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Página 32 de 95

Declaração de Guerra

 Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

                           Pra Malu Verdi

Falem vocês da Morte
                      Eu falo da Vida
Falem vocês da Peste
                      Eu falo da Cura
Falem vocês do Medo
                      Eu falo da Esperança
Falem vocês de Saudades
                      Eu falo do Bem-Virá

Enquanto narram tristuras, me deixem,
     por favor, contar pequenos regalos:

     * A manhãzinha do Sol que exubera
              e a noitinha quando exorbita –

     * A coruja-buraqueira corujando os filhotes –

     * O voo do carcará que pousa na antena de celular –

     * Os ipês que se Van Gogh conhecesse seria maior –

     * A Lua Cheia no céu deste domingo –

Tenho fases como a Lua, e estou na fase do Ovídio:
tudo o que digo é verso – quod tempto dicere uersus est –

Mas atenção: quando chegar a hora de caçar os monstros, me convoquem para a primeira fila –
São bélicos estes olhos que enxergam o Belo, cheios de fúria e sangue!

Criado em 2021-08-22 22:04:52

Um “sargentão” no QG

Luiz Martins da Silva –

No contexto castrense, sargentão é um pejorativo para o militar sem polimento, não uma depreciação aos bravos e honrosos sargentos, estratégicos para a efetividade das próprias operações estratégicas, mas para se designar na informalidade aquele fardado que, mesmo galgando divisas mais hierárquicas, permanece inculto e rude no trato e nas atitudes.

Em relação a Bolsonaro, a avaliação extraoficial é a de que ele deixou precocemente a carreira militar, optando pela política, após ter sido preso por publicar um artigo reclamando de perdas salariais. Todavia, manteve-se imaginariamente como membro da corporação, conservando, porém, a mentalidade de um militarismo anacrônico.

Embora o bolsonarismo tenha prosperado mais entre os escalões principiantes, como vereador e deputado o antigo cadete não se lembrou muito deles. Não foi representante da sua categoria, como, aliás, não se identificou muito com qualquer corporação, militar ou civil, e sim, com os seus próprios valores, mas que, ao longo da vida, tentou passá-los como sendo os de um militar.

Bolsonaro, portanto, não se desfez do que julgou valores da tropa, infelizmente, equívocos e defasados. Ao tempo em que se formou cadete, o regime militar pós-64 já não era o mesmo, Geisel havia subjugado os bolsões que desejavam ainda mais fechamento e não a “distensão” comandada, ironicamente, por um general de uma austeridade “germânica”.

O político Bolsonaro conservou-se mais afeito a uma extrema direita que já não fazia sentido entre os militares, nem os mais conservadores. A tortura foi rejeitada em todo mundo como um crime abjeto, mas o capitão prosseguiu saudoso dos porões, não admitidos publicamente pela maioria dos generais brasileiros. Pelo menos no plano retórico, quase todos os presidentes militares se revezaram em juras democráticas: Costa e Silva, Castelo Branco, Geisel e Figueiredo.

Bolsonaro não está só em seu saudosismo. Curiosamente, tem apoio de manifestantes que, pela idade, ou eram crianças quando do embate Lei de Segurança Nacional versus Subversão ou não prestaram atenção nos mínimos rudimentos de História do Brasil e, pior: tornaram-se reféns de versões segundo as quais o Nazismo não foi o que se propagou; não houve golpe militar em 1964; e o comunismo estava tomando conta do Brasil por intermédio de Lula, Dilma e “petistas”, entre outras distorções. Por acréscimo, encampou a crença congênita ao Golpe de 64, segundo a qual “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, pérola também do contexto da Guerra Fria. Detalhe: a União Soviética se desfez em 1991.

Para lá de obstinado, Bolsonaro é um obsessivo. Agarra-se a uma convicção mesmo contra o bom senso de todo o restante do Planeta. Agora mesmo, em relação ao “isolamento social”, mantém-se ao lado de menos de meia dúzia de obscuros ditadores “negacionistas”. Faz sarcasmos, passa a mão no nariz e finge tossir. Apresenta traços de bipolaridade. Sai de casa para fazer uma presença no Dia do Exército e termina, em frente ao QG, com rompantes típicos de comício, subindo num carro para ser ovacionado por uma multidão que pedia intervenção militar, AI-5 e fechamento do Congresso e do Supremo. No dia seguinte, volta atrás e diz que o foco era outro, o desejo daquelas pessoas em voltar ao trabalho.

Bolsonaro deixou a farda, mas, na política sonha com o retorno dos militares ao poder e mesmo quando troca o titular da Saúde procura um general para estar ao lado do novo ministro. Até o chefe da Casa Civil é um militar. Na quebra do isolamento social, quer a reabertura imediata das escolas militares e das que adotaram idênticos rigores.

Por falar em disciplina, Bolsonaro não é paradigma. Quando militar, foi processado por transgressão. E a sua rebeldia às recomendações sanitárias face à pandemia atual é o quê, senão uma pirraça irritante? A disciplina é um dos três esteios dos estatutos militares, ao lado da lealdade e do cavalheirismo. Para se ter uma ideia, os bons modos e o decoro são tão prezados na cultura militar que se recomenda que tirem o quepe ao cumprimentar uma senhora. Ele vive às turras, palavrões e chega a ser chulo com senhoras e senhoritas, como ocorreu no Congresso e na imprensa.

Se por um lado o estilo sargentão compôs, quem sabe, a maior parte de seu eleitorado, Bolsonaro não é propriamente uma unanimidade nas Forças Armadas. É desconcertante para os militares ter a sua imagem formatada pelos valores e atitudes deste senhor capitão, da mesma forma que é desconcertante para brasileiros serem objeto de chacota no exterior, uma vez retratados pelo seu governante como uma gente que vive com o pé no esgoto, mas esbanja imunidade. Como tantos outros políticos, quando a repercussão é muito negativa, se diz mal interpretado. Quanto aos ostensivos apelos e faixas dos manifestantes, recorreu a um velho chavão, suspeitou de “infiltrados”.

Criado em 2020-04-21 16:27:45

Enfim, liberdade para Lula!

Luiz Philippe Torelly –

As elites ligadas à terra e aos interesses estrangeiros, as mesmas que remanescem desde a escravocrata sociedade colonial, não permitem que o povo brasileiro possa conquistar o objetivo de qualquer outro do planeta: promover o bem-estar de todos, para que o acesso à educação, ao trabalho, à habitação, ao saneamento, à saúde, à cultura, sejam uma prerrogativa indistinta e universal. Sabotam, prendem, matam, sempre sob os ditames do "grande irmão do Norte".

Luiz Carlos Prestes, "o Cavaleiro da Esperança", insurgiu o país contra essa ordem que condena o povo à pobreza. Com sua Coluna Prestes percorreu 24 mil Km, levando uma mensagem de justiça e acesso à terra aos que dela necessitavam. Foi perseguido e acusado dos mais torpes feitos. Acabou por exilar-se do país, pela exaustão de seu movimento. Para livrá-lo de uma de suas muitas prisões, o advogado Sobral Pinto, teve que apelar para a Lei de Proteção aos Animais.

Curioso, e paradoxal, é que um dos seus algozes, Getúlio Vargas, tenha promovido avanços importantes para as massas urbanas, modernizado o país e lançado a estrutura do estado brasileiro, com forte presença pública na economia e no planejamento do país. A nacionalização do petróleo, a implantação da indústria siderúrgica, a criação de um forte sistema financeiro governamental e as leis trabalhistas, incomodaram os conservadores ligados ao latifúndio e ao capital internacional.

Uma oposição sistemática e escandalosa, diuturna, acabaram por levar o governo a erros crassos. A crise instalada com forte componente militar, sempre ao lado dos interesses contrários ao progresso do povo brasileiro, levaram ao suicídio de Getúlio Vargas. "Saio da vida para entrar na história" é a frase com que ele arrematou sua carta testamento, documento que me emociona profundamente, pois suas circunstâncias se repetiram nos últimos anos.

Juscelino bem mais moderado e depois Jango Goulart, sofreram na pele, junto com a sociedade brasileira, os ataques dos aliados de sempre: militares, capital internacional, elites agroindustriais, e o resultado todos sabem: morte, tortura, ditadura, fim dos direitos políticos e individuais, fim da liberdade de imprensa e manifestação.

A ascensão de um operário à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, que deu início a reformas e implementação de políticas públicas de amplo espectro social, volta a trazer inquietude ao esquema militares + burguesia, já esvaziado pelo fim da guerra fria. Era necessário um novo componente e novas técnicas de intervenção social.  A imprensa e o Judiciário, com o papel superveniente e estratégico da CIA, vieram a suprir a falta de um "inimigo externo inexistente". As seguidas vitórias eleitorais, apesar dos ataques permanentes, alimentados em alguns casos por erros comuns a qualquer governo e principalmente por concessões equivocadas a permanente estrutura de "tutela dos interesses conservadores financistas", acabaram por dar início às chamadas "jornadas de julho de 2013", movimento ainda nebuloso que precisa ser mais bem estudado em sua origens e motivações. Dai para o golpe foi tudo muito rápido.

As revelações já conhecidas, mas reiteradas por volumoso e detalhado artigo do jornal francês Le Monde, mostram a ação sub reptícia das agências de informação americanas, procuradores e juízes, em conluio com a imprensa abutre e militares. Impressionante que nas barbas do estado brasileiro que nada detectou. Estranho, muito estranho. Outra pergunta que não quer calar: quem dava apoio a Moro, Dallagnol et caterva? Agiam de moto próprio? Muito difícil.

A justificativa de crime de responsabilidade contra Dilma Rousseff, foi desde o início frágil. Mas foi levada a ferro e fogo pelos aliados de sempre já citados. Antes de concluir seus desígnios, já estava desmoralizada. Lembro-me da imagem patética da hoje deputada Janaína Pascoal, rodopiando um casaco em transe, sob olhar patético do provecto ex-deputado do PT, Hélio Bicudo, agora transmutado em acusador dos erros do governo. Era a síntese da cornucópia de horrores que nos aguardavam.

Destituída Dilma Rousseff pelo golpe, dá-se início à demolição dos ainda insuficientes direitos adquiridos ao longo de gerações pelos trabalhadores brasileiros. O sangue, suor e lágrimas de gerações foram descartados na lata do lixo, sob a promessa de mais empregos. Aposentadorias reduzidas, aumento dos anos de contribuição, foi a paga concedida ao povo brasileiro, onde alguns infelizmente foram às ruas aplaudir sua auto imolação. Nesse contexto todo de mudanças para reduzir gastos e aumentar investimentos, os militares foram agraciados com polpudos aumentos e a continuidade de privilégios vergonhosos como a pensão para filhas solteiras, que casam sob o manto da mentira e da fraude.

A perseguição a Lula se estende a várias frentes, todas sem nexo direto com aquilo que queriam apurar: fraudes na Petrobras. Condenações esdrúxulas e kafkianas, postas em dúvida por juristas, advogados e a opinião pública. Lula acaba preso por 580 dias. Sua esposa falece em decorrência da guerra sem tréguas da imprensa, especialmente a Rede Globo. Debocham da morte de dona Marisa, de seu neto e de seu irmão. Humilham, achincalham, mentem, tudo sob o manto protetor da justiça.

De repente, o acaso traz a verdade à tona. O site Intercept Brasil, passa a divulgar conversas entre procuradores e juízes da lava-jato, que lhe teriam sido repassadas por um hacker, hoje um personagem com relevantes serviços prestados à história do país. De início em conta-gotas, depois aos borbotões, são revelados diálogos que expõem as vísceras do MPF e da 13ª Vara Federal de Curitiba. Nas palavras do Ministro Gilmar Mendes, nem um gênio da literatura como Gabriel Garcia Marques, seria capaz de criar uma estória com tal riqueza de detalhes e coincidências de datas, fatos e personagens.

Paulatinamente, Têmis, deusa da justiça é despida e se apresenta nua a vista de todos. Não há mais o que inventar ou negar. O juiz do STF Edson Fachin, aliado da lava-jato por força de evidências incontestáveis decide que a 13ª Vara Federal de Curitiba é incompetente para julgar as ações contra Lula, depois de cinco anos de sofrimento e humilhações sem par na história brasileira. Não contente em deliberar no âmbito da 2ª Turma do Tribunal, remete a questão para o plenário, onde, finalmente, as ações contra Lula foram remetidas à justiça do Distrito Federal, onde deverão ser reiniciadas. Há ainda a possibilidade de as ações serem enviadas para São Paulo, segundo proposta do ministro Alexandre de Morais que será julgada na próxima quinta-feira 22/4. Dada a idade do paciente, 75 anos, essas acusações com certeza irão prescrever. Lula poderá ser candidato às eleições de 2022. Será ele próprio? Apoiará um candidato comprometido com o campo democrático?

A quem serviu toda essa trama? Quais suas consequências? Quem vai pagar por isso? O que representa para o Estado brasileiro?

Seriam muitas páginas para responder a tudo. O que já foi dito ao longo deste texto, há pistas a serem seguidas. As consequências mais graves foram: prisão de um homem inocente, embora não privado de erros e equívocos; desmoralização de parte do Ministério Público Federal e do Judiciário - lembram-se do repto “Aha, Uhu, o Fachin é nosso!”; destruição de milhões de empregos em setores estratégicos da economia e por fim, mas o mais importante a eleição de um psicopata para Presidente da República, responsável por mais de 360 mil mortes até agora, pela destruição de milhões de empregos e da incipiente rede de proteção social ao trabalhador.

Por fim, quanto ódio, desagregação, discórdia, introduzidos na sociedade brasileira para levar a termos os nefastos desígnios dessa gente? Quando tempo para conseguirmos retomar uma democracia plena e solidária?

O ódio é a matéria prima do fascismo. Ele é o alimento da violência e da estupidez.

