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Érica Berenguer (*) –
Há 12 anos eu trabalho na Amazônia e há 10 pesquiso sobre os impactos do fogo na maior floresta tropical do mundo. Meu doutorado e meu pós-doutorado foram com isso e já vi a floresta queimando sob os meus pés mais vezes do que gostaria de lembrar. Me sinto então na obrigação de trazer alguns esclarecimentos enquanto cientista e enquanto brasileira, já que pra maioria das pessoas a realidade amazônica é tão distante:
Primeiro, e mais importante, é que incêndios na floresta amazônica não ocorrem de maneira natural – eles precisam de uma fonte de ignição antrópica ou, em outras palavras, que alguém taque o fogo. Ao contrário de outros ecossistemas, como o Cerrado, a Amazônia NÃO evoluiu com o fogo e esse NÃO faz parte de sua dinâmica. Isso significa que quando a Amazônia pega fogo, uma parte imensa de suas árvores morrem, porque elas não tem nenhum tipo de proteção ao fogo. Ao morrerem, essas árvores então se decompõem liberando para a atmosfera todo o carbono que elas armazenavam, contribuindo assim pras mudanças climáticas. O problema nisso é que a Amazônia armazena carbono pra caramba nas suas árvores, a floresta inteira estoca o equivalente a 100 anos de emissões de CO2 dos EUA, então queimar a floresta significa colocar muito CO2 de volta na atmosfera.
Os incêndios, que são necessariamente causados pelo homem, são de 2 tipos: aquele usado pra limpar o roçado e o usado pra desmatar uma área; o que estamos vendo é do segundo tipo. Para desmatar a floresta, primeiro corta-se ela, normalmente com o que é chamado de correntão – dois tratores interligados por uma imensa corrente, assim com os tratores andando, a corrente entre eles vai levando a floresta ao chão. A floresta derrubada fica um tempo no chão secando, geralmente meses a dentro da estação seca, pois só assim a vegetação perde umidade suficiente pra ser possível colocar fogo nela, fazendo toda aquela vegetação desaparecer, e sendo então possível de plantar capim. Os grandes incêndios que estamos vendo agora e que fizeram o céu de São Paulo escurecer representam então esse último passo na dinâmica do desmatamento – transformar em cinzas a floresta tombada.
Além da perda de carbono e de biodiversidade causadas pelo desmatamento em si, existe também uma perda mais invisível – aquela que ocorre nas florestas queimadas. O fogo do desmatamento pode escapar para áreas não desmatadas e caso esteja seco o suficiente, queimar também a floresta em pé. Uma floresta que então passa a estocar 40% a menos de carbono do que anteriormente ela armazenada e, de novo, carbono esse que foi perdido para a atmosfera. As florestas queimadas deixam de ser de um verde luxuriante, esbanjando vida e a cacofonia de sons dos mais diversos bichos se silencia – a floresta adquire tons de marrons e cinzas, com os únicos sons sendo aqueles de árvores caindo.

A estação seca na Amazônia sempre trouxe queimadas e há anos tento chamar a atenção pros incêndios florestais, como os de 2015, quando a floresta estava excepcionalmente seca devido ao El Niño. O que tem de diferente esse ano é a dimensão do problema. É o aumento do desmatamento aliado aos inúmeros focos de queimada e ao aumento das emissões de monóxido de carbono (o que mostra que a floresta está ardendo), o que culminou na chuva preta em São Paulo e no desvio de vôos de Rondônia pra Manaus, cidades situadas a meros mil quilômetros de distância. E o mais alarmante dessa história toda é que estamos no começo da estação seca. Em outubro, quando chegar ao auge do período seco no Pará, a tendência infelizmente é da situação ficar muito pior.
Em 2004 o Brasil chegou a 25.000 km2 de floresta desmatados no ano. De lá pra cá reduzimos essa taxa em 70%. É possível sim frearmos e combatermos o desmatamento, mas isso depende tanto da pressão da sociedade quanto da vontade política. Depende do governo assumir a responsabilidade pelas atuais taxas de desmatamento e parar com discursos que promovam a impunidade no campo. É preciso entender que sem a Amazônia não há chuva no resto do país, seriamente comprometendo nossa produção agrícola e nossa geração de energia. É preciso entender que a Amazônia não é um bando de árvore juntas, mas sim nosso maior bem.
É de uma dor indescritível ver a maior floresta tropical do mundo, meu objeto de estudo, e meu próprio país queimarem. O cheio de churrasco acompanhado do silêncio profundo numa floresta queimada não são imagens que vão sair da minha cabeça jamais. Foi um trauma. Mas na escala atual, não vai precisar ser pesquisador ou morador da região pra sentir a dor da perda da Amazônia. As cinzas do nosso país agora buscam a gente até na grande metrópole.
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(*) Este artigo foi publicado originalmente na página da autora no Facebook.
Criado em 2019-08-26 20:25:31
Imersão em ambientes lúdicos e escalas paradoxais inspiram instalação no Museu do Amanhã, no Rio (Praça Mauá, Centro), a partir de 29 de outubro. Imfusion é uma instalação tecnológica que propicia uma experiência capaz de despertar reflexões sobre a forma como interagimos com o micro e o macro, em diferentes contextos e ambientes.
Para participar da experiência é preciso realizar o agendamento, mesmo que o visitante já tenha adquirido o ingresso pelo www.ingressorapido.com.br/home para entrada no Museu. Dessa forma, a visitação à instalação está sujeita a disponibilidade dos horários em aberto no dia, respeitando os protocolos das autoridades sanitárias. O funcionamento é das 10h às 17h e a instalação poderá ser vista até 29/11.
O evento foi desenvolvido pela DeepLab Project, produzida pela Dellarte para o Rio este mês. Belo Horizonte recebe Imfusion em dezembro deste ano e São Paulo no primeiro trimestre de 2021
O desenvolvimento de novas tecnologias e as conquistas científicas têm impactado a forma como o ser humano se relaciona com a natureza. Ao mesmo tempo em que manipulamos formas diminutas – como vírus e bactérias – exploramos imensidões como a Lua ou Marte.
Do micro ao macro três cenários são explorados: da molécula à diversidade de uma floresta até a imensidão do universo. Em 12 minutos, os visitantes estarão imersos em formas coloridas e interagindo por meio de sensores com projeções plenas de efeitos especiais – gráficos e sonoros. A tecnologia empregada dispensa a necessidade do contato físico e a fantasia se faz por meio da aproximação.
Em uma sala escura, com 5,7 metros de largura, 4 metros de altura, e 10,4 metros de profundidade, câmeras e sensores captam a movimentação da pessoa que passa a interferir randomicamente nas exibições. Uma metáfora da interação do Homem com a natureza.
Apenas seis pessoas são admitidas por sessão, respeitando o distanciamento social. Uma cortina de tecido, com tratamento antibacteriano, e potentes equipamentos de filtragem do ar são parte dos cuidados.
“Os sensores de movimento permitem ao visitante participar da transformação do conteúdo projetado”, conta o idealizador da experiência Felipe Reif. “Queremos reforçar a percepção de que o individual tem reflexo no coletivo, transformando todo o ambiente em que vivemos”, completa. O conteúdo para Imfusion foi criado por mais de 10 pessoas entre Brasil, Chile e Estados Unidos.
Mesmo projetada antes da pandemia, a instalação já previa a interação sem necessidade de contato físico num trajeto de sentido único para os visitantes, impedindo o retorno ao início. “No atual contexto, essas características foram essenciais para a escolha do projeto produzido pela Dellarte e co-realizado pela BM Produções”, conta Steffen Dauelsberg, diretor executivo da empresa. “São medidas determinantes para o segmento de instalações interativas”, completa o diretor.
“A vinda da Imfusion para o Museu do Amanhã é parte de nossa estratégia de apresentar novidades aos nossos visitantes. Estamos sempre focados em expandir a narrativa da Exposição de Longa Duração do nosso museu, apresentando ao público, em diferentes formatos e conteúdos, reflexões sobre que Amanhãs queremos construir desde já”, afirma Eduardo Carvalho, editor artístico do IDG, instituição gestora do Museu do Amanhã. “Esta é a primeira atração temporária desde a reabertura do Museu, fechado até setembro devido à pandemia da Covid-19. Estamos sendo bem cuidadosos para que o visitante vivencie esta experiência com segurança e qualidade”, complementa Carvalho.

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Serviço:
Data: de 29 de outubro a 29 de novembro de 2020
Horário: de quinta a domingo, das 10h às 17h
Local: Museu do Amanhã, Praça Mauá, 1 - Centro. Rio de Janeiro
Entrada para o Museu: acesse: www.ingressorapido.com.br/home
Ingressos para o Museu: R$ 26 e R$ 13 (meia-entrada)
Importante: O agendamento da experiência deve ser feito na bilheteria do Museu.
Criado em 2020-10-27 21:46:40
Amigo do advogado Luiz Carlos Sigmaringa Seixas, falecido dia 25/12 e sepultado hoje em Brasília, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, impedido de comparecer aos funerais pela juíza de Curitiba, escreveu uma carta à família do ex-deputado federal.
Dirigindo-se a Marina, esposa de Sig, como era conhecido, Lula lamenta a morte do amigo e companheiro. "Tive a honra de tê-lo como advogado, mas tive, principalmente, o privilégio de ter o Sig como amigo leal e generoso, convivendo familiarmente com você, Marina, e com nossa querida Marisa. Estes momentos são as melhores lembranças que levarei dele", escreve Lula.
O jornalista José Carlos Sigmaringa, irmão de Luiz Carlos, também escreveu sobre ele (texto publicado em seguida ao da carta de Lula)
Eis a íntegra da carta de Lula:
"Minha querida Marina,
Foi com profunda tristeza que recebi a notícia da morte de meu grande amigo e seu companheiro de vida Luiz Carlos Sigmaringa Seixas. Nosso Sig teve a delicadeza de nos deixar no dia do Natal, uma data em que a sensibilidade das pessoas está voltada para o amor e para o bem, que foram a marca de sua passagem pela Terra.
É nessas qualidades do Sig que eu e seus incontáveis amigos e amigas estamos pensando neste momento de dor. Quantos defensores da Justiça e da Democracia conhecemos pessoalmente e ao longo da história de nosso país… Mas quantos se dedicaram à causa com abnegação, desprendimento e coragem como ele?
Não consigo me recordar agora de alguém que tenha vivido por estas causas sem perder a ternura, sem abrir mão da alegria de viver, sem faltar com a generosidade e o carinho que o Sig sempre dedicou aos amigos e à humanidade em que sempre acreditou. E foi por este amor à vida e à humanidade que ele lutou até as últimas forças.
Não conheço quem tenha ouvido dele uma palavra de rancor contra os muitos que o atacaram pela coerência que herdou do pai, o Velho Sigmão, e transmitiu aos filhos queridos Guilherme e Luíza. Também desconheço algum momento em que tenha titubeado diante dos riscos e ameaças por advogar em defesa de presos políticos e militantes sindicais durante a ditadura.
Poucos hoje são capazes de avaliar os riscos que ele correu, junto com um punhado de colegas, para levantar os documentos oficiais da Justiça Militar que comprovaram a prática de torturas no Brasil. Foram cinco anos de trabalho quase clandestino que resultaram no livro “Tortura: Nunca Mais”, com provas irrefutáveis contra 444 torturadores. Este livro mudou a historiografia do Brasil.
Eleito deputado constituinte, esteve no PMDB, no PSDB e no PT, sempre coerente com seus compromissos de vida e deixando amigos por onde passou. Como agente político e homem do direito, transitou entre os grandes e foi por eles respeitado e admirado. A cordialidade e o respeito à divergência foram os traços que o marcaram em ambientes onde a vaidade e a arrogância costumam vicejar.
Tive a honra de tê-lo como advogado, mas tive, principalmente, o privilégio de ter o Sig como amigo leal e generoso, convivendo familiarmente com você, Marina, e com nossa querida Marisa. Estes momentos são as melhores lembranças que levarei dele.
O que guardo dele é o exemplo singular da decência, ética, dignidade, independência e honestidade intelectual.
Prova disso é que o convidei duas vezes para a nossa Suprema Corte e ele recusou, com o argumento de que não se sentia preparado para a função, praticando um desprendimento raro, mas não surpreendente vindo dele.
Agora ele entra definitivamente no coração dos que o amavam e o admiravam, onde viverá eternamente.
Receba todo o meu carinho nesse momento de dor e transmita este sentimento, por favor, à família e aos muitos amigos e admiradores do Sig.
A vida segue, companheiro Sigmaringa, com a certeza de que o seu sonho de um Brasil de paz, fraternidade e justiça social ainda se transformará em realidade, por obra do nosso povo maravilhoso e de pessoas especiais como você.
Saudades para sempre e um abraço carinhoso do amigo
Curitiba, 26 de dezembro de 2018.
Luiz Inácio Lula da Silva”.
