tais incentivos não sejam regressivos, vindo a prejudicar aqueles que necessitam a proteção de políticas públicas financiadas por tributos.
Esses impostos são cobrados em porcentagens iguais dos contribuintes, não levando em conta a capacidade econômica daquele (consumidor) que suportará o ônus fiscal.
Isto o torna "regressivo", ou seja, os contribuintes com menores condições econômicas, os mais pobres, acabam pagando (proporcionalmente) maior parcela de tributos sobre suas rendas.
O ICMS, IPI, PIS e COFINS são exemplos de impostos regressivos (simultaneamente, são também classificados como indiretos).
Uma outra alternativa pode ser proibir no DF a comercialização de bebidas como cervejas, refrigerantes, águas minerais e adicionadas de sais em embalagens de vidro descartáveis, ou seja em embalagens não retornáveis.
Eventualmente, podem ficar de fora desta restrição as bebidas importadas.
Seria essa uma intervenção descabida na liberdade de produzir e comerciar? Acho que não. Mesmo com esta vedação, a indústria de bebidas continuaria a dispor da lata, da garrafa de plástico ou da garrafa de vidro retornável como opções de embalagem.
Em muitos países do mundo, em especial na União Europeia, esta discussão não se coloca. Lá, as embalagens são de responsabilidade das empresas também na fase pós-consumo.
Ou seja, o agente econômico que coloca um produto embalado no mercado é responsável pela gestão da embalagem descartada (em última instância, pelos custos desta gestão) e deve garantir sua reciclagem.
Nestas condições, diferentemente daqui, a decisão sobre que embalagem utilizar envolve também estes custos.
Digo diferentemente daqui porque, apesar de a Lei 12.305, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), prever a logística reversa para embalagens, nada foi implementado até agora pelo Governo Federal no que diz respeito a embalagens de vidro.
Assim, os engarrafadores de bebidas não assumem nenhuma responsabilidade se o nosso aterro sanitário tem sua vida útil diminuída pela incrível quantidade de garrafas de vidro descartadas que são simplesmente aterradas.
Observo ainda que os restaurantes, cafés e hotéis que se caracterizam como grandes geradores que passaram a arcar, em razão de legislação recente, com os custos da coleta, transporte e destinação dos seus resíduos sólidos não recicláveis, poderiam pagar menos por esses serviços se nesses resíduos não estivessem incluídas as garrafas de vidro descartáveis.
Concluo, sugerindo ampliar o debate sobre a conveniência e o interesse público de vedar a comercialização no DF de bebidas como cervejas, refrigerantes, águas minerais e adicionadas de sais em embalagens de vidro não retornáveis.
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(*) Marcos Helano Montenegro é engenheiro e presidente ABES DF.
(**) Este artigo é continuidade de outro publicado pelo mesmo autor neste site com o título: Os vidros podem ser reciclados? disponível em: https://www.brasiliarios.com/61-especiais/473-os-vidros-podem-ser-reciclados
Criado em 2017-01-25 18:43:29
Os primeiros manuscritos de 1863-1867, de O Capital, Livro I, de Karl Marx, fazem parte da obra-prima com o título Resultado do processo de produção imediato. Esse capítulo encerraria o volume I e serviria de ponte para o volume II. Nele são apresentados de maneira substancial pontos centrais da reflexão marxiana.
O volume, publicado pela Editora Boitempo, traz ainda, como apêndice, o Questionário para trabalhadores, mais conhecido como Enquete operária. Essa é a primeira tradução brasileira diretamente do original em alemão.
Segundo Ricardo Antunes e Murillo van der Laan, no texto de apresentação, “Marx refere-se à mercadoria de maneira bastante concreta, não somente como um pressuposto para a produção capitalista, mas como resultado de seu processo produtivo. [...] Por outro lado, analisa as formas diversas do fetichismo típicas da sociedade do capital, expressão da peculiar divisão social do trabalho mediada pelas coisas, mostrando os reflexos desse fetichismo nas interpretações dos economistas burgueses”.
