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Página 43 de 95

Não presenteie o genocida, use máscara!

Verenilde Pereira –

A foto é de quando eu era repórter do jornal A Crítica, em Manaus, 1978, três anos após o assassinato de Vladimir Herzog. Ia comentar sobre episódios da "imprensa baré", mas acabo de ver um noticiário sobre o suicídio do ex-professor e ex-reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Luiz Carlos Cancellier. Isso me faz desviar o assunto - a questão não interessa a quem não tiver paciência para ler e pensar um pouco.

Penso em Cancellier - a quem não conheci - e também em Jean Améry, autor que me foi apresentado em uma disciplina com Rita Segato. Améry diz que o suicídio é um ato indescritível tanto no sentido gramatical como no factual. No entanto, diz ele, o suicida fala por si mesmo. Me vem à mente agora, o macabro espetáculo midiático oferecido ao público quando, no dia 17 de setembro de 2017, a delegada Érika Marena ordenou a invasão de mais de 100 policiais na universidade e prenderam o então reitor.

Filho de uma costureira e de um operário, com uma trajetória que inclui militância na UNE, nas campanhas das Diretas, Já! e nas questões relacionadas com a democracia e Direitos Humanos, Cancellier era querido pelos alunos e funcionários. Mas Érika Marena, por seu lado, era uma das principais assessoras do ex-juiz, ex-ministro da Justiça, que, segundo especialistas, não sendo justo, promoveu uma das mais vergonhosas e trágicas farsas do judiciário brasileiro.

Marena acusou Cancellier de envolvimento no desvio de mais de 80 milhões de reais da universidade e de obstrução da justiça. No interrogatório de algumas horas ele negou as acusações. Sem efeito. A partir de então sua voz, sua defesa, as provas a seu favor foram totalmente negadas, rigorosamente proibidas. Cancellier foi preso, teve seus pés acorrentados, suas mãos algemadas, foi humilhado durante a revista íntima quando ridicularizaram sua nudez, e, ao final, foi jogado em um presídio de segurança máxima onde permaneceu por 30 horas. Foi proibido de voltar à universidade que frequentava há pelo menos quatro décadas.

Enquanto isso, a delegada forjou, criminosamente, o depoimento de um delator inexistente que também acusava Cancellier. Com a crueza de sua alma, de seu coração e até de suas vísceras, a delegada assinou o documento falso, o que foi feito também pelo escrivão. Muitos lembram daquele momento, quando as imagens do ex-reitor explodiam nos noticiários e nas redes, com a roupa de presidiário, com seu olhar que visivelmente sucumbia. Não adiantaram as denúncias contra os feitos abomináveis da delegada. Como "punição" ela foi promovida pelo ex-juiz para um alto cargo no Ministério da Justiça, dirigido por ele.

Foi exonerada quando o ex-juiz-político brigou com seu patrão, o presidente reconhecidamente genocida. (Sabemos que hoje o ex-juiz é sócio de um escritório norte-americano que atende clientes e empresas investigados pela própria Lava-jato!). O caso, estarrecedor, demonstra o fortalecimento dessas infâmias, a miséria moral que se prolongaram. Sem conseguir sequer falar sobre sua inocência, Cancellier mergulhou no desespero e na depressão. O mundo para ele pode ter se transformado em uma grande tortura. Sua imagem era exibida como se ele fosse chefe de uma quadrilha, estava proibido de voltar à universidade onde compartilhava de forma brilhante e generosa o conhecimento adquirido com tanto esforço. Estava no auge de sua brilhante carreira. Se o ser humano é Linguagem, a sua estava sendo aniquilada, portando, ele também.

A condição se tornou insuportável e assim, no dia 2 de outubro de 2017, Cancellieri vestiu uma camiseta com as iniciais da universidade, foi a um shopping e se jogou do quinto andar. Tina 59 anos. Á época, de forma automática e imediata, os grupos que carregam uma consciência bovina alegaram algo do tipo "ele foi fraco", "30 dias é pouco"! Ora, os desesperos (no plural mesmo!) dos que se encontram INJUSTAMENTE numa cela, seja lá por quanto tempo, não levam os sujeitos nessa condição, a ter uma mesma reação.

São várias as repostas diante de juízes ou juízas que movidxs por suas vaidades, suas doenças morais e éticas, seus interesses financeiros etc... praticam crimes semelhantes em todo mundo. Inclusive nas regiões recônditas da Amazônia, como no rio Negro. Alguns reagem como o ex-reitor, outros se negam a entregar suas vidas. São trunfos. Cancellieri não suportou. Agora, o documento forjado pela delegada veio à tona onde se comprova que os promotores sabiam e foram parceiros da trama.

Ela "não ouviu nada" diz Dallagnol a Orlando Martello quando buscam estratégias para proteger a delegada e a farsa criminosa que cometeram. Em 2018, por FALTA DE PROVAS, o inquérito cheio de mentiras e inconsistências, foi encerrado, Não houve desvio de verbas. Era tarde, Cancellieri estava morto. Mas sua morte está inserida nesse projeto de destruição do país que inclui entre tantos itens, o uso da pandemia como estratégia institucional para a disseminação da morte e do suicídio coletivo.  (Sem falar da live presidencial da quinta feira quando o país teve mais de 1.550 mortos e o presidente fez propaganda infame contra o uso de máscaras, o que foi repetido na aglomeração que ele provocou no Ceará).

A pandemia, no Brasil, não é mera contingência, é um plano monstruoso que inclui a falta de vacinas, numa crise onde menos de 3 por cento de pessoas foram vacinadas, com os deboches e as mentiras deslavadas, com a falta até de sedativos em alguns hospitais em que pacientes foram amarrados.

Cancellier, naquilo que alguns consideram como um ato político, escreveu um bilhete encontrado em seu bolso, onde deixou escrito "MINHA MORTE FOI DECRETADA NO MOMENTO DE MINHA PRISÃO". Jean Améry fala sobre o indizível que envolve o suicídio de alguém, dado o limite da linguagem. Hannah Arendt deixou dito que "SOMENTE A PURA VIOLÊNCIA É MUDA, POR ESSE MOTIVO, A VIOLÊNCIA JAMAIS PODERÁ TER GRANDEZA".

Muitas pessoas já me ouviram repetir esse pensamento e continuarei a fazê-lo. Lembro que em alguns grupos étnicos esse ato é circunstancialmente praticado como eu e outras pessoas já registraram. Cancellieri me obrigou a desviar do assunto. Apesar de tudo, não cedeu à pura violência, não cedeu à total mudez. Com um "simples" bilhete. No mais, não entregue sua vida aos que desejam justamente sua morte. Proteja-se, desobedeça o genocida e use máscaras. Não o presenteie com sua vida.

Peço desculpas pelo desvio de assunto.... forças!

Criado em 2021-02-27 20:46:03

Direitos Humanos em 2 minutos - Ep #4

Na década de 1990, cerca de 2% dos jovens negros cursavam ou tinham concluído um curso de graduação no Brasil. Hoje, são 40%, graças à Lei 12.711, que reserva a eles metade das vagas em universidades. O desempenho dos cotistas é igual ou superior aos demais alunos. Ainda assim, os jovens negros morrem 2,5 vezes mais que os jovens brancos no Brasil. (Fonte: UERJ, Unicamp, 2012).

Direitos Humanos em 2 minutos (DH2) reúne artistas, realizadores e ativistas para explicar, de maneira lúdica e acessível, temas complexos como racismo, violência de gênero, justiça fiscal, migração, mobilidade urbana e mudanças climáticas, entre outros.

São 12 filmes curtos, com os atores Iara Pietricovsky e Alexandre Ribondi em cena – os dois dividem também a direção do projeto. Os textos são de Ribondi.

Foi elaborada também uma cartilha sobre direitos humanos, com os principais conceitos e legislações relativas aos temas apresentados no projeto. Esperamos que a cartilha seja uma fonte para professores, alunos e movimentos sociais interessados em discutir direitos humanos de maneira transformadora.

Saiba mais em dh2minutos.org

Criado em 2016-08-08 19:51:06

Não calarás, não matarás!

Maria Lúcia Verdi -

O coletivo de resistência, formado por artistas brasilienses, Não Calarás!, realizou, no Museu Nacional, seminário sobre Arte, liberdade de expressão e democracia neste 25 de outubro  -  dia em que, mais uma vez, todos sabíamos o que iria acontecer no picadeiro político brasileiro.

Na mesa moderada por Marilia Panitz, o Juiz Presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos, Roberto de Figueiredo Caldas, reafirmou e explicitou, no Direito Internacional, o papel fundamental da liberdade de expressão na democracia, além de  sugerir que se fizesse (oportuno) debate sobre Arte e Religião.

As deputadas Érica Kokay e Maria do Rosário apresentaram fundamentados argumentos sobre o tema, indo muito além da questão esquerda ou direita e situando a arte num contexto histórico brasileiro que exige participação.

(Foto - Ordem e progresso coberta com plástico e tijolos - obra de André Parente)



A jornalista Cynara Menezes, do blog Socialista Morena, teve a coragem de dizer que, tendo a época do Fla x Flu - PSDB X PT - acabado, e sendo o cenário político assustadoramente complexo, obscurantista, seria importante a aproximação com uma certa direita, a “iluminada” (a adjetivação é minha).

Christus Nóbrega, do Coletivo Não Calarás!, chamou a atenção para o fato de que essa censura à arte pode também estar encobrindo (a mídia ajudando a que isto aconteça) o debate maior sobre tudo o que está ocorrendo de inadmissível no país.

A frase Temer é inaceitável e Temer é inaceitável tremulava no encontro.

O performer Hilan Bensusan, professor de Filosofia da UnB e escritor, vestido com macacão de operário e arma de brinquedo na mão, tendo nas costas escrito “Desarmado”, distribuiu texto sobre a questão da censura às artes, enquanto, no palco, insinuava gestos com a arma e o zíper do macacão, brincando com o imaginário do público.

“Toda época de grandes opressões é época de grandes sutilezas”, disse Millôr Fernandes e isto está lá no Museu Nacional, entre outras frases-lanternas para este momento de impasse nacional – qual é o nosso vir-a-ser?

Não Matarás! Pode ser vista até dia 29/10 (domingo), corram! O curador, Wagner Barja, montou-a em torno da obra de José Zaragoza, artista espanhol falecido que adotou o Brasil, e do “Exposição – Motivos da Violência”, painel de João Câmara, apresentado em 1967 no IV Salão Arte Moderna de Brasília, Salão que foi fechado pela ditadura.

As pinturas e as esculturas de Zaragoza, que explicitamente registram a repressão e a tortura que vivemos com os militares, dialogam muito bem com as obras dos demais artistas selecionados. Alguns deles, do Coletivo Corpos Informáticos, da UnB, tendo produzido performance icônica, registrada numa foto que aqui publicamos.

