Bonus pages

  • Como Apoiar
  • Contato

Main Menu

  • Capa
  • Artigos
  • Política
  • Cultura
  • Cidades
  • Entrevistas
  • Colunas
  • Crônicas & Agudas
  • Vídeos
  • Como Apoiar
BRASILIÁRIOS.COM BRASILIÁRIOS.COM BRASILIÁRIOS.COM
  • Capa
  • Artigos
  • Política
  • Cultura
  • Cidades
  • Entrevistas
  • Colunas
  • Crônicas & Agudas
  • Vídeos
  • Como Apoiar
Pesquisar por:
Pesquisar somente:

Total: 1890 results found.

Página 15 de 95

Cristovam Buarque faz autocrítica pelo golpimpeachment e apoia a eleição de Lula no 1º turno

No quinto episódio da República Popular das Letras, o jornalista Antônio Carlos Queiroz (ACQ) entrevista o ex-senador Cristovam Buarque, que hoje se considera um “escritor que faz política nas horas vagas”.

O gancho do bate-papo foi o seu último livro, O mundo é uma escola – O que aprendi em viagens. Mas, pela primeira vez, Cristovam faz a autocrítica pública por ter votado o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, "uma pisada de bola" nas palavras dele. E também explica porque lançou um manifesto de apoio à eleição de Lula no primeiro turno. Por fim, se diz constrangido por estar filiado ao Cidadania, um “partido que ficou de direita”.

Veja aqui o bate-papo na íntegra: https://www.youtube.com/watch?v=g2IvErtzWQs

Criado em 2022-05-31 13:36:59

Brasília ano 35

Arquivo Público do Distrito Federal

Criado em 2020-04-24 01:31:47

Coronavírus: o paradoxo insuportável

Alexandre Ribondi –

Uma substância orgânica, que não é um ser vivo, desprovido de metabolismo independente mas capaz de transmitir doenças — algumas letais - está alterando o mundo e o que sempre acreditamos o que ele seja. Para muitos, essa alteração é temporária e tudo voltará ao normal assim que a ciência, ou Deus, encontrarem o remédio. Para outros, no entanto, nada será como antes. Nesse sentido, essa substância orgânica, fotogênica e graciosa, está servindo, também, para que pensemos como o mundo deverá ser.

É aí que entra em cena o oportuno Sopa de Wuhan, coletânea de 15 textos (clique aqui e leia em pdf) contemporâneos sobre a Covid-19, lançado pela ASPO (Aislamiento Social Preventivo y Obligatorio). Trata-se de uma iniciativa editorial com a ideia de perdurar durante toda a quarentena como ponto de fuga criativo diante da paranoia, da infodemia e do isolamento social como proteção de um inimigo que não se vê.

Sopa de Wuhan reúne a produção publicada no período que vai de 26 de fevereiro a 28 de março de 2020. São textos filosóficos, jornalísticos ou literários recentíssimos, assinados por pensadores europeus, norte americanos, coreanos e sul americanos (Chile e a nossa vizinha Bolívia). Essa coletânea visa ao futuro da nossa sociedade, com indagações e sonhos de como será o mundo em que viveremos depois da passagem do coronavírus em nossos corpos e nossas almas.

O mundo está em estado de choque e teme o pior. A Europa receia, por exemplo, que a União Europeia (UE) não resista ao golpe e que os sentimentos nacionalistas e segregacionistas aflorem nos países que compõem o bloco. Assim, há quem sonhe com a necessidade urgente de criar uma nova mentalidade para a UE, onde o compromisso entre as nações deixe de ser retórica e passe a ser instrumento de uso permanente. Os países mais endividados, como Itália, Grécia, Portugal, Espanha, sabem que dependem da cooperação e que o caminho para a recuperação econômica e social será árduo caso tenham que pagar juros exorbitantes sobre os empréstimos que receberem. Se isso acontecer, será uma crise econômica sobre a crise sanitária.

É também preocupante o futuro do globo terrestre e o abuso que tem sofrido sistematicamente de um modelo econômico que busca apenas o lucro, a qualquer custo, como se o planeta fosse uma cadela usada para parir filhotes lucrativos em série. Quando a cadela-mãe se esgota, ela é descartada - o que não pode acontecer com a Terra.

Foi necessária uma catástrofe para repensar o mundo. Essa catástrofe tem também permitido que os brasileiros conheçam o egoísmo, a desonestidade e a ganância de muitos dos seus conterrâneos. Uma das situações que saltam às vistas são os chamados estados de exceção que, para alguns dos autores de Sopa de Wuhan, podem ser questionados em seu verdadeiro significado. Para o filósofo italiano Giorgio Agamben, “existe uma tendência crescente de utilizar o estado de exceção como paradigma normal de governo”, que se utiliza de “uma verdadeira militarização de municípios e zonas em que se desconhece o motivo de transmissão de ao menos uma pessoa”.

Interessantíssimo é o texto do esloveno Slavoj Zizek. Com o título de “O coronavírus é um golpe no capitalismo no estilo Bill Kill”, ele se refere, de maneira clara, ao retorno do animismo capitalista, que trata fenômenos como o mercado ou o capital financeiro como entidades vivas. Para ele, é sintomático que, no lugar de se preocupar com os mortos e como os que morrerão, a grande imprensa anuncie que “o mercado anda nervoso”.  Cita sintomas da pandemia que prejudicam o mundo capitalista: milhares de passageiros presos em cruzeiros. A produção automobilística também se vê ameaçada, já que o transporte individual tem que ser substituído. E conclui afirmando que se designamos como comunistas todos aqueles que são conscientes de que, para salvar nossas liberdades, são necessárias mudanças radicais agora que o capitalismo se aproxima de uma crise, então o futuro pode ser comunista.

“O coronavírus é a eliminação do espaço mais vital, mais democrático e mais importante de nossas vidas que é a rua, esse “exterior” que virtualmente não devemos atravessar e que, em muitos casos, era o único espaço que nos restava”. É assim que sintetiza o que estamos vivendo a feminista radical boliviana Maria Galindo (na foto, abaixo). Seguindo essa mesma lógica, ela afirma que a pandemia é o holocausto do século XXI, devido às pessoas que morreram e às que virão a morrer, sacrificadas pela doença e pelos sistemas de saúde que decidem que há pessoas que merecem viver e outras que podem morrer.

Essa classificação que define os que vivem e os que morrem é também tema do texto de Paul Preciado (na foto, abaixo), o filósofo espanhol transgênero. Num texto tenso, perspicaz e muito inteligente, ele explica que “comunidade e imunidade têm a mesma raiz latina munus, o tributo que se devia pagar para fazer parte de uma comunidade. Os privilegiados, dispensados do pagamento, eram os imunes. Dessa forma, a comunidade exige também uma hierarquia entre aqueles corpos isentos de tributos (os imunes) e aqueles que a comunidade percebe como perigosos, que serão excluídos num ato de proteção imunológica. Eis aí o grande paradoxo: todo ato de proteção implica uma definição da comunidade segundo a qual ela dará a si mesma a autoridade para sacrificar outras vidas em benefício da sua soberania. O estado de exceção é a normalização deste paradoxo insuportável.

Criado em 2020-04-04 22:41:09

O que tem por trás da sigla BRASIL?

Marcos Bagno -

Se o nome BRASIL fosse uma sigla, o que significaria cada letra?

Conhecendo a história monstruosa desse país, uma história de tragédias que não se conjugam no passado, porque elas se prolongam inalteradas até os dias de hoje, com muita probabilidade de se estenderem por muito tempo ainda, talvez se pudesse arriscar a seguinte decifração do acrônimo.
 
B de “branco”. Não interessa que mais da metade da população seja não-branca nem que o Brasil abrigue a maior população negra fora da África. Não nascer branco por aqui é trazer já desde o primeiro minuto de vida um estigma impossível de ocultar, porque está na própria cor da pele. O Brasil é muito mais do que um país racista: o Brasil é um país genocida.

A juventude negra do sexo masculino é sistematicamente exterminada, todos os dias, em todos os cantos e recantos dessa terra infeliz. É um massacre programado e levado a cabo com uma precisão ainda mais impressionante que a dos campos de concentração nazistas.

Afinal, a Alemanha é muito menor do que o Brasil e, além disso, no período nazista, os judeus, os ciganos, os homossexuais e outras vítimas do regime tinham de ser transportados até os campos de extermínio para lá serem eliminados. Os gastos com o transporte eram consideráveis. Aqui nada disso é preciso.

A execução sumária da população negra se faz no meio da rua, na porta das casas, nas calçadas das lojas, diante dos restaurantes, no estacionamento dos shoppings, à luz do dia ou na calada da noite, com a aprovação cúmplice, silenciosa e covarde de quem acha que não tem nada com isso. É um genocídio também porque a população não-branca é a mais atingida pela miséria, pelas doenças, pela fome, pela violência.

Quanto à mulher negra, ela ocupa o mais baixo patamar da escala social. As mulheres não-brancas constituem um repositório de mão de obra baratíssima para camadas sociais de mentalidade e comportamento escravagistas. E assim como durante mais de trezentos anos, elas ainda são objeto da exploração sexual institucionalizada, estimulada pelo homem branco, que faz questão de ensiná-la a seus filhos para que a tradição não se perca.
 
R de “rentista”. A oligarquia dominante se recusa a ser minimamente moderna, lembrando que, para os historiadores, a “era moderna” termina em 1789, com a Revolução Francesa. Sim, termina em 1789. Os donos de tudo no Brasil nem sequer chegaram lá. Essa oligarquia quer se manter entranhadamente medieval, feudal, não quer investir em nada a não ser no próprio ócio.

Para isso, ela conta com as maiores taxas de juros do mundo, instituídas por ela mesma, é claro. Para que investir na criação de um mercado interno? Para que gerar indústrias, produtividade, emprego e riqueza para todo o país? O capitalismo é um brinquedo perigoso e arriscado, coisa para burgueses, esses revolucionários inconsequentes. Melhor é não fazer nada, abandonar o resto da população à miséria e à ignorância e deixar a fortuna se reproduzir por inércia.

A de “autoritário”. O homem branco rentista não pode exibir outro modo de ser senão o autoritário. O poder é dele, tem sido dele, sempre foi dele, e não há por que contestar. Independência, Abolição, República, eleições diretas, Constituição? Meros jogos de salão, coisas para inglês ver, efeitos de moda que não atingem nem a superfície da estrutura sociopolítica de um país nascido de um dos sistemas coloniais mais violentos e sanguinários da história da humanidade, marcado pelo genocídio sistemático de povos inteiros e pela escravização de milhões de seres humanos durante mais de três séculos.

De vez em quando, o homem branco rentista até brinca de deixar o governo ser exercido por gente de fora de seu clube restrito, mas é bom reparar: o governo, e não o poder. O poder nunca escapou de suas garras, e se for preciso recorrer à tortura, à eliminação física de seus adversários, ao golpe de Estado, ao desrespeito da lei, ele não hesita em momento algum. Não é só uma piada dizer que no Brasil a lei só vale para os três P: preto, pobre e puta.

É uma verdade, um cláusula pétrea da constituição social do país. E agora, claro, acrescenta-se mais um P: petista, termo genérico aplicado imbecilmente a toda e qualquer pessoa que ouse dizer um “a” contra os crimes praticados a todo momento pelos que se cansaram de brincar de democracia e resolveram assumir de vez seu fascismo maldisfarçado.

