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Roberto Amaral (*) -
As reflexões sobre o processo histórico republicano e a hora presente convencem-me de que o fato novo a ser considerado (para que a ele respondam o pensamento e a ação da esquerda) é a emergência de forte movimento de extrema-direita, que se afasta, na sua contundência e periculosidade, das experiências que dominaram o cenário político brasileiro do século passado.
Em recente debate, expostas estas ideias, foi-me objetado que o Brasil “sempre foi conservador e de direita”. Como certificado desta afirmação foram lembrados o integralismo, incidente na primeira metade do século passado, e o udeno-lacerdismo, já depois da reconstitucionalização de 1946. A contestação, porém, desconsidera as distinções entre direita e extrema-direita, ademais de conter, em si, um elemento conservador: quando naturaliza o processo reacionário, está admitindo sua permanência. O “sempre foi assim” (de direita) pode insinuar um “será sempre assim”, e se, desgraçadamente, será sempre assim, nada mais, ou muito pouco, resta ao agente social.
O integralismo, cujas bases doutrinárias Plínio Salgado colhera no discurso de Mussolini - nos anos 1930 o fascismo ascendia em todo o mundo, principalmente na Europa (Itália, Alemanha, Espanha e Portugal) e no Japão -, não logrou constituir-se em expectativa de poder entre nós, bloqueado que foi pela consolidação do Estado Novo (1937-1945) e, na sequência, pelo ingresso do Brasil na guerra contra o Eixo (ao lado dos EUA e da URSS), precedido e seguido de amplas mobilizações populares que assegurariam, como peças siamesas, o repúdio popular ao nazifascismo e a afirmação política e ideológica da democracia liberal, objetivada nas eleições presidenciais de 1945.
A partir daí, o integralismo se transforma em força política irrelevante. Durante o Estado Novo, frustradas as aspirações de Plínio de fazer-se ministro da Educação de Vargas, os integralistas intentam o putsch de 1938 (assalto ao Palácio da Guanabara, onde residia o presidente), sendo aniquilados rapidamente, um indicativo de sua baixa penetração nas forças armadas, não obstante as simpatias de comandantes como Eurico Gaspar Dutra e Góes Monteiro, o general a quem se atribui a frase “quando a política entra no quartel por uma porta, a disciplina sai por outra”. Organizados como partido político (PRP), os integralistas lançam a candidatura de Plínio Salgado nas eleições de 1955, obtendo desempenho inexpressivo.
No período constitucional-democrático que se segue a 1946 surge, na esteira do anti-varguismo, a UDN, que, inventada como negação do legado getulista e da ditadura do Estado Novo, elaborava o discurso da defesa da democracia ao tempo em que traficava o golpe de Estado nos quartéis. Perdeu todas as eleições presidenciais que disputou, até encangar-se na candidatura de Jânio Quadros, cujo governo se frustraria na tentativa de golpe de 1961. Seguem-se a vilegiatura do presidente renunciante em Londres e, derrotada nas ruas, a tentativa dos ministros militares de impedir a posse do vice-presidente João Goulart.
No cenário republicano nada que antecipasse o quadro político de mobilização popular reacionária que começa a se consolidar em 2013 para conhecer seu ápice na eleição de Bolsonaro (2018) e em seu governo, cujas características ideológicas e ação objetiva definem seu caráter protofascista que, a esta altura, dispensa demonstração. Ao contrário, o histórico recente, desde a campanha das diretas-já, sugeria o avanço das forças progressistas.
Se a ditadura do Estado Novo se instala no bojo de um golpe de Estado, articulado por Vargas e operado pelos militares, tanto quanto a ditadura resulta do golpe militar que depôs João Goulart, o bolsonarismo chega ao palácio do planalto chancelado pela soberania popular, em pleito ao qual não se podem invocar restrições. Este diferencial deve ser considerado. Seguindo a linha populista, procura o diálogo direto com as massas e governa como representante de uma aliança que reúne militares (responsáveis pelas decisões estratégicas), setores majoritários do grande capital e o atraso político, que lhe assegura tranquilidade no Congresso. Os militares já não precisam das medidas de força dos atos institucionais da ditadura, pois contam com a associação do poder legislativo, liderado pelo “centrão” e pelo baixo-clero.
Após quatro anos de governo marcado pelo descalabro administrativo (a gestão da pandemia é tão-só um caso, ainda que paradigmático), inumeráveis e grosseiras tentativas de fraturar o processo democrático e uma derrota eleitoral em nada acachapante, a base popular do bolsonarismo dá preocupantes sinais de resiliência e crescimento. Não foram triviais as condições segundo as quais se desenvolveu o pleito deste ano, e a análise de seus números mostra que o candidato derrotado não é um inimigo abatido.
As turbas açuladas pelo capitão e por oficiais superiores em postos de chefia, como o general comandante da 10ª Região Militar, indicam insubordinação e resistência às regras da convivência democrática. Às tentativas de bloqueio das estradas, os acampamentos sediciosos e os piqueniques nas portas dos quartéis, se somam os desmandos recentemente levados a cabo por desordeiros em Brasília, como eco dos desesperados à diplomação de Lula. Esses fatos são graves em si mesmos e pelo que revelam acerca das táticas que a extrema-direita se dispõe a pôr em prática para inviabilizar ou ao menos conturbar a mudança de governo.
Enquanto as hordas bolsonaristas tentam, até aqui em vão, incendiar as ruas, o presidente da Câmara dos Deputados mobiliza os recursos disponíveis, inclusive a chantagem, visando a atrasar a aprovação da PEC 32/22, sabidamente fundamental pelo menos para os dois primeiros anos do próximo mandato. A objetiva tentativa da extrema-direita de acuar o futuro governo indica o caráter da oposição com a qual deve contar o presidente Lula, qualitativamente muito diversa daquela que conheceu em seus dois mandatos anteriores, quando ainda havia o confronto com a socialdemocracia paulista.
A resistência ao projeto protofascista de instalar uma ditadura constitucional levou à arquitetura daquela que certamente terá sido a mais larga frente ampla político-eleitoral conhecida na República, similar à aliança que se constituiu no movimento das diretas (1983-1984) e levou à implosão (1985) do colégio eleitoral montado pela ditadura agonizante para eleger seu delfim. A chamada “Aliança democrática” derrotou Paulo Salim Maluf, candidato dos militares, elegeu Tancredo Neves, e os fados deram posse a José Sarney.
A aliança de 2022 articulou, em torno da inusitada dobradinha Lula-Alckmin, um arco político que se estendeu da direita à esquerda, passando por liberais e socialdemocratas; chegou mesmo a incorporar setores do grande capital, de que resultou a adesão de órgãos da grande imprensa. Logramos vitória eleitoral assim partilhada, mas não podemos ignorar seus números, os das eleições presidenciais e os das eleições proporcionais e das majoritárias para o Senado, de que resultou o domínio, por quadros bolsonaristas, dentre outros, dos mais poderosos Estados da federação, como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, e o controle do Congresso pelas bancadas que transitam da licenciosidade política (“Centrão”) à extrema-direita, sob o comando do atual presidente da Câmara, que se distingue do lamentável Eduardo Cunha apenas pela maior truculência.
Distanciando-se do integralismo e do udenismo, a extrema-direita de hoje, conservando e aprofundando sua perigosa interação com a caserna, emerge como movimento político organizado e de comprovada capacidade de mobilização derivada de sua base popular e religiosa, alimentada principalmente pelo neopentecostalismo, que ocupa, com o tráfico e as milícias, os espaços deixados pelas comunidades eclesiais de base e pelas organizações partidárias de esquerda, que transferiram seus quadros para o dolce far niente da burocracia pública e sindical. Seu discurso chega às classes médias urbanas (sempre acossadas pelo espectro da proletarização), é ouvido pelas populações marginalizadas das periferias e conquistou mesmo a adesão de vastas camadas das massas trabalhadoras, nada obstante suas investidas contra os direitos previdenciários e trabalhistas, num quadro de acentuada precarização do trabalho.
Dispensável destacar que o bolsonarismo contou para sua emergência, e conta até aqui, com a adesão que jamais faltou aos projetos autoritários da direita e da extrema-direita, seja ao integralismo, seja ao udenismo, como não faltara ao Estado Novo e não faltaria à ditadura instalada em 1964. Refiro-me, evidentemente, ao apoio da classe dominante brasileira, reacionária, atrasada historicamente, herdeira da casa-grande, do latifúndio e do escravismo, alienada e dependente, homofóbica e racista.
Ao contrário dos movimentos anteriores, o bolsonarismo, para além de simplesmente contar com apoios na caserna, como toda iniciativa reacionária, assumiu, a partir de 2018, o papel de braço político do projeto de mando dos fardados, posto em resguardo desde 1985, com a transição para a democracia. A eleição do capitão foi decisiva para o retorno dos militares ao poder, e, assegurou, ainda, e como sua consequência, a hegemonia de uma pauta protofascista cujas consequências políticas, ideológicas e econômicas cobrarão anos de muito engenho e arte, bem como firmeza, para serem superadas - superação que teve no pleito de 30 de outubro seu ponto de partida. Fundamental, mas ainda apenas o ponto de partida, indicando um longo percurso a ser observado, e um rol de iniciativas ainda não conhecido de todo. São tarefas que incumbem ao futuro governo Lula, mas não só a ele, pois tanto a sustentação do governo quanto o enfrentamento da extrema-direita carecem da organização da sociedade brasileira - de que depende a revisão estrutural dos partidos que se perfilam no chamado campo da esquerda.
A análise dos números do pleito nos diz que, para além dos mecanismos do processo eleitoral stricto sensu, como, por exemplo, abuso do poder econômico e do poder político por parte do incumbente, e discussões em torno de táticas e estratégias de marketing eleitoral, devemos estudar preferentemente o que não está na superfície, a saber, o processo histórico que ensejou a emergência da extrema-direita quando a aparência nos dizia que o país girava em torno da opção socialdemocrata, ora conservadora, ora progressista.
A emergência dessa extrema-direita, sua resiliência mesmo após a derrota eleitoral, associada à resistência militar, ora surda, ora ativa, são fenômeno grave que não pode ser negligenciado. Pois não basta registrar o fato em si, e simplesmente “naturalizá-lo” como se o processo social fosse um determinismo ou uma fatalidade religiosa, impondo ao papel do indivíduo na história uma irrelevância sem cura. A história é movimento, e interpretá-la é apenas o primeiro passo para saber como nela devemos intervir.
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A Folha falha - Com a demissão de Jânio de Freitas, o jornal da família Frias mais se empobrece, e dá um passo considerável rumo ao último suspiro. É pena.
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(*) Com a colaboração de Pedro Amaral.
Criado em 2022-12-19 03:55:29
Concebida como cidade utópica igualitária, Brasília transformou-se numa metrópole distópica inchada, segregada por faixas de renda e raça, onde a distância média da casa ao centro dos moradores ricos brancos é de 4,5 km e a dos pobres negros e pardos, 25,8 km.
Este é o tema de hoje do podcast da República Popular das Letras (RPL), sob o comando do jornalista Antônio Carlos Queiroz (ACQ).
O bate-papo é com o arquiteto Frederico Holanda, professor da UnB, e com o engenheiro sanitarista Marcos Montenegro, ex-presidente da Caesb, e ex-administrador de Ceilândia durante o governo Cristovam Buarque.
Assista aqui: https://www.youtube.com/watch?v=7UDi--cq7No
Criado em 2022-07-19 20:10:30
O editor e empresário brasiliense Valter Silva, que organizou, produziu e bancou a antologia Poesia Salva, Salve a Poesia!, lançada no mês passado na Feira do Livro de Brasília, promove uma tarde/noite de autógrafos do livro, a partir das 16h deste sábado, 3/12, no Restaurante Peccato (115 Norte-Plano Piloto) – e com direito a chope a preço camarada.
Apaixonado por poesia, e livreiro como o irmão Ivan Silva que fez história em Brasília com sua Livraria Presença, Valter almeja com a iniciativa poder se dedicar a outra causa nobre. Mas antes de revelar o que pretende para o próximo ano, ele conta porque bancou do próprio bolso o projeto da antologia.
"Banquei o projeto porque eu queria movimentar a poesia em Brasília, depois desses anos difíceis que todos nós vivemos. E espero poder ter de volta o valor do investimento, pois assim poderei fazer outra antologia – desta vez com jovens poetas que ainda não puderam publicar seus poemas”, avisa.
Para poder empreender outra coletânea, Valter Silva diz que espera também contar com a ajuda dos 23 poetas contemplados na primeira coletânea. São eles: Alexandre Pilati, Amneres, Anderson Braga Horta, André Giusti, Angélica Torres, Antônio Miranda, Chico Alvim, Felipe Cyntrão, Francisco K, João Carlos Taveira, Jorge Amâncio, Lilia Diniz, Luis Turiba, Marcos Fabrício, Marcos Freitas, Margarida Patriota, Memei Bastos, Nicolas Behr, Noélia Ribeiro, Ronaldo Costa Fernandes, Salomão Sousa, Sóter e Sylvia Cyntrão.
Poesia Salva, Salve a Poesia! saiu com tiragem de 500 exemplares e Valter computa: “Doei 230 exemplares aos autores. Sobraram 270 volumes, dos quais preciso vender 100, ao custo unitário de R$ 40, para pagar o investimento”. O restante será doado para bibliotecas e divulgação, assegura.
Combatente - O mercado livreiro tem amargado tempos difíceis, com a abertura de grandes livrarias que praticamente solaparam as menores. Mas se muitos se dão por vencidos diante das dificuldades, outros como Valter Silva resistem. Generoso, assim como num ato político em defesa dos que amam ler prosa e verso, ele não solta das mãos os livros.
Se hoje atua na avocacia e já não tem mais livraria, ao longo de 35 anos ele permaneceu no bom combate como editor e presidente/fundador da Câmara do Livro de Brasília, quando organizou várias edições da Feira do Livro de Brasília, uma das mais antigas do país.