(Foto: Morte – congresso e bundas)



Como pontua Mário Pedrosa em Não Matarás!:  Em tempos de crise é preciso estar com os artistas. Ou, lembrando Ezra Pound, os artistas são as antenas da raça. Num momento em que nos sentimos perdidos em labirinto de “non senses”, é fundamental acreditar que a percepção artística pode apontar caminhos, sobretudo os da dúvida, da reflexão e do espanto, essenciais a qualquer reconstrução.

Uma das muitas frases do poeta Tetê Catalão, que ilustram a mostra, diz “A violência não nasce em árvores, mas tem raízes”. E as raízes são, claramente, o que nunca foi resolvido em nossa sociedade.

As chagas do sistema escravagista, que até hoje se mostra de distintas formas, uma elite empedernida, uma disparidade de renda escandalosa, milhões e milhões de brasileiros afastados de um modo de vida minimamente digno, sem capacidade de pensar e escolher livremente. Um país do século XXI com um “capitalismo das cavernas” na expressão de Luiz Gonzaga Beluzzo. Um país onde há, na análise de Luiz Roberto Barroso, “pacto oligárquico de saque do Estado celebrado por parte da classe política, parte do empresariado e parte da burocracia estatal” e, infelizmente, acrescentaria, também apoiado por parte do judiciário.

Escreve Bensusan, no texto distribuído no Arte, liberdade de expressão e democracia: “A proibição da nudez é a proibição da verdade: as marcas nos corpos de uma comunidade fracassada.[...] A impossibilidade da nudez dos corpos adultos é a vergonhosa vitória do elitismo, não somos iguais. Que nos cubram as roupas. [...] A verdade é indecente porque ela trata de uma comunidade indecente.” Nossa sociedade é indecente no pior sentido do termo, aquele do desnudamento da injustiça social. Verdade e vergonha.

Em mais uma das frases, lê-se: “Dormia a nossa pátria tão distraída. Sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”.

Era Chico Buarque apontando, antena que foi, o que estamos vendo à luz do sol. Nada mais sob o tapete, como ilustra - o indiscutível valor político de imagens óbvias - obra executada no piso do Museu Honestino Guimarães.

A obra Náufrago, de Regina Pessoa, e a de Siron Franco, expostas no Museu, poderiam sintetizar este momento do país. Um totem com o texto do Código Eleitoral brasileiro manuscrito pela artista em um “papiro”, encabeçado por uma cédula eleitoral lavada (“chorada”, nas palavras de Regina) sem utilidade, enfrentam um retângulo de vidro onde se vê um “frotage” do chão de Brasília, o chão esfregado da capital. A ideia de unir os dois trabalhos tendo sido do olho agudo de Wagner Barja.

(Foto: Obra de Regina Pessoa)



Siron Franco cobre um grande retângulo de realistas esculturas de fezes de distintas cores e nele instala duas torneiras de metal. Essa é a água que bebemos. Aquela, a cidadania que perdemos a cada dia.

(Foto: Retângulo de merda e duas torneiras - Siron Franco)

 

(Veja também neste site matéria de Romário Schettino sobre o mesmo tema: CIDH: "Direitos Humanos estão Ameaçados no Brasil")

Criado em 2017-10-28 00:17:06

Um tsunami atinge a política do Rio

Romário Schettino –

Depois do show de horrores que foi a prisão da família da deputada federal Flordelis (PSD), acusada de mandar matar o marido, que era filho, que era genro, a cidade do Rio de Janeiro acordou nesta sexta-feira, 28/8, com outro escândalo. Toda a cúpula do poder político do Rio está, de novo, na mira dos juízes, do Ministério Público e da polícia.

Além do afastamento do governador Wilson Witzel, o paladino da moralidade, a Justiça expediu dezenas de mandados de prisão, busca e apreensão contra o vice, que agora é governador interino, o presidente da Assembleia Legislativa, secretários, a esposa do governador afastado, fornecedores, empresários etc. O poderoso ex-secretário de governo, Lucas Tristão, também está preso.

No meio disso tudo, nas palavras de Witzel, o ex-secretário de Saúde, Edmar Santos, preso e delator, virou o bandido da história que enganou todo mundo.

Ah, ainda teve a prisão do pastor Everaldo, presidente do PSC, partido de  Witzel. Aquele que foi ao rio Jordão e batizou Bolsonaro e abençoou o seu governador eleito.

Witzel correu pra os microfones para dar declarações, não explicações. Disse que é vítima de perseguição política do presidente Bolsonaro, ex-aliado de primeira hora e responsável pela sua vertiginosa subida ao poder fluminense. “Sou um homem honesto, não tem um tostão ilegal nas minhas contas, nem uma joia”, disse ele, sem mencionar o nome de Sérgio Cabral Filho.

A indignação de Witzel o condena. Ele continua o mesmo que mandou a polícia mirar na cabecinha dos “bandidos”; que deu pulinhos quando um sequestrador foi abatido com o seu incentivo e que apareceu em campanha abraçado com o que há de pior na política carioca. Witzel subiu no palanque onde a placa simbólica de Marielle Franco foi destruída, num ato sem escrúpulos que ficou conhecido como a segunda morte da vereadora.

Não adianta o governador afastado jurar que a culpa é apenas do Bolsonaro, que usou os poderes da subprocuradora-geral, Lindôra Araújo, para destruir sua reputação. Eles são farinhas do mesmo saco. Ambos praticam a necropolítica.

Witzel só caiu em desgraça no campo bolsonarista porque se lançou candidato a presidente da República fora de hora. Erro que só um neófito despreparado comete na política.

Aliás, pobre Rio de Janeiro, tem um prefeito incompetente, praticante do compadrio evangélico; um governador enrolado até o pescoço com fortes sinais de corrupção na área da saúde e supervisionado por um presidente da República genocida, incapaz de governar o Brasil.

Agora, o Rio é governado por um cristão da Igreja Católica, cantor e compositor, que nunca administrou nada na vida. Mas, ao que tudo indica, é do agrado do clã Bolsonaro.

Depois desse afastamento, mesmo que na próxima quarta-feira o pleno do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decida rever a decisão monocrática do ministro Benedito Gonçalves, Witzel dificilmente escapará do processo de impeachment, liberado pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, em tramitação na Assembleia Legislativa.

A líder do PSol no Legislativo fluminense, deputada Dani Monteiro, lembra que Witzel foi eleito na esteira da onda bolsonarista com “a promessa de dar fim ao interminável ciclo de corrupção que assola a máquina administrativa do Estado”. Ao ser flagrado nessas graves denúncias, Witzel tem que responder pelos seus atos.

O vereador do PT, Reimont Luiz, também acha que Witzel precisa ser julgado e punido por seus crimes no âmbito do processo de impeachment.

É o que a cidadania espera. E que o eleitor carioca  escolha o melhor prefeito, ou prefeita, para sua cidade em 2020. Sem pesadelos.

 

Criado em 2020-08-30 02:39:30

Haroldo Lima, o nosso Barão Vermelho

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

A quarta-feira, 24 de março, amanhece ensolarada, mas logo eu mesmo fico turvo com a notícia da morte por Covid do companheiro Haroldo Lima (81). Eu estava preparado. Na véspera, o Paulinho Guimarães, advogado do PCdoB, me havia alertado da piora de seu quadro clínico. Ainda assim não foi menor o baque. 

A essa altura, meio-dia, os jornais já recolheram os principais fatos da brilhante trajetória desse raro patriota, lutador das causas populares e do socialismo, que até há poucos dias continuava ativíssimo na militância, escrevendo artigos e gravando vídeos de análise da conjuntura e de combate ao governo fascista do Bolsonaro.

Relembro aqui alguns episódios que juntos compartilhamos, dos quais muito me orgulho.

A primeira vez que tomei conhecimento do Haroldo foi na penúltima semana de dezembro de 1976, quando li na revista Veja a notícia da Chacina da Lapa, perpetrada na semana anterior pelo II Exército em São Paulo com o objetivo de exterminar a direção do PCdoB. Haroldo tinha sido preso pelos militares junto com outros quatro camaradas, Aldo Arantes, Elza Monnerat, Wladimir Pomar, Joaquim Celso de Lima e Maria Trindade. Muito tempo depois, fui saber que o camarada João Batista Franco Drummond, nome de guerra Osvaldo, meu contato do partido em Anápolis, Goiás, tinha sido trucidado pelos torturadores.

Anos depois, em 1983, conheci o Haroldo pessoalmente, na Câmara dos Deputados. Ele havia sido eleito no ano anterior, pelo PMDB, com o PCdoB ainda na clandestinidade. Na primeira suplência de um mandato de deputado federal por Goiás havia ficado o meu conterrâneo Aldo Arantes, com o apoio da campanha que fizemos em seu nome em Brasília e no Entorno, eu, Adelite Moreira dos Santos, Beth Alves, Moacyr de Oliveira, Fernando Tolentino, Jaime Sautchuck, Thâmar Dias, entre muitos e muitas outras.

Haroldo e Aldo integrariam a Tendência Popular do PMDB, organizada desde 1979, da qual faziam parte os deputados baianos Élquisson Soares e Chico Pinto (esse, meu ex-chefe como diretor da sucursal de Brasília do jornal Movimento), o futuro governador da Bahia Waldir Pires, o socialista Almino Affonso, parlamentares do antigo Grupo Autêntico do MDB, neo-autênticos etc. Alguns membros do grupo, como Airton Soares e Freitas Diniz, filiaram-se ao PT, fundado em 1980, mas a maioria permaneceu no PMDB, com a perspectiva de criar um Partido Socialista. Mais tarde foram identificados como “o PMDB do Miguel Arraes”, em oposição ao “PMDB do Tancredo”.

Na Constituinte de 88, Haroldo Lima se destacaria pela clareza e firmeza de posições em favor dos interesses nacionais e populares.

Esteve na linha de frente, por exemplo, da defesa dos direitos originários dos povos indígenas. Graças a uma articulação liderada por ele, pelo deputado Plínio de Arruda Sampaio (PT) e pelo senador Jarbas Passarinho (PDS), a Assembleia aprovou o Capítulo VIII (Dos Índios) da Constituição Federal, uma das legislações mais avançadas do mundo na regulação dos direitos dos povos autóctones. Ele guardava com muito carinho uma gravata cerimonial do povo Xavante, que lhe foi presenteada pelo cacique Mário Juruna, o primeiro presidente da Comissão do Índio, instalada na Câmara dos Deputados graças aos seus esforços.

Haroldo foi também dos raríssimos parlamentares (um outro foi o deputado José Genoíno, do PT) a lutar pelo caráter laico do Estado brasileiro. Opôs-se bravamente à menção de Deus no preâmbulo da nova Constituição Federal e ao sequestro das instituições brasileiras pelo proselitismo religioso. 

Logo depois da Constituinte, eu trabalhei uma temporada como assessor de Comunicação do PCdoB na Câmara dos Deputados, quando Haroldo era o líder. O que mais me espantou na época, a mim e à minha colega de assessoria, a socióloga Marilda Soares, que havia trabalhado na liderança do PT, foi a liberdade que tínhamos para expressar as nossas opiniões. Participávamos das reuniões da bancada como pares, não como empregados. Como o Haroldo sempre falava muito alto, e eu também, às vezes as nossas discussões pareciam altercações. Aprendi muito sobre democracia com o companheiro.

