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Página 33 de 95

Entre o Sublime e a Revolução

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Emily Dickinson (1830-1886), a maior poeta americana, talvez do mundo, começou a estudar botânica aos nove anos. Ela costumava acompanhar a mãe nos cuidados do jardim de sua casa. Por volta dos 17, organizou um herbário de flores secas prensadas mais ou menos no mesmo período em que passou a compor poemas de maneira sistemática.

O herbário, hoje depositado na Biblioteca Houghton de Livros Raros em Harvard, contém 424 flores da região de sua cidade natal, Amherst, Massachusetts, classificadas com os nomes científicos.

Na tradição dos poetas e filósofos como Epicuro (341 a.C. – 271 a.C.), São Bento, Bashô e Henry David Thoreau, que preferiam ficar a sós do que mal acompanhados, Emily se afastou da sociedade para cultivar o seu jardim como se fosse um paraíso particular. Num poema de 1860, ela diz:

Some keep the Sabbath going to Church –
I keep it, staying at Home –
With a Bobolink for a Chorister –
And an Orchard, for a Dome –

…………………………………………  

Alguns guardam o Sábado na Igreja –
Eu o guardo no Quintal –
Com a triste-pia de Corista –
E um Pomar de Catedral –
…………………………………………

Rosa – A polaco-alemã Rosa Luxemburgo (1871-1919) foi outra mulher forte a organizar um herbário, desde maio de 1913, em Berlim, até meados de outubro de 1919, na prisão de Breslau. A coleção está espalhada em 18 cadernos cujos fac-símiles foram reunidos e publicados em livro em 2019 pela editora Karl Dietz de Berlim.

O sonho de infância de Rosa Luxemburgo era ser botânica, mas o  Império Russo de então, incluindo parte da Polônia, proibia as mulheres de cursar a universidade. Por essa razão, depois de concluir o colégio em Varsóvia, Rosa fugiu para Zurique, Suíça, para estudar Economia Política e Direito. Lá conheceu o companheiro lituano Leo Jogiches e se entregou à causa da Revolução.

Nunca abandonou, porém, a paixão pela botânica e as ciências naturais. A coleção de flores, para a qual contribuíam muitos de seus correspondentes, era um consolo nos momentos de angústia. Numa carta ao camarada Wilhelm Liebknecht, de 24 de novembro de 1917, Rosa disse: “Estou bem, trabalhando ativamente com a  geologia, a qual me interessa imensamente porque combina várias coisas – mineralogia, química, física, zoologia, botânica, astronomia –, envolvendo um pouco de tudo isso e compondo um belo quadro geral. É uma pena que a vida seja tão curta, e a política imponha outros deveres, senão eu gostaria de me dedicar a isso”.

Um ano e dois meses depois, Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht e Wilhelm Pieck, líderes do Partido Comunista da Alemanha, seriam massacrados pelo Freikorps, um grupo paramilitar precursor da SS nazista.

Criado em 2021-08-09 23:24:30

Saudades tecnológicas

Luiz Martins da Silva –

Lugar tão distante, de se pensar nunca mais ter-se uma chance, tal a milhagem aérea. Conselho de gente de casa, não leva câmera cara. Levei, então, uma antiguinha, simplória.

Tanto a registar, o primeiro filme foi rapidinho. Fui a um cinefoto comprar mais um. Ocorreu, lá chegando, o balconista examinou a máquina, pediu licença e foi para trás de uma divisória. Veio de lá com dois senhores. Dedução: neto, pai e filho. Confabularam em japonês. Tradução, não viam uma daquelas havia muito tempo. Por mera casualidade, ainda tinham em algum canto um último cartucho. Esperei.

Paguei e fui tirar, uma a uma, as últimas fotos da vida da maquininha. Sensação de se despedir de uma namorada, que não me enviaria notícias e seria sepultada por lá mesmo. Fiquei um tanto acabrunhado, mas, logo me fiz de vítima: “O meu amor por ela já não era mais correspondido’.

Àquela época, nem tanto. Hoje, é na bucha. Dia desses, numa papelaria, gostei de uma caneta de escrita fina, delícia para langorosas caligrafias. Preço, bobagem, não pagaria um café com pão de queijo. A resposta à pergunta adicional é que foi embaraçosa: “Não, terminada a carga não há refil”. Descartável, então? Completamente, sentenciou a balconista em português-brasileiro.

Isto me fez lembrar uma aula que dava de História da Imprensa e notei que ninguém estava entendendo o que era um “aparelho de radiofoto”. Tempos atrás, eu era repórter de texto, viajei acompanhado de um fotógrafo, tipo Cosme e Damião. Traquejado, eu ia direto a alguma cabine que aceitasse franquia telegráfica e digitava a matéria diretamente num telex, rascunho nem pensar.

Dificuldade foi quando ‘catei milho’ num teclado encontrado na África. Na ponta de cá, o meu chefe escreveu uma humilhação: “Vou te mandar para uma aula de telex”. Aceitei, com uma condição: “Se for de telex francês do tempo da primeira guerra, tá combinado”. E isto porque eu estava num “hotel de primeira classe”, de uma capital africana bem moderna.

Em viagens profissionais, terminada uma cobertura, o meu colega ‘Damião’ ficava no banheiro do hotel, onde improvisava um laboratório. Mal a foto saía do molhado, ele desenroscava o bocal do telefone e grampeava com dois “jacarés” os polos de transmissão. Ligava a maleta de radiofoto e ela começava a piar. Cada pio era um sinal enviado e também uma linha a aparecer no papel, no aparelho receptor. Na recepção, linha preta + espaço e, se a linha telefônica não caísse, lá estaria a prova mais convincente do fato, uma radiofoto.

Com texto e imagem, o editor tinha como avaliar se valera a pena o dinheiro gasto com enviados especiais. Dia seguinte, a gente não aguentava a curiosidade e passava uma mensagem perguntando sobre o resultado. Bem – respondia –, matéria assinada, foto e manchete na primeira página. O máximo. É claro que esperávamos também elogios. Mas, isto nem sempre acontecia. Afinal, estávamos cumprindo apenas a nossa a obrigação.

Criado em 2020-03-06 16:29:48

Lava Jato: Origens e implicações

Geniberto Paiva Campos –

“Pobre México, tão longe de Deus, tão perto dos Estados Unidos!”. Dizia, em tempos idos, um cidadão mexicano, inconformado com perda de metade do território de seu país para os americanos. Aos poucos vamos nos dando conta de que, nos tempos atuais, somos todos mexicanos...

O Império Norte Americano atua num mundo que acredita lhe pertencer, por direito incontestável, talvez divino. Com fundamento no que eles denominam “Destino Manifesto”. O qual serve como justificativa para suas intervenções nos mais diversos quadrantes, desde que tentam assumir o controle sobre todos os fatores – reais e imaginários - que julgam interferir nos seus interesses, imediatos e futuros.

E a defesa dos interesses do Império tornou-se uma espécie de segunda pele de cidadãos oriundos dos mais diversos países, sobretudo da América Latina, a partir da Guerra Fria. Pela qual foram contaminados, naturalizando um comportamento que em outras épocas, não tão remotas, seria enquadrado como crime de “Traição à Pátria...”

É a partir do entendimento desse tipo de comportamento da cidadania brasileira, que poderemos compreender mais claramente o fenômeno da origem da “LAVA JATO” e as suas sérias implicações.

Houve um tempo em que o Império atacava, e subjugava, os países considerados adversários com a força militar. Com a adesão quase automática de segmentos populacionais desses países, o uso da força tornou-se, na prática, desnecessário. Esses cidadãos passaram a cumprir o papel das forças de ocupação do Império de uma maneira quase aberta, sem qualquer receio de serem acusados de traidores da sua pátria. Embora atuando na defesa de interesses estrangeiros, no seu território de origem. Uma das características fundamentais da “Guerra Híbrida”, que substituiu a Guerra Fria, como forma de dominação.

Dessa forma o Império intervém, há décadas, no direcionamento da política interna do Brasil. Nos seus primórdios, para impedir a instalação de regimes comunistas, a exemplo de Cuba, em 1959. Atualmente, sob o pretexto de “combater a corrupção”. Com a cumplicidade do Sistema Judiciário o qual, na ausência completa de provas, alega “fatos indeterminados” na condenação dos réus, objeto de tenaz perseguição política, com acobertamento jurídico. E o apoio incondicional, militante, por vezes cúmplice, da “Mídia Corporativa”. E os réus são vítimas da “delação premiada”, uma nova forma, não tão sutil de obter delações de outros réus do processo, que ao fazer a delação que interessa aos “juízes”, obtêm favores especiais. E a Justiça? Ora, a justiça... O mais importante é atingir os objetivos definidos pelo Império. E executados pela LAVA JATO.

Antes de abordar alguns detalhes da operação “LAVA JATO”, incluindo seu estranho modus operandi, precisamos analisar as forças e os interesses que lhe deram sustentação.

As intervenções do Império, nos países latino-americanos tornou-se rotina, mesmo na vigência de governos democratas, que diziam defender, preferencialmente, regimes institucionais para proteger esses países da chamada “ameaça comunista”.

Nesse sentido, a criação, por pressão norte americana, do Colégio Interamericano de Defesa, evolução natural da Junta Interamericana de Defesa, poderia se transformar, de acordo com um arguto diplomata brasileiro, numa “academia de golpes de estado”. Na qual militares americanos formariam seus colegas latinos para o combate permanente à ”ameaça comunista”. Ou o que isso possa significar – “what ever that means” – na língua materna...

O controle do Império Americano sobre algumas regiões estratégicas passou a ser exercido amplamente, principalmente em locais mais importantes, nos quais a América do Sul estava naturalmente incluída.  O primeiro desses tais “objetivos estratégicos permanentes”, de um total de 10 (dez) é: “Impedir que Estado ou aliança de Estados possa reduzir a influência americana na região.”

Para se ter uma ideia mais precisa dos fundamentos da intervenção permanente do Império na região, vale a pena tomar conhecimento dos outros nove objetivos, listados pelo embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, no livro Relações Obscenas, as revelações do The Intercept/BR – Ed. Tirant lo Blanch – SP, 2019 (não se trata de literatura pornô...)

No cerne de toda essa absurda perseguição a uma expressiva figura política, ex-presidente da República, permanece uma questão que não quer – e não pode – calar: por que o Partido dos Trabalhadores, vitorioso em 4 (quatro!) eleições presidenciais, em sequência, a partir de 2002, com percentuais de aprovação superior aos 80%, teve de deixar o poder, através da aplicação de um golpe político - institucional, mal disfarçado? Com a cumplicidade ativa, quase servil, de instituições nacionais de significativa importância: Judiciário, Congresso Nacional, Mídia Corporativa e segmentos das Redes Sociais.

Quem teria tomado a decisão de afastar, através de impeachment, um governo legitimamente eleito? E não estamos falando, somente, dos executores internos desse golpismo de ocasião, ressuscitado na segunda década do século 21. Mas dos verdadeiros chefes do movimento golpista.