S de “sexista”. A ONU considera o Brasil o quinto pior país do mundo para se nascer mulher. A cada hora e meia uma mulher é assassinada por aqui. O Brasil é campeão mundial em homicídios de gays, lésbicas e transexuais. Mas isso não tem importância. O importante é nem sequer mencionar a palavra “gênero” nas escolas, porque tem gente de olhos e ouvidos abertos para denunciar e pedir a prisão de quem se atrever a proferir o termo amaldiçoado. E toca a aplaudir o deputado psicopata e os fundamentalistas religiosos que apregoam essas ideias.

I de “iletrismo”. Nada menos do que 75 por cento da população brasileira entre 15 e 64 anos é classificada de analfabeta funcional. Isso equivale às populações da Argentina, da Colômbia e da Venezuela juntas. São pessoas que frequentaram a escola, mas saíram de lá sem as habilidades mínimas de leitura, escrita e cálculo.

Afinal, a escola pública brasileira serve exatamente para reproduzir as desigualdades sociais e econômicas, e isso se faz produzindo... analfabetos funcionais. Como disse Darcy Ribeiro, há exatos quarenta anos: “A crise na educação não é uma crise, é um projeto”. Esse projeto se configurou desde sempre pela explícita manutenção da grande maioria do povo na ignorância, e o atual desgoverno golpista quer aprofundar ainda mais esse abismo colossal.

É claro que a maioria dos analfabetos plenos e funcionais é de gente não-branca. O corpo docente brasileiro é mal formado, ganha (ganha?) salários de miséria, é desprestigiado e desrespeitado dentro e fora de sala de aula. E uma parte significativa das professoras e dos professores, incluindo os de língua portuguesa, têm escasso domínio da leitura e da escrita. Mas isso não tem importância.

O importante é congelar os investimentos em educação por vinte anos, deixar as escolas e as universidades públicas se degradarem, não investir em pesquisa e patrocinar alegremente a privatização do ensino. E espalhar aos sete ventos que Paulo Freire não presta, é um reles comunista, mesmo que seja um dos educadores mais respeitados no mundo todo, mesmo que o país onde suas ideias são mais aplicadas sejam os Estados Unidos.

L de “latifúndio”. Como é que uma oligarquia feudal, branca, autoritária e rentista poderia viver sem o latifúndio? Mais de 40 por cento das grandes propriedades rurais brasileiras são improdutivas, e isso porque os critérios para medir a produtividade ainda são os mesmos estabelecidos em 1975. Mas isso não tem importância.

O importante é promover a execução sumária de líderes camponeses, fazer o Brasil se tornar campeão mundial de assassinatos de ambientalistas, se valer de trabalho escravo e invadir territórios destinados aos povos indígenas, de preferência matando esses indígenas, como fizeram os ancestrais desses mesmos latifundiários desde que puseram o pé nessas terras.

O importante é destruir todos os ecossistemas, um por um, até transformar o país inteiro num enorme deserto estéril. E agora querem permitir que estrangeiros sejam donos de terras aqui, coisa que é rigorosamente proibida pelas maiores e mais importantes nações do planeta.

É isso o que vejo por trás das seis letras do nome BRASIL.

Já pensou se o país se chamasse Turcomenistão ou Liechtenstein?

Criado em 2017-07-20 01:52:58

Todas as bandeiras juntas, pela democracia

Sandra Crespo -

Navegando por aqui, na chamada rede social, eu notei um ou outro post que, para chamar atenção à sua (justa) causa, acaba atacando outras lutas tão justas quanto.

O que me incomodou foi a comparação falsa, vi uma agorinha, tipo assim: "enquanto ficam discutindo a cura gay, a maioridade penal volta à pauta".

Ora bolas, as duas coisas são igualmente péssimas! E então, por que um critica a bandeira do outro?

Na minha humilde opinião, as pessoas ainda sãs e conscientes deste país - e nem digo mais as "de esquerda" ou "progressistas", digo: as que têm raciocínio lógico e são sensatas o suficiente para recusar o retrocesso político.

Acho que é urgente que essas pessoas atentem para o fato - incontestável - de que todas as atrocidades que se sucedem e nos deixam apopléticos todos os dias, (desde que o golpista Temer assumiu o governo), fazem parte de um único roteiro: Aquele montado para destruir a democracia, o Estado de Direito e as liberdades individuais no Brasil.

Já é notório o avanço do fundamentalismo religioso no Estado brasileiro, em todos os níveis da administração pública. Para completar, sucedem-se nos holofotes da mídia ilustres juízes, regiamente pagos com dinheiro público, proferindo aos 4 ventos sentenças baseadas nos seus preceitos religiosos.

Tudo contrário ao Estatuto do Servidor Público e às leis que regem ética e a moral do serviço público.

Em suas sentenças, juízes evangélicos citam salmos da Bíblia no lugar da Constituição.

Mas no Brasil, os juízes são intocáveis.

Estamos sob ataque sistêmico de forças ultradireitistas, que atuam super à vontade na sociedade brasileira há tempos, por meio da indústria do medo.

Meios de comunicação e igrejas safadas se encarregam do espetáculo de violência extrema, tragédia, desespero... para depois tudo dar certo, por causa da capacidade de SUPERAÇÃO, palavra mágica de 9 entre 9 eventos, affffff.

Essas igrejas e essas tevês fazem o serviço fascista direitinho, com a contribuição inestimável do governo golpista. Que gasta nisso o meu, o seu, o nosso dinheirinho.

É o que temos para o momento, lutar de novo contra a censura, agora trazida por fanáticos religiosos infiltrados em todas as classes sociais e nas instituições do Estado brasileiro!

Uma corja que ataca de forma truculenta os seguidores de nossas religiões ancestrais africanas! Tentam impedir seu direito de fé e culto. Logo a nossa Umbanda e o Candomblé, raízes da civilização brasileira (que existiu numa época, mas já acabou).

Somos atacados por uma horda de siderados que odeia índios e quilombolas. É misógina, é xenófoba, homofóbica. A intolerância é a sua palavra de ordem.

É da Bala, do Boi, da Bíblia. Não é das pessoas.

É essa lógica horrível que está a nos pautar ultimamente.

Então, voltando ao começo, eu humildemente acho que não podemos desprezar nenhuma bandeira trazida pelos companheiros que estão conosco, ombro a ombro, nesta dificílima batalha pela restauração da democracia no Brasil.

Juntos somos fortes é um cliché muito útil agora, eu penso. Pois o barco é o mesmo... e está à deriva.

Criado em 2017-09-21 21:00:11

O olhar e a travessia

Zuleica Porto –

Para Eduardo Coutinho (São Paulo, 1933 – Rio de Janeiro, 2014).

O olhar é o de Dilma Rousseff, flagrado quando ela compareceu diante da plateia que lotava o Teatro dos Bancários em Brasília, no dia 28 de agosto de 2016. Seria a última vez que ela se apresentaria em público como Presidenta do Brasil.

Naquela noite, o fotógrafo Lula Marques condensou para a História o olhar de Dilma em dois momentos de sua vida política.

O primeiro, em uma fotografia ampliada num grande painel no fundo do palco do Teatro, no momento em que a então jovem resistente à ditadura instaurada em 1964 estava diante do Tribunal Militar (1970).

O segundo, o da senhora Presidenta, que no dia seguinte seria interrogada por outros inquisidores, os senadores que votariam pelo seu impedimento no nefasto dia 31 daquele mês.

O registro de Marques revela que Dilma tem o mesmo olhar da fotografia de três décadas passadas: triste e decidido. Melancolia e coragem. Sombra e luz, a essência mesma da fotografia.

Há não muito tempo atrás, era no escuro dos laboratórios que as imagens eram reveladas. “Relógios de ver” é como Roland Barthes denominava as antigas máquinas fotográficas, e o gemido do diafragma era a única coisa de que gostava ao ser fotografado.

Para ele, este era “o barulho do tempo” que, imobilizado na fotografia, traz o passado ao presente de quem vê.

O fotógrafo anônimo imobilizou o tempo e trouxe o passado para o nosso presente, para que Lula revelasse para o futuro a tristeza e a valentia de Dilma Rousseff.

Retorno ao autor de “A câmara clara”, quando ele diz que o choque fotográfico está em mostrar aquilo de que o próprio autor estava inconsciente.

Diz Barthes que “a fotografia tem esse poder, de olhar direto nos olhos e revelar o que está oculto”.

O encontro dos dois olhares, a expressão que permanece, não poderia ser prevista pelo fotógrafo do passado, a não ser por uma capacidade mágica de ver o futuro da que sobreviveria às torturas para ser a primeira mulher a governar o Brasil e ser deposta por mais um golpe de Estado, o que hoje estamos a sofrer.

Quanto à foto de Lula Marques, ele é quem pode dizer se o momento feliz se deve ou não ao acaso.

Se a fotografia congela o tempo, o cinema, como diz seu próprio nome, é movimento. No dizer de Barthes, no cinema os personagens passam diante do pequeno orifício e seguem seu caminho, continuam a viver.

É, portanto, trajetória, ou travessia. Pego emprestada de Guimarães Rosa a palavra para contar um pouco dos caminhos percorridos por dona Elizabeth Teixeira e sua prole, segundo o cineasta Eduardo Coutinho.

Ela, viúva de João Pedro Teixeira, líder das Ligas Camponesas assassinado em 1962, em Sapé, Paraíba. Ele, um dos maiores cineastas do nosso tempo.

Os filmes são dois. O primeiro, “Cabra marcado para morrer”, nasceu em 1962, quando Coutinho, então um jovem militante do Centro Popular de Cultura da UNE, registra o comício em protesto pelo assassinato de João Pedro. É quando ele conhece Dona Elizabeth.

Vale a pena recordar a trajetória do próprio filme, sujeita a sobressaltos e mudanças de rumo e forma.

As filmagens tiveram início na Paraíba, no começo de 1964. A narrativa do diretor conta que o roteiro inicial seguia os ditames “típicos da nossa cultura naquele tempo”.

Buscava conscientizar o espectador sobre a miséria reinante no país, com um discurso didático e a famosa “canção da UNE”, que bradava “somos um país subdesenvolvido / subdesenvolvido, subdesenvolvido”.

Dona Elizabeth e os companheiros de João Pedro encenariam suas próprias vidas e o assassinato do líder camponês.

Em 15 de março, um confronto entre os lavradores e a Polícia desloca a equipe para o Engenho Galileia, em Pernambuco.

Continuam a filmar, e são novamente interrompidos em abril, quando parte da equipe e dos lavradores é presa, sob a acusação de “comunismo”, e o restante se dispersa.

Os 11 filhos de Dona Elizabeth e João Pedro Teixeira são espalhados entre parentes e ela entra na clandestinidade, adotando a identidade de Marta Maria da Costa. Muda-se para o Rio Grande do Norte.

Em 1981, quando o Movimento pela Anistia sacode o país numa onda de esperança, Coutinho retoma a ideia. Localiza alguns dos antigos camponeses, Dona Elizabeth, que reassume sua verdadeira identidade, e alguns dos filhos.

É um novo filme, o primeiro de uma série que colocou Coutinho entre os grandes cineastas do mundo.

Sua pegada é profundamente humanista. O diretor é também personagem que se mostra perguntando, contando, comparando suas lembranças com as dos outros.

Cresce a figura de Dona Elizabeth, que narra a trajetória que percorreu no decorrer dos 17 anos transcorridos.

