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Página 34 de 95

Histórias do combativo jornalista Hélio Fernandes

Sergio Caldieri (*) –

Perdemos o jornalista Hélio Fernandes aos 100 anos de idade, por morte natural, na última madrugada de quarta-feira, dia 10 de março, na sua casa no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Era considerado o mais corajoso e combativo jornalista da imprensa brasileira.

Hélio nasceu no bairro carioca do Méier, em 17 de outubro de 1920. Estudou no Colégio Dom Pedro II, era aluno que lia de tudo e muito curioso que fazia muitas perguntas aos professores. Perdeu os pais muito cedo e morava na casa do tio. Teve vários empregos até que o seu irmão cartunista Millôr Fernandes, que trabalhava na revista O Cruzeiro, conseguiu um emprego onde chegou ser diretor.

Em 1948, Hélio começou com seus artigos polêmicos no semanário O Cruzeiro, onde escreveu A revolta dos anjos e Anistia para os aspirantes, defendendo a greve dos alunos da Escola Naval do Rio de Janeiro. O seu patrão Assis Chateaubriand não gostou dos artigos e acabou sendo demitido da revista.

Na revista Manchete, Hélio trabalhou durante 22 anos, e acabou sendo demitido por divergências com o dono Adolfo Bloch. Em 1953, foi trabalhar na Tribuna da Imprensa do Carlos Lacerda, e acabou demitido por divergências no ano seguinte.

Em 1955, foi trabalhar como assessor de imprensa da campanha do ex-governador de Minas Gerais Juscelino Kubitschek para a presidência do Brasil. Logo depois que assumiu o cargo, Hélio acompanhou o Juscelino nas suas viagens aos EUA e Europa. Em 1961, acompanhou o presidente Jânio Quadros numa viagem a Cuba, que logo depois fez a condecoração da Ordem do Cruzeiro do Sul ao ministro Ernesto Che Guevara, causando muita irritação aos conservadores e direitistas no Brasil.

Com João Goulart na presidência, o Carlos Lacerda começou a passar dificuldades financeiras no seu jornal Tribuna da Imprensa, pois o conhecido corvo da Lavradio –  era o nome da rua onde funcionava a redação – acabou sendo vendido ao Francisco Nascimento Brito, genro da Condessa Pereira Carneiro, dona do Jornal do Brasil, criado pelo seu pai, o milionário Conde Pereira Carneiro, dono do Estaleiro Mauá, em Niterói.

Em outubro de 1962, Hélio Fernandes comprou o passivo e ativo da Tribuna da Imprensa do Nascimento Brito. Já começou com atritos com o presidente João Goulart criticando por não ter demitido o Roberto Campos da Embaixada do Brasil nos Estados Unidos, pois era considerado 'o maior entreguista da história da República', nomeado por Jânio Quadros. O embaixador era conhecido por Bob Fields. Cujo neto com o mesmo nome, faz parte do atual governo do capitão de plantão, seguindo as mesmas ideias liberais do vovô entreguista.

No golpe militar de 1964, com o AI-1, foram cassados vários políticos, sindicalistas, jornalistas, estudantes, artistas e militantes de esquerda. Hélio foi convidado por Renato Acher para fazer parte da comissão da Frente Ampla, onde foi o redator do manifesto. A Frente Ampla surgiu para combater e derrubar a ditadura militar. 

O Carlos Lacerda conhecido como conspirador nato contra Getúlio Vargas, Juscelino, Jânio Quadros e João Goulart, foi conversar com Juscelino, exilado em Portugal e João Goulart, no Uruguai. O que não dá para entender como que os dois ex-presidentes cassados e exilados aturaram o golpista Lacerda, o maior incentivador do suicídio de Getúlio Vargas com os seus artigos na Tribuna da Imprensa, pois João Goulart tinha sido ministro do Trabalho [de Vargas] e seu padrinho na carreira política.

A Frente Ampla criada em outubro de 1966 por diversos políticos, consistia na luta pela democratização, eleições diretas, reforma partidária e institucional, a retomada do desenvolvimento econômico e a adoção de uma política externa soberana. O manifesto foi assinado e publicado por Carlos Lacerda, mas indicava o processo de negociação entre os três importantes políticos brasileiros.

Hélio Fernandes foi candidato a deputado federal pelo MDB, nas eleições de 15 de novembro de 1966, mas os ditadores o cassaram e o proibiram de escrever seus artigos. Acabou utilizando o pseudônimo de João da Silva.

O polêmico jornalista foi preso por criticar o ditador de plantão, o Castelo Branco, que prendeu Hélio e o mandou passar 30 dias na Ilha de Fernando de Noronha e mais um mês numa prisão no quartel de Pirassununga, no interior do Estado de São Paulo. Depois ficou preso 15 dias em Campo Grande, na capital do Mato Grosso. Hélio foi preso nove vezes, três desterros e foi processado 37 vezes pela famigerada Lei de Segurança Nacional. Na prisão de Fernando de Noronha escreveu o seu livro Memórias de um desterrado e foi proibido de circulação.

O jornal Tribuna da Imprensa foi o mais censurado na ditadura militar. Diariamente tinha censores na redação entre os anos 1968 a 1978. Hélio processou o governo pelas censuras durante 10 anos, ganhou a ação, mas não se sabe se recebeu a indenização. Foram 72 anos de histórias, pois Hélio sempre foi muito bem informado sobre o que ocorria nos bastidores da política brasileira. Não perdoava ninguém com a sua metralhadora giratória até dezembro de 2008, quando acabou fechando a sua Tribuna da Imprensa que completaria 60 anos.

O jornalista Carlos Newton continuou com a Tribuna da Imprensa na internet onde havia publicações de outros jornalistas, como o Daniel Mazola com o Tribuna da Imprensa Sindical. Além dos seus artigos publicados nos dois blogues, Hélio sempre atento com mais de 95 anos, publicava seus comentários diariamente na sua página do Facebook. Era impressionante a sua pontaria e as repercussões polêmicas. Sua memória sempre foi precisa e prodigiosa. Falei algumas vezes por telefone e continuava com sua metralhadora nos pontos certeiros e dados precisos. Tive a honra de ter o Hélio como Membro Conselho Consultivo na minha chapa quando concorri para presidência da ABI, nas eleições de 2016.

Uma vez cheguei numa banca de jornal em São Pedro da Aldeia, pedindo jornal Tribuna da Imprensa, não tinha. Um senhor ao lado me disse que era fã do jornal e lia diariamente o Hélio Fernandes, tirava cópias dos artigos e distribuía aos amigos. Depois ele me contou, particularmente, fora da banca, que vigiou o Hélio Fernandes durante muito tempo na Rua do Lavradio, vestido de gari, vendedor de pipocas e pintor de paredes.

Perguntei se foi um agente da repressão, ele confessou que foi da Marinha, agente do Cenimar e do SNI, mas nunca tinha torturado ninguém, só obedecia ordens para cumprir. Disse-me que tinha arrependido de tudo que fez e tornado fã do Hélio Fernandes. Até me pediu para avisar ao Hélio que gostaria de ir ao Rio de Janeiro, pegar no seu braço e pedir desculpas. Avisei o Hélio, mas nunca se interessou em recebê-lo.

Na madrugada de 26 de março de 1981, agentes do DOI-Codi destruíram com bombas as máquinas da Tribuna da Imprensa na Rua do Lavradio. Corri logo cedo para lá e assisti a todas as entrevistas do Hélio no meio da rua, onde recebeu solidariedade de vários políticos, inclusive do presidente da ABI Barbosa Lima Sobrinho. Vá em paz Hélio Fernandes e continue sua eterna luta por um Brasil melhor.
_________________
(*) Sergio Caldieri é jornalista, escritor e diretor do Sindicato dos Jornalistas do Estado do Rio de Janeiro (SJPERJ).

Criado em 2021-03-24 15:09:14

Andar a Pé protesta contra estupro e exige medidas do GDF

A recém-criada Associação Andar a Pé – O Movimento da Gente, a primeira entidade formalmente organizada em defesa exclusiva do pedestre no Distrito Federal, emitiu nota protestando contra o estupro ocorrido na passagem subterrânea do Eixão – 105/106 Sul.

Os ativistas da Andar a Pé exigem do GDF a retomada dos projetos vencedores do concurso público realizado em 2012 e sua implementação de forma participativa e democrática.

A Associação também defende medidas imediatas quanto à iluminação, segurança e limpeza das passagens subterrâneas, que são uma das vergonhas da Capital Federal.

A íntegra do documento:

“NOTA DE PROTESTO CONTRA ESTUPRO EM PASSAGEM SUBTERRÂNEA DE BRASÍLIA.

ANDAR A PÉ – O MOVIMENTO DA GENTE vem a público manifestar indignação e pesar diante de mais uma vítima do descaso com que são tratadas as pessoas que andam a pé no Distrito Federal.

Conforme noticiou a mídia local, uma senhora de 48 anos foi estuprada na última quinta-feira, dia 9 de fevereiro de 2017, na passagem subterrânea da entrequadra sul 105/106.

É do conhecimento de todos que grande parte da população trabalhadora do DF e entorno utiliza as passagens subterrâneas para transitar entre os dois lados da cidade de Brasília, dividida ao meio pelo “Eixão”.

Desse contingente, um grande número é composto por mulheres, em sua maioria de baixa renda – são vendedoras do comércio local, caixas de supermercado, faxineiras, babás, cuidadoras de idosos – que constituem, ao mesmo tempo, um grupo vulnerável da violência urbana.

Pesquisa realizada em 2006 apurou que mais de 90 mil pessoas atravessavam o Eixão a pé naquela época, das quais cerca de 80 mil utilizavam as passagens subterrâneas, enquanto cerca de 14 mil preferiam arriscar a vida cruzando-o “por cima”, entre carros a 80 km/h. Decorridos mais de dez anos, é possível deduzir que o número de pedestres que cruzam o Eixo, no sentido Leste – Oeste, deve ser hoje bem maior.

Concurso público realizado em 2012, para projetos de revitalização dessas passagens, não resultou até agora em nenhuma medida prática de execução do projeto vencedor, nem pelo Governo passado nem pelo atual.

Uma das propostas desse concurso recebeu “menção honrosa” da comissão julgadora pela “primazia ao pedestre”, uma vez que, preservando a configuração espacial do Eixão, previa a travessia “em nível” garantida por semáforos. Uma proposta ousada, moderna e barata.

Em defesa da vida e do direito de ir e vir do pedestre, cobramos do poder público as seguintes ações:

1. Medidas imediatas quanto à iluminação, segurança e limpeza das passagens subterrâneas;

2. Retomada dos projetos vencedores do concurso realizado em 2012 e sua implementação de forma participativa e democrática”.

Facebook : Andar a pé – O Movimento da Gente
E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Criado em 2017-02-18 22:04:48

I Feira Brasília de Arte Contemporânea

De 29 de junho a 3 de julho, o Espaço Cultural Renato Russo (508 Sul) estará aberto para a I Feira Brasília de Arte Contemporânea (FBAC).

A ArtBSB Escritório de Arte participa desse evento com obras inéditas e autorais de artistas locais e nacionais em estande preparado especialmente para a I FBAC.

Fazem parte desse encontro artístico 13 expositores, entre galerias, escritórios de arte e coletivos de artistas. Para a exposição, a ArtBSB levará ao público telas e fotografias inéditas.

A ArtBSB levará a série Entrelugar, da artista plástica Fernanda Pacca (foto, abaixo). Utilizando técnica autoral, por meio de imagens, ela “revela parte de seu mundo íntimo, impactante e catártico, em um trabalho meticuloso de sobreposição de linhas com pinça curva”, diz a curadora da mostra.