Produzido numa fase decisiva do desenvolvimento intelectual de Marx, o Capítulo VI condensa alguns dos principais momentos da argumentação do autor em O Capital, que na versão final da obra, concebida como um “todo artístico”, se espraiam por várias seções. Por isso, oferece um ponto de vista privilegiado para temas como a operação concreta da mercadoria, presente sobretudo no Livro III, ou para a reflexão sobre a subsunção formal e a subsunção real do trabalho ao capital, ponto crucial da elaboração e do procedimento metodológico de Marx.
No apêndice Questionário para trabalhadores, ou Enquete operária, está a preocupação de Marx com o cotidiano da classe trabalhadora. Redigido para La Revue Socialiste e propagada entre os trabalhadores franceses, o questionário tinha como objetivo evidenciar, de maneira metódica, as contradições e os privilégios do capital e apresentar aos trabalhadores as possibilidades de resistência à exploração à qual eram submetidos.
A enquete serviu, ainda no século XIX, de modelo para outros questionários semelhantes na Europa. Ao longo do século XX foi inspiração para movimentos socialistas e pesquisadores em diferentes países e, no século XXI, continua a demonstrar sua vitalidade, no contexto dos processos de trabalhos uberizados e plataformizados.
Trecho
“Não é o trabalhador que utiliza os meios de produção, mas os meios de produção que utilizam o trabalhador. Não é o trabalho vivo que se realiza no trabalho objetivado como seu órgão objetivo, mas é o trabalho objetivado que é mantido e aumentado pela absorção do trabalho vivo, e assim se torna valor que se valoriza, capital, e funciona como tal. Os meios de produção só aparecem como absorvedores de um maior quantum possível de trabalho vivo. O trabalho vivo aparece apenas como meio de valorização dos valores existentes e, portanto, de sua capitalização”.
Sobre o autor
Filósofo alemão, Karl Marx é pai do socialismo científico, também conhecido como marxismo. Seus trabalhos influenciaram diversas áreas do saber humano, como a sociologia, a economia, a filosofia, a história, a crítica literária, o urbanismo e a psicologia.
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Ficha técnica:
Título: Capítulo VI (inédito): manuscritos de 1863-1867, O capital, Livro I
Título original: Sechstes Kapitel - Resultate des unmittelbaren Productionsprocesses/Questionnaire for Workers
Autor: Karl Marx
Tradução: Ronaldo Vielmi Fortes
Apresentação: Ricardo Antunes e Murillo van der Laan
Páginas: 176
Preço: R$ 53
www.boitempoeditorial.com.br
Criado em 2022-12-10 22:03:56
Criado em 2020-11-30 22:05:58
Alexandre Ribondi –
Acabo de assistir Bem-Vindo à Chechênia (Welcome to Chechnya), documentário de David France sobre a perseguição à comunidade LGBTQI na Federação Russa e, em especial, na Chechênia. Impossível não se atormentar com a violência exibida ao longo de 107 minutos.
Trata-se de uma política de estado: os homossexuais são caçados, torturados e eventualmente assassinados. Os que são poupados têm sorte amarga: são entregues à família que passa a ter a missão honrosa de matá-los. E matam. Há uma filmagem curta, pavorosa e dolorosa onde isso acontece.
Bem-Vindo à Chechênia é um filme feito às lágrimas (assista ao trailer aqui). Chega a ser insuportável. Maxim Lapunov, homem de 30 anos, que conseguiu escapar com a ajuda de ativistas LGBTQI russos, teve que fugir (para destino não revelado), na companhia do namorado, da mãe, da irmã e dos sobrinhos - um deles ainda no colo, porque estavam todos ameaçados de tortura e morte.
A mãe de Maxim, aliás, merece uma atenção especial. Com problema nas pernas, usa bengala para se locomover e ao descer do avião com dificuldade e ao pôr os pés no novo país, ouve alguém que lhe pergunta se ela precisa de ajuda. Ela responde, com um sorriso meigo, desses de mãe: “Não, obrigada. Eu sou uma heroína”.
O filme também fala de Balim Zakaev, o belo e triste cantor checheno que foi preso e torturado em 2016. Até hoje não se sabe dele e seu crime foi amar homens. Putin, o presidente da Rússia, sabe de tudo e, pelo seu silêncio e indiferença, deixa claro que está de acordo.