O Haroldo costumava me chamar de “Baixinho”, como fazia com os amigos mais próximos. Em contrapartida, por causa de nossa afinidade com a República Popular da China, eu o chamava de “Camarada Li Ma”. Com seu elegante bom humor, ele achava aquilo uma farra.  

Haroldo tinha grande admiração por Lampião, o rei do Cangaço, e sempre estava à cata de novidades bibliográficas sobre a figura. Mas figura impagável mesmo, inclusive de sangue azul, é o próprio Haroldo.

Parece brincadeira, pouca gente dá por isso, mas o Haroldo Lima tem ascendência aristocrática. Ele é bisneto do primeiro governador eleito da Bahia (1892), Joaquim Manuel Rodrigues Lima, filho de Rita Sofia Gomes de Lima, irmã de José Antônio Gomes Neto, o Barão de Caitité. Ou seja, é tataraneto do Barão. Por isso mesmo, nós, os amigos, e também os inimigos, o chamávamos de Barão Vermelho.

Havia um precedente: o cineasta Luchino Visconti (Rocco e seu Irmãos, Morte em Veneza) era conde e também foi comunista.

Criado em 2021-03-24 19:28:24

Um pássaro, um avião, um... drone

Guilherme Cadaval (*) –

Talvez a melhor definição para o que é um drone tenha sido dada por um ex-diretor da agência de segurança nacional norte-americana: “câmeras de vídeo voadoras, de alta resolução, armadas de mísseis”. Ela dá conta de colocar em evidência o caráter, ao mesmo tempo, vigilante, unilateral e letal destes “veículos aéreos de combate não tripulados”. De fato, como diz Grégoire Chamayou em Teoria do Drone, lançado em 2015 pela extinta Editora CosacNaify, qualquer máquina pilotada pode ser “dronizada” a partir do momento em que não há mais tripulação humana a bordo.

O drone pode parecer uma realidade distante para nós que habitamos território brasileiro. Embora devamos certamente recordar a viagem feita por Wilson Witzel, então governador recém-eleito do Rio de Janeiro, para Israel, a fim de ter acesso a drones com capacidade para disparar armas de fogo, como uma criança que vai à loja comprar brinquedos novos no natal. Mas basta ler alguns dos relatos da população civil de países do Oriente Médio, citados por Chamayou, para reparar que talvez esta não seja uma realidade tão distante: vive-se com a lembrança constante de uma morte iminente, pois os drones “estão sempre em cima de nós, e a gente não sabe nunca quando vão atacar”.

Um dos grandes argumentos de defensores desses veículos de combate não tripulados é que ele poupa as vidas de soldados e, por sua incrível precisão, quase não ceifa vidas civis. Desse modo, uma das maiores bandeiras dos militantes antiguerra – justamente a perda da vida de conterrâneos e de inocentes em guerras impopulares e sem sentido – estaria, de certa forma, neutralizada. Os drones permitem projetar poder sem, por outro lado, projetar nenhuma vulnerabilidade, o que desde sempre teria sido o pressuposto básico de toda guerra. Além do que, possuem a conveniência de reduzir o campo de batalha ao corpo do inimigo, e não mais a um território demasiado extenso, cuja ocupação e controle é sempre muito onerosa e complicada.   

Como fica, contudo, a retórica do heroísmo que permeia o imaginário de nações beligerantes, especialmente a norte-americana? O drone seria, afinal, como coloca Chamayou, a “arma do covarde”. Imagem difícil de difundir em uma sociedade que está em grande medida fundada na coragem de homens valentes e heroicos que não hesitam na hora de arriscar a própria vida em defesa da liberdade. Como vender a imagem de um punhado de sujeitos em uma sala ar condicionada, em solo pátrio, observando, nas telas de seus computadores, uma situação que acontece a milhares de quilômetros de distância, e com cujo desfecho eles se comprometem, de maneira fatal, pelo simples apertar de um botão?

Esta já é a realidade da guerra contemporânea. A guerra do futuro, contudo, é um tanto quanto mais preocupante. Na medida em que esses drones não apenas disparam mísseis, mas também coletam uma quantidade enorme de dados, a investigação de potenciais suspeitos se dá através da sua movimentação no espaço, os lugares aonde vai, as pessoas que frequenta, os movimentos estranhos que porventura faça com seu corpo. A decisão de exterminar um alvo está, em diversos casos, baseada nos padrões de comportamento: trata-se de “ataques de assinatura” que são dirigidos a “indivíduos cuja identidade permanece desconhecida, mas cujo comportamento leva a supor, indica ou assina o pertencimento a uma ‘organização terrorista’”.

Se um sujeito pode ser considerado um “terrorista”, um elemento perigoso, apenas a partir da sua “assinatura”, dos rastros que deixa no espaço e que são observados e coletados por uma câmera voadora operando a centenas de quilômetros de distância acima de sua cabeça, é relativamente fácil antecipar que todo este processo estaria maduro para autonomização. Significa dizer que, futuramente, não haverá necessidade de um humano para tomar a decisão de tirar uma vida. A máquina tomará essa decisão, pois será devidamente programada para tal. Uma tal máquina – de fato, um robô – eliminaria todas as contingências, todos os riscos envolvidos em deixar uma decisão dessa natureza cair sob a alçada de humanos. As emoções e as paixões que perturbam o julgamento humano seriam retiradas da equação, e tudo o que restaria seriam matadores a sangue-frio que apenas aplicam as regras pelas quais foram programados.

Se esta situação parece retirar a possibilidade de que humanos cometam, movidos pelo medo, pela raiva, pela vingança ou frustração, crimes de guerra, uma vez que os robôs seriam programados segundo todos os princípios éticos e do direito internacional que rege o estado de guerra, esquece-se facilmente que eles também eliminariam uma imperfeição humana decisiva: a capacidade de insubmissão, de recusar-se a cumprir uma decisão baseado na sua própria consciência.

Seria o caso, então, de alterar fundamentalmente os roteiros de ficção científica, que há décadas nos fazem temer que algum dia os robôs tomariam o controle, e nos subjugariam. Afinal, o “perigo não é que os robôs comecem a desobedecer; é justo o inverso: que nunca desobedeçam”.
_____________
(*) Guilherme Cadaval é formado em Filosofia pela UFRJ, onde concluiu mestrado e doutorado. É autor de “Escrever a mágoa: um cruzamento entre Nietzsche e Derrida”.

Criado em 2020-10-26 17:14:59

Crise hídrica no DF é também falta de gestão

Romário Schettino -

A atual crise hídrica do Distrito Federal é também uma histórica crise de gestão e planejamento. A alegada falta de recursos é decorrência do desprezo de diversos governos com essa questão. Apesar da chegada das chuvas a recuperação dos reservatórios levará tempo para voltar à normalidade.

Desde a fundação da cidade sabia-se que com o aumento da população haveria necessidade de prevenir o fornecimento de água. Brasília tinha 140 mil habitantes em 1960. Em 2016 já somos mais de 2,6 milhões de almas sedentas.

A Caesb conta, atualmente, com cinco sistemas produtores (Descoberto, Torto-Santa Maria, Sobradinho-Planaltina, Brazlândia e São Sebastião). Muitos poços artesianos, sob controle (ou não) da Caesb, atendem os condomínios regulares e irregulares.

O legendário Lago São Bartolomeu, previsto para abastecer Brasília, virou uma quimera pela omissão do poder público e pela especulação imobiliária desenfreada, com a participação de militares golpistas de 1964, empresários irresponsáveis e corruptos, parlamentares, juízes e desembargadores.

Em 2001, sob ameaça de falta d´água, o governador Joaquim Roriz anunciou que o Lago Corumbá IV seria a salvação, teríamos água para os próximos 100 anos. Um consórcio foi assinado entre a Caesb, de Brasília, e a Saneago, de Goiás.

Quinze anos depois, chegamos às ameaças de racionamento de hoje e a Estação de Tratamento de Água (ETA) e a adutora de Corumbá IV não ficaram prontas. A Caesb já gastou R$ 280 milhões nessas obras, iniciadas há cinco anos. A promessa é concluir tudo só em 2018.

Enquanto isso, o povo sofre. A ideia para evitar o colapso é implantar rodízio no abastecimento de seis regiões: Brazlândia, Jardim Botânico, Planaltina, São Sebastião, Sobradinho I e Sobradinho II.

O GDF abre campanha educativa para economizar água, especialmente nos prédios públicos, onde há muito desperdício.

Após o rodízio no abastecimento de seis regiões: Brazlândia, Jardim Botânico, Planaltina, São Sebastião, Sobradinho I e II, houve a suspensão da medida. Mas a Caesb não descarta a possibilidade de retomar esse rodízio e até mesmo o racionamento.

Agora, veio o mais grave, o governador Rodrigo Rollemberg (PSB) estuda onerar o consumidor caso os reservatórios do Rio Descoberto e de Santa Maria atinjam 25% de sua capacidade. A ideia é aplicar a tarifa de contingência de até 20%.

A situação é preocupante. A Agência Reguladora de Águas do Distrito Federal (Adasa) anunciou que estão proibidos lavagem de calçada, irrigação paisagística e enchimento de piscinas. Também estão proibidas as torneiras nos postos de gasolina destinadas a encher reservatórios de limpadores de parabrisa dos carros.

Em meio a essa grave crise hídrica ainda tem a execução atabalhoada do projeto da Saída Norte do Plano Piloto, que destruiu nascentes, derrubou centenas de árvores e desprezou as opções para o transporte coletivo, os pedestres e os ciclistas.

Criado em 2016-10-06 01:32:48

Hoje é Dia de Zumbi

Luís Turiba –

Entre tantos negros poetas e combatentes que passaram (e passam) pela minha existência deixando marcas, ensinamentos e aquele axé de luz, resistência e consciência, escolhi esse gaúcho porreta que inventou lá no início dos anos 70, essa história de transformar o 20 de novembro na data nacional marcante da Consciência Negra no Brasil.

Falo do poeta Oliveira Silveira, autor do histórico Poema sobre Palmares.

Nos pés 🦶🏿 tenho ainda correntes,
nas mãos ainda levo algemas
e no pescoço gargalheira,
na alma um pouco de banzo
mas antes que ele me tome,
quebro tudo, me sumo na noite
da cor de minha pele,
me embrenho no mato
dos pelos do corpo,
nado no rio longo
do sangue,
vôo nas asas negras
da alma,
regrido na floresta
dos séculos,
encontro meus irmãos,
é Palmar,
estou salvo!

O poema diz logo ao que veio: pé no chão, na real, mato, fuga, resistência e união. Era assim que Zumbi queria, foi assim que o poeta marcou seu sofrido grito-verso de porrada que criou a data da Consciência Negra.

