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Página 25 de 95

Impeachment de Wilson Witzel é aprovado por 10 a 0

Romário Schettino -

Wilson Witzel, aliado político de Bolsonaro durante a campanha eleitoral e responsável pela política de extermínio nas favelas e periferias do Rio de Janeiro foi definitivamente afastado do governo do Estado em decisão histórica. É o primeiro impeachment de um governador eleito depois da redemocratização do país. Witzel foi condenado por crime de responsabilidade e perde os direitos políticos por cinco anos.

Por unanimidade, o Tribunal Especial Misto aprovou o impeachment de Witzel. Para o seu lugar será efetivado o atual governador em exercício, Cláudio Castro (PSC), outro aliado de Bolsonaro.

O pedido de afastamento de Witzel é de autoria dos deputados estaduais Luiz Paulo (Cidadania) e Lucinha (PSDB) e foi aprovado por unanimidade na Assembleia Legislativa há sete meses.

O relator do processo, deputado Waldeck Carneiro (PT) disse que Witzel (na foto, abaixo) agiu com "desleixo”, “omissão” e “negligência” no exercício do cargo. O parlamentar leu sua decisão por mais de 2 horas. Ele reproduziu alguns trechos de interrogatórios conduzidos ao longo do processo no TEM e depoimentos dados à Procuradoria-Geral da República (PGR) por envolvidos no esquema investigado pelo MPF. Entre eles, os do ex-secretário e delator Edmar Santos, dos empresários Mário Peixoto e Edson Torres, e do líder do PSC, Pastor Everaldo.

As citações irritaram a defesa de Witzel, que tentou interromper a fala do deputado. O advogado Bruno Albernaz argumentou que os fatos mencionados não constam na denúncia, o que foi negado pelo presidente do TJ, Henrique Figueira.

“Em relação à acusação de crime de responsabilidade relativo ao ato de requalificação da OSS Unir Saúde, considero que a pretensão acusatória é procedente, tendo em vista que tal ato, por parte do réu, contribuiu diretamente para proteger interesses privados, mesquinhos e ilegítimos, em detrimento do elevado interesse público”, escreveu Waldeck.

Sobre a contratação da Iabas, o relator disse: “A atitude do Réu, ao se esquivar do exercício de sua função de dirigente executivo máximo do Estado do Rio de Janeiro, em nítida ação omissiva, contribuiu diretamente para as maquinações delituosas de um dos grupos econômicos que disputavam, por meio do aliciamento criminoso de agentes públicos e do pagamento de vantagens indevidas, os contratos da Secretaria de Estado de Saúde”.

Deputada do PSOL cita 'relações promíscuas'

A deputada Dani Monteiro (PSOL) considerou que Wilson Witzel chefiava um grupo que tinha “relações promíscuas" entre agentes públicos e privados. Ela concluiu seu voto dizendo que na requalificação da UNIR Saúde, Witzel agiu em pró de agentes privados e em detrimento do ente público.

“Os fatos narrados ficaram comprovados com provas testemunhas e documentais. Não há dúvida sobre as relações promíscuas entre agentes públicos e privados, chefiado pelo ora denunciado, como sua participação direto nos fatos imputados. Impõe-se reconhecer que o denunciado agiu em detrimento do interesse público”, disse Dani Monteiro em seu voto.

Ao analisar a contratação dos hospitais de Campanha, a deputada do PSOL relembrou a frase do atual secretário de saúde Carlos Alberto Chaves: “A tropa é um retrato fiel dos seus comandantes”. Ela negou a tese da defesa de que o subsecretário de Saúde Gabriell Neves cometeria os crimes sem o conhecimento do governador. “Raramente os líderes das facções são responsáveis pelas tratativas, que são delegadas para subalternos em uma tentativa de se distanciar caso o crime seja descoberto”, afirmou.

Composição do Tribunal Especial Misto

Deputados:
1 - Alexandre Freitas  (Novo)
2 - Chico Machado (PSD)
3 - Waldeck Carneiro (PT) - Relator
4 - Dani Monteiro  (PSOL)
5 - Carlos Macedo (Republicanos)

Desembargadores:
1 - Teresa de Andrade Castro Neves
2 - José Carlos Maldonado de Carvalho
3 - Maria da Glória Bandeira de Mello
4 - Fernando Foch
5 - Inês da Trindade Chaves de Mello
O presidente do TEM foi o desembargador Claudio de Mello Tavares.

Criado em 2021-05-01 00:09:47

Era uma vez um jacaré-coroa...

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Era uma vez um menino chamado Santur, que, finalmente vacinado com a Coronavac, virou jacaré, mais exatamente um belo espécime de jacaré-coroa (Paleosuchus trigonatus).

Como era de esperar, os pais dele, sardônicos, passaram a chamá-lo de jacaré-corona. Cientes de que o moleque teria uma vida miserável em Brasília, resolveram se mudar para a vila de Lindoia, município de Itacoatiara, às margens do rio Urubu, afluente do Amazonas.

Santur Corona passava as manhãs e as tardes nadando, pescando e quentando sol em cima das pedras no meio do rio. À noite ia pra casa dormir na piscina que o pai mandara construir com aquecedor e tudo.

Tudo ia muito bem até que o nosso coroninha percebeu que a região havia sido invadida por caçadores de couro de jacaré, fornecedores de uma fábrica de bolsas em Manaus, e que, por esse motivo, ficaram conhecidos como bolsonaristas. Foi uma devastação. O rio Urubu e seus igapós viviam tintos de vermelho, e o cheiro das carcaças nauseava quilômetros em derredor. Quanto ao Ibama, nada, até que uma comissão da ONU cobrou explicações das autoridades.

Apenas de vez em quando o nosso jagurizinho ousava ir até o rio para nadar e pegar um bronzeado. Numa dessas escapadas, ele testemunhou a colisão de uma canoa com uma pedra e o naufrágio de seus cinco jovens bolsonaristas, nenhum deles de colete. Sem titubear, tchibum!, mergulhou e nadou vigorosamente em direção aos rapazes. Meia hora depois, um caboclo o encontrou em prantos em cima da pedra, um choro excruciante, de cortar qualquer coração.

– Mas o que houve, seu jacarezinho? – perguntou o canoeiro. Por que clamor tão doloroso, de espantar e calar o que restou da nossa floresta tropical? Por que lágrimas tão sentidas e copiosas, concorrentes do rio-mar?

Sem deixar de perceber o talento poético do caboclo baré, Santurzinho tentou relatar o que lhe havia acontecido, os soluços entrecortando a voz dele. Não economizou detalhes na descrição daqueles momentos escabrosos de alucinados bracejos, sufocos, estrebuchos, os olhos esgazeados em demanda de oxigênio.

O barqueiro ficou comovido com a cena do salto duplo twist carpado desde a margem para o turbilhão dos afogados, o que julgou ser o máximo de desprendimento e generosidade do jagaroto.

– Vejo que você tem bom coração e índole cristã, em contradição com o labéu que pespegaram na sua espécie e gênero. Só não compreendo a razão de você ainda estar se lamentando tanto. Quantos afogados você conseguiu alcançar, afinal?

– Três, os outros dois escaparam. Ó, injustiça, ó, desperdício! – respondeu Santur, debulhando-se.

(Quaquaraquaquá! Adoro piada clássica recauchutada!)

Criado em 2021-10-04 20:28:05

O impossível e o imprevisível, aqui e agora

Luiz Martins da Silva –

Impossível, fechar o dia, expediente, quarentena, recolhimento e o que quer que seja sem comentar três aspectos dramáticos da cena brasileira.

A pandemia já levou mais de 30 mil brasileiros (de março para cá); a conduta do Chefe de Estado. Hoje, em frente ao Palácio da Alvorada, uma senhora pede dele uma palavra de conforto à Nação, "nesta hora", ao que ele responde: "Ter fé que a gente vai mudar o Brasil". E para os enlutados, ela insiste, e ele repete o que já tinha dito em outras ocasiões – "Lamento toda morte, mas é o destino de todo mundo".

O ministério da Saúde, com uma equipe de militares em 20 postos-chave, "funcionando normalmente", como foi dito em entrevista sem o ministro. Enquanto isso, a distribuição de cargos para os partidos que integram o fisiologista bloco do Centrão, continua, mesmo com denúncias ainda em fase de apuração.

No telejornal de maior audiência, o registro diário de que a curva da pandemia não atingiu o seu topo. E, hoje, com uma "sonora" de alguém informando que em nenhum lugar do mundo se viu algo parecido com o que está acontecendo em Manaus, o cenário pavoroso de enterros em valas coletivas. E o que é mais patético, em várias cidades a abertura de shoppings com "a curva em ascensão". Vamos nos cuidar.

Em relação à onda de racismo que incendeia o mundo, pasmem com o que foi divulgado hoje em relação a um dos comentários do presidente da Fundação Palmares a respeito do Movimento Negro, numa reunião em 30 de abril: uma "escória maldita".

Há ou não pessoas apostando num confronto odioso também no Brasil? Em outros tempos, o Itamaraty cultivava a retórica de expressar em declarações conjuntas com outros países que o Brasil é "a segunda maior nação negra do mundo" (depois da Nigéria).

Entre outros cuidados, é preciso cuidar para que o governo atual simplesmente não destrua os quilombolas, que se encontram ameaçados.

É preciso que as forças antirracistas se afirmem e estejam coesas, enquanto podemos respirar. Não foi o caso do mártir norte-americano, George Floyd, em suas últimas palavras: "Eu não posso respirar!"

Criado em 2020-06-03 02:22:26

Eduardo Suplicy e minha mochila de memórias

José Carlos Peliano (*) –

É dessas coisas que acontecem na vida da gente e nos surpreendem, não por elas mesmas, mas pelo jeito que aparecem e como se desdobram. É como o inusitado e o imprevisível de repente ao tomarem conta de nossos momentos e por ali ficarem a nos chamar a atenção. Como uma vaca atravessar a estrada na frente de um ônibus, um avião perder a sustentação no ar por segundos, vir à memória um acontecimento, um encontro, um desencontro, uma recordação.

Quando hoje, segundo dia de julho, vi um vídeo com a presença de Eduardo Moreira, o pastor Henrique Vieira, Frei David e o padre Júlio Lancelotti, logo pela manhã, e ter me tocado fundo a fala do padre, mais tarde ter lido o pequeno relato da vida de Sandra Mara Herzer em sua queda para o alto, me veio em seguida à lembrança a presença de Suplicy na banca de minha defesa de tese de doutorado em Campinas em 1992.

Minha mochila de memórias vai se enchendo de itens especiais e particulares há tempos em minhas caminhadas pelo mundo afora, minhas trilhas nas ruas da vida, meus acampamentos nas casas de amigos, praças, praias, bares e restaurantes, minhas escaladas por andares de edifícios de apartamentos ou comerciais, e meus devaneios em paisagens e mirantes de vales, montanhas, vilas e fiordes.

Uma surpresa sem tamanho foi ter sabido do pequeno relato da vida de Sandra Mara através de uma mensagem no Facebook de Deise Cristina. Um resumo do relato cabe aqui. Sandra era interna do Febem (Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor) em 1979 e teve também a presença do inusitado e do imprevisível ao conhecer em determinado dia o então deputado estadual Eduardo Suplicy em seu primeiro mandato pelo MDB.

Sandra perdeu o pai assassinado e a mãe por ter pego uma doença venérea, após se prostituir para sustentar a família com a morte do pai. Foi ela morar com a avó e depois com uma tia, quando a avó morreu. O tio tentou manter relações sexuais com ela, mas não conseguiu porque ela reagiu e lutou com ele. Foi levada à Febem em seguida e ficou por lá desde os 14 anos. Sua estadia na fundação se deveu a não ter para onde ir já que não tinha cometido transgressão alguma.

O encontro com Suplicy se deu aos seus 17 anos, entretanto não mais como Sandra, mas como Anderson, um garoto transexual. A presidenta do Movimento de Defesa do Menor diz então ao deputado que o garoto só poderia sair dali se alguém se responsabilizasse por ele. Suplicy decide se responsabilizar pela soltura e oferece um cargo em seu gabinete na Assembleia Legislativa de São Paulo. Sandra se sentia como um homem, vestia-se como tal e assinava seus poemas como Anderson Herzer.

Uma manhã soube-se de sua morte por ter se atirado de um viaduto da 23 de Maio, tendo mantido no bolso um papel com o nome e o telefone do deputado. O livro sobre a vida de Anderson, escrito por ele, foi publicado pela Vozes sob o título A queda para o alto. O filme Vera contando sua história foi lançado em 1986, tendo a atriz que interpreta seu papel, Ana Beatriz Nogueira, ganho o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim de 1987.

Anderson deixa uma carta para Suplicy datada de 5 de setembro de 1980. Dois trechos: “Sabe homem; nem sei o que seria do universo se todos os homens merecessem ser chamados de homem” e “poucas vezes vi seus filhos, mas muitas vezes pensei sozinho, o quanto eles devem andar de cabeça erguida, com o peito cheio de orgulho, por notarem o pai formidável que têm”. Termina a carta “de quem sempre te lembrará em cada lágrima ou sorriso de vitória”.

A história de Sandra-Anderson me surpreendeu, como o inusitado e o imprevisível, não só por desconhecê-la, mas também por vir a saber desse lado solidário, humano, desprendido e magnânimo de Suplicy. Conhecia-o do Congresso Nacional quando era senador. Eu era assessor da bancada federal do PT na Câmara. Sabia sim que era um parlamentar gentil, educado, generoso, confiável, perseverante e produtivo. A impressão era generalizada, não só minha, mas de assessores e parlamentares, mesmo de outros partidos.

Chamava a atenção sua perseverança na defesa dos mais pobres e desassistidos, tanto que empunha desde sempre a bandeira do projeto de renda mínima, o qual com variantes se torna mais tarde o Bolsa Família. Mas ele não desiste de sua ideia original por acha-la fundamental ao país notadamente pela sua marcada desigualdade de renda. Com sua ideia, pobres e miseráveis teriam um mínimo com que se sustentar e viver.

E foi exatamente por conta desse seu esforço pela aprovação de sua ideia da renda mínima que o convidei para participar da banca de minha defesa de tese de doutorado Distribuição de renda e mobilidade social no Brasil: a ordem e o progresso desiguais, na Unicamp. Com ele estavam o falecido deputado federal Walter Barelli, José Graziano da Silva, ex-diretor da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e meu orientador Luciano Coutinho, ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

A participação de Suplicy foi igualmente surpreendente e inusitada, embora fosse pertinente e oportuna. Passava na TV à época a minissérie Hilda Furacão, sobre personagem da vida mineira, vinda de família abastada de Recife, que se torna prostituta, por volta dos anos cinquenta. A estória foi romanceada por Roberto Drummond posteriormente. No resumo por ele feito, que deve ter tomado bem uns vinte minutos, ele se atém às questões da discriminação social e de gênero, do machismo, da liberdade de costumes e da hipocrisia urbana – o tratamento e visão da prostituição como sendo denunciada, mas tolerada. Por trás de todas essas questões quis ele ressaltar o peso da desigualdade de oportunidades, escolhas e vida entre mulheres e homens. Pois Suplicy me interroga ao final do resumo da estória com apenas uma pergunta.