E mais não conto, pois o texto já se alonga demais. Para quem não viu, o filme está disponível no Youtube (veja aqui https://www.youtube.com/watch?v=JE3T_R-eQhM ).

Incansável no resgate da memória, pouco antes de morrer Coutinho retoma a saga dos Teixeira. Sai em busca dos filhos de dona Elizabeth, que não encontrava desde 1984.

Com ela, esteve sempre em contato. Sabemos então da travessia de cada um, de cada uma. Diversos sotaques, profissões, discursos. Um é médico formado em Cuba, outra, professora, comerciantes, operário, dona de casa.

Há quem mantenha os laços, entre si e com a mãe. Duas filhas, levadas pelas mágoas e ressentimentos do passado, distanciam-se dela e do restante da família.

Coutinho aconselha a reconciliação, principalmente com a idosa dona Elizabeth, que aos 88 anos continua firme na saúde e nos ideais: reforma agrária, salário digno e educação para todos.

O ciclo se fecha com a neta, Juliana Elizabeth Teixeira, professora de História na Sapé em que foi morto o seu avô. É a guardiã do Memorial das Ligas Camponesas e do modesto Monumento em homenagem a João Pedro.

Conta que todos os anos, no aniversário de morte dele, faz-se uma caminhada entre os dois lugares de memória. Seu nome une o da avó ao criador das Ligas Camponesas, Francisco Julião.

Observo que Coutinho recorre sempre às fotografias antigas para refrescar a memória e suscitar a narrativa das lembranças dos entrevistados. Cinema e Fotografia. Tempo e Espaço. História e Memória.

Por fim, deixo minha lembrança afetiva do grande diretor a quem dedico este texto: fui aluna dele em um curso de curta duração: direção e roteiro no documentário.

Quando nos mostrou seu filme então mais recente, “Santa Marta – duas semanas no morro”, quase não acreditei na pergunta que fez ao final: “Então, o que vocês acharam?”

Mas o que mais me comoveu foi perceber que ele usava a mesma bolsa de couro das filmagens de “Cabra marcado para morrer”.    

Criado em 2017-04-09 21:10:08

O sentido da vida para Calligaris

Maria Lúcia Verdi –

Após ler as matérias publicadas sobre a morte de Contardo Calligaris me veio o desejo de tentar dizer algo mais. Me chamou atenção que ninguém houvesse se detido sobre a última frase pronunciada por ele, segundo seu filho Max. Tendo sido aluno de Foucault, de Roland Barthes, e analisando de Lacan, com formação em epistemologia, literatura, filosofia, psicologia clínica etc, tendo clinicado em Paris e em Nova Iorque antes de se radicar no Brasil, qualquer frase dita é significativa e a última merece especial atenção.

Intelectual diversificado, romancista, ensaísta e até mesmo responsável por exitosa série televisiva, Calligaris sempre se serviu de sua própria vida e da vida de seus pacientes para escrever o que fosse, enriquecendo assim suas narrativas com o sangue do vivido.

Algo que me parece essencial no seu legado é a colocação reiterada sobre o sentido da vida. Segundo ele o sentido está na vida ela mesma, no seu desenrolar-se cotidiano, não valendo a pena buscar sentidos ocultos ou metafísicos, pois eles não existem. Este realismo me recorda a postura oriental, a do Taoísmo, a dos Koans do Zen budismo – o non-sense é o sense da vida. Assim como essa postura -provocadora, considerando nossa civilização cristã - que afirma a falta de sentido da vida, Contardo se pergunta sobre o que é o Bem. Neste tempo sem valores morais e éticos, pergunta mais do que pertinente.

Figura pública que comentava o Brasil e o mundo em suas crônicas na Folha de São Paulo, defendia o ódio como afeto salutar, desde que saibamos porquê odiamos nossos inimigos. Odiava nacionalismos, patriotismos e qualquer grande entusiasmo dos grupos - neles reside o perigo, afirma. Verdade incontestável que o afastou por muito tempo do país de origem, a Itália fascista. Alerta, também, para a sedução que os corruptos exercem, segundo ele admirados por terem poder.

Com pouco tempo entre nós escreve o livro Hello Brasil, onde coloca observações muito pertinentes sobre a cultura brasileira, mas, como confessa, possuindo um olhar ainda despreparado para toda a estranheza e complexidade brasileira. Não via, por exemplo, o que depois lhe ficou evidente, o fantasma da escravidão por trás de todas as práticas sociais.

Só com o tempo compreendeu a ambiguidade da voz brasileira, em que colonizador e colonizado podem compor uma perigosa fala, que se manifesta também em ações inaceitáveis. Interpreta o jeitinho brasileiro como uma forma de “resgatar uma subjetividade não reconhecida”, como um instrumento dos despossuídos da terra para se “virarem” em nossa sociedade que parece ser destinada a ser eternamente patriarcal, colonizada e injusta. Como De Gaulle, Contardo acredita que o Brasil será um país do futuro ainda por muito tempo.

Este homem brilhante se dizia um hedonista e defendia didaticamente a busca do prazer, tendo se casado oito vezes, por, segundo ele, acreditar no casamento. Confesso que gostaria de saber o que as ex-mulheres diriam sobre a convivência com alguém tão excepcional em tudo. Tão seguro de si que dizia não saber o que significa o ciúme.

Mas voltando ao início, à frase derradeira: “Espero estar à altura”. Estou há dois dias pensando nesta afirmação. Afirmação que contém uma pergunta. Vinda de quem veio é lícito indagarmos sobre estar à altura de quê, ou de quem. Na pergunta final, creio que personifica a morte. Embora ateu, se questiona estar ou não no nível de quem, ou do quê, o receberá. Tendo várias vezes mencionado sua descrença em uma vida além-túmulo, ou num Juízo Final, o que terá querido dizer este psicanalista? Além da obra escrita, Contardo Calligaris nos deixa este enigma sussurrado.

Criado em 2021-03-31 23:29:58

Saudades e Jacarezinho, dantescos

Angélica Torres –

A máscara teatral da comédia/tragédia que
encobre a nossa face em tempos de guerra

Este não tem a menor pretensão de ser um artigo convertido em material publicável de um ombudsman. Ou ombudswoman. Mas, estaríamos nós os independentes dando atenção somente ao terror do massacre ocorrido ontem em mais uma favela carioca? Ou seria uma ilusão de ótica e de audição, em meio a tantas mídias e notícias dirigidas a públicos específicos, numerosos e díspares entre si?

Seria também impressão de que o bombardeio do horror diário pela imprensa corporativa, por seletividade em atenção a seus interesses particulares, enfatize enormemente só os assuntos que mantêm em alta a sua audiência, e com isso confunda, distraia, desvie nossa atenção cidadã de outros de grande importância?

Não que a morte do Paulo Gustavo por Covid não merecesse amplo destaque – é óbvio –, até por ter sido mais uma vítima do mesmo mórbido cenário que nos afronta, e simbolicamente, sob a máscara teatral de duas faces - afinal, ele representava o humor brasileiro, nosso poderoso salvador, resistente, imbatível mesmo nos piores momentos de nossas muitas cotidianas tragédias.

Mas é preciso considerar que a chacina ocorrida no dia 4 de maio em Santa Catarina, o estado de cultura alemã, da região que reúne o maior número de fascistas no país, não é menos escabrosa que a do massacre do Jacarezinho e chocante para o público, do que a morte do comediante.

Saudades – A tragédia ocorrida no interior catarinense é simplesmente a metáfora do corte, a facão, na esperança da caminhada da humanidade em sua saga – que são os bebês. E assassinados dentro de uma creche-escola municipal. E com professoras também vítimas do ato de insanidade. E numa cidade pacata, de menos de dez mil habitantes, por uma tristíssima ironia do destino, chamada  Saudades.

E esse fato não se constitui apenas numa metáfora, mas também no indicador de que a colheita do modelo da violência de terror exportado pelo e importado do Estado norte-americano vingou no Brasil dos facínoras, agora, pela raiz.

Os dois massacres, ocorridos em dois dias seguidos, precisam ser denunciados e lembrados juntos, como tragédias irmãs do mesmo horror que nos avilta, pelo princípio do incentivo impune à mortandade de seres humanos, e já  independente de cor, raça, gênero, credo, classe social, idade. Curioso é que ambos aconteceram logo após o Dia do Trabalhador.

Simbólicas – Talvez, a chacina dos bebês até tenha ficado em segundo ou terceiro plano, porque, de tão hedionda, nem se quer lembrar; mas não se pode subestimá-la, por ser, além de tudo, profundamente simbólica.

Entretanto, igualmente sinalizadora é a da favela em que tenebrosamente foram assassinados 25 cidadãos, por ordem do governo do estado do Rio; soube-se que às vésperas, o governador esteve com aquele ser chamado de Mito por seus seguidores – ou seja, no mesmo dia em que morreram o ator, em São Paulo, e as três criancinhas de menos de dois anos de vida, em Saudades.

Quanto ao terror no morro do Rio, repare-se: muitas pessoas, não seguidoras do tal mandatário citado, logo que vacinadas avisam contentes nas redes sociais, aos amigos: "virei jacarezinho", e assim mesmo, nesse tom carinhoso, em diminutivo, aludindo à imagem do mesmo réptil de nome usado pelo tal ser para insultar e acuar os cidadãos contra a vacina anticovid. Jacaré, pois sim. Jacarezinho, pois não?...

Convém-nos ponderar que nada é fortuito no estado de coisas que vivemos. Portanto, e por tantos tenebrosos assaltos à nossa dignidade e inteligência, nós que ainda estamos aqui, temos de seguir fortes e atentos, mantendo um olho no chão da guerra, minado por técnicas subliminares de armadilhas que, às vezes, de tão sutis, não se percebe a figura-fundo.

Assim como passou ignorada para tantos a trama armada nos últimos 5, 6 ou mais anos, também sem que se vislumbrasse a vala sem fundo para onde nos empurravam – embora para muitos ela fosse nítida, concreta, palpável, como o peso da pata de um elefante.

Mente e olho vivos, ao menos isso, já que os braços, dos que temos senso de justiça no país, parecem estar mortos.

Criado em 2021-05-07 21:16:32

Elisa Locón: “Essa Constituinte transformará o Chile”

Romáro Schettino -

A indígena mapuche Elisa Locón, eleita presidenta da Assembleia Constituinte do Chile, no dia 4 de junho, disse em seu discurso de posse que “essa Constituinte transformará o Chile”.

Além do aspecto multicultural relevante, os constituintes chilenos eleitos nos dias 15 e 16 de maio estarão encarregados de discutir e votar, dentre outros assuntos, o modelo de desenvolvimento econômico, o papel do Tribunal Constitucional, a autonomia do Banco Central e a autodeterminação dos povos indígenas.

O Chile chegou a ser considerado modelo de crescimento econômico na América Latina, na época de Pinochet. Nessa época a ditadura chilena contou com a assessoria do ministro Paulo Guedes, o mesmo que agora quer repetir a dose no Brasil.

O modelo festejado pelo FMI acabou por se tornar um pesadelo em função do alto custo social, concentração da renda, aumento da pobreza extrema e retirada de direitos. A classe média sofreu perdas incalculáveis, o suficiente para engrossar o caldo das manifestações populares contra as políticas neoliberais do presidente Sebastián Piñera. A reforma da previdência foi o estopim das revoltas.