À construção deste verso, segundo o livro do mesmo nome, durou 15 anos entre pesquisas e buscas. Nos agradecimentos, Oliveira se refere ao poeta paulista Cuti “pela análise do texto e sugestões”

Recentemente remexendo em caixas antigas de livros achei essa preciosidade com autógrafo de tudo. Reli o poema, pois trata-se de um épico ópera, um poema-síntese cantado no sonoro gauchês nagô para quem dança ijexá aos orikis dos orixás.

Um poema padê pra Exu, Ogun, Oxun, Iansã, Oxossi e Xangô.  Um poema-sopro liberdade.

Não tenho a certeza, mas sou capaz de apostar que tive a bênção de assistir Oliveira recitar no seu doce canto de sabedoria este petardo.

A impressão que me ficou é que éramos amigos ancestrais, de séculos passados. Quem sabe não viemos juntos em algum negreiro que atravessou o Atlântico?! Ou fugimos da senzala para subir a serra da Barriga, onde o quilombo foi montado. Era uma conversa que não tinha fim - nem nunca terá. Axé Oliveira Silveira, planta rara e exemplar.

Criado em 2021-11-20 13:08:23

Nova líder do PSOL na Alerj quer um Rio mais humano

A bancada do PSOL na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) escolheu a deputada Renata Souza como sua nova líder. Renata comandará o grupo de deputados estaduais composto por Flávio Serafini, Mônica Francisco, Eliomar Coelho e Dani Monteiro. Ela disse que está disposta a trabalhar por pautas fundamentais para “a recuperação humana, econômica e social da população fluminense”.

Segundo Renata, “nos últimos anos, o Estado do Rio foi absolutamente castigado pela política bolsonarista e de extrema-direita. Por isso, é essencial que estabeleçamos linhas de ação para essa nova frente de trabalho”. 

Renata diz que o impeachment definitivo “do corrupto ex-juiz Wilson Witzel”, o auxílio emergencial, a implantação da Renda Básica Fluminense, “Vacina, Já!” e a defesa de um Sistema Único de Saúde (SUS) público e de qualidade, fazem parte da agenda prioritária.

Outra frente de luta diz respeito à “mudança do modelo de segurança pública – que vitima a população preta e pobre no nosso Estado”. Renata denuncia as diversas tentativas de “sucateamento, privatização e enxugamento dos serviços públicos como a CEDAE e a política neoliberal de austeridade fiscal”.

A bancada do PSOL tratará dessas questões, segundo a nova líder, dialogando com os movimentos sociais, com organizações políticas e lideranças territoriais, envolvendo a militância do partido.

“Colocaremos em pauta propostas conectadas com os interesses dos trabalhadores. Afirmaremos um campo de relação com os defensores da democracia na Alerj, enfrentando o neofascismo e articulando, institucionalmente, as batalhas pelos interesses da nossa população”, conclui Renata Souza em comunicado à imprensa.

Criado em 2021-02-24 01:59:03

Direitos Humanos em 2 minutos - Ep #5

Estima-se que 5 milhões de pessoas serão mortas vítimas do aquecimento global até 2020, sendo que 80% delas serão crianças no sul da Ásia e na África Subsaariana. (Fonte: DARA, Relatório Monitor da Vulnerabilidade Climática, Espanha, 2010).

Direitos Humanos em 2 minutos (DH2) reúne artistas, realizadores e ativistas para explicar, de maneira lúdica e acessível, temas complexos como racismo, violência de gênero, justiça fiscal, migração, mobilidade urbana e mudanças climáticas, entre outros.

São 12 filmes curtos, com os atores Iara Pietricovsky e Alexandre Ribondi em cena – os dois dividem também a direção do projeto. Os textos são de Ribondi.

Foi elaborada também uma cartilha sobre direitos humanos, com os principais conceitos e legislações relativas aos temas apresentados no projeto. Esperamos que a cartilha seja uma fonte para professores, alunos e movimentos sociais interessados em discutir direitos humanos de maneira transformadora.

Saiba mais em dh2minutos.org

Criado em 2016-08-15 18:48:04

Contra a censura às artes, resistamos!

Maria Lúcia Verdi -

Retorno a Buenos Aires após três anos. Cansada do Brasil, apenas saio para o hall do aeroporto e escuto uma música alta que é como um pesadelo - uma dessas músicas de um certo nosso pop atual, que ouvimos aqui por todo lado. Pelas portas abertas dos carros a vulgaridade chega até nós e mesmo no exterior nos persegue.

À minha frente, um rapaz com uma camiseta onde leio "?Donde está Maldonado?", pergunta que vai me acompanhar a toda parte, escrita em todos os lados, de todas as formas.

Um jovem tatuador que se uniu aos mapuches num protesto contra a Benetton e "desapareceu" está causando mais uma grave polêmica - quem é responsável por sua morte? A Argentina já tem demasiados desaparecidos, demasiadas perguntas sem resposta. Alguma semelhança com o que acontece por aqui?

Após o primeiro almoço - restaurante de classe média num bairro onde isso seria quase impensável há alguns anos - vou ao banheiro e leio num cartaz: Preservativos - Solicitar en el sector de caja. É bom que a argentina católica e judia (mas felizmente também materialista e intelectual) aceite que tal aviso lá esteja.

Num parque de Belgrano, ao lado de Palermo, uma cabeça enorme me impacta. Numa cidade de inumeráveis esquinas, cidade que Borges em algum texto chamou de interminável, os espaços abertos dos parques de Palermo são vitais - que hajam instalado uma cabeça num vasto espaço vazio me parece genial. Cada vez mais precisamos do vazio e do silencio para pensar.

Paramos o carro, vejo, leio e fotografo a "El sueño del lector", escultura de Pablo Irrgang, de 2016. O Sonho do Leitor é uma enorme cabeça de homem com olhos fechados e expressão encantada onde há uma porta fechada e, ao lado, um banco escavado no pescoço do Leitor.

No banco as pessoas podem sentar e ouvir importantes trechos, muito bem gravados, da grande literatura argentina. A porta fechada será aberta com a leitura, com a escuta, presenças constantes nessa, ainda, Cidade de Letrados.

Há detalhes esculpidos que remetem à história argentina, ao pampa, e, como não poderia deixar de ser, homenageia Borges, aquele que dizia ter muito mais orgulho do que havia lido do que do que havia escrito: "Un hombre se propone la tarea de dibujar el mundo. Poco antes de morir descubre que ese paciente laberinto de lineas traza la imagen de sua cara."

Perto dali o, para mim imperdível, Bairro Chinês. Reencontro nas quinquilharias à venda a frenética China que tanto conheço. Todos compram, todos comem a boa e barata comida num momento de crise econômica, social e política, semelhante à nossa. Pró PT X Contra PT, lá Pró Kirchner X Contra Kirchner.

Cristina Kirchner teve a astúcia de criar o fantástico Centro Cultural Kirchner no antigo prédio dos Correios, uma enorme construção que foi reformada por um competentíssimo estúdio de arquitetos de La Plata.

Ficou mais bonito do que o Beaubourg em Paris, tendo uma sala de concertos, a Baleia Azul, que é o sonho de qualquer músico ou orquestra, acústica perfeita desde qualquer parte. E, por incrível que pareça, os enormes espaços do CCK apresentam mostras e oferecem cursos de todo tipo, concertos e teatro gratuitamente a uma população sabidamente ávida por cultura. Cultura de graça.

Seja no CCK que em muitos outros espaços culturais da cidade está a Bienal Internacional de Arte Contemporâneo de América del Sur, um projeto idealizado pela Universidad Tres de Febrero, que tem a participação essencial, indispensável, do verdadeiro motor de produção cultural que é Marlise Ilhesca, brasileira casada com o Reitor da Tres de Febrero. Um esforço de 16 países, presente em 32 cidades, com a participação de 350 artistas.

Fui a todos os espaços que pude, sempre me surpreendendo pelo direcionamento da Bienal, profundamente política e empenhada com as questões primordiais do meio ambiente e dos direitos humanos.

No dia da visita ao PROA, espaço fundamental para a arte contemporânea, que fica no tradicional bairro de imigrantes, a Boca, o bairro comemorava seu aniversário.

O povo dançava e cantava, a maioria "cabecitas negras", como a elite portenha denomina os não absolutamente brancos. A bela ponte do bairro exibia as cores do famoso time de futebol e eu via pelas ruas, como em toda a cidade, muitos "homeless" como eles estão chamando os sem teto, em inglês.

A mostra em exibição no PROA, "Manifesto", foi o melhor de tudo o que vi. Uma instalação genial do artista alemão, Julian Rosefeldt, composta por treze videos, cada um com dez minutos, onde se vê a atriz Cate Blanchett interpretar trechos dos manifestos mais importantes do século XX, desde o Manifesto Comunista aos das vanguardas dos anos sessenta.

As cenas idealizadas por Rosefeldt para as impressionantes interpretações da atriz australiana são absolutamente impactantes, surpreendentes, irreverentes etc.

Cito apenas uma: um velório numa casa rica, no meio de uma propriedade abastada, o cortejo até o espaço onde será sepultado o morto, a viúva Blanchet que sobe a um púlpito para fazer o tradicional discurso e o que ela nos diz é o texto manifesto Dada. Absolutamente genial e necessário vermos o que dizem esses Manifestos.

Foi muito forte visitar Buenos Aires e ver, ouvir, sentir tudo o que está acontecendo e pulsando nesse país tão contrastante, tão intenso, onde vivi quase nove anos, tendo presenciado o sofrimento da Guerra das Malvinas, bem como a esperança que foi Raul Alfonsin.

Andar de ônibus e metrô e ainda ver gente lendo, apesar dos celulares;  assistir ao belíssimo "Zama", último filme da diretora cult Lucrecia Martel, inspirado no impressionante romance do mendocino Antonio Di Benedetto (literatura em altíssimo grau, que vai desafiar o tradutor brasileiro) - mais uma vez confirmar a criatividade argentina em todas as áreas, a combatividade que não se rende às restrições econômicas e segue produzindo oficinas, seminários e palestras de todo tipo, em todos os âmbitos, tudo me tocou profundamente.

Que não deixemos o horror atual impedir a produção de cultura, que não aceitemos os que ilegitimamente querem nos cercear. Resistamos!

Criado em 2017-10-08 20:33:48

Frente de Cultura e UnB repudiam lei de censura às artes

Romário Schettino -

Proposta de lei, assinada pelo deputado distrital Rafael Prudente (MDB), que pretende proibir exposições artísticas ou culturais com o que ele chama de “teor pornográfico ou vilipêndio a símbolos religiosos em espaços públicos no Distrito Federal” recebeu o devido repúdio dos artistas e da chefe do Departamento de Artes Visuais da UnB, professora Rosana de Castro.

A Frente Unificada da Cultura do DF divulgou nota em que manifesta seu absoluto repúdio ao Projeto de Lei n. 1.958/18, do deputado Rafael Prudente. “O projeto de lei em questão é uma afronta ao regime democrático e à Constituição da República Federativa do Brasil”.

