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Guilherme Cadaval (*) –
Há algo de engraçado na experiência do tempo. Não o cotidiano, aquele que dia após dia se ocupa de tarefas rotineiras, e cuja essência é justamente o movimento, sua característica mais própria o passar, dessa atividade para aquela, infinitamente. Não. Trata-se do tempo tal como é experimentado quando, por exemplo, entramos em contato com um escrito vindo diretamente do que costumamos chamar o passado, mas que nos faz, através de suas palavras, jurar enxergarmos o nosso presente, como se descrevesse o que acontece a nossa volta.
Esta talvez seja uma das sensações que o leitor terá ao tomar em mãos Odeio os indiferentes: escritos de 1917, de Antonio Gramsci, lançado há pouco tempo pela Editora Boitempo. Trata-se de uma coletânea de artigos do jovem pensador italiano, então com 26 anos de idade, publicados em alguns jornais socialistas da época.
Todos os textos comungam de um sentido de exortação ao socialismo para que alcançasse novas alturas, novas experiências, novas mentes e corpos, exortação que certamente ganhava fôlego renovado com a Revolução Russa daquele mesmo ano. Daí o primeiro artigo ser dedicado justamente aos jovens, na forma de “um convite e um incitamento”, visto que “o futuro” e “a história” são “dos jovens”, ou daqueles dentre eles que “pensam a tarefa que a vida impõe a cada um” e se “preocupam em se armar adequadamente para resolvê-la da maneira que melhor convém às suas convicções íntimas”.
De fato, é como se, lendo essas linhas pouco mais de um século após terem sido escritas, fossemos levados por Gramsci a um passeio pelo clima político da época, particularmente o italiano. Mas trata-se de um passeio turbulento, que não caminha como pelos corredores de um museu, onde a história, mais ou menos petrificada, pode ser observada com algum grau de distância, de indiferença.
Passear, caminhar – viver, enfim, significa, para Gramsci: tomar partido. “Por isso odeio os indiferentes”. São eles que “permitem o entrelaçamento de nós que posteriormente apenas a espada pode romper”, que “aceitam a promulgação de leis que depois só a revolta pode revogar”, que “deixam subir ao poder homens que apenas os motins poderão derrubar”. A vida requer um senso de responsabilidade histórica que não se limita ao espaço estreito do aqui e agora, do interesse imediato do “presente”, mas que “julga os fatos especialmente por seus efeitos, pela sua eternidade”.
Afinal, o pensamento revolucionário nega o tempo como fator de progresso, impedindo que a vida se detenha no “sucesso momentâneo”, como se tivesse alcançado algum estágio definitivo, ao menos uma ordem satisfatória sobre a qual se poderia então repousar. Nesse desejo projetado de um repouso se esconderia, quem sabe, o “temor de perder tudo, de ter diante de si o caos, a desordem inelutável”.
A incerteza diante da perspectiva de uma mudança radical talvez seja a força que conserva a ordem, por mais precária que esta possa se apresentar: melhor o ovo hoje que a galinha amanhã. Mas, para ter a galinha, é preciso quebrar a casca do ovo.

Livro: Odeio os indiferentes
Autor: Antonio Gramsci
Tradutores: Álvaro Bianchi e Daniela Mussi
Capa: Maikon Nery
Editora: Boitempo - Coleção Escritos Gramscianos.
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(*) Guilherme Cadaval é formado em Filosofia pela UFRJ, onde concluiu mestrado e doutorado. É autor de Escrever a mágoa: um cruzamento entre Nietzsche e Derrida.
Criado em 2021-03-01 23:24:48
Na próxima terça-feira, 10/12, a partir das 18h, o ex-presidente Lula participa de ato e debate de lançamento da edição especial de seu livro A verdade vencerá: o povo sabe por que me condenam. O evento ocorrerá na Quadra do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região, Rua Tabatinguera, 192, Centro Histórico de SP. Entrada gratuita e aberta ao público.
A nova edição da obra conta com questões respondidas pelo ex-presidente em outubro de 2019, ainda no cárcere e abrange temas como o governo Jair Bolsonaro, Venezuela e sua condição pessoal.
Somam-se ao conteúdo o discurso feito no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC horas antes de ser preso, uma carta escrita por ele para ser lida na abertura do Salão do Livro Político de 2019, em São Paulo, a transcrição de sua fala no dia 9 novembro, após ser solto e uma nova seleção de imagens.
Essa edição de A verdade vencerá é marcada por forte significado. Após 580 dias de prisão em Curitiba, impedido de participar das eleições presidenciais de 2018, na qual era favorito, Lula recebe de volta sua liberdade. Para celebrar, a Editora Boitempo recoloca nas ruas um dos best-sellers de 2018.
O cerne da primeira edição foi as três sessões presenciais de entrevistas com Lula, nas quais o ex-presidente discorreu sobre sua vida, os governos do PT, o golpe parlamentar de 2016, sua prisão que parecia cada vez mais certa e o futuro do Brasil. Foram horas de conversa aberta com os jornalistas Juca Kfouri e Maria Inês Nassif, o professor de relações internacionais Gilberto Maringoni e a editora Ivana Jinkings, fundadora e diretora da Boitempo. E para esta histórica segunda edição Lula respondeu por escrito a doze novas questões, apresentando reflexões sobre seu período de cárcere e sobre temas variados, como o governo Jair Bolsonaro, a Venezuela de Nicolás Maduro, sua condição pessoal e sua intrínseca ligação com o povo brasileiro. As perguntas foram feitas pelos mesmos entrevistadores, levadas a Lula em julho de 2019 e devolvidas por escrito em 10 de outubro.
Publicado originalmente no início de 2018, às vésperas do desfecho da fase inicial de uma guerra jurídica sem precedentes, o livro apresenta um retrato fiel do ex-presidente no contexto de sua prisão iminente. A obra foi lançada também em outros países, como Estados Unidos, Itália, Argentina e Espanha. A tradução espanhola, inclusive, concorreu ao Jabuti 2019 na categoria “livro brasileiro publicado no exterior”.
Criado em 2019-11-22 01:14:51
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Amanheci cantando com a Simone um antigo samba-enredo da União da Ilha do Governador:
Como será o amanhã
Responda quem puder (bis)
O que irá me acontecer
O meu destino será como Deus quiser
Como será o mundo depois da pandemia do coronavírus é a pergunta que o mundo inteiro está se fazendo, desde os filósofos de todas as escolas até aquele senhor do churrasquinho de gato que o BolsoNero encontrou na Feira da Ceilândia.
Alguns filósofos costumam ser muito pirados. O italiano Giorgio Agamben, velho e cansativo arauto da necropolítica derivada do contubérnio de Heidegger com Foucault, disse que a pandemia foi inventada pelos políticos e pela mídia para a instauração do Estado de Exceção.
Em artigo publicado no dia 26 de fevereiro, no jornal Il Manifesto, Agamben disse que as medidas de emergências tomadas pelo governo italiano eram “frenéticas, irracionais e totalmente imotivadas”, uma vez que a infecção associada à “suposta epidemia” estaria causando “sintomas leves/moderados (um tipo de gripe) em 80-90% dos casos”. Disse mais, citando dados preliminares do Consiglio Nazionale delle Ricerche (Conselho Nacional de Pesquisas): “Em 10-15%, pode se desenvolver uma pneumonia, cujo decurso é benigno na maioria absoluta. Estima-se que apenas 4% dos pacientes necessitem de hospitalização em terapia intensiva”.
Cremação - A relaxada iniciativa do governo italiano, com base nesse tipo de raciocínio, deu no que deu! Mais de 100 mil infectados e mais de 12 mil mortos. Na média mundial, perto de 4% dos infectados estão morrendo. Neste momento, perto de um milhão de pessoas está contaminado e mais de 40 mil já morreram. Quando o número de infectados atingir 10 milhões, serão 400 mil mortos. Se o contágio chegar aos 100 milhões de pessoas, os sistemas hospitalares estarão colapsados e o mundo terá de enterrar ou cremar quatro milhões de seres humanos.
Aos filósofos como o Agamben, também adepto da teoria da “gripezinha” ou do “resfriadinho”, obviamente falta a chamada dialética ou, no mínimo, algum raciocínio aritmético!
Outro filósofo, o esloveno Slavoj Žižek, vai na direção oposta. Segundo ele, a pandemia transtorna o sistema capitalista de tal maneira que estamos diante de uma oportunidade “para repensar as características básicas da sociedade na qual vivemos”. Escreveu Žižek no final de fevereiro: “Especula-se que o coronavírus pode levar à queda do regime comunista chinês, do mesmo jeito que a catástrofe de Chernobyl foi a gota d’água que levou ao fim o comunismo soviético (como o próprio Gorbachev admitiu). Mas existe um paradoxo nesta situação: o coronavírus também nos levará a reinventar o comunismo, com base na confiança nas pessoas e na ciência”.
Pessoalmente, acho simpáticas as considerações do Žižek, embora seja cético quanto ao alcance prático do seu wishful thinking.
Permafrost - É verdade que vamos tirar da crise muitas lições para evitar o aquecimento global e suas consequências, como a inundação de grande parte da orla marítima, a multiplicação de doenças transmitidas por mosquitos, o desprendimento de bactérias e vírus desconhecidos do permafrost em processo de derretimento etc. (Permafrost é um tipo de solo composto de terra, gelo e rochas antes permanentemente congelado da região ártica).
Ficou demonstrado, por exemplo, que o menor tráfego de automóveis e o desligamento de fábricas, como se viu nas últimas semanas, resultou na queda significativa da emissão de dióxido de nitrogênio, um dos principais poluentes da atmosfera. Mas quem garante que depois da pandemia os carros a gasolina serão trocados rapidamente por carros elétricos? Quem garante que a indústria adotará de imediato novas tecnologias antipoluentes?
E o que acontecerá com a economia? Será retomada segundo um gráfico em forma de V, de maneira rápida, ou em forma de U, de forma lenta? E o que acontecerá com a globalização, as redes de trocas de bens e serviços em escala mundial? E o neoliberalismo, será enterrado junto com as vítimas da pandemia? Está cedo ainda para ter respostas que não sejam chutes.
À maneira dos filósofos, estou pensando no que acontecerá com o seu Zé do churrasquinho de gato lá da Ceilândia. Durante três meses ele vai receber o coronavoucher emergencial de R$ 600,00 aprovado nessa segunda-feira pelo Congresso Nacional. Talvez tenha a sorte de também receber algumas cestas básicas nesse período em que estará lutando pela sobrevivência. Mas, e depois da crise, que certamente vai demorar mais de três meses? Emprego o seu Zé não vai conseguir. O IBGE acaba de informar que a taxa de desemprego no país subiu para 11,6% no trimestre encerrado em fevereiro, atingindo 12,3 milhões de pessoas. Se a coisa já vinha piorando antes da pandemia, imagine agora!
Experimento mental - Continuo com uma dose de aflição o meu Gedankenexperiment (experimento mental): o filho do seu Zé, que tem moto, voltará a entregar comida pelo iFood; o outro filho, que tem carro, vai continuar carreando gente pelo Uber; a filha voltará a trabalhar no “salão de estética”; e o genro do seu Zé, que é pastor, retornará às pregações na Igreja Triangular do DNA do Espírito Santo de Ceilândia. Alguém aí imagina outro amanhã para essas pessoas?
Termino a pensata em forma de U, lentamente, não sem antes dar uma risada ao lembrar dos amigos e amigas de esquerda que estão ironizando os economistas neoliberais que, supostamente, teriam aderido ao pensamento de Lorde John Maynard Keynes para defender a adoção da renda básica. Que bobagem, essa renda básica aí não tem nada a ver com o Keynes. Tem a ver, sim, com o Milton Friedman, da mesma escola de Chicago do Paulo Guedes, onde o Al Capone foi quem menos matou!
A renda básica deduzida das teorias do João Maynard, com o objetivo de combater a desigualdade, funciona na verdade como complementação do salário de uma pessoa já empregada. A teoria do pleno emprego de Keynes chega ao ponto de prever, idealmente, uma jornada de apenas 15 horas de trabalho para viabilizar o regime do emprego para todo mundo, supondo o pleno desenvolvimento das forças produtivas etc. Já o neoliberalismo de Friedman não tem qualquer compromisso com o pleno emprego. É a lei da selva e do “salve-se quem puder”, do empreendedorismo, do patrão de si mesmo!