Muitos dos perseguidos conseguiram fugir com a ajuda de ativistas gays organizados na cidade de Moscou. De acordo com o filme, o Canadá recebeu 44 pessoas. Já a administração de Donald Trump recusou todos os pedidos de asilo.
O presidente da Chechênia, o barbudo Kadyrov, acredita que está limpando o seu país e que os homossexuais terão que prestar conta diante de Alá. Diz isso com ar de deboche e com incontrolável alegria. Por suas bravatas e lealdade canina a Putin, lembra, e muito, o atual presidente brasileiro - igualmente patético e fidelíssimo a Trump. E isso faz com que a gente lembre que não se pode fingir que não existe perseguição à comunidade LGBTQI no Brasil. A crueldade praticada aqui pode sair das periferias e do universo trans e chegar à classe média que erroneamente se sente segura. Foi assim durante a ditadura militar e o atual ocupante do Palácio do Planalto admira os torturadores de então.
Maxim Lapunov relata que o povo da Chechênia tem a tradição de ser simpático e generoso, mas que, com o início da perseguição aos homossexuais, descobriu que esse mesmo povo pode ser violento e perverso. Isso se presta também a explicar como o brasileiro, conhecido como “povo cordial”, elegeu um homem misógino, homofóbico, racista, perseguidor de indígenas e que vê o estupro com olhos condescendentes. É preciso ter cuidado: cada vizinho pode ser um monstro patriota.
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Ficha técnica:
Nome do documentário: Bem-vindo à Chechênia (Welcome to Chechnya)
Sinopse: Ativistas arriscam a vida para enfrentar o líder chechênio, Ramzán Kadírov, e sua campanha, apoiada pelo governo russo, para prender, torturar e matar pessoas LGBTs.
Em pleno século 21, a comunidade tenta fugir dos crimes de violência e homicídio.
Data de lançamento: 30 de junho de 2020 (EUA)
Diretor: David France
Elenco: Maxim Lapunov, Olga Baranova, David Isteev
Prêmios: Teddy Activist Award
Música composta por: Evgueni Galperine, Evgueni and Sacha Galperine, Sacha Galperine
Roteiro: David France, Tyler Walk
Duração: 1h47min
Atenção: O filme, que está sendo exibido pelo canal NOW/NET, contém cenas fortes de violência.
Criado em 2020-11-22 16:29:07
Marcos Bagno –
(O linguista Marcos Bagno dividiu suas reflexões sobre a precarização em quatro partes: do trabalho, da política, do planeta e da vida. Hoje publicamos as duas primeiras partes. Amanhã, as outras duas).
Das muitas palavras que poderiam descrever o neoliberalismo, eu escolhi uma que, me parece, recobre praticamente todos os aspectos da vida individual, social e planetária nestes tristes dias que correm: é a palavra precarização. Ela não faz parte, é claro, do léxico neoliberal, porque o neoliberalismo disfarça a precarização sob diversos eufemismos: flexibilização, reforma, inovação, empreendedorismo, modernização etc. Mas qualquer análise mínima do discurso em que essas palavras aparecem com sentido positivo revela o que realmente está por trás delas: a precarização.
Vamos começar pela precarização do trabalho.
O que muitos analistas têm demonstrado é que nós estamos vivendo, neste início de século 21, situações bastante semelhantes às do final do século 19, quando o capitalismo se apoderou definitivamente dos meios de produção e atingiu ritmos até então desconhecidos, graças à recente Revolução industrial, que permitiu a criação de máquinas, mecanismos e sistemas automatizados capazes de elevar os volumes de produção a índices inéditos.
Na Europa ocidental, a industrialização atraiu para as cidades milhões de pessoas que viviam até então na zona rural, fazendo surgir as vilas operárias e as periferias onde as trabalhadoras e os trabalhadores se apinhavam. As condições de vida dessas pessoas eram apavorantes. Não existia nada parecido com leis de regulamentação do trabalho. Crianças de 12 anos já eram recrutadas pelas fábricas, onde elas trabalhavam de dez a doze horas por dia. Os salários eram insuficientes para uma vida minimamente decente. As famílias operárias ocupavam imóveis insalubres, sem água corrente, sem condições mínimas de higiene, sem eletricidade, embora a eletricidade já existisse na indústria para movimentar as máquinas. A fome era tudo o que se podia obter com essa exploração desumana da mão de obra.