Criado em 2021-04-17 04:46:34

Jane´s Walk BSB 6

Dia 6 de maio, sábado, concentração às 8h30 no ponto de ônibus da W3 Sul/ Setor Comercial Sul – em frente ao quiosque. Venha pra rua em defesa de uma cidade mais viva!

A proposta é realizar uma caminhada nos espaços públicos para discutir aspectos da mobilidade urbana sustentável, sob a perspectiva do pedestre.

A professora do curso de Arquitetura e Urbanismo do UniCeub Ana Paula Borba é uma das representantes do Mobilize Brasil, ONG responsável pelo evento.

O Jane’s Walk é um movimento mundial de passeios a pé, criado em Toronto (Canadá) e realizado em mais de 100 cidades de 25 países, para descobrir os bairros e revelar as vizinhanças da cidade.

É inspirado nos preceitos de Jane Jacobs, jornalista e ativista urbana que, na década de 1960, conseguiu mobilizar seus vizinhos e evitar a destruição de bairros tradicionais da cidade de Nova York.

Naquele período Jacobs escreveu o livro “Morte e Vida de Grandes Cidades”, referência entre os estudiosos do urbanismo.

Esta será a sexta edição do Jane’s Walk em Brasília. A primeira caminhada foi realizada em setembro de 2014 (véspera do Dia Mundial Sem Carro).

Criado em 2017-04-30 22:31:45

As eleições e o vírus da estupidez em 2047

Luiz Fernando Emediato (*) -

Há um país do futuro no qual as mulheres são tratadas com descaso e menosprezadas quanto ao seu intelecto e capacidade de trabalho, transgêneros e gays são assassinados diariamente em função de sua orientação sexual, a polícia promove a despersonalização de pessoas não enquadradas na ética do “cidadão de bem” e a luta contra o racismo estrutural é tratada como vitimismo de quem não consegue ter méritos próprios.

Neste mesmo país, as florestas tropicais são queimadas e derrubadas a partir de uma diretriz do governo, e uma epidemia não somente é tratada com descaso, mas, sua negação é a própria materialização de uma ideologia onde a morte é idolatrada e incentivada por um líder, Lair Montanaro, comandante de uma aglomeração disforme e construída sobre o falso, eficaz como uma palafita a sustentar um edifício de alvenaria, mas baseada em um sentimento sólido: o ódio.

Este país é Lisarb, o ano é 2047, e nele existe uma revolução: a revolução dos dementes.

Há uma epidemia, a doença Rened-47, a luta pela vacina, boicotada pelos negacionistas e a eleição presidencial próxima. Os candidatos: Lair Montanaro, Servius Mórus, Cairo Góes e Lucas, que acaba de ser liberto e inocentado pela Suprema Corte, e volta ao cenário político para tentar resgatar o país de um desvio de rota, junto com os democratas, e livrá-lo da tragédia e de um ponto de inflexão desenhado no horizonte próximo com tintas sangrentas, de um mergulho no abismo, ponteio num voo a deixar, de uma vez por todas, escrito em pedra, o pior de si mesmo, de mãos dadas com a loucura.

Numa entrevista dada recentemente sobre o lançamento deste seu segundo romance – 2047: A Revolução dos Dementes –, o escritor Max Telesca (na foto, abaixo), advogado com militância nos tribunais superiores, revela que ao terminar o primeiro volume da trilogia, 2038, lançado em 2016, estava completamente tomado pelo sentimento, transmudado em sofrimento, de que a democracia e a república haviam sido capturadas de uma maneira irreversível pelo grande capital, pela violência e pela corrupção, algo que ele chama, na primeira frase de 2047, de “poder real”. Seu intento original, portanto, para o segundo volume, seria uma denúncia deste sequestro das grandes conquistas civilizatórias iluministas, a dialogar com a crise da representatividade que assola o Ocidente.

Contudo, segundo o autor, com o desenrolar dos anos surreais de Bolsonaro, ele percebeu que um livro crítico ao sistema institucional seria um equívoco histórico, dado que o fascismo se apodera das contradições do sistema democrático para miná-lo e depois derrubá-lo.

Daí que, segundo as palavras do autor, ele estruturou o romance com um discurso de fundo intransigente em defesa da democracia, de denúncia ao horror do fascismo e à loucura negacionista, jogando luz sobre a treva de algo reinante numa boa parcela da população: uma demência coletiva que não morre nunca, apenas fica adormecida durante um tempo, latente, cujas tintas, pacientemente, retornam, como voltaram agora, no recrudescimento de uma ultradireita raivosa e desabrida, desavergonhada de sua indigência intelectual, de seus preconceitos, de seu desprezo pela alteridade e, especialmente, de seus objetivos mortíferos.

Essa estruturação pode ser percebida ao longo do romance, que dialoga com grandes clássicos da literatura universal, como a grande distopia fundante 1984, de George Orwel, ou mesmo na sua fábula A revolução dos bichos, presente no subtítulo, a misturar nominalmente os dois clássicos, ou ainda quando bebe na maior obra literária a tratar de uma epidemia, depois da qual Camus recebe o Prêmio Nobel: A peste.

O texto de Telesca, ainda nas partes centrais e finais, envereda de modo corajoso e competente no realismo fantástico latino-americano, e as personagens, tomadas pelo vírus RENED-47, se convertem em animais e começam a ter a pele transformada em couro, as mãos e os pés, aos poucos, viram cascos, a coluna se dobra e a voz torna-se um grunhido, a relembrar também “a metamorfose” de Kafka e a insurgência dos mortos em Incidente em Antares, do seu conterrâneo Érico Veríssimo.

O romance conta a história de Alex Tedesco, jornalista influente, assessor de Lucas e escritor de seus discursos, que se exila na Europa após os protestos de 2038 e a derrocada do PEV – Partido Ético e Verdadeiro, de cuja agremiação era colaborador, e em cuja ideologia depositou todas suas esperanças. Em 2047, é instado por amigos a voltar da Europa e superar as decepções políticas, a morte de sua primeira mulher, Lisa, e finalizar a relação com Benigna Alphonsus, sua atual companheira, uma antagonista responsável por realçar no contraditório e ambivalente narrador, sua sombra, seus piores defeitos, suas mortes em vida.

Golpeado pela necessidade de enfrentamento da verificação de uma realidade conjugal abusiva e tóxica, a partir da qual vislumbrou claramente a perda de tempo, de sua juventude, do afastamento de seus princípios, de sua “risca original”, Alex volta a Lisarb, reorienta sua vida e engaja-se na luta contra o fascismo de Montanaro.

Coordenando a campanha de Cairo Góes à presidência da República, buscando a reaproximação deste com Lucas, o texto se desenvolve em primeira pessoa, por meio do fio condutor de uma eleição presidencial decisiva, de uma epidemia, com o desarranjo de uma sociedade que havia, senão de forma definitiva, chegado à justiça social, superado a miséria, conquistado o mínimo possível de dignidade, mergulhada em contradições, mas, como o narrador realça, superado o buraco da indignidade, da fome.

Em busca de si mesmo, tentando engendrar o melhor para Lisarb, Alex conta “que a democracia é uma casa velha com goteiras, problemas na fiação e, especialmente, cheia de infiltrações. No banco, está hipotecada, com muitas dívidas, mas é a nossa casa”. Na mesma toada, Max Telesca, o autor, na voz de Alex, entende que a “democracia e a república, apesar de todas suas contradições, cooptações, erros, como buscas artísticas infindáveis a definir o destino traçado para o nosso desamparo, são sistemas semi ficcionais que estão a demonstrar a nossa mais bem-acabada construção, acolhedora e aconchegante ruína”.

Dentro desse universo criado, há espaço para o lirismo e a beleza. Alex Tedesco consegue reencontrar Suzana, sua grande paixão, e esta a levará para um momento definidor, onde seus sentimentos são testados com o encontro de uma filha desconhecida, cientista, uma jovem a personificar os anseios de esperança.

2047 é um romance distópico onde grande parte dos diálogos se dá por hologramas, existem sistemas que controlam a depressão e a ansiedade por meio de medicações infiltradas em mecanismos de dispensação gradual controlada por allphones. Os nanobots destroem coágulos no cérebro e nas artérias coronárias, o VAL – Veículo Aéreo Leve – transporta passageiros num passeio de 5 (cinco) minutos entre o centro de Litorânia e o aeroporto, mas a tragédia humana permanece intacta e o desafio de reconquistar o mínimo de dignidade e justiça social é o enredo.

O texto de Max Telesca merece ser lido e considerado neste momento histórico. Sua leitura, no contexto de uma sociedade dividida entre a loucura e a necessidade de retorno à sanidade, pode ser vista como um momento de lucidez e reflexão. Um romance que certamente vai irritar e incomodar muita gente, mas também divertir e alegrar.
________________
(*) Luiz Fernando Emediato é jornalista, escritor, editor.
(**) Esta resenha foi publicada no site do Le Monde Diplomatique Brasil, no dia 3/6/2022.
O livro está à venda também no site da Amazon

Criado em 2022-06-20 17:14:14

Rodrigo Pilha é solto e vai cumprir pena em casa

Romário Schettino -

O conhecido militante político Rodrigo Pilha, que havia iniciado greve de fome na sexta-feira, 9/7, em protesto contra a demora na sua libertação, mesmo após determinação judicial, recebeu novo alvará de soltura na noite de ontem (10/7) e já está em casa.

Pilha recebeu ampla manifestação de solidariedade e a pressão surtiu efeito. O militante político vai cumprir pena em regime aberto de seis meses.

Mas não é só isso, a Justiça manterá controle sobre a vida dele. Qualquer ato que "eles" considerarem "ilegal" Pilha poderá ser preso novamente. Terá que se apresentar perante o juiz de 10 em 10 dias, não poderá sair do DF, salvo com expressa autorização e não poderá estar na rua das 22h às 5h, dentre outras restrições.

Que crime tão grave teria cometido Rodrigo Pilha?

A prisão de Pilha se deu por causa de protestos que ele vinha fazendo contra o governo genocida de Jair Bolsonaro e por ter se manifestado contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 2016.

Na carta que escreveu antes de entrar em greve de fome, Pilha denunciou a violência que sofreu na cadeia para chamar a “atenção da sociedade para os maus-tratos, as péssimas condições de cumprimento de pena e toda a sorte de violações de direitos humanos que continuam a ocorrer dentro do sistema prisional do DF, sob a vista grossa de um Judiciário que muitas vezes lava as mãos, passa o pano e acaba sendo conivente com tais atrocidades.”

Pilha diz que “as celas e alas seguem hiper lotadas, com pessoas dormindo por cima das outras, e até no chão sujo em meio a baratas e escorpiões. O banheiro mais parece uma pocilga e os banhos de sol são de meia hora apenas.”

Ainda segundo Pilha, “a diretoria penitenciária de operações especiais (DPOE) é acusada de espancamentos gratuitos, mutilações e até de ser responsável pela morte de presos após a prática do procedimento chamado de “extração” ou “guindar” apenados.”

A violência do sistema prisional brasileiro ainda precisa ser discutido no Congresso Nacional com a seriedade que o assunto exige. As denúncias e o sofrimento de Rodrigo Pilha não podem ter sido em vão.

 

Criado em 2021-07-11 22:04:41

Globonews põe no ar professora da UFF contrária a intervenção militar no Rio de Janeiro

Jaqueline Muniz é Cientista social, mestre em Antropologia Social e doutora em Ciência Política. Realizou o pós- doutorado em Estudos Estratégicos no PEP/Coppe/UFRJ. É professora do IUPERJ- Universidade Cândido Mendes (UCAM). Membro do Grupo de Estudos Estratégicos (GEE- COPPE/UFRJ), sócia fundadora da Rede de Policiais e Sociedade Civil da América Latina e integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Criado em 2018-02-19 15:01:26

1º de Maio – a utopia de sociedades democráticas e justas

Maria Lúcia Verdi –

Será viajar mais um dos sintomas contemporâneos? Todos estão sempre falando de uma viagem em planejamento ou que acabaram de fazer, nunca de viagens antigas coloridas pela pátina do tempo, hoje elas interessam a poucos.

Necessitando me distanciar um pouco da nossa realidade fui assistir o último filme (2018) de Jia Zhang Ke, renomado diretor chinês nascido em 1970 que já foi objeto de documentário feito por Walter Salles. O título em inglês “Ash is purest white”, traduzido entre nós como “Amor até as cinzas”, teria sido melhor traduzido como “As cinzas são do mais puro branco”, ou “A cinza é do branco mais puro”. Na sociedade do espetáculo a tradução sempre deve facilitar, por lamentáveis e incontornáveis exigências comerciais.

O título do filme remete a um momento (único) em que os dois protagonistas estão frente a uma bela paisagem, com um vulcão ao fundo, e a moça comenta ao amante (líder mafioso da cidade de Datong) que o que fica em ebulição em alta temperatura fica muito limpo, puro. O casal é separado quando a moça, jovem dançarina, vai presa por cinco anos ao disparar para o alto dois tiros defendendo seu amor de uma gang de jovens.

O filme é todo o contrário da pureza e da limpeza. Retrata um mundo feio, pobre, kitsch, sórdido, sem lei a não ser a do mais forte (aqui sinônimo de o que tem mais dinheiro). Os protagonistas vivem em um microcosmo paradigmático de um país que se escancarou ao capital, onde as misturas (sociais, políticas e estéticas) são as mais inesperadas, chocantes, quase incompreensíveis. A China é este país, um dos nossos maiores parceiros comerciais, um desafio para a compreensão ocidental.

Nos cinco anos que vivi em Pequim (2001 a 2006) vi essa transformação impressionante, a abertura às empresas estrangeiras, a entrada de Starbuck e de MacDonald`s e de todo tipo de quinquilharia estrangeira. Quando a cadeia de cafés norte-americana se instalou dentro da Cidade Proibida vi que um tempo havia acabado.

