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O canal de TV por assinatura CineBrasilTV lança, neste sábado, 13/2, às 21h35, o filme Sol da Bahia, documentário do cineasta Orlando Senna.
Neste filme, o cineasta baiano presta homenagem à sua terra natal e a uma das histórias mais fascinantes do povo baiano: a Guerra da Independência da Bahia. Ocorrida de 1821 a 1823, o conflito de grandes proporções expulsou, definitivamente, as tropas portuguesas e consolidou a independência do Brasil, proclamada em 1822 por Dom Pedro I.
A independência da Bahia é comemorada no dia 2 de Julho, com um tradicional desfile, um cortejo que segue pelas ruas de Salvador, homenageando os heróis e personagens deste fato histórico do Brasil.
O filme aborda os feitos de alguns combatentes, elevados a ícones da cultura baiana, mas conhecidos superficialmente na cultura brasileira, como a freira-mártir Joana Angélica, a mulher-soldado Maria Quitéria, a escrava liberta e exímia capoeirista Maria Felipa, o índio Bartolomeu Jacaré, o Corneteiro Lopes e Madeira de Melo.
Sol da Bahia é um documentário-ensaio, gênero cujo tom está lastreado na soma harmônica entre o registro da realidade e uma reflexão subjetiva sobre o mundo, com o uso de atores, locações originais de onde os fatos ocorreram e imagens do desfile de 2 de Julho.
Com produção da HL Filmes, de Tocantins, o documentário reuniu equipe de profissionais como o baiano Pedro Semanovischi, diretor de fotografia, e os tocantinenses Nival Correia, diretor de produção, e o produtor Hermes Leal, além do elenco de atores baianos que dramatizam as cenas dos combatentes, Caco Monteiro (Madeira de Melo), Gabriela Barreto (Maria Quitéria), Moreno Mattos (Corneteiro Lopes), Jaime Cunha (Bartolomeu Jacaré), Clara de Lima (Joana Angélica) e Negona Irará (Maria Felipa).
O filme foi realizado por meio do financiamento do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), da Ancine, para o canal de TV por assinatura CineBrasilTV.

Senna dirige Clara de Lima no papel de Joana Angélica

Senna e o ator Moreno Mattos no papel do Corneteiro Lopes
Quem é Orlando Senna
O destacado cineasta e teórico do cinema brasileiro, Orlando Senna, foi diretor e roteirista de 30 filmes de ficção e documentários, incluindo Iracema, uma Transa Amazônica (1974), Diamante Bruto (1977), entre outros. Seus filmes receberam prêmios nos festivais de Cannes, Figueira da Foz, Taormina, Pesaro, Havana, Porto Rico, Brasília, Gramado e Rio de Janeiro. Em 2018, estreou Idade da Água, produção da HL Filmes sobre a crise hídrica da Amazônia, e, em 2020, o longa de ficção Longe do Paraíso, uma produção da Araçá Azul, premiada como melhor filme pelo público do Festival de Brasília 2020.
Dirigiu cerca de 30 peças de teatro e publicou os livros Um Gosto da Eternidade e Os Lençóis e os Sonhos. Senna tornou-se jornalista e começou a produzir na área de cinema nos anos 60. Trabalhou como editor e colaborador do Suplemento Cultural do Diário de Notícias de Salvador, e dirigiu documentários, a exemplo de Imagem da Terra e do Povo (produzido por Glauber Rocha), Lenda Africana na Bahia, entre outros.
Trabalhou em São Paulo com o Teatro de cordel, no ano de 1970, e em 1987, ajudou a implantar e dirigiu a Escuela Internacional de Cine Y TV – Santo Antonio de Los Baños, em Cuba. Criou e dirigiu o Curso de Dramaturgia Audiovisual e Roteiro do Centro de Capacitação Cinematográfica do México e dirigiu o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza, no Ceará. Em 2003, assumiu a Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, até 2007, quando assumiu a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que gere a TV Brasil.
HL Filmes - Produtora
A HL Filmes é uma produtora de cinema e televisão sediada em São Paulo e em Palmas, em Tocantins, com cinco longas-metragens e quatro séries documentais produzidos recentemente.
Entre os filmes, destaca-se o longa-metragem “Idade de Água” (2018), do famoso Orlando Senna, diretor do premiado “Iracema – Uma Transa Amazônica” (1980), o último dos cineastas do Cinema Novo, que já acumula grande participação e prêmios em festivais de cinema no Brasil e em vários países, como Espanha, Argentina, Chile e Cuba, e disponível no Amazon Prime Video, no Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e Timor Leste.
A HL Filmes lançou, recentemente, o documentário A Lei e o Medo, de Hermes Leal, sobre o temor da perda de conquistas democráticas perante a eleição de Bolsonaro, em 2018, que teve estreia virtual em maio de 2020.
Em 2021, lançará a série Na Força da Lei, de Hermes Leal, no canal CineBrasilTV, sobre as alterações nas leis do Brasil com a mudança de governo.
A HL Filmes também produziu a série filosófica Pensamento Contemporâneo, de Hermes Leal, baseado no Café Filosófico da TV Cultura, exibida no CineBrasilTV (2017) e no Canal Curta! (2018) e disponível na Amazon Prime Video e no Looke. E a série sobre cinema, Cinema em Transe, exibida no Prime Box Brazil (2019) e A&E (2020-2021).
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Serviço:
Filme: Sol da Bahia
Duração: 73 minutos
Roteiro e Direção: Orlando Senna
Produção: Hermes Leal
Produção Executiva: Julie Tseng
Direção de Fotografia: Pedro Semanovischi
Direção de Produção: Nival Correia
Trailer: https://youtu.be/TseyLijUa-Q
Exibição no CineBrasilTV: Em Brasília - Olé TV - canal 812
Criado em 2021-02-12 01:23:22
Ota C. Rojas (*) –
Como muitos já estão acompanhando, há uma verdadeira rebelião popular em curso no Chile. O país que era o exemplo sul-americano de estabilidade e modernidade explodiu.
Quero contar um pouco de como estão as coisas por aqui desde o início da rebelião.
Na semana passada o governo anunciou um aumento da passagem dos ônibus e metrôs de Santiago. O aumento anunciado foi de 30 pesos, mais ou menos quatro centavos de dólar. Um valor irrisório, se não fosse só a ponta do iceberg. No entanto, o buraco é mais embaixo, como dizemos no Brasil.
O Chile foi um dos berços ou laboratórios do que se conhece como neoliberalismo. Aqui, a partir da ditadura de Pinochet, todo o plano econômico dos neoliberais da Escola de Chicago foi implementado desde fins da década de 1970. A maioria dos serviços públicos foi privatizada. As universidades públicas são todas pagas. No Brasil, temos a ideia de que algo público é gratuito, mas isso não é assim em vários países. No Chile, uma mensalidade em uma universidade pública pode custar mais do que em uma universidade privada. Como os salários das famílias são muito baixos (mais de 50% da população vive com menos de um salário mínimo), as famílias não têm dinheiro para pagar as mensalidades. Isso gerou, há anos, um enorme problema de endividamento dos estudantes e de suas famílias. Aqui, um estudante que termina seu curso universitário pode passar 10 ou 15 anos pagando os empréstimos que tomou.
A saúde pública também é paga. Não existe um SUS. Os hospitais públicos são caóticos, todos os anos morrem milhares de pessoas nas filas de espera. Quem tem dinheiro para pagar um plano de saúde privado acaba comprometendo grande parte de sua renda nisso, já que os planos não cobrem todos os gastos de atendimento hospitalário, internações, cirurgias, etc. Se uma pessoa fica doente e se salva, seguramente sairá com uma enorme dívida que terá que pagar pelos próximos anos.
Os direitos trabalhistas foram destruídos pela ditadura. A jornada de trabalho é de 45 horas, as férias são de 15 dias, os trabalhadores têm meia hora de almoço. A maioria dos sindicatos não tem nenhum poder de negociação, já que dentro de uma mesma empresa é permitida a existência de muitos sindicatos do mesmo setor (dentro de uma mina, por exemplo, podem existir 20 ou 30 sindicatos). O resultado disso é que os patrões fazem o que querem. A possibilidade de reação dos trabalhadores é pequena. E quando há sindicatos fortes, estão na mão de burocratas que defendem mais os patrões do que os trabalhadores.
Uma das heranças mais nefastas da ditadura é o sistema de aposentadorias. Todo o sistema é privado. A aposentadoria dos trabalhadores é administrada pelas AFPs, Administradoras dos Fundos de Pensão. São empresas privadas que utilizam a enorme quantidade de recursos que é descontada todos os meses dos salários dos trabalhadores para lucrar. O dinheiro das aposentadorias é utilizado para financiar os negócios dos próprios empresários, comprar ações de empresas, etc. Os próprios donos das AFPs, que também são donos de muitas outras empresas, bancos, seguradoras, etc., utilizam esse dinheiro para financiar, com baixíssimas taxas de juros, seus outros negócios. É uma mina de ouro.
Esse é o modelo de capitalização individual que Bolsonaro e Guedes quiseram implementar já com essa Reforma da Previdência no Brasil. Ainda não conseguiram [totalmente], mas o projeto virá logo mais. Trata-se de destruir o sistema público (INSS) para que as empresas privadas administrem o dinheiro acumulado pelos trabalhadores. A lógica das AFPs é nefasta. Essa enorme soma de recursos é investida no mercado. Se há ganhos, isso fica pros acionistas das AFPs, se há perdas, esse dinheiro é retirado da aposentadoria dos trabalhadores. E o pior, a maioria dos trabalhadores se aposenta com menos de 30% do que recebia antes. Isso explica em grande parte o enorme aumento do número de suicídios de idosos na última década.
Nos últimos anos milhões de chilenos saíram às ruas de forma pacífica contra as AFPs e defendendo a volta de um sistema público de aposentadorias (como o nosso INSS). A resposta dos governos (de “esquerda” e de direita) foi fazer promessas e não mudar nenhuma vírgula. Agora, pior, o governo de Piñera (atual presidente) mandou ao Congresso uma reforma que entrega ainda mais dinheiro para as empresas.
Nas principais empresas do país, a exploração é brutal. O Chile é o maior produtor de cobre do mundo. Os mineiros, com um longo histórico de lutas, e suas famílias, sofrem diariamente as consequências mais nefastas da mineração – as doenças pulmonares (como a silicose), doenças musculares, psicológicas, etc. Muitos mineiros trabalham longe de suas casas, em turnos de 10/10 (10 dias de trabalho, 10 de descanso), o que os leva a ter uma dinâmica familiar muito difícil e penosa.
A situação do principal povo originário, os mapuches, é dramática. Há séculos esse povo vem resistindo às ofensivas dos empresários e do Estado para tomar suas terras, que se concentram principalmente na região sul (a mais fértil) do país. Há séculos há uma verdadeira guerra contra os mapuches.
Dito tudo isso, agora podemos voltar ao aumento da passagem.
Na semana passada, então, o governo decidiu aumentar o preço da passagem. Um trabalhador ou uma trabalhadora que toma dois metrôs por dia pode chegar a gastar em um mês, 1/6 do salário mínimo.
O aumento, claro, não foi bem recebido. Nos dias seguintes ao anúncio, muitos estudantes secundaristas começaram a convocar “pulas-catracas” nos metrôs. O movimento se massificou. O governo respondeu dizendo que não ia diminuir o preço da passagem e colocou a polícia nas estações de metrô. Daí pra frente a coisa foi piorando. Muitos vídeos mostram a polícia jogando bombas de gás lacrimogênio dentro das estações, crianças vomitando, mães chorando, policiais empurrando estudantes pelas escadas. Obviamente o efeito dessas ações foi o aumento das manifestações.
Na sexta-feira (18/10) o governo militarizou completamente as estações, diante das convocatórias massivas dos estudantes. No horário de pico de saída dos trabalhadores, 18h-19h, o governo resolveu fechar as estações para evitar os pulas-catracas. Essa decisão fez com que milhares de trabalhadores não pudessem voltar às suas casas e tivessem que caminhar. Isso gerou manifestações espontâneas em várias partes da cidade. Na sexta à noite, os conflitos mais violentos começaram.
Em todos os bairros começaram os protestos e confrontos com a polícia. De noite, a coisa já tinha se generalizado. Em todos os bairros da capital já havia protestos. As famílias se somaram à juventude. A polícia reprimiu e reprimiu. A revolta tomou um caráter mais violento. Nessa noite, 16 estações de metrô e um enorme edifício da empresa de energia Enel (localizado na principal avenida de Santiago) foram queimados, houve saques em alguns supermercados e barricadas por toda a cidade. A polícia já não conseguia mais controlar as manifestações.
Na noite de sexta-feira, diante de uma enorme rebelião popular, o governo anuncia o Estado de Emergência na cidade, restringindo os direitos a manifestação e reuniões e passando o controle da cidade às mãos de um general. As Forças Armadas são autorizadas a ocupar a cidade. Mais de 300 pessoas são presas.
A intervenção das Forças Armadas jogou ainda mais lenha na fogueira. Aqui há uma enorme raiva de amplos setores sociais contra as Forças Armadas pelo papel que tiveram na ditadura – os milhares de torturados, assassinados e desaparecidos. A maioria dos militares envolvidos nesses casos nunca foi punida.
A noite de sexta-feira foi de conflitos e barricadas. Não sabíamos como iria amanhecer o dia seguinte. A presença das Forças Armadas seguramente intimidaria os manifestantes, pensava o governo. Nada mais equivocado.
No sábado a cidade amanheceu com panelaços e conflitos em praticamente todos os setores populares e alguns bairros de classe-média. Os conflitos agora não eram só com os policiais, mas com as próprias Forças Armadas. No sábado, os protestos se expandiram para todo o país, de norte a sul, de Arica a Magallanes. O governo decretou estado de Emergência em Valparaíso (cidade portuária com longa trajetória de lutas) e Concepción (uma das principais cidades do sul). Em Santiago, muitos supermercados de grandes empresas (Wallmart, por exemplo) foram saqueados ou queimados. Em um dos incêndios, três pessoas morreram queimadas. Muitas farmácias e grandes lojas foram saqueadas. Sobre os saques, há cenas muito interessantes.
Muitos deles foram protagonizados por famílias e pela população em geral. Em um vídeo que circula pela internet é possível ver um jovem lúmpen que sai carregando uma enorme televisão. Os trabalhadores que organizavam a barricada, ao ver o jovem saindo com a televisão, tomam-na de suas mãos e a atiram na fogueira da barricada. O televisor começa a arder em chamas. Os alimentos saqueados, em vários lugares, foram repartidos pelos trabalhadores presentes nas barricadas.
O processo é totalmente espontâneo e sem direção. Os partidos tradicionais não conseguem controlá-lo. O governo está perdido. Ontem, teve que retroceder e declarou a revogação do aumento da passagem. Ao mesmo tempo, o general encarregado de Santiago, anunciou um toque de recolher a partir das 22h. Nada poderia enfurecer ainda mais a população, que saiu às ruas massivamente após o toque de recolher e passou a noite nas barricadas enfrentando-se com a polícia e o exército. Os protestos ganharam muito apoio popular, apesar da campanha dos grandes meios de comunicação para criminalizar os “vândalos” que estavam queimando os metrôs e saqueando os supermercados.
Entre os trabalhadores se armou também um grande debate sobre as táticas que devem ser utilizadas no movimento, já que a destruição do transporte público ou outros espaços públicos seguramente acabará significando uma perda para a própria população. Mas a raiva foi incontrolável.
Os vídeos da brutalidade policial e do exército circulam sem parar. A cidade de Valparaíso, uma das mais combativas do país, foi completamente ocupada por tropas do exército. Os conflitos se estenderam por toda a noite de ontem. Muitos panelaços foram realizados de norte a sul do país.
Hoje [segunda-feira, 21] o dia amanheceu relativamente tranquilo. Alguns ônibus circulavam por Santiago. O aeroporto, no entanto, não funcionou. Muitos voos foram cancelados, o que está gerando um colapso. Logo no início da manhã começaram as concentrações nas praças e outros lugares públicos. Na emblemática Plaza Itália, o conflito com o exército e a polícia não pararam um minuto. Mais incêndios, mais saques, muitas barricadas. O governo novamente anunciou o toque de recolher para as 19h.