Texto de José Carlos Sigmaringa Seixas:
O jornalista José Carlos Sigmaringa Seixas, também escreveu sobre o seu irmão, revelando o lado sua dedicação à vida de advogado, político e companheiro de lutas:
"Seu primeiro sonho foi ser jogador de futebol. Jogava bem, adorava jogar e jogou até quando a doença o contundiu. Mas a vida tinha outros planos para ele. Sig pai o batizou de Luiz Carlos em homenagem ao Cavaleiro da Esperança. Cedo entrou na militância política, seguindo o exemplo do pai e dos avós.
Tinha 19 anos quando houve o golpe militar de 64. Resistiu. Primeiro no movimento estudantil. Estava lá na passeata dos 100 mil. Terminou o curso na Faculdade de Direito de Niterói e veio para Brasília, onde sua família já estava morando. Desde o início da carreira se dedicou à defesa de presos políticos.
Não selecionava nem discriminava os clientes. Simpatizante do Partidão, defendeu a todos os perseguidos pela Ditadura Militar, independentemente do matiz ideológico ou posição política. Defendeu a todos. Sempre de graça.
Atuou intensamente na luta pela resistência democrática, participando dos movimentos pela anistia, organizando o Centro Brasil Democrático - Cebrad e pela representação política para Brasília. Prestava assistência jurídica a movimentos sociais, como os Incansáveis Moradores da Ceilândia e a sindicatos.
A luta pela redemocratização do país o levou a se tornar deputado já na primeira eleição em que o DF elegeu parlamentares. Sua atuação no Congresso foi reconhecida pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar - DIAP, como deputado nota 10. Constituinte, foi membro da Comissão de Sistematização da Constituição Cidadã.
Foi reeleito duas vezes. Atuava sempre na retaguarda, dedicando-se à superação das divergências para alcançar o entendimento, sempre se mantendo discreto. Gostava de ajudar a todos.
Passou pelo antigo MDB, depois PSDB e por último PT. Era íntimo dos donos do poder, mas nunca usou essa proximidade em benefício próprio. Em tempos de delações, corrupções, prisões justas e injustas, ele não foi sequer citado em inquéritos e investigações.
Morreu de complicaçōes decorrentes de um transplante de medula óssea para curar a mielodisplasia, uma pré-leucemia. Dizem que a angústia conta muito para o surgimento da doença. Acho que foi isso que o derrubou. Ele não conseguiu resistir às injustiças e traições que presenciou.
Vai, Sig, continue sendo gauche, doce, amigo e solidário! Por enquanto, estamos aqui. A luta continua, até que a morte nos reúna".
Criado em 2018-12-27 00:08:13
Felipe Areda –
Brasília - O filósofo Jack Halberstam afirma que “o banheiro é uma representação, uma paródia, da ordem doméstica fora da casa, no mundo exterior” (*). Os banheiros públicos tentam criar um espaço de privacidade em meio ao espaço público, criando uma frágil intimidade protegida para quem precisa defecar. A proteção das cabines de 1 x 1,50m² é certamente ilusória. Se garante uma certa privacidade visual, os barulhos e cheiros se espalham sem pudor. Não há nada de privado em uma privada pública.
Nesse sentido é precioso que o cenário de WC, a novíssima peça de Alexandre Ribondi, seja marcado pela presença de uma privada dourada no centro da frente do palco. Sem acento protetor paras as bundas ou cabine protetora para os pudores, a privada enfeitada pela cor da nobreza opera como uma excelente metáfora de um poder político que há muito tempo abandonou qualquer necessidade de mascaramento ou decoro. Em tempos em que o presidente do país se dedica a pensar sobre a rotina excretora da população brasileira, WC é uma peça necessária. Não só o “Rei está nu!”, como observa a criança sincera do icônico conto do dinamarquês Hans Christian Andersen, como está defecando de porta aberta enquanto faz uma transmissão ao vivo pelo perfil oficial da presidência.
WC é cenário e personagem da peça de Ribondi. Wagner Cardoso Neto é um jovem deputado interpretado por Fernando Oliveira. Filho do também deputado federal Wagner Cardoso Filho e do senador Wagner Cardoso, a figura é facilmente reconhecida como um dos inúmeros deputados herdeiros de um legado político familiar que tomam o espaço público como um playground e o congresso como um pátio de escola. A interpretação de Fernando Oliveira (“Virilhas”, 2017; “Você me Sente?”, 2019) aposta na manifestação de um poder amedrontado, oscilando entre a empáfia juvenil e o desespero suplicante, como um adolescente rico que usa todo o seu poder e privilégio para humilhar a empregada, morre de medo dos coleguinhas da rua e entra em pânico diante de qualquer bronca do pai.
Perdendo uma mochila repleta de dinheiro dentro do banheiro do Congresso Nacional, WC entra em desespero e vê no faxineiro Ubiratã o único suspeito ou salvador. A personagem, que poderia beirar a caricatura do menino rico mimado, consegue provocar alguma simpatia pela interpretação de Fernando. Revelando o profundo medo do pai, expõe a vulnerabilidade de um poder, que embora forjado desde a tenra idade, é artificial e desajeitado como um jovem desengonçado que o usa um terno grande emprestado em seu primeiro emprego na firma do pai.
Ubiratã recusa o nome “faxineiro” e se define como “agente sanitário da Câmara dos Deputados”, buscando encontrar algum reconhecimento ou prestígio em exercer um trabalho público que sabe ser alvo constante de humilhações. O desagrado com o nome “faxineiro” ganha sentido ao seu papel não ser o daquele que afasta com um feixe (ou vassoura) a sujeira da vista, mas aquele que se vê como um agente restaurador da sanitas, da limpeza e da saúde, especialmente a moral.

Brilhantemente interpretado por Marcelo Pelúcio (“Felizes para sempre”, 2015; “Um jantar com Hitchcock”, 2014), Ubiratã é um trabalhador pobre, com uma história marcada por humilhações, que encontra no confronto com WC o medo de ter a vida destruída ao descobrirem que ele escondeu a mochila do deputado, bem como vê naquele momento a chance de ser ouvido e visto como um igual. Aproveitando a oportunidade de dialogar pela primeira vez, após diversas tentativas de buscá-lo em seu gabinete, Ubiratã lembra que ele e WC vieram da mesma cidade e, mostrando que acompanha atentamente seu trabalho parlamentar, cobra do conterrâneo que melhor represente sua cidade natal.
Marcelo Pelúcio introduz em cada ato o medo e a incerteza de Ubiratã. Alegra-se de encontrar tanto dinheiro, mas não sabe o que fazer com ele. Toda vez em que enfrenta o deputado, sua coragem é imiscuída pelo medo de se ver em um caminho sem volta. Com uma incrível capacidade de atuar nos entremeios do texto, Pelúcio recheia cada ato de uma angustiosa briga entre vontades e contra vontades, envolvendo todo seu movimento de uma pujante tensão. O clima pesado é contrabalanceado por um corpo, nitidamente lapidado por sua experiência como clown, que manifesta uma insegura singeleza, atraindo simpatia e humor, fazendo de Ubiratã uma personagem que rapidamente reconhecemos e com quem nos identificamos.
Não é em vão a escolha de um nome de origem tupi, Ubiratã (übü’ra e á’tã, “tacape forte”) representa o próprio povo brasileiro e tudo aquilo que gostaríamos de falar cara a cara com os grandes políticos poderosos. Wagner, por outro lado, como diz a origem germânica do seu nome, embora pomposo como um vagão de trem europeu, nada mais é que um transportador.
Em seu confronto com Wagner Cardoso, um dos momentos mais emocionantes da peça é certamente quando Ubiratã diz que seu maior sonho é ter um endereço. Não se trata de ter um casa, pois ele já tem, mas da sua casa ser reconhecida com um lugar no mundo, fazendo com que ele tenha um comprovante de endereço que faça ele parar de sofrer tantas humilhações em repartições públicas. Em Brasília, cidade em que a população pobre é recorrentemente tratada como “invasora” pelo poder público, Ubiratã lembra que ele e WC vieram do mesmo lugar, ambos para trabalhar em Brasília no Congresso Nacional, mas que o deputado, diferentemente dele, nasceu em berço (ou privada) de ouro e não sabe o quanto faz falta ter um comprovante de residência com seu nome. Quem são invasores, afinal?
O banheiro do Congresso é, para Ubiratã, microcosmo de exercício do poder, espaço que entremeia o público e o privado. Cobrando que WC faça uma lei que proíba parlamentares de sujarem o banheiro em que trabalha, vê naquele que mija no chão ou não dá descarga a falta de decorro de quem anda pelo mundo esperando que a população pobre vá atrás dele limpando, inclusive literalmente, as suas cagadas. Quando [contém revelação de conteúdo] Ubiratã diz que se WC quiser seu dinheiro de volta terá que pegá-lo do vaso sanitário com a boca, seu ato não deve ser entendido só como revanchismo, mas como a necessária desvelação da indignidade do Poder político. Qual o limite de WC? Qual a humilhação que aquele que está acostumado a humilhar está disposto a passar? Até onde vai o decoro daquele que não tem decoro algum?
O espetáculo “WC”, com texto e direção de Alexandre Ribondi, está em cartaz na simpática Casa dos Quatro, até 01 de setembro de 2019. Cabe destacar que a peça foi aprovada com nota máxima pelo edital Áreas Culturais do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal, o qual foi cancelado para que seu orçamento seja desviado do fomento cultural. A peça foi realizada pela garra de quem, mesmo sem acesso a recursos, vê na arte umas das principais ferramentas de contestação do poder. Por isso, apoiem o teatro local.
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Ficha Técnica:
Texto e direção: Alexandre Ribondi
Elenco: Marcelo Pelucio e Fernando Oliveira
Produção: Luisa de Marillac
Produção Executiva: Rui Miranda
Assistência de direção: Josias Silva
Temporada em agosto aos sábados e domingos, sempre às 20h.
Classificação indicativa: 16 anos
Endereço: Teatro da Casa dos Quatro — SCLRN 708, BL F, Loja 42 — Asa Norte – Brasília.
Ingressos antecipados no Sympla.
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(*) Halberstam, J. - Techno-homo: on bathrooms, butches, and sex with furniture. In: TERRY, Jenifer & CALVERT, Melodie (Eds.). Processed Lives. Gender and Technology in the Everyday Life. London and New York: Routledge: 1997, p.185.
Este artigo foi publicado originalmente no site:
https://medium.com/o-ato-e-o-afeto/wc-a-indignidade-do-poder-d55ca2c3719
Criado em 2019-08-12 21:21:11
Estão abertas, até 18h do dia 10/11, as inscrições para a Mostra Competitiva Oficial e Mostra Brasília do 53º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
O Festival deste ano, que ocorrerá de 15 a 20/12, com exibição dos filmes pelo Canal Brasil (tevê e streaming Brasil Play), exibirá as 30 obras selecionadas, com investimento em prêmios no valor de R$ 400 mil. “Realizar esta edição em um ano de pandemia da Covid-19 é uma vitória para a cultura brasileira”, disse à Agência Brasília o secretário de Cultura e Economia Criativa do DF, Bartolomeu Rodrigues.
Para coordenar a escolha da comissão de seleção, do júri e das demais atividades pertinentes ao festival, o secretário Bartolomeu Rodrigues convidou o cineasta Sílvio Tendler, que já esteve no Festival de Brasília tanto como artista premiado quanto gestor. Em 1996, ele foi secretário de Cultura do DF. Sílvio Tendler (na foto, abaixo) pretende erguer, nas telas, um Brasil de “utopias e barbáries”.

O chamamento para as inscrições do FBCB foi publicado no Diário Oficial do Distrito Federal (DODF) de hoje, 26/10.
Confira aqui a íntegra do Edital
Clique para acessar os anexos:
Anexo I FBFC – CATEGORIAS DE PREMIAÇÃO - aqui
Anexo IV FBCB – CRITÉRIOS DE SELEÇÃO - aqui
A seleção
Serão selecionados seis filmes de longa-metragem e 12 curtas para a Mostra Competitiva Oficial. O filme deve ser brasileiro, preferencialmente inédito no Brasil e inédito no DF. Já para se inscrever na Mostra Brasília, que selecionará quatro longas e oito curtas, a produção deve ser brasiliense, realizada por produtores do DF e preferencialmente inédita na cidade. Em ambos os casos, os filmes devem ter sido concluídos a partir de 2019, e não podem ter sido selecionados em edições anteriores do FBCB.
A escolha dos filmes ficará a cargo das três comissões de seleção a serem instituídas pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa. A Mostra Competitiva terá cinco membros para avaliar longas e cinco membros distintos para julgar os curtas. Os filmes da Mostra Brasília, por sua vez, serão avaliados por comissão composta por três membros. O resultado provisório será publicado no site da Secec e no DODF, contra o qual caberá recurso no prazo de cinco dias após sua publicação.