Depois de aprovada a tese pela banca com louvor, voltei de Campinas a São Paulo dividindo um taxi com nada menos que Suplicy. Conversamos sobre vários assuntos tendo ele demonstrado seu amplo conhecimento e interesse pela vida histórica, econômica e social do nosso país. Além de sua ferrenha e pacífica disposição em continuar na luta pela melhoria de trabalho, renda e vida do povo mais pobre.

E Suplicy inclusive já lutou box quando jovem, daí sua envergadura e compleição física avantajada. De fato, um lutador das causas humanas e dos pobres e desassistidos. Suplicy com seu jeito manso e ponderado de um lado e o padre Júlio Lancelotti com seu jeito igualmente calmo e tranquilo de outro, são ambos sacerdotes da dignidade humana, da solidariedade, da compaixão, da fraternidade, ambos guerreiros por uma vida social justa e uma vida econômica equânime. Símbolos, como Dons Quixotes, perdedores das grandes causas, mas vencedores das pequenas causas, do corpo a corpo, do olho no olho, da mão na mão, braços dados com a irmandade de todos os filhos da Terra. Dois furacões em gestação social.
____________
(*) José Carlos Peliano é economista, poeta e escritor

Criado em 2020-07-03 01:56:46

Como a Coreia do Norte resiste às ameaças dos EUA – Parte II - Final

José Lourenço Cindra (*) –

No fim dos anos 1980, a Coreia do Norte já contava com uma indústria bastante desenvolvida e com uma agricultura mecanizada. Tudo funcionava muito bem. Mas, os acontecimentos nefastos que vieram logo em seguida puseram quase tudo a perder. Eles passaram a conviver com um racionamento radical de energia elétrica. As fábricas pararam, havia interrupções frequentes nos transportes.

É fato que na década de 1990, pelo menos 200 mil coreanos morreram de desnutrição e doenças a ela relacionadas. As tropas estadunidenses de ocupação da Coreia do Sul, em conjunto com o exército do governo sul-coreano, passaram a conduzir com grande frequência exercícios militares nas fronteiras terrestres e marítimas da Coreia Popular. Foi a partir de então que a RPDC passou a dedicar grandes somas de seus orçamentos à defesa e à indústria bélica. É nesse contexto adverso que o novo dirigente Kim Jong-il (16/2/1941-17/12/2011), filho do falecido Kim Il-sung, implementa a Ideia Juche e a Política Songun.

Fim da escassez - Parece que o período de grande escassez já passou. Alguns brasileiros que recentemente visitaram a Coreia do Norte puderam constatar isso. Lucas Rubio, o fundador do Centro de Estudos da Política Songun–Brasil, junto com seu amigo Lenan Cunha, teve a oportunidade de visitar a RPDC por ocasião das comemorações dos 70 anos da fundação da Coreia Popular, em setembro de 2018. Eles participaram de cursos, seminários, - inclusive o Seminário Internacional da Ideia Juche -, visitaram museus, escolas, universidades, hospitais e também passearam a pé e de transportes públicos pela cidade.

Segundo relato de Lucas Rúbio, suas impressões sobre a Coreia do Norte foram as melhores possíveis. Apesar das sanções, apesar do bloqueio implacável e de outras dificuldades inerentes à realidade do país, o governo norte-coreano, com base na ideologia Juche de autossustentação e independência, mais a Política Songun de prioridade aos assuntos militares, continua mantendo a orientação socialista e resistindo às chantagens de alguns países capitalistas.

Educação - Para se ter uma ideia do valor que é dado à educação na RPDC, basta olhar para o monumental Palácio das Crianças de Mangyongdae, em Pyongyang, cujas informações estão disponíveis no site do Centro de Estudos da Política Songun–Brasil. Palácios semelhantes ao de Mangyongdae existem em outras cidades norte-coreanas. A primeira universidade estabelecida na Coreia do Norte foi a Universidade Kim Il-sung, fundada em 1946. A Universidade de Ciência e Tecnologia de Pyongyang (PUST), na sigla em inglês, é a única universidade privada na Coreia do Norte, e foi aberta em 2010.

Sob a liderança de  Kim Jong-un (8/1/1982), que está à frente do governo desde 2011, a RPDC continua dando ênfase à Política Songun. Ela vem se transformando em um país cientificamente avançado, destacando-se o lançamento do satélite Kwangmyongsong-4 em 2016 (na foto, abaixo) e a criação a Agência Nacional de Desenvolvimento Aéreo Espacial, sendo que o gigantesco Complexo de Ciência e Tecnologia, em Pyongyang está associado a essa Agência.

Foram construídos novos prédios de apartamentos populares e avenidas em Pyongyang e em outras cidades. Esses apartamentos são distribuídos de graça ao povo. Tudo isso mostra que o período mais difícil é coisa do passado. Estes dados estão em História da Revolução Coreana, Edições Nova Cultura, 2019.

O que são as chamadas Ideia Juche e a Política Songun (1)

Os norte-coreanos escrevem que a Ideia Juche é uma ideologia que foi elaborada por Kim Il-sung, adaptada à realidade coreana, ressaltando a importância da independência e da autossuficiência. O fundamento filosófico do Juche está na concepção de que o homem exerce controle sobre o mundo e seu próprio destino, uma vez que ele possui consciência. O Juche parece ser uma combinação de marxismo, coletivismo e nacionalismo, pelo menos é o que se deduz ao ler na Wikipedia. (Abaixo, foto da Torre Juche, em Pyongyang)

A Política Songun é a doutrina segundo a qual, o Estado dá prioridade ao aparato militar. Os militares, além de contribuir para a defesa do país, desempenham um papel importante no desenvolvimento da infraestrutura. Basta dizer que os soldados do Exército Popular trabalharam ao longo da década de 1990 e nas décadas seguintes na construção de dezenas de hidrelétricas, permitindo que a dependência de petróleo, que a Coreia do Norte não produz, fosse drasticamente reduzida.

Foram mitigados os efeitos mais gritantes da pobreza. Mas não se conseguiu ainda retornar aos mesmos padrões de produção anteriores à queda da URSS. As sanções e o bloqueio econômico dificultam muito a vida. Além disso, os principais produtos que a RPDC consegue exportar para os países capitalistas – carvão e metais não ferrosos – e para a China, Vietnã e Cuba, possuem valor agregado médio e baixo, são commodities cujos preços estão sempre oscilando de preferência para baixo no mercado capitalista.

O fluxo de dólares oriundo dessas exportações é extremamente irregular. Foi por isso que surgiu a necessidade da RPDC estabelecer as chamadas Zonas Econômicas Especiais, para receber investimentos estrangeiros. A primeira delas foi a Zona Industrial em Kaesong (2004), em conjunto com a Coreia do Sul, construída em um momento em que as relações entre as duas Coreias estavam menos tensas. Infelizmente, em anos mais recentes, devido às vicissitudes políticas na Coreia do Sul, as poucas relações entre as partes conflitantes estão mais frias.

Visita de brasileiro - O historiador e político brasileiro Raul Carrion fez parte de uma delegação,  formada por historiadores, estudiosos das Relações Internacionais e lideranças sociais e políticas, que visitaram a RPDC em julho de 2014.  Suas impressões sobre o país foram muito boas. Ele esteve em diversas localidades da Coreia do Norte, e disse não ter visto um país tão empobrecido e isolado como a mídia gosta de mostrar. Dificuldades as há e muitas, principalmente, como consequências do bloqueio econômico implacável imposto pelos EUA contra a Coreia do Norte.

Em um vídeo mais recente sobre a RPDC, ele realçou que 100% da população tem água e esgoto tratados. Todos têm moradia, saúde e educação gratuitas e transporte subsidiado. Não há mendicância. O setor industrial é bastante diversificado, produzindo desde turbinas e locomotivas até bens de consumo em geral. Na agricultura predominam as cooperativas, ao lado de algumas fazendas estatais.  A RPDC mantém relações diplomáticas com 160 países, como se pode falar de um país tão isolado assim?

Diplomacia - Relações diplomáticas em nível de embaixadas não chegam a 25 países, incluindo alguns importantes como a China, Rússia, Reino Unido, Alemanha, Brasil e Suécia. O país investe forte em ciência e tecnologia. Há uma grande preocupação com a preservação ambiental. O Palácio do Povo em Pyongyang tem um acervo de 30 milhões de livros com catálogos digitalizados, com acesso à intranet norte-coreana, grande parte é de literatura estrangeira. Nesse palácio, muitas atividades culturais e de formação acontecem, inclusive, cursos de muitas línguas estrangeiras.

Impostos abolidos - Uma curiosidade interessante que Carrion narra em seu vídeo é que lá não existem impostos, eles foram abolidos desde os anos de 1970. Quanto às relações de trabalho, segundo ele, a jornada é de 8 horas com um dia de descanso semanal e 20 dias de férias. As mulheres podem aposentar aos 55 e os homens aos 60 anos. Não há igualitarismo salarial, mas também não há diferenças discrepantes de salário. Remunera-se mais, não apenas o trabalho qualificado, mas também o trabalho penoso.

O regime socialista estabelecidos pelos norte-coreanos é um tanto sui generis. Lá realmente existe um culto muito acentuado aos seus líderes, o que é difícil de ser compreendido para nós ocidentais. Como afirmam alguns, lá o marxismo está fortemente mesclado pelas tradições neoconfucionistas da Coreia. Mas quem deve decidir o que é bom e o que não é bom para o país, é seu próprio povo.

O governo da RPDC mantém seu interesse em conseguir a reunificação da península coreana, mas a questão é complexa (abaixo, Monumento à Reunificação da Coreia, em Pyongyang).  O governo da Coreia Sul não tem autonomia para decidir muita coisa. Ele depende da vontade do governo norte-americano, enquanto esse parece estar satisfeito com a política de dividir para reinar. Por outro lado, atualmente as diferenças entre os dois países são muito grandes, tornando-se a reunificação da Coreia na base de um governo e dois regimes econômicos, no estilo que a China fez em relação a Hong-Kong e Macau, bastante difícil.

Liberdade - Muitos alegam que os cidadãos da Coreia do Norte não têm liberdade política, que há violações dos direitos humanos, ou que não há liberdade religiosa e coisas do estilo. Na realidade, pelo menos formalmente, a Constituição da RPDC prevê liberdade religiosa e certos direitos fundamentais dos cidadãos. Há três partidos políticos na Coreia do Norte, sendo que o Partido do Trabalhadores da Coreia (PTC) é o partido dirigente do país. O emblema do PTC é uma adaptação da foice e o martelo, com um pincel tradicional da caligrafia coreana. Mas o governo norte-coreano não pode se dar ao luxo de aceitar a existência de grupos dissidentes atuando contra o socialismo. De modo semelhante, o governo da Coreia do Sul não aceita sequer a existência de um partido comunista em seu território, e a Lei de Segurança Nacional de 1948, que proíbe qualquer referência positiva em relação ao regime político-social da Coreia do Norte está ainda em vigor.

A liberdade em abstrato é um termo muito bonito, mas a realidade concreta é que vai determiná-la. É como disse Fidel Castro: “Em uma fortaleza sitiada, qualquer dissidência é traição”. A Coreia do Norte, talvez até mais que Cuba, continua sendo uma fortaleza sitiada pelo imperialismo. Mas, ao mesmo tempo, ela é uma prova eloquente de que o socialismo é possível, mas, para isso, é preciso uma vontade férrea e muita disciplina. Se mesmo submetida a todas as sanções e boicotes econômicos e diplomáticos, os norte-coreanos conseguiram reerguer um país a partir das cinzas, o que não teria sido feito se as condições tivessem sido mais favoráveis?

Por fim, encerro este artigo com os dizeres de Raul Carrion:

“Frustrados por não terem conseguido forçar a RPDC ao colapso nos anos que se seguiram ao desmantelamento do socialismo no Leste Europeu, os EUA continuam tentando por todos os meios estrangulá-la, sem qualquer respeito para com a autodeterminação dos povos e o Direito Internacional. Os EUA mantêm 30 mil soldados e mais mil artefatos nucleares na Coreia do Sul. Ameaçam permanentemente a RPDC com os seus B-52 e suas bases nucleares no Havaí e em Guam. Os EUA não conseguem liquidar com a RPDC devido ao seu poderio nuclear. Essa é a única garantia da paz” (Raul Carrion, Relatório de Viagem à RPDC, julho de 2014, Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul).

De fato, o governo da RPDC nunca invadiu país algum, nunca ameaçou ninguém com suas bombas nucleares. O armamento da RPDC desempenha um papel exclusivamente dissuasivo. A propaganda pró-imperialista é que faz uma lavagem cerebral nas populações de todos os países, com sua histeria de “ameaça da Coreia do Norte”.
____________
(1) Artigo 3 da Constituição: A República Popular Democrática da Coreia é guiada em suas atividades pela Ideia Juche e a Ideia Songun, uma concepção do mundo centrada no povo, uma ideologia revolucionária para alcançar a independência das massas populares.
___________
(*) José Lourenço Cindra é professor de física  na Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus de Guaratinguetá.

Criado em 2021-08-28 04:50:17

Moradores vão fechar pistas da BR 020 contra o racionamento

Moradores de Planaltina, Vale do Amanhecer, Sobradinho, Lago Oeste e região estão se mobilizando para o fechamento da BR 020 simultaneamente amanhã, 19/10, a partir das 5h da manhã, na altura do Colorado, balão entre Vale do Amanhecer e Paranoá.

O grupo de mobilização pede que todos vistam camisa azul para dar visibilidade ao movimento em defesa do abastecimento de água na região Norte do Distrito Federal.

Segundo os organizadores do movimento, mesmo com a estiagem, Planaltina e Sobradinho não têm falta de água porque a barragem do Pipiripau garante este fornecimento.

O que está acontecendo, ainda segundo os manifestantes, é que a Adasa teria avalizado o desvio da água do Pipiripau para o Plano Piloto.

A VERSÃO DA CAESB - A Caesb informou em seu site que os córregos responsáveis pelo abastecimento das regiões Norte e Sul do Distrito Federal estão apresentando significativa redução de sua vazão, prejudicando a captação de água bruta para tratamento e distribuição para a população.

O volume desses córregos tem diminuído expressivamente em função do longo período de seca e altas temperaturas no DF e das retiradas excessivas de água das áreas de irrigação.

Em função da indisponibilidade hídrica dos mananciais de captação a Caesb está realizando, como medida temporária, cortes sucessivos no abastecimento de algumas regiões para preservar os níveis de reservação e evitar falta de água em maior proporção.

