Bonus pages

  • Como Apoiar
  • Contato

Main Menu

  • Capa
  • Artigos
  • Política
  • Cultura
  • Cidades
  • Entrevistas
  • Colunas
  • Crônicas & Agudas
  • Vídeos
  • Como Apoiar
BRASILIÁRIOS.COM BRASILIÁRIOS.COM BRASILIÁRIOS.COM
  • Capa
  • Artigos
  • Política
  • Cultura
  • Cidades
  • Entrevistas
  • Colunas
  • Crônicas & Agudas
  • Vídeos
  • Como Apoiar
Pesquisar por:
Pesquisar somente:

Total: 1890 results found.

Página 62 de 95

Livro: O menino do Bandolim

Este livro seria uma história igual às demais sobre a infância e a juventude de um menino de cidade, contada ano a ano e revelando seus interesses, brincadeiras, modo de viver, amigos, colégio, e outras aventuras. Mas esta é a história do jovem bandolinista Ian Coury, 18 anos de idade, saído das notas musicais de seu pai e companheiros de rodas de choro.

Tudo começou quando, ainda criança, passou a ouvir as canções vindas do pandeiro do pai e dos instrumentos dos outros membros do grupo, reunidos quase sempre na casa da família nos finais de semana. Ian Coury se encantava com o ritmo, os sons de cada instrumento, as canções variadas, de olhos bem arregalados, ouvidos sintonizados, pés e mãos batucando o que sentia.

Seu interesse e alegria saltava aos olhos de todos os que o conheciam a ponto de querer começar a tocar um instrumento para poder participar não só da roda de choro com o pai, mas também de ensaiar sozinho as trilhas musicais que lhe pousavam na cabeça. E assim foi. Seu pai deu-lhe de presente um bandolim usado comovido pela satisfação que o menino demonstrava pela música. O presente abriu um novo horizonte para o menino repleto de sonhos e amanhãs compassados pelo interesse musical.

O namoro instrumental pelo bandolim começou a revelar um novo mundo de encanto, descobertas e surpresas. Nascia o menino do bandolim. Quantas e quantas vezes deixou de participar das brincadeiras com os amigos para ficar em casa viajando pelas cordas, notas e acordes do bandolim. Este passou a ser seu divertimento e amigo preferido. Dava-lhe conhecimento musical, interesse rítmico, passatempo harmonioso, pesquisa sonora e, mais que tudo, entretenimento pessoal.

Não deixou os amigos e colegas de colégio, guardava tempo para vê-los e estar com eles entre brincadeiras, jogos e papos. Mas aos poucos levou consigo o amigo bandolim para mostrar a eles seu desempenho musical. O contágio pegou a todos de surpresa a ponto de muitas vezes organizar pequenas rodas onde passava as canções do momento.

O tempo passou, o interesse musical aumentava mais e mais, seguindo o seu progressivo aperfeiçoamento ajudado por amigos do pai que sabiam tocar bandolim. As notas escolares não destoavam das notas musicais em ritmo, harmonia e sucesso. O menino do bandolim conseguia combinar os estudos do colégio com os estudos da Escola de Choro Raphael Rabelo - Clube do Choro de Brasília e Escola de Música de Brasília por onde passou para desenvolver seu dom inato.

Ian Coury é brasiliense, nasceu no dia 4 de fevereiro de 2002. Como reconhecimento pelo seu esforço, trabalho e domínio musical ganhou dos pais um bandolin. A partir daí sua caminhada no cenário musical de Brasília e região segue para alcançar de vez o circuito nacional.

Na plateia, já se encontraram pelo menos alguns grandes músicos nacionais que o conhecem. Com ele já tocaram e apoiam seu virtuosismo, Armandinho Macedo, que prefacia o livro, Nélson Faria, Hamilton de Hollanda, Fernando César e Toninho Horta.

O livro encontra-se em fase final de produção e estará brevemente em pré-venda no site da Editora Patuá, SP, com lançamento previsto para os primeiros quinze dias de dezembro deste ano.

Criado em 2020-11-21 00:03:55

Lançamento da Abed, economistas pelas democracia

Sob o lema “nem todos os economistas se rendem”, será lançada em Brasília, no próximo dia 7/5, terça-feira, às 10h, no salão nobre da Câmara dos Deputados, a Associação Brasileira dos Economistas pela Democracia (Abed).

A entidade sustenta que o “pensamento único” será superado, e que o papel da profissão “é pensar caminhos para garantir bem-estar, igualdade e projetos que resgatem país do atraso e dependência”.

Segundo o economista Paulo Kliass, “dia sim, outro também, os grandes meios de comunicação oferecem alguma manchete para seus leitores afirmando que “os economistas” pensam isso ou propõem aquilo. Nossos jornalões e as redes de televisão não se cansam de se apoiar na suposta narrativa técnica, neutra e isentona dessa entidade inatingível chamada de “os economistas” para oferecer suporte para medidas de política econômica de inspiração conservadora. Em geral, diga-se de passagem, trata-se de decisões a respeito das quais a maioria do povo nem imagina a natureza e muito menos as consequências”.

Segundos esses economistas pela democracia, “Paulo Guedes pode até ser economista de formação e de profissão. Ele foi até transformado no todo-poderoso comandante do Superministério da Economia. Mas é preciso que se diga que ele não foi autorizado por ninguém a se expressar em nome dos economistas. Que fale em nome de seus patrões do financismo. E os grandes meios de comunicação deveriam ter a obrigação de dar voz ao outro lado. Sim, pois há muito mais vozes dissonantes no campo dos economistas do que os espaços minguados que as editorias dos jornalões, às vezes, nos oferecem como se fossem uma esmola – um ato de caridade e misericórdia”.

Inspirado no exemplo dos juristas, dos jornalistas e outras categorias, os economistas pela democracia têm uma Carta de Princípios que chama atenção para aspectos essenciais:

1 - reafirmação do papel histórico dos economistas brasileiros no processo de desenvolvimento nacional;

2 - questionamento do processo de desenvolvimento desigual entre os países, aprofundado sob a égide da ideologia neoliberal nesse momento de marcada globalização financeira e intensa concentração de renda, riqueza e poder;

3 - combate às profundas desigualdades presentes no país, de matizes sociais e regionais, realimentadas diuturnamente tanto por um pensamento e um sistema econômico excludente;

4 - defesa da manutenção do espírito originário dos Constituintes de 1988 que, enfrentando nossa histórica desigualdade, construíram um robusto sistema de proteção social;

5 - luta incessante a favor da estabilidade das instituições democráticas nacionais;

6 - integração às lutas contra o fascismo e o neoliberalismo em âmbito nacional e internacional; entre tantos outros.

A organização

Segundo Adroaldo Quintela, coordenador de organização da Abed, a associação, desde 31 de março, funciona com seis coletivos regionais - Bahia, Distrito Federal, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Sergipe.

“Em meados de janeiro organizamos o primeiro Coletivo Internacional da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia – Abed - constituído por economistas que estudam ou trabalham nos Estados Unidos, Espanha, França e Portugal, com potencial de crescimento e articulação técnica e política além das nossas fronteiras”, diz Adroaldo.

Adroaldo disse ainda que a entidade já tem mais de 500 associados no Brasil e no exterior. “As adesões não param de crescer e são referenciadas pela adesão à Carta de Princípios. Existem colegas integrados ao Movimento em 22 unidades da federação brasileira. Recentemente foram instituídos os coletivos de Alagoas, Amazonas, Pará, Pernambuco e Paraná. Existem conversações com economistas do Ceará, Goiás, Maranhão, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul e de economistas radicados na Argentina, Chile, Roma e Uruguai. A perspectiva é possuirmos 17 Coletivos Regionais e 2 Coletivos Internacionais até 15/07/2019, além de iniciarmos o processo de interiorização da ABED, mediante a constituição de *coletivos municipais* nas maiores unidades da federação, em linha com a proposta de Estatutos da ABED cuja análise ocorrerá até meados de maio de 2019”, informa o coordenador.

Em virtude do avanço do processo de organização e da necessidade urgente de adotar um posicionamento coletivo com relação à Emenda Constitucional 06/2019, “que dispõe sobre a injusta e iníqua Reforma da Previdência do atual governo, a Comissão Nacional Provisória da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia antecipou o lançamento nacional da Abed o dia 7/5”.

A Abed deve realizar um Seminário Internacional de Política Econômica e o I Encontro Nacional da entidade na última semana de julho deste ano.

_____________

Serviço:

Associação Brasileira dos Economistas pela Democracia (Abed)

Terça-feira, 7/5, 10h, em Brasília

(no salão nobre da Câmara dos Deputados)

Entrada livre – para participar da entidade, escreva: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Criado em 2019-05-04 16:47:23

Resenha: Os Desacontecimentos de Turiba

Sylvia Cyntrão (*) –

“Se podes olhar vê, se poder ver, repara.” (Do Livro dos Conselhos). Essa é a epígrafe que abre a narrativa do livro Ensaio sobre a cegueira do escritor prêmio Nobel José Saramago. Se eu fosse sugerir uma epígrafe para a poesia de Luís Turiba, essa seria a perfeita. Porque Desacontecimentos [Editora 7 Letras] é isso: um olhar que se apropria, transmutando a realidade por meio da linguagem estetizada, em produto palpável também pelos outros pelos sentidos, mas sempre a partir da visão.

Luís Turiba não é de hoje (para privilégio de seus leitores). Não é de hoje que escreve, não é de hoje que atua, não é de hoje que brilha. Como não é de hoje que o conheço, fica fácil dizer que ele persegue naturalmente a poesia das coisas. E digo coisas de propósito, não porque não encontre palavra mais significativa, mas porque essa é a palavra mais importante no sentido fenomenológico da existência acontecida. Olhando para as coisas, Turiba, bem no caminho ensinado por outro mestre – nosso – Manoel de Barros... faz, no entanto, desacontecê-las.

Na sessão Desacontecimentos sentinelas, o poema “Atento” sublinha o processo de desconstrução, quando nos diz “tento me desentender da realidade/ que pula me atentando sem parar”. E é aí que se dá o momento da criação – quando a poesia também persegue o escritor e ele se põe a falar. Em meio à confissão “tento tento, tento tento/ e nada nada nada: fico atentado”, o turbilhão existencial enreda o tempo desse poeta-agente histórico e nos faz uma vez mais citar Saramago em sua ética pro-humanidade, quando enuncia pela voz de um personagem “Há esperanças que é loucura ter, Pois eu digo-te que se não fossem essas eu já teria desistido da vida”. Essa é a ética semelhante que Luís Turiba propõe, como uma plataforma de salto: “tento entender que o hoje veio do ontem/ e o amanhã será outro tempo nesse/ jogo do pêndulo da história de tentativas.”

A partir do sofrimento (contido) de ter recebido um “atentado nas minhas esperanças”, o salto do entendimento acontece e o eu-lírico ilumina sua trilha: “viver é nosso maior templo/ por isso tento/ enquanto há tempo de continuar tentando”. Em linha com a amorosidade necessária à sobrevivência, o conjunto da sessão Desacontecimentos eróticos aponta para o que eu chamaria de coluna vertebral da poética de Turiba pela celebração da energia vital. Um dia escrevi sobre e para seu (com Luca Andrade) livro "Inocentes Eróticos" que “Uma vida erotizada é uma vida que se move. Eros mantém a alma em movimento... no corpo físico dos amantes”. (...) “Com ele as relações serão sempre “uma relação com a alteridade com o mistério, ou seja, com o futuro, com o que está ausente do mundo que contém tudo o que é... segundo ensina Bauman.”

É essa também uma questão do “olhar”, agora não só o do criador, mas do “outro” que o faz desvelar-se ao leitor em preciosas – e precisas – texturas poéticas. É preciso ler Desacontecimentos em mergulho vertical (cruzem a superfície horizontal da linha do verso).

As imagens que tecem cada página contêm elaborações teórico-filosóficas perspicazes sobre o sujeito contemporâneo e se apoiam na ampla concepção social do homem: uma concepção que vê os seres de linguagem que somos, mediados na e pela interação com os que nos acompanham – especialmente na sessão dos Desacontecimentos acontecidos, que nos promove doces encontros com Rita Lee, Jorge Amado, Houaiss, Tancredo, Beatles, London, London e outros tantos arredores. Digo que muito me faltaria ainda comentar do que li e senti, mas aí teria que escrever uma tese (fica a dica pros universitários). Concluo com os versos da canção de Arnaldo Antunes sobre o que considero a síntese de sua poética, meu amigo.

O seu olhar me olha

o seu olhar é seu

o seu olhar

melhora o meu

Luís Turiba, o seu olhar melhora – muito – o nosso!

___________________

(*) Sylvia H. Cyntrão é Professora Titular do Departamento de Teoria Literária e Literaturas (TEL), da UnB. Pesquisadora no Programa de Pós-Graduação em Literatura-Póslit. Líder do Grupo de pesquisa Poéticas contemporâneas – Vivoverso. Líder do Grupo de pesquisa Textualidades contemporâneas: processos de hibridação.

http://vivoverso.blogspot.com

http://dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/4802716833034553

http://textualidadescontemporaneas.blogspot.com

http://dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/3519795257253272

(*) Este artigo foi publicado originalmente no site:  http://www.mallarmargens.com/

Criado em 2019-11-15 00:26:01

A obra completa de Villa-Lobos para piano no YouTube

Alexandre Dias –

Em homenagem aos 61 anos de morte de Heitor Villa-Lobos (17/11), o Instituto Piano Brasileiro (IPB) criou uma playlist inédita com sua obra completa para piano no formato de vídeo-partitura, isto é, com todos os áudios minuciosamente sincronizados com suas respectivas partituras, compasso a compasso.

Isto foi um trabalho extenso realizado ao longo de cinco anos, praticamente desde a criação do IPB, e que terminamos recentemente.

São 239 vídeos contendo todas suas obras para piano que já foram gravadas, incluindo as icônicas Impressões seresteiras e Valsa da dor, Rudepoema e Amazonas. Composições infantis como as Cirandinhas e Petizada, O gato e o rato e a Valsa-scherzo, e o Guia prático completo, com suas 138 fantásticas miniaturas.