A República Popular da China (RPC) se abriu, mas jamais se alinharia automaticamente a outro país, desenvolveu um modelo muito peculiar que a faz ser, ao mesmo tempo, imperial, socialista e capitalista – modelo que muitos chineses dizem não decifrar, o de uma “forma socialista alternativa de modernidade”. Mas o Partido tem orientação e os planos quinquenais, aliados às forças de mercado desde a abertura da economia, são seguidos à risca, produzindo um desenvolvimento invejado em todo mundo.

As catalogações ideológicas “socialista”, “comunista”, “capitalista” há muito são desmistificadas na China - isto poderia ser ensinado aos que estão tentando construir um novo Brasil que nos assusta com seus radicalismos e despreparo.

Vi os chineses jovens fascinados pelo “novo” não entendendo os estrangeiros que corriam atrás de objetos e móveis antigos; as crianças chinesas (à época filhos únicos) engordando terrivelmente com hambúrgueres e sorvetes; a medicina ocidental competindo com a notável tradicional chinesa; a arquitetura milenar (os “hutongs”, casas populares) sendo destruídos sem piedade para que as cidades mudassem de cara, se aproximassem do modelo ocidental; os velhos chineses sofrendo com um modelo que não compreendiam, impactados com o consumismo, sendo que vários deles - com quem me comunicava em inglês, espanhol ou português, todos professores e artistas - desabafavam com tristeza sobre o fato de não ter sido para aquela Nova China que eles haviam se sacrificado.

O filme de Jian Zhang Ke é pontuado, em momentos chave, pelo som duro, concreto, de algo que deve ser um guindaste de demolição batendo numa construção. A destruição por todo lado construindo a Nova China e ecoando na subjetividade dos cidadãos e dos personagens. As cidades-fantasma chinesas já são cinquenta, construídas e desabitadas, o governo necessitando dar emprego aos trabalhadores e confiando no super progesso chinês – o filme de Jia Zhang Ke também trata disso.

Há uma cena engraçada no filme, ela se passa num ônibus. A protagonista escuta um passageiro contar sobre suas pesquisas, o quanto elas poderão lhe render, estimulando os demais a irem tentar a vida na província de Xinjiang (onde estive), região autônoma da RPC, com grande presença muçulmana da etnia Uigur, também chamada de Turquestão chinês.

Perguntado sobre exatamente o quê ele pesquisava responde que sobre a presença de alienígenas entre nós. Após dizer-lhe, com muita naturalidade, que já havia visto um ET a protagonista decide tentar seguir esse “pesquisador” tentando se afastar da memória de seu ex-amante. Mas, ao lhe contar que estava saindo da prisão, percebe não ser o caso.

Essa mulher que amou sem limites (daí a tradução para o português) e que o sofrimento purificara vive um momento epifânico no filme (único): vê luzes no céu que são uma nave espacial. Neste momento os espectadores pensam: ai, que bom, o filme termina assim, sonhador. Mas não, a purificação pelo sofrimento segue até um fim desolador, sem oferecer qualquer ilusão ao público.

A China que habitualmente o diretor retrata é sempre a mesma, a da abertura para o Ocidente e as transformações sociais que ela acarretou.

Nessa China ele situa histórias de relacionamentos amorosos ou familiares abalados por todo um universo desconhecido até trinta anos pelo povo chinês. A protagonista de “Amor até as cinzas”, porém, me parece ser algo além da mulher que enfrenta os horrores do submundo devido a um amor masoquista. Será ela uma metáfora da própria China que se reconstrói ciclicamente das cinzas? Será uma homenagem do diretor à sacrificada mulher chinesa? Ou será um melancólico e realista depoimento do diretor sobre a impossibilidade de uma sociedade mais justa e humana? Não sei e vale a pena ver o filme para pensar sobre isto e sobre o Brasil.

Tal como a enigmática China, o quebra-cabeças surreal que estamos vivendo vai além da nossa capacidade de decifrar ou prever. Porém, com a falta de orientação e inteligência dos titulares no poder, só por um milagre conseguiríamos desenvolver nosso país como os chineses conseguiram.

Sim, existe corrupção na China, mas se descoberta e provada não há escapatória. Sim, os direitos humanos são violados pela censura, mas o cinema e as artes visuais chinesas ganharam o mundo e falam dessa China contraditória e questionável. Sim, os trabalhadores chineses ganham muito pouco e vivem em condições difíceis, mas tem onde dormir, o que comer e enviam o que ganham para as famílias. Sim, a questão do meio ambiente é séria na China, que tem uma área muito pequena de seu território própria para a agricultura, mas o país está consciente disso, modificando leis ambientais.

Não entendo de economia, observo a política com desconfiança, mas estive por todo lado na China (com exceção do Tibet, por não concordar com a postura do governo chinês em relação àquele território) e conheço mais ou menos bem o Brasil. Nunca vi por lá o descaso com a população pobre que o atual governo incorpora.

O autoritário Partido Comunista Chinês, com 87 milhões de militantes, é sem dúvida questionável, mas e nossos partidos?  O PCC tem como meta, desde sua criação, priorizar dar trabalho, alimento e educação ao povo chinês. Tem conseguido a alquimia de um liberalismo econômico que protege a economia chinesa, um socialismo de mercado que visa desenvolver o país a partir da melhora das condições de vida do povo. E lá são quase 1,4 bilhão de habitantes.

Este texto não contem respostas, assim como a realidade sugere perguntas em seu intertexto. Perguntas como a do que será do povo brasileiro se o projeto da aposentadoria proposto pelo governo for aprovado sem modificações. Serão os banqueiros e o sistema financeiro que celebrarão essa entrega, não os brasileiros.

Saí do cinema e voltei à realidade do guardador de carros aguardando uma moedinha a mais, das pessoas acampadas sob plásticos negros apoiados em paus de madeira vivendo no lixo, igualadas a seus cachorros e cavalos. A tristeza do filme me acompanhava por Brasília enquanto, protegida em um carro me perguntava quando este país realmente mudaria. Impossível sair da realidade, “viajar”.

Criado em 2019-05-01 22:59:48

BebeLume inova com vídeos especiais para bebês

Angélica Torres –

Caro leitor, seus filhos ou netos e você têm agora à disposição o BebeLume, um canal recém-lançado na web, com vídeos para bebês de meses a crianças de cinco anos. Com duração de 2 a 3 minutos, os vídeos visam a estimular a sensibilidade emotiva, estética, a linguagem e o contato da bebezada e da criançada.

Clique no link do You Tube e ponha os seus para assistir e observe como ficam encantados e querendo mais.

A série inaugural do Canal, chamada “Inspira Fundo”, traz 12 vídeos de temas caros a esse novo público – como o nascer, o sim e o não, o medo e vários outros. Poéticos, interessantes e divertidos, fizeram sucesso quando exibidos no Espaço Cultural Renato Russo, em setembro. A criação, o roteiro e direção são da atriz, diretora e produtora teatral brasiliense Clarice Cardell (na foto, abaixo), da Cia. La Casa Incierta.

Teatro para bebês - Nascida na Espanha, essa Companhia também trouxe para o Brasil a experiência do teatro para bebês. Pelo pioneirismo do trabalho, Clarice Cardell, que é ativista de políticas culturais para a 1ª infância, recebeu o Prêmio Internacional Alas-BID, concedido pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento a projetos voltados para esse público no continente.

A novidade que significam os vídeos e os espetáculos da Casa Incierta acabou suscitando a pesquisa científica "Bebês nascem profetas?", de pesquisadores da Espanha, da Polônia e do Brasil. Eles querem saber o que acontece no cérebro das crianças quando elas reagem às emoções estéticas vendo os vídeos e as peças. O programa Fantástico dedicado ao dia da criança em outubro vai mostrar como os cientistas trabalham e o que têm descoberto com a pesquisa.

Ato político - Clarice Cardell enfatiza que, hoje, qualquer ato artístico vira um ato político. “Trabalhar com artes e cultura neste momento crítico do Brasil é ainda mais imprescindível. Trabalhamos com teatro pra bebês por um primeiro encontro com o olhar deles, os bebês. Mas muitas vezes, esse primeiro olhar é trabalhado num grupo de pais e de professores, que geralmente não têm acesso à cultura e passam a ter pela mão de um bebê. É quando vemos a brecha para a sensibilização”.

Segundo ela, um ato político não precisa falar diretamente de política, mas postular que o ser humano nasce poeta desde o primeiro momento e que deve ser um cidadão com senso crítico, e não manipulado. “Então, reivindicar cultura nos primeiros anos de vida se tornou missão para nós”, afirma.

No caso dos vídeos do BebeLume, Clarice conta com o talento de uma rapaziada de 30 e 40 anos (eles próprios também pais de bebês e crianças e todos também brasilienses), para o resultado do belo e inspirado trabalho endereçado às crianças de hoje e às do futuro.

São eles: Gabriel Guirá, ator, junto com ela, nos vídeos; Lula Marques, integrante da ex-banda Casa de Farinha, e Jota Dale, na trilha sonora; Leonardo Hernandez, ator e diretor do Espaço Cultural Renato Russo, na produção executiva; e o videasta Marcelo Barbosa, na fotografia e na edição.

Para cadastrar-se no BebeLume e para mais informações clique aqui

Criado em 2019-09-29 00:22:03

Aleluia! O MAB desencantou e será reinaugurado dia 21 abril

Romário Schettino –

A tão esperada reabertura do Museu de Arte de Brasília (MAB) vai acontecer. A previsão, segundo o secretário de Cultura e Economia Criativa, Bartolomeu Rodrigues, é cortar a fita no dia 21 de abril com uma grande festa. A reforma custou aos cofres públicos R$ 9,3 milhões.

Espera-se, no mínimo, que o governo esteja se preocupando com os protocolos sanitários que o momento exige.

A pergunta que sempre surge quando se fala em gestão dos equipamentos públicos em Brasília é: quem vai se ocupar dessa tarefa? Bartolomeu não tem dúvida, o MAB será gerido pela Secretaria de Cultura. “Já temos um grupo formado que desde o final do ano passado vem atuando para atender um caderno de necessidades e planejamento da exposição inaugural, que deve durar seis meses. Enquanto isso, definiremos qual modelo de gerenciamento podemos adotar, considerando a dinâmica que queremos dar ao novo MAB”.

Acervo do MAB: O secretario informou que “quase todo o acervo já está reunido e catalogado. Duas peças, por exemplo, que estavam em minha sala, foram devolvidas. Outras estão sendo requisitadas. Em frente ao Museu será instalado um jardim de esculturas. Algumas dessas esculturas, localizadas na Residência Oficial em Águas Claras, estarão nos próximos dias sendo transferidas de vez para o local.”

Sobre a proposta do arquiteto, urbanista e ex-diretor do Iphan, Luiz Philippe Torelly, de realização de exposições temporárias utilizando-se de acervos de órgãos públicos, como Banco do Brasil, Caixa, Banco Central, Bartolomeu comenta: “Queremos criar uma dinâmica no MAB que não se resuma às exposições de obras já consagradas. Oficinas, instalações e oportunidades para outras linguagens da arte estão previstas, de modo a que seja um museu realmente ´vivo´”.

O MAB fica localizado numa região onde tem a Concha Acústica e um Parque de Esculturas (ainda incipiente). A especulação imobiliária já tomou conta de parte da orla do Lago Paranoá e cobiça tomar mais espaço. Com a reabertura do Museu, como a secretaria de Cultura pensa em revitalizar a área?

Bartolomeu responde: “Está no papel o projeto para transformar aquela região, a partir do MAB até a Concha Acústica, em um complexo cultural. Foi constituído um Grupo de Trabalho, envolvendo outros órgãos do governo, sob a coordenação da Secretaria de Cultura, para apresentar ainda neste semestre um plano de ação no local. Estamos abertos às sugestões de nome para esse complexo. E já solicitamos a carga dos dois lotes em frente ao MAB já antevendo a necessidade de ocupação para oficinas e instalações ao ar livre”.

 

Teatro Nacional

Sobre o Teatro Nacional Cláudio Santoro, fechado há mais de sete anos, o secretário Bartolomeu Rodrigues informou que existe uma verba de R$ 33 milhões para ser liberada pela Caixa Econômica Federal. “Será para uma revitalização parcial – inicialmente deve ser recuperada a Sala Martins Penna”, disse.

Esses recursos devem ser liberados assim que o edital de licitação ficar pronto em julho deste ano. O dinheiro é proveniente do Fundo de Defesa de Direitos Difusos (FDD), vinculado ao Ministério da Justiça e à Secretaria Nacional do Consumidor, e criado pela Lei 7.347/85, com o objetivo de recompor danos causados aos direitos coletivos.

Bartolomeu disse ainda que a secretaria está elaborando os ajustes finais do projeto básico para ser apresentado à Caixa, que nesse caso é o agente financeiro. Segundo ele, “o financiamento saiu no ano passado, mas nesse período tivemos de reorganizar todo o processo, que estava totalmente bagunçado”.

Criado em 2021-02-07 23:20:13

As lições da Comuna de Paris

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Acaba de sair do forno, pela Editora Anita Garibaldi e a Fundação Maurício Grabois, a terceira edição do livro Comuna de Paris - O proletariado toma o céu de assalto, de autoria de Sílvio Costa, professor da PUC de Goiás, cujo objetivo é contextualizar e analisar a primeira tentativa do proletariado de organizar uma sociedade socialista.

O livro é dividido em duas partes. A primeira, composta por cinco capítulos, caracteriza, em linhas gerais, o II Império Napoleônico – forma assumida pela contrarrevolução aristocrático-burguesa frente ao surgimento do proletariado como força política independente. A segunda, com oito capítulos, aborda o surgimento das condições imediatas que levaram à instauração do poder proletário em Paris.