A renda básica do Friedman, em contraposição à dos keynesianos, responde a um cálculo mais frio e instrumental. Os neoliberais raciocinam que a extrema pobreza custa muito caro: é fonte de pestes, doenças mentais, aumento da delinquência, surtos de violência e, pior, de rebeliões. Como esse modelo não inclui o emprego para todo mundo (mesmo com o exército de reserva para deprimir os salários), um jeito simples de controlar as revoltas sociais é comprar o bom comportamento dos miseráveis com alguns trocados.
Estado & Capitalismo - Para Keynes, ao contrário do que pregava Friedman, nunca existiu, não existe e jamais existirá capitalismo sem o braço forte e a mão amiga do Estado, visíveis e transparentes. Isso ficou demonstrado com o New Deal do presidente Franklin Delano Roosevelt, nos anos 30; com o Plano Marshall na Europa na segunda metade dos ano 40 na Europa; e com o Tarp, o Programa de Alívio de Ativos Problemáticos, de socorro aos bancos, imposto pelo presidente George W. Bush após o crash de 2008. A diferença é que os dois primeiros programas contemplaram os interesses dos bancos e do povo; o terceiro, só os interesses dos bancos, como se pode ver na comédia A Grande Aposta de Adam McKay (tem no Netflix).
Está na hora da esquerda imaginar um amanhã diferente do status quo, muitas léguas além da ajuda emergencial absolutamente necessária para espantar a fome de milhões de pessoas durante a pandemia do coronavírus. Quem sabe algum socialismo? Muito ousado? Quem sabe algum Estado do Bem Estar Social, parecido com o do pós-guerra na Europa, a começar pelo reforço do SUS e das agências de pesquisa científica para enfrentar as próximas pandemias?
Como será o amanhã
Responda quem puder (bis)
O que irá nos acontecer
Nosso destino será o que a gente quiser

Criado em 2020-03-31 18:40:39
O Movimento Nacional em Defesa da Vida (MNDV) divulgou ontem (11/4) uma nota em que busca respostas para essa e uma série de outras perguntas: “Até quando manteremos silêncio sobre tantos crimes?”.
Se esses mortos não passaram sequer pelo portal das estatísticas para indicar a causa mortis, “é hora de interpelar a sociedade brasileira que ama se apresentar como uma sociedade cristã: em que baú de lembranças permanecem escondidos os princípios fundadores do cristianismo?”.
A seguir, a íntegra da nota do MNDV:
“A procissão inumerável dos mortos pela pandemia, terá ressurreição? Se eles não passaram sequer pelo portal das estatísticas para indicar a causa mortis? É hora de interpelar a sociedade brasileira que ama se apresentar como uma sociedade cristã: em que baú de lembranças permanecem escondidos os princípios fundadores do cristianismo? Até quando manteremos silêncio sobre tantos crimes?
Erguemos nossa voz para levantar um Movimento em Defesa da Vida e Contra a Barbárie. E interrogamos: para onde nos levará a necropolítica que nos assombra todos os dias com um novo sobressalto? Uma política a serviço da morte? Nessa travessia pela tormenta do Covid-19 o Estado brasileiro está nos lançando ao mar. Um governo cúmplice do contágio nos condena à escravidão ou à morte.
Seremos crucificados entre a fome e a pandemia?
Somos os pobres, as mães chefes de família, os negros, os condenados da terra. Seguimos durante a quarentena amontoados nos morros, nos mocambos, nas favelas, nos barracos e, agora, contra todos os clamores e advertências, compomos o cortejo sinistro a caminho das valas comuns.
Somos “o povo do abismo”, de que falava Jack London, os que não temos casa para onde retornar no fim da tarde, os que só temos o viaduto. E a fome. Seremos a multidão dos que sequer foram registrados pelas estatísticas? Seremos soterrados pelas cinzas do esquecimento? Os filhos malditos de Malthus? Os descartáveis da nação? Que tipo de nação será construída sobre nossos ossos?
Todos sabemos, o mercado só nos enxerga quando somos as mãos que movem os tornos, as linhas de montagem, os arados nos campos, os pivôs que irrigam os vastos desertos verdes envenenados, o transporte do que se produziu. Quando a pandemia bate à nossa porta, o que nos oferece o governo? A morte como política de Estado.
E quando faltar o alento aos pulmões do país? Como falta hoje à ofegante respiração dos contaminados?
É necessário quebrar as correntes dessa lógica neoliberal criminosa que nos leva ao matadouro. É necessário manter um alento de esperança. Recobrar a humanidade que perdemos e reconhecer na voz de quem nos pede mais oxigênio – o ar que respiramos, o derradeiro bem que ainda permanece gratuito –, a voz de um irmão, ainda que seja a voz de alguém que nunca vimos, ou sobretudo por isso, mas traz consigo o impulso poderoso para nos fazer entender que não há salvação solitária. Ou é solidária, ou não será salvação!”.
Criado em 2020-04-12 17:52:20
De 1º a 26 de março, mostra sensorial em cartaz na Galeria Márcia Barrozo do Amaral, em Copacabana. São mais de 20 trabalhos inéditos, entre pinturas e esculturas, feitos por Esther em seu ateliê em plena pandemia.
Inspirada pelo texto do escritor Nilton Bonder intitulado Bodas de Eva, que elucida questões das relações humanas a partir de Adão e Eva - em particular sobre a vestimenta e "moda" que Eva teria em seu casamento -, a artista Esther Bonder começou a pensar qual poderiam ser as prováveis ambientações para as bodas do casal no Paraíso há 5.781 anos. Além da admiração pelo texto de Nilton, Esther também é esposa dele, e isso fez com que o encontro dos dois fosse ainda mais inspirador para o tema proposto pela artista.
Da ideia, surgiram mais de 20 trabalhos inéditos, entre pinturas e esculturas, feitos por Esther em seu ateliê durante a pandemia, que retratam o Éden: em algum lugar pelo Oriente Médio, onde existe uma confluência mesopotâmica entre quatro pequenos rios. Essas obras fazem parte da exposição sensorial Bodas de Eva, que conta com aroma, cenografia e sonorização para compor a ambientação que remete aos jardins do Éden e fica em cartaz de 1º a 26 de março na galeria Márcia Barrozo do Amaral, em Copacabana.
Dona de uma pintura delicada e que acalma, mas que ao mesmo tempo traz a força representada pelos traços marcantes, Esther trabalha com paisagens oníricas que se transformam em estados da alma. As paisagens, em sua maioria sonhadoras, transbordam da tela deixando rastros para que o espectador se surpreenda com elementos desse imaginário, fazendo com que isso seja um convite para entrar nos jardins e passear por eles.
Em uma das séries, são apresentadas três telas de cerca de 1,40 x 1,50 que representam os estágios do dia do casamento. O Amanhecer do Dia, o Banho Ritual e Bodas de Eva, ao anoitecer, com tons sutis de verde e azul e rosa. Já em Enamoramento, série de três telas menores, os elementos ganham cores de areia e terra. As esculturas feitas pela artista são objetos denominados de “inflorescências”. Feitos em tela metálica elas dão forma a mesma pesquisa pictórica da artista.
Segundo a artista Ana Bella Geiger, “nas telas pintadas por Esther há uma outra visão do paraíso, uma outra vontade, que entendo como a de um revigoramento da paisagem, vegetal, florestal, sem árvores simbólicas. Tudo que é tratado em detalhes visa a uma composição maior, para formar o todo da tela. As várias espécies vegetais, algumas criadas por sua imaginação, ajudam a criar um cenário propício, nunca um obstáculo intransponível para o ser humano, para Adão e Eva.”
“A artista imprime um ritmo acelerado, resultante de pinceladas rápidas, gráficas, mais gestuais, que nos transportam para os ciclos vitais de uma floresta, quase uma cena da mata Atlântica, e do rio Carioca passando entre folhas, gravetos, pedras e a ideia do movimento dos ventos que transpõe as telas.”, completa Ana Bella.

Sobre Esther Bonder
Carioca, nascida em 1963, a artista foi aluna de Lygia Pape, Molica e Lauro Cavalcante nos anos 80, durante seu curso de arquitetura na Universidade Santa Ursula. Trabalhou com Roberto Burle Marx em seu sítio, convivendo entre a coleção de plantas especiais e seu atelier, onde acompanhou o mestre com suas telas e tintas.
Em seu trabalho é marcante a paisagem que revela tanto a vista ao longe como as contemplações mais íntimas, internas. Aquilo que a fascina no processo da pintura é a ordem inesperada que surge ao trazer formas e cores a um possível lugar encantado, uma conexão com a vida.
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Serviço:
Exposição “Bodas de Eva”, de Esther Bonder
Local: Galeria Márcia Barrozo do Amaral - Av. Atlântica, 4240 - Loja 129 – Copacabana – Rio de Janeiro/RJ.
Horário de visitação: De 2ª a 6ª das 10h às 18h | Sábado de 13h às 17h Agendamento: (21) 2521-5195 | (21) 2267-3747
Visite o site da Galeria Márcia Barrozo aqui
Criado em 2021-02-25 19:17:10
A ex-presidenta Dilma Rousseff recebeu do jornal Estado de S. Paulo uma pergunta sobre o que ela pensa da defesa que Eduardo Bolsonaro fez do AI-5, ao dizer que eventuais protestos contra o governo poderiam tornar necessário um ato de força semelhante.
Segundo Dilma Rousseff, "a imprensa [brasileira] fez vista grossa ao crescimento do neofascismo bolsonarista porque este adotara a agenda neoliberal".
Eis a resposta de Dilma, em nota enviada ao jornal:
“Ninguém, dos órgãos de imprensa, pode se declarar surpreendido pela manifestação do deputado Eduardo Bolsonaro a favor do AI-5. Na verdade, ninguém pode se surpreender porque já houve seguidas manifestações contra a democracia por parte da família Bolsonaro. Defenderam a ditadura militar e, portanto, o AI-5; reverenciaram regimes totalitários e ditadores; homenagearam o torturador e a tortura; confraternizaram com milicianos. Desde sempre pensaram e agiram a favor do retrocesso. Antes das eleições não havia duvidas a respeito. Durante as eleições e depois dela, muito menos, pois têm se expressado contra a democracia e os princípios civilizatórios em todas as oportunidades que tiveram.
O grave é que nunca receberam da imprensa a oposição enérgica que mereciam. Ao contrário, acredito que a imprensa fez vista grossa ao crescimento do neofascismo bolsonarista, porque este adotara a agenda neoliberal. É que, além das pautas neofascistas, a extrema direita defende a retirada de direitos e de garantias ao trabalho e à aposentadoria; as privatizações desnacionalizantes das empresas públicas e da educação universitária e a suspensão da fiscalização e da proteção ambiental à Amazônia e às populações indígenas. Não é possível alegar surpresa ou se estarrecer diante da defesa do AI-5. Na verdade, em prol da realização da agenda neoliberal, na melhor hipótese se auto iludiram, acreditando que poderiam cooptar ou moderar Bolsonaro.
Mas a defesa do AI-5 e da ditadura sempre esteve lá.
Vamos novamente lembrar, o chamado filho 03, que agora diz que considera o AI-5 necessário, é o mesmo que, há algum tempo, disse que “um soldado e um cabo” bastavam para fechar o STF. Óbvio que sem o poder coercitivo de um AI-5, isto nunca seria possível.
O presidente, então ainda deputado, proferiu no plenário da Câmara um voto em que homenageou um dos mais notórios e sanguinários torturadores do regime militar. Aquele coronel só agiu com tal brutalidade contra os opositores do regime militar porque estava protegido pelo AI-5.
Jair Bolsonaro afirmou em entrevista que a ditadura militar cometeu poucos assassinatos de opositores políticos. E que os militares deviam ter matado “pelo menos uns 30 mil”. Também afirmou, na campanha do ano passado, que, se vencesse a eleição, só restariam dois caminhos aos petistas – o exílio ou a prisão – e de que maneira isto seria possível sem a força brutal de um ato institucional como o AI-5?