Um novo fenômeno começou a aparecer. Grupos armados de traficantes ou relacionados com a própria polícia começam a assustar as populações mais combativas, atacar feiras e outros pequenos negócios. Há notícias de corte de água em vários lugares de Santiago. Os vídeos da brutalidade das Forças Armadas não param de circular. Se ainda não há nenhum assassinado pelas forças militares ou paramilitares, essa é uma possibilidade grande nas próximas horas ou dias.
A fúria popular é enorme e não parece que diminuirá tão cedo. O governo não tem outra resposta além da repressão. Já são nove mil militares distribuídos pelas cidades ocupadas.
Enquanto escrevo essas linhas, escuto gritos, tiros e bombas ao lado de fora do lugar onde estou.
Bem vindos ao Chile, um oásis de modernidade e estabilidade da América Latina.
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(*) Ota C. Rojas é brasileiro e mora em Santiago. Ele postou este texto esclarecedor em sua página no Facebook.
Criado em 2019-10-21 19:38:50
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
O que não falta é assunto para as Crônicas & Agudas neste tempo da peste. O problema é fazer a triagem para não sair uma embolada.
Quando amanheci nesta quinta-feira, 19/3, meu zap estava lotado de mensagens, a maior parte comentando o panelaço contra o Coiso na quarta à noite. Com desdém, um amigo disse que não havia se animado a gastar as panelas. Respondi que eu também não: ocupei duas janelas com um panelaço digital ligado em caixas de som. Tinha até buzina! A terceira janela ocupei batendo um sino e gritando impropérios contra “aquele lá” com a minha voz troante de tenor dramático de banheiro!
A minha amiga Jô Medleg havia me encaminhado duas mensagens preciosas. Uma, com o áudio da Marisa Monte cantando Hoje eu não saio não, um must que imediatamente adotei como hino oficial da quarentena no lugar do Explode Coração do Gonzaguinha:
Hoje eu não saio não
Não quero ver a multidão
Lá no boteco, não
Telecoteco
No trio elétrico, não
Teatro, não
Não vou no esquema não
Nem no cinema, não
Em Ipanema, não
No circo não
A segunda mensagem da Jô foi um vídeo sensacional do comediante belga Thomas Gunzig, que de cara eu classifiquei como spinozista. Basicamente, ele diz que nós, os seres humanos, nos julgamos os senhores do planeta, como se o mundo fosse um troço construído para nós, que está à nossa disposição para fazermos dele o que quisermos. De fato, somos hiper-fortes, diz o Gunzig. Nos últimos séculos, dominamos as baleias, os elefantes, os gorilas, os lobos, construímos pirâmides, fundamos religiões, sistemas econômicos, impérios e coisa e tal. Porém…
Bastardinho - Porém, diz o Gunzig, “devemos reconhecer, messieurs dames, sua excelência o Covid-19, “uma coisinha sem cérebro, provavelmente analfabeta, incapaz de ver a diferença entre uma cerveja Stella Artois e uma Duvel, um troço que nem é vivo de verdade, pequeno pacote de ácidos nucleicos com uma pitada de proteínas. O Covid-19, que incrível poder tem esse bastardinho de apenas 50 nanômetros, que em poucas semanas nos fez compreender que não somos senhores de porra nenhuma, que estamos iludidos, que somos apenas uns saquinhos de carne muito vulneráveis com alguns neurônios por cima”.
“Um negocinho (ainda o Covid-19) – prossegue o Gunzig – sem mãos nem pés nem nariz nem qualquer relação nos altos escalões e que, no entanto, conseguiu baixar a poluição, desestabilizar a nossa economia, acelerar a formação de um governo federal na Bélgica”. A piada aqui é que, a despeito do lema “A união faz a força”, a Bélgica é um país de parlamentarismo federal conflagrado pela divisão entre os nacionais flamengos da região do Flandres e os francófonos da Valônia.
Rico ou pobre - Diz mais o Gunzig: “O Covid-19, uma pequena porcaria cegamente democrata, capaz de se instalar com o mesmo prazer no organismo de um rico ou de um pobre, de esquerda ou de direita”. E o que fazer com esse bichinho? “De nada serve a evasão fiscal para escapar dele, nem um cartão Platinum, nem um chalé em Megève (resort de esqui perto do Mont Blanc, nos Alpes Franceses, NR), nem um pelotão da polícia. O Covid-19, ele não está nem aí para as fronteiras, é como se não existissem pra ele. Ele é indiferente à legislação, aos vistos, à alfândega… Ele nem sente se você atira nele. O Covid-19 não tem outra ideologia que não a da sua própria reprodução – isso é um ponto em comum que eu tenho com ele”.
E por aí foi o Gunzig, descrevendo a precária situação em que nos encontramos em meio à pandemia. Uns, como nós, isolados em quarentena no bem-bom, contando piadas, ouvindo música, lendo e escrevendo poesia e crônicas para o Jornal do Romário, bebendo Stella Artois ou Duvel. E outros, como os 60 mil sem teto da Califórnia (não sei o número dos brasileiros que vivem na rua), expostos sem contemplação à contaminação nas próximas semanas, como reconheceu o governador Gavin Newsom.
Em tom de blague, um amigo meu disse que a vida (online) está por um fio. Eu ri da sacada mas fi-lo notar que a vida não está nem aí pra gente. Se a Humanidade se estrepar completamente, a vida vai continuar, como continuou depois da extinção dos trilobitas (na foto, abaixo), aqueles bichinhos parecidos com baratas ou cigarras que dominaram a zona bentônica dos oceanos durante o Paleozoico. E depois dos dinossauros. E depois do Bolsonauro? Putz!
Conversa vai, conversa vem, começou a me sair aqui uma embolada. Tragam o pandeiro aí!
O Brasil tá no sufoco com esse louco no Planalto
Se você acha que é pouco espere o vírus cantar alto
De embolada eu não entendo, só entendo de jornal
Vou fazer esses versinhos inspirado no coronga
Cuja praga espalha o Bozo achando que é normal
Esse Bozo xexelento, trapaceiro e sem-vergonha
O Brasil tá no sufoco com esse louco no Planalto
Se você acha que é pouco espere o vírus cantar alto
[Espaço para vocês terminarem a embolada!]

Criado em 2020-03-19 22:30:44
Luiz Martins da Silva –
O Ano Civil de 2020 começa hoje. Formulário de Imposto de Renda; planejamento contábil e estratégico de contas dos próximos meses; e uma preocupação constante, que não é somente conosco e com as nossas famílias, mas com esse pesadelo que se desenha em torno de um ente gentílico, cívico, sobretudo cívico na acepção da "vida ativa" (Hannah Arendt), ou seja, o que podemos e vamos fazer como CIDADÃOS ATIVOS pelo nosso país e não somente como cidadãos deprimidos, depressivos e contagiantes de notícias mais do que pessimistas, aterradoras.
É só abrirmos uma tela ou estarmos de ouvidos atentos ao rádio e lá vem chapuletada de estresse, o que esse governo DESFAZ, DESTRÓI, intimida, ameaça, corta... E tome desvarios. Em relação a algumas postagens que recebo, tenho indagado de volta se não são FAKE NEWS. Será mesmo que ELE vai autorizar resorts em aldeias indígenas? Será que pretende instalar resorts nos lençóis maranhenses? Será que vai implantar resorts em santuários ecológicos, os tais Cancuns brasileiros? Será que isto e aquilo de horror na Amazônia?
E, AGORA, esta convocação para que suas hostes saiam às ruas e exijam fechamentos de Congresso, de STF, de jornais e mais quantas outras tramas e tramoias antidemocráticas! As forças democráticas deste país dormem e acordam pasmadas, numa inércia patética e em reações de replicações de estupefações, coisas do tipo: Não acredito, não é possível, é o fim...
Nem estou me referindo a uma pouco provável ‘união das esquerdas’. Qualquer união em defesa de um país soberano e menos idiota já está bom. O fato é que se um dos lados desta antinomia, dicotomia, enfrentamento, seja lá o que for, está leso, o outro não dorme, só pensando naquilo, aquele afrodisíaco predileto do MITO e seu clã, legitimar um déspota por meio do velho populismo.
Pode ser, no entanto, que a tal pretensão messiânica se esvazie, tal como ocorreu quando Collor conclamou que saíssem de verde-amarelo e saíram foi de luto. Digo uma coisa: que se lute enquanto é tempo, pois, depois, será luto, mesmo. Na falta de uma ARTICULAÇÃO nacional contra o reconhecido fascismo emergente, que pelo menos não deixemos de viver o chamado “Mundo da Vida” (Habermas). Até parece que nos rendemos a uma espécie de moratória do cotidiano, tomado em socorro de tudo que prezamos. Não podemos viver simplesmente, na calma, de boa. Temos, outra vez, de juntarmos energia para lutarmos contra a opressão e suas trevas. Xô!
Criado em 2020-02-26 19:29:04
Luiz Philippe Torelly (*) –
De algumas semanas para cá ressurgiu a polêmica em torno da construção, com dinheiro público, de um museu em Brasília dedicado à Bíblia. A proposta adormeceu nos escaninhos governamentais por quase 30 anos, e voltou com força graças à estratégia política do governador Ibaneis Rocha (MDB) de aproximação com igrejas neopentecostais.
Inicialmente o museu seria construído, a partir de um "croquis" do renomado arquiteto Oscar Niemeyer. Diante do não reconhecimento da autoria, pelo Conselho de Arquitetura de Urbanismo (CAU), a estratégia sofreu uma mudança. O GDF resolveu escolher um projeto por concurso público. Atitude louvável e democrática, mas revela o intuito de "dourar a pílula", isto é, como é inconstitucional desde 1891, utilizar recursos públicos em projetos promovidos por instituições privadas, já que igreja e estado são separados juridicamente, usa-se um subterfúgio para legitimar um vício de origem.
Cidade construída sob a égide da integração entre arte e arquitetura, Brasília se tornou um dos maiores feitos culturais do século XX. Todavia, transcorridos mais de 60 anos de sua inauguração e em decorrência de seu crescimento e transformação em uma metrópole de quatro milhões de habitantes, a cidade tem muitos problemas. Além da segregação espacial e da exclusão social, com pobreza e carência de serviços básicos, a cidade está com sua estrutura cultural sucateada. O Teatro Nacional que abriga três salas de espetáculos, além de um magnífico "foyer", está fechado há sete anos. O Museu de Arte de Brasília, há mais de uma década. Só Deus sabe as condições em que se encontram o seu acervo. O Museu Nacional da República embora em funcionamento, não possui um acervo e uma programação à altura da capital da república.
Esse diagnóstico de descaso com a cultura pátria convive com um paradoxo. Várias instituições públicas federais, com sede em Brasília, possuem excelentes acervos de arte, objetos e documentos nas mais diversas mídias. Banco Central, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Senado e Câmara Federal, UnB, Itamaraty, mantêm trancados longe dos olhos do público, inestimáveis manifestações da arte e da cultura brasileiras.
Como uma cidade do porte e importância de Brasília pode subsistir sem um museu à altura da diversidade cultural do nosso país? Dá para imaginar Paris sem o Louvre, São Paulo sem o MASP, Londres sem o Museu Britânico?



Há alguns anos tenho repetido a proposta que vou reiterar: Temos um acervo de alta qualidade e um edifício que com pequenas adaptações pode recebê-lo: o Museu Nacional da República, na Esplanada dos Ministérios, próximo à catedral. As obras de arte não precisam ser doadas ao novo museu, apenas emprestadas temporariamente, com as normas de segurança e seguridade que tais operações requerem e a facilidade de todas estarem em Brasília. Após alguns meses de exposição, seriam devolvidas aos seus proprietários e substituídas por novas. Os acervos que mencionamos possuem milhares de obras de grande valor artístico e cultural.
Não acredito que a aventura do Museu da Bíblia prospere. Em primeiro lugar por sua ilegalidade e inconstitucionalidade. Em segundo, pelo anacronismo original de sua proposta: cada igreja cristã, já é em si um Museu da Bíblia, pois o livro sagrado é a origem e centro de todos os cultos que acontecem nas igrejas. A Bíblia, o livro mais lido há milhares de anos, o primeiro a ser impresso, não precisa de um museu, mas da observância da palavra divina, capaz de erradicar muitos males que afligem os brasileiros e a humanidade.
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(*) Luiz Philippe Torelly é arquiteto, urbanista e ex-diretor do Iphan.
Criado em 2021-01-31 18:06:10
Pedro Tierra –
Neste 8 de outubro de 2019, quando o povo indígena do Equador obriga o governo fantoche de Lenín Moreno a descer de Quito para despachar em Guayaquil é hora de lembrar:
“Quando o Tempo regressar dos seus labirintos
para inquirir a pedra dos séculos
- armado com a artilharia dos relâmpagos -,
este século de cinza e rebeldia
oferecerá a face fugidia deste homem
que escapa aos desígnios do mercado
e sempre recusará o altar dos deuses.
Ernesto Che Guevara: apenas um homem,
talhado em ternura e valentia.
Comandante, companheiro,
que meu verso possa te devolver ao Continente:
dou por terminada a tarefa da ressurreição”.
(Brasília, outubro de 1997)
Centenas de manifestantes cercaram o Palácio Carondelet, sede do governo em Quito, para protestar contra o aumento dos combustíveis.
A Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador está convocando gigantesca manifestação em todo o país. Moreno acusa o ex-presidente Rafael Correa e Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, de estarem por trás das manifestações para desestabilizar o seu governo.
De Bruxelas, onde está, Correa nega envolvimento, e diz que "é clara a insatisfação do povo com o governo de Moreno”.
Criado em 2019-10-08 19:13:48
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Nessa terça-feira, 17/3, recebi pelo zap uma piadinha do coronavírus que logo tratei de repassar aos amigos, amigas e inimigos disfarçados: “Até que não está tão chato ficar em casa. O que me espanta é que um pacote de arroz venha com 8.976 grãos e o outro com 9.044”.
É mesmo duro dar tratos à bola para passar dias e mais dias em quarentena. Ainda bem que os jornais não se cansam de publicar listas de livros para você ler durante o isolamento, e as redes de televisão mudam a programação com maratonas de filmes, documentários, especiais da pandemia etc.
É hora de reler o Proust perdido e tirar da última prateleira o Banco Imobiliário e a Batalha Naval, né!
Vai aqui uma confissão imoral: eu baixei no celular o jogo Plague, cujo objetivo é infectar o mundo inteiro com alguma das pestes do cardápio. A porra do jogo ficaria bem mais fácil se a atualização incluísse um Bolsonaro e um Guedes pra complicar as defesas do planeta.
Vai, corona! - Outra diversão favorita nesses dias de aflição é comparar a crise atual com outras desgraceiras históricas. No âmbito da economia, parece que este coronavírus está fazendo estragos semelhantes à depressão de 1929. Mas em termos de saúde ainda estamos longe da devastação da gripe espanhola de 1918, que matou o presidente reeleito Rodrigues Alves antes dele tomar posse. Estou dizendo aos impacientes: deixem o Covid-19 trabalhar! Talvez ele faça alguma justiça parecida nos próximos dias…
Depois dessas divagações, eu queria dizer que durante a quarentena nem tudo é passividade, havendo amplo espaço-tempo para o florescimento da criatividade.
A gente pode imaginar, por exemplo, como já imaginou uma gozadora do zap, um coronaboom daqui a nove meses, com o nascimento da chamada Geração Coronials.
Talvez apareçam também excelentes romances comparáveis à Peste do Albert Camus, e tremendos livros de poemas a parear com o Eu do Augusto dos Anjos. Tipo assim:
É uma trágica festa emocionante!
A bacteriologia inventariante
Toma conta do corpo que apodrece...
E até os membros da família engulham,
Vendo as larvas malignas que se embrulham
No cadáver malsão, fazendo um s.