O livro traz ainda um conjunto de anexos que detalham a cronologia dos acontecimentos, destacando os episódios mais relevantes da Comuna; a biografia sintética dos principais personagens; textos que analisam a importância histórica e teórica da Comuna para a luta dos trabalhadores; e uma galeria de fotos e ilustrações dos acontecimentos.

A França napoleônica, em agosto de 1870, é derrotada pela Prússia e a 4 de setembro é declarada a queda do II Império e a formação de um governo provisório, dando início à 3ª República. A 8 de fevereiro de 1871, em plena guerra e após o armistício, são realizadas eleições para a Assembleia Nacional. Estas, em condições extremamente adversas para as forças democráticas, garantem a vitória das facções conservadoras – principalmente monarquistas.

Paris, sitiada pelos prussianos, não aceita as condições impostas para a paz e se insurge contra o governo capitulacionista de Thiers em memorável acontecimento, quando, segundo as palavras de Karl Marx, o proletariado “tenta tomar o céu de assalto”. Esta insurreição heroica ficou registrada na História como a Comuna de Paris de 1871, anunciando a possibilidade de construção de uma sociedade mais justa, fraterna e igualitária.

Abaixo, segue a apresentação da obra que escrevi a convite do autor, um amigo da adolescência em Anápolis, Goiás, quando fomos colegas do curso de francês oferecido pela Fundação Educacional local.

Aprender de Paris!

Ó cidade dolorosa e quase morta
Cabeça e seios voltados pro Amanhã
Abrindo à tua palidez bilhões de portas
Cidade que o Passado feio diria sã:

(Versos de A Orgia Parisiense, poema de Arthur Rimbaud)

No momento em que celebramos os 150 anos da Comuna de Paris (18 de março a 28 de maio de 2021), é mais que oportuno o lançamento da terceira edição do livro do grande amigo e conterrâneo Sílvio Costa, um dos poucos recursos de acesso popular no Brasil aos que se interessam pela entrada triunfal do proletariado no palco da história mundial.

Aqui copio o grande poeta, romancista, designer e militante socialista William Morris (1834-1896), que escolheu o verbo “celebrar” no lugar de “comemorar”. No editorial de 17 de março de 1888 do jornal Commonweal, órgão da Liga Socialista em Londres, Morris justificava a sua opção: “Na celebração, (…) ficamos menos inclinados a falar de seus (dos communards) erros táticos ou de considerar as suas palavras e ações do ponto de vista de uma ‘pessoa superior’”.

Como já faziam desde 1872, os socialistas londrinos estavam celebrando nessa ocasião o “primeiro ataque consciente à dominação de classe, (…) o direito das pessoas de controlar suas próprias vidas, de administrar a terra que trabalham e suas ferramentas, onde quer que estejam vivendo”.

Um balanço equilibrado da experiência da Comuna necessariamente começa por valorizar a “sua própria existência em ato”, como fez Marx.

Olhando em retrospecto as razões do estrangulamento da Comuna, é muito fácil criticar os seus dirigentes, chamando-os de ingênuos, por exemplo. Impossível não terem percebido que Paris estava isolada do resto da França, do ponto de vista territorial, e também dos camponeses, em geral monarquistas. Impossível não terem avaliado o significado estratégico do cerco dos dois exércitos, o francês e o prussiano, sendo este o mais poderoso da Europa na ocasião. Por que não investiram mais recursos na imprensa popular para divulgar os feitos da Comuna e rebater as fake news e calúnias do governo de Versalhes, que, durante certo tempo circularam livremente na cidade? Etc.

O problema é que o povo faz a história sem poder escolher de início os dados oferecidos pela conjuntura. Daí o povo se defronta com o dilema do Hamlet: lutar ou não lutar, eis a questão. Aceitar passivamente as balas e baionetas do destino ultrajante ou pegar em armas para enfrentar os inimigos, que inventaram um destino para as massas sem consultá-las?

Levando em conta todos as dificuldades decorrentes de seu pioneirismo ousado, atrevido, a Comuna, no curtíssimo espaço de sua existência, escreveu volumes sobre a potencialidade da vida dos trabalhadores livremente associados.

A Comuna demonstrou, positivamente, que o fim do trabalho alienado, a igualdade de gênero e a separação dos assuntos da Igreja dos assuntos da sociedade civil são problemas práticos, não teóricos. De maneira negativa, deixou evidente a necessidade da abolição do Estado burguês e da criação de uma nova entidade de organização social que já não é mais Estado, como dizia Engels, para quem a Comuna criou uma filosofia da Liberdade superior à da Declaração de Independência dos Estados Unidos e à da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (mas não da Mulher) de 1789.

Sílvio Costa enfatiza que a Comuna de Paris inaugurou a Era das Revoluções Proletárias, servindo de modelo e inspiração para a Revolução Russa (empreitada que durou bem mais que a Comuna – 74 anos contra 72 dias) e para as revoluções chinesa, cubana etc. Uma hipótese de otimismo histórico é que o fracasso da União Soviética demonstrou, paradoxalmente, que essa Era está longe de terminar, porque o Capitalismo ainda está de pé, e não se esgotaram as lições da Comuna para a conquista da República Universal.        

Em L’Imaginaire de la Commune, (La fabrique éditions, Paris, 2015), Kristin Ross, professora de literatura comparada da Universidade de Nova York, refere-se à velha tentativa de contrabando histórico por parte dos republicanos franceses, para quem a Comuna teria, com os seus 50 mil mortos, salvo a III República inaugurada em 1870. Hoje os discípulos daqueles antigos republicanos tentam vincular algumas das realizações sociais da République Universelle - como as creches, a escola gratuita, laica e obrigatória – ao programa da République Française, cevando assim os mitos nacionais do país.

Essa operação está obviamente condenada ao fracasso porque o principal inimigo dos communards foi o governo republicano fantoche de Adolphe Thiers, refugiado em Versalhes. As tropas do governo prussiano de Bismarck ocupavam o segundo lugar na fileira dos inimigos da Comuna.

Ora, a Comuna de Paris tinha no seu DNA o internacionalismo. Seu ideário incluía a República Universal e a solidariedade entre as classes trabalhadoras de todo o mundo. Exatamente por esse motivo, Marx afirmou em A Guerra Civil na França:

“Se, pois, a Comuna era a verdadeira representante de todos o elementos sãos da sociedade francesa e, portanto, o verdadeiro governo nacional, ela era, ao mesmo tempo, na condição de governo operário, na condição de intrépida defensora da libertação do trabalho, internacional no sentido pleno da palavra. Debaixo dos olhos do Exército prussiano que tinha anexado duas províncias francesas à Alemanha, a Comuna anexou à França os trabalhadores do mundo inteiro”.

Documentário - Em 2008 eu tive a oportunidade de passar um mês em Paris e, como jornalista, concebi o projeto de um documentário didático sobre a Comuna, infelizmente nunca realizado.

A cena inicial seria a reprodução irônica de um “assalto aos céus”. Com a câmera (ou o celular) na mão e, claro, algumas ideias na cabeça, eu subiria as escadarias da Basilique du Sacré Coeur de Montmartre. Depois, já com falta de fôlego, tentaria acessar, escalando outros 300 degraus, a cúpula da Basílica, o monumento mais conspícuo da vingança da República Francesa e da Igreja Católica contra a Comuna.

Dali, olhando Paris em panorama de 360 graus, me ocorreria uma paródia napoleônica: “Aqui do alto, um século e meio de infâmia e reação vos contempla”. Eu começaria, então, a apontar a câmera (ou o celular) para os principais pontos da cidade de alguma maneira vinculados aos acontecimentos de 1871.

O primeiro alvo seria a própria colina de Montmartre onde está edificada a Basílica do Sagrado Coração. Ali, no dia 18 de março, o povo, liderado por mulheres valorosas, entre as quais a militante socialista Louise Michel (na foto, abaixo), impede que as forças de Adolphe Thiers confisquem os canhões que a população havia adquirido, por subscrição, para a Guarda Nacional defender a cidade do exército invasor do Kanzler Otto von Bismarck.

Com o livro de Kristin Ross, no entanto, eu aprendi que essa abordagem, fiel à versão mais consensual dos acontecimentos, está equivocada, inclusive entre historiadores de esquerda. Contar o início da história pela tentativa de sequestro dos canhões de Montmartre alimenta a ideia de que a Comuna teria sido uma insurreição espontânea das massas parisienses. Acontece que três anos antes, pelo menos, os clubes e as associações dos revolucionários já vinham se reunindo publicamente para debater a République Universelle. Um inimigo dos communards, Chevalier d’Alix, definiu os clubes e as assembleias, no seu Dictionaire de la Commune, como “o collège de France da insurreição”.

Assim, em vez de começar a história da Comuna por uma “ação desajeitada do Estado”, Kristin Ross prefere iniciá-la pelas assembleias populares que pipocaram logo após o fim do Império e que deram origem às associações e comitês e aos clubes revolucionários (ruches bourdonnantes, colmeias zumbidoras) atuantes durante o cerco. E não só em Paris. Em setembro de 1870, logo após a proclamação da República, ocorrem no Sul da França várias insurreições breves, incluindo a que ficou conhecida como Comuna de Lyon, liderada pelo líder anarquista Mikhail Bakunin.

Com essa nova perspectiva, eu agora apontaria a câmera (ou o celular) para o conjunto residencial situado na rua Léon-Jouhaux, a antiga rua de la Douane, a 50 metros do canal Saint-Martin. Ali funcionava o Tivoli-Vauxhall, uma sala de espetáculos onde os revolucionários costumavam se reunir. É provável que da cúpula da Basílica não seja possível ver essa quadra. A solução seria então apontar a câmera (ou o celular) para o monumento da Praça da República. Num dos vértices da praça começa a rua Léon-Jouhaux.

Nessa altura, outro ponto de relevante interesse fica a cinco minutos a pé da Praça da República, descendo a rua Béranger e dobrando na rua Charles François Dupuis até a rua de la Corderie, onde ficava a sucursal da Internacional, o Comitê dos 20 Bairros (Arrondissements) e, a partir do início de março de 1871, o Comitê Central da Guarda Nacional.

Era ali que, segundo Kristin Ross, despachava, desde a sua chegada de Londres no dia 28 de março, a militante russa Élisabeth Dmitrieff, enviada especial de Marx para reportar o desenrolar da Comuna em nome da Internacional. Dmitrieff foi também a fundadora da União das Mulheres, no dia 11 de abril, a associação popular mais organizada da Comuna.

Concluída a apresentação dos antecedentes genéticos da Comuna, incluindo por suposto a fuga do governo de Thiers para Versalhes (10 de março), aí sim, o vídeo-documentário focaria o episódio da tentativa de tomada dos canhões de Montmartre.

Em seguida, a câmera (ou o celular) desceria até a Praça Louise Michel, que fica logo em frente à Basílica. O narrador descreveria a saga dessa mulher – professora, poeta, escritora, enfermeira, filiada ao partido anarquista de Louis Auguste Blanqui –, a militante mais famosa da Comuna, cantada em prosa e em verso, não apenas pelos revolucionários. Victor Hugo, deputado republicano moderado entre 8 de fevereiro e 9 de março de 1871, a chamou num poema de Viro Major, Mulher Maior.

Guilhotina queimada - Façamos agora um salto para a Praça Voltaire (hoje Praça Léon Blum), situada no 11º Arrondissement. Ali, no dia 6 de abril, o 130º batalhão da Guarda Nacional instala uma guilhotina, aos pés da estátua de Voltaire, representante do Iluminismo Moderado e alegre defensor da arbitrariedade do Poder Judiciário. A multidão grita “Abaixo a pena de morte”! Minutos depois os guardas tacam fogo no cadafalso, símbolo máximo da repressão contrarrevolucionária. 

Vamos agora à Praça Vendôme, no 1º Arrondissement, ao norte do Jardim das Tulherias. Lá, no dia 16 de maio, a multidão vai pôr abaixo a Coluna de Vendôme, uma trolha de 44,3 metros de altura e 3,60 metros de diâmetro, encimada por uma estátua do Imperador Napoleão vestido de general romano. A peça foi mandada esculpir por seu sobrinho, Napoleão III, para comemorar a vitória dos franceses contra os russos e austríacos na Batalha de Austerlitz.

A justificativa para derrubar a coluna foi explicitada num decreto do Conselho pelo jornalista e dramaturgo Félix Pyat: “A Comuna de Paris, considerando que a coluna imperial da Praça Vendôme é um monumento de barbárie, um símbolo da força bruta e falsa glória, uma afirmação do militarismo, uma negação do direito internacional, um insulto permanente dos vencedores sobre os vencidos, um atentado perpétuo a um dos três grandes princípios da República Francesa, a fraternidade, decreta: Artigo único – A Coluna Vendôme será demolida”.

Há duas curiosidades nessa história. A primeira é que o presidente da Federação dos Artistas, o pintor Gustave Courbet, autor do extraordinário quadro A Origem do Mundo, hoje abrigado no Museu d’Orsay, acabou levando a fama pela destruição da coluna. Pesou o fato de ele ter proposto, em 1870, a remoção da coluna para que os seus materiais fossem usados na restauração do Hôtel des Invalides. E pesou muito mais, é claro, o espírito de vingança do conselho de guerra do governo Thiers. Courbet foi condenado, em julho, a seis meses de cadeia e ao pagamento de uma indenização de 500 francos.

A figura desprendida, meio escandalosa de Courbet acabaria eclipsando outro importante líder da Comuna, o poeta e militante Eugène Pottier, fundador da Federação dos Artistas, prefeito do 2º Arrondissement, e autor, em junho de 1871, em plena repressão dos remanescentes da Comuna, do poema anarquista A Internacional. Musicado por Pierre Degeyter, um comunista anarquista franco-belga, o poema de Pottier se tornaria o hino dos anarquistas, libertários, socialistas e comunistas do mundo todo. Até 1944 foi o hino oficial da União Soviética.