Premiação
O edital vai aportar recurso total no valor de R$ 400 mil, como prêmio de participação aos filmes selecionados. O valor pago a cada obra selecionada, por categoria, será de: Para a Mostra Competitiva Oficial - R$ 30.000 para filmes de longa-metragem e de R$ 10.000 para filmes de curta-metragem. Para a Mostra Brasília - prêmios de R$ 15.000 para filmes de longa-metragem e R$ 5.000 para os de curta-metragem.
Informações e esclarecimentos podem ser solicitados pelo e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. ou pelo telefone da Coordenação de Audiovisual da SECEC, (61) 99213 2016, em horário comercial.
História
O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro é o mais antigo encontro dedicado ao cinema nacional do país, prestigiado por realizadores e críticos por oferecer espaço à apreciação, à reflexão e à participação do público e de profissionais do cinema. Tornou-se, ao longo dos anos, um símbolo de grande prestígio, não apenas por seu pioneirismo, mas também pela ousadia que pautou sua trajetória e seus premiados, antecipando ou reafirmando a consagração de filmes e autores.
Nasceu, em 1965, como Semana do Cinema Brasileiro, por iniciativa do historiador e crítico Paulo Emílio Sales Gomes, que estava à frente do primeiro curso superior de cinema, criado na Universidade de Brasília (UnB). Em 1967, tornou-se Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Apenas, nos anos de 1972 a 1974, o festival não foi realizado, no auge repressivo do regime militar, que impôs censura ao evento. Em 2007, o Festival recebeu o registro de Patrimônio lmaterial pelo Governo do Distrito Federal.
Quase cancelado - Quando decidiu cancelar o edital que escolheria a Organização da Sociedade Civil (OSC), em 30 de setembro de 2020, por conta de questionamentos sobre a capacidade da empresa selecionada, o secretário de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal, Bartolomeu Rodrigues, tinha que escolher: realizar ou não o 53º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Ouviu várias opiniões e bateu o martelo: “Sim, faremos esta edição”. E um dos principais incentivadores foi justamente o cineasta Silvio Tendler, um dos criadores do movimento de resistência cultural denominado Estado Geral da Cultura e da Arte.
“A Covid apenas veio para expor de maneira crua a realidade e forçar o debate. Num cenário desses, seria uma lástima deixar o Festival de Brasília de fora. Estamos definitivamente dentro”, comemora Bartolomeu.
Encontro virtual
Silvio Tendler divulgou hoje, pela internet, um convite aos cineastas, produtores, técnicos e entidades ligadas ao audiovisual brasileiro para participarem de um encontro virtual no dia 28/10, às 10h, em que serão debatidas pautas e ações para o próximo Festival de Brasília. O objetivo, segundo ele, “é contribuir para que o evento possa oferecer um amplo painel da situação atual do audiovisual em seus mais diversos aspectos, da preservação da memória até o futuro das novas, e urgentes, produções.”
Criado em 2020-10-26 21:46:36
O presidente da Comissão Especial da Câmara dos Deputados encarregada de votar o Projeto Escola sem Partido (PL 7180/14), deputado Marcos Rogério (DEM-RO), informou que caberá à próxima legislatura retomar o debate sobre o assunto começando do ponto zero. CNTE comemora o arquivamento do projeto.
Em debate na Câmara desde 2014, a proposta do deputado Erivelton Santana (PSC/BA), não obteve consenso para ser votada e foi arquivada. O relatório favorável ao projeto, do deputado Flavinho (PSC-SP), não sendo votado no fim da legislatura vai para o arquivo de acordo com o Regimento Interno da Casa.
Caberá aos deputados que tomam posse em 1º de fevereiro de 2019 retomar o assunto e discuti-lo em um novo colegiado, com novos presidente e relator.
Na reunião desta terça-feira (11/12), o presidente da comissão, deputado Marcos Rogério (DEM-RO), anunciou que não vai mais convocar reuniões, em razão da constante falta de quórum e da agenda apertada de fim de ano. Ele também disse que os novos deputados querem participar do debate. “Eu recebi o apelo de muitos parlamentares novos para participar dessa comissão. Eles não gostariam que nós votássemos agora. Eles pediram que esse tema ficasse para o próximo ano”, acrescentou.
O relator Flavinho achou positivo o fato de o assunto ter sido debatido. “O fato de a gente ter conseguido trazer luz para esse problema dentro das escolas brasileiras já fez com que pais, alunos e professores, que eram perseguidos, tivessem consciência dos seus direitos”, declarou. Segundo ele, o projeto visa combater “o avanço maldito da ideologia de gênero”.
Do lado da oposição, a deputada Erika Kokay (PT-DF) também avaliou como vitoriosa a atuação dos contrários ao projeto do Escola sem Partido. “Foi uma vitória da liberdade, foi uma vitória da honestidade, foi uma vitória da educação neste país”, disse. “A educação não pode ser engessada. Estudante não é coisa para apenas engolir conteúdo. Ele é uma pessoa e tem que ter na escola a liberdade de expressar essa humanidade.”
A atuação da oposição foi elogiada por Marcos Rogério, por ter feito uma discussão sistemática, com a presença de parlamentares, o que não ocorreu entre os favoráveis à matéria. “A maioria absoluta dos parlamentares que são favoráveis vinha votar e saía da comissão. Isso acabou gerando esse ambiente que não permitiu a votação”, analisou.
O parecer do deputado Flavinho lista seis deveres para os professores das instituições de ensino brasileiras, como a proibição de promover suas opiniões, concepções, preferências ideológicas, religiosas, morais, políticas e partidárias. Além disso, há a proibição, no ensino no Brasil, da “ideologia de gênero”, do termo “gênero” ou “orientação sexual”.
Na avaliação do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), “o projeto não serve para nada, apenas para criminalizar e perseguir educadores brasileiros”. Para ele, o Parlamento deveria se debruçar sobre problemas reais da educação, como o baixo salário dos professores.
A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) emitiu hoje (11/12) a seguinte nota pública:
“Parlamentares, educadores/as, estudantes e sociedade derrotam o projeto da Lei da Mordaça na Câmara dos Deputados: uma vitória da resistência!
O dia 11 de dezembro de 2018 entrará para a história como um dia da vitória da resistência do setor educacional brasileiro às tentativas de censura e mordaça na educação. Os parlamentares da oposição (e aqui não devemos deixar de lembrar das parlamentares, bravas mulheres que fizeram da Câmara o palco de um bom combate!), em total convergência com
os interesses dos/as educadores/as, estudantes e entidades educacionais, sindicais e científicas, derrotaram o projeto de retrocesso por eles denominado “Escola sem Partido”.
Depois de tentativas reiteradas ao longo desses últimos dois meses em aprovar a censura nas escolas, a Comissão Especial da Câmara, criada para discutir o projeto denominado indevidamente de Escola sem Partido, encerrou suas atividades nessa legislatura.
Vitória da resistência e da luta persistente que, ao longo dos últimos meses, transformou aquela Comissão no palco de um verdadeiro enfrentamento. Aquele espaço mobilizou todas as forças de segurança na tentativa de impedir a livre circulação do que outrora foi conhecida como a Casa do Povo. Barreiras do lado de fora interditaram o acesso à Câmara, feitas pela Polícia Militar do Distrito Federal. Do lado de dentro, a Polícia Legislativa impedia a circulação até de servidores da Casa. Tudo mobilizado para impor a mordaça à educação brasileira.
Eles não contaram, entretanto, com o esforço de mobilização dos/as estudantes e dos/as educadores/as brasileiros/as, que durante todo esse período não abriram mão de lutarem por seus direitos e se rebelarem contra as tentativas de impor a censura e a mordaça em nossas escolas e universidades. Agora, depois de encerradas as atividades da Comissão Especial, essa matéria só poderá voltar a ser discutida no ano que vem, na nova legislatura, quando essa comissão atual se desfaz e, por força do regimento da Casa, deve ser formada outra comissão especial para dar continuidade a essa proposição legislativa, assim que ela for desarquivada e reapresentada na Casa em 2019.
Não temos ilusão de que essa matéria morreu definitivamente. Temos a certeza que o preço da liberdade é a eterna vigilância, como já disse o pensador. Essa matéria voltará com força no próximo ano, mas também encontrará uma resistência à altura do bom combate que ela representa. Os/as educadores/as do setor público brasileiro, representados/as pela CNTE, saúdam o esforço persistente de mobilização permanente de todos/as os/as trabalhadores/as em educação e dos/as estudantes que, por sua luta, enterraram por ora esse projeto que ousava nos calar. Por uma escola sem mordaça! Por uma escola plural!
Brasília, 11 de dezembro de 2018
Direção Executiva da CNTE”.
Criado em 2018-12-11 20:04:50
José Carlos Peliano (*) –
Antes de começar a escrever pensei no título do texto e, de imediato, me veio a imagem do Brasil sendo destruído. Um país despedaçado. Triste conclusão, impensável anos atrás, desconfortável sentimento que, às vezes, nos dá ímpetos de reação para jogarmos tudo no ventilador ou fazer as malas e irmos daqui.
Respiro fundo, me sirvo com uma xícara de café e passo tudo a limpo enquanto bebo. De fato, um horror o que estamos vivendo nessa quadra de um vôlei absurdo, sem rede, sem marcação de campo, sem bola, apenas poucos jogadores vestidos de verde-amarelo, bradando frases bíblicas que não combinam com nada. A impressão que me fica é a de um bando de amalucados de repente com o poder constituído nas mãos. Daí fazem o que pensam, se é que pensam, ou se simplesmente repercutem entre si o nada com coisa nenhuma e transferem-nos para a nação atônita seguir ou cumprir.
Falo aqui da sensação de que vivemos uns dias descarrilhados. Eles continuam, cada vez pior, a ditar ordens e regras sem pé nem cabeça para a população, rebatem as opiniões contrárias com outros tantos absurdos, caçam cabeças e o pior, fica tudo por isso mesmo. Os outros dois poderes constituídos se aquietam, de vez em quando dizem uma coisa ou outra sem maiores repercussões e logo vem outro dia saindo dos trilhos.
Concordo com algumas análises feitas por gente do lado de cá, da turma dos surpreendidos, dos dias fora de rota, da vontade de sair correndo ou gritar feito loucos, rua afora, ou tentar dormir, se é que se consegue direito, para esquecer o hospício aberto pelo ajuntamento de gente que desgoverna o país.
O argumento central dessas análises é o de que a loucura reinante na república das bananas resulta das loucuras guardadas há anos na vida de cada um de nós. Uns loucos presentes, de pedra, outros loucos ausentes, não estão nem aí para nada, por fim os loucos sonhadores, os muitos de nós que sonham por um país melhor há tempos.
Os primeiros já vinham dizendo e fazendo coisas sem pé nem cabeça, mas que nós os julgávamos sem qualquer verniz político para avaliar a realidade e não dávamos a devida conta. Os segundos, as vestais do pedaço, viviam encerrados em si, sem dar atenção para quem passava ou sofria ao lado, para não se comprometerem ou não questionarem suas posições humanitárias e políticas mal elaboradas. Por fim, os ditos “quixotes”, aqueles, como eu e uma enxurrada de amigos e conhecidos entre tantos mais, que tinham ideias, de fato, para um país melhor, sem desigualdade, racismo, machismo, escravagismo, libertário, ecologicamente corretos, sustentavelmente progressistas.
A convivência desses tipos acabou por esbarrar entre todos eles na falta de diálogo, solidariedade, compreensão, ajuda mútua, civilidade. Bastou uma voz dissonante, diferente do usual, bradar palavras de desordem por todos os cantos, para servir de aglutinadora de raivas contidas, apreensões acumuladas, projetos desfeitos, ao fim um conjunto de sofrimentos e medos à flor da pele. Mesmo fora de qualquer ordem! Um estopim que espalhou uma explosão de insatisfações pelos quatro cantos do país.
Claro que o palco foi sendo armado para que esse desfecho perturbador acontecesse. Grupos políticos contrários ao governo, que contribuiu para a melhoria de vida dos mais pobres, começaram a se aproximar para derrubá-lo por uma farsa gigantesca que redundou no impedimento da então Presidência da República.
Daí em diante a bola de neve veio trazendo tudo morro abaixo e principalmente as garantias sociais constitucionais básicas. Nada mais aos mais pobres, tudo o mais aos mais ricos. Os direitos repassados à base da pirâmide social brasileira por meio do Bolsa Família, Previdência Social, FGTS, Farmácia Popular e tantos outros, vieram sendo apequenados um por um em benefício de liberar recursos orçamentários para os mais aquinhoados, via empréstimos de bancos públicos, financiamento da dívida pública, vantagens e benefícios fiscais e venda de patrimônios públicos.
Tudo isso comandado por um capitão que foi retirado precocemente do exército por mau comportamento interno, tendo inclusive imaginado por em prática explosões na rede de fornecimento de água do Estado do Rio de Janeiro. Virou político que por 20 anos de mandato somente apresentou 3 projetos de lei na Câmara.