Nesse período, editou 47 títulos de diferentes áreas. Entre eles, Dom Quixote em Cordel, de J. Borges, que ganhou o prêmio Fundação Nacional do Livro Infantil, participou de uma feira literária em Bolonha e foi traduzido para o espanhol. Foi ele que também planejou, organizou e realizou o evento Chuva de Poesia em Brasília, na praça do Museu Nacional, como parte da programação da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília, em 2008.
Sobre a antologia criada por Valter Silva, seu coeditor Victor Tagore depõe: “É uma seleção daqueles que ainda têm o brilho da poesia em suas almas e acreditam que os versos podem trazer luz às sombras. Em Brasília, templo do modernismo brasileiro, a poesia pulsa e salva a si mesma e aos que com ela seguem viagem. Salve a poesia!”.
Os poetas e o livreiro
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POESIA SALVA, SALVE A POESIA! – a partir de 16h deste sábado, 3/12, tarde/noite de autógrafos da antologia que reúne 23 poetas brasilienses. Org. Valter Silva. Brasília: Tagore Editora, 2022. 102 págs. Preço de capa: R$ 40. No Restaurante Peccato (115 Norte, Bl. C, Loja 41. Reserva mesas 3257.3717).
Criado em 2022-12-02 06:16:10
Morillo Carvalho -
Azul da Prússia, peça de Alexandre Ribondi entra em cartaz hoje, sexta-feira, dia 20/1, às 20h, no Teatro do Brasília Shopping. Em exibição até dia 29/1, sempre às sextas, sábados e domingos (20h). Ingressos a R$20 (meia entrada) e classificação: Livre.
Em entrevista, Ribondi revela que o texto guarda o que há de mais íntimo de suas memórias sobre o autoritarismo no Brasil.
Era outubro do difícil ano de 2016 quando Alexandre Ribondi fez o convite: faz a assessoria de imprensa da peça pra mim? Nem hesitei em responder que sim.
Na curta história de uma amizade que parece vir de outras vidas, não foram poucas as vezes em que interrompi alguma prosa com ele para pedir pra gravar, já que projeto escrever sua biografia. Mas é no texto teatral em que ele mais se expõe e se revela.
Em tempos de quebra de paradigmas no jornalismo, não estranhe a publicação de uma entrevista feita por seu assessor de imprensa. Poucas foram as vezes em que estive neste papel, então considerei todos os critérios da reportagem para realizá-la. Que, de tão reveladora, merece ser publicada na íntegra – e não apenas nas aspas dos releases disparados para a imprensa.

Por coincidência (ou não), a entrevista ocorreu em 13 de dezembro de 2016. Aniversário do AI-5. Em seu apartamento, ele e Matheus Silva, o outro ator deste espetáculo, ensaiavam.
Entre um café e vários cigarros, espantando o calor da tarde que lufava pela ampla janela e lutando contra as dificuldades tecnológicas de lidar com um gravador digital que teve o cartão de memória todo preenchido ao longo da entrevista, a prosa que seguiu foi essa.
Morillo: Ribondi, vamos começar falando sobre o que há de principal: o tal azul da Prússia...
Ribondi: A cor a cor azul da Prússia? Bom, meu primeiro contato com essa cor eu não a vi, eu ouvi a palavra. Achei um nome muito bonito e depois eu vi que é um azul muito bonito. É uma cor que não existe na natureza, foi inventada em laboratório, e é altamente tóxico.
Aliás azul da Prússia era usado nas câmaras de gás dos campos de extermínio na segunda guerra mundial. Então é uma cor que traz essa maldição nela, apesar do nome bonito e da cor tão bonita, ela serviu para matar pessoas em campos de concentração e eu resolvi usar esse nome com a peça porque a peça também se refere a momentos difíceis da vida das pessoas momento de extermínio na vida das pessoas então daí eu achei que usar um nome tão bonito, tão poético para falar de um momento tão... duro da vida brasileira, como foi a ditadura, tinha tudo a ver. É tentar se aproximar do que foi o uso da cor para matar pessoas e aqui eu uso a cor para falar dos lábios de pessoas mortas.
Morillo: Então vamos entrar na peça. Estamos no momento em que visitar a história é uma emergência, para que determinadas ideias não se propaguem como se fosse em boas ideias. E aí vem o teatro contar um pouco da história, como você mesmo falou, de forma também lírica.
Ribondi: Eu acho que faz todo sentido e ainda vale lembrar que hoje [no momento da gravação da entrevista], 13 dezembro de 1968 foi assinado o Ato Institucional Número 5 (AI-5), que oficializou a ditadura que então tinha quatro anos, mas que ainda não era uma ditadura, o que havia era considerado como um rito de passagem.
Apenas a partir de 13 de dezembro ela se tornou oficialmente uma ditadura. Ditadura que durou 20 anos, né?
E como nós estamos vivendo momentos de muita incerteza no país – incerteza política, incerteza econômica, onde presidente da República tem codinome em quadrilha (risos), e onde você volta a ver a polícia nas ruas, pancadaria, agressão, violência, pessoas sendo presas, é muito bom a gente voltar a falar da época da ditadura brasileira.
Agora... Eu vivi a ditadura brasileira. Comecei ainda criança e sai dela um rapaz adulto, afinal de contas foram 20 anos, né, e é importante falar agora. Primeiro porque são minhas memórias e as minhas memórias são muito base das coisas que eu escrevo.
Tanto para teatro como para a literatura, para romances, são base... Então como eu vivi e tenho uma experiência desse período, eu resolvi escrever, muito mesmo levado pelo que está acontecendo agora. Este foi o grande impulso na minha vida para eu escrever essa peça: para o que está acontecendo agora. E trato como memórias.
Na peça, a ditadura é citada – ou uma grande parte dela – porque uma das personagens lê um diário onde há passagens do dia-a-dia na ditadura... Porque o ruim da ditadura, que ninguém para pra pensar nisso, é o dia a dia... É cada dia. Cada olhar de rabo de olho na rua, cada carro de polícia que passa. Isso é muito difícil. Por isso que eu escolhi esse diário contando “dia tal, dia tal”...
E como são memórias, por mais atroz que tenha sido essa ditadura envolveu pessoas que você gosta, que você ama, a casa onde você morou que foi invadida mas que continua na sua memória sendo uma casa muito bonita...
Daí o que você falou de lirismo. Tem lirismo nesse texto porque são memórias e algumas dessas memórias são muito bonitas, apesar de terem acontecido dentro de uma ditadura.
Morillo: Apesar de você, né Ribondi?
Ribondi: Apesar de você (risos).
Morillo: Também lirismo é uma característica do seu trabalho porque você optou por não tornar a memória - no caso, a memória da ditadura – em um panfleto. Ao mesmo tempo em que há no seu texto, na sua literatura, no seu teatro, uma espécie de militância, mas que não se traduz em panfleto...
Ribondi: Essa é uma pergunta difícil até de responder porque isso é uma análise vindo de fora. Que eu acho correta, mas que eu não sei. Porque eu não sei...
Porque eu acho que é uma questão pessoal, apenas pessoal, porque até durante a ditadura eu fiz panfletagem, mas eu tinha uma certa dificuldade. Eu achava que o tom não convenceria muito pessoas...
Assim... Eu achava que o panfleto eu que tava distribuindo não me convenceria. Eu me convencia por outras coisas: por observar a vida, por ler, por discutir com amigos, mas o tom do panfleto nunca me agradou de maneira nenhuma. Eu nunca saio por aí fazendo panfletagem de questão social nenhuma.
Eu não faço panfletagem LGBT ou pela mulher ou pelos negros, mas eu trato de entender, filtrar o que eu entendo e o que eu percebo nas minhas obras. Que podem ser extremamente agressivas, mas nunca panfletárias, nunca de gritar.
Pra mim, por exemplo, nessa última peça que eu fiz na Oficina do Ribondi, em que as pessoas gritam “isso é Brasil”, já estava esbarrando no panfletário. E eu tomava muito cuidado com isso porque se me agredisse, até estaticamente, eu não colocaria.
Mas é que nesse momento está sendo tão importante você dar uns berros que eu achei legal dar uns berros, assim como os atores levantarem no final ao som da música “A Carne”, da Elza Soares, e olhar para a plateia.
Fazia sentido, faz muito sentido porque tá chegando o momento que você tem que alertar as pessoas das monstruosidades que acontecem e que vem acontecendo o tempo todo.
Morillo: Você falou que foi influenciado por esse momento que você escreveu Azul da Prússia. Então conta um pouco do seu processo de criação para a peça...
Ribondi: Tudo começou assim: eu... eu... eu pensei inicialmente que seria um só ator em cena recordando a vida sentado no ponto de ônibus. Depois eu achei que...
Mais um monólogo-monólogo... Que já carrega um peso tão grande nos ombros... Monólogo... Que eu não gostaria de fazer um monólogo... Então que gostaria de fazer um biólogo (aqui interrompemos a conversa pra morrer de rir.
O Ribondi tira essas da manga e fica difícil manter a seriedade). Eu sempre digo isso: não é um monólogo, é um biólogo (a gente continua rindo mais um pouco... Biólogo! Hahaha).
Então é um biólogo o que eu estou fazendo com o Matheus Cabelo (momento piada interna, já que esse apelido surgiu no início desse ano, quando havia dois alunos “Matheuses” na Oficina do Ribondi e este, carinhosamente, ganhou o apelido pela excentricidade com que se penteava).
Eu acho que estou batizando ele artisticamente, Matheus Cabelo...
Morillo: Já vou perguntar isso para ele... (risos)
Ribondi: E ele, a personagem do Matheus Cabelo, conversa com a personagem que sou eu... (Pausinha reflexiva). Hoje, no processo de ensaio, eu tô arrependido porque as frases dele são muito curtas e as minhas...
São imeeensas, são páginas! Vai decorar isso pra você ver... Eu estou profundamente arrependido. Mas (voltando à resposta) o meu processo de criação começa, por exemplo, com o título. Esse título, Azul da Prússia, eu tenho ele guardado há anos na cabeça para um dia aplicar a uma peça.
Assim como eu tenho outros, tipo “A Vida Ordinária de Cristina” vai ser uma peça um dia, WC, são títulos que eu guardo. Eu começo... É engraçado que eu começo pelo título porque eu acho que quando a gente vê um presente pela primeira vez, o que a gente vê do presente é o embrulho e o título para mim é um embrulho, é o que vai chamar atenção, é que vai mostrar as suas intenções com aquele presente, né, um imenso laço vermelho, uma caixa grande...
Todas essas coisas. A partir do título eu penso uma coisa: o que que eu quero falar... Porque que eu quero falar... Nessa peça especificamente queria falar da ditadura. Mas aí eu também entro em como eu quero falar, com que recursos dramáticos e dramatúrgicos eu vou falar sobre isso. Eu penso no cenário.
É... Como a gente faz teatro em Brasília você tem que pensar em tudo. Poucas personagens, se possível cenário que não seja dispendioso porque nós, de fato, não temos uma grande produção... Não temos dinheiro... Eventualmente temos...
Mas eu trato de facilitar tudo, né? Daí ter imaginado um ponto de ônibus... pah! Duas personagens... Aí os recursos de luz, a música... Sim eu penso em tudo isso quando eu tô escrevendo porque se eu penso no tipo de música que eu quero eu já consigo imaginar como eles vão falar em função da música.
Depois eu penso nas personagens e uma das primeiras perguntas que a minha personagem faz à personagem do Matheus Cabelo é “o que que você tá fazendo aqui”.
São coisas que eu sempre falo na minha Oficina: nunca pergunte “quem” é a sua personagem, e sim o que ela quer e para onde ela vai. E ele insiste nessa pergunta.
E eu também me preocupo em responder a essas perguntas: o que que a minha personagem está fazendo ali naquele ponto de ônibus e o que a personagem da outra pessoa tá fazendo ali no ponto ônibus e porque elas se encontram, como elas se encontram e porque que a conversa rende uma peça inteira...
Eu penso em tudo isso quando vou escrever e aí eu fico em casa, ou tô indo em algum lugar e fico pensando na peça. Aí quando eu sento eu começo os diálogos...
Eu nunca penso nos diálogos, eu penso em como percorrer o caminho, porque é um caminho, né? Do começo da peça até o fim é um caminho que você percorre.
Me preocupo também em colocar surpresas dentro do texto porque uma vez uma pianista clássica me disse que a plateia não consegue prestar atenção, não importa no quê, por mais de 20 minutos. Em 15 minutos ela começa a bocejar, mexer a cadeira, então tem que dar um susto.
Na música clássica é fácil porque basta levantar o cara do prato e fazer “baaaah”... (risos) Na peça eu deixo que as surpresas venham pouco a pouco... Fatos que poderiam até acontecer no final, mas que não acontecem no final...
Hoje mesmo estávamos aqui nós dois trabalhando em uma cena em que a minha personagem, que é um mendigo, começa a falar francês...
Morillo: Pois é. É a improbabilidade desse diálogo, né? Porque o que o que existe em Azul da Prússia são duas personagens mantendo um diálogo improvável, no meio de uma madrugada, num ponto de ônibus... Um mendigo e um jovem (da vizinhança, ele completa) da vizinhança (eu concordo), e que não é uma cena corriqueira...
Ribondi: Eu acho, por exemplo... Aqui em Brasília, eu acredito nas outras cidades também, muita gente em bar começa a bater papo com aqueles mendigos tradicionais da cidade.
No bar Moisés, que eu frequento, você frequenta, tem uma senhora de cabelos brancos, muito magra, cheia de sacolas e muita gente fica conversando com ela.
Eu me pergunto até que ponto essas pessoas que conversam ela tem real interesse pela pessoa que ela é ou se é apenas um folclore conversar com o mendigo, é divertido, engraçado...
O que é uma imensa falta de respeito. Então se eu realmente não tenho interesse na pessoa eu não vou conversar com ela porque eu não vou usá-la para minha diversão.