Seguem as novas regiões afetadas:

Região Norte: Planaltina, Mestre D’Armas, Vale do Amanhecer, Sobradinho I e II.

Região Sul: Brazlândia
 
A Caesb alerta para a necessidade de se continuar a exercer um consumo consciente e adequado da água de forma a manter e ajudar na melhoria do sistema como um todo.

Um dos fatores responsáveis pela crise hídrica no DF é o excessivo atraso na conclusão da adutora que deveria trazer água de Corumbá IV para o reservatório de Santa Maria.

O governador Rodrigo Rollemberg (PSB) anunciou que essa obra só será concluída em 2018. Enquanto isso, a população sofre com as altas temperaturas e a baixa umidade. Agora, ainda fica sem água. Os responsáveis pela aplicação dos recursos destinados à adutora de Corumbá IV também deveriam ser cobrados neste momento.

Criado em 2017-10-19 01:20:22

Dança em trânsito 2022

De 9 a 11 de agosto em Brasília, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e no Núcleo de Dança. São 8 circuitos, 5 regiões e 30 cidades envolvidas.

Um dos mais importantes festivais internacionais de dança do Brasil, o Dança em Trânsito chega à 20ª edição renovando sua aposta na diversidade e na itinerância. Ao longo de mais de três meses de programação, o festival vai envolver 32 companhias nacionais e nove internacionais numa circulação por 30 cidades de cinco regiões brasileiras e promover um circuito por Paris, na França.

O festival se estende até 23 de outubro. Em Brasília, as atividades ocorrerão entre os dias 9 e 11 de agosto, com apresentações de espetáculos e exibições de vídeos no Centro Cultural Banco do Brasil e oficinas no Centro de Dança do Distrito Federal. Para os espetáculos no teatro, os ingressos custam R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia); na área externa, a entrada é franca. As oficinas têm inscrições gratuitas através do site www.dancaemtransito.com.br

Em 2022, o festival se dividiu em oito circuitos, que abarcam as diferentes cidades. Brasília integra o quarto circuito e vai receber seis companhias, além de duas programações com seleção de vídeos de espetáculos de dança.

Em diferentes espaços do CCBB Brasília, como o teatro e a área externa, será possível conhecer o trabalho dos bailarinos e coreógrafos Kiko López e Hector Plaza, de Barcelona, das companhias Nimo Cia de Dança, Grupo Favela e Grupo Tápias, do Rio de Janeiro, e da Cie GN|MC, também de Barcelona. E no cinema, serão exibidos vídeos de uma mostra especial com a seleção de trabalhos em homenagem aos 20 anos do festival.

Já no Centro de Dança do Distrito Federal serão realizadas duas oficinas, voltadas para o público adulto. No dia 9, Guy Nader e Maria Campos, de Barcelona/Espanha, vão trabalhar técnicas de dança contemporânea, assim como queda e rolamento, para dançarinos profissionais, estudantes de dança ou qualquer intérprete que procure desenvolver suas habilidades físicas. E no dia 10, acontece a oficina com Hector Plaza, também de Barcelona/Espanha, com uma série de exercícios onde o objetivo principal é que cada bailarino trabalhe em sua maneira de se mover.

O FESTIVAL

Realizado e produzido pelo Espaço Tápias, com direção artística e curadoria de Giselle Tápias e Flávia Tápias, o Dança em Trânsito é um festival internacional de dança contemporânea que tem por objetivo valorizar, promover e democratizar esta expressão artística, seja pelo intenso intercâmbio entre artistas e companhias nacionais e internacionais, como também pelo formato itinerante, percorrendo desde as grandes cidades até pequenas localidades no interior do Brasil, em teatros ou espaços públicos.

Criado em 2002, o festival é parte do projeto Ciudades Que Danzan, que reúne 41 cidades em diversas partes do mundo com o intuito de difundir a dança contemporânea. O projeto abarca apresentações artísticas, formação, capacitação, reflexão e intercâmbio entre grupos de dança de diversas cidades do Brasil e do mundo.

Desde sua criação, o Dança em Trânsito já realizou mais de 1.000 apresentações de dança contemporânea, passando por cidades no Brasil e no exterior, para um público de mais de 60 mil pessoas. Em plena fase aguda da pandemia, em 2020, o festival recebeu uma versão 100% online, que ganhou indicação ao Prêmio Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), na categoria “difusão”. Em 2021, já em formato híbrido, venceu o desafio de manter sua essência de festival itinerante, promovendo um intercâmbio cultural entre 25 cidades brasileiras.

Sua atuação abrange ainda aulas abertas e gratuitas, oficinas de criação, residências artísticas de intercâmbio e parcerias criativas, abrindo canais para a troca de experiências, para a descoberta de novos talentos da dança e para a formação de plateias.

Dança em Trânsito tem direção geral de Giselle Tápias e direção artística e curadoria de Giselle Tápias e Flávia Tápias. Patrocínio do Instituto Cultural VALE e ENGIE.

Veja aqui toda a programação do 20º Festival Dança em Trânsito.

Criado em 2022-08-07 19:24:11

Zanin: “Foram anos de luta intensa em busca de justiça para Lula”

Um a um, 19 processos contra o presidente Lula, todos baseados em acusações falsas e desprovidas de qualquer materialidade, foram arquivados pela justiça. O último deles foi encerrado na sexta-feira (10/9), quando a juíza federal Maria Carolina Akel Ayoub, da 9ª Vara Federal de São Paulo, determinou o trancamento de ação contra Lula baseada em uma delação premiada de Leo Pinheiro. O arquivamento foi revelado nesta segunda-feira (13/9) pelo advogado de Lula, Cristiano Zanin, em entrevista exclusiva ao Jornal Rádio PT.

“Temos agora 19 decisões favoráveis e que reforçam a prática do lawfare”,  celebrou Zanin, na conversa com a apresentadora Amanda Guerra. “Conseguimos encerrar todos os processos que estavam em curso”, explicou. “Só existe um único processo que tramita contra o presidente Lula, conhecido como “caso dos caças” e que já pedimos o arquivamento porque ele se baseia em elementos que já foram declarados nulos, de forma irremediável pelo Supremo Tribunal Federal (STF)”.

No caso deste último processo, Zanin esclareceu que a investigação foi baseada “em uma narrativa absolutamente despropositada, feita pelo Leo Pinheiro, que buscava atribuir ao presidente Lula uma afirmada influência na Costa Rica, quando ele realizou uma palestra naquele país”.

“O próprio Ministério Público Federal reconheceu que não há qualquer elemento para justificar a existência dessa investigação, até porque o próprio delator acabou se retratando”, apontou o advogado. “É mais um capítulo dessas delações dirigidas, que foram realizadas pela Lava Jato e que deram margem à abertura de diversas investigações sem nenhuma materialidade, sem nenhuma prova”.

“Nossa expectativa é que em breve não haja qualquer processo contra o presidente Lula e que esteja encerrada essa campanha que foi feita contra ele nos últimos anos pela chamada Operação Lava Jato”, afirmou o advogado.

Moro, juiz parcial – Cristiano Zanin foi taxativo ao condenar a atuação política do ex-juiz Sergio Moro no âmbito da Lava Jato, que perseguiu Lula e o tirou das eleições de 2018. “Desde 2016, apresentamos essa fundamentação com essa linha de defesa mas tivemos que percorrer todas as instâncias do Poder Judiciário até chegarmos ao Supremo Tribunal Federal onde, felizmente, essa tese foi reconhecida. Uma tese correta, como ficou decidido pelo STF”, disse Zanin.

“Um juiz que não tem a imparcialidade para julgar um caso já é gravíssimo, porque a Justiça pressupõe a imparcialidade, a equidistância”, argumentou Zanin. “A ausência de imparcialidade, para mim, já é um vício gravíssimo”.

“Para além disso, ficou claro que o juiz Sérgio Moro agia com motivações políticas. Ele usava dos processos para alcançar fins políticos, inclusive praticando aquilo que nós chamamos de lawfare, o uso estratégico das leis, buscando fins ilegítimos, inclusive de natureza política”, observou.

Ministério Público e mídia – Zanin lamentou ainda o modo como a imprensa trata processos e acusações feitas pelo Ministério Público, muitas vezes impondo linchamentos públicos antes do julgamento. “Infelizmente, nos último anos, tornou-se uma prática no nosso país o Ministério Público  fazer uma espécie de aliança com uma parte da mídia”, pontuou Zanin.

“O Ministério Publico, de um lado, promove acusações, muitas vezes sem nenhuma prova, sem materialidade, apenas com o objetivo de atingir alvos pré-definidos. E, de outro lado, uma parte da imprensa dá à palavra do Ministério Público uma grandeza que não deveria ter. Até porque o Ministério Público é parte da ação. A imprensa, muitas vezes, trata a acusação como se fosse uma sentença condenatória, um título condenatório, contra uma pessoa”, justificou.

“Primeiro, é preciso que as pessoas tenham conhecimento da natureza da acusação que está sendo feita, quais são as provas que existem para dar lastro à determinada acusação. Segundo, [é preciso] sempre ter presente que o Ministério Público é parte na ação penal. Portanto, as suas palavras devem ser vistas com muita parcimônia. E é sempre necessário ouvir o que a defesa tem a dizer, o que a defesa pode apresentar para afastar aquela acusação que está sendo feita”, concluiu.
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Com Redação do site do PT Nacional

Criado em 2021-09-14 21:11:18

A verdade sobre o caso Lula

A verdade sobre o caso Lula!
Fala do ex-governador de São Paulo e jurista, Claudio Lembo.

Criado em 2019-02-01 14:08:01

Quem são os vândalos?

Alexandre Ribondi -

Os protestos de 24 de maio realizados na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, e amplificados dia 29 no Rio contra Temer, receberam, além de pedradas, tiros, gases, empurrões, berros e gritos, uma saraivada de adjetivos.

Para a imprensa e para as autoridades que apoiam Michel Temer, a quem eles chamam de presidente da República, a marcha em direção ao Palácio do Planalto foi vândala, bárbara, agressiva.

Também houve reações quanto ao números de participantes, o que parece ser uma tradição nas manifestações brasileiras: as autoridades policiais contaram pouco mais de 40 mil pessoas.

Os sindicatos apontaram 250 mil.

O ministro da Defesa, Raul Jungmann, foi rápido e célere. Em pronunciamento público, lamentou justamente a barbárie que caracterizou os protestos que terminaram com um saldo de sete ministérios invadidos, quebrados e incendiados. Além disso, a imprensa, que fez cobertura ampla, minuciosa e atenta dos acontecimentos, também procurou dar o tom certo ao se referir ao assunto.

A Folha de S. Paulo, por exemplo, iniciou uma de suas matérias assim "O Ministro da Defesa, Raul Jungmann, classificou nessa quarta-feira (24) como ' baderna' e 'descontrole' o episódios de vandalismo e depredação em protesto em Brasília e solicitou o reforço das Forças Armadas para controlar a situação".

Para o ministro, "as manifestações degringolaram para a violência, o vandalismo, o desrespeito, a agressão e ameaças". Lembrou também, sempre citado pela Folha, que "o presidente ressalta que é inaceitável a baderna, o descontrole, e que ele não permitirá que atos como esse… etc etc etc".

Tudo indica que foi um acordo tácito. Tanto Temer, as autoridades governistas e a grande imprensa gritaram chocadas com os ataques ao patrimônio da Esplanada dos Ministérios e se esqueceram do horror e da monstruosidade que é ter o Palácio do Planalto comandado por um homem que, mostram as provas encontradas, é ladrão, bandido e desrespeitador da dignidade nacional.

Dessa forma, as palavras de Jungmann, ao se referir aos atritos de quarta-feira, cheiram a chacota, a desprezo e a oportunismo.

Além disso, e por uma coincidência macabra, foi também no dia 24 de maio que 10 camponeses foram assassinados, com tiros e golpes de facão, na localidade de Pau d'Arco (PA).

Os assassinatos foram cometidos pelas Polícias Civil e Militar durante uma ação de reintegração de posse de uma fazenda.

Sobre o fato, a imprensa deu notícias pequenas, acanhadas e não usou nenhum adjetivo ou substantivo que mostrasse o quanto estava chocada e horrorizada.

O ministro da Defesa não se pronunciou e Temer, o prisioneiro do Palácio do Planalto, também não se atormentou com a ameaça à democracia que representa a polícia matar 10 cidades.

Nenhum matéria dos jornais escritos e televisionados disse os nomes do mortos - eles não são indivíduos, não tem vida pessoal, não constituíram família, nunca olharam nos olhos de ninguém e, assim, fica muito mais fácil lidar com os assassinatos sem achar que é necessário tomar alguma atitude imediata.

Por isso, o crime de Pau d'Arco não foi bárbaro. Nem foi ato de descontrole, não foi vandalismo. Nem houve baderna.

As mortes dos 10 camponeses não representam nada, não são símbolos do fracasso da democracia brasileira nem indicam a vitória da barbárie.

Dois dias depois, o mesmo ministro retirou a Polícia Militar de Brasília e avisou que a ordem havia voltado.

O que fazer diante de uma declaração como essa, que falava de retorno da ordem quando os corpos dos camponeses ainda estavam quentes e manchados de sangue? O que é a ordem para Temer e seus homens?

O que é ordem e progresso para os brasileiros que apoiam e aplaudem o atual estado das coisas nacionais?

Todos eles fizeram sua escolha. Barbárie é quebrar vidraça de ministério, é gritar contra a corrupção e a canalhice das instituições e do poder.

Os pobres, os descamisados, os sem-teto, os sem-terra, os sem-escola não são parcelas na conta do que eles consideram ser bem-estar e desenvolvimento.

E se eles escolheram o que querem, nós também vamos mostrar qual o nosso desejo e qual o Brasil que procuramos:

Fora, bandidos da República! Fora, vândalos da Constituição! Fora, assassinos de cidadãos. Fora, Temer!

Criado em 2017-05-31 14:48:50

Um amor babaca e fascitoide

Marcos Bagno (*) -

O episódio que envolveu a ministra Carmen Lúcia do STF a respeito da palavra “presidenta” merece um comentário. Não por causa de “presidenta”, porque já está provado e comprovado que a recusa desse termo é única e exclusivamente de ordem ideológica, não tem nada que ver com “defesa da língua”, já que a palavra está dicionarizada desde o final do século 19.

Meu interesse aqui é discutir a declaração da ministra de que “fui estudante e amo a língua portuguesa”. O que ela quis dizer com “fui estudante” não me interessa, porque, no fim das contas, não quer dizer coisa nenhuma. Quero falar do “amo a língua portuguesa”.

Já de saída vou dizendo que essa história de “amar a língua”, seja ela qual for, é de uma babaquice sem tamanho. Isso porque o que se chama de “língua” nessa frase é um construto ideológico, um artifício sociocultural, muito longe do que se entende por língua do ponto de vista das ciências da linguagem, por exemplo.