Certamente não foi eleito pelo currículo, mas por amalgamar o rosário de lamentações de eleitores. Entre essas as dos mais furiosos, racistas, machistas, misantropos, segregacionistas. Outras, as dos “sem pai, nem mãe”, tipo nossas vidas vão mal porque o governo não faz nada, mesmo que não tivessem uma causa específica para reclamar. Ainda outras, as dos contras ao governo popular do PT, especialmente contra a figura de Lula, odiado pelos que nunca o admitiram presidente. Por fim, as dos grupos deslocados no tempo e no espaço que, ao não terem convivido de perto com a ditadura, pediam sempre a volta dos militares ao poder para porem “ordem na casa”. A grande mídia comandou todos esses por muitos noticiários desvirtuados e encomendados.
Difícil desatar o nó e tentar unir todas essas pontas. Enquanto o despedaçamento das conquistas do país ainda tem apoio em boa parte dos eleitores por acharem que tudo ainda está bem, mesmo que muitos não saibam sequer o que estão dizendo, a reação ao quadro caótico de coisas fica a desejar porque as instituições estão dominadas pelo mesmo ranço tresloucado, incluindo a ordem jurídica vacilante. Mas também porque o massacre político diuturno sobre o PT, nesses anos todos, desmobilizou boa parte de seus apoiadores e simpatizantes. Os que ainda restaram convictos de pé não somam o suficiente para enfrentar à altura o manicômio nem voltar a mobilizar os desgarrados, embora poucos grandes políticos da oposição ainda guerreiem cotidianamente.
O que sobra de todas essas pontas é a visão de um espantalho. Onde governo, os outros poderes e a sociedade convivem em separações políticas e visões de país desconectadas. Uma mistura de personalidades sem sonhos para a sociedade onde vivem. Doses e doses de neoliberalismo engolidas que tiram o equilíbrio, deturpam a visão e levam sempre a superar o próximo, seja ele qual for, para se obter qualquer tipo de vantagem ou manter o status quo. Um salve-se quem puder, cardápio predatório.
O que a maioria não se dá conta é que por debaixo dos panos, a produção nacional está se esfacelando também, os postos de trabalho, por isso mesmo, estão rareando, e os salários deixam de existir ou minguam. O desemprego aumenta. Daqui a pouco começam a chegar os estrangeiros com suas fábricas, trabalhadores qualificados e sistemas informatizados. O país deixará de ser dono de seu nariz, seremos comandados por outros. Viveremos num país colonizado.
Uma réstia de luz vem de uma velha conhecida que pode iluminar pouco agora, mas muito mais no futuro, ajudando a costurar aos poucos uma tessitura social, política e econômica forte, genuína, autêntica e libertária. A cooperativa de trabalho e de produção. Reconstruir de baixo uma nova estrutura social e econômica, mesmo que pequena, incipiente, para ajudar a preparar para o futuro uma nova economia com líderes políticos representativos vindos direto do povo, não de grupos dominantes.
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(*) José Carlos Peliano é economista, poeta e escritor.
Criado em 2019-08-09 16:47:11
Luis Turiba (*) –
Mulheres são referencias em todos os segmentos das modernas sociedades. Algumas delas, por exemplo, pilotam Uber, táxis, caminhões, ônibus, aviões, trens e até foguetes que cruzam o espaço sideral.
Suzana Vargas, poeta gaúcha-carioca com 16 livros publicados e mestra em Teoria Literária formada pela UFRJ, pilota uma estação completa.
Refiro-me a Estação das Letras, fundada por ela em 1986, um mágico espaço de convivência literária no Rio de Janeiro, onde cursos, aulas, encontros, recitais, seminários, leituras, debates em torno de livros, saberes, fazeres, teorias e conhecimentos, tornou o lugar passagem obrigatória para escritores, poetas, professores, alunos e intelectuais da cidade do samba, do carnaval e do futebol. O livro, nesta estação, foi, é e será o passaporte para as mais extraordinárias viagens que as linguagens humanas podem nos proporcionar.
Suzana faz isso com tamanha naturalidade e amor às causas da literatura e da poesia, que até parece que tudo é muito fácil.
Conheço seu pique, gentileza e amabilidade, não é de hoje. No final do século passado, quando idealizou e coordenou, por mais de dez anos, o projeto Rodas de Leitura, no Centro Cultural Banco do Brasil – com participação de autores como Luis Fernando Verissimo, Jorge Amado, Gabriel García Márquez e Chico Buarque –, tive a oportunidade de participar de uma das rodas sobre Poesia Marginal com os poetas Chacal e Nicolas Bher, no CCBB, de Brasília. Foi uma experiência espetacular.
Além de administrar e fazer acontecer, Suzana é também uma poeta com uma ressoante voz feminina conforme esta resenha do jornal O Globo dos anos 80 sobre seu livro Sem recreio: “'Traz-nos agora uma dicção reveladora do feminino que a coloca de imediato ao lado de uma Adélia Prado, uma Olga Savary, uma Lélia Coelho Frota e uma Consuelo Cunha Campos, entre as vozes poéticas mais ponderáveis da nova poesia brasileira escrita por mulheres''.
Mas vamos a nossa microentrevista:
Em plena pandemia, a Estação das Letras, por intermédio do Instituto IEL, conseguiu fôlego, disciplina e disposição para celebrar seus 25 anos de serviços culturais e literários prestados à sociedade carioca. Foi uma programação intensa com workshops e outros eventos de criação literária. Foram mais de 20 horas de transmissões ao vivo. Como você conseguiu organizar tudo isso, quantos meses de planejamento? Quem foram seus aliados nessa parada? Como enfrentou e venceu esse desafio?
S.V. - Organizamos, na verdade, em pouco tempo. Quase não íamos festejar mas tive uma ideia. Queria, no nosso aniversário, dar um presente aos nossos alunos, à Comunidade da Estação das Letras, à Rede de Amigos e a todos em geral. Mas organização é planejamento, é equipe e sem aliados não iríamos adiante. Na festa contamos com a boa vontade de toda a equipe de professores , dos escritores que realizaram as mesas e com o apoio luxuoso da KDP. Mas, de fato, foi rápido, porém planejado milímetro a milímetro com muito amor e respeito aos nossos amigos.
Nos conhecemos há 40 anos, quando você era consultora e produtora de encontros e eventos literários e poéticos do CCBB. Nesta ocasião, você organizou um recital com três poetas da chamada geração marginal em Brasília. Ricardo Chacal, Nicolas Behr e este que te pergunta. E agora Suzana: o governo não quer mais saber de Poesia; o CCBB está sangrando. Como fazer cultura no País da rachadinha, das fake news e do ódio à natureza e ao meio ambiente?
S.V. - Pois é, Turiba, foram tempos luminosos, bonitos esses . Lembro que nessa época tínhamos o financiamento do CCBB para o projeto das Rodas. Muita, coisa mudou .
Fazer cultura no país é difícil nesse momento, é verdade. Mas ao longo desses 25 anos de trabalho a Estação das Letras (hoje IEL) trabalhou sem apoio de ninguém. Nunca tivemos (quer dizer, o espaço em si) financiamento de ninguém, de nenhuma entidade. A não ser o apoio de grandes escritores, professores universitários e da imprensa em geral.
Na verdade, já fazíamos e continuamos a fazer, desde sempre, economia criativa. Sempre apostei na leitura como sendo algo que não necessariamente precisa depender de verbas homéricas. Trabalho de modo eficiente com pouco, muito ou com dinheiro nenhum (que é o que acontece com o IEL). Continuamos com nossas oficinas e eventos - agora online e conseguimos ampliar nosso espectro, nosso público. Agora temos o país e até cursos internacionais. Para fazer cultura existe um ingrediente fundamental: vontade de fazer, tempo, paixão pelo que se faz. E entender profundamente do que você faz (ou estar apaixonada pelo que você faz, o que dá quase no mesmo.
A Estação das Letras é para você uma missão? E como você vem cumprindo com esta missão com tanta garra e sabedoria?
S.V. - A palavra missão está eivada de significados nem sempre edificantes, principalmente quando se refere à religião. Não existe isso de “missão". Existem oportunidades, uma vontade de fazer, uma espécie de fé naquilo que a gente faz. No meu caso, faz parte da minha fé na leitura, na poesia e na literatura. Acreditar que essas matérias são transformadoras da vida da gente para melhor. Acredito nisso desde sempre. Desde que quando menina comecei a ler meus primeiros poetas e autores com os quais me identifiquei. Naquele momento, a crença de que a palavra é revolucionária nunca me abandonou. Acho que venho cumprindo minha missão com decência, com honestidade. Não forço a barra de nada , nem de ninguém. Profissionalizamos o meio literário, tratamos autores, professores e alunos com dignidade, oferecendo-lhes o melhor da literatura. Ajudamos muitos neoescritores e profissionais do livro a se lançar no mercado, creio que ninguém pode se queixar. Todos foram e são tratados profissionalmente. Me orgulho disso.
Quando a pandemia deu as caras no Brasil, em março, como você se planejou para enfrentar a peste?
S.V. - Não planejei nada. Já havíamos feito uma tentativa de cursos online, muito tênue. Quando a pandemia chegou, fiquei, como se diz, "com o pincel e a tinta na mão”, mas sem a escada. Pensei: agora acabou. Porque somos muito pobres, de verdade. Não podemos passar um mês sem funcionar. Temos muitas responsabilidades: espaço, funcionários, impostos. um universo. Mas depois surgiram as aulas remotas e tudo foi se organizando e até ampliando. Hoje estamos com todos os cursos funcionando a todo vapor e muitos eventos . E agora partimos para outras ações comunitárias como as Rodas de Leitura no Morro do Alemão. Enfim, a pandemia nos colocou de verdade no século XXI
Qual o poema indicado para acompanha-la neste papo?
Felicidade
Felicidade
melhor não conhecê-la
pra não arrancar seus cabelos,
não rasgar suas vestes bordadas de azul
Melhor não conhecer
para não acender
esses girassóis inquietos na memória
onde ela nos perturba e existe
com seus sinos
no treiler dos seus filmes coloridos
É uma flor inesperada,
vem sem agenda com hora marcada
e não se repete
como a um prato de comida,
rosa esquecida pelo acaso das coisas
E o principal:
melhor não pensar nela
para caber, enfim,
no seu vestido
________________
(*) Entrevista publicada originalmente na página do autor no Facebook
Criado em 2020-10-17 12:25:04
Geniberto Paiva Campos –
Faltam poucas semanas para o término do governo do presidente Temer, o qual pretendia construir uma “ponte para o futuro”, mas não deu início, sequer, às suas fundações. Não tinha sequer o projeto. E não disse a que veio, exatamente. Talvez fazer a rápida entrega do Brasil aos interesses estrangeiros. Fazer o país andar para trás E mais nada. Uma tarefa vergonhosa. E que está longe de ruborizar o presidente.
Em pouco mais de dois anos no exercício da presidência da República, Temer comprovou a sua completa nulidade. Difícil imaginar um mandatário mais incompetente e opaco. (Mas, como disse o tenor italiano ao receber as vaias da exigente plateia da ópera: - “aspeta il barítono!”)
Uma estranha, estranhíssima eleição direta, entregou o poder ao capitão Jair Messias Bolsonaro. Dono de uma retórica que “não combina com a realidade” e cujas decisões tampouco combinam com o seu segundo prenome. O futuro (ou já atual) presidente nada tem de messiânico. E demonstra que pretende conduzir, inexoravelmente, o Brasil à Idade Média. Quando a terra ainda não era redonda.
Está explicado porque o capitão não podia participar de debates eleitorais. Ordens médicas. De cirurgiões. E psiquiatras. E dos marqueteiros. A sua pauta, de tão retrógrada, iria causar espanto e repulsa eleitoral. E, na realidade, o Brasil adotou um novo sistema de fazer eleições. Onde campanhas, debates, apresentação e discussão de propostas, confronto de ideias, tornaram-se obsoletos. Coisas do passado.
Um novo sistema de escolha “política” (vá lá o termo) no qual deputados, senadores, governadores e o próprio presidente poderiam ser “fabricados”. Ilustres desconhecidos do seu eleitorado, mas com votações arrasadoras, surpreendentes. Mas inquestionáveis. Afinal, o voto apareceu lá, na urna eletrônica. Corretamente. Propiciando vitórias acachapantes. E, portanto, naturalizadas. Assim é a nova política. Que não causa a menor preocupação à justiça eleitoral, com pautas mais transcendentes. Ou isso não vem ao caso.
E passamos a contar com “governos de ocupação”. Estranhos dirigentes, caídos do céu, produto de um novo sistema de escolha eleitoral. Novas lideranças, com a nobre tarefa de empurrar o país para baixo e para trás. Um retrocesso medieval. Cidadãos que nunca tiveram participação na política eleitoral foram consagrados em pleitos majoritários: senado, governos estaduais. Um mistério.
E qual o currículo – profissional e político – do capitão, eleito para governar o país nos próximos quatro anos? Que tem como guru um filósofo de mente complicada, meio amalucado, errático em suas convicções, tal como o seu discípulo? Cercado de generais aposentados. Qual será o resultado dessa estranha mistura? O país vai pagar para ver.