A fotografia será representada por Clausem Bonifácio. Depois de transitar com destaque pelo fotojornalismo e pela fotografia publicitária, o artista traz nova dimensão ao seu trabalho, rumo à abstração geométrica, poética desenvolvida na série Brasília em Atos. Artistas de outros estados como Judite Pimentel e Samico também estarão em destaque, representados no estande por meio de suas obras.

Com 18 anos de atuação em Brasília, Patrícia Iunes, marchand e proprietária da ArtBSB, enfatiza a necessidade de se perceber a arte em seus vários aspectos e em suas múltiplas funções.

A feira é uma oportunidade única de aliar a atividade comercial à disseminação de conteúdo educativo, por meio de palestras e oficinas que serão oferecidas durante o evento. O ambiente também facilita a aproximação do público com os artistas e suas produções, tornando o acesso à arte e ao conhecimento algo mais factível e democrático”, ressalta Patrícia.

Sobre a ArtBSB

A ArtBSB escritório de arte foi criada em 2005 pela historiadora e marchand Patrícia Iunes (na foto abaixo, com a obra "Flora", de Judite Pimentel). “A ideia é oferecer um espaço de convivência e troca de experiências entre os amantes das artes plásticas na Capital Federal”, conta Patrícia.

O escritório mantém exposições regulares no Shopping Liberty Mall, com artistas locais e nacionais, além de marcar presença em feiras e eventos na capital federal_________________
________________
Serviço:

I Feira Brasília de Arte Contemporânea
Data: 29 de junho a 3 de julho
Entrada gratuita
Informações: www.fbac.art.br e Instagram: @fbacbrasilia
Informações com Patrícia Iunes (61) 99977-0301

Criado em 2022-06-15 00:11:17

68Luta21

PedroTierra –

                                                   Para Ricardo Azevedo e Vera Soares
                                                      que atam os nós entre uma e outra
                                                                           geração de lutadores.   

A geração incendiada
pelo impulso de refundar o mundo
sopra sob as cinzas,
a brasa oculta da indignação.

Contra a ferocidade que nos cerca
                                                    e sufoca
opomos
                     “A imaginação no Poder!”,

esse sonho que só nos abandona
quando dormimos.   

Ouço na noite
e reconheço
o rumor do sangue,
pulsando nas veias
                            e na memória
como o rio subterrâneo
que nos percorre
o continente do corpo
movido por uma vontade
irrevogável de vida
                          e de liberdade
e se oferece à sede
da geração que descobre
o espaço aberto das ruas.

Difusa, pela criminosa sombra
da morte em massa
que nos sitia,
percebo, sob a luz insistente
da madrugada que se anuncia
a mão amável pousada
sobre a mão que a sucede,
ainda insegura do traço
que deseja esboçar  
e conduz a incerta caligrafia,
palavra a palavra, gesto a gesto.

Recolho a mão e cedo o passo.

E testemunho a mão diminuta,
sem perceber ainda a força infinita
                                                 que a move     
abrir-se trêmula como um pássaro
que arrisca, pela primeira vez,
alçar seu próprio voo.

A liberdade pede passagem!
“Todo poder à Imaginação!”   

Criado em 2021-06-26 17:31:37

Brasil que o povo quer

Fátima, doutoranda da USP, em seu emocionante depoimento no debate O que é preciso fazer quando a miséria e a fome voltam a crescer no Brasil, que marcou o lançamento da iniciativa Brasil que o povo Quer.

https://brasilqueopovoquer.org.br/

Criado em 2017-10-20 14:15:44

# Mozart, Joyce, Godard e o FAC são nossos!

Maria Lúcia Verdi -

Uma querida amiga, a sem-par Vilma Areas, escritora e professora de literatura, fez um precioso comentário (sobre o século XXI): “O que salva é o Réquiem de Mozart. Nunca vi dor tão musculosa”. Enquanto escrevo, ouço o Réquiem. A associação feita por Vilma é por demais pertinente.

Estamos vivendo uma imensa sensação de morte, de luto e não é necessário detalhá-las. A dor expressa na missa que Mozart escrevia, sem tê-lo consciente, para a própria morte, é fortemente dolorosa, como a de um músculo treinado quando exigido além do habitual. Como estamos sendo exigidos: além do limite.

Treinado na dor, Mozart. Nós, como povo, historicamente tentamos anualmente diminuir (negar? esquecer?) a dor nos carnavalizando e, todas as semanas, afastando-a (dentro do possível) nos bares. Atualmente, praticamos a dificílima arte de conviver com a morte de todos os símbolos que sustentavam a civilização. Resta-nos (nós, tão menos fortes, tão menos musculosos), deixar-nos elevar dessa putrefação toda por meio, por exemplo, da beleza absoluta do (sofrido até a medula) Réquiem. O que faríamos sem a Arte?

Esta ininterrupta pergunta me (re)fiz ao assistir “Imagem e Palavra”, o último filme de Godard, em seus iluminados 88 anos. Resposta: não faríamos nada, além de sobreviver como máquinas ou como animais bem treinados.

O filme do Mestre me chegou como um testamento. Radical homenagem ao cinema, ao poder (para o bem e para o mal) avassalador das imagens, bem como ao poder (inquestionável) da pontuação reflexiva que as palavras podem representar frente ao fluxo imagético que nos invade. Salvação pelo pausa-palavra.

Em “Imagem e Palavra” vemos cenas de filmes antológicos e domésticos pontuadas por comentários ditos na voz magnífica do diretor - como numa viagem de ácido conduzida por uma mente absolutamente lúcida e poética. As frases, as palavras em distintas línguas são ouvidas em diferentes alto-falantes - discreta sinfonia.

A montagem do filme me lembrou o “Ulisses”, do Joyce, aquela incrível capacidade de demonstrar estilos em cada fragmento independente; utilizar todas as linguagens, reproduzindo o mundo em seus infinitos significantes\significados temáticos, ao mesmo tempo em que se atem aos menores detalhes do mundo do cotidiano.

No “Ulisses”, como no “Imagem e Palavra”, não compreendemos todas as frases, as línguas são muitas (felizmente, no livro, existem as Notas nas duas boas traduções ao nosso português brasileiro).

No filme, Godard ainda pede que não se traduzam certas passagens, quer preservar o mistério da fala, da enunciação. A beleza e o horror da vida estão nesse filme que traz todas as caras do mundo. O Capitalismo e sua lógica brutal, a questão árabe, a loucura ocidental tudo é projetado como pergunta interminável, usando todas as tecnologias e em cores. Viva vovô Godard, sempre irreverentemente apontando um caminho: a arte.

Com tudo isso no meu universo mental, me dirigi ao emblemático Teatro Dulcina à reunião do pessoal da cultura do Distrito Federal, convocada para lutar pelo direito, estabelecido em Lei distrital, de pleno funcionamento do Fundo de Apoio à Cultura. Nunca apresentei um projeto ao FAC, o que pretendo fazer. Impressionante a diversidade visual e linguística das em torno de quinhentas pessoas que lotavam o espaço. Festa da resistência das identidades, festa da expressividade da palavra e da imagem, altissonantes corpos cheios de ideias.

Ver e ouvir aquela gente toda numa sala do vital submundo da Capital, úmida, cheia de ácaros, difícil de respirar, foi uma viagem joyce-godardiana. Teatro e escola esquecidos pelo governo. Aquelas poderosas vozes unidas na defesa de algo que vai muito além do justo recebimento dos fundos, da correta distribuição das verbas: todas e todos dizendo do valor da arte como instrumento de formação, expressão e salvação. Todas as regionais representadas, todos os estilos e vozes ali naquela sala, os ícones da cultura brasiliense presentes.

Não se trata unicamente do que devem, por direito, receber os artistas e produtores culturais, se trata do que a população do DF recebe, precisa receber, de estímulo para resistir e produzir. Muito mais do que pão e circo, se trata de alimento para a mente e a alma resistirem frente à uma realidade patética, desoladora.

Na assembleia estavam presentes dois deputados distritais, um deles o líder do governo, ambos se comprometeram entusiasticamente com a defesa da continuidade plena do mecanismo do FAC.

Precisamos do circo, do cinema, das artes visuais, da literatura, do teatro, da performance, de tudo aquilo que nos faz respirar  acima do cheiro que este momento histórico exala. Arte forma, problematiza, instaura a necessária dúvida, diverte, nos faz rir do absurdo da existência.

Como deixar nossos produtores e artistas sem receber? Como não informar com transparência à sociedade o que está acontecendo com a verba destinada ao FAC? Como deixar sem analisar projetos por meses a fim? Trata-se de respeito - um conceito, entre tantos, praticamente esquecido.

Só com a educação e a cultura poderemos nos afirmar como povo e Nação. #MozartJoyceGodardeoFACsãonossos! Assim como todos os variados ícones da cultura clássica e popular, brasileira e universal.

Criado em 2019-03-22 16:25:08

O baixista americano, os portugueses e o conge, em tempos de protesto

Angélica Torres –

O legado da Liberation Music Orchestra é prova incontestável de que o jazz instrumental serviu como uma poderosa música de protesto à causa política, tanto quanto a tradição lírica de Bob Dylan.

A participação solidária da Liberation na história da queda do regime fascista português, bem como na retumbante oposição dos americanos ao governo Bush, só confirma que o contrabaixista Charlie Haden e a pianista e arranjadora Carla Bley produziram uma das mais interessantes e singulares “pequenas big bands”.

Haden fundou a Liberation Music Orchestra (LMO) em 1969, portanto, há exatos 50 anos, e não há data melhor para um tributo a esse jazzista americano que a do aniversário, hoje, da Revolução dos Cravos –, e justo na semana em que Sérgio Moro consegue, em solo lusitano, emplacar mais um vexame em nome deste “governo” brasileiro.

Charlie Haden está gravado na memória de Portugal como o músico de jazz que ousou desafiar o regime fascista português. Nunca será demais lembrar que, no 1º Festival de Jazz de Cascais, em 1971, Haden, o único músico branco do quarteto de Ornette Coleman, dedicava a sua “Song for Che”, aos movimentos negros pela libertação de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. Segundo o depoimento de um lisboeta anônimo, para os dez mil jovens que superlotaram o pavilhão de Cascais (de lotação de cinco mil pessoas), o próprio festival já representava um desafio à putrefata ditadura salazarista.

O mundo vivia os tempos de oposição e protesto à intervenção americana no Vietnã, aos ecos de Maio de 68 e da Primavera de Praga. Eram também os tempos de Woodstock, dos hippies e seus movimentos pela paz e pelo amor (make love not war), do rock e da pop music, do black power, do jazz elétrico e terrivelmente moderno de Miles Davis e do free-jazz de Ornette Coleman. “Claro que Charlie Haden seria preso, mas logo libertado com a intervenção do embaixador norte-americano em Lisboa, com direito a táxi grátis para a Portela”, conta o fã do memorável jazzman.

Antes de criar, em 1970, a Liberation Music Orchestra, reconhecendo o talento de Carla Bley para os arranjos do repertório, Charlie Haden trilhou um prolífero caminho, iniciado no final dos anos 1950. Logo depois tocaria com Ornette Coleman, integraria em 1967 o trio, depois quarteto, de Keith Jarrett, e em seguida ainda fundaria o grupo Old and New Dreams. Com a LMO, o talento do baixista somado ao componente político foi posto a serviço do humanismo, marcando a história do jazz com repertório inspirado em músicas populares e revolucionárias.

A obra da LMO - O primeiro disco, de 1985, The Ballad of the Fallen, foi dedicado à Guerra Civil Espanhola. Em 1990, o protesto da Orquestra estendeu-se à América Latina e Portugal com Grândola.