Shakespirro - Vocês duvidam da criação em meio ao caos? Há precedentes históricos. O Shakespeare, por exemplo, concluiu três de suas melhores peças, Rei Lear, Macbeth e Antônio e Cleopatra, em 1606, a partir de julho, quando teve de ficar em quarentena com o teatro The Globe fechado por causa da peste bubônica que tomou conta de Londres.
Seu biógrafo James Shapiro diz não ter ideia do que o Bardo estava sentindo quando escrevia ao longo do quarto de século antes do ano referido. Em compensação, diz ele, “sabemos muito mais como a visita dos roedores em 1606 alterou os contornos da vida profissional de Shakespeare, transformou e revigorou a sua companhia de teatro, prejudicou a concorrência, mudou a composição do público para quem ele iria escrever (e ainda o tipo de peça que ele podia escrever) e permitiu que ele colaborasse com músicos e dramaturgos talentosos – um surto da peste que chegou perto de matá-lo”.
Binômio de Newton - Sessenta anos depois, um novo surto da peste (que matou um quarto da população de Londres entre 1665 e 1666) iria isolar em quarentena outro grande criador, o físico Isaac Newton, na casa de sua mãe, Woolsthorpe Manor, em Woolsthorpe-by-Colsterworth, cerca de 60 milhas a noroeste de Cambridge. Do esforço realizado durante a reclusão resultaram quatro de suas obras mais relevantes: a teoria do binômio, o cálculo, a lei da gravitação universal e a natureza das cores. Na época Newton era estudante do Trinity College em Cambridge e tinha apenas 23 anos.
A quarentena, como se vê, não precisa ser aborrecida de jeito nenhum! Jogos, livros, filmes e fuque-fuque devem preencher as mentes de todos nós nesses dias de distanciamento social, quando nada, para afastar o pânico. Não custa repetir: mente vazia, oficina do Diabo.
Uma informação que pode lhes servir em caso de emergência: aprendi no filme basco Errementari – O Ferreiro e o Diabo (tem na Netflix) um truque para distrair o Demo: basta jogar-lhe um punhado de grãos de bico – não sei se arroz funciona. Ele vai ficar paralisado um tempão, pois é portador do transtorno obsessivo compulsivo (TOC) de contar!
Criado em 2020-03-17 23:49:12
José Dirceu (*) –
A gravidade da situação política do país está escancarada. Só não vê quem não quer. Estamos, novamente, sob a ameaça de uma ditadura militar
A militarização do governo Bolsonaro com as últimas indicações para a Casa Civil e a Secretaria de Assuntos Estratégicos tem raízes em nossa história recente e no passado.
O general Braga Netto era chefe do Estado-Maior do Exército, o mesmo que no julgamento do habeas corpus de Lula publicou uma foto da reunião de emergência convocada pelo comandante do Exército Eduardo Villas Bôas para, numa aberta e flagrante violação da Constituição, ordenar – isso mesmo – ao STF que não ousasse conceder Habeas Corpus a Lula. Villas Bôas fez a mesma ameaça via Twitter, o que teria levado à sua prisão imediata em qualquer democracia.
Ali se restabeleceu a tutela militar sobre o poder civil, que estava adormecida no artigo da Constituição Federal que trata das Forças Armadas como garantidora da Lei e da Ordem, a famosa GLO, uma espada de Dâmocles sobre nossa democracia.
Não é de hoje que os militares são uma força política no Brasil. Fizeram a República; se levantaram logo contra ela na Revolta da Armada; na década de 1920 os tenentes se levantaram várias vezes em rebeliões e insurreições nos quartéis, com dezenas de mortos e feridos, até o triunfo da revolução de 1930, na qual os militares e os tenentes foram a força principal.
Getúlio Vargas governou até 1934, quando, após derrotar a revolta paulista separatista disfarçada de defesa de uma Constituinte, o país ganhou uma Constituição, rasgada em 1937 pelo Estado-Maior do Exército e Getúlio. Foi substituída pela famosa Polaca, redigida por Francisco Campos, sob o comando do general Góis Monteiro, o chefe do Exército, cópia da Constituição imposta na Polônia pelo ditador Pilziuskque.
O Estado Novo durou até a deposição de Getúlio, em 1945. O presidente eleito, em 1946, Eurico Gaspar Dutra, ex-chefe do Exército, fez um governo reacionário, religioso, pró-Estados Unidos, repressivo aos trabalhadores e à esquerda.
Inconformados com a volta de Getúlio, eleito em 1950, e do seu PTB, partes importantes do Exército e da Marinha e Aeronáutica iniciam uma série de tentativas de golpes de Estado, ou o não reconhecimento dos resultados eleitorais, com a tese da maioria absoluta. Organizam-se, em 1955, para impedir a posse de JK (Juscelino Kubitschek), com dois levantamentos militares, Jacareacanga e Aragarças. JK debela as tentativas de intervenção, mas lhes concede anistia. Depois da renúncia de Jânio, dão um golpe, paralisado pela resistência de Leonel Brizola e a divisão do Exército, como em 1955, quando o marechal Henrique Teixeira Lott por meio de um contragolpe assegurou a posse de JK.
Hoje, 1964 é história, mas durou até 1985.
Os militares sempre foram uma força política a serviço das elites conservadoras e pró-Estados Unidos, sem contar a vergonhosa divisão antes da 2ª Guerra entre germanistas – fascistas, lógico – e pró-aliados. Em 1964, o Brasil se alinhou totalmente aos Estados Unidos, mandando até tropas para a invasão imperialista da República Dominicana para sufocar uma rebelião popular democrática, sempre apoiando as elites agrárias e de direita sob o manto da luta contra o comunismo.
A Constituição de 1988 poderia ter posto um fim nisso, mas não o fez, conciliou com as Forças Armadas e o resultado agora nos assombra. Eles estão de volta com Bolsonaro, hibernaram 30 anos nas escolas militares e na não submissão do poder militar ao civil. Apesar do comando civil do Ministério da Defesa, ao qual estão subordinados os ministérios militares, nunca o poder civil decidiu a política militar no Brasil e jamais eles, os militares, aceitaram o presidente da República como comandante em chefe das Forças Armadas.
Controlam o orçamento, as promoções, as prioridades da defesa nacional e de sua indústria, seus planos de armamento. E com a nova reforma da Previdência deles mesmos, votada apenas nas comissões do Congresso, se tornaram uma casta.
A gravidade da situação política do país está escancarada. Só não vê quem não quer. Estamos, novamente, sob a ameaça de uma ditadura militar, e fatos como a execução, comandada por Ronnie Lessa, da vereadora Marielle Franco e, agora, no outro polo, a queima de arquivo com a execução do outro suspeito de envolvimento no assassinato, chefe dos milicianos, Adriano da Nóbrega, ambos com ligações mais do que provadas com a família do presidente, só comprovam a que ponto chegamos.
Não se trata mais do risco do autoritarismo, mas da face oculta de todas as ditaduras, a violência acobertada pelo Estado ou por ele promovida. As impressões digitais são a prova que vivemos de novo às portas de uma nova ditadura. Aos poucos, vamos nos dando conta como nos custará caro ter anistiado os crimes da ditadura.
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(*) José Dirceu foi chefe da Casa Civil no governo Lula. Artigo publicado originalmente no portal Metrópoles
Criado em 2020-02-22 14:37:58
Grupos e artistas de todo o Brasil podem se inscrever, até o dia 15 de março, para a Vitrine Brasileira da Dança Contemporânea. Esse festival pretende buscar a pluralidade de linguagens, na experimentação, na ocupação de espaços não convencionais e urbanos.
O convite se estende às companhias de dança e artistas independentes brasileiros que queiram se candidatar a apresentações no Rio de Janeiro e em São Paulo, no período de 26 de julho a 4 de agosto. Em Brasília, será de 5 a 7 de agosto,
Realizado há 18 anos pelas coreógrafas e diretoras Giselle Tápias e Flávia Tápias, o Dança em Trânsito conjuga apresentações artísticas, iniciativas de formação e capacitação e atividades de reflexão. Para a Vitrine Brasileira da Dança Contemporânea serão selecionadas entre 10 e 15 propostas, inéditas ou não.
Regulamento
Com o objetivo de promover uma “Vitrine Brasileira da Dança Contemporânea” durante o Dança em Trânsito 2021, convidamos companhias de dança e artistas independentes de todo o território nacional a enviarem seu material e se candidatarem a participar dessa vitrine.
Selecionaremos entre 10 e 15 companhias nacionais de norte ao sul do país, para se apresentarem nessa "Vitrine" que será realizada em teatro ou espaço exterior, no Rio de Janeiro, de 26 de julho a 1 de agosto, e em São Paulo, dias 3 e 4 de agosto.
Dentre os trabalhos selecionados, alguns também poderão ser convidados a viajar por até 20 cidades brasileiras no circuito dessa edição do festival Dança em Trânsito.
Para fortalecer a difusão dos projetos e criar novas oportunidades para os artistas brasileiros, Dança em Trânsito 2021 convidará cerca de 15 representantes de Centros de criação coreográfica ou de residências, Instituições Culturais ou curadores de espaços, mostras ou festivais nacionais e internacionais, com foco na dança contemporânea, para assistir a todos os espetáculos da vitrine, com a intenção de propor aos artistas alguma ação de intercâmbio.
Por exemplo: um convite para uma residência; para aplicar uma oficina - presencial ou online; para uma conversa informal; para coreografar ou ser coreografado; para a apresentação de sua criação em outra cidade, estado ou país, entre outros.
Diariamente, após os espetáculos, será oferecido um “aperitivo” para os participantes da “Vitrine Brasileira da Dança contemporânea” e os profissionais do mercado mundial da dança presentes. Um momento de convivência para que todos possam se conhecer melhor.
Como se inscrever?
Cada artista/companhia deve enviar e-mail para: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. até o dia 15 de março.
Para trabalhos inéditos: proposta coreográfica
Para trabalhos já estreados: release de até 5 linhas e fotos da coreografia e ficha técnica completa; biografia de até 3 linhas dos coreógrafos; rider de som e luz (solicitamos o rider mais simples possível); link privado ou público do espetáculo ou ensaio do trabalho completo em plataformas como Youtube ou Vimeo. (Não serão aceitos arquivos anexos ou links para download dos vídeos.)
Quais são as condições?
Deslocamentos para as cidades do Rio de Janeiro e/ou São Paulo;
Possibilidade de deslocamentos de ônibus e/ou passagens aéreas nacionais.
Obs. O Dança em Trânsito tem um limite para concessão de passagens aéreas, então é muito importante indicar se o seu grupo tem a possibilidade de conseguir as passagens na sua cidade, com uma Carta Convite do Festival.
Hospedagem em hotel próximo ao local de realização do Dança em Trânsito, na cidade do Rio de Janeiro no período de 26 ou 27 de julho a 2 de agosto pela manhã, e em São Paulo de 2 a 5 de agosto pela manhã, em apartamento duplo ou triplo, com café da manhã incluído.
Translado aeroporto → Hotel → aeroporto na cidade do Rio de Janeiro e aeroporto → Hotel → aeroporto na cidade de São Paulo.
Ajuda de custo no valor de R$ 3.000 reais por espetáculo ou performance selecionada. Este valor será pago até uma semana anterior a apresentação do trabalho.
Em 2021, incentivaremos também a criação inspirada na cultura brasileira para valorizar o que é nosso e tornar nossa rica cultura mais conhecida. O BRASIL de norte a sul e sua pluralidade. Nossos artistas, nosso folclore, cultura, música, compositores.
Protocolo covid-19
A presença de artistas selecionados nos estados e cidades do Festival pressupõem deslocamentos e viagens em um contexto mundial de grande instabilidade devido à expansão da Covid-19. O compromisso da organização do evento é com a segurança de todos em primeiro lugar, por isso é importante saber que a confirmação definitiva de cada participação estará sujeita às recomendações dos órgãos mundiais de saúde durante o período do evento, imprevisíveis nesse momento.
O que é?
O Dança em Trânsito, segundo seus organizadores, tem como característica a apresentação de trabalhos de destaque no cenário atual e a ocupação de, além de espaços convencionais, espaços urbanos.
A cada nova edição, estende o acesso a novos públicos, busca a “democratização da cultura e reforça o compromisso assumido de contribuir para o fortalecimento e a divulgação da dança contemporânea brasileira. Um festival plural e itinerante, com motivação sempre crescente diante do compromisso de tornar cada vez mais visíveis, e para mais pessoas, as múltiplas expressões de arte”.
Há 18 anos, o projeto abarca apresentações artísticas, formação, capacitação, reflexão e intercâmbio entre grupos de dança de diversas cidades do Brasil e do mundo. Assim, acreditam as idealizadoras Gisele Tápias e Flávia Tápias: “As trocas de experiências entre companhias nacionais e internacionais convidadas incentivam o desenvolvimento da linguagem da dança contemporânea”.
Criado em 2021-01-29 20:32:34
Romário Schettino –
Quem teve estômago e paciência para ver e ouvir o presidente do Brasil na abertura da Assembleia Geral da ONU, na manhã e hoje, terça, 24/9, pôde colecionar a lista de frases ridículas, fora do contexto mundial e agressivas de Jair Bolsonaro.
A situação constrangedora foi coroada pelas inúmeras derrapadas diplomáticas e impropérios, deixando o Brasil ainda mais isolado.
O discurso de Bolsonaro é bem a cara de seu governo, que ainda navega nas águas turvas da “guerra fria”, defende o cristianismo ocidental como valor supremo e se ajoelha diante do imperador Donald Trump.
Entre os absurdos de sua fala, o presidente do Brasil, ao se referir ao mundialmente respeitado indígena brasileiro, afirmou, de improviso: “Acabou o monopólio de Raoni”. Ao mesmo tempo em que apresentou sua assessora predileta: Sany Kalapalo.
Sany, que apoiou Bolsonaro durante a campanha eleitoral, já foi devidamente rechaçada pelas principais lideranças do Xingu por estar participando da farsa protagonizada por aquele que persegue os índios.
Leia estes destaques e tirem as suas conclusões:
“Meu país esteve muito próximo do socialismo, o que nos colocou numa situação de corrupção generalizada, grave recessão econômica, altas taxas de criminalidade e de ataques ininterruptos aos valores familiares e religiosos que formam nossas tradições”.
“Em 2013, um acordo entre o governo petista e a ditadura cubana trouxe ao Brasil 10 mil médicos sem nenhuma comprovação profissional. Foram impedidos de trazer cônjuges e filhos, tiveram 75% de seus salários confiscados pelo regime e foram impedidos de usufruir de direitos fundamentais, como o de ir e vir. Um verdadeiro trabalho escravo, acreditem... Respaldado por entidades de direitos humanos do Brasil e da ONU!”.
“Na Venezuela, esses agentes do regime cubano, levados por Hugo Chávez, também chegaram e hoje são aproximadamente 60 mil, que controlam e interferem em todas as áreas da sociedade local, principalmente na Inteligência e na Defesa. A Venezuela, outrora um país pujante e democrático, hoje experimenta a crueldade do socialismo”.
“O socialismo está dando certo na Venezuela! Todos estão pobres e sem liberdade! O Brasil também sente os impactos da ditadura venezuelana. Dos mais de 4 milhões que fugiram do país, uma parte migrou para o Brasil, fugindo da fome e da violência”.
“O Foro de São Paulo, organização criminosa criada em 1990 por Fidel Castro, Lula e Hugo Chávez para difundir e implementar o socialismo na América Latina, ainda continua vivo e tem que ser combatido”.
“Senhorita Sany Kalapalo, agora vamos falar de Amazônia. Em primeiro lugar, meu governo tem um compromisso solene com a preservação do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável em benefício do Brasil e do mundo”.
“Hoje, 14% do território brasileiro está demarcado como terra indígena, mas é preciso entender que nossos nativos são seres humanos, exatamente como qualquer um de nós. Eles querem e merecem usufruir dos mesmos direitos de que todos nós”.
“Quero deixar claro: o Brasil não vai aumentar para 20% sua área já demarcada como terra indígena, como alguns chefes de Estados gostariam que acontecesse”.