Também porque eu acho que “caridade”, a palavra “caridade” que é tão importante para as pessoas que têm fé é um é um ato de hipocrisia.
Porque caridade, em seu sentido primeiro, é resgatar a dignidade perdida e você não resgata a dignidade de ninguém dando uma moedinha.
Claro que comida sim, porque ninguém pode ficar sem comer enquanto a dignidade não chega...
Resgatar a dignidade perdida é se interessar realmente, olhar nos olhos, cumprimentar, conversar...
Às vezes você bater um papo com uma pessoa de rua pode ser tão energizante quanto um prato de comida, mas é você conversar de igual para igual, é você tocar no mendigo.
As pessoas não tocam, elas tem nojo de tocar no mendigo e conversar olhando nos olhos, mostrar para ela que somos iguais. Então eu acho que eu já saí totalmente... (risos)
Morillo: Não saiu não, é sobre o diálogo improvável...
Ribondi: Esse diálogo improvável acontece na peça, eu acho que a personagem, no início a personagem do Mateus Cabelo começa comedida, com a curiosidade que ver o mendigo, que está perto da casa dele, sentado lá há dias, e começa a conversar.
E à medida que vai conversando e descobrindo que esse mendigo tem um universo, mesmo que nebuloso, mesmo que você não entenda muito bem, que é admirável, que é fantástico tudo que já aconteceu na vida dele e ele vai ficando realmente interessado...
Que é um recurso muito parecido que quando eu escrevo, eu faço com o público, as pessoas vão ficar: “qual é a história desse cidadão?” “porque que ele sabe falar francês”, entre várias outras coisas né? Porque ele sabe falar francês tão bem?
O que aconteceu na vida dele? E vai... E vai até o final da história, e se ele for de fato uma grande pessoa, essa personagem, ele vai aprender muitas coisas na conversa comigo (a personagem).
Morillo: Eu queria saber se houve algum personagem da vida real que te inspirou para o mendigo...
Ribondi: Quando eu tinha nove anos, e isso não é novela, eu tinha um grande amigo chamado “Hominho”, que tinha a mesma idade que eu. E nós conhecemos uma mendiga, que tinha nessa época a idade que eu tenho hoje. Negra.
E ela foi chegando perto das nossas casas, perto da estrada de trem, dos trilhos (ato falho: esqueci de perguntar a cidade. Ribondi viveu em meio Espírito Santo na infância).
E ela montou um barraquinho que era pedras e... Sabe esse papel grosso, de saco de cimento?
Coberto com aquilo. E ela colhia taboa, que é, assim, uma coisa que dá no charco, nas aguinhas (um vegetal que nasce em alagados) para fazer comida.
E eu e o Hominho entrávamos lá dentro da casinha, tínhamos a honra de ser recebidos dentro da casa dela. E ela era extremamente mal humorada, mas muito gentil.
Lembro disso com muito amor. A gente passava horas dos nossos dias de meninos de 10 anos conversando com ela lá dentro.
Eu não me lembro sobre o que a gente conversava, mas eu me lembro dela até hoje. Lembro mesmo, com detalhes, eu acho que se eu a visse na rua hoje, eu a reconheceria 50 anos depois.
Ela interferiu na minha vida de uma maneira muito forte. Eu não lembro sobre o quê nós conversávamos, mas em algum lugar na minha memória as conversas estão guardadas e me movimentam, pro meu raciocínio, para movimentar meu coração eu pensei muito nela, nessa mulher.
Quando escrevi o “meu” mau humor (da personagem), a bondade misturada com o mau humor e eu me lembrei dela. Eu dedico esse trabalho para ela e também eventualmente para pessoas que passaram por uma barra pesada durante ditadura e que ficaram bem alteradas por terem passado.
Mas menos. Eu dedico a ela mesma, porque mesmo em tempos de democracia a vida de uma pessoa pode ser uma ditadura... Por tudo que ela passou, pelas privações dela, por não poder fazer nada...
Uma pessoa que é tão pobre que não pode ir à escola, não pode viajar, não pode comprar um livro para ler, não pode decidir sobre a própria vida... A vida dela é uma ditadura! E isso acontece em todos países do mundo.
Prosseguimos a conversa por mais longos dezoito minutos. Transcritos, renderiam o dobro do que já conversamos até aqui. Vamos pular essa parte, então.
Morillo: Considerações finais? (risos)
Ribondi: A ditadura ainda pode estar no coração de quem passou por ela. Porque está e como é que isso pode interferir no relacionamento de uma pessoa que viveu a ditadura com uma pessoa que não viveu a ditadura é o que ele faz durante a peça.
Mostrar para uma pessoa bem mais nova o que aconteceu, com e sem intenção de mostrar o que aconteceu com ele, com a vida dele e com a alma dele por ter vivido uma ditadura.
As perdas, as mortes, as tristezas, a solidão, tudo de uma pessoa que passou por um processo de ditadura – e sem fingir que não era uma ditadura no Brasil.
Criado em 2017-01-20 20:02:20
A Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados solicitará à Procuradoria-Geral de Justiça do Estado do Amazonas e à Procuradoria-Geral da República a criação de uma força-tarefa conjunta do Ministério Público para investigar as circunstâncias em que ocorreram as 60 mortes de presos nos primeiros dias de 2017 em Manaus (AM). A informação foi divulgada nesta terça-feira (3/1) pelo presidente da Comissão, deputado Padre João (PT-MG).
A rebelião no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), que durou mais de 17 horas, resultou na morte de 56 detentos. A escalada da violência em Manaus também provocou a morte de outros quatro presidiários, desta vez na Unidade Prisional do Puraquequara (UPP). Trata-se do segundo maior massacre da história do sistema prisional brasileiro, atrás apenas do ocorrido no Carandiru, em 1992, com 111 mortos.
Padre João informou que, tão logo sejam retomados os trabalhos parlamentares na Câmara, a comissão analisará requerimento de sua autoria para a realização de audiência pública em Brasília sobre o massacre de janeiro e alternativas para o sistema penitenciário nacional.
Serão convidados para o debate representantes do Ministério da Justiça, do Governo do Amazonas, do Ministério Público, da Pastoral Carcerária e de entidades participantes da Agenda Nacional pelo Desencarceramento.
Eis a íntegra da nota da Comissão divulgada nesta terça (3/1):
“Manaus: Crônica de uma tragédia anunciada
Em Manaus, o ano novo de 2017 foi aberto com a macabra contabilidade das pessoas mortas em duas unidades do sistema penitenciário, em eventos apresentados pelas autoridades como rebeliões com tentativas de fugas e acerto de contas entre facções criminosas que disputam o comando dessas unidades.
Ao menos 56 pessoas foram mortas no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj). Outros quatro presidiários foram mortos no final da tarde na Unidade Prisional do Puraquequara (UPP), também na capital.
O sistema penitenciário do Amazonas tem sido objeto de intensa atividade de fiscalização dos órgãos de controle, que denunciam há anos a incapacidade do Estado de apresentar uma política penitenciária digna para a população encarcerada. Diversas entidades se debruçaram sobre alternativas para a crise do sistema penitenciário nos estados, ignoradas pelas autoridades.
Entre as iniciativas mais contundentes, desde 2013 um conjunto de entidades da sociedade civil reclamam o cumprimento de uma Agenda Nacional de Desencarceramento, como alternativa à falência de um sistema superlotado indevidamente e improdutivo do ponto de vista de seus objetivos principais, a ressocialização do preso e da presa para a prevenção e combate à criminalidade.
No Amazonas, segundo dados do Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN) do Ministério da Justiça, 58% dos presos e presas são provisórios (as), o que dá a dimensão do problema. Enquanto perdurar esse sistema penal que encarcera a torto e direito, como única alternativa para a criminalização dos mais pobres, aumentar vagas simplesmente - a alternativa hoje apresentada pelo Estado do Amazonas e o governo federal - é enxugar gelo e manter um sistema falido e ineficaz.
A Agenda Nacional de Desencarceramento vai no caminho oposto, ao propor a suspensão de qualquer investimento em construção de novas unidades prisionais, a restrição máxima das prisões cautelares, redução de penas e descriminalização de condutas, em especial aquelas relacionadas à política de drogas, e a ampliação das garantias da execução penal e abertura do cárcere para a sociedade.
Ela ainda se manifesta veementemente contra a privatização do sistema prisional e pelo combate à tortura e desmilitarização das polícias e da gestão pública. Trata-se, na verdade, de uma moratória no crescimento inercial de um modelo de encarceramento que, com suas mazelas, levou ao domínio das unidades por facções criminosas que prometem aos presos e presas, como privilégios do crime, os direitos legais que lhes são devidos pelo Estado infrator e incapaz.
O Governo Federal, em particular depois das mudanças feitas recentemente por Medida Provisória no Fundo Penitenciário Nacional (FUNPEN), em dezembro de 2016, abre mão de seu papel de induzir um novo modelo penitenciário aos Estados.
De uma canetada, o Presidente Temer diminuiu de 3% para 2,1% da arrecadação da loteria os recursos do FUNPEN, e destinou até 30% do seu superávit para vitaminar ações espetaculosas do Fundo Nacional de Segurança Pública. Sempre com objetivos midiáticos, liquidou os recursos do FUNPEN em caixa no final do ano para rateio entre os estados, livrando-se da responsabilidade de orientar um outro modelo com o uso dos recursos federais.
O Ministério da Justiça trombeteia que o rateio permitirá solucionar o problema da superlotação em todos os estados, meta absolutamente irreal mesmo destinando-se todos os recursos federais à expansão de vagas desse sistema em crise. Se a urgência é reverter a lógica do encarceramento e reduzir a população prisional sem ampliar o sistema, que estes recursos retirados do FUNPEN sejam drenados para políticas sociais, especialmente nas áreas de moradia, educação, saúde, trabalho e cultura, além de políticas de apoio aos/às egressos/as.
A baixa efetividade da Lei de Execução Penal, sobretudo quanto ao seu objetivo de “proporcionar condições para a harmônica integração social do condenado e do internado”, aliada à morosidade (e ao apenamento inadequado e desproporcional) dos julgamentos de ilícitos de menor relevância, gera um enorme contingente de presos temporários (ou que não representam ameaça maior à sociedade) que são colocados no mesmo espaço de condenados por graves crimes e a consequência de três décadas desta situação recorrente é a expansão das organizações criminosas.
Para este fato concorreu de maneira explícita e inegável a leniência dos sucessivos governos tucanos no estado de São Paulo, que jamais demonstraram vontade política para combateram com rigor o crescimento de grupos criminosos que se organizaram dentro dos presídios paulistas e a partir destes proliferaram suas ações por todo o País.
Prova da improvisação e precariedade dessa política é a reativação anunciada ontem em Manaus da Cadeia Pública Des. Raimundo Vidal Pessoa (CPDVP), que havia sido fechada em outubro de 2016 após anos de cobranças do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Em pleno centro da cidade, as precárias instalações dessa cadeia pública inaugurada em 1907, que seria destinada a ser um espaço cultural, receberão agora nada menos que 130 presos apresentados pelo Governo do Estado como "ligados a uma facção criminosa de São Paulo" e transferidos do Compaj.
Ademais, registramos também o nosso protesto contra a articulação de alguns setores políticos e econômicos que pretendem transformar o sistema carcerário num grande negócio, alegando como razão para isso a suposta “eficiência da iniciativa privada”, que se mostrou falaciosa nesse episódio de Manaus, onde o presídio que foi palco do massacre é administrado por uma empresa privada.
Assim, esta Comissão de Direitos Humanos e Minorias representará ao CNJ e ao CNDH para a realização de diligências comuns em caráter urgente a todas as unidades do sistema penitenciário da capital amazonense, bem como solicitará ao Tribunal de Justiça do Estado do Amazonas e à Defensoria Pública daquele Estado a realização de um mutirão de verificação da situação processual dos presos e presas nas unidades penitenciárias em Manaus visando enfrentar de forma legal o dilema da superpopulação encarcerada.
Solicitará ainda a manutenção da interdição, para recebimento de presos, da Cadeia Pública Des. Raimundo Vidal Pessoa, e a manutenção de sua destinação para uso como equipamento cultural do Estado.
Solicitará à Procuradoria Geral de Justiça do Estado do Amazonas e à Procuradoria Geral da República a criação de uma força-tarefa conjunta do Ministério Público para investigar as circunstâncias em que se deram tantas mortes, neste que já é o segundo maior massacre de presos da história penitenciária nacional, atrás apenas do Massacre do Carandiru, de triste memória pela impunidade dos agentes públicos envolvidos.
Defendemos que o Estado brasileiro seja responsabilizado e que repare as mortes e violências por meio de indenização às famílias das pessoas presas mortas e feridas, assim como às pessoas feitas reféns e demais funcionários agredidos.
Tão logo sejam retomados os trabalhos parlamentares na Câmara dos Deputados, a Comissão analisará requerimento desta Presidência para a realização de audiência pública em Brasília com a participação do Ministério da Justiça, do Governo do Amazonas, da Pastoral Carcerária e entidades participantes da Agenda Nacional pelo Desencarceramento e do Ministério Público Estadual e Federal para debate sobre as causas, circunstâncias e responsabilidades pelo massacre de janeiro e alternativas para o sistema penitenciário.
Brasília, 03 de janeiro de 2017.
Deputado Padre João - Presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados”.
Criado em 2017-01-04 03:12:02
J. L. Cindra (*) -
Friedrich Engels nasceu em Barmen, na Alemanha, em 28 de novembro de 1820 e morreu em Londres, em 5 de agosto de 1895. O trabalho de Engels só foi interrompido quando ele estando acometido por um câncer de esôfago fulminante, veio a falecer logo em seguida. Ele era oriundo de uma próspera família burguesa, em que predominava um protestantismo rígido; seu pai era dono de fábricas de tecelagem em Barmen e em Manchester, na Inglaterra. Engels nem chegou a concluir seus estudos formais, pois seu pai, esperando que ele fosse dedicar aos negócios de suas empresas, cedo o orientou no sentido da prática direta nos assuntos comerciais. Suas contribuições ao materialismo, ao socialismo e ao marxismo são notáveis, mas geraram polêmicas acirradas entre marxistas das mais variadas tendências.