Essa “língua” que merece ser “amada” nunca é a língua que as pessoas usam a cada momento de suas vidas, inclusive quando dormem e sonham, aquele conjunto de recursos fonéticos, morfológicos, sintáticos e lexicais que permitem a interação social, o intercurso discursivo, o trabalho coletivo que é falar, ouvir, discutir, argumentar, replicar, acusar, defender, ofender, protestar, declarar, jurar, prometer, debater, seduzir, comprar, vender e tantas outras milhares de coisas que fazemos com esses recursos.

Não. A “língua” que se “ama”, nesse tipo de declaração, é uma língua imaginária, que só existe em alguma dimensão etérea, num sétimo céu aonde só se pode chegar depois de ser arrebatado por alguma entidade mística, como o apóstolo Paulo na estrada para Damasco.

Ou seja: é preciso cair do cavalo, ser bafejado pelo Espírito Santo, ficar cego e atingir a bem-aventurança absoluta. Tão imaginária que nem mesmo os dicionários e as gramáticas normativas servem de guia para quem quiser encontrá-la.

E a prova mais óbvia é justamente o termo “presidenta”. Quem tem se oposto a essa palavra diz que faz essa oposição em nome do “amor à língua”. Mas que raio de língua é essa, se afinal a palavra está registrada nos melhores dicionários de português há mais de 150 anos?

O discurso do “amor à língua” é uma dessas vitórias olímpicas obtidas pela ideologia da classe dominante, e isso faz já muito tempo. Durante mais de mil anos, desde a queda do Império Romano (século 5) até a chamada Era Moderna (século 15), a única língua que mereceu estudo, descrição, ensino e aprendizagem no mundo ocidental (isto é, na Europa) foi o latim.

Língua da Igreja, língua que conservava o saber acumulado na Antiguidade clássica (por meio das traduções para o latim da produção intelectual dos gregos), o latim permitia a comunicação entre os homens (homens mesmo!) letrados das diferentes regiões do antigo império.

A partir da Era Moderna, porém, as coisas mudaram politicamente e, claro, como língua e política andam juntas, também mudaram as circunstâncias linguísticas.

O sistema feudal já vinha sendo substituído pelos primórdios de uma economia mercantilista e, no plano político, começavam a surgir alguns Estados nacionais, unificados em torno da figura simbólica do rei. Ao mesmo tempo se iniciava a expansão marítima e o colonialismo.

Todas essas novas circunstâncias políticas, econômicas e sociais favoreceram a padronização das línguas nacionais. Para garantir a lealdade de seus súditos, o poder central transformou a língua “vulgar” em símbolo de unidade nacional.

O latim não tinha condições de atender à fórmula “uma nação, um povo, um rei, uma língua”. Justamente nesse período, e não por coincidência, surgem as primeiras gramáticas das línguas nacionais europeias: francês (1409), italiano (1437-41), espanhol (1492), português (1536), inglês (1586) etc.
 
Em todas essas obras, o discurso mais frequente é o de exaltação da beleza, da riqueza, da glória do idioma nacional e a comparação deste com o latim, para mostrar que a língua “vulgar” era tão digna de estudo e de valorização quanto a sacrossanta língua clássica, desde que fosse sujeita a um processo de elaboração consciente.

Um exemplo famoso desse discurso são os versos de Camões (Lusíadas, I, 33), em que a deusa Vênus, ao ouvir os portugueses falando, acreditou que “com pouca corrupção” aquela língua era “a latina”.

As gramáticas são logo seguidas da produção de obras de “defesa e ilustração” das potencialidades das línguas nacionais.

Em qualquer processo de padronização, a língua falada espontânea acaba se transformando num modelo idealizado de correção, construído peça por peça pelos gramáticos. Assim, paradoxalmente, a valorização da língua “nacional” diante do latim se fez pela criação de um novo “latim clássico”, de uma forma “classicizada” da língua nacional. Afinal, quem é que fala como Camões escrevia?

A nova língua padronizada tem que seduzir as massas e, ao mesmo tempo, preservar as hierarquias sociais. Assim como o latim excluía multidões inteiras do acesso à educação e ao conhecimento, a língua nacional que vai substituí-lo tem que servir ao mesmo fim.

É por isso que Pierre Bourdieu escreveu que essa “língua legítima” tem o reconhecimento das massas, mas as massas não têm o conhecimento dessa língua. Isto é: o importante é reconhecer a mesóclise como “sofisticação” e marca de distinção, e não saber realmente como empregá-la ou se foi de fato empregada “corretamente”.

É dessa longa história que surge então esse discurso (babaca!) de “amor à língua”. Discurso essencialmente elitista, reacionário, preconceituoso e, claro, balofo, sem nada que lhe sirva de estofo a não ser a ilusão ideológica.

Ele serve aos mesmos fins dos demais discursos normativos: a heteronormatividade no plano das relações sexuais, a etnonormatividade (= racismo), a normatividade de gênero (= machismo), a normatividade religiosa (= intolerância de crença) e por aí vai, e vai longe.

Declarar “amor à língua” é declarar, consciente ou inconscientemente, seu “amor” a tudo o que é repressivo, opressivo, castrador, intolerante.

O “amor à língua” é uma das múltiplas formas que assume o autoritarismo puro e simples. E, nestes tristes dias que correm, o F de STF bem que pode ser lido como “fascista”. Está aí Gilmar Mussolini Mendes que não me deixa mentir.

Fora, Temer!

Criado em 2016-08-14 20:02:29

Lourdes Teodoro – arte e psicanálise na luta contra o racismo

Maria Lúcia Verdi –

Ainda no Mês Internacional da Mulher, num março tão doloroso, a entrevistada é a professora e psicanalista Maria de Lourdes Teodoro. Com este depoimento, a ideia não é apenas homenagear a luta das mulheres, mas também estimular a resistência e a criatividade nas mulheres de todas as origens, todos os tipos e idades.

Lourdes Teodro é Doutora em Literatura Comparada pela Universidade de Paris III, com uma tese que relaciona a obra de Mário de Andrade à do poeta e ensaísta martiniquenho Aimé Césaire.

Nascida em Formosa (GO), Lourdes Teodoro, é também brasilense. Além de professora aposentada da UnB fez seu pós-doutorado em Arte e Psicanálise na Universidade de Harvard e foi pesquisadora do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-brasileiras (Ipeafro). É poeta e crítica literária.

Na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), coordenou o curso de "Conscientização da Cultura Afro-brasileira" criado por Abdias do Nascimento. Participou da fundação do Congresso Nacional Afro-Brasileiro, criado pelo poeta Eduardo de Oliveira.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Você se identifica mais com alguma das suas qualidades - a ativista guerreira contra o racismo; a observadora-ensaísta comprometida com os direitos humanos e a análise da inter-relação dos fenômenos culturais; a psicanalista ciente da função social da psicanálise; a literata-poeta atenta ao intercâmbio internacional das vozes e criações artísticas; a mãe e avó apaixonada – ou todas se equivalem?

Lourdes Teodoro – O gosto pelo silêncio, pela observação, a paixão pela vida – com liberdade de expressão e de movimento - me parecem ser elementos que unem essas minhas diversas trilhas, numa vida feita de desafios e adaptações. É a observação atenta que permite ver a interdependencia de fenômenos culturais que (nas Américas, na Ásia, na África, na Europa) promovem laços sociais ou impedem sua construção. 

A psicanálise permite observar similitudes do funcionamento emocional, do bebê recem-nascido ao representante maior da República, pelo modo como respondemos aos estímulos internos ou externos. Sua metodologia de pesquisa, quando extendida para abordagem de fenômenos sociais, funciona melhor com a experiencia vivida da análise pessoal. De todo modo, essa área traz uma enorme contribuição para a compreensão de fenômenos sociais, por exemplo, o racismo (agressividade/insegurança) e a solidariedade (amor próprio/empatia). As pulsões de vida e de morte estão na base de nossos laços sociais: bebem em nossos “mitos” fundadores.

Tendo chegado a Brasília em 1958, você vivenciou uma utopia, um entusiasmo agora desfeito, estudou em lugares emblemáticos e participou de momentos fundamentais da vida educacional e cultural da cidade. Conte um pouco da sua percepção da Capital de antes e da de hoje.

A Capital foi inaugurada no mesmo dia e mês da execução de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, herói da Inconfidência Mineira, 21 de abril de 1960.  No final dessa década, Brasília já era uma cidade com cerca de 100 mil habitantes e já dava sinais de desigualdades sociais. Quem trabalhava no Centro ia se acomodando tão perto quanto possível, contruindo seus barracos, dentro do Plano Piloto, mas fora do plano urbanístico da cidade. Esses aglomerados eram chamados de Invasões. Criou-se uma Comissão de Erradicação das Invasões: CEI.  A partir desta sigla a primeira grande cidade satélite inaugurada foi a Ceilândia, reunindo várias Invasões, com alguma infraestrutura, poucos espaços de lazer, esporte, teatros, cinemas, etc. Sem áreas verdes, parques, etc.

Mas, na década de 60, propriamente dita, viveu-se também, no Plano Piloto, a experiência de “equidade” no campo cultural, social, educacional. A educação em Brasília dos anos 60 era uma utopia particular: das Escolas Classe/Escola Parque até a Universidade. Houve vontade política e investimento na área. Os professores tinham bons salários, moravam bem, trabalhavam com criatividade e entusiasmo.

Na CASEB, ensino diurno, me lembro de estar entre estudantes filhas e filhos de operários, dómésticas, motoristas, parlamentares, jornalistas, médicos, advogados, etc. Talvez nos separassem conforme a letra da turma: A, B, C, D (riso interior), etc. Tínhamos uma Caderneta Escolar para marcar a frequência, mãe ou pai assinavam uma vez por mes essa caderneta. As duas primeiras páginas traziam o “Código de ética” elaborado por nós – os estudantes. Na época atual, em que a palavra feminicídio foi introduzida no cotidiano, vale lembrar, esse ítem, por via do qual a instituicão educava a juventude para conviver: “Sejamos cordiais com nossos colegas, para que possamos exigir deles idêntico tratamento. As moças merecem e nos exigem o mesmo digno comportamento que achamos devido a nossa irmã”.  É claro que essa orientação estava em sintonia com o que recebíamos em casa.

Em 1960, nos mudamos da Candangolândia para a 708 Sul, que era o coração cultural de Brasília: Telefones, Correios, Jornais, Cine Cultura, Escolas, etc... Tanto na CASEB quanto no Elefante Branco, tinhamos aulas de língua estrangeira, para todos os alunos. Além das disciplinas curriculares havia os clubes de atividades: culinária, eletrônica, marcenaria, esporte, etc. No Elefante Branco, além do francês, havia inglês e além das ciências exatas (matemática, química, física, biologia), tínhamos filosofia, história, geografia, enfim as Humanas que educam, como a arte, nossa sensibilidade. Infelizmente, fazia-se opção entre exatas e humanas. Em 1967, a UnB já mostrava os impactos da ditatura. O que mais me entrisceu foi a decadência pós golpe de 1964. Alguns professores do elefante, sem preparo para o ensino universitário, vieram substituir os que se retiravam da UnB compulsória ou voluntariamente, por motivos políticos. Mas... tive o privilégio de estudar produção literária com o escritor Ciro dos Anjos, estudar língua portuguesa com o Antonio Salles, literatura com Cassiano Nunes e de estudar literatura francesa com professores franceses, na primeia turma dessa opção.

Na sua tese sobre “Modernismo brasileiro e negritude antilhana – Mário de Andrade e Aimé Césaire” Você trata de laços identitários pouco conhecidos entre nós. Poderia nos falar um pouco das principais ideias desse seu importante estudo?

Aqui, o ponto de partida foi a busca do não sabido: que país é este? Minha principal contribução se deve à leitura crítica que faço das obras escolhidas de Césaire e Mário. Meu preparo para essa leitura incluía a literatura de viagem, as teses de Gobineau, sociologia e antropologia brasileiras dos anos 30/40 etc. Tanto as personagens de Macunaíma – o herói sem nenhum caráter quanto as personagens das diversas peças do teatro de Aimé Césaire duelam com os pares Ciência/Natureza, elite/povão, Europa/África. Eles revelam a vontade de adquirir a tecnologia e as “maneiras” e “costumes” de seus antagonistas. Disso resulta um processo de identificação conflitante; tanto os personagens de um quanto do outro fracassam em suas tentativas de “liberação”. Mario e Césaire deram uma nova dimensão às vanguardas antilhana e brasileira de sua época.  Ao assumirem o burlesco, a ironia, a agressividade como necessários à expressão de uma negação fundadora de identidade.

A identificação conflitante está na base dessas identidades culturais. O que funda a identidade dá consistência à alteridade. Identidade e alteridade são indissociáveis: mãe/bebê ou pai/bebê, eu/Outro, pares binários indissociáveis. Macunaíma: índio, negro, mulato ou branco de olhos azuis conhecerá a dificultade de defender interesses próprios contra a voracidade temerária da elite intelectual, política, econômica. Creio que na leitura que faço de Macunaíma encontro um modo novo de entrar no labirinto do racismo.

A noção de identidade e diferença hoje é mais presente por que há, por todo o planeta, o “narcisismo das pequenas diferenças”. Mas há também uma verdadeira paranóia na elite intelectual brasileira, receosa das “identidades” étnicas/comunitárias/periféricas, conforme a moda. 

Em 1948, Jean Paul Sarte publicou o ensaio “Orphée Noir” (Orfeu negro) sobre o Movimento da Négritude. O que cabe hoje lembrar do ensaio do filósofo existencialista?  Eu ressalto a pergunta de Sartre: “o que seria da sociedade branca caso os negros, compreendida e assimilada sua própria négritude, voltassem sua energia criativa para a transformação de sua condição subalterna e periférica?”

Hoje, eu pergunto, como tornar-se negra ou como tornar-se negro e libertar-se de uma identidade biológica, para vir a ser livre e apto/apta a construir a própria história? Assumir e realizar o próprio destino como pessoa, sujeito humano livre? Para o êxito da luta contra o racismo, os oprimidos precisam ultrapassar essa verdadeira arapuca que o funda: o grau de melanina, fenotipo e a textura capilar. Etapa indispensável de auto-reconhecimento, de “empoderamento” individual e vamos à luta coletiva.

Em 13 de maio 2008, Neusa Santos Souza, em uma matéria no Correio da Baixada, voltado para a periferia do Rio de Janeiro perguntou:

“Será que gostamos mesmo da nossa pele, do nosso cabelo, do nosso nariz, da nossa boca, do nosso corpo, do nosso jeito de ser? Será que nesses 120 anos de abolição conquistamos o direito de entrar e sair dos lugares como qualquer cidadão digno que somos? Ou estamos quase sempre preocupados com o olhar de desconfiança e reprovação que vem dos outros?”