Aqueles que tomam as decisões, para, assumindo todos os riscos, interferir nos assuntos internos do país. E, claro, estamos falando do Império, que reina, absoluto, há décadas! Tomando decisões, automaticamente assumidas pelos países que se tornaram satélites. Abdicando dos valores democráticos...

Talvez a explicação mais plausível para a deposição da presidente Dilma Rousseff, em 2016, seguida da prisão arbitrária do ex-presidente Lula da Silva e da cassação dos seus direitos políticos, no intuito de impedi-lo de concorrer às eleições presidenciais em 2018, seja, mais uma vez, a intervenção direta dos Estados Unidos, na política interna brasileira.

A criação dos BRICS em 2009, composto pelo Brasil, Rússia, Índia, China – dois anos depois com a inclusão da África do Sul – teria sido assumido pelo Império como séria ameaça, desde que fosse a alternativa ao Banco Mundial e ao FMI, na medida em que a o BRICS representa 42% da população mundial; 23% do PIB; 30% da base territorial e 18% do comércio.

Ao contrário da tolerância conciliatória com o Mercosul, criado em 1991, na realidade um projeto binacional – Brasil e Argentina, com a adesão subsequente de outros países do hemisfério e, posteriormente de outras regiões. O Mercosul não foi considerado uma ameaça.

Parece ter sido grande a repercussão dos BRICS nas avaliações do Império, com grande impacto na decisão de colocar um ponto final, se necessário com o uso de recursos golpistas, assumidamente ilegais, na sequência dos governos do PT. E assim, abdicamos, mais uma vez do processo democrático.

É provável que retornemos ao assunto. Noblesse oblige...

É 

Criado em 2021-03-30 17:59:08

Projeto de lei proíbe garrafas não retornáveis no DF

Romário Schettino -

A ideia é só permitir a comercialização de cervejas, refrigerantes e águas minerais em embalagens de vidro retornáveis. A proposta foi apresentada pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES-DF) ao deputado distrital Chico Vigilante (PT), que deve transformá-la em projeto de lei.

Pelo projeto, são consideradas retornáveis as garrafas projetadas e fabricadas para não serem descartadas após a primeira utilização, com previsão de serem reutilizadas, até 30 vezes, antes de serem destinadas como resíduo sólido.

Ficam de fora da restrição as cervejas, refrigerantes, águas minerais e águas adicionadas de sais embaladas fora do Brasil e as produzidas e engarrafadas por microempresas ou produtor artesanal, mas essas terão prazo não superior a 24 meses para se adaptarem ao novo regulamento.

A intenção é dar um sentido ambientalmente sustentável aos rejeitos derivados desse tipo de lixo. Informações prestadas pelo Serviço de Limpeza Urbana (SLU), indicam que as embalagens de vidro descartadas no DF não apresentam viabilidade econômica para sua reciclagem, já que as fábricas de garrafas estão localizadas longe da Capital Federal.

Segundo a Associação Técnica Brasileira das Indústrias Automáticas de Vidro (Abividro), só existem fábricas de garrafas de vidro no RS, SP, RJ, MG (Uberlândia), PE e SE.

O que determina a viabilidade da reciclagem de vidro é a distância entre a fábrica mais próxima de uma determinada cidade.
 
No DF, cerca de 22 mil toneladas de vidro são aterradas por ano, quando a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) dá preferência a embalagens reutilizáveis, ou seja, retornáveis.

O fato de todas as embalagens de vidro descartadas nos domicílios, hotéis, bares e restaurantes estarem sendo aterradas após o consumo, onera a Taxa de Limpeza Pública (TLP) paga pelos moradores do DF.

Em muitos países do mundo, em especial na União Europeia, as embalagens são de responsabilidade das empresas também na fase pós-consumo.

Ou seja, o agente econômico que coloca um produto embalado no mercado é responsável pela gestão da embalagem descartada e deve garantir sua reciclagem.

No Brasil, embora a Lei Federal 12.305/10 preveja a implementação da logística reversa para embalagens, nada foi efetivado até agora pelo Governo Federal no que diz respeito às embalagens de vidro.

É por isso que os engarrafadores de bebidas não assumem nenhuma responsabilidade se o Aterro Sanitário de Brasília tiver sua vida útil diminuída pela incrível quantidade de garrafas de vidro descartadas e que são simplesmente aterradas.

Cabe ainda observar que os restaurantes, cafés, hotéis que se caracterizam
como grandes geradores desse tipo de lixo, e que arcam com os custos da coleta, transporte e destinação dos seus resíduos sólidos não recicláveis, poderiam pagar menos por esses serviços se nesses resíduos não estivessem incluídas as garrafas de vidro descartáveis.

Nessa proposta da ABES não está previsto incluir na restrição as garrafas de cachaça e outras bebidas destiladas, nem para o vinho e sucos de frutas, em razão do padrão de consumo diferenciado que bebidas como cerveja, refrigerantes e águas apresentam.

Um outro motivo relevante para essa medida está no perigo que as garrafas descartadas representam para os garis durante a coleta.

Criado em 2017-04-11 19:56:36

Mostra Adrian Cowell de Cinema Socioambiental na UnB e online

O Núcleo de Estudos Amazônicos (NEAZ), da Universidade de Brasília, promove, entre os dias 20 e 24 de junho, a exibição de filmes e debates sobre Histórias da Amazônia: Mostra Adrian Cowell de Cinema Socioambiental.

Esse evento traz reflexão sobre temas socioambientais de grande relevância para a Amazônia, especialmente no momento em que se agravam os índices de desmatamento e conflitos violentos na região.

Quando o país e o mundo se comovem com o brutal assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, o presidente Jair Bolsonaro demonstra seu desprezo e desrespeito aos valores humanos que envolvem a trágica política indigenista brasileira.

A mostra tem como objetivo estimular reflexões, debates e a ampliação do conhecimento público sobre temas socioambientais de grande relevância para a Amazônia, num momento crítico para o país e o planeta, a partir da obra do cineasta britânico Adrian Cowell (1934-2011), produzida ao longo de cinco décadas com parceiros brasileiros.

Durante cinco dias, serão realizadas seis sessões de longas e curtas metragens, contando com a exibição de filmes emblemáticos de Cowell e equipe, e de trabalhos recentes de uma nova geração de cineastas que seguem seu legado e inspiração.

Junto com a exibição dos filmes, haverá mesas de debate sobre o tema de cada sessão, com a participação de lideranças de povos indígenas e de movimentos sociais, de cientistas, parlamentares, cineastas e representantes de entidades socioambientais.
______________
Serviço:
Mostra Adrian Cowell de Cinema Socioambiental
Dias: 20 a 24 de junho
Local: Beijódromo - UnB
Horários: Segunda (20) e sexta (24) - às 17h; terça (21), quarta (22), quinta (23) - às 17h30.
Plataforma Amazônia Flix
Acesso aos filmes de segunda a sexta:
https://amazoniaflix.com.br/
Link para a Mostra:
https://mostraadriancowell.com.br/

 

Criado em 2022-06-15 22:47:00

Ato em defesa da Floresta Nacional de Brazlândia

Nesta quarta-feira, 7/7, às 10h, ato público em defesa da Floresta Nacional (Flona) Sustentável, em frente à Administração de Brazlândia, Distrito Federal.

A Flona é uma Unidade de Conservação com árvores de espécies nativas ou exóticas e de proteção especial do Estado destinada à sociedade. As Flonas são de posse e domínio público e foram criadas por lei para as comunidades locais. A Região Administrativa de Brazlândia possui duas Flonas, das quatro existentes no Distrito Federal.

Por lei, deve haver um Plano de Manejo para o uso múltiplo e sustentável dos recursos florestais bem como pesquisas científicas na área.

Infelizmente, foi descoberto através das denúncias no Fantástico, da TV Globo, que as madeiras retiradas das Flonas de Brazlândia estão sendo desviadas. E pior, essas Flonas, que são geridas pelo ICMBio e por um chefe designado, estão tendo desvio de madeiras por meio de articulação com o administrador de Brazlândia. O chefe da Flona foi exonerado, mas não é o bastante. As denúncias são graves.

São 9,3 mil hectares com a derrubada ilegal de muita madeira em área ambiental. O Meio Ambiente não pode ser militarizado em prol da corrupção. Como está sendo gerido o Plano de Manejo da Flonas de Brazlândia para as comunidades? Onde estão as pesquisas científicas da área? Por que a Administração de Brazlândia está dando aval para a prática de desvio de madeira da Flona, sendo que estas deveriam pertencer à comunidade local?

“Pelo afastamento do Administrador enquanto durarem as investigações”, defendem os organizadores do ato.

Criado em 2021-07-06 21:13:45

Encantados

O premiado filme Encantados, de Tizuka Yamasaki, estreará nas telonas em 7 de dezembro, no Pará. Em breve chega aos cinemas de todo Brasil. Uma coprodução entre Globo Filmes e Scena Filmes, o longa é inspirado na história real da Pajé Zeneida Lima, nascida no município do Soure, na Ilha de Marajó. Encantados acompanha as transformações na vida da adolescente Zeneida: de garota comum a Pajé; de menina a mulher. No filme, Zeneida (Carol Oliveira) é uma bela cabocla que sofre com a incompreensão da família por seus dons e por causa de sua paixão pelo jovem e misterioso Antônio (Thiago Martins), um ser sobrenatural, um encantado, um Caruana, que ela conhece em Marajó.

facebook.com/encantadosofilme

Criado em 2017-11-22 13:51:26

Foucault e a voz das ruas contra a reforma da Previdência

Maria Lúcia Verdi –

Um capítulo do “as palavras e as coisas”, de Foucault, se intitula Trabalho, Vida, Linguagem.

Olho em torno e vejo os desempregados, os excluídos ao relento e os empregados do outro lado. Separação que não se costura.

A vida se expressa de infinitos modos, louváveis (quase sempre na natureza) e revoltantes (quase sempre na civilização), e nós tentamos compreender a linguagem que sai das coisas, das situações, decifrar secretas mensagens e articulá-las com as já conhecidas, resistir ao discurso do poder, a qualquer discurso de supostas verdades.

Estamos na Capital do Brasil, um Brasil tão diverso do dos anos 60, uma capital pensada para ser outra coisa. No recorte que é o Plano Piloto, a vida ondula entre as árvores e os canteiros de flores, apenas perturbada pelos que expõem, a céu aberto, uma outra verdade.

A mentira e o horror oficial, a vulgaridade e o descaso tentam convencer, com retórica lamentável, por exemplo, que a reforma da Previdência é uma reforma, não uma destruição.

Nada realmente importa para eles, os Todos Semelhantes, pois para eles nada mudará.

Por que haveria de verdadeiramente importar a vida desses trabalhadores, ou desses excluídos, se nem de fato entendem a linguagem que expressam, nascida de necessidades que desconhecem.

Passam, atravessam seu tempo histórico, cumprem mandatos, nada que transcenda.