E novamente, o Brasil assume a condição de “país satélite” americano. Nova recaída. Nos tornamos uma espécie de Porto Rico. Claro, mais informal na aparência. Mas uma nação ocupada. A ser “defendida” pelas forças do Tio Sam. Parece que aprendemos pouco com as lições do “movimento” de 1964.
E somos, novamente, uma nação “entre aspas”. Kennedy, Johnson, a 4ª Frota, o embaixador Gordon, (à época, nosso presidente de fato), Vernon Walters, marines americanos, mal disfarçados, ocupando o Nordeste, as Marchas da Família. Ah, 1964. Tudo convenientemente esquecido. Afinal, somos um povo de memória curta. E sempre em luta permanente contra o perigo vermelho. Um povo eternamente servil? Batendo continência para os patrões? Fazendo tudo que seu Mestre mandar?
Desde 2013 passamos a assimilar o conceito de Golpe Continuado. O processo de extinção definitiva dos “vermelhos”. Agora, suave no método, mas impiedoso nos seus retrógados objetivos. Onde nada acontece por acaso.
E retoma-se a questão: - como fazer oposição num país que caminha, com pressa e rapidez, em direção à Idade Média? Com dirigentes eleitos por um sistema eleitoral mágico? Eis a questão. E, afinal, o que teria acontecido na região Nordeste? Teriam esquecido de aplicar a magia eleitoral por lá? Houve uma “fraquejada”? Somente o tempo responderá essa desafiadora questão.
Após as eleições, abrem-se as cortinas e surge, enfim, o Brasil Novo. Consagrado pelo voto dos seus esperançosos, espertos eleitores. Mas que vez ou outra se distraem e decidem fazer escolhas demiúrgicas, entregando o poder aos salvadores da pátria: Jânio Quadros, Fernando Collor, Jair Messias Bolsonaro. A lista prosseguirá, “ad infinitum”. O país do futuro, à procura errática do seu futuro. Utilizando vassouras, balas de prata e “fake news”. Manipulações grosseiras, mas infalíveis.
A capacidade de resistência da democracia será mais uma vez desafiada. Trata-se de uma luta contra forças internas e externas, que têm a missão de fazer o Brasil retroceder à Idade Média. Eles surgem agora com outros nomes, outra retórica, outros gurus. Mas os objetivos são os mesmos: refazer o Brasil Colônia; recriar o regime de escravidão do qual nunca saímos completamente; alienar nossas riquezas e nosso patrimônio aos interesses estrangeiros; retornar, enfim, aos bons tempos da Guerra Fria. O Neoliberalismo é o novo nome do Nazi Fascismo e da tosca estupidez do século 21. E a chamada “Guerra Híbrida” a sua arma.
Faltou, no entanto, combinar com os verdadeiros patriotas remanescentes, que não perderam o “Fio da História”. Sabemos que esse tipo grosseiro de manipulação política tem vida curta. Com começo, meio e fim.
Infelizmente, seremos obrigados a pagar para ver. E vamos à luta. Com serenidade, humildade e confiança. E a certeza de que a democracia impõe uma luta permanente. Continuada. Sem tréguas.
Criado em 2018-12-03 20:08:23
Antônio Carlos Queiroz –
A duração e a estabilidade do governo dependem de sua capacidade de manter a base de apoio inicial e de agregar novos apoiadores, recrutados no exército dos isentões e nas hostes do inimigo. Quanto mais agregador, mais longevo o soberano. Quanto mais desagregador, mais breve.
Ratos são asquerosos, mas ninguém nega a inteligência desses roedores, comparada à do Ernesto Araújo, por exemplo. Mestres do óbvio, resiliência e sobrevivência, esses bichos só abandonam o navio quando percebem que o barco está fazendo água, e que seria uma estupidez afundar junto com o capitão. Os bons analistas da conjuntura devem relevar o nojo e prestar mais atenção aos sinais emitidos por essas irrequietas criaturas, “estuporadoras da ilusão”.
Ratos abandonarem o navio é uma coisa. O Frota abandonar o navio é outra coisa, mas muito maior!
Os pulos dos ratos do navio devem ser comemorados como saltos ornamentais. Quem deve entrar em parafuso é o capitão, não nós!
Criado em 2019-08-04 18:22:10
O filme 3 Refeições, da cineasta brasiliense Maria Maia, foi selecionado na Mostra competitiva de longas da 13ª edição do Los Angeles Brazilian Film Festival, que será realizado de 21 a 25/10.
“O documentário é o registro da ruptura de fronteiras sociais e econômicas de 36 milhões de miseráveis brasileiros. Gente que saiu da extrema pobreza e ascendeu a um inédito cotidiano de dignidade cidadã”, diz Maria Maia.
Guiado através das figuras de Antônio Conselheiro e Luiz Inácio Lula da Silva, o filme parte da "Caravana da Cidadania Contra a Fome - Viagem ao Brasil Real", realizada em 1993, quando o ex-presidente refez a viagem feita na infância, saindo de Garanhuns e chegando a São Paulo.
O longa foi filmado em Monte Santo e Canudos, mesma região que Euclides da Cunha visitou e descreveu em Os Sertões, e onde Glauber Rocha filmou Deus e o Diabo na Terra do Sol.
Com imagens históricas, o filme mostra Lula nos comícios com o povo e em conversas ao pé do ouvido, onde ele, segundo a diretora, escutava as demandas do sertão.
3 Refeições percorre ainda a década de políticas públicas contra a fome no país, a partir de 2003, entrevistando personalidades como João Pedro Stédile – do MST –, Patrus Ananias, Tereza Campello, Maria Laura, Tereza Cruvinel, Maria Coeli, Samuel Pinheiro Guimarães e Concita Maia. Mais informações sobre o filme clique aqui.
Sobre a diretora
Maria Maia é cineasta brasiliense nascida no Acre, graduada em Sociologia e Antropologia e mestre em Comunicação Social pela Universidade de Brasília (UnB), onde defendeu a dissertação “Escritura Fílmica: Dramaturgia do Enredo e Dramaturgia da Forma, sobre o processo de criação da linguagem cinematográfica.” Poeta e escritora, publicou poemas em antologias, jornais e revistas. É autora dos livros: “Desejante” (2018) e “Quase toda poesia” (2019). E do ensaio “Villa-Lobos pelo Mundo toca a Alma Brasileira”.
Como cineasta, realizou 63 filmes, entre curtas, médias e longas. Durante 20 anos trabalhou como roteirista e diretora de filmes na TV Senado, onde produziu títulos sobre personagens como Claude Lévi-Strauss, Candido Portinari, Glauber Rocha, Darcy Ribeiro, Chico Mendes entre outros.
Também produziu filmes independentes, como os curtas Inferno e paixão; Espelhos Abomináveis; Reservas Extrativistas na Amazônia; Deuses no Juruá (em codireção com Rogério Sganzerla); e os longas 3 Refeições e Sonia e Lygia. Este último sobre as irmãs multiartistas Sonia Lins e Lygia Clark, em processo de lançamento.
Ao longo de sua trajetória no cinema, teve filmes exibidos em mostras e festivais no Brasil, Londres, Paris, Capbreton (França), Milão, Buenos Aires e Atenas.
O Festival
Considerado o festival de cinema brasileiro de maior prestígio no exterior, o Los Angeles Brazilian Film Festival (LABRFF) foi fundado em 2008, tornando-se uma vitrine para as produções brasileiras em Hollywood.
O festival já exibiu mais de 800 títulos, premiou mais de 300 profissionais do cinema e contribuiu para a realização de longas metragens no Brasil em parceria com os Estados Unidos, além de ter colaborado para o licenciamento de diversos títulos brasileiros nos EUA.
Veja a programação completa no site do LABRFF 2020, https://labrff.com/ e faça sua inscrição para assistir a todos os filmes na plataforma https://filmocracy.com no período de 21 a 29 de outubro.
Mostra competitiva de longas-metragens
“Piedade”, de Claudio Assis
“Lima Barreto”, de Luiz Antonio Pilar
“A Queda”, Diego Rocha
“Detour”, de Arthur Lins
“A Batalha de Shangri-lá”, de Severino Neto e Rafael Carvalho
“3 Refeições”, de Maria Maia
“King Kong em Assuncion”, de Camilo Cavalcante
“Loop”, de Bruno Bini
“Acqua Movie”, de Lírio Ferreira
“Sea Whithin”, de Dainara Toffoli
“EAS - Anti Sequestro”, de Marcos Dartagnan
Criado em 2020-10-16 14:32:39
Um mês após o segundo turno das eleições, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva escreve carta ao Diretório Nacional do PT para agradecer a solidariedade e orientar o partido para os próximos anos.
Além de denunciar as fraudes eleitorais, a seletividade da justiça brasileira e os crimes cometidos na internet, Lula diz que o PT tem que "voltar às ruas, às fábricas, aos bairros e favelas, falar a linguagem do povo, nos reconectar com as bases, como disse o Mano Brown. Não podemos ter medo do futuro porque aprendemos que o impossível não existe".
Eis a íntegra da carta de Lula ao Diretório Nacional do PT:
"Companheiras e companheiros,
Do fundo do meu coração, agradeço por tudo o que fizeram neste processo eleitoral tão difícil que vivemos, absolutamente fora da normalidade democrática. Quero que levem meu abraço e minha gratidão a cada militante do nosso partido, pela generosidade e coragem diante da mais sórdida campanha que já se fez contra um partido político neste país.
Agradeço à companheira Gleisi Hoffmann e a toda a nossa direção nacional, por terem mantido o PT unido em tempos tão difíceis; por terem sustentado minha candidatura até as últimas consequências e por terem se engajado totalmente, com muita força, na candidatura do companheiro Fernando Haddad.
Agradeço ao companheiro Fernando Haddad por ter se entregado de corpo e alma à missão que lhe confiamos. Ele enfrentou com dignidade as mentiras, a violência e o preconceito. Saiu das eleições como um líder brasileiro reconhecido internacionalmente.
Agradeço à companheira Manuela D’Ávila e aos partidos que nos acompanharam com muita lealdade nessa jornada.
Saúdo os quatro governadores que elegemos, em especial a companheira Fátima Bezerra, e também os que não conseguiram a reeleição mas não desistiram da luta nem dos nossos ideais. Saúdo os senadores e deputados eleitos e todos os que, generosamente, se lançaram candidatos, fortalecendo a votação em nossa legenda.
A luta extraordinária de vocês nos levou a alcançar 47 milhões de votos no segundo turno. Apesar de toda perseguição, de todas as tramoias que fizeram contra nós, o PT continua sendo o maior e mais importante partido popular deste país. E isso nos coloca diante de imensas responsabilidades.
O povo brasileiro nos deu a missão de manter acesa a chama da esperança, o que significa a defesa da democracia, do patrimônio nacional, dos direitos dos trabalhadores e do povo que mais precisa. Tudo isso está ameaçado pelo futuro governo, que tem como objetivo aprofundar os retrocessos implantados por Michel Temer a partir do golpe que derrubou a companheira Dilma Rousseff em 2016.
Esta não foi uma eleição normal. O povo brasileiro foi proibido de votar em quem desejava, de acordo com todas as pesquisas. Fui condenado e preso, numa farsa judicial que escandalizou juristas do mundo inteiro, para me afastar do processo eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral rasgou a lei e desobedeceu uma determinação da ONU, reconhecida soberanamente em tratado internacional, para impedir minha candidatura às vésperas da eleição.
Nosso adversário criou uma indústria de mentiras no submundo da internet, orientada por agentes dos Estados Unidos e financiada por um caixa dois de dimensões desconhecidas, mas certamente gigantescas. É simplesmente vergonhoso para o país e para a Justiça Eleitoral que suas contas de campanha tenham sido aprovadas diante de tantas evidências de fraude e corrupção. É mais uma prova da seletividade de um sistema judicial que persegue o PT.
Se alguém tinha dúvidas sobre o engajamento político de Sergio Moro contra mim e contra nosso partido, ele as dissipou ao aceitar ser ministro da Justiça de um governo que ajudou a eleger com sua atuação parcial. Moro não se transformou no político que dizia não ser. Simplesmente saiu do armário em que escondia sua verdadeira natureza.
Eu não tenho dúvida de que a máquina do Ministério da Justiça vai aprofundar a perseguição ao PT e aos movimentos sociais, valendo-se dos métodos arbitrários e ilegais da Lava Jato. Até porque Jair Bolsonaro tem um único propósito em mente, que é continuar atacando o PT. Ele não desceu do palanque e não pretende descer. Temos de nos preparar para novos ataques, que já começaram, como vimos nas novas ações, operações e denúncias arranjadas que vieram neste primeiro mês depois das eleições.