“Cento e vinte anos de abolição quer dizer 120 anos de luta dos negros que, no Brasil, dia a dia, convivem com o preconceito e a discriminação racial. 120 anos de abolição quer dizer 120 anos de luta contra o racismo [...] nos espaços públicos e nos espaços privados; na Câmara, no Senado, nos sindicatos, no local de trabalho, nas escolas, nas universidades, no campo, na praça e em nossas casas.”

Para Neusa, a luta deve continuar e acontecer em qualquer lugar em que houver um negro que ainda sofra preconceito e discriminação raciais. Ela reconhece que tivemos muitas vitórias, conquistamos muitas coisas, especialmente um amor por nós mesmos, uma alegria, um orgulho de sermos o que somos: “brasileiros negros – negros de muitos tons de cor de pele”.

Em 1986, você substituiu Abdias do Nascimento no curso Conscientização da Cultura Afro-Brasileira, na PUC paulista. Como foi sua relação com o icônico Abdias? E a recepção dos estudantes a essa experiência pioneira?

Eu estava ainda em Paris, quando o IPEAFRO – que foi uma Unidade Complementar da Pontifícia Universiade Católica de São Paulo (PUC/SP) – sediou o III Congresso de cultura negra das Américas, do qual participei a partir de Paris.

Em 1984, realizou-se, durante uma semana, o curso “Conscientização da cultura afro-brasileira”, na PUC/SP. Abdias e Eliza Larkin trouxeram palestrantes de praticamente todas as universiades brasileiras, estudiosos da cultura afro-brasileira. Tive a felicidade de conhecer o Abdias do Nascimento nessa circunstância. Nessa ocasião, ele levou o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-brasileiros – IPEAFRO – de São Paulo para o Rio de Janeiro e eu fiquei responsável pela continuidade do curso.

Devo a Abdias do Nascimento a publicação da primeira versão do meu ensaio “A intensidade do branco no espectro das cores”, que abriu o livro com as Teses do 3º Congresso. Nada melhor para falar da recepção dos estudantes do que o fato de terem me convidado, depois de minha apresentação, para uma palestra com tema livre. “Quilombo, um campo de pesquisa”, foi o que propus para eles, porque me parecia interessante convidar os jovens estudantes paulistas para pensar a zona rural... Me lembro de ter sido um momento importante para todos nós, com muitas trocas e interesse deles. Esse assunto ganhou interesse acadêmico, sobretudo, a partir do ano 2000; (2000 menos 1964 = 36 anos).

Em um Colóquio, no Maranhão, você se ocupou do tema “Sobrevivências religiosas africanas na América Latina e no Caribe”. Como é a sua relação com a espiritualidade? Há algum diálogo dessa eventual espiritualidade e a sua perspectiva enquanto analista da IPA, com formação lacaniana?

A espiritualidade é um dado relevante para mim. Pode ter tido origem religiosa, mas hoje é certamente uma questão ecumênica. África que conhecemos nos séculos XX e XXI é, do ponto de vista espiritual, sobretudo maometana/islâmica, católica, protestante, evangélica e, como dizem os senegaleses, 100% tradicionalista... Esse título que eu usei na comunicação do encontro em São Luiz me soa hoje bastante conservador. Não me agrada a ideia de “sobrevivência”. Quando visitei países africanos, nos anos 70/80/90, percebi a espiritualidade tradicional muito impregnada na cultura geral, nos costumes. Creio que o clima das relações humanas no Terreirode Candomblé guarda vários aspectos daquelas tradições, notadamente o espírito comunitário, o respeito aos mais velhos, o rigor da hierarquia e dos rituais, etc. Pude entender porque a antropóloga Juana Elbein dos Santos (Os Nagôs e a morte), enfatizava tanto o aspecto de “tradição” dos Orixás em um “Congresso da Tradição dos Orixás e Cultura” em que estive, e do qual ela participou em Salvador.  O meu contato com o Candomblé (1986), enquanto pessoa que busca ajuda, durou 13 dias de confinamento voluntário; foi radical, transformador, curto e pleno de mistério e milagres! Talvez um dia a neurociencia possa explicar isso que hoje chamo de milagre: um efeito de ‘reorganização’ das emoções, a partir de palavras desconhecidas. Tenho profunda gratidão e respeito pela Tradição dos Orixás. Quando vivi essa experiência eu nada conhecia do assunto.

A psicanálise não opera milagres, é de outra ordem, outro campo do saber: o inconsciente (estruturado como linguagem) e as emoções. Freud dizia que o analista precisava aprofundar sua relação com a cultura e fazer do estudo uma rotina para a vida. Inconsciente, repetição, transferência, pulsão, são fenômenos, inerentes à linguagem, estão presentes em nossa vida com ou sem psicanálise. Mas é nesse campo que essas categorias são observadas, estudadas, analisadas enquanto conceitos fundamentais (cf. Lacan) da metodologia da psicanálise. Freud pensava que com o desenvolvimento científico a religião desapareceria, pois era uma ilusão. Lacan previu a permanência da religião, vista como um sintoma...

Você já escreveu sobre “A situação social dos negros e o papel da escola”. Nesta nossa duríssima realidade o que você, enquanto professora, pode sugerir aos seus colegas? Como avalia centros e instituições como o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da UnB?

A população afrobrasileira continua sofrendo o impacto do racismo desde muito cedo em ambiente escolar e que continua em todo o Ensino Fundamental, Médio, na Universidade, no dia a dia. Há uma alienação severa quanto ao próprio racismo por parte da branquitude, uma denegação, mesmo. Infelizmente professores afrobrasileiros ou professoras, podem também não se dar conta de posturas racistas.

Mas algo de bom ocorreu nesse ano de 2020. Soube que o Documentário “Das raízes às pontas”, com direção de Flora Egécia e direção de arte de Bianca Novais, será incluído nas atividades escolares nas escolas públicas do Distrito Federal.  O filme recebeu prêmio de melhor curta-metragem do Júri popular no 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, com roteiro de Débora de Morais e Hugo Lins, fotografia de Rodrigo de Oliveira, montagem de Maurício Chades, edição de som Maurício Fonteles. No filme eu falo sobre a constituição da identidade individual, enfatizando a importância da construção da autoestima no ambiente familiar. Esse tipo de iniciativa é da maior importância no sentido de retirar do espaço folclórico questões tão graves quanto a imagem de si, o cabelo crespo, o pertencimento (vínculo social) e o reconhecimento, condição para afirmação da identidade individual.

Os professores precisam acordar para o fato de que o Dia da Consciência Negra deve ser aproveitado para trazer experiências positivas de pessoas afrobrasileiras, estrangeiras de origem africana que sirvam de estímulo, de inspiração, motivação para que crianças e adolescentes negros confiem mais em si e acreditem em seu futuro. O objetivo é trazer aspectos positivos, construtivos, enriquecedores.  Que se lembrem da literatura (prosa, poemas, teatro), das artes visuais, do design, do cinema de diretores e diretoras negras, da história em quadrininhos, enfim há uma arte produzida por artistas afrobrasileiras e afrobrasileiros. Assim como há filmes que podem ser muito interessantes para os adolescentes, a exemplo de Ultimas conversas, de Eduardo Coutinho, Mãos talentosas, a história do neurologista negro Bem Carson, Muito além das estrelas, com a história de mulheres negras, cientistas norte americanas trabalhando na NASA.

Fui membro do júri das Mostras de cinema negro Adélia Sampaio, criada pela professora Edileuza Penha, na UnB e é bastante animador ver a alta qualidade dos filmes trazidos à Mostra. Alguns talvez possam ser adquiridos pela Secretaria de Educação, por exemplo, para enriquecer a experiência estética de crianças e adolescentes. O oposto disto é toda nossa tradição.

Os Centros de estudos afro-brasileiros são espaços muito importantes que podem influenciar o pensamento acadêmico caso expandam suas áreas de interesse tanto ao olhar para o Brasil, para a Diaspora africana, para a Africa quanto para o resto do mundo. Considerar as ciências humanas, as ciências exatas, o contexto de transformação da tecnologia da informação, produção e difusão para midias sociais, etc.

Tendo escrito sobre “O espírito da intimidade: ensinamentos ancestrais africanos sobre relacionamento” nos diga algo sobre a educação contemporânea em relação a esses ensinamentos.

Quando li o livro da escritora burkinense Sobonfu Somé Os ensinamentos ancestrais africanos sobre relacionamentos, senti muita afinidade com sua percepção do sentido de comunidade. O que os seres humanos têm em comum, em qualquer hemisfério e em qualquer latitude e qualquer que seja a raça, seu gênero, sua etnia, sua classe social, seu fenótipo e tom de pele, enfim, é a sua natureza humana universal.

O narcisismo contemporâneo é mais frequente, mais vigoroso que antes; a “globalização cultural” com o avanço das mídias sociais retira a importância da família extensiva; ou o núcleo familiar reduziu-se, frequentemente, a um só genitor ou a uma genitora. Faltam olhares de carinho sobre a criança, falta escuta para suas aventuras e desventuras escolares, falta contato: a ternura do colo.

A escola tornou-se uma empresa e uma empresa, que visa lucros, com o objetivo de ser eficaz, libera os pais de acompanhar mais de perto o processo de aprendizagem dos filhos, e participar dele. Quando pública, a escola parece menos preocupada em (ou não tem condições de) assegurar a transmissão do conhecimento, valores culturais, éticos, etc. Os adolescentes ficaram sem qualquer continência, perdidos os ritos de iniciação, e descobrem na internet um continente virtual que os socorre no desamparo. Eles reconstroem a seu modo uma família extensiva virtual.

Se o sistema educacional pôs fim às solenidades de formatura do ensino fundamental e médio - notadamente nas escolas públicas -, os jovens adolescentes reinventam formas de comemorar suas conquistas. Eles produzem, a seu modo, seus novos ritos de passagem.  Não se trata, aqui, de lamentar uma perda de valores culturais ancestrais. Trata-se, sim, de tentar apreender algumas mudanças nesses mesmos valores: novas concepções de bem estar e de felicidade.

Apesar dessas mudanças, que refletem os avanços científicos e tecnológicos, em Uagadugu, como em Brasília, Teresina ou Nova Iorque, o ser humano continua a ter como questão saber a que veio, de onde veio, o que fazer para ser feliz. Graças a esse aspecto, que se liga à universalidade, é possível para alguém cuja infância transcorreu numa aldeia tradicional africana de um pequeno país, como Burkina Faso, partilhar, com a cultura mais avançada em tecnologia no século XXI, sua experiência de vida, seus valores, seu modo de estar-no-mundo. O livro de Sobonfu Somé, O Espírito da intimidade, é importante pelo que resgata e relembra. Sua criatividade está no organizar e oferecer como possibilidade de vir-a-ser a nova humanização da comunidade humana.

“É preciso toda uma aldeia para manter os pais sãos”, de modo a educar bem seus filhos, tal afirmação transcende a aldeia, transcende o país e suas fronteiras. Os valores que ela ressalta nos modos de relacionamento da aldeia estão profundamente vivos no dia-a-dia de qualquer família do século XXI: pela presença ou pela ausência.

Talvez possamos - para pensar a nossa realidade - imaginar essa ética da comunidade aplicada a um grupo que se reúne para discutir seus problemas, a uma organização não governamental, a uma cooperativa, a uma instituição de ensino, a um hospital, a uma clínica etc., já que “quando não descarregamos nossos dons, vivenciamos um bloqueio interior que nos afeta espiritual, mental e fisicamente, de muitas formas diferentes. Ficamos sem ter um lugar para ir, quando temos necessidade de ser vistos”. “A comunidade é uma base na qual as pessoas vão compartilhar seus dons e receber as dádivas dos outros. Quando você não tem uma comunidade não é ouvido; (...) não tem pessoas para afirmar quem você é e ajudá-lo a expressar seus dons. Essa carência enfraquece a psique, tornando a pessoa vulnerável ao consumismo e às coisas que o acompanham.”

Em Welcoming Spirit Home, “dando boas vindas ao recém nascido” (isto é: o espírito que chega), Sobonfu Somé narra histórias e tradições Dagara, seu grupo étnico, no qual a criança é considerada a alma da aldeia, de acordo com a tradição. O grupo tem numerosos rituais para celebrar a chegada e a educação dos pequenos; ele ajuda os avós e pais e a comunidade a mostrarem a criança a si mesma. Muito do que caracteriza tais rituais pode ocorrer aqui e ali, ao nosso redor no Brasil, como em outros países. Mas se os bebês pudessem falar, penso que todos iriam querer nascer assim: serenamente desejados por seus pais e por sua comunidade.

Enquanto poeta e professora aposentada do Instituto de Artes da UnB o que pode nos dizer sobre arte africana, corporalidade e ritmo como oportunos veículos de saberes necessários como contraponto ao mundo tecnológico de hoje?

De fato há uma forte conexão entre arte africana, corporalidade, ritmo. Nos anos 80 e 90 me dediquei bastante à arte africana tradicional, centrada em máscaras e esculturas, para produzir material didático. Explorei pouco esse material. A arte africana contemporânea fica, em parte, entre as formas expressivas da contemporaneidade, com liberdade de expressão. A África motriz, enquanto inspiradora, empoderadora do espírito criativo costuma dar frutos incríveis. Há uns dois anos, vi uma performance, em Salvador, onde a artista se cobria toda com um saco de lixo preto na porta de uma livraria. Ela aguardava a saída do público. Quando as pessoas começam a sair, ela começa a se mover dentro do saco, e as pessoas não conseguiam sair, elas paravam na porta, tomadas de surpresa, e iam, como que entrando na performance com sua estupefação. A performance nos transmitia a angústia do silêncio quando expressivo da exclusão, a angústia da morte em vida dos excluídos, dos ansiosos em consequencia da frequencia do assédio urbano. Foi uma das expressões da corporalidade mais impactantes que vi nos últimos tempos. Ali, o ritmo era apenas dos movimentos da performer, o corpo, havia sido transformado em um organismo primitivo que se movia aprisionado. Quem não quer isso em sua vida, deve se tornar urgentemente antiracista, além, muito além de ser contra o racismo.

O vírus, me lembra a fome e a fome me lembra “A boca do mundo”, obra de um escultor bahiano que vi numa exposição de Arte Afro-brasileira, em 1987 no MAC-USP. Há uma pintura ganense atual, um design gabonês atual, música, escultura senegalesas atuais, me lembro o Ousmane Sou, escultor do Senegal; a literatura e o cinema africano atuais nos trazem uma grande contribuição para vermos a África com novo olhar.

Pergunta dos filhos Otávio e Flávio: Existe alguma coisa que você gostaria de ter passado para os seus filhos mas que não conseguiu? O que você acha que conseguiu transmitir aos filhos?