É estranho que me perguntem o que eu acho da última declaração sobre o AI-5, pois a minha vida toda lutei, e continuo lutando, contra o AI-5, seus assemelhados e seus defensores. O Estadão, que me faz esta pergunta, também deve e precisa responder, pois sua posição editorial tem sido, diga-se com muita gentileza, no mínimo ambígua diante da ascensão da extrema direita no País.
Quem nunca questionou as ameaças da família Bolsonaro com a firmeza necessária e que, em nome de uma oposição cega, covarde e irracional ao PT, se omitiu diante do crescimento do ódio e da extrema-direita, tornou-se cúmplice da defesa canhestra do autoritarismo neofascista.
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http://dilma.com.br/sobre-os-surtos-neofascistas-e-covardia/
Criado em 2019-11-03 16:32:00
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
A excelente colunista do Valor Econômico, Maria Cristina Fernandes, noticiou na quinta-feira, 26/3, que o presidente Jair Bolsonaro poderá ser obrigado a renunciar ao cargo depois “de convencer os recalcitrantes de que hoje é um empecilho para a batalha pela saúde da nação”. A peça desse “convencimento” foi o seu discurso de negação da pandemia da Covid-19 pronunciado em cadeia de rádio e televisão na última terça, 24.
Maria Cristina informou que a renúncia implica, como moeda de troca, a “anistia a toda a tabuada: 01, 02 e 03”, isto é, o Flávio Laranjinha, o Carluxo e o Eduardo Bananinha. A questão é como viabilizar uma anistia preventiva, tendo em conta que nenhum deles foi ainda condenado pelos crimes perpetrados.
Na quinta-feira, 26/3, Bolsonaro continuou a campanha de negação. Disse que “o brasileiro cai no esgoto e não acontece nada”, como se tivesse o corpo fechado. E continuou a insuflar a matilha para voltar ao trabalho, sem oferecer qualquer condição para que isso ocorra. Mais uma vez ele dobrou a aposta na queda de braço com os governadores, o Congresso e a lógica do coronavírus. Por tudo isso foi chamado pela revista britânica The Economist de BolsoNero.
Nas últimas semanas, os observadores da política têm tentado levantar os crimes de responsabilidade que Bolsonaro teria cometido durante a pandemia, nos termos da Lei 1.079, de 10 de abril de 1950, recepcionada pela Constituição de 1988. Alguns jornalistas já elencaram mais de dez tipos de crimes, entre eles o atentado à segurança interna do País (inciso IV do art. 4º da Lei 1.079), consumado quando Bolsonaro convocou aglomerações públicas em todo o País, contrariando as determinações dos ministérios da Saúde e da Justiça.
Convicção - Ainda não há prova provada, mas eu tenho a forte convicção de que foi o próprio Bolsonaro quem trouxe o novo coronavírus para Brasília, depois de contraí-lo do presidente Donald Trump durante o banquete em Mar-a-Lago, Miami, no dia 7 de março. O Bozo parece ser um super-vetor do coronavírus!
Ele tentou fugir dessa provável responsabilidade de duas maneiras. Em primeiro lugar, escondendo o laudo do teste que fez duas ou três vezes no Hospital das Forças Armadas (HFA). O teste, que deve ter dado positivo e operante, seria a prova definitiva de sua atitude criminosa.
Em segundo lugar, editando, no dia 23 de março, a Medida Provisória 928, que suspendeu os prazos das respostas solicitados por qualquer cidadão, com base na Lei de Acesso à Informação, de órgãos e entidades “cujos servidores estejam sujeitos a regime de quarentena, teletrabalho ou equivalentes”, obviamente para impedir o acesso ao laudo do HFA. A manobra sem-vergonha foi suspensa pelo ministro Alexandre de Moraes, mas parece que não surtiu efeito. O comandante logístico do Hospital das Forças Armadas, Rui Yutaka Matsuda, surrupiou a informação com respaldo numa estranha interpretação do “direito constitucional de proteção à intimidade, vida privada, honra e imagem do cidadão”.
Na quinta, 26, entretanto, surgiu mais um forte indício de que Bolsonaro é de fato um ativo espalhador do vírus. Seu segurança, capitão Ari Celso Rocha Lima de Barros, deu entrada no Hospital de Base de Brasília em estado grave, com diagnóstico de Covid-19. A sua mãe, dona Julmar, informou ao jornal Metrópoles que ele não acompanhou o presidente na viagem a Miami. Logo, é evidente que pegou a doença no contato com o seu chefe em Brasília mesmo.
Prevaricação - Ainda na quinta, Bolsonaro continuou a prevaricar, assinando um decreto que autoriza o funcionamento, durante a pandemia, das casas lotéricas e templos religiosos, consideradas, ambas, “atividades essenciais”. No caso dos templos, ele atende à reivindicação dos pastores neopentecostais como Silas Malafaia, da Assembleia de Deus, e Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, preocupados com a queda da arrecadação do dízimo e – aleluia! –, interessados em mandar os seus fiéis o mais rápido possível ao encontro do Salvador.
Inspirado no apelo dos pastores, eu passei a tarde da quarta-feira, 25 de março, escolhendo um lugar no Inferno para o Bozo e seus filhotes. Uai, alguém precisa punir esses filhos da Peste com o Desespero! Foi a melhor maneira que eu encontrei para comemorar o Dia de Dante (Dantedì), instituído recentemente pelo governo italiano. Os estudiosos acham que foi no dia 25 de março de 1304, talvez, que o poeta iniciou a jornada infernal acompanhado do mestre Virgílio pelos domínios do Capeta.
Ao que tudo indica, o senso de Justiça de Dante Alighieri tem como fontes, entre outras, a Ética a Nicômaco, de Aristóteles, e uma leitura não ortodoxa da Suma Teológica de Tomás de Aquino. Dante levou em conta os graus de malícia, vício, incontinência, intemperança e bruteza dos personagens que condenou e mandou para os quintos do Inferno. Ou melhor, nonos, porque o seu Inferno é composto de nove Círculos.
Leviano, eu? - Diferentemente de Dante, eu preferi ser mais rápido e pragmático, sem gastar tempo com grandes considerandos jurídicos ou apreciações de natureza teológica. Por isso levei em conta as evidências mais notórias para enquadrar a família miliciana dos Bolsonaro. Espero que Lúcifer não me tome por leviano nem me compare com o ministro Sérgio Moro, que, aliás, desapareceu de Brasília nos últimos dias!
Eia pois, sus e avante!
E già la luna è sotto i nostri piedi:
lo tempo è poco omai che n’è concesso,
e altro è da veder che tu non vedi.
Já sob os nossos pés está a lua:
é curto o tempo que nos concederam,
e há muito mais a ver à vista nua.
(Canto XXIX, 10, 11, 12)
Me desculpem aí a pobreza da minha tradução dos versos dantescos e anotem o meu veredito, que é o seguinte:
01) O senador Flávio Laranjinha será encaminhado para o quinto fosso do Oitavo Círculo, onde estão presos os corruptos das rachadinhas e de outros malfeitos, afundados em piche fervente e cercados por demônios com nomes engraçados: Malacoda (Raborruim), Calcabrina (Pisagraça), Cagnazzo (Grossocão), Barbariccia (Barbadura), Alichino, Draghignazzo (Dragorriso), Graffiacane (Esfolacão), Libicocco, Ciriatto (Porcapeta), Farfarello, Rubicante (Vermerrábio) e Scarmiglione (Desgrenhado).
Esses diabos, sob as ordens de Malacoda, guiam Dante e Virgílio até a saída para a sexta fossa, onde ficam os hipócritas. Quase na saída, irritados com os poetas, começam a persegui-los, rangendo os dentes, o que assusta Dante. Virgílio o acalma:
Ed egli a me: «Non vo’ che tu paventi:
lasciali digrignar pur a lor senno,
ch’e’ fanno ciò per li lessi dolenti.»
Per l’argine sinistro volta dienno;
ma prima avea ciascun la lingua stretta
coi denti verso lor duca, per cenno;
ed egli avea del cul fatto trombetta.
E ele a mim: “Não fique assustado:
deixe-os chiar, à vontade rilhar,
pois isso eles fazem pros desgraçados.”
Pela esquerda decidiram voltar;
mas antes um por um fez uma careta
mordendo a língua pro chefe mostrar;
e ele tinha do cu feito trombeta.
(Canto XXI, 133-139)
A essa altura me lembrei do pum cultural da Regina Duarte, que também está pregando o fim do distanciamento social. Quem nasce pra ser secretária do Bozo nunca chega a Beatriz, evidentemente...
02) O Carluxo será encerrado no décimo fosso do Oitavo Círculo, onde ficam encerrados os fraudadores e os mentirosos, em meio à loucura, peste, febre e sede eternas. Ali já se encontram, entre outros, a mulher de Putifar e o grego Sinon, que induziu os troianos, contando-lhes cavilosas fake news, a recolher o cavalo de madeira cheio de guerreiros gregos para dentro das muralhas de Troia.
L’una è la falsa che accusò Ioseppo;
l’altro è ’l falso Sinon greco da Troia:
per febbre aguta gittan tanto leppo.
Uma é a falsa que acusou José;
o outro é o grego Sinon de Troia:
têm febre aguda e fedor de chulé.
(Canto XXX, 97, 98, 99)
03) O Eduardo Bananinha eu vou despachar junto com o pai, o Jair Messias, para a Esfera de Antenora, a segunda do Nono Círculo do Inferno, onde são punidos os traidores da pátria e/ou de seu partido político, no caso, o PSL. É um lugar perfeito para os dois passarem a eternidade que nem um par de picolés, enterrados num lago congelado com apenas as cabeças de fora.
Quem se lembra do Jack Torrance (Jack Nicholson – na foto, abaixo) no final do filme “O Iluminado”, do Stanley Kubrick? Então, é parecido!
Noi eravam partiti già da ello,
ch’io vidi due ghiacciati in una buca,
sì che l’un capo a l’altro era cappello.
E come ’l pan per fame si manduca,
così ’l sovran li denti a l’altro pose
là ’ve ’l cervel s’aggiunge con la nuca.
Já afastados nós de perto dele,
eu vi dois congelados num buraco,
a cabeça dum do outro era o cabelo.
Se com fome do pão se tira um naco,
um assim ferrou no outro os dentes
onde o cérebro se junta com a nuca.
(Canto XXXII, 124-129)
A cena acima relatada refere-se a dois personagens, Tideo, pai de Diomedes, herói grego na guerra de Troia, que foi ferido mortalmente pelo tebano Menalipo, tendo conseguido, no entanto, decepar a sua cabeça, que fez questão de roer e sugar antes de morrer.
Com tanto sangue de massa de tomate escorrendo, algum idiota pode me acusar de querer o mal para a família dos milicianos, a ponto de incluir a tortura. Nada mais estrambótico e ridículo! Nesta modesta cronicaguda esboço apenas uma sanção lítero-moral. A necessária e urgente interdição dos quatro elementos, com ou sem cassação, impeachment e prisão na Papuda, são outros quinhentos mirréis, que eu, sozinho, não tenho condições de promover.
Ora, pois, quem está dizendo “Io fei giubbetto a me de le mie case.” - “Fiz a minha forca das minhas casas” (Canto XIII, 151) é a própria famiglia Bolsonaro!

Criado em 2020-03-27 14:29:55
Danilo Firmino (*) –
A morte tem cheiro estranho, gosto amargo, aspecto assustador. Mexe com nossa cabeça, nosso corpo e nossos corações.
Infelizmente, ela vem se aproximando na surdina, driblando as falsas e hipócritas estatísticas. Aliás, ela é maior e mais aterrorizante que quaisquer estatística oficial. De um dia para outro, ela dobra, triplica, se multiplica.
Foi assim na China, Itália, Espanha, França e está pior no Equador, onde corpos se empilham nas ruas, e cinzas são jogadas em valas comuns, após a cremação. Por falar em cremação, no Rio a burocracia acaba de ser facilitada pra cremação, forma mais fácil de eliminar corpos contaminados por um vírus que ninguém conhece. O mundo está perplexo.
A morte está fazendo os coveiros de Caxias trabalharem três, quatro, cinco vezes mais. Ela está em Honório Gurgel, Guarabu, Madureira, Realengo, Jd. América, Vigário Geral, Vila Kosmo e na Rocinha.
