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Página 24 de 95

O significado da vitória da esquerda na Europa para o PT

Márcio Araújo (*) –

Todos os países nórdicos, Suécia, Noruega, Finlândia, Dinamarca e Islândia, elegeram recentemente a esquerda social-democrata, também vitoriosa na Alemanha. Essas nações apresentam os melhores índices de bem-estar social e de prosperidade econômica aliada à redução de desigualdades no mundo.

A mídia neoliberal no Brasil ou ignorou ou se apressou em minimizar a conquista socialista. Na reportagem do principal noticiário da TV Globo sobre a vitória do Partido Social Democrata alemão, sequer informaram se tratar de uma agremiação de esquerda.

O grande historiador do século XX, Eric Hobsbawn, dizia que para avaliar o sucesso do comunismo e da esquerda, você deveria olhar não só para a União Soviética ou China. Talvez mais importante seria observar os próprios países capitalistas que incorporaram políticas públicas fruto de lutas e formulações socialistas.

Como se sabe, nos países nórdicos e na Alemanha a social democracia governa há décadas e, nos intervalos, os conservadores tiveram de manter praticamente as mesmas políticas sociais.

O historiador britânico explicou que os sindicatos de trabalhadores desses países sempre contaram, na mesa de negociação, com dois fatores determinantes: 1). Forte capacidade de mobilização de seus filiados; 2) O temor da burguesia local da adoção pelos trabalhadores de uma estratégia comunista, preferindo ceder os anéis do bem-estar social ao risco de perder privilégios da propriedade privada.

Significado para o PT – Para o PT, a vitória da esquerda no norte da Europa representa o fortalecimento de importantes aliados, tanto para a disputa eleitoral quanto para um possível governo Lula a ser eleito em 2022.

O previsível apoio da esquerda hegemônica em países da Europa viria se somar ao histórico de boas relações internacionais do PT e de seus governos com um leque amplo que inclui a China, Rússia, América Latina, África, mundo árabe e mesmo com os EUA, onde o partido possui diálogo com segmentos importantes do Partido Democrata, do presidente Joe Biden.

Depois de ver o Brasil amargar este período de isolamento no mundo, as boas relações internacionais de Lula e do PT representam um enorme ativo político a ser acionado.
_____________________
(*) Márcio Araújo é jornalista.

Criado em 2021-09-30 22:43:18

Unafisco - Diga Não à Reforma da Previdência do ministro Paulo Guedes

Criado em 2019-04-04 19:21:40

Pornografia e nudez no mundo dos absurdos

Alexandre Ribondi -

Absurdo número 1 - Um projeto de lei da Assembleia Legislativa do Espírito Santo proíbe pornografia e nudez em exposições artísticas e culturais em espaços públicos do estado.

O texto foi elaborado pelo deputado estadual Euclério Sampaio (PDT). Como justificativa, ele afirma, no próprio PL, que o objetivo é “a promoção do bem-estar das famílias”.

Absurdo número 2 - Duas emendas foram colocadas pelas deputadas Janete de Sá (PMN) e Luzia Toledo (PMDB) e aprovadas. Uma delas excluiu das proibições obras de grandes artistas renomados e fotos de indígenas, e a outra incluiu a necessidade de restringir a participação de pessoas com menos de 18 anos nesses dois casos.

Absurdíssimo - Os menores de idade capixabas não poderão mais ver índio nu, para evitar o mal-estar das famílias. Esses deputados estão mortalmente enfermos e são sexualmente tarados.

Absurdaço - Eu sou capixaba. Que merda...

PS - Não sei se os capixabas consideram Goya um grande artista, mas La Maja Desnuda não poderá mais ser vista por quem não tiver 18 anos.

Criado em 2017-10-27 03:14:45

O que fazer com o dito cujo?

Marcos Bagno -

Não: o “dito cujo” do título não é o rato de esgoto, disenterino em exorcismo, que se catapultou à presidência da República por meio de um golpe de Estado. Mas, para não perder a oportunidade, aqui vai: Fora, Temer!

O “cujo” do título é o pronome relativo mesmo, aquele que, segundo as lições tradicionais, “indica posse”: “Ai está um governo provisório, cujo chefe, Michel Temer, se cercou do que existe de mais abjeto, imundo, corrupto e fascista na sociedade brasileira”.

Pois bem: se tem alguma coisa que podemos afirmar com absoluta certeza, sem medo de cometer nenhum exagero é que o pronome “cujo” está morto e enterrado há muito e muito tempo.

Ele não existe na língua, e quando uma linguista diz que determinada coisa “não existe na língua”, quer dizer que essa “coisa” não pertence à intuição das falantes da língua: elas não a aprendem com os pais, a família, a comunidade; ela não faz parte da gramática da língua materna.

O pronome “cujo” só pode ser adquirido por meio do letramento escolar: é preciso ir para a escola e frequentá-la por muitos anos para tomar conhecimento dessa forma gramatical.

Mas tomar conhecimento não significa necessariamente usar. Em centenas de horas gravadas de fala de brasileiras classificadas de cultas, um material que usei para produzir minha Gramática pedagógica do português brasileiro, só encontrei uma única ocorrência de “cujo” e, ainda assim, num uso considerado “errado” pela tradição gramatical: “ela sai presa a esse tecido conjuntivo, cujo tecido se prende à borda anterior da clavícula”.

É um uso muito comum, em que a gente enfatiza o termo anterior, como se quisesse dizer “tecido esse que...”.

Mesmo na língua escrita mais monitorada, em gêneros textuais que exigem maior formalidade, aparecem inúmeros exemplos do abandono do “cujo”. Em 2009, por exemplo, Clóvis Rossi escrevia, na Folha de S. Paulo: “Outro dia, alguém que acabei esquecendo o nome...”, onde se esperaria: “alguém cujo nome acabei esquecendo...”.

Mas antes que as pessoas apressadinhas em exibir seu complexo de vira-lata comecem a pensar e a dizer que nós, no Brasil, estamos “arruinando a língua portuguesa”, é preciso saber que o mesmo fenômeno se passa em Portugal. Aliás, o “cujo” já desapareceu também do espanhol falado, do francês falado, do italiano falado. Parece que todas essas pessoas (que somadas chegam a mais de meio bilhão!) combinaram para arruinar ao mesmo tempo suas línguas nos mesmos aspectos gramaticais!

Não é nada disso, é claro. O “cujo” (aliás, todos os pronomes relativos, mas não vou falar deles agora) representa a sobrevivência de uma construção de síntese em línguas que se caracterizam por uma morfossintaxe marcadamente analítica.

As línguas românicas, derivadas do latim, são línguas analíticas. O que em latim clássico se dizia com poucas palavras, em construções sintéticas, nessas línguas é preciso dizer com mais palavras: “Homo lupus hominis”, três palavras, contra “o homem é o lobo do homem”, sete palavras.

Conforme se ensina (mas será que se aprende?) na escola, podemos reunir duas frases numa só com o uso de “cujo”: “Temos um presidente golpista. O nome dele é Michel Temer” pode se transformar, sinteticamente, em: “Temos um presidente golpista, cujo nome é Michel Temer”.

Só que ninguém fala assim. Ou, melhor, alguém pode até falar assim, mas sem dúvida estará querendo “aparecer”, “se mostrar” ou, quem sabe, falando num contexto formal em que se espera o uso de uma linguagem mais “caprichada”.

No lugar do “cujo” sintético, nós (e as pessoas que falam espanhol, francês e italiano) desenvolvemos duas estratégias. A primeira manda o “cujo” para a cova e indica a posse de outra maneira: “Temos um presidente golpista que o nome dele é Michel Temer”.

Ou, de forma ainda mais simples: “Temos um presidente golpista que o nome é Michel Temer”.

Agora vem a questão importante: se o “cujo” está morto na língua falada, isso significa que não é preciso mais ensiná-lo na escola? A resposta é: não, não e não! Se a função da escola é ensinar o que as pessoas não sabem, e se no caso do “cujo” só é possível conhecer esse pronome por meio do letramento escolar, então cabe à educação linguística sim, sim e sim, ensinar os usos do pronome “cujo”. Ele pode ser de grande utilidade na produção de textos escritos mais formais, ajuda a conferir maior precisão, mais coesão e coerência ao texto escrito.

Ninguém precisa ensinar ninguém no Brasil a dizer “um golpista que o nome dele é Michel Temer” nem “um golpista que o nome é Michel Temer”: essas construções são as que de fato existem na gramática da nossa língua materna. O que temos de aprender na escola é justamente o que não faz parte dessa gramática intuitiva, mas que ainda tem espaço em determinados usos da língua, sobretudo na escrita.

Só não cabe à escola dizer que as outras construções são “erradas”, “feias” ou “viciosas” e que só o “cujo” é “correto”. Essa atitude, mais velha que a sé de Braga (aliás, mais velha que o Partenon de Atenas!), é puro preconceito, desprovido de qualquer fundamentação teórica mínima. Ou seja: burrice!

E, para terminar: Fora, Temer!

Criado em 2016-08-06 03:03:13

Cunha e o "pacto com o diabo”

Sandra Crespo - 

Aquela imprensa que é "assim" com a lavajato já sinaliza que procuradores rechaçam a delação premiada de Cunha - se aceitassem, estariam fazendo "pacto com o diabo". Engraçado, o mesmo belzebu que comandou o "legítimo" impeachment de Dilma.

Aliás, a imprensa internacional destaca exatamente este absurdo que aqui no Brasil parece supernormal.

Voltando à possível delação de Cunha: ele e Temer são amigos de infância, por assim dizer. Se a lavajato não aceitar a delação, vai estar na cara que o objetivo era apenas derrubar o governo do PT - e, coincidência surpreendente, de imediato o novo governo já tira da Petrobras o pré-sal e o entrega aos estrangeiros.

Esses procuradores anônimos da lavajato alegam que Cunha, por seu grau de ruindade, não poderia se beneficiar, livrando-se de pena grande. Tá bom. Os outros delatores eram todos uns anjinhos.

O que esses ilustres procuradores parecem ignorar é o trunfo que têm nas mãos: a mulher e a filha de Eduardo Cunha. Eu diria pro detento, se fosse da lavajato: se o senhor entregar todo mundo, não se livra da cadeia, mas sua família sim.

Simples, não é mesmo? Mas temo que esse seja mais um espetáculo sem grande capilaridade.

Lógico que hoje abri uma exceção na minha paz sem noticiário da tv. E já pude ver a cantilena dos analistas políticos, que de tão igual parece até as cigarras que nos ensurdecem em Brasília todo outubro. "Agora os petistas não podem mais dizer que o único alvo da lavajato é o PT".

(Eu não entendo por que a emissora contrata cinco "analistas" para falarem a mesma coisa. Deve ser problema de gestão hehe).

Enfim, eu pago pra ver se Cunha vai botar a boca no trombone e jogar o resto da merda no ventilador.

E também não consigo deixar de pensar que esta prisão antecede àquela tão ensaiada do sapo barbudo . Será?

Criado em 2016-10-19 22:17:06

Mestre Alagoinhas – retirante, operário e doutor

Maria Lúcia Verdi –

O baiano Geraldo Prado, Alagoinhas, ou Mestre Alagoinhas, às vésperas de seu aniversário de oitenta anos, concede esta entrevista que publicamos hoje, neste simbólico de 1º de Maio, dia que, em 1886, em Chicago, pela primeira vez na História, os trabalhadores organizaram uma greve geral em defesa de seus direitos.

Alagoinhas é exemplo de luta e perseguição de um sonho. De retirante a operário, até chegar a ser doutor, sua vida se desenvolveu entre os livros e a luta por um ideal difícil de ser alcançado em nossa sociedade – a melhor inserção social por meio da cultura.

Hoje, conhecido como o criador da maior biblioteca rural do mundo, instalada no vilarejo de São José do Paiaiá, no interior da Bahia, Geraldo já despertou a curiosidade de Jô Soares, que o entrevistou, bem como do Museu da Pessoa, museu virtual criado em São Paulo para registrar histórias de vida notáveis.

A seguir, trechos principais da entrevista:

Maria Lúcia Verdi – Geraldo, sua vida de lutas pode ser um exemplo para as crianças brasileiras como a de alguém que lutou por um sonho. Como foi sua primeira infância?

Mestre Alagoinhas – Até a minha pré-adolescência eu era um menino que vivia descalço, correndo por dentro da caatinga com um apito de madeira na boca, imitando o canto dos passarinhos e catando frutas nativas. Quando chegava às tardezinhas recolhia as cabras do meu pai. De manhã cedinho buscava água na fonte num jumento com uma cangalha e quatro barris de madeira.

Sobrava muito pouco tempo para brincar com minha bola feita de panos velhos, no terreiro da minha casa, com os meus colegas vizinhos, em noites de lua cheia. Gostava de viver naquela natureza que não me oferecia nenhuma perspectiva diferente para a futura vida de menino matuto, mas sonhava em ter dinheiro igual ao seu André Bernardes, o homem mais rico da região. Imaginava que plantando moedinhas na terra, da mesma forma como se plantava milho e feijão, poderia ficar rico.

Passei todo esse meu primeiro “tempo de espera” à espera de algo novo que pudesse acontecer. Minha avó, que me contara histórias sobre índios, escravos e histórias de Trancoso, na rede ao lado da sua cama, havia falecido quando eu tinha oito anos. Enquanto isto a minha mãe coava café para os adultos e servia doce de mamão verde para as crianças.

Eu sonhava em ser doutor por causa da roupa branca do médico dr. Luís Passos. Certa noite, depois que o dr. Luís e família voltaram para sua casa, perguntei ao meu pai se ele não poderia me fazer doutor, mas, carrancudo como era, me repreendeu e a minha mãe repetiu o que ele disse: “ser doutor é só para ricos e esse seu sonho de querer ser doutor era coisa de gente besta, pois o doutor que o pobre é, mesmo, é doutor pé de cama, é doutor urinol”. Terminei o curso primário, mas não deu para continuar fazendo o ensino secundário em São José do Paiaiá porque não havia colégios e a minha recém-viúva mãe não tinha condições financeiras para me mandar estudar em Alagoinhas ou Salvador.

E a decisão de ir para São Paulo, como foi a adaptação?

Menino, eu via, diariamente, dezenas de caminhões com as carrocerias cobertas com lonas e com tábuas transversais servindo de bancos, passarem pelo Povoado de São José do Paiaiá lotados de pessoas que migravam, algumas cantando outras chorando ou rezando, rumo aos Eldorados de suas imaginações. Contra a vontade de minha mãe, decidi ir para São Paulo com meu tio. Lá, meu primeiro emprego, como porteiro e faxineiro, durou um ano e quatro meses.

Minha primeira habitação foi um espaço de cerca de três metros quadrados na parte de cima do prédio onde trabalhava, na casa das máquinas dos elevadores. Ali passei a morar com o sobrinho do meu cunhado que trabalhava à noite como segurança de uma grande empresa. Das 18h às 23h ficava na portaria e antes de ir dormir retirava o lixo do prédio. Uma vez por semana o meu parceiro de quarto tinha folga do trabalho e ia dormir na minha cama. Nessas noites, eu improvisava uma cama feita com caixas de papelão e cobertor com jornais e, da meia noite até às 6h, dormia no fétido depósito do lixo do porão do edifício, dividindo espaço com ratazanas.