É difícil ser uma mãe suficientemente boa. Dizem que ensinamos melhor pelo exemplo que por falações. Mas o que ensinamos pelo exemplo pode ser aprendido como bom ou como sendo algo que é “melhor evitar”...

Talvez tenha lhes transmitido o interesse pelo desconhecido, o interessse por viagens, o gosto por culturas diferentes; o respeito ao próximo, a honestidade, o amor próprio. Eu gostaria de ter tido a possibilidade financeira de manter o vínculo de meus filhos com a “família extendida”, quando estivemos fora do país por quase cinco anos: vir ao Brasil uma vez

por ano teria cumprido essa finalidade!

Pergunta da psicanalista Jansy Mello: você acredita que seus trabalhos sobre a relação mãe bebê ou sua experiência com a maternidade a ajudaram na sua prática como psicanalista e, no caso, de uma afirmativa, de que modo lhe foram úteis?

A experiencia de observação da relação mãe/pai/família-bebê sem dúvida me ajuda na prática com a psicanálise. Foi útil no sentido de dar consistência a conceitos ou elaborações teóricas de Melanie Klein, Donald Meltzer, Winnicot, Bion, particularmente. Acho que posso acrescentar que essa experiência foi útil ainda no sentido de permitir afinar o instrumento da escuta (sem memória, sem desejo, como sugeriu Bion).

Psicanálise, disse Freud, não se ensina. Ele, em outro momento, também afirmou que educar era um dos impossíveis (junto a governar e curar). Como você se situa ante essas colocações, uma vez que se ocupou tanto do ensino universitário quanto da clínica em psicanálise?

Os textos de Freud sobre tradições, costumes e instituições sociais, incluindo a religião, são uma interessante porta de entrada para a extensão da psicanálise no espaço acadêmico; e toda sua produção sobre arte e literatura. No Instituto de Artes da UnB eu criei uma disciplina que chamei de “Introdução à psicanálise”, no contexto do Mestrado em Arte e tecnologia do Departameto de Artes Visuais. Tive muita satisfação com o trabalho. Cabia aos estudantes fazerem a ponte entre a psicanálise e a arte. Creio que funcionou bem. Mas é possível que para os estudantes tenha sido frustrante, pois eu estava apenas começando a construção desse olhar.

Ter os ímpetos (digamos assim) didático e o maternal lhe ajudam ou atrapalham na clínica?

Da palavra ímpeto guardo o quinto sentido figurado, do Houaiss: dinamismo, vitalidade. Me lembro que quando estudei didática e fiz estágios supervisionados me dediquei com bastante disciplina e satisfação de modo a dar uma aula estimulante, rica para adolescentes. Quando meus filhos eram pequenos, entre três e cinco anos, morávamos em apartamento, eles desciam para brincar. Quando chamados, subiam. E uma vizinha certa vez me perguntou: você nunca grita com eles? Eu perguntei: gritar, por quê? “Mas... você fala tão mansinho e eles obedecem”. É, disse eu, a gente conversa sempre; não precisamos gritar. Ela ficou bastante impressionada, de ver que isso é possível. Não sei se já fiz alguma relação entre ser mãe e ser psicanalista. A maternidade me levou para um lugar diferente do de sujeito-suposto-saber...

Alguma sugestão para esse momento, em que o medo ao vírus está imperando e impedindo?

Parece que à forma aparentemente inócua com que o vírus pode chegar até nós, de modo invisível a todos os nossos sentidos, de modo absolutamente silencioso, está despertando todos os fantasmas que dormiam... e estamos frágeis como crianças que tem medo do escuro e não podem adormecer sozinhas. 

A ansiedade e a angústia de estar consigo mesmo por 24 horas, vários dias seguidos; a dificuldade de conversar com os mais próximos, os mais íntimos veio à tona. Mas há também aqueles que estão aproveitanto esse tempo exatamente pra conversar, falar do que nunca havia sido possível falar, antes. O descobrimento do que há de mais humano em nós é o que podemos descobrir nesse tempo estranho.

Estamos tendo a oportunidade de olhar para nós mesmos e para os mais próximos. Estamos tendo a oportunidade de aprender a fraternidade, a sororidade com os mais distantes de nós.

O alimento, o saldo no banco, a gasolina, o gás, a água... Penúria para milhões, tranquilidade para a minoria. O silencioso e indesejado hóspede disponível para todos nós: a única coisa realmene democrática no momento, nos dando a oportunidade de aprender a solidariedade.

Não a caridade, mas a solidariedade. O vírus está nos dando a oportunidade de olhar para dentro de nós mesmas, de nós mesmos, opotunidade de observar nosso amor próprio, avaliar o lugar reservado ao outro, em nós. Há lugar para um pouco de africanidade, Ubunto: eu sou porque nós somos! Estamos sendo convidados a colocar mais biofilia em nossa vida: nossa natureza humana é una com a natureza externa: precisamos de água límpa, terra/território, ar puro, fogo controlado nas florestas... O amor ao próximo é a imagem no espelho do amor próprio. Somos todos responsáveis e somos todos agentes de mudança, dizia um dia desses Ailton Krenak. Muita gente lembra A peste de Camus...  Prefiro lembra Alberto Caiero (heterônimo de Fernando Pessoa):

“Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo... Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer Porque eu sou do tamanho do que vejo E não, do tamanho da minha altura... Nas cidades a vida é mais pequena Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro. Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave, Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu, Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar, E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Toda nossa riqueza é ver o Outro, como se nos víssemos, amorosamente, incluindo a natureza externa a nós: ela é porque nós somos.

Criado em 2020-03-29 01:19:59

Que fim levou a New Age?

Angélica Torres –

Quem nascido antes dos anos 1980 não se lembra da onda New Age (“Nova Era”) que então invadiu o mundo anunciando musicalmente o clima cósmico de uma tal Era de Aquário, que o cinema e o teatro também popularizaram ainda nos anos 1960, com Hair, e que vaticinava o surgimento de uma humanidade mais pacífica e justa no planeta Terra?

Quem também não se recorda que na mesma década, motivada pela proximidade da virada do milênio, essa onda de contornos místicos impeliria a produção de incontáveis filmes, contraditoriamente, de ficção científica, em torno do fim e de um novo mundo, bem como de outras temáticas e propostas estéticas afins?

À época, cineastas respeitados como Wim Wenders e Hal Hartley, Steven Spielberg e George Lucas, Ridley Scott e James Cameron e tantos outros exploraram a seu modo essa vertente e, mesmo antes, também os consagrados Fritz Lang (anos 20), Stanley Kubrick (anos 60), Andrei Tarkovski (anos 70). Depois de 2000, Lars von Trier e Steven Soderbergh foram alguns dos que se destacaram nessa mesma trilha.

Sonoramente, a trilha dessa tendência veio embalada pelos tons cósmicos de ícones como Vangelis e Jon Anderson, Kitaro e o minimalista Phillip Glass. Não menos o mercado editorial apostaria suas fichas nesse arcano do tarô chamado Roda da Fortuna, para também surfar na onda com centenas de novos autores de livros de autoajuda.

Como um movimento que caiu como tudo o mais nas garras da “cultura de massa” (conceito que embute o domínio de qualquer tendência pelo sistema capitalista, para se tornar rentável comercialmente e, no caso, diluir o tom do protesto), a New Age recebeu ataques sistemáticos da intelectualidade, na mídia. Análises irritadas em torno do alarde tomado como logro pipocaram pra todo lado. Mas não impediram que o tal “fim do mundo” e sua notoriedade de origem em profecias milenares ganhassem versões da época.

Chico Xavier, Trigueirinho, Tia Neiva do Vale do Amanhecer, Jayadev da Fraternidade da Cruz e do Lótus, entre tantos outros videntes no Brasil, mas também Osho já lançando a proposta de sua polêmica base empírica de novo mundo, um misterioso personagem intergaláctico de nome Ashtar Sheran e, quem diria, até mesmo Carl Jung, prenunciaram as tais alarmantes transformações.

A partir de 1970

Quando, nos anos 70, a guerra do Vietnam caminhava para o final e a rebeldia do movimento hippie começava a perder força, o advento da internet estava nascendo de fato e se popularizando desde o meio universitário norte-americano. A física quântica ganhava ares místicos com a publicação de O Tao da Física, de Fritjof Capra, arreganhando os dentes de meio mundo científico por sua velha rixa com a religião.

Fora do esquadro, nós, aqui atravessando uma década inteira de governo militar, chegaríamos a meados dos anos 1980 alquebrados, mas com o vigor da esperança numa bela volta por cima, enquanto o muro de Berlim estava prestes a ruir e o lado vencedor, o do capital, já avançava com sua avassaladora política da globalização. Nesse emaranhado, sinteticamente aqui pontuado, uma crescente consciência subliminar de declínio no planeta foi se infiltrando no imaginário humano, sem que ainda se fizesse ideia do quê viria daí, de fato.

Quem aliás poderia imaginar que, quatro décadas depois dos nefastos presságios para o planeta, alardeados para ocorrerem exatamente até no máximo 2019 – e justo por videntes e por delirantes visionários remanescentes dos movimentos beatnik e hippie dos anos 60 e 70 –, um microrganismo viria a ser o agente da virada do mundo de ponta-cabeça?

Bem, cineastas imaginaram e continuaram certeiramente alertando; ambientalistas internacionais e nacionais advertiram para o perigo dos desequilíbrios ecológicos; lideranças aborígenes e indígenas, com destaque ultimamente para Ailton Krenak, nos imploraram por respeito e compaixão uns pelos outros; e bruxos retrôs, à meia-boca, já sem espaço na mídia, não pararam de preconizar uma situação catastrófica se avizinhando, embora sem diagnóstico preciso.

Covid19 e súbito mundo transtornado

Pois, o embrulho vinha de tal modo embalado em ritmo reto e rápido que não se deu atenção nem se pôs fé alguma no estardalhaço anterior. A guerra atômica mundial, que até recentemente Noam Chomsky declarou ainda temer, do plano do terror espetacular tomou a forma de coronavírus pondo, quem tem teto, de castigo em casa e quem não tem, de dono da rua e da natureza a céu aberto. Fichas caindo ou não, a esquisitice pairando sobre uma grande incógnita a coçar as cabeças.

E a esta altura dos combates, quem se lembraria das advertências do Comando Ashtar, que mais pareciam conversa de HQ e de fanzine para as jovens gerações dos anos 1970 e 80? Aquela esperança de gente que descrente dos humanos sonhava e ainda sonha com uma espécie de resgate ou intervenção de ETs, acabaria por trazer novos relatos, imagens e vídeos de óvnis circulando ao redor da Terra. Mas, e Ashar Sheran, quem foi nesse contexto e por onde anda?

"Tenho boa sensação ao ouvir esse nome pela primeira vez e eu até queria que fosse mesmo a nossa Nave Mãe chegando, mas ainda não é. Recentemente ouvimos que há centenas de civilizações inteligentes no Universo próximo e talvez sejamos os únicos burros, por isso os ETs preferem não manter contato", ironiza a publicitária e escritora Carolina Vieira Orm. Atenta aos fenômenos especulados, ela comenta que bilionários estão enchendo o céu de traquitanas.

“Elon Musk, dono da SpaceX, assinou contrato com a NASA e já pôs mais de 500 satélites na órbita da Terra, sob o argumento de levar internet barata a lugares remotos do mundo, imagina, o Big Brother agora em planos intergalácticos”, provoca. Carolina aponta que os mais novos são os que ficam visíveis e brilham forte de noite, fazendo muitos suporem estar vendo Ufos. Mas logo ela diz que “outros países não investiriam milhões se não houvesse evidências” e mostra reportagens recentes sobre buscas por aliens feitas pelos chineses e sobre a criação de protocolo japonês para contatos futuros – além de releases e vídeos de registros de óvnis liberados pelo Pentágono há cerca de um mês.

Txais dos novos tempos

Bené Fonteles (foto abaixo) vai ainda mais longe que Carolina Orm. Artista múltiplo, ativista e cidadão planetário como ele se define, afirma que sua constelação de origem são as Plêiades, assim como é pleidiana a pessoa de quem psicografa mensagens, que são como puxões de orelha na humanidade, e as edita na série intitulada Panfletos da Consciência. Bené circula nas redes as mensagens dessas canalizações, ou psicografias, que lhe ocorrem desde os anos 1980, época em que lia as mensagens de Ashtar Sheran.

Sobre o paradeiro de Ashtar ele conta que há muito não tem notícias, mas que “deve estar cuidando da Terra lá no orbe celeste, dentro de alguma nave interestelar”. O movimento New Age, segundo afirma, “agora é chamado planetariamente de Projeto Nova Terra”, ao qual ele tem se dedicado com arte, música, literatura e rituais xamânicos. Bené vê como uma incógnita o mundo pós-pandemia. Não responde, questiona: “Será que vai passar? A humanidade vai compreender a lição para quê veio a pandemia? Virão catástrofes naturais terríveis, muito naturais por tudo o que fizemos de ruim com o planeta nos últimos séculos?”.

Carolina de Leon abandonou o alto salário do cargo de gerente de vendas, exercido por sete cabalísticos anos na Editora Iluminuras, de propriedade de seu pai, em São Paulo, para viver como uma autêntica cidadã da Nova Era. Primeiro, com seus natos dons xamânicos, buscou se curar de mazelas com a saúde, adquiridas na refrega urbana da megalópole. Depois, mudou-se para Alto Paraíso de Goiás, onde passou a viver como curandeira de pessoas com diferentes enfermidades astrais, atendendo a uma indução mediúnica de Ashtar Sheran.  Jornalista com PG na USP em divulgação científica, ela teve dois fortes contatos com seu mentor espiritual e depois não soube mais dele.

Carol de Leon crê que “a pandemia é a tal história do joio e do trigo, sim”: veio para dizimar grande parte da população mundial, como era esperado de um processo cármico da humanidade. Conta que sonhou com uma pesada nuvem negra passando pelo planeta e que aonde sua baixa energia ressoasse ela entraria. Os que se recusassem a prosseguir na experiência da vida em 3d e aceitassem as condições impostas não seriam atingidos e assim, o preconizado salto quântico do planeta poderia se dar – embora se ignore quando de verdade vai iniciar, ela ressalta.

Arautos da velha New Age

O relato desta curandeira nascida nos anos 1970 liga-se ao conteúdo das reportagens de Sonia Hirsch, no Caderno B do JB, nos anos 1980. Hirsch foi a primeira repórter da grande imprensa a abordar com liberdade a temática da nova era, que se anunciava em torno dos conceitos de holística, de alimentação orgânica, de busca do equilíbrio do ecossistema planetário, do incremento à ciência em favor de uma sociedade saudável mas, socialmente, com tendências ao individualismo nos primeiros tempos, ela já narrava.