O que nos diz a vida nas ruas é outro discurso. Descaso. Revolta. Inquietude. Resistência.

______________________

 Este artigo foi publicado originalmente neste mesmo site no dia 18/3/2017. Reproduzimos aqui porque nada mudou de lá para cá. Pelo contrário, piorou, e muito.

Criado em 2019-04-16 16:19:45

Ou ficar a pátria livre ou lutar pelo Brasil

Angélica Torres –

Aqui matutando, direto no ponto: cada um de nós vai ter que desenvolver uma ou mais responsabilidades coletivas, de acordo com nossas faculdades pessoais, porque: se o país tem hoje uma quantidade x de desempregados e entre esses há uma grande massa de cidadãos em idade de procriação – e que irão procriar, o que é natural, a vida é imperiosa e segue em frente –, a miséria se alastrará rápida e desgovernadamente entre nós no futuro próximo.

Isso, sem falar nas crianças e nos adolescentes de agora, os explorados e os que ainda vão entrar no mercado, que serão os novos proletários da pátria amada. Assim, sem perspectivas para a recuperação do emprego e do salário nos horizontes de um país continental, a ameaça do caos se avulta e quando despertarmos para a dura realidade, será tarde demais.

O pior é que sabemos bem disso, então, convenhamos: se não se tiram os larápios que estão no poder, se é para aguentarmos sufocados, humilhados, vilipendiados, sabe-se lá quantos anos mais, com a política de golpes que aqui se instalou, temos de agir logo, de algum modo, em socorro.

Ou será que a faísca de uma grande insurreição, como acenou o jornalista Bob Fernandes na entrevista com Lula, poderá ainda ocorrer, contra a letargia em que estamos imersos? O país vai se armar e enfrentar milícias, polícia, lava jato, o Judiciário e o Congresso coniventes, os Estados Unidos com a CIA e o sistema financeiro internacional, todo esse aparato que vem nos impingindo o naufrágio diário? Não vai. Não tem se mexido. Não tem condições para tanto, esgotado, apático, impotente, perdido que está – e temos consciência de tudo isso.

Se nada se faz, se nada acontece, uma via alternativa de resistência, uma contribuição inteligente ao Brasil, como diriam Caetano e Gil, precisa surgir. Todas as áreas, todas as faculdades humanas, como poderiam atuar com afinco, neste momento cruel, em função da ideologia à esquerda, que pensa no coletivo?

Sempre me cismou que, a despeito da aritmética ter quatro operações, a economia achou de firmar a base das possibilidades existenciais na subtração e na má divisão. Por que não buscarmos nos assentar na soma e na multiplicação? O que a ciência humanista poderá fazer neste sentido pelo país desvalido? Os do saber, da pesquisa, a universidade, como poderão desdobrar as fibras da inteligência para não deixar a miséria nos dominar e nos engolir?

Urge estudarmos muito uma forma de trabalhar com criatividade em prol da coletividade, para obtermos a multiplicação do necessário geral, já que governo não há mais; em acepção alguma do que se concebe como governo. Como uma economia alternativa poderá progredir fora do sistema que está nos massacrando?

Verdade que há pessoas que, individualmente ou em grupos, têm desenvolvido iniciativas solidárias. Mas o que os profissionais em geral têm a oferecer? Sociólogos, agrônomos, comunicadores, professores, matemáticos, engenheiros, arquitetos, médicos, advogados, artistas, psicólogos e até mesmo estudantes e aposentados? Alguma coisa temos rapidamente que fazer, porque todo o atendimento volta-se novamente à nata.

Proliferam-se os vis interesses que beneficiam os mesmos de sempre, a pirataria desvairada solapando tudo -- e lembrando que para essa elite, a massa pode se desmilinguir no desemprego, que não lhes fará diferença. O lastro dos ricos é vasto. Viverão, folgazões, como baratas pós-bombardeios atômicos. Já as escassas condições dos demais nos mostram um quadro desolador do direito à vida.

Se não se parte para a luta, se já se observou que ir para a rua em protestos é muito bonito e forte, nos revigora mas não surte efeito, então, é necessário começar a pensar em algo efetivo. Vamos começar a nos reunir em grupos para pensar juntos, arregaçar as mangas e buscar picadas diferentes de resistência ou ficaremos, e só os mesmos poucos de sempre, apenas na "festa" das manifestações e nas lamúrias, enquanto as instituições dão de ombros e cidadãos se alienam perante o descalabro?

Criado em 2019-08-23 18:43:00

Monica Benicio: "Os bandidos precisam ser condenados pelo assassinato de Marielle"

Romário Schettino –

Em entrevista a este site e ao "Brasil Popular", a vereadora Monica Benicio (PSOL) disse que vai manter a luta pela conclusão das investigações sobre o violento assassinato de Marielle Franco: “Acredito que as autoridades devem uma resposta ao Brasil e ao mundo, pois este foi um grave atentado à democracia. É necessário que os movimentos sociais mantenham mobilização permanente para cobrar uma resposta à altura da gravidade desse crime. Os bandidos precisam ser responsabilizados na forma da lei!”.

Sobre os cuidados com a sua segurança pessoal, Monica disse que “todas as medidas estão em pleno vigor desde a campanha eleitoral e, após a eleição, foram reforçadas. Vale lembrar que além da atuação local, que é realizada pelas melhores e mais qualificadas equipes do nosso país, existe uma medida cautelar da OEA que responsabiliza o Estado brasileiro em caso de violação à minha integridade”.

Ao assumir seu mandato, Monica Benicio fez críticas ao prefeito Eduardo Paes (DEM). “Apesar de ele estar trazendo a vacina para o Rio, observamos um posicionamento ambíguo. Ao mesmo tempo em que divulga fiscalização das aglomerações, em ações da Secretaria Municipal de Ordem Pública, que historicamente são truculentas e autoritárias, autoriza a realização de shows, o que não deveria ser permitido”.

Monica falou também sobre o projeto de revitalização do Centro do Rio, que não “deve ser excludente”, e emitiu opinião sobre as chamadas políticas identitárias.

Sobre a gestão Bolsonaro, Monica disse que este “é um governo infame, perverso, um verdadeiro flagelo para o Brasil”. E que é “preciso construir uma unidade de forças forjadas na oposição ao campo político bolsonarista, sem deixar de lado a defesa de um projeto democrático, popular, antirracista, feminista e ecológico”.

Monica Benicio, 34 anos, é militante de direitos humanos e ativista LGBTI+. Arquiteta urbanista, formada pela PUC-Rio, onde também se tornou mestre em Arquitetura na área de "Violência e Direito à Cidade".

Nascida e criada na favela da Maré, no Rio, Monica foi eleita vereadora com 22.919 votos e tem pautado sua atuação na promoção e defesa dos direitos das mulheres e no debate urbanístico com foco na inclusão social.

Desde a execução de sua companheira, Marielle Franco, em 14 de março de 2018, vem se dedicando incansavelmente na luta por justiça para este crime bárbaro, se tornando referência internacional na defesa dos direitos humanos.

A seguir, a íntegra da entrevista:

Como o seu mandato pretende contribuir para a conclusão das investigações sobre o assassinato de Marielle Franco?

Pretendemos atuar institucionalmente, dentro daquilo que está ao alcance de um mandato no legislativo municipal.  Acreditamos que as autoridades competentes devem uma resposta ao Brasil e ao mundo, pois este foi um grave atentado à nossa democracia. Para além da cobrança institucional, é necessário que os movimentos sociais mantenham mobilização permanente para cobrar uma resposta à altura da gravidade desse crime. Os bandidos precisam ser responsabilizados na forma da lei!

Qual a sua expectativa em relação ao novo Ministério Público do Rio de Janeiro tendo em vista o caso Marielle?

Ainda não tenho informações a respeito da nova equipe, porém o fato de terem feito as alterações sem nenhuma consulta às partes envolvidas foi um sinal muito ruim. Estive na posse do novo procurador-geral do MPRJ e me coloquei à disposição para ajudar no que for preciso.

Há alguma ameaça à sua integridade física desde que assumiu o cargo de vereadora? Se há, o que está sendo feito para garantir a sua proteção?

Todas as medidas de segurança estão em pleno vigor desde a campanha e, após a eleição, foram reforçadas. Vale lembrar que além da atuação local, que é realizada pelas melhores e mais qualificadas equipes do nosso país, existe uma medida cautelar da OEA que responsabiliza o Estado brasileiro em caso de violação à minha integridade.

O desrespeito às minorias, associado à violência estimulada, a homofobia, a lesbofobia, são os principais problemas apontados por quem critica a gestão de Marcelo Crivella e seu aliado Jair Bolsonaro. Como o seu mandato pretende enfrentar essas questões?

Acho que é importante trazer essas questões para o centro do debate. Mostrar que uma cidade segura, inclusiva e funcional para as ditas minorias é uma cidade boa pra todo mundo. No âmbito municipal podemos elaborar ações concretas de geração de renda, centros de acolhimento, promoção da cidadania que alavanquem a população LGBT do Rio ao status de plenas cidadãs e cidadãos. É o que está faltando: reconhecer e valorizar a participação efetiva das pessoas pertencentes a este grupo na construção da nossa cidade. Somos cidadãs e merecemos respeito.

Há uma discussão sobre a efetividade das chamadas políticas identitárias. Alguns estudiosos pensam que essas políticas segregam as lutas em vez de trabalhar a união em torno de uma frente única. Essas pessoas acham, por exemplo, que seria mais eficaz a união das feministas, do movimento LGBTQI+ e dos negros. O que a senhora acha disso?

Eu acho que existe um erro enorme nessa avaliação. Essa visão sobre as pautas ditas identitárias normalmente nega a diversidade existente na classe trabalhadora. A ideia do operário homem, branco, cisgênero e heterossexual é, por si só, um identitarismo, que idealiza um trabalhador que nunca existiu dessa forma na realidade brasileira. Nós somos um povo formado sobretudo por mulheres e por pessoas negras e racializadas. Dessas pessoas, LGBTs são uma parcela menor, mas também expressiva. E todas essas pessoas possuem demandas e lutas históricas que precisam sim se cruzar nas intersecções de classe, raça e gênero, mas não são uma coisa só. São lutas diversas, com históricos diferenciados e com potencial enorme. E é na potência que essas lutas precisam se cruzar, junto com todas as pessoas exploradas e oprimidas por esse sistema.

O que está achando das primeiras medidas do novo prefeito Eduardo Paes em relação à crise sanitária e em relação à vida urbana do Rio?