Também estão incluídas algumas transcrições, como a que Souza Lima fez do Trenzinho do caipira, e as que Vieira Brandão fez dos Prelúdios e todas as obras para piano e orquestra que já foram gravadas, incluindo os 5 Concertos e o Choros N° 11 (a única ausência notória é a Suíte para piano e orquestra, que ainda não foi gravada comercialmente).

As gravações utilizadas foram variadas, realizadas em diversas épocas por diferentes intérpretes, muitos registros históricos por pianistas que conheceram Villa, e que até receberam obras dedicadas a eles, como Arnaldo Estrella, Felicja Blumental, Magda Tagliaferro e José Vieira Brandão.

Os vídeos estão ordenados por popularidade, ou seja, os do topo são os mais acessados do canal.

Deixamos aqui nosso imenso agradecimento a cada um dos 328 assinantes do IPB, que acreditam no valor do piano brasileiro, e nos permitem realizar ações como esta, que requerem grande fôlego.

Considere apoiar o IPB com qualquer valor mensal, para que possamos criar outras playlists similares clique aqui

Link para a playlist no Youtube – clique aqui

Criado em 2020-11-18 19:42:36

Sérgio Vaz - a literatura que vem da periferia

O poeta e agitador cultural Sérgio Vaz vai se apresentar no projeto Diálogos Contemporâneos, que se realiza no próximo dia 7/5 (terça-feira), às 19h, no Teatro dos Bancários de Brasília (314/315 Sul). Entrada gratuita.

Sérgio Vaz vai falar sobre o tema "A literatura que vem da periferia". As novas expressões e as narrativas literárias que surgem nas grandes cidades e buscam afirmar seus valores e sua identidade, do hip-hop às publicações poéticas, do funk aos saraus.

Autor de oito livros, Sérgio Vaz é fundador da Cooperativa Cultural da Periferia (Cooperifa), em São Paulo, e criador de projetos como Cinema na Laje, Poesia nos Muros e Poesia Contra a Violência. Recebeu os prêmios Heróis Invisíveis (Unesco), Trip Transformadores, Orilaxé, Aprendiz, Governador de São Paulo e Santos Dias de Direitos Humanos.

Sérgio Vaz promoveu em 2007 a Semana de Arte Moderna da Periferia, inspirada na Semana de Arte Moderna de 1922. Criou outros eventos, como a Chuva de Livros; o Poesia no Ar, em que papeis com versos são amarrados a balões de gás e soltos no ar; e o Ajoelhaço, em que homens se ajoelham na rua para pedir perdão às mulheres no Dia Internacional da Mulher.

Os primeiros livros de Sérgio Vaz foram edições independentes. Só veio a ser publicado por uma editora em 2007, quando a Global lançou “Colecionador de Pedras”.

Criado em 2019-05-02 21:16:14

Lula devastador

Gustavo Conde (*) –

Algumas pessoas me perguntam: “por que você gosta tanto do Lula?” E eu respondo: ele não me deixa opção.

Eu tenho razões que extrapolam a mera constatação de que se trata do maior líder político da história. Aliás, esse fato é absolutamente irrelevante para descrever minha perplexidade diante deste homem.

Lula é um furo no sistema, é o improvável, o indomesticável, um ser irradiador de sentidos e afetos, o humano demasiado humano, o ente transcendental que lhe acaricia a alma porque lhe projeta a dimensão especular do estranhamento que é pertencer a este mundo, deste jeito e nessas condições.

Seu talento, para mim, não é ser um político ou líder, mas justamente ser um homem simples em toda a sua delicadeza de ser vivente, em sua generosidade, em seu poder de escuta, em seu gestual espontâneo que, nas cifras sutis do discurso, irrompem em nossa desumanidade, estilhaçando-a.

Eu gosto de Lula porque ele me faz ser um homem melhor, faz com que eu me sinta melhor, com que eu deseje ser melhor, com que eu queira produzir o bem para todos em minha volta e para mim mesmo.

Quando beijo o meu filho, quando afago um animal, quando rego minhas plantas, eu penso em Lula, mesmo sem querer. Penso na beleza de se ter um afeto e um vínculo desta dimensão com alguém que não se conecta a mim pelas vias habituais da proximidade física, mas pela linguagem, pela generosidade com o próprio sentido das palavras, pelo carinho e pelo caráter de fazê-las significar em toda a sua potência política e afetiva, como se cada uma delas fosse dotada da misteriosa humanidade possível que nos resta e que nos toca.

O cárcere político de Lula foi o cárcere subjetivo de todos nós. Quando Lula foi libertado, eu também me libertei – e tenho certeza de que muitos que me leem também se libertaram.

Quando punha a cabeça no travesseiro, todas as noites, eu me perguntava: será que ele está bem? Será que ele tem um bom travesseiro, uma boa coberta, um copo d’água ao lado?

Realmente não estamos falando de um líder político, estamos apenas falando de alguém que amamos, de alguém que nos conquistou amando a todos nós de uma só vez, sem distinção de raça, cor, credo ou mesmo classe.

Torna-se quase irrelevante mencionar que seu discurso histórico no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo foi assustadoramente inteligente. Como alguém pode inverter o jogo político de um país inteiro de maneira tão abusada?

Eu sempre defendi uma tese de que a única pessoa com capacidade para enfrentar uma certa emissora de TV neste país era Lula. Confesso que, às vezes, duvidava dessa tese. Alimentava minha autocrítica perguntando: será?

Ontem, essa dúvida foi dissipada. Lula jogou iscas para Globo, Bolsonaro e Moro e os três as morderam com sublime inocência.

Lula simplesmente desafiou o helicóptero da Rede Globo, um lance semiótico que só os gênios máximos da persuasão podem sonhar utilizar. O helicóptero ali era o signo da covardia, a covardia de uma TV que não se atreve a chegar perto de seu adversário por medo, constrangimento e soberba.

Um helicóptero custa muito dinheiro. Lula enquadrou a Globo como a covarde rica que, depois de tudo, ainda mente para seu público merecidamente sofrido.

A resposta da Globo foi chocante, tanto pela ignorância quanto pelo falso orgulho. A Vênus oxidada acusou o golpe e ficou histérica como Bolsonaro já houvera ficado justamente com ela.

Não vale o desgaste do teclado do meu notebook transcrever a resposta da TV à provocação inteligentíssima de Lula. Falasse do helicóptero, Dona Globo! Em aulas de redação, a gente chamaria este objeto voador de ‘tema principal’, mesmo na sua condição metafórica. A Globo fugiu ao tema e tirou zero.

Com Bolsonaro, foi diferente. Lula deu uma delicada voadora no peito e tatuou em sua testa desnuda a alcunha agora eterna e irrespondível de ‘miliciano’.

A reação de Bolsonaro me faz crer que Lula realmente pode ser de outro planeta: o miliciano ameaçou ficar histérico, mas recuou e disse que “não irá responder”.

Ora, ora, ora, Lula calou a boca de Bolsonaro, apenas isso. Com uma frase. Coisa que nenhuma pessoa neste país, nem Globo, nem STF, nem Forças Armadas tiveram a capacidade de fazer diante do desfile dos horrores que se alastra por intermináveis 11 meses sob o signo da besta.

Moro foi na mesma direção. Mas, pobrezinho, Moro é muito mais solitário que Bolsonaro – ao passo que também tem alguns degraus a mais de educação formal. O que piora tudo. Resultado? Moro quase chorou dizendo “não brinco mais”.

Permitam-me especificar o contexto semântico (que extrapola o significante): Moro disse que “não responde a criminosos, presos ou soltos”. É a típica situação em que o responsável legal pelo ‘menino Sergio’ deveria dar a ele um pirulito ou um sorvete para aplacar a dor da humilhação.

Nenhum destes três entes acuados – Globo, Bolsonaro e Moro – produziram de fato uma resposta a Lula. A primeira passou recibo e os outros dois correram.

E aí, eu pergunto: como não amar Lula?

É um sentimento muito forte, realmente. Para quem gosta de literatura, de arte, de cultura e das complexidades embutidas na sede pelo conhecimento, Lula é simplesmente apaixonante.

É o ourives do sentido, o artesão da palavra, o malandro que faz você tropeçar na própria pretensão de ‘ganhá-lo’.

Eu gosto de Lula pelo que ele é, pelo caráter que ele tem e pela dignidade que ele transpira. Eu gosto de Lula pelo exemplo que ele dá, pela segurança que ele passa e pelo orgulho que ele tem de sua mãe, Dona Lindu, a saber, uma das coisas mais lindas e poderosas que esse mundo de Deus e da linguagem já tiveram a honra de produzir.

Ver e ouvir Lula dizer que sua mãe era analfabeta, que morreu analfabeta e que pelo fato de ela ser analfabeta é que ela pôde lhe ensinar aquilo que jamais se ensina em uma escola, que é o caráter, é uma das experiências éticas mais avassaladoras que uma pessoa digna pode vivenciar.

É por isso que eu gosto de Lula. Não é porque ele foi presidente, não é porque ele é o maior defensor da democracia no mundo, não é porque ele criou o maior partido de esquerda da América Latina, não é porque ele foi chamado de “o cara” pelo Obama, não é porque ele saiu da presidência com 87% de aprovação, não é porque ele tirou 36 milhões de pessoas da fome.

Eu gosto de Lula porque ele é um cidadão humilde, bem-humorado, amoroso, aguerrido e profundamente inteligente e talentoso.

Como eu disse no começo desta lauda: ele não me deixa opção.

_________________________

(*) Gustavo Conde é mestre em linguística pela Unicamp, editor e colunista do site Brasil 247.

Criado em 2019-11-10 18:29:07

Homenagem às irmãs Sonia Lins e Lygia Clark no Canal Arte 1

Nesta quarta-feira (18/11), às 18h, estreia do filme da diretora Maria Maia sobre as irmãs Sonia Lins e Lygia Clark, no Canal Arte 1 e no Arte 1 Play.

Sonia e Lygia é um filme “delicado e feminino, que trata da relação entre as irmãs multiartistas Sonia Lins e Lygia Clark, desde a infância até o final de suas vidas”, descreve a nota de divulgação.

Com a diferença de apenas um ano de idade, as duas artistas tiveram influência muito positiva do avô Edmundo Lins, intelectual e juiz do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Em 2020, ano em que se comemora o centenário de nascimento de Lygia Clark (23/10/1920), uma das principais pintoras e escultoras brasileiras e referência para uma geração de artistas contemporâneos. “O longa ficcional traz um tom intimista e lírico, pautado pelas sensibilidades opostas, mas complementares e fascinantes, das duas irmãs”, completa a diretora.

A propósito de seu papel no filme, a atriz Kuka Escosteguy disse o seguinte: “Minha personagem, a vovó Lolo, é a segunda mulher do avô da Lígia e da Sônia. Mulher elegante, contrapunha-se com firmeza à curtição do avô com as netas e neto, pois era ela quem cuidava da rotina da casa e das crianças. Sou apaixonada pela arte contemporânea, então, foi uma delícia viver poeticamente na infância dessas duas grandes artistas”.

No elenco, Bidô Galvão, Kuka Escosteguy, Murilo Grossi e Yeda Gabriel. Trilha sonora de Manassés de Sousa e Mario Brasil.

Clique aqui e veja o trailer do filme de Maria Maia.

Criado em 2020-11-15 16:45:55

Assassinos de Marielle aparecem um ano depois, faltam os mandantes

Às vésperas de completar um ano do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSol-RJ) e de seu motorista Anderson Gomes, a polícia do Rio de Janeiro prende dois suspeitos: o policial reformado Ronnie Lessa e o ex-PM Elcio Vieira de Queiroz (expulso da corporação), são acusados de homicídio duplo no dia 14 de março de 2018.

Em entrevista, o delegado Giniton Lages, da Delegacia de Homicídios do Rio, respondeu a um repórter dizendo que "você percebe ódio, percebe um comportamento de alguém capaz de resolver uma diferença da forma como foi no caso Marielle". Questionado pelo repórter sobre qual seria a motivação, o delegado respondeu: "Ódio, crime de ódio, a definição de crime de ódio".

O deputado federal Marcelo Freixo (PSol-RJ) disse que falar em crime de ódio é inaceitável. "Esse crime foi bem planejado e contou com envolvimento de grupo político", disse Freixo à imprensa.

Segundo Freixo, "o desmembramento da investigação preocupa, mas a polícia e o Ministério Público têm obrigação de chegar aos mandantes. Queremos respostas. Quem está por trás desse crime, que é um crime político. É preciso mostrar quem é o grupo político interessado na morte de Marielle".

O deputado destaca o planejamento elaborado para que o assassinato fosse cometido. "Não dá para aceitar que esse suspeito tenha agido sozinho. Esse foi um crime sofisticado, com alto grau de planejamento e, com certeza, contou com a participação de outras pessoas. Cabe a polícia dar essas respostas. Uma resposta tardia. É inaceitável que a gente demore um ano para ter apenas esse tipo de resposta".

Em denúncia entregue à Justiça, o Ministério Público do Rio de Janeiro afirmou que Ronnie Lessa e Elcio Vieira de Queiroz demonstraram ‘abjeto e repugnante desprezo pela vida’. Os dois foram presos nesta terça-feira, 12/3, pelos homicídios qualificados da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes e por tentativa de homicídio de Fernanda Chaves, uma das assessoras da ex-vereadora que também estava no carro emboscado no dia do assassinato.

Os sites noticiosos e a imprensa escrita informam que Ronnie Lessa mora no mesmo condomínio onde o presidente Jair Bolsonaro tem uma casa, na Barra da Tijuca, no Rio. Nas redes sociais, Queiroz é simpatizante do presidente Bolsonaro. Ele curte as páginas oficiais do PSL Carioca, de Flavio Bolsonaro e de Eduardo Bolsonaro.

Élcio Vieira de Queiroz é filiado ao DEM no Rio de Janeiro. Com inscrição registrada em julho de 2011 e ainda ativa, Élcio vota na zona eleitoral 214, no Meier, zona norte da cidade, próximo ao local onde mora e foi preso.