Jair Bolsonaro se apresentou ao país como um candidato antissistema, mas na verdade ele é o pior representante desse sistema. Foi apoiado pelos banqueiros, pelos donos da fortuna; foi protegido pela Rede Globo e pela mídia, foi patrocinado pelos latifundiários, foi bancado pelo Departamento de Estado norte-americano e pelo governo Trump, foi apoiado pelo que há de mais atrasado no Congresso Nacional, foi favorecido pelo que há de mais reacionário no sistema judicial e no Ministério Público, foi o verdadeiro candidato do governo Temer.
Não teve coragem de participar de debates no segundo turno, de confrontar conosco suas ideias para a economia, o desenvolvimento, a geração de empregos, as políticas sociais, a política externa. E vai executar um programa ultraliberal, de entreguismo e privatização, que não foi apresentado aos eleitores e muito menos aprovado nas urnas.
Ele explorou o desespero das pessoas com a violência; a indignação com a corrupção e a decepção com os políticos. Mas não tem respostas concretas para nenhum desses desafios. Primeiro porque a proposta dele para segurança é armar as pessoas, o que só vai aumentar a violência. Segundo, porque Sergio Moro e a Lava Jato premiaram os corruptos e corruptores da Petrobrás. A maioria está solta ou em prisão domiciliar, gozando as fortunas que roubaram. E por fim, Bolsonaro é, de fato, o representante do sistema político tradicional, que controla a economia e as instituições no país.
As mesmas pessoas que elegeram Bolsonaro vão julgá-lo todos os dias, pelas promessas que não vai cumprir e pelo que vai acontecer em nosso país. Temos de estar preparados para continuar construindo, junto com o povo, as verdadeiras soluções para o Brasil, pois acredito que, por mais que queiram, não vão conseguir destruir nosso país.
O PT nasceu na oposição, para defender a democracia e os direitos do povo, em tempos ainda mais difíceis que os de hoje. É isso que temos de voltar a fazer agora, com o respaldo dos nossos 47 milhões de votos, com a responsabilidade de sermos o maior partido político do país.
E como diz a companheira Gleisi, não temos de pedir desculpas por sermos grandes, se foi o eleitor que assim decidiu. Queremos e devemos atuar em conjunto com todas as forças da esquerda, da centro-esquerda e do campo democrático, num exercício cotidiano de resistência.
Temos de voltar às ruas, às fábricas, aos bairros e favelas, falar a linguagem do povo, nos reconectar com as bases, como disse o Mano Brown. Não podemos ter medo do futuro porque aprendemos que o impossível não existe.
Até o dia do nosso reencontro, fiquem com um grande abraço do
Luiz Inácio Lula da Silva".
Criado em 2018-12-02 00:39:18
Milton Hatoum (*) –
O desgoverno é um caos calculado. Quase todos os dias é preciso plantar disparates, semear intrigas e gerar confusão. Essa lógica perversa é necessária para alimentar um incêndio sem fim, e fazer do fogo um prisioneiro da fogueira, como dizem os versos de João Cabral.
O antepenúltimo disparate do capitão reformado é a indicação de um ministro “terrivelmente evangélico” da AGU para uma vaga no STF. Ou seja, o fanatismo religioso como (anti)critério de excelência profissional. Resta saber como um magistrado “terrivelmente evangélico” daria um parecer jurídico num Estado laico. Ou seria o despacho de um juiz em estado de transe com o divino?
O penúltimo disparate do capitão foi a indicação do filho 03 para ocupar o posto de embaixador do Brasil em Washington. A filiação é o critério principal. A embaixada mais importante e a mais estratégica sob todos os ângulos pode ser dirigida por um neófito de extrema-direita. Neste caso, extremismo rima com nepotismo. Uma das qualidades do 03 é ter "fritado hambúrguer" no Colorado, como ele mesmo declarou.
Parece um pastelão filmado no submundo de uma republiqueta desta América. Mas não é um filme de quinta categoria. Não se trata de obra ficcional. Se essa indicação for aprovada pelo senado, poderá gerar graves consequências para o país. Além disso, seria um insulto ao Itamaraty e à esmagadora maioria de seu corpo diplomático. E um insulto também à memória de grandes intelectuais e escritores que trabalharam no Itamaraty e honraram a cultura brasileira: Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Antonio Houaiss, Vinicius de Moraes, entre outros. Sem falar dos romancistas, poetas e tradutores, na ativa e aposentados.
O caos, a desfaçatez, a provocação, as ameaças, a violência (não apenas verbal) e a arruaça são fundamentais para ofuscar o desgoverno e sua irrefreável sanha de destruição de algumas conquistas políticas, de bem-estar social e direitos humanos. Por isso, o incêndio não pode ser debelado.
No futuro, esse desgoverno será relegado à insignificância e à obscuridade. Quem interpreta e julga o passado não são legisladores divinos, e sim mulheres e homens no mundo terreno.
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(*) Milton Hatoum é escritor e postou esse texto em sua página no Facebook.
Criado em 2019-07-13 13:40:30
O convidado HackTudo 2020 é o artista recifense Jota Azevedo, que vai expor quadros que reproduzem rostos de personalidades, como Albert Einstein, Steve Jobs, Nicola Tesla e Alan Turing, além de esculturas. Tudo produzido com sucata tecnológica.
A exposição virtual O Poder da Inovação está em exibição de hoje (16) até 25 de outubro no site www.hacktudo.com.br
Para esta edição, Jota Azevedo criou peças inéditas para com resíduos eletrônicos de computadores, mouses, teclados, disquetes, fios, chips, dentre outros.
A Hack Expo é uma das principais atrações do evento, que chega à sua quarta edição em um formato totalmente online e gratuito. Na mostra virtual, o espectador poderá conhecer cerca de 20 obras utilizando recursos como zoom para ver detalhes das peças.
A programação do HackTudo oferece também oficinas, workshops, palestras, corrida de drones e hackathon para atender aos mais diversos públicos dos meios tecnológico, cultural e digital.
Estima-se que 55 milhões de toneladas de resíduos eletroeletrônicos são descartados por ano em todo o mundo. Por isso, o artista Jota Azevedo decidiu dedicar-se à reutilização de resíduos como matéria-prima para produzir arte.
“Desde criança, gostava de montar novos brinquedos com objetos trazidos do lixo do prédio onde meu pai trabalhava. Com o tempo, fui aprimorando minhas habilidades e comecei a produzir peças que foram reconhecidas como obras de arte. Logo, em seguida, apontaram meu trabalho como socioambiental, o que me fez ter uma visão mais ampliada para desenvolver a conscientização das pessoas em relação ao descarte de lixo”, conta Jota Azevedo.
A mostra terá um espaço chamado “Expo-Robô” onde as esculturas poderão ser visualizadas em 360º. A exposição completa poderá ser acompanhada pelo público por meio de um tour virtual, entre os dias 16 a 25 de outubro, no site oficial do evento: www.hacktudo.com.br/ .
Após o evento, as obras ficarão disponíveis no acervo do artista.
Hack Conference
De 19 a 24 de outubro, será realizada a Hack Conference – conferência online com especialistas, profissionais e amantes da cultura digital. No dia 22 de outubro, às 20h30, Matilde Freitas, Head de Tecnologia para LATAM do BNY Mellon, participará de um painel para falar sobre diversidade e tecnologia destacando o crescimento e as dificuldades das mulheres nesse mercado.
“Há uma participação maior das mulheres na área de TI visto que as empresas passaram a enxergar a diversidade de forma mais estratégica. Quanto mais heterogênea for a equipe, mais pontos de vista, habilidades diferentes e formas de raciocínio irão contribuir para a solução de problemas”, comenta Matilde.
O painel também conta com Tatiana Kubotani, Head of Tech Recruiting da XP Investimentos, e terá a mediação da Ester Borges, coordenadora do Minas Programas.
Criado em 2020-10-16 13:32:56
Em nota oficial, o Partido dos Trabalhadores (PT) denuncia um esquema de perseguição judicial iniciado na sexta-feira passada (23/11) pela 10a Vara Federal do Distrito Federal contra os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, além vários de seus ex-dirigentes.
O PT afirma que essas denúncias não se sustentam em fatos nem provas. É o resultado de um delírio acusatório do ex-procurador-geral Rodrigo Janot, sem qualquer base na lei. Esta ação, que não prosperou no STF, foi desdobrada para a primeira instância em decisão definitiva de 14 de novembro, e o juiz decidiu aceitá-la apenas pouco mais de uma semana.
Em sua nota, o PT afirma que "diferentemente do que afirma levianamente a acusação e do que foi aceito pelo juiz, o PT é um partido político constituído legalmente há 38 anos; o maior partido do país pela vontade dos eleitores, com uma trajetória de serviços prestados à democracia, ao Brasil e ao nosso povo. Um partido que, no governo, tirou 36 milhões de pessoas da miséria, acabou com a fome, criou 20 milhões de empregos, tornou o Brasil respeitado em todo o mundo e combateu a corrupção como nenhum outro governo".
Ao que tudo indica, o objetivo dessa nota investida judiciária bancada por setores do Ministério Público é cassar a legenda partidária envolvendo-a em inúmeros escândalos. O PT diz ainda em sua nota que "quem vem atuando como verdadeira organização fora da lei no país, já há alguns anos, são setores partidarizados do Ministério Público e do sistema judicial, que perseguem o PT e suas lideranças com acusações sem pé nem cabeça, com o objetivo de criminalizar o partido. Trabalham cotidianamente para excluir o PT da vida política brasileira, valendo-se de mentiras e do abuso de poder. Cometem, em conluio organizado e hierarquizado, um crime contra a democracia, contra o direito de livre organização política".
O partido acusa ainda a cumplicidade da Rede Globo e da grande mídia que "repetem contra o PT o que a ditadura fez contra os partidos de oposição. E parecem emulados pelo resultado eleitoral, colocando em prática o ódio ao PT pregado por Jair Bolsonaro".
Para sustentar sua tese, o PT informa que em apenas três semanas depois das eleições, Dilma Rousseff e o candidato Fernando Haddad foram tornados réus em ações "esdrúxulas e sem fundamento".
Para provar que são ataques judiciais contra o PT, a direção partidária disse que a "Procuradoria-Geral da República propôs o arquivamento de ação contra o atual ministro Moreira Franco, um dos cabeças do golpe do impeachment; o arquivamento de ações contra membros do MDB e do PSDB que estavam no Supremo, e recusa-se a apresentar denúncia contra Michel Temer; todos esses casos fartamente documentados, ao contrário do que ocorre nas ações contra o PT".
A Comissão Executiva Nacional do PT, conclui sua nota afirmando que "querem fazer na marra o que não conseguiram no voto, pois o PT saiu dessas eleições, mais uma vez, como a maior força política popular do país, apesar das mentiras e da perseguição. Não vão conseguir acabar com o PT, porque nossa força vem do povo, não de decisões judiciais nem de campanhas midiáticas. A arbitrariedade desses setores compromete a imagem do Brasil e, mais grave: solapa a democracia, o estado de direito, o princípio constitucional da presunção da inocência e as próprias bases do Judiciário, que tem a imparcialidade por princípio".
Parlamento britânico
Uma moção assinada por dez integrantes do parlamento britânico pede a liberdade do ex-presidente Lula, reforça sua condição de preso político, que foi arrancado do processo eleitoral para que Jair Bolsonaro pudesse vencer a disputa e também denuncia as políticas de extrema direita do presidente eleito, que ameaçam a democracia e os direitos das minorias no Brasil. Os signatários são Jonathan Edwards, Kelvin Hopkins, Clive Lewis, Ian Mearns, Grahame Morris, Lloyd Russell-Moyle, Liz Saville Roberts, Dennis Skinner, Christopher Stephens e Chris Williamson.
Leia a íntegra da Moção:
"Que esta Câmara está alarmada com a eleição do candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro como presidente do Brasil; observa seu apoio à ex-ditadura no Brasil e seus comentários de que deveria ter matado dezenas de milhares de pessoas a mais; observa ainda as suas declarações a favor da tortura e das execuções extrajudiciais por parte da polícia; manifesta sua profunda preocupação com as recentes declarações de um expurgo de rivais políticos em uma limpeza como nunca vista na história do Brasil; rejeita suas observações ameaçadoras contra as organizações da classe trabalhadora, as mulheres, a grande população negra do Brasil, os sem-teto, a comunidade LGBT e as organizações não-governamentais; observa que o ex-presidente Lula era o favorito para vencer a eleição presidencial até ser preso e impedido de participar de uma ação condenada pelo Comitê de Direitos Humanos da ONU; observa que o juiz Moro, que realizou a investigação sobre Lula, aceitou, desde a eleição, a indicação de Bolsonaro para ser ministro da Justiça do Brasil; pede a libertação de Lula; e expressa seu apoio aos brasileiros que defendem a democracia, os direitos humanos e o progresso social”.
Criado em 2018-11-25 23:09:03
Teresa Cruvinel (*) –
"Obrigado, querida, disso entendemos nós dois: sobreviver". Foi o que me disse Paulo Henrique Amorim (PHA) no dia 24/6, em resposta à minha mensagem expressando solidariedade. Ele acabava de ser afastado do Domingo Espetacular pela TV Record, por pressão do governo intolerante, autocrático e autoritário de Bolsonaro. Eu havia dito, na mensagem, que ele era um pilar da resistência e vítima do disfarçado e não comentado expurgo de jornalistas que vem acontecendo no país, afastando da mídia os combativos, os que não se vergam. "Eles passarão, nós passarinhos, ainda vamos gorjear", eu disse ainda a ele.