O primeiro encontro entre Marx e Engels se deu em Colônia, no ano de 1842, Marx era redator de um jornal liberal nessa importante cidade alemã e Engels se dirigia à Inglaterra, para treinamento de negócios na firma Ermen & Engels, em Manchester.
Na realidade, Engels já havia se tornado um comunista antes de Marx. Os biógrafos de Engels afirmam que neste primeiro encontro, Engels não causou grande impressão em Marx. Em Colônia, Engels também encontra com o comunista alemão Moses Hess. Hess era adepto de uma concepção de comunismo utópico, em que o importante não era a ideia de luta de classes, mas a concepção feuerbachiana de que a questão fundamental era a supressão da alienação. Mas, enquanto, para Feuerbach, a alienação primordial era causada pela religião, para Hess seria aquela que engendra o regime de propriedade privada.
Em 1844, quando retornava da Inglaterra, com destino a Barmen, Engels encontra novamente com Marx em Paris. Desta vez as impressões de Marx sobre Engels foram tão boas que eles se tornaram amigos e companheiros de luta em prol da revolução proletária, pelos quarenta anos seguintes.
Vivendo e trabalhando em Manchester, Engels trava conhecimento com Mary Burns, uma irlandesa do meio operário, o que lhe propiciou um conhecimento abrangente da situação da classe operária inglesa. Quando ele, em 1844, a caminho da Alemanha, encontra Marx em Paris, tinha tudo para escrever A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra. Em alemão, o livro veio a ser publicado em 1845, mas sua tradução para o inglês só aconteceu oitenta anos depois.
Em colaboração com Marx, surgiram alguns livros que serviram de fundamento para a doutrina comunista, superando assim o socialismo utópico anterior. O primeiro livro escrito por eles foi A Sagrada Família, publicado em Frankfurt-am-Main, em fevereiro de 1845. O título do livro era uma crítica sarcástica aos hegelianos alemães que faziam muito barulho, com sua crítica à religião, mas isso tinha pouco efeito prático, porque eles não entendiam nada de luta de classes. O segundo livro oriundo dessa parceria foi A Ideologia Alemã, escrito em 1846, quando Marx vivia em Bruxelas e era então editor do Rheinische Zeitung, mas o livro não foi publicado em vida de Marx e Engels.
Tão logo Engels começa a sua colaboração com Marx em 1844, eles passam a fazer parte da Liga dos Justos, que mais tarde viria a se denominar Liga dos Comunistas. Em fevereiro de 1848, às vésperas das revoluções que varreram a Europa naquele período, Marx e Engels publicam o célebre Manifesto do Partido Comunista.
Em 1849, Marx e sua família passam a viver em Londres, enquanto Engels passa a viver permanentemente em Manchester, de 1850 até 1870, quando ele muda definitivamente para Londres. A colaboração entre Marx e Engels foi intensa e abrangente por toda a vida, desde 1844. É importante ressaltar que Engels soube levar uma vida dupla na Inglaterra. Ao mesmo tempo que ele era gerente de fábrica, herdeiro de sua rica família, um verdadeiro gentleman inglês, frequentava os clubes da alta burguesia e participava da caça à raposa, chegou a ser membro do Schiller Instituto de Manchester, mas todo seu esforço era em prol da emancipação dos trabalhadores e do socialismo.
As obras - Passo agora a fazer referências às obras escritas exclusivamente por Engels, em sua fase madura. Um importante livro foi o Anti-Dühring, escrito entre 1876 e 1878. O livro surgiu porque Marx e Engels acharam necessário fazer uma crítica demolidora às concepções do professor Eugen Dühring, a fim de combater suas pretensões de ter elaborado uma teoria muito abrangente e definitiva para o socialismo, rejeitando assim as concepções de Marx e Engels.
Entretanto, do ponto de vista deles, o que Dühring escreveu não passava de textos ecléticos e pretenciosos, muitos deles visando a fornecer teorias universais e absolutas. O problema é que a doutrina de Dühring estava influenciando vários representantes do Partido Socialdemocrata Alemão. Já no Prefácio à edição de 1885, dois anos após a morte de Marx, Engels escreve que lera para Marx todo o manuscrito do Anti-Dühring, antes de sua primeira impressão em 1878.
Além disso, o Capítulo X fora escrito pelo próprio Marx. Nesse Prefácio, Engels escreve que o conhecimento da matemática e da ciência natural é essencial para uma concepção da natureza que é dialética e ao mesmo tempo materialista. Marx era versado em matemática, diz ele, mas em relação à ciência natural só tínhamos conhecimento fragmentado, intermitente e esporádico. Ele também reconhece que os progressos na ciência são tantos que, possivelmente seu trabalho tornará supérfluo em grande parte, ou em sua totalidade. Lembrando da lei da conservação e da transformação da energia, ele disse que há uns dez anos era somente a conservação da energia que era enfatizada, mas agora, cada vez mais se valoriza a ideia de transformação da energia.
Vivendo em Manchester, Engels travou conhecimento e fez amizade com um importante químico orgânico alemão que também vivia nessa cidade. Tratava-se de Carl Schorlemmer (1834 – 1892), que além de químico, era também comunista atuante, por isso ele foi chamado de o “químico vermelho”. Foi por meio desse amigo, que Engels aprendeu muito de química orgânica. Engels foi durante toda a sua vida um autodidata, que passou a adquirir um conhecimento enciclopédico em vários assuntos.
Além disso, Engels tinha um bom conhecimento da arte militar, havendo ele inclusive na juventude participado de combates nas guerras da revolução de 1848 e 1849, na Alemanha. A derrota dessa revolução fez com que Engels tivesse que refugiar permanentemente na Inglaterra.
Na Introdução de Anti-Dühring, Engels escreve que o grande mérito de Hegel foi ter apoderado da dialética como a forma mais elevada de se raciocinar. Os antigos filósofos gregos eram todos dialéticos naturais, e Aristóteles, o intelecto mais enciclopédico entre eles, já havia analisado as formas mais essenciais do pensamento dialético. O começo das ciências naturais exatas teve lugar com os gregos do período alexandrino, e mais tarde, na Idade Média, pelos árabes.
No Capítulo XI, intitulado Moralidade e Lei, Liberdade e Necessidade, Engels escreve: Hegel foi o primeiro a estabelecer corretamente a relação entre liberdade e necessidade. Para ele, a liberdade seria a consciência da necessidade. A concepção de Hegel era que a necessidade é cega apenas enquanto ela não é compreendida.
No Capítulo XII, Dialética, Quantidade e Qualidade, Engels discute sobre as contradições, que metafísicos como Herr Dühring não compreendem. O movimento mesmo já é uma contradição. Engels faz ainda um comentário sobre a presença da lei da passagem da quantidade para a qualidade, nas séries de carbono (metano, etano, propano, etc).
No Capítulo XIII é que Engels mostra a importância da lei da negação da negação
Ele ressalta que essa lei, como todas as leis da dialética, age na natureza, na história e no pensamento. Nos processos geológicos, na matemática superior, na biologia, na sociedade humana, por toda a parte, está presente a lei da negação da negação. Ele escreve que a dialética não é nada mais que a ciência das leis gerais do movimento e desenvolvimento da natureza, da sociedade humana e do pensamento.
A Dialética da Natureza é outro livro de Engels onde se trata da dialética hegeliana aplicada à natureza. Bem no início da década de 1870, Engels dá início a seus estudos sobre dialética e as ciências da natureza. Esse trabalho só foi interrompido com a morte de Marx em 1883. Engels teve que preparar os manuscritos de Marx, para a publicação do Segundo e Terceiro volumes de O Capital (Das Kapital). Marx, em vida, só conseguiu publicar o primeiro volume de O Capital, em 1867. Após a morte de Engels, em 1895, os manuscritos da Dialética da Natureza ficaram enterrados por trinta anos nos arquivos do Partido Socialdemocrata da Alemanha, sob auspícios de Eduard Bernstein. A obra só veio a ser editada em alemão e russo em 1925. Quando, finalmente, Dialética da Natureza apareceu em inglês, em 1940, como disse J. B. Foster, os cientistas marxistas britânicos tomaram conhecimento dela e se sentiram como patos na água. John B. Foster é autor de vários trabalhos sobre a ecologia, do ponto de vista marxista.
Na Dialética da Natureza, Engels apresenta as três leis da dialética, segundo ele, elas já estavam presentes na Lógica de Hegel, porém de modo confuso e mistificado, devido ao idealismo que anima a sua filosofia. Essas leis são: a) a lei da passagem da quantidade para a qualidade e vice-versa; b) lei da união e luta dos contrários; c) lei da negação da negação. Engels discute sobre as formas de movimento da matéria e muitos outros assuntos. Na Dialética da Natureza está incluído, inclusive, um capítulo em que Engels trata de um assunto que hoje seria um tópico da ecologia. É onde ele discute a importância do trabalho para a formação do homem, evoluindo a partir de outros primatas. Ele, então, discute a questão da relação entre o homem e a natureza.
“Não fiquemos demasiado lisonjeados com nossas vitórias humanas sobre a natureza”, escreve ele. Esta se vinga de nós por toda vitória desse tipo. Cada vitória até leva, num primeiro momento, às consequências com que contávamos, mas, num segundo e num terceiro momentos, tem efeitos bem diferentes, imprevistos, que com demasiada frequência anulam as primeiras consequências. As pessoas que acabaram com as florestas na Mesopotâmia, na Grécia, na Ásia Menor e em outros lugares para obter terreno cultivável nem sonhavam que estavam lançando a base para a atual desertificação dessas terras, retirando delas, junto com as florestas, os locais de acúmulo e reserva de umidade.
Dois outros livros de Engels, ambos publicados após a morte de Marx, são A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, publicado em 1884 e Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã, publicado em 1886. Além desses livros, Engels ainda conseguiu preparar para publicação os segundo e terceiro volumes de O Capital. Levando em conta que a caligrafia de Marx era muito ruim, só mesmo Engels para dar conta desse trabalho estafante, mas ele o conseguiu.
Nos últimos anos de vida, Engels ainda deu uma grande contribuição para a consolidação do movimento operário na Alemanha. Engels pôde viver um período em que o socialismo de inspiração marxista se transformava em um grande movimento de massas sob a liderança do poderoso Partido Socialdemocrata da Alemanha (SPD), e, em 1889, em Paris, era fundada a Segunda Internacional.
Tudo isso faz de Friedrich Engels uma figura de primeira grandeza no tocante à contribuição que ele deu para o estabelecimento do que viria a se chamar de marxismo. Mas, mesmo assim, muitos são os que querem fazer crer que Engels deturpou o pensamento de Marx, chegando ao ponto de dizer que ele traiu as ideias de Marx, mas isso não parece ser verdade.
Vejamos agora alguns comentários sobre as atividades de Engels no contexto da filosofia marxista. Os chamados marxistas ocidentais (G. Lukács, K. Korsch, H. Marcuse, J. P. Sartre, T. Adorno, L. Goldmann, L. Colletti e outros) negam a existência de uma dialética na natureza, negam a existência do materialismo dialético, aceitando apenas o materialismo histórico.
A culpa é de Engels, dizem eles, que, no espírito hegeliano, viu uma dialética na natureza. Para esses autores, ´’só existe dialética na sociedade e na relação do homem com a natureza, mas nunca na natureza mesma”. Eles culpam Engels de metafísica, dogmatismo naturalista, ecletismo, positivismo e mais coisas. Eles alegam que, com base nos escritos de Engels, principalmente na Dialética da Natureza, os soviéticos formularam as disciplinas materialismo dialético e materialismo histórico, estranhas ao pensamento de Marx.
Em outras palavras, eles querem dizer que Marx só reconhecia o materialismo histórico, mas nunca o materialismo dialético. Entretanto, é bom lembrar, que uma obra tão importante para a concepção dialética do mundo, como é o Anti-Dühring, foi escrita por Engels, tendo todo o consentimento de Marx, pelo menos é o que parece ser. A Dialética da Natureza, sim, ela só foi publicada postumamente, muitos anos após a morte de Engels. Mesmo assim, muitos tópicos neste último livro, concordam plenamente com o que já havia sido escrito em Anti-Duhring. Na minha modesta opinião, as críticas feitas a Engels, alegando que ele deturpou o conteúdo da doutrina de Karl Marx, de um modo geral, não procedem.
A outra versão, a versão do chamado marxismo ortodoxo ou marxismo soviético, ressalta exatamente o oposto do que afirmam os “marxistas ocidentais”. Segundo a doutrina outrora predominante na URSS, e, de um modo geral, nos partidos comunistas, existe uma absoluta identidade ou homogeneidade entre os pensamentos de Marx e Engels. A meu ver, a deficiência do “marxismo ortodoxo” não é o fato dele não ver discrepâncias entre as concepções de Marx e Engels. O único erro grave foi talvez a canonização das obras de Marx e Engels.
No que diz respeito especificamente ao livro A Dialética da Natureza, podem existir, de fato, algumas dificuldades na questão da interpretação do pensamento de Engels, por se tratar de uma obra inacabada. O que Engels nos deixou foram notas e esboços de temas incompletos, que foram compilados pelos editores do manuscrito em 1925, enquanto o livro resultante passou a ser considerado um clássico do marxismo-leninismo, e, em seguida, canonizado, por assim dizer, segundo a Weltanschauung que estava sendo consolidada na URSS.