A única maneira de pacificar o país foi a convocação da Constituinte. Nos dias 15 e 16 de maio deste ano foram eleitos 155 constituintes (o Chile tem 19 milhões de habitantes) para uma Assembleia que terá 365 dias para escrever a nova Carta do Chile em substituição à que foi aprovada por Pinochet em 1980.

Dentre os eleitos, 77 são mulheres e 78 são homens, o que caracteriza um importante impulso do movimento feminista nas eleições. A direita tradicional conseguiu 37 vagas e a esquerda histórica, 53. As demais 65 vagas estão distribuídas entre os independentes, ou seja, os sem partido.

Ao fazer o seu primeiro discurso, a indígena mapuche Elisa Locón, eleita presidenta da Assembleia, fez uma saudação na língua materna, vestiu roupas tradicionais de seu povo, segurou a bandeira do movimento mapuche e deixou claro que suas origens terão papel fundamental nos debates, mas num tom moderado.

Elisa Loncón é professora de inglês na Universidad de la Frontera e de mapudungun (a língua mapuche) na Pontifícia Universidade Católica do Chile, em Santiago. Fez pós-graduação no Instituto Internacional de Estudos Sociais de La Haia e doutorado na Universidade de Leiden, ambas as instituições na Holanda.

Loncón se diz uma mulher de esquerda, embora nunca tenha participado ativamente de nenhum partido político — ela afirma se inspirar na tradição mapuche de votar temas em assembleias. Os indígenas chilenos são 9% da população. Destes, 84% são mapuche — o restante está dividido em outras dez nações.

A família dela tem tradição de se envolver nas lutas mapuche. Seu bisavô e seu tataravô lutaram contra a ocupação militar da Araucania em 1883 e defenderam Temuco, a capital da região.

Parte dos mapuche defende inclusive que a região se separe do Chile e da Argentina — terras indígenas também estão no país vizinho— para a criação de um novo país independente. Loncón, porém, pertence a uma ala mais moderada, que defende apenas que o Chile reconheça a soberania dos indígenas na região.

História – O povo Mapuche é originário do Chile e da Argentina e resistiu à colonização espanhola com guerras que duraram três séculos. A luta pela recuperação de seu território ancestral, por mudanças constitucionais em prol dos direitos indígenas e reconhecimento por parte dos Estados de suas especificidades culturais é permanente.

O sentimento de que os mapuche têm direito à autodeterminação é sustentado pela preservação da língua materna, o mapudungun (que em português significa som da terra).

Ao alimentar o separatismo e a independência do Chile e da Argentina o movimento mapuche declara: "Debaixo de um ambiente intolerável de opressão, não se vislumbram perspectivas de reconciliação”.

Os mapuche são conhecidos também como araucanos (nome que os espanhóis lhes deram, mas que eles não reconhecem como próprio e é tido como pejorativo).

Os grupos localizados entre os rios Biobío e o Toltén (atual Chile) conseguiram resistir com êxito aos conquistadores espanhóis na chamada Guerra de Arauco, uma série de batalhas que durou 300 anos, com longos períodos de trégua. A coroa de Espanha reconheceu a autonomia destes territórios em 1641, por meio do Tratado de Quilín. Após a independência de Chile e Argentina, estes territórios foram invadidos por destacamentos militares republicanos, sendo a população Mapuche confinada em "reduções" no Chile e reservas indígenas na Argentina.

Por causa desse processo de expulsão territorial, mais da metade da população indígena Mapuche vive hoje em dia em zonas urbanas, muitas mantendo, entretanto, vínculos com suas comunidades de origem.

Criado em 2021-07-06 21:46:56

A Esperança em vias de ressurreição

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) -

Quando André Malraux batizou Brasília de “a capital da Esperança”, no dia 25 de agosto de 1959, o primeiro cemitério da cidade já tinha sido inaugurado há sete meses, com o corpo do engenheiro da Novacap Bernardo Sayão, abatido por uma árvore de 40 metros de altura na rota da Belém-Brasília.

Chamar o cemitério de Campo da Esperança (“a última que morre”) foi o cúmulo da ironia e da premonição.

Diz a lenda que esse nome seria uma homenagem à Dona Esperança, escrava alforriada, milagreira, enterrada em meados do século 19 na altura da atual 916 Sul.

Uma cidade se constrói com sonhos, mitos, pau, pedra, tijolo, vidro. E ainda sangue, suor e lágrimas. Em Brasília muito sangue, suor e lágrimas correu desde o massacre perpetrado pela Guarda Especial de Brasília (GEB) na Pacheco Fernandes; desde os porões de tortura do Pelotão de Investigações Criminais (PIC); desde os caminhões de despejo da Campanha de Erradicação de Invasões (CEI de Ceilândia); desde os golpes do rebenque do comandante militar do Planalto, o general Newton Cruz, durante a repressão à campanha das Diretas Já.

Ocorre que o general Nini, neonazista de carteirinha e modelo inspirador dos filhinhos de papai que assassinaram o índio Galdino Pataxó, não conseguiu abafar o buzinaço das Diretas.

Uma cidade também se constrói com buzinas, gritos, ovos à guisa de petardos, e sambas de “amanhã vai ser outro dia”, puxados pela Esperança sepultada, quem sabe agora em vias de ressurreição.

Criado em 2022-04-21 04:36:46

Micos. Um dia você vai ter os seus. E não serão dourados

Luiz Martins da Silva –

Morro de sem graceza quando dou foras. Só que, às vezes, a boca não segura a língua. Mancadas, muitas. E para cada uma delas ainda conservo o rubor. O chato é que a memória funciona muito bem para essas coisas, não há como apagá-las. Vexame a gente nunca esquece. Já constatei que pessoas envolvidas em nossos tropeços até podem deletá-los. Nós, não. Uma vez, caí na bobagem de reencontrar uma delas e requentar o pedido de desculpas. Pra quê? Fui repreendido, assim:

– Poxa! Pra que lembrar? Eu tinha esquecido!

Às vezes, a inteligência de alguns parentes some de uma hora para outra. Numa ocasião, um deles me acompanhava e o ambiente era uma dessas lotadas salas de espera de consultas médicas e a enfadonha impaciência de conferir o andamento das senhas. De repente, emerge de um corredor um velho amigo, àquela altura um amigo realmente velho. Cumprimentou-me animadamente e eu o apresentei ao parente que estava comigo. Olhe o resultado:

– Duplo prazer em conhecê-lo. Primeiramente, eu sempre quis conhecê-lo, o Luiz falava muito em você. O segundo é vê-lo são e forte, pois ele me disse que você tinha falecido.

Que mal estar!  E por mais que eu dissesse que eu nunca tinha dito aquilo, o meu parente me desmentia. “Falou, sim, você até me disse que havia muita gente no enterro!”. O velho amigo, então, se despediu com esta:

– Ele não mentiu, meu caro. Eu morri mesmo, foi no ano passado. Mas, eu não me conformei e vim aqui tomar satisfações com o incompetente do médico que fez a minha cirurgia.

Não dou sorte mesmo em relação a contagem de vivos e mortos. Velhos e afastados amigos têm o péssimo hábito de, em reencontros, fazer balanços de quem foi e quem não foi ‘desta para melhor’. Um colega de faculdade me encontrou num evento e após o mesmo pôs-se a ‘atualizar o caderninho’: Sabe a fulana? Continua bonitona, mesmo já sendo sendo. Sabe o siclano? Ouvi dizer que está com Alzheimer. Soube que a beltrana morreu?

Caramba! Não sabia da morte de uma amiga. Ela, de fato, tinha uma saúde debilitada. Algum tempo depois, o impossível aconteceu: eu a vi. E como para me certificar de que eu não me tornara vidente, fui até a minha querida colega de faculdade:

– Que bom vê-la! Não vou dizer o nome do fofoqueiro, mas um dos nossos colegas me disse que você tinha morrido.

– Ela morreu mesmo. Você está me confundindo com a minha irmã.

Eu não sabia que a minha amiga e colega de tempos acadêmicos tinha uma irmã gêmea.

A propósito de reencontros, não comente mudanças físicas. Cabelos brancos, a roupa que ficou bem, acessórios que... Diferenças do tipo se a pessoa está mais magra ou mais gorda, jamais. Qualquer que seja a impressão, o melhor é não comentar, nem mesmo como elogio. Uma vez reencontrei uma amiga de muitas primaveras mas tantas sem vê-la, bateu-me a sem noção de elogiar a ‘nova gravidez”. Que maravilha! Menino ou menina?

 – É desleixo, mesmo! – e eu fiquei para trás, feito estátua, mudo. Só depois de um tempão é que me lembrei de respirar.

A pior ressaca é a moral. De bebida, em 24 horas vai embora. Mas, as circunstâncias que marcaram um porre podem se tornar inesquecíveis. Numa roda de bestas, um deles resolveu apresentar uma garrafa de arak. Não cuidei o teor etílico. Como era de anis, docinha, mandei ver. Efeito instantâneo. Não tive chance nem de sair correndo. Chamei o “juca” ali mesmo e com a sensação de que não sobreviveria. De volta à vida, me vi abestado, avexado e sozinho com uma conta na mão. Dia seguinte, vergonha da própria sombra.

Num outro país, supostamente menos desenvolvido do que o ‘nosso’, pedi uma lista telefônica na recepção de um hotel. Veio. E era tão grande que parecia ali estarem listadas todos os habitantes daquela nação. Precisava de três mãos para gerenciar aquela maçaroca e mais uma caneta para anotar. Como se fechava teimosamente, marquei com um minúsculo e delgado vinco a página encontrada. Para quê? O balconista me acertou uma: “Que mala costumbre, que tienes vós!”.

Ao retornar de uma outra terra distante, cheguei muito cedo ao aeroporto. Como tinha tempo de sobra, resolvi conhecer algum prato exótico. Por curiosidade, escolhi uma comida à moda tártara. Não demorou, veio uma pratada de carne crua com um tempero punk. Não desceu. Pedi a conta e me desculpei, dizendo que me enganara com o horário de voo.

No México, de tanto ver placas de “Hay burritos”, não resisti. Para quebrar o gelo, brinquei: “Carne de burro, né?” Não levou nem dois segundos para eu receber a chapuletada:

– Si!

E em alto e bom tom, para que outros presentes também ouvissem, veio o esclarecimento: “Tanto quanto hot dog é carne de cachorro”.

Sempre desconfiei que não vim ao mundo com autorização para estrupícios. É tomar parte com o ladino e lá vem porrada. Certa vez, estava com pressa e estacionei fora da norma. ‘Só ia ali, rapidinho’. Mais veloz foi a notificação afixada sob o limpador de para-brisa. Guardas são onipresentes ou têm mania de nos pegarem na curva. “Estou indo levar estas senhoras para um enterro, em cima da hora”. Era verdade, mas, não colou. Além de autuado, uma liçãozinha: “Estivesse socorrendo um vivo, dava para entender...”

Joguem verde e eu despenco de maduro. Pelo menos, não caio em conto do bilhete premiado, mas já tentaram. Por samaritano, embarquei em várias ciladas. Num semáforo, aquela história de me ajude a inteirar um quilo de arroz. Por acaso, tive de voltar ao mesmo local. E ali por perto, estava o cara de pau, numa roda, secando uma garrafa de cana com outros.