Essa é a triste realidade: o vírus Covid19 avançando sorrateiramente pelos nossos subúrbios, bairros e favelas do Rio de Janeiro.
Mas algo muito mais grave acontece nesses dias na nossa cidade maravilhosa.
Apesar da morte rondando e os contaminados ocupando todos os nossos hospitais, há uma visão totalmente “fake” de que está tudo dentro da normalidade.
De um momento para outro, as ruas voltaram a ficar lotadas de pessoas, especialmente de idosos.
O distanciamento social ficou para trás e a quarentena, tão fundamental no combate à circulação do Coronavírus praticamente deixou de existir.
De mais a mais, ainda estamos no superferiado da Semana Santa e o invisível vírus começa a dobrar suas vítimas, especialmente nos bairros dos subúrbios carioca, na Baixada Fluminense e nos lugares mais carentes da cidade.
Os números oficiais não correspondem à realidade, estão subnotificados. Na realidade, segundo levantamento do Coletivo Fala Subúrbio, os infectados e os óbitos estão crescendo assustadoramente especialmente deste lado da cidade.
Mas parece que as pessoas não acreditam nem na ciência, nem nas estatísticas. Há gente saindo de casa por inúmeros motivos: é necessário fazer compras, pois a Semana Santa está aí; é fundamental descolar algum trocado, pois a “merreca” de 600 reais ainda não caiu na conta. Temos também que ir aos bancos e aos postos da Receita para regularizar as condições do CPF e fazer as inscrições do Auxílio Social do governo federal. A vida é dura.
Tudo isso parece ter sido planejado em um laboratório do mal e do crime.
A crise, além de ser sanitária e de saúde, começa a ser também econômica e é acima de tudo política. O governo federal atrasou muito com o vale social para os milhões de brasileiros que trabalham por conta própria e dos 40% de desempregados que os defensores da economia parecem ter esquecido que já existiam. Era de se imaginar mesmo que um governo neoliberal com um forte viés fascista teria muita dificuldade em abrir os cofres, num momento de guerra contra um inimigo invisível, para socorrer as vítimas pobres e os mais desvalidos da sociedade. É o que estamos presenciando: pobres cadastrados pelo Leão da Receita Federal.

Apesar dos governadores e do próprio ministro da Saúde recomendarem que não é o momento de baixar à guarda, pois o vírus é oportunista, invisível e mortal; Bolsovírus continua pregando o relaxamento do isolamento social.
Ele não só prega a praga, como pratica o genocídio dando exemplo. É um assassino!
Moral da história: a maioria das pessoas não está querendo saber nem do uso das máscaras que protegem bastante em ambientes de convívios coletivos como lojas e supermercados; estações de trens, barcas, ônibus e de metrôs; bares e restaurantes; bancos, agências da Receita, etc.
O prefeito/pastor do Rio é outro a praticar a política genocida com os cariocas mais necessitados, pois decreta Estado de Calamidade Pública, e continua dando calote nos salários dos servidores públicos, especialmente naqueles que trabalham no setor de saúde – postos, clínicas da família, UPAS e hospitais.
Esses funcionários, por sinal, que estão na linha de frente do combate ao Covid19, também são os mais ameaçados. Alguns desses ambientes hospitalares não possuem o básico: máscaras, luvas, sabão líquido, álcool gel e álcool 70, capote impermeável, vales transportes e alimentação. Fora os postos e hospitais que estão sem água.
Ainda bem que a solidariedade corre solta e consciente entre a sociedade civil organizada. Nós mesmos, do Fala Subúrbio, distribuímos mais de 150 cestas básicas e vamos prosseguir firmes na nossa ação de solidariedade de classe. É esta força que nos fará vencer as batalhas que se avizinham desta guerra, que ao fim estaremos juntos pra reconstruir esta sociedade, ressignificando valores, onde a vida seja maior que o lucro, que somos maior do que o que temos, e que a desigualdade social seja uma história passada, tal como, a doença derrotada pela vacina da ciência, e ganância derrotada pelo antídoto da humanidade.
_________________
(*) Danilo Firmino é compositor e Coordenador do Coletivo Fala Subúrbio.
Criado em 2020-04-10 18:59:06
A Frente Unificada da Cultura do Distrito Federal, em reunião on-line, concluída nesta segunda-feira (22/2), aprovou a redação de uma Carta Aberta dirigida à população e à Ordem dos Advogados do DF (OAB-DF), Câmara Legislativa, Ministério Público e Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec). O documento está assinado por diversos representantes de movimentos culturais da cidade.
Na carta, estão elencadas as prioridades, propostas e reivindicações do Setor Cultural do DF para o ano de 2021.
O documento, foi protocolado na Secretaria de Cultura, na Comissão de Educação, Saúde e Cultura e na Frente Parlamentar em Defesa da Cultura, da CLDF, no MPDFT e na Comissão de Cultura, Esporte e Lazer da OAB.Também foi encaminhado e-mails solicitando audiência com os movimentos culturais para tratar dos temas listados na Carta Aberta.
A Carta, com mais de 80 assinaturas, inclui adesão de movimentos, fóruns, associações, sindicatos e coletivos de Cultura do DF.
A seguir, a íntegra da Carta Aberta:
Carta Aberta - Prioridades da Cultura - DF 2021
INTRODUÇÃO
A cultura rica e diversa produzida no DF movimenta uma extensa cadeia produtiva, além de ter um importante papel na formação de nossa população, tanto para aqueles que a produzem como para quem a consome e frui.
Incentivar e fomentar uma cultura representativa e descentralizada, a partir de uma gestão transparente, é devolver para a sociedade em arte, a complementação de uma educação de qualidade, uma política de inclusão social, valores de estética e espírito crítico, experiências e vivências promovidas pela cultura.
A manutenção de Brasília como território que mantém a capital brasileira como Patrimônio Cultural da Humanidade, desde 1987 pela Unesco, exige que sejam realizados investimentos nos diversos segmentos relacionados à cultura, assim como é obrigatório o cumprimento das legislações que regulamentam as ações do setor, como a Lei Orgânica da Cultura- LOC (Lei n.934/2017). Porém, mesmo adquirindo o status de “Capital da Cultura” e com todo o caminho até aqui percorrido para garanti-lo, o que vivemos, hoje, são tempos de precarização da arte e do trabalho dos profissionais. É impossível mantermos a grandeza do Patrimônio Cultural da Humanidade sem investimentos na cultura.
A legislação mais moderna no Setor Cultural do país, a LOC, visa justamente garantir investimentos contínuos a esta cidade, que é um museu aberto e um marco histórico. Contudo, na atual gestão encontramos a menor execução, desde 2015, do Fundo de Apoio à Cultura- FAC (criado em 1991), e a estagnação da Lei de Incentivo Cultural - LIC (criado em 2016). Além disso, diversas linhas de apoio e editais inteiros tiveram seus valores reduzidos ou deixaram de existir em 2019, fragilizando e empobrecendo ainda mais a comunidade do DF, já profundamente impactada com a pandemia.
Esta situação é vista pelo setor cultural como um grande perigo às conquistas duramente alcançadas e representa um retrocesso para toda a sociedade, privada cada vez mais da arte e da cultura produzida no DF.
Preocupados com os impactos dessa redução de investimento em um momento tão delicado, o setor cultural afirma que é urgente a implementação de propostas que façam avançar as políticas públicas de cultura. Para isso, movimentos culturais, associações e coletivos de cultura elegem nesta carta aberta algumas prioridades, objetivando a plena fruição artística da sociedade do DF e a retomada da produção do setor cultural.
✔LOC
✔FAC
O Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal teve nos anos de 2019 e 2020 a menor execução desde 2015, tanto em valores absolutos, quanto mais ainda em valores corrigidos pela inflação. Em 2019, menos de R$ 25 milhões foram liquidados, em contraste com os mais de R$ 55 milhões liquidados em 2018. Em 2020, a liquidação do FAC, ficou também aquém de R$ 31 milhões.
Tais números causam ainda maior preocupação se contrastados com dois outros dados: os valores corrigidos pelo IGP-M para os dias de hoje, e os valores que deveriam ter sido de fato executados pelo FAC, de acordo com o que determina a LOC, em seus artigos 64, 66 e 80. Vejamos:
execução de 2017, corrigida pelo IGP-M até janeiro de 2021: 65.336.184,16
execução de 2018, corrigida pelo IGP-M até janeiro de 2021: 73.969.854,47
execução de 2019, corrigida pelo IGP-M até janeiro de 2021: 31.881.165,47
execução de 2020, corrigida pelo IGP-M até janeiro de 2021: 31.771.045,52
Note-se que em 2019, o valor corrigido é menor do que a metade da execução de 2017 ou 2018, contrariando uma tendência contínua de crescimento observada desde 2014, que se espelha no constante crescimento da Receita Corrente Líquida do DF. Assusta ainda mais a comparação com o valor que deveria ter sido executado, resultando em um saldo remanescente que supera os 120 milhões de reais, sem considerar correção de valores. Considerando que parte das alterações referem-se também a fontes adicionais de receitas previstas na LOC, como receitas oriundas de multas e devoluções de valores dos projetos em execução, receitas oriundas de taxas de ocupação e bilheterias de equipamentos culturais da SECEC, entre outros, estima-se que devem ainda ser acrescentados cerca de 8 a 12 milhões de Reais a esse valor, cujo cálculo deve ser publicizado de forma transparente pela SECEC.
orçamento liquidado remanescente
2017 67.044.863,00 44.417.681,50 22.627.181,50
2018 67.996.282,00 55.161.992,51 12.834.289,49
2019 68.691.251,00 24.722.504,66 43.968.746,34
2020 71.296.692,00 30.677.464,47 40.619.227,53
fonte: www.cl.df.gov.br/web/guest/conteudo-relacionado1
Essa redução significativa, e grave, do aporte ao FAC, verificado ao longo dos anos de 2019 e 2020, teve resultados catastróficos para a comunidade artística do Distrito Federal. Após o cancelamento em 2019 do mais importante edital de 2018, e a publicação de editais com valores aquém aos dos anos anteriores, os editais de 2020 resultaram em uma concorrência sem precedentes. Os resultados do edital Regionalizado comprovam esta afirmação: foram contemplados em algumas linhas de apoio, as mais concorridas, projetos com pontuação 99 ou 100, o que gerou uma indignação generalizada na comunidade, em especial àquela residente na periferia, uma vez que a imensa maioria dos proponentes não foi selecionada.
Consideramos ainda gravíssimo que, no bojo de tais irregularidades financeiras e contábeis, ainda tenha se verificado a deterioração da escuta popular e da participação da comunidade na construção das ações do FAC. Os editais lançados em 2019 e 2020 foram publicados sem debate com a classe e, fato inédito, sem a participação do Conselho de Cultura - CCDF, ocorrendo erros óbvios e gravíssimos em suas elaborações. A única consulta pública realizada (Regionalizado 2020) teve baixíssima adesão - menos de 50 agentes - e foi conduzida de forma viciada e tendenciosa, pois não foram colocadas em deliberação as demandas apresentadas pela comunidade.
Em pelo menos três ocasiões diferentes, algumas vertentes do movimento cultural da cidade apresentaram à SUFIC sugestões para o FAC. Na primeira delas, ainda em janeiro de 2020, tratava-se de um estudo completo com minutas de dois editais (Regionalizado e Áreas Culturais), trazendo avanços significativos em relação aos editais anteriores. Tanto esta sugestão quanto as demais foram completamente ignoradas pela SECEC.
Discriminamos abaixo, as sugestões entregues à SECEC, em janeiro de 2020 e que até o momento não foram incorporada na pela gestão:
✔️EDITAIS E CEACs
✔LIC
✔CONSELHOS
✔EQUIPAMENTOS CULTURAL
✔PATRIMÔNIO
Material
Imaterial
✔LEI ALDIR BLANC - LAB E OUTROS AUXÍLIOS EMERGENCIAIS
✔CONFERÊNCIA DE CULTURA
CONCLUSÃO
Diante do desmonte das políticas públicas e das conquistas construídas duramente ao longo dos anos, e do desrespeito à participação popular, configurada em seus representantes no CCDF e diante das dificuldades que o setor cultural vem enfrentando, geradas pela crise resultante da pandemia do novo coronavírus, é fundamental que a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF implemente com urgência as propostas acima apresentadas. Também é necessário que o governo esteja aberto ao diálogo com todos os segmentos do setor, tendo em vista que somente escutando às demandas daquelas e daqueles que produzem e geram renda, poderemos avançar rumo a uma estabilidade necessária, solidária e humana, neste momento de profunda crise, na qual estamos mergulhados - artistas, técnicos, comunicadores e produtores.