Os artistas dizem que a proposta, que já foi aprovada em primeiro turno na Câmara Legislativa, além de inconstitucional é um ato de desrespeito à classe artística do DF, porque “nivela arte com pornografia, por puro preconceito e obscurantismo”.

Entre outros motivos pela indignação, a Frente diz que o projeto “é moralmente condenável, tendo em vista o momento profundamente delicado pelo qual passamos. Há mais de cinco meses estamos impedidos de trabalhar, sem gerar as mínimas condições de sobrevivência”. E os deputados gastando tempo e dinheiro público com assuntos de nenhuma relevância.

UnB – O Departamento de Artes da UnB, por sua vez, enviou oficio de solidariedade ao deputado distrital Fábio Félix (PSol), que votou contra o projeto de lei no primeiro turno por considerá-lo inconstitucional.

Rosana de Castro, chefe do departamento, além de demonstrar “perplexidade diante das proposições anticonstitucionais que se pretendem instalar no âmbito da produção artística e cultural do Distrito Federal” alerta para a possibilidade do estabelecimento de censura em outras unidades da federação com base no que está sendo encaminhado pela da Câmara Legislativa do DF.

A professora colocou-se à disposição para “esclarecer, ensinar, propor, debater sobre o nosso campo de atuação na qualidade de artistas, docentes, pesquisadores, produtores, executores de arte e cultura, que são a base da civilidade e da humanidade para os que pretendem preservar e incentivar a construção de sociedade digna e fraterna constituída por cidadão críticos e autônomos, o suficiente, para avaliarem a realidade sem cortinas de preconceito e exclusão”.

Criado em 2020-08-25 20:02:00

Waste Brazil

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Março é o mês mais cruel
porque abril ainda não chegou  

Os pedidos de socorro medram
decidébeis, dispneicos, cianóticos 

Pátria? Flâmulas verde-mortiças
nas mãos rubras e deslavadas do inimigo 

De abadá, os filhos da Pátria encaram filas; 
de mortalha, enfrentam pilhas 

O Dia das Mães antecipado tranca as ruas
para inibir a volta precoce de Jesus   

Os pontos colaterais indicam descaminhos;
desbotou o Norte da rosa dos ventos

A República jaz no Museu da República; 
reina a Imperícia, imperatriz impudica.

Criado em 2021-03-23 18:08:52

A fome em grandes plantações

Rogério Neuwald - Eng. Agrônomo e Samuel Carvalho - Cientista Político

Criado em 2020-10-22 23:57:49

Dança em Trânsito 2021 chega a 25 cidades

Em sua primeira edição com formato híbrido – online e presencial – a 19ª edição do Dança em Trânsito envolve 25 cidades de Norte a Sul do país. Espetáculos, performances e projeções de cinema ocuparão diferentes espaços culturais. Programação com artistas nacionais e internacionais de 10 países chegará aos estados e ao Distrito Federal. Em Brasília, a mostra será de 18 a 21 de novembro no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-Brasília),  partir das 17h.

Depois de apresentar uma edição cem por cento online – indicado ao Prêmio Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) na categoria Difusão –, o festival internacional de dança contemporânea Dança em Trânsito retorna às ruas e palcos do país, ao mesmo tempo em que incorpora a programação virtual, em um inédito formato híbrido. O festival foi iniciado virtualmente em março – e, presencialmente, de 6 de novembro a 19 de dezembro, com espetáculos de 27 companhias do Brasil, Alemanha, Canadá, Espanha, França, Israel, México, Portugal, Suíça e Uruguai, transmissões de vídeos, além de residências de criação e oficinas gratuitas. O 19º Dança em Trânsito é apresentado pelo Ministério do Turismo e patrocinado pelo Instituto Vale, Banco do Brasil, Engie e Volkswagen Caminhões e Ônibus.

Em Brasília, o festival tem entrada gratuita ou a preços populares. As oficinas acontecem nos dias 17 e 18 de novembro, no Centro de Dança, com inscrições prévias no site www.dancaemtransito.com.br.

Os espetáculos dentro do teatro terão ingressos a R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia), que poderão ser adquiridos pelo site do evento ou pelo app da Eventim (www.eventim.com.br). Para as sessões no cinema a entrada é franca, mas será preciso reservar os bilhetes - também pela Eventim, a partir das 9h do dia da sessão. As apresentações ao ar livre terão acesso liberado.

O Teatro e o Cinema do CCBB estão funcionando com capacidade reduzida a 50% dos espectadores, para garantir o distanciamento de dois lugares entre grupos de pessoas e respeitar os protocolos de prevenção à Covid. Nestes e nos demais espaços fechados, é obrigatório o uso de máscara cobrindo boca e nariz durante toda a sessão.

“Adiamos de julho para novembro as atividades presenciais do festival em função do calendário de vacinação nacional. Mas iniciamos de forma remota, em março, uma série de ações online e gratuitas envolvendo artistas nacionais e internacionais, com aulas de dança; formação de professores multiplicadores; mentoria para criação de turmas em centros culturais longe das metrópoles e manutenção para profissionais da dança e artes cênicas”, explica Giselle Tápias, diretora artística e curadora do Dança em Trânsito.

A fim de minimizar os riscos para toda a equipe, a curadoria artística levou em consideração o número de integrantes das companhias a serem convidadas, os perfis de espetáculos e performances adaptáveis aos ambientes externos, assim como os deslocamentos de cada companhia. Além disso, alguns artistas e companhias do exterior estão envolvidos de forma remota, seja à frente das aulas de formação online ou através dos trabalhos exibidos em vídeo durante o festival.

A programação no DF inclui a Focus Cia de Dança, de Alex Neoral, apresentando o duo Grand Pas, um recorte do novo trabalho, VINTE. Renato Vieira Cia de Dança mostra o espetáculo Mal Ditos, inspirado no Movimento dos Poetas Malditos e na experiência pessoal de Renato durante a Ditadura, em 1964. A paulistana T.F.Style Cia de Dança vem com o premiado (APCA/2019) ELO, focada na dança urbana contemporânea, que estabelece diálogos entre corpo, arquitetura e público em busca de um novo olhar para a cidade. O Grupo Tápias (RJ), Cia associada ao festival e dirigida por Flávia Tápias, estreia sua nova coreografia IMPREVISTO, onde o amor acontece, baseada no poema homônimo de Fernanda Estrella. A companhia espanhola Iron Skulls Co (Barcelona) mostra Sinestesia, onde a dança contemporânea encontra a acrobacia e o hip hop. Da França, a Compagnie Vivons (Paris) traz ao país NEVER 21, que aborda as questões levantadas pelo movimento Black Lives Matter e homenageia os jovens negros vítimas da violência armada que nunca chegarão aos 21 anos. O uruguaio Christian Moyano percorre diversas cidades a partir do Rio de Janeiro, com oficinas e a apresentação de Pauza, em que faz uma reflexão sobre as questões da quarentena.

O festival passa ainda por São Luiz (MA), 25 e 26/11; Belém (PA), 28/11; Canaã dos Carajás (PA), 30/11; Belo Horizonte (MG), 3 e 4/12; Ipatinga (MG), 6/12; Coronel Fabriciano (MG), 7/12; Vitória (ES), 10/12; Vila Velha (ES), 11/12; Entre Rios do Sul (RS), 14/12; Alto Bela Vista (SC), 15/12; Florianópolis (SC)17; Capivari de Baixo (SC) 18/12, e São Paulo (SP), 19/12.

Da telinha do celular ao telão do cinema

Uma das principais novidades em 2021 é o Dança em Trânsito Projetado, que marca o hibridismo do novo formato. Mesmo com a volta das apresentações presenciais, o festival incorpora de vez as transmissões nas plataformas digitais, além de incluir projeções em salas de cinema e mesmo no Teatro, para garantir mais visibilidade.

No Teatro do CCBB, vai ser possível assistir, por exemplo, ao filme “Revisor”, curiosa produção canadense, dirigida pela dançarina e coreógrafa Crystal Pite, que mistura teatro e dança com muito humor. No filme, diálogos gravados por alguns dos melhores atores do Canadá, exploram o conflito, a comédia e a corrupção na relação entre a linguagem e o corpo. “Revisor” será exibido em sessão única, no dia 20 de novembro, às 19h30, com diálogos em inglês e tradução para libras. Entrada franca.

“A ideia do Dança em Trânsito Projetado é ampliar ainda mais o alcance e as possibilidades do festival. Dentro dessa proposta há cinco recortes, sendo os dois primeiros heranças diretas da nossa edição online de 2020: a transmissão de vídeos com os novos trabalhos de companhias estrangeiras que participam remotamente do festival e a exibição de coproduções da edição 2020, como a videodança Solos_On. As novidades ficam por conta da programação de filmes de dança de até 15min, produzidos no Brasil ou no exterior, inéditos ou não, que foram selecionados pela curadoria do festival a partir das inscrições recebidas após convocatória pública; assim como a transmissão em plataformas online de boa parte dos espetáculos apresentados presencialmente no festival. Com isso, além do público presente, internautas de qualquer lugar do mundo terão acesso às apresentações praticamente em tempo real. Por fim, veicularemos na internet resumos diários da programação do Dança em Trânsito”, detalha Giselle.

Rota Brasis

Depois de uma edição construída exclusivamente de forma remota e apresentada como vídeo-dança em 2020, a tradicional residência de intercâmbio Rotas adota o hibridismo em 2021 com Rota Brasis. Idealizada e facilitada pela coreógrafa Flávia Tápias, a parceria criativa que originalmente reunia intérpretes brasileiros e estrangeiros participantes do festival e era apresentada durante a programação deu lugar este ano a uma residência somente com artistas brasileiros, selecionados através de uma convocatória, e aberta aos diversos estilos de dança de cada região na construção da coreografia. Com ensaios realizados inicialmente de forma remota, o resultado será apresentado no festival com a participação de músicos convidados.

Projeto Valia, residências e oficinas

Os projetos formativos, que fazem parte do DNA do festival, ganharam um novo viés este ano com o Projeto Valia, que promoveu a partir de março aulas online de mentoria em dança contemporânea voltadas para o aprofundamento profissional de professores de cidades com poucas oportunidades e distantes dos grandes centros. Os professores contemplados das cidades de Entre Rios do Sul (RS), Capivari de Baixo e Alto Bela Vista (SC) e Minaçu (GO) foram contratados para dar aulas com criação nos centros de cultura de suas cidades, entre julho e outubro, com mentoria e acompanhamento da coreógrafa Flávia Tápias. Como resultado do processo criativo nas aulas, os alunos se apresentam durante o Dança em Trânsito, ao lado dos artistas profissionais que realizarão seus espetáculos nessas cidades. “É um projeto de geração de renda, que traz multiplicadores na área da dança. Dou aula para os professores dessas cidades todas as sextas, fazendo uma mentoria para prepará-los para as aulas que eles, por sua vez, dão às suas turmas”, explica a coreógrafa Flávia Tápias, que coordena o projeto.

