"A vida é de quem se atreve a viver".


Seminário mostra pesquisa e aponta as falhas do governo no combate à violência no trânsito no DF
Faixa de pedestres no DF, 21 anos: uma conquista e um alerta

Zuleica Porto –

Na manhã chuvosa de 2 de abril, um grupo de cerca de vinte pessoas reuniu-se no Auditório do Instituto Federal de Brasília (IFB). Eram os ativistas da mobilidade ativa, jornalistas, professores, representantes do governo, alunos do Instituto e simpatizantes da causa. Ali estávamos para conhecer os resultados da pesquisa que buscou responder à pergunta: “Afinal, o brasiliense respeita mesmo a faixa de pedestres?”.

Uma pergunta oportuna, pois no domingo, primeiro de abril, completou 21 anos o início da campanha pelo respeito à faixa de pedestres no Distrito Federal. Acesse aqui o relatório completo: http://www.rodasdapaz.org.br/faixadepedestres/

Para avaliar a quantas anda, decorrido todo este tempo, a relação dos motoristas brasilienses com a famosa faixa, a ONG Rodas da Paz realizou, entre agosto do ano passado e março deste ano, o alentado estudo, que contou com a colaboração da Universidade de Brasília (UnB), da Associação Andar a pé e do Coletivo Movimento Ocupe seu Bairro (MOB). E com o apoio da Fundação Casa e do Instituto Federal de Brasília.



Na abertura, Renata Florentino, ativista da Rodas da Paz, lembrou que Raul Aragão, 23 anos, que participou intensamente tanto no planejamento quanto na aplicação da pesquisa, morreu atropelado em 21 de outubro do ano passado, quando trafegava em bicicleta pela L-2 Norte. Lembrou ainda que o motorista, Johann Homonai, de 18 anos, foi condenado em 21 de março deste ano por homicídio culposo e teve pena de dois anos de reclusão, a ser cumprida em regime aberto, e dois meses de suspensão da licença para dirigir. Pena considerada branda, pelos ativistas e pela família de Raul.

O juiz responsável pelo caso Raul Aragão considerou, como fator determinante da morte, a excessiva velocidade do veículo conduzido por Johann – 95km/h, quando a velocidade permitida na via é de 60km/h. Até hoje uma bicicleta branca está no local, com uma faixa alertando que, se os carros trafegassem a 50km, por exemplo, “ninguém teria morrido atropelado”.   

O seminário prosseguiu com uma “História da faixa”, relato de Ana Júlia, jornalista que, em 1996, trabalhava no Correio Braziliense e participou da Campanha Paz no Trânsito, que desembocaria na implantação da faixa de pedestres. Ela lembrou os índices assombrosos de violência no trânsito da época: 266 pedestres morreram atropelados naquele ano, quando a população era de 1.877.000 moradores e os veículos eram 523 mil.

Uma série de reportagens no CB, culminando com um editorial de capa com o título “Reage Brasília”, desencadeou o apoio massivo da população, que realizou uma histórica passeata, com 25 mil pessoas pedindo “Paz no trânsito”. Lembremos, aqui, que o excesso de velocidade, causa dos índices alarmantes de 21 anos atrás, parece ter voltado à cena do trânsito brasiliense.
 
Os dados da pesquisa

Apresentados pelos professores Alan Silva (UnB), que explicou o Plano amostral que deu início à aplicação dos formulários, e Jonas Bertucci (IFB), que apresentou os resultados da pesquisa.

Foram analisadas 340 faixas de pedestres não semaforizadas, durante 6 mil travessias, envolvendo 13 mil veículos e 10 mil pedestres, em 19 Regiões Administrativas do DF.

A análise dos dados chegou a conclusões que acendem um sinal de alerta quanto ao respeito à faixa:

•    Em 6 de 10 travessias, os veículos param com a aproximação do pedestre;

•    a cada 3 motoristas, 1 não para na faixa (35%);

•    quanto maior a velocidade da via, maior o número de veículos que não param na faixa;

•    a cada 10 travessias, acontece uma situação de risco (esta ocorre quando um condutor para o veículo e em seguida outro veículo ultrapassa o primeiro sem parar, quando o pedestre já iniciou a travessia; ou quando o pedestre inicia a travessia e o veículo passa sem parar, não havendo outros veículos parados);

•    em 340 horas de observação foram presenciadas 5.785 infrações gravíssimas de desrespeito à faixa de pedestres, considerando o art. 214 do Código de Trânsito Brasileiro (deixar de dar preferência de passagem a pedestre ou a condutor de veículo não-motorizado: letra I. que se encontre na faixa a ele destinada).

É bom lembrar que o CTB é válido para todo o Brasil, mas poucas cidades o obedecem no que diz respeito à faixa de pedestres.

Outros dados da pesquisa: a maioria das pessoas que utilizam a faixa são mulheres (56%); as situações de risco se apresentam com maior frequência quando o pedestre é homem e em vias com mais faixas de rolamento; o percentual de respeito se mantém o mesmo, fazendo ou não o transeunte o “sinal de vida”; também não há diferença de resultados, seja a localização da faixa no Plano Piloto ou em qualquer outra Região Administrativa.

Manuella Coelho, do MOB, encerrou a apresentação com as seguintes recomendações aos responsáveis pelo trânsito no DF:

•    campanhas educativas constantes;

•    diminuir a ênfase no “sinal de vida”;

•    melhorar a sinalização e iluminação das faixas, bem como mantê-las sempre em bom estado;

•    reforçar a fiscalização;

•    realizar pesquisas semelhantes a esta, que monitorem periodicamente o respeito à faixa;

•    redução da velocidade nas vias, reduzindo o risco de morte.

Durante o debate final, do qual participaram Nazareno Affonso (Instituto MDT), Denis Soares (Semob), Adriana Bernardes (CB) e Benny Schvasberg (Associação Andar a pé), foi ressaltado por todos que o respeito à faixa vive hoje num “momento crítico”.

Adriana ressaltou a falta de maior conscientização dos motoristas mais jovens, o que não é oferecido no treinamento das autoescolas, bem como a impunidade que se segue aos crimes de trânsito.

Nazareno lembrou sua atuação como Secretário de Governo na época da Campanha Paz no Trânsito, quando teve início o respeito à faixa.

Finalmente Benny, professor da FAU/UnB e militante da mobilidade ativa, lembrou que o respeito ao pedestre é indicador de urbanidade/civilidade; que há em Brasília um alto índice de motorização (para cerca de 3 milhões de habitantes, temos um milhão e setecentos mil veículos); e que, quando o índice de desrespeito à faixa aproxima-se dos 40%, é momento de intensa mobilização para preservar esta conquista.

O que temos a comemorar? A resistência da faixa, que se deve, desde o seu início, à mobilização popular.

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