No final dos anos 1980, a Liberation contestaria o apartheid, com o Hino do Congresso Nacional Africano de Nelson Mandela, “Kusi Sikeleli África” protagonizando o disco, intitulado The Dream Keeper. E em 2005, Haden e sua LMO voltariam com o disco Not in Our Name (Não em Nosso nome), em oposição à intervenção americana no Iraque (leia mais abaixo sobre este último álbum e ouça a sua música-tema no link ao final do texto). Ainda antes, em 1987, Charlie Haden criou o Quartet West, que também passaria por Portugal outras duas vezes, no tido como inesquecível concerto da Liberation, em Guimarães, em 2006, e no Seixal, em 2010, levando Ruth Cameron ao palco do pavilhão.

Charlie Haden é cultuado entre os portugueses por sua importância na conscientização da inevitabilidade da queda do regime, em 1971, e essa amizade está registrada em três discos: Closeness, de 1976, de duetos com Ornette Coleman, Keith Jarrett, Alice Coltrane e Paul Motian, onde inclui o tema “For a Free Portugal”, no dueto com Paul Motian, a partir da intervenção em Cascais de 1971; The Ballad of The Fallen, de 1982, da Liberation Music Orchestra, em que toca “Grândola Vila Morena”, de José Afonso; e Dialogues, de 1990, em duo com Carlos Paredes. Para os portugueses, o nome de Haden diz muito mais do que o título de expoente do jazz dos últimos quase 70 anos. Será sempre lembrado, também, como “um amigo de Portugal”.

A Liberation contra Bush – O título Não em Nosso Nome (Not in Our Name), do último álbum da Liberation Music Orquestra, derivou dos cartazes de vitrines exibidos por moradores de toda a Europa, em protesto contra a invasão e ocupação do Iraque pelos EUA; Charlie Haden reparou nos cartazes durante uma turnê realizada em 2003. Para criar um álbum que articulasse sua própria oposição e de muitos outros americanos à guerra do Iraque, Haden remontou a orquestra e pediu a Carla Bley que organizasse o material com compositores americanos, de Ornette Coleman, Pat Metheny, Bill Frisell, Paul Bley e ele próprio, a Antonin Dvorak e Samuel Barber. Justificava a escolha do elenco de compositores como que declarando: "Não apoiar o que o governo Bush está fazendo não quer dizer que você não seja patriota". 

A inclusão de hinos patrióticos icônicos em Não em Nosso Nome é ressaltada pelas estranhas e dissonantes vozes que Carla Bley empregou nos arranjos. A música é impressionante por todo o álbum, mas não menos admirável é o chamado de Charlie Haden em anotações deixadas para a posteridade: "Então, agora, embora tenhamos perdido a eleição, não perdemos o compromisso de reivindicar nosso país em nome da humanidade e da decência. Não desista -- a luta continua!".  

Haden faleceu em 2014 de complicações da pólio contraída na infância, mas sua obra estará sempre ao alcance dos amantes do jazz e da música de alta qualidade artística. Tocou no festival de Montreal de 1989 com Egberto Gismonti, Gonzalo Rubalcaba,Don Cherry e vários outros jazzistas de renome. No disco The Montreal Tapes, de 1999, ele e sua Liberation Orquestra trazem um solo de Joe Lovano que marca o tema do discurso de “La Pasionaria”.

Discípulo de Mingus - Segundo o guitarrista brasiliense Genil Castro, musical e politicamente, a grande influência de Charlie Haden foi o também contrabaixista e ativista Charles Mingus. Tanto que, a partir da morte do mestre, Haden passou a integrar o quarteto Mingus Dinasty, criado em sua homenagem. Para Alex Queiroz, primeiro baixista da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro, Charlie Haden foi um gênio. “Não era exatamente um virtuose como Scott LaFaro, mas era chão, solidez, profundidade, simplicidade e elegância. Um artista em essência, que tocou com os grandes pianistas do mundo”, ressalta.

Haden tocou ainda com o mestre Kenny Barron, Jan Garbarek e também com as vozes de Melody Gardot, Diana Krall, Norah Jones, Cassandra Wilson e Renée Fleming. Marcou presença no bebop, no free-jazz, no blues, na pop e na folk music, tocando ainda com Yoko Ono, Elvis Costello, Joni Mitchell e Ginger Baker, para citar alguns.

Ouça a música tema de Not in Our Names em:

https://www.youtube.com/watch?v=bH7-W4Ba9YU

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Criado em 2019-04-26 01:04:27

Quando as mulheres se encontram

Romário Schettino -

Quatro mulheres se encontram nesse primeiro romance da jornalista Miriam Leitão destinado ao público adulto. Tempos Extremos é uma história bem costurada e cheia de informações históricas, recolhidas em leituras acumuladas ao longo da experiência de vida da autora, embora não seja um livro rigorosamente autobiográfico.

Nesse livro a autora nos remete a um desconfortável mundo que nunca gostaríamos de ter tido conhecimento, ou até mesmo vivido. O romance foi publicado em 2014, mas deve ser lido hoje diante das ameaças que nos levam a pensar que um outro tempo extremo pode estar se aproximando. O risco é enorme, sem exagero.

As personagens Alice e Larissa, mãe e filha, vivem o tempo extremo mais presente e o ambiente é o da ditadura militar brasileira. Januária e Paulina, também mãe e filha, vivem o tempo extremo da escravidão no Brasil, no final do Século XIX. Dois momentos de uma mesma história social, política e econômica. Igualmente trágicos.

Tal como Antígona, as mulheres querem enterrar seus mortos, uma consegue vencer, parcialmente, a ira dos tiranos da escravidão, mas a outra continua enfrentando os fantasmas da ditadura que se encontram em sua própria casa.

As mulheres, de modo geral, refletem melhor sobre a sua época, apesar de todas as tentativas de torná-las personagens secundárias. O protagonismo sempre foi masculino. Nesse livro é diferente. Nada melhor do que uma escritora como Miriam Leitão para revelar a exata dimensão do sofrimento a que se submeteram todas as mulheres do mundo, retratadas no romance como personagens tipicamente brasileiras.

As famílias descritas no romance vivem o conflito, a angústia e a contradição normais em seres humanos que se encontram diante da escolha de caminhos perigosos, antagônicos, e diante da força desproporcional de seus algozes.

A guerrilheira e a escrava, em épocas distintas, marcham a mesma trilha em busca da liberdade e da verdade. Ambas sofrem os efeitos de suas escolhas, limitadas e reprimidas, mas firmes e fortes.

Tempos Extremos é um retrato do Brasil feito com as mãos e o coração de quem sabe o que está falando, com as incertezas e as dúvidas que cercam os fortes e decididos, mas com a sensibilidade e a clareza de quem tem certeza de que um mundo melhor é possível.
____________
Serviço:
Título: Tempos Extremos
Autora: Miriam Leitão
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 269
Ano: 2014

Criado em 2021-01-29 20:10:36

No país dos Reguffes, Lázaros e Micuçus

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) -

O senador José Reguffe (Podemos-DF) acaba de apresentar um projeto de lei que proíbe a saída temporária (saidão) de presos condenados por crimes hediondos, como homicídios, estupros e roubos com armas de fogo ou emprego de violência.

Ó, céus de resplendor e perfulgência, que descortino, lucidez, sagácia e inteligência! Segurança pública do Brasil, agora vai!

O senador Reguffe é uma daquelas figuras lastimáveis da política nacional. Moralista até o ponto do ridículo, elegeu-se pregando a economia das verbas de gabinete, a sua obsessão. No ano passado propôs uma resolução-perfumaria para que metade das verbas indenizatória e de gabinete dos senadores pudessem ser usadas no combate à epidemia do coronavírus.

Agora, com o projeto para limitar o saidão, ele quer surfar na onda da caçada ao Lázaro Barbosa, o monstro de Cocalzinho e professor de balé das polícias de Goiás e do Distrito Federal. Explica-se: o senador cogita candidatar-se ao governo do Distrito Federal no ano que vem, sabendo que sobram eleitores brancos simpáticos a esse tipo de medida populista/demagógica, que serve apenas para lançar fumaça sobre o sistema prisional do Brasil, cisco debaixo da alcatifa.

Por que o senador não usa melhor as verbas que a gente paga a ele para atacar problemas realmente relevantes?

Há no País 682 mil pessoas presas, 241 mil das quais acima da capacidade de hospedagem das penitenciárias. Não seria mais adequado propor um mutirão da Justiça para liberar os presos que já deveriam estar em liberdade? Ou acelerar as progressões das penas? Ou converter milhares de condenações por crimes de bagatela em penas alternativas?

Por que o nobre senador não toma providências para efetivar a  Recomendação n° 62, de 17 de março de 2020, do Conselho Nacional de Justiça, que lista medidas de prevenção à propagação da Covid-19 nas sucursais aglomeradas do Inferno que são as cadeias do Brasil?

Por que o nobilíssimo Catão não apresenta uma medida para fazer cumprir a proibição constitucional da prática de tortura nas delegacias de polícia? No último Domingo Espetacular da TV Record, a esposa de Lázaro Barbosa contou ao repórter Roberto Cabrini que foi torturada pela polícia para dizer o paradeiro do marido. “O policial deu três, quatro tapas no meu rosto. Ele quebrou o rodo da minha tia e ia me bater com o cabo. Eu pensei comigo: 'Senhor, eu não acho justo eu apanhar com esse cabo de vassoura. O Senhor sabe que eu não sei onde ele está.'"

Por que o senador Reguffe não entra com um mandato de injunção ou coisa que o valha para garantir a proteção dos terreiros de umbanda e candomblé contra a fúria da polícia, como se testemunhou na caçada ao Lázaro em Águas Lindas de Goiás?

Não é pessoal! – A crítica aqui não é pessoal. Eu conheço as limitações do senador e sei que ele, filho de um contra-almirante da Marinha do Brasil, é apenas uma engrenagem do sistema construído lá no século 19 pela plutocracia escravocrata.  

Ontem eu estava lendo um artigo do professor Fernando Ferreira, da USP, sobre os 150 anos da Comuna de Paris e da Lei do Ventre Livre, em que são descritas as reações de alguns senadores ao projeto de lei do Visconde do Rio Branco.

Incrível, os Reguffes da época diziam que a Lei do Ventre Livre, “apesar do claro intuito do visconde de Rio Branco de aprovar um projeto tímido de abolição (…) para evitar uma maior radicalização do movimento abolicionista”, era um atentado contra a propriedade privada.

Um porta-voz dos latifundiários disse que o projeto de lei tornava “o governo e seus amigos piores que os comunistas franceses”, isto é, os líderes da Comuna de Paris, que acabavam de ser massacrados pelo governo fantoche de Adolphe Thiers no final de maio de 1871. Aqui vai o link do artigo do professor Fernando Ferreira.

Anotem aí: dentro de mais algum tempo as polícias de Goiás e do Distrito Federal deverão localizar e massacrar o Lázaro Barbosa, como de praxe. O Bolsonaro e os governadores Ibaneis e Caiado soltarão foguetes, comemorando a eliminação de mais um terrível inimigo da sociedade e da civilização nacionais. O Congresso entrará na festa aprovando o lampejante projeto do senador Reguffe, e nós, cidadãos de bem e cristãos brancos, voltaremos a dormir em paz!

SQN, só que não!

Ontem eu reli a balada The Burglar of Babylon (O Ladrão de Babilônia) da poeta Elizabeth Bishop, sobre o terrível Micuçu, “inimigo da sociedade”, um Lázaro Barbosa que viveu e foi morto pela polícia e o Exército no Rio de Janeiro no início dos anos 60. Teve até helicóptero, que nem agora no Entorno do Distrito Federal.