Outra vertente são as Residências de Criação voltadas para participantes com algum conhecimento de técnica de movimento, oferecidas gratuitamente e ministradas por convidados nacionais e internacionais participantes do festival. São 3 a 7 dias de imersão coletiva, nos quais encontros, trocas e aprendizagens resultam em obras que serão apresentadas dentro da programação do Dança em Trânsito. Mário Cunha (Friburgo, RJ), em Mangaratiba; Mário Nascimento (Manaus, AM), no Rio de Janeiro; Aston Bonaparte (Paris, FR), em Goiânia; Clara Costa (RJ), em Belém do Pará; Rosa Antuña (Belo Horizonte, MG), Ipatinga e Coronel Fabriciano (MG); Dilo Paulo e Lenna Siqueira (Brasília, DF), em Canaã dos Carajás (PA) e Christian Moyano (Montevidéu, URU), em Belo Horizonte (MG), conduzem os trabalhos. As inscrições estão abertas no site www.dancaemtransito.com.br

Oficinas - O festival oferece ainda 19 oficinas gratuitas, em 10 cidades, ministradas por convidados nacionais e internacionais participantes do festival. São encontros pontuais, de duas a três horas de duração, abertos a todos os interessados. Em Brasília, as oficinas têm início no dia 17, no Centro de Dança, e serão ministradas por três grandes bailarinos e coreógrafos: o israelense Ido Tadmor (em sua primeira vez no Brasil), o espanhol Diego Garrido (integrante da Iron Skulls Co, de Barcelona) e o uruguaio Christian Moyano. Inscrições e mais informações no site www.dancaemtransito.com.br

Dança em Trânsito, o que é

Criado em 2002, o Dança em Trânsito é um festival internacional de dança contemporânea que tem por objetivo valorizar, promover e democratizar esta expressão artística, seja pelo intenso intercâmbio entre artistas e companhias do Brasil e do exterior, como também pela itinerância, percorrendo desde as grandes cidades até pequenas localidades no interior do Brasil, em teatros ou espaços públicos. Sua atuação abrange ainda residências artísticas, com oficinas de criação, e workshops, abrindo canais para novos talentos da dança, e a formação de plateias, estimulando o interesse pelas artes e pela dança. O festival é parte do projeto Ciudades Que Danzan, que reúne 41 cidades em diversas partes do mundo com o intuito de difundir a dança  contemporânea. Desde a sua criação, o Dança em Trânsito já apresentou mais de 90 companhias de 16 países em 18 cidades de nove estados brasileiros, para um público de mais de 48 mil pessoas.
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Ficha técnica:
DANÇA EM TRÂNSITO - 19ª edição
De 6 de novembro a 19 de dezembro de 2021
Programação completa e inscrições: www.dancaemtransito.com.br
Direção geral: Giselle Tápias
Direção artística e curadoria geral: Giselle Tápias e Flávia Tápias
Direção de Produção: Espaço Tápias
Coordenação geral e contatos artísticos: Letícia Kaminski
Produção: LIMENTO
Equipe de streaming: André Monteiro
Redes sociais: INOVA BRAND
Programação do site e suporte de TI: João Rodrigues Stebanez      
Design Gráfico e web design: Fernanda Vallois | TRUQUE
Tradução e revisão dos textos: Letícia Kaminski
Fotografia e vídeo: Fernanda Vallois | TRUQUE
Equipe de apoio: Spectaculu Escola de Arte e Tecnologia
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Serviço:
Local: Centro Cultural Banco do Brasil Brasília e Centro de Dança
Data: de 18 a 21 de novembro de 2021
Horários: ver programação
Ingressos:
Espetáculos dentro do teatro - R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia), que poderão ser adquiridos a partir de 6 de novembro, através do site ou app da Eventim (www.eventim.com.br).
Sessões de cinema: entrada franca, com reserva de ingressos gratuitos a partir das 9h do dia da sessão, através do site ou app da Eventim (www.eventim.com.br).
O Teatro e o Cinema do CCBB estão funcionando com capacidade reduzida a 50% dos espectadores, para garantir o distanciamento de dois lugares entre grupos de pessoas e respeitar os protocolos de prevenção à Covid. Nestes e nos demais espaços fechados do CCBB, é obrigatório o uso de máscara cobrindo boca e nariz durante toda a sessão.
Apresentações ao ar livre: Acesso liberado
Mais informações: www.dancaemtransito.com.br

Centro Cultural Banco do Brasil Brasília
SCES, Trecho 2 - Brasília/DF
Tel: 61 3108 7600
Site: www.bb.com.br/cultura

Ingressos: www.eventim.com.br
Facebook/ccbb.brasilia
Twitter/@ccbb_df
Instagram/ccbbbrasilia
Youtube/ Bancodobrasil

Circuito de realização:

RIO DE JANEIRO
Mangaratiba – 6/11
Rio de Janeiro – 8 e 14/11

GOIÁS
Goiânia – 15 e 16/11

DISTRITO FEDERAL
Brasília – 18 a 21/11

MARANHÃO
São Luís – 25 e 26/11

PARÁ
Belém – 28/11
Parauapebas – 29/11
Canaã dos Carajás – 30/11

MINAS GERAIS
Belo Horizonte – 3 e 4/12
Ipatinga – 06/12
Coronel Fabriciano – 07/12

ESPÍRITO SANTO
Vitória – 10/12
Vila Velha – 11/12

RIO GRANDE DO SUL
Entre Rios do Sul – 14/12

SANTA CATARINA
Alto Bela Vista – 15/12
Florianópolis – 17 e 19/12
Capivari de Baixo – 18/12

SÃO PAULO
São Paulo – 19/12

Criado em 2021-11-14 16:25:23

Cufa mobiliza para mostrar que “Ajudar tá no Sangue”

A Central Única das Favelas (Cufa) lançou esta semana a campanha Ajudar tá no Sangue. A mobilização, segundo os organizadores, quer atingir cinco mil favelas em todo o país para a coleta de sangue e mostrar para a sociedade o potencial solidário da favela na ajuda a quem está precisando.

“A sociedade está passando por dificuldades em diversas áreas, depois de um 2020 tão difícil e pesado. A favela aparece de novo mostrando que tudo pode ter solução, através do potencial da gente destes territórios”, avalia Preto Zezé, presidente nacional da Cufa.

Os moradores de favela que quiserem doar sangue podem se cadastrar no site da Cufa e realizar a doação de sangue na sede da instituição em sua cidade. Todas as sedes locais da Cufa estarão abertas para dar suporte à iniciativa.

“A favela recebeu muita ajuda nestes momentos de tantas dificuldades. Ao fazer esse gesto está agradecendo à sociedade e ajudando mais pessoas”, explica Celso Athayde, fundador da Cufa e membro do conselho da instituição.

Criado em 2021-02-16 23:43:10

Direitos Humanos em 2 minutos - Ep #6

Estima-se que a população indígena no século XVI era de 2 a 4 milhões de habitantes, pertencentes a mais de 1.000 povos indiferentes. Em 2010, eram 817.963 indígenas, de acordo com o Censo IBGE. Em 2014, 138 indígenas foram assassinados no país. (Fonte: IBGE, 2010. Cimi, 2012. CNBB, 2014. Funai, 2016)

Direitos Humanos em 2 minutos (DH2) reúne artistas, realizadores e ativistas para explicar, de maneira lúdica e acessível, temas complexos como racismo, violência de gênero, justiça fiscal, migração, mobilidade urbana e mudanças climáticas, entre outros.

São 12 filmes curtos, com os atores Iara Pietricovsky e Alexandre Ribondi em cena – os dois dividem também a direção do projeto. Os textos são de Ribondi.

Foi elaborada também uma cartilha sobre direitos humanos, com os principais conceitos e legislações relativas aos temas apresentados no projeto. Esperamos que a cartilha seja uma fonte para professores, alunos e movimentos sociais interessados em discutir direitos humanos de maneira transformadora.

Saiba mais em dh2minutos.org

Criado em 2016-09-13 18:48:00

Poesia na Papuda, anotações

Maria Lúcia Verdi –

Não sei bem porquê resolvi escrever sobre minha experiência na prisão da Papuda, em 1999. Ali desenvolvi uma oficina de poesia com doze internos, a convite da professora Rita Segato, que coordenava o oportuno projeto “Fala, interno!”, elaborado pela Universidade de Brasília e financiado pelo Fundo Nacional das Prisões, do Ministério da Justiça.

Fundamentado nas ideias de Michel Foucault sobre o Estado e sua função de vigiar e punir, bem como sobre a visão foucaultiana da formação da subjetividade, o projeto reunia profissionais das áreas de jornalismo, literatura, teatro e audiovisual.

Visava estimular nos internos a formação de um discurso que demonstrasse compreensão sobre sua situação pessoal - a “ideia do direito humano à palavra no cárcere”.  “Fala, interno!” supunha que a compreensão do ato criminoso, a reflexão sobre o que é a violência, o Mal, a consciência e a experiência humana, ao serem expressas oralmente, por escrito ou para uma câmera, poderiam modificar o sujeito.

As oficinas da palavra, de vídeo e cinema, de cordel e repente, de teatro, auxiliariam o processo de ressocialização dos presos.

O registro da experiência dos presidiários, em vídeo e por meio de textos, seus depoimentos sobre a violência, montaria um banco de dados importante para os estudiosos da violência.

Um circuito interno de TV apresentaria, além de programas pertinentes, filmagens feitas pelos próprios presos. Vê-se hoje, com a tremenda crise prisional que observamos, o quanto projetos como esse eram e são necessários.

A barbárie se instalou há muitas décadas nas prisões brasileiras que hoje expõem também um outro tipo de barbárie.

Em reunião com os coordenadores do projeto, fui advertida sobre a “retórica da autojustificação” utilizada pelos internos, mas estimulada a tratá-los “normalmente”, como seres humanos em situação de exclusão.

Saí do Departamento de Antropologia com um mar de ideias na cabeça e o coração em sobressalto: havia acertado ao aceitar tal desafio? Iria enfrentar cara a cara algo que lera em Foucault mas que não conhecia de perto. Não tinha ideia precisa da complexidade do desafio, que seria colocada em poemas por alguns dos futuros “alunos”. “Somos um povo bárbaro\ que luta todo o dia\ para sobreviver\ Somos guerreiros de uma sociedade\ que os quer ver pelas costas.”, escreveu um deles; outro, com título universitário obtido na prisão, diria de si: “Sou como um rastro de luz\ que se soltou de um cometa\ e que os perdidos conduz\ iluminando as sarjetas.\ Meu destino é ser um raio\ a cavalgar pelo espaço\ como um bom cavalo baio\ que desprendeu-se do laço.”

Comecei a pensar nos textos que me ajudariam a aproximar a poesia ao mundo dos internos, textos que explicitassem o quanto a poesia pode estar em qualquer lugar e a qualquer momento revelar-se. Recortes de textos de Graciliano Ramos, de Fernando Pessoa, de Adélia Prado, de Francisco Alvim, de José Godoy Garcia, de Gilberto Freyre, de Guimarães Rosa, de Marcel Proust, de Li Po, autores que “falariam” com eles.