A prisão desses dois suspeitos não encerram as investigações. Ainda há que se encontrar outros envolvidos neste crime que escandaliza o Brasil e o mundo pela sua crueldade e significado político. Marielle era uma notória defensora dos direitos humanos e denunciava milicianos e criminosos no Rio de Janeiro e contrariava muitos interesses de políticos corruptos da cidade.

Criado em 2019-03-12 22:27:55

Žižek: Coringa e o grau zero da revolução

Slavoj Žižek (*)

Os críticos não souberam muito bem como categorizar o novo filme do Coringa: Seria ele uma mera peça de entretenimento (como toda a série de filmes do Batman), um estudo aprofundado da gênese da violência patológica, ou um ensaio de crítica social?

Partindo de uma perspectiva mais radical de esquerda, o cineasta Michael Moore leu Coringa como uma “peça muito oportuna de crítica social e uma ilustração perfeita das consequências dos atuais males sociais da América”: afinal, ao investigar a transformação de Arthur Fleck em Coringa, o filme traz à tona o papel dos banqueiros, o colapso da saúde pública e o abismo entre os ricos e os pobres. Contudo, para Moore, Coringa não apenas retrata essa América, como também levanta uma “questão desconcertante”: e se um dia os despossuídos decidirem revidar?

Antes mesmo do filme ter sido lançado, a mídia já alertava o público de que ele poderia incitar a violência. O próprio FBI especificamente advertiu que Coringa poderia inspirar atentados por parte de clowncels, um subgrupo de Incels obcecados por palhaços como o Pennywise, de It, e o próprio personagem do Coringa, da DC Comics. Até agora, contudo, não houve nenhum relatos de violência inspirada pelo filme. Ainda para Moore, mais do que sentir-se incitado à violência, ao final da sessão, você, o espectador “agradecerá esse filme por tê-lo conectado a um novo desejo – não o de fugir à saída mais próxima para salvar a própria pele, mas, ao contrário, o de se erguer e lutar, e focar sua atenção no poder de não-violência que você carrega em suas mãos todos os dias.”

Mas será que o filme realmente funciona assim? O “novo desejo” que Moore menciona decerto não é o desejo do próprio Coringa – ao final do filme, o protagonista se encontra inepto, e suas irrupções violentas não passam de explosões impotentes de raiva, exteriorizações de sua impotência básica. É preciso ainda uma mudança adicional de postura subjetiva para que se passe das explosões do Coringa e se torne capaz de “se erguer e lutar e focar sua atenção no poder de não violência que você carrega em suas mãos todos os dias”. Quando você se torna consciente desse poder, pode renunciar à violência corporal brutal. E o paradoxo é que você se torna verdadeiramente violento (no sentido de apresentar uma ameaça ao sistema existente) somente quando renuncia a violência física. Isso não significa que o ato do Coringa constitui um beco sem saída a ser evitado – a lição de Coringa é que nós precisamos atravessar esse grau zero a fim de nos despirmos das ilusões que inerentes à ordem existente.

Entre outras coisas, nossa imersão no mundo sombrio de Coringa nos cura das ilusões e simplificações do politicamente correto. Nesse universo, não se pode levar a sério a ideia de que o consenso mútuo a uma relação sexual a torna verdadeiramente consensual. O “discurso do consenso” é em si uma enorme farsa. Trata-se de uma tentativa ingênua de aplicar uma linguagem arrumadinha, inteligível e igualitária de justiça social à esfera sombria, desconfortante, implacavelmente cruel e traumática da sexualidade. As pessoas não sabem o que querem, são perturbadas por aquilo que desejam e desejam coisas que elas odeiam: odeiam seus pais mas querem fodê-los, odeiam suas mães mas querem fodê-las, e assim por diante. Pode-se facilmente imaginar o Coringa reagindo com uma risada excêntrica à alegação de que “foi consensual, então não há problemas” – foi assim que sua mãe arruinou sua vida…

Esse grau zero constitui a versão contemporânea daquela que certa vez foi denominada a posição proletária, a experiência daqueles que não têm nada a perder. Para citar nosso protagonista: “Eu não tenho mais nada a perder. Nada mais pode me ferir. Minha vida não passa de uma comédia.” É aqui que a ideia de que Trump seria uma espécie de Coringa no poder ao encontra seu limite evidente. Trump definitivamente não atravessou esse grau zero. Ele pode até ser um palhaço obsceno à sua maneira, mas certamente não é uma figura como o Coringa – chega a ser um insulto ao Coringa compará-lo a Trump.

O modo de agir de Trump é certamente obsceno, mas ele meramente traz à tona a obscenidade que constitui o obverso da própria lei. Não há absolutamente nada de suicida dele se gabar sobre como não respeita as regras do jogo: isso simplesmente reforça a narrativa dele como o presidente valentão que, em sua missão de alavancar os EUA no exterior, é constantemente importunado por elites corruptas; faz parte da lógica de legitimação segundo a qual suas transgressões seriam necessárias porque somente um sujeito disposto a quebrar as regras é capaz de esmagar o poder do pântano de Washington. Ler essa estratégia bem-planejada e bastante racional em termos de uma pulsão de morte é mais um exemplo de como de fato são os próprios liberais de esquerda que se encontram numa missão suicida, ao alimentarem a narrativa de que eles estariam lançados numa encheção de saco burocrático-jurídica enquanto o presidente estaria fazendo um bom trabalho para o país.

No filme Batman: o cavaleiro das trevas (2008), de Christopher Nolan, o Coringa é a única figura da verdade. Ele deixa claro a finalidade de seus ataques terroristas a Gotham City: eles cessarão assim que o Batman tirar sua máscara e revelar sua verdadeira identidade.

Mas então quem é esse Coringa que quer revelar a verdade por baixo da máscara, convencido de que essa revelação provocará a destruição da ordem social? Ele não é um homem sem máscara, pelo contrário: trata-se de um sujeito plenamente identificado com sua máscara, um homem que é sua máscara – não há nada atrás da fachada, não há um “sujeito ordinário” por baixo de sua máscara.

É por isso que o Coringa não possui história pregressa e carece de motivação precisa: pra cada um ele conta uma história diferente sobre a origem de suas cicatrizes, debochando da ideia de que precisaria haver algum trauma profundamente arraigado que justificaria suas motivações. Pode parecer que o novo filme do Coringa visa precisamente fornecer uma espécie de gênese social do personagem, retratando os eventos traumáticos que o tornaram a figura que ele é.

O problema é que milhares de jovens garotos que cresceram em famílias arruinadas e foram vítimas de bullying sofreram o mesmo destino, mas apenas um deles “sintetizou” essas circunstâncias na forma da figura singular do Coringa. Em um dos primeiros romances sobre Hannibal Lecter, a alegação de que a monstruosidade de Hannibal seria o resultado de circunstâncias infelizes é prontamente rejeitada: “Nada aconteceu com ele. Ele aconteceu.”

O Coringa torna-se o Coringa no exato momento do filme em que ele diz: “Você sabe o que realmente me faz rir? Eu costumava pensar que minha vida era uma tragédia. Mas agora me dei conta de ela é uma porra de uma comédia.” Por conta desse ato, o Coringa pode não ser moral, mas ele é definitivamente ético. É importante notar o exato momento em que Arthur diz isso: quando, debruçado sobre o lado do leito de sua mãe no hospital, ele pega seu travesseiro e o usa para sufoca-la até a morte. O que, então, essa sua mãe representa? “Ela sempre me diz para sorrir e apresentar um rosto feliz. Ela fala que eu fui colocado aqui para espalhar alegria e risadas.” Ora, não é essa a representação mais pura do que é o superego materno? Não é à toa que ela o chama de Feliz, e não de Arthur.

Ao transformar-se no Coringa, Arthur se livra das garras de sua mãe (matando-a) ao mesmo tempo em que se identifica plenamente com o seu comando de rir. Sua propensão a irrupções compulsivas e incontroláveis de riso é paradoxal: ela é muito literalmente uma manifestação de extimidade (para usar o neologismo de Lacan que funde as palavras intimidade e exterioridade).

Arthur insiste que ela forma o núcleo mesmo de sua subjetividade: “Lembra que você costumava me dizer que minha risada era uma condição, de que havia algo de errado comigo? Não é. Esse é o meu verdadeiro eu.” Mas, precisamente como tal, ela é externa a ele e à sua personalidade, passando a ser experimentada como um objeto parcial autonomizado que ele não consegue controlar e com o qual ele acaba se identificando plenamente.

O paradoxo aqui é que na configuração edípica tradicional é o nome-do-pai que permite que um indivíduo escape das garras do desejo materno; com o Coringa, a função paterna está completamente fora do horizonte, de forma que o sujeito só pode superar a mãe através de uma sobre-identificação com seu comando superegóico.

No final do filme, vemos o Coringa como um novo líder tribal, mas desprovido de qualquer programa político, uma pura explosão de negatividade. Em seu diálogo com o apresentador de televisão Murray Franklin, Arthur insiste duas vezes que sua performance não é política. Referindo-se a sua maquiagem de palhaço, Murray o pergunta no camarim: “Qual é a desse rosto? Quer dizer, você é parte dos protestos?” A resposta de Arthur: “Não, eu não acredito em nada daquilo. Eu não acredito em nada. Só pensei que seria bom para o minha performance.” E, de novo, na frente das câmeras: “Eu não sou político. Só estou tentando fazer com que as pessoas riam.” Não há esquerda militante no universo do filme, trata-se apenas de um mundo achatado de violência globalizada e corrupção.

Os eventos de caridade são retratados pelo que são: se a Madre Teresa estivesse lá ela certamente participaria no evento beneficente organizado por Thomas Wayne, um passatempo humanitário dos ricos privilegiados. Contudo, é difícil imaginar uma crítica mais estúpida de Coringa do que a queixa de que ele não retrata uma alternativa positiva à revolta do Coringa.

Só imagine um filme feito nessa linha: uma história edificante sobre como os pobres, desempregados, desprovidos de qualquer rede de apoio de saúde pública, vítimas de gangues de rua e brutalidade policial etc., organizam greves e protestos não-violentos a fim de mobilizar a opinião pública – uma nova versão, não-racial, de Martin Luther King Jr… Seria um filme extremamente enfadonho, desprovido dos excessos alucinados do Coringa que tornam o filme tão atraente para o público.

Aqui chegamos ao xis da questão. Como parece evidente a um esquerdista que tais greves e protestos não-violentos constituem a única maneira de proceder (isto é, exercer uma pressão eficiente sobre aqueles que estão no poder), será que estamos diante de uma simples lacuna entre lógica política e eficiência narrativa? Isto é, numa formulação mais grosseira: será que apesar de politicamente constituírem um impasse, narrativamente as irrupções brutais como as do Coringa dão uma história interessante? Ou será que não haveria também uma necessidade política imanente na postura autodestrutiva encarnada pelo Coringa? Minha hipótese é de que é preciso atravessar o grau zero autodestrutivo representado pelo Coringa – não literalmente, mas é preciso que ela seja experimentada ao menos como uma ameaça, uma possibilidade. Só assim é possível romper com as coordenadas do sistema existente e vislumbrar algo realmente novo.

Em sua interpretação da derrocada do Comunismo no Leste Europeu, Habermas se provou ser o fukuyamaista de esquerda por excelência, silenciosamente aceitando que o horizonte liberal-democrático existente seria o melhor possível, e que, embora devamos buscar torná-lo mais justo etc., não devemos desafiar suas premissas básicas. É por isso que ele acatou justamente aquilo que muitos esquerdistas viam como a grande falha dos protestos anticomunistas no Leste Europeu: o fato de que eles não eram motivados por quaisquer novas visões de futuro pós-comunista.

Para Habermas, as revoluções no centro e leste europeus não passavam daquilo que ele denominava revoluções “retificadoras” ou “recuperadoras”: o objetivo delas era fazer com que as sociedades do centro e leste europeus atingissem aquilo que as do oeste europeu já possuíam, isto é, reintegrar a normalidade da Europa Ocidental. No entanto, a onda de protestos em curso em diferentes partes do mundo tende a questionar esse próprio quadro – e é por isso que figuras tipo “coringa” as acompanham. Quando um movimento questiona os elementos fundamentais da ordem existente, seus fundamentos normativos básicos, é quase impossível que se tenha apenas protestos pacíficos desprovidos de excessos violentos.

A elegância de Coringa reside em como a passagem crucial do impulso autodestrutivo a um “novo desejo” por um projeto político emancipatório se encontra ausente da trama. Assim, nós, os espectadores, somos convocados a preencher essa lacuna.

________________

(*) Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidas, Primeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013), Violência (2014),  O absoluto frágil (2015) e O sujeito incômodo: o centro ausente da ontologia política (2016). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Este texto foi enviado diretamente pelo ator para sua coluna no Blog da BNoitempo. A redução é de Artur Renzo, que é editor do Blog da Boitempo, da TV Boitempo e da revista Margem Esquerda. Formado em Filosofia e em Comunicação Social com habilitação em Cinema, traduziu, entre outros, A loucura da razão econômica: Marx e o capital no século XXI (Boitempo, 2018), de David Harvey.

Criado em 2019-11-06 04:08:42

Movimento Cultural realiza ato cênico contra Ibaneis Rocha

Nesta sexta-feira, 13 de novembro, a partir das 10h, trabalhadoras e trabalhadores ocuparão a Praça do Museu da República em ato público para denunciar o descumprimento da Lei Orgânica da Cultura (LOC) e da Lei Aldir Blanc por parte do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), e de seus secretários de Economia, André́ Clemente, e da Cultura e Economia Criativa, Bartolomeu Rodrigues.

Artistas munidos de cordas, bancos, instrumentos percussivos, capas e guarda-chuvas, formarão imagens de impacto visual marcante para traduzir e demonstrar a indignação do setor cultural aos descasos do governo de Brasília

Integrantes da cadeia produtiva da cultura encontram-se impedidos de trabalhar desde o começo da pandemia e “a população do DF privada do acesso a bens artísticos e culturais, que alimentam de diversas formas o indivíduo e a coletividade neste momento de crise mundial, tão dura e prolongada”, ressaltam os integrantes do movimento.