Diferentemente do último prefeito, Paes está buscando trazer a vacina para o Rio, mas observamos um posicionamento ambíguo da Prefeitura: ao mesmo tempo em que divulga fiscalização das aglomerações, em ações da Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop), que historicamente são truculentas e autoritárias principalmente com as/os trabalhadas/es informais da cidade, autoriza a realização de shows, o que não deveria ser permitido considerando a situação de alto risco do município nesse momento da pandemia. Sem falar da omissão do município perante as comunidades quando o assunto é saúde. Deveria estar sendo distribuído álcool em gel e máscaras, sendo feita a higienização, mas nada. O enfrentamento da crise sanitária precisa ser alvo de política pública integrada e de uma ação de conscientização ampla e baseada em dados, não a partir da responsabilização de indivíduos que na ausência de uma posição efetiva tanto do Governo Federal, quanto do município, se sentem encorajados a não manter o isolamento social. Em relação à vida urbana, há muito o que falar, mas quero destacar a transferência da atribuição de licenciamento urbano e ambiental, que antes estava na Secretaria de Urbanismo, e agora foi transferida para a Secretaria de Desenvolvimento, que tem a missão de “desburocratizar”. Temos que estar atentas e atentos para que não seja feito aqui no Rio o que Ricardo Salles está fazendo com a Amazônia.

A senhora concorda com a necessidade de revitalizar o Centro do Rio? De que maneira isso deve ser feito?

O centro do Rio de Janeiro está vivo e apesar de toda omissão do poder público, inclusive na gestão anterior de Paes, ele é ocupado, vivenciado e apreciado pela população carioca, principalmente pela classe trabalhadora. É claro que melhorias serão bem-vindas mas esse processo deve ser feito de forma democrática e horizontal com a escuta atenta às necessidades da população, das entidades representativas, dos movimentos sociais e da sociedade civil organizada e não somente dos empresários da construção civil e comerciantes. Consideramos óbvia a necessidade de investimento em moradia popular no centro mas não podemos esquecer que Paes anunciou a produção habitacional na região portuária do Rio em sua última gestão, um plano de habitação de interesse social foi elaborado em 2015 e nenhuma unidade habitacional foi entregue por lá, mas a região segue privatizada, onerando os cofres públicos com o oferecimento de serviços que, antes públicos, agora são operados por agentes privados. Queremos moradias no centro mas isso tem de ocorrer sem que haja gentrificação, isto é, esse movimento que encareça o custo de vida no bairro e expulsando os moradores locais. Assim, deve haver investimento no Centro, para atrair mais moradores e comércio, mas o custo de vida não deve aumentar, o valor do IPTU ou eventuais isenções desse imposto devem ser mantidas e, principalmente, não é admissível que a gestão do centro seja privatizada ou vire objeto de concessão.

O Brasil vive um governo cheio de escândalos. O caos vem se instalando dia após dia. Como a senhora avalia o governo Bolsonaro e o que precisa ser feito para unificar a luta contra o seu governo?

Avalio o governo Bolsonaro como infame, perverso, um verdadeiro flagelo para o Brasil. Bolsonaro e seus ministros parecem não se importar com a vida das pessoas. Suas práticas e discursos muitas vezes representam uma real ameaça à democracia brasileira. Suas ações frente à crise causada pela pandemia foram, no mínimo, irresponsáveis e precisam ser investigadas. De maneira simultânea e sem nenhum apoio do governo federal, a população está sendo obrigada a lidar com as duras crises sanitária e econômica. Sendo assim, acredito que o principal desafio atual é derrotar o Bolsonaro nas urnas e o bolsonarismo nas ruas. Para tal fim, precisamos construir uma unidade de forças forjadas na oposição ao campo político bolsonarista. Isso deve ser feito, no entanto, sem deixar de lado a defesa de um projeto democrático, popular, antirracista, feminista e ecológico.

Criado em 2021-02-05 23:59:17

Faleceu em Brasília o jornalista e escritor Jaime Sautchuk

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Morreu no dia 14 de julho em Brasília, de parada cardíaca, o jornalista e escritor catarinense Jaime Sautchuk, 68 anos. Com a saúde muito debilitada, Sautchuk vinha fazendo hemodiálise diária há um ano. Internado na véspera, não resistiu ao agravamento de sua condição.

Jaime costumava dizer que era catarinense de nascimento e goiano de coração. Natural de Joaçaba, aos 13 anos foi estudar em Curitiba, Paraná, onde trabalhou como office-boy e bancário até se tornar jornalista, aos 18 anos.

Em Brasília, trabalhou inicialmente no extinto Diário de Brasília. Passou pelas redações da BBC de Londres, dos jornais alternativos Opinião e Movimento, de O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Veja, Afinal e Diário da Manhã. Fundou com a ambientalista Zezé Weiss a revista Xapuri, da qual foi editor desde novembro de 2014.

Militante do PCdoB, participou das lutas do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal e foi pioneiro em Brasília, no final dos anos 70, dos movimentos de defesa da Amazônia e do Cerrado. Anos depois ele mesmo investiu todo o seu patrimônio na criação de uma reserva ambiental no município de Cristalina, Linda Serra dos Topázios, onde morava nos últimos anos.

Foi um dos primeiros jornalistas brasileiros a contar a história da Guerrilha do Araguaia, em reportagem publicada no jornal Movimento.

Jaime Sautchuk ganhou o prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos com o vídeo independente Balbina, Destruição e Morte, que retratou a devastação do território do povo Waimiri-Atroari pela desastrosa construção da usina hidrelétrica no rio Uatumã, no Estado do Amazonas.

Sautchuk escreveu livros de ficção (Mitaí e Antologia Profética), de reportagem (Projeto Jari – A Invasão Americana; A Guerrilha do Araguaia; Descaminhos do Futebol; O Socialismo na Albânia: um repórter brasileiro no país de Enver Hoxha) e de não-ficção (O Dom de Francisco (sobre o chef do restaurante Dom Francisco); Cruls: Histórias e andanças do cientista que inspirou JK a fazer Brasília; Para Ler Cristovam Buarque (sobre as ideias do ex-governador do Distrito Federal); O Causo eu Conto – sobre Bernardo Élis e o Brasil Central.

Ele deixa dois filhos, Carlos e João Miguel, e uma filha, Rosa, do primeiro casamento com a jornalista Vera Lúcia Manzolillo. Foi casado também com Adinair França e Cláudia Costa Saenger.

Criado em 2021-07-15 14:59:51

Neoliberalismo: A nova ideologia malsã?

Geniberto Paiva Campos –

No tempo da Guerra Fria, os conservadores denominavam o marxismo de “ideologia malsã”. Era essa a terminologia utilizada pelos líderes do “Mundo Livre”, ao fazerem referência aos padrões adotados num outro e estranho mundo, situado atrás da “Cortina de Ferro”.

A visão maniqueísta facilitava a compreensão ideológica de um mundo bipolar, numa luta sem trégua entre o Comunismo – ateu e desumano- e o Capitalismo, o sistema pronto e acabado, destinado a produzir riqueza, progresso e desenvolvimento. Num ambiente de liberdade permanente.

O colapso da União Soviética e dos seus satélites, no início da década de 1990, teria representado a vitória da democracia, com a predominância ideológica do “Mundo Livre”, em todos os rincões do planeta.

A facilidade do desmonte soviético deve ter causado não apenas euforia, mas interpretações apressadas e, sobretudo, equivocadas por parte dos teóricos - pensadores e estrategistas - do "Mundo Livre". Pois o Capitalismo vencedor e sobrevivente, parece ter significado para eles tão somente a hegemonia definitiva, irrevogável, do império norte americano.

Tão ocupados estavam, que não observaram, muito menos interpretaram, o que estava ocorrendo num país isolado e distante, a China, que vinha fazendo opções políticas alternativas à ortodoxia marxista, desde Mao Tsé Tung, em 1949. E que entendeu ser possível, para seu crescimento/desenvolvimento, sob a liderança de Deng Xiaoping, a junção de partes do que havia de melhor nos sistemas capitalista e socialista. Mas - e isso era um ponto fundamental – guardando toda distância possível das Razões de Estado, ou da geopolítica. Dito de outro modo, sem sonhos hegemônicos. Descabidos, situando os sonhadores em permanente estado de beligerância. De riscos incalculáveis para a paz mundial, sobretudo quando os contendores dispõem de armas nucleares.

 Buscava a liderança chinesa, da forma mais inteligente e sem preconceitos, se adaptar ao mundo novo que se descortinava nos primórdios do século 21. Num país que detinha 20% da população do planeta. Criando algo que denominou “Socialismo de Mercado”. Obtendo a cada ano, crescentes, inacreditáveis, taxas de incremento do PIB.

Os que se diziam “vencedores da Guerra Fria” estavam mais preocupados na construção de um novo sistema financeiro que se tornasse, sem alardes, a garantia dos lucros do capitalismo e do poder supremo das elites. Um sistema concentrador de renda; preocupação nula com a variável social; um capitalismo não-produtivo, no qual os direitos do trabalhador deixavam de ser reconhecidos; sua excelência o Mercado assumia o papel de deus: o fundamentalismo do livre mercado. O “regime de sonho capitalista”. Talvez, a novíssima “ideologia malsã”, com o viés indisfarçado do capitalismo financeiro.

A forma de origem, ou o nascimento do Neoliberalismo foi plena de avanços e recuos. Tudo obedecendo ao rigoroso – discretíssimo - planejamento estratégico, na criação não somente de um Sistema Econômico. Mais que isso, de um “Sistema de Crenças”, com seus dogmas de fé. Na incessante busca de adeptos pelo mundo, na certeza da permanente irracionalidade das adesões ditas “ideológicas”. Quase uma matéria de “fé religiosa”.

Nada fácil, portanto, definir a sequência cronológica da implementação da teoria neoliberal. Podendo-se, no entanto, presumir que foi uma sequência plena de avanços e recuos. E, sem exageros, dependente de regimes autoritários – assumidos ou disfarçados - para garantir a manutenção do poder da elite. E a acumulação do capital improdutivo. E, claro, a extinção dos sindicatos trabalhistas. Levando, de roldão, direitos duramente conquistados.

O regime neoliberal, assumido ou “embutido”, quando associado com a barbárie político-ideológica, tende a provocar catástrofes institucionais profundas. Talvez, desmontes irreversíveis da estrutura funcional dos países-vítimas, condenados a serem exportadores de “comodities”, para sempre. Abdicando do seu desenvolvimento econômico, científico, cultural e tecnológico. E de obediência cega – indisfarçadamente servil - ao império americano.

Avaliações isentas do que está ocorrendo no Brasil, há mais de dois anos sob o comando de um desgoverno assumido como neoliberal, causam graves preocupações. Para outros, que se dizem democratas, seria importante que se desse continuidade ao desmonte dos governos chamados progressistas, se necessário, com o uso de infalíveis Golpes de Estado, incorporados, parece que em definitivo, à nossa cultura política. E com novos adeptos. Mesmo que isso venha a colocar em grave risco, o futuro natural do país enquanto Estado-Nação e sua ascensão, também natural, ao status de grande potência.

Seremos, apenas, uma republiqueta de bananas. Vítimas de uma pandemia, perdão, de uma “gripezinha” persistente, que já ceifou a vida de algo próximo a 300 mil brasileiros, a maioria dessas mortes evitáveis. E sem provocar qualquer tipo de sentimento ou preocupação nas chamadas “lideranças neoliberais”, que exercem, impávidas, o desgoverno do país.