O erudito turco, Kaan Kangal, em 2020, escreveu um bem fundamentado livro sobre Engels e a Dialética da Natureza. Ele ressalta que os manuscritos de Engels eram ainda um texto inacabado, que deve ser lido com muito cuidado, porque as intenções e motivações de Engels ao escrever as notas e esboços que ele nos deixou, muitas vezes não foram bem compreendidas.
Portanto, Kangal acentua o caráter inacabado de Dialética da Natureza, é o que ele chama de teorema de incompletude, ao se referir a esse livro. Segundo ele, é preciso estudar a fundo o contexto em que Engels trabalhou. É conveniente, inclusive, esclarecer alguns aspectos da dialética, levando em conta a crítica da lógica de Hegel, feita na Alemanha, por Adolf Tredelenburg, Eduard.von Hartmann e outros. Esta crítica envolvia as relações entre Hegel, Aristóteles e Kant. Seria ainda conveniente, segundo Kangal, levar em conta o darwinismo que se difundia na época e os estudos de outros materialistas, tais como Ludwig Büchner, Karl Vogt e Jacob Moleschott, os chamados materialistas vulgares mecanicistas pelos clássicos do marxismo.
Michael R. Krätke, por outro lado, escreveu que não haveria Marx sem Engels. Sem Engels, Marx não teria sobrevivido no exílio britânico, senão que teria sucumbido nesse exílio, junto com sua mulher e filhos. De fato, sem o apoio financeiro de Engels, Marx dificilmente teria escrito Das Kapital. Além disso, Engels pode ser considerado o primeiro marxista, o homem que inventou o marxismo.
Ao que parece, muitos dos detratores de Engels têm é inveja dele, visto a importância que ele adquiriu ao lado de Marx, e ainda mais, depois de sua morte. Mas devido à modéstia de Engels, ele sempre se considerou “o segundo violino”. Outros que procuram encontrar discordâncias entre os pensamentos de Marx e Engels, pelo menos durante o período de existência da URSS, tinham motivações políticas, cujo intuito era causar dúvidas e desconfianças no seio do marxismo-leninismo, a doutrina política oficial da URSS e do Movimento Comunista Internacional.
O filósofo argentino Mario Bunge (1919 – 2020), apesar de não ser muito simpático à dialética de Engels e ao materialismo dialético, mesmo assim ele concedia uma certa credibilidade à filosofia marxista, ao admitir que a “a dialética nos ensinou a desconfiar da quietude – que pode ocultar o conflito – e do equilíbrio – que pode ser instável. Ela nos ensinou que nem toda luta é ruim: algumas podem resultar em coisas novas e melhores” (apud Kangal, 4 Dez 2020). Bunge compartilhava a crença de que o materialismo dialético tem o mérito de enfatizar a novidade qualitativa ou a emergência.
Não sendo ele mesmo um marxista, o biólogo evolutivo Ernst Mayr (1904 – 2005) descobriu que sua própria concepção filosófica da biologia tinha surpreendentemente muito em comum com os princípios do materialismo dialético (ibid, 4 Dez 2020).
_______________
(*) J. L. Cindra é professor de Física e de História da Ciência, na
UNESP - campus de Guaratinguetá – SP.
Bibliografia:
ENGELS, F., Anti-Dühring Herr Eugen Dühring’s Revolution in Science, Leipzig, 1878.
FOSTER, J. B., Engels´s Dialectics of Nature in the Anthropocene, Monthly Review, Nov 01, 2020.
KAAN KANGAL, Friedrich Engels and the Dialectics of Nature (Marx, Engels and Marxism), London: Palgrave Macmillan, 2020, xvi, 213 p.
KAAN KANGAL, A dialética emergentista de Engels, Revista Zero à Esquerda, 4 Dez 2020.
KRÄTKE, MICHAEL R. Friedrich Engels – el burgués que inventó el marxismo. Trad. Ángel Ferrero, Barcelona: Ediciones Bellaterra, 2020 www.bellaterra.coop
Criado em 2022-11-23 00:41:53
Nihil novi - Autor ACQ
À noite em claro em vão à procura
de novos materiais para um poema –
Haverá algo inédito?
Já disseram tudo sobre o amor, inclusive
o amor de androides que se apaixonam,
pagos com cartão de crédito –
Já cantaram todos os embates dos corpos
de todos os gêneros e figurações sob o sol
e a chuva, o espanto e o dengo da Lua –
Quantos hinos ouvi, meu Anjo,
sobre o êxtase das Santas & Pecadoras
aliciadas pela Sagrada Assombração –
Já ouvi tantas trovas com os liames
dos bichos, das árvores, das folhas de relva
e dos lírios que festejam nos campos –
Incontáveis vezes a Lua nasceu e se escondeu
nas linhas dos sonetos, quadrinhas e haicais
e o Sol continua a crestar os livros dos povos –
Ah, quantas odes ouvi sobre a tristeza,
o ódio, o ciúme, a inveja e a vingança
rentes às risonhas rimas da Esperança –
Quase tudo parece ter sido escrito
sobre o dinheiro e a mercadoria,
os negócios, suas rotas e sorvedouros –
E é impossível surfar todos os mares
de saliva que irrigam os governos,
as guerras e as lutas de classe –
Evoé, Liberdade, Igualdade e Fraternidade –
quantos crimes e sílabas ruins cometeram
os seus pseudoprocuradores!
Por fim, poetas da Ordem – ordinários e refinados –
declamaram também os rigores da morte –
mas eu não acredito na morte!
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
De madrugada viajo de carona no Oumuamua
porém não vislumbro nada de novo na Via Láctea
ou na Cabeleira da Berenice –
Acabo caindo num buraco negro, que evapora –
Volto para o oceano de papel, tinta
e pixels dos meus “parentes das estantes” –
Logo vai raiar o Sol – me nino e me nano até o sono –
Sem gato, porquinho da Índia, dourada borboleta
ou pedras no meio do caminho
– recursos derradeiros das minhas musas e musos –
me deixo cair nos braços de Orfeu –
Eu disse Orfeu, Ceiça!
Um mote inesgotável ocupa
o meu sonho: a Reinvenção –
Haverá algo mais novo que celebrar a Vida?
ACQ 20/09/2019 e 18/10/2020
Fundo musical - Ária das Variações Goldberg de Bach - Jean Rondeau, Netherlands Bach Society, 16 de outubro de 2018
Criado em 2020-10-21 20:18:42
Alexandre Ribondi –
É sempre impressionante visitar a Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). É uma obra de grande porte, confortável, elegante e espaçosa, provavelmente digna da capital mais moderna do mundo. Então, por que ela tem se prestado a abrigar mentes obscuras e intolerantes, capazes de pensar e eventualmente criar leis que visam a proibição e a criminalização da manifestação do pensamento? É interessante tentarmos entender o que anda acontecendo no nosso Legislativo, no Brasil e no mundo.
O presidente da Casa, Rafael Prudente (MDB), conseguiu aprovar, na terça-feira (18/8), com pequena maioria, o projeto de lei nº 1.958/18 que proíbe manifestações artísticas e culturais com teor pornográfico ou que vilipendiem símbolos religiosos. A proibição vale para espaços públicos e, para passar pelo crivo do governador do DF, tem ainda que ser aprovado em segundo turno.
Existe uma ameaça latente nesse projeto, que também é revelador da personalidade rancorosa, insatisfeita, reprimida e doentia do deputado Rafael Prudente. Por sua natureza pequena e pouco dada a manifestações intelectuais, ele certamente jamais entenderá o que possa ser dito sobre ele e sua participação na vida política do Distrito Federal.
Mas, vejamos. Temos vivido uma época em que, aparentemente, o cidadão já desconfia e rejeita, com veemência, a ideia de que o Estado tem o direito de monitorar e controlar as nossas vidas e nossa participação na sociedade. Isso já bastaria para que surgisse uma comoção diante de parte do plenário da CLDF que aprovou o projeto. Eles não podem nos dizer o que nós podemos ver e consumir no mundo das artes, porque a visão de pornografia e vilipêndio será sempre subjetiva e carregada de preconceitos.
Imaginemos, porém, que estejamos vivendo uma época atípica. Muito das conquistas sociais, artísticas, éticas do século XX está sendo desestruturado. Imaginem que as pequenas e quase mínimas vitórias que temos tido na educação e na saúde públicas passem a ser vistas como maléficas para a sociedade brasileira. Imaginem que já é possível se manifestar e discursar contra os direitos humanos dos negros, dos indígenas, das mulheres e dos homossexuais. Suponham o inimaginável: que um grupo de cristãos evangélicos se reúna à porta de um hospital para impedir que uma menina de 10 anos faça aborto após ter sido violentada pelo próprio tio. Imaginem que tenhamos um presidente da República com evidente fixação anal e que declare que vai enfiar o dedo no cu dos esquerdistas.
Assim, chegamos à pequenez do deputado Rafael Prudente, que se sentiu à vontade para criar projeto que lança a censura sobre a criação artística na capital da República. Sem ser psicanalista, com pouca leitura que tenho do austríaco Sigmund Freud, aprendi, de qualquer maneira, que os sonhos são desejos não reconhecidos pela consciência porque neles o prazer se expõe de maneira precária e escassa, sem afeto. É o que aprendemos a chamar de desejo inconsciente - ou recalque.
Portanto, esse homem pode e deve ser visto como um recalcado, que tremula de desejo diante de obras que ele considera pornográficas porque expõem o que ele secretamente deseja. Vive imerso na noção de pecado diante da visão de um Deus castrador e insuportavelmente feio. O fascismo foi criado a partir dessa castração e desses recalques. Porque se é o desejo (e a sua repressão) o que move a humanidade e nos faz escrever a História, o fascismo também é manifestação do desejo - o desejo de matar a si e ao outro.
A CLDF corre o risco de se tornar um antro de fascistas religiosos, assim como o Palácio do Buriti, o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto. Os cidadãos esclarecidos têm a obrigação de se manifestar contra e acabar de vez com esse “silêncio dos bons”. Porque ainda vale dizer que o fascismo é crime contra a humanidade. O fascismo não passará.
Criado em 2020-08-19 18:15:38
Marcos Bagno –
Ninguém se iluda. O primeiro turno da vitória da direita extremada se deu no dia 14 de março deste ano, quando a vereadora Marielle Franco, do PSol, foi assassinada a tiros junto com o motorista Anderson Gomes. As urnas do dia 28 de outubro, portanto, simplesmente chancelaram uma vitória anunciada meses antes.
Marielle Franco é a corporificação trágica de tudo aquilo que tem alimentado o ódio de classe constitutivo da sociedade brasileira: mulher, negra, bissexual, nascida e crescida na favela, ativista política de esquerda.
A escolha do alvo não foi indiferente: foi uma decisão calculada, planejada e executada (em todos os sentidos do verbo “executar”). Foi uma mensagem de obscena explicitude: cada pessoa que compartilhe com Marielle pelo menos uma de suas características individuais e/ou sociais é desde aquele dia uma vítima potencial da violência, antes difusa, agora propalada como futura política de Estado. Uma mensagem dirigida a nada menos do que três quartos da população. Uma mensagem, sim, mas nunca uma promessa: promessas se cumprem ou não, mas essa possibilidade de não cumprimento está descartada.
Os diversos casos de assassinato e agressões físicas cometidos em nome do candidato desde então, as invasões truculentas de universidades às vésperas da segunda votação, as intimidações dirigidas às mais altas instituições republicanas deixam isso evidente.
Um ódio de classe – até recentemente enrustido sob a capa da hipocrisia – que finalmente pôde se expressar sem temor e sem tremor, amparado na discurseira de um personagem incapaz de articular três frases com o mínimo de coesão e coerência. Trata-se de um grande desafio para as ciências médica e linguística: muitos estudos têm demonstrado, há quase um século, que as pessoas mais gravemente afetadas por algum tipo de transtorno psíquico exibem um desempenho linguístico de extrema racionalidade, de perfeita utilização dos recursos morfossintáticos de seu idioma, de inteligência discursiva impressionante. No caso em pauta, nada disso se verifica.
O projeto de combate à vida civilizada voltou a anunciar sua vitória iminente no dia 2 de setembro, com o incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro. O fogo que consumiu a mais importante instituição de pesquisa do país, junto com um acervo cuja perda representa uma calamidade para a espécie humana, prenunciava a perseguição – mais uma vez, bem planejada, sistemática – desencadeada contra qualquer forma de inteligência, de valorização da cultura, da ciência e das artes. Querer reduzir a cinzas a educação escorada na pluralidade de modelos de pensamento, rasgar livros sobre direitos humanos em bibliotecas universitárias, incentivar a espionagem e delação da prática docente, repudiar as ciências humanas e sociais – tudo isso será o prosseguimento “natural” da demolição do saber representada pelo incêndio do Museu Nacional.
A absoluta indiferença exibida pelo então candidato diante da tragédia revela, como se fosse preciso, o que ele pensa (ele pensa?) da arte, da cultura, da ciência, da civilização enfim. A repulsa às ciências humanas e sociais é uma repulsa à própria ideia de humanidade e de sociedade.
Mas talvez seja possível recuar ainda mais a vitória desse projeto de terra arrasada. Nesse caso, ela teria principiado em 2016, quando um parlamento (indigno de inicial maiúscula) dominado pelo que há de mais sórdido no espectro social brasileiro, coligado com um judiciário (igualmente minúsculo) omisso e acovardado (senão francamente partidarizado) e à Grande Mídia (esta, sim, maiúscula em sua indecência) conspiraram para depor uma presidenta democraticamente eleita, num golpe em que a misoginia não teve papel menos importante do que as falsas acusações de improbidade administrativa.
O regime que se anuncia será a versão paroxística do governo mais grotesco da história do Brasil, e um dos mais vexaminosos do mundo, liderado por um fantoche, ele sim, acusado de práticas corruptas sabidas e consabidas, ladeado pelo que pode haver de mais execrável e pusilânime na classe política brasileira.
Mas nem todo o mal que se anuncia pode ser imputado apenas ao projeto fascistoide vitorioso nas urnas, com o uso criminoso das ferramentas digitais e o apoio de um empresariado anticapitalista.
