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Osni Calixto (*) –
São Luís (MA) – O lançamento da pré-candidatura do secretário de Gestão e Previdência, Felipe Camarão, ao governo do Maranhão pelo Partido dos Trabalhadores, e a movimentação política do governador Flávio Dino deram a tônica do que serão as próximas eleições de 2022 no estado. Tudo passando pelas mãos do velho cacique José Sarney com aval do ex-presidente Lula.
O PT agita a corrida eleitoral para a sucessão de Flávio Dino e aproveita a semana do pós-feriado de Finados, com um ato de lançamento da pré-candidatura de Felipe Camarão gerando o fato político mais importante do mês. O ato denominado Avante Maranhão aconteceu quinta-feira, 4/11, no espaço Residencial Recepções, em São Luís, e contou com a presença de políticos, de seis secretários e da militância petista, buscando ampliar o leque de alianças de Luís Inácio Lula da Silva.
O fato oposto que determina a polarização no estado, foi protagonizado pelo deputado federal Josimar Maranhãozinho, do PL, (partido ao qual o presidente Jair Bolsonaro pretende se filiar), com uma carreata no interior do estado. Ele é o único candidato a declarar apoio a Bolsonaro, que tem grande rejeição no estado devido às suas declarações preconceituosas contra o Maranhão e o governador Flávio Dino.
O nome do secretário Camarão, além de ampliar o leque de apoios à candidatura Lula, que recentemente visitou o estado, mexe no tabuleiro da sucessão presidencial e estadual ao mesmo tempo, onde existem outras duas pré-candidaturas já formalizadas no campo político do governador: o vice Carlos Brandão (PSDB), preferido de Flávio Dino, e o senador do PDT, Weverton Rocha, com quem Lula vem conversando. Mas, nos bastidores, tanto o governador Flávio Dino, como a direção nacional do PT trabalham para a unificação das candidaturas em torno de Brandão e o apoio exclusivo a Lula. Tudo isso, passa pelas mãos do proeminente ex-presidente José Sarney.
No Maranhão é assim: depois de todas as articulações e alianças, e de todos os movimentos políticos, o assunto vai à chancela do velho articulador José Sarney. Até mesmo o deputado federal Josimar Cunha Rodrigues, o Maranhãozinho, único candidato declaradamente bolsonarista, já foi “pedir benção” a Sarney.
Pesquisas & Lula
No Maranhão, como de resto no Nordeste, Lula lidera, com folga, todas as pesquisas e vence Bolsonaro em todos os cenários possíveis. A mais recente, realizada pelo Instituto de Pesquisa Exatas, dá ao ex-presidente a margem de 62% das intenções de votos contra 17% de Jair Bolsonaro, além de suplantar a soma dos outros: Ciro Gomes (6%), Sérgio Moro (2%) e João Dória (1%). A polarização é tão marcante, que quando perguntados sobre a rejeição (Em quem você não votaria de jeito nenhum), os dois mudam de posição: Bolsonaro assume a liderança com os 65% de rejeição e Lula tem a segunda menor taxa com 21%, só maior que a de Ciro Gomes, que tem 19%. É neste cenário que Lula vai sedimentando a sua vitória, no Maranhão e em todo o Nordeste com tranquilidade.
Em sua viagem de três dias ao Maranhão, o ex-presidente Lula articulou com todos os segmentos e deixou deixou em aberto as costuras políticas, mas, foi fechar com Sarney a posição do grupo. O ex-presidente quer uma ampla aliança de centro-esquerda que lhe dê a folga necessária para o enfrentamento com o Sul e o Sudeste do país. A coordenação é do governador Flávio Dino, com aval de José Sarney. A disposição de Roseana – ex-governadora de quem o PT teve o vice – é disputar uma vaga no Congresso. Lula já sinalizou que a quer como deputada federal.
Esta tese tem o aval do presidente do PT estadual Augusto Lobato e do deputado estadual Zé Inácio, que prestigiou o evento petista, mas é certo que o partido manterá a pré-candidatura de Camarão até a convenção oficial ou uma definição de unidade. “É uma questão de estratégia política e de tática eleitoral” argumentou Lobato, lembrando que a prioridade do Partido dos Trabalhadores é a eleição do presidente Lula e a formação de fortes bancadas no Congresso Nacional.
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(*) Osni Calixto é jornaista.
Criado em 2021-11-11 00:14:07
Alexandre Ribondi –
Há muitos anos, eu estava num almoço de pessoas elegantes, simpáticas e inteligentes, no Lago Sul, em Brasília. O assunto eram as ditaduras latino-americanas e eu ousei dizer que todas (Chile, Argentina, Uruguai, Brasil) tinham sido igualmente violentas e monstruosas.
Um diplomata francês me olhou com certo desprezo irritado e disse, como quem me manda calar a boca: "Ah, quanto sentimentalismo. O Chile prendeu, torturou e matou muito mais do que o Brasil e portanto vocês, brasileiros, não podem querer se envolver nessa lista".
Depois de um certo silêncio, respondi: "Fui preso e torturado, meus amigos também, alguns foram assassinados. Agora, me olhe nos olhos e me diga outra vez que nossa ditadura foi menos violenta que as outras".
É isso o que acontece quando se discute o Brasil no conforto de sua condição social, ou por saber o que é ditadura apenas de ouvir falar. Numa ditadura, não se discute, com elegância e indiferença, quem vai governar melhor o país. Discute-se como vamos nos livrar dos militares, dos torturadores, dos racistas, da elite bandida.
Vocês, que não viveram a ditadura, e que estão seduzidos por firulas ideológicas, enquanto a direita estrategicamente se organiza em torno de um só candidato, deviam aprender, no corpo e na alma, o que é tomar decisões e fazer escolhas na premência e no horror de um golpe militar, com a polícia à porta.
Deveriam saber o que é ter força ideológica para defender seus irmãos presos e torturados. Deveriam saber que é na união, e não apenas no voto, que se combate o fascismo.
Ponham a mão na consciência e votem com felicidade.
Criado em 2018-10-06 20:32:38
Marcos Bagno -
O mais importante prêmio do mundo editorial brasileiro, o Jabuti, foi atribuído em 2016, numa de suas categorias, e acho que pela primeira vez, a uma obra que trata de questões linguísticas.
É o livro Língua e sociedade partidas: a polarização sociolinguística do Brasil, publicado em 2015 por Dante Lucchesi, um pesquisador reconhecido por suas investigações acerca do impacto das línguas africanas sobre o português brasileiro.
Ao lado de outro livro importante, que recomendo sempre enfaticamente, a História sociopolítica da língua portuguesa, de Carlos Alberto Faraco, lançado este ano, temos já à nossa disposição um panorama muito bem documentado da realidade linguística brasileira nos dias de hoje e ao longo do tempo.
Muitos acreditam que a língua portuguesa se implantou no Brasil logo no primeiro dia em que os portugueses pisaram estas terras.
Já teve filólogo conhecido que disse que o português aqui se espalhou “como mancha de azeite no papel”, porque as outras línguas eram “incultas” e “rudes”, e não tinham como fazer “concorrência” ao português “civilizado”.
Me engana que eu gosto! Essa ideologia é facilmente desmascarada quando estudiosos sérios, como Lucchesi e Faraco, recorrem aos documentos históricos e aos resultados da investigação científica.
Se hoje o português é a língua majoritária dos mais de duzentos milhões de habitantes do Brasil, essa situação levou muitos séculos para se estabelecer.
Durante a maior parte do período colonial, os primeiros trezentos anos, o português foi língua extremamente minoritária. Existiam centenas de línguas indígenas e duas delas, o tupi da costa e o tupinambá, acabaram se tornando o que chamamos de “línguas gerais”, veículos de interação entre falantes de línguas diferentes, incluídos os colonos portugueses.
Em carta escrita no final do século XVII, o padre Antônio Vieira atestava que a língua mais falada em São Paulo era “a dos índios”.
Os filhos dos portugueses com as índias também só falavam a língua indígena, e os célebres bandeirantes, que saíram explorando as terras desconhecidas atrás de riquezas e de índios para escravizar, também eram falantes da língua geral.
Foi a descoberta do ouro em Minas Gerais, no final do século XVII, que provocou uma grande reviravolta linguística no Brasil. Muitas pessoas de outros cantos da colônia se deslocaram para a região mineira, em busca de fortuna.
Milhares de escravos foram retirados da cultura canavieira e levados para escavar as minas.
Além disso, mais de meio milhão de portugueses vieram da Europa para cá, atraídos pelas oportunidades de enriquecer.