“A visão de um líder indígena não representa a de todos os índios brasileiros. Muitas vezes alguns desses líderes, como o Cacique Raoni, são usados como peça de manobra por governos estrangeiros na sua guerra informacional para avançar seus interesses na Amazônia”.
“O índio não quer ser latifundiário pobre em cima de terras ricas. Especialmente das terras mais ricas do mundo. É o caso das reservas Ianomâmi e Raposa Serra do Sol. Nessas reservas, existe grande abundância de ouro, diamante, urânio, nióbio e terras raras, entre outros”.
“Terroristas sob o disfarce de perseguidos políticos não mais encontrarão refúgio no Brasil”.
“Há pouco, presidentes socialistas que me antecederam desviaram centenas de bilhões de dólares comprando parte da mídia e do parlamento, tudo por um projeto de poder absoluto. Foram julgados e punidos graças ao patriotismo, perseverança e coragem de um juiz que é símbolo no meu país, o Dr. Sérgio Moro, nosso atual Ministro da Justiça e Segurança Pública”. O INTERCEPT QUE O DIGA
“Durante as últimas décadas, nos deixamos seduzir, sem perceber, por sistemas ideológicos de pensamento que não buscavam a verdade, mas o poder absoluto”.
“A ideologia se instalou no terreno da cultura, da educação e da mídia, dominando meios de comunicação, universidades e escolas”. A VOLTA DA CENSURA.
“A ideologia invadiu nossos lares para investir contra a célula mater de qualquer sociedade saudável, a família. Tentam ainda destruir a inocência de nossas crianças, pervertendo até mesmo sua identidade mais básica e elementar, a biológica. O politicamente correto passou a dominar o debate público para expulsar a racionalidade e substituí-la pela manipulação, pela repetição de clichês e pelas palavras de ordem”.
“A ideologia invadiu a própria alma humana para dela expulsar Deus e a dignidade com que Ele nos revestiu. E, com esses métodos, essa ideologia sempre deixou um rastro de morte, ignorância e miséria por onde passou”.
“Sou prova viva disso. Fui covardemente esfaqueado por um militante de esquerda e só sobrevivi por um milagre de Deus. Mais uma vez agradeço a Deus pela minha vida”. A JUSTIÇA JÁ DISSE QUE O INDIVÍDUO É UM DOENTE MENTAL.
“A ONU pode ajudar a derrotar o ambiente materialista e ideológico que compromete alguns princípios básicos da dignidade humana. Essa organização foi criada para promover a paz entre nações soberanas e o progresso social com liberdade, conforme o preâmbulo de sua Carta”.
“Nas questões do clima, da democracia, dos direitos humanos, da igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres, e em tantas outras, tudo o que precisamos é isto: contemplar a verdade, seguindo João 8,32: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.
“Todos os nossos instrumentos, nacionais e internacionais, devem estar direcionados, em última instância, para esse objetivo. Não estamos aqui para apagar nacionalidades e soberanias em nome de um “interesse global” abstrato”.
"Esta não é a Organização do Interesse Global! É a Organização das Nações Unidas. Assim deve permanecer! Com humildade e confiante no poder libertador da verdade, estejam certos de que poderão contar com este novo Brasil que aqui apresento aos senhores e senhoras. Agradeço a todos pela graça e glória de Deus!”
Criado em 2019-09-24 21:54:31
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Depois do Bolsonaro Day, na segunda-feira, 16 de março, o corona vírus deitou e rolou!
- Chegaram a 234 os casos registrados no Brasil;
- A primeira morte provavelmente ocorrerá no Rio, de um médico de 65 anos em situação gravíssima;
- O Distrito Federal já tem transmissão comunitária (descontrolada), como o Rio e São Paulo;
- A Câmara e o Senado decidem fechar as portas. O Senado estuda votações remotas;
- Os tribunais devem fechar as portas na quarta-feira, 18;
- Janaína Paschoal roda de novo a baiana e pede a saída do Bozo, por “homicídio doloso”;
- Supremo, Câmara e Senado criticam loucura do suicida & assassino-mor. Os milicos “braço forte & mão amiga” se calam;
- A Igreja Universal mantém os cultos (coletas de dízimos) e distribui alquinhos em gel;
- A Igreja Católica dispensa idosos das missas;
- A Bolsa de São Paulo caiu quase 14 pontos, o dólar foi pros quintos e se esperava o corte de mais um ponto da Taxa Selic por parte do Copom;
- A Bolsa de Nova York caiu abaixo do menor nível da crise de 2008 e o Nasdaq realizou o pior dia de sua história. O Nasdaq mede o movimento das ações das firmas de alta tecnologia em eletrônica, informática, telecomunicações e biotecnologia;
- O Banco Central americano tentava novas medidas para domar a crise;
- O Ciro Gomes estava gripado e programou participar do Roda Viva por conexão remota;
- De domingo para segunda morreram mais 349 pessoas na Itália, agora com um total de 2.158;
- O presidente francês declarou em rede de televisão: “Nous sommes en guerre sanitaire” (Estamos em guerra sanitária);
- O Trump endureceu as medidas para conter a crise, sugerindo aos idosos que fiquem em casa e reuniões de no máximo dez pessoas. O chefe do Bolsonaro disse que a pandemia vai durar meses e pode provocar a recessão mundial;
- Especialistas comparam a crise do Covid-19 com o Crash de 29;
- A Europa fecha as fronteiras por 30 dias
- O Chile fecha as portas, depois da Argentina e da Colômbia;
- Os conspiradores continuam espalhando a historinha de que os chineses fabricaram o vírus, baseados no romance de terror de Dean Koontz, “Os Olhos da Escuridão”. No livro de 1981, Koontz mencionava a criação em laboratório de um vírus russo chamado “Gorki-400”. Depois do fim da União Soviética e a estrondosa ascensão da República Popular da China, o vírus foi rebatizado de “Wuhan-400”;
- A turma da Branca de Neve tem agora só seis anões. O Atchim foi expulso do grupo;
- O meu celular tem tanta informação sobre o coronavírus que já não vibra nem toca; tosse!
Criado em 2020-03-16 22:17:07
José Carlos Peliano (*) –
Já dizia o revolucionário russo Vladimir Lênin “é preciso sonhar, mas com a condição de crer em nosso sonho, de observar com atenção a vida real, de confrontar a observação com nosso sonho, de realizar escrupulosamente nossas fantasias. Sonhos, acredite neles”, em seu livro Que fazer? Ele já sabia por experiência própria que a realidade, externa a todos nós, embora seja o campo de luta pela sobrevivência, é menos real que a presença forte, dinâmica e corrente de nossos sonhos. Aquela a gente acaba tendo de viver de qualquer jeito como se pode, já os sonhos devemos ouvi-los, cultivá-los e prepará-los para acontecer.
Há quem siga o princípio e o mandamento de crer que o sonho é que é real e a realidade o cenário dos sonhos apenas. É o que descreve em texto vibrante e instigante Stefano D’Anna no livro A escola dos deuses, Pró Libera Editora, 2007.
Aqui no Brasil, Sidarta Ribeiro, recupera a força motora, vital e essencial do sonho em seu recente livro O oráculo da noite, Cia. das Letras, 2019.

Todos os três com propósitos diferentes, em ambiente diferentes e momentos também diferentes se aproximam do entendimento de que são os sonhos que trazem o gérmen da pista que levará à mudança por onde devemos seguir para levar à frente o que queremos de melhor para nós em nossas vidas. Não descartam os sonhos nem como folclore de nosso sono diário, tampouco como crença desmedida de serem somente expressão pura e simples de nossos recônditos desejos não realizados. Ao contrário, elegem os três os sonhos como arautos de um mapa de um novo caminho a seguir. Desde que passemos a levá-los em conta e tomá-los como nossos verdadeiros guardiões.
Sidarta vai mais a fundo e destaca a arqueologia dos sonhos, suas várias acepções quando dormimos, suas manifestações em todas as idades, suas ligações com a vida externa, enfim seu papel determinante no dia a dia de cada um de nós. Não que sonhemos numa noite e na manhã seguinte ele se realiza. Não é isso, há que se dar tempo para que ele venha a acontecer de uma forma ou de outra. Há o fator tempo, o sonho apenas aponta o caminho certo a seguir. Nossos passos na realidade ensejariam o tempo necessário para a realização do sonho, seria então uma simples equação, realidade = sonho + tempo.
Não se deve esquecer, contudo, que o sonho se adapta aos resultados de nosso quotidiano, dia após dia, indo se moldando aos nossos desejos, como informa Eduardo Galeano, na citação do Gênesis dos Maias, em seu livro Os Filhos dos dias, L&PM editora, 2012:
“E os dias se puseram a andar.
E eles, os dias, nos fizeram.
E assim fomos nascidos nós,
os filhos dos dias,
os averiguadores,
os buscadores da vida”
Averiguamos ao redor para buscar e viver. Vamos aos sonhos recuperar as pistas por onde caminharmos e decidirmos por quais caminhos seguir. Se a dita realidade tromba com nossos sonhos, devemos urgentemente trombar nossos sonhos com a realidade para adaptá-la aos nossos desígnios, do jeito de cada um. E do coletivo, quando nossos sonhos são semelhantes a de outros, dezenas, centenas, milhares, milhões. A apoteose dos sonhos!
Lênin, de outra forma, tanto acreditou que ajudou de forma decisiva na Revolução Russa na conclamação e motivação do coletivo dos trabalhadores. Ao seu modo, D’Anna traz o chamamento para cada um de nós por em prática a gramática do sonho trazida na magia de seus símbolos.
Mas como o nosso sonho de cada dia está ligado à nossa vida de cada dia, ele é por natureza diferenciado de acordo com nossas individualidades. Daí que nosso sonho de cada dia se liga à ocupação nossa de cada dia de acordo com as oportunidades que encontramos no mundo do trabalho. Além de nossas diferenças individuais de habilidades, portanto, somam-se as diferenças ocupacionais impostas e comandadas pelas escalas hierárquicas das empresas organizadas no mercado. Aquelas são diferenças naturais, só nossas, estas outras são diferenças determinadas pelo sistema e que acabam gerando desigualdades, especialmente quando o padrão ocupacional vigente difere do padrão que temos na realidade de nossos desejos, de nossos sonhos. Logo, temos de adaptar nossos sonhos dadas as características das ocupações no mercado de trabalho, de onde realizamos nossas potencialidades de formação e conhecimento, para podermos adequar nossos desejos internos às possibilidades de mudança na execução de nosso trabalho.
Dos quatro autores citados, pode-se concluir sem risco de equívocos, que, quanto menos nos valemos de nossos sonhos onde são trazidas manifestações de nossos desejos revelados ou não, menos chances teremos de melhorar nosso bem-estar e nos impulsionar na mudança requerida pelos sonhos. Os sonhos podem ser, de fato, nossos mais sinceros conselheiros, mais acreditados terapeutas, desde que aprendamos a compreendê-los, decifrá-los e segui-los.
Parafraseando Fernando Pessoa com seu magnífico verso “navegar é preciso, viver não é preciso”, pode-se dizer com a mesma força poética que “sonhar é preciso, viver não é preciso”. Ou então se sucumbe! O sonho dormido ou acordado é a válvula de escape da pressão diária da vida de cada um.
Um relegado desempregado com família para sustentar, sem onde morar, à mercê de governos discricionários, misóginos e corruptos, resta-lhe na angústia da privação recorrer ao sonho como forma de apaziguar por algum tempo seu sofrimento e agonia. Até que ele pegue o sonho com mão e sigam os dois para revirar a vida e encontrar uma vida melhor. Só ou acompanhado por outros como ele.
Desde que se creia que a realidade está dada, de fato, pouco há o que fazer. A não ser se sujeitar aos mandos e desmandos do mundo externo a nós. Caso, no entanto, passemos a seguir as revelações de nossos sonhos temos a faca e o queijo na mão para começarmos a aprender a tornar a tal realidade em nossa imagem e semelhança. D’Anna é um que mostra o caminho, Lênin foi outro que foi à luta, Sidarta mostra a riqueza e o poder dos sonhos, Galeano nos ajuda a ver melhor com os olhos bem abertos, e latino-americanos, sem as importações de outras culturas.
A nossa dura realidade do dia a dia nos alija dos sonhos, enquanto esses têm tudo para nos pôr de volta no caminho da realização de uma vida saudável, agradável e feliz. Não é o capitalismo, sob suas várias fachadas, que nos vai ditar como viver, mas sim os sonhos que irão nos liberar para construirmos um novo presente e futuro.
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(*) José Carlos Peliano, poeta, escritor e economista.
Criado em 2020-02-07 13:42:07
Luiz Phillippe Torelly (*) –
Em boa hora se instalou uma polêmica, que pode ser bastante saudável, sobre a realidade museal da cidade. A notícia de que o GDF pretende realizar um concurso público de arquitetura, para erigir o controverso Museu da Bíblia, repercutiu no meio cultural. A proposta inicial, que antes se utilizava de um “croqui” atribuído a Oscar Niemeyer, foi engavetada após um pronunciamento do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU), que não reconheceu a autoria como sendo do renomado arquiteto.
Com a notícia de que já haviam recursos de emendas parlamentares no valor de R$ 14 milhões, aprovadas pela Câmara Legislativa, para dar início à construção do museu, surgiram diversas manifestações críticas nas redes sociais e dois artigos sobre a matéria foram publicados no site www.brasiliarios.com, um de autoria do jornalista Antônio Carlos Queiroz e outro do arquiteto e urbanista Fabiano Sobreira. Cada um a seu modo condenam a construção de referido museu, a partir de um princípio basilar consagrado desde a Revolução Francesa e presente em todas as nossas constituições desde a Proclamação da República: a separação entre a igreja e o Estado.
Não vou me alongar em comentários, pois os dois artigos estão à disposição dos leitores no mencionado neste site e podem ser lidos aqui e aqui.
Pergunta preliminar - Antes de tratarmos do tema central deste artigo, a criação de museu para a cidade, cabe uma questão subsidiária, mas de importância para o bom uso dos recursos públicos. Hoje, 20/1, em entrevista ao jornal Correio Braziliense, o Sr. Secretário de Cultura mencionou que o orçamento do museu será da ordem de 26 milhões de reais. Cabe aqui uma pergunta que qualquer arquiteto ou engenheiro faria: se ainda não existe um projeto arquitetônico e estrutural, como pode ter sido feito um orçamento? Um precede o outro e é condição sine qua non. Estamos habituados a ver pelo Brasil afora, obras inacabadas exatamente por problemas dessa natureza. O Teatro Nacional e o Museu de Arte de Brasília, estão fechados pela ausência de elementos técnicos e orçamentários, que assegurem as obras que são necessárias ao seu funcionamento regular.
O principal - Essa questão preliminar posta, vamos ao principal. Os museus são instituições públicas ou privadas que tem origem no colecionismo, e que se estruturam em um formato semelhante ao atual, ao final do século XVIII. São espaços organizados para a exposição, pesquisa, ensino e reflexão das manifestações culturais de um povo ou nação. Podem ser de múltiplas naturezas ou especializados em arte, história, ciências, cinema, literatura etc.
Em todas as principais cidades do mundo, uma das atrações culturais e turísticas mais importantes são as visitas aos museus. Ninguém vai a Paris sem ir ao Louvre, em Londres uma visita ao Museu Britânico é essencial, em São Paulo ao MASP - Museu de Arte de São Paulo, no Rio de Janeiro ao Museu Nacional de Belas Artes ou ao Museu de Arte Moderna. E em Brasília qual museu os nossos habitantes e turistas podem visitar?
Infelizmente nenhum. A capital do país, uma cidade com mais de 3 milhões de habitantes, conhecida mundialmente por sua arquitetura e urbanismo revolucionários, não tem um único museu aberto, que possua um acervo representativo da diversidade cultural brasileira, onde se misturam e se mesclam culturas oriundas das Américas, África e Europa em formatos surpreendentes. Pior, seus principais equipamentos culturais estão fechados, sem data para reabertura.