Com entusiasmo iniciaria meu laboratório, não queria tratá-los como incapazes de dialogar com a alta literatura.

No primeiro dia em que cheguei à Papuda, dia 8 de setembro de 1999, encontrei uma noiva toda de branco, como qualquer noiva, que conversava alegremente com as amigas - em frente a elas, um grande bolo branco.

Quando saí a noiva ainda estava lá; cumprimentei-a, e ela respondeu: “obrigada pela força”. Neste primeiro encontro, depois que cada um dos doze internos se apresentou, coloquei no quadro o nome completo de todos e pedi que escrevessem sobre suas expectativas com relação ao Laboratório de Poesia, distribuí revistas, jornais, alguns livros e falei da importância da leitura para a compreensão do mundo.

Conversamos sobre leitura, pensamento, escritura, tempo perdido, isolamento e percepção do poético.

Num segundo encontro, li “Fala, Zéfa”, de Adélia Prado e pedi que escrevessem algo que falasse da origem deles, tentando lembrar algum momento em que a Poesia (enquanto o belo, o bom) tivesse aparecido na vida deles, por pior que a situação familiar tivesse sido.
Afirmei, para surpresa da turma, que a poesia está em tudo, no sujo, no errado, no feio, sendo preciso descobrir esse canal, essa conexão pode iluminar qualquer situação. Recordo–me que me escutava falar com angústia e era invadida pela sensação de que, para eles, eu deveria ser como uma fada alienígena, uma aparição que desapareceria.

Depois de escutarem os dois versos finais de um poema de Drummond (“mas a poesia deste momento\ inunda minha vida inteira”) um dos internos perguntou, apontando para a sala o chão e olhando para mim, um dos seus olhos de vidro: “este momento pode ser este aqui, agora, não?”

Quando estava saindo um deles disse: “Professora, foi um papo tão bom que a gente até esqueceu que tá preso.”

Professora, o que é lirismo?...Qual é mesmo a diferença entre poesia e..e...como é mesmo o nome daquela...”  Prosa?, digo eu. É preciso falar das coisas mais complexas sim, mas de modo simples - dois internos com segundo grau completo, vários com primeiro, dois com dois anos de estudo e um alemão com curso superior, poliglota, culto, que se expressa perfeitamente em português oral e escrito.

O Alemão, natural de Berlim Oriental, filho espiritual de Marx e Lenin, havia estudado na URSS e trabalhado para o Serviço Secreto da RDA; com a unificação e a queda do muro seu mundo caíra – com vinte e dois anos, tentou alguns empreendimentos que não deram certo e acabou traficando droga para conseguir se “destacar no mundo capitalista”.

Conversei sobre o conceito de “escritura”, que o importante ali, naquele laboratório, era que eles refletissem, se expressassem e produzissem textos, não precisavam se ater ao conceito tradicional de poesia, a gêneros.

Desmistifiquei o conceito de “erro” quando se trata de literatura e um deles disse: “Entendi, professora. Posso então escrever como se tivesse falando comigo?”

Um dia, ao chegar ao presídio, vira uma concentração de carros de tropas de choque da PATAMO. Pensei em rebelião, mas era apenas operação de rotina. Olhando os policiais e os internos me perguntava sobre o que será que define, afinal, rapazes oriundos aparentemente de uma mesma classe social se definirem pelo crime ou pelo serviço à lei.

Tudo se apresentava como fronteiriço, sem respostas fixas, um entrelaçamento de motivos, explicações, os mil véus da realidade. Neste mesmo dia li alguns parágrafos do primeiro volume de Em busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust.

Os sentimentos do sofisticado narrador francês, narrando com delicadeza suas lembranças, comentando sobre os diferentes quartos que conhecera, chegava até os prisioneiros - a memória, suas cores, cheiros e gostos é patrimônio de todos, como a nostalgia.

No encontro seguinte há muitas interrupções, muito barulho, os internos sendo chamados por um motivo ou outro.  Um deles diz, em um poema, que é sempre assim: “Os barulhos de vozes\ estão em todos os lados\ são vozes capazes de deixar qualquer um louco.”

Num determinado momento, falo com um dos guardas e pergunto se poderiam parar com as interrupções. Minha turma ri, dizem que sou forte e me chamam de Schwarzenegger “Se isso acontecesse mais frequentemente esses caras iam ser menos ignorantes”, diz um deles.

A partir de um pequeno apontamento de Fernando Pessoa conversamos sobre o “estado de alma [como] uma paisagem”, paisagens interiores e exteriores, o mundo “real”, territórios, possibilidades de voo e abstração em qualquer espaço, a sutil interação entre o exterior e o interior.

Curiosamente, na aula seguinte, venho vestindo uma blusa cor de uva - ou cor da buganvila rosa avermelhada - e causo uma enorme reação, comentários que não entendo, até que me explicam: é que a cor da sua blusa é a das nossas duas árvores (foto).



Aos passarem por um corredor, em determinada época do ano, os presos podiam ver, esticando o pescoço, através de uma pequena janela alta, duas árvores que coloriam o cerrado, flores da cor da minha blusa.

Em uma ocasião leio trechos selecionados do que cada um escrevera sobre si, sem nomeá-los. Após a leitura, pergunto se posso identificar os autores - sim, sem problema. Vejo o contentamento deles com o que pode ser chamado de “autoria”, o ser reconhecido em algo positivo.

Peço que escrevam um texto, em prosa ou poesia, fora da sala de aula, gostaria de comparar, de algum modo, com os escritos no grupo. Resistem.

Para estimulá-los distribuo cópias do Poema em Linha Reta, de Álvaro de Campos, lemos, conversamos sobre os heterônimos de Pessoa e sobre o que diz o poema, sintetizado nos dois versos iniciais: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada.\ Todos os meus conhecidos são campeões em tudo.”

Identificam-se de imediato com o eu que desabafa no poema sobre seu ser “vil”, “ridículo”, “grotesco” que diz: “Arre, estou farto de semideuses! \ Onde é que há gente no mundo?”

Em uma das “aulas” proponho que falemos sobre violência, sobre o conceito do Mal. Há muita resistência. Trago pequenos textos sobre o assunto, as dúvidas de linguagem são esclarecidas, mas o tema incomoda.

Peço que nos vinte minutos finais escrevam sobre “o que eu entendo por violência”. Mal-estar geral. Dois deles são mais resistentes e escrevem apenas uma frase, uma delas: “O que eu entendo por violência? Eu não entendo nada.”

Converso com um dos que tem maior dificuldade e ele me diz estar muito nervoso com a perspectiva da saída, não quer “sair daqui assim”, estourado.

Pergunto se ele foi preso por ato violento – não, só um assalto. Ele comenta um texto meu sobre a dificuldade do criminoso em entender a dor do outro dizendo que “é isto mesmo”, ele passou a entender essa dor na prisão; pede que eu lhe consiga algo para ler que trate de “relações públicas”, precisa se preparar “pra voltar pro mundo”.

Um outro interno escreve: “Eu vim parar neste lugar foi porque eu acreditava num mundo de ilusão, onde eu queria ser uma pessoa que não era. Quando eu acordei vi que era tarde demais, eu agradeço por ter acordado.”

Alemão, em um de seus textos, escreve: “Sou radical, não gosto da violência relacionada à ganância ou ao orgulho, mas tolero e apoio a violência revolucionária, libertadora, executada pela maioria em benefício da maioria do povo.”

Nos dez minutos finais, conto a eles que, ao me aproximar da Papuda, naquele dia, eu a vira como um animal de concreto. Qual seria esse bicho para eles? As associações são: polvo, cupinzeiro, formigueiro e, o que muito me surpreende, uma baleia azul. Peço que elaborem tudo isso e continuem a escrever sobre o tema, na forma que preferirem.

Penso na baleia, em Jonas, no que outros dois disseram sobre estar na prisão – um deles disse saber que só se livraria da cocaína na cadeia, outro me conta que foi lá que se aproximou de Deus. Ao término de cada dia eu saia com novas perguntas.

Em uma ocasião, um dos internos chega com o bigode raspado, eu lhe digo que fica bem sem bigode e ele responde que a família não notou nada.

Outro chega melhor vestido, com cabelo cortado, também elogio. Neste dia lhes apresento um poema de Li Po ou Li Pai, poeta chinês do século VIII: “Em frente do meu leito há um brilho intenso.\ Será que já começou a gear?\ Levanto-me para olhar e me dou conta de que é o luar.\ Baixo a cabeça de novo e começo a pensar na terra natal.”

A mãe, o pai, os filhos ou a ausência deles é matéria recorrente nos escritos, nos poemas, nas conversas, nenhum deles se refere a uma infância “normal”. Esqueço-me que estou por trás das grades com doze homens que cometeram todo tipo de delito. Não nasci para julgar.

Escreveram também sobre o amor. Um dos poemas diz: “O amor é: vendas\ olhos abertos\ amarras que quebram\ o enlace.\ É assumir, mesmo em momento efêmero [...] o amor é germinação.”

Tive alguns poemas dedicados a mim, um deles criando bela e original imagem: “[..] rosto limpo como uma camisa branca\ quero poder te ver como o sol\ que aparece todos os dias.”

Aos poucos ia sentindo o quanto estava significando para aquele grupo o diálogo comigo, a escuta sem preconceitos. Esse sentimento explodiu um dia no carro, quando vi o bicho Papuda e fui acometida de violenta crise de choro. O que eu poderia realmente fazer por eles? Nada.

Nada além de dar-lhes atenção por um breve, brevíssimo intervalo, de estimular algo neles que nem mesmo sabia se seria válido estimular. Todas as dúvidas me perseguiam e não controlava o choro. Aquele dia a aula começou com atraso.

Estávamos já pensando na festa de encerramento do projeto, perguntei aos meus internos se poderiam contar alguma memória afetiva com relação a comida, doces. Todos reagiram rápido. O bolo que encomendei sintetizava essas memórias e necessitaria de côco, ameixa, doce de leite, chocolate, doce de ovos, merengue e morangos - um esforço conseguir que os Biscoitos Mineiros fizessem algo que não existia no cardápio, “um exagero”, segundo a atendente. Sim, um exagero era o que eu queria.

A vivência nessa penitenciária, por um período de dois meses, foi tão intensa que removi da consciência o mais que pude aqueles presos. Hoje, dezoito anos depois, talvez devido ao tema da crise penitenciária estar acrescido ao encarceramento de população de elite, que não conhecia essa possibilidade, fizeram com que eu fosse procurar o material que ficara guardado tantos anos.

O corpo é nossa primeira prisão mas pode também ser instrumento de liberdade. Demasiado utópico imaginar os presos recebendo aulas sobre técnicas de meditação? Naquelas tardes na Papuda, imersa num universo absolutamente outro, convivi com o impensável e tive a confirmação do quanto é possível comunicar-se com qualquer pessoa desde que se acredite na ponte que é a linguagem, a fala, que se percorra seus caminhos e descaminhos com a mente aberta.