Aqui vai o início da balada, na tradução de Paulo Henriques Britto, contando uma história quase igual à do Lázaro. Dá até agonia:

Nos morros verdes do Rio
Há uma mancha a se espalhar:
São os pobres que vêm pro Rio
E não têm como voltar.

São milhares, são milhões,
São aves de arribação,
Que constroem ninhos frágeis
De madeira e papelão.

Parecem tão leves que um sopro
Os faria desabar
Porém grudam feito líquens
Sempre a se multiplicar,

Pois cada vez vem mais gente.
Tem o morro da Macumba,
Tem o morro da Galinha,
E o morro da Catacumba;

Tem o morro do Querosene,
O Esqueleto, o do Noronha,
Tem o morro do Pasmado
E o morro da Babilônia.

Micuçu era ladrão,
Assassino, salafrário.
Tinha fugido três vezes
Da pior penitenciária.

Dizem que nunca estuprava,
Mas matou uns quatro ou mais.
Da última vez que escapou
Feriu dois policiais.

Disseram: “Ele vai atrás da tia,
Que criou o sem-vergonha.
Ela tem uma birosca
No morro da Babilônia”
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Criado em 2021-06-23 21:17:12

Livro-manifesto coloca movimento feminista em novo patamar

Beto Seabra (*) –

Quando em outubro de 2016 mais de 100 mil polonesas marcharam pelas ruas de várias cidades em oposição à proibição do aborto num dos países mais católicos da Europa, uma nova onda feminista começava a reinventar o conceito de greve. Dias depois, desta vez na Argentina, mulheres grevistas responderam com uma grande paralisação ao assassinato brutal de Lucía Perez, com o movimento denominado “Ni una menos”.

A onda já havia atravessado o oceano Atlântico, como lembram as autoras do livro Feminismo para os 99%: um manifesto, Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser, e meses depois chegaria aos Estados Unidos, onde as três são professoras universitárias. No 8 de Março de 2017 ativistas de várias partes do mundo fizeram a Greve Internacional das Mulheres, movimento que contou com Arruzza, Bhattacharya e Fraser na organização e foi uma espécie de marco desse novo feminismo que se espalhava pelo mundo.

O livro foi lançado no 8 de Março de 2018, mas três anos depois está ainda mais atual. Na época, foi lançado ao mesmo tempo em nove países e, na versão brasileira, recebeu um prefácio de Talíria Petrone, eleita deputada federal pelo PSOL do Rio de Janeiro, e apresentação de Joênia Wapichana, única parlamentar indígena, eleita pela Rede Sustentabilidade em Roraima.

Mas o que é o feminismo para os 99%? Para as autoras, não são as “quinquilharias cafonas da despolitização – as flores, os cartões e as mensagens de felicitação”, que inundam os locais de trabalho e as redes sociais todos os anos no dia 8 de março. Feminismo para os 99% não é isso.

Feminismo para o 1%

Também não é o que defendeu no ano passado a diretora de operações do Facebook, Sheryl Sandberg, quando disse que “estaríamos em uma situação muito melhor se metade dos países e das empresas fosse administrada por mulheres e metade de todos os lares fosse administrada por homens”. Para as autoras, isso é apenas um feminismo para o 1%, ou seja, para a minoria que já detém o poder (político e econômico).

Para elas, feminismo para os 99% foi o que aconteceu na Espanha, na primavera de 2018, quando 5 milhões de mulheres pararam o país. Na greve feminista de 24 horas elas exigiam “uma sociedade livre da opressão sexista, da exploração e da violência […] por rebelião e luta contra a aliança entre o patriarcado e o capitalismo que nos quer obedientes, submissas e caladas”.

Ao lado dessas palavras de ordem, as autoras apresentam argumentos e números que mostram a distância tremenda entre a exortação da CEO do Facebook e as mulheres trabalhadoras que foram para as ruas inventar um novo tipo de greve, que junta no mesmo programa reinvindicações identitárias, políticas e econômicas.

Para elas, “Sandberg e sua laia veem o feminismo como serviçal do capitalismo. Querem um mundo onde a tarefa de administrar a exploração no local de trabalho seja compartilhada igualmente por homens e mulheres da classe dominante”. As autoras chamam a isso de “dominação com oportunidades iguais”, ou seja, “aquela que pede que pessoas comuns, em nome do feminismo, sejam gratas por ser uma mulher, não um homem, a desmantelar seu sindicato, a ordenar que um drone mate seu pai ou sua mãe ou a trancar seus filhos em uma jaula na fronteira”.

Arruzza, Bhattacharya e Fraser – esta última autora da expressão “feminismo para os 99%” – fazem em seu manifesto uma crítica certeira ao feminismo liberal de Sandberg e mostram que só a greve feminista pode “pôr fim ao capitalismo: o sistema que cria o chefe, produz as fronteiras nacionais e fabrica os drones que as vigiam”.

E é contra esse capitalismo do 1% da população (é possível ser diferente quando falamos em um sistema dominado não pelos princípios de liberdade e igualdade, mas pelo dinheiro?), que as autoras se insurgem. Para as três, o neoliberalismo, essa forma extremamente predatória e financeirizada do capitalismo que dominou o mundo nos últimos quarenta anos, não permite outra saída: não existe caminho intermediário entre os que nos conduzem a um planeta arrasado pela desigualdade social e a destruição ambiental e o outro, que aponta “para um tipo de mundo que sempre figurou nos sonhos mais elevados: um mundo justo cuja riqueza e os recursos naturais sejam compartilhados por todos e onde a igualdade e a liberdade sejam premissas, não aspirações.” O feminismo para os 99% mostra como trilhar esse caminho.

Reprodução social

No manifesto, elas afirmam que o movimento feminista está reinventando a greve, mostrando o enorme potencial político do poder das mulheres, o poder daquelas cujo trabalho remunerado e não remunerado sustenta o mundo. E ao tratar das atividades das quais o capital se beneficia, mas pelas quais não paga, as autoras entram no tema da “reprodução social”, conceito fundamental para entender o livro.

Na opinião das autoras, o capitalismo não apenas vive da exploração do trabalho assalariado, mas também à custa da natureza, dos bens públicos e do trabalho não remunerado que reproduz os seres humanos e as comunidades. Sempre em busca do lucro ilimitado, o capital degradou o meio ambiente, criou um mundo onde apenas 1% das pessoas possui a mesma riqueza que os outros 99% e sobrevive graças ao trabalho da reprodução social, feito principalmente pelas mulheres, que é aquele trabalho do cuidado: ter e cuidar dos filhos, cuidar das famílias e dos idosos. Esse trabalho custa caro e é fundamental para a existência da nossa sociedade, mas o capital não paga por ele.

Daí porque a greve das mulheres e o novo feminismo são formas novas de combate ao estado atual das coisas. Como dizem as autoras no livro: “pretendemos identificar e confrontar diretamente a verdadeira origem da crise e da miséria, que é o capitalismo”. Para elas, o 1% mais rico sempre foi indiferente aos interesses da sociedade e da maioria e somente um movimento transnacional que tenha como meta os interesses dos 99% da população é que poderia tirar o mundo da atual crise.

Elas acreditam que, em sua busca obstinada por lucros de curto prazo, esse 1% da população falha não apenas ao avaliar a profundidade da crise, mas também a ameaça que ela representa, no longo prazo, à saúde do sistema capitalista em si. Dados da Oxfam mostram que apenas 1% do planeta detém mais da metade da riqueza, às custas da exploração da maioria. E pior: que apenas 62 indivíduos possuem a mesma riqueza que os 3,6 bilhões de indivíduos mais pobres do mundo! Qual a saída, a não ser parar esse motor capitalista que nos arrasta para o abismo?

Marx e Engels

E hoje, o único movimento que parece ter condições de liderar isso é o novo feminismo. Ao enfrentarem o neoliberalismo, o racismo, o machismo e a homofobia, o Feminismo para os 99%, avaliam as autoras, atualiza as premissas de outro Manifesto, o Comunista, escrito por Marx e Engels no século XIX.

Mas o momento, lembram, é outro. 2018, quando o livro foi escrito, não é 1848, quando o Manifesto Comunista foi lançado. “A memória histórica que herdamos inclui a degeneração da revolução bolchevique no Estado stalinista absolutista, a capitulação da social-democracia europeia ao nacionalismo e à guerra e a enorme quantidade de regimes autoritários estabelecidos após as lutas anticoloniais por todo o Sul global”.

Ainda assim, defendem as autoras, além de se afastar de modelos autoritários é preciso fugir de duas armadilhas: a variante “progressista” do neoliberalismo, que propaga uma versão elitista e corporativa de feminismo; e uma variante reacionária, que segue a mesma agenda plutocrática por outros meios, acionando tropas misóginas e racistas a fim de lustrar suas credenciais “populistas”.

A atual crise do capitalismo, acreditam Arruzza, Bhattacharya e Fraser, só poderá ser enfrentada pelo feminismo para os 99%, pois ela é não apenas econômica, mas também ecológica, política e de reprodução social. E finalizam com um alerta: “Relembremos, por exemplo, que aquelas duas revoluções da era moderna, a francesa e a russa, começaram com motins, liderados por mulheres, por causa do pão”.
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Título: Feminismo para 99%: Um manifesto
Autoras: Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser
Editora: Boitempo (www.boitempoeditorial.com.br)
Onde encontrar: No site da Editora Boitempo ou das livrarias.
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(*) Beto Seabra é jornalista e este artigo foi publicado originalmente no Blog Leitores Sem Fim.
Nota do autor em sua página do Facebook: “Escrevi essa resenha em 2018, sobre o livro lançado no mesmo ano, por ocasião do 8 de Março. Impressionante que o livro, e a própria resenha, estão hoje ainda mais atuais, depois de tudo o que aconteceu no mundo e em particular no Brasil nos últimos dois anos”.

Criado em 2021-03-22 15:50:14

Distritais derrubam reajuste das passagens e veto ao orçamento do Legislativo

O governador Rodrigo Rollemberg (PSB) sofre duas derrotas no mesmo dia. Os deputados distritais aprovaram por 18 votos favoráveis e seis ausências, o projeto de decreto legislativo (PDL nº 233/2017) que susta o reajuste tarifário do transporte coletivo, em vigor desde o início deste ano. E, com 14 votos contrários e 10 ausências, derrubaram o veto parcial ao Orçamento da CLDF para 2017.

O veto se referia à rubrica de R$ 38,8 milhões para manutenção de serviços gerais do Legislativo. De acordo com o presidente da CLDF, deputado Joe Valle (PDT), a medida era necessária para garantir o funcionamento da Casa e o pagamento de serviços terceirizados.

A votação que derrubou o decreto do Executivo que aumentava as passagens do transporte coletivo em até 25% foi realizada em turno único ocorreu em sessão extraordinária na tarde desta quinta-feira (12/1), que interrompeu o recesso parlamentar de janeiro.

As galerias estavam tomadas por representantes de movimentos sociais durante a sessão e defenderam a derrubada do reajuste das tarifas.

A suspensão do aumento entra em vigor após sua publicação no Diário Oficial do DF (DODF), para onde já foi enviado.

O governador Rollemberg deverá recorrer à Justiça contra a decisão dos deputados distritais. No entanto, segundo fontes, é possível que ele apresente novos reajustes aos deputados distritais para tentar negociar a recomposição do caixa do governo em relação ao sistema de transportes do DF.

Comissão Especial – O deputado Wasny de Roure (PT), que presidiu o Grupo de Trabalho que elaborou o decreto legislativo aprovado apresentou requerimento para a criação de uma Comissão Especial para dar continuidade às ações propostas pelo GT e discutir os problemas estruturais do transporte coletivo e questões de mobilidade urbana do DF.