Proposta - O objetivo não é apenas fazer uma crítica ao nosso vazio cultural, mas propor uma alternativa que está ao nosso alcance com os recursos e acervos já disponíveis. Ela permitiria a criação de um museu representativo da cultura brasileira com uma medida relativamente simples, mas que demanda administração e curadorias qualificadas. É sabido que várias instituições públicas, como o Congresso Nacional, Itamarati, Presidência da República, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Banco Central, possuem acervos de obras de arte, documentos, objetos históricos. Reunidos, com certeza poderiam compor um painel artístico e cultural considerável. Como todas as instituições se localizam na mesma cidade, próximas umas das outras, as despesas de translado e seguro, seriam modestas se comparadas a outras alternativas.
Importante destacar que as obras de arte, documentos e objetos que fossem compor o museu, continuariam a ser de propriedade dos atuais donos. Apenas sua visitação seria democratizada, em caráter temporário e rotativo acessível aos pelos brasilienses e turistas. O acervo do Museu de Arte de Brasília – MAB, também poderia ser incorporado. O Museu Nacional de Brasília é um espaço central, que com pequenas alterações, poderia abrigar esses acervos e ainda manter uma área para exposições temáticas rotativas.
É fundamental que deste debate participem instituições públicas, da sociedade civil, artistas, curadores, a Secretaria de Cultura, a Universidade de Brasília e o Instituto Brasileiro de Museus. Podemos passar a ter um museu de expressão nacional, com a cooperação entre os detentores dos acervos e o GDF. Basta querer.
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(*) Luiz Phillippe Torelly, arquiteto e urbanista. Ex-diretor do Iphan.
Criado em 2021-01-21 02:17:06
“Parem de nos matar!” “Vidas negras importam!” Gritam os movimentos sociais do Rio de Janeiro. Eles dirigem suas palavras de ordem ao governador Wilson Witzel (Partido Social Cristão-PSC). Na manhã de sábado (21/9) a hashtag #ACulpaÉDoWitzel já estava entre os assuntos mais comentados.
Neste final de semana, na noite de sexta-feira (20/9) uma criança de oito anos, Ágatha Félix, foi assassinada com um tiro de fuzil em mais uma operação no Complexo do Alemão. Seu corpo só foi liberado pelo IML sábado à noite por falta de funcionários. O enterro será realizado hoje (22/9) no Cemitério de Inhauma, zona norte do Rio.
Desde que foi eleito, Witzel comanda a política de segurança pública que está provocando mortes de inocentes, crianças, sobretudo negras e negros.
O porta-voz da Polícia Militar, Mauro Fliess, disse à imprensa que a PM continuará atuando nas favelas “num combate sem trégua ao tráfico e que não há evidência de que a menina Agatha tenha sido, por enquanto, morta por balas de armas dos policiais”.
O avô de Ágatha, Airton Félix, rebateu a versão da polícia e afirmou: “Não houve confronto, só houve um tiro que matou minha neta. Atiraram por atirar na Kombi onde ela estava”.
A criança foi levada ao hospital Getúlio Vargas, mas não resistiu aos ferimentos. A menina estava dentro de uma kombi com a mãe, voltando para sua casa, quando foi atingida por um tiro de fuzil nas costas.
OAB-RJ denuncia recorde macabro
A Ordem dos Advogados do Brasil, Seção do Estado do Rio de Janeiro, emitiu nota oficial em que lamenta profundamente a morte da menina Ágatha. O número de pessoas mortas pela polícia nos oito primeiros meses deste ano chega a 1.249). Um recorde macabro que o governador Witzel quer ostentar com orgulho.
A OAB-RJ lamenta que a média de cinco mortos por dia pela polícia seja encarada com normalidade pelo Executivo estadual e por parte da população. A normalização da barbárie é sintoma de uma sociedade doente.
A OAB-RJ lamenta também que horas antes da morte de Ágatha o governador tenha dito, conforme relatou a imprensa, que promoveria um “combate e caça nas comunidades”.
Os advogados do Rio de Janeiro disseram na nota que as “mortes de inocentes, moradores de comunidades, não podem continuar a ser tratadas pelo governo do Estado como danos colaterais aceitáveis. A morte de Ágatha evidencia mais uma vez que as principais vítimas dessa política de segurança pública, sem inteligência e baseada no confronto, são pessoas negras, pobres e mais desassistidas pelo poder público”.
Por meio de sua Comissão de Direitos Humanos e Assistência Judiciária, a OABRJ está à disposição da família de Ágatha e de familiares de outras vítimas da violência do Estado.
Fernando Haddad pede impeachment de Witzel
Em sua conta no twitter, Fernando Haddad, ex-candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) à Presidência da República e ex-prefeito de São Paulo, chama Witzel de assassino e pede impeachment do governador.
“Fora, Witzel: Tenho evitado tuitar esses dias. Coisas absurdas acontecendo. Mas, com toda sinceridade, eu realmente penso que há razões de sobra para que se peça o impeachment de Witzel. Ele é o grande responsável pelas atrocidades que se cometem no Rio de Janeiro. Um assassino!”, escreveu o ex-prefeito de São Paulo.
A direção do PT-RJ também emitiu nota se solidarizado com a família de menina Ágatha. O partido "se soma às vozes que exigem das autoridades a apuração desde crime e a punição dos responsáveis, assim como medidas de proteção para os moradores das favelas, que são trabalhadores e trabalhadoras".
O PT-RJ afirma que "no governo Witzel, 16 crianças já foram abatidas a tiros de fuzil - arma de uso exclusivo na PM - nas incursões policiais nas favelas do Rio de Janeiro".
Criado em 2019-09-22 03:39:58
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
A Coluna da Peste foi uma das coisas mais impressionantes que já vi. Esculpida em mármore, a trolha retorcida de 20 metros está instalada na praça principal da cidade de Linz, na Áustria. Parece ter escorrido de um gigantesco bico de creme de pasteleiro, com anjinhos e figuras monstruosas trepando ao longo de sua superfície. No topo, uma representação da Santíssima Trindade.
Dezenas de colunas semelhantes, em estilo barroco, espalham-se por outras cidades austríacas, alemãs, romenas, suíças, eslovacas, tchecas e húngaras. São monumentos dedicados à Trindade, Nossa Senhora, São Sebastião e outros santos que teriam enfrentado a epidemia da peste em 1679. Dizem que simbolizam a vitória da contra-reforma católica sobre a onda protestante e também o êxito dos europeus contra as tropas muçulmanas do Império Otomano.
Essa imagem me veio à cabeça ao refletir sobre a mentiraiada que pulula à torta e à direita na Grande Rede, envolvendo o coronavírus. Passada a pandemia, talvez tenhamos de erigir colunas parecidas com a de Linz, não para lembrar do vírus mas das fake news que nos empesteiam. Serão as quintas-colunas do bolsonarismo e de outros bolhismos da nossa época!
À torta - Do lado da esquerda, irritou-me particularmente as postagens que atribuíram aos cubanos a fabricação de uma suposta vacina contra o Covid-19. Passei um tempão explicando aos amigos e amigas que reproduziram a falsidade de que o medicamento trombeteado, o interferon alfa 2B, não é uma vacina (destinada à prevenção, não à cura) e, aliás, nem foi desenvolvido na Ilha.
Interferons são glicoproteínas naturais de sinalização celular, da classe das citocinas. Participam do controle e da replicação das células, modificando as suas respostas imunológicas com efeitos antivirais. Como informou a Fiocruz, esse interferon específico é um produto antigo, usado no tratamento de pacientes com hepatites, leucemia etc. Não duvido que ajude no tratamento dos doentes do coronavírus, mas é uma tremenda cascata dizer que é vacina e que está “curando” milhares de pessoas.
Uma primeira e inevitável constatação: infelizmente, a desinformação, a burrice e o desprezo pela ciência não são atributos exclusivos de nenhum grupo ao longo do espectro ideológico.
À direita - Do lado da direita, as mentiras começaram a ser transmitidas pelo próprio presidente da República, que atribuiu a crise do vírus a uma “fantasia criada pela imprensa”, uma conspiração, destinada – adivinhem! – a solapar o governo dele e o do seu ídolo, Donald Trump, aliás, usando os mesmos argumentos do americano.
Quando a ficha caiu, e ele percebeu que a pandemia é coisa séria – inclusive com a possibilidade, afinal negativada, de ele próprio ter sido contaminado –, o Bozo botou uma máscara em cima das outras que usa e ordenou o meia-volta-volver para a manifestação do foda-se do dia 15. Enquanto isso, o ícone dele, que na quarta-feira, 11, havia fechado o espaço aéreo dos Estados Unidos para os voos provenientes da Europa, declarava na sexta, 13, a emergência nacional no país.
“Invenção” - A atitude do Coiso vinha sendo reproduzida por seu rebanho e porta-vozes nas últimas semanas. No dia 25 de janeiro, Xico Graziano tascou no Twitter: “Fiquem tranquilos. Epidemia de coronavírus é invenção do jornalismo catastrófico. Foi assim com a gripe aviária e outras, que matariam milhões. Não vivemos mais na época da peste negra. Precisamos acreditar na MEDICINA, no poder do conhecimento científico. Igual na AGRONOMIA”.
Semanas depois, o Xico voltou atrás, reconhecendo que havia se equivocado e que a crise é real mesmo. Ficou devendo a explicação de como conciliar “conhecimento científico” com o olavismo, a filosofia plana do guru do bolsonarismo.
Já o Alexandre Garcia, ex-porta-voz do general João Figueiredo e agora porta-voz informal do Bolsonaro, saiu-se com essa no dia 9 de maio: “O coronavírus atualiza Freud em ‘Histeria’ e ‘Psicopatia da Vida Cotidiana’. E Shakespeare, em ‘Muito Barulho por Nada’”.
Uau, uau! - Bem, não sou eu que farei barulho pelo fato de ele ter errado a transcrição do título do livro do Freud – “psicopatologia” é a palavra correta. Errinho besta. Quem quiser que faça o devido auê pelo equívoco, esse sim, monstruoso e até criminoso, de minimizar a relevância da pandemia do covid-19, cometido pelo Alexandre, o Grande [espaço para o qualificativo mais adequado na opinião d@s prezad@s leitores e leitoras].
Isso posto, recolho-me à minha insignificância, menor do que o diâmetro do coronavírus, da ordem de 125 nanômetros, para ler dois clássicos da luta contra a mentira: “As cinco maneiras de dizer a verdade”, do Bertolt Brecht, e “A arte refinada de detectar mentiras”, capítulo 12 de “O Mundo Assombrado pelos Demônios – A ciência vista como uma vela no escuro”, do Carl Sagan.
Volto breve!

Criado em 2020-03-14 02:09:45
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Comemoramos hoje, 12 de fevereiro, o 211º aniversário do naturalista Charles Darwin, responsável pela maior revolução científica de todos os tempos, iniciada com a publicação de A Origem das Espécies, que desvendou de uma vez por todas a origem comum de todos os seres vivos e a sua evolução pelo mecanismo da seleção natural.
Há 11 anos, eu publiquei na revista Reportagem, da Editora Manifesto, o artigo reproduzido abaixo, para comemorar os 150 anos de publicação da Origem, poucas semanas antes de eu viajar até a casa de Darwin, em Kent, nos arredores de Londres, onde passei todo o dia 24 de novembro, comemorando o feito. O artigo oferece algumas informações básicas sobre o grande cientista e a sua obra.
Desde então, houve muitos avanços nos estudos da evolução, destacando-se, por exemplo, a edição de genes pela técnica conhecida como CRISPR/Cas 9, um mecanismo que as bactérias já usam há milhões de anos para se defender de certos vírus, cortando trechos de sua sequência genética. Oportunamente, voltaremos ao assunto aqui no Jornal do Romário.
Na minha opinião, não existe área científica mais fascinante do que a biologia, por lidar com as engrenagens da vida, e não apenas da vida humana. O lamentável é que até hoje temos de combater ideias preconceituosas, regressivas, puramente ideológicas, disfarçadas em novas versões do velho criacionismo, um asilo da ignorância.
150 anos de A Origem das Espécies, a obra-prima do capelão do Diabo.
Com esse livro, Charles Darwin desferiu um golpe profundo nas ideias religiosas que infestavam a ciência de sua época.
Imagine uma ex-aluna de Chopin tocando piano para minhocas. Isso mesmo, minhocas! O piano é um Broadwood, e a pianista, Emma Darwin, née Wedgwood, prima e mulher de Charles Darwin. A cena aconteceu no início de 1881, quando o naturalista inglês, com 72 anos, já alquebrado e sofrendo crises de angina, conduzia, com a ajuda da família, aquela que seria a sua última experiência científica.
Na ocasião, testava a sensibilidade das minhocas aos sons. Emma tocou o mais forte que pôde. O Estudo Revolucionário Op. 10, nº 12, talvez? Ninguém registrou. Sabe-se que o filho Frank participou do “recital” tocando fagote. O neto de quatro anos e meio, Bernard (Abbadubba), soprou um apito de estanho, e a filha Bessy gritou o mais alto que pôde. Em vão, relatou Darwin no primeiro capítulo do livro A Formação de Húmus Vegetal pela Ação das Minhocas, com observações sobre seus hábitos, o último que publicou em vida. “As minhocas não possuem qualquer sentido de audição.” Em compensação, “elas são extremamente sensíveis às vibrações de qualquer objeto sólido. Quando os vasos contendo duas minhocas, que haviam ficado indiferentes ao som do piano, foram colocados sobre o instrumento, e a nota Dó grave, golpeada, ambas se esconderam nos buracos. Depois de um tempo, voltaram à superfície, e quando a nota Sol aguda foi tocada, elas se retraíram”.
O leitor deve achar extravagante essa atenção que um dos maiores cientistas de todos os tempos dispensou às minhocas. Sentimento semelhante foi expresso pelo professor de biologia e agitador social Edward Aveling – futuro companheiro de Eleanor, a filha caçula do líder comunista Karl Marx – durante um jantar que Darwin ofereceu, no dia 28 de setembro de 1881, a Ludwig Büchner, filósofo materialista e fundador da Liga dos Livre-Pensadores da Alemanha. Pacientemente, Darwin explicou a Aveling que vinha estudando os hábitos daqueles bichinhos há 40 anos. Pode-se dizer que, no final da vida, ele mantinha a coerência: já que todas as formas de vida têm uma origem comum, o mais sensato em termos de método era não privilegiar nenhuma delas, fossem cracas, pombos, tentilhões, fungos, orquídeas, homens ou minhocas.
A conversa, segundo a dupla de biógrafos Adrian Desmond e James Moore, enveredou para a questão do ateísmo. Darwin se confessou um “agnóstico”, termo cunhado havia mais de 20 anos por seu amigo Thomas Huxley. O livro sobre as minhocas foi lançado no mês seguinte, alcançando grande sucesso editorial. Vendeu seis mil exemplares no prazo de um ano.
Lento e doloroso - Consciente da precariedade da saúde e muito prático, Darwin já havia redigido o testamento. Tratou então de usar o resto das forças para completar a autobiografia, a maior parte da qual já havia redigido em 1876. Seis meses depois, no dia 19 de abril de 1882, falecia em sua casa, em Downe, Kent, hoje um subúrbio de Londres, onde viveu praticamente confinado desde 1842, desenvolvendo seus estudos e experiências numa estufa, no estúdio, nos amplos jardins que ele mesmo cultivara e na estradinha Sandwalk, construída para fazer caminhadas no meio de um bosque.
A morte, em decorrência de insuficiência cardíaca, foi dolorosa e demorada, com náuseas, espasmos e vômitos de sangue. Durante a agonia, Darwin disse que não tinha medo de morrer, fez uma última declaração de amor a Emma e se mostrou ansioso com o desenlace. Alguns goles de uísque o confortaram no finalzinho, contam seus biógrafos Desmond e Moore.
A família preparou-se para enterrá-lo no adro da igreja em Downe. Porém, o amigo Huxley e o primo Francis Galton discordaram, iniciando uma campanha para levá-lo para a Abadia de Westminster, o lugar de descanso mais honroso para os heróis da Grã-Bretanha. Com o auxílio de grandes figurões da política, da imprensa e da comunidade científica, convenceram a família e as autoridades eclesiásticas. Sete dias depois, o corpo do “maior inglês desde Newton”, como afirmou The Pall Mall Gazette, seria sepultado justamente sob o monumento de Sir Isaac Newton, o homem que, segundo a versão popular, havia deduzido da queda de uma maçã a lei da gravitação universal. Uma medida justa, pois o novo vizinho, de maneira ousada, também havia experimentado do fruto da árvore do conhecimento.