Como era estudar enquanto trabalhava nessas condições?

Vivendo aos trancos e barrancos, consegui dar início à realização do sonho de menino da roça. No horário da minha folga, das 16h às 18h terminei concluindo, em um ano e quatro meses, o curso ginasial através do exame de Madureza. Destaco que, entre as várias pessoas que passaram por esse processo do Madureza, está Florestan Fernandes, do qual fui aluno na disciplina Revolução Brasileira, no curso de Ciências Sociais da USP.

Em seguida, consegui ser aprovado para office-boy na Companhia de Seguros Atalaia, na mítica Av. São João, próximo ao Cine Olido, onde nos finais de semana e feriados ia assistir filmes de bang-bang, Mazzaropi e de vários outros gêneros. Esse emprego foi de grande valia, com ele tive, pela primeira vez, Carteira de Trabalho com emprego registrado.

Em julho de 1963 sai da Companhia de Seguros e fui trabalhar como auxiliar de almoxarifado na metalúrgica Braseixos Rockwell, em Osasco.

No primeiro semestre de 1964 fiz cursos técnicos no Senai, o que contribuiu para minhas promoções. Trabalhava durante o dia na metalúrgica e à noite ia para São Paulo assistir aulas no pré-vestibular Di Túlio, na Liberdade. Permaneci trabalhando nessa empresa até setembro de 1967, quando fui despedido por estar envolvido com a campanha de uma das chapas à presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, que fazia oposição à diretoria pelega, que desde 1964 havia sido empossada por uma articulação entre os militares, patrões e o Sindicato dos Metalúrgicos da cidade de São Paulo.

Tomei coragem e fui até a antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da USP, na Rua Maria Antônia, onde me inscrevi em Estudos Orientais, no curso de Português-Chinês, que dispunha de 30 vagas e teve, naquele ano, somente a mim de candidato. Fui aprovado, entrei na USP no início de 1965, começando assim a abrir um estreito caminho. No início de 1968, dois anos depois de entrar no Curso de Estudos Orientais passei, por transferência, para o curso de História, onde me formei em junho de 1972.

Durante os dois anos de Estudos Orientais fazia matérias optativas em Ciências Sociais, Filosofia, Geografia, Letras, Cinema e participava de vários cursos das férias.

Como era cursar faculdade e viver na USP na década de 70?

Assim que entrei na USP fiz inscrição para morar no Conjunto Residencial da USP (CRUSP), mas naquele momento não dei muita importância pra essa questão pois ainda estava trabalhando na Braseixos e o trabalho começava às 4h30, melhor era ficar morando na famosa pensão das moscas do seu José Mineiro, a dois quarteirões do trabalho. Ao ser demitido da Braseixos, em 1967, nem voltei a fazer nova inscrição pro CRUSP porque já estava enturmado com a estudantada que morava lá, com quem fui morar como clandestino até o fatídico 17 de dezembro de 1968, quando todos os moradores do CRUSP foram presos e expulsos pelo Exército.

A década de 1970 começou com o aumento violento da repressão aos movimentos estudantis e sociais, pessoas físicas (inclusive eu) sob as ordens de um elemento chamado Carlos Alberto Brillhante Ustra, ídolo declarado de um desequilibrado presidente. Vimos amigos/as serem assassinados/as nas ruas e em várias partes do país pela polícia criminosa da ditadura. No meio dessa situação caótica, sou aprovado para minha primeira tentativa de mestrado, no programa de Pós-Graduação de História Social da USP sobre cultura brasileira.

Fiz os créditos trabalhando como professor a título precário, como a gente se classificava na época, pois os concursos para o magistério estavam proibidos. Tínhamos que apresentar toda a documentação e ainda mais uma “folha corrida” tirada na polícia para ver se não constava registro de prisão. Algumas diretoras aceitavam que colegas ficha limpa fizessem as inscrições, assumissem as aulas e repassassem-nas para àqueles/as considerados/as fichas sujas.

Apesar de toda a dedicação da minha orientadora do mestrado e enfrentando o problema com trabalho, não tive condições de concluir minha pesquisa - era dificílimo conseguir bolsa de estudo da Fapesp, a única agência de fomento à pesquisa em ciências humanas na época. O prazo para apresentar a dissertação venceu e o meu mestrado gorou.

Depois desse projeto de Mestrado cancelado fui refletir. Em que uma projetada dissertação sobre literatura iria contribuir para a sociedade brasileira, vivendo os horrores que estavam acontecendo no Brasil? Nesse impasse, fiquei sabendo de um edital aberto no mestrado de Antropologia na PUC/SP.  Havia cursado uma disciplina optativa, na graduação, com o professor Roque de Barros Laraia, na USP, sobre as religiões indígenas no Brasil, com destaque para os índios Apapucúva-Guaranis, da cidade de São Paulo. Me inscrevi para seleção na PUC e passei.

A ditadura começava a ficar um pouquinho mais branda, as manifestações estudantis começavam aos poucos a se organizar nas universidades. As associações científicas, especialmente a SBPC e outras associações de classe menores também estavam ampliando os debates em todos os campos científicos e os sindicatos operários também voltaram a liderar greves e assembleias da categoria. Aconteceram as grandes greves operárias do ABC Paulista, Osasco/SP e Contagem/MG, culminando com a Assembleia Operária do ABC Paulista em 13 de março de 1979 que revelou o Lula como a grande liderança operária e política de todos os tempos no Brasil.

E a experiência de viver no interior de São Paulo, o que ela trouxe?

De 1973 a 1976 residi no interior, onde havia conseguido dar aulas no Colégio Estadual de Pariquera-Açú, Vale do Ribeira. Essa mudança para o interior foi exatamente na época da epidemia de meningite e as pessoas mais atingidas eram as do meio rural. Essa cidade tinha, e continua tendo, um Hospital Regional criado pelo então governador Ademar de Barros, para quem, apesar de já ter morrido, era normal encontrar, na apuração das eleições, um votinho aqui outro acolá.

O colégio no qual eu trabalhava era dirigido por uma ex-professora dos Colégios Vocacionais de São Paulo que já tinham sido fechados pelos governadores do Estado com aval dos marechais de Brasília. Juntamos uns três professores mais progressistas, fizemos um convênio com o hospital local e criamos o Programa de Educação e Saúde cuja supervisão ficou sob a responsabilidade de dois médicos recém-formados do Departamento de Medicina social do Hospital das Clinicas de São Paulo.

Nos reuníamos periodicamente na Delegacia de Ensino, da cidade de Registro, que sempre convidava algum especialista para conferências. Numa dessas, reencontrei o dr. Antônio Sergio da Silva Arouca, presidente da Fundação Oswaldo Cruz do Rio de Janeiro. Dr. Arouca e eu nos conhecêramos no movimento estudantil dos anos 60, ambos membros da União Estadual dos Estudantes de São Paulo. Ele pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) e eu pela Dissidência, atuando no movimento estudantil de São Paulo, cuja liderança principal era o Zé Dirceu, e a liderança máxima da organização, já na clandestinidade desde o golpe civil-militar de 1964, era o Carlos Marighela.

Uma das minhas atividades na UEE era projetar filmes de 16 milímetros antes de começar as assembleias que tinham sempre como participante ativo o nosso líder Zé Dirceu.

O Arouca me perguntou se eu não tinha interesse em morar no Rio de Janeiro. Ele minimizou o problema de emprego, dizendo que precisava de uma pessoa com o meu perfil para atuar num programa que havia criado na Fiocruz: o “Programa de Estudos Sócio Econômicos em Saúde - PESES”. Nele, me encaixou, para trabalhar com o grupo de estudos sobre educação e saúde no meio rural. Isso era por volta de 1976 e o programa durou até 1978, quando houve uma segunda grande crise na política nacional de saúde. Essa crise me jogou mais uma vez no “olho da rua” sem ter, às vezes, dinheiro para comer um sanduíche num botequim qualquer. Saía diariamente caminhando pela cidade do Rio de Janeiro em busca de algo que pudesse acontecer comigo.

E a batalha pelo mestrado, estando desempregado?

 No Rio, ia quase que diariamente à Biblioteca Nacional ler jornais e ver se nos anúncios aparecia alguma coisa pra fazer. Num daqueles dias que passava lendo na Biblioteca Nacional, reencontrei um velho amigo gaúcho com quem dividira a casa no Morro do Querosene, em São Paulo, depois que fomos expulsos do CRUSP. Contei-lhe resumidamente a minha situação e ele me disse: “Alagoinhas (era assim que muitos me chamavam em São Paulo), vou te contar uma coisa e acho que você vai gostar. Virei professor da FGV e estou lecionando num mestrado de Desenvolvimento Agrícola no Horto Florestal.”

Entusiasmado, me contou que era um baita convênio entre a FGV, a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e o Horto Florestal, financiado pelo Instituto Ibero Americano de Ciências Agrárias (IICA), da Costa Rica. Esse mestrado, explicava ele, “tem bolsa para os quatro primeiros colocados”.

Graças a um amigo tive aulas de inglês e estatística, matérias da prova. Nos três meses, entre a inscrição e a realização das provas, fiquei enclausurado, tomando dinheiro emprestado a um e a outro, inclusive a minha namorada da época. Valeu, pois fui aprovado. Durante o curso tivemos muitos contatos com o CNPq que ainda tinha uma grande parte no Rio de Janeiro e estava elaborando o II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND). Numa daquelas intermináveis reuniões uma senhora informou que o CNPq estava contratando consultores em todas as áreas. Terminei me inscrevendo para ser consultor na área da agricultura. Marcamos a entrevista e lá fui cheio de medo, mas com um pouco de confiança.

Fui entrevistado pelo Superintendente de Desenvolvimento Social em menos de 15 minutos. Voltei pra casa bastante triste pensando que não iria ser aceito. Passei no bar, tomei uma cerveja e rumei a pé para Santa Teresa, ansioso para saber a resposta. Uma semana depois recebi uma carta solicitando meu comparecimento ao CNPq para assinar contrato como Consultor. 

Pouco depois, um Superintendente de Desenvolvimento Social do Conselho me convocou para uma reunião, na qual perguntou se eu gostaria de ter um contrato definitivo, na condição de ir trabalhar em Brasília. Respondi na hora que aceitava. A entrada no CNPq e a mudança para Brasília facilitaram muito a minha vida, pois além de liquidar a dívida acumulada, dei um grande avanço na minha dissertação adaptando os seus objetivos aos resultados do meu trabalho. Dessa forma, três anos depois marquei a defesa e foi aprovada. Com o diploma de Mestre nas mãos, apresentei-me à seção de Recursos Humanos e recebi o reajuste devido no salário.

E não seria suficiente, ser mestre e funcionário do CNPq?

Não, o meu sonho não estava completo. Queria fazer o Doutorado na área de Desenvolvimento Agrícola, a qual, por ser uma área ainda em formação, só tinha um programa específico nos cursos de Ciências Sociais da USP e da Unicamp. Conversei com o professor Milton Santos, da USP, apresentei-lhe um projeto contemplando, em parte, o tema de Geografia Agrária e Tecnologia, e lhe perguntei se poderia me orientar, o que aceitou de imediato.

Mas nessa época, fui transferido de Brasília para trabalhar como coordenador do Programa de Ciências Humanas do CNPq para o Nordeste, alocado na recém-criada Agência Regional em Recife.

Quando recebi a carta da USP confirmando que eu havia sido aceito pelo professor Milton Santos, fui pessoalmente a Brasília conversar com o então Presidente do CNPq, que encaminhou a minha solicitação para o setor de Recursos Humanos. Mais ou menos dois meses depois de ter começado as atividades do curso, recebi o comunicado do CNPq liberando a minha ida para São Paulo nos dias de aulas, com a passagem de ida e volta no trecho Recife-São Paulo-Recife por minha conta. O salário que estava recebendo não permitiria que fizesse esse “sacrifício”. Desisti e escrevi ao Professor Milton pedindo-lhe desculpas e liberando também a vaga.

Fui para o Recife, onde vivi quatro anos, e depois voltei para o Rio de Janeiro para compor o Grupo de Estudos sobre a História da Ciência no Brasil, que deveria aperfeiçoar o projeto de um astrônomo (que prefiro não nomear) do Observatório Nacional de São Cristóvão/RJ, sobre a criação do Museu de Astronomia e Ciências Afins. Este senhor surrupiou-me uma antologia de textos de jornais e revistas — sobre a passagem do cometa Halles pelo Brasil no início do século XX – publicando-a no Jornal do Brasil como sendo de sua autoria.  Nas linhas de trabalho desse Grupo de Estudos havia uma onde eu me enquadrava que era estudar as influências da passagem do mencionado cometa na agricultura brasileira, a partir da literatura de viajantes no Brasil nos séculos XVI e XVII. Não conclui nenhum estudo sobre esse tema enquanto estava nesse grupo de estudos, mas desenvolvi-o na minha tese de doutorado.

Ao deixar o Núcleo de Estudos em História da Ciência fui trabalhar na Agencia Regional do CNPq, no Rio de Janeiro, onde desenvolvi um projeto que foi a menina dos meus olhos por muito anos: a criação do Centro de Formação em Artesanato, implantado na cidade do Santa Maria Madalena, região serrana do estado do Rio de Janeiro. Me ocupei desse projeto por mais de 15 anos, até quando ele ficou totalmente autossustentável.

A idade me preocupava, já estava na casa dos 50 anos e o sonho do Doutorado ainda irrealizado.

Em 1994, o Centro de Pós-Graduação em Desenvolvimento Agrário (CPDA) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro lançou edital para sua primeira turma de doutorado. Me inscrevi, fiz a prova e fui classificado em primeiro lugar dos 10 inscritos. Defendi uma tese que é sobre a cultura rural e cronistas que passaram e deixaram suas impressões sobre a agricultura o ambiente natural do Brasil nos séculos XVI e XVII. Com a tese defendida, dei entrada num, no CNPq, de um projeto de pesquisa, e lá fiquei como Pesquisador 1B até 2010, quando me aposentei.

Você trabalhou como faxineiro e como metalúrgico em uma empresa em São Paulo. A partir da sua experiência, tendo em mente seu envolvimento com os movimentos da esquerda, bem como a trajetória de Lula, você acredita que alguma forte liderança possa surgir na periferia, fora da classe média e da elite?

Na minha modesta opinião acho que uma liderança carismática semelhante ao Lula pode surgir, mas não a curtíssimo prazo. O Brasil é um país carente de grandes lideranças, tanto de direita, como de esquerda. No lado da direita, as lideranças se comportavam, e continuam se comportando, na linha do coronelismo patriarcal dos séculos anteriores, só que os de hoje se apresentam com novas roupagens e um certo verniz modernoso. Mesmo assim, a última liderança carismática de direita foi o ACM, o velho, porque o ventrículo que anda no poder fazendo barbaridades construiu uma imagem falsa de líder popular de direita.