Nós, do setor cultural, que adequamos os nossos fazeres ao distanciamento social, vemo-nos extremamente impactados pela ausência de trabalho, com um êxodo preocupante de profissionais para outros setores, tendo em vista a necessidade urgente de sobrevivência.
Infelizmente, mesmo nesta atual conjuntura adversa, a Secretaria de Cultura elenca outras prioridades, como, por exemplo, a criação do Museu da Bíblia. Vivemos num país democrático, num estado laico, todas as manifestações religiosas e culturais têm seu espaço de existência garantidos. Entretanto, a realidade dos equipamentos públicos do DF, em sua maioria com carência de funcionários, orçamento, gestão, reformas, não condiz com a criação de um museu que contemplará somente a uma parcela específica da população do DF excluindo, ignorando e desvalorizando a enorme riqueza cultural do povo brasileiro, representado no DF.
Recursos provenientes de emendas parlamentares são recursos públicos, de todas as cidadãs, de todos os cidadãos. Os templos e centros de outras religiões e filosofias, aqui no DF, foram construídos com recursos privados. É uma afronta à ideia modernista de sua concepção.
A arte e a cultura são pilares para a construção de uma sociedade menos opressiva e mais inclusiva. São fundamentais para garantir a sanidade mental da população em tempos de crise. Há urgência do setor cultural em retomar seus trabalhos e do público em usufruir, em segurança, a arte produzida no DF.
Pelos motivos expostos acima, reiteramos que priorizamos a vida, a arte, a cultura, o público, nossos espaços e nossas conquistas. Exigimos planejamento e transparência na gestão dos recursos públicos destinados ao desenvolvimento e ao fomento da Cultura no DF.
Assinam esta Carta Aberta :
Movimentos de Cultura do DF
Criado em 2021-02-24 00:40:18
A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) denunciou hoje (2/11) o assassinato do líder indígena Paulo Paulino Guajajara, ocorrido durante emboscada feita por madeireiros na região de Bom Jesus das Selvas, no Maranhão.
O líder indígena guardião Laércio Guajajara também foi ferido e está internado, mas seu quadro é estável.
A seguir, a nota da APIB:
“É com profunda tristeza e revolta, que nós, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), vimos a público denunciar e prestar solidariedade ao Povo Guajajara pelo assassinato do guardião Paulo Paulino Guajajara após o grupo dos agentes florestais indígenas “Guardiões da Floresta” ter sido emboscado por madeireiros dentro de seu próprio território. O líder indígena guardião Laércio Guajajara também foi ferido, ele está internado e seu quadro é estável.
O crime ocorreu ontem no interior da Terra Indígena Araribóia, região de Bom Jesus das Selvas-MA, entre as aldeias Lagoa Comprida e Jenipapo. Houve intenso confronto. O indígena Paulo Paulino Guajajara, conhecido como “Lobo mau”, foi brutalmente assassinado com um tiro no rosto; Há informações de que um madeireiro envolvido no crime também pode ter morrido no confronto, seu corpo está desaparecido.
O Governo Bolsonaro tem sangue indígena em suas mãos, o aumento da violência nos territórios indígenas é reflexo direto de seu discurso de ódio e medidas contra os povos indígenas do Brasil. Nossas terras estão sendo invadidas, nossas lideranças assassinadas, atacadas e criminalizadas e o Estado Brasileiro está deixando os povos abandonados a todo tipo de sorte com o desmonte em curso das políticas ambientais e indigenistas.
Neste momento, oito líderes indígenas da APIB estão em uma intensa jornada pela Europa para denunciar a grave crise de direitos humanos que os povos indígenas do Brasil enfrentam sob o presidente Jair Bolsonaro. Intitulada “Sangue Indígena: Nenhuma Gota a Mais”, a campanha pede às autoridades e aos líderes empresariais da Europa que respondam à crescente violência e devastação ambiental na Amazônia e em todo o país.
Um relatório recente do Conselho Missionário Indígena do Brasil (CIMI) mostrou um aumento dramático da violência contra comunidades nativas e invasões de territórios indígenas. Durante os primeiros nove meses de posse de Bolsonaro, houve 160 casos relatados de invasões de terras, o dobro dos números registrados no ano passado.
Sonia Guajajara, coordenadora executiva da APIB e liderança do Povo Guajajara, declarou que o Território Indígena Araribóia está em luto e que já faz tempo que eles vêm denunciando a situação de ausência do poder público na proteção dos territórios indígenas, assim como a invasão do território Araribóia para a exploração ilegal de madeira e a luta dos guardiões para protegê-lo. “Não queremos mais ser estatística, queremos providências do Poder Público, dos órgãos que estão cada vez mais sucateados exatamente para não fazerem a proteção dos povos que estão pagando com a própria vida por fazer o trabalho que é responsabilidade do Estado. Exigimos justiça urgente!”.
Nesta segunda-feira, dia 4, está agendada audiência pública em Imperatriz (MA) para discutir o arrendamento dos Territórios Indígenas e o entreguismo para o agronegócio. Não aceitaremos a legalização da destruição de nossos territórios.
Sabemos que os povos indígenas em todo mundo são responsáveis pela preservação de 80% da biodiversidade, assim como para o combate à crise climática que é um dos maiores problemas enfrentados pela humanidade neste século XXI. Onde há indígenas, há floresta em pé. Por isso, um ataque aos nossos povos, representa um ataque a todas às sociedades e ao futuro das próximas gerações.
É preciso dar um basta à escalada dessa política genocida contra os nossos povos indígenas do Brasil. É por isso que estamos com a nossa campanha pelos países da Europa, para alertar ao mundo o que está acontecendo no Brasil e pedir apoio para que nenhuma gota a mais de sangue indígena seja derramada”.
Sangue Indígena: Nenhuma Gota Mais!
Criado em 2019-11-03 00:38:48
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
1° dia - Muito animados com o isolamento. Temos sobrando livros, discos, Netflix, Apple TV, Prime Vídeo, jogo de gamão, palavras cruzadas e Sudoku. E um bom estoque de cervejas.
2° dia - Terminamos três temporadas de uma série turca. Quanta violência nas guerras com os cristãos! Parece as reformas do Guedes. Começamos a racionar as cervejas.
3° dia - O Tom Hanks pegou o vírus. Resolvemos deixar os turcos de lado para ver os filmes dele. A Cristina pegou um pincel atômico e botou olhos e boca na bola de basquete. A cerveja acabou.
4° dia - Dessa vez foi o Plácido Domingo. Tarado! Mesmo solidários com o #Metoo, ouvimos o Otello. E também o Giulio Cesare, quando ele era novinho. Vamos mandar pra CUT a ária da vingança pra inspirar os panelaços:
Svegliatevi nel core
furie d'un alma offesa
a far d'un traditor
aspra vendetta!
Sem cerveja, eu vi a Cristina cheirando um frasquinho de álcool-gel, mas fiquei na minha.
6° dia - Começa a bater uma inquietação. Já vimos as séries turcas, começamos a assistir o Freud no Netflix, revimos o Contágio do Soderbergh, ouvimos algumas óperas, fizemos palavras cruzadas, e eu já encomendei as memórias do Woody Allen. Tô curioso pra saber o que ele diz do Ronan Farrow, que é o próprio Bebê de Rosemary com o Frank Sinatra. A Cristina não só cheirou, mas provou com a ponta da língua um pouquinho do álcool-gel. Será que faz mal?
7° dia - As dificuldades começam a aparecer. A OMS diz pra gente espirrar nas mangas, mas quando será que o verdureiro vai aparecer de novo? Abacate resolve?
8° dia - Como não temos gato nem cachorro, disseram que conversar com as plantas acalma. Fiz uma live hoje para os cactos e as samambaias. Já estamos no oitavo episódio do Freud.
9° dia - A devastação impressiona. Nova York e a Ceilândia começam a entrar em parafuso. Soubemos que a Greta Thunberg pegou o vírus, mas há compensações. Têm caído mais que o Dow Jones os índices de dióxido de nitrogênio nos locais mais poluídos do planeta, como algumas zonas industriais na China e a Lombardia. A vida selvagem voltou a Veneza. Patos foram vistos atravessando a ponte do Rialto. Aqui em Brasília, acho que vi da janela uma onça pintada hoje de manhã. A Cristina diz que foi ilusão de ótica e garante que era um caititu. Dos grandes!
10° dia - Assim que a samambaia nos despertou aos berros, mal raiava o sol no horizonte, tomamos o café da manhã e começamos a recitar a Divina Comédia. Vamos passar a quarta-feira comemorando o Dia do Dante. Lasciate ogni speranza, voi ch'entrate!
Tive que fazer um intervalo por causa de uma desavença. É que a Cristina me acusou de ter escondido só pra mim o último frasquinho de álcool-gel! Era só o que faltava!
Criado em 2020-03-24 23:56:11
Amaro Santos –
Hoje acordei pensando na “Geni”, de Chico Buarque. Não havia escutado a obra recentemente. Mas ela estava ali, assaltando minha memória antes do café da manhã em época de confinamento. Alguma razão haveria. Em seguida, entre uma e outra xícara de café puro, leio um artigo escrito pelo prêmio Pulitzer Thomas Friedman no New York Times deste domingo, 22/3. Neste artigo, Friedman menciona a defesa feita por David Katz, especialista em medicina preventiva da Universidade de Yale, a uma mudança de postura das autoridades públicas: "Em vez de extensa quarentena, a volta ao trabalho em duas semanas, porque outro vírus, o do abalo da economia, será pior".
Ao citar a taxa de mortalidade do coronavírus, de menos de 1% da população, Friedman alfineta: “É como um elefante sendo atacado por um gato doméstico. Frustrado e tentando evitar o gato, o elefante acidentalmente pula de um penhasco e morre”.
As horas passam, ainda degluto o artigo. E sou brindado com um vídeo de palestra-TED proferida por Bill Gates em 2014. Ali, o bilionário defende um sistema de prevenção universal a pandemias, incluindo investimento pesado em ciência, tecnologia, logística e medicina preventiva. Justifica que a ameaça maior, hoje (digo, seis anos atrás), não é uma guerra nuclear, mas um microrganismo invisível aos nossos olhos. Para Bill Gates, seria necessário “abraçar” países pobres com recursos bem utilizados para evitar a contaminações em grande escala.
De um lado, o mundo do capital, que não quer esperar nem pagar para ver. Quer a volta da "normalidade", mesmo com as milhares e milhares de mortes anunciadas e ainda previstas. De outro, o mundo pretérito mencionado por Bill Gates, frustrado por uma resposta unificada das Nações, até agora inexistente. Em parte, é também o mundo defendido por Francisco, o papa, que teve que adiar o encontro preparado para acontecer por esses dias em Assis, na agora devastada Itália, com cerca de 30 jovens economistas de vários países. Era para discutir uma nova forma de convivência entre o capital e o trabalho num planeta em que combate à desigualdade e sustentabilidade clamam por espaço nas agendas dos chefes de Estado.
Um e outro mundo se desentendem quando o assunto é quem sentará à cabeceira da mesa. Mas há mais discordância entre eles.
Wall Street – não necessariamente defendido pelo articulista do NYT - tem a pressa dos acionistas, e sequer imagina um debate sobre cooperação financiada por grandes grupos transnacionais. Os artífices da pressa na retomada da rotina casa-trabalho-casa apontam que a crise de saúde que se agiganta traz como ameaça maior a saúde econômica do Planeta, e que isso nos deixará todos mais pobres.
Pausa para entender o que seria essa equivalência de pobreza: o grande acionista de uma corporação que lucrou, digamos, U$ 15 bilhões em 2019, irá perder algo como U$ 30 milhões no próximo balanço. Plausível, não? Já a dona Cleide, de Paraisópolis, na capital paulista, cujos dois filhos e marido não têm para onde correr nessa pandemia, e que somava pouco mais de U$ 300 em patrimônio, poderá, com sua família, viver daqui a pouco na calçada mais próxima, após ter trocado o pouco que tinha por comida.