Foi esse encontro de classes sociais diversas, falantes de línguas diversas, mas capitaneado pelos senhores das terras, os falantes de português, que permitiu o que Lucchesi chama de “primeira vaga de lusofonização do Brasil”.
A partir daí, o português segue uma curva ascendente até se impor como a língua mais falada entre nós.
Para isso, foi preciso extinguir, por meio de genocídio sistemático, centenas de povos (e línguas) indígenas; escravizar milhões de africanos que, trazidos para cá, tiveram de aprender a língua de seus senhores de modo irregular e assistemático, dando surgimento às variedades populares do português brasileiro.
Como tudo na nossa história, foi um longo e doloroso processo, marcado pelas mesmas violências que ainda imperam na nossa sociedade, uma das mais desiguais do planeta.
Criado em 2017-01-07 14:39:13
Sandra Crespo -
Numa loja de Copacabana, a moça me pergunta se eu estou animada para as Olimpíadas. Não sou amante de esportes, respondo, mas acho legal o movimento para a cidade. Sem contar que houve algum legado, como a expansão do metrô, o VLT...
"VLT? Ih! Aquele que vai do nada para lugar nenhum?", diz a moça. "Nada", no caso, é o aeroporto Santos Dumont. E "lugar nenhum" é a rodoviária Novo Rio. O VLT passa por várias estações de metrô e ainda pela praça Mauá, onde há o MAR e o Museu do Amanhã.
Pois bem, além desses argumentos, ainda conto a ela que peguei duas vezes o VLT e ele estava lotado de trabalhadores e visitantes (Gente que gosta de ficar indo e voltando do nada para lugar nenhum).
"Inclusive uma senhora me disse que o trajeto do trabalho até sua casa, que era de 45 minutos, passou a ser de 15 minutos", completei.
A moça não se deu por vencida. "Mas eles vão desligar o VLT assim que acabarem as Olimpíadas!"
E o Romário: "Então o povo tem que exigir que continue funcionando."
“Ahhhhh, O jeito mesmo é colocar os índios para governar, não tem jeito”, responde a moça.
Eu tava de bom humor e apenas sorri, fechando a compra. Mas me deu vontade de dizer Faz o seguinte: vota em uns caras bem ordinários para você continuar com muito motivo para reclamar.
Afinal, se o VLT ou o metrô não me beneficiam, o que me importa se melhoram a vida do outro? E, se o mantra é "do nada para lugar nenhum", todos têm que entoá-lo, não é mesmo?
Eu fiquei com um pouco de pena daquela moça. Ela tem uns 20 anos e parece concentrar toda a desilusão do mundo.
Criado em 2016-08-03 00:59:17
Li sua carta, dirigida ao Senado e também ao povo brasileiro. Portanto, sou uma das milhões de destinatárias e não deixo carta sem resposta, considero uma grosseria.
Você tem sido alvo de muitas grosserias e brutalidades, tanto ontem como agora, da parte de um Brasil tacanho, misógino, hipócrita, racista ou, numa palavra que resume todos esses adjetivos e outros afins – careta.
Sendo quase da minha idade, você deve ter usado muito essa palavra durante a juventude, não? Ainda uso muito, gosto dela por sintetizar tudo que abomino e recuso neste mundo.
Somos da geração “que sonhou um dia jamais envelhecer”, como disse o Chico Botelho (1948-1991), cineasta paulista, no documentário "A longa viagem", de 1984.
Durante a juventude, em tempos de ditadura de velhos generais, lutamos, cada uma à sua maneira, pelo que nos movia – a liberdade. Havia as militantes dos movimentos e organizações, como você.
Havia as “desbundadas”, que queriam apenas viver livremente a juventude – o que já era querer demais, naqueles tempos duros.
E havia as “hippies de esquerda”, expressão que o Domingos de Oliveira usa em um de seus deliciosos filmes da maturidade e encontrei exata para dizer o que fui e ainda sou, de certa maneira.
Precisávamos, todas, da senhora liberdade. Para pensar, para amar, para viver. Com Caetano Veloso, dissemos “sim ao sim e não ao não” e quisemos que fosse proibido proibir, frase escrita nos muros do maio de 1968 que de Paris se espalhou pelajuventude do mundo afora.
Para ler os livros que quiséssemos e ver os filmes que quiséssemos, por que não? Para amar quantos e quantas quiséssemos, da maneira que quiséssemos.
Para casar ou não, para ter filhos ou não. Para viajar sozinhas. Para ser mães solteiras, sem vergonha. Amávamos os Beatles, os Rolling Stones e o Che Guevara, também. Líamos e aprendíamos, com Gaiarsa e Reich, a “romper a couraça muscular do caráter”.
Líamos o romance “Cleo e Daniel”, do Roberto Freire que vale a pena, escritor e psicanalista, e com ele aprendemos que “sem tesão não há solução”.
Com Leila Diniz, a musa morena do Domingos e depois do Ruy Guerra, aprendemos a libertar nossas barrigas grávidas para o sol e o sal do mar. Queríamos a escola livre e sem medo de A. S. Neill.
Algumas queriam abrir as “portas da percepção”. Mas não queríamos liberdade só para nós, queríamos que ela fosse para todas, para todos. Para o Brasil.
Admirávamos e éramos solidárias com vocês, que conheceram os porões, as torturas, e muitas encontraram ali a morte. Não tínhamos disciplina para participar da luta organizada, mas muitas de nós fomos parar também nas prisões, peixinhas desavisadas que caíamos nas redes da repressão, que eram largas e poderosas.
Sobrevivemos. Você sobreviveu. E foi com muita alegria que, depois de lutar pela Anistia, pedir eleições Diretas Já, vimos chegar a tão sonhada liberdade, a volta dos exilados, a libertação de quem estava nas prisões por motivos políticos, e as primeiras eleições diretas, finalmente. Meu primeiro voto foi para o Lula. Perdemos. O segundo, também. Perdemos de novo. O terceiro também. Perdemos de novo.
Mas tudo bem, eram as regras do jogo, ainda que um jogo cheio de trapaças. Finalmente, elegemos Lula. Que alegria, que festa na Esplanada! Um operário nordestino no Planalto, parecia um sonho. E depois elegemos Lula outra vez.
Em 2010, levamos a bandeira vermelha com seu nome para as ruas da cidade, vestimos a camiseta vermelha e votei com muita alegria e orgulho em você, a sobrevivente dos porões, a primeira mulher a presidir o Brasil.
Em 2014 a luta foi dura, “eles” já estavam muito bravos com tanta ousadia. Fomos de novo para a rua gritar seu nome, a minha camiseta vermelha tinha o seu rosto e a legenda “Coração Valente”.
E assisti estarrecida o grito canalha contra você num estádio de futebol lotado de camisetas amarelas. Você é tão valente e defensora da liberdade que disse preferir as vaias da democracia que o silêncio da ditadura.
E por um ano e pouco seguiu o seu segundo governo, atribulado, muito atribulado. Em abril deste ano, fui para a Esplanada num domingo tão triste para quem ama a gente brasileira mais pobre, para quem quer e sonhou sempre com um Brasil livre e justo...
E vi o cinismo dos que exibiram os infames cartazes dizendo “tchau, querida”. Chorei muito aquela noite. Mas você é querida de verdade por muitas de nós que nos reconhecemos em você.
Por muitas que conseguiram, nos últimos anos, alimentar melhor os filhos, mantê-los da escola. Por muitas que foram as primeiras da família a chegar a uma universidade pública. Que trataram melhor da saúde, sua e da família, com remédios de graça.
Você, minha quase vizinha, já deve estar arrumando a bagagem para deixar o singelo palácio alpendrado da Alvorada. O Brasil careta não te aguentou. Mas o outro Brasil, o que te chama de Dilmãe, e sinceramente te diz querida, vai sentir a tua falta.
Aproveite a liberdade que te deram, dessa vez contra a tua vontade. Uma vez você disse que, quando deixasse de ser Presidenta, ia libertar das tintas a prata dos cabelos.
Agora você pode, jovem senhora. Pode bicicletar livre pelas ruas de onde quiser; pode levar sua velha mãe, sua filha, seus netinhos para visitar a pátria dos ancestrais.
Que tem uma capital de nome tão lindo, Sófia, que me lembra a antiga sabedoria da Grécia, que fica logo ali, vizinha. Abre-se para você o tempo da sabedoria das jovens senhoras. Aproveite. E dê notícias.
Da sua eleitora, admiradora e companheira de geração, Zuleica Porto.