A segunda curiosidade é que logo depois da demolição, a Praça Vendôme foi rebatizada com o nome de Praça Internacional. Mais uma vez, os communards quiseram enfatizar o seu compromisso com a fraternidade entre os povos.

Em maio de 1873, o novo presidente da República, marechal Mac-Mahon, mandou reconstruir a coluna, obra terminada em 1875.

Invasão e retomada - No roteiro desse documentário hipotético, a retomada de Paris pelas tropas de Thiers poderia ser ilustrada pelas batalhas registradas na Rotonde de la Villette, um antigo posto em que se fiscalizava a entrada de produtos importados na cidade. A Rotonde está localizada no 19º Arrondissement, bem na frente do canal de l’Ourc, entre as estações Jaurès e Stalingrado do metrô. O local, tomado pelos soldados da Comuna (fédérés, federados) nos dias 24 e 25 de maio, foi fortificado com barricadas, mas incendiado durante as refregas. Foi um dos últimos focos da resistência dos communards, até o dia 26 de maio, quando também caíram perto dali os federados sitiados na Ponte Crimée e na rua d’Allemagne, hoje Avenida Jean Jaurès.

Não muito distante da Rotonde fica o último bastião da resistência da Comuna, o cemitério do Père-Lachaise, que serviu de refúgio de duzentos federados no dia 28 de maio. As tropas de Thiers bombardearam o local antes de invadi-lo. Sem armas, os federados se defenderam com facas, pedras e paus, entre os túmulos. No final, 147 deles foram fuzilados diante de um muro nos fundos do cemitério. Seus corpos foram jogados numa fossa comum. A cena macabra está descrita na última estrofe do poema A Orgia Parisiense de Rimbaud:

– Sociedade, tudo foi reposto: orgias
Ofegantes choram nos bordéis antigos
E os gases nos rubros muros em delírio
Sinistros flambam até o embaçado índigo

O vídeo está chegando ao fim. A câmera (ou o celular) ainda percorre o cemitério, acompanhada de um(a) guia dos Amis de la Commune, a mais antiga organização do movimento operário francês, criada em 1882 por sobreviventes da Comuna que voltavam do exílio. A palavra é passada para o moço ou a moça para que conte a história de alguns líderes da Comuna enterrados no Père-Lachaise. Entre eles, o grande revolucionário socialista não marxista Auguste Blanqui, também herói das jornadas de 1848; os generais poloneses Jarosław Dąbrowski e Walery Wroblewski, esse último filiado à Internacional; o genial pintor e caricaturista André Gill, importante membro da Federação dos Artistas, ilustrador das revistas La Lune (1876-1879), L'Éclipse e La Rue (1868-1876); o jornalista e escritor socialista Benoît Malon, membro do Conselho da Comuna e presidente da Câmara de Batignolles; Jean Baptiste Clément, membro do Partido Operário Socialista Revolucionário, músico e jornalista, repórter de Le Cri du Peuple, e compositor de duas importantes canções dos tempos da Comuna, Le temps de cerises (Tempo da cereja) e La semaine sanglante (A Semana Sangrenta); o brilhante escritor e jornalista Jules Vallès, socialista anarquista proudhoniano, editor do jornal Le Cri du Peuple, um dos mais importantes da Comuna.

Na penúltima seção do suposto vídeo, começo a descer as escadas da cúpula da Basílica do Sagrado Coração, enquanto recordo a história da construção do edifício. É verdade que o seu projeto foi concebido no ano anterior à fundação da Comuna, mas foi insuflado pelo espírito de vingança dos católicos e da extrema-direita após a sua derrota. Um ânimo disfarçado de “voto nacional”,  que traduziu, algumas oitavas acima, a promessa inicial de André Legentil, um filantropo papa-hóstia, de construir a igreja para que o país expiasse os pecados dos responsáveis pelos “infortúnios que assolam a França e talvez dos infortúnios maiores que ainda a ameaçam”. Que pecado e que infortúnio maior poderia haver do que a ousadia do proletariado de Paris, unido à sua classe média, de assaltar os céus da burguesia e do império? Com esse ardor foi organizada uma campanha de arrecadação de fundos em todo o território de França para financiar a construção da igreja.

Para que o terreno no topo da colina de Montmartre fosse adquirido, a Assembleia Nacional reconheceu a “utilidade pública” do projeto da Basílica. Votaram a favor 382 contra 138 e a abstenção de 160 deputados. A Assembleia Nacional era composta de 686 membros, 396 dos quais eram monarquistas, e a imensa maioria de católicos fanáticos. A construção da Basílica foi iniciada em junho de 1875 e terminada em 1914.

O documentário fecha com o trecho de um artigo de Jean-Baptiste Clément rolando na tela (lettering). Publicado no final de abril de 1871 no jornal Le Cri du Peuple, o artigo de Clément proclama:

"Acostumados com os infortúnios… dizemos: Não nos preocupamos aqui em saber se esses decretos da Comuna (adotados desde o início de abril) serão cumpridos ou não. O que nos interessa é constatar o seu significado, (...) o seu alcance filosófico, o seu valor político e social. (…).

“Acostumados aos infortúnios ... dizemos: vamos supor que o povo seja derrotado, vamos supor que os bonapartistas e os monarquistas voltem a Paris chapinhando sobre poças de sangue, pisoteando cadáveres, o que restará da Comuna? Decretos nas paredes, cartazes que serão rasgados, respondem os que não enxergam além da ponta do nariz.

“Ah! Vocês se equivocam! Mesmo que esses decretos não sejam plenamente executados, mesmo que vocês rasguem todos os cartazes, mesmo que vocês pintem todos os muros de cal, vocês não conseguirão arrancar de nossas mentes os princípios que eles afirmaram, você não impedirão o povo de perceber a diferença que existe entre os governantes de
Versalhes e os membros da Comuna, vocês não impedirão que o povo tenha visto ali a  salvação dos trabalhadores e o futuro do mundo”.

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Para adquirir o livro acesse aqui a página da Editora Anita Garibaldi

Criado em 2021-08-18 15:04:31

Você tem med´de quê?

Luiz Martins da Silva –

Vendo os telejornais da manhã, um paradoxo: à medida que o número de vítimas do Covid-19 aumenta, também o fluxo de carros, hoje, até com um engarrafamento num dos acessos ao Plano Piloto [de Brasília]. Convenci o meu desânimo e mesmo ele argumentando que em redes sociais ‘ninguém’ lê um texto ranzinza até o fim, teimo, estou aqui, quando menos, para compreender o que não conseguimos mudar, mentalidade, com certeza.

Comentei via zap com uma amiga de Belém e em duas linhas nos lamentamos quanto a fazer quarentena enquanto lá fora os formigueiros teimam em acreditar que o bicho não lhes pega, talvez, uma gripezinha, coisa que brasileiro vive com o pé no esgoto e tá sempre robusto e broto.

Eu diria que vive com um comichão no rabo, qualquer castigo, menos tirar o pé do acelerador ou privar-se do bate pernas do comércio. Eu mesmo, em isolamento radical, me pego elaborando listas de compras, calma, somente o essencial, paro quando me autocensuro descobrindo que faltam itens tipo fita crepe e agulhas de costurar.

A mesma amiga me manda de volta um artigo do célebre sociólogo italiano, Domenico De Masi, o homem da civilização do lazer, do lúdico e do ócio. Ele mora numa das principais avenidas de Roma, que aquilo virou um deserto, hora por outra um sinal de vida, ou de quase morte, as sirenes das ambulâncias. Rememora, no entanto, que os seus nacionais só pararam e se recolheram depois de deduzir que também poderiam logo mais engrossar o cortejo de caixões em caminhões do Exército.

Neste momento, estou aqui para dizer que uma vez ‘cientista social’ num tempo em que tínhamos até bolsa de pesquisador, estudei campanhas públicas, no contraponto das campanhas publicitárias pró-consumo, estas, que levam o sujeito a comprar além do que necessita e se endividar além do que paga. Mudar de conduta, porém, é um dos maiores desafios em mobilização social e decorrentes campanhas sanitárias.

Atentem para algo certamente já sabido. Há uma diferença entre informação e comunicação. Pessoas bem e corretamente informadas sobre danos, inclusive à saúde, não alteram o seu comportamento para melhor, apenas por dever. Sim, aqui, também, outra dicotomia importante, relativa a duas categorias distintas de obrigação: a moral e a legal. Por vezes, o procedimento correto só se faz efetivo ante repressão, multa e punição severa e exemplar. Conheço um médico que penou muito para se curar de um câncer na boca. Alfinetei-lhe com esta: o grande escritor russo Anton Tchecov já havia escrito uma peça intitulada “Os malefícios do tabaco”. O senhor, como médico, estava sabendo, não?

Então. O distinto leitor com os olhos nesta tela, a esta altura, está bem ciente: o Covid-19 mata. Claro, todo mundo já sabe. Mas, por que a maioria do mundo só deixa para levar isto a sério quando a morte está a menos de dois metros e talvez nem isto, haja vista as aglomerações nas filas, praças, feiras, mercados, praias, campinhos de futebol? E o vereador que viralizou o vídeo, ele e família gozando o Coronavírus e caprichando na chacota quando um abestado entra espirrando na cara de quem abre a porta?

Ocorre-me este primor de constatação. Fazia eu um estudo comparativo de campanhas de trânsito no Brasil e em Portugal, à época, respectivamente, campeão mundial de mortes nas estradas e campeão europeu. Aqui e lá, o menos idiota de todos sabe que beber álcool e dirigir não dá certo. E em todos os lugares há piadas sobre motoristas bêbados quando abordados. E tem aquela anedota do cara que argumentou com o padre, depois do sermão. “Mas, padre, com tanta pinga boa, como é que tem FDP bebendo álcool?”

Portugal - Entrevistando uma técnica da Prevenção Rodoviária Portuguesa responsável, ela contou-me: “Fizemos dinâmicas com jovens e descobrimos que era inútil transmitir mensagens sobre o óbvio, que beber e dirigir pode matar. Descobrimos que eles não têm medo de morrer, se sentem olímpicos”. Med’de quê, então? De ficarem aleijados. E tome vídeo de mocinhos e mocinhas deformados. Funcionou? Siiimmm!!!

Em face da atual pandemia, o que funcionará? Med’de que esse povo daqui e do mundo teria? Por que só vão acordar quando o Corona tiver levado metade da família? Por aqui, fiquei horrorizado não propriamente com as tiradas de políticos, não se cansam com ofensas e piadinhas, até sobre a China, o grande fornecedor de máscaras e respiradores. Espantado fiquei com o FICO do ministro da Saúde: aceitou uma desmobilização parcial, onde haja leitos de UTI ociosos. Estranho raciocínio lógico-dedutivo, não falta combinar com a progressão geométrica do contágio?

Vírus mata? Claro, cara pálida! Como diria uma certa pessoa pública, naquele senso comum de “Uns tantos morrerão, fazer o quê?”. Med’de que a economia pare? Parece que sim. Mas, pelo menos o mercado da cloroquina já se aqueceu, queimou, sumiu das prateleiras. Como se vê, a saída fácil, mesmo sem comprovação, é a que serve. Algum robô eletrônico poderia viralizar postagens, semeando o pânico com os seguintes horrores: homem com o novo coronavírus fica impotente. Mulher com o novo coronavírus fica flácida, até essas moças do Big Brother, coitada da mocinha que ontem teve de deixar o isolamento da “Casa Mais Vigiada do Brasil”. Acabaram de me dizer que ela é médica. Logo se vê, médicos em baixa. Até lá, gente querendo dispensá-los. Ficou o Babu, anti-herói, que não está nem aí para formas. Tomara mesmo que ele ganhe o voucher de 1,5 milhão, pois, acabo de saber que as outras mocinhas, entre elas, outras médicas, são bem riquinhas, falsas e “barraqueiras”. Jamais ouvi qualquer recriminação relativa a se lavam ou não corretamente as mãos ou se sabem espirrar tampando o jato das gotículas com o cotovelo.

Felizmente, não aparece mais ninguém com aquela de que Deus é brasileiro. Mesmo assim, há muito brasileiro fazendo bonito nessa trilha de horror. Cidadãos altruístas e engajados. Não esses que ficam prometendo canetar alguém por estar aparecendo muito e ganhando popularidade.

Criado em 2020-04-08 19:55:46

Para onde caminham a mídia corporativa e as redes sociais?

Geniberto Paiva Campos –

Há uma irresistível vocação dos órgãos de comunicação no Brasil, os novos e os antigos: assumirem a partidarização. Ou seja, escolherem um lado do espectro político-partidário e passar a defender os seus princípios. E bem ao contrário do que imaginam os seus proprietários, tornam as suas empresas mais frágeis e vulneráveis. E não necessariamente mais poderosas.

A informação livre e isenta é um direito de todos. E desde o momento em que abandona esse compromisso, ao aderir a partidos políticos, geralmente do campo conservador, o jornalismo perde uma das suas características essenciais. Não é mais Jornalismo, digno desse nome. Torna-se uma espécie de farsa lamentável. E o mais grave, comprometendo, de forma irremediável, o processo democrático.

Esse direito de, literalmente, “tomar partido”, por parte dos donos dos veículos de comunicação, teria levado um desses “chefões” a dizer, de forma arrogante, talvez equivocada, para um seu funcionário: -não somos apenas divulgadores de notícias. Somos uma fonte de poder!

E na medida em que os jornais ampliaram o seu poder de comunicação, agregando rádio, revista, televisão, formando as “redes de comunicação”, escapando dos limites constitucionais, essa afirmação não ficou tão longe da realidade. O segmento populacional que dispunha de recursos criou o hábito de  ler os jornais pela manhã e acompanhar o noticiário da TV à noite. E assim ficavam informados. E, em curso, a sua formação ideológica. Tornando-os cidadãos de segunda classe.