Paulo Henrique entendia mesmo de sobreviver. Eu, nem tanto. Combatendo com vigor na escuridão, seu coração não resistiu ao último golpe, o da Record. Não viveu para um dia gorjear , quando a luz finalmente voltar a iluminar o país com justiça, liberdade e democracia de verdade. Falando e escrevendo, no estilo cortante que lhe era próprio e único, combateu o engodo, a mentira, a tempestade do ódio, o obscurantismo e o servilismo que tomou conta de boa parte da imprensa. Escandindo as palavras quando falava, ou construindo frases como quem amola a faca, PHA estava o tempo todo na trincheira.
Já fui tirada abruptamente por ato de força, quando o governo Temer interveio na EBC, logo depois do golpe do impeachment. Eu já não era presidente, mas comentarista política e apresentadora na TV Brasil. O interventor Laerte Rímoli baniu imediatamente da rede pública uma penca de jornalistas. Além de mim, Luiz Nassif, Paulo Moreira Leite, Emir Sader, Sidney Resende e outros mais. Havíamos feito uma cobertura intensa e pluralista da guerra contra Dilma, mostrando as duas faces do processo em curso. De repente, ficamos sem chão e sem voz. Imagine o que foi para PHA o golpe da Record, ele que há 14 anos apresentava o Domingo Espetacular.
Depois da covardia da Record, que cedeu à pressão dos que pediam a cabeça de PHA, ele continuou resistindo e combatendo no site Conversa Afiada e na TV Afiada. Li seu comentário sobre o áudio divulgado por The Intercept, em que o procurador Dallagnol festeja a liminar do ministro Fux impedindo Lula de dar entrevista antes do segundo turno da eleição. "Hipócrita celebra a decisão de Fux que calou a imprensa", escreveu ele, chamando agora Dallagnol de Dallainho. Outro texto falava da liberação de R$ 2,4 bi em emendas, pelo governo, para juntar votos a favor da reforma da Previdência. Paulo Henrique deve tê-lo escrito de madrugada, antes do infarto. Seu último dardo flamejante.
Caiu um pilar da resistência. Paulo Henrique não sobreviveu fisicamente, mas viverá no exemplo que deixou: como jornalista: não se calou nunca, não se vergou, não se vendeu, não se rendeu, não lambeu botas para preservar posições. Vai, PHA, você fez muito, travou o bom combate e se foi com dignidade.
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(*) Teresa Cruvinel é jornalista, ex-presidente da EBC e escreveu esse texto em sua página no Facebook.
Criado em 2019-07-11 15:47:11
O Museu de Arte do Rio (MAR) vai começar a receber o público em visitas gratuitas para duas exposições inéditas: Casa Carioca e Aline Motta: memória, viagem e água. Os primeiros dias de visitas serão de 22 a 26 de setembro e as inscrições podem ser feitas no site do museu.
O MAR ainda está sem previsão de abertura total. Falta a recomposição dos recursos financeiros da Prefeitura, necessários para o pleno funcionamento do museu. Por enquanto, apenas quatro galerias vão funcionar e as visitas serão feitas com grupos de até 60 pessoas a cada duas horas (entre 10h e 12h; 14h e 16h e 16h e 18h).
Coletiva Casa Carioca – Com um recorte de cerca de 600 obras e mais de 100 artistas, a mostra apresenta temas como sociabilidade, o papel da mulher como esteio de família e direito à moradia. Trabalhos que retratam o período de isolamento social também fazem parte da montagem, assinada por Marcelo Campos, curador-chefe do MAR, e Joice Berth, arquiteta, urbanista e ativista do movimento feminista negro.
A exposição ocupará integralmente duas galerias do terceiro andar da instituição, além da Sala de Encontro localizada no térreo. Reunindo nomes como Érica Magalhães, Max Willà Morais, Maxwell Alexandre, Millena Lízia, Mulambö, Rafael BQueer, Raquel Nava, Rodrigo Torres, Wallace Pato, Yhuri Cruz e Yuri Firmeza.
Casa Carioca é a exposição do MAR com maior número de artistas jovens e periféricos. São trabalhos nos mais diversos suportes, como vídeos, objetos, instalações, fotografias e pinturas, que dialogam com temas como a diferença entre as moradias de favela e as moradias de elite - designadas aqui como exceções -, incêndios, mudanças, construções, demolições e celebrações.
Além de apresentar ao público a produção contemporânea de novos talentos da arte brasileira, a mostra também contará com trabalhos de artistas consagrados, como Adriana Varejão, Alfredo Volpi, André Rebouças, Beatriz Milhazes, Cícero Dias, Lasar Segall, Marcel Gautherot, Mestre Valentim e Walter Firmo. Além de obras da Coleção MAR, trabalhos emprestados por mais de 30 instituições e por colecionadores ajudam a formar o percurso expositivo, que começa com uma linha do tempo da arquitetura no Rio de Janeiro e segue por 10 núcleos que fazem uma abordagem transversal das questões relacionadas ao morar.
"Durante a fase de pesquisas, nos deparamos com um dado surpreendente. Apenas 15% das casas brasileiras são construídas por arquitetos, com a grande maioria se enquadrando no que os especialistas chamam de autoconstrução, quando o próprio morador comanda a obra com ajuda de parentes e vizinhos. Pensando nisso, buscamos artistas e trabalhos que tratam das condições dessas moradias e que exploram o interior das residências, relacionando-as com a questão social", conta o curador Marcelo Campos.
Das redes sociais para o museu
Entre os destaques da curadoria está a tirinha Os Santos - Uma tira de (humor) ódio. Muito conhecido nas redes sociais, o projeto da escritora Triscila Oliveira e do ilustrador Leandro Assis joga luz sobre assuntos como a desigualdade social, a falta de empatia e o racismo, entre outros temas, a partir de situações do cotidiano. Obras relacionadas à pandemia, como a de Max Willà Morais, na qual os artistas retratam o isolamento dentro de suas casas, também estarão no acervo.
Outro destaque é uma grande instalação com filtros de barro, do Estúdio Gru.A, que mostra a relação entre a água e a cidade. O trabalho cria um novo sub-ramal de distribuição de água do edifício do MAR, prolongando-o até a calçada da Praça Mauá, onde são instaladas três bicas públicas
Inicialmente, Casa Carioca estava prevista para inaugurar em maio deste ano como parte da programação do Congresso Mundial de Arquitetos. No entanto, por causa da pandemia da Covid-19, tanto a exposição quanto o congresso precisaram ser adiados. Por isso, em abril, o museu iniciou a campanha #CasaCariocaMAR que levou para as redes sociais conteúdos inéditos relacionados à mostra coletiva.
Mostra Aline Motta: memória, viagem e água é um mergulho na memória da família da artista, por meio de montagem que apresenta uma trilogia de videoinstalações de forma sequencial e dinâmica. Ocupando uma galeria do 1º andar do pavilhão de exposições, os três trabalhos - Pontes sobre abismos (2017), Se o mar tivesse varandas (2017) e Outros fundamentos (2019) - tomaram forma após a artista descobrir um segredo de família contado pela avó: sua bisavó era escrava e havia engravidado após ser abusada por seu dono. A partir da revelação, Aline iniciou uma busca por suas raízes em lugares distantes entre si, mas aproximados pelo Oceano Atlântico. Tudo isso é alinhado em uma obra repleta de água salgada, doce, transparente ou poluída.
"A confidência de minha avó, Doralice, foi o ponto de partida para iniciar a gravação da trilogia. Na busca por informações sobre o passado da minha família, em um trabalho que durou quatro anos para ser finalizado, realizei quatro viagens superintensas por Serra Leoa, Nigéria, Portugal e também pelo Brasil, onde foram coletadas imagens e documentos para compor as videoinstalações. Essas descobertas marcam o modo que encontrei para lidar com os fatos étnico-raciais na minha família, visando entender melhor seus efeitos no presente", afirma a artista.
Por meio de sua obra, Aline se aprofunda em histórias ligadas à escravidão negra e de como sua família - de um lado portuguesa, de outro africana e afro-brasileira - é atravessada por essas relações desiguais que definem as particularidades da sociedade brasileira. Com as videoinstalações, a artista aborda essas questões de maneira poética, propondo um mergulho em suas próprias vivências e memórias.
"A obra de Aline Motta adensa-se em cores, contrastes, sombras, buscando altas definições que não estão nas imagens, mas, antes, nas histórias para além da fotografia. Invocam-se as vozes, os corpos, os nomes e sobrenomes, ampliando os sentidos de muitas histórias de vida. A fotografia se reordena entre achados e perdidos; muitas vezes nos confundimos entre documentos de gaveta e o presente fotográfico coletado diretamente. Com isso, pontes são construídas a todo instante, entre Brasil e África, Rio de Janeiro, Bahia e Lagos, entre a artista e suas avós, seus parentes no Orun", escreve Marcelo Campos, curador chefe do MAR, no texto de apresentação da exposição.
Criado em 2020-09-19 03:29:18
O ex-ministro da Educação do governo Dilma Rousseff, de 2012 a 2014, Aloizio Mercante, escreve ao teólogo colombiano Ricardo Vélez Rodríguez, indicado para chefiar o MEC pelo presidente eleitor Jair Bolsonaro e defensor da "Escola sem Partido".
Rodriguez chegou a propor que as escolas deveriam festejar o golpe militar de 64. Mercadante diz que "o problema da educação brasileira não é reforçar o preconceito e estimular a discriminação aos diferentes, não está em tentar impor uma ideologia aos professores e estudantes, qualquer que ela seja, mas fortalecer a democracia nas escolas e uma cultura de aprendizagem, valorizando os professores e professoras".
Mercadante diz ao novo ministro que "o trabalho do MEC está em aprimorar as políticas de inclusão, de acesso, de permanência e, principalmente e acima de tudo, trabalhar incansavelmente pela melhoria de qualidade da educação brasileira".
Eis a íntegra da carta:
"Desempenhei muitas funções na vida pública, mas seguramente a mais nobre e gratificante, a mais complexa e desafiadora, foi a de ser ministro da Educação do Brasil. Quero expressar com humildade, mas com franqueza, minhas preocupações com o futuro da educação no governo Bolsonaro.
A escolha do teólogo colombiano Ricardo Vélez Rodríguez para ocupar o cargo de ministro da Educação causa imensa preocupação na comunidade acadêmica e educacional. Diferente de outros nomes de caráter técnico que vinham sendo ventilados e que foram vetados pela bancada evangélica e conservadora, Rodríguez, apesar de professor com erudição, títulos de mestrado e doutorado e intimidade com escolas militares, representa a opção ideológica religiosa e de ultradireita. Ele parece não possuir qualquer relação ou histórico de formulação, acompanhamento ou contribuição para o MEC, ou sobre a política educacional brasileira e seus imensos desafios.
A primeira grande preocupação é seu alinhado incondicional ao movimento “Escola Sem Partido”, que sob o falso dogma da verdade e da neutralidade desrespeita frontalmente a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), porque atenta contra o livre exercício do magistério, a liberdade de cátedra e tenta acabar com a pluralidade de ideias na aprendizagem. A escola deve, acima de tudo, ensinar as crianças e jovens a aprenderem a estudar e a pensarem. A censura seguramente não é o melhor caminho. Um movimento que estimula que alunos delatem professoras e professores, não pode ser o futuro da educação. Uma iniciativa que viola o princípio da autonomia didático-científico das universidades, assegurado pelo art. 205 da Constituição, não pode ter amparo legal. As aulas estão protegidas pelo direito autoral e as professoras e os professores não podem ser amordaçados.
Uma segunda grande preocupação é que o futuro ministro do governo Bolsonaro já deu mostras do modelo autoritário e obscurantista que pretende impor ao sistema educacional brasileiro. Simpático da monarquia, regime rechaçado pelo povo brasileiro no plebiscito de 1993, Rodríguez declarou que ““todas as escolas deveriam ter Conselhos de Ética que zelassem pela reta educação moral dos alunos”. E “reta educação” definida por quem? Toda orientação pedagógica do MEC tem sido marcada, historicamente no período democrático, pela pluralidade, diversidade e respeito às opões dos professores e professoras em sala de aula. Todas as iniciativas do MEC respeitam as redes municipais e estaduais e procuraram assegurar a mais ampla liberdade no processo de aprendizagem dos estudantes brasileiros. A escola deve ser um espaço de convivência, de respeito integral aos direitos humanos, que precisa valorizar uma cultura de paz e de respeito ao outro, aberto ao debate das ideias, procurando dialogar com as mais diversas correntes do pensamento. A convivência educacional deve ser inclusiva, plural, laica, republicana, respeitosa e democrática.