 Os resultados estão aí, visíveis. Para os que querem ver... E la nave va.

Criado em 2021-03-24 15:42:51

Mês da Mulher em São Sebastião: Domingo no Parque (das mina)

Cultura e lazer movimentam São Sebastião, a cidade mais tradicional do Distrito Federal. Evento será realizado no Parque Ambiental do Bosque, domingo (19/3), a partir das 14h. Música, poesia, teatro e cinema.
 
Artistas do sexo feminino vão homenagear o mês das mulheres. Confirmada a presença da Dj Karlinha Ramalho, a musicista Carol Carneiro (foto) e a performancer Marina Mara. A programação inclui ainda pintura de rosto, pula-pula e slack line.



O Domingo no Parque é desenvolvido desde 2010 em São Sebastião pelo Movimento Cultural Supernova, todo terceiro domingo do mês.

O principal objetivo é levar lazer à comunidade e ocupar o espaço público, alertando para a necessidade de revitalização do Parque. Neste ano a iniciativa é financiada pelo Fundo de Apoio à Cultura do DF (FAC).

PROGRAMAÇÃO:

Música
Carol Carneiro (regional)
Dj Karlinha Ramalho
Bia e Estela Sena (Pop rock)
Laís Hipólito (Pop)

Poesia
Momento Livre de Poesia
Hellen Christyan - Casa Frida
Estela Sena
Karlinha Ramalho

Teatro
Marina Mara https://www.youtube.com/watch?v=AKp6GX4OHYI

Audiovisual
Dona Filmes Curta Metragem

FICHA TÉCNICA
Coordenação Administrativa - Priscilla Sena
Coordenação Geral - Isaac Mendes
Coordenação Executiva - Nanah Farias
Produção Executiva - Raony Almeida
Assistente de produção - Nanda Pimenta
Apresentação - Isaac Mendes
Assistência de Palco - Vanessa Rodrigues
Decoração - Josélia Pereira
Sonorização e DJ - DJ Nicko
Assistente de som / carregador - Gabranjo Muniz e André Neri
Fotografia - Edvair Ribeiro, Cristiano Silva e Nanah Farias
Cinegrafia - Nilmar Paulo
Assistência de Cinegrafia - Calcifer Oreba
Programação visual - Ricardo Caldeira
Ilustração - Lully Veloso e Ricardo Caldeira
Webdesigner - Wan Gazzu
Assessoria de imprensa - Larissa Souza
Repórter - Nanda Pimenta
Consultoria em comunicação - Devana babu e Ricardo Caldeira
Mídias Sociais - Estela Sena
Elaboração de projeto - Paulo Dagomé
Realização Movimento Cultural Supernova
Apoio Espaço Sideral e S2 News
Parceria Administração Regional São Sebastião, Ateliê itinerante título provisório, Boom Alternative Store, Lambe Lambe Estúdio, Nanah Farias Fotografia, Nilmar Paulo / Mundo Voraz, Olaria Cultural.

Agenda:
Domingo no Parque – das minas
Data: 19/3, a partir das 14h
Local: Parque Ambiental do Bosque em São Sebastião
Endereço: Bairro Residencial do Bosque
Classificação: livre
Entrada franca

Criado em 2017-03-14 14:30:03

UnB tem seu segundo professor indígena em antropologia

Professor da etnia Baniwa estreia em sala de aula como o segundo professor indígena da UnB e o primeiro do Brasil em um departamento e um programa de excelência em Antropologia Social.

Depois de mais de dois anos de aulas remotas, nesse início de junho a Universidade de Brasília (UnB) voltou a oferecer classes de forma presencial e trouxe uma grande novidade entre o professorado com a presença do indígena Gersem Baniwa, como professor do quadro permanente do Departamento de Antropologia da UnB. 

Gersem foi a primeira pessoa da etnia Baniwa a concluir os estudos e, inclusive, o primeiro a receber o título de doutor, pela Universidade de Brasília. Mas seu histórico pessoal de pioneirismo entre os povos indígenas do Brasil não para por aí.

Gersem foi o primeiro indígena com formação em nível de pós-graduação strictu sensu em Antropologia Social no país. E o primeiro a passar em um concurso público para professor no país, na Universidade Federal do Amazonas (UFAM). 

Quando questionado se há na universidade pública brasileira do século XXI outros rostos, cores e etnias que não eram tão vistos outrora, tanto no corpo docente quanto no discente, Gersem diz ser um testemunho vivo de importantes inovações e revoluções político-institucionais realizadas pela UnB nas últimas duas décadas.

“A UnB, o curso de Antropologia e o Departamento de Antropologia de 2004, quando ingressei no Mestrado, não são mais os mesmos hoje. A presença indígena nesses espaços era estranha, exceção, acaso. Eu mesmo passei quase despercebido durante uma década de formação aqui, talvez como meu ingresso se deu antes das cotas, não havia razão para chamar a atenção da comunidade universitária como um todo. Hoje, tanto a UnB, quanto o Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social e o Departamento de Antropologia são outros territórios com forte presença indígena, não apenas como discentes e docentes, mas sobretudo como outros sujeitos coletivos com suas diversidades culturais, étnicas, linguísticas e epistêmicas. Outros rostos, cabelos, pinturas, cores, gostos, sabores, saberes, fazeres e modos de sentir, de ser, de fazer, de viver e de existir. Ou seja, esses importantes territórios institucionais também estão sendo aldeados, demarcados e ocupados, inclusive, nos microterritórios de docência. Assim, aos poucos a UnB e os seus cursos, programas e departamentos vão sendo também dos e com indígenas, porque na prática, nós indígenas sempre estivemos aqui, embora invisíveis, renegados e excluídos dentro da nossa própria terra, na nossa própria casa. Hoje o tempo é outro, outro mundo, outras possibilidades e oportunidades. Essa importante presença indígena foi uma das principais motivações para a minha escolha pelo DAN/UnB para o exercício pedagógico de ensino-aprendizagem nesta fase da vida”.

Com forte tradição na pesquisa ligada ao indigenismo, o Departamento de Antropologia da UnB conta com 4 laboratórios que se dedicam diretamente ou transversalmente ao estudo de nossos povos originários. São eles: LINDE - Laboratório de indigenismo e etnologia, LAGERI - Laboratório e grupo de estudos em relações interétnicas, T/TERRA - Laboratório de antropologias da T/terra e MATULA - Sociabilidades, diferenças e desigualdades.

Alcida Rita Ramos, integrante do LINDE e professora emérita da UnB, costuma contar que desde criança é muito sensível para a questão da alteridade. E quando teve a oportunidade de saber alguma coisa sobre os indígenas, pensou: “é isso que quero fazer, porque eles são outros na própria terra”. E hoje ela, uma das fundadoras na UnB, há exatamente 50 anos, do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) e uma das principais referências sobre o indigenismo no Brasil, destaca que a chegada do professor Gersem ao Departamento de Antropologia da UnB “traz um saudável fôlego ao nosso PPGAS e, por extensão, ao nosso Departamento. Com sua sabedoria, tranquilidade e engajamento, Gersem é um pilar onde se erguerá o presente e o futuro de uma antropologia edificada durante séculos com a sabedoria dos povos originários e chega ao século XXI disposta a abrir os braços para acolher de maneira ainda mais plena esse manancial de conhecimento indígena em suas fileiras de docentes e discentes”.

Entrevista

As aulas de um novo semestre acabaram de começar. Elas são finalmente presenciais, depois de mais de dois anos de ensino remoto. Você acaba de dar sua primeira aula como professor do quadro permanente do Departamento de Antropologia da UnB. Quais sensações e quais sentimentos teve?

O primeiro dia de aula teve uma sensação de muita gratidão e um sentimento forte de retribuição recíproca com o Departamento de Antropologia, da melhor forma possível, na continuidade de sua nobre e excelente missão. Confesso que deu um pouco de frio na barriga e nó na garganta pela tamanha responsabilidade pessoal e institucional diante de expectativas, inclusive de parentes indígenas. A experiência acumulada e o amadurecimento profissional ajudaram a equilibrar a ansiedade. Agora é hora de que o esforço profissional pessoal possa contribuir para um ensino-aprendizagem a altura do curso e do departamento, que são tão qualificados.  

Há mais de 10 anos você é professor universitário em uma universidade federal. Mas agora, em que se difere ser professor em um programa de pós-graduação que existe há 50 anos, nota 7 na CAPES, nota alcançada apenas por duas instituições da área no país?

Cada espaço conquistado é sempre diferente, especial, único. Durante 13 anos ministrei aulas para professores indígenas do Curso de Licenciatura em Formação de Professores Indígena da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Amazonas e foi uma grande aprendizagem e um orgulho ter colaborado nesse tempo com a formação de parentes professores indígenas.

Mas entrar em uma sala de aula de um curso de excelência e como professor efetivo de um departamento onde passei 10 anos da minha vida estudando no Mestrado e no Doutorado tem um sabor e desafio especial. Tenho convicção de que, assim como o Departamento de Antropologia foi marcante na minha formação acadêmica e profissional, como discente, com a volta, agora como docente, poderei continuar aprendendo cada vez mais, assim como poderei contribuir na formação de novos cidadãos indígenas e não indígenas, minha particular retribuição à sociedade. 

Que ensinamento advindo de sua etnia você poderia compartilhar conosco para expressar similitudes com sua chegada como docente no DAN/UnB?

A existência de um Baniwa é ancestralmente repleta de vivências, moradas, caminhos, descobertas, aventuras, aprendizagens, celebrações e transformações. No meu percurso existencial, tive uma importante parada, morada, casa no DAN/UnB por uma década intensa e repleta de realizações e conquistas que marcaram a minha caminhada existencial, inclusive, com profundas transformações. Assim, a UnB se tornou para mim um lugar forte, marcante, místico, um lugar de transformação prática e simbólica. Uma referência existencial. Por isso, a volta ao DAN/UnB, segue a tradição Baniwa, de retorno ao lugar de transformação e constituição da minha própria existência, para a continuidade da caminhada existencial.

Nos primórdios dos tempos, Nhampiriculi, o principal criador do mundo Baniwa, foi criando todas as coisas, a partir de uma longa e complexa jornada cósmica. Em cada parada, acontecimento e situação que ele enfrentou e viveu, aproveitou para criar as coisas, principalmente nas ocasiões de ameaças, em que seus inimigos tentavam matá-lo. As milhares de pedras existentes nas proximidades da atual cidade de São Gabriel da Cachoeira – AM, que formam as inúmeras cachoeiras (daí o nome da cidade), foram resultados de um acontecimento ao longo de sua jornada, quando, ao tentarem matá-lo, ele se transformou em um grande peixe.