Getúlio Vargas foi uma grande liderança de direita. Seu discurso, típico do estilo populista como foi o Peron na Argentina, entusiasmava o povo. Getúlio se autodenominou “pai dos pobres”, mas pessoas mais críticas e/ou radicais chamavam-no também de “mãe dos ricos”. Perón, na minha opinião tinha esse mesmo comportamento do Getúlio, de ser o “pai dos pobres e a mãe dos ricos”, só que Perón está na memória viva dos livros e do povo, enquanto que Getúlio está apenas na memória dos livros.

Pela esquerda, Luís Carlos Prestes, fez alguns ensaios de liderança popular, e depois Jango, que com a colaboração do próprio Prestes e de intelectuais e jornalistas de esquerda, mobilizou aquela multidão na Central do Brasil no fatídico discurso de 13/03/1964. Leonel Brizola também tentou esboçar uma liderança nacional – defendendo a necessidade de fazer a mudança social - mas atualmente é lembrado por meia dúzia de gatos pingados. A mesma coisa são as outras lideranças, incluindo Francisco Julião com as suas Ligas Camponesas e Miguel Arrais, que atuaram como lideranças locais.

Nos dias atuais, surgiram algumas boas lideranças populares como é o caso da liderança do MST, de Guilherme Boulos, Jandira Feghali, Haddad, Flavio Dino, Sonia Guajajara e mais algumas outras, mas me parecem serem ainda limitadas a certos redutos de seguidores.

Uma questão interessante é a formação de partidos no Brasil. Enquanto a direita, e também algumas agremiações de esquerda, criam seus partidos na base do “compadrio”, Lula criou o seu partido com uma forte base popular. Intelectuais participaram na fundação do PT? Claro que sim, mas foram aqueles que se identificavam organicamente com os ideais da classe trabalhadora. Não sou tão otimista quanto a novas lideranças preparadas para assumirem o comando político dessa nova e complexa sociedade de classes.

Você chegou de pau-de-arara a Sã Paulo, namorou moças analfabetas e, aos poucos, rompeu barreiras, vencendo o que você chama de cinco “tempos de esperar” (o quinto sendo o doutoramento). Como é ser pobre e excluído?

É pura verdade! Quando eu trabalhava como porteiro e faxineiro namorei somente moças pobres: na maioria empregadas domésticas e faxineiras. Nem balconistas de lojas de material elétrico da rua Santa Ifigênia eu namorava, porque elas pertenciam a outros estratos sociais mais altos do que o meu...

No prédio onde eu trabalhava, que ficava na chamada “Boca do Lixo” e hoje Cracolândia, a totalidade dos moradores era de origem de classe média baixa: mascates, coveiros de cemitério, pedreiros, policiais, caixeiros de lojas, alfaiates, modistas, pianistas de cinema pornô, Office boys, empregados da estação Sorocabana, camelôs, porteiros de hotel, prostitutas, cantoras de cabarés, entre outros. Desses grupos algumas famílias tinham filhas adolescentes. Muitas delas passavam pela portaria e nem sequer me cumprimentavam, a não ser se o portão estivesse fechado - elas mandavam eu abrir e nem sequer diziam um muito obrigado. Eu me sentia ofendido? Claro que não porque acreditava ser inferior a elas, afinal eram moradoras e eu um serviçal...

O zelador, um sertanejo que nem sabia assinar o nome, me alertava que era proibido ficar conversando com uma dessas garotas para evitar reclamação das famílias, principalmente das que trabalhavam na polícia. Com os filhos rapazes poderia conversar, mas com as moças não. Há algum preconceito de classe nesse tipo de comportamento? Quando eu estava trabalhando nesse edifício achava que não. Depois que sai de lá, fui trabalhar num outro tipo de ambiente e comecei a perceber que havia também o mesmo tipo de comportamento dos moradores do prédio da Santa Ifigênia em relação à minha origem baiana.

Normalmente, para as pessoas de todos os lugares onde trabalhei em São Paulo, eu não tinha nome, porque me chamavam de baiano, baixinho, cabeça chata. Mas isso não era só comigo, era com todos os sertanejos nordestinos que vinham trabalhar por lá. Tudo que acontecesse de “errado” e que feria a ordem e os hábitos tradicionais dos paulistanos era coisa de baiano. O mesmo acontece ainda hoje no Rio de Janeiro e os cariocas alegam que são praticadas por paraibanos ou cearenses.

A minha situação mudou da “água pro vinho” quando entrei na Universidade de São Paulo, havia estudantes de todo o Brasil e do exterior, tinham outro comportamento. Hoje estou velho, aposentado e vivendo por algum tempo isolado e em contato com pouquíssimas pessoas. Vejo que mesmo aqui dentro dessa pequena comunidade, onde me criei, existe um relativo grau de exclusão que se revela, inclusive, pelo tipo de habitação. Quem mora na rua principal são as pessoas que têm um poder aquisitivo maior, e quem mora na Rua da Boiada, antiga Rua de Baixo são pessoas que nem sequer recebem Bolsa Família e vivem de bicos.

Quando você decidiu instalar uma biblioteca em São José do Paiaiá – que atualmente consta com 130.000 volumes, a maior biblioteca rural do mundo – você acha que foi movido pelo desejo de conscientizar o campo, como se diria há algumas décadas, ou pelo idealismo do menino do interior que teve sua grande epifania em relação a mudar de vida a partir das primeiras leituras?

Desde criança eu deseja ter livros. A minha primeira compra de livro foi “O mestre dos mestres”, um manual de cartas dos mais diferentes assuntos, de Saverio Fitipaldi, Comprei-o quando fui, pré-adolescente, conhecer Salvador e pagar uma promessa ao Nosso Senhor do Bonfim que minha tia havia feito para eu ficar livre da miopia. 

Em São Paulo, criei o hábito de, quando tinha uma graninha sobrando, ir à livraria e comprar um livrinho para ler. Fiz a minha primeira inscrição num clube de livro nessa ocasião, o “Club do Livro” da Editora Saraiva. Tinha vontade de ler tudo que aparecia na minha frente: de bula de remédio à Bíblia de Jerusalém.

Nos últimos 40 anos, quatro morei em Olinda e 36 no Rio de Janeiro. Foi nesse período que o meu acervo cresceu, o que atribuo em parte por ter deixado de emprestar livros a amigos... Não tendo mais espaços na minha casa, aluguei duas quitinetes e enchi de livros. Como a despesa aumentava e o meu salário de funcionário público federal estava estacionado, tinha que dar um jeito naquela situação. Fui à coordenação da biblioteca central da UFRJ perguntar se aceitava doações de livros, mas ela disse não. Da mesma forma fiz com a Biblioteca Nacional e a Biblioteca Estadual Celso Kely, que é a biblioteca modelo do estado do Rio de Janeiro, e as respostas foram as mesmas.

O primeiro objetivo em criar a biblioteca aqui no sertão foi salvaguardar o rico acervo reunido em 50 anos. Conversei com o meu sobrinho Arivaldo, que vive em Paiaiá e cursava o primeiro ano do ensino médio, e perguntei se topava tomar conta de uma biblioteca comunitária, ele disse que sim. Saímos atrás de uma casa para alugar. Alugamos uma garagem e convocamos uma reunião na Escola local, para anunciar a novidade, e pedir apoio da comunidade para ajudar na gestão. As reações dos presentes foram bem diferentes: de dizer que no povoado não precisavam de biblioteca porque as pessoas daqui não gostam de ler, à de propor uma fábrica para gerar emprego porque “as pessoas antes de ler precisam comer”. Houve até uma proposta, que em vez abrir uma biblioteca, se abrisse uma igreja evangélica.

Nada disso foi aprovado e continuamos discutindo a criação da biblioteca. Colocamos em discussão a escolha de vários nomes sugeridos. Teve alguém que sugeriu os nomes do dr. Gilberto Marinho, da Globo, ACM (o velho) e de outras pessoas de renome aqui do município: ex-prefeitos, padres vivos ou falecidos e até o nome de um Pai de Santo, o sr. Chico Fulô, falecido há muitos anos. No final, o nome que venceu foi o de Maria das Neves Prado. Maria das Neves Prado foi uma tia minha que só tinha o primeiro ano primário. Foi pioneira em alfabetização de adultos aqui na comunidade numa época em que ninguém nunca havia escutado falar no nome de Paulo Freire.

De volta ao Rio, enviei o primeiro carregamento, de 12 mil volumes, e que chegou aqui, para nosso azar, no dia que o Jornal Nacional da Globo anunciou o roubo de livros na biblioteca histórica do Itamarati, no Rio de Janeiro. Uma senhora que era zeladora da Igreja e não gostava muito de ler nada que não fosse a Bíblia, se viu incomodada com aquela situação: o noticiário do JN da Globo sobre roubo de livros e ao lado da sua casa um caminhão carregado com 12 mil volumes para deixar aqui no Paiaiá....

Outros carregamentos de livros foram enviados, alguns eu pagando o frete, mas contei com o apoio de algumas pessoas físicas e jurídicas, entre elas o professor Antônio Cândido, Walnice Nogueira Galvão, que se declarou madrinha da Biblioteca, e a ex-colega de mestrado Beth Mindlin, que bancara as despesas de boas doações feitas à biblioteca. A Viação Itapemirim auxiliou, o Ministério de Desenvolvimento Agrário, e por último a Empresa TNT Mercúrios de São Paulo. A rede Nacional de Bibliotecas Públicas também contribuiu, com o aval do ex-ministro da Cultura Juca Ferreira. Revistinhas da Monica foram penduradas nos pés de árvores para a criançada do Paiaiá pegar e delas doamos para mais de 50 escolas da rede pública do município de Nova Soure e vizinhos.

Sim, além da minha epifania com a leitura, em si, como fundamental para a formação, também concebo a função de uma biblioteca -– injetar a leitura, de uma forma crítica e democrática, no mundo dos leitores, em especial a partir da infância e adolescência. É possível mudar a qualidade de vida de cada cidadão e cidadã através da prática da leitura, como colocam Paulo Freire, Lev Vygotsky, Michele Petit e vários outros autores.

Tanto seu mestrado como seu doutorado em História, ambos pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, tratam do Desenvolvimento Agrícola. Como é a situação no campo aí, no interior da Bahia?

O agronegócio é, talvez, o maior problema para se analisar hoje em dia, não somente por causa dos seus efeitos, mas sobretudo por causa das personagens que estão envolvidas. Há 41 anos, quando eu fiz o mestrado em Desenvolvimento Agrário enfocando a relação entre educação rural e progresso técnico no vale do São Francisco, o tema estava sendo bastante discutido.

Estávamos no fim do regime militar e inúmeros eventos universitários e também governamentais começavam realizar debates sobre a reforma agrária, porém ainda desatrelados da questão da preservação do meio ambiente. Essa só começou a se aprofundar mais exatamente a partir 1990, quando o Ibase, então sob a liderança do Herbet de Souza, o Betinho, liderou o Movimento Terra e Democracia, que se realizou no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro, em 21/03/1990, reunindo um público de cerca de 200 mil pessoas. O evento foi encerrado à noite, com um lindo show de MPB, sob a coordenação de Milton Nascimento.

Para a nossa realidade agrícola, aqui do município de Nova Soure e municípios circundantes a produção agrícola é muito importante. O que há novo em relação à tecnologia usada há 50 anos? O uso do trator, a aplicação de agrotóxicos e de sementes geneticamente modificadas na agricultura, a derrubada das arvores nativas substituindo-as por novas espécies invasoras e normalmente importadas, com o consequente entupimento e poluição das nascentes dos riachos e rios.

Hoje em dia, é impossível encontrar um produto que não seja produzido sem agrotóxico, e o mais grave ainda são os transgênicos, que já estão sendo produzidos no país inteiro, inclusive aqui na região. Está havendo um desmatamento desenfreado por aqui. Há situações inacreditáveis e, como exemplo, vou citar apenas uma. Temos um médico que herdou uma fazendinha do seu pai que era um encanto, cheia de coqueiros, mangueiras, goiabeiras, um verdadeiro pomar. Nessa propriedade havia duas nascentes que jorravam águas para um riacho que corria pelo seu interior e por onde, quase todos os anos, passavam enchentes.

A família desse senhor não era rica, mas se esforçou colocando-o para estudar em bons colégios em Salvador. Ele faz o vestibular, entra em medicina, se filia ao Partido Verde e começa a se candidatar a prefeito de Nova Soure. Nos seus discursos falava tantas asneiras que fazia lembrar o prefeito da novela o Bem Amado da TV Globo. Um dos absurdos que praticou foi mandar tapar as nascentes da sua propriedade, o que terminou por secar o riacho e, não satisfeito, comprou motor-serra e mandou derrubar as mangueiras e tamarineiros da sua propriedade “para ninguém entrar para pegar as frutas”.

Como é estar voluntariamente isolado na sua região, em São José do Paiaiá, sem grandes interlocuções?

O isolamento é uma situação angustiante para qualquer pessoa. Passei uma única vez por um isolamento de duas semanas, em circunstância totalmente oposta a que estou vivendo agora. Foi em 1972, no auge da ditadura, quando fui tirado de uma sala de aula no prédio de História com dois elementos me empurrando pelas rampas do prédio com canos de metralhadoras apontando para a minha cabeça.

Era a polícia assassina da Operação Bandeirante me levando para o quartel do Exército em Ibirapuera (um dos muitos locais de torturas) onde passei quase duas semanas solitário, vivendo numa cela de mais ou menos três metros quadrados, um colchão surrado jogado no chão, um buraco no chão para servir de latrina, com uma torneira pingando o tempo todo e uma luz elétrica mais fraca do que a de um candeeiro.

O mau cheiro de fezes era insuportável, aquelas grades de ferro pesadas me arrepiavam. A comida dava nojo e quando o carcereiro entregava ainda ironizava dizendo que aquilo era um prato especial feito somente para comunista. Isto sem contar a tortura física e psicológica, no meu caso foi mais psicológica do que física, mas também levei alguns telefones nos ouvidos que comprometeram minha audição do lado esquerdo até hoje.

Uma vantagem do meu isolamento aqui é estar no povoado onde nasci, que hoje tem cerca de 600 habitantes. O tempo está chuvoso, verde e bonito, e jamais dá para comparar com os dias que passei na OBAN, ou inferno.

Tem uma bela biblioteca como você sabe. Nas manhãs, cedinho, faço uma caminhadinha numa estrada pelo meio do mato na qual não transita ninguém. De seres vivos somente animais e vegetais, por que nem peixes existem mais nos riachos, os “novos civilizados” estão acabando com os olhos d’água das suas propriedades e derrubando as árvores.