Votaram favoráveis ao projeto de decreto legislativo os deputados:
Bispo Renato (PR),
Celina Leão (PPS),
Chico Leite (Rede),
Chico Vigilante (PT),
Claudio Abrantes (Rede),
Joe Valle (PDT),
Juarezão (PSB),
Júlio César (PRB),
Liliane Roriz (PTB),
Lira (PHS),
Prof. Israel Batista (PV),
Prof. Reginaldo Veras (PDT),
Rafael Prudente (PMDB),
Raimundo Ribeiro (PPS),
Ricardo Vale (PT),
Sandra Faraj (SD),
Wasny de Roure (PT) e
Wellington Luiz (PMDB).

Estiveram ausentes:
Agaciel Maia (PR),
Cristiano Araújo (PSD),
Luzia de Paula (PSB),
Robério Negreiros (PSDB),
Rodrigo Delmasso (Podemos) e
Telma Rufino (Pros).

Criado em 2017-01-13 01:31:02

Cantores Líricos de Brasília cantam “La Cambiale di Matrimonio”

A Cia de Cantores Líricos de Brasília estreia no dia 18 de junho a ópera cômica La Cambiale di Matrimonio (O Contrato de Casamento), uma das primeiras óperas do compositor italiano, erudito e muito popular em sua época, Gioacchino Rossini (1792-1868).

O grupo brasiliense com 14 anos de experiência atua para popularizar a ópera com menos tempo de exibição, mas sem perder a essência.

A ópera conta a história de Slook (Gustavo Rocha), um negociante do Canadá, que pretende se casar na Inglaterra. Ele envia uma carta ao inglês Tobia Mill (Thiago Rocha), que deverá apresentar-lhe uma jovem para se casar. Tobia Mill, por sua vez, pensa em casá-lo com a sua filha Fanny (Renata Dourado), que já está apaixonada por um serviçal, Edoardo Milford (Rafael Ribeiro).

Ao saber que os dois jovens estão perdidamente apaixonados – Edoardo e Fanny - , Slook aceita, apoia Edoardo e ainda o nomeia seu herdeiro, aplacando a ira do velho Mill.

“Essa produção tem a característica de tornar o gênero operístico mais compreensível, adaptado para a modernidade, de modo a atingir todos os públicos, sem as longas horas que sempre caracterizam as óperas. Mas, também, sem perder a essência”, afirmam os produtores.

A Cia de Cantores Líricos de Brasília, que apresentaram em abril de 2022, a ópera-bufa O Elixir do Amor, é formada, nesta montagem, por Renata Dourado, Gustavo Rocha, Rafael Ribeiro, Thiago Rocha, e Érika Kallina se junta ao reconhecido maestro Artur Soares.

“É uma honra, ainda mais neste momento pós-pandêmico, voltarmos aos palcos de maneira acessível. A Cia de Cantores Líricos sempre prezou pela linguagem de aproximar o público jovem às óperas. Nossas apresentações consideram que em tempos modernos, de internet, as pessoas não conseguem ficar mais de duas horas no teatro. A Cia propõe uma imersão intensa, em um tempo agradável”, destaca uma das fundadoras do grupo, Renata Dourado.

Produção conta com o patrocínio do Fundo de Apoio à Cultura (FAC-DF).

Sobre a Cia de Cantores Líricos de Brasília

A Cia de Cantores Líricos de Brasília surgiu em 2008 por meio da união de cantores líricos de Brasília que resolveram contribuir com o cenário musical da cidade.

Todos os cantores realizam apresentações musicais, shows, concertos, recitais, óperas e casamentos, em performances em grupo ou solo.

Renata Dourado e Érika Kallina são sopranos e atuam tanto em produções da Cia de Cantores Líricos, quanto em outras produções musicais da cidade. Gustavo Rocha é um dos barítonos mais atuantes de Brasília e, além de cantar nas produções da companhia e em outras produções no DF, também divide a produção dos espetáculos com a soprano e produtora Renata Dourado.

Além da performance musical e cênica, os cantores ministram aulas individuais de canto.
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Ficha Técnica:
Personagens
Slook- Gustavo Rocha
Mill - Thiago Rocha
Fanny - Renata Dourado
Edoardo - Rafael Luiz Ribeiro
Norton - Hugo Lemos
Clarina - Érika Kallina
Direção cênica: Francisco Mayrink
Assistente de direção: Érika Kallina
Iluminação: James Fensterseifer
Direção musical e regência: Artur Soares
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Serviço:
Ópera cômica La cambiale di matrimonio
Grupo: Cia de Cantores Líricos de Brasília
Estreia: 18 e 19 de junho
Local: Sesc Gama (Setor Leste Industrial, Lotes 620 a 680, QI 1)
Dias: 25 e 26 de junho
Local: Sesc Ceilândia (QNN 27 - Área Especial)
Dias: 2 e 3 de julho
Local: Escola de Música de Brasília (EBM – 602 Sul).
Sempre às 19
Ingresso: R$ 10 (meia-entrada)
Vendas em: https://www.sympla.com.br/opera-la-cambiale-di-matrimonio__1603818
Na Escola de Música: Entrada R$ 10 (meia)
No Sesc Ceilândia e Gama a entrada será gratuita
Entrada livre para todos os públicos. 

Criado em 2022-06-14 23:51:25

Lula livre de 15 processos

Romário Schettino -

Com a sentença de ontem (21/6) já são 15 os processos contra Lula que vão para os arquivos da Justiça sem nenhuma condenação. Na chamada Operação Zelotes, em que havia acusação de que Lula teria se beneficiado com a edição de Medidas Provisórias, a absolvição se deu na 10ª Vara Criminal Federal de Brasília.

O advogado de Lula, Cristiano Zanin Martins, divulgou nota para reafirmar que essa sentença é prova de que o ex-presidente “foi vítima de uma serie de acusações infundadas e com motivação política, em clara prática de lawfare, tal como sempre sustentamos”.

“Em todos os casos julgados até o momento Lula foi absolvido — inclusive no caso que imputava ao ex-presidente a participação em uma organização criminosa (Caso do “quadrilhão”) — ou as acusações foram sumariamente arquivadas, o que somente não ocorreu em dois casos que foram conduzidos pelo ex-juiz Sergio Moro e que foram recentemente anulados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em virtude da incompetência e da parcialidade do ex-magistrado. Lula jamais cometeu qualquer crime antes, durante ou depois de exercer o cargo de Presidente da República”, afirma Cristiano Zanin.

A seguir, os casos já julgados sobre o ex-presidente Lula, todos com vitória de seus advogados:

1 – Caso Quadrilhão 1ª tempo: 12ª Vara Federal Criminal de Brasília – Processo n.º 1026137-89.20184.01.3400 – absolvido sumariamente.

2 – Caso Quadrilhão 2ª tempo: 12ª Vara Federal Criminal de Brasília – Inquérito n.º 1007965-02.2018.4.01.34000 – denúncia rejeitada.

3 – Caso Taiguara (Janus I) – 10ª Vara Federal Criminal de Brasília – Processo n.º 1035829-78.2019.4.01.3400 – trancado pelo TRF1 ante o reconhecimento da inépcia da denúncia.

4 – Caso Obstrução de justiça (Delcídio) – 10ª Vara Federal Criminal de Brasília – Processo n.º 0042543-76.2016.4.01.3400 (42543-76.2016.4.01.3400) – absolvido em sentença transitada em julgado.

5 – Caso Frei Chico: 7ª Vara Criminal Federal de São Paulo – Inquérito n.º 0008455-20.2017.4.03.6181 – denúncia rejeitada.

6 – Caso Invasão no Tríplex: 6ª Vara Criminal Federal de Santos – Inquérito n.º 50002161-75.2020.4.03.6104 – denúncia rejeitada.

7 – Caso Segurança Nacional – 15ª Vara Federal Criminal de Brasília – Inquérito n.º 1045723-78.2019.4.01.3400 – arquivado sumariamente.

8 – Caso Touchdown: 6ª Vara Criminal Federal de São Paulo – Inquérito n.º 0008633-66.2017.4.03.6181 – arquivado sumariamente diante da atipicidade dos fatos.

9 – Caso Carta Capital: 10ª Vara Criminal Federal de São Paulo – Procedimento Investigatório Criminal n.º 0005345-13.2017.4.03.6181 – relatada pela Autoridade Policial com sugestão de arquivamento e declarada a extinção da punibilidade.

10 – Caso Palestras: 13ª Vara Criminal Federal de Curitiba – Inquérito Policial n.º 5054533-93.2015.4.04.7000/PR – Autoridade Policial e Ministério Público concluíram pela inexistência de ilicitude.

11 – Caso Triplex: 13ª Vara Criminal Federal de Curitiba – Processo n.º 5046512-94.2016.4.04.7000/PR – anulada pela Suprema Corte, nos autos do habeas corpus n.º 164.493/PR (suspeição) e do habeas corpus n.º 193.726/PR (incompetência).

12 – Caso Sítio de Atibaia: 13ª Vara Criminal Federal de Curitiba – Processo n.º 5021365-32.2017.4.04.7000 – anulado pelo Supremo Tribunal Federal, nos autos do habeas corpus n.º 193.726/PR (incompetência).

13 – Caso Imóveis para o Instituto Lula: 13ª Vara Criminal Federal de Curitiba – Processo n.º 5063130-17.2016.4.04.7000 – anulado pelo Supremo Tribunal Federal, nos autos do habeas corpus n.º 193.726/PR (incompetência).

14 – Caso Doações para o Instituto Lula: 13ª Vara Criminal Federal de Curitiba – Processo n.º 5044305-83.2020.4.04.7000 – anulado pelo Supremo Tribunal Federal, nos autos do habeas corpus n.º 193.726/PR (incompetência).

15 – Caso MP 471 (Zelotes 2): 10ª Vara Criminal Federal de Brasília – Processo n.º 1018986-72-2018.4.01.3400 – absolvido por sentença proferida em 21.06.2021.

A grande imprensa está sendo obrigada a divulgar todas essas sentenças e decisões, mas nenhuma delas trará de volta as fatídicas eleições de 2018, que colocaram Bolsonaro no governo do Brasil. Lula foi impedido de concorrer, seu substituto Fernando Haddad foi para o segundo turno mas sem o apoio do terceiro colocado, Ciro Gomes.

Muitos anularam seus votos, outros votaram em Bolsonaro. Hoje, arrependidos, ainda querem culpar o PT e Lula pela tragédia que é Bolsonaro para o país.

Leia aqui a íntegra da sentença do juiz da 10ª Vara Federal Criminal de Brasília.

Criado em 2021-06-22 23:20:47

EIXÃO, UMA RODOVIA URBANA

Na Semana da Mobilidade de 2017, a Andar a Pé apresenta este vídeo e convida para uma ampla campanha de humanização da DF-002 (EIXÃO).

Criado em 2017-09-25 17:15:33

Século vinte e um

Maria Lucia Verdi -

Pegar um objeto: o telefone

discar um número

chamar o Outro

alguém contrário a Ninguém

 

Da mão ao telefone

distância em anos luz

(dizer o quê?