Veredas de paz? - O clima da cerimônia fúnebre era de conciliação entre a fé e a ciência. Além de legítimo herói nacional, quase todo mundo considerava Darwin uma espécie de santo secular, que havia trabalhado arduamente para ampliar a glória científica dos britânicos. Um organista compôs um hino especial para a ocasião, com versos retirados dos Provérbios de Salomão (Pv 3-13,15-17): “Feliz o homem que acha a sabedoria e o homem que adquire o conhecimento. [Essa mercadoria] é mais preciosa que as pérolas, e tudo o que podes desejar não é comparável a ela. O alongar-se da vida está na sua mão direita, na sua esquerda, riquezas e honra. Os seus caminhos são caminhos de delícias, e todas as suas veredas, de paz”.
Desmond e Moore ironizam a “mensagem sacrílega não darwiniana” contida nesse último verso, entoado por meninos cantores de batina. De fato, Darwin achava que o reino natural não tinha nada de pacífico e que algum “capelão do diabo” poderia escrever um livro formidável sobre as “obras da natureza – desastradas, perdulárias, ineficientes, vulgares e horrivelmente cruéis”.
Muito mais ironia haveria, porém, se o compositor do hino, J. Frederik Bridge, tivesse transcrito o versículo seguinte do capítulo 3 dos Provérbios, o de número 18: “É árvore de vida para os que a alcançam, e felizes são todos os que a retêm”. Tendo desenvolvido, na primeira edição de A Origem das Espécies, de 1859, o conceito da árvore da vida ramificada, para demonstrar que todos os organismos descendem de um ancestral comum, Charles Darwin – ele próprio no papel de “capelão do diabo” – havia selado a separação entre a fé e a ciência e encontrado uma explicação racional para a origem dos seres vivos. Com isso, inaugurava a maior revolução científica de todos os tempos, embora isso só fosse plenamente reconhecido quase cem anos depois.
Considerada por Darwin um simples resumo de uma obra maior que vinha escrevendo (“enrolando” é o termo mais correto) havia mais de 20 anos, a primeira edição de A Origem das Espécies foi lançada em Londres, em 24 de novembro de 1859. Embora fosse um “resumo”, o autor disse que se tratava de um “longo argumento”. Coerentemente, o seu título era quilométrico: “Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural ou a preservação das raças favorecidas na luta pela vida”. Para completar, longa também é a história desse livro, que remonta à viagem empreendida por Darwin a bordo do Navio de Sua Majestade Beagle pelos mares do Sul entre 27 de dezembro de 1831 e 2 de outubro de 1836.
Antiescravismo - Alguns biógrafos, como Janet Browne, recuam no tempo ainda mais, dizendo que a semente de suas ideias germinou na Universidade de Edimburgo (Escócia), onde Darwin permaneceu dois anos cursando medicina. Faz sentido. Lá ele aprendeu a empalhar animais com John Edmonstone, um ex-escravo negro das Antilhas, que reforçou as suas ideias antiescravagistas – uma bandeira de sua família – e o convenceu de que brancos e negros compartilham a mesma humanidade. Essa ideia seria fundamental para os estudos posteriores, que o levaram a defender o monogenismo, isto é, a origem comum das “raças” humanas, em oposição ao poligenismo, defendido pelos escravagistas norte-americanos, que se utilizavam dessa hipótese para justificar a suposta superioridade dos brancos.
Destaque-se que Darwin não tratou da ascendência humana em A Origem das Espécies. Seus estudos sobre o assunto só foram publicados 12 anos depois, em A Descendência do Homem e Seleção em Relação ao Sexo. Foi também em Edimburgo que Darwin estudou com Robert Grant, um pesquisador de animais marinhos e evolucionista lamarckiano, defensor da tese de que a esponja foi o ancestral comum dos seres vivos.
Estilo “tosco” - O estilo peculiar do texto de A Origem das Espécies mereceu críticas díspares. Friedrich Engels, que adquiriu um dos 1.250 exemplares da primeira edição, todos vendidos no dia do lançamento, qualificou Darwin, numa carta escrita a Karl Marx no dia 12 de dezembro de 1859, como “absolutamente esplêndido”, apesar do estilo “tosco”. “Havia um aspecto da teleologia que ainda precisava ser derrubado, e agora isto foi feito. Até hoje nunca houve uma tentativa tão grandiosa de demonstrar a evolução histórica na natureza, e certamente tão bem-sucedida. É preciso, naturalmente, aguentar o tosco método inglês.”
A queda da teleologia, a ideia de que as coisas da natureza foram criadas com finalidades determinadas, foi um dos maiores feitos de Darwin, como se verá adiante. Dois dias antes, o próprio Darwin, numa carta dirigida ao geólogo Charles Lyell, seu amigo e colaborador, contou que Richard Owen, superintendente dos Departamentos de História Natural do Museu Britânico, havia achado seu estilo muito personalista. “Não queremos saber em que o Darwin acredita e do que está convencido, mas o que ele é capaz de provar.” Darwin concordou, “da maneira mais plena e sincera”, e se comprometeu a revisar os “acreditos” e os “convencidos” na edição seguinte. Owen, porém, o interrompeu: “Nesse caso, você estragará seu livro, cujo encanto está em ele ser o próprio Darwin”.
Encantador - Mesmo tendo sido redigido às pressas, com lapsos que o próprio Darwin corrigiria nas cinco edições posteriores, o livro tem mesmo encanto. Sua fluidez decorre, em grande parte, das observações diretas de fenômenos naturais que qualquer pessoa pode ver, e com a vantagem de ser isento de gráficos, termos técnicos e notas de rodapé. Certos trechos são arrebatadores, como o último parágrafo do último capítulo, uma síntese da nova teoria. Darwin diz que é interessante observar um terreno coberto de plantas de várias espécies, com pássaros cantando nas ramagens, insetos voando ao redor e minhocas rastejando no solo úmido, e depois refletir que todas essas elaboradas formas de vida, tão diferentes umas das outras e dependentes umas das outras de maneira tão complexa, foram todas criadas de acordo com leis que atuam em nosso entorno.
Ele menciona entre essas leis o crescimento com reprodução, a hereditariedade, a variedade decorrente da ação direta e indireta das condições de vida e do uso e desuso (ops, aqui Darwin comete um deslize lamarckiano!), a taxa de crescimento tão alta que leva à luta pela vida e, em consequência, à seleção natural, implicando a divergência dos caracteres e a extinção das formas menos aperfeiçoadas. “Assim, da guerra da natureza, da fome e da morte, resulta diretamente o mais elevado objeto que somos capazes de conceber, especificamente, a produção dos animais superiores.”
O final do parágrafo é famoso: “Há grandiosidade nesta visão da vida, com os seus diversos poderes originalmente concentrados num pequeno conjunto de formas ou mesmo numa única forma. Enquanto este planeta continuava a girar de acordo com as leis fixas da gravidade, uma quantidade infinita de formas tão belas e admiráveis emergia de um começo tão simples, evoluía e continua, ainda hoje, a evoluir”.
Não há como deixar de comparar alguns dos trechos de A Origem das Espécies com o tom solene, a concisão e a elegância da prosa da Bíblia na versão clássica do rei Jaime, que Darwin leu incontáveis vezes quando estudava teologia em Cambridge, para se tornar pastor. Era mesmo necessária certa pompa no estilo para desbancar a doutrina da criação contada no Gênesis. No capítulo 14 da primeira edição de A Origem, depois de recapitular os principais fatos e considerações que o convenceram de que as espécies mudaram e ainda estão lentamente mudando “pela preservação e acumulação de variações sucessivas, ligeiras e favoráveis”, Darwin se pergunta por que os mais eminentes naturalistas e geólogos de sua época rejeitaram essa ideia. Ele diz que “a crença de que as espécies eram produções imutáveis era quase inevitável quando se pensava na curta duração da história do mundo”.
A criação: 23/10/4004 a.C. - Em meados do século XIX, era generalizada a crença de que o mundo havia sido criado recentemente e que as espécies eram fixas. Ainda tinha muito crédito o arcebispo irlandês James Ussher (1581-1656), que, baseado na cronologia de certas histórias bíblicas, calculara o exato dia em que o mundo fora criado: a véspera de 23 de outubro do ano 4004 antes de Cristo, um domingo. Mas, como lembram os irmãos Brody em As Sete Maiores Descobertas Científicas da História, uma série de descobertas dos herdeiros do Renascimento iria gradativamente solapar os ensinamentos da Bíblia e criar o caldo de cultura em que tomou corpo a teoria de Darwin.
Em meados do século XVII, o naturalista francês Isaac de La Peyrere aventou que algumas pedras com formato estranho, encontradas no interior da França, foram esculpidas por homens que viveram antes de Adão. Em 1749, o naturalista francês Georges-Louis Leclerc de Buffon publicou o livro que lançou as bases científicas da geologia e da biologia, sugerindo que os animais haviam sofrido algum tipo de mudança evolutiva e que a Terra poderia ter uns 35 mil anos. Em 1771, Johann Friedrich Esper encontrou ossos humanos numa caverna na Alemanha junto ao esqueleto de um urso extinto. Dezenove anos mais tarde, perto de Hoxne (Inglaterra), John Frere descobriu ferramentas de pedra lascada ao lado de ossos de animais extintos. Esses achados multiplicaram-se na Europa e foram formando uma imagem da Terra não descrita na Bíblia. Nela não consta, por exemplo, que a arca de Noé tivesse abrigado mamutes, rinocerontes lanosos ou tigres-dentes-de-sabre.
Além das evidências fósseis, surgiram teorias geológicas que comprovaram a antiquíssima idade da Terra, requisito central para a lógica da teoria darwinista. Em 1785, James Hutton apresentou à Real Sociedade de Edimburgo a sua Teoria da Terra, em que descreve a formação dos solos por meio do gradual desgaste das rochas pelas chuvas e ventos, a erosão das costas pelas ondas, a formação de colinas pela sedimentação etc., e não, principalmente, por catástrofes como os terremotos e as inundações. Com sua obra, Hutton fundou a geologia moderna e definiu o princípio do uniformitarismo, segundo o qual as mesmas leis e processos naturais que atuaram no passado continuam atuando no presente em todo o universo.
Darwin tomou conhecimento dessas teorias a bordo do Beagle, quando ganhou do capitão do navio, Robert Fitzroy, o primeiro volume da obra de Charles Lyell, Princípios de Geologia, publicada em 1830. Lyell desenvolveu as ideias de Hutton, comprovando-as com grande quantidade de exemplos recolhidos em suas longas viagens pelo mundo.
“Pela primeira vez na história, pareceu que a Terra poderia ter até mesmo milhões de anos de existência”, anotaram os irmãos Brody. Já não era mais “quase inevitável”, como havia dito Darwin, continuar a crer na imutabilidade das espécies, pois a Terra tinha idade suficiente para que as espécies tivessem evoluído lentamente.
Enquanto isso, novas provas fósseis da evolução iam se acumulando. Em 1830, o paleontólogo belga Philippe-Charles Schmerling descobriu utensílios de pedra e dois crânios humanos junto a esqueletos de rinocerontes e mamutes extintos. Em 1838, o arqueólogo francês Jacques Boucher de Perthes achou machados de sílex e outras ferramentas no norte da França. Foi nesse caldo de cultura, portanto, que a teoria darwiniana floresceu.

Da Grécia Antiga - Darwin não foi o pioneiro da ideia da evolução, no entanto. Antes dele, o princípio de que os seres vivos surgiram e se desenvolveram na própria Terra, sem o sopro divino, já tinha sido formulado pelo grego Epicuro (341 a.C. - 270 a.C.) e pelo romano Lucrécio (99 a.C. - 55 a.C.), mas ficou esquecido por mais de 20 séculos. Mais recentemente, vários estudiosos haviam desenvolvido ideias evolucionárias. O sueco Carlos Linnaeus, autor de Sistema da Natureza (1735), que estabeleceu as bases da classificação científica dos organismos, ficou em dúvida sobre o surgimento de novas espécies e, nas últimas edições da obra, retirou a afirmação de que elas são fixas. Darwin reconheceu que o conde de Buffon foi o primeiro em tempos modernos a abordar a questão em termos científicos e que o naturalista Jean-Baptiste de Lamarck foi o autor, em 1809, da teoria mais popular até então, ao atribuir a principal causa da evolução aos efeitos do hábito (fator uso e desuso ou herança dos caracteres adquiridos) e propor uma lei do desenvolvimento progressivo.
O próprio avô de Darwin, Erasmus Darwin, em sua Zoonomia (1794-1796), havia antecipado algumas das conclusões (e erros) de Lamarck. A lista inclui o naturalista francês Geoffroy Saint-Hilaire, o poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe, o sociólogo Herbert Spencer e muitos outros, que Darwin arrolou num esboço histórico do progresso da ideia da evolução, acrescentado à terceira edição de A Origem, em 1861, em resposta aos que o haviam acusado de negar crédito aos seus predecessores.
Um ano antes de lançar seu livro mais famoso, Darwin, em conjunto com o naturalista Alfred Russel Wallace, já havia publicado um resumo da teoria da seleção natural. De início, havia pensado em publicar um catatau intitulado Seleção Natural, no qual vinha trabalhando havia 20 anos. Em junho de 1858, porém, recebeu um envelope de Wallace, que estava fazendo pesquisas em Ternate, nas Índias Orientais. Foi um choque: Wallace tinha redigido um artigo expondo a mesmíssima teoria da seleção natural. Segundo Darwin, a coincidência era tão grande que, “se Wallace tivesse meu rascunho escrito em 1842, não poderia ter feito resumo melhor”.
Em pânico, Darwin escreveu para Lyell, que já o havia advertido há tempos para apressar a exposição de sua teoria, e para o botânico Joseph Dalton Hooker. Os dois amigos acharam que não seria justo Darwin perder a primazia autoral da teoria e, numa manobra rápida, sem consultar Wallace, apresentaram em conjunto à Linnean Society de Londres tanto o artigo de Wallace quanto um resumo redigido por Darwin. Por sorte, Lyell já conhecia os primeiros resultados da pesquisa de Darwin desde 1844, e o parceiro americano de Darwin, Asa Gray, há tempos havia recebido um esboço. Embora sem esconder certa ironia, Wallace ficou satisfeito e honrado com a solução salomônica de Lyell e Hooker.
Com Malthus, o estalo - Retomando o fio da meada: em que momento Darwin teve o grande estalo? Ele conta na autobiografia que, depois de voltar da viagem do Beagle, em outubro de 1836, pareceu-lhe que seguir o exemplo de Lyell era a melhor opção para entender a questão das variedades das plantas e animais domésticos e selvagens. Abriu seu primeiro caderno de notas em julho de 1837 e, inspirado nos princípios de investigação de Roger Bacon, “e sem qualquer teoria”, começou a colecionar montes de fatos sobre a domesticação de plantas e animais, pesquisando a literatura, aplicando questionários e conversando com criadores e jardineiros. Ficou espantado com a quantidade de livros que havia lido e resenhado e logo percebeu que “a seleção era a chave do sucesso do homem em criar raças úteis de animais e plantas”.
O estalo da seleção natural aconteceu em outubro de 1838, 15 meses depois de começar sua pesquisa sistemática. Darwin conta que, por diversão, leu Um Ensaio Sobre o Princípio da População, no qual o pastor, economista e demógrafo Thomas Robert Malthus defende a polêmica tese de que população humana tende a crescer de maneira exponencial, além dos meios de subsistência, crescentes em razão aritmética. Ainda assim, mantém-se o equilíbrio porque o número de indivíduos é controlado por ações naturais, como as epidemias, ou por ações humanas, como as guerras, o infanticídio e a abstinência sexual.