Doutra feita, era Carnaval, socorri dois acidentados, ambos, esvaindo-se em sangue. Bêbado pesa um horror. Com muito esforço, coloquei os dois dentro do meu carro. Rumei para um pronto socorro. No caminho, acordaram: “Tá nos sequestrando, filho da... Cadê o nosso carro?!” E foram me xingando até o destino. E os bafos? O banco traseiro, imundo de sangue e terra. Lá chegando, mais confusão e, prontamente, o policial do plantão me enquadrou: “Identidade, dados pessoais... Vai ser testemunha”.

Certa ocasião, viagem enfadonha, nas poltronas vizinhas dois jovens árabes. Puxei assunto: “Bom é no país de vocês, podem ter várias mulheres...”. Pelo olhar de um deles, murchei na hora. Decidi ir ao banheiro, mas, antes de desatar o cinto de segurança, ouvi: “Todas legítimas”.

Numa festa, reconheci a mulher de um amigo, a quem me referi, como se isso fosse uma boa referência. Risinho grosseiro, ela me ferroou: “Que pena, achei que era uma cantada”. Não sabia que estavam separados e brigados. E, na realidade, ela me julgou um mau caráter oportunista, daí a ironia.

Bem antes do fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) um amigo voltara de uma delas e eu, ansioso por ouvir o depoimento dele, fomos tomar um café. Ele aceitou de bom grado, pois estava mesmo a fim de se inteirar das coisas por aqui. Em dado momento, passei-lhe a palavra, mas já adiantando a curiosidade sobre o que julgava ter sido o maior desafio para ele, o frio. Porém, o mais difícil, relatou, foi a saudade. E como fazia para suportar? A resposta foi bem desalentadora:

– De vez em quando, os poucos brasileiros que estudavam na minha universidade se reuniam. Então, a gente botava uns discos de música norte-americana.

Continuo bom moço. E, quase um cacoete, alguns conselhos. Deparando-se com alguma celebridade ‘amiga’, não se adiante em cumprimentos, ceda a primazia. E não estranhe se o seu ‘amigo’ não se lembrar de você. Releve. Em geral, artistas quando não estão às voltas com shows ou outras atividades gostam de esvaziar a cabeça e, dentro dela, os nomes de pessoas. Não seja efusivo, não julgue atualizados antigos regozijos. Todavia, o pior é a celebridade não atinar mesmo quem é você. Evite, então, qualquer atitude que possa ser confundida com assédio de fã.

No contraponto, é comum em um momento seu de sucesso aparecer alguma pessoa muito conhecida, mas lhe dar um branco na hora. Isto acontece, por exemplo, num lançamento de um livro. O macete é, na entrada, alguém ir colocando em cada exemplar a ser autografado uma filipeta com o nome da pessoa a receber o autógrafo. Da parte de quem vai entrar na fila, nada de jogar fora o papelzinho. Mais que uma praxe, é um ato de generosidade para com alguém que, por puro embaraço tem lapsos de memória.

Existem dicas para tudo e não me surpreenderá se o Google souber “O que fazer para evitar gafes?” O Dr. Google tem respostas para tudo e até as explicações que um médico irá lhe fornecer em uma consulta simples. Mas, não seja indelicado revelando que já sabia e por parte de quem. Se o Google não acertar, o médico estará certo e não carecerá dizer isto para ele. Se houver discordância, não vá cotejar a diferença: “Então, o Google está errado?”

Outro preceito em consultas é não confundir o médico com aqueles livrões dos estudantes de Medicina. Depois do seu relato básico, a seção de perguntas é com ele. Quanto às suas, limite-se à abrangência da especialidade. Não pegue carona para consultas extras sobre problemas antigos ou medos novos. E não formule perguntas à base de possibilidades. “É possível que aconteça isto e aquilo?”. Para este tipo de pergunta, eles já têm uma resposta pronta: “Na Medicina, tudo é possível”. Ao que acrescento: na vida, também. Até encontrar pessoas que, supostamente, já morreram.

Criado em 2020-10-01 16:30:30

As coisas pelas coisas

José Carlos Peliano (*) –

O descolamento da realidade é uma doença antiga da sociedade moderna tratada com medicamentos virtuais que não curam e envolvem mais e mais os seres humanos na teia enganosa da alienação. O pior é que hoje chega-se ao ponto de crer em mitos sem pés nem cabeça que simbolizam um furor visceral sem precedentes a destruir a capacidade de se viver em sociedade com respeito, cooperação e dignidade.

Desde que a agricultura cede lugar às primitivas aglomerações com face urbana que se dá uma separação entre o ser humano e a natureza, entendida esta como o habitat comum de bichos, plantas, águas, terra, mulheres e homens. Estes tinham de viver e se reproduzir contando com a colaboração do solo, seus rebentos e todos os não-humanos que por ele se moviam. Havia uma comunhão rica e primitiva entre eles quando uns se valiam dos outros para levar a vida em frente.

Essa inter-relação a mais das vezes saudável e produtiva era a garantia da sobrevivência dos povos primitivos e seu meio-ambiente. O que tinha de mais duradouro, básico e fundamental nessas etapas da caminhada humana era que o ser humano tratava a terra como amiga e companheira e essa, por sua vez, o percebia como mais uma espécie viva que caminhava como os amigos bichos. A diferença aí entre o ser humano e o bicho era que o primeiro ajudava a reproduzir a natureza a sua maneira, ao passo que nem todo bicho procedia assim, muito embora ambos não eram destruidores. Consumiam para sobreviver e se manter sempre, não para se apropriar de vez, estocar e devastar.

A chegada da vida urbana distancia o ser humano desse convívio pacífico e frutífero. As raízes não estão mais no solo variado das condições naturais pois voltam-se para o solo batido, empedrado e bem mais tarde asfaltado. O ser humano tira a terra fresca e germinada do caminho, tapando-a definitivamente por baixo das coberturas com pedras ou piche e por onde iriam passar ele mesmo, os bichos domesticados e os veículos.

Esse cenário simbólico em todos os cantos do mundo fez com que a parte urbana da humanidade perdesse não só a noção da importância do papel da natureza na evolução humana, como também passasse a ver sua contribuição na sociedade somente nos produtos vindos dela para consumo. Este, ao simbolizar o ato final de transformação em energia no organismo dos rebentos da agricultura, encerra para os urbanos o que ela representa para a sobrevivência e reprodução da vida. Nada mais.

Segue daí que o consumo revela dessa forma a transformação de todo o processo de produção entre natureza e ser humano apenas no ato de comer, matar a fome, satisfazer ao paladar. A coisa final da produção da agricultura, uma couve, por exemplo, é vista apenas como uma “coisa” usada pelos urbanos para sua preferência nas refeições diárias. No limite da alienação urbana a agricultura é uma couve e uma couve é o que vem da produção agrícola.

Esse modo de ver e entender as coisas no mundo urbano, cada vez mais presente na contemporaneidade, se estende para os demais fetiches produtivos. Vê-se as coisas por elas mesmas, reifica-se cada uma delas pelo que representam em si, nada além. Em outras palavras, não se percebe que a coisa em si não existe por si mesma, ela resulta de um emaranhado de relações anteriores entre trabalhadores que possibilitaram chegar àquela coisa final produzida. Fica-se no particular e não se dá conta do todo.

Um aparelho de telefonia celular é visto como uma coisa que fotografa, comuta mensagens, permite falar com outra pessoa, guarda informações e transmite textos para as redes sociais, entre outras alternativas. Esse conjunto de atividades reifica-se com a palavra mágica, tecnologia. De última geração e de vantagens insuperáveis em relação às concorrentes, faz o usuário ser moderno, atuante, pródigo, importante, enfim quem a detém é o máximo, um proprietário de classe e moderno.

Essa redução, de um lado, da natureza e, de outro, da produção de um objeto tecnológico, uma coisa qualquer, estimula e induz mais e mais o consumo crescente. Na produção agrícola mecanizada, o “Agro é pop”, investe-se mais e mais na veiculação da propaganda de maior e mais rápida produção para os consumidores, com sementes selecionadas e tratadas para render ótimos produtos. Junto vêm, entre outras, imagens televisivas de tratores e equipamentos de todos os tipos limpando, revolvendo e plantando o solo e aviões aspergindo líquidos químicos para eliminar pragas e insetos.

Em ambos os casos citados, o telefone celular e a produção Agro, o produto final é uma festa de características particulares que são oferecidas aos compradores para saciar seus consumos pessoais. O produto representa mais que seu processo de produção, conta mais o produto e não o processo. Nesses termos, o processo é totalmente ignorado pela imagem “sem igual” do produto.

A vida urbana moderna é totalmente embrulhada em fetiche. O invólucro vale mais que o conteúdo. O que propiciam os novos produtos, sejam eles quais forem, com suas “qualidades” bem veiculadas faz com que o cidadão compre a boa nova que chega ao mercado sem maiores preocupações. Vale o que e como é vendido, não o que é possível, útil ou preciso, sem questionamentos.

O modo urbano de viver condiciona e leva a isso. Somente os grandes grupos e empresas têm mais acesso à TV, rádio, jornais, revistas e demais mídias. Seus produtos são veiculados diariamente, várias vezes ao dia. Em muitos casos, a propaganda maquiada ou enganosa disputa hoje com a fake news, assim o que não se mostra e o que se engana toma lugar de uma informação limpa e justa. Compra-se, então, qualquer coisa no mercado de acordo com algumas preferências pessoais do consumidor.

O invólucro das coisas vem recheado de qualidades intangíveis como conforto, praticidade, bom gosto, confiança, aparência e modernidade. O consumidor é levado a adquirir coisas mais pelas qualidades apregoadas nas propagandas do que seu real interesse, necessidade e oportunidade.

Vale aí a coisa, o produto, não o resto. No saco desse resto vai, por exemplo, a poluição das praias, dos rios, do ar, do som e do excesso de informação; a queima e devastação das matas, áreas de conservação e da floresta amazônica; o combate aos povos da floresta, quilombolas e indígenas, por ocuparem desde tempos imemoriais lugares para a exploração agrícola empresarial mecanizada e a pecuária extensiva de hoje; a exploração econômica de depósitos minerais de lítio para a produção de baterias de celulares e computadores com seus íons.

O véu que encobre a sociedade de ver e entender o que se passa na superfície da produção social é responsável por mantê-la alienada e sem noção do devastado futuro que lhe espera em contraste com as imagens maravilhosas mostradas pelo sistema de propaganda. Em decorrência disso, a obtenção e acumulação sem limites de lucros provoca o aumento da desigualdade social, a pobreza, a miséria, a segregação de grupos sociais e o racismo. Há tempo ainda de abrir os olhos e ver que a terra não é plana!
_______________
(*) José Carlos Peliano, poeta, escritor e economista.

Criado em 2021-05-03 15:53:54

É hora de o povo entrar em cena

Roberto Amaral (*) -

“Falta o rugido do povo.” (Manuel Domingos Neto)

Finalmente, “liberais” dos mais variados sotaques saíram de sua bolha e vieram à tona com a nova “Carta aos Brasileiros”, bem-vinda e aplaudida; foram acompanhados de manifestos de empresários, de banqueiros e dos locatários da Avenida Paulista. A única ausência notável deve-se ao Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil. Na contramão o manifesto protofascista dos grileiros da Confederação Nacional da Agricultura. 