As causas mais distantes e profundas do descalabro que escurece o horizonte e sufoca qualquer expectativa de paz e civilidade a curto prazo podem estar na coleção de erros acumulados por um partido que permaneceu treze anos no poder e que, renunciando aos princípios ideológicos estabelecidos em sua formação, firmou as mais indignas alianças e conciliações, não promoveu a regulação dos meios de comunicação, não submeteu a nenhum tipo de taxação fiscal as fortunas construídas sobre a miséria da maioria da população, não impôs nenhuma restrição à indústria religiosa, talvez a mais lucrativa do país, e, principalmente, que não cuidou de criar uma conscientização política na sociedade, que não radicalizou a democracia, que não só não passou a limpo a ditadura como se aliou a alguns de seus piores resquícios e excrescências. Um partido que trocou um projeto de nação por um projeto de poder, que se afastou pouco a pouco da esquerda para se transformar num centro em forma de grande bolha proteiforme e sem identidade, colonizada por uma miríade de interesses escusos, admitidos sob a justificativa de uma governabilidade que, tudo está aí para demonstrar, de fato nunca existiu. Que recorreu, nos momentos mais críticos, a estratégias que se revelaram extratrágicas até os últimos estertores da campanha.
De todo modo, a vitória rematada dia 28 traz em si suas próprias contradições, suas impossibilidades intrínsecas, já se mostra como um inevitável fracasso porque, desprovido dos requisitos mínimos (inclusive mentais) exigidos de um estadista e carente sequer de um verniz de sagacidade, o eleito não será capaz de resistir às rasteiras de seus próprios aliados, se é que podem ser chamados assim os abutres de última hora que resolveram acompanhá-lo para tirar algum proveito.
O atual espanto da comunidade internacional civilizada se tornará escândalo planetário e vergonha nossa quando se iniciarem as relações entre o inevitável desgoverno e o resto do mundo.
O que está por vir é um caos institucional, uma aberração política, um ingente autoritarismo, um Estado policialesco como nas piores ditaduras.
Temos pela frente a imensa e dificílima tarefa de reconstituir a trama social esgarçada, de juntar os cacos da democracia e tentar reconstituí-la com a cola forte do ativismo incessante e da resistência irredutível.
As instituições republicanas estão corroídas por dentro e por fora, basta um leve sopro para que desmoronem, e o que se anuncia não é um leve sopro, mas um ciclone. É nas ruas, nas trincheiras da produção do saber, nas salas de aula, nos movimentos sociais, na luta sindical não partidarizada, no trabalho ininterrupto de militância contra toda forma de violência e de ódio, no cultivo da arte e da cultura, na exposição sem medo de todas as formas de amar, no reconhecimento sem ambiguidades do protagonismo feminino, no resgate do diálogo intenso e extenso com a população mais vulnerável que poderemos enfrentar e, tomara, derrotar a ignomínia que promete se instalar no Brasil a partir de 1º de janeiro.
A covardia não deve nos assombrar. A covardia é a marca registrada do fascismo. E o fascismo sempre foi o grande derrotado da História.
Criado em 2018-11-04 00:54:56
Sandra Crespo -
Depois do enterro de Evaldo dos Santos Rosa, familiares e amigos do músico fizeram nesta tarde um protesto em frente ao quartel-general da 1ª Divisão do Exército, o palácio Marechal Mascarenhas de Moraes. Eles colocaram bandeiras do Brasil com manchas de sangue e cartazes na escadaria da instituição, na Vila Militar, Zona Oeste do Rio. Ponto. Assim se encerra mais um massacre de um negro brasileiro praticado por agentes do Estado.
Evaldo Rosa, 51 anos, dirigia o carro alvejado por 80 TIROS disparados por integrantes do Exército. O homem negro foi assassinado no último domingo, em Guadalupe, subúrbio do Rio de Janeiro.
Evaldo estava com a mulher, Luciana, o filho de sete anos, o sogro (que está no hospital) e uma amiga da família. Eles se dirigiam a uma festinha de chá de bebê.
No caminho, Evaldo apenas passou por soldados com seu carro branco - e levou 80 TIROS.
Como resposta imediata ao assassinato, o Comando Militar do Leste massacrou Evaldo uma vez mais, ao divulgar que se tratava de um “bandido”. Depois de ser desmentido por testemunhas da chacina e pela Polícia Civil do Rio, o Exército assumiu o “erro”, e prendeu em flagrante os assassinos fardados.
Nesta quarta-feira, a juíza militar encarregada do caso decidiu pela prisão preventiva dos dez militares que executaram Evaldo.
As autoridades que foram pressionadas pela imprensa para comentar o caso trataram o assunto como “incidente lamentável”, algo “que pode acontecer” (Moro). “Não vou fazer juízo de valor”, esquivou-se por sua vez o governador do Rio, Wilson Witzel, que se elegeu prometendo estourar cabeças de suspeitos, com snipers posicionados estrategicamente contra os “inimigos”, nos morros onde vive a maioria dos trabalhadores do Rio de Janeiro.
Se Evaldo fosse traficante ou um reles batedor de carteira, talvez nem direito a questionamentos da imprensa teria seu assassinato.
Afinal, quantos pretos pobres são chacinados todos os dias pelas polícias no Rio e em todo o Brasil sob a desculpa de serem “bandidos”?
Não vou citar números de cadáveres produzidos pelas polícias - sobretudo as militares. Isso parece não importar mais aos brasileiros.
Afinal, os novos tempos exigem bala. “Tem que bater, tem que matar - engrossa a gritaria. Filha do medo, a raiva é mãe da covardia”. Os versos de Chico Buarque põem o dedo na ferida aberta, quase já necrosada, que desconstrói o Brasil: o racismo.
A classe média escravista frequenta igrejas, faz bazares e quermesses caridosos para ajudar a manter pobres, pobres com uniformes brancos de babás e azuis desbotados de porteiros.
A classe média brasileira só se compadece mesmo é com mortos bem vestidos que, vez por outra, são alvejados em assaltos praticados por bandidos.
E bandidos têm castas no Brasil também. Os de colarinho branco que expulsaram os “vermelhos” ganharam salvo-conduto para continuar roubando. Os milicianos que trucidam as pessoas que atravancam seu caminho são outros que têm ganhado muitos likes na terra das fake news.
A plebe preta e parda que se lixe. Sobretudo agora, que o grande herói lança um pacote “anticrime” cujo principal alicerce é a licença para matar "gente feia" pelos agentes da lei. O herói da classe média é jeca, cafona e inculto. Não sabe nem falar “cônjuge”. Diz e repete: conje. Isso eu não entendo. Pelejo, mas não entendo. Como a classe média brasileira tão metida a besta desceu tão baixo?
Eu vivo no Rio de Janeiro. Vim para cá, de vez, há um ano. Daqui não saio. Sinto um amor incondicional por esta cidade. Vim porque, além de lindo de morrer, o Rio para mim representa a síntese do Brasil do qual sinto orgulho. O Brasil plural, diverso, miscigenado. O Brasil do samba e das religiões sincretizadas. O Brasil que faz um Carnaval lindo e irreverente, que é admirado no mundo inteiro.
Agora, porém, o Rio tem um prefeito bispo que odeia carnaval. Um governador que prometeu matar como nunca antes. O Rio não tem mais terreiro de candomblé na Zona Sul. Todos foram destruídos pelos “cristãos” que querem só matar, só matar. Os terreiros que resistem têm seus seguidores perseguidos e ameaçados. E não vejo nenhuma resposta eficaz contra os ataques. Nem do governo nem do Ministério Público. Apesar de a Constituição garantir o direito livre de crença no Brasil.
Assim, nós, que amamos a liberdade, vamos nos movendo em espaços cada vez menores em busca de ar para respirar. Buscamos apoio e palavras amigas em becos, em ruelas cada vez mais apertadas.
Nós que acreditamos num país plural e generoso, no Brasil amoroso e delicado, agora pisamos em ovos para sobreviver.
Evaldo se foi. Levou 80 TIROS. Deixou uma companheira e um filhinho, vários amigos e admiradores.
Marielle foi executada há um ano, e ainda não sabemos o nome de seus algozes. Marielle, que poderia ter sido tudo, até presidenta da República.
Vamos nos calar até morrer chorando? Vamos deixar a família e os amigos de Evaldo gritando sozinhos?
Vamos assistir bestificados à aprovação do pacote do extermínio de Sérgio Moro?
Estamos entre a vida e a morte. É hora de escolher.
Criado em 2019-04-10 23:33:58
Zuleica Porto –
A tempestade que desabou sobre a capital do Brasil em seu 59º aniversário causou transtornos e danos materiais, disso sabem até as pedras portuguesas que resistem nas calçadas da W3 Sul. Mas aquele domingo que relembrava, entre ovos de chocolate, a ressurreição do Cristo, o sacrifício inútil do alferes Joaquim José da Silva Xavier e a fundação de Brasília, fez surgir, com o espetáculo da chuva, um sentimento que só agora começo a identificar.
Água em abundância, raios espetaculares, trovões de estremecer as vidraças, e ao final da tarde um arco-íris soberano. Parecia um ritual de limpeza da cidade, primorosamente encenado pelos elementos. A imaginação dos nossos ancestrais gerou mitos, deuses, lendas, cosmogonias para entender e explicar os fenômenos naturais. Então, posso ler assim aquela tempestade do dia 21 de abril:
Depois desse dia, pouco ou nada choveu na cidade. Chegou um céu azul, que gosto de chamar “o céu de Lúcio Costa”. Sob esse azul, chegaram os povos originários, unidos na APIB (Associação dos Povos Indígenas do Brasil) e nos deram de presente três dias de beleza com seus cantos, suas danças e caminhadas noturnas iluminadas por quatro mil celulares. Era o Acampamento Terra Livre, que há 15 anos acontece em Brasília, quando eles reivindicam a demarcação de seus territórios, assolados pela ganância de madeireiros, garimpeiros e das grandes mineradoras.
Mas este ano o Acampamento teve características peculiares: não se sabe que grandes ameaças apresentariam os nossos parentes com seus instrumentos musicais, pinturas corporais, cantos e discursos, mas o Estado chamou a Força Nacional para ocupar a Esplanada durante trinta e três dias.
No entanto, as lideranças indígenas conseguiram driblar o anunciado “confronto” e tudo aconteceu em paz. Não estavam ali para nenhuma guerra, somente queriam garantir o seu direito de existir. E chegaram também os profissionais da Fotografia. Céu, indígenas e a maestria dos fotógrafos; dessa união nasceram imagens memoráveis de mulheres, homens e crianças. Alguns pareciam a encarnação de Tupã, o deus criador de tudo, outras, com longas cabeleiras, lembravam Ci, a deusa das florestas, outra era a Iara, brincando risonha debaixo das cachoeiras artificiais e suspeitas do Palácio da Justiça. Sob a luz minguante de Jaci ou o brilho esplendoroso de Guaraci, tivemos três dias e noites de arte, resistência e alegria.
E depois que foram embora, nossos olhares, mentes e corações se voltaram para Curitiba. Ali acontecia a primeira entrevista do Presidente aprisionado.
Uma enxurrada de textos foram, e continuam sendo escritos, no Brasil e pelo mundo afora, sobre essa fala de duas horas. Não preciso dizer nada sobre ela. Sei que o homem, preso sem outro motivo a não ser o de impedir que voltasse a governar o Brasil, ensinou muito a quem tomou conhecimento da entrevista. Trouxe ânimo, alegria, orgulho.
Comoveu muita gente, deve ter surpreendido a outro tanto. Sem lamentos ou autopiedade, antes a indignação de quem clama por justiça. Como os indígenas, como o povo negro que não admite calado a violência e o preconceito, como os camponeses do MST que precisam de terra para viver e plantar.
Vieram os elementos enfurecidos, vieram os indígenas com a coragem de quem sabe que se não resistir deixa de existir, falou o homem que nos fez ter muito orgulho de ter nascido no Brasil.
Maio vem chegando. O dia primeiro é dedicado ao Trabalhador. Dia de luta pelos direitos de quem produz a riqueza de que poucos desfrutam. Aqui é mês de ventos que trazem o frio. Quem sabe sejam também ventos de mudança.
Aguardo com muita esperança os ventos de Maio.
Criado em 2019-04-30 13:06:14
Gaviãozinho (Gampsonyx swainsonii) - Mede entre 20 e 28 centímetros de comprimento e pesa entre 94 e 102 gramas. É considerado o menor gavião com ocorrência no Brasil. A cor da garganta, pescoço, peito e ventre é branca. As partes superiores são de forma geral cinza escuro, a porção superior da cabeça, dorso, asas e cauda são de coloração cinza chumbo. Pousa no alto de postes e árvores, de onde procura insetos, lagartos, pássaros e outros pequenos vertebrados. Constrói o ninho com gravetos, igual a uma plataforma, localizado entre 4 e 7 m de altura. É visto em beiras de rios e lagos, campos com árvores esparsas, no cerrado e em cidades arborizadas. Ocorre em todo o Brasil, desde a Amazônia até os estados de Minas Gerais e São Paulo. É encontrado, também, na Nicarágua, Paraguai e Argentina. Fonte: Wikiaves e outros. Registro feito em 10.02.2016, no Parque da Cidade, em Brasília (DF).

Criado em 2016-11-24 00:25:32
Maria Lúcia Verdi –
"De que forma a catástrofe / traz perturbações ao velho método / de aplicar uma distância ao mundo?" (Gonçalo M. Tavares)
Porto – Quando a terra voltar a brilhar verde para ti, verso de Hölderlin, dá título à mostra Extensão do Romantismo, atualmente no Museu Romântico da Quinta da Maceirinha, no Porto. Foi nessa residência que se exilou Carlos Alberto, rei do Piemonte e da Sardenha, nela vindo a falecer em 1849. O Museu foi despido de seu mobiliário de casa burguesa oitocentista para abrigar a exposição. Diz o libreto da Mostra: “(…) num mundo ameaçado de extinção pela ação do homem, como é possível não pensar o museu enquanto lugar em urgência de metamorfose?” A Mostra é ocasião para revisitar temas trazidos pelos românticos, hoje atualizados de modo agônico.