Malthus reconhecia que esses controles recaem prioritariamente sobre as pessoas mais pobres, mais fracas e doentes da sociedade, “como é a vontade de Deus”. Darwin, já escoladíssimo na observação da “luta pela existência” dos animais e plantas, ficou impressionado com a tese de Malthus. Juntou os pauzinhos: então quer dizer que nascem muito mais indivíduos do que os que são capazes de sobreviver, e os mais fracos são os primeiros eliminados?
Darwin conta: “Ocorreu-me que, nessas circunstâncias, as variações favoráveis tenderiam a ser preservadas, e as desfavoráveis, a serem destruídas. O resultado disso seria a formação de novas espécies. Finalmente, então, eu tinha ali uma teoria para o meu trabalho”.
Fato curiosíssimo é que o mesmo argumento de Malthus serviu de gatilho para a concepção independente de Wallace sobre a seleção natural. Darwin não diz, mas certamente já tinha lido argumento similar ao de Malthus quando estudou a obra do arcebispo William Paley durante o curso de teologia em Cambridge. Ele o admirava por suas elegantes imagens na descrição da adaptação dos animais e plantas ao ambiente e também por sua posição contra a escravidão. Em Teologia Natural ou evidências da existência e atributos da divindade, obra publicada em 1802, Paley escreveu que “a superfecundidade dos animais excede a capacidade ordinária da natureza para acolher e manter a sua prole. Toda superabundância supõe destruição, ou precisa se destruir”. Diferentemente, continuou, “se fosse permitida a alguma espécie se reproduzir naturalmente, sem controle, a comida de outras espécies seria consumida para mantê-la”. Justamente por isso “é necessário que os efeitos dessas prolíficas faculdades sofram redução e é por isso que ocorrem as ‘podas’ entre os animais, pela ação de um sobre o outro”.
Design Inteligente - A despeito dessa afirmação, coerente com o conceito da seleção natural, o reverendo foi um dos principais alvos ideológicos de Darwin. Isso porque Paley desenvolveu o conceito do projeto ou design inteligente, tornando-se um dos grandes defensores da teleologia, a ideia de que as coisas naturais são criadas com propósitos determinados. É dele o famoso exemplo do relojoeiro, que até hoje serve de base para os criacionistas no combate ao darwinismo. Paley afirmou que, se alguém encontra um relógio durante uma caminhada, imediatamente supõe um relojoeiro, ou seja, o projetista que teria desenhado ou montado aquela máquina. Decorre daí que, se você encontra projetos tão complexos como os seres naturais ou partes deles, como um olho, forçosamente tem de supor um projetista, um designer inteligente, o Criador, enfim.
O contra-argumento de que há imperfeições nas obras naturais não invalida o argumento principal, isto é, a existência do Criador inteligente, dizia Paley, assim como o mau funcionamento do relógio não serve para negar a existência do relojoeiro. Negar essa verdade é ateísmo, decretou o arcebispo. Pois Darwin negou o argumento do designer inteligente de maneira absolutamente consciente. Em uma carta que mandou para o seu parceiro americano, Asa Gray, em 22 de maio de 1860, seis meses, portanto, após a publicação de A Origem, afirmou que não teve a intenção de escrever “ateisticamente”. Disse, porém, que havia miséria demais no mundo. “Eu não posso me persuadir que um Deus beneficente e onipotente pudesse ter criado de propósito os Ichneumonidae [família de vespas] com a expressa intenção de se alimentarem dentro dos corpos vivos das lagartas, ou que um gato deva brincar com ratos. Não acreditando nisso, não vejo a necessidade de crer que o olho foi expressamente projetado.”
Em contrapartida, Darwin escreveu que não estava “satisfeito em mirar o universo maravilhoso, em especial a natureza do homem, e concluir que tudo é o resultado da força bruta. Estou inclinado a olhar para cada coisa como o resultado de leis projetadas, com detalhes bons ou maus, que atuam de acordo com o que nós podemos chamar de acaso”.
Recepção calorosa - A Origem das Espécies foi recebida pelo público de maneira calorosa. Darwin, que já era popular desde a publicação de O Diário do Beagle, em 1839, tornou-se uma celebridade. Controversa, é claro. Mas o público, que há tempos vinha seguindo as disputas sobre a evolução, estava preparado para acompanhar o debate encarniçado com os criacionistas. Tímido e recatado, Darwin preferiu delegar a defesa pública de suas ideias ao amigo Huxley, desde então conhecido como “o buldogue de Darwin”, por seu tom exaltado e brilhante.
O confronto que Huxley teve, no salão da Associação Britânica para o Progresso da Ciência, em 30 de junho de 1860, com o bispo Samuel Wilberforce, passou para a história como um divisor de águas entre a ciência e a religião. A certa altura, o bispo – conhecido como Soapy Sam, por seu “caráter ensaboado” – perguntou a Huxley se ele era descendente de macacos por parte do avô ou da avó. Em resposta à provocação, Huxley disse que preferia ser parente de um macaco a ter como avô um homem que empregava a inteligência para introduzir o ridículo numa discussão científica.
Até a morte, Darwin preparou mais cinco edições de A Origem, com mudanças substanciais, nem sempre melhores. Na quinta edição, adotou a fórmula de Herbert Spencer – “a sobrevivência dos mais aptos” – como sinônimo de seleção natural, referindo-se, porém, aos organismos mais bem adaptados ao ambiente, e não aos organismos mais fortes. A concessão ajudou na difusão da visão spenceriana, conhecida como “darwinismo social”, uma mistura ideológica de malthusianismo com neolamarckismo. Essa expressão serviu para justificar, “cientificamente”, o arrivismo de grandes capitalistas, como o magnata do aço escocês-americano Andrew Carnegie e o fundador da Standard Oil, John Rockfeller.
A despeito das homenagens prestadas por Darwin ao malthusianismo, transportando para a natureza as taras da sociedade britânica, como disse Marx, os marxistas receberam o darwinismo de maneira entusiástica. No enterro de Marx, em 14 de abril de 1883, no cemitério de Highgate, em Londres, Engels comparou: “Assim como Darwin descobriu a lei do desenvolvimento da natureza orgânica, Marx descobriu a lei do desenvolvimento da história humana”.
Aqui a história produziu uma ironia: quando Spencer morreu, 20 anos depois, suas cinzas foram parar no cemitério de Highgate, numa sepultura bem na frente do túmulo de Marx!
Cinco teorias - O biólogo Ernst Mayr, considerado “o Darwin do século XX”, explica que a chamada teoria darwinista ou darwinismo, consiste, na verdade, em pelo menos cinco teorias distintas, mais bem compreendidas quando discutidas separadamente. São elas:
Mayr enfatiza que apenas as duas primeiras teorias – a evolução como fato e a teoria da origem comum – foram aceitas pela maioria dos biólogos logo após a publicação de A Origem. Essa seria a primeira revolução darwiniana. As outras três – a seleção natural, o gradualismo e a especiação – encontraram forte oposição e só foram recepcionadas pela maioria dos cientistas na década de 1930, com a chamada síntese evolucionista, que uniu as propostas darwinianas aos estudos da biologia celular e molecular baseados nas pesquisas redescobertas de Gregor Mendel. Essa foi a segunda revolução darwiniana.
Mayr explica que o relativo eclipse do darwinismo até a terceira década do século passado se deveu, além da oposição baseada nos dogmas religiosos e na teleologia ou finalismo, ao pensamento tipológico ou essencialista, retirado do repertório de Platão e até então esposado pela maioria dos estudiosos da natureza. Segundo esse pensamento, todos os fenômenos da natureza podem ser divididos em classes (eide, em grego), definidas por sua essência. Um triângulo, por exemplo, é sempre um triângulo, não importando a sua forma. Uma árvore é definida por ter um tronco e uma copa. As variações de uma classe são acidentais e irrelevantes. Portanto, as classes ou “tipos naturais” têm uma essência imutável.
Darwin, no entanto, rompeu radicalmente com esse pensamento, propondo que os seres vivos não são classes constantes, mas populações variáveis. No interior de uma população que se reproduz sexualmente, cada indivíduo é diferente dos demais, aplicando-se esse fato também às populações humanas. Ao contrário do que dizem hoje os fundamentalistas dos genes, a seleção natural atua sobre os indivíduos (os fenótipos) de cada população. Os melhores genes são selecionados indiretamente, portanto. Os indivíduos que melhor se adaptam, num ambiente que também sofre mudanças, são aqueles que têm mais chances de se reproduzir e passar adiante os seus genes. A evolução ocorre a longo prazo, porque dentro de uma população de organismos há um grande número de variedades. Quanto maior for esse número, maior será a estabilidade da espécie, ensina Mayr.
Ciência de qualidade - O “pensamento populacional” (que não tem nada a ver com as ideias de Malthus) é um dos conceitos mais importantes da biologia e o fundamento da teoria evolucionista moderna, diz o biólogo alemão. A debilidade de Darwin é que ele não conseguiu explicar a origem das variedades no interior das espécies. Na época, quase ninguém conhecia os estudos da genética de Mendel, só retomados nas décadas de 30 e 40 do século XX.
A despeito da lacuna genética nos estudos de Darwin, por que será que o darwinismo alcança tanto êxito 150 depois da publicação de A Origem e por que Darwin é considerado um dos maiores pensadores de todos os tempos? Basicamente porque fez ciência da melhor qualidade, testando as suas hipóteses fora do âmbito ideológico. É óbvio que ele carregava os preconceitos e a ideologia de sua época. Individualista liberal, detestava o socialismo, mas também era um fervoroso antiescravagista e muito atormentado em matéria de religião. Porém, era sobretudo um cientista, um pesquisador obsessivo, comprometido com as evidências.
Ao se comemorar os 200 anos de nascimento de Darwin e os 150 anos de A Origem das Espécies, vale a pena citar um trecho do livro Cosmos, do astrofísico americano Carl Sagan, sobre o papel da ciência, que, mais do ninguém, Darwin soube praticar: “Não existe outra espécie na Terra que faça ciência. Ela é, até agora, uma invenção inteiramente humana, evoluída através de uma seleção natural, no córtex cerebral, por uma razão muito simples: ela funciona. Não é perfeita e pode ser mal utilizada. É somente uma ferramenta, mas até agora a melhor que temos, autocorretiva, progressiva, aplicável a tudo. Possui duas regras. Primeira: não existem verdades sagradas; todas as suposições devem ser examinadas criticamente; argumentos de autoridade não têm valor. Segunda: tudo que seja inconsistente com os fatos deve ser rejeitado ou revisto. Devemos compreender o Cosmos como ele é e não confundir isso com o que gostaríamos que fosse. O óbvio é algumas vezes falso; o inesperado, algumas vezes verdadeiro”.
Criado em 2020-02-12 13:05:47
O Grupo de Pesquisa e Extensão Cinema e Memória na América Latina, da Universidade Federal Fluminense (UFF), promove, de 18 a 31 de janeiro, dezessete exibições de filmes políticos argentinos por meio do canal no YouTube (Grupo Cinema e Memória). Os títulos ficam disponíveis diariamente, a partir das 20h até às 19h do dia seguinte. Programação e inscrições clique aqui
Essa mostra permeia a história política argentina na segunda metade do Século XX. A atividade contará com a participação de dois convidados especiais para um debate a partir dos olhares histórico e cinematográfico: Dia 23/1, Norberto Ferreras; e 30/1, Fabián Nuñez.
Programação
18/1
"A Hora dos Fornos" - Fernando E. Solanas e Octavio Getino ("La Hora de Los Hornos" - Parte 1: "Neocolonialismo y Violencia", Argentina, 1968, 95 min, leg em português). Trailer: https://bit.ly/3p34m9K
19/1
"A Hora dos Fornos" - Fernando E. Solanas e Octavio Getino ("La Hora de Los Hornos" - Parte 2: "Acto Para la Liberación", Argentina, 1968, 120 min, leg em português)
"A Hora dos Fornos" - Fernando E. Solanas e Octavio Getino ("La Hora de Los Hornos" - Parte 3: "Violencia y Liberación", Argentina, 1968, 45 min, leg em português) - Trailer: https://bit.ly/35Nojd9
20/1
"Nazión" - Ernesto Ardito (Argentina, 2011, 110 min, leg em inglês). Trailer: https://bit.ly/3srst4p
21/1
"Operación Masacre" - Jorge Cedrón (Argentina, 1973, 115 min, sem leg)
22/1
"Los Traidores" - Raymundo Gleyzer (Argentina, 1973, 113 min, leg em inglês) -Trailer: https://bit.ly/3bPasXF
23/1
"Seré Millones" - Fernando Krichmar, Omar Neri e Mónica Simoncini (Argentina, 2013, 103 min, leg em português) - Trailer: http://bit.ly/39HbKRM
24/1
"Las AAA Son las Tres Armas" - Jorge Denti ("Las AAA Son las Tres Armas: Carta Abierta de Rodolfo Walsh a la Junta Militar", Argentina, 1977, 20 min, leg em inglês)
"Raymundo" - Ernesto Ardito e Virna Molina (Argentina, 2002, 127 min, sem leg) - Trailer: https://bit.ly/3svCX2p
25/1
"Resistir" - Jorge Cedrón (Argentina, 1978, 71 min, sem leg) - Trailer: http://bit.ly/3oQNl2t
26/1
“El Plan Economico de Martínez de Hoz", (Argentina, 26 min, sem leg).
“Malvinas: Historia de Traiciones" - Jorge Denti (Argentina/México, 1984, 87 min, sem leg).
27/1
Infância Clandestina - Benjamín Avila / Argentina/Brasil, 2012, 110 min, leg em português) - Trailer: http://bit.ly/3ik6Vlj
28/1
Después de La Tormenta - Tristán Bauer (Argentina/Espanha, 1990, 105 min, sem leg).
29/1
"Botín de Guerra" - David Blaustein (Argentina/Espanha, 2000, 118 min, leg em inglês) - Trailer: https://bit.ly/3svTiEi
30/1
"La Guardería" – Virginia Croatto (Argentina, 2015, 71 min, sem leg) - Trailer: https://bit.ly/35P9I0T
31/1
"Memorias del Saqueo" – Fernando E. Solanas (Argentina/França/Suíça, 2004, 120 min, leg em português) - Trailer: http://bit.ly/3oS9uOa
Sobre os filmes
Clássico do cinema político-militante mundial, La Hora de los Hornos (A Hora dos Fornos) tem direção de Fernando "Pino" Solanas (1936-2020) e Octavio Getino (1935-2012). O longa metragem começou a ser rodado em 1966, durante o governo constitucional de Arturo Illia, e continuou na forma clandestina quando esse governo foi derrubado pelo general Juan Carlos Ongania. Trata-se de um verdadeiro símbolo da cultura de resistência dos anos 1960. Solanas tem outro título na mostra, "Memorias del Saqueo".
Já Nazión é um ensaio documental sobre a história do fascismo na Argentina. O filme traz a assinatura do cineasta Ernesto Ardito, que com "Sinfonia para Ana" (codirigido com Virna Molina) venceria no Festival de Gramado de 2017 o Kikito de melhor filme latino-americano e de melhor fotografia.
"Operación Masacre" focaliza o fuzilamento de operários que aconteceu na cidade de José León Suárez, em 1956, durante a ditadura da “Revolução Libertadora” que depôs o presidente Juan Domingo Perón em 1955. O filme tem como atração a presença da atriz Norma Aleandro, protagonista do filme argentino vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro "A História Oficial" (1985) e indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo longa mexicano "Gaby - Uma História Verdadeira" (1987). O diretor, Jorge Cedrón (1942-1980), foi encontrado morto em uma prisão na França, em circunstâncias ainda hoje nebulosas.
Vencedor do Festival Latino-americano de Huelva, "Los Traidores" é o único longa assinado por Raymundo Gleyzer (1941-1976). Um depoimento do cineasta reflete a importância de "A Hora dos Fornos" junto ao cinema latino-americano: "Impactado pelo filme de Solanas e Getino, compreendi que devia fazer um cinema mais próximo do combativo, continuar como até então mostrando as causas, mas tentando chegar mais longe". O envolvimento de Gleyzer com o ativismo político radical levou a seu desaparecimento pela repressão desencadeada pela ditadura civil-militar argentino (1976-1983).