A transformação foi uma forma de sobreviver, foi um “milagre”. Tempos depois o peixe foi morto. E para não ter nenhuma chance de se recompor e ressuscitar, foi despedaçado em miúdos e jogado ao rio (Negro). Cada pedaço esmiuçado se transformou em pedra. E hoje elas formam as miríades de cachoeiras e corredeiras. Cada pedra tornou-se sagrada e importante para Nhampiriculi. Assim, os xamãs, quando realizam rituais de cura ou para adquirir sabedorias, precisam antes revisitar aqueles lugares, seja presencialmente ou espiritualmente. A transformação operada por Nhampiriculi para sobreviver, o transformou em uma fonte de sabedoria e de cura. 

Em quais outros âmbitos e momentos você acredita ter sido um precursor?

Eu fui precursor em muitas iniciativas e realizações no campo do movimento indígena e indigenista do meu tempo. Ocorre que esses acontecimentos foram se sucedendo numa sequência na minha vida pessoal e profissional que não percebia que se tratava de fatos ou conquistas inéditas e inovadoras, no plano maior, nacional, por exemplo. Além disso, quase todas as realizações e conquistas tiveram caráter comunitário/coletivo, portanto, com autoria coletiva, onde o papel e protagonismo pessoal e coletivo se misturam e se confundem. Em todo lugar, posição e missão que me encontrava, lá estava o movimento indígena.

Por exemplo, devo ter sido o primeiro indígena que ocupou a função de secretário de educação de um município ainda na década de 90, em um momento histórico importante, oito anos após a promulgação da Constituição Federal e três anos após a homologação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.

Por conta disso, minha gestão foi precursora na implementação da nova educação escolar indígena específica, diferenciada, bilíngue, que segue até hoje como referência, de acordo com as novas diretrizes da Constituição Federal e da LDB; criando e implementando as categorias de escola e professor indígena; criando e implementando subsistemas de educação escolar indígena; criando e implementando curso específico para professores indígenas – magistério indígena; elaborando e implementando currículos de escolas indígenas bilíngues/multilíngues e interculturais; e assim por diante. Antes, nada disso existia, mesmo em um município com mais 90% de população indígena, pois tudo estava enquadrado na categoria de educação, escola, professor, currículo rural.

Outra ação precursora foi coordenar a concepção, formulação, inauguração e implementação de um projeto pioneiro em apoio técnico e financeiro a iniciativas de comunidades e organizações indígenas por parte do Ministério do Meio Ambiente –(MMA), em parceria com a cooperação internacional no período pós RIO 92 (ECO 92), denominado sugestivamente de Projeto Demonstrativo dos Povos Indígenas (PDPI). O projeto foi pioneiro no repasse de recursos financeiros públicos diretamente a comunidades e organizações indígenas por meio de contratos e convênios estabelecidos diretamente com as comunidades e organizações indígenas, práticas até então proibidas, por conta da vigência jurídica da tutela indígena.

Além disso, foi a primeira política pública federal que inaugurou a metodologia participativa e com protagonismo indígena na construção, concepção, formulação, implementação e avaliação de um programa governamental e criou uma complexa e desafiadora gestão compartilhada (tripartite) do programa envolvendo o governo brasileiro (MMA, Banco do Brasil e FUNAI), os povos indígenas (representados pela COIAB) e a cooperação internacional (G7).

Também fui o idealizador e fundador do Centro Indígena de Estudos e Pesquisas – CINEP, primeira organização de acadêmicos indígenas, que foi importante para aglutinar forças e esforços na luta pelo acesso indígena ao ensino superior, tendo organizado o 1º Congresso Brasileiro de Acadêmicos Indígenas realizado na UnB, em 2009.
__________________
Contato:
E-mail institucional: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
E-mail do Prof. Gersem Baniwa: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
Instagram: @danunb / Facebook: @danUnB

Criado em 2022-06-15 21:59:18

Podem armar à vontade, o povo vai dar o troco

Vivaldo Barbosa (*) –

As esquerdas estão embarcando em dois projetos do conservadorismo.

Um é tirar Bolsonaro já, pelas mãos de representantes das elites, antes que o povo o faça no ano que vem, por meio de eleições.

O outro, não admitir a impressão do voto na urna eletrônica para que seja possível recontar e conferir o resultado das eleições.

Esses dois projetos são a expressão dos interesses das elites brasileiras.

Elas sabem que não têm força política, eleitoral e moral para enfrentar a esquerda nas eleições de 2022 dada a liderança popular de Lula.

Assim, mais uma vez, se mexem para atuar de maneira sorrateira na política, como sempre fizeram.

No momento, querem promover a retirada de Bolsonaro pelas mãos dos seus representantes.

E, com isso, parecerem puros, bonzinhos, apagando tudo o que fizeram de maléfico para colocar Bolsonaro no Palácio do Planalto: o golpe contra Dilma, os processos contra Lula e sua retirada das eleições.

Sabem que com Bolsonaro não conseguem mais essa façanha.

Bolsonaro já aprontou tanto que a grande maioria não o quer mais presidente da República.

Consequentemente, precisam com urgência de algum artifício que lhes dê legitimidade e oportunidade para preparar outra solução, enganadora (como sempre!), visando enfrentar as forças populares.

Mas quem confia, de fato, na força do povo para fazer justiça, assegurar direitos para nossa gente e exercer o domínio sobre nossas riquezas pela soberania, sabe muito bem que isso só se conquista com eleições.

Daí, a devoção de todos pelo respeito à investidura popular pela República.

As manifestações com o povo nas ruas são sempre necessárias à democracia.

Significam mobilização política indispensável à construção dos projetos populares.

Mas bem sabemos que nem sempre produzem as transformações.

No mundo, nos últimos tempos, as grandes manifestações não geraram mudanças.

As eleições, sim, podem gerar transformações, pois nas eleições o povo escolhe suas lideranças e delega a elas os instrumentos e o poder de mudar.

A outra questão é a resistência à adoção da impressão do voto agregada às urnas eletrônicas.

Adotar apenas a urna eletrônica significa manter todo o poder de indicar os eleitos nas mãos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), comandado por gente de perfil político conservador.

Além do mais, tudo é operado por técnicos desconhecidos, sem responsabilidade pública, que ficam de posse do software definidor das eleições.

No mundo atual, sabemos de diversos casos de interferência eletrônica, dos ataques cibernéticos.

Na República Velha, nas chamadas eleições a bico de pena, o voto não importava, pois as atas é que definiam os vencedores.

Se alguém reclamasse, eles mostravam as atas que apontavam quantos votos cada um havia obtido.

Agora, se alguém quer saber o que aconteceu, mostram uma fita de papel dizendo quantos votos cada um obteve. O voto não existe, desaparece, assim como desapareciam na República Velha.

Alegam que ninguém nunca provou fraude no atual sistema.

Simplesmente não há como fazê-lo, pois o voto não existe, não é possível recontagem.

Argumentam que com voto impresso passaria a haver enxurrada de pedidos de recontagem.

Mas quem mandaria recontar é o Juiz e ele somente o faria se houvesse pedido plausível, justificado.

Só quatro países no mundo adotam o sistema vigente no Brasil.

Parece que, aqui, alguns ficam contra só porque Bolsonaro está pedindo a impressão do voto junto à urna eletrônica.

O bom senso aponta que esse deveria ser motivo a favor, para não termos Bolsonaro perturbando o novo governo popular.

Vejam que Trump só se calou depois que foram recontados os votos de quatro Estados que confirmaram sua derrota.

De qualquer forma, Bolsonaro e os representantes das nossas elites podem fazer as armações que quiserem, à vontade.

Nada adiantará contra a força da política que tudo está arrastando.

Lula tem plena consciência do momento atual e do seu dever de liderar a nação.

Ele está articulando, os caminhos se abrindo e o povo derrotará o conservadorismo, como o fez sempre que não foi golpeado.
__________________
(*) Vivaldo Barbosa foi deputado federal Constituinte e secretário da Justiça do governo Leonel Brizola, no RJ. É advogado e professor aposentado da UNIRIO. Este artigo foi publicado originalmente no site www.viomundo.com.br

 

 
 

Criado em 2021-06-29 02:42:21

William Waack e o racismo dos outros

Sobre o caso de William Waack, convidamos a Mestre em Filosofia Djamila Ribeiro para falar não só do racismo do âncora, que esperamos que seja demitido, como também dos outros que ora se manifestam de forma indignada nas redes sociais, mas que, a bem da verdade, podem ser o próximo William Waack.


Fonte:
http://www.justificando.com
https://www.facebook.com/justificando

Criado em 2017-11-16 19:06:48

Nelson Maravalhas – desenhos e objetos

Maria Lúcia Verdi –

A galeria de arte atemporânea Matéria Plástica, dirigida pelo multifacético Luiz Augusto Jungman Girafa, está expondo até 31 de maio deste ano mostra do artista carioca radicado em Brasília, Nelson Maravalhas.

Grande oportunidade para nos deixarmos invadir pela liberdade e pela imaginação de um artista icônico entre nós, portador de qualidades que andam em falta numa realidade esmagadora.

A mostra em questão traz desenhos e objetos em distintos suportes numa seleção que surpreende e nos faz pensar. Não se sai de uma mostra de Maravalhas sem questionamentos sobre os mistérios, a mitologia, o esoterismo, elaborando possíveis histórias sugeridas pelos trabalhos.

Além de certas afinidades com desenhistas alemães, também anotei analogias possíveis com o nonsense da Patafísica criada por Alfred Jarry, Ionesco e outros da literatura e do teatro do absurdo.

Entre nós, que me lembre, e para colocá-lo numa certa “tribo”, temos os desenhos e as histórias de Zuca Sardana e o imaginário da pintura de Pedro Alvim.

Maravalhas, além de pintor e desenhista, é cenógrafo e um provocador, como se lerá na entrevista que se segue. As suas são imagens surreais, expressionistas, irônicas, aflitivas, que expõem um riquíssimo “intertexto” visual.

Entre os objetos expostos há um triângulo de madeira com a cabeça esculpida de Lula, intitulado “O Presidente degolado”. Esta peça foi produzida muito antes de tudo o que estamos vivendo, me contou o artista.

Há um desenho em sintonia com essa peça - as duas obras sendo distintas de todo o demais: uma mulher loira, beleza clássica, oferece uma bebida a um homem tipo caucasiano – a bebida está contida em um bule onde se lê a palavra “Ordem” (e se imagina o resto), o homem mostra, sob o terno, uma ereção inconveniente.

O site brasiliarios.com inaugura, com Maravalhas, uma série de entrevistas com personalidades “brasilienses” que contribuíram para a formação cultural da cidade.

Venham rever ou conhecer desenhos que, contrariamente à sua pintura, Nelson define como espontâneos e que são matéria para muita divagação.

Em vez de divagar, compartilho com vocês as respostas do artista:

Nelson, você fez Mestrado nos Estados Unidos e doutorado na Inglaterra. Houve apoio oficial? O quanto lhe parece importante o aperfeiçoamento no exterior para quem deseja se dedicar à pesquisa, às artes ou à vida acadêmica?  