Tanto tempo para pensar, fluem ideias. Algumas são factíveis de estudos e reflexões, como por exemplo autores afirmando que quando acabar essa pandemia o comportamento da humanidade vai mudar totalmente, ao ponto de alguém dizer, sem nenhuma base científica, que o capitalismo vai começar a se desmoronar. Tenho minhas dúvidas.

Criado em 2020-05-01 03:22:35

O Quarup em Yawalapiti

Angélica Torres (*) –

Descanso na oca do Cacique.
Paira por toda a aldeia o peso do silêncio.
O astro que Aritana falou de manhã
à imprensa desponta no céu :
estrela primeira de agosto.
Mandala o traçado da maloca.
Harmonização num campo de força.
O Quarup nascendo em Yawalapiti.

Os lamentos começam lentos
no velório sagrado.
São seis toras de árvores com fitas
vermelha preta e branca tramadas
e seis penas no alto dos totens.
Nus os corpos pintados para o culto.
Curumins conversam sentados
no chão de poeira fina e rala
enquanto crescem lamúrias e gemidos
adultos em mansa catarse aos mortos.
No choro ecoam os sons da terra.
No fogo da noite dos estrelos
queimam-se os espíritos que a brisa
sopra ao céu do Mato Grosso.

Índio eu respeito a sua cultura.
Impossível não ser arrastado
pelas lágrimas do Quarup.

Encontrei o Brasil
mas as palavras ocultam
o que se sente e viu.
O cão indígena com os pequenos
no altar dos lamentos atentos ao
misto de velório festa magia sagração.
Um longo e balsâmico cigarro
de erva enrolada em palma
passando de mão em mãos.
Há paz permissão liberdade
que o branco sabe que existem
pois conhece o cerrado a savana
a mata misteriosa em dilatada solidão.

E os detalhes se perdem no imenso
de areia da aldeia. Já não se pensa
em quantos povos vão chegar
se há redes para todos aninhar.
O choro aos antepassados não para
e não se quer abandoná-los.
Ímpios caraíbas no aconchego familiar
do Quarup sob a estrela de agosto em Yawalapiti e o preço da posse
lentes e luzes curiosas
penetrando o rito estuprando o mito.
O sangue da intimidade desvirginada
desde as lutas pela terra às dores
de lutos e de partos.

Em que ouvidos políticos ecoarão as vozes
dos líderes do Xingu e do pranto de seus povos
golpeados?

(Agosto 1985. ATLima)
____________
(*) Tive o privilégio de entrevistar Aritana e de dormir em sua casa quando fui cobrir o Quarup no Xingu, há 35 anos, como repórter da Voz do Brasil setorizada no extinto Ministério da Cultura. Uma perda enorme. E a Covid deixando aqui tantos vasos ruins... O tempo escorrendo entre os dedos.

Criado em 2020-08-06 19:44:49

Privatização da Cedae não garante serviço de qualidade ao Rio

Romário Schettino –

O leilão de concessões de serviços da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae), realizado hoje (30/4), em São Paulo, rendeu ao governo arrecadação de R$ 22,69 bilhões, com ágio de 114% em relação aos valores mínimos previstos no edital. No entanto, esse aparente sucesso não garante melhorias na prestação universal dos serviços da companhia. E os riscos são grandes.

Os protestos do movimento social, sindicatos e deputados estaduais, que tentaram impedir a realização do leilão, não foram suficientes para convencer o Tribunal de Justiça do Rio, que considerou inconstitucional o Decreto-Lei aprovado ontem (29/4) que suspendia a venda da Cedae.

Para Ana Lúcia Brito, geógrafa e professora de pós-graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a privatização da Cedae, pois é disso que se trata, “não é aceitável”.

Em primeiro lugar, Ana Lúcia argumenta que as empresas vencedoras buscarão recursos no BNDES, que “poderia financiar a empresa estatal”. Segundo, “o governo vende a ideia de que a participação do setor privado vai gerar competitividade, mas isso não se justifica, pois esse setor é naturalmente monopolista, e a empresa vencedora ficará explorando os serviços por 35 anos”.

Além disso, é grave o risco de demissão de, pelo menos, quatro mil funcionários da Cedae, conforme denunciam os sindicatos.

Ana Lúcia lembra ainda do Programa Mais Água para Baixada, que vinha sendo tocado pela Cedae com financiamento da Caixa. O primeiro sub-crédito com obras já em curso (aproximadamente R$ 1,2 bilhão), envolve o assentamento de 55 km de tubulação para adução (ampliação da Nova Adutora da Baixada); construção/reforma de 17 reservatórios (10 a construir e 7 a reformar) e assentamento de troncos distribuidores e rede. O segundo sub-crédito, no valor de aproximadamente R$ 1,5 bilhão, envolve a ampliação do sistema produtor do Guandu com a Duplicação da ETA Guandu. A Nova ETA, com capacidade para produzir mais 12 mil l/s, vai atender a Região Metropolitana do Rio e será construída em Nova Iguaçu. Um terceiro sub-crédito, no valor restante, aproximadamente R$ 630 milhões, para o qual ainda não há previsão de início das obras, envolve um conjunto de obras para municípios da Baixada Fluminense. A pergunta que se faz é: quem vai se beneficiar de todos esses investimentos?

Outra questão é com relação ao funcionamento da Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico do Estado do Rio de Janeiro (Agenersa). Nos últimos dez anos, a Agenersa não tem concurso público e não possui técnicos suficientes para regular as atividades de todas essas empresas concessionárias.

Quem venceu o leilão

Foram disponibilizados quatro blocos de concessões. Para o bloco 3, formado pela Zona Oeste e seis municípios, não houve interessados.

Os blocos 1, 2 e 4 foram arrematados da seguinte forma:

Bloco 1 (Zona Sul e mais 18 municípios) – Consórcio Aegea (que tem o fundo soberano de Cingapura e a Itaúsa entre seus acionistas)/Ativa Investimentos por R$ 8,2 bilhões – ágio de 103,13%.

Bloco 2 (Barra da Tijuca e Jacarepaguá, na Zona Oeste da capital, e mais dois municípios) – Consórcio Iguá/BTG Pactual por R$ 7,2 bilhões - ágio de 129,68%

Bloco 4 (Região Centro e Norte do Rio e mais oito cidades com alta densidade demográfica, como Nova Iguaçu, Belford Roxo, Duque de Caxias e Nilópolis) – Consórcio Aegea/Ativa pelo valor de R$ 7,2 bilhões - ágio de 187,75.

Caberá à Assembleia Legislativa do Rio e ao movimento social e sindical fluminense acompanhar e fiscalizar a execução do fornecimento de água e o prometido serviço de saneamento básico. É preciso, antes de tudo, garantir preços adequados à população, especialmente a de baixa renda. Será?

Criado em 2021-05-01 00:28:09

Greta Thunberg, Nobel da Paz!

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Serão anunciados esta semana os ganhadores do Prêmio Nobel. Se o comitê do Nobel da Paz tiver um pingo de juízo, a ganhadora da próxima sexta, 8/10, será a ativista ambiental sueca Greta Thunberg.

A eleição da “pirralha” (no dizer do Bozo), líder do movimento Sextas para o Futuro, seria um forte recado e um grande estímulo para a tomada de decisões contra o aquecimento global pelos participantes da Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (COP26), que se reunirá entre 31 de outubro e 12 de novembro em Glasgow, na Escócia.

Ou os líderes mundiais deixam de blablablá, como diz a Greta, ou o planeta tal como o conhecemos acabará soterrado pelas cinzas do Pantanal do Mato Grosso e da Amazônia e afogado pela alta do nível dos oceanos.

Medicina – O primeiro Prêmio Nobel, outorgado a profissionais da área de fisiologia ou medicina, será anunciado nesta segunda, 4/10. Despontam como principais candidatos, segundo a revista Inside Science do Instituto Americano de Física:

1) A pesquisadora Katalin Karikó, da BioNTech e da Universidade da Pensilvânia, e o pesquisador Drew Weissman, da Universidade da Pensilvânia, pioneiros nas pesquisas que levaram ao desenvolvimento das vacinas de RNA mensageiro contra a Covid-19 pelos laboratórios da BioNTech e da Moderna. Este ano Karikó e Weissman já ganharam o prêmio Lasker-DeBakey Clinical Medical Research, o chamado “Nobel americano”;

2) A cientista Mary-Clarie King, da Universidade de Washington, que estudou a hereditariedade do câncer de mama;

3) Os cientistas Max D. Cooper, da Escola de Medicina da Universidade Emory, e Jacques Miller, do Instituto Walter e Eliza Hall, por seus estudos sobre a dupla organização do sistema imunológico, composto por dois tipos de linfócitos, as células B produtoras de anticorpos, e as células T, mediadoras das respostas imunes, descoberta que abriu caminho para quase todos os tratamentos de câncer das últimas décadas;

4) O doutor Anthony Fauci, dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, por sua liderança no combate à Covid-19 no país e por seu combate ao negacionismo do presidente Donald Trump.

Física – Na terça, 5/10, é a vez do prêmio Nobel de Física. Os principais candidatos, segundo a Inside Science:

1) O trio de pesquisadores europeus Alain Aspect (Institut d'Optique), John Clauser (J. F. Clauser and Associates) e Anton Zeilinger (Universidade de Viena), que trabalham com informação quântica com base no emaranhamento das partículas. Também concorrem nessa área o matemático Peter Shor, com a demonstração de como um computador quântico pode quebrar um sistema de criptografia padrão, e Gilles Brassard e Charles Bennett, especialistas em criptografia quântica.

2) John Pendry, do Imperial College de Londres, e David Smith, da Universidade de Duke, por seus trabalhos com metamateriais, isto é, materiais cujos átomos são rearranjados para adquirir novas propriedades, como a invisibilidade, a miniaturização e a captação mais eficiente de energia solar etc.

3) A cientista Lene Hau, da Universidade de Harvard, cuja equipe conseguiu desacelerar a velocidade da luz para cerca de 64 quilômetros até paralisá-la. O processo, envolvendo gases de sódio superfrios e um par de lasers, com capacidade para transferir informações da luz para a matéria e vice-versa, também pode ser útil em tecnologias de informação quântica.

Química – Os ganhadores do prêmio Nobel de Química serão anunciados na quarta, 6/10. Eis os principais candidatos apontados pela Inside Science:

1) A dupla Shankar Balasubramanian e David Klenerman, da Universidade de Cambridge, por desenvolver o sequenciamento ultrarrápido do DNA.

2) A cientista Carolyn Bertozzi, da Universidade de Stanford, pela pesquisa com reações da química bioortogonal, através das quais são detectadas células cancerosas e tumores que se camuflam contra o sistema imunológico sob camadas de moléculas de um tipo de açúcar, o ácido siálico.

3) O cientista Barry Halliwell, da Universidade Nacional de Cingapura, que estuda os danos provocados por radicais livres (moléculas cuja última camada contém um número ímpar de elétrons, muito instáveis e reativas) e as ligações dos radicais livres e antioxidantes com doenças cerebrais, incluindo o Alzheimer e a demência.

Literatura – Na quinta-feira, 7 de outubro, saberemos o ganhador ou ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura. Continuam nas listas das bolsas de apostas figurinhas carimbadas como o albanês Ismaël Kadaré, o japonês Haruki Murakami, o queniano Ngugi wa Thiong’o, a chinesa Can Xue, a russa Ludmila Ulitskaya, o húngaro Peter Nadas, o francês Michel Houellebecq e o sul-coreano Ko Un. Há, porém, novos candidatos, como o indiano Vikram Seth e o moçambicano Mia Couto.

A grande expectativa é que dessa vez a Academia Sueca escolha alguém de fora do eixo Europa-América do Norte, provavelmente uma escritora de pegada anticolonial. Daí surgem as estrelas de Jamaica Kincaid, de Antigua e Barbuda; Maryse Condé, de Guadalupe; e Chimamanda Ngozi Adichie, da Nigéria.

Criado em 2021-10-03 20:20:32

Privatização da EBC. Vai ser rifada, quem vai querer?

Luiz Martins da Silva –

A privatização da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), veja você! Uma empresa criada para ser uma instituição pública de comunicação e para vir a ser um ente público, tal como é previsto no Art. 223 da Constituição, vai ser privatizada, como anunciou Bolsonaro.

A EBC era para ser uma empresa de comunicação e jornalismo a serviço da sociedade e distante dos cordéis dos governos e das manipulações diretas do ocupante transitório do Palácio do Planalto.

Temer já havia desfigurado o projeto, que evoluiu da Radiobrás para uma EBC que, ao ser criada, não chegou a ser uma BBC brasileira, porque nunca houve entre nossos governantes uma sensibilidade para tal, para entender, como os ingleses entenderam.

Os ingleses entenderam que a sociedade inglesa precisava ter uma narrativa dos fatos independente de quem estivesse no comando da política, se conservadores ou trabalhistas. E relatar, como foi relatado, com isenção, a Guerra das Malvinas e as invasões do Iraque. A BBC é uma fundação privada de direito público, mantida com imposto, verbas específicas, doações do público e venda de produção. Alguém que já tenha visto um documentário da BBC sabe da qualidade.

Ao privatizar a EBC, Bolsonaro diz que o melhor lugar de uma emissora pública é com a iniciativa privada. No Brasil? Ao invés de reforçar a recomendação constitucional quanto à prioridade informativa, educativa e cultural da radiodifusão privada, estatal e pública (todas, rádio e TV, concessões públicas).

Bolsonaro vai acabar com um restinho de esperança de que a sociedade brasileira tenha uma mídia eletrônica capaz de equilibrar conteúdos na trilogia que a BBC tornou modelar: Informação, Educação e Diversão. Triste, muito triste, que um presidente da República Federativa brasileira, por decisão pessoal, e da noite para o dia, talvez por não ter nenhuma cultura cívica a respeito da relação entre Comunicação e Democracia, resolve privatizar a EBC. E sabem por quê?

Lamentavelmente, criou-se – e muito com o engodo vulgarizado pela mídia comercial –, a lenda de que a EBC era "a TV do PT" e, depois, "a TV da Dilma". Temer, por exemplo, descaracterizou a EBC, extinguindo um órgão democrático e plural, o Conselho Curador. Gedel Vieira quis acabar com a EBC, mas antes disso o escândalo do apartamento recheado com 52 milhões de dólares acabou com ele.

Promessa de campanha, ou melhor, implicância, Bolsonaro adiantou, ainda nas conversas do condomínio na Barra da Tijuca que iria acabar (disse um palavrão) com a EBC. Pensando de outra forma, irá privatizar um embrião do que poderia vir a ser num futuro algo nem estatal, nem governamental, nem comercial, mas uma empresa brasileira de comunicação, da sociedade e a serviço da sociedade.

Pergunta? Será a EBC que, uma vez privatizada irá produzir a Voz do Brasil? Que irá cobrir todas as notícias do Estado e do Governo Federal e irá acompanhá-lo em todas as viagens? E que versão dos fatos do Estado e por meio de um serviço público será transmitida ao cidadãos e contribuintes brasileiros? As versões de um órgão chamado de "mídia em meu favor"? Com um dirigente, como é o caso, agora, do recém recriado Ministério das Comunicações, amigo pessoal tirado diretamente do miolo do Centrão? Será que Bolsonaro acha que a BBC de Londres é comunista? Se não, pare, pense e não faça mais uma loucura.