Criado em 2016-08-17 14:41:32
Maria Lúcia Verdi (*) –
Em tempo de luta acirrada contra o racismo, vale lembrar a contribuição de Tahar Ben Jelloun nascido em Fez, Marrocos, em 1944. Criado duplamente na cultura árabe e francesa, escolheu escrever em francês, a língua do colonizador, como um desafio. Franz Fanon dizia que era o melhor instrumento de luta: dominar a língua de quem nos domina.
Confessa, também, que se sentia mais livre em francês, sendo o árabe a língua sagrada do Alcorão. Estudou Filosofia no Marrocos, mas diplomou-se em Psiquiatria Social em Paris. Romancista, ensaísta e poeta, é ganhador do Prêmio Goncourt, em 1987, com o romance A Noite Sagrada continuação do O menino de areia, que narra a história de uma menina árabe criada pelo pai como menino e sua luta para assumir a identidade verdadeira.
Sua obra se ocupa de temas complexos, inerentes às questões de identidade, exílio, justiça e liberdade. É um grande crítico do que chama a desumanização do capitalismo. Seu livro O racismo explicado à minha filha recebeu o Prêmio Global Tolerance, da ONU, em 1988. Também escreveu sobre Como explicar o Islam para crianças.

Ativo educador, ministra palestras continuamente para estudantes de todos os níveis. Crítico severo dos radicalismos fundamentalistas, diz sentir-se melhor na França do que no Marrocos, por não suportar a corrupção e a hipócrita resistência à modernização dos costumes que diz imperar em seu país.
Aos vinte e quatro anos, em 1968, escreveu um de seus poemas mais emblemáticos, Planète des singes (Planeta dos macacos), irônico e doloroso libelo contra a violência e o racismo da população francesa em relação aos nativos do Marrocos, por eles depreciativamente chamados de BCOTS, no poema traduzido como gentinha nativa. O tema do Planeta é o abuso sexual dos jovens marroquinos, corpos aceitos e desejados pelos turistas franceses como objeto de erotismo, mas não nas dependências do Clube Mediterranée, que praticava estritas regras racistas. Ao final do poema, Ben Jelloun une o pronome pessoal ao substantivo: mamediterranée\meumediterrâneo - lembremos que nos últimos vinte anos morreram 30.000 pessoas nessa região.
Agradeço a Nicole Pegeron e Antônio Carlos Queiroz pela boa troca de ideias necessária à tradução deste texto.
Planeta dos macacos
Vai até lá, é um país para consumir rapidamente
ele está ao alcance do teu prazer
Ah! Que belo país o Marrocos!
Ouarzazate!
Ah suas cegonhas tutelares que alisam os bicos
no oco de suas asas
Deixa o teu trabalho, a mulher e os filhos
Vem rápido rodear-te com arames farpados nos guetos onde tripas secam ao sol
Vem dependurar teus testículos nas muralhas de Zagora
Vai recuperá-los em Marrakech-a-vermelha
Deixa hibernar tuas lembranças
e leva novas neuroses
Aponta o teu dedo ao céu
arranca um pouco de sol do nosso subdesenvolvimento
A tua impotência se multiplicará em memórias decapitadas
e a tua noite de breu estenderá
suas muralhas como cortejos de esgotos
Atenção aos Mouros\ à gentinha nativa
eles são ladrões e fedorentos
podem arrancar o teu cérebro
calciná-lo e oferecê-lo sobre tabletes de terra muda
(melhor escutar outra voz)
O clube mediterranée é a tua salvação
Ambiente francês garantido, exigido, reembolsado
Monta sobre os dromedários
tua vertigem estará à altura da tua fome sem fim,
tua boca se abrirá para salivar quedas e prantos
Pela manhã, bebe um pouco de sangue árabe: até deixar
descafeinado o teu racismo
Aos amigos oferece a tua memória tatuada
cartão postal da beatitude em alumínio
ressonância obscura do teu crânio arrogante
E depois, come um
árabe
Ele é natureza, um pouco selvagem
mas de uma virilidade...
Sexo em tiras de carne exilada
permanecerá suspenso
ao fio de tua memória vergonhosa
Não poderás mais arrancá-lo de teus fantasmas
ejaculará a humilhação e o estupro na tua cara
Feridos
Vocês se amontoarão sob as árvores, domados
verão as estrelas se dissolverem em seus sonhos
fáceis
A febre subirá e vocês cuspirão sangue
sobre os bons sentimentos
Carniças hão de crucificá-los
à sombra do maravilhoso sol do clube
meumediterrâneo
__________
(*) Maria Lúcia Verdi, poeta e tradutora deste poema.
Criado em 2020-07-13 15:45:39
Angélica Torres –
Segredos do Putumayo, o novo documentário do cineasta Aurélio Michiles, chega em momento mais do que necessário pondo luzes sobre Roger Casement (1864-1916), revolucionário irlandês e herói de uma causa que envergonha a humanidade desde sempre: o escravismo e o extermínio de povos indígenas, no Brasil e na África.
Realizado ao longo de cinco anos, com base em ampla pesquisa de documentos históricos, diários, fotos, entrevistas, Segredos do Putumayo resultou em impactante denúncia, justo quando a Amazônia sofre incêndios criminosos e nossos indígenas padecem desde o completo desamparo ao alto número de mortes, por descaso governamental. Não é mera coincidência. A memória de Putumayo é a constatação da história escabrosa dos interesses imperialistas.
Filmado em La Chorrera e arredores de Leticia (Colômbia), Tabatinga e Manaus (Amazonas), entre os índios Uitoto, Bora, Ocaina e Muiname, o filme foi lançado este mês no festival É tudo Verdade e recebeu do júri menção honrosa, para inconformismo de muitos que o assistiram e o queriam vencedor da competição. Mas outros festivais virão e espera-se que esteja à disposição para ser visto no escurinho dos cinemas, em meados de 2021, como deseja e promete o cineasta. Ninguém perde por esperar.

Entre as muitas qualidades do documentário, uma que logo captura o espectador é a mescla harmônica dos registros fotográficos de Casement com a ambientação e o tratamento das imagens atuais, produzidas sob a direção de André Lorenz Michiles. Mas o clima gerado também pela trilha sonora de Alvise Migotto atinge em cheio a emoção, tomada sobretudo pelo pungente conteúdo dos diários de Roger Casement – cerne deste novo trabalho de Aurélio Michiles. Desenvolvido junto a Angus Mitchell, o historiador irlandês e organizador do resgate desse documento histórico em livro, o filme contou também com a colaboração do escritor Milton Hatoum, antigo amigo e parceiro de Aurélio.
De fins do século 19 à segunda metade do século 20, o cidadão irlandês Roger Casement serviu à coroa britânica como cônsul no Congo e depois na Amazônia, aonde testemunhou e escancarou ao mundo as barbaridades cometidas aos indígenas dessas duas regiões por empresas exploradoras de borracha. A missão na Amazônia era a de investigar os boatos que corriam em Londres sobre a violência do tratamento dado aos indígenas brasileiros, peruanos e colombianos, na região do rio Putumayo, pela Peruvian Amazon Company.
Casement registrou em texto e também em imagens os horrores praticados com crianças, jovens, mulheres, homens e idosos indígenas, se não trouxessem muitos quilos da borracha coletada na floresta, carregada presa à testa – e sem serem alimentados, que dirá remunerados. Impossível não se emocionar profundamente com a violência exposta na tela. Chega-se a lamentar que aqueles índios não fossem guerreiros, para defender seu povo das sevícias na escravidão imposta pelos funcionários do empresário Julio César Arana.
(Abaixo, Michiles e o historiador Angus Mitchell.)

Cônsul e poeta rebelde - Além de precipitar o fim do mercado da borracha no Brasil, o ousado enfrentamento do conde ao império britânico acabou por levá-lo à morte, condenado por “alta traição”. Mas mais que um diplomata e anos depois reconhecido como herói da história da Irlanda, Roger Casement era um poeta. Seus diários são narrados no filme pelo ator irlandês Stephen Rea em tom e inflexão fleumáticos, que contrastam e ao mesmo tempo enfatizam a compaixão do autor pelo sofrimento dos índios. Já em diferentes trechos, Casement é sutilmente ferino quanto aos verdugos.
Rea dá então, magistralmente, vida aos textos, que longe de soarem como frios relatórios diplomáticos provam ter sido Roger Casement um herdeiro da boa literatura irlandesa – essa que reúne nomes como Beckett e Joyce, Oscar Wilde, Bernard Shaw e Thomas Moore, além do poeta William Butler Yeats.