Em "Seré Milones", dois militantes que atuaram na retirada de aproximadamente dez milhões de dólares do Banco Nacional do Desenvolvimento, durante a ditadura do General Lanusse na Argentina, recriam, 40 anos depois, um grupo de atores que mudaram suas vidas. Em um diálogo entre gerações, os jovens transformam seus olhares sobre a militância e o compromisso com os anos passados.
Eleito melhor documentário no Festival de Havana e dirigido por Virna Molina e Ernesto Ardito (este, responsável por "Nazión") é biografia do cineasta Raymundo Gleyzer, de "Los Traidores". Ele foi sequestrado aos 36 anos pelas forças de repressão da junta militar argentina. O documentário reúne trechos de seus filmes, ao lado de entrevistas com pessoas que o conheciam. No mesmo programa está "Las AAA Son las Tres Armas", curta-metragem ficcional que reconstrói o sequestro do escritor e jornalista Rodolfo Walsh em 1977, morto em uma emboscada por um pelotão das Forças Armadas argentinas e seu corpo nunca mais foi encontrado.
"Resistir" é outra obra do diretor Jorge Cedrón (1942-1980) incluída na mostra, ao lado de "Operación Masacre". Feito no exílio e assinado sob o pseudônimo de "Julián Calinki", o filme parte de uma entrevista com Mario Firmenich (líder da organização guerrilheira da esquerda Motoneros) para construir um testemunho sob os abusos de poder da ditadura civil-militar argentina (1976-1983).
Em "Malvinas: Historia de Traiciones", o diretor Jorge Denti (de "Las AAA Son las Tres Armas") apresenta as circunstâncias da Guerra das Maivinas. A obra aborda o uso dessa guerra pelos governos de Margared Thatcher, primeira-ministra do Reino Unido de 1979 a 1990, e Leopoldo Galtieri, general e presidente argentino que decidiu pela invasão das Ilhas Malvinas, território britânico desde o século 17.
Com roteiro do brasileiro Marcelo Müller, "Infância Clandestina" é baseado na vida do próprio diretor, Benjamín Ávila. Filho de guerrilheiros da organização de esquerda Montoneros, ele viveu no exílio com a mãe. Ao retornarem ao seu país, em 1979, na tentativa de derrubar a ditadura civil-militar da Argentina, a mãe acabou sendo presa e morta. Selecionado para os festivais de Cannes, Toronto, San Sebastián e Havana, o longa foi o representante da Argentina para a disputa do Oscar 2013. O produtor do filme, Luis Puenzo, dirigiu "A História Oficial", vencedor do Oscar de melhor filme em língua estrangeira em 1986.
"Después de La Tormenta" foi eleito pelos críticos argentinos como o filme do ano, sendo premiado como melhor longa-metragem, obra de estreia, direção, roteiro, fotografia, montagem, ator coadjuvante e atriz revelação. A obra explora as diferenças sociais da sociedade argentina através de uma família pobre da periferia que enfrenta a realidade ainda mais difícil nas áreas rurais. A produção foi comparada ao clássico italiano "Ladrões de Bicicleta" (Vittorio de Sica, 1948) e a novelas do romancista inglês Charles Dickens.
Vencedor do prêmio do júri ecumênico no Festival de Berlim, "Botín de Guerra" é um documentário sobre a história das Avós da Plaza de Mayo, organização de direitos humanos que tem como finalidade localizar e restituir todas as crianças sequestradas ou desaparecidas pela ditadura civil-militar argentino (1976-1983). O diretor teve seu documentário “Cazadores de Utopias” (1996) premiado no Festival de Chicago e no IDFA-Amsterdã.
“La Guarderia” focaliza uma grande casa branca com jardim e palmeiras, em Havana (Cuba). Por muitos anos, este foi o lar para um grupo de crianças com idades variando de 6 meses a 10 anos, filhos de militantes da organização guerrilheira argentina Montoneros, ali deixados pelos pais para protegê-los, enquanto lutavam contra a ditadura no país. A diretora Virginia Croatto atuou recentemente como produtora do longa argentino “Vicenta” (de Darío Doria, 2020).
Vencedor do prêmio do público para documentário internacional na Mostra de Cinema de São Paulo, "Memorias del Saqueo" tem como ponto de partida a saída do governo do presidente argentino Fernando de La Rúa. O filme analisa os mecanismos que levaram a Argentina a mergulhar em uma crise sem precedentes na sua história. O diretor Fernando “Pino” Solanas tem outro título na mostra, "A Hora dos Fornos".
Criado em 2021-01-17 17:52:14
A propósito da entrevista concedida à revista Veja pelo governador da Bahia, Rui Costa, a Comissão Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores emitiu nota reafirmando que “Lula Livre” é condição central na defesa da democracia, da soberania e dos direitos no Brasil da era Bolsonaro.
A seguir, a íntegra da nota:
“Diante da entrevista concedida à revista Veja pelo governador da Bahia, Rui Costa, também integrante do Partido dos Trabalhadores, temos a declarar:
1- O PT tomou uma decisão absolutamente correta ao lançar candidatura própria nas eleições presidenciais de 2018. O companheiro Lula, nosso primeiro representante, liderava todas as pesquisas de opinião, com forte tendência a vencer no primeiro turno. Com a candidatura de Lula ilegalmente cassada, lançamos o nome de Fernando Haddad que teve grande desempenho político e eleitoral, chegou ao segundo turno e só não venceu a eleição pelo uso criminoso de notícias falsas pela campanha de Bolsonaro, com financiamento ilegal até de fontes estrangeiras, contando com a omissão da mídia e da Justiça Eleitoral;
2- O eventual apoio do PT a Ciro Gomes, se à época já não se justificava porque nunca foi intenção dele constituir uma alternativa no campo da centro-esquerda, hoje menos ainda, dado que ele escancara opiniões grosseiras e desrespeitosas sobre Lula, o PT e nossas lideranças;
3- Dado o caráter autoritário, antinacional e fortemente antipopular do governo Bolsonaro, não cabe outra atitude ao PT que não seja fazer oposição permanente e destemida a seu governo neoliberal de extrema-direita e promover a defesa intransigente das liberdades e da democracia que ele ameaça diuturnamente. Diferentemente do que afirma o companheiro Rui, o PT não tem se restringido a combater o governo. Elaboramos e apresentamos propostas para enfrentar os graves problemas do país e do povo, como o desemprego, o aumento da injustiça social, para o sistema tributário, o pacto federativo, entre outros.
4- O PT não impõe condições para dialogar com todos os setores que se oponham ao governo autoritário, antinacional e antipovo. Ao contrário, temos trabalhado fortemente pela reconstituição da frente de esquerda dentro e fora do parlamento, pela construção da mais ampla frente democrática e participado de todos os fóruns em defesa da liberdade e da democracia. Em todos esses espaços denunciamos o caráter político da prisão de Lula e o que isso representa de afronta ao próprio regime democrático. Temos bem claro que a bandeira “Lula livre” é central na defesa da democracia, da soberania e dos direitos no Brasil;
5- Nossa visão sobre a Venezuela considera primeiramente que o país vizinho se encontra sob criminoso embargo econômico e tentativa de intervenção militar estadunidense (com apoio do governo Bolsonaro), o que denunciamos em todos os fóruns. O PT repudia as tentativas de golpe, defende a pacificação do país e uma saída negociada democraticamente para a crise da Venezuela, respeitando o direito de autodeterminação do povo venezuelano;
6- Consideramos totalmente extemporâneo o debate sobre candidaturas presidenciais para 2022. No momento, nossa luta é para fortalecer a resistência ao bolsonarismo, defender a soberania nacional e os direitos sociais ameaçados. Esse processo vai produzir as condições políticas e a frente que irá, no campo da centro-esquerda, representar o povo brasileiro nas eleições de 2022. O PT certamente fará parte desse conjunto e, sendo um partido democrático como os demais, poderá sugerir nomes de seus quadros para participarem desse processo. É alentador identificar em nossas fileiras nomes com legitimidade para assumir essa responsabilidade, a começar pelo companheiro Lula, com sua reconhecida capacidade para unificar essas forças e o próprio povo brasileiro. O PT saberá fazer esse debate, democraticamente, no momento adequado”.
Criado em 2019-09-15 18:56:10
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Talvez tenha escapado
do bucho de um bicho -
Pânico
Logo atiçou confrontos
de gerações -
Cizânia
Os avós dão adeus
aos netos, excelentes vetores -
Estupor
O insidioso micróbio
prefere os macróbios -
Seleção
Rebuçadas, as feições
se confundem -
Tumulto
“Põe aqui o seu pezinho”
no lugar de beijos e abraços -
Precaução
Como cogumelos
brotam prontos-socorros -
Disciplina
Províncias, cidades,
multidões sob cerco -
Contenção
A nau dos infectados
zanzam além de Zanzibar -
Ventos que virão
Portos e aeroportos
estancam, menos trocas -
Desglobalização
Despencam os títulos
da Grande Aposta -
Crash
Usinas, shoppings, escolas,
boates e botecos cerrados -
Descapitalismo
Mas não é o Apocalipse, ainda!
Quem viver o verá quando o
mundo esquentar mais dois graus -
Vocês que moram em Porto Alegre,
Floripa, Rio, Recife e Belém
já sabem nadar?

Criado em 2020-03-12 13:32:53
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Na manhã desta quarta, 29/1, participei da cerimônia de disposição das cinzas de uma grande amiga que faleceu na madrugada do último sábado (25/1) em decorrência do agravamento de uma antiga cirrose hepática medicamentosa. Sizue Imanishi, 78, esposa do jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, e mãe de Ana, Lia, Rute e Raquel.
Sizue foi socióloga e subversiva. Em meados dos anos 70, participou das atividades da Oposição Metalúrgica em São Paulo, no apoio ao Jornal dos Jornais (na foto abaixo, Sizue Imanishi e Raimundo Pereira nas comemorações dos 40 anos da greve dos metalúrgicos de São Paulo, dia 12 de outubro de 2019). Atuou no movimento popular da Zona Sul, de onde saíram as candidaturas vitoriosas a deputado federal do operário Aurélio Peres, do PCdoB, e a de Irma Passoni, a deputada estadual, ambos coordenadores do Movimento contra a Carestia. Nessa época associou-se também ao jornal Brasil Mulher, pioneiro do movimento feminista. No mandato do prefeito Humberto Parro, de Osasco (1983-88), trabalhou na iniciativa que levou à redução das tarifas do transporte público. Logo em seguida, passou a colaborar esporadicamente com o Unicef, o órgão das Nações Unidas dedicado às crianças e adolescentes, inclusive fazendo uma viagem à Nicarágua, Honduras e El Salvador.

Sizue mudou-se para Brasília em 1994. Durante sete anos foi oficial de Projetos de Mulher e Desenvolvimento do Unicef. Nos dois anos seguintes ocupou a coordenadoria das Atividades de Desenvolvimento Social no âmbito de um convênio da Prefeitura do Rio de Janeiro com a União Europeia. E entre 2004 e 2012 foi analista de projetos do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome, entre os quais os que envolviam o Movimento Nacional dos Catadores.
Catadores - Redijo essa memória na correria, sem muita pesquisa, deixando vácuos na carreira de Sizue. Não posso deixar de lado, porém, o fato de que ela participou, com a diretora do Serviço de Limpeza Urbana (SLU), Kátia Campos, da grande operação desencadeada pelo governo Rollemberg para fechar o Lixão da Estrutural, o maior até então da América Latina. Ela foi da equipe que organizou a realocação dos catadores nos galpões de triagem de material reciclável e, devido à sua formação psicanalítica, deu assistência social e psicológica às famílias da Estrutural em situações dramáticas.
Magrinha, discreta, fala baixa, a Sizue parecia uma pessoa frágil. Na verdade, sempre foi um vulcão em ponto de ebulição. Quando explodia, dizem, era melhor não ficar muito perto. Uma vez foi jantar com as filhas no restaurante Almanara, em São Paulo. Como o garçom demorasse a atendê-las, Sizue pinchou um prato no chão. Os cacos do gesto extremo, mas calculado, atraíram afinal a atenção do funcionário, e a comida foi servida.
Anticonvencional - Durante a cerimônia das cinzas, Rute e Raquel lembraram alguns traços da mãe. Sizue era contrária às convenções, desprendida em relação à propriedade, cultivava um desprezo irônico pelas autoridades em geral (chamava o chefe de “chefinho” ou de “chefão”, nunca de “chefe”) e, de certa maneira, foi antipedagógica, deixando as filhas agirem como quisessem. Desde o início, no entanto, a família aprendeu a ser disciplinada em reuniões periódicas, com a redação de atas e tudo, em que se distribuíam as tarefas da casa.
A certa altura, Sizue decretou que passar roupa era desperdício de tempo e energia. Nunca se importou com o que as pessoas iriam dizer de suas roupas amarrotadas. Às vezes, de supetão, dava de presente o colar que estava usando para a interlocutora que acabava de elogiá-lo, tamanho era o seu desapego.
Eliane, sua cabeleireira, mandou uma mensagem de adeus contando que Sizue tinha o sonho de ser loura e cacheada. “Pedi para ela escolher uma das duas opções, e ela escolheu ser loura”. Era uma mulher “fashion”, disse Eliane.
Poliglota - Sizue também gostava de estudar. Cursou japonês (a língua dos pais), alemão (a língua do primeiro marido de uma filha), francês (a língua do marido de outra filha), inglês, italiano e espanhol. Mais de uma vez eu a encontrei com a professora de mandarim na Livraria Sebinho. Sizue também se formou em psicanálise, tendo mantido um consultório nos últimos anos.
Cultivar mudas de árvores num laboratório montado dentro de seu pequeno apartamento no Sudoeste e distribuí-las para os amigos era outro de seus passatempos. O Raimundo conta que um dia ele e ela visitaram um mogno que havia sido plantado há dez anos no sítio de um amigo. Nos últimos tempos ela vinha desenvolvendo, mais a sério, um projeto de reflorestamento de espécies nativas do Cerrado e em áreas degradadas do DF e da Mata Atlântica do Rio. Poucas horas antes de entrar em coma, ela apanhou o laptop para trabalhar no programa.
A cerimônia do adeus aconteceu no quintal que fica nos fundos do apartamento no Sudoeste, cheio de árvores que ela mesma plantou. As cinzas foram depositadas nos pés dos espécimes principais, entre os quais um jambeiro e uma calabura. Essa última, replantada, tem uma história curiosa. É que um vizinho arrancou a árvore pelas raízes com a desculpa de que as frutas da calabura atraíam morcegos vampiros. Evidentemente, o cara era um ignorante de pai e mãe!
“Pior tipo de raça” - O Raimundo lembrou que um caso semelhante havia acontecido há muito tempo na casa que eles tinham na Freguesia do Ó, em São Paulo. Chateado com as amoras que o vento jogava no seu quintal, um dia o vizinho trepou no muro disposto a invadir o quintal para cortar “o mato”. Raimundo pediu que o homem descesse do muro para conversar, e ver que ali não havia mato nenhum, mas espécies diversas que Sizue havia cultivado, formando um jardim-pomar. A filha do vizinho gritou do outro lado do muro: “Não adianta, pai, esse é o pior tipo de raça que tem, nordestino com japonês”.
Hoje, o rompante racista da vizinha faz a gente rir. O que poderia ter de ruim na união do Raimundo, natural de Exu, Pernambuco, e de Sizue, de Mairiporã, São Paulo, filha de pai japonês e mãe nissei? A vizinha talvez fosse uma quatrocentã, mas quem teve contato com a realeza foi o casal. Em 1967, Raimundo, a filha Ana, ainda bebê, Sizue e seus pais foram recebidos pelo príncipe herdeiro do Japão, Akihito, e a princesa Michiko, que visitavam o Brasil para comemorar os 70 anos da imigração japonesa.
Na foto (abaixo) vê-se o avô Kioji Imanishi apresentando a neta Ana Imanishi ao príncipe Akihito. Sizue aparece atrás do pai, aparentemente com um pano preto na altura da boca.

Criado em 2020-01-30 01:10:59