Sem BBC, sem EBC, o público midiático brasileiro estará órfão não somente da TV Brasil, da Agência Brasil e de oito emissoras de rádio à mercê do que a mídia comercial brasileira oferece: um pouco de jornalismo; quase nada de educação e cultura; e muito, mas, muito mesmo, enlatados e besteirol. E com o nome de Bolsonaro num triste parágrafo da história da radiodifusão brasileira: o homem que acabou com a EBC, quando ela era, ainda, uma promessa de que em algum dia o Brasil teria a sua BBC, aquela do Discurso do Rei, nome de um filme, muito bom, recomendo.

Criado em 2020-06-11 20:03:26

Um, dois, muitos, vida afora

JC Peliano (*) –

As músicas conseguem tirar a alma, o coração e o espírito de seus aposentos e dançar com eles sonhos e prazeres sem fim. Poemas sem palavras, elas exprimem mais que versos e estrofes, entoam lembranças, sentimentos, lugares, idades, amores, amigos, brincadeiras, eternidade. As músicas devem nascer de onde os poemas pedem passagem para entrar na avenida.

Aos compositores, músicos, maestros, bandas, orquestras e coros devo uma boa parte de minha vida. Com eles todos e a cada vez a bordo das canções estive por mares nunca dantes navegados, ou navegados vezes e vezes sem conta, e por céus de todas as cores de norte a sul, leste e oeste, e aterrisagens encantadas, atrás de cordéis e cordéis de recordações e imaginações que quis e pude resgatar lá de onde fadas, duendes, magos e paraísos guardam o mistério da vida.

Bandos de violinos quando voam nas sinfonias ao lado de teclas enamoradas dos dedos de pianistas em especial me levam para longe de mim onde tempo e espaço perdem suas bordas e extensões e chegam de asas abertas a um universo sem começo nem fim. Nem endereço físico ou eletrônico. Nunca perguntei se isso também se passa com alguém. Apenas vi algumas vezes olhos cerrados saboreando sons melodiosos derramando de cachoeiras invisíveis. É possível que essas pessoas estivessem em mares e voos semelhantes aos meus.

O dom de levar aos encantos sem tamanho ornados dentro da magia musical tem para mim um toque especial nas chamadas músicas clássicas ou próximas. Claro que uma composição de Jobim, Chico Buarque, Milton Nascimento, Pixinguinha, Ataulfo Alves e outros de igual porte, vale mais que o ingresso. O auditório que carrego comigo está repleto de poltronas onde sempre me encontro sentado em todas elas com meus ouvidos ligados e extasiados de alumbramento e satisfação.

Mas são diferentes as emoções. Nos bons clássicos chego ao continente, na boa música popular vou ao arquipélago. Ao continente cheguei ainda menino pelas mãos de meu pai em terras de Tchaikovsky. Aos domingos de descanso do trabalho eu ouvia suas melodias nos antigos LPs, discos de vinil, guardados com cuidado por meu pai. E já de calças curtas eu começava a ter viagens longas na imaginação ainda tomando forma, jeito e adornos. Mais tarde outros clássicos vieram aos poucos se incorporando ao meu gosto musical. Um Beethoven, Albinoni, Bach, Mozart, Chopin, Villa Lobos, Ravel, e outros tantos, me faziam o bem chegar e permanecer continuado.

Apenas um apreciador, um aprendiz de ter ouvidos afinados e bem-comportados musicalmente, me emociona entre as clássicas em particular as melodias que trazem passagens românticas, não piegas ou de água com açúcar. Nessas ocasiões, passo a ser mais um componente da orquestra costurando o som no coroamento da sinfonia aos píncaros da celebração. Entre os outros tantos citados no parágrafo anterior, seleciono com prazer o russo Rachmaninov cujas melodias me encantam particularmente. Seu concerto no. 2 em especial me soa comovente, entoado de acordes encantados. Foi numa visita a Leningrado, hoje São Petersburgo, que conheci mais de perto sua obra.

Pois bem, foi neste sábado 18 de julho de 2020 que amanheci ouvindo ainda debaixo das cobertas Once upon a time in the West de Ennio Morricone com o solista Vásáry André. A melodia e o solista acertaram os ponteiros e marcaram uns bons minutos de maravilhosa conjugação de bom gosto, enlevo e satisfação musical. Morricone não é um clássico, mas faz parte do primeiro time dos compositores modernos. Para alguns críticos e especialistas ele é considerado o melhor compositor para filmes dos últimos tempos. Dono de vasto repertório para a filmografia que compôs, deixou este ano um legado de imensa grandeza lírica aos 91 anos.

Algumas músicas suas, como essa, conseguem me emocionar. Com elas acho que não conseguiria ser mais um componente da orquestra, não saberia se tocaria e, caso tocasse, não sei se chegaria a tocar sem emoção.

Outra música dele de igual intensidade, mas de toque singelo e cativante é Malena, feita para um filme de igual nome e impacto, estrelado pela belíssima Monica Bellucci. Outra sua feita para o filme Cinema Paradiso é de uma sensibilidade e beleza ímpares assim como a história em tela.

Este texto emocionado que aqui escrevo é resultado da parada obrigatória desses meses de pandemia. Em casa, afora os afazeres domésticos que me cabe na divisão de trabalho familiar, só me resta a criatividade para dar vazão a energia acumulada. Revisitar Ennio Morricone foi uma bênção.

Amigo de outras horas de salas de cinema e áudios sempre me trouxe asas para voar em suas composições melódicas. Em cada uma dessas ocasiões fui ator, componente de orquestra, um, dois e muitos. Todos eles vêm ainda comigo pela vida afora. Levava para a cama a cada vez as histórias assim por mim interpretadas para serem sonhadas e usufruídas no rolo de imagens projetadas na tela de meu universo onírico.

E me fizeram um bem incomensurável essas histórias e imagens. Esse o valor sem medida, tempo e idade dos artistas em geral, o poder de fazer da arte a arte que nos faz bem, que nos cria e recria em sonhos e emoções enquanto vida houver. Elevar aos céus os balões coloridos da cultura para que a arte se torne estrelas que iluminem a cada um e a todos nós e mostrem o caminho da construção de um mundo renovado de esperança e bem-aventurança. Sem discriminação de qualquer espécie, desigualdade, despotismo e injustiça. Há que abrir os braços como o Cristo Redentor no Rio de Janeiro para receber e abraçar a todos os que comungam com a paz, harmonia e amor incondicional.

Sigo assim comigo, com os atores que fui, os compositores que pude ser, e feliz sigo muito bem acompanhado pelas atrizes com quem contracenei, Ingrid Bergman, Monica Bellucci, Audrey Hepburn, Kim Novak, Jane Fonda, Fernanda Montenegro, entre outras. São todos eles que trazem de não sei onde os poemas, novelas, contos e textos que escrevo e que me ajudam a ver melhor e de olhos clareados os caminhos por onde ando. E pelas lembranças bem guardadas em meus sentimentos e em cada emoção sem lugar, hora ou idade. Aliás, nessas horas especiais não tenho idade, o tempo para e o espaço é só meu e de quem quero estar perto.

Paro para descansar um pouco
vejo que vem comigo não atrás
ou ao meu lado, mas dentro
uma vida inteira até aqui
por isso ando mais devagar
sou um, dois, sou muitos
meu mundo é maior que minha vida
______________
(*) José Carlos Peliano, economista, poeta, escritor.

Criado em 2020-07-19 20:05:23

O atraso da classe dominante brasileira

Roberto Amaral (*) –

“Por que o Brasil ainda não deu certo?” perguntava-se Darcy Ribeiro, político,  antropólogo, ensaísta, conferencista e romancista, homem de grandes paixões,  certamente o mais inquieto dos pensadores  brasileiros do século passado, e, sem dúvida alguma, um dos mais profícuos e desassombrados intelectuais-militantes que já tivemos. 

No seu estimulante O povo brasileiro, que começou a escrever no exílio do Uruguai, aquela pergunta, a cuja busca de resposta dedica sua obra madura, é formulada noutros termos, mais avançados, quando [Darcy] se indaga: “Por que, mais uma vez, a classe dominante nos vencia?” (referia-se à vitória do golpe de 1964).

Mas então, como se vê, a própria pergunta já trazia consigo a resposta, na indicação de nossa tragédia histórica como resultado do controle do poder por uma gente medíocre, perversa, anti-nacional, alienada e forânea.

Gente muito bem representada, aliás, pelos comensais do regabofe na mansão do especulador Naji Nahas, responsável pela quebra da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, com o qual a casa-grande com seus procuradores (empresários, jornalistas, políticos, advogados) comemorou o acordo inter-elite que, a pretexto de afastar as ameaças de golpe iminente, anunciado no dia 7 de setembro, assegurou ao capitão Bolsonaro a inviabilização do impeachment e a impunidade de seus filhos. Fora o que não se conhece. 

Como sempre, os acordos se amarram no andar de cima da hierarquia mandante para observação de todo o povo; desta vez o pacto foi traficado com militares, parlamentares e ministros do STF, tendo como costureiro e escrivão o inefável ex-presidente Michel Temer, advogado com vasta experiência nas Docas de Santos.
 

A classe dominante brasileira é uma das mais longevas do mundo, porque competente na preservação do mando político-econômico,  o mesmo desde a colônia, imune como se mostra a transformações sociais, políticas e econômicas. Seu poder foi regado no escravismo e sobreviveria com a abolição e o trabalho assalariado, mediante as mais variadas formas de exploração; projeção dos interesses reinóis, sobrevive na independência, e no império transitou do domínio português para o serviço do colonialismo britânico. Hoje é agente subalterno dos EUA. O país  caminha do agrarismo à industrialização no século 20, da vida rural ao urbanismo; conhece insurgências de toda ordem, e em todas elas o povo é massacrado; desfaz-se da monarquia anacrônica, a última do continente, e adota a peculiar forma republicana de governo sem povo, de democracia juncada de golpes de Estado e ditaduras. Os antagonismos se resolvem na conciliação, sob o comando da classe dominante, que não permite reformas de fato. Seu objetivo, lembrava José Honório Rodrigues, foi sempre acomodar as divergências dos grupos hegemônicos e jamais conceder benefícios ao povo, posto de lado, capado e recapado de seu papel de sujeito histórico, como escreveu Capistrano de Abreu.  

O país conheceu momentos de turbulência e momentos de progresso e expansão capitalista. Há quarenta anos convive com a estagnação econômica, de par com desindustrialização e brutal concentração de renda. O poder da casa-grande, porém, mais se fortalece.  O país exportador de açúcar e algodão, na colônia,  enriqueceu a oligarquia paulista na república com as exportações de café a preços subsidiados pelo resto do país; hoje exporta grãos e minério in natura, além de cientistas e pesquisadores, aos quais nega emprego, após investir em sua formação.  

Aos trancos e barrancos, o Brasil se modernizou e hoje é uma das dez principais potências do mundo, sem haver combatido as desigualdades sociais, o que revela o projeto de sociedade que nos governa.  Em  500 anos de construção histórica, nada ameaçou a classe dominante,  impávida, insensível,  intocada, reproduzindo  o mando da velha casa-grande, na colônia e na república, o poder da terra e do capital concentrado, financeirizado,  globalizado. 

Em 1930  comandou uma “revolução” que não arranharia a ordem social e econômica;  um de seus líderes, o governador mineiro Antonio Carlos de Andrada, proclamava: “Façamos a revolução antes que o povo a faça”. Modernizando o país a partir de uma ditadura (o “Estado novo”), o movimento de 1930 fortaleceu a ordem capitalista, e a “elite” econômica conservou o mando que não admite concessões à emergência de interesses nacionais ou populares. Talvez, nesse processo histórico, estejamos próximos de encontrar explicação para o atraso da burguesia aqui vivente (e daí o atraso do país “que não dá certo”): sendo brasileira, não é nacional, pois jamais se conciliou, seja com os interesses da nação, seja com os interesses de seu povo; não tendo sido, jamais, progressista, nunca se conflitou com a aristocracia feudal, nem conheceu a menor contradição com os interesses do imperialismo, do qual desde cedo se fez sócia menor. A contradição capital nacional versus imperialismo se resolveu numa composição de interesses. 

Para essa burguesia, o povo é um incômodo e qualquer sorte de projeto nacional um anacronismo.

Essas observações me chegam com a leitura de entrevista concedida ao Estadão (16/10/2021) pelo presidente do conglomerado controlador do banco Itaú e uma série de outras empresas. O banqueiro pede mais reforma trabalhista; não está satisfeito com os  direitos já surrupiados dos trabalhadores. Quer mais abertura econômica, mais privatizações, defende o aumento de juros, embora saiba que não sofremos de inflação de demanda. É calorosamente contra o impeachment de Bolsonaro. Com o mesmo entusiasmo se diz eleitor de João Doria, que considera “um grande gestor público”, injustiçado pela avaliação popular. A entrevista é longa.

Nenhuma palavra lhe ocorreu, porém, sobre o desemprego, que atinge 14,7% da população ativa do país. Nada sobre a carestia que maltrata a população brasileira: a cesta básica passa de 60% do salário mínimo, e 50% da população brasileira com mais de 16 anos mora em residência cuja receita não ultrapassa um salário-mínimo. O endividamento das pessoas representa 59,9% da renda média nacional, o pior resultado desde 2005, quando o indicador começou a ser apurado. Pelo menos 110 milhões de brasileiros convivem com algum grau de insegurança alimentar (dados de 2020).

Nenhuma palavra sobre as mais de 603 mil vidas levadas pela pandemia.

Muitas palavras, porém,  para defender uma alternativa a Bolsonaro que não seja Lula. O sr. Alfredo Setúbal não é um ponto fora da curva, pelo contrário: suas opiniões, sua visão de mundo e de Brasil refletem o pensamento da atrasada classe dominante brasileira.

Há algumas poucas semanas, um analista da política visitou as praças do Rio de Janeiro e São Paulo para conhecer a visão do grande empresariado sobre o quadro político brasileiro e as expectativas para 2022, delineadas a partir das pesquisas de opinião, fartamente divulgadas pela imprensa. De suas entrevistas colheu a manifesta rejeição à candidatura do ex-presidente Lula, a mesma rejeição que a grande oficialidade não cuida de disfarçar.  É essa gente desapartada do país e do povo que dita o ritmo da política e economia. É com ela, portanto, que Lula terá de se sentar para discutir um pacto de governabilidade, se conseguir se eleger mais uma vez. Não será fácil; Dilma não conseguiu.  

***

O povo passa fome mas os bancos... Segundo o  Relatório de Estabilidade Financeira, divulgado pelo Banco Central (18/10/21), a rentabilidade dos bancos no 1º semestre deste ano retornou ao nível pré-pandemia. O lucro das instituições financeiras também cresceu. Já o Retorno sobre o Patrimônio Líquido, conhecido como ROE, chegou a 14% nos 12 meses encerrados em junho deste ano, índice mais elevado desde maio de 2020.