Desde o momento, inserido nas primeiras décadas do século passado, no qual se tornou explícita a vocação desenvolvimentista do Brasil, deixando de ser, apenas, um simples exportador de produtos agrícolas e minerais, criou-se o antagonismo entre grupos políticos progressistas, representantes da vocação natural do país para se tornar uma nação desenvolvida, livre e soberana, versus a chamada “elite do atraso”, que sempre apostou na complementaridade definitiva da nossa economia. Condenados, para sempre, a sermos um país subalterno. Ingênuos e renitentes adversários da difícil luta pelo desenvolvimento, progresso e soberania nacional.

Essa bipolaridade entre desenvolvimentistas x subalternos vem marcando a lenta evolução política do país, em direção ao seu futuro, sempre adiado. Assim, conseguimos chegar à década de 1960 com vergonhosos índices de analfabetismo; fomos dos últimos países da América Latina a criar suas Universidades; com uma estrutura agrária injusta e disfuncional; ostentando sempre níveis insuportáveis de desigualdade social e econômica. Para satisfação de uma elite que sempre apostou todas as suas fichas no atraso e na injustiça social. Desta forma imaginando garantir, indefinidamente, os seus lucros.

Para chegarmos a esse ponto o país conta, há décadas, com o conluio, aparentemente indissolúvel, das suas elites, representadas nas diversas esferas de poder: os clássicos executivo, legislativo e judiciário. E com a importante – e permanente – cumplicidade da mídia corporativa, das forças armadas, de igrejas e da sempre presente classe média. A qual, sem perceber, adotou o Fascismo como religião.

Um sistema de governo, facilitador de golpes político-institucionais, denominado “presidencialismo de colisão” (desculpem) “presidencialismo de coalizão”, facilita a permanente instabilidade das instituições da República... Sempre que os donos do poder se imaginam em desvantagem, ou se sentem ameaçados nos seus privilégios, apelam para a desestabilização dos governos, dando início a um novo ciclo de autoritarismo, com os quais, de tão repetitivos, vamos nos acostumando. Afinal, são coisas naturais em nossa instável democracia.

Até ao final da primeira década do século 21, o processo político eleitoral caminhou sob a vigência dos valores clássicos da política. As eleições, em todos os níveis, tinham como vencedores as agremiações políticas que agregavam a maior quantidade de apoio entre os eleitores, como seria natural no processo democrático.

No entanto, devemos levar em conta, fazendo um curto parenteses, que, mesmo ao longo do período ditatorial (1964/1985), as regras do jogo político não eram imutáveis. O comando do movimento avaliava serem sempre necessárias novas medidas restritivas. Assim aconteceram, sucessivamente, o AI-5 (1968); a Lei Falcão (1976), entre outras medidas autoritárias. Por exemplo, a censura violentíssima aos movimentos culturais: teatro, cinema, e, sobretudo, música popular; até o retorno para a “Abertura”, lenta, gradual e segura, e finalmente, a transição para a Democracia. O cacoete autoritário foi mantido. Não tinha cura. E era do agrado dos censores. Pois lhes dava a sensação de “poder”. O exercício do poder sem limites. Característico dos regimes ditatoriais.

Na medida em que as comunicações se tornaram mais efetivas, verdadeiras revoluções foram acontecendo, na qual a Televisão passou a ter um predomínio inegável, ao agregar em sua pauta, além de notícias, esportes, entretenimento – sobretudo novelas – programas musicais e humorísticos, entre outras atrações. Claro, isso veio conferir maior poder de comunicação, grandes audiências, e, consequentemente, maior poder de influência nas escolhas da população, enquanto consumidores, eleitores e na formatação dos seus valores políticos e “ideológicos”.

O enorme poderio das redes de comunicação, no entanto, não permaneceu estável. E absoluto ou imutável, como era de se esperar. Desde que a evolução não para, e somada ao avanço do processo de globalização, o mundo agregava, naturalmente, novas formas de informação e comunicação.

O surgimento das redes sociais provocou uma nova revolução, dando continuidade ao processo de mudanças na área das comunicações. Introduzindo novos e importantes componentes. E com decisiva - e mal compreendida - influência na área política eleitoral, e consequentemente, no exercício poder institucional. Uma incrível e inesperada sequência de eventos eleitorais recentes comprovam essa influência, muitas vezes decisiva. E alterando, profundamente, as regras do jogo democrático. Gerando, no plano internacional, enormes perplexidades, mesmo entre os cidadãos informados e do mais elevado nível educacional.

A influência das redes sociais no processo eleitoral se manifestava em todo mundo: no Reino Unido (Brexit); nos EUA (eleição de Donald Trump) ambos em 2016; no Brasil, (eleição de Jair Bolsonaro), em 2018. Todos estes eventos marcados pela decisiva influência da manipulação “científica” das redes sociais. Resultados eleitorais considerados surpreendentes.

Giuliano Da Empoli, no seu livro Os engenheiros do caos, Ed. Vestígio, trad, de Arnaldo Bloch, 2019, faz uma segura narrativa, explicando como as fake news, teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições.

Trata-se de um pequeno/grande livro, no qual o autor consegue explicar (verbis): a “nova política” e os seus novíssimos atores, cujos defeitos e vícios se transformam, aos olhos dos eleitores, em qualidades. Sua inexperiência é a prova de que eles não pertencem ao círculo corrompido das elites. E sua incompetência é vista como garantia de autenticidade. As tensões que eles produzem em nível internacional ilustram sua independência, e as fake news que balizam sua propaganda são a marca de sua liberdade de espírito.

Por trás deles, “esconde-se o trabalho feroz de dezenas de spin doctors, ideólogos e, cada vez mais, cientistas especializados em Big Data, sem os quais eles jamais teriam chegado ao poder”.

Frente a tal manipulação, torna-se difícil falar em “Estado Democrático de Direito”, e de outros avanços obtidos pelo conjunto da sociedade, em sua busca permanente pelo desenvolvimento e preservação do processo civilizatório. E da Paz Universal. Valores permanentes.

A união das forças democráticas torna-se essencial na preservação de valores da Civilização, sob grave ameaça de extinção pela Extrema Direita. Agora atuando em escala mundial. Aprenderemos a percorrer os difíceis, tortuosos caminhos da Resistência. Tendo como objetivo maior a preservação da Democracia e da Civilização.

A luta continua. A derrota de Donald Trump nas eleições presidenciais americanas é um bom começo. E uma bela lição.

Criado em 2021-04-09 00:19:16

Brasília, entre o utópico e o real

Inês Ulhôa -

A Editora UnB vem publicando, ao longo dos anos, textos críticos e reflexivos, frutos de pesquisas, sobre Brasília e seu desenvolvimento. Neste mês do aniversário de 57 anos da Capital do País, a editora divulga as obras dedicadas à cidade.

Cidade planejada, desenhada por Lúcio Costa e inspirada nos manifestos dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAM) e no bucolismo das cidades-jardim inglesas, Brasília foi inscrita na lista do Patrimônio Mundial Cultural e Natural da Unesco, quando chegou aos 30 anos, em 7 de dezembro de 1987.

Em 1990, Brasília é tombada como patrimônio histórico nacional pelo governo brasileiro, que, por meio do Iphan, inscreve a Capital no Livro do Tombo Histórico, regulamentando seus usos e funções dentro do perímetro preservado, com a intenção de manter as características do Plano Piloto e “a qualidade de vida” que se almejava.

Primeiro bem contemporâneo a merecer a distinção de Patrimônio Cultural da Humanidade e considerada cidade-símbolo do Modernismo, Brasília é, entre as cidades planejadas no mundo, uma das que mais atrai a atenção de estudiosos do planejamento urbano, principalmente por seu projeto urbanístico considerado exemplo de um ideal utópico socialista, o que lhe atribuiu um expressivo significado na história mundial da arquitetura e do urbanismo.

Mas Brasília nos traz também a possibilidade de observar, em seus vastos horizontes, suas peculiaridades, levando em conta sua história urbanística e um olhar sobre as contradições e conflitos da cidade que se tornou metrópole em curto espaço de tempo, tendo seus espaços públicos invadidos por cimento, asfalto, ferro e vidro.

Esse agigantamento de Brasília trouxe, inexoravelmente, problemas de toda ordem – ambientais, desemprego estrutural, violência urbana, grilagem de terras públicas e privadas, delinquência juvenil, transportes urbanos deploráveis, entre tantos outros. Sua periferia, estruturada obrigatoriamente, ainda como parte de sua implantação, hoje ultrapassa os limites do Distrito Federal, incorporando cidades do Entorno, trazendo pessoas que se deslocam freneticamente no dia-a-dia, pois é na Capital que buscam o emprego, os hospitais, as escolas e o lazer, visto as cidades-satélites e o Entorno serem desprovidas principalmente de equipamentos culturais.

A cidade e suas dinâmicas

Na história de Brasília muitos fatos aconteceram e muito sobre ela já se escreveu, monumentos foram erguidos, muitas histórias contadas, mas ainda há muito por revelar.

A paisagem urbana de Brasília é algo, sim, a ser visto e lembrado, o cotidiano dos lugares, o pulsar das ruas e dos carros e ônibus que cruzam a cidade, a ordem e a desordem, enfim, uma coisa a ser percebida, a ser explorada, a ser visitada, a ser olhada, compreendida e sentida como concerto para o corpo e a alma, despertando a fruição estética.

Mas, para além da fruição estética que Brasília proporciona é preciso compreender o lugar que ocupamos e da percepção de nós mesmos, como sujeitos ativos, capazes de interagir e se envolver com seus fenômenos sociais, culturais, políticos e econômicos.

Essa observância da lógica que move as cidades permite a compreensão da produção dos espaços pelo homem.

Nessa perspectiva, a Universidade de Brasília, em sua característica multidisciplinar, tem-se dedicado a estudar questões teóricas e históricas sobre a realidade da Capital Federal.

Debates, pesquisas e estudos tornaram-se obras de referência sobre a cidade, tendo como dimensão explicativa a economia, a política, a cultura, a geografia e os aspectos sociais que cercam toda uma comunidade.

A questão principal, para os autores das diversas obras publicadas pela Editora UnB dedicadas à análise de Brasília, está na interpretação multidisciplinar que a cidade proporciona, com suas dinâmicas próprias.

É sabido que as inevitáveis transformações provocadas pela expansão do modo de produção capitalista, que foram se reproduzindo no século 20, fizeram com que a cultura urbano-industrial se impusesse sobre as demais culturas.

Notadamente, em Brasília, esse modo de produção do espaço e da apropriação e uso da terra aceleraram sua transformação em metrópole, como atesta o professor Aldo Paviani, que coordenou e ajudou a coordenar várias dessas edições dedicadas a explorar as diversas feições da cidade: “Ao contrário do que foi idealizado pelos fundadores, ela deixou de ser cidade aprazível onde se decidiria os ´elevados destinos do Brasil´para se tornar cidade assemelhada às demais metrópoles brasileiras”.

Esse fenômeno vai criar novas necessidades, provocar mudanças e, assim, alterar a configuração da cidade, verificando-se o caráter contingente da acumulação do capital na criação de novos lugares e sua rápida urbanização, pela ruptura de fronteiras e a consequente concentração no espaço de forças produtivas e do poder político e econômico, acentuados pelo impacto das políticas neoliberais. Inventar sempre uma nova necessidade humana é a chave para a expansão do capitalismo sobre a vida urbana e a cultura que ela engendra.

É onde a geopolítica do capitalismo impõe a sua força, incorporando e criando valor a espaços que passam por transformações profundas, mediados por interesses de grupos, dando a sua lógica aos territórios, abrindo novos espaços para a acumulação, formando e reformando as paisagens geográficas.

O professor Paulo Bicca lembra que para Lucio Costa e para os que pensavam como ele, em Brasília deveria ser colocada em prática uma das tantas recomendações da Carta de Atenas, qual seja, a construção de uma cidade não pode ser abandonada sem programa, nas mãos da iniciativa privada. Ou seja, esta era uma questão fundamental “para a implantação daquilo que era proposto sob a forma de Plano”, portanto, “a iniciativa privada teria de agir conforme o programa urbanístico rigidamente definido por aqueles que o haviam concebido […] tendo em vista impedir que os agentes da ´desordem urbana` nela tenham livre curso”.

As contradições despontam

Com apenas 57 anos de idade, Brasília é hoje uma cidade heterogênea e complexa, para aonde, desde o seu início, migraram milhares de brasileiros atraídos pelo imaginário de uma cidade promissora, funcional, com igualdade de classes e vista como um trunfo progressista, diante de um Brasil atrasado, pois estava inserida no projeto de desenvolvimento e industrialização do ambicioso Plano de Metas do presidente Juscelino Kubitschek, que tinha a ousadia de modernizar o país, ainda sob um incipiente processo de industrialização. É como se o futuro da Nação estivesse bem ali, naquela região ainda por explorar.

É dentro desse vasto universo da Cidade-Capital que os pesquisadores da UnB mergulharam e constataram que é possível ver, material e simbolicamente, as possibilidades efetivas da vida cotidiana, ou seja, ter a compreensão do modo como os indivíduos se relacionam com os lugares e onde encontram os subsídios que dão sentido a seu próprio lugar no mundo.

Uma visão crítica das relações socioespaciais é um passo fundamental para a compreensão do significado de Brasília no contexto das políticas urbanas, com observância das suas contradições, como apontam Luiz de Pinedo Quinto Jr e Luiza Naomi Iwakami: “Brasília apresenta-se hoje como uma cidade praticamente sem contradições se observarmos apenas o Plano Piloto. […]

Porém, a segregação ocorre na exata medida em que se pôde preservar este aspecto límpido do plano original conjuntamente com a formação e expansão das cidades-satélites, estas, sim, uma certa reprodução do que ocorre em todas as cidades, relegadas até hoje a um certo abandono no que tange ao fornecimento de equipamentos coletivos urbanos e demais ´benefícios´ do ´centro´”.