“As famílias dos trabalhadores da cultura vêm sendo despejadas, espaços fechando as portas, artistas e técnicos vendendo seus instrumentos e equipamentos, a fome bateu à nossa porta”, relatam.

Como exigências, o setor cobra que seja liberado - imediatamente - todo saldo remanescente do Fundo de Apoio à Cultura (FAC); e que sejam publicados - prontamente - editais Linha 3 da Lei Aldir Blanc. Lei criada para prestar auxílio emergencial a um setor fortemente atingido pelas medidas de confinamento necessárias ao controle da pandemia.

O biênio 2019/2020, de acordo com os integrantes, está sendo o pior na execução do FAC, uma política pública assegurada pela Lei Orgânica da Cultura (LOC). “A inação do GDF caminha em sentido contrário ao estado de emergência que assola o setor”, denunciam.

Se a Lei fosse devidamente cumprida, só em 2020 o setor cultural teria executado cerca de R$ 100 milhões. Montante que garantiria empregabilidade a artistas, técnicos, produtores, comunicadores, assistentes e espaços culturais de todo o DF. Ativaria, ainda, toda a cadeia produtiva que envolve serviços, comércios, pequenos empreendedores entre outros.

O descumprimento da Lei Complementar nº 934/2017, da LOC, começa pela não publicação dos saldos remanescentes do FAC até 31 de janeiro nos anos de 2019 e de 2020. “Essa publicação é obrigatória em cada exercício, conforme reza o Art. 64 e, nos parágrafos 5º e 6º do Art. 80, que veda o contingenciamento ou remanejamento dos recursos desse Fundo”, detalha o movimento, que relata: “a LOC segue sendo descumprida quando no penúltimo mês do ano, os recursos restantes do FAC não foram editalizados e não publicaram nenhum edital até o momento”.

Um agravante, que demonstra nítido o descaso com os trabalhadores, faltam apenas 50 dias para a devolução do recurso da Lei Aldir Blanc aos cofres do governo e a Secretaria de Cultura e Economia Criativa (SECEC) ainda não publicou editais da linha 3 Aldir Blanc.

O Movimento Cultural do DF ressalta que apresentou sugestões de aplicação dos recursos na forma de Editais Regionalizados, de Áreas Culturais, de Espaços e Coletivos e, no sentido de se adaptar às novas maneiras de fazer arte e cultura em tempos de pandemia, propôs um programa emergencial de bolsas de estudo/pesquisa. As sugestões foram elaboradas por gestores de diferentes segmentos, mas seguem absolutamente ignoradas.

Enquanto estes pontos não forem solucionados, “o governo de Ibaneis Rocha se mantém na ilegalidade contingenciando - desde o início de sua gestão - o FAC/DF, através da ação imoral e predatória da Secretaria de Economia junto com a Secretaria de Cultura e Economia Criativa”, concluem os integrantes do Movimento Cultural do DF.

“O FAC é um direito do povo do Distrito Federal e os recursos da Lei Aldir Blanc pertencem às trabalhadoras e aos trabalhadores da cultura e não vamos abrir mão dos nossos direitos”, avisam.

Para o ato, que acontece nesta sexta-feira, dia 13, a partir das 10h, na Praça do Museu da República, a classe trabalhadora e apoiadores do fazer cultural estão sendo orientados a irem de máscara, levarem álcool em gel e, sobretudo, atentar ao distanciamento físico recomendado. Durante o ato, imagens e relatos serão coletados para que reverbere nas redes sociais.

Criado em 2020-11-11 20:56:42

MEC pede que escolas façam propaganda para Bolsonaro

Um escandaloso e-mail enviado nesta segunda-feira (25/2) pelo ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez, pede que diretores de escolas particulares leiam uma carta assinada por ele para os professores, alunos e demais funcionários no primeiro dia da volta às aulas. O MEC ainda quer que o ato seja filmado e enviado para a Secretaria de Comunicação da Presidência da República e para o ministério.

O deputado federal Alessandro Molon (PSB/RJ) denunciou a atitude do ministro e decidiu pedir sua convocação para que ele se explique perante o Congresso Nacional por essa irresponsabilidade funcional.

A carta, que deve ser lida com todos "perfilados diante da bandeira do Brasil (se houver), juntamente da execução do hino nacional", conforme as instruções do MEC, diz:

"Brasileiros! Vamos saudar o Brasil dos novos tempos e celebrar a educação responsável e de qualidade a ser desenvolvida na nossa escola pelos professores, em benefício de vocês, alunos, que constituem a nova geração. Brasil acima de tudo. Deus acima de todos".

Também nas instruções do e-mail, o MEC solicita que um representante da escola filme trechos curtos da leitura da carta e da execução do hino e, em seguida, que envie o arquivo com os dados da escola para os emails Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. e Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

O deputado federal Jorge Solla (PT-BA) reagiu: "Obrigar as crianças (de colégios privados, vejam) a serem filmadas a repetir o bordão da campanha eleitoral do presidente, um bordão que não respeita a laicidade do estado Brasileiro. É essa a nova do ministro da Educação", escreveu.

Paulo Pimenta, também do PT, reforçou: "O ministro da Educação não tem a mínima condição de permanecer à frente do cargo. Além de ter ofendido o povo brasileiro, agora perdeu qualquer compostura ao impor medidas às escolas que são absurdas e inaceitáveis! Filmar crianças é um constrangimento que viola a lei!", tuitou.

Já a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP), no twitter, saiu em defesa: “Terremoto! MEC enviou e-mail pedindo às escolas que cantem o hino nacional no primeiro dia da volta às aulas. Sugeriu que as crianças sejam filmadas. Já podem imaginar o mimimi! É crime resgatar nossa identidade e valorizar os símbolos nacionais? Este é o novo MEC, este é o Brasil de volta”.

Criado em 2019-02-26 04:40:55

O que aconteceu entre as casas 58 e 65?

Amaro Santos –

Quem matou Marielle? Quem mandou matar Marielle? Perguntas que não calam após quase 600 dias de sua execução vão ganhando novos contornos com as últimas revelações. Elas levam a pistas que, por sua vez, podem levar a revelações maiores, que talvez não surpreendam parte da plateia.

Vamos às teses.

A produtora de conteúdo Naila Oliveira Castro lança uma suspeita: a bomba no colo de Jair pode atender pelo nome 04. Sim, o filho mais novo, o 04, chama-se Jair Renan Bolsonaro, e namorou a filha de um dos milicianos e provável assassino de Marielle, Ronnie Lessa.

Pois Jair Renan pode ter autorizado a entrada dos assassinos naquela tarde, horas antes da execução de Marielle e Anderson Gomes. A tese é factível. E é endossada pelo desespero de Bolsonaro na live de ontem (29/10), que é um desespero de pai, mais que de um presidente. Como diz a blogueira, "não era um governante, era o Jair, o ser humano, quebrado, quase destruído com a última bomba na cabeça".

O que Queiroz e Witzel têm na agulha deve ser mais que o tal cometa citado pelo primeiro numa gravação. “Pode ser o meteoro que extinguiu os dinossauros”, continua Naila. Aos desatentos, lembro que áudios de Queiroz já divulgados estão cortados, e o restante pode zunir como fissão nuclear. Já Witzel, para quem não lembra, era juiz antes de virar governador, e mandou pra Itália o delegado do caso Marielle. Ou seja, em tese Witzel sabe até onde vai o buraco em que está metido Bolsonaro, que agora o trata como inimigo e a quem acusa de ter vazado o inquérito para a Rede Globo.

A Globo, por sua vez – nova anotação minha, não da blogueira -, vem sendo acossada por Bolsonaro, que a ameaça com a negativa de revalidar a concessão para operação em TV aberta. Ou seja, à mesa temos um cardápio de chantagem que alcança da concessão televisiva à eleição presidencial de 2022.

Voltemos à tese:

"-Alô é da portaria, quem fala ai? - É o Jair - Seu Jair o rapaz, que o senhor autorizou há pouco, não foi para sua casa - Fique tranquilo, tá okay... eu sei pra onde ele foi".

O que lhe parece esse diálogo, senão um acordo quase atropelado pelo olhar atento do porteiro do condomínio?

Sobre chamar um rapaz de senhor, nenhum problema, anota a blogueira. Afinal, trata-se de algo habitual em condomínios de luxo, mormente na Barra da Tijuca, no Rio. “Simples de entender. Fácil de aceitar”, conclui Naila Castro, que completa: difícil é sair dessa ratoeira.

Se para a blogueira, Witzel mostrou poderosa carta na manga, para os brasileiros em geral restam, por enquanto, essas peças de um quebra-cabeça espalhadas pelo chão.

Revelada essa parte da história, brasileiros foram dormir na terça-feira imaginando como um registro tão importante como esse demorou 600 dias para ser mostrado a um país que questiona diuturnamente, com eco nos quatro cantos do planeta, #QuemMatouMarielle? Ainda assim, desvelado por meio de vazamento de um inquérito que parece ter sido montado para virar mofo.

Pois bem. Amanhecido o dia pós revelações, temos alguns novos capítulos: Carlos Bolsonaro, no afã de anular a peça-chave da portaria do condomínio, publicou a lista de visitas da data fatídica, 14 de março de 2018. Pois, na pressa, esqueceu de checar item que o desmente. Está ali, óbvia a chamada para a casa 58, às 15h58, quando o ex-PM Élcio Queiroz pede autorização para entrar no condomínio, afirmando ir à casa de Jair Bolsonaro a bordo do carro usado no crime. O youtuber Filipe Neto, mais atento, publicou no Twitter a mesma lista veiculada por Carluxo, desta feita com o grifo sobre o registro ignorado pelo filho 03.

Em outra frente, a Rede Sustentabilidade anuncia que pedirá proteção ao porteiro dentro do Programa de Proteção à Testemunha do Ministério da Justiça... comandado por Moro.

O ministro da Justiça, a propósito, envia ofício, também na manhã desta quarta (30/10), à Procuradoria-Geral da República e à Polícia Federal determinando a abertura de um inquérito, a apedido do seu chefe, o presidente da República. No documento, nada usual – para dizer o mínimo, em se tratando do cargo exercido por seu autor -, Moro já entra de sola, direcionando a ação dos investigadores: “A inconsistência sugere possível equívoco na investigação conduzida no Rio de Janeiro ou eventual tentativa de envolvimento do nome do presidente da República no crime em questão, o que pode configurar crimes de obstrução à Justiça, falso testemunho ou denunciação caluniosa, neste último caso tendo por vítima o Presidente da República”.

Será federalizada a investigação que corre no Estado do Rio de Janeiro? Será o porteiro do condomínio ouvido em novo depoimento pela Polícia Federal? Serão revelados novos indícios que, para uns, apontem mandantes por trás do assassinato duplo e, para outros, chantagens que visam a emparedar um governo legítimo para embaralhar eleições de daqui a três anos? Enfim, saber-se-á o que aconteceu entre as casas 58 e 65 do condomínio de luxo na Barra da Tijuca, questão agora indissociável do caso de execução de Marielle e Anderson Gomes em março de 2018?

Aguardemos os próximos capítulos, que, como sabemos, podem se suceder mais rápido que a publicação desta rasa e breve resenha.

Criado em 2019-10-31 03:32:34

Frente Unificada repudia boicote da Secretaria ao Conselho de Cultura do DF

O Movimento Cultural do DF divulgou ontem (3/11) uma nota de repúdio ao boicote da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF ao Conselho de Cultura do DF. Na nota, os artistas denunciam que a ausência dos conselheiros do governo numa reunião do Conselho “é um ato antidemocrático e desrespeitoso à instância máxima de representação social do setor cultural da cidade”.

O Conselho é um órgão de representação paritária, seis do governo e seis da comunidade. Se uma parte não comparece inviabiliza a reunião e reduz o seu papel a mera instância decorativa.

A comunidade artística vem reclamando do “desaparecimento” dos recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), que até hoje não foram disponibilizados para os editais correspondentes. A mesma falha se dá em relação ao pagamento da Lei Aldir Blanc de apoio aos artistas durante a pandemia.

O site da Secretaria de Cultura publicou hoje (4/11) nota com a seguinte manchete: “Secec anuncia segundo lote de pagamentos da Aldir Blanc”. Veja a notícia completa aqui.

A seguir, a íntegra do documento da Frente Unificada da Cultura do DF:

“O Movimento Cultural do Distrito Federal, por meio da Frente Unificada da Cultura do DF, vem a público manifestar seu repúdio ao boicote da Secretaria de Cultura e Economia Criativa ao Conselho de Cultura do DF.

Todos os conselheiros representantes do governo não compareceram à 450ª Reunião Ordinária do Conselho, num ato antidemocrático e desrespeitoso à instância máxima de representação social do setor cultural.

Exigimos respeito à lei, notadamente à Lei Orgânica de Cultura (LOC) que, em seu art. 4º define o papel do CCDF: “O Conselho de Cultura do Distrito Federal – CCDF, órgão colegiado deliberativo, consultivo, normativo e fiscalizador, com composição paritária entre o Poder Público e a Sociedade Civil, constitui o principal espaço de articulação e participação social de caráter permanente na estrutura do SACDF”.

Essa atitude de boicote fere nossa legislação e soma-se aos inúmeros descumprimentos à LOC e ao Regimento Interno do CCDF, efetuados por esta gestão da SECEC.

Os artigos 5º. e 6º., em seus parágrafos, determinam que: § 5º. Impedido de comparecer à Sessão Ordinária ou Extraordinária, o(a) Conselheiro(a) Titular deverá justificar formalmente, com até 24 (vinte e quatro) horas de antecedência, sua ausência ao presidente do Conselho de Cultura do Distrito Federal e à Secretaria Executiva, e neste caso, o respectivo suplente será convocado para compor o pleno; e § 6º A convocação de Suplentes deverá ser realizada através de notificação prévia em até 24 (vinte e quatro) horas de antecedência por e-mail ou vias de comunicação por ele disponibilizada.

Esse boicote, gravíssimo mesmo em condições normais, torna-se desumano neste momento de pandemia, que está a impedir à imensa maioria de artistas, técnicos e produtores - os trabalhadores da arte -, o acesso ao trabalho e às condições dignas de sobrevivência.