A recente pulsão democrática, cujo epicentro foi a vetusta faculdade de direito da USP, teve continuidade na simbologia da posse do novo presidente do TSE, procedimento burocrático, protocolar, transformado em ato político. Registro, confiando que não cairá no vazio, o discurso do ministro Alexandre Moraes: direto, claro, sem as tergiversações parnasianas de seu antecessor.  

A reação democrática foi calorosamente bem recebida pela grande imprensa. Falou o andar de cima, e desta vez em defesa da soberania do voto, pela qual tanto se batem, hoje mais do que nunca, as esquerdas e as forças progressistas de um modo geral. O que se costuma chamar de “sociedade brasileira” diz aos buliçosos ministro da defesa e comandante do exército que não será admitida a anunciada tentativa de questionamento do processo eleitoral. E o candidato do projeto militar-empresarial protofascista, deslocado e constrangido, foi advertido de que a justiça eleitoral, tão comprometida com as irregularidades do processo de 2018, desta feita estará vigilante quanto às ameaças de conturbar a campanha eleitoral. Esperamos que sim.

Falou, enfim, o andar de cima.

A novidade é benfazeja, eis que o histórico de intervenções do baronato na vida política brasileira despreza o viés legalista. Não será demais lembrar o 1º de abril de 1964. A viabilidade do golpe militar decorreu da participação ativa dos liberais das arcadas do Largo de São Francisco, do empresariado e da grande imprensa, ademais da notória e fartamente documentada intervenção do Departamento de Estado dos EUA e de sua execrável CIA. Como é sabido, o Estado de São Paulo, líder da "imprensa liberal”, funcionou (através de Júlio de Mesquita) como centro arrecadador de recursos junto ao empresariado, que, já na ditadura, financiou a famigerada “Operação Bandeirantes”, centro militar-policial de tortura e assassinatos. Ao lado dos Mesquitas atuava o notório Adhemar de Barros. Está registrado nas memórias do General Cordeiro de Farias (Camargo-Góes. Diálogo com Cordeiro de Farias. Nova Fronteira, 1981, pp 552-3).

No primeiro dia da fratura do regime, o golpe foi recepcionado pelo presidente do STF, ministro Ribeiro da Costa, depois do ato arbitrário do presidente do Congresso, senador Auro de Moura Andrade, declaratório da vacância da presidência, quando era notório que Jango estava no Rio Grande do Sul, onde seria instado por Leonel Brizola a uma resistência que pela segunda vez refugou. Ou seja, todas as instâncias do poder participaram do golpe. É assim, e só assim, que os golpes têm sucesso e se consolidam. 

Nos idos preparatórios de 2016 (e, a partir do impeachment, da tragédia programada de 2018), tendo como pano de fundo o silêncio dos liberais, a omissão dos “democratas” e o apoio dos autodenominados “socialdemocratas” (o “centro” que tem sido, sempre, na política brasileira, uma variante da direita), a articulação golpista não foi diversa, nem outros seus agentes. Em suas lamentáveis memórias, o general Villas Bôas narra seus entendimentos com o vice-presidente perjuro, ainda como comandante do exército no governo Dilma, nas articulações golpistas. A sabotagem do Departamento de Estado chegou ao cúmulo de intervir na Petrobras e grampear o telefone da presidente da república! Agia o grande capital, temeroso do que supunha ser a emergência dos humilhados e ofendidos, dos deserdados da terra e da cidadania. Quem operou o golpe? Os herdeiros da colônia latifundiária e escravocrata, o passado que ainda nos molda, decantado por Gilberto Freyre como idilicamente patrimonial, ibérico e católico: os capitães da grande imprensa (cuja guinada hoje saudamos); a FIESP, chefiada por um lobista desprezível; o conluio peçonhento de juiz inescrupuloso e procuradores desonestos (sobre os quais pesa denúncia de corrupção ditada pelo plenário do TCU) com a grande imprensa e o poder judiciário em suas diversas instâncias. 

Para asfaltar o caminho que levaria à eleição do genocida – impune graças à solidariedade de um congresso pusilânime, auxiliado por um procurador-geral da república sem compromissos com a ordem constitucional –, foi decisiva a atuação do STF (na preparação do golpe e na decretação da inelegibilidade de Lula). A justiça, genuflexa, não carecia mais de admoestações, mas o comandante do exército cuidou de dizer como o STF deveria votar no habeas corpus impetrado pela defesa do petista. Como se sabe, foi atendido. Ao papel do exército, lastimosamente reincidente, deve-se, aliás, o único registro de gesto digno que se pode atribuir ao capitão: logo após a posse na presidência, agradeceu de público ao general Villas Bôas pelos serviços prestados à sua eleição.

Imprensa, grande empresariado, ministério público, poder judiciário não mediram mãos, pois chegaram à ignomínia da prisão ilegal de Lula, da qual são cúmplices.

Essas observações visam a pôr de manifesto uma obviedade que, todavia, precisa ser lembrada às forças populares: se, passados esses duros últimos anos, temos o que comemorar na abertura da campanha eleitoral, é preciso ter em conta que ainda não atravessamos o Rubicão.

Há, ainda, pelo menos duas tarefas inconclusas: a garantia do processo eleitoral livre e a eleição de Lula. Por uma e por outra é preciso lutar todo dia até a última hora. Para só então, podermos superar os desafios que perseguirão o novo governo, que enfrentará a resistência, a sabotagem e a insurgência protofascista permanente, a radicalização reacionária das forças armadas, das instituições policiais e das milícias, além da composição conservadora e reacionária do próximo Congresso, decerto ainda mais conservador e reacionário do que o atual, deformado pela corrupção de origem: a manipulação do poder público posto a serviço da eleição dos asseclas do bolsonarismo.

Saudemos, repito, a reação de setores ponderáveis da classe dominante e a anunciada disposição de resistência institucional à baderna neofascista. Mas será suicídio confiar ao sistema a sobrevivência do processo democrático, da qual depende o avanço das forças democráticas e progressistas.

As eleições são fundamentais e as esquerdas apostam nelas, mas a consolidação da atual democracia e seu aprofundamento com vistas à justiça social não são, nem jamais foram em toda a nossa história, mera decorrência da ordem institucional. Dependemos, como sempre, mas agora mais do que nunca, da mobilização popular. Dependemos de as esquerdas compreenderem que, se a conquista do voto é fundamental, não é, porém, fim único do processo eleitoral: toda eleição, para a esquerda, e esta mais do que qualquer outra, é o momento privilegiado da organização popular, da politização das massas e do proselitismo socialista. Jamais a classe dominante, ou a caserna, seu braço armado, foram fiadoras da democracia, dos direitos individuais, e do império da ordem constitucional. Muito menos da justiça social. Só grandes massas organizadas e mobilizadas, na campanha, no pleito eleitoral e na defesa de princípios políticos, podem enfrentar a ameaça protofascista, o atraso, a alienação. Só a organização popular pode assegurar governos democráticos, comprometidos com a soberania nacional e o combate às desigualdades sociais. Foi a mobilização popular que 1961 impediu o golpe que pretendia impedir a posse de João Goulart e em 1985 (no rastro da campanha pelas eleições diretas) abreviou o ciclo militar. Mas a mobilização popular ainda é a grande ausente do cenário político atual, e não há sinais de que a campanha de Lula-Alckmin venha a elegê-la como seu eixo tático-político. 

Só o rugido do povo, “um rugido forte o suficiente para deixar salvadores da pátria de rabo entre as pernas”, como observa o professor Manuel Domingos Neto, pode assegurar a democracia, derrotar o projeto militar-empresarial protofascista e, amanhã, garantir o governo Lula. Mas, isolado, o “rugir do povo”, ponto de partida, pode levar ao vazio político – como em 1954 nas horas seguintes ao suicídio de Getúlio Vargas e em 1961, quando o levante popular se encerrou que havia assegurado a posse capenga de Jango se encerrou na fraude da emenda parlamentarista –, se não desaguar na organização das forças populares. Naqueles momentos, como agora, faltou-lhes, como nos falta agora, a liderança de partidos revolucionários.

***

Os militares e o 7 de setembro – Informam os jornais que o ministério da defesa, atendendo a exigências do capitão, suspendeu, no ano do bicentenário da independência, o tradicional desfile na avenida Presidente Vargas, no Rio de Janeiro. O ato “cívico-popular” será substituído por um desfile de tropas em Copacabana, animando comício eleitoral do presidente candidato à reeleição. Que ainda nos reservam os generais em termos de degradação corporativa?

Facínora impune – O desprezível major Curió passa a integrar a extensa galeria dos facínoras impunes da ditadura, ao lado do delegado Fleury e do brigadeiro Burnier. E de tantos e tantos outros, centenas, como os assassinos de Mário Alves, Vladimir Herzog e Stuart Angel, e os torturadores de Jacob Gorender e Apolônio de Carvalho.

Solidariedade – Nunca será tarde para prestar solidariedade ao escritor Salman Rushdie e repudiar a bestialidade religiosa.
___________________

(*) Com a colaboração de Pedro Amaral.

Criado em 2022-08-19 19:16:14

Instalação: “Entre a dor das perdas e a indiferença de muitos”

O movimento suprapartidário Coletivo Resistência_Ação surgiu para denunciar ao povo brasileiro e ao mundo a tragédia vivida no Brasil. Para isso, realizou hoje (28/6) uma instalação artística na Alameda das Bandeiras, em frente ao Congresso Nacional, em Brasília, utilizando-se de 1.000 cruzes em homenagem às vítimas do coronavírus, e faixas denunciando o genocídio em curso e seus responsáveis.

Diante da pandemia da Covid-19 e da indiferença do governo Jair Bolsonaro-Hamilton Mourão, o grupo considera urgente desvendar essa desgraça e conclamar “amor e solidariedade com as famílias das vítimas”.

Na capital do País vitimado, a intervenção urbana procurou dar visibilidade à dor que pulsa no coração do Brasil; despertar empatia e solidariedade. Mais do que isso, exige Justiça e reparação.

A instalação de Brasília se agrega ao Ato Mundial Fora Bolsonaro, promovido por brasileiros, em mais de 20 países e em mais de 50 cidades em todo o mundo. O Levante Mulheres Derrubam Bolsonaro, por sua vez, se uniu ao Stop Bolsonaro.

O Brasil está mergulhado numa imensa dor: dor escondida, dor que lateja sob os inacreditáveis números das mortes provocadas pela Covid-19.

São vidas perdidas. São famílias destroçadas, sobre as quais não se sabe onde vivem, como sobrevivem, como fazem para suportar esse sofrimento que se oculta sob estatísticas, muito provavelmente, subnotificadas.

O governo do presidente Bolsonaro e do vice-presidente, general Mourão, que se elegeu de forma fraudulenta, apoiando-se em larga divulgação de mentiras, calúnias e injúrias, adotou o ‘negacionismo’ como forma prioritária de ação no enfrentamento da doença provocada pelo Coronavírus.

Optou por inventar curas miraculosas, por confrontar as orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS), por desqualificar a Ciência e a pandemia, segundo ele, “uma gripezinha”.

Não satisfeito, incentivou e promoveu aglomerações, quando o isolamento seria a única forma de evitar a contaminação em massa pelo coronavírus; sugeriu a seus seguidores invadirem hospitais, o que foi feito com agressões a profissionais da saúde, que vêm entregando até suas vidas no combate à doença.

Ancorada na absoluta irresponsabilidade do atual governo, a doença tomou conta do País, em que pese a ação corajosa de alguns governadores, prefeitos que resistem à barbárie. E não se sabe quando esse pesadelo terá fim.