Das janelas do Museu vejo o telhado da casa, o rio Douro, a ponte Arrábida e a luz do dia, luz que é tema central da ciência e da pintura. A luz também é o tema de A rosa dos temperamentos, de Goethe, elaborada juntamente com Schiller, poeta romântico alemão também fundamental. Entre os temperamentos - melancólico, colérico, sanguíneo e fleumático - o melancólico, como se sabe, impera entre os românticos dos séculos XVIII e XIX. Luz à qual se dirige Goethe no fim da vida, em 1832: “Luz, mais luz!”
A luz é objeto das pesquisas, pinturas e desenhos de duas extraordinárias mulheres revisitadas pela Mostra. A sueca Hilma af Klint (1862-1944), autora da primeira imagem abstrata, em 1906, recém descoberta pela crítica (mostra em Estocolmo, 2013) e já exposta na Pinacoteca de São Paulo (2018). Af Klint, como Júlio Dinis, é uma estudiosa das plantas, além de temas transcendentes; e a suíça Emma Kunz (1892-1963), pesquisadora, desenhista e “curadora” respeitada atualmente pelo mundo da ciência e da arte, que descobriu os poderes curativos do elemento que intitulou AION A, numa rocha existente em Wurenlos. Como af Klint, seus desenhos geométricos buscam estruturar ideias filosóficas e espirituais. Mulheres que buscaram penetrar, por todos os meios, no mundo dos mistérios da ciência da natureza, mote romântico por excelência. José Almeida Pereira, um dos artistas portugueses da mostra em questão, dialoga com as duas em duas de suas obras.

Obra de Hilma af Klint

Obra de Emma Kunz
O verso de Hölderlin Quando a terra voltar a brilhar verde para ti é também usado pelos cineastas Jean-Marie Staub e Danièle Huillet para intitular o filme que realizaram sobre a morte de Empédocles, a partir do texto da peça incompleta do poeta alemão. Filme que transcreve os diálogos do autor na interpretação de protagonistas quase sempre estáticos, tendo por cenário um campo siciliano onde apenas as ramas das árvores se movem. O Quinto hino à noite, poema de Hölderlin do qual se retirou o verso mencionado está no livreto da mostra, em tradução do poeta Jorge de Sena. Da ideia de um mundo mitológico, onde deuses brincavam com os homens, "uma pesada e tenebrosa venda lhes cobria as conturbadas almas" até a chegada de Cristo, com mensagem esperançosa da vida após a morte.
Na mostra está exposto o livro original do herbário de Júlio Dinis (na foto,abaixo), quando se comemoram os 150 anos da morte desse romântico, e a partir dos espécimes nele expostos algumas paredes do museu são ilustradas. Toda a mostra está centrada no conceito de releitura, de citação, de intertextualidade. O tema da vida e da morte e da hipotética transcendência, romântico e eterno, é trazido por meio de desenhos, pinturas e esculturas que revisitam A rosa dos temperamentos, de Goethe e Schiller; A árvore do conhecimento N.1, Série W, de Hilma af Klint; a obra de De Chirico; O mar de gelo, de Caspar David Friedrich e A morte de Empédocles, de Salvator Rosa.

Ao percorrer os espaços encontramos obras dos artistas portugueses Rui Chafes, Ilda David, Teixeira de Pascoaes, Manuel Rosa, José Almeida Pereira e Lourdes Castro que dialogam com nomes clássicos do romantismo, enquanto escutamos a intensa peça para órgão de tubos e sino, composta especialmente para a ocasião por Jonathan Uliel Saldanha e Pedro Monteiro.
O ambiente que mais me tocou é composto por quatro elementos: em duas pinturas, colocadas em paredes opostas, José Almeida Pereira afasta (e aproxima) o gelo do romântico alemão Caspar Friedrich e o fogo do barroco Salvator Rosa. Entre as duas grandes pinturas está um belo piano aberto e, à boa distância, pende do teto escultura de Rui Chafes intitulada O silêncio de Giorgio De Chirico, que sintetiza numa forma negra elementos básicos dos cenários do pintor italiano. Entre o mar de gelo e o fogo do vulcão que recebe Empédocles preenchem o espaço a música abstrata e repetitiva de Saldanha e Monteiro, bem como o silêncio evocado pela composição desse cenário.

O que faz Empédocles decidir por dar fim à vida após dela ter tomado plena consciência, é a hybris – o orgulho, a arrogância, a falta de medidas. Não se pode querer ser um deus, controlar o incontrolável, modificar o impossível: a efemeridade da matéria. Neste século XXI, onde as questões românticas relacionadas à revisitação da natureza, ao conceito da liberdade e da revolução são reatualizados, felizmente o temperamento colérico e sanguíneo estudados por Goethe e Schiller estão não apenas nos neofascistas mas também nos neorromânticos, que insistem em lutar pela resistência frente ao império do neoliberalismo, do consumismo e do individualismo.
Colocado como texto final do libreto da Mostra, lemos Os sete selos (ou A canção do sim e amén), de Nietzsche, na qual se repete o verso Porque eu amo-te, ó Eternidade! Essa eternidade que se coloca como pergunta, como angústia, como mote romântico e pós-romântico está aí, está aqui e agora, sempre como fantasma e concretude.
Aguardem, em breve a parte III dessa viagem.
Criado em 2021-09-23 17:00:55
Angélica Torres -
Quem recentemente viu o filme soviético Tratoristas (Ivan Pyriev, 1939), pode ter associado à guerra na Ucrânia o trecho de uma canção entoada em duas cenas, por operários de uma aldeia: “Da terra estrangeira nada queremos/ mas da nossa nem um palmo daremos. / Enfrentaremos todos os que querem/ o nosso território tomar /se o inimigo forte vier nos atacar”. Pouco visto e falado entre nós, o vário e sofisticado cinema da Rússia é uma surpresa e tanto, sobretudo com o país de volta ao centro da atenção e da passional polêmica mundial.
Sendo ou não produtos de propaganda ideológica, filmes sempre proporcionam uma leitura dos tempos, como uma fonte onde se bebe e se viaja com as próprias asas. Então, é aproveitar como lazer e como aprendizado um dos muitos clássicos do cinema soviético e russo, que de sexta-feira a domingo é servido gratuitamente em casa pelo CPC-Umes em seu canal do Youtube.
O grande barato: poder saborear esse doce proibido, da Catedral da Praça Vermelha a todo o território da Federação, nas histórias encenadas que deixam entrever daquela mesclada, rica e interdita cultura um pouco mais do que já nos legaram os luminares de sua literatura, poesia, arte visual, dança, música e também de sua revolucionária política do século passado, em contínuo processo de transformação histórica.
E há mais dicas valiosas, como a presença de João Lanari Bo, escritor, cineasta, professor de cinema na UnB e diplomata, em três podcasts após os longas apresentados. Autor do livro Cinema para os russos, cinema para os soviéticos, mestre no assunto, Lanari analisa diversos filmes, conta várias histórias e vai familiarizando o público a nomes de cineastas nunca dantes conhecidos (leia texto coordenado, mais abaixo).
O cinema de ingresso ao mundo ainda proibido
Nos podcasts está também Igor Oliveira, um dos cinco curadores, porta-voz do CPC-Umes e responsável pela área comercial do catálogo de filmes, além da jornalista especializada na área Maria do Rosário Caetano, como mediadora. Mais: ao final das exibições, há a oferta do programa de rádio A Música do Cinema, na suave, atemporal narração do curador Bento da Silveira, apresentando melodias de trilhas de filmes feitas por estes três grandes compositores russos, Eugen Doga, Serguei Prokofiev e Isaac Dunayevski.
O CPC-UMES (Centro Popular de Cultura da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de São Paulo) existe desde 1984, no Bexiga, onde mantém variada programação cultural. O relacionamento com a maior produtora russa de cinema, o Mosfilme, começou em 2012 e culminou nas mostras e na comercialização dos filmes em dvd, blu-ray, streaming e cinema.
De 2014 até hoje foram exibidos mais de 80 filmes anualmente, destes, 54 títulos foram lançados para venda. “O processo é assim: num ano, escolhemos os filmes para a mostra e no ano seguinte, lançamos alguns em mídia física”, explica Igor, ex-diretor do setor de filmes e de música da Livraria Cultura. Já o projeto Cinema Soviético e Russo em Casa surgiu em decorrência da pandemia que, mesmo mais controlada, o Umes decidiu mantê-lo como programação gratuita.
“A 7ª mostra, iniciada no ano passado, foi feita integralmente no nosso canal do Youtube”. A seleção se dá com base nos gêneros, nas décadas e nos diretores, a fim de mostrar o quanto é diverso o cinema da URSS e da Rússia, conta o curador. E a prioridade é para os filmes magnificamente restaurados pelo Mosfilm. Todos os de Tarkovski foram restaurados recentemente e já exibidos. “Mas eventualmente, reprisamos”, avisa Igor Oliveira.
O RETORNO DE VASSILY BORTNIKOV (1953) – filme deste fim de semana no Youtube/CPC-Umes,
tem direção de Vsevolod Pudovkin; 102’. Fica disponível ao público de 19h desta sexta-feira a 19h de domingo.
Cinema para russos, para soviéticos e para brasileiros
O livro de João Lanari Bo (na foto, abaixo), Cinema para russos, cinema para soviéticos, é um auxílio luxuosíssimo nesses aguardados “weekends” pelos clássicos oferecidos pela Umes – e vice-versa. Sorvido em doses homeopáticas, vai apurando o olhar e a percepção do leitor-espectador sobre o cinema e sobre a História eletrizante desse país e seu povo, como o autor ressalta na abertura da apresentação.

“Ninguém duvida de que o evento singular mais marcante do século XX tenha sido a revolução bolchevique de 1917. Uma aceleração histórica sem precedentes, diretamente involuncrada com a I Guerra Mundial, inevitavelmente amarrada à II Guerra, que desembocou na Guerra Fria. E sempre sujeita a sobressaltos e injúrias, euforias e esperanças, luto e melancolia”.
Ao longo do livro, os relatos e comentários, as análises e observações de João Lanari ressaltam a trama entre cinema, política, propaganda e ideologia nas produções pesquisadas por ele, dos anos 1920 ao emblemático ano de 1968. Lanari se debruça de Eisenstein a Dziga Vertov, de Tarkósvski a Pudoróv e de permeio revela diretores “que foram eclipsados pela mitologia do cinema revolucionário soviético, como se nada de relevante houvesse antes, durante e depois”, alfineta.
Motivações – Nos tempos soviéticos, havia 150 mil salas de cinema espalhadas pelas repúblicas e 138 mil clubes de exibições, de filmes de dramas, aventuras, guerras e também de musicais e comédias. Mas também na Guerra Fria, nos tempos de Khruschov, de Gorbatchov e mesmo no de Brejnev havia muito cinema na Rússia, conta o autor. Uma de suas motivações para escrever o livro foi justamente “a escassez de informações sobre o cinema soviético não canônico, fora do escopo da meia dúzia mais conhecida e admirada”, mas foi também por gostar da cultura e do cinema russos, “como muita gente gosta, por afinidade de décadas”.
Resultado de anos de pesquisas, com texto elegantemente trabalhado, Cinema para russos, cinema para soviéticos ganhou primorosa edição da editora Bazar do Tempo, ilustrada com 60 imagens cedidas pelo Mosfilm e propiciadas pela feliz sincronicidade do início de ambos os projetos, o das pesquisas e escrita do livro com o das mostras de filmes curadas pelo CPC-Umes. De quebra para cinéfilos e amantes de pôsteres, a sobrecapa do livro traz o cartaz original de Um Homem com uma Câmera (de Dziga Vertov, 1929), cuja arte gráfica é um dos marcos da vanguarda bolchevique.
E a geopolítica? – Os quatro capítulos que constituem o livro – “Da era tsarista à virada socialista”; “Stálin no poder: o regime de controle”; “Cinema em vias de guerra”; e “Rumo ao moderno cinema soviético” – são por si um convite a se deduzir a percepção do autor sobre o momento atual do país. Mas, por zap, ele adianta uma síntese de sua visão.
“A atual guerra na Ucrânia é um desastre, desestabilizou a relação com o Ocidente e gerou uma imprevisibilidade que pode custar caro aos russos. É império contra império, com a Rússia com arsenal nuclear mas economicamente frágil, dependente de exportações de óleo & gás”. João Lanari conta que estava preparando um segundo volume sobre o cinema russo. Diz que leu uma batelada de livros e que checou outra batelada de filmes. “Mas agora suspendi, até ver o que vai rolar”.
Tal como o cinema americano, que é uma ferramenta eficaz a serviço da cultura e da dominação do império dos EUA, o escritor e professor afirma que o da Rússia funciona como excelente plataforma para conhecimento de sua cultura. É esse, na verdade, o principal motivo da grande curiosidade que a mostra do CPC-Umes desperta no espectador conectado com os acontecimentos atuais.
Vladimir Maiakóvski e Lilia Brik em Acorrentada pelo filme, 1918
Considerando a frio, oniricamente
Em fins dos anos 1980, quando o neoliberalismo entrava pelas portas da presidência da República, chegava também ao Brasil uma palavra ainda bem pouco familiar ao público – a Holística, ou Holismo, cujo conceito originou-se na Grécia antiga (Holos=Todo). O termo em si foi criado em 1927 por um sul-africano, fazendo frente ao cartesianismo: Jan Christiaan Smuts já entendia, então, ser preciso partir do todo para entender as partes, progressiva e integralmente, o oposto ao paradigma proposto por Descartes (para conhecer o todo é necessário dividi-lo em várias partes e estudar cada uma delas individualmente).