Não por acaso, o rebelde, fascinante, controverso diplomata (que no Brasil foi cônsul em Santos, Belém e Rio), atraiu a atenção de grandes escritores. Entre as obras literárias envolvendo sua lendária personagem está o célebre poema The ghost of Roger Casement, publicado em 1936 por W.B. Yeats, que repete o verso, ainda tão atual: “o fantasma de Roger Casement está batendo à porta”. Agora é Michiles quem traz de volta à cena esse “fantasma”, que tanto incomoda os fascistas de todos os tempos.
Segredos do Putumayo é tão atual, que, outra imediata sinapse leva a ver Julian Assange, do WikiLeaks, revivendo hoje calvário semelhante ao do revolucionário irlandês. Assim como Assange foi envolvido em acusações de cunho sexual e encarcerado, a polêmica que impediu o indulto a Roger Casement deveu-se a supostos diários sobre sua conjecturada homossexualidade.
Esses tais diários foram dados como descobertos pelo Ministério de Relações Exteriores britânico e noticiados como objeto de investigação das relações que manteve em sua vida privada. Em The ghost of Roger Casement, o poeta expõe sua postura nacionalista à Irlanda e de repúdio ao imperialismo britânico e noutro poema, também de 1936 e intitulado “Roger Casement”, Yeats escreveu: “They turned a trick by forgery / and blackened his good name”.

Foto da viagem de Casement ao Congo belga, que o filme mostra: um pai olha mão e pé cortados da filha de 5 anos
O engajamento - Alguns especialistas defendem que as viagens de Roger Casement ao Congo e em 1910 e 1911 ao alto Amazonas, moldaram a sua aura de revolucionário. De volta ao Reino Unido, engajou-se na luta pela emancipação da Irlanda do jugo britânico, tornando-se um dos líderes da rebelião “Levante da Páscoa”. No entanto, foi pego trazendo armas alemãs para o Levante às vésperas de estourar a 1ª Guerra Mundial, o que precipitou sua prisão e condenação à morte, em 1916.
Desonrado antes e depois de seu enforcamento como traidor da causa inglesa, Casement caiu em ostracismo. Cinco anos após sua morte, em 1921, o Estado irlandês já declarado independente o adotou como símbolo, mas só em 1965 é que os seus restos mortais seriam devolvidos à República em um funeral com honras de herói.

Michiles durante as filmagens
Filho de Manaus – Pode-se afirmar que Aurélio Michiles (Manaus, 1951) atinge o auge de sua carreira com este filme, que diz tanto de sua própria militância por ideais humanistas e, em especial, em defesa dos índios do Amazonas. A obra documental que ele vem construindo; as peças teatrais que escreveu; o engajamento quando secundarista e depois universitário em Brasília, durante a ditadura militar; os poemas, as críticas, o olhar sobre o país e o mundo publicados em seu blog Ceuvagem, mostram a coerência de suas convicções sociopolíticas e a firme e combativa postura como cidadão e artista, a vida toda.
Segredos do Putumayo é mais um de seus documentários de abordagem à exploração da borracha no contexto econômico geopolítico. Mas desde os seus primeiros trabalhos, Michiles mostrou que não deixaria barato para os interessados no silêncio reinante sobre o genocídio indígena na América do Sul. Por compromisso com um projeto de vida e arte, ele põe em primeiro plano a defesa a diferentes povos indígenas da Amazônia em: Guaraná, Olho de Gente (1982), O Sangue da Terra (1983), A Árvore da Fortuna (1992), A Agonia do Mogno (1992), Davi contra Golias — Brasil Caim (1994), O Brasil Grande e os Índios Gigantes (1995) e O Cineasta da Selva (1997).
“Meus projetos são como o rio Amazonas: de algum modo, deságuam e se alimentam deste rio-mar. Saí de Manaus há décadas, mas a cidade e a memória que tenho dela se encontram permanentemente em mim”, afirma. Noutros documentários, suas temáticas se voltam para o cinema, a arquitetura e as artes em geral: Que Viva Glauber! (1991), Lina Bo Bardi (1993), Arquitetura do Lugar (2000), Teatro Amazonas (2002), Gráfica Utópica (2003), Higienópolis (2006), Encontro dos Sabores no Rio Negro (2008) e Tudo Por Amor ao Cinema (2015), entre outros mais.

Excertos dos diários da Amazônia citados no filme
“No Brasil, a cor da pele chega a ter valor de casta.” (...) “Quase todos os habitantes aparentam ter puro sangue índio. Andam vestidos, o que é uma estupidez, pois um corpo magnífico da cor do bronze em vestimentas sujas e saias arrastando na lama é um grande erro. Além disso, a moral se vai quando as roupas vêm.”
“Caoutchouc tinha a princípio o nome de “borracha da índia” porque vinha das Índias e sua primeira utilidade para os europeus foi apagar algo escrito. E hoje ainda chama-se “borracha índia”. Será por que apaga os índios?”
“Tentei carregar um fardo de borracha. Fiz com que o erguessem e o colocassem no meu ombro. Não consegui dar três passos.” (...) “Pedi uma balança. Um deles, que se apresentou com o nome de Kaimeni, pesava 29,5 quilos e estava, de fato, carregando um fardo de 30,5 quilos! Um quilo a mais do que seu próprio peso”. (...) “Sinto mais do que compaixão por eles”.
“Estamos cercados de criminosos por todos os lados. Arana, nosso anfitrião, é um assassino covarde. Mas ele e sua gangue são a verdadeira Peruvian Amazon Company. Os acionistas e a Diretoria em Londres são apenas o manto de respeitabilidade e a garantia do dinheiro, dos investimentos”.
“Nunca tive prazer em caçar. (...) No entanto, seria capaz de exterminar a tiros esses criminosos infames muito mais facilmente do que atirar num jacaré ou matar uma cobra. Juro por Deus que enforcaria todo esse bando de miseráveis com as minhas próprias mãos, com o maior prazer, se tivesse poder para tal. Cheguei à conclusão de que a única saída para estes indígenas do Putumayo da condição miserável a que foram reduzidos é fazer uma insurreição armada contra esses senhores da Casa Arana.” (...) “Adoraria armá-los, treiná-los e instruí-los a se defenderem contra esses bandidos”.
“É ingenuidade acreditar que de uma hora para a outra os colonizadores darão o direito à liberdade. Jamais! Nenhum Império foi destruído sem que houvesse resistência.” (...) “Será que algum protesto ou intervenção internacional seria eficaz para obrigar o Peru, a Colômbia e o Brasil a proteger os seus povos indígenas? Temo que não.”

O julgamento do herói
Casement na literatura mundial
1902 Sai O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, inspirado nas viagens de Roger Casement e Conrad pelo Congo e que serviu de base para o filme Apocalypse Now, de F.F. Coppola.
1912 O Mundo Perdido, de Arthur Conan Doyle, inspirado nas viagens de Casement pela Amazônia, que inspirou os filmes Parque dos Dinossauros e Indiana Jones.
1922 Ulysses, de James Joyce, no qual Casement é apenas mencionado em um importante excerto do episódio do Ciclope, que versa sobre ser irlandês, denotando ser a forma encontrada por Joyce de destacá-lo como um herói nacional na história da Irlanda.
1936 "The Ghost of Roger Casement" e “Roger Casement" poemas de W.B. Yeats, Prêmio Nobel de Literatura 1923. Ambos estão publicados no Collective Poems of W.B. Yeats. Veja aqui
2010 O sonho do Celta, de Mario Vargas Lhosa, Nobel de Literatura 2010, romance biográfico ficcional sobre a vida de Casement.
2016 Diário da Amazônia de Roger Casement, de Angus Mitchell – que deu origem ao filme Segredos do Putumayo. O livro foi publicado pela EdUSP, com edição de A. Mitchell, org. de Laura Izarra e tradução de Mariana Bolfarini.
Ainda: embora não trate diretamente da Amazônia, o King Leopold's Soliloquy (1905), de Mark Twain, tem Roger Casement como personagem principal e o La Voragine (The Vortex), do colombiano José Eustasio Rivera (1924), aborda as atrocidades do Putumayo.
Criado em 2020-10-25 22:47:03
Romário Schettino –
Na cerimônia de filiação do ex-deputado do PSOL Jean Wyllys ao Partido dos Trabalhadores, Lula comparou o momento atual ao que acontecia no Brasil em 1980, quando o PT foi criado. “Naquela época ousamos fundar um partido em plena ditadura militar, contra todos os preconceitos e contra a violência que imperava no país. Agora, 40 anos depois, é urgente derrotar o fascismo que se instalou entre nós. É preciso combater a violação dos direitos humanos e varrer para o lixo da história aqueles que estão deixando morrer por falta de vacina mais de 400 mil brasileiros”, disse o presidente de honra do PT.