A rigor, a intenção inicial era que os operários de sua construção não se estabelecessem nela, voltassem para suas cidades de origem, pois a Capital foi pensada para abrigar o Estado; seria uma cidade para desempenhar o papel de Capital Político-Administrativa do País; uma cidade exclusivamente burocrática para nela residir os funcionários públicos dos poderes federais e de setores de apoio, sem espaço também para o desenvolvimento industrial.

Portanto, não haveria lugar para os operários da construção, nem para áreas periféricas, embora, na época de sua inauguração, a cidade já contasse com uma população de pioneiros que chegava a, aproximadamente, cem mil pessoas.

Não havia no Plano Piloto de Lucio Costa, nem no planejamento da Novacap projetos para a criação de cidades-satélites no Distrito Federal.

Os que construíram Brasília não estavam predestinados a nela habitar.

Entretanto, a realidade mostrou-se bem diferente. Os operários organizados exigiram moradia e, ainda em 1958, portanto, dois anos antes da inauguração, construiu-se a primeira cidade-satélite,

Taguatinga, situada a 20km do centro, como núcleo-dormitório; em 1960, surgiu Sobradinho; e, em 1961, o Núcleo Bandeirante, a que se seguiram as outras. Portanto, entre o imaginado e o real muitas histórias se sucederam.

Nesse sentido, a urbanização no Distrito Federal foi adquirindo “um perfil socioespacial segmentado e segregado: de um lado, ‘o espaço dado’, onde predomina o controle, o assistencialismo e o paternalismo, e de outro, ‘o espaço conquistado’, fruto dos movimentos das classes populares por melhores condições de moradia, infraestrutura e transporte”.

A estratificação social e espacial se impôs, seguindo o padrão das demais cidades brasileiras, onde as camadas mais baixas e despossuídas da população habitam as periferias.

Esse quadro contraria a cidade idealizada como fraterna, onde todos, independente de suas condições econômicas, pudessem conviver harmonicamente, conforme o projeto de unidades de vizinhança concebidas por Lucio Costa.

Entretanto, mesmo esse desenho foi incapaz de superar a lógica da urbanização capitalista.

Sobre os rumos do crescimento excessivo da Capital e a distância entre a utopia que  a originou e a realidade, onde se tornou visível a segregação social, o professor José Geraldo de Souza Jr, ex-reitor da UnB, aponta a segregação como um dos graves problemas estruturais da Capital.

Diz ele que o imaginário idealizador da cidade, “na configuração de uma alternativa de vida urbana democrática e participativa, encontrou seu limite nas condições da sociedade capitalista, injusta e desigual.

O próprio sucesso do desenvolvimento urbano da cidade gradativamente desarticulou a lógica da utopia original e operou a segregação das camadas populares, reorientando o espaço urbano com a estratificação das classes sociais na península e nas cidades-satélites”.

Esse quadro traz enormes problemas para a Cidade, pois “crescendo a taxas superiores à média nacional, pressiona os recursos naturais, requer mais espaços habitacionais e de serviços, como nos comércios das entrequadras, adequações da Cidade pensada e a que se efetivou agigantada”, diz o professor Aldo Paviani, em artigo publicado no jornal Correio Braziliense.

Assim, desconstrói-se o mito fundador da Capital e o real desponta. 

Em Brasília, como em outras grandes cidades, “imagens construídas artificialmente tendem a confrontar-se dialeticamente com imagens do real, representado pelo cotidiano de seus habitantes”, observa Lucia Cony Faria.

Do espaço inventado ao espaço apropriado

Por certo, Brasília produziu seu próprio espaço social, com sua evolução natural e característica de qualquer cidade, ampliando seu território para além das áreas habitacionais rigidamente planejadas.

De sua vocação inicial, meramente burocrática, desponta para a sua vocação de metrópole, incluindo as suas cidades-satélites num corpo só, pois ela não pode mais ser considerada apenas como o Plano Piloto de Lucio Costa, ambiente privilegiado pela sua beleza arquitetônica e seu paisagismo.

Pena que tenha ficado apenas na crença a cidade como uma grande comunidade igualitária.

Portanto, reinterpretar seus atributos, além de seus aspectos morfológicos, é procurar, no dizer de Frederico Holanda, “recuperar, de uma invenção milenar [a rua], suas características fundamentais: o espaço por excelência da troca, da reunião, dos conflitos e da superação, em busca permanente do novo”.

Assim, entre utopia e realidade, a transformação da sociedade vai se fazendo nesse reinventar dos indivíduos, produzindo formas alternativas de sociabilidade pela ocupação dos espaços públicos e nutrindo, com ideias novas, a população culturalmente.

Ademais, a reflexão e o debate sobre as cidades revelam simultaneamente a crescente necessidade de rever conceitos, tal como a globalização (e seu uso político), e a emergência de valorização do lugar ou dos lugares como reveladores das realidades sociais.

Pois a cidade, representada em suas diversas manifestações, sejam estéticas ou político-culturais, é lugar onde agem forças múltiplas, pois evolui, expande-se e desafia “aqueles que desejam decifrar seus enigmas e suas contradições”.

Afinal, se a cidade é obra dos homens, seu cenário está sempre se modificando, conjugado às forças sociais que nela se interagem pelas relações cotidianas, pois “constitui o espaço da concentração, da população, dos instrumentos de produção, do capital, dos prazeres e das necessidades”.

A seguir, os livros publicados pela Editora UnB dedicados ao estudo da cidade-capital:

Brasília: Controvérsias ambientais – Aldo Paviani e Luiz Alberto de Campos Gouvêa (Orgs.)

Brasília: Dimensões da violência urbana – Aldo Paviani, Frederico Flósculo P. Ferreira e Ignez Barbosa (Orgs.)

Brasília: Ideologia e realidade – espaço urbano em questão Aldo Paviani (Org.)

Brasília: Moradia e exclusão – Aldo Paviani (Org.)

Brasília 50 anos: Da capital a metrópole – Aldo Paviani, Ignez Costa Barbosa Ferreira, Frederico Flósculo Pinheiro Barreto, Lucia Cony Faria Cidade e Sergio Ulisses Jatobá (Orgs.)

Brasília: A metrópole em crise – Ensaios sobre urbanização -Aldo Paviani (Org.)

A conquista da cidade: Movimentos populares em Brasília -Aldo Paviani (Org.)

Brasília 50 anos: Arte e cultura – João Gabriel Lima Teixeira

Brasília: Diferentes olhares sobre a cidade – Cléria Botelho da Costa e Eloísa Pereira Barroso

De Nova Lisboa a Brasília: A invenção de uma capital (séculos XIX-XX) – Laurente Vidal

Expresso Brasília: A história contada pelos candangos – Edson Beú

Os filhos dos candangos: Brasília sob o olhar da periferia – Edson Beú

Narrativas a céu aberto: Modos de ver e viver Brasília – Cremilda Medina (Org.)

Itinerância dos artistas: A construção do campo das artes visuais em Brasília (1958-2008) – Angélica Madeira

Nas asas de Brasília: Memórias de uma utopia educativa (1956-1964) – Eva Wairos Pereira, Laura Maria Coutinho, Maria Alexandra Rodrigues, Cinira Maria N. Henrique, Francisco Heitor de M. Souza e Lucia Maria da Franca Rocha (Orgs.)

História da terra e do homem no Planalto Central: Eco=história do Distrito Federal – Paulo Bertran

Revista Humanidades, número 56 – Brasília, cidade, pensamento

Criado em 2017-04-12 14:11:56

Uma dor filha da puta

Luís Turiba - 

Chico é phoda.

Do seu mais contido silêncio, ele vem quebrar o nosso doído luto com um samba daqueles, brasileiríssimo, descontraído e profundamente arrastado num solo de bandolim do Hamilton de Holanda e uma batucada no melhor estilo Dorival Caymmi.

“Que tal um samba?”, propõe Chico.

Sim, nada melhor que um samba pra enfrentar essa barra pesada.

Afinal, o ritmo é o que melhor o brasileiro tem na alma e na memória ancestral.

E dizem mais: a primeira roda de samba aconteceu lá em 1.500 quando os portugueses desembarcaram com seus pandeiros e os indígenas tocaram suas maracas. Então houve dança, houve canto, houve ritmo. O samba nasceu ali, diz Gilberto Gil.

Chico apresenta seu samba para espantar o tempo feio, para remediar estragos, que tal um trago, um desafogo um devaneio, cair no mar, lavar a alma, tomar banho de sal grosso. Um samba para alegrar o dia, pra zerar o jogo.

Um samba pra espairecer, sair do fundo do poço. Deixar o coração pegando fogo: ver um batuque no Cais do Valongo, dança o jongo lá na Pedra do Sal; uma roda na Gamboa.

Um samba com categoria, que tal um samba; um gol de bicicleta, dar de goleada. Deitar na cama da amada e despertar poeta. Achar a rima que completa o estribilho. Sair do fundo do poço. Fazer um filho; de pela escura. Uma formosura. Um filho bem brasileiro. Não ter dinheiro, mas a cultura.

Puxar um samba porreta depois de tanta mutreta. Uma beleza pura no fim da borrasca; depois de criar casca e perder a ternura. Depois de muita bola fora da meta, juntar os cacos e ir à luta. Manter o rumo e a cabeça. Desconjurar a ignorância, que tal? Desmantelar a força bruta.

Puxar um samba legal. Depois de tanta cascata, depois de tanta derrota, de tanta demência, uma dor filha da puta, que tal?

Que tal um samba? Tamos nessa, Chico.
__________________
(*) Luis Turiba é poeta
_________________
Leia aqui a letra e ouça a música:
https://www.youtube.com/watch?v=G7i1g3I2AT4

A seguir, o roteiro da turnê

JOÃO PESSOA
6 e 7 de setembro, no Teatro Pedra do Reino
Ingressos em https://bilheteriavirtual.com.br/

NATAL
9 e 10 de setembro, no Teatro Riachuelo
Ingressos em www.uhuu.com

CURITIBA
3 e 24 de setembro, no Teatro Guaíra
Serviço de vendas será anunciado em breve

BELO HORIZONTE
5, 6, 7 e 8 de outubro, no Palácio das Artes​
Serviço de vendas será anunciado em breve

FORTALEZA
22 e 23 de outubro, no Centro de Eventos do Ceará
Ingressos em https://bilheteriavirtual.com.br/

PORTO ALEGRE
3 e 4 de novembro, no auditório Araújo Vianna
Ingressos em www.uhuu.com

SALVADOR
11, 12 e 13 de novembro, na Concha Acústica
Ingressos em https://bilheteriavirtual.com.br/

BRASÍLIA
29 e 30 de novembro; local a ser anunciado
Serviço de vendas será anunciado em breve

RECIFE
8, 9 e 10 de dezembro, no Teatro Guararapes
Serviço de vendas será anunciado em breve

RIO DE JANEIRO
5 a 15 de janeiro, no Vivo Rio
Ingressos em www.vivorio.com.br

SÃO PAULO
2 a 12 de março e de 23 de março a 02 de abril, no Tokio Marine Hall
(Vendas de ingressos serão anunciadas em breve).

 

Criado em 2022-06-19 00:02:55

Militante político faz greve de fome em prisão de Brasília

O conhecido militante político Rodrigo Pilha, que continua preso mesmo após determinação judicial para cumprir pena em regime aberto, entrou em greve de fome nesta sexta 9/7 por tempo indeterminado.

Em carta aberta à população, Pilha denuncia os maus tratos sofridos na cadeia e o sistema prisional como um todo. A prisão de Pilha se deu por causa de protestos que ele vinha fazendo contra o governo genocida de Jair Bolsonaro e por ter se manifestado contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 2016.

Pilha tem recebido solidariedade nas redes sociais e, pessoalmente, por intermédio de políticos e juristas de Brasília.

Eis a íntegra da carta-denúncia de Rodrigo Pilha:

“Queridos familiares e amigos,

Após refletir bastante na última madrugada de cárcere, decidi que inicio a partir de hoje uma greve de fome sem data para acabar.

Tendo em vista que o Judiciário segue me proibindo de falar, conceder entrevistas, e agora me mantém preso, mesmo eu tendo conquistado o direito ao regime aberto, optei por usar meu corpo e a resistência pacífica para protestar contra estes e diversos outros absurdos que seguem ocorrendo no sistema penitenciário do DF, por conta do autoritarismo policial e judicial.

Bem mais que não desejar comer aquela lavagem que chamam de comida, entregue aos apenados, lá naquela espécie de campo de concentração contemporâneo chamado de “Galpão” , minha greve de fome tem o intuito de denunciar e chamar a atenção da sociedade para os maus-tratos, as péssimas condições de cumprimento de pena e toda a sorte de violações de direitos humanos que continuam a ocorrer dentro do sistema prisional do DF, sob a vista grossa de um Judiciário que muitas vezes lava as mãos, passa o pano e acaba sendo conivente com tais atrocidades.

Ameaças de castigo e agressão, xingamentos e maus tratos por parte de policiais penais, seguem ocorrendo, e inquirições de apenados SEM a presença da defesa (fato que só comigo, já ocorreu em três oportunidades), são práticas corriqueiras.

As celas e alas seguem hiper lotadas, com pessoas dormindo por cima das outras, e até no chão sujo em meio a baratas e escorpiões.

O banheiro mais parece uma pocilga e os banhos de sol são de meia hora apenas.

Castigos excessivos e por razões banais, com o mero intuito de causar a regressão penal dos presos, acabam por institucionalizar a tortura psicológica por parte do estado no cotidiano dos presídios.