Ilustração da miséria é um vídeo que circula nas redes sociais e mostra um grupo de pessoas catando restos de alimentos de um caminhão de lixo em Fortaleza, em frente a um supermercado no bairro Cocó, área nobre da cidade.
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(*) Roberto Átila Amaral Vieira é jornalista, professor e político brasileiro. Foi ministro da Ciência e Tecnologia durante o governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva.

Criado em 2021-10-26 22:06:14

Moradores suspendem fechamento da BR 020 e avaliam ação na Justiça

Moradores de Planaltina, Vale do Amanhecer, Sobradinho, Lago Oeste e região suspenderam a mobilização pelo fechamento da BR 020 na manhã de hoje (19/10) para avaliar alternativas. O grupo vai se reunir hoje às 14h, na Praça da Igreja São Sebastião, em Planaltina.

Valdelice da Silva, uma das coordenadoras do movimento, disse que além de nova audiência com as autoridades do GDF, o grupo estuda uma ação na Justiça contra a Caesb. "Hoje, no Brasil, só a Justiça, a depender do juiz, tem alguma efetividade", conclui.

Moradora da Estância de Planaltina, Cristina Oliveira, está indignada com a súbita decisão da Caesb de fazer racionamento na cidade sem aviso prévio. "Meus filhos estão sem aulas desde ontem (18/10) na escola porque lá não tem água, e só voltarão a ter aula na segunda (23/10), se houver água".

Os moradores desconfiam que a água da barragem do Pipiripau está sendo desviada clandestinamente sem a fiscalização da Adasa.

A VERSÃO DA CAESB - A Caesb informa em seu site, após o movimento de moradores ter se rebelado contra o corte de água sem aviso prévio, que os córregos responsáveis pelo abastecimento das regiões Norte e Sul do Distrito Federal estão apresentando significativa redução de sua vazão, prejudicando a captação de água bruta para tratamento e distribuição para a população.

Segundo a Caesb, "o volume desses córregos tem diminuído expressivamente em função do longo período de seca e altas temperaturas no DF e das retiradas excessivas de água das áreas de irrigação".

Em função da indisponibilidade hídrica dos mananciais de captação a Caesb está realizando, como medida temporária, cortes sucessivos no abastecimento de algumas regiões para preservar os níveis de reservação e evitar falta de água em maior proporção.

Seguem as novas regiões afetadas:

Região Norte: Planaltina, Mestre D’Armas, Vale do Amanhecer, Sobradinho I e II.

Região Sul: Brazlândia
 
Um dos fatores responsáveis pela crise hídrica no DF é o excessivo atraso na conclusão da adutora que deveria trazer água de Corumbá IV para o reservatório de Santa Maria.

O governador Rodrigo Rollemberg (PSB) anunciou que essa obra só será concluída em 2018. Enquanto isso, a população sofre com as altas temperaturas e a baixa umidade. Agora, ainda fica sem água.

Os responsáveis pela aplicação dos recursos destinados à adutora de Corumbá IV também deveriam ser cobrados neste momento.

Criado em 2017-10-19 12:44:27

A arte do bambu, da colheita à construção

Um manual pronto para ensinar a todos os públicos a arte de utilizar o bambu como ferramenta criativa. É assim que a Cia Nós No Bambu, após 19 anos de existência e pesquisa, apresenta seus Manuais Nós No Bambu, iniciativa que nasceu nos arredores da Universidade de Brasília (UnB).

A idealizadora e responsável pelo projeto, Poema Mühlenberg, uma das fundadoras da Cia Nós No Bambu, explica que a “ideia é difundir pelos quatro cantos do mundo esse conhecimento, possibilitando que mais pessoas possam acessar com facilidade todas as minúcias da arte corpo-bambu. É neste contexto que nasce também a Escola Nós No Bambu”.

Assim, foram produzidos três manuais que ensinam os caminhos da construção de formas de bambu e de suas possibilidades de interação com o corpo humano.

O primeiro – Manual de Bambuzeria - Construa seu Instrumento - ensina a colheita, o tratamento e a construção de dois instrumentos acrobáticos artesanais de bambu: o Tripé e o Maestrim.

Os dois seguintes são guias para a interação com esses instrumentos, unindo atividade física e expressão artística. Ambos, segundo o manual, podem ser explorados por pessoas com preparo físico e faixa etária diversas.

Ambos são formas simples, o Tripé de Bambu usa apenas três varas e fica em pé sozinho. O Maestrim é único em sua simplicidade, apenas uma vara de bambu suspensa em uma corda.

Poema conta também que “ambos oferecem milhares de possibilidades de jogo, dança, acrobacia, contato”.

Para ter acesso a mais informações basta acessar aqui, preencher um formulário e baixar os Manuais.

Ao todo são 7h30 de vídeos tutoriais, fotografias e textos. O acesso a todo o conteúdo é gratuito durante um ano. E também no Youtube, Facebook, Instagram.

O Manual de Bambuzeria está disponível para download desde maio, e o Manual Maestrim será lançado logo em seguida.

Escola Nós no Bambu

Como marco desta nova etapa, focada no ensino e difusão de sua arte e técnicas, nasce a Escola Nós no Bambu. Além do ensino a distância, com os Manuais Nós No Bambu e aulas, cursos e oficinas online, a Escola oferece também atividades presenciais na sua sede, o Galpão Bambu - espaço de criação, em Brasília.

Corpos, bambus e movimento: assim nasce a Cia Nós No Bambu. Sua poética inovadora é resultado de duas linhas de pesquisa continuada: 1) material: o bambu e suas características, a investigação de soluções construtivas e a criação de instrumentos artesanais de bambu, e; 2) imaterial: formas de interação cênica com estes instrumentos, com foco em dança e acrobacia.

Os artistas da Companhia aprendem a lidar com o desafio constante da adaptação de tato e força ao bambu, um material natural suscetível às variações climáticas.

Nós No Bambu conta com dezenove anos de amadurecimento na arte corpo bambu. Suas atividades têm origem no desdobramento artístico do Sistema Integral Bambu, criado pelo professor de Educação Física Marcelo Rio Branco, de Brasília/ DF. Assim surge a dança acrobática em instrumentos artesanais de bambu, expressão inovadora contextualizada no abrangente Circo Novo.

O repertório da Companhia soma seis espetáculos, além de diversas performances e números. Em 2008, Nós No Bambu levou ao grande público Uirapuru Bambu – espetáculo performático. Em 2010, estreou Ultrapassa!, inspirado nas provas de corrida de aventura.

O bambu, material que inspira e sustenta a Cia Nós No Bambu, dá origem a uma arte sustentável, por ser uma matéria-prima renovável de rápido crescimento e baixo impacto ambiental. Esta gramínea é uma verdadeira amiga da humanidade em seu desenvolvimento graças às suas características propícias a incontáveis aplicações. Nós No Bambu a coloca em cena como metáfora de uma relação de harmonia possível entre os humanos e o Planeta Terra.

Veja mais informações sobre o grupo aqui no facebook.com/nosnobambu e www.youtube.com/cianosnobambu

 

Criado em 2022-08-11 20:18:36

Uma tática suicida?

Fernando Tolentino (*) –

É possível que exista, mas desconheço algum companheiro da esquerda ou mesmo do campo democrático que não tenha como indispensável ter ao seu lado os militantes do PDT na terrível disputa que teremos pela frente em 2022.

Seja por aderirem ao nosso candidato, se este for ao segundo turno contra o representante da direita, como a tendência parece indicar, ou por nos integramos a outro nome que assuma o compromisso de resgatar o patrimônio e os interesses nacionais, as causas dos trabalhadores e dos segmentos excluídos da sociedade.

Não só isso. Temos claro que é natural estarmos juntos nas lutas que antecedem a próxima campanha eleitoral e, se vitoriosos contra a direita em 2022, os militantes que estão historicamente ligados ao trabalhismo são parceiros preferenciais em um futuro governo.

E ninguém tenha dúvida de que assim, juntos, estaremos.

Mas, hoje, há infelizmente outra grande certeza. Por incrível que possa parecer, parte dos pedetistas está sendo arrastada para no mínimo uma indefinição ao ficar claro o confronto entre esquerda e direita no segundo turno do ano que vem caso tenhamos uma repetição do quadro de 2018: o PT, agora quase certamente representado pela candidatura de Lula, e a extrema direita, tendo como candidato o arremedo de fascista Jair Bolsonaro.

E o que leva a tão incrível contradição? Como imaginar eleitores de esquerda, talvez até alguns socialistas, hesitantes entre um candidato que reunirá todo o restante do espectro da esquerda e dos democratas e, do outro lado, quem representa a continuidade da proposta de demolição de patrimônio e direitos sociais que inclusive trazem à memória o nome de Getúlio Vargas?

A verdade é que se trata tão somente da possível consequência de uma estratégia de "marketing" definida para a candidatura de Ciro Gomes. É certo que Ciro Gomes é um dos mais preparados políticos de hoje no Brasil. Uma rápida consulta à sua biografia é o suficiente para deixar isso claro.

Graduado em Direito pela Universidade Federal do Ceará, foi professor de Direito Tributário e Direito Constitucional, chegando a atuar como pesquisador visitante na Harvard Law School.

A política está no seu DNA. Filho e sobrinho de prefeitos de municípios cearenses (Sobral e Itapipoca) elegeu-se deputado estadual em 1979. Concorrera pelo PDS, o sucessor da ARENA, partido criado pela ditadura para lhe dar sustentação política.

Além dele, dois de seus irmãos enveredaram pela política. Cid Gomes governou o Ceará por dois mandatos e Ivo Gomes é o atual prefeito de Sobral, que já teve o próprio Ciro e o pai como prefeitos.

Em 1983, migrou para o PMDB, seguindo a liderança de Tasso Jereissati e participando da campanha das Diretas Já no ano seguinte.

Em 1990 filiou-se ao PSDB, onde já estava Tasso Jereissati. Daí, tornou-se ministro da Fazenda (setembro a dezembro de 1994) no governo de Itamar Franco, época em que se implantou o Plano Real.

Em 1998, tentou sua primeira candidatura à Presidência pelo PPS, ao qual se filiara em 1997. Abocanhou 10,97% dos votos.

Resolveu arriscar mais uma vez em 2002 (ainda pelo PPS) e conquistou 11,97% da votação.

Com a vitória de Lula, assumiu o Ministério da Integração Nacional, permanecendo de janeiro de 2003 a março de 2006, quando se afastou para concorrer a deputado federal.

Havia se filiado ao PSB em junho de 2005 e sua candidatura seria decisiva para que o partido superasse a cláusula de barreira.

Em 2013, Dilma Rousseff já planejava a campanha à reeleição no ano seguinte (2014). O PSB pretendia lançar a candidatura do então governador de Pernambuco, Eduardo Campos (com a sua morte em trágico acidente aéreo, lançou Marina Silva).

Insatisfeito com a orientação do partido, Ciro Gomes deixou a legenda e filiou-se ao PROS, que acabara de obter registro.

Dois anos depois (2015) ingressou no PDT, pelo qual voltou a disputar a Presidência em 2018.

Nesta eleição, chegou a ser convidado por Lula para ser o seu companheiro de chapa, como candidato a vice-presidente, mas não aceitou. Lula foi afastado da disputa por Sérgio Moro e o PT lançou Fernando Haddad.

Ciro ficou fora do segundo turno, ao qual tiveram acesso Bolsonaro e Haddad. Mas obteve a terceira melhor votação, que se elevou a 16,98%, bem acima dos alcançados nas duas tentativas anteriores.

Numa eleição em que se manifestava forte rejeição ao PT, fruto especialmente da campanha pelo "impeachment" de Dilma e dos reiterados processos para inviabilizar judicialmente qualquer possibilidade de Lula voltar à Presidência, Ciro fez uma campanha em que se colocou como alternativa a Bolsonaro e Haddad.

Animado pelo resultado e corrosão de Bolsonaro junto às suas bases eleitorais, Ciro entendeu ser a terceira via, que poderia sair vitorioso em 2022. E adotou para isso a tática de tentar ganhar os votos que Lula mostrou ter na esquerda e, além disso, os que o veem como a possibilidade real de livrar o País do inferno criado pelo governo Bolsonaro.

Lula e o PT passaram a ser os adversários preferenciais de Ciro, a ponto de os ataques à Bolsonaro ficarem em plano secundário.

Até parecia um caminho que poderia surtir efeito.

Ciro só não contava com a solidez que adquiriu a alternativa Lula. Além de candidato natural da base petista, do PCdoB e de outros partidos de esquerda, como PCO, PCB e UP, conseguiu romper as resistências antes existentes no PSOL. Amplos setores do PSB passaram a vê-lo também como o nome capaz de garantir a derrota de Bolsonaro.

Mais que isso, é enorme a avidez da sociedade de se ver livre de Bolsonaro, agora visto como um arruaceiro e paspalho. Lula surge como uma possibilidade de bani-lo definitivamente. E, assim, passou a representar um impedimento para que se consolidem outros nomes lançados como hipóteses de terceira via, como Luciano Huck (que já desistiu de concorrer), o ex-juiz e ex-ministro Moro (que parece seguir no mesmo caminho), João Dória, o ex-ministro Mandetta, o apresentador Datena, o governador gaúcho Eduardo Leite ou os senadores Rodrigo Pacheco, Alessandro Vieira e Simone Tebet.

Ciro acaba se misturando a tantas alternativas.

Mas o pior para ele é que se torna vítima de sua própria tática eleitoral. Mais que todos, a sua provável base eleitoral quer ter a certeza de que Bolsonaro seja uma página virada. E não acompanha a sua virulência nos ataques a Lula. Ao contrário, não vê como Ciro suplantá-lo e teme o risco de que isso só sirva para abrir espaço a um segundo turno, em que Lula possa chegar enfraquecido. Daí, os seus virtuais adeptos tendem a migrar para Lula, na ânsia de liquidar a fatura contra Bolsonaro no primeiro turno.
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(*) Fernando Tolentino é jornalista.

Criado em 2021-09-29 23:53:06

O Golpe Militar- 55 anos depois

Criado em 2019-03-29 20:38:17

O cristão e a árvore do bem, do mal e do preconceito

Alexandre Ribondi -

A Bíblia avisa, ao longo de seu vasto texto, que as pessoas podem pecar por pensamento (Mateus), palavra (Judas) e obra (Romanos). Isso coloca o pensamento e a palavra no mesmo status que a obra e, para as escrituras sagradas, pensar e falar são também ações, o que acaba por lapidar uma Trindade que nem sempre é Santíssima.

Essas passagens das escrituras sagradas podem - e costumam ser - muito mal interpretadas e servir de base à intolerância e criar um beco sem saída. Se temos que cuidar de ações, em todas as suas formas, o que resta a fazer a não ser nos tornar estátuas de nós mesmos?