R – Mestrado e Doutorado pela CAPES e pós-doc na Alemanha pelo CNPq. Para mim foi crucial para abrir os horizontes. Nestes países a crítica ao trabalho é fundamental, enquanto no Brasil vive-se no reinado do elogio desbragado em que todos e tudo é genial, lindo, maravilhoso. Temos que aprender a criticar - além do gosto & não-gosto -, saber analisar, ver defeitos, correlações, etc. Mas devemos também saber como receber a crítica de forma igualmente crítica, i.e. saber rebater sem tomar a coisa como ofensa pessoal.

Por outro lado, viver no exterior coloca em perspectiva nossa cultura, e nos dá uma dimensão histórica para além da visão comezinha e paroquial da nossa cena artística. Foi moda nas artes brasileiras em geral detonar com a crítica, e o crítico era o bode expiatório, o Judas em que todos os artistas geniais jogavam pedras sob o aplauso do público. Consequência disso foi a mediocrizarão, pois tudo passa como obra realizada por iluminados pela luz divina.

Infelizmente a figura do Crítico de Arte desapareceu da cena cultural, substituída pela falcatrua do "Curador" que apadrinha a todos que lhe agradam. 

Quais são as suas maiores referências nas artes visuais e na literatura?  Você acha que dialoga com uma tradição quando pinta ou desenha?  

R – Tenho influências, mas diria melhor confluências, com os lados A e B da história da arte. Com o Renascimento italiano e as iluminuras medievais e, por outro lado com a arte dos outsiders, i.e. dos psicóticos & marginais.

Mas admiro muito ainda a arte pré-colombiana, a egípcia, as máscaras mexicanas, as miniaturas indianas, e a arte dos povos da Oceania. Ou seja, minha visão se associa muito mais ou ao Clássico ou ao totalmente oposto ao Clássico. Um verdadeiro paradoxo abismal! Com o Modernismo e o Contemporaneíssimo tenho uma reservada distância.

Gosto muito de literatura, e a considero o combustível mais eficaz do funcionamento mental. Com efeito, ela age diretamente nos centros criadores. O ramo da minha pintura que chamo de Concepção Alegórica traz em si uma estrutura narrativa. Ela possui uma estrutura verbal e produz um discurso que conta sempre uma pequena história. Cada pintura é um capítulo de um grande livro que escrevo.

Como você avalia a importância da disciplina de Arte-educação ter sido ministrada nas escolas brasileiras nas últimas décadas? 

R – Enquanto os professores puderam agir dentro das áreas para os quais tiveram formação acadêmica foi excelente. Mas depois, com a reforma em que o professor agora é obrigado a ministrar aulas em uma área diferente da sua, a arte-educação se transformou em um despropósito, um insulto ao bom-senso. Eu tive a sorte de estudar na Escolinha de Arte do Brasil, fundada por Augusto Rodrigues no Rio de Janeiro, antes de entrar na universidade, e isso foi decisivo em todos os aspectos. 

Para você a arte é sempre engajada, de um modo ou de outro, ou há momentos em que ela precisa ser diretamente engajada? 

R – Vamos ver se eu entendi corretamente: acho que a arte é uma revolução constante da forma e do conteúdo, e o seu engajamento político é apenas umas das variadas faces em que essa revolução acontece. Em alguns produtores a preocupação política/social é primordial, enquanto em outros o vínculo com a psicologia do ser humano, a revolta contra os dogmas, ou a observação da natureza são mais prementes. Eu me incluo neste último caso. 

Você me disse não gostar de um dos conceitos que fundou o século XX, o do inconsciente freudiano. Como você chamaria esse mundo que fervilha dentro de nós e que se desvela brevemente em sonhos, em lapsos, em chistes? Há alguma relação dele com as imagens hipnagógicas (visões que se tem quando semiadormecido ou semidesperto) que você menciona no número 3 da revista SPHINX, editada pela Matéria Plástica?  

R – O problema do conceito do Inconsciente é que ele se dogmatizou, se cristalizou e virou um clichê, um lugar-comum destituído de sentido. Tivesse Freud vivido só mais alguns anos, e ele teria aperfeiçoado o conceito.

Nas pesquisas neurológicas nunca se encontrou o local, o endereço da Consciência, quanto mais o deste volátil substantivo. Há, sem dúvida, processos que não passam pela agência da Consciência, mas tal fato não implica na existência deste improvável “armazém de arquétipos estereotipados” aguardando o saque de artistas esfomeados.

O estado hipnagógico é um momento em que a mente está alterada e está ainda com alguns dos interruptores que levam ao sono ligados. Isso leva a que possamos ser receptivos a mensagens (memorandos) internas que as diferentes agências trocam entre si. A mente, isso sim, é constituída por agentes que permutam de papéis e funções a todo momento. 

Poderia nos dizer algo sobre a sua relação com o esoterismo, a mitologia e a patafísica? Como é viver no século da inteligência artificial e estar assim conectado com o mistério, com questões como alma e espírito? 

R – O Hermetismo, assim como as religiões, seitas, etc, me interessam apenas enquanto formas da imaginação humana, de literatura, de ficção. Pena que seus autores/leitores acreditem tanto no enredo, nas tramas, nas personagens que criaram ou que leem...

A fé é ignorante! O importante é o conhecimento, é saber como funciona essa máquina atordoante de criação que é o cérebro humano. Alma e Espírito são duas palavras destituídas de sentido. Valem apenas como metáforas da Mente. 

Como professor, agora aposentado, como você avalia a atuação do nosso MEC? E o que tem a dizer sobre a extinção do Ministério da Cultura? 

R – O MEC atuou bem nos governos do PT, tivemos até um intelectual do porte de Renato Janine Ribeiro como ministro. Agora, num desgoverno de trogloditas insensíveis, o que podemos esperar a não ser barbarismos retrógrados?? As barragens de Mariana e de Brumadinho cobriram de lama, isso sim, a cena política e as cabeças dos golpistas.

Serviço:

Exposição: Sphinx – Desenhos & Objetos de Nelson Maravalhas

Curadoria: Luis Jungmann Girafa

Temporada: De 9 de abril até 31 de maio de 2019

Local: Galeria Matéria Plástica – Arte Atemporânea

Endereço: Condomínio Privê Morada Sul, Rua 23, casa R49 – Altiplano Leste

Visitação: De quarta a domingo – faça o agendamento de sua visita pelos telefones (61)98127-5728 e (61) 3367-1591 ou pelo e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

Criado em 2019-04-11 21:03:08

Elogio à alteridade

Maria Lúcia Verdi lança livro de poemas “em voz baixa” nesta sexta-feira, 5/7, das 18h30 às 21h30, na Livraria Sebinho, 406 Norte, Brasília.

Angélica Torres –

As falas de Maria Lúcia Verdi “em voz baixa”, título de seu novo livro de poemas que sai pela Editora Iluminuras, traduzem o absurdo, a perplexidade, o atordoamento, as incertezas que permeiam a condição humana, suscitando em quem a lê, e ouve, a contradição do pertencimento, ainda que nossa singularidade se mantenha ante os caracteres comuns a todos. Por isso, o sumo dos versos e da prosa da poeta gaúcha-brasiliense podem soar como um elogio à alteridade, ou outridade, essa sensível capacidade que felizmente muitos têm de se colocar no lugar do outro.

“O que se mostra se esconde / o que se toca desvanece”: lucidez e sonhos (“o susto paradoxo”), gravidade e vazio, corpo e mente, natureza e cosmo, o longe tão próximo, são questões que a poeta contrapõe em sua escritura, atenta aos sons, ruídos, silêncios que lhe sopra o ouvido interno. Com sapatos vermelhos de andarilha estrangeira, elegantes e sensoriais, como chip, como transistor, ela parte, sem asas, levando junto o leitor em viagem pelo mundo exterior conectado ao dela, particular e íntimo.

"Escutar a vida / desde a breve/ entrada do alto”. Uma palavra que despenca pela fresta das nuvens a poeta a colhe e a matéria de sonho e memória se torna a pedra, o cimento, a pá com que ela prepara “a terra cheia de larvas” para a construção da cidade, que é senão o seu universo peculiar, tramada com várias outras em que viveu e que visitou em sua carreira diplomática.

Assim, desde a cama, o corredor, os objetos de arte, a solitude, o jardim do reino em que ela vive, compartilhando as manhãs, tardes e noites com insetos e bichos alados, não surpreende ser Preta, sua cadela de estimação já cega e alquebrada, a trazer à cena em primeiro plano a matéria da alteridade. É da água sofregamente bebida por Preta que emerge a reflexão da identidade. Água como oásis, alívio, “mar como horizontal respiro”, o fluir da vida.

E é do mesmo elemento da natureza que mais adiante surgem outras de suas vozes potentes (são tantas ao longo do livro), uma em prosa e outra em versos – e sem que a comiseração, embora profundamente latente, se ressalte e derrame-se maculando as cenas: do mendigo no espelho d’água do Masp, em prosa; e da poeta como protagonista dos versos em sussurros, transcritos abaixo:

Sempre que eu te pedir água

me traga um copo bem cheio

estenda a mão devagar

olhe nos meus olhos

naquele lugar seco

que pede água

 

Tenha, mas não demonstre

a terna compaixão

dos amigos

estenda a mão em silêncio

aguarde que a minha

atravesse o deserto

 

alcance o copo

Embora assumida em seu ateísmo, ou, talvez, agnosticismo?, Maria Lúcia Verdi por vezes evoca a voz dos místicos – não preciso aqui citar Hamlet –, ao escavar mais abaixo, descer aos ossos da própria caveira, acomodar-se (expõe-se a tal profundidade, a poeta!), pra nos mostrar o medo num punhado de pó, neste fragmento de monólogo com a outra em si, mais adentro ainda:

esta caveira entende

e desentende o mundo

(...)

sente-se

e gostaria de ouvir os pássaros

desde um outro espaço

Em voz baixa ela aproxima restos arqueológicos de Hiroshima, Alcântara, Pompeia, Tiradentes e muralhas, pinturas rupestres, ruínas e diz, do alto de seu audaz e amplo voo: “a carranca que não assusta/ monstros que não se afastam”. Noutras páginas, ela sobe as escadas da casa da infância com as cinzas da mãe nas mãos; asfixia-se ao entrar no guarda-roupa, punindo-se, em busca da que a faz ser o que é. Antes, modela-se catando pitangas, depois pinta sensuais delicadezas chinesas e projeta, esteta, um esplêndido crepúsculo na metáfora para “o flanco ensanguentado/ a anca da égua inobservada/ galopando na noite”.

Tudo isso e mais imagens se conjugam nas colagens de Yury Hermuche que ilustram o livro, incluindo citações de referências da poeta, como Virginia Woolf, Beckett, Drummond e outros, em torno do alheio, dos descaminhos, do silêncio, da noite do nada em Hegel, do vazio na Void-Stone de George Brecht, o artista nova-iorquino da vanguarda conceitual.