Lula acusa o governo Bolsonaro de ser o responsável pela morte de brasileiros por falta de oxigênio, como aconteceu em Manaus, e de “abandonar os pobres do país à própria sorte, com índices alarmantes de miséria, desemprego e falta de perspectivas”.
Ao elogiar a decisão de Jean Wyllys de se filiar ao PT, Lula enumerou suas qualidades: “Solidariedade na luta pela minha liberdade diante daquela prisão injusta que sofri em Curitiba; coragem ao proferir o voto histórico contra o impeachment de Dilma Rousseff, qualificado como farsa, covarde e canalha; e por ter enfrentado o defensor da tortura no vergonhoso episódio no plenário da Câmara dos Deputados”.
O brutal assassinato de Marielle Franco, vereadora do PSOL-RJ, foi lembrado como uma mancha na história política brasileira que ainda precisa ser esclarecido. Lula disse que não haverá descanso enquanto não soubermos quem mandou matar Marielle, “Provavelmente são os mesmos que ameaçaram de morte Jean Wyllys, que o obrigou a se exilar em Barcelona, Espanha”.
Jean Wyllys lembrou que sua trajetória política surgiu nos idos de 1988 com a redemocratização do país. “De lá para cá até 2014, vi o Brasil mudar para melhor, com respeito aos direitos humanos e às minorias, com liberdade de imprensa, desenvolvimento das artes e da cultura. É inegável que foi no governo Lula que o primeiro negro assumiu uma vaga no STF, a primeira mulher foi eleita Presidenta da República e o primeiro gay assumido eleito para uma vaga no Congresso Nacional”.
Jean atribui ao fascismo vigente o surgimento do chamado antipetismo, que nada mais é do que uma corrente política destinada a destruir os direitos e as conquistas sociais implementadas nos governos do PT.
A prefeita de Barcelona, Ada Colau, que participou do evento, acrescentou: “Bolsonaro é fruto de uma extrema direita organizada no Brasil, nos EUA, na Europa, para combater a fraternidade entre os povos, o feminismo e as liberdades das minorias. O neoliberalismo deles não gosta da democracia, são autoritários e constituem uma ameaça”.
A cerimônia de filiação, transmitida hoje, 24/5, on-line, contou ainda com as presenças de Fernando Haddad, Dilma Rousseff, Gleisi Hoffman, Genevieve Garrigos, ex-presidente da Anistia Internacional, Daniele Franco, presidente do Instituto Marielle Franco, e James Green, da Rede de Intelectuais Americanos pela Democracia no Brasil.
Criado em 2021-05-25 00:11:55
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Quão divertidas eram as preleções do frei Salomão sobre a natureza de Deus. Para nos confundir, à maneira socrática, ele começava levantando a possibilidade de tudo o que existe ser perfeito, sem exceção, porque todas as coisas, fenômenos e processos correntes no Universo têm uma causa necessária em conformidade com as leis naturais.
Ele usava esse argumento como trampolim para dizer que o poder do Todo Poderoso, em verdade, talvez seja limitado pelas leis da natureza, as suas próprias, porque n’Ele potestas e potentia seriam idênticas, ao contrário do que prega a tradição dos padres da Igreja. Nessa razão, dizia, tudo o que foi e é criado no Mundo só poderia ter sido e é criado tal como de fato foi e é, não havendo alternativas para a realidade nem a possibilidade de existência de outros mundos etc.
Assim, Deus não teria vontade ou intelecto nem opção para criar ou não determinada coisa, com essas ou com aquelas características. Vontade e intelecto são atributos antropomórficos que a gente projeta n’Ele, como se Ele fosse uma pessoa como nós, warts and all (com as verrugas e tudo).
(Mais tarde aprendi que a Humanidade, no exercício de sua liberdade, iniciada com o conhecimento da necessidade, é capaz de mudar a realidade social, política etc, sempre porém obedecendo as leis naturais).
Outra coisa, acrescentava o frei Salomão, Deus não operaria com milagres, uma impossibilidade flagrante por violarem as leis da natureza, que são as Suas, sem tirar nem pôr.
Ainda projetos de seminaristas, ficávamos chocados com as hipóteses do frei Salomão, embora nenhum de nós fosse ainda versado em São Tomás de Aquino para contradizê-lo na lata. No final da aula, porém, ele apaziguava os nossos espíritos e, ao mesmo tempo, garantia o seu emprego, reiterando a boa e reta doutrina da Santa Madre sobre os atributos do Todo Poderoso, para nós dali em diante Quase…
Muitos anos depois, desconfiei que o frei Salomão não devia ser lá muito católico, e que provavelmente tinha bebido da fonte pestilenta do diabólico filósofo luso-holandês Bento de Spinoza. O certo mesmo é que era fã confesso de um seu conterrâneo, o Erasmo de Roterdã, aquele que botou o ovo que o Lutero chocou e deu no que deu.
Um dia o frei Salomão nos explicou a origem latina da conjunção “quão” com que comecei esta historinha, derivada de quam: quanto, como, que nem, com, do que (numa comparação). Usou dois adágios do Erasmo como exemplos: Quam apes apum similes, quer dizer, Tão parecida com uma abelha é outra abelha; e Quam in tragoedia comici, isto é, Que nem comediante numa tragédia (frase que alguém diz quando se sente fora de lugar).
O engraçado é que desde então passei a cometer um lapsus linguae, trocando apis (abelha em latim) por ape (macaco em inglês), certamente porque a minha vocação não era a de me tornar um cardeal abelhudo a ponto de disputar o papado, mas talvez a de ser ator.
Nem cardeal nem ator, acabei virando jornalista, e, não espalhem, fã do terrível Spinoza, devido a causas necessárias que qualquer dia desses eu conto pra vocês.
Criado em 2021-11-13 15:26:30
Luiz Martins da Silva –
I
Um dia, soube, um deles
Mentiu para mim, mas foi por
Pura e simples misericórdia.
II
Um dia, soube dele por
Palavras que me reabriram,
Um coração já feito em mármore.
III
Um dia, soube, um deles
Jurou por mim perante a Justiça.
Ela, incrédula, abriu um olho.
IV
Um dia, no extremo dos poentes,
Um deles foi duro comigo.
“Não tenho como lhe devolver o dia”.
V
Um dia, um deles, me pediu.
Encarecidamente, “não beba mais.
Pelo menos daquele jeito de ontem”.
VI
Um dia, um deles, eu me despedia...
“Deixa de ser besta, abestado,
Tu é que ainda vai me enterrar”.
VII
Um dia, quando não mais fazia
Rastros sobre o que é areia, ele,
Em pessoa, estava Lá, em guarda.
Criado em 2020-07-20 19:20:08
(poema de algum dia para todos os dias)
José Carlos Peliano (*) -
Sou muitos, você talvez vários,
eles centenas, nós todos centenas de milhares
a cada dia passos adiante
outros dias passando
leitos de rios com águas que nascem
sabe-se onde e quando
oceanos de impressões, vontades
escolhas e dúvidas ondeiam e se enchem
estamos em meio a tormentas ou calmarias
velas abertas ou recolhidas
levando ventos para outras águas
trazendo ventos para outras rotas
somos hoje os mesmos
às vezes assim, outras assado
mas a cada vez alguns mais
tanto menos, tanto mais
diferentes jeitos de ser
misturas próprias em velhas roupas
ou roupas novas nunca pensadas em vestir
sempre atravessados pensamentos
sentidos e decisões e cópias de nós mesmos
caleidoscópios ambulantes, atuantes, piscas-piscas, faróis
trombamos em nós muitas vezes
alguns dos que vivem em nós
acertamos os ponteiros outras vezes
entre todos de nós ou alguns
mesmo ao adormecer há ocasiões
com acertos, desacertos e acordos
ao acordar a turma que habita em nós
levanta, espreguiça e anda e lá vamos todos
para as horas seguintes em encontros seguintes
vem bem Chico Buarque, Ray Charles, Barry White,
Pixinguinha, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles,
Carlos Drummond, Manoel de Barros
e o meu amigo Thiago de Mello
que canta mesmo se faz escuro
mas não há consenso entre muitos dos que vivem em nós
há controvérsias, vem mal, ah! vem mal tantas coisas
gente, conversas e situações
que é melhor caminhar pela praia
entrar no carro e seguir
sair sozinho ou bem acompanhado
até onde o coração pedir
de repente, quem sabe, escutar alguém
um amigo, mas amigo mesmo
quando não temos respostas
para o que os muitos em nós querem
ou não temos perguntas
para acalmar outros de nós
ou passar perto do consultório de um analista
e não ir lá só para nos forçar
a ter forças para reagir
afinal somos uma turma grande
uns debatendo com outros, até xingando
mas ajudando para nos guardar
afinal nos manter em pé
por todas as intempéries, dias cinzentos
rolos, silêncios e pedras no caminho
fazer a vida valer a pena
com cuidado especial as penas
penas de pássaros não importa a família
que nos levem a voar baixo ou alto
longe ou perto, apenas voar
levar todos os que estão em nós
a desvendar os mistérios e segredos
que nos rodeiam os olhos, os sentidos
os sentimentos, o tempo, o dia seguinte
para vermos bandas passarem cantando coisas de amor
e nós tocando os instrumentos
que nos põem a rir, chorar e festejar
enquanto o coração ainda sabe bater
___________________________________
(*) José Carlos Peliano, poeta, escritor, economista.