É preciso dizer que milhares de mortes poderiam ter sido evitadas se o Sistema Único de Saúde (SUS) não estivesse em vias de falecer também, destruído por esse governo privatista, insensível à situação do povo que deveria proteger, principalmente aquelas pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Optou o governo, ainda, por preservar empresas, adotando medidas voltadas, prioritariamente, para a defesa do grande capital, em detrimento dos trabalhadores/as e dos pequenos empresários/as.

Com essas atitudes, está levando ao genocídio o povo que não ama.

Bolsonaro e Mourão só permanecem no poder graças à leniência ou à conivência de muitos, como as de partidos e parlamentares do chamado Centrão, que poderiam contribuir para, imediatamente, dar um fim a essa tragédia.

Os organizadores do evento dizem que “para que a vida da população seja preservada, o governo Bolsonaro/Mourão tem que ter um fim. Trata-se de uma questão de vida ou de morte”.

E acrescentam: “Precisamos de governantes que cuidem do povo, que preservem vidas, que garantam direitos, que tenham empatia com o sofrimento geral!”.


_______________
PS: O evento possui conta de Twitter, de Instagram e de Facebook, com o endereço @stopbolsonaro. Outra maneira de seguir as informações nas redes sociais é por meio da hashtag #StopBolsonaroMundial

Criado em 2020-06-28 19:23:43

Segredo secular

Luis Turiba –

um sigilo de cem anos
são qual gotas em oceano
como o salto de uma onça
uma baleia respirando
uma geleira desabando
o pipocar de uma bomba
tiroteio assaz insano
segredo vigília secreta
cercado em loucos decretos
paranoia republicana
dessas que furam tetos
floresta verdes em cinzas
matraquear de metralhas
tempero de gás mostarda
antes tarda do que fura
mísseis cruzam céu azul
afinal, o rei está todo nu
com seu charme de urubu
de carniça pós-humana
coruja que é meio corvo
não dura, vida de estorvo
lembra a arisca ratazana
repetindo o mesmo mantra
- taokei! takei! takei!
reafirma o que não houve
porquê então não te calas
sentado no meio da sala
uma relíquia do Brasil
doce poder de paisano
carne seca na panela
o povo que passa fome
sadismo mofo e deboche
em cem anos de sigilo
total clima de hospício
para além do além do além
ninguém nem sabe como
chegaste a falta de rumo
pois quando eu tiver 100 anos
com meu país desmontado
sem pé nem fígado ou fé
meus generais todos mortos
meus filhos todos presos
o pastor me pastará
depois de torturas em cálices
conto tudo pra vocês
são sigilos de um século
alguns até esquecidos
outros jamais perdoados
de um valentão Imbrochável
guardados a ferro e propinas
conservados a muita merda
traições ao livro sagrado
de um tresloucado capitão
uma invenção do passado
mosca zumbindo o presente
que será eletrocutada
numa urna eletrônica
reconhecida & pecadora
por jovens venezuelanas
no cabaré "quem damares"

Criado em 2022-10-17 18:58:52

Lula vence recurso e STJ condena Dallagnol no caso do powerpoint

Os ministros da 4ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiram, nesta terça, 22/3, por 4 votos a 1, que o ex-procurador Deltan Dallagnol agiu com excesso e cometeu danos morais durante a apresentação do famoso powerpoint em que apontava Lula como chefe de uma organização criminosa. O episódio, ocorrido em setembro de 2016, teve grande repercussão na mídia e prejudicou as eleições presidenciais.

A condenação, de R$ 75 mil, pode chegar, com a correção, a R$ 100 mil. Lula, que pediu R$ 1 milhão de indenização, ainda o pode recorrer quanto ao valor. Dallagnol também pode recorrer ao próprio STJ quanto à condenação.

O relator, ministro Luis Felipe Salomão, fundamentou seu voto após ouvir as sustentações do advogado de Lula, Cristiano Zanin, e a defesa de Dallagnol.

“É imprescindível que a divulgação de oferecimento de denúncia se faça de forma precisa, coerente e fundamentada”, afirmou o ministro Salomão. “A espetacularização do episódio não é compatível com a denúncia nem com a seriedade que se exige da apuração destes fatos”.

O voto de Salomão foi acompanhado por outros três ministros: Raul Araújo, Marco Aurélio Buzzi e Antônio Carlos Ferreira. Apenas a ministra Maria Isabel Galotti divergiu.

Na entrevista, realizada em 14 de setembro de 2016 em um hotel em Curitiba, Dallagnol, acompanhado de outros membros do MPF, informou sobre a acusação contra Lula no caso do triplex do Guarujá. Depois, exibiu a apresentação de um ridículo e powerpoint em que o nome de Lula aparecia rodeado de expressões como “petrolão + propinocracia”, “governabilidade corrompida”, “perpetuação criminosa no poder”, “mensalão”, “enriquecimento ilícito”.

A acusação de organização criminosa foi objeto de outra denúncia, arquivada duas vezes pela Justiça de Brasília, sem ir a julgamento. Outras 24 vitórias foram o obtidas por Lula na Justiça.

A defesa de Lula denuncia o trial by midia

O reconhecimento pelo STJ de que a coletiva do powerpoint configura ato ilegal, impõe ao ex-procurador da República Deltan Dallagnol o dever de indenizar Lula. "Essa é uma vitória do Estado de Direito e um incentivo para que todo e qualquer cidadão combata o abuso de poder e o uso indevido das leis para atingir fins ilegítimos (lawfare)”, afirmam os advogados Cristiano Zanin e Valeska Teixeira Martins.

"A referida entrevista coletiva foi realizada em 16 de setembro de 2016, em um hotel localizado em Curitiba (PR), com o uso de recurso digital (powerpoint) contendo inúmeras afirmações ofensivas a Lula e incompatíveis até mesmo com a esdrúxula denúncia do 'triplex' que havia sido protocolada naquela data. Nesse dia, Lula recebeu tratamento de culpado quando não havia sequer um processo formalmente aberto contra o ex-presidente — violando as mais básicas garantias fundamentais e mostrando que o ex-procurador Dallagnol [agora pré-candidato a deputado federal], assim como Sergio Moro [pré-candidato a presidente da República], sempre tratou Lula como inimigo e abusou dos poderes do Estado para atacar o ex-presidente”, diz a nota dos advogados.

Lula foi absolvido da acusação de Dallagnol pelo Juízo da 10ª. Vara Federal de Brasília em sentença proferida em 04/12/2019 (Processo nº 1026137-89.2018.4.01.3400). Na decisão — que se tornou definitiva por ausência de qualquer recurso do Ministério Público — o juiz federal Marcus Vinícius Reis Bastos considerou que acusação de que Lula integraria uma organização criminosa “traduz tentativa de criminalizar a política”,

O Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), em 2020, ao analisar a mesma “coletiva do powerpoint” já havia considerado o ato abusivo e com o objetivo de promover o julgamento pela mídia (trial by midia).

Criado em 2022-03-23 04:26:29

Prof. Boaventura de Sousa Santos - Bolsonaro precisa cair URGENTEMENTE!

O Professor Boaventura de Sousa Santos, Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Do seu isolamento voluntário em Portugal, fala da urgente necessidade de tirar Bolsonaro da presidência do Brasil.

Criado em 2020-03-25 20:03:38

O Nazismo pede passagem

Alexandre Ribondi –

“É cedo para julgar, mas Roberto Alvim talvez não esteja muito bem da cabeça. Veremos”. Foi com essa declaração de dúvida e desconfiança que o astrólogo Olavo de Carvalho, guru de Jair Bolsonaro, está tentando se desvencilhar do secretário especial de Cultura do governo federal que, ao lançar o Prêmio Nacional das Artes, nessa quinta-feira, fez pronunciamento que é uma cópia da fala de Joseph Goebbels, o ministro da propaganda do chanceler alemão Adolph Hitler, possivelmente uma das figuras mais execradas e malditas do século XX. Como se não bastasse, Alvim escolheu, como música de fundo do seu pronunciamento, trecho da ópera Lohengrin, do alemão Richard Wagner, músico de predileção do nazismo. 

Mesmo assim, o secretário explicou que se tratou de uma “coincidência”, mas que sua “frase em si é perfeita”. O que ele disse, num vídeo seco e objetivo, em que Roberto Alvim parece tomar uma postura empertigada, como se fosse aluno do primeiro grau diante do hasteamento da bandeira, foi “A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional, será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional, e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo - ou então não será nada”. O nazista Goebbels disse exatamente a mesma coisa, anunciando que a arte alemã seria nacional, ferreamente romântica. Disse também que essa arte alemã teria grande páthos, ou não seria nada. Curiosamente, o nazista brasileiro não mencionou o páthos, muito provavelmente porque não sabia em que contexto cabe a palavra, palavra que se refere à capacidade da arte de tocar profundamente a audiência.

A classe artística e formadores de opinião reagiram com alarde à fala de Roberto Alvim que, de maneira surpreendente, abandonou uma elogiada carreira como dramaturgo e homem de teatro para se tornar o responsável pelo gerenciamento da arte e pela “nova cultura” que pretende revolucionar o Brasil sob a égide de Bolsonaro - um ex-militar sem refinamento, sem leitura, inculto, grosseiro, amante da ditadura brasileira (1964-1984) e de seus métodos de tortura. A wikipedia, enciclopédia colaborativa, multilíngue, de licença livre na web, apresenta o secretário como “dramaturgo nazista”. Ele já ganhou todos os prêmios nacionais de teatro e já deu aulas de artes cênicas no Brasil e em outros pontos do mundo.

E foi na quinta-feira, 16 de janeiro, que ele anunciou o Prêmio Nacional das Artes, que dispõe de R$ 20 milhões a ser investido em sete categorias: cinco óperas, 25 espetáculos teatrais, 25 exposições individuais de pintura e 25 de escultura, 25 contos inéditos, 25 CDs musicais originais e 15 histórias em quadrinhos. Esse prêmio, nas palavras de Roberto Alvim, tem como objetivo “promover o renascimento das artes e da cultura no Brasil”. E vai adiante: “Trata-se de um marco histórico para as artes brasileiras, de relevância imensurável e sua implementação e perpetuação ao longo dos próximos anos irá redefinir a qualidade da produção cultural em nosso país”. Como se vê, o secretário especial de Cultura tem sonhos grandiosos de reinventar o Brasil, exatamente como fizeram os nazistas alemães quando tentaram refazer a Alemanha.

Resta agora saber se a classe artística nacional participará do Prêmio. Ninguém é inocente a ponto de desconhecer que a seleção passará por um forte crivo ideológico de um governo que se fez notório por ser antidemocrático, misógino, homofóbico e racista. O apelo dos R$ 20 milhões pode ser forte e deverá aliciar criadores de todo o país - entre a direita e os que acreditam erroneamente que a arte não tem ideologia.

Em setembro, a Secretaria Especial de Cultura irá promover, em Brasília, o Mês do Renascimento da Arte Brasileira. Os premiados terão suas obras apresentadas ao público nacional. Em seguida, os espetáculos, exposições e concertos circularão por todas as regiões do País.

Mas é hora de não somente os artistas mostrarem o seu repúdio à sanha nazista do atual governo brasileiro. Os judeus, ameaçados por esse renascimento do nazismo, também têm motivos para se pronunciarem, de mãos dadas com todos os cidadãos, que pretendem que o Brasil seja um país voltado profundamente para as verdadeiras aspirações democráticas do povo - ou, então, não será nada.