O acionista, a Dona Cleide, assim como Thomas Friedman, Bill Gates e o papa representam aqui dois mundos divorciados. Uns numa bola, ou bolha, outros noutra. E se o almoço ainda não está pronto, dá tempo de falar da Geni, cuja letra e acordes, sabia, não vieram em vão.
O capital está preocupado. Precisa da volta de Dona Cleide e de sua família nas ruas, a trabalho. Não há tempo para pensar em algo que solucione problemas há muito enfrentados por essa senhora, que habita um entre tantos becos e vielas aglomeradas e sem saneamento básico, paraíso para qualquer vírus.
Bill Gates, que antecipou as desgraças de 2020, foi solenemente ignorado. Sobre Francisco, sequer foi notícia sua intenção de debater um novo mundo possível. Os mercados, sempre nervosos, voltarão a sorrir dia desses. Na TV, um certo comentarista econômico dirá que a retomada das atividades vai garantir a prosperidade de famílias “empreendedoras” como a da Dona Cleide. E a sociedade, aliviada, poderá voltar a jogar pedras nela, no marido, nos filhos, nas enfermeiras, nos médicos, nos cientistas e nessa ideia pueril e envelhecida de um papa anacrônico de que a saída disso tudo seria pensar de forma inteligente, inovadora e solidária um outro jeito de convivermos nesse planeta.
Criado em 2020-03-24 02:24:39
O Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília promove, até o dia 21 de fevereiro, a Mostra Infantojuvenil de Cinema e Inovação. A programação está disponível on-line e pode ser acessada gratuitamente no site www.desenhandofuturos.com.br
Em meio às mudanças de comportamento causadas pela pandemia e frente a um período de desafios para a humanidade, surgiu em Brasília um projeto cultural que convida seus participantes ao sonho, ao conhecimento e ao diálogo com o novo mundo.
Organizado pela Moveo Filmes, o evento exibe novas produções infantojuvenis do cinema brasileiro, acompanhado de atividades paralelas que apostam na inovação.
As sessões estão sendo exibidas na sala de cinema do CCBB Brasília ao ar livre, contando com todo o cuidado e distanciamento necessários para que o público se sinta bem e seguro para essa aventura.
O Brasil inteiro poderá acompanhar a programação on-line, já que os filmes também estarão disponíveis, gratuitamente, até 21 de fevereiro, pela plataforma de streaming e programação ao vivo InnSaei.TV. Basta acessar o site www.innsaei.tv. “O isolamento abriu novos caminhos para a difusão e democratização do cinema brasileiro. Assim, todo o país terá a grande chance de ver e curtir produções feitas para o público infantojuvenil, que, provavelmente, estariam fora do mercado exibidor ou da TV aberta.”, afirma Daniela Marinho, diretora geral da mostra.
Serão abordados temas como a importância de sonhar (Cabeças, curta-metragem de Bruna Carolli), o cuidado com a natureza (Pingo de respiro, curta-metragem de Jackson Abacatu), e o valor das relações afetivas (O Véu de Amani, curta-metragem de Renata Diniz). O curta Guri, de Adriano Monteiro, conta a história de Vitor, um menino de 12 anos que sonha vencer o campeonato de bolinha de gude de seu bairro.
Os filmes foram organizados em programas para uma experiência interativa e conjunta entre toda família, e com indicação de faixa etária recomendada. “A seleção, feita por especialistas, escolheu filmes que convidam toda a família a voltar a sonhar e que, vistos em conjunto, abrem novos e luminosos horizontes para a essa geração”, explica Daniela.
A mostra de filmes é apresentada por Bume, uma personagem que veio do futuro para conduzir a plateia a uma reflexão e estimular no público infantojuvenil um olhar para o futuro com destaque para tópicos abordados de forma inovadora: a superação, o planejamento, o sonho e a aceitação.
Vídeos
Vivi Lobo e o Quarto Mágico, de Isabelle Santos (PR, 2019, 13 min) - https://www.youtube.com/watch?v=Yc3FvXDlPvc
Cabeças (DF, 2017, 9 min) - https://vimeo.com/229734376
Colméia, de Karinna de Simone (SP, 2018, 8 min) - https://youtu.be/7qkINnS4HwA
Pingo de respiro, de Jackson Abacatu (MG, 2019, 1 min) - https://vimeo.com/343219785
O Véu de Amani (DF, 2018, 15 min), de Renata Diniz - https://vimeo.com/338761634
UrSORTUDO (DF, 2017, 15 min), de Januário Jr. - https://vimeo.com/211135073
Foguete, de Pedro Chaves (DF, 2020, 15 min) - https://g1.globo.com/df/video/trailer-do-curta-foguete-de-pedro-henrique-chaves-8887396.ghtml
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Serviço:
Desenhando Futuros: Mostra Infantojuvenil de Cinema e Inovação
A programação de filmes estará disponível pela Plataforma www.innsaei.tv
até 21 de fevereiro
Confira na programação da mostra os horários e classificação indicativa dos filmes.
Local: CCBB-Brasília - SCES Trecho 2 – Brasília/DF Tel: (61) 3108-7600
Aberto de terça-feira a domingo das 9h às 21h
E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. Site: bb.com.br/cultura
Criado em 2021-02-16 00:57:54
O presidente Jair Bolsonaro ataca profissionais jornalistas e o jornalismo por meio de discursos, entrevistas e postagens em mídias sociais, ao menos duas vezes por semana. Segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) “até 31 de outubro, foram 99 declarações vistas como ataques a jornalistas (11 ocorrências) e descredibilização da imprensa (88 ocorrências), que visam deslegitimar o trabalho jornalístico, colocando a imprensa e os jornalistas como adversários políticos, ou descredibilizando o trabalho de profissionais e veículos”.
O levantamento da Fenaj foi divulgado na véspera do Dia Internacional pelo Fim da Impunidade dos Crimes contra Jornalistas, lembrado em 2 de novembro. O mapeamento se refere a dados coletados no período de 1º de janeiro a 31 de outubro deste ano, com base em todas as postagens de Bolsonaro no microblog twitter e no facebook este ano (as contas são sincronizadas), além das transcrições dos discursos e entrevistas oficiais, que constam no site do Palácio do Planalto. Foram avaliadas todas as ocasiões em que o presidente se refere a jornalistas, mídia, imprensa e produção de notícias. A Fenaj divulgará o balanço mês a mês.
“Em uma sociedade democrática, a imprensa é livre para reportar o que considera noticioso, e todo cidadão também tem o direito de exercer a crítica sobre o trabalho jornalístico. Porém, quando autoridades públicas usam de sua visibilidade para colocar profissionais jornalistas ou a imprensa em si como oponentes políticos, abre-se o espaço para ataques às liberdades de imprensa e de expressão, e descredibilização do trabalho jornalístico, função essencial para a manutenção de um espaço público democrático”, diz a Federação dos Jornalistas em seu site.
“A Fenaj e todas as instituições que prezam pela democracia não podem aceitar a institucionalização da violência contra jornalistas e das ameaças à liberdade de imprensa como prática de um governo”, afirma a presidenta da Fenaj, Maria José Braga.
Ocorrências
O levantamento da Fenaj mostra que os ataques à imprensa tiveram início dois dias depois da posse, via conta pessoal no twitter do presidente, em três de janeiro, quando Bolsonaro afirmou que um de seus ministros fala o que “parte da grande imprensa omite”.
De janeiro a junho, foram entre duas e 12 declarações por mês contra jornalistas e o jornalismo, contudo, houve um aumento significativo nos meses de julho e agosto, totalizando 39 registros. Em setembro, houve queda no número de ocorrências, com o mapeamento registrando oito, contudo, cinco desses ataques foram proferidos pelo presidente Bolsonaro durante seu discurso na 74ª. Assembleia Geral das Nações Unidas, no dia 24 de setembro, diante de chefes de Estado de todo o mundo.
A forma como o presidente se refere ao trabalho dos jornalistas e à publicação de conteúdo informativo pela imprensa contém expressões com questionamento da veracidade, atribuindo às instituições o papel de adversárias, conclama para que a população não acredite nas notícias, ataca profissionais jornalistas chamando de “idiota”, afirmando que cometem “excessos”. Bolsonaro também afirma reiteradas vezes que a imprensa “esculacha”, “massacra”, “acusa”, “está na oposição”, “que tem lado”, “presta desserviço”, que “publica mentiras”.
No dia 13 de setembro, Jair Bolsonaro chegou a afirmar, em sua conta no twitter, que a imprensa é inimiga: “Nossa inimiga: parte da GRANDE IMPRENSA. Ela não nos deixará em paz. Se acreditarmos nela será o fim de todos”.
No mês de outubro, foram 13 ocorrências de menções à imprensa de forma a descredibilizar o trabalho do profissional jornalista. O episódio da “live” do dia 30 de outubro aparece somente uma vez na contagem, ainda que o presidente tenha proferido diversos ataques nos 20 minutos de vídeo, pois na base de dados elencada pela FENAJ não são analisadas declarações do presidente que não estejam transcritas de forma oficial.
“Nesse mapeamento, que produzimos de forma a seguir uma metodologia de busca e de categorização para visibilizar esses ataques à nossa profissão por parte do presidente, entendemos que é uma postura deliberada de Jair Bolsonaro colocar profissionais jornalistas como inimigos e a imprensa, de uma maneira geral, como sem credibilidade para apurar, produzir e publicizar informações. Enquanto entidade de defesa dos trabalhadores jornalistas, vamos expor essa postura institucionalizada”, explica Paula Zarth Padilha, diretora da Fenaj.
Ataques a jornalistas
A contaminação do ambiente democrático pelo acirramento das disputas políticas tem feito aumentar os episódios de violência contra jornalistas. O Relatório de Violência Contra Jornalistas e a Liberdade de Imprensa no Brasil, da Fenaj, aponta que em 2018 o número de agressões a jornalistas chegou a 135 casos, contra 227 jornalistas, um aumento de 36% nos casos de violência contra os profissionais, em relação ao ano anterior. Em 22% das violências no último ano, os autores de violência foram manifestantes ou eleitores.
“Percebemos que o discurso que coloca jornalistas como adversários tem impacto na segurança de todos os profissionais, seja na cobertura de assuntos do dia-a-dia, quando estão sujeitos a intimidações e a violência física, seja no ambiente digital, quando jornalistas têm seus perfis nas redes sociais expostos e começam a sofrer diversos ataques, xingamentos, ameaças e exposição de informações pessoais, como endereço residencial e fotos da família. Não são poucos os casos de jornalistas que tiveram que fechar suas contas em redes sociais por causa de ameaças”, diz Márcio Garoni, diretor da Fenaj.
Mapeamento
O mapeamento de posicionamentos do Presidente da República, Jair Bolsonaro, contra os profissionais jornalistas, a produção de notícias e as instituições de produção de notícias, representadas pelos veículos de imprensa, produzido pela Fenaj, no ano de 2019, tem como objetivo divulgar, denunciar e visibilizar os ataques e reafirmar a defesa dos jornalistas, do jornalismo e da democracia.
Criado em 2019-11-03 00:31:31
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Quem tem a coroa mais poderosa?
Quem levanta e derruba muros e fronteiras de maneira mais eficiente?
Quem é mais globalizado e quem mais desglobaliza?
Quem se comunica melhor?
Quem é mais sutil e irônico?
Quem mais desmoraliza as religiões e os filósofos pós-modernos?
Convenhamos, quem é mais viril?
Um carocinho com 125 nanômetros de diâmetro, que nem cor tem por ser menor do que o comprimento de onda da luz visível. Uma bolinha ridícula, cheia de espinhos, igual pequi virado do avesso!
Criado em 2020-03-23 01:27:52
Danilo Firmino (*) –
Há uma pergunta no ar que precisamos responder imediatamente:
Como fazer isolamento social (“fiquem em casa”) para enfrentar e derrotar a circulação do Coronavírus (Covid-19), quando fazemos parte de uma gente que se fez na rua, se criou na rua, ama viver a rua e socializar vida, costumes, atitudes, cultura e arte?