Se tudo é falta

devemos suportar

o solilóquio)

 

Século vinte e um

 

Hoje o código (de si)

exposto por imagens, vídeos

pequenos comentários

Todos artistas, todos filósofos

Nada da troca (antes)corriqueira

de frases, perguntas, silêncios

- intimidade a flutuar velada

ente frase banal

e outra frase banal

 

Pegar um objeto: computador, papel

instrumento musical, câmera

e registrar o que se pode

alguma coisa

do que seja

ex (re)sistir

 

Sublimarsubliminarmar

entre um mar e outro

mar

 

Criado em 2019-03-19 13:14:05

Entre Mundos – fotopoemas: delicadezas a quatro mãos

Angélica Torres -

Nesta sexta-feira, 5 de abril, uma filha pródiga de Brasília volta à casa para lançar um livro-álbum. Após 15 anos sem publicar seus poemas, Teresa (Teca) Vignoli apresenta a nova safra de versos, conjugados página a página com fotos de Ronaldo Miranda Barbosa. Daí o nome Entre Mundos – fotopoemas, projeto antigo, sonhado e gestado por ambos nas Oficinas de Criatividade com Palavra e Imagem, desenvolvidas com alunos de graduação em psicologia e de especialização em Gestalt-Terapia, em Campinas (SP), Rio e São Paulo. O lançamento será no restaurante Carpe Diem (104 Sul), após as 19h.

Entre Mundos é uma coletânea de 29 curtos e delicados poemas de contemplação da Natureza. Leveza e suavidade são marcas registradas de Teresa Vignoli, como se pode sentir em “Ancestral”: O tempo emerge/ do Céu Profundo. / Vem respirar/ a luz do dia. Ou neste: A vida / em suspenso/ dança. Seus trapos, / farrapos de vento. E em mais este, “Estrela d’água”: Nas margens de Tudo/ pergunto:  ̶  para onde me levarás / a que mundos?. Os breves poemas dialogam com as fotos de Ronaldo Miranda (na foto com Teca Vignoli), de igual maciez, enlevo e textura-tessitura.

Em formato retangular, com capa dura e fotos em policromia sobre papel couchê, Entre Mundos recebeu tratamento gráfico de livro de arte, primoroso, levezinho, harmonioso com a proposta da poeta e do fotógrafo, que há 25 anos cultiva o que flagra como hobby e se autointitula “um passageiro do olhar”. No prefácio, o antropólogo carioca e também poeta, Carlos Rodrigues Brandão, traduz as ilustrações como haicai-imagens e os poemas, como murmúrios e suspiros.

Para este professor da Unicamp, os pequenos poemas de Teresa parecem oscilar entre o também haicai e a tanka, poesia japonesa escrita em três e em cinco linhas, respectivamente. E, embevecido, parece quase sugerir um ato de vandalismo literário, ao dizer que o maior perigo do livro é poder ter suas páginas arrancadas para virarem pequenos e preciosos quadros na parede de alguma casa – “o que não seria, de modo algum, má ideia”, pondera com humor.

A POETA - Teresa Vignoli nasceu e viveu no Rio, até se graduar. Lá publicou poemas na coletânea Pa Lavra e Alambique (1973) e na revista Quaternio (1975), organizada por Nise da Silveira, de quem foi aluna dileta. Tanto assim que, ao se decidir por morar em Brasília, Teca, como os amigos a chamam, foi acolhida, a pedido da doutora Nise, por sua antiga amiga, a também psicóloga Mariana Alvim, que foi colaboradora e amiga de Darcy Ribeiro na UnB. Hoje ela tem dado palestras sobre vida e obra da renomada Mestra, a convite de universidades e instituições de psicologia do país. 

Teca viveu por quase uma década em Brasília, entre 1978 e 86 (na foto da época, abaixo, Paulo Tovar, Renato Matos, Teca, Noélia Ribeiro, Nikolas Behr, Paulinho Mattos e Tita Lima). Após ter trabalhado no Hospital Sarah Kubitschek, participado com sua poesia do Movimento Cabeças e das coletâneas 20 POrrETAS (Brasília, 1980) e 27 POrrETAS (Brasília, 1981) e se despedido da cidade que ama lançando o livro-solo Asa Verso (1986), ela se casou e mudou-se com a família para Campinas (SP). Lá, publicou e lançou o livro Chama Verbo (2000), em parceria com Silma Coimbra, e criou com colegas uma clínica de psicoterapia para atendimento a adolescentes e adultos, trabalho que refinou ainda mais a sensibilidade humana com que a natureza a brindou.

Teresa e dra. Lúcia Braga iniciaram carreira na área da saúde, quase juntas, na Rede Sarah Kubitschek e é dela, hoje presidente da Instituição, o depoimento: “Sou grande admiradora da genial escritora, poeta e sobretudo pessoa, Teresa Vignoli. Nossa querida Teca tem uma dimensão humana que transborda em impressionante sensibilidade, ao transmitir, com palavras escolhidas com carinho e delicadeza, esse olhar tão especial sobre o mundo. Com Entre Mundos ela, mais uma vez, partilha conosco esse olhar”.

E “Lucinha”, como Teca a chama, não para por aí. “Para mim, é imenso o privilégio de tê-la conhecido e de termos trabalhado próximas, durante anos, no hospital Sarah e mais: de poder ainda conviver e aprender com essa amiga de coração tão grande e acolhedor. Querida, seja muito bem vinda de volta a Brasília!”, acena à antiga companheira.

Nicolas Behr, outro dos primeiros amigos que Teca fez em Brasília e que até hoje mantém com ela o vínculo do antigo afeto –, ao comentar o livro, fez um quase poema: “Ah, essa ânsia em compartilhar. Essa vontade de troca. Não guardar para si. Esse grande mistério: a poesia. De onde vem? Ninguém sabe. Nem a poesia. Entre Mundos é um testemunho, uma prova de que, sim, é possível um mundo melhor. Com mais poesia e harmonia”. 

Entre Mundos – fotopoemas – De Teresa Vignoli e Ronaldo Miranda Barbosa. Lançamento na sexta-feira, 5/4, no restaurante Carpe Diem (104 Sul), após as 19h.

Criado em 2019-04-02 17:54:28

Leonardo Padura descreve seu amor por Havana

Romário Schettino –

O novo livro de Leonardo Padura, Água por todos os lados (Boitempo), é, ao mesmo tempo, um depoimento pessoal sobre sua decisão de não ser só um escritor cubano, mas de ter optado por viver na ilha. O título é a definição geográfica de Cuba, desde sempre uma ilha. O livro é também um passeio sobre a história da literatura cubana, dos primórdios até os últimos anos.

Padura apresenta ao leitor as suas grandes paixões, o beisebol e a cultura cubana. Seu amor pelo local onde mora é comovente. Ele vive num bairro de Havana onde também viveram seus avós e seus pais.

“Sou um escritor cubano que vive e escreve em Cuba porque não posso e não quero ser outra coisa, porque (e sempre posso dizer que apesar dos mais diversos pesares) preciso de Cuba para viver e escrever”, afirma Padura.

E acrescenta: “Quando me perguntam por que vivo e escrevo em Cuba, tenho diversas respostas possíveis a oferecer. Prefiro, porém, a mais simples: porque sou cubano e tenho um alto senso do que esse pertencimento significa”.

É um livro pequeno, apenas 292 páginas, de leitura rápida, mas denso, cheio de informações e visões críticas da literatura cubana e do sistema socialista implantado com a revolução, como sempre faz em seus escritos.

É prazeroso acompanhar Padura pelas ruas de Havana, por lugares pouco comuns na propaganda turística. O Malecón é uma exceção, claro, quem pensa em Havana vê o muro que separa a terra do mar. De frente para o Malecón só se vê o mar; de costa, está a cidade e seus encantos, seus tipos humanos muito parecidos com os baianos, ou serão os cariocas?

Com destaque para a maneira como Padura descreve o seu processo de criação e como cria seus personagens. Assim, ele revela os locais e as tramas em que os personagens ganham vida, seus instrumentos de trabalho e suas inspirações: “Entre uma obsessão abstrata, quase filosófica, e o complicado processo de escrever um romance, há um longo período, cheio de obstáculos e desafios”, revela o escritor. Foi assim que ele concebeu e escreveu o seu mais famoso romance, O Homem que Amava os Cachorros, em que narra a história do assassino de León Trótsky, que viveu em seus últimos anos em Cuba. Nessa parte do livro há revelações curiosas que precisam ser lidas. Não convém contar aqui.

Virgílio Piñera

Neste livro, Padura dedica um longo capítulo a quem ele chama de o maior e mais importante escritor cubano de todos os tempos: Virgílio Piñera (1912-1979). Segundo Padura, Piñera pode ser equiparado a Borges, Cortázar e Lesama Lima. É preciso conferir.

Poeta, romancista e dramaturgo, Piñera escreveu e publicou até ser proscrito pela burocracia cultural cubana dos anos 70. Padura conta que isso ocorreu nos últimos dez anos da vida de Piñera em Havana. Seus livros não eram mais publicados, suas peças impedidas de serem montadas e seu nome não podia sequer ser mencionado.

O reconhecimento tardio de Piñera como escritor importante para a literatura cubana ocorreu por ocasião dos 100 anos de seu nascimento. Todo o passado sombrio ficou para a história.

Padura admite, no entanto, que esse desatino talvez tenha sido criado por ele mesmo, como se fosse um destino a ser cumprido a todo custo. Em “cubano” isso se chama “estar salgado” (estar salado), como nas tragédias gregas.

“Piñera empregava doses perigosas, mas precisas de absurdo, maldade, ironia, humor e o mais vulgar e ousado realismo”, diz Padura, para concluir: “Em qualquer sociedade o diferente será esmagado”.

Alguns dos escritos de Piñera, como poeta: La isla en peso (1943); como romancista: A carne de René (1952) e Pequeñas maniobras (1963); como dramaturgo: a revolucionária peça Electra Garrigáo (1948), Jesús (1956), Dos viejos Pánicos (1968), este, um drama nada complacente com as sociedades em que viveu.

Com a leitura do livro de Padura ficamos conhecendo um pouco da autobiografia de Piñera: “Nem bem cheguei à vida descobri três coisas bastante sujas das quais nunca pude me livrar. Aprendi que era pobre, homossexual e que gostava de arte. A primeira descobri porque um dia me disseram que não havia nada para o almoço; a segunda quando um belo dia senti o sexo de um dos meus muitos tios debaixo da calça e o terceiro quando ouvi uma prima cantando o brinde da Traviata”.

Por tudo isso, e muito mais, vale a leitura deste Água por todos os lados, de Leonardo Padura.
_______________

Serviço:
Título da obra: Água por todos os lados
Autor: Leonardo Padura
Tradução: Monica Stahel
Editora: Boitempo

Criado em 2021-01-27 02:38:53

Que tal ler o catatau do James Joyce durante a pandemia?

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Pelo segundo ano consecutivo devido à pandemia, a gente não pode comemorar hoje, dia 16 de junho, ao vivo, o Bloomsday, a maior festa literária do mundo, concebida para homenagear o romance Ulysses de James Joyce, publicado em 1922 em Paris.

Ano passado eu preparei uma pequena fala especulando qual seria a reação do Joyce frente à pandemia do coronavírus, ele que enfrentou a pandemia da gripe chamada espanhola. Minha intervenção fez parte de um vídeo patrocinado pela Embaixada da Irlanda para festejar o Bloomsday de 2020. 

Agora, pra não deixar a data passar em branco, resolvi reeditar aquela palestrinha com alguns acréscimos. Vai que eu consiga animar mais meia dúzia de pessoas a enfrentar o Ulysses, um catatau com mais de 800 páginas, que grande parte do público acha, erradamente, que só os acadêmicos podem compreender!

O meu amigo Hamilton Pereira, o Pedro Tierra, diz que Ulysses é um livro bom de ler na cadeia, quando a gente tem tempo de sobra! Eu digo que é ideal também para esses esticados tempos de pandemia.