A vida das famílias operárias no final do século 19 era uma forma de escravidão: não era preciso praticar os castigos físicos, bastava deixar morrer de fome toda uma população que era facilmente substituível pelas novas gerações, aliás pelas novíssimas gerações, já que as crianças desde pequenas eram utilizadas na indústria. Não causa surpresa, portanto, que tenha sido precisamente nesse período que os movimentos revolucionários – socialistas, anarquistas e comunistas – tenham surgido.
O famoso Manifesto comunista assinado por Marx e Engels, foi escrito em 1848, ano de grandes agitações populares em toda a Europa contra a exploração desumana da mão de obra. A teoria marxista sobre as relações de trabalho, sobre a economia política do capitalismo, sobre a organização da sociedade dominada por uma classe burguesa industrial é fruto direto desse contexto marcado pela precarização absoluta das condições de vida da classe operária. E foram justamente as revoltas e revoluções que acabaram levando à constituição dos direitos trabalhistas, ao estabelecimento de limites para a exploração da mão de obra.
Pois nós vivemos hoje uma situação que os historiadores, cientistas políticos e economistas consideram muito semelhante à do final do século 19. A precarização do trabalho está na ordem do dia do projeto neoliberal. Nós tivemos um primeiro e grave desmonte das leis trabalhistas no Brasil depois do golpe que derrubou o governo da presidenta Dilma Rousseff em 2016, que teve como resultado nada menos do que uma redução pela metade das ações movidas por empregados contra empregadores. E o atual desgoverno ataca com força ainda maior o que restou dos direitos dos trabalhadores, além de ameaçar com uma “reforma” da Previdência que não quer reformar nada, mas destruir tudo.
A precarização do trabalho não ocorre somente no Brasil. Em alguns países a precarização vem recebendo o nome de uberização. A empresa Uber, que se vale da mão de obra abundante de motoristas não profissionais, se transformou no grande símbolo dessa precarização. A pessoa cumpre uma determinada tarefa, recebe por ela, pagando uma comissão absurda de 25%, e não tem nada, nada, nada em contrapartida como proteção de seu trabalho: não tem férias, não tem descanso remunerado, não tem 13º salário, não tem vale alimentação, não tem seguro saúde, não a tem a quem recorrer em sua defesa, não tem absolutamente nada. Se essa pessoa tiver algum problema de saúde e não puder trabalhar, ela também fica sem ganhar. A uberização é um fantasma que ronda todas as profissões. Nas faculdades particulares já existe o professor-Uber: não tem contrato de trabalho, não tem nenhuma cobertura social, ganha apenas por hora-aula. Durante os meses de férias, não ganha. É contratado no início do semestre e o contrato só vale até o final do semestre.
A precarização do trabalho atinge de forma trágica as populações dos países mais pobres. Dezenas de milhões de pessoas no mundo estão submetidas a condições de trabalho semelhantes à escravidão, inclusive no Brasil. Mesmo na Europa, os países menos desenvolvidos da União Europeia, como a Romênia, se tornaram grandes fornecedores de mão de obra barata para os países mais ricos. A precarização do trabalho vai de mãos dadas com a maior concentração de riquezas jamais ocorrida na história da humanidade: existe 1% de pessoas que detêm a mesma riqueza produzida pelos 99% restantes.
O homem mais rico do mundo, Jeff Bezos, dono da Amazon, tem uma riqueza pessoal estimada em 112 bilhões de dólares. Para se ter uma ideia do que isso significa, o PIB do Uruguai é de 84,6 bilhões, ou seja, Jeff Bezos tem mais dinheiro na conta bancária do que toda a atividade econômica de um país independente, ele tem uma vez e meia mais dinheiro que o Uruguai todo. No Brasil a situação é a mesma: 6 homens brancos detêm a mesma riqueza produzida por 100 milhões de trabalhadoras e trabalhadores.