Criado em 2020-12-25 17:40:15
Dioclécio Luz (*) –
O dia 4 de dezembro de 2021 amanheceu nublado e frio em Brasília. As primeiras chuvas do mês anunciam o fim do período seco e o início das chuvas. O Cerrado que conseguiu sobreviver ao agronegócio fica verde.
Nesse dia o Centro de Ensino Fundamental 1 (CEF 1), localizado no Paranoá, periferia de Brasília, a 15 quilômetros do Congresso Nacional, iria ser entregue aos militares do Corpo de Bombeiros.
Uma assembleia na quadra de esportes com a comunidade escolar – pais, alunos, servidores, autoridades do GDF – maquiaria a decisão tomada antes: a escola pública se tornaria uma Escola Militarizada. Era mais uma que morria no governo Ibaneis Rocha.
Os Bombeiros iriam comandar uma unidade de ensino com 1 mil e 300 alunos do 5º ao 9º ano do ensino fundamental. Essa escola, com excelente infraestrutura, deixaria de ser uma escola para ser um quartel de meninos e meninas.
A assembleia era o fim de um processo suspeito. Professores estavam indignados: não teve discussão precedente. O último debate tinha ocorrido em 2018. Agora pais e professores iriam decidir, às pressas, o futuro dos seus filhos.
Questionado, o diretor do CEF 1, Flávio Fraga, reconheceu que “em 2018 foi a última assembleia que teve desse porte, com tanta gente”. Nesse mesmo ano ele assumiu a direção. Para ele, as discussões nas reuniões de coordenação foram suficientes para caracterizar o debate que lhe cobram.
- Toda coordenação tem debate. Toda semana tem coordenação. E todos os pais que me acessam sabem da necessidade. Houve falas. Houve reuniões de pais. Só não houve formalidade como essa de hoje. O debate sempre existiu.
Assembleias fajutas como essa fazem parte do histórico do processo de mudança de escola pública para militarizada no país. Em Brasília, as assembleias das quatro primeiras escolas ocorreram nas férias de janeiro de 2019.
Às 10 horas a mesa foi formada no CEF 1. Eram seis pessoas, representantes da Polícia Militar, Corpo de Bombeiros, Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro-DF), direção da escola, Administração Regional do Paranoá e Secretaria de Educação. Dos seis, somente a representante do Sinpro-DF, Luciana Custódio, era contra a militarização.
O correto seria o representante do Corpo de Bombeiros, indicado para comandar a escola, fazer a primeira explanação e apresentar o projeto da nova escola. Depois haveria o debate. Mas, a organização do evento, estrategicamente, determinou que a fala primeira seria da diretora de formação do Sinpro-DF, Luciana Custódio. Assim esgotavam-se os argumentos contrários.
O coronel Ferro, da Polícia Militar, veio a seguir. Recitou comovido, letra da música Coração de estudante de Milton Nascimento:
Mas renova-se a esperança
Nova aurora a cada dia
E há que se cuidar do broto
Pra que a vida nos dê flor e fruto
Milton Nascimento fez essa música em homenagem ao estudante Édson Luís, morto pela Polícia Militar no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, em 1968. A ditadura militar estava começando a tornar frequente a tortura, morte e desaparecimento de pessoas contrárias ao regime. Ou seja, na assembleia usaram a memória de um jovem assassinado pelos militares do passado para defender, no presente, o assassinato de uma escola e a imposição de um sistema cruel contra os jovens da periferia.
O Capitão Ronaldo Almeida, do Corpo de Bombeiros, foi último a falar.
- Aluno não pode discutir com professor – disse o militar
Disse ainda que, conforme a pontuação, o aluno pode ser convidado a se retirar do colégio. “Convidado a se retirar”, entenda-se, “expulsão”.
Seus slides exibiram de forma genérica o regime disciplinar. Um deles, intitulado “Atuação militar”, diz o que o militar vai aplicar e executar os regulamentos da escola. Na prática, significa que pode invadir a sala de aula ou qualquer outro espaço para fazer cumprir esse regulamento. Diz também que o policial vai verificar “o estado físico e mental dos alunos”. Como assim? Os Bombeiros irão disponibilizar médicos e psicólogos na entrada para fazer essa avaliação? Ou o Bombeiro já é capaz de, ao olhar, a exemplo de um super-herói da Marvel, fazer um raio-X e diagnosticar o estado de saúde físico e mental do aluno?
O capitão Almeida preferiu o omitir o principal em sua fala: como os Bombeiros irão impor a disciplina na escola.
Ele sabia que se falasse isso perderia eleitores. O oficial não iria dizer que a disciplina é baseada no medo. Não disse que os alunos terão que obedecer as regras de quartel com uma lista de 90 punições; serão vigiados dentro e fora da escola.
O Capitão não falou que as meninas não podem usar batom, o brinco não pode passar da orelha, não podem usar colar, é proibido expor penteado afro, todo cabelo deve estar preso no coque ou rabo de cavalo, não podem se maquiar; ninguém pode ter piercing ou usar camisa fora da calça; os rapazes não podem ter cabelos longos e nem usar brinco. Nessa “escola” é proibido namorar, abraçar, beijar, pegar na mão da pessoa querida – o amor é vetado. Em resumo: o aluno não será mais dono do seu corpo; agora ele pertence aos militares.
Catarina de Almeida Santos, professora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília, pesquisadora do tema, não vê com bons olhos a expansão das escolas militarizadas.
- A gente vê a Escola Militarizada (EM) como uma anti-escola. Porque a escola pública é o espaço da diversidade, o espaço de todas as tribos. É o lugar em que todos os sujeitos, todas as pessoas manifestam suas crenças, suas formas de estar no mundo. É um espaço muito da juventude. E a EM é uma “escola” que padroniza, homogeiniza, define os corpos e comportamentos, então é uma anti-escola. Se a gente pensar a educação como esse espaço de formação e desenvolvimento do sujeito no sentido diverso, então a EM é uma anti-escola. Ela é contrária a todos os princípios da educação.
Os policiais estão impondo aos jovens a pedagogia do medo. É o medo que faz a disciplina. Diz a professora Catarina:
- O que a Polícia faz? Ela leva para escola a pedagogia do quartel. É a pedagogia da hierarquia, da ordem, a partir da obediência aos comandos; a pedagogia do controle, da uniformização, do castigo, da lógica da punição. As normativas que são aplicadas nessa escola fazem com que tudo aquilo que faz da escola uma escola, praticamente não possam acontecer.
O projeto de militarização de escolas públicas, hoje espalhado por todo o país, objetiva claramente calar os jovens da periferia, negros e pardos em sua maioria, colocando-os sob o controle da força policial. Em algumas Unidades da Federação (caso de Goiás, entre outros) a direção da escola é exclusiva da PM; em outras, caso do DF, inventou-se uma direção transgênica, a “gestão compartilhada”. Então, há uma “direção pedagógica”, com os militares, outra “disciplinar”, com os profissionais de educação.
O projeto de militarização das escolas públicas começou na década de 1990, mas ganhou reforço com a chegada de Jair Bolsonaro à presidência. Alegando motivos nacionalistas, esse defensor da ditadura militar - da tortura e dos torturadores -, criou o “Programa de escola cívico-militares” que, em dois anos (2020 e 2021), implantou 127 delas em 25 Unidades da Federação, ao custo de 43 milhões de reais (dados do MEC). Essas escolas federais estão sob controle das Forças Armadas, aliadas do presidente Bolsonaro. O que causa espanto é que governantes de algumas dessas UF que implantaram o projeto do presidente de ultra-direita, caso da Bahia e Piauí, são de esquerda.
O capitão Almeida, em sua longa explanação, resolveu abordar a legislação que dá lastro ao projeto de militarização de escolas públicas no Distrito Federal. O slide que apresentou intitulado, Legislação, porém, não aponta lei nenhuma!