A comunidade cultural aguardava (e aguarda) respostas à pauta colocada, para essa reunião boicotada, sobre os recursos restantes do FAC recomendados pelo TCDF ao GDF, e não editalizados, conforme prevê a LOC e respostas sobre o andamento da Lei Aldir Blanc, nas suas três linhas previstas. É angustiante para os fazedores de cultura a morosidade e a falta de transparência com que a Secretaria vem tratando, repetidamente, questões pertinentes ao FAC e à Aldir Blanc.

A discordância de posicionamentos ideológicos é salutar, mas no caso da posição assumida pelos conselheiros do governo junto ao CCDF, ela vem interferindo violentamente no bom andamento do setor cultural e na movimentação da cadeia produtiva da cultura, em todo o DF.

Essa postura que se repete em diversas outras adotadas por esta gestão da SECEC se alinha ao desmonte à cultura promovido em diversas instâncias do governo.

Exigimos que a Secretaria de Economia do DF e a SECEC liberem todo o dinheiro do FAC, editalizando esses recursos, e que publiquem imediatamente os editais da Lei Aldir Blanc para que esse aporte chegue às trabalhadoras e aos trabalhadores da cultura do DF.”

Assinado: Frente Unificada da Cultura do DF.

Criado em 2020-11-05 01:49:10

General Mourão derruba a Lei de Acesso à Informação por decreto

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) denuncia a intenção do governo Jair Bolsonaro que destruir uma conquista da sociedade brasileira, que foi a instituição da Lei de Acesso à Informação (LAI) no governo Dilma Rousseff.

Em entrevista, o presidente em exercício general Hamilton Mourão disse que o decreto visa “reduzir a burocracia na hora de desqualificar alguns documentos sigilosos”. Segundo a Fenaj, "a retórica, entretanto, não é capaz de desmentir o que está estabelecido no decreto: servidores públicos de alto escalão poderão impedir o acesso dos cidadãos e cidadãs, incluídos os jornalistas, às informações públicas. Se o acesso era a regra e o sigilo a exceção, prenuncia-se o inverso: o sigilo como regra e o acesso como exceção, caracterizando um ataque à liberdade de imprensa e ao exercício da cidadania".

Eis a íntegra da Nota Oficial da Fenaj:

"A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) vem a público lamentar e repudiar o decreto presidencial que alterou a Lei de Acesso à Informação (LAI) e que, na prática, pode fazer com que a lei não seja aplicada ao governo federal. O decreto nº 9.690, publicado hoje no Diário Oficial da União, foi assinado pelo vice-presidente da República, general Hamilton Mourão (PRTB), na qualidade de presidente interino, e permite que servidores comissionados e dirigentes de fundações, autarquias e empresas públicas imponham sigilo secreto e ultrassecreto a dados públicos.

A LAI, uma importante conquista da sociedade brasileira aprovada em 2011 e aplicada a partir de maio de 2012, durante o primeiro mandato da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT), estabeleceu a transparência como regra para a administração pública. Resguardou, entretanto os interesses do Estado brasileiro ao permitir que, excepcionalmente, alguns documentos fossem considerados reservados ou secretos, estabelecendo uma escala de classificação, com sigilo de 5 a 25 anos.

Essa classificação somente poderia ser feita pelos presidente e vice-presidente da República, ministros de Estado, comandantes das Forças Armadas e chefes de missões diplomáticas ou consulares permanentes no exterior.

Ao alterar a Lei para autorizar que servidores públicos, ainda que de alto escalão, possam classificar dados do governo federal como informações ultrassecretas e/ou secretas, o governo Bolsonaro joga por terra o princípio da transparência. A ampliação indiscriminada dos agentes públicos com poder de cercear as informações vai favorecer a ocultação da improbidade administrativa e outras formas de corrupção.

Em entrevista, o presidente em exercício disse que o decreto visa “reduzir a burocracia na hora de desqualificar alguns documentos sigilosos”. A retórica, entretanto, não é capaz de desmentir o que está estabelecido no decreto: servidores públicos de alto escalão poderão impedir o acesso dos cidadãos e cidadãs, incluídos os jornalistas, às informações públicas. Se o acesso era a regra e o sigilo a exceção, prenuncia-se o inverso: o sigilo como regra e o acesso como exceção, caracterizando um ataque à liberdade de imprensa e ao exercício da cidadania.

A Fenaj espera que a sociedade brasileira reaja à medida arbitrária e antidemocrática, exigindo do governo Bolsonaro a sua revogação.

Brasília, 24 de janeiro de 2019".

Criado em 2019-01-25 11:09:56

Thomas Piketty: “A desigualdade é ideológica e política”

O economista francês Thomas Piketty é o autor de Capital e Ideologia, Edições Seuil, livro que investiga a formação e a justificativa das desigualdades. São mais de 1.200 páginas. Um resumo deste novo trabalho foi publicado, em setembro, pelo jornal “Le Monde”.

Piketty é também autor consagrado de “O Capital no Século XXI”, publicado em 2013 e que vendeu 2,5 milhões de exemplares em todo o mundo. Thomas Piketty é diretor de estudos da École des Hautes Études en Sciences Sociales e professor da École d'Économie de Paris, além de cronista no “Le Monde”.

O texto publicado no Le Monde é de Thomas Piketty. A tradução é de André Langer e foi publicada na revista IHU On-Line, do Instituto Humanitas Unisinos.

A seguir, o texto:

Levar a ideologia a sério

Thomas Piketty

A desigualdade não é econômica ou tecnológica: é ideológica e política. Esta é, sem dúvida, a conclusão mais óbvia da investigação histórica apresentada neste livro. Em outras palavras, o mercado e a concorrência, os lucros e os salários, o capital e a dívida, os trabalhadores qualificados e não qualificados, os nacionais e os estrangeiros, os paraísos fiscais e a competitividade, não existem como tais. São construções sociais e históricas que dependem inteiramente do sistema jurídico, fiscal, educacional e político que escolhemos estabelecer e das categorias que escolhemos criar. Essas escolhas referem-se, primeiramente, às representações que cada sociedade se faz da justiça social e da economia justa e às relações de poder político-ideológicas entre os diferentes grupos e discursos presentes. O ponto importante é que essas relações de força não são apenas materiais: são também e acima de tudo intelectuais e ideológicas. Em outras palavras, ideias e ideologias contam na história. Elas permitem permanentemente imaginar e estruturar novos mundos e sociedades diferentes. Múltiplas trajetórias são sempre possíveis.

Esta abordagem difere de muitos discursos conservadores que visam explicar que existem fundamentos “naturais” para as desigualdades. De maneira pouco surpreendente, as elites das diferentes sociedades, em todas as épocas e em todas as latitudes, têm a tendência de “naturalizar” as desigualdades, ou seja, tentam dar-lhes fundamentos naturais e objetivos, de explicar que as disparidades sociais existentes são (como deve ser) do interesse dos mais pobres e da sociedade como um todo, e que, em todo caso, sua atual estrutura é a única possível e não pode ser substancialmente modificada sem provocar imensos infortúnios.

A experiência histórica mostra o contrário: as desigualdades variam muito no tempo e no espaço, em tamanho e estrutura, em condições e com uma velocidade que os contemporâneos teriam tido dificuldades para antecipar algumas décadas antes. Foi, às vezes, o resultado de infortúnios. Mas, em seu conjunto, as diversas rupturas e processos revolucionários e políticos que permitiram reduzir e transformar as desigualdades do passado foram um imenso êxito e, ao mesmo tempo, desembocaram na origem das nossas instituições mais valiosas, aquelas que permitiram, precisamente, que a ideia de progresso humano se tornasse uma realidade (o sufrágio universal, a escola gratuita e obrigatória, a universalização do seguro-saúde, o imposto progressivo). É muito provável que o mesmo aconteça no futuro. As desigualdades atuais e as instituições presentes não são as únicas possíveis, apesar do que possam pensar os conservadores, e elas também são chamadas a se transformar e a se reinventar permanentemente.

Mas esta abordagem, centrada nas ideologias, nas instituições e na diversidade das trajetórias possíveis, também se diferencia de certas doutrinas às vezes chamadas de “marxistas”, segundo as quais o estado das forças econômicas e as relações de produção determinariam quase mecanicamente a “superestrutura” ideológica de uma sociedade. Eu insisto, ao contrário, no fato de que existe uma autonomia real da esfera das ideias, isto é, da esfera ideológico-política. Para um mesmo estado de desenvolvimento da economia e das forças produtivas (na medida em que essas palavras têm um significado, o que não é certo), há sempre uma multiplicidade de regimes ideológicos, políticos e desigualitários possíveis.

Por exemplo, a teoria da passagem mecânica do “feudalismo” para o “capitalismo” após a revolução industrial não permite explicar a complexidade e a diversidade das trajetórias históricas e político-ideológicas observadas nos diferentes países e regiões do mundo, especialmente entre regiões colonizadoras e colonizadas, bem como dentro de cada conjunto, e, sobretudo, não nos permite tirar as lições mais úteis para as etapas seguintes.

Ao acompanhar os fios desta história, constatamos que sempre existiram e existirão alternativas. Em todos os níveis de desenvolvimento, existem muitas maneiras de estruturar um sistema econômico, social e político, definir relações de propriedade, organizar um sistema fiscal ou educacional, lidar com um problema de dívida pública ou privada, regular relações entre diferentes comunidades humanas, e assim por diante.

Sempre existem vários caminhos possíveis de organizar uma sociedade e as relações de poder e de propriedade dentro dela, e essas diferenças não são apenas detalhes, longe disso. Em particular, existem muitas maneiras de organizar as relações de propriedade no século XXI, e algumas podem constituir um salto muito mais real do capitalismo do que o caminho que consiste em prometer sua destruição sem se preocupar com o que se seguirá.

O estudo das diferentes trajetórias históricas e das muitas bifurcações inacabadas do passado é o melhor antídoto para o conservadorismo elitista e para a expectativa revolucionária da grande noite. Essa atitude de esperar geralmente dispensa a reflexão sobre o regime político e institucional realmente emancipador a ser aplicado após a grande noite, e geralmente leva a confiar em um poder estatal ao mesmo tempo hipertrofiado e indefinido, o que pode se mostrar tão perigoso quanto a sacralização proprietarista à qual se pretende opor. Esta atitude causou consideráveis danos humanos e políticos ao século XX, danos dos quais ainda não terminamos de pagar o preço.

O fato de que o pós-comunismo (na sua variante russa e na sua versão chinesa, assim como, até certo ponto, na sua variante do leste europeu, apesar de tudo o que diferencia essas três trajetórias) tornou-se no início do século XXI o melhor aliado do hipercapitalismo é a consequência direta dos desastres comunistas stalinistas e maoístas e o abandono de qualquer ambição igualitária e internacionalista que se seguiu. O desastre comunista conseguiu inclusive colocar em segundo plano os danos provocados pela escravidão, pelo colonialismo e pelas ideologias racialistas, assim como os laços profundos que os vinculam à ideologia proprietarista e hipercapitalista, o que não é pouca coisa.

(...)

O progresso humano, o retorno das desigualdades, a diversidade do mundo

Vamos ao cerne da questão. O progresso humano existe, mas é frágil e pode fracassar a qualquer momento devido aos desvios desigualitários e identitários do mundo. O progresso humano existe: basta, para se convencer disso, observar a evolução da saúde e da educação no mundo nos últimos dois séculos (...). A expectativa de vida ao nascer aumentou de cerca de 26 anos no mundo em média em 1820 para 72 anos em 2020. No início do século XIX, a mortalidade infantil atingiu cerca de 20% dos recém-nascidos em todo o mundo no primeiro ano, em comparação com menos de 1% hoje. Com foco nas pessoas que atingem 1 ano de idade, a expectativa de vida ao nascer aumentou de cerca de 32 anos em 1820 para 73 em 2020.

Poderíamos multiplicar os indicadores: a probabilidade de um recém-nascido atingir a idade de 10 anos, a de um adulto atingir a idade de 60 anos, a de um idoso passar cinco ou dez anos da aposentadoria com boa saúde. Em todos esses indicadores, a melhoria a longo prazo é impressionante. Podemos, certamente, encontrar países e momentos em que a expectativa de vida diminui, inclusive em tempos de paz, como a União Soviética na década de 1970 ou os Estados Unidos nos anos 2010, o que geralmente não é um bom sinal para os regimes em questão. Porém, a longo prazo, a tendência de melhoria é inquestionável em todas as partes do mundo, independentemente dos limites das fontes demográficas disponíveis.

A humanidade vive agora com melhor saúde do que jamais viveu; também tem mais acesso à educação e à cultura do que nunca. A Unesco não existia no início do século XIX para definir a alfabetização como passou a fazer a partir de 1958, ou seja, como a capacidade de uma pessoa “ler e escrever um enunciado simples e breve relacionado à sua vida diária”.

No entanto, as informações coletadas em várias pesquisas e censos sugerem que apenas 10% da população mundial acima de 15 anos era alfabetizada no início do século XIX, em comparação com mais de 85% hoje. Aqui, novamente, indicadores mais refinados, como o número médio de anos de escolaridade, que teria passado de apenas um ano, há dois séculos, para mais de oito anos no mundo de hoje e mais de doze anos nos países mais avançados, confirmariam o diagnóstico. Na época de Austen e Balzac, menos de 10% da população mundial tinha acesso à escola primária; na de [Chimamanda Ngozi] Adichie e de Fuentes, mais da metade das gerações mais jovens dos países ricos ingressam na universidade: o que sempre foi um privilégio de classe torna-se aberto à maioria.

Para perceber a magnitude das transformações em jogo, convém lembrar também que a população humana e a renda média aumentaram mais de 10 vezes desde o século XVIII. A primeira passou de cerca de 600 milhões em 1700 para mais de 7 bilhões em 2020, enquanto a segunda, até onde se pode mensurar, passou de um poder de compra médio (expresso em euros em 2020) de apenas 80 euros por mês e por habitante do planeta em torno de 1700 para cerca de 1.000 euros por mês em 2020. Não é certo, no entanto, que essas progressões quantitativas significativas, em relação às quais é útil lembrar que ambas correspondem a taxas de crescimento médio anual de apenas 0,8%, acumuladas, é verdade, ao longo de três séculos (prova de que não é necessário aponta para um crescimento de 5% ao ano para alcançar a felicidade terrena), representam “progressos” em um sentido tão incontestável quanto aqueles alcançados em termos da saúde e educação.