O sociólogo alemão Sighard Neckel, da Universidade de Hamburgo, diz que essa situação deve ser qualificada como “neofeudalismo”, porque a riqueza do mundo está distribuída entre poucas pessoas que detêm seus feudos, junto com seus servos e suas servas. O capitalismo chegou a tal ponto que deixou de ser capitalismo e se tornou uma nova forma de feudalismo. O pequeno círculo de bilionários se perpetua por meio da herança e do casamento de interesse, exatamente como na era feudal.
A precarização do trabalho e o neofeudalismo também se refletem numa outra forma de precarização: a precarização da política.
A política deixou de ser a arte de governar para se tornar a arte de governar em favor dos interesses da grande finança internacional. O caso dos Estados Unidos, em que a presidência é ocupada por um megabilionário, Donald Trump, é a face mais visível disso. Mas existem outros casos menos espetaculares, mas nem por isso menos sintomáticos. É o caso do atual presidente da França, Emmanuel Macron, que se elegeu com o discurso enferrujado de “nem de direita, nem de esquerda”, mas que representa de fato os interesses do grande capital, que são sempre interesses de direita. Ele próprio atuou na grande finança e é um milionário.
Quando explodiu a grande crise econômica de 2008, causada exatamente pela espiral alucinada da grande finança internacional, muitos governos saíram em socorro dos grandes bancos, despejando bilhões de dólares e de euros para salvar o mundo financeiro, submetendo ao mesmo tempo as populações a uma política de austeridade que tem levado ao empobrecimento radical de milhões de pessoas em países, como os da Europa, que sempre foram conhecidos por sua qualidade de vida.
O modelo tradicional da democracia burguesa, da representatividade das diferentes forças políticas de um país, está desaparecendo gradualmente em favor de sistemas políticos superficialmente democráticos mas profundamente autoritários. Em diversos países da Europa, a extrema direita com inspirações fascistas está no comando: Rússia, Polônia, Hungria, Áustria, Itália. Nas recentes eleições para o Parlamento Europeu, os candidatos que representam essas forças políticas reacionárias, xenófobas, racistas obtiveram uma grande quantidade de votos. As populações se sentem justificadamente traídas pelos partidos tradicionais, que se entregaram à ideologia neofeudal da grande finança, e como forma de protesto aceitaram o canto de sereia da extrema direita.
No caso do Brasil, a precarização da política é óbvia, explícita, para não dizer obscena. Nós temos 52% de população não branca, mas o Congresso Nacional é ocupado em 75% por gente branca. As mulheres respondem por apenas 10,5% da Câmara dos Deputados. Temos também a assustadora bancada chamada BBB, do boi, da bala e da Bíblia, que representa os interesses dos grandes senhores feudais do agronegócio, daqueles que defendem a proliferação das armas de fogo e a redução da maioridade penal, e os que se valem da religião para roubar a população pobre e fazer campanha contra tudo o que foi conquistado nos últimos 200 anos em termos de direitos humanos e cidadania.
Mas a precarização da política no Brasil atingiu seu ápice nas eleições do ano passado, quando um defensor de tudo o que existe de pior na história da humanidade foi levado, por meio de uma indústria poderosa de notícias falsas e de manipulações, ao cargo de presidente da República. Junto com ele, foram eleitos homens e mulheres em nome de um partido que agrega criminosos confessos, corruptos de toda ordem, mas principalmente pessoas que sofrem de evidente déficit cognitivo, psicopatas e alucinados que se empenham ardentemente em favor da ignorância, da estupidez, da violência, do genocídio, do combate aos direitos fundamentais do ser humano.
E são pessoas assim que ocupam os ministérios, a começar pelo da Educação, nas mãos de uma criatura ridícula, perversa, burra, incompetente e obtusa. Se no resto do mundo a política está precarizada, no Brasil ela está ridicularizada, achincalhada, transformada no que pode haver de mais infame e imoral.
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(Amanhã será publicada a segunda parte deste artigo - Precarização - II)
Criado em 2019-06-26 03:38:38