Slide 2 apresentado pelo Capitão Almeida na assembleia do CEF 1
O fato é que a Escola Militarizada não faz parte do chamado arcabouço legal da educação. Não existe nenhuma referência a esse tipo de escola na Constituição Brasileira, Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) ou Plano Nacional de Educação. Pior, esse modelo de escola se constitui num ataque às leis existentes: fere os artigos 5º, 144, 206, 220 e 227 da Constituição; os Art. 7º e o 58 do Estatuto da Criança e do Adolescente; Arts. 3º e 61 da LDB; inciso I do Art. 11 da Lei nº 8.429/92 (improbidade administrativa). Em Brasília, a lei de gestão de democrática, nº 4.751/12, em vigor, também foi parar no lixo.
Assim, o Capitão Almeida não teria mesmo como mostrar a Legislação que sustenta esse modelo – ela não existe.
Às 11 horas e alguns minutos da manhã, a organização da assembleia decidiu que era o momento de encerrar os debates e dar início ao processo de votação. Isso não é democrático: não se para uma assembleia no meio do debate para fazer a votação. Mas assim foi feito. Enquanto alguns professores e pais ainda falavam ao microfone, a maioria dos presentes se levantou e foi para os fundos do ginásio votar.
Mais tarde foi anunciado o resultado: 71% dos votantes foram favoráveis. Como esperado, o CEF 1 se tornou mais uma Escola Militarizada do Distrito Federal. Será a 13ª anti-escola de Brasília nas mãos dos militares, dessa vez com os Bombeiros. Foi mais um passo do governador Ibaneis em direção à Idade Média. E mais um dia triste para a educação de Brasília.
_____________________
(*) Dioclécio Luz é jornalista e autor do livro A Escola do Medo, a ser publicado em breve, sobre as escolas militarizadas no Brasil.
Criado em 2021-12-24 19:51:15
Zuleica Porto –
Na manhã chuvosa de 2 de abril, um grupo de cerca de vinte pessoas reuniu-se no Auditório do Instituto Federal de Brasília (IFB). Eram os ativistas da mobilidade ativa, jornalistas, professores, representantes do governo, alunos do Instituto e simpatizantes da causa. Ali estávamos para conhecer os resultados da pesquisa que buscou responder à pergunta: “Afinal, o brasiliense respeita mesmo a faixa de pedestres?”.
Uma pergunta oportuna, pois no domingo, primeiro de abril, completou 21 anos o início da campanha pelo respeito à faixa de pedestres no Distrito Federal. Acesse aqui o relatório completo: http://www.rodasdapaz.org.br/faixadepedestres/
Para avaliar a quantas anda, decorrido todo este tempo, a relação dos motoristas brasilienses com a famosa faixa, a ONG Rodas da Paz realizou, entre agosto do ano passado e março deste ano, o alentado estudo, que contou com a colaboração da Universidade de Brasília (UnB), da Associação Andar a pé e do Coletivo Movimento Ocupe seu Bairro (MOB). E com o apoio da Fundação Casa e do Instituto Federal de Brasília.

Na abertura, Renata Florentino, ativista da Rodas da Paz, lembrou que Raul Aragão, 23 anos, que participou intensamente tanto no planejamento quanto na aplicação da pesquisa, morreu atropelado em 21 de outubro do ano passado, quando trafegava em bicicleta pela L-2 Norte. Lembrou ainda que o motorista, Johann Homonai, de 18 anos, foi condenado em 21 de março deste ano por homicídio culposo e teve pena de dois anos de reclusão, a ser cumprida em regime aberto, e dois meses de suspensão da licença para dirigir. Pena considerada branda, pelos ativistas e pela família de Raul.
O juiz responsável pelo caso Raul Aragão considerou, como fator determinante da morte, a excessiva velocidade do veículo conduzido por Johann – 95km/h, quando a velocidade permitida na via é de 60km/h. Até hoje uma bicicleta branca está no local, com uma faixa alertando que, se os carros trafegassem a 50km, por exemplo, “ninguém teria morrido atropelado”.
O seminário prosseguiu com uma “História da faixa”, relato de Ana Júlia, jornalista que, em 1996, trabalhava no Correio Braziliense e participou da Campanha Paz no Trânsito, que desembocaria na implantação da faixa de pedestres. Ela lembrou os índices assombrosos de violência no trânsito da época: 266 pedestres morreram atropelados naquele ano, quando a população era de 1.877.000 moradores e os veículos eram 523 mil.
Uma série de reportagens no CB, culminando com um editorial de capa com o título “Reage Brasília”, desencadeou o apoio massivo da população, que realizou uma histórica passeata, com 25 mil pessoas pedindo “Paz no trânsito”. Lembremos, aqui, que o excesso de velocidade, causa dos índices alarmantes de 21 anos atrás, parece ter voltado à cena do trânsito brasiliense.
Os dados da pesquisa
Apresentados pelos professores Alan Silva (UnB), que explicou o Plano amostral que deu início à aplicação dos formulários, e Jonas Bertucci (IFB), que apresentou os resultados da pesquisa.
Foram analisadas 340 faixas de pedestres não semaforizadas, durante 6 mil travessias, envolvendo 13 mil veículos e 10 mil pedestres, em 19 Regiões Administrativas do DF.
A análise dos dados chegou a conclusões que acendem um sinal de alerta quanto ao respeito à faixa:
• Em 6 de 10 travessias, os veículos param com a aproximação do pedestre;
• a cada 3 motoristas, 1 não para na faixa (35%);
• quanto maior a velocidade da via, maior o número de veículos que não param na faixa;
• a cada 10 travessias, acontece uma situação de risco (esta ocorre quando um condutor para o veículo e em seguida outro veículo ultrapassa o primeiro sem parar, quando o pedestre já iniciou a travessia; ou quando o pedestre inicia a travessia e o veículo passa sem parar, não havendo outros veículos parados);
• em 340 horas de observação foram presenciadas 5.785 infrações gravíssimas de desrespeito à faixa de pedestres, considerando o art. 214 do Código de Trânsito Brasileiro (deixar de dar preferência de passagem a pedestre ou a condutor de veículo não-motorizado: letra I. que se encontre na faixa a ele destinada).
É bom lembrar que o CTB é válido para todo o Brasil, mas poucas cidades o obedecem no que diz respeito à faixa de pedestres.
Outros dados da pesquisa: a maioria das pessoas que utilizam a faixa são mulheres (56%); as situações de risco se apresentam com maior frequência quando o pedestre é homem e em vias com mais faixas de rolamento; o percentual de respeito se mantém o mesmo, fazendo ou não o transeunte o “sinal de vida”; também não há diferença de resultados, seja a localização da faixa no Plano Piloto ou em qualquer outra Região Administrativa.
Manuella Coelho, do MOB, encerrou a apresentação com as seguintes recomendações aos responsáveis pelo trânsito no DF:
• campanhas educativas constantes;
• diminuir a ênfase no “sinal de vida”;
• melhorar a sinalização e iluminação das faixas, bem como mantê-las sempre em bom estado;
• reforçar a fiscalização;
• realizar pesquisas semelhantes a esta, que monitorem periodicamente o respeito à faixa;
• redução da velocidade nas vias, reduzindo o risco de morte.
Durante o debate final, do qual participaram Nazareno Affonso (Instituto MDT), Denis Soares (Semob), Adriana Bernardes (CB) e Benny Schvasberg (Associação Andar a pé), foi ressaltado por todos que o respeito à faixa vive hoje num “momento crítico”.
Adriana ressaltou a falta de maior conscientização dos motoristas mais jovens, o que não é oferecido no treinamento das autoescolas, bem como a impunidade que se segue aos crimes de trânsito.
Nazareno lembrou sua atuação como Secretário de Governo na época da Campanha Paz no Trânsito, quando teve início o respeito à faixa.
Finalmente Benny, professor da FAU/UnB e militante da mobilidade ativa, lembrou que o respeito ao pedestre é indicador de urbanidade/civilidade; que há em Brasília um alto índice de motorização (para cerca de 3 milhões de habitantes, temos um milhão e setecentos mil veículos); e que, quando o índice de desrespeito à faixa aproxima-se dos 40%, é momento de intensa mobilização para preservar esta conquista.
O que temos a comemorar? A resistência da faixa, que se deve, desde o seu início, à mobilização popular.
Criado em 2018-04-04 03:04:08
Neste instrutivo bate-papo no República Popular das Letras (RPL) com Marcos Bagno, poeta, linguista, tradutor e professor da UnB, aprendemos que o português não descende diretamente do latim, mas do galego, uma língua que surgiu da mistura do latim com os idiomas falados no Noroeste da Espanha, na Galécia Magna, hoje Galiza, no tempo da ocupação romana.