Mas que não se interpretem em voz baixa confidências de poeta em vã penitência. Afinal, aqui há “poesia como diário /não escrito”, ela assim quer. Como as performáticas Marina Abramovic e Gina Pane na chamada body art, Maria Lúcia Verdi também oferece o corpo do poema a inscrições de tormentosa imagética, pondo em questão a relação entre o eu e o outro e levando a plateia (o leitor) a refletir, por si, a partir da alteridade.

Esse exercício – aliás, necessário à grande parcela da população brasileira, no momento sociopolítico e econômico que o Brasil vive – é versejado pela poeta com seu olhar agudo e humano ouvido diante de uma formiga e uma coruja, uma cadela e um ouriço, um mendigo, a planta brotada ao lago de um esgoto e mesmo Deus, em diálogo com um transeunte na Avenida W3. “Rosto fora tudo fora tudo outro”. “A mesma luz o mesmo ângulo/ a igualdade da desigualdade”, professa em seu poema-síntese da outridade.

Ao fim, não pairam dúvidas de que os poemas "em voz baixa" tramam-se harmonicamente a outros gêneros literários. Ao longo da leitura depara-se com o conto, a crônica e o ensaio; o esquete teatral, o diário e o aforismo. E sai-se com uma impressão de viagem concebida e encadeada como romance encomendado ao azul-futuro. Disso tudo, o que diriam seu mestre Lacan e Jung não menos? No posfácio, a escritora e professora Vilma Arêas certifica o enigma: “O seu livro, Malu, é um mundo. Seu livro sabe e não sabe. Sabemos que sabe – mas ele sabe dizer que não”.

Criado em 2019-07-03 05:15:19

Nova Mesa do Congresso assume para tocar a pauta do atraso bolsonarista

Romário Schettino –

Os discursos de abertura do Congresso Nacional na tarde de hoje, apesar de caminharem na direção da conciliação, em defesa do país e do respeito mútuo entre as instituições não deixaram de antever dias sombrios tanto nas pautas econômicas como na de costumes.

Vários deputados da oposição iniciaram uma solene vaia ao “genocida” Bolsonaro assim que ele começou a falar. Como resposta, ele disse: “Nos encontramos em 2022”.

Para consolidar sua vitória no Poder Legislativo, Bolsonaro quer contar com sua fiel escudeira deputada Bia Kicis (PSL-DF), bolsonarista raíz, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Neste posto, conduzirá os projetos do Executivo como bem entender. Há resistências, inclusive de seus novos aliados, porque a candidata é ré em processo das fake news, que corre no Supremo Tribunal Federal. Mas isso pouco importa, tudo depende de Arthur Lira.

O que quer o presidente? Primeiro de tudo, privatizar a Eletrobrás, depois, acesso às armas ainda com mais facilidade. Na lista de 35 propostas entregues aos presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) e Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), estão temas como a retomada econômica e a chamada pauta de costumes, como o projeto que criminaliza o infanticídio indígena, o que flexibilização do porte de armas (a ideia é liberar a concessão de porte de armas para cidadãos, e não apenas às categorias profissionais já previstas no Estatuto do Desarmamento) e o que libera o ensino infantil em casa.

Nessa enxurrada de retrocessos, vem também a mineração em terras indígenas, a reforma tributária, aprovação do Orçamento até março. Como Bolsonaro, a Câmara e o Senado querem também a Reforma Administrativa.

Como se vê, a oposição terá bastante trabalho este ano. Não só para impedir retrocessos em questões já consagradas na legislação, como para aprovar novos projetos de interesse da população.

As novas Mesas Diretoras

Depois de muitas discussões, conchavos, denúncias de compra e venda de votos estão definidas as Mesas Diretoras do Senado e da Câmara Federal para os próximos dois anos. Nada de novo, o Congresso Nacional continua de costas para a população brasileira em todos os sentidos. O projeto neoliberal está pronto para ser retomado com ou sem vacinação em massa, com ou sem pandemia.

No Senado, o presidente Rodrigo Pacheco (DEM-MG), vai conduzir o Congresso Nacional nos próximos dois anos com os senadores Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB), como primeiro vice-presidente. Romário (Podemos-RJ) será o segundo vice-presidente. Também foram eleitos o primeiro-secretário, Irajá (PSD-TO); o segundo-secretário, Elmano Férrer (PP-PI); Rogério Carvalho (PT-SE), terceiro secretário e Weverton Rocha (PDT-MA), quarto Secretário. Suplentes de secretários: Jorginho Mello (PL-SC), Luiz do Carmo (MDB-GO) e Eliziane Gama (Cidadania-MA). O quarto suplente ainda não foi definido e a votação será feita em outro momento.

Os senadores elegeram ainda os três suplentes de secretários da Mesa: Jorginho Mello (PL-SC), Luiz do Carmo (MDB-GO) e Elziane Gama (Cidadania-MA).

Já na Câmara dos Deputados, dez partidos vão integrar o colegiado responsável pela gestão administrativa e política da Casa no biênio 2021-2022.

Três mulheres vão integrar a Mesa Diretora, maior número na história da Câmara. O novo presidente, deputado Arthur Lira (PP-AL) vai trabalhar com Marcelo Ramos (PL-AM), na primeira vice-presidência; André de Paula (SD-PE), na segunda vice-presidência; André de Paula (PSD-PE), na segunda vice-presidência; Luciano Bivar (PSL-PE), a primeira secretaria; Marília Arraes (PT-PE), na segunda-secretaria; Rose Modesto (PSDB-MS), na terceira secretaria e Rosângela Gomes (Republicanos-RJ), na quarta secretaria.

Marília Arraes contrariou a orientação da bancada petista, se lançou candidata avulsa e acabou ganhando do indicado pelo partido, deputado João Daniel (PT-SE) de 192 a 168. Essa situação ainda vai render questionamento político.

As quatro vagas de suplentes de secretários foram preenchidas pelos deputados Alexandre Leite (DEM-SP), Eduardo Bismarck (PDT-CE), Gilberto Nascimento (PSC-SP) e Cássio Andrade (PSB-PA). Os suplentes participam da Mesa apenas na ausência do titular.

Outra criança assassinada no Rio

Enquanto o Congresso Nacional promete mundos e fundos à população, a família da menina Ana Clara Machado, de 5 anos, chora o seu brutal assassinato na terça (30/1) em Niterói, região metropolitana do Rio. É a oitava morte desde junho deste ano.

Um policial militar foi preso em flagrante pela Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSGI) suspeito de ter feito o disparo que matou a menina Ana Clara. O agente foi encaminhado para o Batalhão Especial Prisional (BEP), também em Niterói.

De acordo com a Polícia Civil, "houve a comprovação de contradições nas declarações dos policiais militares". Isto, em comparação com as declarações das demais testemunhas e da perícia realizada no local, resultou na prisão em flagrante do agente, informou a corporação. As armas de todos os policiais envolvidos no confronto foram apreendidas para confronto balístico.

A mãe da menina disse à imprensa que o policial teria se recusado a prestar socorro à vítima porque ela estava com sangue na roupa e poderia sujar o seu uniforme.

E a prioridade de Bolsonaro é ampliar o uso de armas para toda a população.

Criado em 2021-02-03 23:39:45

Pego no pulo o pangaré de Troia

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Fracassou redondamente a tentativa do Palácio do Planalto de desmoralizar nesta quinta-feira, 1º de julho, na CPI da Pandemia, o depoimento dos irmãos Miranda, prestado na sexta-feira da semana passada. Nele os Miranda implicaram o próprio presidente Bolsonaro na maracutaia da compra da vacina indiana Covaxin.

Aqui não importa se o principal pangaré de Troia introduzido no interior da CPI é o próprio depoente, o cabo bolsonarista da PM mineira, Luiz Paulo Dominguetti Pereira, ou se o seu parceiro na Davati Medical Supply, Cristiano Alberto Carvalho, que lhe passou um áudio adulterado, mostrando o deputado Luiz Miranda em uma negociação de luvas cirúrgicas e não vacinas. Um dos dois pode estar a serviço de um bolsão do bolsonarismo. 

O que importa mesmo é que os senadores da CPI explodiram a versão adrede preparada de Dominguetti, obrigado a dizer no final do depoimento que foi induzido a erro por seu colega.

Houve logo quem comparasse o canhestro movimento dos bolsonaristas com a Operação Uruguai, a tentativa fabricada pelo ex-presidente Fernando Collor para justificar perante a CPI do Collorgate os seus gastos pessoais exorbitantes. A desculpa de Collor foi a de que ele havia contraído um empréstimo de US$ 3,75 milhões na república vizinha para a sua campanha eleitoral, que teriam sido convertidos em 318 quilos de ouro, adquiridos do doleiro uruguaio Najun Turner.

O mais relevante em todo o caso é que a CPI da Pandemia avançou hoje na constatação de que foi montado no Ministério da Saúde um vasto esquema de corrupção nos processos de aquisição, com recursos do SUS, de vacinas e insumos usados no combate à Covid-19.

O próprio ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, acusado por Dominguetti de propor a propina de um dólar por dose da vacina AstraZeneca, confirmou, em nota pública, que se reuniu com o lobista no restaurante Vasco, tendo sido levado até lá pelo tenente-coronel do Exército Marcelo Blanco, que havia trabalhado no ministério até o dia 19 de janeiro. Ele negou a parte do pedido da propina, mas isso deverá ser esclarecido pela CPI da Pandemia. 

O oferecimento de 400 milhões de doses da vacina AstraZeneca pela Davati Medical Supply foi obviamente um conto da carochinha ou do vigário, a começar pelo fato de que a empresa texana jamais teve a representação do fabricante da vacina anglo-sueca Oxford/AstraZeneca, e esse não tinha estoque suficiente para atender demanda tão grande.

O que a CPI deverá levantar agora é como se organizou a organização criminosa de que participava o diretor de Logística Roberto Ferreira Dias, ao que tudo indica ligado ao deputado e ex-ministro da Saúde Ricardo Barros, o mesmíssimo parlamentar que está implicado na tentativa de golpe da Covaxin.

Por que razão o presidente Bolsonaro não demitiu Roberto Ferreira Dias quando o ministro Pazuello pediu que o fizesse já no ano passado? De quem partiram as pressões para que Bolsonaro o poupasse, além do senador Davi Alcolumbre, como reportou a rádio CBN e confirmou a Folha de S. Paulo?

Está mais do que evidente que o governo Bolsonaro é corrupto até o tampo, e que os seus esquemas de ladroagem são também responsáveis pela morte de meio milhão de brasileiros.

É preciso levar em conta, sem pruridos moralistas, que grande parte das provas da bagaceira foi revelada por ex-aliados do presidente Bolsonaro, como sempre acontece, aliás, quando um governo está se esboroando. 

Não importa se o deputado Luiz Miranda e o cabo Luiz Paulo Dominguetti são eles próprios bandidos. O que interessa são as evidências que esses ex-aliados do genocida estão expondo, e as gretas que eles vão abrindo no casco da canoa que está fazendo água.

Criado em 2021-07-01 23:01:56

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