A terceira preocupação é que as declarações iniciais do futuro ministro rompem com um processo histórico iniciado desde a transição democrática de conceber a política educacional como uma política de Estado, na qual cada gestão procura aprimorar, corrigir, agregar, inovar, mas dando continuidade e consolidando os avanços dos períodos anteriores. Ele parece vir para dividir, ideologizar, atacar concepções teóricas, políticas e pedagógica, quando sinaliza que tentará impor de forma autoritária, como ocorreu no período da ditadura militar, uma visão conservadora e fundamentalista na educação.
Ao querer impor os livros didáticos que deverão ser utilizados por todas as escolas do país, como defende o “ Escola Sem Partido”, ou rever o debate histórico para que os estudantes celebrem a ditadura militar como sugerem alguns de seus pares, Rodríguez demonstra total desconhecimento sobre o sistema educacional brasileiro. A LDB garante a autonomia administrativa e pedagógica dos sistemas de ensino, dos estados e municípios, além da autonomia universitária. Assegura também a construção de projetos pedagógicos em que as escolas promovam o debate e a formação crítica de seus estudantes. Ou seja, as professoras e os professores escolhem entre uma série de livros didáticos recomendados pelo Ministério, por comissões formadas por professores e pesquisadores independentes, com base na pluralidade pedagógica, em sintonia com as bases curriculares elaboradas a partir de diretrizes estabelecidas pelo Conselho Nacional de Educação.
A imposição de um debate unicamente ideológico afasta o país do debate real em torno dos imensos desafios da educação.
A quarta preocupação é que o ministro deveria iniciar suas declarações afirmando que sua bússola será o Plano Nacional de Educação, aprovado como lei complementar por todos parlamentares do país em 2014. É um imenso desafio, mas as macrometas e estratégias são as diretrizes fundamentais de uma política de Estado para a educação brasileira, em todos os níveis. Conhecendo e se comprometendo com o PNE, o ministro deveria estar verdadeiramente preocupado com a meta 20, ou seja, com o financiamento público para a educação, da qual dependem quase todas as outras.
Seria importante uma manifestação contra a PEC 95, que impõem um teto declinante para os gastos públicos para os próximos vinte anos, ou ainda, contra o fim do piso constitucional que vinculava as receitas fiscais para a educação, ou pelo menos, contra o desmonte das vinculações dos royalties do petróleo e do fundo social do pre-sal para a educação. Esse posicionamento é indispensável para a aprovação do novo Fundeb, que distribui recursos para os estados e municípios e que terá que ser votado em 2019. Igualmente determinante para a manutenção do piso salarial dos professores, que muitos municípios e estados não cumprem.
O futuro ministro deveria se opor ao fim da política de cotas para as universidades púbicas, defendida por seu candidato a presidente, porque os estudantes das escolas públicas representam 87% das matrículas no ensino médio. O ministro deveria alertar seu presidente que defender o acesso diferenciado nas universidades públicas para as famílias de baixa renda, negros e indígenas é indispensável para superar o verdadeiro apartheid educacional que tivemos ao longo da história do Brasil. Na nossa perspectiva, o ministro deveria ter como absoluta prioridade a valorização e aprimoramento da formação inicial e continuada das professoras e dos professores e ter como eixo estruturante de todas as ações a melhoria da qualidade da educação brasileira, das creches à pós-graduação. Deveria estar estudando como aprimorar o processo de alfabetização e fortalecer o Pacto Nacional pela Alfabetização. Deveria se debruçar sobre os imensos desafios de melhorar o desempenho dos estudantes no Ideb, no Pisa e no Sinaes, um sistema avançado de avaliação de desempenho. Resgatar o Pronatec e fortalecer a educação técnica e profissionalizante. O ministro deveria estar defendendo o Enem, que foi a grande porta de oportunidades para o acesso dos estudantes da escola pública ao Fies, ao Prouni, às Cotas e às Universidades Públicas.
O problema da educação brasileira não é reforçar o preconceito e estimular a discriminação aos diferentes, não está em tentar impor uma ideologia aos professores e estudantes, qualquer que ela seja, mas fortalecer a democracia nas escolas e uma cultura de aprendizagem, valorizando os professores e professoras. O trabalho do MEC está em aprimorar as políticas de inclusão, de acesso, de permanência e, principalmente e acima de tudo, trabalhar incansavelmente pela melhoria de qualidade da educação brasileira.
Futuro ministro, uma humilde sugestão, ponha os pés no chão das salas de aula, conheça a realidade das escolas e suas dificuldades, converse e dialogue com os diretores e diretoras, com as professoras e professores, com todo tipo de estudantes, inclusive as pessoas LGBTS+, porque elas também estudam, muitas vezes sofrendo bulling e discriminações. Ministro esteja aberto e conheça o dia a dia da escola, porque com todas as limitações e desafios, todos podem aprender, inclusive os ministros, e falo por conhecimento próprio. E na educação, não seria melhor: “respeito acima de tudo e democracia acima de todos”?".
Criado em 2018-11-25 22:59:57
Benny Schvarsberg (*)
Saúdo a iniciativa da equipe técnica da área urbanística do Governo do Distrito Federal pela iniciativa e retomada do debate sobre moradia em área central da cidade. Em tempos obscuros de retrocessos nos direitos sociais no Brasil é uma iniciativa corajosa colocar na agenda do debate público um tema tão polêmico quanto sempre camuflado em dogmas e tabus.
Esse tema é parte fundamental do Direito à Cidade e da pauta preconizada pelo movimento da reforma urbana no Brasil que tem no Estatuto da Cidade e no princípio da função social da cidade e da propriedade seus marcos referenciais.
A propósito da polêmica levantada pela retomada do debate, retomo aqui uma reflexão propositiva apresentada em seminário promovido em fins de 2017 pela então Secretaria de Gestão do Território e Habitação (Segeth/GDF), com participação de representantes de amplos segmentos técnicos e sociais interessados nesse debate histórico para a cidade.
Há quem afirme que já existe moradia no centro de Brasília: pois há pessoas que moram de forma mais ou menos clandestina, ou “escondidinhas”, como diria o professor Frederico de Holanda, em imóveis destinados a lojas, escritórios, salas comerciais, em pousadas ilegais, etc. E, sobretudo, porque existem os setores hoteleiros que servem como moradia temporária ou esporádica para visitantes e mesmo moradores eventuais.
Recordo o episódio de um amigo que brigou com a mulher e foi provisoriamente para um hotelzinho no setor hoteleiro no fim de semana; ele ficou tão deprimido com aquele lugar que rapidinho voltou para casa.
O que ilustro com esse exemplo é o quanto é questionável falar-se de habitação no centro nesses tipos de moradias provisórias, precárias ou clandestinas. E que há um enorme risco de, ao abrir o debate sobre moradia no centro, incorrer ou resultar numa mera expansão de hotéis, apart-hotéis ou até hostels, a ser consumida vorazmente de forma “enobrecida” e socialmente excludente pelo mercado imobiliário. Não creio que esse padrão poderia caracterizar uma transformação que poderia ser qualificada de Revitalização do Centro da Cidade. Ao contrário, só iria aprofundar o padrão de vida social e urbana existente e que pouco contribui para dinamizar a urbanidade; nem para otimizar a infraestrutura e efetivamente democratizar o centro da cidade, ao mesmo tempo em que reforçasse a escala gregária que lhe é reconhecida nos documentos técnicos da preservação patrimonial.
A proposta de estratégia que sugiro como contribuição ao debate é na perspectiva de uma Política Urbana e Habitacional de Interesse Social e Específico no Centro Metropolitano da Cidade com uma utilização combinada de um conjunto de instrumentos de política urbana e habitacional para aplicação criteriosa em setores centrais do Plano Piloto, não só o SCS, como também o SCN, SAUS, SAUN, SBS, SBN, W3 sul e norte, e outros.
Lembro a título de exemplo de usos combinados já existentes legalmente, que no final da W3 Norte já existe há décadas um raro e pouco conhecido uso misto com atividades comerciais no térreo e moradia nos andares superiores que ajuda a democratizar o elitizado Plano Piloto. Sem que essa prática comprometa os princípios do tombamento e da preservação patrimonial da cidade. Os instrumentos aplicáveis, inicialmente possíveis de serem utilizados de forma complementar seriam seis:
Um programa urbano dessa natureza, simultaneamente habitacional e de intervenções arquitetônicas e paisagísticas de requalificação do Centro, possui um caráter democrático simbólico inovador na capital do país, atualizando seu papel histórico de vanguarda do pensamento urbanístico tão bem protagonizado por Lúcio Costa desde o concurso para o projeto do plano piloto de Brasília de 1957. Cabe lembrar que o inventor da cidade no texto de memorial do projeto descrevia usos predominantes, não exclusivos.
Claro que definições de aplicabilidade dessa cesta básica de instrumentos nas áreas centrais da cidade precisam ser feitas rigorosamente em conjunto com o planejamento da mobilidade urbana nestas áreas, com ênfase na mobilidade ativa (pedestres e ciclistas), com a previsão dessas possibilidades de destinação garantidas no Plano de Preservação do Centro Urbanístico de Brasília – PPCUB – (na perspectiva de usos residenciais não predominantes mas complementares às demais destinações previstas para as áreas centrais do polígono do tombamento) e na revisão do PDTU (Plano Diretor de Transportes Públicos) em andamento. Além de passar pela análise criteriosa do Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan) – afinal morar no centro ajuda a consolidar a escala gregária preconizada no projeto urbanístico da cidade - e do Conselho de Planejamento Territorial e Urbano (Conplan), de forma consequente com a Política Habitacional do DF que se encontra em exame na revisão do Plandhis (Plano de Habitação de Interesse Social do DF).
Seria interessante também nessa estratégia de política habitacional para o centro pensar um mix de “Modalidade Entidades” do Programa MCMV (Minha Casa Minha Vida), que produziu reconhecidamente pela literatura técnica as experiências de melhor qualidade de projeto de arquitetura e de implantação urbana. Bem como pela rica experiência de auto-gestão promovida pelo sistema de cooperativas no Uruguai. Ambas, “Modalidade Entidades no Brasil” e “Auto-gestão cooperativas no Uruguai” encorajaram projetos de arquitetura de qualidade superior que mereceram exposições e seminários de debates nacionais e internacionais.
Há inúmeros projetos elaborados na FAU/UnB e outras faculdades de arquitetura e urbanismo com propostas criativas de uso e ocupação misto com moradias para baixas e medias rendas nos setores centrais da cidade. O GDF, em parceria com estas instituições acadêmicas, o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) e Sindicato dos Arquitetos do DF (Sindarq), podem cooperar na organização de um banco de ideias e projetos para o centro que podem impulsionar concursos e oficinas de projetos arquitetônicos e urbanísticos.
Por fim, é imprescindível que o tema seja objeto de retomada de debates e audiências públicas em vista da revisão do Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT) e do Plandhis, bem como da longamente aguardada reapresentação ao debate público do PPCUB.
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(*) Benny Schvarsberg é Professor Titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB, colaborador do BR CIDADES - Núcleo DF Metropolitano.
Criado em 2019-06-29 15:42:27
Nilo Bairros -
O Museu do Senado está no ar com uma mostra virtual que conta a história desde a Independência do Brasil (1822) até a proclamação da República (1889). São 15 “galerias” virtuais, antecedidas por um amplo painel de apresentação. Com a ajuda de vídeos, obras de arte, fotografias, charges da época, documentos históricos, mapas e gráficos, a exposição reconstitui o Brasil do século 19, começando pelo processo que levou à queda da monarquia.
O curador da exposição, José Dantas Filho, professor de História e consultor do Senado, informa que “o material mostra como um regime político apoiado na monocultura do café e no poder dos grandes proprietários de terras se tornou obsoleto para atender às aspirações de uma população que se urbanizava e na qual novas elites pregavam maior autonomia em relação à Coroa portuguesa.”
A segunda parte da viagem virtual, mostra ao “visitante” que a República nasceu da incapacidade do Império para satisfazer demandas de novos segmentos sociais, que emergiram a partir da decadência da escravidão e do desenvolvimento dos serviços urbanos.
A exposição “foi produzida para rodar em qualquer tipo de computador ou celular”, destaca o coordenador do Museu do Senado, Alan Silva. “Buscamos o caminho da simplicidade, valorizando os conteúdos no lugar dos recursos visuais de ponta, para alcançar o máximo possível de visitantes, inclusive aqueles que não dispõem de internet rápida ou de equipamentos de alta performance. Nosso principal objetivo é levar a história ao cidadão”, concluiu.
Ao longo da narrativa, os visitantes encontrarão dicas de livros que podem ser baixados gratuitamente da Livraria do Senado, além de minuciosas referências para as fontes utilizadas na exposição – praticamente todas elas, disponíveis na Biblioteca e no Arquivo do Senado.
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Serviço:
Exposição virtual: Brasil: da Monarquia à República - que pode ser vista neste link aqui
Mais informações, acesse aqui
Criado em 2020-09-16 00:52:16