Este é um desafio gigantesco que temos pela frente e, ao mesmo tempo, totalmente paradoxal. Pois, moramos e vivemos nos subúrbios. Somos, antes de tudo, agentes da sociabilidade. Somos essa incrível gente suburbana que pulsa vida e se espalha nos bairros das zonas Norte e Oeste, Leopoldina, favelas, comunidades, becos e bocadas.
Cultuamos a convivência nos mínimos detalhes, quer no trato com os vizinhos, nas turmas do bairro e da comunidade, na frequência dos bares, das esquinas, quadras esportivas, os meios de transportes incluindo aí trens, ônibus, o metrô, os táxis, as vans de lotação e as motos comunitárias.
São nesses espaços que praticamos o desenvolvimento de nossas essências, quer em conversas onde passamos o mundo a limpo, exercendo nossa fé ou nos juntando em comunidades para cantar, tocar, dançar, saudar e celebrar a vida na sua dimensão mais sensível.
Mas agora o planeta e todos os seus humanos clamam por um “stop”.
Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor, dando um tempo para perceber o que está acontecendo.
O subúrbio (e seus moradores e moradoras) necessita seguir o protocolo universal de cortar a circulação do vírus invisível, extremamente contagioso e exterminador que nos assombra.
Para tanto, precisamos reinventar nossa sociabilidade suburbana, criando uma corrente de solidariedade que se auto-proteja e proteja todos os nossos idosos, crianças e toda a rapaziada.
Não podemos dar bobeira insistindo na ocupação das ruas e dos espaços comunitários como sempre fizemos e sabemos. Precisamos voltar para nossas casas, nossos lares e a partir dali, criar uma enorme irmandade para enfrentar essa guerra. Trabalharemos sempre ao lado dos enfermeiros, médicos e agentes da saúde de nossas comunidades. São nossos principais aliados.
A orientação universal de lavar obstinadamente as mãos e o rosto para não sermos agentes da circulação indiscriminada do coronavírus, é uma missão cotidiana: lavar pela manhã, a tarde e a noite. Usar álcool em gel como uma arma de proteção para nosso corpo e nossos pertences.
Mas a rede de “Solidariedade Suburbana” só será viável com o fim (pelo menos por enquanto) da nossa circulação diária pelos espaços que criamos e dominamos.
É hora de frearmos as ruas, é hora de ficarmos em casa. O momento é duro, difícil e assustador. Mas, sem pânico e com muita coragem e seriedade, exigiremos que o Estado brasileiro (Governo e Prefeitura) cumpra com suas obrigações – instalação imediata de uma fábrica de álcool em gel em nossa vizinhança, é um exemplo prático e imediato.
Mas são necessárias também ações de sustentação econômica para as famílias e os comerciantes mais carentes que moram e trabalham nos subúrbios, como a suspensão do pagamento das contas de água, luz, telefone e outros impostos.
Nunca foi tão necessário desenvolver essa consciência política e comunitária. A guerra não é somente nos nossos bairros. A guerra é de todo o Planeta.
Mas sem nossa presença, incentivando a ausência das ruas, não conseguiremos vencer a pandemia. Vamos adiante Subúrbio. Um passo atrás agora, dois à frente amanhã.
Juntos venceremos!
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(*) Danilo Firmino, 29 anos, é compositor/autor do samba da Mangueira de 2019, líder comunitário de Honório Gurgel e fundador e coordenador do Coletivo “Fala Subúrbio”.
Criado em 2020-03-21 00:30:07
Brasilienses pioneiros no teatro para bebês inovam ao criar apresentações teatrais on-line para circular em festivais durante a pandemia.
A Companhia de Teatro para Bebês La Casa Incierta, referência mundial em arte para a primeira infância há quase três décadas, e a Cia. Studio Sereia, também um celeiro de projetos destinados a bebês (incluindo os prematuros), se juntaram para criar um circuito de apresentações on-line para seu público, nesse tempo de isolamento social.
As peças Pupila D’Água e O Farol serão exibidas em formato híbrido (teatro e cinema), dentro da programação dos principais Festivais dedicados à primeira infância no país, durante três meses (fevereiro a abril), gratuitamente. As apresentações serão transmitidas ao vivo do palco do Teatro da Aliança Francesa em Brasília somente nos horários programados por cada um dos Festivais (veja a programação abaixo000).
Essa e outras experimentações no campo estético e artístico têm marcado a atuação da Companhia La Casa Incierta. Em 2019, lançou o primeiro canal audiovisual criado especificamente para o público de 0 a 5 anos de idade, o Bebelume, que contém uma série de vídeos poéticos e conteúdos exclusivos.
Este ano, foi convidada para exibir a peça Pupila D`Água em festivais de teatro de quatro estados brasileiros, todos remotos por força da pandemia.
Ao invés de distribuir cópias em vídeo para todos eles, decidiu encenar algumas passagens e transmiti-las ao vivo. “Para ser teatro é preciso ter o palco, a emoção, mesmo sem uma plateia presente, ter aqueles momentos sagrados da atuação. Essa experiência audiovisual alterna a atuação ao vivo, que é peculiar ao teatro, com cenas previamente filmadas, ou seja, com fragmentos cinematográficos da peça”, conta a atriz Clarice Cardell, diretora e uma das fundadoras de La Casa Incierta.
Este também é o formato da peça O Farol, interpretada e produzida pela atriz, cantora e compositora Fernanda Cabral, da Cia. Studio Sereia. A peça foi inspirada em um texto presenteado pelo seu parceiro musical Chico César, quando se apresentou na França, como atriz de Pupila D’Água. O poema virou canção e integrou a trilha sonora que Fernanda compôs originalmente para a peça. Também inseriu textos de sua autoria e um poema do poeta paraibano Lau Siqueira, criando uma dramaturgia rica em apelos visuais e sonoros. “Esta é uma experiência pioneira. Nesse contexto de isolamento social, o teatro adere à linguagem audiovisual como recurso para alcançar o público e continuar ativo, vivo, ainda que redimensionando o lugar do intérprete e do espectador”, ressalta Fernanda Cabral.
A proposta se torna ainda mais instigante e pioneira porque as novas montagens estão baseadas em pesquisas sobre a integração de crianças com deficiência auditiva e utiliza artística e poeticamente a linguagem de sinais para construir os signos e significados do espetáculo, além da manipulação de objetos, música, teatro e cinema.
“Com este projeto, desejamos difundir uma linguagem artística pouco difundida em todo o país, o Teatro destinado à primeira infância, que representa aproximadamente 10% da população do país e para a qual são ainda muito poucas as oportunidades de acesso à Cultura”, diz o diretor Carlos Laredo, também fundador de La Casa Incierta.
Clarice Cardell reforça a importância do caráter artístico dessa experiência, considerando que o bebê é “um sujeito competente e sensível, e não um simples consumidor”. As duas peças-filmes contam com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do DF.
Pupila d´Água é um espetáculo histórico da companhia hispano-brasileira La Casa Incierta, que já foi exibido mais de 800 vezes no Brasil, Bélgica, França, Espanha, Portugal, Holanda, Itália e Rússia. O espetáculo utiliza elementos de canto lírico, percussão com objetos cenográficos e vasos de cristal, além de um repertório de elementos teatrais e de dança. Esta obra é uma das grandes precursoras no mundo do conhecido e pioneiro Teatro para Bebês. Em 2005, ganhou o prêmio FETEN na Espanha e recebeu menção honrosa da Associação Internacional de Teatro para a Infância e Juventude (ASSITEJ), no Canadá, pelo caráter inovador do projeto.
O Farol – Este é o primeiro espetáculo da Cia. Studio Sereia, apresentado em palcos do Brasil, Argentina, Espanha e França. O Farol nasce da cosmogonia da atriz para criar uma fábula feminina sobre mãe e filha. A concepção do espetáculo é inspirada em elementos da cultura japonesa, desde o figurino aos objetos de cena.
As imagens visuais e sonoras remetem às aventuras de uma menina-asa, menina-peixe, que reencontra a mãe debaixo de uma árvore cantando a mesma canção que ela. A diretora Agnès Desfosses, organizadora de um dos maiores Festivais de teatro destinados para a Primeira Infância [Les Premières Rencontres, em Paris] chegou a comentar: “Há muita sensibilidade na voz e na maneira de cantar. O que se transmite é a paz, a mesma que permite ao bebê dormir, após o canto de sua mãe. É um espetáculo que surge como um presente muito suave e especial”.
Cia. La Casa Incierta
La Casa Incierta é um grupo teatral pioneiro e de referência nas artes cênicas para a primeira infância no Brasil. Em 2017, recebeu em Washington o Prêmio internacional ALAS BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), concedido como iniciativa inovadora para a primeira infância.
O grupo criou e veem empreendendo no Brasil o Festival Primeiro Olhar, com o objetivo de integrar diferentes iniciativas no âmbito do Teatro para a Primeira Infância e movimentar esse setor criativo a partir dos seus criadores, pesquisadores, mediadores e do público.
Em 2015, sob a coordenação de Clarice Cardell, realizou o I Encontro Cultura e Primeira Infância, em parceria com o MinC e a Rede Nacional Pela Primeira Infância. O Encontro representou um marco na história do País ao juntar diversos especialistas em Cultura e Educação para a Primeira Infância, visando a elaboração de um documento contendo sugestões de boas práticas da Cultura para crianças de 0 a 6 anos de idade.
Cia. Studio Sereia
Fundada em 2014 pela cantora, compositora, diretora e atriz Fernanda Cabral, a Cia. Studio Sereia desenvolve trabalhos e projetos de teatro e música voltados para a Primeira Infância. O espetáculo O Farol foi visto por plateias da Europa, Argentina e Brasil em diferentes Festivais, incluindo o Les Premières Rencontres, em Paris.
Com o projeto Música nas Incubadoras (micro concertos para prematuros), participou de três importantes festivais brasileiros destinados a crianças: Festival internacional de Teatro Infantil do Ceará, Festival Musicar e Festival Internacional de Teatro para a Primeira Infância. Vem desenvolvendo este projeto continuamente em eventos isolados organizados por maternidades públicas e privadas de Brasília, Leiria e Madri.
O Studio Sereia realiza oficinas de vivências musicais para mães e bebês em eventos ou atendimentos personalizados. Também ministra oficinas formativas para a criação de espetáculos para bebês em diferentes universidades brasileiras como UFG, UFMG e UnB.

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Serviço:
Pupila D´Água
Festival primeiro olhar SP - Público familiar- 4 apresentações.
27 e 28 de fevereiro 11h e 16h
http://www.sobrevento.com.br/eventos.htm
TIC Fortaleza- Público: creches - 3 apresentações
25 de março 10.30h 11.30h e 14.30h
https://festivaltic.com.br/
IV Festival das Famílias de Circo de Goiânia - Público creches - 3 apresentações
26 de março 10.30h 11.30h e 14.30h
https://www.facebook.com/festivalfamiliasdecirco/
Festival Mini Recife
2 apresentações - público familiar
24 e 25 de abril - 16h.
https://www.minimusica.com.br/
O FAROL
Festival primeiro olhar SP - Público familiar - 4 apresentações.
20 e 21 de fevereiro 11h e 16 h
http://www.sobrevento.com.br/eventos.htm
IV Festival das Famílias de Circo de Goiânia - Público de creche - 3 apresentações
23 de março 10.30h 11.30h e 14.30h
https://www.facebook.com/festivalfamiliasdecirco/
TIC Fortaleza- Público: creches - 3 apresentações
24 de março 10.30h 11.30h e 14.30h
https://festivaltic.com.br/
Festival Mini Recife
2 apresentações - Público de creche
28 de abril – 9h e 11h.
https://www.minimusica.com.br/
Criado em 2021-02-14 22:42:38
Em nota oficial divulgada hoje (2/11), o Sindicato dos Peritos Oficiais do Estado do Rio de Janeiro esclarece que a Perícia Oficial, que conta com peritos criminais e setor especializados em perícias de informática e de áudio e imagem, “não foi acionada para periciar a mídia apreendida no Condomínio Vivendas da Barra.
“Lamentamos que um evento de grande importância criminal para o país, que envolveu até o Presidente da República, venha a ser apresentado sem o devido processo de comprovação científica”, diz a nota.