Nada mais soube daqueles homens tão gentis comigo. Tampouco sei se o circuito interno de TV veio a funcionar ou não, se eles mostraram suas histórias. Poucos meses depois do término do Laboratório parti para a China por cinco anos – lá, um novo aprendizado sobre a comunicação.

Assassinos, ladrões, traficantes, meliantes de todo tipo tinham, no entanto, uma qualidade cada vez mais rara: expunham, de algum modo, a sua verdade. Hoje, atolados de narrativas que só nos mostram o caráter fluido e questionável da verdade, penso que muitos deles tenham sido penalizados em excesso. O que é a Justiça? O que é a justiça num país como o nosso? O que vejo me assusta – estaremos numa sociedade onde todos são culpados?

Criado em 2017-09-18 01:31:25

Vereador do Rio considera um desastre apoio a prefeito bolsonarista

Romário Schettino –

O vereador Reimont Luiz Otoni (PT), do município do Rio de Janeiro, considera desastroso o apoio dado pelo partido à reeleição do prefeito bolsonarista de Belford Roxo, Wagner Carneiro, também conhecido como “Waguinho”.

“Sabemos como a população da Baixada Fluminense é alijada da democracia, como homens e mulheres que lutam no campo da esquerda progressista sofrem com a política ´coronelista´ na região. Eu me manifestei contrário à aliança por vários motivos, mas vou citar apenas dois: primeiro, o desmonte do Instituto Federal do Rio de Janeiro, em Belford Roxo, por desejo do prefeito. Não entendo como um prefeito não queira ter o campus de uma instituição dessa qualidade. O segundo motivo refere-se ao apoio incondicional que o prefeito dá ao presidente Bolsonaro, um governo de morte”, justifica Reimont.

Haddad - Em entrevista ao jornalista Ascânio Seleme, do jornal O Globo, dia 22/8, ao ser perguntado como explicar o apoio do PT ao prefeito bolsonarista em Belford Roxo, Fernando Haddad disse o seguinte: “Eu lamentei profundamente a decisão sobre Belford Roxo, acho um equívoco, inclusive simbólico. Por mais legitima que seja a justificativa, de que na verdade o candidato (Waguinho, MDB) não é propriamente um apoiador de Bolsonaro, eu considerei um equívoco, porque tudo o que você tem que explicar em política, é melhor você não fazer”.

Waguinho foi visto passeando com o deputado federal Eduardo Bolsonaro pela cidade, em agradecimento aos R$ 20 milhões que Bolsonaro teria despachado para o município.

Seis ex-presidentes do PT chegaram a escrever uma carta à presidenta do partido, Gleisi Hoffmann, solicitando que o Diretório Nacional retificasse a decisão de apoiar a reeleição do bolsonarista. Mesmo assim, em nova reunião do Diretório, por pequena diferença, a decisão foi mantida.

Crivela – Em relação ao prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivela, Reimont disse que “sua gestão é um completo desastre”. Segundo o vereador petista, “as ações no combate ao coronavírus, o cuidado com as crianças das escolas públicas, mostraram como é vergonhosa a atuação do prefeito carioca”.

Com denúncias de que teria havido uso indevido dos recursos públicos na distribuição da merenda escolar, a Câmara de Vereadores exigiu respostas. Reimont disse que a ‘irresponsabilidade de Crivela levou as crianças a passarem fome, quando a prefeitura poderia ter sido eficiente ainda no inicio da suspensão das aulas”.

Mas só depois de várias audiências públicas é que o prefeito decidiu colocar no Cartão Carioca os atuais R$ 54 para cada família. Antes disso,  imprensa divulgou várias reclamações de mães que receberam cestas básicas com alimentos estragados entregues por uma empresa suspeita.

Criado em 2020-08-23 17:55:00

Seria zumbi parte da espécie Homo sapiens brasiliensis?

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Assustada com os acontecimentos da semana em que ainda se atropelam dois ministros da Saúde e em que a média móvel de mortos pela Covid-19 ultrapassa dois milhares por dia, a pessoa me pergunta: “Vai ter impeachment”? Respondo na lata: Acho que não. Com esse Congresso aí, impeachment só depois de um milhão de mortos! A pessoa diz “Ah, tá!”, aparentemente sem perceber a monstruosa ironia que eu acabo de dizer. E faz outra pergunta: “Mas vai colocar quem no lugar?” O Mourão, digo eu. “Hum”, murmura a pessoa.

Assim caminha o Brasil, com grande parte da população em estado catatônico, condição de zumbi. É como se essa gente toda sofresse da síndrome de Estocolmo, aquela em que o sequestrado acaba se apaixonando pelo sequestrador.

Já que os politólogos e os analistas políticos não conseguem explicar o fenômeno (contrariando os ensinamentos do general Võ Nguyên Giáp sobre a guerra popular, eles preferem perder tempo atacando a moralidade dos inimigos ocasionais do Coiso, como a médica Ludhmila Hajjar), talvez a gente deva recorrer à biologia, que dará a última palavra a longo prazo, por falar nisso. 

Estou pensando na marimbonda da família Ichneumonidae, que bota os seus ovos dentro de lagartas vivas para que as larvas se alimentem até a metamorfose em inseto. O aparente horror desse comportamento parasitário fez balançar a crença de Charles Darwin na existência de um Deus benevolente e onipotente. Bem comparando, é mesmo pouco crível que um Deus de bondade infinita permitisse que um sujeito como o Bolsonaro, com o título de “Messias”, dominasse o povo brasileiro a ponto de parasitá-lo com os ovos da serpente fascista.

Uma amiga me ajuda no rude raciocínio, recitando os versículos 11 e 12 de João 10: “...O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas. O mercenário, que não é o pastor a quem as ovelhas pertencem, vê a aproximação do lobo, abandona as ovelhas e foge. Então, o lobo as apanha e dispersa o rebanho”. Essa amiga, evangélica histórica, é boazinha. Compara o Coiso com o pastor incompetente porque interesseiro e corrupto, e não com o lobo, o chefe da matilha. Mas deixemos a teologia de lado e voltemos à biologia.

Exemplos de zumbis – Está acessível no YouTube para quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir um vídeo fera do jornalista científico Ed Yong, autor do sensacional I Contain Multitudes - The Microbes Within Us and a Grander View of Life (Ecco/Harper Collins Publishers, 2016) sobre o parasitismo na natureza. Veja o filme clicando aqui

Além do caso dos Ichneumonidae, citado acima, nesse vídeo o Yong comenta os seguintes exemplos:

- O sequestro dos camarões do gênero Artemia por uma espécie de verme (Flamingolepis liguloides), que os castra, amplia a sua expectativa de vida, muda a sua cor para o vermelho e os obriga a nadar em bandos. O resultado é que assim os camarõezinhos se tornam mais visíveis e alvos fáceis dos flamingos, aqueles pássaros cor-de-rosa com pernas de pau.

- O sequestro das cabeças de grilos e gafanhotos pelo verme Spinochordodes tellinii, que confunde os cérebros dos insetos de tal forma que eles se tornam erráticos e acabam se afogando em algum rio ou poça d´água. Motivo: o verme só se acasala dentro d’água.

- Como no caso da vespa Ichnomida, o marimbondo-joia ou vespa-esmeralda (Ampulex compressa) injeta veneno no cérebro de baratas para levá-las até o seu ninho. Ali a vespa injeta seus ovos no corpo das coitadinhas e as transforma em incubadeiras de suas larvas.

- O agente da toxoplasmose, enfermidade que pode trazer sérias complicações para as mulheres grávidas, é o protozoário Toxoplasma gondii, e seus principais hospedeiros são os gatos. Quando infectados, os ratos, seus hospedeiros intermediários, perdem o olfato e o nojo pelo cheiro da urina dos bichanos. Daí invertem a reação instintiva: em vez de fugir, eles são atraídos pelos felinos, que nem precisam se dar ao trabalho de ir caçá-los. O ciclo recomeça.

Falácia, não! - Algum leitor engraçadinho poderá me acusar de falácia naturalista por comparar o comportamento da parte zumbi da população brasileira aos hábitos dessas pobres vítimas. Vão dizer que as causas de sua apatia catatônica são sociológicas, políticas, psicológicas e coisa e tal. Eu não dou nem tchum pra esse argumento!

Ora, se a espécie Homo sapiens brasiliensis (brincadeirinha!) é parte da Natureza, os seus comportamentos, inclusive o econômico, social, político, psicológico, também são, nesse exato sentido, naturais. Não podem ser explicados por causas que supostamente estariam além da Natureza, nas esferas do Além. Por isso reafirmo: a biologia é que vai dar a última palavra, queiramos (a curto prazo) ou não (a longo prazo).

Cabe aqui uma observação importante sobre a reprodução do coronavírus SARS-Cov-2. Esse vírus é a causa natural necessária para o desenvolvimento da Covid-19, mas não foi a causa suficiente para que a doença se tornasse uma pandemia.

Ora, já se sabia, desde a década de 30 do século passado, que grande parte dos vírus, os envelopados por duas camadas de gordura, podem ser prevenidos com água, sabão, máscaras e distanciamento social. Esses hábitos foram praticados empiricamente durante a pandemia da gripe dita espanhola, em 1918-1920. Por que razão os governos ocidentais não fizeram agora como a República Popular da China, adotando compulsoriamente tais medidas para inibir a propagação da peste? E desde que temos vacinas disponíveis, por que o governo brasileiro não seguiu o modelo do governo Biden, que acaba de alcançar a marca dos 100 milhões de vacinados? (Desculpem, a pergunta é retórica, uai!)

No Brasil, como no resto do mundo, o coronavírus SARS-Cov-2 e suas variantes, cada vez mais numerosas, é a causa necessária da doença. A causa suficiente para a sua dispersão em escala geométrica é o governo Bolsonaro, cujo comandante em chefe se comporta como doublé de gato e ratinho, ambos infectados pela toxoplasmose.

Coda - Dia desses eu ouvi um argumento sagaz sobre a diferença entre o papel dos cientistas e o papel dos políticos. Os cientistas se ocupam da descoberta e descrição dos fatos científicos. Eles constatam, por exemplo, que a urina é um ótimo condutor de eletricidade. Cabe aos pais, aos professores e aos síndicos (agentes políticos e morais) fazer o alerta de que você pode morrer de choque se fizer xixi sobre fios desencapados ligados a uma corrente elétrica.

A verdade é que as pessoas em geral não “seguem a Ciência”, um troço muito complicado para a maioria da população. Mas os cidadãos seguem os seus líderes políticos. Se durante uma pandemia os líderes agem de maneira virtuosa, quer dizer, embasados nas constatações dos seus conselheiros cientistas, menos gente morre. Óbvio, né!

Criado em 2021-03-19 21:14:16

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