Porque, se pensamos, falamos e agimos de acordo com os nossos desejos, somos pecadores. Se não acreditamos mais no pecado, somos vítimas permanentes dos pensamentos, dos olhares silenciosos que julgam, e também das palavras dos que xingam e ofendem, e, finalmente, das obras, dos socos, porradas e golpes fatais, todos eles deferidos pelos que utilizam a Bíblia para justificar o preconceito, o abuso e o autoritarismo.

Toda fé é autoritária. A palavra heresia quer dizer exatamente “a capacidade de escolher”. Ou de pensar livremente. Ou de usar o seu corpo de acordo com a sua vontade.

Quais são as vantagens do preconceito? O preconceituoso não quer apenas seguir as regras do livro sagrado para, mais tarde, ver aberta a porta do paraíso.

Isso não basta, porque todos os crentes têm os pés plantados no chão e sabem que há muita felicidade a ser desfrutada aqui na Terra, que ainda mantém o fascínio do que foi quando era o Éden, palavra, aliás, que significa jardim. Que se tornou sinônimo de paraíso terreno, criado por Deus.

Se o preconceituoso não quer somente ter a certeza de que há um lugar reservado para ele no reino de Deus, onde não entrarão os pecadores, o que ele quer nesse imenso jardim dos vivos?

Quer o mesmo que quer no céu: um lugar reservado só para ele. Quer recompensas terrenas. Quer lucro. A história do nosso País pode ajudar a compreender isso, de certa forma. De acordo com a pesquisadora Érika Prestes, no Brasil colônia, um roubo era investigado e, em seguia, o ladrão era, em princípio, condenado e preso. Já no caso do homossexual, ou sodomita, ou quem busca o prazer pelo canal condutor traseiro, as penas eram mais severas.

O praticante do “crime nefando” era condenado, mas não só ele. Sua família também, que acabava por perder os bens. Parece que é daí que surge a expressão repetida até hoje na ira dos pais que exclamam com orgulho que preferem ter um filho ladrão do que um filho viado. Claro, ele não quer enfrentar o rigor da lei e muito menos ser desprovido de suas riquezas. Provavelmente, se o homossexual sofresse as penas sozinho o ódio seria menor.

E assim podemos ver que o preconceito se aproxima dos privilégios. O caminho que temos percorrido, ao longo dos séculos, nos mostra como usamos o preconceito para termos uma vida melhor. Os brancos excluem os negros, os homens excluem as mulheres, os nazistas excluem os judeus, os judeus excluem os palestinos. E os heterossexuais enxotam os homossexuais.

Assim, reservam e garantem seus lugares, porque os excluídos são obrigados a deixar espaços vagos para que eles, os abençoados, transitem, e trabalhem, e comam e durmam em paz. Fazem isso diminuindo a concorrência. Um homem branco heterossexual sabe que, no Éden ocidental (o original ficava para os lados do Oriente), será sempre ele o escolhido.

Mas quando os excluídos tomam a palavra e passam a ocupar o paraíso antes proibido, o preconceito contra eles se torna sanguíneo e desesperado. Os preconceituosos, na sua insegurança e na sua incapacidade de lidar com a frustração, criam novas leis, novas regras, inventam novos crimes e novos pecados. No auge do desespero, matam.

Acontece que talvez não saibam, mas, aos segregarem, ao impedirem que os outros vivam no mundo que não lhes pertence, ao pensarem no lucro e no prazer que terão sem a presença dos diferentes, são eles os pecadores.

Não porque nós, os excluídos, dizemos que eles pecam. Mas porque Deus disse no livro de Timóteo: “Nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis; pois os homens serão amantes de si mesmos, gananciosos”. E irão para o inferno.

Criado em 2017-10-24 16:04:24

O fascismo à luz do dia

Marcos Bagno -

Agora que o mal está feito e o crime organizado se apoderou com suas garras de abutre do Governo Federal da maneira mais sórdida impossível, minha grande preocupação, meu temor mais agudo é o de que o fascismo latente nas classes médias e médias altas se sinta plenamente autorizado a sair de uma vez por todas do armário e agir às claras, em plena luz do dia, no meio da rua.

Um fascismo que, infelizmente, também contamina muitas pessoas que sempre foram suas vítimas preferenciais, mas que não têm discernimento suficiente para resistir à propaganda diuturna da mídia golpista.

Pessoas que ainda sentiam alguns resquícios de escrúpulos de externar em público seu racismo, sua homofobia, sua misoginia, seu desprezo pelos mais pobres decerto têm agora um argumento mais do que plausível para abandonar esses laivos de vergonha e impor (sem temer e com Temer) sua visão de mundo autoritária, intolerante, corrupta e tacanha ao resto da população.

Mais do que isso, talvez: vendo que quem agora manda e desmanda no país são os representantes das forças mais retrógradas, hiperconservadoras e arcaicas do nosso espectro social, essas pessoas se espelharão nesses mafiosos que rapinam o poder e os tomarão como modelos a seguir, na certeza de que o crime compensa e a impunidade está mais do que garantida.

Afinal, um Congresso onde a maioria dos parlamentares é composta de homicidas confessos, traficantes internacionais de drogas e armas, apologistas da tortura, exploradores da fé religiosa das massas ignorantes, latifundiários escravagistas donos de territórios maiores do que muitos países juntos, gente escandalosamente rica e mergulhada em práticas ilegais de corrupção e delitos muito piores... esse Congresso só pode inspirar às pessoas dotadas da moral ambígua e maleável da classe média o desejo de ser assim também, de ser rico roubando e corrompendo, de mandar matar quem não convém, de tramar um golpe de Estado contra a vontade popular expressa nas urnas.


Mentir, forjar acusações, mentir, distorcer as leis, mentir, subornar juízes dispostos a serem subornados, mentir, tramar falcatruas no mais alto escalão da República, mentir, deixar claro que a ilegalidade é que comanda, mentir, conspirar contra os princípios básicos da vida em sociedade... todas essas práticas – vitoriosas, exitosas, muitíssimo bem-sucedidas – só podem comprovar o que os fascistas em germe já sabem no abismo profundo de seu espírito covarde: a sociedade é para o uso, o deleite e o desfrute exclusivo dos corruptos poderosos e dos que se dispõem a lamber as botas desses poderosos corruptos.
O Brasil já é campeão mundial de assassinatos de gays, lésbicas e transexuais.

Meu receio é que esse recorde seja superado e atinja níveis tão altos que nenhum outro país conseguirá nos alcançar nesse quesito.

Temos uma das sociedades mais desiguais e excludentes do planeta, em que 1% da população controla 27% da riqueza nacional e em que um bilionário e um assalariado pagam exatamente os mesmos impostos. Repito: uma das mais excludentes... mas é bem possível que ela se torne a mais excludente de todas, se a corja de perdedores inconformados que acaba de sequestrar o poder levar a cabo todos os seus planos.

O massacre praticado diariamente contra a população negra, especialmente os jovens do sexo masculino (cuja expectativa de vida é de 17 anos), sobretudo pelas forças policiais, braço armado dos donos do poder, talvez se transforme em genocídio puro e simples.

O feminicídio de uma sociedade entranhadamente misógina talvez aumente sua taxa de uma mulher assassinada a cada hora e meia para duas ou três assassinadas por hora.

Meu receio de que nossa vida cotidiana seja marcada por essa liberdade de ação concedida ao fascismo parte de uma triste experiência pessoal.

Há coisa de mês e meio, em circunstâncias que prefiro não explicitar, fui agredido fisicamente por um homem branco notoriamente racista, machista e homofóbico, indignado com algo que eu tinha publicado no Facebook: uma crítica à atitude de pessoas que, como ele, se vestiam de camisa da CBF e vomitavam brados contra Dilma Rousseff, mas achavam lindo que seus filhos estivessem fora do país graças ao programa Ciência Sem Fronteiras, criado pela mesma Dilma Rousseff.

Ou seja: bolsa-família, nunca! Mas bolsa-para-meu-filhinho-passar-um-ano-na-Europa, sempre!

Minha postagem não citava nomes, mas a carapuça parece que serviu bem. Desse modo, a covardia, marca registrada dos fascistas, emergiu sem mais disfarce.

Por sorte, tudo o que recebi foi um tapa no pescoço, porque as pessoas que estavam em volta impediram que ele prosseguisse em sua sanha irracional, em seu total desrespeito ao convívio civilizado mínimo (outra característica do fascismo, aliás).

Esse episódio tem me deixado profundamente triste e preocupado. Que o crime organizado tome conta do poder executivo supremo (e do judiciário supremo, acrescente-se) é coisa que se compreende quando se conhece bem a história, melancólica e trágica história, deste país.

Passei a infância, a adolescência e o início da fase adulta sob a ditadura militar, meu pai sofreu processo judicial por “atos subversivos”, de modo que sei bem o que é repressão e medo de repressão.

Mas sempre tínhamos alguma liberdade e segurança ao menos dentro de casa, na intimidade da família, no círculo dos amigos verdadeiros, em ambientes onde sabíamos que a mão de ferro do Estado autoritário não nos alcançava.

Agora, no entanto, nessa fase da história em que as ditaduras não precisam mais de aparatos militares porque se servem com muito maior eficiência da tecnologia de ponta dos meios de comunicação, que exercem o papel que antes era confiado aos órgãos oficiais de propaganda, temos de tomar cuidado para não sermos atacados em festas de família, em lojas, em salas de cinema, na fila do ônibus, na porta dos restaurantes, no salão do barbeiro, no balcão da padaria, no interior dos aviões, no parquinho infantil, na mesa do bar, em sala de aula...

Os fascistas estão aí, livres e soltos, confiantes na impunidade, certos de que agora têm o apoio firme dos assaltantes das instituições, dos demolidores dos direitos, dos assassinos da legalidade.

Confesso meus temores. Mas também confesso que são eles que me impelem para continuar desobedecendo, resistindo e lutando.

E aproveitando qualquer ocasião de fala pública para denunciar os covardes. Como faço aqui e agora.

Michel Temer é golpista!

Criado em 2016-09-04 20:02:55

Massimo Canevacci: “É com angústia que vejo a involução do Brasil”

Maria Lúcia Verdi –

Massimo Canevacci, nascido em Roma, é Doutor em Filosofia, professor de Ciências da Comunicação e Antropologia Cultural na Universidade de Roma La Sapienza, Etnógrafo e Antropólogo, tendo realizado pesquisa de campo com os Bororo, no Mato Grosso. Professor no Instituto de Estudos Avançados, da USP, é autor de diversos livros, entre eles A cidade polifônica, sobre São Paulo.

Dedicado a observar e escrever sobre a contemporaneidade, Canevacci é um intelectual reconhecido internacionalmente. Apaixonado pelo Brasil (aquele Brasil que parece perdido), após o “golpe branco” cometido por Temer e seus apoiadores, Massimo devolveu, ao então presidente, a medalha da Ordem do Cruzeiro do Sul que lhe havia sido concedida pelo presidente Fernando Henrique Cardoso.

A seguir, os principais trechos desta entrevista exclusiva concedida por e-mail direto de Roma, onde vive Canevacci:

Maria Lúcia Verdi - Enquanto antropólogo e etnólogo com doutorado em filosofia e especialista em artes visuais, observador compulsivo do tempo presente - híbrido, sincrético, onde, segundo você, as categorias desabaram – você se surpreendeu com a invasão de um vírus ter colocado de joelhos o planeta? O que pode nos dizer sobre a reação dos governos e da sociedade frente a esse impasse?

Massimo Cavenacci - Sinceramente, foi uma surpresa crescente. No início de março, devido a um “acaso necessário”, minha mulher e meu filho partiram para São Paulo, onde eu deveria reunir-me a eles. Parecia um vírus unicamente chinês. A explosão na Itália e particularmente no norte, Lombardia e Veneto, duas das regiões com qualidade de vida das mais altas da Europa, me deixou sem voz. Mudo frente a uma tragédia em relação à qual o governo nacional está dividido, na medida em que a saúde pública na Itália é administrada pelas regiões. Mas as regiões, assim como as cidades, com exceção de Milão, foram atropeladas pelo vírus, fazendo com que o Estado interviesse com o governo central.

Devo dizer que, não obstante os defeitos, foi o sistema sanitário nacional a barreira ao vírus, o que muito me emociona: aqui ele é público e gratuito, médicos e enfermeiros estão pagando com a vida a sua dedicação. A sociedade, no início, reagiu com uma força e alegria que supreendeu o mundo inteiro: muitas pessoas foram para os balcões cantar, tocar nos terraços, descer cestas dos balcões, uma cheia de coisas, outra vazia: “quem pode, dá; quem não pode, pega”. Agora esta capacidade de emocionar com o canto diminuiu, mas não a de doar alimentos. Compreendeu-se que será um longo período. Quando saio para comprar comida, uma vez por semana, a fila é ordenada e breve: 2-3 metros de distância e se entra somente quando um cliente sai.

Você tem postado em seu Facebook um belo e instigante, se assim posso nomeá-lo, Diário do Confinamento. Se esse isolamento tiver de ser muito longo e vier a modificar definitivamente as relações com o trabalho, com família e amigos você acredita que a cultura digital poderia “resolver”, de algum modo, essa situação?

Poucos dias depois de ter ficado só em casa, situação para mim inédita, precisei organizar a minha vida cotidiana. E a primeira ideia que tive, assim por acaso, foi a de iniciar a escrever as minhas impressões ou reflexões diárias, sem uma ordem ou um projeto: pela manhã, após o café, abro o computador e escrevo sobre um assunto que me ocorre quando ainda estou na cama. E continuo com uma doce e precisa obsessão. Confesso que também me diverte, e muito...

Quanto ao digital, tenho sido desde o início (ensinando Ciências da Comunicação na Universidade La Sapienza) um convicto apoiador das possibilidades descentralizadoras e igualitárias da internet. Nos últimos anos, tenho revisto essas posições: a web favorece também o que defini como uma “personalidade digital-autoritária”, desenvolvendo uma célebre pesquisa de Adorno.

Com esta catástrofe viral, retomei a confiança, sou menos ingênuo mas sinto que podemos restabelecer aquele projeto igualitário-descentralizado que me apaixonou. Enfim, a cultura e a comunicação digitais exprimem o conflito “político” muito mais radicalmente do que aquele clássico da sociedade. E talvez também exprimam um futuro liberado...

 

Alguns dos seus conceitos, enquanto pensador da cena contemporânea – todos muito originais, instigantes e nada acadêmicos - trazem à tona, antecipadamente, questões muito atuais que o mundo da cultura e do entretenimento está tratando. Penso na série Westworld, que se passa num parque-temático onde as personagens (humanos e robôs) são “espect-atores”, como você define, vivenciando narrativas que se misturam no tempo-espaço. Suas colocações sobre identidades dissidentes de si mesmas, o encontro com o desconhecido, as narrativas diversificadas que compõem o “multividual” são colocações oportunas para pensarmos tudo o que estamos vivendo, muito antes do vírus. Poderia nos dizer algo a respeito?