Nos dois casos, a interpretação dessas evoluções é ambígua e abre debates complexos para o futuro. O crescimento demográfico certamente reflete parcialmente a queda da mortalidade infantil e o fato de um número crescente de pais ter conseguido crescer com os filhos vivos, o que não é nada. Entretanto, esse aumento da população, se continuasse no mesmo ritmo, nos levaria a uma população de mais de 70 bilhões de pessoas em três séculos, o que não parece ser nem desejável nem suportável pelo planeta. O crescimento da renda média reflete parcialmente uma melhoria muito real nas condições de vida (três quartos dos habitantes do mundo viviam perto do nível de subsistência no século XVIII, comparado a menos de um quinto hoje), bem como as novas possibilidades de viagens, lazer, reuniões e de emancipação.

No entanto, as contas nacionais mobilizadas aqui para descrever a evolução a longo prazo da renda média e que desde a sua invenção no final do século XVII e início do século XVIII, no Reino Unido e na França, tentam medir a renda nacional, o produto interno bruto e às vezes o capital nacional dos países, apresentam muitos problemas. Além de seu foco em médias e agregados e sua total falta de consideração das desigualdades, estão começando muito lentamente a integrar a questão da sustentabilidade e do capital humano e natural. Por outro lado, sua capacidade de resumir em um único indicador as transformações multidimensionais das condições de vida e do poder de compra de períodos tão longos não deve ser superestimada.

“Os reais progressos realizados em termos de saúde, educação e poder de compra ocultam enormes desigualdades e fragilidades” - Thomas Piketty

Em geral, os reais progressos realizados em termos de saúde, educação e poder de compra ocultam enormes desigualdades e fragilidades. Em 2018, a taxa de mortalidade infantil antes de 1 ano era inferior a 0,1% nos países europeus, norte-americanos e asiáticos mais ricos, mas elas atingem quase 10% nos países africanos mais pobres. A renda média mundial certamente era de 1.000 euros por mês e per capita, mas era de 100 a 200 euros por mês nos países mais pobres e era superior a 3.000 a 4.000 euros por mês nos países mais ricos ou mais ainda em alguns micro-paraísos fiscais que algumas pessoas suspeitam (não sem razão) de roubar o resto do mundo, quando não se trata de um país cuja prosperidade se assenta sobre as emissões de carbono e o aquecimento à frente. Alguns progressos foram feitos, mas isso não muda o fato de que sempre é possível fazer melhor ou, em todo caso, de se interrogar seriamente sobre isso, em vez de se entregar a um sentimento de felicidade diante do sucesso do mundo.

Acima de tudo, esse incontestável progresso humano médio, se compararmos as condições de vida prevalecentes no século XVIII e no início do século XXI, não deve nos fazer esquecer que essa evolução de longo prazo esteve acompanhada por terríveis fases de regressão nas igualdades e na civilização. O “Iluminismo” euro-americano e a Revolução Industrial dependiam de sistemas extremamente violentos de dominações proprietaristas, escravistas e coloniais, que assumiram uma escala histórica sem precedentes durante os séculos XVIII, XIX e XX, antes das próprias potências europeias afundarem em uma fase de autodestruição genocida entre 1914 e 1945. Essas mesmas potências foram forçadas as descolonizações nos anos 1950-1960, quando as autoridades estadunidenses acabaram estendendo os direitos civis aos descendentes de escravos.

Os temores do apocalipse atômico ligados ao conflito comunismo-capitalismo mal tinha sido esquecido após o colapso soviético de 1989-1991, e o apartheid da África do Sul mal tinha sido abolido em 1991-1994, quando o mundo entrou, a partir dos anos 2000-2010, em um novo torpor, o do aquecimento global e de uma tendência geral ao fechamento identitário e xenófobo, em um contexto de aumento sem precedentes das desigualdades socioeconômicas nos países desde os anos 1980-1990, impulsionado por uma ideologia neoproprietarista particularmente radical. Afirmar que todos esses episódios observados desde o século XVIII ao século XXI eram necessários e indispensáveis para que o progresso humano fosse realizado faria pouco sentido. Outras trajetórias e regimes desigualitários eram possíveis, outras trajetórias e outros regimes mais igualitários e mais justos ainda são possíveis.

“Se há uma lição a ser tirada da história mundial dos três últimos séculos, é que o progresso humano não é linear” - Thomas Piketty

Se há uma lição a ser tirada da história mundial dos três últimos séculos, é que o progresso humano não é linear e que seria errado supor que as coisas sempre vão melhorar, e que a livre concorrência dos poderes estatais e dos atores econômicos seria suficiente para nos levar, como por um milagre, à harmonia social e universal. O progresso humano existe, mas é uma luta e, acima de tudo, deve se basear em uma análise fundamentada dos desenvolvimentos históricos passados, com o que eles comportam de positivo e de negativo.(...)

A justificação da desigualdade nas sociedades de proprietários

Basicamente, o argumento formulado pela ideologia proprietarista, de maneira implícita nas declarações dos direitos e nas Constituições, e de maneira muito mais explicitamente nos debates políticos em torno da propriedade que ocorreram durante a Revolução Francesa e ao longo do século XIX, pode ser resumido da seguinte maneira. Se começarmos a questionar os direitos de propriedade adquiridos no passado e sua desigualdade, em nome de uma concepção da justiça social certamente respeitável, mas que inevitavelmente seria sempre imperfeitamente definida e aceita, e nunca poderia ser totalmente consensual, não correríamos o risco de não saber onde parar esse processo perigoso? Não existe o risco de ir direto para a instabilidade política e a caos permanente, o que terminaria se voltando contra os mais modestos? A resposta proprietarista intransigente consiste em que não se deve correr esse risco e que a Caixa de Pandora da redistribuição das propriedades jamais deve ser aberta.

Esse tipo de argumento está constantemente presente durante a Revolução Francesa e explica muitas das ambiguidades e hesitações observadas, particularmente entre as abordagens “históricas” e “linguísticas” dos direitos antigos e de sua transcrição para novos direitos de propriedade. Se questionarmos as corveias e os royalties, não existe o risco de questionar também os aluguéis e todos os direitos de propriedade? Encontraremos esses argumentos nas sociedades de proprietários do século XIX e início do século XXI, e veremos que eles continuam a desempenhar um papel fundamental no debate político contemporâneo, particularmente com o retorno de um discurso neoproprietarista desde o final do século XX.

“A sacralização da propriedade privada é, no fundo, uma resposta natural ao medo do vazio” - Thomas Piketty

A sacralização da propriedade privada é, no fundo, uma resposta natural ao medo do vazio. A partir do momento em que abandonamos o esquema trifuncional, que propunha soluções que permitiam equilibrar o poder de guerreiros e clérigos, e que se apoiava em grande parte em uma transcendência religiosa (essencial para garantir a legitimidade dos clérigos e de seus sábios conselhos), é preciso encontrar novas respostas para garantir a estabilidade da sociedade. O respeito absoluto dos direitos de propriedade adquirido no passado fornece uma nova transcendência para evitar o caos generalizado e preencher o vazio deixado pelo fim da ideologia trifuncional. A sacralização da propriedade é de certa forma uma resposta ao fim da religião como uma ideologia política explícita.

Com base na experiência histórica e na construção de um conhecimento racional baseado nessas experiências, parece-me que é possível ir além dessa resposta certamente natural e compreensível, que é ao mesmo tempo um tanto niilista e preguiçosa e pouco otimista em relação à natureza humana. Tentarei, neste livro, convencer o leitor de que podemos nos apoiar nas lições da história para definir um padrão de justiça e de igualdade mais exigente em matéria de regulação e distribuição da propriedade mais além da simples sacralização dos direitos do passado, norma que certamente só pode ser evolutiva e aberta a deliberações permanentes, mas que é menos satisfatória que a opção cômoda que consiste em assumir como dadas as posições adquiridas e naturalizar as desigualdades produzidas pelo “mercado”.

Além disso, é sobre essa base pragmática, empírica e histórica que as sociedades socialdemocratas se desenvolveram no século XX (que, apesar de todas as suas insuficiências, mostraram que a extrema desigualdade patrimonial do século XIX não era de forma alguma indispensável para garantir a estabilidade e a prosperidade, muito pelo contrário) e que ideologias e movimentos políticos inovadores podem ser construídos no início do século XXI.

A grande fraqueza da ideologia proprietarista é que os direitos de propriedade do passado frequentemente colocam sérios problemas de legitimidade. Acabamos de vê-lo com a Revolução Francesa, que transformou sem dificuldades as corveias em aluguéis, e encontraremos esta dificuldade em muitas ocasiões, em particular com a questão da escravidão e sua abolição nas colônias francesas e britânicas (onde se decidirá que era essencial compensar os proprietários, mas não os escravos), ou ainda com as privatizações pós-comunistas e os saques privados de recursos naturais. De maneira mais geral, o problema é que, independentemente da questão das origens violentas ou ilegítimas das apropriações iniciais, desigualdades patrimoniais consideráveis, duradouras e amplamente arbitrárias tendem a ser permanentemente reconstituídas, tanto nas sociedades hipercapitalistas modernas quanto nas sociedades antigas.

Não obstante, a construção de um padrão de justiça aceitável para o maior número de pessoas apresenta problemas consideráveis, e só poderemos tratar verdadeiramente desta questão complexa somente após nossa investigação, após o exame das diferentes experiências históricas disponíveis e, em particular, das experiências cruciais do século XX em matéria de progressividade tributária e, mais geralmente, da redistribuição das propriedades, o que forneceu a demonstração histórica material de que a desigualdade extrema não era indispensável, bem como os conhecimentos concretos e operacionais sobre os níveis de igualdade e desigualdade que poderiam ser considerados mínimos.

De qualquer forma, o argumento proprietarista, baseado na necessidade de estabilidade institucional, deve ser levado a sério e avaliado com precisão, pelo menos tanto quanto o argumento meritocrático, que insiste mais no mérito individual, argumento que desempenha, sem dúvida, um papel menos central na ideologia proprietarista do século XIX do que na reformulação neoproprietarista em vigor desde o final do século XX. Teremos amplamente a oportunidade de retornar a esses diferentes desenvolvimentos político-ideológicos.

“A ideologia proprietarista dura deve ser analisada pelo que é: um discurso sofisticado e potencialmente convincente sobre certos pontos” - Thomas Piketty

De um modo geral, a ideologia proprietarista dura deve ser analisada pelo que é: um discurso sofisticado e potencialmente convincente sobre certos pontos (porque a propriedade privada, corretamente redefinida dentro de seus limites e direitos, faz, efetivamente, parte dos arranjos institucionais que permitem que as diferentes aspirações e subjetividades individuais se expressem e interajam construtivamente) e, ao mesmo tempo, uma ideologia desigualitária que, na sua forma mais extrema e mais severa, visa simplesmente justificar uma forma particular de dominação social, muitas vezes de maneira excessiva e caricatural.

De fato, é uma ideologia muito prática para aqueles que estão no topo da escala, tanto no que diz respeito à desigualdade entre indivíduos quanto à desigualdade entre nações. Os indivíduos mais ricos encontram argumentos para justificar sua posição em relação aos mais pobres, em nome de seus esforços e méritos, mas também em nome da necessidade de estabilidade que beneficiará a sociedade como um todo. Os países mais ricos também podem encontrar razões para justificar sua dominação sobre os mais pobres, em nome da suposta superioridade de suas regras e instituições.

O problema é que esses argumentos e os elementos factuais apresentados por uns e outros para apoiá-los nem sempre são muito convincentes. Mas antes de analisar esses desenvolvimentos e essas crises, é importante começar por estudar a evolução das sociedades de proprietaristas no século XIX, na França e em outros países europeus, ao final desse momento importante e ambíguo que foi a Revolução Francesa.

Criado em 2019-09-26 14:53:45

Exposição E Daí? provoca debate na internet

Mostra de âmbito nacional e internacional é lançada por coletivo artístico para promover reflexão em tempos de caos.

Pinturas óleo sobre tela refletem de maneira crítica e ácida os recentes e trágicos acontecimentos políticos que assolam o Brasil. A ideia é, por meio da arte, promover a reflexão, retratar um País que ameaça as liberdades individuais e instiga a violência. O que será do futuro da nação brasileira?

Tendo em vista os acontecimentos que atingem a mídia, a sociedade e os indivíduos, a exposição E Daí? chegou ao Instragram (@expo_e_dai) para promover a discussão sobre a situação de incivilidade que tomou conta do país.

No total, são 24 obras originais que mostram declarações de ódio do atual governo de Jair Bolsonaro contra direitos humanos, homossexuais, mulheres, pobres, negros, jornalistas, nordestinos, dentre tantos outros.

Idealizada no início de 2020, a exposição E Daí? foi produzida pelo coletivo que leva o mesmo nome da exposição. O objetivo é instigar o debate virtual já que, devido à pandemia, a internet tem sido o melhor meio encontrado para manter a conexão com a sociedade.

E quem passar pelo Instagram do grupo (@expo_e_dai) poderá conferir as obras inspiradas em pôsteres nazistas misturadas com frases de ódio, ofensas e humilhações proferidas pelo presidente, seus ministros e apoiadores. Muitas delas expostas na imprensa como reproduções literais da propaganda de Adolf Hitler.

“O Brasil se transformou numa terra sem lei onde ofensas, insultos, gritos e humilhações, sejam nas ruas, nas entrevistas e até nas redes sociais, passaram a ser não só toleradas, como em muitos casos exaltadas e aplaudidas”, explicam representantes do Coletivo E daí?.

Segundo o grupo, dia após dia os jornais alertam sobre ataques à democracia e denunciam as investigações ilegais aos opositores.

“Gritos, coações, humilhações públicas, perseguições e ataques multiplicam-se com frases ditas por membros do atual governo e seus seguidores“, ressalta o coletivo.