Estávamos ainda longe do advento da internet baixar entre nós com a aceleração que chegou na década seguinte, pondo a cotoveladas e de imediato no ostracismo a mensagem e o modo de viver da “turma delirante” – que, por sinal, não fazia mal a ninguém. Só para lembrar: eram cidadãos de outros modos e outras modas. Nada tinham da inacreditável violência fascista da atualidade. Os beats e hippies, esses “bichos-grilos” que inundaram o mundo com o mantra Paz e Amor, acabaram provando que a realidade é o sonho – e não o desatino doentio da Matrix em que nos aprisionaram nestes primórdios da web.

Pois, também da linhagem desse papo mais que reto, a sacerdotisa Jayadev foi outra que ouviu o chamado de Ashtar Sheran para deixar o magistério no Rio de Janeiro e viver em Brasília, na década de 1970.

Segundo seu guia espiritual, ela deveria criar na capital ainda adolescente a sua ecumênica “Fraternidade da Cruz e do Lótus” e atuar como curandeira áurica. E assim ela fez. Abriu seu ashram ao chegar, em Taguatinga, depois se transferiu para a QI 28 do Lago Sul. Lá mitigava as dores espirituais e físicas de seus fiéis, sem cobrar um tostão, até morrer octogenária mais de 20 anos depois.

Jayadev já em fins dos anos 1980 lamentava a crescente decadência do Rio. “Lá não há bons espíritos mais; amo, mas é uma cidade de ênfase muito materialista, difícil para espiritualistas viverem nela”. A sacerdotisa e curandeira contava que seu mentor, aliás, se afastara da Terra. “Há alguns anos não consigo mais conexão com Ashtar. Silenciou-se depois dos inúmeros alertas dos rumos que o planeta está novamente tomando, sem ter aprendido as lições das duas grandes guerras. Ele dizia que, se até os 20 primeiros anos do novo milênio, a humanidade não se corrigir, correrá sério perigo de extinção”.

Em 1999, na UnB, a figura emblemática de Ashtar Sheran foi tema de uma palestra que superlotou de estudantes o Anfi 9. “Estava todo mundo doido na véspera da virada do milênio”, conta Cristiano Lacerda, que era então estudante e assistiu à exposição. Na saída do anfiteatro, vendia-se um conjunto de três zines, editados em Campinas-SP e intitulados Projeto Evacuação Mundial pelo Comando Ashtar que, somados aos demais produtos culturais da época, bombardeavam na cabeça da rapaziada o terror do apocalipse esperado para o futuro próximo.

Mas quem seria Ashtar Sheran?

Afinal, quem é esse ser misterioso da ufologia mística, que manteve contatos telepáticos com médiuns e videntes, muitos já falecidos, dos anos 1950 até a década de 1980? Ashtar Sheran era tido como o comandante em chefe de uma frota intergaláctica, que em 18 de julho de 1952 teve sua primeira mensagem canalizada e poucos anos depois publicada em livro por Herbert Victor Speer e outros integrantes do Círculo de Médiuns da Paz de Berlim.

Ao que parece, o personagem espacial se preocupava muito com os destinos da Terra no contexto planetário e mais curioso ainda: sua missão esotérica tinha uma pegada revolucionária, porque se conectou exatamente com cidadãos de países-chaves das duas guerras mundiais, Alemanha e Itália, além de norte-americanos. No Brasil, seu nome chegou em 1965, um ano após o golpe militar que nos subjugou por longos 21 anos. E enquanto permaneceram psicografadas por sensitivos naquelas três décadas, suas mensagens foram amplamente divulgadas pelo mundo.

Conta-se que Ashtar Sheran procedia de um planeta da galáxia de Alfa Centauri, a mais próxima do nosso sistema solar. Alto, loiro, feições delicadas e uma aura meio que de santidade caracterizavam sua figura mítica e mística. As descrições detalhadas evocam os personagens de histórias em quadrinhos daquelas décadas do século passado ou os das sagas estelares dos filmes de George Lucas. Porque não foi aproveitado pelo cineasta, que como se sabe é também espiritualista, de certo modo é outro mistério...

No entanto, o cineasta e artista visual Karim Aïnouz lançou no último dia 9 de junho um curta-metragem de ficção científica com 10min. de duração, cuja história parece ter saído das cartilhas de Ashar Sheran. Missão Perséfone se passa no ano 3020, quando a humanidade completa 100 anos em um corpo celeste da constelação austral da Baleia, conhecido como Superterra por seus habitantes.

A sinopse do curta – “Esse foi o destino escolhido pelos sobreviventes do evento que marcou a extinção da vida humana no antigo planeta Mãe e que culminou no grande êxodo de 2020. A mudança para o novo planeta inaugurou o fim do império da mercadoria e do Capitaloceno e o início de uma Nova Era. A Missão Perséfone é o esforço desta nova civilização, justa e igualitária, de construir uma arqueologia do seu passado no Planeta Azul, para que os céus nunca mais caiam”. Tudo a ver com o Comando Ashtar.

Karim Aïnouz e os canalizadores de Ashtar Sheran poderiam se espelhar nas palavras de Bené Fonteles: “Se o que eu psicografo do pleidiano não passa de ficção, o que vale é a mensagem”. Pois, desde tempos imemoriais, desde o oráculo de Delfos, das pitonisas, as sibilas de antanho, que profecias existem não para serem cumpridas, mas para alertar os inconsequentes de que sempre é tempo de retomar os rumos do movimento dos barcos. Entretanto, sem deixar que passe da hora H, “claro, claro!”, como diria Glauber Rocha.

Com a pandemia, o mensageiro espacial entrou novamente em cartaz, pela mão de um grande número de pessoas que certamente não viveram os tempos em que os primeiros sensitivos o tornaram um astro pop. Uma poeta e psicóloga carioca – que não quis se identificar, mas que nos anos 1970 leu o primeiro livro do alemão Herbert Speer sobre ele – chama a atenção para as psicografias sem seriedade, fajutas, que correm hoje pela internet.

Depois de seu sumiço nos anos 80, tornaram Ashtar num avatar do Arcanjo Miguel. Chegaram a misturá-lo com o Cristo e outros mestres ascensionados da Teosofia e de outras linhas ocultistas – uma questão quase que já “normal”, na era do F de falso... Bem, para efeito de epílogo, apenas deixando claro que o personagem retratado nesta reportagem é o antigo.

 

Criado em 2020-06-27 16:27:20

Fábio Félix: “Museu da Bíblia é um tapa na cara da cultura do DF”

Romário Schettino –

A liberação da construção do Museu da Bíblia em Brasília pelo Superior Tribunal de Justiça vem provocando indignação no Movimento Cultural do DF e entre deputados distritais.

O deputado Fabio Felix (PSOL) foi o primeiro a se manifestar: “Gastar R$ 26 millhões com a construção do Museu da Bíblia, enquanto perdemos mais de 50 vidas por dia para a Covid, é um crime contra a população do DF. O GDF sequer consultou a sociedade sobre a construção desse espaço. Isso é um tapa na cara do movimento cultural: temos o Teatro Nacional fechado e abandonado e tantos outros espaços culturais importantes esquecidos. É também um descaso total com o momento de desespero na saúde que estamos vivendo”.

Falta vacina, faltam leitos de UTI, a Covid avança no DF e o governador Ibaneis Rocha, aliado de Bolsonaro, quer gastar R$ 12 milhões com um projeto arquitetônico para o chamado Museu da Bíblia, que será gerido por uma Associação Nacional de Pastores (leia-se, evangélicos). Ainda estão previstos mais R$ 26 milhões com as obras. Protestos tomam conta das redes sociais.

A produtora e ativista cultural, Rita Andrade, da Frente Unificada de Cultura do DF, lembra que o movimento conseguiu, recentemente, um pequeno avanço importante com a constituição do Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural do DF (Condepac). “É nessa instância que deveria estar havendo esse debate sobre o Museu da Bíblia, equipamentos culturais, tombamento de Brasília etc. É preciso reconhecer que os espaços estão fechados, precarizados”, argumenta Rita.

Segundo ela, “investir num museu, que vai atender a um setor muito específico da sociedade, quando essa mesma sociedade encontra-se no meio de uma crise sanitária sem precedentes é um despropósito. Nada se sustenta se as pessoas não estiverem vivas. Jogar dinheiro numa construção que tem um apelo apenas eleitoreiro é, de fato, um absurdo”.

O maestro Rênio Quintas, do Fórum de Cultura, disse que “no mínimo esse museu deveria ser de todas a religiões, não apenas da Bíblia”. Segundo ele, “é preciso considerar o lugar de fala dos Vedas, do Budismo, e de tantas outras religiões e crenças afro-brasileiras e indígenas. Por que um museu para contemplar apenas o universo cristão? Isso é um completo absurdo no contexto de um país laico como o nosso”.

Decisão do STJ

A coluna Janela Indiscreta, assinada pelo jornalista Caio Barbieri, do site Metrópoles, informou ontem (26/4) que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) acolheu recurso da Procuradoria-Geral do DF (PGDF) e manteve a construção do Museu da Bíblia em Brasília. A decisão liminar é do presidente do STJ, ministro Humberto Martins.

Há um mês, a 7ª Vara da Fazenda Pública do Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDFT) havia determinado a suspensão das obras e dos processos administrativos relacionados ao Museu da Bíblia.

Em setembro de 2020, a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA) pediu na Justiça uma liminar de interromper as obras e processos administrativos envolvendo o projeto, mas a Justiça negou. Contudo, posteriormente, tal decisão foi revista porque o juiz entendeu que com a publicação do edital pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa feria o princípio da laicidade do Estado brasileiro.

Com a nova decisão, agora do STJ, o GDF readquiriu a autorização para tocar a obra, mas é provável que a ATEA recorra ao Supremo Tribunal Federal (STF) por ferir o princípio constitucional da laicidade do Estado brasileiro.
______________
Leia noticia do STJ sobre a decisão do ministro Humberto Martins aqui

Criado em 2021-04-28 00:14:58

As pílulas do Dr. Benjamin Button

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

“Tudo é vaidade e correr atrás do vento”, dizia o Eclesiastes, e por isso o vaidoso (vanus, oco, vazio) corre atrás dos aduladores que insuflem o seu ego. Também por essa razão os amigos puxa-sacos são inimigos com armas muito mais letais – os elogios – do que os mísseis dos inimigos. Como disse o poeta Francisco de Quevedo y Villegas, “bien puede haber puñalada sin lisonja, mas pocas veces hay lisonja sin puñalada”.

A gente poderia discutir aqui, a propósito, a busca frenética por likes nas redes sociais, ou a construção das celebridades. Mais modesto, vou contar um curioso caso que eu mesmo construí, explorando a vaidade de um amigo que não vejo há dez ou doze anos, o Maurílio.

Quando a cena aconteceu, o Maurílio devia beirar os 70 anos, quase dois metros de altura, empertigado, um sujeito elegante. Um dia ele chegou na cooperativa dos jornalistas que eu dirigia, e deu bom dia. Como sempre, revidei com a minha resposta padrão: “Excelente!” Em tempos imemoriais descobri que essa fórmula arrogante deixa os amigos muito felizes, e putos os inimigos!

Esfúzio – Pode ser que eu tenha exagerado no esfúzio porque o Maurílio perguntou o que é que eu fazia para me manter tão jovem e jovial e exuberante. Qual era o segredo? Alguma droga, algum suplemento vitamínico? Súbito, bolei uma sacanagem. Depois de fingir negaças, para não entregar o ouro, admiti que andava tomando as pílulas do Dr. Benjamin Button. Os olhos do Maurílio cintilaram, ávidos por detalhes. Solícito, despachei alguns em cascatas. 

Primeiro, inventei que a receita das tais pílulas teria sido desenvolvida por pesquisadores do renomado Centro de Pesquisa Gerontológica de Moscou, inclusive com a participação voluntária do nosso Luiz Carlos Prestes, quando ele morou naquela cidade até 1979. Ora, acrescentei, o Prestes foi um notório consumidor de sementes de girassol, sabidamente ricas em vitaminas A, B12, C, E e K, tiamina, riboflavina, niacina e ácido fólico e mais… fósforo, magnésio, ferro e cálcio. Uma potência!

Daí fiz uma longa preleção sobre os benefícios do folato (ácido fólico), desde o desenvolvimento do sistema nervoso do feto até a idade madura, concedendo que a sua suplementação não protege contra doenças coronarianas ou contra os acidentes vasculares encefálicos, muito embora reduzam os níveis de homocisteína, um aminoácido pró-aterogênico e pró-trombótico. O Maurílio ouvia tudo atentamente, os olhos estatelados.

Eu disse então que desde a década dos 80 as pílulas do Dr. Benjamin Button foram otimizadas por nutricionistas canadenses, americanos e até goianos, que a elas adicionaram antioxidantes (glutationa, enzimas catalase, dismutase, peroxidases etc) e doses extras de ácido pantotênico, presente na polpa do pequi, muito importante para acelerar as respostas do organismo ao estresse, melhorar o metabolismo das proteínas, gorduras e açúcares etc.

Brad Pitt – A essa altura o Maurílio já estava babando. E eu ali, fazendo esforço para não cair na gargalhada e estragar a brincadeira. Imaginei então o que poderiam pensar da gozação o próprio Benjamin Button (Brad Pitt) e a Daisy Fuller (Cate Blanchett) no filme do David Fincher.

– ACQ, eu preciso tomar essa maravilha, rapaz! Onde eu compro?

– Maurílio, meu velho, é fácil! Só tem que correr até uma farmácia de manipulação. Eles vão lhe pedir alguns dados pessoais, idade, doenças que sofreu, medicamentos e suplementos que está usando etc, para poderem customizar as pílulas. Para cada indivíduo, as doses adequadas de cada componente. E o preço não é alto, não, viu!

 – Vou lá ainda hoje!

Ai, ai, algumas horas mais tarde o Maurílio me ligou dizendo que na farmácia ninguém sabia das tais pílulas do Dr. Benjamin Button. “Como não?”, protestei. “Pois é, estou aqui com a moça do balcão e ela disse que nunca ouviu falar”. Pedi pra ele passar o celular pra atendente. Disse pra ela ficar séria quando eu começasse a contar a história, e expliquei que era uma brincadeira tipo primeiro de abril… Pedi que no fim do papo ela revelasse a trampa.

Não demorou 20 minutos o Maurílio invadiu a minha sala, bravo, com a cara de um São Bernardo tristonho, ali estampada uma decepção de século e meio. Eu mesmo me desmanchava com todos os 64 dentes arreganhadamente. O Maurílio ainda quis reclamar, mas cadê clima?

Tirei um derradeiro sarro: “Ô, Maurílio, você acaba de ganhar pelo menos mais três meses de vida, cara!”
 