Posso dizer que os meus conceitos de ubiquidade, ou identidade ubíqua (e ainda mais, de utopia ubíqua), de sincretismos culturais, de polifonia urbana, de sujeito transitivo e de meta-fetichismo (que busca reuni-los numa constelação conceitual), por vezes podem ter antecipado tendências. Ou, mesmo, esclareceram manifestações inovadoras, no seu fazer-se. [A série] Black Mirror é um exemplo nesta direção, onde, juntamente com Westworld, se pratica a diferença dicotômica entre natureza\cultura, orgânico\inorgânico, humano\não humano. O conceito de multividuo, que me apaixona particularmente, atesta que o sujeito não é um indivíduo indivisível (in-dividuum = atomon), mas sim sua identidade pode ser ubíqua, transitiva, sincrética e polifônica...

Você escreveu “Fake in China – viagem de superfície ao país que está mudando o mundo”. Eu vivi em Pequim por quase seis anos e apreciei a honestidade do título – de fato, por mais que se adentre no enigma chinês, temos sempre a sensação de estarmos na superfície. O que você pode nos dizer da China frente ao horror de um vírus que, ao que tudo indica, se origina nos mercados tradicionais, aparentemente resistentes à toda transformação?

Ensinei seis meses em Nanjing e foi uma experiência extradordinária, devido às profundas diferenças em relação ao ensino na Itália ou no Brasil. É certo, a China é um subcontinente tão complexo, com uma história de vários milênios, que tentar compreendê-la me pareceu uma empresa impossível, por isto decidi mover-me na superfície, viajando por muitos lugares de grande beleza e de indiferença ecológica...

Nos mercados populares, verdadeiras experiências etnográficas, é possível encontrar animais vivos, ou espetados, que me eram frequentemente desconhecidos ou, quando eram galinhas, parecia que as via pela primeira vez.

É certo, lá há uma gestão vertical das políticas fundamentais, enquanto, naqueles mercados, cada um pode fazer o que quiser, ao menos assim parece: em síntese, o slogan “enriquecei” é, por assim dizer, liberalizado. Mas é impossível falar de política ou... de poder.

No entanto, encontrei estudantes extraordinários que se empenham motivados pelo desejo de mudar de vida. E estudam muito, nos moldes do programa dado. Pareceu-me que a formação autodidata, no sentido clássico, está ausente. Tudo, ou ao menos muito é focado sobre um projeto específico: o diploma...

Com sua vivência no Brasil e casado com uma artista brasileira, como você avalia, comparativamente, a situação brasileira frente à italiana neste momento de caos. Os ethos das duas culturas me parecem bem distintos, não obstante a participação italiana na nossa formação. Índios e negros fizeram a diferença. Ultimamente descobrimos, no Brasil, um parentesco com a Itália que estava velado: a atração pelo discurso fascista.  Pode nos dizer algo sobre isso tudo?

Para mim, cada experiência no Brasil, seja em São Paulo, seja em Meruri, Mato Grosso, com a cultura Bororo, foi determinante, tanto quanto, senão além, da minha formação acadêmica. Devo muito ao Brasil, ou melhor, àquela parte do Brasil que vive no desejo e no empenho de transformar a vida, exatamente nas conexões com as culturas afro-brasileiras e indígenas, misturadas, como sabemos bem, com aquelas de origem europeia e também asiática (japoneses e posteriormente coreanos e chineses).

Por isto, em Roma, sempre ensinei buscando assumir o ponto de vista progressivo do Brasil sincrético e polifônico, conceitos que aprendi por lá...
Assim, foi com angústia que acompanhei o processo que defino como involução no país, muito semelhante ao que está acontecendo em outros lugares do mundo, da Itália aos Estados Unidos, da Hungria ao Egito, UK, Filipinas e aí vai. Quando o vice-presidente Temer organizou aquele golpe branco, sem entender que também ele era parte de um desenho de amplo espectro, lhe restituí a medalha que o embaixador Orlando Carbonar, em nome do presidente FHC me entregara, na Piazza Navona. Dia inesquecível para mim. O Cruzeiro do Sul, que me foi concedido, é incompatível com o que ocorreu e ainda mais com a eleição de Bolsonaro.

O fascismo histórico dificilmente pode ser repetido: foi o fruto de muitos elementos políticos e culturais que não são replicáveis. No entanto, o projeto autoritário, racista, homofóbico, sexista e, em economia, da aliança entre as centrais agroalimentares e o capital financeiro (Fiesp) - mas não aquele, industrial, que, no meu ponto de vista, conviveu bem com os governos Lula - tudo cimentado pelo super poder ultrarreacionário das igrejas evangélicas e de um subterrâneo moralismo repressivo a qualquer erotismo, o que apenas os estereótipos buscavam esconder: tudo isso criou um substrato popular que elegeu democraticamente Bolsonaro. Esta é a coisa mais preocupante. Ainda hoje leio que 60% dos brasileiros são contrários ao seu afastamento do poder.

Enquanto Trumpp modificou suas estupidezes iniciais sobre o vírus, Bolsonaro continua a dizer que é uma gripezinha porque, segundo penso, atrás disto está a visão evangélica segundo a qual o vírus ataca os pecadores e não as pessoas fiéis. Portanto, é a alma que se deve salvar com a gestão dos “pastores” e não a medicina, nem a ciência antivírus. Salvini afirma coisas semelhantes e também o Estado Islâmico. Nós nos encontramos, portanto, frente a um perigo diferente e, sob alguns aspectos, quase piores do que o fascismo histórico enquanto anticientífico e ultrafundamentalista.

Em tempo:

As respostas de Canevacci ficam ecoando em mim. Seu entusiasmo por um Brasil atemporal, com quem tanto aprendeu, seja com a vivência entre os índios Bororo, seja entre a intelectualidade e os estudantes paulistas.

Sua vivência na China, a percepção do enigma chinês, a China confuciana que obedece, que se encerra pelo tempo que for necessário, um país que desafia as interpretações, um sistema econômico sincrético, um neo-Império socialista-capitalista que se dispõe a ajudar o mundo neste momento de inimaginável crise. A China tradicional que ainda habita o ser profundo dos chineses, daí a resistência a mudar hábitos alimentares, o que acontecerá, sem dúvida, pois o PCC está avaliando esta necessidade e já agiu nesta direção.

Em sua página no Facebook, no texto sobre a Esperança, bandeira que temos de levantar, escrito a partir de uma lembrança da juventude – Luigi Tenco, o cantor que também emocionou o Brasil, e seu lirismo filosófico - dá a Massimo o gancho para dizer de sua relação com Shakespeare e o dilema hamletiano - aprovo a proposta do pensador italiano: talvez não mais o drama radical da escolha “Ser ou não ser”, mas talvez o oriental que nos propõe: “Não se trata de escolher entre ser ou não ser. Trata-se de imaginar o não-ser-ainda” . Esta proposta de Mássimo me dá esperança, sobretudo nestes tempos quase apocalipticos. (MLV)

Criado em 2020-04-08 14:18:17

Aos astros que nos ajudam a viver

Angélica Torres –

Grudada na TV no último 13 de julho, vendo a programação em homenagem ao Dia do Rock, percebi que o rock fez, e ainda faz, de quem o ama um ser humano melhor. O enfeitiçante show do Doors, o do lendário Led Zeppelin, o dos Stones em Cuba, de arrepiar a alma, e o extasiante Us and Them, do gigante, político, Rogers Waters e essa indubitável certeza: o rock educa, lapida a consciência, toca fundo a sensibilidade, enquanto as guitarras choram a poesia humanista que os músicos entoam.

“Antes que eu caia naquele sono profundo/ quero ouvir a voz da borboleta. / Nós queremos o mundo e o queremos agora”, cantava Jim Morrison; “E eles dizem que em breve/ se todos entoarmos a canção/ então o flautista nos trará de volta à razão/ e um novo dia nascerá/para aqueles que resistirem”, Robert Plant em seu recado antológico; “Eu fui à manifestação receber a minha parte de agressão”, Mick Jagger tão próximo de nós; “Grande homem/ homem porco/ adivinha o que você é/ seu magnata endinheirado/ ei, você, Whitehouse/ adivinha o que você é/ sua ratazana conservadora/ você tenta manter nossos sentimentos fora das ruas”, Waters citando George Orwell e atingindo Trump em cheio.

Ali, comovida diante de tantos poemas de conteúdo sociopolítico musicado, a imaginação voou alto e retrogadamente: fiquei imaginando a polonesa Rosa Luxemburgo (1871-1919) subindo ao palco, de microfone em punho, com o seu chapéu florido, seu claudicar charmoso (os mancos me enternecem!), a pregar seu lírico, revolucionário pacifismo, ao modo de Patti Smith em tom de discurso, mais do que propriamente de canção.

Olhava para a tela da TV e para o livro dela no meu colo, tendo esta outra certeza: o mundo não teria perdido em grandeza de ideias e de palavras se Rosa Luxemburgo, em vez da militância em prol da luta do proletariado internacional, tivesse se dedicado à poesia. Além de filósofa, economista, professora, feminista, essa admirável, douta mulher, a principal líder da Liga Espartaquista, reconhecida como a mais importante marxista da História, deveria ser catalogada também como literata, tal o teor poético contido em suas cartas escritas na prisão.

Mais que o peso dos seus textos de teoria política, a leveza e a beleza de seu lirismo estonteiam. Além de sublimes, as cartas da prisioneira, datadas de 1916 e 1917, deixaram férreas lições, especialmente para nós, neste nosso duro momento histórico. Os trechos transcritos abaixo comprovam e nos servem de exemplo de coragem e tenacidade.

Carta de Rosa à prima Sonia Liebknecht

(...) "É o meu terceiro Natal no xadrez, mas não considere isso tragicamente. Estou calma e alegre como sempre. Ontem fiquei muito tempo acordada – agora não consigo dormir antes da uma, mas preciso ir para a cama às dez, porque a luz é apagada –, e então, no escuro, sonho com diversas coisas. Ontem então pensava: como é estranho eu viver permanentemente numa alegre embriaguez, sem nenhuma razão em particular.

Assim, por exemplo, estou aqui deitada nesta cela escura, no colchão duro como pedra, enquanto à minha volta, no edifício, reina a habitual paz de cemitério; parece que se está no túmulo. Através da janela desenha-se no teto o reflexo do bico de gás ardendo a noite inteira na frente da prisão. De tempo em tempos houve-se o ruído surdo de um trem que passa ao longe, ou então, bem perto, debaixo das minhas janelas, o pigarro da sentinela, que, com suas botas pesadas, dá alguns passos lentos para desentorpecer as pernas.

A areia estala tão desesperadamente sob esses passos que todo o vazio e a falta de perspectivas da existência ressoam na noite úmida e sombria. E aqui estou eu deitada, quieta, sozinha, enrolada nos véus negros das trevas, do tédio, da falta de liberdade, do inverno – e, apesar disso, meu coração bate com uma alegria interior desconhecida, incompreensível, como se sob um sol radiante eu estivesse atravessando um prado em flor.

No escuro, sorrio à vida, como se eu conhecesse algum segredo mágico que pune todo mal e as tristes mentiras, transformando-as em luz intensa e felicidade. E, ao mesmo tempo, procuro uma razão para essa alegria, não encontro nada, e tenho que sorrir novamente – de mim mesma. Creio que o segredo não é outro senão a própria vida; a profunda escuridão noturna é bela e suave como veludo, basta saber olhar. No estalar da areia úmida sob os passos lentos e pesados da sentinela canta também uma bela, uma pequena canção da vida – basta apenas saber ouvir.

Nesses momentos penso em você. Gostaria tanto de passar-lhe essa chave mágica para que você percebesse sempre, em todas as situações, o que há de belo e alegre na vida, para que também você viva na embriaguez, como que caminhando por um prado cheio de cores. Longe de mim a ideia de contentá-la com ascetismo, com alegrias imaginárias. Concedo-lhe todas as verdadeiras alegrias dos sentidos. Só gostaria de dar-lhe também a minha inesgotável serenidade interior, para não me preocupar mais com você, para que andasse na vida com um manto de estrelas protegendo-a de tudo o que é mesquinho, banal e angustiante”.

Carta à mulher do diretor da prisão (*)

Noutra também longa carta, dirigida à mulher do diretor da prisão em que seus inimigos políticos a encarceraram, não é menos surpreendente o rigor literário com que Rosa Luxemburgo narra as belezas da flora e da fauna miúda do jardim do pátio onde ela tinha permissão para passear. Mas o destaque dos trechos abaixo é para o entusiasmo com que encara a duríssima condição de seus últimos anos de vida. Em 1919 ela seria assassinada pelos soldados prussianos, com a cumplicidade de seus antigos companheiros socialdemocratas.

"Toca e triunfa e jubila em silêncio no céu a orquestra das cores por cima dos muros tristonhos da Barnimstrasse. O sol, o sol desponta sobre a fábrica de vinagre! Salve, velho, eternamente jovem sol, saúdo-te! Se apenas continuares me querendo bem, se vejo tua face dourada, o que me importam grade e cadeado? Pois não sou livre como aquele pássaro no telhado, que te exulta agradecido como eu? Se porventura, no fogo de uma Revolução Russa, eu for conduzida à forca, limita-te a brilhar para mim no pesado caminho e caminharei feliz e sorridente até minha última elevação, como para um banquete de casamento."

"Aproxima-se o meio-dia, finalmente pego meu Homero e recolho-me à minha cela. O bom Homero quedou-se pacientemente o tempo todo em cima do banco. A senhora também conhece o efeito maravilhoso de um bom livro ao alcance das mãos, mas que não se lê. Quantas vezes procuro um bom livro que me acalente suavemente até o sono, à noite. Às vezes demora até encontrar o livro certo. Então, coloco na mesinha, ao lado da cama – sem tocar nele. Basta sua mera presença.

Assim, Ulisses me faz companhia todas as manhãs no meu passeio pelo pátio, mas neste outono ainda não fui além dos insultos do corcunda Tersites. E o que importa? Tersites morreu há muito tempo, mas a aranha vive, compartilha comigo o breve instante da existência que nos foi destinado pelos deuses. Uma tarde na prisão passa muito depressa”.

Então, a celebração do Dia do Rock, 101 anos depois da morte de Rosa Luxemburgo, tem a força de trazer, melancolicamente, esta imponderável certeza, de que a vida seria insustentável se não contássemos com os músicos, os poetas, os revolucionários de todos os tempos, para nos valerem como faróis nos períodos de insistente escuridão.
___________________
*Carta de 10 de março de 1917 para Hanna-Elsbeth Stühmer. Tradução de Ângela Mendonça e Roberto Muggiatti, com a colaboração de Adriana Borgerth, Simone Ruthner e Oswaldo Kuster Neto e coordenação de KrIstina Michahellis. Fonte: Rosa Luxemburgo ou o preço da liberdade. Org. Jörn Schütrumpf. Fundação Rosa Luxemburgo: SP, 2015.·.

 

 

Criado em 2020-07-17 00:07:28

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