A diretoria penitenciária de operações especiais (DPOE) é acusada de espancamentos gratuitos , mutilações e até de ser responsável pela morte de presos após a prática do procedimento chamado de “extração” ou “guindar” apenados.

Por fim, sei dos riscos que corro, mas estou convicto de que minha greve de fome é o mais acertado a se fazer neste momento, para trazer luz ao terror existente nos presídios do DF, e , lhes garanto que as mazelas do sistema prisional são bem mais radicais e maléficas à vida das pessoas do que a atitude que hoje adoto como forma de protesto.

Ante ao exposto e já que não me deixam falar, peço que FALEM POR MIM e divulguem ao máximo esta carta-denúncia afim de que o maior número de pessoas saiba da barbárie que hoje impera no sistema prisional do DF.

“... podem me prender, podem me bater, podem até me deixar sem comer, que eu não mudo de opinião...”

Com os versos de protesto do sambista idealizador da “Voz do morro”, Zé Keti, me despeço agradecendo a todas e todos por todo apoio e carinho recebidos até aqui.

Um forte abraço e hasta la Victoria siempre!!!

Com carinho,

Brasília 9 de julho de 2021.

Rodrigo Pilha”

Criado em 2021-07-10 15:30:40

Maria Maia - Poema

Numa tarde poética, no Leão da Serra, em Brasília, Maria Maia recita este poema de Mario Maia, com o qual foi cassado do mandato de deputado federal, quando o recitou no plenário, em 1968.

Criado em 2018-01-15 18:21:06

Mila Petrillo e a sede de absoluto

Maria Lúcia Verdi –

A abertura da mostra Ato – Teatro e Dança, da fotógrafa Mila Petrillo, no Museu Nacional República, Esplanada dos Ministérios, em Brasília, reuniu a classe artística brasiliense, o público que acompanhou os espetáculos durante algumas décadas e jovens que querem conhecer esse registro.

No texto de Severino Francisco para o catálogo, que não só descreve a alquimia da fotografia de Mila, como a situa muito bem no contexto histórico em que foi produzida, lemos: “Algumas vezes, destacam-se pelo enquadramento ou os jogos de luz, sombra e cor, como se fossem cinematizadas. Em outras, apresentam-se com o aspecto de esculturas vivas, na acuidade para captar as curvas, os volumes, as saliências, as reentrâncias, a musculatura e a materialidade do corpo. Ou então revelam-se quase como pinturas impressionistas, com os corpos se desintegrando nas cores e ganhando a leveza da luz. Ou flagram, a seco, na fisionomia do rosto, o átimo desvelador do estado de espírito do personagem. Ou, ainda, as imagens das cenas teatrais dançam como uma pintura em movimento. E o movimento da dança ganha um ritmo de música para os olhos”.

Curadora da mostra, a atriz Carmen Moretzshon, escreve a apresentação e a intitula “Fotografar com a alma”. Encerra-a assim: “Afinal, deslumbrar-nos parece ser uma das missões de Mila sobre a terra”.

Muito já se teorizou, já se divagou em torno da fotografia. Dois “clássicos” me marcaram: os ensaios de Roland Barthes e de Susan Sontag. Mas não quero citar ninguém, apenas dar um depoimento sobre o que vi, ouvi e senti. O que vi, ouvi e senti foi a alegria das pessoas, os sorrisos e abraços que trocavam ao verem as imagens expostas que as traziam de volta a um tempo, no caso dos artistas, a si mesmos.

Cheguei em casa e fiquei me perguntando qual o segredo daquela magia que havia elevado a todos nós, por algumas horas, para um outro plano.

Essa magia é o segredo da grande arte e por isto ela é indispensável. A arte não pode se ausentar da sociedade ou a verdade nos mata, como mais ou menos disse Nietzsche - por isto é preciso lutar por educação e cultura, para que ela surja e dê um outro sentido ao prosaico da existência.

Um dos elementos essenciais desse segredo da arte, no caso da fotografia, é o silencio que se instala em torno de imagens que conseguem transcender o tempo do clic, eternizando um segundo de pura beleza, congelando-o num êxtase visual. No frenesi da vida contemporânea - um fluir continuado e extenuante de imagens - a paralisação que a fotografia de arte pode realizar é um alívio, um respiro, um outro tempo.

As fotos de Mila são feitas com 100% de coração e 100% de técnica. Ela abusa (docemente) do dom de ser mestra de sua arte. Nesta exposição vemos que o ato teatral desvela: a vida muito além dela mesma.

Fotografias belamente distribuídas, impressas em fine art, muito bem iluminadas, nos fazem esquecer que tudo aquilo é passado - presentificam epifanias. Olhamos as fotos e nos irmanamos com a artista em nossa sede de absoluto, de eternidade. Nelas, o tempo de um gesto infinito, de uma expressão do para sempre.

Ao mesmo tempo em que as imagens falam, gritam, e constroem atos perdidos, impõem o silencio da beleza. Não por acaso Mila é também a saniasi, Anand Niranjana, dedicada à busca espiritual e à transmissão de sua fé juntamente com o seu companheiro de vida Devam Bashkar, tendo ambos estudado na Índia.

A liberdade com que vive e olha o mundo permite que o ato de fotografar parta de um olhar aberto, acolhedor, despido de condicionamentos, apto para captar plenamente a beleza.

Numa das alas, encontrei Severino Francisco, os olhos brilhando como os de um menino encantado. Quando nos abraçamos era como se nos disséssemos: vai passar, vamos resistir. Saímos da mostra emocionados, acompanhados pelas imagens que adentraram em nós. Que aí, lá, fiquem como testemunhas de esperança. Disse Drummond “de tudo fica um pouco.”, e esse pouco, quando vem da arte, é puro alimento, néctar poético. Transcendência.

______________________

Serviço:

Exposição de fotografias de Mila Petrillo: Ato – Teatro e Dança

Temporada: De 17 de abril a 30 de junho de 2019.

Local: Museu Nacional da República – Esplanada dos Ministérios – Brasília - DF.

Visitação: terça a domingo, das 9h às 18h30,

Informações pelo telefone: (61) 3325-6410.

Criado em 2019-04-19 02:02:54

Uma procissão de protestos contra o feminicídio

Angélica Torres –

Fim da tarde de 28 de agosto de 2019. Uma profusão de camelôs ao longo de todo o 1º andar da Rodoviária de Brasília. Povão em grande precariedade, amontoado, mercado de transeuntes de toda espécie da classe trabalhadora pra baixo, voltando para as suas cidades satélites ou para locais do Plano Piloto mesmo.

Um grupo de cerca de cem mulheres e alguns poucos homens percorrendo juntos a plataforma superior e o térreo, com cartazes e flores nas palmas das mãos manchadas de vermelho, aos gritos de "não nos matem!", "mulheres resistem!", e o cenário evocando as procissões da Paixão de Cristo de cidades do interior: Verônicas erguendo sudários, os cartazes de denúncias, citando o nome das muitas vítimas assassinadas até agora, e só neste ano, no Brasil.

Discursos indignados, exaltados, políticos, do quadro de violências contra brasileiras, feitos de improviso por inúmeras, de idade entre 30 e 80 anos. E a condição humana denunciando essa amargura de mulheres defendendo-se umas às outras, numa canção desesperada de apelo à vida, ao direito, ao respeito, à dignidade de todas e de cada uma.

Deram pra isso agora, elas, de virar combatentes "guardiãs da humanidade" junto com outras mães, filhas, primas, tias, avós, amigas, muitas que nem se conhecem, negras, brancas, indígenas, segurando essa barra de ferro pesado, chamando atenção dos em volta – e para várias causas, não só as das tragédias que o feminismo combate.

Triste tarefa. Dura. Tempos de guerra, esquisitos, sinistros. Vai carregar bandeira é cargo muito pesado pra mulher, Adélia Prado está certa, mas é a tal verdade: alguém tem que fazer esse serviço, sujo de sangue inocente. E as guerreiras não fogem à luta do enfrentamento.

Volto sempre de protestos, seja como participante ou no papel de repórter, com uma dor fantasma oprimindo o peito; a luz da tarde que luz estranha, um voo rasante de anjo invisível largando penas de comiseração sobre as cabeças.

Enquanto caminhávamos, descíamos as escadas ou parávamos nalgum ponto, pensei, quantos homens ali, nos olhando de soslaio, com expressão de leve escárnio, meio sorriso de Monalisa no canto da boca, poderiam não ser potenciais assassinos torturadores de mulheres (che luce strana...), essas todas que o presidente em exercício e seu filho desqualificam, estimulando a violência.

Algum ouvido sensível, algum transtornado, será que captaria as mensagens? Algum efeito de conversão seria possível ocorrer naquela estação, povoada de répteis sobre rodas, entre bípedes ainda não de todo sapiens? No total, éramos muito poucos ali externando ao povo, às autoridades e instituições a não aceitação dos crimes bárbaros que diariamente chegam ao conhecimento de todos e todas. Mas que comovedor ver três ou quatro homens solidários, repetindo as frases de ordem ditadas pelas guerreiras, e mais ainda, um deles puxando justamente a clássica "machistas, fascistas, não passarão!".

Difícil ali segurar lágrimas, mas a hora não era de sentimentalismos à mostra, por mais que se notasse um discreto olhar ou um leve sorriso de cumplicidade de mulheres, em pé, nas longas filas de espera dos ônibus.

Também comovedor foi ver que dos diferentes grupos de guerreiras ali atuantes, muitas deserdaram antes do início dos discursos, para cumprir outras agendas de luta: o pequeno mas incansável movimento de resistência "Mulheres com Lula", que toda 4a feira depois de 18h se reúne para protestar em frente ao STF; e outras para irem a uma reunião na Câmara Legislativa do DF, com representantes do governo local, pra exigir de volta os recursos do Fundo de Apoio à Cultura, arbitrariamente tomados da classe artística pela atual administração.

Ao lamentarmos do comodismo geral em mostrar às autoridades que não se está conivente com a vil situação, é preciso reconhecer que mesmo em pequeno número, mulheres principalmente não arrefecem. São exemplares na abnegação e no espírito de resistência.

Já em se tratando das instituições e autoridades que decidem os rumos da nação, será que as do STF, do Congresso, dos Ministérios, conseguiriam ao menos enxergar de suas amplas e envidraçadas salas, o esforço contínuo delas e desses poucos homens, já que não se sensibilizam em ver com nitidez o Brasil despencar ladeira abaixo do abismo?

Será que prestaram atenção na Marcha das Margaridas e das Indígenas, que vieram em massa e com enorme sacrifício expor suas reivindicações e seu inconformismo com o momento do país? O descaso e a indiferença pra com a voz do povo podem, no mínimo, sinalizar que há em curso uma mumificacão das nossas instituições.

Criado em 2019-08-30 02:09:01

Os desafios da política de comunicação no Brasil

O Laboratório de Políticas de Comunicação (LapCom), da Universidade de Brasília (UnB), lança, virtualmente, nesta quarta-feira, 10/2, das 19h às 21h, o livro sobre marco histórico das políticas de comunicação no país: Conferência Nacional de Comunicação, 10 anos depois: os desafios das Políticas de Comunicação no Brasil.

Por meio de um debate com autoras(es) da obra, o lançamento virtual pode ser acompanhado pelo canal do LaPCom no Youtube. O livro foi produzido para circular de maneira aberta e, após o evento, estará disponível na página do Intervozes e em: sites.google.com/ccom.unb.br/home/confecom

A 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) ocorreu em 2009 e foi um marco nas políticas de comunicação do setor ao ser o único espaço institucionalizado deste tipo que reuniu Executivo, Legislativo, empresários e sociedade civil para debater propostas de políticas públicas de comunicação no Brasil. O processo mobilizou cerca de 30 mil pessoas e gerou um caderno de resoluções com mais de 600 recomendações.

Publicado pela Ulepicc-Brasil (capítulo Brasil da União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura), a obra está estruturada em artigos, analisando o período da Confecom e buscando conectá-lo com a realidade atual. Tais textos são de autoria de Murilo César Ramos, Fernando Oliveira Paulino, Jonas Valente, Marcos Urupá, Octavio Penna Pieranti, Lara Haje, Cecília Bizerra Sousa, Camilo Vannuchi e Carlos Henrique Demarchi.

O livro, também traz depoimentos de personagens essenciais à realização da Confecom: Ana Néca, André Barbosa Filho, Bia Barbosa, Cesar Rômulo Silveira Neto, Érico da Silveira, Indira Pereira Amaral, Jeronimo Calorio Pinto, Jonas Valente, José Carlos Torves, José Luiz do Nascimento Sóter, Juliana Cézar Nunes, Juliana Soares Mendes, Luiza Erundina de Sousa, Mariana Martins de Carvalho, Octavio Penna Pieranti, Paulo Miranda, Renata Mielli, Romário Schettino, Walter Vieira Ceneviva e Yuri Soares Franco.

O livro Conferência Nacional de Comunicação, 10 anos depois: os desafios das Políticas de Comunicação no Brasil contém entrevistas com Franklin Martins e Evandro Guimarães e traz documentos importantes como anexos.

De maneira inédita, o livro conta com a minuta do Projeto de Lei que “dispõe sobre os serviços de comunicação eletrônica, os serviços de comunicação social eletrônica e dá outras providências”, debatido durante o fim do segundo mandato do governo Lula.

Também foram incluídos o decreto de convocação da Confecom, as portarias do Ministério das Comunicações com a composição da Comissão Organizadora da Conferência e a aprovação do seu Regimento Interno, a Resolução da Comissão Organizadora, que definiu seus eixos temáticos e a metodologia para encaminhamento e aprovação das propostas e o Caderno com as propostas aprovadas.

Criado em 2021-02-07 19:13:03

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