Portanto neto do latim, o português acabou se separando do galego, mas só adotou esse nome por volta de 1450. Já o português brasileiro foi se diferenciando do português lusitano na fricção com as línguas indígenas e com as línguas transplantadas da África para cá a bordo dos navios tumbeiros. Das línguas bantas, nossa língua – que a antropóloga Lélia Gonzalez chamou de “pretoguês” – herdou estruturas morfossintáticas como o tópico-comentário, estranhas no português europeu e nas outras línguas românicas.
Promoção especial: com validade até o final de setembro, quem assistir este episódio poderá adquirir os livros de Marcos Bagno publicados pela Parábola Editorial com desconto de 20%. Basta acessar o site da editora – https://www.parabolaeditorial.com.br – e mencionar o código MP20PB.
Produção: Studio 8itobits
Criado em 2022-09-13 21:05:35
No dia 15 de outubro, sexta-feira, a partir das 16h30, o Levante Feminista Contra o Feminicídio do DF e os Movimentos de Mulheres do DF e Entorno estarão na praça Marielle Franco no SCS para exigir dos governos local e federal medidas que agilizem a garantia de dignidade menstrual às mulheres pobres e o enfrentamento ao feminicídio.
“Nem pense em me matar! Fora Bolsonaro!”, diz o documento de chamamento para o ato público. As mulheres, ao procurarem o Estado, “precisam obter como resposta encaminhamentos concretos e encontrar um ambiente de prevenção, de proteção e de combate à violência”, acrescentam as organizadoras do evento.
Cilma, assassinada na semana passada, foi a 18a vítima de feminicídio no Distrito Federal em 2021. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública local (SSP-DF), apenas nos primeiros nove meses deste ano, ocorreram 17 feminicídios em todo o DF. Esse número já é maior do que aquele registrado em idêntico período de 2020.
No relatório final da CPI do Feminicídio, a Câmara Legislativa do DF aponta haver omissão e falhas do Estado no tratamento às vítimas de violência doméstica e de feminicídio, que é crime hediondo conforme a Lei. 13.104, de 9 março de 2015.
O descaso do governador Ibaneis Rocha (PMDB) soma-se à desumanidade do governo Bolsonaro, que debocha da pobreza menstrual ao vetar o dispositivo de lei que prevê o fornecimento gratuito de absorventes para mulheres em situação de vulnerabilidade econômica e social.
De acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU), no Brasil, 25% das meninas entre 12 e 19 anos já deixaram de ir à aula alguma vez por não ter absorventes. Denomina-se de pobreza menstrual essa falta de acesso a recursos, infraestrutura e conhecimento, vivenciada por meninas e mulheres, para que tenham plena capacidade de cuidar da sua menstruação.
__________________________
Serviço:
Ato Público no 15 de outubro de 2021
Às 16h30
Local: Praça Marielle Franco (Saída do metrô, Estação Galeria, no Setor Comercial Sul)
Criado em 2021-10-13 21:51:37
Democracia em Vertigem estreia na Netflix em 19 de junho de 2019. Um alerta em tempos de democracia em crise. Neste retrato de um dos períodos mais dramáticos da história do Brasil, o político e o pessoal estão entrelaçados. Através de relatos de seu complexo passado familiar e acesso sem precedentes a líderes do passado e do presente – incluindo os ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff, a cineasta Petra Costa (Elena) analisa a ascensão e queda desses governantes e a consequente polarização de uma nação.
Netflix Brasil
Criado em 2019-06-06 14:37:09
Alexandre Ribondi –
"Se Hitler invadisse o inferno, eu cogitaria um aliança com o diabo".
A frase é conhecida, é do primeiro-ministro inglês Winston Churchill e se referia à aliança firmada com a comunistíssima União Soviética, para, juntos, atacarem Hitler. Sábia decisão, a dele.
Isso porque Churchill soube perceber que o momento não era para discutir diferenças de opinião sobre como governar e administrar um país, mas sim de unir forças para atacar e vencer o mal.
Isso deveria valer para o Brasil hoje, amanhã e domingo, quando formos votar. Não é hora de discutirmos vicissitudes políticas, não é o momento de preferirmos a Inglaterra ou o stalinismo. Não estamos numa democracia sólida e pacífica para ficarmos ciscando à procura de padrões ideológicos pessoais.
O momento é de juntarmos força para protegermos a nossa democracia combalida, para derrubarmos um monstro misógino, homofóbico, racista disfarçado de candidato.
Criado em 2018-10-06 00:31:23
Sandra Crespo -
Eu estava escrevendo uma resposta ao comentário de uma amiga, sobre o VLT do Rio e que tais. Mas o texto foi crescendo tanto, que virou meio que uma continuação daquele post. Talvez possa contribuir com a reflexão sobre a loucura que o Brasil vive hoje.
Eu não moro no Rio, mas frequento a cidade e tenho amigos no subúrbio, nas zonas norte e oeste. Num monte de lugares.
Só falando em transporte público, esses amigos (de várias classes sociais) já se beneficiam de grandes obras ligadas à Olimpíada. O BRT, por exemplo, é uma realidade já apropriada pela população, e o será a expansão do metrô etc. etc.
O fato de os projetos implantados no Rio Cidade Olímpica não beneficiarem diretamente as favelas não significa que sejam todos equivocados.
Obras relativas à Olimpíada têm de combinar vários fatores. No caso do Rio, que acompanho de perto desde 2009, creio que houve muitas medidas inteligentes, que aliam revitalização, circulação - e outras iniciativas ligadas ao turismo - a necessidades imediatas da população, como melhoria do transporte público.
São duradouras, um legado de verdade. Mesmo que tenham problemas e estejam longe do ideal, alguns desses projetos executados já melhoraram a vida da muita gente e embelezaram a cidade.
Saneamento básico em comunidades e muito mais cuidado na gestão de saúde e educação são realmente prioridades.
Porém, uma cidade como o Rio de Janeiro, cuja principal fonte de receita é - ou será em breve - o turismo, aproveita os Jogos e faz uma verdadeira revolução urbana no Centro e na zona portuária, por exemplo.
O Rio redescobre sua linda Baía, e entender a dimensão disso só é possível para quem ama aquela cidade.
No meu caso, desde criança. Eu, moradora de Niterói quando menina, sempre reparei aquela monstruosidade que era o elevado da Perimetral.
Dava de cara com o cujo ao sair da barca e pisar na Cidade Maravilhosa. Era muito feio, sujo e barulhento!!!
Olha, eu não tenho vergonha de elogiar o Eduardo Paes por muitas mudanças legais que ele comandou no Rio.
Um verdadeiro bota-abaixo. Teve alguns erros, como a pouca atenção ao potencial residencial do Centro e zona portuária. Porque é ali no Porto onde o Rio tem que crescer e incluir mais pessoas.
O Porto, que está ficando des-lum-bran-te com as obras olímpicas!
Sinceramente, eu não conheço nenhuma cidade brasileira que mudou tanto em tão poucos anos.
É claro que defendo uma intervenção muito mais radical na cidade - em todas elas. Uma gestão mais democrática e muito mais inclusiva do que é hoje, no governo Paes.
Eu só não consigo concordar é com essa obsessão de muitas pessoas - à esquerda e à direita - em descer a lenha em TODAS as iniciativas do poder público.
E, apenas para refrescar a memória da galera de esquerda e direita: o Brasil explodiu de felicidade em 2 de outubro de 2009. Naquele dia, o Governo Lula conseguiu, com muita luta, a escolha do Rio pelo COI cidade-sede de 2016.
Engraçado, hoje parece que estou em outro Brasil: um país que recua, e volta ao seu eterno complexo de vira-latas.
O pior é que este "novo" Brasil apresenta ainda uma face que eu não conhecia: o ódio por antecipação.
Uma negação total de importantíssimas conquistas que tivemos a partir dos governos petistas. E que foram "apagadas" da memória das pessoas.
É claro que Lula e Dilma poderiam ter avançado muito mais, assim como o atual prefeito do Rio de Janeiro. Mas, gente, as coisas aconteceram, e ainda estão acontecendo, e essas pessoas não reconhecem isso!
Só para criar mais clima, concluo citando uma observação engraçada do Paes esta tarde, na Globonews. Ele disse mais ou menos que, como a imprensa nunca vai a inauguração de escolas (só de estádios)...
"Então eu vou inaugurar estes dias uma escola que vai se chamar Austrália; assim a imprensa toda vai acompanhar, até a estrangeira", afirmou o prefeito.
Criado em 2016-08-03 01:27:31