Inspirado em dezenas de grandes obras literárias, entre as quais a Odisseia de Homero, a Divina Comédia de Dante, as peças de Shakespeare, a Ciência Nova de Giambattista Vico etc, Ulysses resume a saga humana na jornada de 19 horas ao longo do dia 16 de junho de 1904 de Leopold Bloom, um homem comum, meio judeu por parte de pai, tremendamente apaixonado pela mulher, Molly Bloom, adepta do casamento aberto, digamos assim.

A data escolhida por Joyce para situar a história já tinha sido uma celebração do próprio escritor, a data de seu primeiro encontro com Nora Barnacles, a mulher de sua vida e mãe de seus filhos!

Medos - Segundo a editora do Ulysses, Sylvia Beach, dona da livraria Shakespeare and Company, sediada em Paris, Joyce tinha medo de trovões, de alturas, do mar, de cachorros e de... infecção.

Ele sofreu graves problemas nos olhos e ficou praticamente cego porque contraiu sífilis.

Martin Bock, da Universidade de Minnesota, escreveu um artigo vinculando Joyce à Teoria dos Germes, popularizada em meados do século 19. Bock diz que o medo de contágio era comum entre a população irlandesa na época. Pelo menos 775 mil pessoas morreram no país nos anos da praga da batata e da grande fome, 1846 e 1851. E no fim do século, o país foi alvo de quatro epidemias de gripe que se espalharam da Europa para a Inglaterra, Escócia e Irlanda.

A tuberculose matava na época um em cada dez europeus; e a mortalidade infantil era pior em Dublin do que em Calcutá, na Índia. Cinco irmãos de Joyce morreram ainda crianças. 

Uma geração depois, quando Joyce estava escrevendo Ulysses, a pandemia de gripe chamada espanhola (1918-1920) matou entre 50 e 100 milhões de pessoas no mundo inteiro.

No primeiro episódio de Ulysses, Telêmaco, Buck Mulligan toma uma xícara de leite e comenta com a velhinha leiteira:

Se pudéssemos viver de um alimento bom como esse, nós não teríamos um país cheio de dentes e tripas podres. A gente vive num lodaçal, comendo comida barata, com ruas cobertas de pó, de esterco de cavalo e de escarros de tuberculosos.

- O senhor é estudante de medicina? - perguntou a velha.

- Sou, mulher, respondeu Buck Mulligan.

- Ora, vejam só, disse a velhinha.

Mulligan, como Joyce, diz Martin Bock, sabia que certas doenças se espalham através de micróbios. Joyce chegou a estudar medicina por um curto período em Paris a partir de 1902.

“Poeira e cinzas” - No final de agosto de 1900, com apenas 18 anos, Joyce encaminhou ao editor William Archer uma peça intitulada Uma Carreira Brilhante, que depois ele rasgou. É o que contou o jornalista Frank McNally na sua coluna de 9 de abril de 2020 no Irish Times, informando que Stanislaus, o irmão mais novo de Joyce, disse que a peça era um drama realista centrado em Paul, um jovem médico, que abandona a namorada e o seu idealismo juvenil para se casar com outra mulher e seguir carreira. Bem sucedido, ele acaba se tornando prefeito de uma cidade portuária.  Ironicamente, ele consegue conter um surto de peste na cidade, graças à ajuda de Ângela, sua ex-namorada. Daí Paul percebe que a sua brilhante carreira era apenas “poeira e cinzas”.

O envio da peça para o editor coincidiu com a confirmação de um surto de peste bubônica em Glasgow, Escócia, com 16 mortos. O surto era parte de uma pandemia. Em decorrência dela 100 pessoas morreram em San Francisco, nos Estados Unidos. O pânico tomou conta de Dublin, que decretou uma guerra contra os ratos. 

Em Dublinenses, Joyce retrata a capital da Irlanda como uma cidade semideserta. Por essa razão, a crítica Adaline Glasheen disse que o livro é o Diário do Ano da Peste de Joyce.

Um Diário do Ano da Peste é o título de um livro do escritor inglês Daniel Defoe, publicado em 1722. O livro retrata a Grande Peste de Londres, que devastou a capital da Inglaterra entre 1665 e 1666.

Joyce tinha uma grande admiração por Defoe, tendo lido todas as suas obras, “cada uma de suas linhas”. Joyce considerava Defoe o pai do romance inglês, o primeiro escritor da Inglaterra que, segundo ele, não teria tido modelos literários precedentes.

Se Um Diário do Ano da Peste ofereceu a Joyce um modelo para ficcionalizar criativamente fatos da realidade, Robinson Crusoé, a obra-prima de Defoe, parece ter lhe dado a ideia de concentrar em Ulysses a história da Humanidade num homem só, Leopold Bloom.  

Para Joyce, Robinson Crusoé é o Ulisses inglês, onde se concentra todo o espírito anglo-saxão: a independência do macho, a crueldade inconsciente, a persistência, a inteligência lenta mas eficiente, a apatia sexual… Ele esqueceu de falar da culinária, né! 

Protótipo - Disse Joyce: “O verdadeiro símbolo do Império Britânico não é a caricatura de John Bull, mas Robinson Crusoé, que, abandonado numa ilha deserta, com uma faca e um cachimbo no bolso, torna-se arquiteto, carpinteiro, amolador de facas, astrônomo, padeiro, armador, oleiro, seleiro, agricultor, alfaiate, fabricante de guarda- chuvas e clérigo. Ele é o verdadeiro protótipo do colono britânico, assim como Sexta- Feira (o fiel selvagem que chega num dia de azar) é o símbolo das raças subjugadas. Todo o espírito anglo-saxão está em Crusoé: a independência viril; a crueldade inconsciente; a persistência; a inteligência lenta porém eficiente; a apatia sexual; a religiosidade prática, bem equilibrada; o mutismo calculado. Quem relê esse livro simples e comovente à luz da história posterior não pode escapar de seu encanto profético”.

Robinson Crusoé é também o protótipo do indivíduo da ficção sociológica do liberalismo segundo a qual a sociedade não existe. O que existe seria um ajuntamento de “homens e mulheres e famílias”, como disse outra vez a primeira-ministra Margaret Thatcher em 1987.

Robinson Crusoé era um escravocrata. Aprendeu a falar português, adquiriu terras e um engenho de cana de açúcar na Bahia, e naufragou durante uma viagem que fazia em direção à costa da Guiné para comprar mais escravos. Quando foi resgatado da ilha deserta, era um homem rico. Seria hoje um James Dyson ou Richard Branson, um desses bilionários britânicos que mesmo durante a pandemia continuaram a faturar os tubos.

O Leopold Bloom do Joyce é bem diferente. Bloom é um homem comum, um joão-ninguém, meio-judeu por parte de pai, representante geral da Humanidade. 

Embora tenha revolucionado a literatura, Joyce nunca foi um revolucionário político. Ainda assim, o seu principal personagem, Leopold Bloom, e as técnicas narrativas do Ulysses inspiraram no cineasta soviético Sierguêi Eisenstein a ideia de filmar O Capital de Karl Marx. Infelizmente, o projeto não deslanchou. 

No caso do Capital, a principal personagem do filme seria a mercadoria, a quintessência do sistema capitalista, a quem, aliás, Leopold Bloom serve na condição de agenciador de anúncios publicitários.

Bloom é um homem comum, sem propriedades. Ele não é aceito nem mesmo como um irlandês pleno, por se assumir judeu como o Spinoza, Marx, Jesus Cristo e o próprio Deus dos cristãos, convicção que ele joga na cara do Cidadão no bate-boca do episódio do Ciclope, provocando-lhe a fúria que resultou num terremoto de cinco graus da escala de Mercalli.

Hades, o Inferno - Joyce morava em Zurique quando publicou o primeiro trecho do sexto episódio do Ulysses, o Hades (o Inferno dos gregos), em setembro de 1918, e a gripe dita espanhola já estava grassando na Europa. Na Odisseia, Ulysses desce ao Hades para consultar o vidente cego Tirésias sobre o seu destino. Já Leopold Bloom é convidado a entrar numa carruagem que está indo para o enterro de um conhecido, Paddy Dignam, no cemitério de Glasnevin. Durante a jornada ele fará reflexões sobre a vida e a morte, chocando os ouvintes com a sua crueza materialista e iluminista.

É nesse episódio que a gente toma conhecimento de sua profissão, a de agente publicitário. Cruzando as principais avenidas de Dublin, a carruagem para na altura do Grand Canal. Bloom está pensando em doenças e curas, e lá pelas tantas meio que bola um anúncio no seu fluxo de consciência: “Escarlatina, epidemia de gripe. A morte em promoção. Não perca esta oportunidade”.

Mais adiante, os passageiros estão discutindo a causa da morte de Dignam. Ele morreu de uísque, mas a turma diz que foi do coração. Quando alguém comenta que Dignam “morreu de repente”, Bloom exclama: “A melhor morte!”. Espanto geral. Daí ele é obrigado a se explicar: “Sem sofrimento… Um instante e tudo acaba. É que nem morrer dormindo”. Ninguém diz nada.

Em seguida Bloom é que ficará constrangido, quando o pessoal debate o suicídio – a pior das mortes, a maior desgraça de uma família, loucura temporária, covardia. Nem todos sabem que o pai de Bloom tirou a própria vida e dessa vez ele é quem prefere ficar calado. No cemitério Bloom vai se recordar do pai e também do filho, o Rudy, que morreu logo depois de nascer. 

O episódio está recheado com a filosofia e o sentimento de despertença de Bloom.

Quando perora que o rito mortuário dos protestantes é mais simples que o dos católicos, um tal de Tom Kernan diz: “Eu sou a ressurreição e a vida. Isso toca fundo o coração de um homem”. Bloom responde na lata: “Toca mesmo… Mas de que vale isso para o sujeito que está debaixo de sete palmos comendo grama pela raiz? Não toca. Sede dos afetos. Coração partido. Enfim, uma bomba que bombeia milhares de litros de sangue todo dia. Um belo dia entope e aqui está você”. 

Bloom pensa nos casais que trepam entre as lápides do cemitério, e inverte um dito bíblico: “No meio da morte estamos na vida”.

Ele cogita um cemitério em que os corpos fossem enterrados de pé, para melhor aproveitamento de espaço, de tal modo que também servissem de adubo de belas plantações e jardins.

Avaliando os horrores provocados pela morte, a começar pelos vermes que vão roer os corpos, ele está convencido de que a alegria da vida precisa prevalecer sobre a tristeza da morte, e então pensa nos coveiros de Hamlet. Logo depois cogita na possibilidade de todos nós, de repente, virarmos outras pessoas.

Refletindo sobre a precária situação da classe trabalhadora irlandesa, diz: “A casa de um irlandês é o seu caixão”.

Gramofone - Mais adiante, Bloom fica agoniado com a possibilidade de o morto estar ainda vivo. Imagina então uma lei determinando a instalação de um sistema de alarme ou de um telefone dentro do caixão para a pessoa enterrada avisar que está viva. Também sugere a instalação de um gramofone na cova ou em casa dos parentes com a gravação da voz do morto, uma lembrança junto com a sua fotografia. Bem, essa sugestão é trivial hoje, né!  “Kraahraark! Alôalôalô estousupercontente Kraark supercontentedevêlosdenovo alôalô estou super krpthsth 

A sua mente fica variando também sobre a melhor forma de sepultamento. “Cremação é melhor”, diz ele, lembrando que os padres detestam essa modalidade, por causa da ressurreição da carne, claro.

Daí ele pensa nos tempos da peste, quando os cadáveres eram empilhados e queimados com cal viva. E pensa também nos jiraus das torres do Irã e da Índia, em que os corpos do povo parsi eram comidos pelos urubus.

Por fim, acha que o mais doce é se afogar no mar, como diziam os antigos latinos e, mais recentemente, o nosso Dorival Caymmi! 