Criado em 2020-01-17 15:27:50

“Este” ou “esse”? Tanto faz!

Marcos Bagno (*) -

Eu fico sempre muito surpreso quando topo com certos fenômenos de comportamento que, sem dúvida, devem fazer a festa dos psicólogos. Um desses fenômenos é o que se resume na conhecida expressão “ser mais realista do que o rei”.

Quem estuda os comportamentos linguísticos como fenômenos da psicologia social mais ampla também topa frequentemente com essa atitude: a de querer preservar a ferro e fogo determinados usos da língua que até mesmo os gramáticos e dicionaristas mais conservadores já consideram causa perdida.

Gramáticos e dicionaristas gozam, na nossa cultura, de uma certa reverência quase religiosa, são vistos como os conhecedores máximos da “língua certa”, é a eles que se deve recorrer no momento de resolver uma dúvida, de aprender o que é e o que não é permitido falar ou escrever.

Muita gente chega mesmo a acreditar que determinada palavra “não existe” só porque “não está no dicionário”. “Santa ingenuidade”, diria Robin!

No entanto, apesar desse lugar de honra concedido a esses especialistas, tem gente que se mete a querer corrigir os outros com atitudes mais rígidas e inflexíveis que a dos gramáticos e dicionaristas de formação “clássica”.

É gente que se desespera diante do fenômeno mais natural e inevitável do mundo: a mudança da língua.

Gente que tenta construir diques e barragens contra o inevitável fluxo da língua, contra as mudanças que nós mesmos, falantes da língua, vamos realizando imperceptivelmente e inconscientemente por causa do próprio uso que fazemos dela.

A língua não é de mármore, é de argila: pode ser (e é) moldada e remoldada o tempo todo por qualquer falante.

O filósofo Heráclito, quinhentos anos antes de Cristo, já dizia: panta rhei, “tudo flui”, tudo muda no universo, a mudança é inerente a todas as coisas, e a língua não tem como escapar dessa grande lei universal.

Uma das tentativas desesperadas dos mais realistas que o rei é querer preservar uma diferença de sentido no uso dos demonstrativos “este” e “esse”.

Gritam aos sete ventos, clamam nos desertos, bradam sobre os abismos, batem o pé, ateiam fogo às vestes, mas de nada adianta.

Tudo o que conseguem é infernizar a vida da gente: haja paciência para aguentar revisoras e revisores que tentam corrigir os usos de “este” e “esse” nos textos dos outros. Em vão.

Quando uma mudança já se enraizou no uso cotidianodos falantes e, principalmente, quando ela ocorre feliz e contente na escrita mais monitorada, é porque as formas antigas morreram, se extinguiram, e não têm como voltar atrás. Caixão e vela.

Onde será que os defensores da antiga distinção entre “este” e “esse” vão buscar argumentos para fundamentar suas cobranças descabidas?

A resposta é: no seu próprio desespero, no seu fundamentalismo trágico, na sua crença obscura numa língua mais certa do que a língua das gramáticas e dos dicionários. Senão, vejamos.

Quando a gente abre a “Gramática normativa da língua portuguesa”, de Rocha Lima, publicada em 1957 (há mais de sessenta anos, portanto!), topa com a seguinte observação: “não há muito rigor na distinção de isto e isso”.

Poucos anos depois, Evanildo Bechara, em sua “Moderna gramática portuguesa” (1961), escreveu: “Nem sempre se usam com este rigor gramatical os pronomes demonstrativos; muitas vezes interferem situações especiais que escapam à disciplina da gramática”.

E na edição mais recente da obra, de 1999, ele ainda acrescenta: “Estas expressões não se separam por linhas rigorosas de demarcação; por isso exemplos há de bons escritores que contrariam os princípios aqui examinados e não faltam mesmo certas orientações momentâneas do escritor que fogem às perscrutações do gramático”.

Na “Nova gramática do português contemporâneo”, de Celso Cunha e Lindley Cintra (1985), a gente lê: “Estas distinções que nos oferece o sistema ternário dos demonstrativos em português não são, porém, rigorosamente obedecidas na prática”.

E chegamos por fim ao “Dicionário Houaiss”, lançado em 2001, em que encontramos uma síntese de todas essas considerações anteriores: “no português do Brasil, a oposição entre ‘este’ e ‘esse desvaneceu-se, especialmente na língua falada, e só na língua formal escrita é observada, devido mais ao ensino escolar do que ao sentimento linguístico individual, por isso é frequente, mesmo na língua escrita, a troca de um pelo outro”.

Uma coisa que nunca devemos esquecer é que os gramáticos e dicionaristas de formação tradicional demoram muito, mas muito, mas muito tempo mesmo para admitir que uma mudança linguística já ocorreu e se fixou na língua que eles chamam de “culta” e que é, na verdade, a escrita literária.

(Vejam quantos rodeios Bechara faz para confessar a si mesmo que a coisa mudou!)

Assim, se em 1957 Rocha Lima já relativizava o emprego dos demonstrativos, é porque a mudança já tinha ocorrido muito tempo antes.

E então, gente boa? Por que vocês insistem em cobrar de nós distinções precisas e rígidas que até mesmo os gramáticos e dicionaristas mais respeitados dizem que não existem mais?

Não adianta chorar sobre leite derramado: a distinção entre “este” e “esse” não existe mais no português brasileiro.

Para distinguir o que está perto de mim e o que está perto de você, nós passamos a empregar os advérbios “aqui” e “aí”: “Esse copo aqui” / “Esse copo aí”. Fazemos exatamente como fazem os falantes de muitas outras línguas.

Vejam o francês: tem só um “ce” (feminino “cette”) que serve pra tudo!

Uma coisa muito importante que aparece na explicação do “Dicionário Houaiss” é o que ali se chama de “sentimento linguístico individual”.

Na linguagem técnica da linguística, diríamos “competência linguística” ou “intuição linguística”.

Quando os falantes deixam de fazer certas distinções é porque essas distinções não são mais exigidas por sua intuição linguística: os falantes não “sentem” mais necessidade daquilo.

Quando os falantes de uma língua não “sentem” mais necessidade de uma forma linguística, eles simplesmente descartam, jogam ela na lata de lixo da história da língua.

Assim aconteceu, por exemplo, com os demonstrativos acó, aló, aqueste, aquesta, aquesto, os possessivos femininos ma, ta, sa, os advérbios chus, u, i, porende, suso, toste, asinha, samicas, tamalavez, que existiam no português antigo e que foram sendo abandonados ao longo do tempo.

Nenhum falante de português brasileiro contemporâneo “sente” uma diferença entre “este” e “esse”.

E quem manda na língua é o falante e seu “sentimento linguístico”. Não existem barreiras capazes de impedir que a língua mude quando esse “sentimento” mudou.

Algumas pessoas podem jurar que sentem, que fazem essa diferença, mas basta gravar meia hora da fala delas para ver que é mentira: elas acham que falam, acham que fazem a diferença, mas entre o que a gente acha que faz e o que a gente faz de verdade (ao menos em termos de usos da língua) existe um abismo largo e fundo.

Não tem nenhum cabimento, portanto, cobrar essa distinção nos dias de hoje. Mais descabido ainda é o que fazem autoras e autores de livros didáticos que gastam papel e tinta explicando uma diferença que não existe e oferecendo exercícios para o uso “correto” dos demonstrativos.

Vamos parar de desperdiçar o escasso tempo de sala de aula com bobagens desse tipo? Vamos cuidar do que realmente interessa, que é acabar com o analfabetismo funcional que atinge 75 por cento da nossa população?

O mais triste dessa história toda é ver que muita gente, na hora de escrever, usa só e exclusivamente “este” (e suas flexões no feminino e no plural), um caso típico de hipercorreção: quando vai escrever, a pessoa acha que deve evitar na escrita as formas mais usuais da fala e se põe a só empregar as formas menos habituais, como se elas fossem algum tipo de erro. Ó dó!

Usemos e abusemos de “isso”, “esse”, “essa”, “esses” e “essas”. Esses são os verdadeiros demonstrativos do português brasileiro.

Claro que quem quiser pode usar à vontade as formas “clássicas”, mas nada de vir me dizer que elas são mais “corretas” do que as outras. Não são. Está provado cientificamente.

Insistir em usos que se acham em fase terminal de obsolescência é uma tarefa trágica, com inevitável final infeliz.

Já tem tanta coisa no mundo para nos deixar tristes, não precisamos de mais essa!
_________________________
(*) Marcos Bagno é professor do Instituto de Letras da UnB. Escritor, poeta e tradutor, já publicou mais de 30 livros, entre obras técnico-didáticas e literatura. Autor de Gramática Pedagógica do Português Brasileiro - Parábola Editorial, 2012 - www.parabolaeditorial.com.br

Criado em 2017-05-03 21:01:15

Ovos da serpente: a gente vê por aqui

Sandra Crespo - Vejo algumas notícias sobre políticos fascistas e neonazistas, esses vermes... notícias que, a meu ver, não deveriam ser compartilhadas. Penso que, quanto menos falarmos delas, menores as chances de as serpentes chocar seus ovos.Por que dar voz a políticos que defendem o extermínio de seres humanos - mulheres, gays, índios, quilombolas?Eu me pergunto qual é o critério jornalístico para explicar algumas matérias que por aí pululam, que há algum tempo têm dado espaço inexplicável para uns sujeitos vis. Vamos ser claros, mas sem citar os nomes dos coisa-ruim: são políticos provenientes dos porões da ditadura militar brasileira, anticomunistas fanáticos, apologistas da tortura e da execução sumária de "inimigos". Que, até bem pouco tempo atrás, não eram o que na verdade são: nada. Ninguém.Mas que, de repente, na febre anti-Lula e PT, ganharam fama e glória nos sites noticiosos brasileiros.Então, para tentar entender: jornais e sites dão espaço pros nazis porque têm de "ouvir o outro lado"! Logo, eles ouvem um político homofóbico para "equilibrar" uma matéria sobre uma mobilização LGBT por cidadania e contra a violência!É mentira, Terta?Verdade...Então, pra ficar bem explicadinho: a imprensa tem de entrevistar um político/milico/nazi para se contrapor a uma luta legítima por direitos humanos básicos.Do alto da minha desimportância nessa máquina, eu uso a única arma possível: ignorar a existência dos vermes. Não escrevo seus nomes, não compartilho matéria de nenhum tipo, nem que seja espinafrando o sujeito. Só me disponho a compartilhar se for uma matéria de denúncia, como a que vi ontem no UOL - de que foram presos com armas de fogo "manifestantes" anti-Lula, em Salvador. Isso sim, é útil para mostrar o perigo que estamos correndo.Acho que muitos amigos que compartilham esse tipo de notícia têm a melhor das intenções. Mas, vão por mim, é fria. Isso só dá visibilidade ao esgoto - vermes e ratos que não merecem uma vírgula nos posts de gente bacana.

Criado em 2017-08-20 19:13:00

  • Início
  • Anterior
  • 10
  • 11
  • 12
  • 13
  • 14
  • 15
  • 16
  • 17
  • 18
  • 19
  • Próximo
  • Fim

Quem somos | Pacto com o leitor | Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros | Política de Privacidade e Cookies | Por que o nome BRASILIÁRIOS

Copyright © 2016 BRASILIÁRIOS.COM.

SiteLock