Essa investigação se refere ao assassinato da vereadora do PSol do Rio de Janeiro, Marielle Franco, e seu motorista Anderson Gomes. O Ministério Público que se ocupa do caso está sendo questionado por não ter dado transparência ao trabalho realizado após a veiculação de matéria jornalística sobre o assunto na grande imprensa.
Eis a íntegra da nota do Sindperj:
“O Sindperj, entidade representante dos Peritos Oficiais do Estado do Rio de Janeiro, vem por meio desta esclarecer que a Perícia Oficial do Estado do Rio de Janeiro, atualmente subordinada à Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, conta com Peritos Criminais e setor especializados em perícias de informática e de áudio e imagem, a disposição e qualificados para o devido seguimento de perícia, como definido no Código de Processo Penal.
Esclarecemos que a Perícia Técnica Oficial não foi acionada para periciar a mídia apreendida no condomínio Vivendas da Barra. Segundo os fatos amplamente divulgados, o exame foi feito por técnicos do Ministério Púbico, e teve como objeto um CD apresentado pelo síndico do condomínio, não havendo assim a apreensão dos equipamentos do sistema de portaria.
Lamentamos que um evento de grande importância criminal para o país, que envolveu até o Presidente da República, venha a ser apresentado sem o devido processo de comprovação científica. Uma prova técnica robusta e incontestável só pode ser produzida com respeito à cadeia de custódia e com a devida Perícia Oficial da mídia original e do equipamento original no qual foi gravada’.
Criado em 2019-11-03 00:23:32
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Um dia antes de entrar em quarentena tive compromisso fora e tomei o metrô. Caras assustadas ou desconfiadas, algumas máscaras. Um jovem me cedeu o lugar e eu fiquei de frente para duas elegantes velhinhas que, pelo sotaque, me pareceram italianas. Logo depois comprovei que eram italianas mesmo. Durante alguns minutos acompanhei o diálogo das senhorinhas, do qual extraio trechos, meio estropiados:
Virtù – Você está fazendo a festa, hein!
Fortuna – Com a maior facilidade, comadre! Eu sempre conto com a estupidez humana!
Virtù – Você é muito sacana!
Fortuna – Eu, não! Cê sabe, eu sou neutra, uma força da Natureza...
Virtù – Mas pelo visto tem muitos ajudantes que não são nada neutros.
Fortuna – Minha primeira aliada neste caso é biológica mesmo. Os médicos estão chamando de “ingenuidade imunológica” (immunological naivety). Sendo esse coronavírus uma novidade, ninguém tinha defesa imunológica contra o bichinho em novembro, quando a trapizonga começou.
Virtù – Ah, mas os teóricos da conspiração devem estar em segundo lugar! Essa história do vírus ser chinês, comunista e tal!
Fortuna – O individualismo ocupa o segundo lugar, antes dos conspiradores, do Trump, do Bolsonaro e do pessoal que espalha fake news. Imagine, comadre, que o pessoal do meu condomínio está roubando álcool-gel dos recipientes comunitários que a síndica instalou nas portarias! Há, eu conheço o meu gado!
Virtù – De lascar! Estão seguindo a orientação do Mito, né! “Se eu espalho o vírus, que que você tem com isso?”
Fortuna – Exatamente! Eu e o meu umbigo acima da Pátria, acima de Deus, acima de tudo! Ich über alles in der Welt! Por isso a minha tarefa é simples, fácil, sopa no mel!
Virtù – Um horror, mais de 270 mil casos e mais de 11 mil mortos nesta sexta-feira!
Fortuna – E é só o começo, anote aí! Ô, comadre, não me vá cair na depressão que nem você caiu em 1918! Mas me diga, que providências você está tomando pra me enfrentar?
Virtù – Que pergunta antiética, maledetta! A senhora que trate de descobrir! Cadê o seu exército de espiões?
(Quaquaquaquaquá! Quaquaquaquaquá!)
Virtù – Brincadeirinha, comadre! Ó, estou deixando a coisa correr solta para que a realidade se imponha até cair a ficha! Parece que a estratégia está funcionando...
Fortuna – É mesmo, eu fiquei impressionada com a mudança de algumas pessoas. A Janaína Paschoal já está parecendo a Florence Nightingale! E o Xico Graziano já está disputando o bom senso com o Reinaldo Azevedo. Quem diria!
Virtù – Pois é! Até o véio da Havan está pulando do barco! E o Guedes já começou a morder a língua. Vai ter que gastar os tubos nessa crise, e não só com tubos de ensaio!
Fortuna – Nossa, comadre, que trocadilho infame!
Virtù – No tocante a graças e desgraças, eu nunca fui páreo pra senhora, né!
Fortuna – Ah, tadinha, não precisa ficar assim tão séria, comadre!
(Quaquaquaquaquá! Quaquaquaquaquá)
Nisso a condutora avisou que o meu ponto tinha chegado, e eu tive que descer. Me arrependi. Devia ter acompanhado um pouco mais a conversa apocalíptica das duas velhinhas!
Criado em 2020-03-20 22:30:55
José Carlos Peliano (*) –
As ditas autoridades brasileiras, desde que tomaram assento na Esplanada com a última eleição no ano passado, adotaram medidas de política econômica ao sabor do mercado financeiro e às custas da população, não toda ela, como se presumia e se vê depois, mas de sua maioria esmagadora.
Este parágrafo, de fato, não deveria ter começado o texto dessa forma, haveria de ser aos poucos, aos comprimidos, não de uma tacada só, para evitar um mal-estar, como um soro aplicado a pacientes com problemas agudos. Mas, não teve outro jeito, fomos tratados assim por eles e a resposta tem de ser do mesmo nível para ficar marcado pela indignação. Aqui não cabe paz e amor, nem fazendo arminha com as mãos.
Por que assim? Porque as medidas adotadas, ou melhor, desmedidas viciadas e atropeladas, só fizeram reduzir drasticamente ou mesmo acabar com conquistas sociais havidas desde a Constituição de 88 ao tempo em que carrearam e desviaram recursos públicos para serem utilizados pelos apoiadores e a claque do entorno governamental, a sanguessuga financeira.
Ao comparar os investimentos públicos realizados e as despesas sociais desde o golpe contra Dilma Rousseff até hoje em comparação à movimentação no mercado financeiro, em especial ao pagamento de juros da dívida pública, fica claro que o desmoronamento da economia é evidente e desastroso.
Ou visto de outro ângulo, do estoque de mais de US$ 300 bilhões acumulados pelos governos Lula e Dilma, perto de 15% já foram para o brejo por conta de uma política externa irresponsável e inconsequente, sem eira nem beira, somente para cobrir o rombo das contas externas e da saída de capitais.
Em poucas palavras, nossa economia está em frangalhos, sem ter nem saber para onde caminhar. Crescimento quase nenhum, apesar das malditas reformas trabalhista e da previdência. O ministério da economia é comandado por um despreparado, irresponsável, reconhecido até mesmo por gente da sua mesma linha neoliberal de ver os negócios, por exemplo, Armínio Fraga.
Voltamos ao foco do que interessa aqui. Desmonte da área social: entre outros absurdos, redução dos direitos trabalhistas, dificuldade crescente nas condições de aposentadoria por tempo e idade, falta de reajuste do funcionalismo público federal há cinco anos, redução de verbas do programa Bolsa Família e do SUS, desmonte homeopático da universidade pública em contingenciamentos sem noção e falta de apoio à agricultura familiar.
Impactos na área econômica dessas desmedidas sociais. A redução dos direitos trabalhistas acarreta igual diminuição dos recursos do FGTS que é o maior fundo público de financiamento imobiliário, acarretando queda de projetos não só da construção popular, quanto dos demais equipamentos urbanos e rurais.
A dificuldade de aposentadoria retira recursos da demanda pessoal e familiar, restringindo o volume agregado de compras e investimentos que chegam ao mercado, reduzindo os negócios. A falta de reajuste do funcionalismo segue igualmente o mesmo sentido da falta de recursos da aposentadoria.
A redução de verbas do Bolsa Família idem para o pessoal de menor nível de renda, o mesmo se dá para o SUS que deixa de contratar mais gente não gerando mais renda para a formação de consumo. Os desmontes da universidade pública e da agricultura familiar levam a efeito similar aos anteriores, além de desorganizar totalmente as áreas de educação de um lado e por outro de produção de verduras, frutas e legumes para as famílias.
O impacto social decorrente desses desmontes é de avaliação imediata. Aumento considerável do contingente mais pobre da população. A pauperização generalizada e ampliada. A uberização das atividades econômicas, que é, de fato, o biscate oficializado nos mais variados ofícios e setores.
A medida síntese dessas consequências é o índice de desigualdade de Gini, que mede a concentração de renda entre as pessoas e famílias. Ele atingiu o maior nível desde sempre quando começou a ser medido pelo IBGE: atualmente está em 0,57, estando entre os dez mais elevados e desiguais do mundo.
A pauperização da população se reflete na desorganização e desmantelamento da produção tanto industrial quanto agrícola, claro das pequenas e médias propriedades. A bola de neve não tem mais tamanho, levando tudo de roldão. A troco de quê, se pergunta? A troco de uma visão absurda, suicida, superada e de enterro consumado em todos os países por onde esticou suas lentes. Trata-se do neoliberalismo exorbitado na área financeira.
Além do que eles, os ditos especialistas, que defendem a zorra financeira, acreditam que o mercado por si só, a mão invisível que veio lá de Adam Smith, tem condições de arrumar a economia, colocando as coisas em seus devidos lugares.
Não aceitam Keynes, nem servido com boa dose de whisky, que pregava a intervenção anticíclica de recursos do estado para trazer a economia ao equilíbrio. Vejam a insensatez: como crer que o mercado, formado pelos agentes econômicos e financeiros mais robustos, interessados eles mesmos em retirar da economia os lucros mais exorbitantes, irá tratar de atuar como médico e enfermeiro cuidando dos desvios e disparidades que se manifestam na economia?
A insensatez chega ao cúmulo de financiar o Estado brasileiro atual comprando e comprando seus títulos públicos, negociando juros altos “of course”, aumentando o tamanho da dívida, deixando setor público de aplicar os recursos em investimentos de longo prazo e reduzindo em consequência a capacidade produtiva para dar segurança à produção social.
Prefere-se o lucro fácil pelos juros pagos nos papéis do que ampliar ou criar novos investimentos. Qualquer dona de casa é capaz de entender isso sem maiores esforços porque é o que elas fazem todo o mês administrando seus próprios gastos. Nossas “autoridades” econômicas deveriam fazer cursos de final de semana com as donas de casa mais pobres porque elas sabem bem mais que eles.
Esse é o retrato da ação da sanguessuga financeira que toma conta do país. Mas como tudo na vida vai e volta, o que acontece com a atual crise mundial provocada de um lado e há tempos pela disputa EUA x China e de outro pela recente pandemia do corona vírus, a sanha financeira foi derrubada pela queda das bolsas mundiais e dos negócios financeiros. Muitos grupos perderam dinheiro, outros quebraram de vez e alguns sobrevivem por respirador artificial, dependurados em alguns papeis de pouco valor e especulações de calças curtas.
E o mais assustador é o preço a ser pago por nós todos habitantes de países inconsequentes como o Brasil e os EUA. Aqui, além de mandarem embora os médicos cubanos, quiseram acabar com o SUS, não conseguiram, mas fizeram reduzir seus recursos e atendimentos, e agora com a provável chegada generalizada do corona vírus vai ser somente ele, o SUS, mesmo estropiado, o serviço público criado pela Constituição cidadã de 1988, ironicamente, quem vai poder dar conta do recado. Já nos EUA, como derrubaram o “Obama Care”, quem precisar ser socorrido nos hospitais vai ter de pagar os tubos, claro que só os que podem, para ter atendimento na rede privada.
A imagem sombria de “Blade Runner” me vem à mente com a dominação das cidades pelas grandes corporações enquanto a mão-de-obra uberizada, biscateada ou desocupada toma conta das ruas com as mais diversas atividades. Quem sair por último apague a luz!
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(*) José Carlos Peliano, poeta, escritor e economista.
Criado em 2020-03-14 22:06:26