No final, Leopold Bloom sai do cemitério, lépido e faceiro, de bem com a vida. Diferentemente de Ulysses na Odisseia, ele não volta do Inferno sabendo o que o espera no resto de sua jornada até Ítaca. Bloom só sabe que está vivo, que ama a sua mulher e que estes são os seus únicos valores. Nisso ele se parece com o Falstaff do Shakespeare, que dispensa as honrarias e salamaleques do poder para renovar o seu pacto com a vida.   

Bloom ama Molly perdidamente, ainda que o amor dela talvez seja contagioso, talvez seja compartilhado com outros homens. O que importa é que ela lhe respondeu sim e o coração dele disparou loucamente e sim ela disse sim e quis Sim, com letra maiúscula e tudo!

Acesse aqui a palestra no YouTube.

Criado em 2021-06-17 00:25:14

Para entender as mudanças na política

Geniberto Paiva Campos (*) –

Os acontecimentos na esfera político-eleitoral surgem e desaparecem com muita rapidez.

É preciso, portanto, estar atento para não sermos levados pelos fatos, perdendo a sua necessária – embora às vezes difícil – interpretação, para melhor nos orientarmos num campo tão complexo.

Particularmente, algumas eleições presidenciais aumentam de modo significativo as nossas dificuldades interpretativas. Sendo necessário algum tempo para esclarecermos nossas dúvidas. E entendermos melhor os fatos políticos.

A década de 1960, quando tudo começou, constitui um marco importante nesse labirinto político. A eleição de Jânio Quadros para Presidência da República, um político fora dos padrões ortodoxos com os quais os eleitores brasileiros estavam habituados, representou uma mudança nas nossas escolhas.

Para início de conversa, Jânio escolheu como símbolo da sua campanha uma vassoura, com a qual pretendia varrer a corrupção e eventuais desmandos dos poderes republicanos. Isso representou a entrada definitiva do moralismo na política, o qual passou a prevalecer pelas décadas seguintes. Expediente usado por falsos moralistas para eleger e afastar governantes.

Jânio, um “paulista de Mato Grosso” como se autodefinia, adotou uma visão muito peculiar do poder central da República. Começou proibindo o uso de biquinis pelas mulheres e brigas de galo. Em plena Guerra Fria resolveu condecorar Che Guevara com a mais elevada honraria nacional. E sem que tivesse tempo de mostrar a que viera, renunciou ao mandato, em agosto de 1961. No 7º mês de governo. Um episódio político até hoje mal explicado e mal compreendido.

Seu gesto de renúncia gerou uma grave crise político-militar, resultando numa mudança do sistema presidencialista para o parlamentarismo, o acordo para que seu vice, João Goulart pudesse assumir. Exigência dos militares, que não queriam Jango presidente com plenos poderes e se preparavam para uma eventual tomada do poder, a qual ocorreria em 1964.

Fernando Collor de Mello, de tradicional família de políticos alagoanos, candidato pelo PRN, em 1989, veio a representar um retorno do moralismo à política, no processo sucessório para a Presidência da República. Collor adotou como slogan o de “Caçador de Marajás”, pois assim categorizava funcionários públicos que auferiam salários elevados, avaliados como imerecidos. Objetivando o controle da inflação, o então presidente cometeu um equívoco imperdoável ao fazer o confisco de depósitos bancários. Medida que não somente não controlou o processo inflacionário, mas provocou um pedido de impeachment presidencial, tendo como pretexto um Fiat Elba, que acabou levando Collor à renúncia, em 1992, na metade do seu mandato. Assumindo o governo seu vice, Itamar Franco.

Após a gestão Itamar houve uma espécie de retorno aos padrões político-eleitorais tradicionais com a eleição de Fernando Henrique Cardoso (dois mandatos), e, em sequência, ambos para dois mandatos, Luís Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Dilma não completaria o segundo mandato, pois sofreria impeachment em 2016, sob o pretexto de “pedaladas fiscais”, assumindo o seu vice Michel Temer.

A partir desses eventos, o país adentraria um momento de grande turbulência política, em função das eleições presidenciais de 2018. Na qual o ex-presidente Lula, candidato natural ao pleito, impedido de concorrer, foi preso, teve cassado seus direitos políticos, resultando na eleição de Jair Bolsonaro, pelo PSL, em segundo turno, derrotando o candidato Fernando Haddad, representante do PT.

Estamos vivenciando o 3º ano do mandato de JB. Em meio a uma grave crise econômica e o enfrentamento de uma pandemia. Um estranho governo, o qual vem revelando o total despreparo do presidente para o exercício das suas funções, após a sua vitória numa eleição completamente atípica.

Como a política eleitoral evoluiu para situações tão peculiares? Tangenciando as fraudes mais grotescas?

A atipicidade das últimas eleições foi completa. Caracterizada pela ausência de debates; não realização de comícios, passeatas, desfiles ou carreatas, entre outras peculiaridades. Das quais se sobressaiu o uso intensivo – e diferenciado – das redes sociais. Fato que já havia chamado a atenção no plebiscito inglês sobre a permanência ou saída da União Europeia – o BREXIT – em 2016; seguido da surpreendente eleição de Donald Trump, no mesmo ano, para a presidência dos Estados Unidos.

O potencial de manipulação do eleitorado, através do Facebook, do Google, Twitter ou WhatsApp, gerando notícias mentirosas – codinome Fake News – tornou-se quase infinito. Desta forma conduzindo o seu resultado final para os caminhos desejados, ocultando a manipulação mais grosseira. Sem exagero, devendo esclarecimentos para a Justiça Comum, não somente para a Justiça Eleitoral.

Em seu livro Os Engenheiros do Caos – como fake news, teorias da conspiração, e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições – Ed. Vestígio, 2019, Giuliano Da Empoli consegue explicar, em detalhes, como se processa a manipulação. Assim, criando um novo animal político, que acredita facilmente nas mais estapafúrdias narrativas, transformando a própria natureza do jogo democrático.

Um fato irrecusável é que as novas tecnologias de informação facilitaram amplamente a invasão de privacidade, hoje uma intervenção simples e de baixo custo. No atual estágio do desenvolvimento da informática o acesso a informações minuciosas e completas sobre as pessoas, contadas aos milhões, não apresenta maiores dificuldades de ordem técnica. Os algoritmos permitem o tratamento e o cruzamento de dados, de tal maneira que se torna fácil para agentes interessados, sejam governos, empresas ou organizações criminosas, acessar e individualizar as informações, focando em seus pontos de interesse. (Dowbor, 2020) O que compromete gravemente os direitos de Cidadania.

As eleições presidenciais brasileiras de 2018 tiveram seus resultados seriamente influenciados pela manipulação tecnológica. E suas consequências são bastante evidentes, para o processo democrático, para a governança do país, e particularmente, para o enfrentamento da Pandemia e para outros fatores que surgem no nosso dia a dia.

Trata-se de um fato novo que deverá ser enfrentado com serenidade, inteligência e humildade, por parte dos cidadãos responsáveis pela defesa da Democracia Brasileira.

Vamos à luta!
________________
(*) Geniberto Paiva Campos é médico e membro da Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP).

Criado em 2021-03-13 16:58:51

Andar a Pé leva propostas aos distritais e ao governador Rollemberg

A propósito da crise entre o governo Rodrigo Rollemberg, Câmara Legislativa e usuários dos serviços de transportes coletivos do DF por causa do aumento das passagens, a Associação Andar a Pé – O Movimento da Gente enviou documento aos parlamentares e ao governador.

A ideia, segundo o ativistas da associação é “contribuir com o debate na busca de soluções”.

Cópia da carta será entregue ao presidente da Câmara Legislativa, Joe Valle (PDT), ao governador Rodrigo Rollemberg (PSB) e ao Grupo de Trabalho que estuda o Decreto Legislativo que deverá suspender o aumento das tarifas na reunião extraordinária de amanhã (12/1).

No documento, a Andar a Pé apresenta propostas concretas para serem debatidas pelo governo, pela CLDF e pela sociedade e, ao final, afirma: “Acreditamos no diálogo para que avancemos na transformação de uma cidade moderna à época de sua construção, mas que está caminhando sem freio na direção de um modelo de transporte abandonado no mundo todo por ser arcaico, insustentável e socialmente injusto”.

Eis a íntegra da carta aos parlamentares e ao GDF:

“Srs. Deputados Distritais e Sr. Governador do Distrito Federal,

A presente discussão sobre o aumento das passagens do transporte coletivo em Brasília coloca à Câmara Legislativa do DF e ao Governo de Brasília uma excelente oportunidade para que se implante, de fato, uma política de mobilidade urbana moderna nesta cidade.

Algumas das principais cidades do Brasil já se puseram nesse caminho, seguindo os países mais avançados que vêm, desde os anos 1960, instituindo a priorização do transporte público coletivo, a indução de formas de mobilidade ativa e impondo restrições progressivas ao uso do transporte individual, notadamente ao automóvel.

É nesse sentido que a Associação ANDAR A PÉ – O MOVIMENTO DA GENTE vem apresentar, a essa Casa e a esse Governo, uma proposta que busca estruturar uma política de mobilidade de forma democrática e sustentável.

Pretendemos igualmente, ajudar a solucionar o impasse atual entre a imposição de uma tarifa de transporte público extorsiva e a dificuldade de encontrar recursos necessários ao suprimento do alegado deficit financeiro.

Os pontos principais desta proposta são a seguir detalhados:

1.    Efetivação da Política Nacional de Mobilidade Urbana garantindo a prioridade dos pedestres, demais modos ativos e do transporte público coletivo sobre o transporte privado, assegurando a participação social em todas as etapas da definição e implementação dessa política.

2.    Aprovação de um PLANO DE METAS PARA A POLÍTICA DE MOBILIDADE URBANA determinando, no mínimo:
a.   Aumento progressivo do espaço de circulação destinado ao pedestre, aos demais modos ativos e ao transporte público coletivo em detrimento do transporte em veículos automotores privados;
b.    Aumento progressivo dos custos associados à propriedade, à circulação e ao estacionamento de veículos automotores privados; e
c.    Redução progressiva dos custos associados aos modos coletivos de transporte público coletivo.

3-    Criação de FUNDO PARA A POLÍTICA DE MOBILIDADE URBANA composto minimamente por:
a.    CIDE transferida pelo governo federal;
b.    Percentual do ICMS sobre combustíveis destinados aos modos de transporte automotores privados;
c.    Percentual do IPVA;
d.    Receitas da política de estacionamentos; e
e.    Percentual da receita das multas de trânsito.

4-    Instalação do CONSELHO DE MOBILIDADE URBANA, com caráter deliberativo, que conte com a participação efetiva do governo, dos prestadores de serviço em transporte, dos usuários e de organizações da sociedade civil para a aprovação e o acompanhamento do Plano de Metas, da política tarifária e da aprovação de investimentos para a Política de Mobilidade Urbana do DF.

5-      AUMENTO da alíquota do ICMS sobre combustíveis destinados aos veículos automotores privados visando destinar fundos para a redução das tarifas do transporte público coletivo.

6-    Articulação com o Governo Federal RESTABELECENDO A CIDE, por meio de Decreto Federal e, consequentemente, transferindo aos Estados e ao Distrito Federal o valor arrecadado.

Acreditamos no diálogo para que avancemos na transformação de uma cidade moderna à época de sua construção, mas que está caminhando sem freio na direção de um modelo de transporte abandonado no mundo todo por ser arcaico, insustentável e socialmente injusto”.
Brasília-DF, 10 de janeiro de 2017.
ASSOCIAÇÃO ANDAR A PÉ – O MOVIMENTO DA GENTE
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Criado em 2017-01-11 02:12:54

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