_____________
Serviço:
Exposição E Daí?
Instragram: @expo_e_dai

Criado em 2020-11-01 20:53:49

Ameaças de morte fazem Jean Wyllys deixar o Brasil

Depois de receber várias ameaças de morte e sofrer todo tipo de calunia e difamação nas redes sociais, o deputado federal Jean Wyllys (PSol), eleito pela terceira  vez consecutiva pelo Estado do Rio de Janeiro decidiu deixar o Brasil e se exilar no exterior. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, Jean disse que teme ser assassinado da mesma forma que a vereadora do PSol Marielle Franco.

A noticia surpreendeu o movimento gay brasileiro e todos os seus amigos e eleitores. O clima no Brasil está tão pesado que outras lideranças nacionais já se preparam para deixar o país.

David Miranda, o suplente do PSol que vai assumir o lugar de Jean na Câmara dos Deputados disse que no twitter que o presidente Jair Bolsonaro deveria "respeitar Jean Wyllys" e que vai assumir as lutas LGBTs defendidas por seu antecessor. O deputado federal eleito Marcelo Freixo (PSol-RJ) disse também nas redes sociais que Bolsonaro ao dizer que este é "um grande dia" merece uma reprimenda: "Que tal você começar a se comportar como presidente da República e para de agir como um moleque. Tenha postura".

Manuela D´Ávila, ex-candidata do PCdoB à vice-presidência da República na chapa de Fernando Haddad, escreveu ao deputado Jean Wyllys para dizer que "quando um cidadão é obrigado a deixar seu próprio país para não morrer, já não somos uma nação. Quando a força bruta impede um parlamentar de exercer livremente o seu mandato, aí já não há democracia e estado de direito. O ar está se tornando irrespirável".

"As recentes revelações das ligações dos prováveis assassinos de Marielle com o clã Bolsonaro já são do conhecimento de todos. Imagine o que é viver em um país cujo presidente defende o assassinato e a tortura dos opositores, que tem vínculos com milicianos e vem dando guarida a assassinos", disse Manuela.

A seguir, a íntegra do texto de Manuela a Jean Wyllys:

"Meu querido amigo Jean,

Li sua entrevista para a Folha com o coração na garanta e os olhos molhados. Coração e lágrimas que marcam nossa amizade e militância comum. São anos de uma amizade linda marcada por nossas dores comuns: a dor da solidão em Brasília, a dor da violência das mentiras, do preconceito, do machismo, da homofobia. Da raiva que provocamos com nossa simples existência e luta nos vermes que tomaram a política em nosso país.

Leio essa notícia e me lembro de nossas mensagens recentes. Da felicidade de podermos existir - frações de segundo - sem a quantidade de ódio que projetam sob nos. Difícil explicar a eles porque não suportamos a pretensa segurança dos carros blindados, das escoltas. Eles não sabem como lutamos pela nossa liberdade! Como nossa existência é construída em cada vivência! Não sabem como o menino Jean “apanhou” pra brilhar e para não morrer de fome. Não sabem que, se tivermos que andar com o vidro fechado, sem tomar o vento na cara, já morremos um pouco. E não queremos morrer nada!!!

Você foi meu ombro amigo quando eu decidi voltar pra perto de casa, abrindo mão de Brasília. Eu vivia o meu limite e queria estar perto daquilo que amo.

Fico feliz que agora você tenha optado por cuidar de si diante da enxurrada de ameaças que sofre. Você, corajoso como sempre, ao decidir abrir mão do mandato e sair do Brasil desnuda por todos nós, meu amigo querido, o terror em que vivemos, o ambiente fascistoide que tomou conta da sociedade brasileira.

Fico Feliz que cuide De sua cabeça e de seu coração. De sua saúde. De sua sanidade. Só assim você brilhará com a intensidade que tem. E sua luz, meu amigo querido, deixa cego aqueles que carregam apenas ódio e preconceito dentro de si.

Te amo. Seguimos juntos.

Dedico a você “Ela e eu”, a música que você cantou lindamente para mim no lançamento de minha candidatura

Há flores de cores concentradas

Ondas queimam rochas com seu sal

Vibrações do sol no pó da estrada

Muita coisa, quase nada

Cataclisma, os carnaval

Há muitos planetas habitados

E o vazio da imensidão do céu

Bem e mal, e boca e mel

E essa voz que Deus me deu

Mas nada é igual a ela e eu

Lágrimas encharcam minha cara

Vivo a força rara dessa dor

Clara como a luz do sol que tudo anima

Como a própria perfeição da rima para amor

Outro homem poderá banhar-se

Na luz que com essa mulher cresceu

Muito momento que nasce

Muito tempo que morreu

Mas nada é igual a ela e eu"

O ex-ministro da Cultura, Juca Ferreira, do governo Dilma Rousseff também escreveu a Jean Wyllys:

"Aos poucos vai se instalando no país um clima semelhante aos produzidos pelas ditaduras...

A você, querido Jean Wyllys meu reconhecimento por sua contribuição, minha solidariedade e meu carinho. A resistência exige cuidados com a vida e preservação da capacidade de lutar.

Lá fora, no autoexílio, sua voz será a voz de todos nós que lutamos pela liberdade, pela vida com qualidade para todos, contra a política predatória, a brutalidade, a barbárie e contra todos os preconceitos.

Seguimos juntos.

#MarielleVive

Juca Ferreira"

A seguir, carta de Jean Wyllys à Executiva do Partido Socialismo e Liberdade - (PSol):

"Queridas companheiras e queridos companheiros,

Dirijo-me hoje a vocês, com dor e profundo pesar no coração, para comunicar-lhes que não tomarei posse no cargo de deputado federal para o qual fui eleito no ano passado.

Comuniquei o fato, no início desta semana, ao presidente do nosso partido, Juliano Medeiros, e também ao líder de nossa bancada, deputado Ivan Valente.

Tenho orgulho de compor as fileiras do PSol, ao lado de todas e todos vocês, na luta incansável por um mundo mais justo, igualitário e livre de preconceitos.

Tenho consciência do legado que estou deixando ao partido e ao Brasil, especialmente no que diz respeito às chamadas “pautas identitárias” (na verdade, as reivindicações de minorias sociais, sexuais e étnicas por cidadania plena e estima social) e de vanguarda, que estão contidas nos projetos que apresentei e nas bandeiras que defendo; conto com vocês para darem continuidade a essa luta no Parlamento.

Não deixo o cargo de maneira irrefletida. Foi decisão pensada, ponderada, porém sofrida, difícil. Mas o fato é que eu cheguei ao meu limite. Minha vida está, há muito tempo, pela metade; quebrada, por conta das ameaças de morte e da pesada difamação que sofro desde o primeiro mandato e que se intensificaram nos últimos três anos, notadamente no ano passado. Por conta delas, deixei de fazer as coisas simples e comuns que qualquer um de vocês pode fazer com tranquilidade. Vivo sob escolta há quase um ano. Praticamente só saía de casa para ir a agendas de trabalho e aeroportos. Afinal, como não se sentir constrangido de ir escoltado à praia ou a uma festa? Preferia não ir, me resignando à solidão doméstica. Aos amigos, costumava dizer que estava em cárcere privado ou prisão domiciliar sem ter cometido nenhum crime.

Todo esse horror também afetou muito a minha família, de quem sou arrimo. As ameaças se estenderam também a meus irmãos, irmãs e à minha mãe. E não posso nem devo mantê-los em situação de risco; da mesma forma, tenho obrigação de preservar minha vida.

Ressalto que até a imprensa mais reacionária reconheceu, no ano passado, que sou a personalidade pública mais vítima de fake news no país. São mentiras e calúnias frequentes e abundantes que objetivam me destruir como homem público e também como ser humano. Mais: mesmo diante da Medida Cautelar que me foi concedida pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da OEA, reconhecendo que estou sob risco iminente de morte, o Estado brasileiro se calou; no recurso, não chegou a dizer sequer que sofro preconceito, e colocaram a palavra homofobia entre aspas, como se a homofobia que mata centenas de LGBTs no Brasil por ano fosse uma invenção minha. Da polícia federal brasileira, para os inúmeros protocolos de denúncias que fiz, recebi o silêncio.

Esta semana, em que tive convicção de que não poderia - para minha saúde física e emocional e de minha família - continuar a viver de maneira precária e pela metade, foi a semana em que notícias começaram a desnudar o planejamento cruel e inaceitável da brutal execução de nossa companheira e minha amiga Marielle Franco. Vejam, companheiras e companheiros, estamos falando de sicários que vivem no Rio de Janeiro, estado onde moro, que assassinaram uma companheira de lutas, e que mantém ligações estreitas com pessoas que se opõem publicamente às minhas bandeiras e até mesmo à própria existência de pessoas LGBT. Exemplo disso foi o aumento, nos últimos meses, do índice de assassinatos de pessoas LGBTs no Brasil.

Portanto, volto a dizer, essa decisão dolorosa e dificílima visa à preservação de minha vida. O Brasil nunca foi terra segura para LGBTs nem para os defensores de direitos humanos, e agora o cenário piorou muito. Quero reencontrar a tranquilidade que está numa vida sem as palavras medo, risco, ameaça, calúnias, insultos, insegurança. Redescobri essa vida no recesso parlamentar, fora do país. E estou certo de preciso disso por mais tempo, para continuar vivo e me fortalecer. Deixar de tomar posse; deixar o Parlamento para não ter que estar sob ameaças de morte e difamação não significa abandonar as minhas convicções nem deixar o lado certo da história. Significa apenas a opção por viver por inteiro para me entregar as essas convicções por inteiro em outro momento e de outra forma.

Diz a canção que cada ser, em si, carrega o dom de ser capaz e ser feliz. Estou indo em busca de um lugar para exercitar esse dom novamente, pois aí, sob esse clima, já não era mais possível. 

Agradeço ao Juliano e ao Ivan pelas palavras de apoio e outorgo ao nosso presidente a tarefa de tratar de toda a tramitação burocrática que se fará necessária.

Despeço-me de vocês com meu abraço forte, um salve aos que estão chegando no Legislativo agora e à militância do partido, um beijo nos que conviveram comigo na Câmara, mais um abraço fortíssimo nos meus assessores e assessoras queridas, sem os quais não haveria mandato, esperando que a vida nos coloque juntos novamente um dia.

Até um dia!

23 de janeiro de 2019

Jean Wyllys"

Criado em 2019-01-25 02:37:22

Eugênio Aragão escreve aos seus ex-colegas da Lava Jato

Eugênio Aragão (*) –

Sim. Ex-colegas, porque, a despeito de a Constituição me conferir a vitaliciedade no cargo de membro do Ministério Público Federal, nada há, hoje, que me identifique com vocês, a não ser uma ilusão passada de que a instituição a que pertenci podia fazer uma diferença transformadora na precária democracia brasileira. Superada a ilusão diante das péssimas práticas de seus membros, nego-os como colegas.

Já há semanas venho sentindo náuseas ao ler suas mensagens, trocadas pelo aplicativo Telegram e agora reveladas pelo sítio The Intercept Brasil, num serviço de inestimável valor para nossa sociedade deformada pela polarização que vocês provocaram. Na verdade, já sabia que esse era o tom de suas maquinações, porque já os conheço bem, uns trogloditas que espasmam arrogância e megalomania pela rede interna da casa. Quando aí estava, tentei discutir com vocês, mostrar erros em que estavam incidindo no discurso pequeno e pretensioso que pululava pelos computadores de serviço. Fui rejeitado por isso, porque Narciso rejeita tudo que não é espelho. E me recusava a me espelhar em vocês, fedelhos incorrigíveis.

A mim vocês não convencem com seu pobre refrão de que “não reconhecem a autenticidade de mensagens obtidas por meio criminoso”. Por muito menos, vocês “reconheceram” diálogo da Presidenta legitimamente eleita Dilma Rousseff com o Ex-Presidente Lula, interceptado e divulgado de forma criminosa. Seu guru, hoje ministro da justiça de um desqualificado, ainda teve o desplante de dizer que era irrelevante a forma como fora obtido acesso ao diálogo, pois relevaria mais o seu conteúdo. Tomem! Isso serve que nem uma luva nas mãos ignóbeis de vocês. Quem faz coisa errada e não se emenda acaba por ser atropelado pelo próprio erro.

Subiu-lhes à cabeça. Perderam toda capacidade de discernir entre o certo e o errado, entre o público e o privado, tamanha a prepotência que os cega. Não têm qualquer autocrítica. Nem diante do desnudamento de sua vilania, são capazes de um gesto de satisfação, de um pedido de desculpas e do reconhecimento do erro. Covardes, escondem-se na formalidade que negaram àqueles que elegeram para seus inimigos.

Esquecem-se que o celular de serviço não se presta a garantir privacidade ao agente público que o usa. Celulares de serviço são instrumentos de trabalho, para comunicação no trabalho. Submete-se, seu uso, aos princípios da administração, entre eles o da publicidade, que demanda transparência nas ações dos agentes públicos. Conversas de cunho pessoal ali não devem ter lugar e, diante do risco de intrusão, também não devem por eles trafegar mensagens confidenciais. Se houver quebra de confidencialidade pela invasão do celular, a culpa pelo dano ao serviço é do agente público que agiu com pouco caso para com o interesse da administração e depositou sigilo funcional na rede ou na nuvem virtual. Pode por isso ser responsabilizado, seja na via da improbidade administrativa, seja na via disciplinar, seja no âmbito penal por dolo eventual na violação do sigilo funcional. Não há, portanto, que apontarem o dedo para os jornalistas que tornaram público o que público devesse ser.

De qualquer sorte, tenho as mensagens como autênticas, porque o estilo de vocês – ou a falta dele – é inconfundível. Mesmo um ficcionista genial não conseguiria inventar tamanha empáfia. Tem que ser membro do MPF concurseiro para chegar a tanto! Umas menininhas e uns menininhos “remplis de soi-mêmes”, filhinhas e filhinhos de papai que nunca souberam o que é sofrer restrições de ordem material e discriminação no dia a dia. Sempre tiveram sua bola levantada, a levar o ego junto. Pessimamente educados por seus pais que não lhes puxaram as orelhas, vocês são uns monstrengos incapazes de qualquer compaixão. A única forma de solidariedade que conhecem é a de uma horda de malfeitores entre si, um encobrindo um ao outro, condescendentes com os ilícitos que cada um pratica em suas maquinações que ousam chamar de “causa”. Matilhas de hienas também conhecem a solidariedade no reparto da carniça, mas, como vocês, não têm empatia.