Criado em 2021-09-27 19:21:20

Ruptura fere democracia, ignora pandemia e favorece o Centrão

Luiz Martins da Silva –

"O enfrentamento dessa crise deve ser um laboratório da democracia, e não, em hipótese alguma, um laboratório de autoritarismo", disse o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal. Todos juntos contra o golpe que está sendo tramado, contra o Brasil, contra a Democracia, contra o Planeta (Amazônia), contra as liberdades, contra tudo e contra todos. Convenhamos, a quem serve na História do Brasil mais uma ditadura?

E que coisa mais superada, em pleno 2020 um regime à base de culto da personalidade? Triste do país que ancora suas esperanças no carisma de um mito! E mito que nem solidário é, o país beirando os 30 mil mortos numa guerra e ele só quer saber de si, do seu ego, da sua vaidade, das suas performances midiáticas. Por coincidência, aposta numa tal imunidade de rebanho. Mesmo que o seu rebanho adquira imunidade, quantos ainda irão perecer – e com muito sofrimento!

E que cegueira, o mundo inteiro apontando que o ápice da pandemia é, agora, neste mês, precisamente na América do Sul e com epicentro no Brasil. E o reforço positivo é em cima de quê? Andar logo com a reabertura do comércio e com o fechamento político. E a Educação? Num dos ministérios mais importantes, entregar o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação a um político do Centrão, para movimentar R$ 54 bilhões. E o que entende ele de educação?

De vez em quando, algum apoiador desse governo emite farpas nas redes sociais, em geral, sem argumentos e com grosserias, fanfarronices e a surrada desforra para com o PT. E os mortos? E o sofrimento das famílias? Mesmo os que sobrevivem ao novo coronavírus, festejam estar vivos, mas relatam um calvário de penúrias.

O mais triste de todo este quadro é verificar que existe claramente uma aposta no caos para, então, chamar de vez os militares, mais uma vez, como salvadores da situação. Um jogo ensandecido, atirar-se o país numa crise institucional para, quem sabe, outros 25 anos de esforço para que elas voltem um dia ao normal de sempre, que é um cotidiano tranquilo e rotineiro para todos.

Criado em 2020-06-01 23:59:41

Curral de bois

José Carlos Peliano –

não desejo que Deus te pague
pagar-te ainda mais que eu?
antes que a pobreza me apague
quero a parte do que é meu

se a morte iguala o meu e seu
que a vida repita e nos trague
o que a riqueza me comeu
em tempo que o mundo me apague

o homem é quem paga a vida
a paga de Deus vem depois
sobra a ti a minha perdida

eu não vivo em curral de bois
não há guerra em paz repartida
para um não ser mais que dois

Criado em 2020-06-24 01:57:21

Os males da privatização da infraestrutura: um retrocesso na formulação de políticas progressivas

Joseph Stiglitz (*) –

                    “As instituições privadas são construídas para servir aos interesses de um grupo restrito de acionistas e executivos,
com a garantia de que as questões de igualdade de acesso serão deixadas de lado em favor da busca única pelo lucro.
Isso prejudica direta e desproporcionalmente aspessoas que já são sistematicamente marginalizadas,
ampliando ainda mais os abismos em nossa economia
.” (Stiglitz: a privatização de infraestruturas amplia as desigualdades)

Esta semana, a Casa Branca e os negociadores do Congresso estão trabalhando para elaborar um marco bipartidário de referência para a infraestrutura – um componente da prioridade do governo Biden na atualização da infraestrutura em ruínas e na realização de investimentos públicos essenciais e há muito esperados que seriam de enorme benefício para o país.

Como sempre, porém, o diabo está nos detalhes.

Especificamente, o marco bipartidário lista vários itens como “fontes de financiamento propostas para novos investimentos”, incluindo parcerias público-privadas (PPPs) e reciclagem de ativos. Essas propostas devem ser motivo de preocupação.

Em muitos casos, essas medidas são a porta dos fundos para a privatização – com fundos públicos pagando por projetos controlados por empresas privadas que não prestam contas, cujo principal motivo é aumentar seus próprios lucros.

Esses tipos de propostas representam uma reversão equivocada a uma estrutura neoliberal que, por décadas, ampliou a desigualdade econômica, priorizou o poder das corporações extraírem lucros em detrimento das pessoas e esvaziou nossa capacidade pública.

A premissa fundamental e falha dessas iniciativas é que o governo é inevitavelmente ineficiente, portanto, dar o controle desses ativos ao setor privado representa uma oportunidade para arbitragem: tanto o setor privado quanto o público podem ficar em melhor situação.

A experiência em todo o mundo mostra o contrário. Existem várias razões para os resultados decepcionantes: por exemplo, os custos de capital são muito mais elevados para o setor privado e os projetos de infraestrutura são investimentos de longo prazo, em que as diferenças no custo de capital são muito importantes. Isso coloca o setor privado em acentuada desvantagem.

Além disso, verifica-se que, em muitas áreas, o setor público é notavelmente eficiente e inovador – mais do que se acredita – e o setor privado é menos eficiente do que comumente se reconhece. São frequentes o que os economistas chamam de “problemas de agência”[1], em que conflitos de interesses e incentivos equivocados levam a resultados que estão longe de ser socialmente desejáveis como vimos na crise financeira.

Além disso, a contratação de sociedades de responsabilidade limitada é uma aposta unilateral – uma das razões para os resultados assimétricos em que o governo arca com as perdas e as empresas privadas colhem os ganhos. Quando as coisas não acontecem como esperavam, as empresas desistem dos projetos ou forçam renegociações, essencialmente mantendo como refém um governo que ainda deve fornecer serviços essenciais. E quando as coisas saem melhor do que o esperado, quando os custos são menores ou a demanda é maior, as empresas privadas ficam com os ganhos inesperados.

Mais importante ainda, é difícil – na verdade impossível – em qualquer contrato especificar toda a gama de expectativas públicas que se gostaria que um “bom” parceiro tivesse em mente, e que estão no centro de muitos projetos de infraestrutura pública importantes.

Um governo, por definição, pode desempenhar um papel poderoso na criação de uma economia que foca nas pessoas e no planeta, e muitas vezes pode fazê-lo de forma mais eficaz e eficiente do que o setor privado. Um governo pode usar seu porte para coordenar e alinhar recursos de forma coesa para atender às necessidades da sociedade; pode usar suas leis para mitigar e retificar legados de racismo e abordar falhas de mercado; assim criar um processo de responsabilização democrática que coloca as necessidades coletivas no centro; e estabelece metas e estimula mudanças essenciais que, de outra forma, não aconteceriam.

Políticas como as que estão sendo propostas, nas quais o setor privado recebe, mesmo que temporariamente, controle significativo sobre esses ativos públicos – tomando decisões importantes, incluindo a imposição de encargos dos quais eles derivam seus lucros – minam a capacidade do governo de cumprir essas metas e cedem muito poder para empresas do setor privado com conflitos de interesse e incentivos desalinhados. E o fazem sem nenhuma evidência de que o setor privado é mais eficiente nessas áreas contratadas. Como resultado, essas disposições historicamente em todo o mundo não geraram os efeitos benéficos prometidos, seja na produtividade econômica ou no orçamento do governo, em vez disso, muitas vezes produzindo efeitos adversos na sociedade:

- aumentando o poder das corporações de extrair lucros;
- enfraquecendo o poder público e a democracia;
- ampliando as disparidades raciais e econômicas;
- enfraquecendo a força dos trabalhadores.

Aumento do poder das corporações de extrair lucros

O objetivo central do setor privado é maximizar o lucro e não fornecer os serviços necessários. Nesses arranjos provou-se impossível garantir que os incentivos aos fornecedores privados correspondam ao interesse público. Com muita frequência, as empresas contratadas geram mais renda explorando os trabalhadores, diminuindo a qualidade, cobrando preços altos aos usuários e/ou excluindo do atendimento certos grupos – não aumentando a eficiência.

E, como já foi observado, o governo tende a absorver os riscos dos investimentos sem obter participação em nenhum retorno que reflita os riscos que carrega e o capital que fornece. Como resultado, a contribuição esperada para o orçamento do governo pode mesmo nem acontecer.

Enfraquecimento do poder público e da democracia.

Particularmente com algo tão fundamental como infraestrutura (amplamente definida, como fez o presidente Biden), a participação democrática e a responsabilização são essenciais. As propostas de infraestrutura representam uma oportunidade única de investir e capacitar instituições públicas, ao mesmo tempo em que se constrói um governo e uma economia mais coesos e responsivos. A privatização faz exatamente o oposto: dilui o papel e as responsabilidades do governo em uma tentativa frequentemente deliberada de diminuir a capacidade das instituições públicas e enfraquecer a já baixa confiança pública. E faz isso sem nenhum benefício público comprovado – e com uma longa história de danos que resultam de sujeitar as pessoas aos caprichos de executivos movidos pela busca do lucro.

Ampliação das disparidades raciais e econômicas

Uma das muitas virtudes das instituições públicas é que elas podem priorizar o acesso a todos os cidadãos, independentemente de idade, raça, sexo, classe ou habilidade. Sua missão principal é servir ao interesse público. Em contraste, as instituições privadas são construídas para servir aos interesses de um grupo restrito de acionistas e executivos, com a garantia de que as questões de igualdade de acesso serão deixadas de lado em favor da busca única pelo lucro. Isso prejudica direta e desproporcionalmente as pessoas que já são sistematicamente marginalizadas, ampliando ainda mais os abismos em nossa economia.

Enfraquecimento da força de trabalho

Outra implicação do controle privado da infraestrutura é seu impacto sobre os trabalhadores. Em um esforço para conter custos e maximizar lucros, as entidades privadas muitas vezes economizam na qualidade do emprego, limitam os salários e não priorizam as condições de trabalho ou o treinamento dos trabalhadores. O foco único nos lucros significa que objetivos sociais mais amplos são deixados de lado.

Privatizar a infraestrutura principal é um grande passo na direção errada

Em vez disso, os formuladores de políticas devem mover para o centro do pacote de infraestrutura a atuação e as habilidades exclusivas do governo, fazendo o que podem para alinhar melhor nossa infraestrutura pública com o interesse público. Isso será bom para o orçamento. Será bom para a economia. E será bom para nossa sociedade.
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[1] Problema de agência é um conflito de interesses inerente a qualquer relacionamento em que se espera que uma parte atue no melhor interesse de outra. Em finanças corporativas, o problema de agência geralmente se refere a um conflito de interesses entre a administração de uma empresa e os acionistas da empresa.
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(*) Joseph Stiglitz é um economista estadunidense. Foi presidente do Conselho de Assessores Econômicos no governo do Presidente Bill Clinton (1995–1997), Vice-Presidente Sênior para Políticas de Desenvolvimento do Banco Mundial, onde se tornou o seu economista chefe. Recebeu, juntamente com A. Michael Spence e George A. Akerlof, o Prémio Nobel de Economia” em 2001 por criar os fundamentos da teoria dos mercados com informações assimétricas”.
(Este artigo foi publicado no site do Instituto Roosevelt, no dia 26 de julho de 2021. Texto traduzido por Marcos H. F. Montenegro – Coordenador-geral do ONDAS).
Original em inglês disponível aqui

Criado em 2021-08-13 20:37:08

Reforma da Previdência de Rollemberg causa insegurança nos servidores

Romário Schettino -

O governador Rodrigo Rollemberg (PSB) conseguiu os 14 votos de que precisava para aprovar a reforma na previdência dos servidores do DF. Isso significa que a Câmara Legislativa do DF decidiu pela unificação dos dois fundos que compõem o Instituto de Previdência dos Servidores (Iprev), pela criação da previdência complementar e de um Fundo Garantidor Solidário. Em decorrência, autorizou o governador a passar a mão nos recursos dos fundos dos servidores.

Foram semanas de pressão sobre a base aliada, ameaças de demissão de comissionados nomeados pelos deputados e chantagem de fatiar os salários em outubro se a unificação dos fundos não fosse aprovada.

O problema mais grave é a insegurança que essa reforma provoca nos trabalhadores. Para Rosilene Corrêa Lima, diretora do Sindicato dos Professores (Sinpro-DF), “a unificação dos fundos deixa o servidor inseguro em relação ao seu futuro de aposentado e não resolve os problemas do DF nos médio e longo prazos. Não é assim que se administra uma cidade tão complexa como Brasília. Essa é uma decisão paliativa que não vai resolver o problema apontado pelo governador”.

O Iprev tem hoje um patrimônio de cerca de R$ 5,7 bilhões (R$ 3,9 bilhões em caixa, R$ 1,3 bilhão em terrenos no DF e R$ 500 milhões em ações do Branco de Brasília). O governador vai utilizar todo esse dinheiro disponível como bem entender, zerar o fundo financeiro deficitário em cerca de R$ 2 bilhões e criar condições para realizar obras no último ano de seu governo, ou seja, ano eleitoral.

O presidente da CLDF, deputado Joe Valle (PDT), apresentou um substitutivo criando o Fundo Garantidor Solidário, mas queria que o processo de transição levasse mais dois anos e, além disso, acrescentava prazo maior para debate com os servidores. Como não houve acordo, Joe votou contra. A proposta do governo obteve 9 votos contra no primeiro turno. A deputada Sandra Faraj esteve ausente.

Segundo a professora Rosilene, “esse Fundo Garantidor criado não garante nada e não tem fundos. É uma promessa sem lastro”.

Apesar da tentativa de encontrar uma solução negociada apresentada pelos deputados petistas Ricardo Vale e Chico Vigilante, a bancada do Partido dos Trabalhadores votou contra a proposta dos governistas.

O deputado distrital Wasny de Roure (PT) fez críticas ao processo de discussão do projeto. “Nada garante que uma vez utilizado, os recursos voltarão. Até hoje os ativos oferecidos, no ano passado, para autorizar o governo a utilizar recursos do Iprev não foram repassados para o fundo. Como vamos confiar nessa ideia? Não podemos nos basear em resultados de rendimentos de aplicações financeiras", disse Wasny.
 
O que a CLDF fez na noite de terça-feira (26/9) foi autorizar a retirada dos recursos do Iprev e alijar os trabalhadores, os principais atingidos pela medida, dos debates. O governo chamou os sindicatos para dar conhecimento da proposta numa quinta-feira, dia do encaminhamento do projeto para a Câmara Legislativa. A audiência pública foi insuficiente para aprofundar a discussão sobre uma mudança tão importante que afeta a vida de milhares de servidores.

Criado em 2017-09-27 03:36:57

Bento de Spinoza literário

Por que razão esse filósofo holandês de origem portuguesa tem inspirado tantos escritores, poetas e artistas nos últimos três séculos?

O professor Cristiano de Novaes Rezende, da Universidade Federal de Goiás (UFG), e a professora Éricka Itokazu, da UnB, oferecem algumas respostas à questão neste podcast da República Popular das Letras (RPL), comandado pelo jornalista Antônio Carlos Queiroz.

Veja a íntegra aqui: https://www.youtube.com/watch?v=Z6QbyheYZvc

Criado em 2022-07-27 18:50:22

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