Digo isso com o asco que sinto de vocês hoje. Sinto-me mal. Tenho vontade de vomitar. Ao ler as mensagens trocadas entre si em momentos dramáticos da vida pessoal do Ex-Presidente Lula, tenho a prova do que sempre suspeitei: de que tem um quê de psicopatas nessa turma de jovens procuradores, uma deformação de caráter decorrente, talvez, do inebriamento pelo sucesso. Quando passaram no concurso, acharam que levaram o bilhete da sorte, que lhes garantia poder, prestígio e dinheiro, sem qualquer contrapartida em responsabilidade.

Sim, dinheiro! Alguns de vocês venderam sua atuação pública em palestras privadas, em troca de quarenta moedas de prata. Mas negaram ao Ex-Presidente Lula o direito de, já sem vínculo com a administração, fazer palestras empresariais. As palestras de vocês, a passarem o trator sobre a presunção de inocência, são sagradas. Mas as de Lula, que dão conta de sua visão de Estado como ator político que é, são profanas. E tudo fizeram na sorrelfa, enganando até o corregedor e o CNMP.

Agora, a cerejinha do bolo. Chamam Lula de “safado”, fazem troça de seu sofrimento, sugerem que a trágica morte de Dona Mariza foi queima de arquivo… chamam o luto de “mimimi” e negam o caráter humano àquele que tão odienta e doentiamente perseguem! Só me resta perguntar: onde vocês aprenderam a ser nazistas? Pois tenho certeza que o desprezo de vocês pelo padecimento alheio não é diferente daqueles que empurravam multidões para as câmaras de gás sem qualquer remorso, escorando-se no “dever para com o povo alemão”. Ao externarem tamanha crueldade para com o Ex-Presidente Lula, vocês também invocarão o dever para com o Brasil?

Declarem-se suspeitos em relação ao alvo de seu ódio. Ainda é tempo de porem a mão na consciência, mostrarem sincero remorso e arrependimento, porque aqui se faz e aqui se paga. A mão à palmatória pode redimi-los, desde que o façam com a humildade que até hoje não souberam cultivar e empreendam seu caminho a Canossa, para pedirem perdão a quem ofenderam. Do contrário, a história não lhes perdoará, por mais que os órgãos de controle, imbuídos de espírito de corpo, os queiram proteger. A hora da verdade chegou e, nela, Lula se revela como vítima da mais sórdida ação de perseguição política empreendida pelo judiciário contra um líder popular na história de nosso país. Mais cedo ou mais tarde ele estará solto e inocentado, já vocês…

Despeço-me aqui com uma dor pungente no coração. Sangro na alma sempre que constato a monstruosidade em que se transformou o Ministério Público Federal. E vocês são a toxina que acometeu o órgão. São tudo que não queríamos ser quando lutamos, na Constituinte, pelo fortalecimento institucional. Esse desvio de vocês é nosso fracasso. Temos que dormir com isso.

________________

(*) Eugênio Aragão: ex-ministro da Justiça e membro aposentado do Ministério Público Federal.

Artigo publicado originalmente no site:

https://jornalggn.com.br/artigos/carta-publica-aos-ex-colegas-da-lava-jato-por-eugenio-aragao/amp/

 

Criado em 2019-08-28 13:05:52

Café Cultural com lançamento do livro Vadândora

A Associação Brasileira de Economistas pela Democracia (ABED) lança neste sábado, 31/10, às 17h, em seu Café Cultural, o livro de poema Vadândora, de José Carlos Peliano.

A atividade virtual pode ser acompanhada pelo Facebook e pelo Youtube da ABED. O livro pode ser adquirido por R$ 40 no site da editora – clique aqui – ou pelo Facebook e Instagram da Editora Patuá.

A capa desta edição é da artista gráfica Adriana Peliano. A Carta Prefácio é do poeta Thiago de Mello, que transcrevemos abaixo:

“Santiago, 22 de março de 1994.

Querido José Carlos,

Recebi hoje de tardinha e agora, noite na cordilheira, já li todinho e reli vários lindos poemas do seu Vadândora. Em voz alta, como pedem a cadência e a melodia dos seus sonetos. Estou feliz. Não pelo prêmio que você ganhou, por muito merecido que seja. Pela qualidade mesma de sua poesia, cujo poder de encantação alcança tanto a sensibilidade quanto a inteligência (acho que já lhe disse que a inteligência também tem sentimento).

Contente também porque os seus poemas são construídos com imagens e metáforas que permitem o acesso às suas intimidades. Num momento em que poetas de sua geração parecem empenhados em construir versos impenetráveis, poemas que eu simplesmente não consigo entender nem alcançar o que eles pretendem dizer, eis que você nos entrega este admirável livro, com poemas bonitos e muito bem construídos, e que nos dizem coisas, muito bem ditas.

Contente ainda porque este seu livro, posto que todo de sonetos, revela uma simplicidade de linguagem que só se conquista com muito trabalho. Escrever difícil, José Carlos, é fácil; difícil mesmo é escrever simples. Só o talento não basta para a construção da beleza poética. Você foi capaz dessa humildade que exige o trabalho. Estou orgulhoso de ser seu amigo.

Dos seus sonetos sem verbos, o melhor que posso lhe dizer é que nem me dei conta, durante a leitura deles, de tal proeza. Mas cuidado: não caia na tentação do malabarismo nem da acrobacia no seu amoroso convívio com as palavras. As palavras da poesia, você sabe, não gostam de circo.

Vou lhe mandar uns decassílabos contando um momento de felicidade de uma aranha lá da floresta. E vamos comer feijão verde com a carne regada a manteiga de garrafa e banhada pela ternura de Heliana. Muitas bênçãos para a sua casa.”

Conheça aqui alguns dos poemas de José Carlos Peliano:

Reverberação

Passo a passo um passado, uma aventura,
câmera lenta, rumo ao movimento,
um viajante comum, jornada dura
bagagem de alegria e sofrimento.

Bruma, muita paixão, muita loucura,
água viva no mar do sentimento,
em desordem o peito, ruptura,
salto à frente, mergulho atrás, tormento.

Coração trapezista pela rua
cada olhar mil mistérios ou nenhum
sob as tintas do sol e o giz da lua.

Entre os diversos sonhos sem jejum
somente uma certeza nua e crua:
conjugação suspensa e verbo algum.

O olhar

A paisagem que olho a olho ajeita,
não pelo olho, mas pela paisagem,
na visão mesma da esquerda e direita,
leva o ato encenar toda a mensagem.

Pelo olhar que as visões vão à sondagem,
a forma que o espírito aproveita
para atingir crescente aprendizagem,
composição de espectros é feita.

Faz-se pouco o infinito em toda imagem,
muito vai dar em nada em cada espreita,
pelas visões que exprimem a linguagem
de os olhos desejarem a colheita,
de os desejos olharem a montagem
da ilusão virtual e rarefeita.

O voo

Pelos céus se esquecer e se esquecer,
aos ares se lançar impunemente,
lograr um corpo eólico e demente,
invadir os limites de ascender.

Atrás do azul ir pela corrente
dos bons ventos que abraçam todo o ser,
no espaço aberto as asas distender
e deslizar completa e calmamente.

Alcançar outros pássaros sem rumo
e vagar devagar na imensidão
como um alegre bando vagabundo.

Lá de cima atirar o fio e o prumo
que equilibram a dor que o coração
sofre diante dos males do mundo.

Pedra

Arquitetura alguma te fez pura,
plural, intransitiva, indecifrável.
O infinito na tua face dura
com o universo em ti impenetrável.

Tens do tempo o silêncio inabalável
como sangue talhado ou noite escura
e a magia de ser imponderável
ao dançar pelo espaço em partitura.

Pedra filosofal, pedra angular,
pedra mármore, pedra de moinho,
qual segredo é o teu pedra, de onde vem?

Desde o musgo que em ti acha lugar
aos templos que sustentas em teu ninho
levas a vida muito mais além.

Pássara

Por entre as tuas coxas, delicada
e carinhosamente as coxas tuas
de mãos postas em prece abençoada
ao redor da paixão de fé das duas.

Feminina a paixão e bem cuidada
sob todos os sóis, chuvas e luas,
cativa em meio à concha desejada
por ondas sensuais de praias nuas.

Concha ardente com pele de veludo
na proteção do mar da cor da vida
de curso exato ao barco circundante,
atrás da tentação sem fim e em tudo
pérola do prazer sob medida
por mim, teu marinheiro navegante.

Enigma

Vem a ser,
mas não há,
quem viver
saberá.

Antever
só não dá,
esquecer
perderá.

Pelos anos
sobre os céus
vai pairar.

Sem enganos,
mesmo véus,
vai reinar.
_________________

Biografia

José Carlos Peliano é poeta e escritor de Juiz de Fora, economista, mestrado Vanderbilt/EUA e doutorado na Unicamp, mora em Brasília. Foi no IPEA técnico e coordenador setorial, no CNPq diretor de Instituto de Pesquisa e na Câmara dos Deputados assessor de economia e C&T. Membro da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia (ABED) e ANE (Associação Nacional dos Escritores).

Obras do autor:

Passagem de Nível, poesia, Galilei/Bsb, 1979.
A Faca no ar, poesia, edição do autor/Bsb, 1988 - Prêmio Raimundo Correa, menção honrosa ao poema de mesmo nome, Shogun/RJ, 1983.
Tetraedro e Águas Emendadas, poesia, Prêmio Jorge de Lima, menções honrosas, UBE/RJ, 1993.
Vadândora, poesia, Prêmio Jorge de Lima, UBE/RJ, 1994.
Os Pireneus e os Outros Eus, poesia, aceito Lei Rouanet, Relume-Dumará, RJ, 1996.
Dois Oceanos, poesia, Barbara Bela editora/Bsb, Prêmio Sec. Cultura/DF, 1999.
Brasilice, miniconto, Prêmio Sociedade Lewis Carroll do Brasil/SP, 2010.
Degrau por degrau, romance, Kazuá/SP, 2017.
A Casa Voadora, história infantil, Patuá/SP, 2019.
Instagram: #poemativo e blog www.janeladepoemas.blogspot.com
Poesias e contos em antologias, mídias sociais e imprensa escrita.

Criado em 2020-10-27 22:52:34

GDF anuncia intervenção militar em escolas públicas

Com o pretexto de combater a violência escolar, o Governo do Distrito Federal anunciou ao Sinpro na última sexta-feira (11/1) a intervenção militar em quatro escolas públicas do DF. O projeto piloto, que faz parte do programa SOS Segurança, terá parceria com a Polícia Militar e será implantado no Centro Educacional 1 da Estrutural, CED 3 de Sobradinho, CED 308 do Recanto e CED 7 de Ceilândia.

Mesmo diante de uma mudança tão drástica, em nenhum momento a comunidade escolar e o segmento professores foram consultados pelo governo, embora o GDF afirme que os gestores foram consultados. A consulta é crucial, uma vez que o projeto imposto pelo GDF introduzirá de 20 a 25 militares dentro das escolas com a função de ‘ajudar’ na formação disciplinar de alunos do 6º ao 9º ano do ensino fundamental e do ensino médio. O projeto fere a Lei de Gestão Democrática, que garante a participação da comunidade nas decisões do dia-a-dia escolar.

A diretoria colegiada do Sinpro reconhece o problema da violência nas escolas públicas, por isso criou, em 2008, a campanha "Quem bate na escola maltrata muita gente". Vários(as) professores(as), orientadores(as) educacionais e estudantes são vítimas dos mais variados tipos de agressões, fator que é combatido diariamente pelo sindicato. Os dados são resultado de pesquisa recente feita pelo sindicato. Mas a solução para esse problema não é a intervenção militar nas escolas, mas sim o investimento na educação pública e o respeito ao Plano Distrital de Educação (PDE).

Com a implantação desse projeto, o governo não prioriza o investimento de recursos na rede pública de ensino e ainda cria um modelo de exclusão dos(as) estudantes que não atendam ao padrão de gestão escolar militar, priorizando aqueles que possuem um perfil pré-estipulado pela Secretaria de Segurança.

O problema da escola pública é a falta de investimento e isso fica nítido com os resultados obtidos pelos institutos federais de ensino. Com um custo de R$ 16 mil por estudante, segundo dados do IFB, os índices de avaliação no IDEB são superiores aos das escolas militares.

Segundo dados do Ministério da Educação, o custo em escolas militares no país chega a R$ 19 mil por aluno, percentual duas vezes maior que o da rede pública do DF, que é de R$ 10 mil por estudante, segundo a Codeplan. Se todo esse recurso fosse empregado na escola pública e na cultura, promoveria uma série de melhorias na estrutura e em outros setores que carecem de investimento por parte do governo, exemplo da nomeação de mais professores e orientadores.

Para garantir uma educação pública gratuita, plural, com gestão democrática, acesso a todos e todas, e de qualidade é necessário ampliar os investimentos, mas não por meio de um modelo que pode excluir parte dos estudantes da rede pública. O Sinpro exige respeito à Lei de Gestão Democrática, ao PDE e que as escolas e a comunidade escolar sejam protagonistas das mudanças de metodologias a serem implantadas nas escolas do Distrito Federal.

_______________________

Com Luis Ricardo, jornalista do Sinprod-DF

 

Criado em 2019-01-15 00:26:40

  • Início
  • Anterior
  • 57
  • 58
  • 59
  • 60
  • 61
  • 62
  • 63
  • 64
  • 65
  • 66
  • Próximo
  • Fim

Quem somos | Pacto com o leitor | Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros | Política de Privacidade e Cookies | Por que o nome BRASILIÁRIOS

Copyright © 2016 BRASILIÁRIOS.COM.

SiteLock