Quase cem anos depois, a holística parece estar se tornando real, aplicada ao contexto geoeconômico e político, porque, enquanto os neoliberais atlantistas brigam tenazmente para manter os seus impérios e expandir sua dominação às fronteiras da Rússia, um novo e promissor horizonte se delineia em meio ao caos provocado por eles com a guerra na Ucrânia – perigosa, sim, de levar a outra possível guerra mundial.
Que novo e fictício horizonte é esse?! – reagem os céticos escaldados. Pois não seria aquele anunciado e já posto em prática por Vladimir Putin, que consiste na abertura da era multilateral nas relações econômicas internacionais, inicialmente com os BRICS mas logo expandidas a mais países já interessados, como também aspira Xi Jinping? “Ou você é soberano ou é uma colônia”, admissivelmente adverte o líder russo no enfrentamento à ditadura do mundo dolarizado.
Com a tendência ao fim da submissão ao dólar, a visão projetada pelo sul-africano Smuts parece mais próxima, no caso, da perspectiva de se ter o planeta como um todo e não mais dividido em dois (por força do império unipolar dos EUA) e “em convergência com perspectivas de tradições sapienciais milenares”, como ressaltou Roberto Crema nos primeiros estudos do Holismo, nos anos 1980, ligados à Cidade da Paz, em Brasília.
Poder se ter passe livre em amplo sentido na misteriosa Eurásia parece tão instigante quanto imaginar um novo e mais justo mundo para o futuro, com possibilidades horizontais para os mercados e povos. Também é estimulante vislumbrar que o reflexo desse novo sistema possa vir a favorecer o desenvolvimento equânime dos dois lobos cerebrais (que contêm, um, os elementos das exatas e o outro, o das humanas) e esse sapiens, integral, vir a se tornar menos contraditório e mais harmônico consigo próprio e com os outros.
E o cinema com isso? – É esperançoso o sonho de que a holística nos chegue pelos novos ventos soprados desde o Leste Europeu e em vasto âmbito. Mas enquanto ele não se concretiza de fato (e vai demorar para os do Sul Global, sobretudo para o Brasil, fértil quintal, presa antológica do Império), pelo menos o cinema da Rússia está aí para nos dar a conhecer um pouco mais desse continental país, portal entre Ocidente e Oriente. Vale apreciar a bela chance dada ao público pela turma do CPC-Umes.
Criado em 2022-07-15 21:15:44
Romário Schettino -
Em decisão proferida no final da tarde de ontem (21/8) a Juíza Federal Pollyanna Kelly Maciel Martins Alves, da 12ª. Vara Federal de Brasília, rejeitou o pedido do procurador da República Frederico Paiva para que fosse reiniciada uma ação penal contra o ex-presidente Lula no caso do “sítio de Atibaia”.
O processo originário, instaurado em Curitiba, foi anteriormente anulado pelo Supremo Tribunal Federal ao reconhecer a incompetência da 13ª. Vara Federal de Curitiba e a suspeição do ex-juiz Sergio Moro, tal como requerido pela defesa de Lula.
Em nota distribuída hoje (22/8), os advogados do ex-presidente Lula, Cristiano Zanin Martins e Valeska Teixeira Martins, informaram que apresentaram cinco “manifestações” desde que os autos chegaram à Justiça Federal de Brasília, mostrando que o caso não reunia condições mínimas para que fosse reaberta a ação penal.
Na decisão, a Juíza Federal Pollyanna Kelly Maciel Martins Alves reconhece que “a justa causa não foi demonstrada na ratificação acusatória porque não foram apontadas as provas que subsistiram à anulação procedida pelo Supremo Tribunal Federal”.
A juíza afirma que “tal mister, o de especificar os elementos de provas consubstanciadores de indícios de autoria e materialidade delitivas, é ônus e prerrogativa do órgão da acusação, sendo vedado ao magistrado perquiri-las, sob pena de se substituir ao órgão acusador, o que violaria o sistema acusatório vigente no ordenamento jurídico, corolário da ampla defesa, do contraditório e do devido processo legal”.
Essa decisão encerra mais um caso que foi utilizado pela “lava jato” para perseguir o ex-presidente Lula e que chegou a receber uma sentença condenatória proferida por “aproveitamento” de uma decisão anterior lançada pelo ex-juiz Sergio Moro (sentença do “copia e cola”). “Desde 2016 mostramos que Lula foi vítima de lawfare e a decisão ora proferida reforça essa situação”, dizem os advogados.
“A sentença que rejeitou a reabertura da ação do “sítio de Atibaia” contra Lula soma-se a outras 16 decisões judiciais nas quais Lula foi plenamente absolvido ou teve processos arquivados, diante da inconsistência das denúncias. Todas estas decisões são igualmente relevantes para afirmar o primado da Justiça e confirmar a inocência do ex-presidente, embora nada possa reparar os 580 dias de prisão ilegal, as violências e o sofrimento infligidos a Lula e sua família ao longo destes cinco anos”, conclui a defesa de Lula.
A seguir, a nota dos advogados de Lula lista as “falsas acusações” derrubadas na Justiça:
São 17 os casos que já foram julgados e concluídos:
1. Caso Tríplex do Guarujá – A defesa provou que Lula nunca foi dono, nunca recebeu nem foi beneficiado pelo apartamento no Guarujá, que pertencia à OAS e foi dado em garantia por um empréstimo na Caixa. Caso anulado pelo STF em duas decisões, restabelecendo a inocência de Lula.
2. Caso Sítio de Atibaia – A defesa provou que Lula nunca recebeu dinheiro da Odebrecht para pagar reformas no sítio, que também nunca foi dele. A transferência de R$ 700 mil da Odebrecht, alegada na denúncia, foi na realidade feita para um diretor da empresa, não para obras no sítio. Caso anulado pelo STF, restabelecendo a inocência de Lula;
3.Tentativa de reabrir o Caso Sítio de Atibaia – A defesa provou que não há condições técnicas para reabrir a ação penal contra Lula pelo recebimento de reformas no sítio, que jamais pertenceu a Lula. A juíza da 12ª. Vara Federal de Brasília acolheu os argumentos da defesa de Lula e rejeitou o pedido do procurador da República Frederico Paiva de abrir uma nova ação penal em relação ao caso perante a Justiça Federal de Brasília, para onde o caso foi remetido após decisão do STF que anulou o processo originário que tramitou na 13ª. Vara Federal de Curitiba;
4. Caso do Terreno do Instituto Lula – A defesa provou que o Instituto nunca recebeu doação de terreno, ao contrário do que diz a denúncia da Lava Jato, e sempre funcionou em sede própria. Caso anulado pelo STF.
5. Caso das Doações para o Instituto Lula – A defesa provou que as doações de pessoas físicas de mais de 40 empresas brasileiras e de outros países para o Instituto, entre 2011 e 2015, foram todas legais, declaradas à Receita Federal, e jamais constituíram qualquer tipo de propina ou caixa 2. Caso anulado pelo STF.
6. Caso do Quadrilhão do PT – Esta é mais grave e a mais irresponsável de todas as acusações falsas feitas contra Lula; a de que ele seria o chefe de uma organização criminosa constituída para drenar recursos da Petrobras e de outras empresas públicas. A 12ª. Vara da Justiça Federal de Brasília arquivou a denúncia por verificar que o MPF fez a gravíssima acusação sem ter apontado nenhum crime, nenhum ato ilegal ou de corrupção que tivesse sido praticado por Lula, seus ex-ministros ou por dirigentes do PT acusados junto com ele. O juiz afirmou que a denúncia simplesmente tentava criminalizar a atividade política. Caso encerrado, Lula absolvido.
7. Caso Quadrilhão do PT II – Uma segunda denúncia no mesmo sentido da anterior foi simplesmente rejeitada pela 12ª. Vara da Justiça Federal de Brasília. Caso encerrado e arquivado, Lula inocentado.
8. Caso Delcídio (obstrução de Justiça) – A defesa provou que era falsa a delação do ex-senador Delcídio do Amaral. A denúncia era tão frágil que sequer houve recurso da acusação contra a decisão da 10ª. Vara da Justiça Federal de Brasília que absolveu Lula. Caso encerrado, Lula absolvido.
9. Caso das Palestras do Lula – Inquérito aberto em na Vara Federal de Sergio Moro em dezembro de 2015, com objetivo de acusar Lula de ter simulado a realização de palestras, em outra farsa da Lava Jato. A defesa provou por meio de vídeos, gravações, fotografias e notícias a realização de todas as 72 palestras de Lula organizadas pela empresa LILS, entre 2011 e 2015. A Polícia Federal e o Ministério Público (Força Tarefa) tiveram de reconhecer que as palestram foram realizadas sem qualquer ilicitude ou simulação. A legalidade das palestras teve de ser reconhecida em decisão da juíza substituta de Moro, Gabriela Hardt. Caso encerrado, reconhecendo a inocência de Lula.
10. Caso da Lei de Segurança Nacional – Já na condição de ministro da Justiça, Sergio Moro requisitou à Polícia Federal a abertura de inquérito contra Lula, com base na Lei de Segurança Nacional do tempo da ditadura. Lula foi intimado e prestou depoimento à PF. O inquérito foi sumariamente arquivado pela 15ª. Vara Federal Criminal de Brasília. Caso arquivado, Lula inocentado.
11. Caso do filho de Lula (Towchdown) – A defesa demonstrou que eram falsas as acusações do Ministério Público contra Luiz Cláudio Lula da Silva, pela atuação de sua empresa de eventos esportivos Touchdown. A denúncia foi rejeitada pela 6ª. Vara Federal Criminal de São Paulo. Caso encerrado, Lula inocentado.
12. Caso do irmão de Lula – A defesa demonstrou que não havia ilegalidade, fraude ou favorecimento nos serviços que Frei Chico, um dos irmãos de Lula, prestou à Odebrecht em negociações sindicais desde antes do presidente ser eleito. A 7ª. Vara Federal Criminal de São Paulo rejeitou a denúncia falsa. Caso encerrado, Lula inocentado.
13. Caso do Sobrinho de Lula – A defesa provou que não houve irregularidade, ilegalidade nem favorecimento na subcontratação de uma empresa de um sobrinho do ex-presidente para uma obra da Odebrecht em Angola e que Lula não recebeu qualquer valor decorrente dessa relação contratual. O Tribunal Regional Federal da Primeira Região trancou o caso porque a denúncia era inepta (sem condições mínimas para ser processada). Caso encerrado e arquivado, Lula inocentado.
14. Caso Invasão do Tríplex – A 6ª. Vara Federal Criminal de Santos rejeitou a denúncia do Ministério Público referente ao protesto que integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto fizeram contra a condenação injusta de Lula no tríplex do Guarujá, em abril de 2018. Caso encerrado, Lula inocentado.
15. Caso Carta Capital – Procedimento de Investigação encaminhado à Justiça Federal de São Paulo. Em mais uma farsa, a Lava Jato tentou caracterizar como ilegais contratos de patrocínio da Odebrecht com a revista Carta Capital. A própria Polícia Federal pediu o arquivamento. Caso encerrado, Lula inocentado.
16. Caso da MP 471 – Lula foi abusado de ter recebido contrapartida em virtude da edição da MP 471, que prorrogou incentivos à indústria automobilística. Depois de longa tramitação, o próprio MPF pediu a absolvição de Lula. O Juízo da 10ª. Vara Federal de Brasília absolveu Lula destacando que não havia justa causa para manter a ação. Caso encerrado, Lula inocentado.
17. Caso da Guiné – Lula foi abusado da prática dos crimes de tráfico internacional de influência e de lavagem de dinheiro em virtude de o Instituto Lula ter recebido uma doação oficial de uma empresa brasileira que atua há muito tempo na Guiné Equatorial. Depois de longa tramitação, o Tribunal Regional Federal da 3ª. Região (TRF3) trancou a ação penal em habeas corpus impetrado pela defesa de Lula, reconhecendo que não havia elementos mínimos a justificar sua tramitação.
Criado em 2021-08-23 01:15:41
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Estava lendo o recente artigo do freelance do Observer de Londres, Chris Hall, alusivo ao aniversário de Brasília, com ênfase nos monumentos de Oscar Niemeyer. Matéria simpática, turística, não deixa escapar nem a Pizzaria Dom Bosco da 107 Sul. Daí pensei com o meu zíper - Ih!, lá vem a prosopopeia dos 60 anos, três meses antes da comemoração.
A discurseira oficial, como sempre, incluirá todos os clichês mítico-fundantes de Brasília: “Capital da Esperança”, “sede da nova civilização do Terceiro Milênio”, “Roma dos Trópicos” e por aí vai. Desses mitos, o mais divertido, na minha opinião, é o sonho de Dom Bosco, sacado do fundo da algibeira por alguns políticos goianos para justificar a construção de Brasília no Quadradinho de Goiás e abortar o plano dos mineiros de edificá-la em Minas Gerais, na região de Tupaciguara, às margens do rio Paranaíba.
Quem me contou essa história pela primeira vez, há mais de 20 anos, foi o jornalista e historiador Jarbas Silva Marques, do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, que me deu cópia de seu artigo com o resumo da manobra.
Quadrilátero - Após recapitular as origens do movimento de mudança da Capital do Rio para o Planalto Central, desde meados do século 18, Jarbinhas chega até a eleição de Getúlio Vargas, em 1950, e à nomeação do general Caiado de Castro para a presidência da Comissão de Localização da Nova Capital Federal. Com o suicídio de Vargas, toma posse Café Filho, da UDN, partido contrário a JK e à transferência da capital, que se recusa a baixar o decreto para cumprir o dispositivo constitucional. Preocupado, o marechal José Pessoa viaja a Goiânia no final de abril de 1955 para conversar com o governador José Ludovico de Almeida sobre o impasse. A conselho do marechal, Ludovico toma a iniciativa de aprovar um decreto-lei para criar as condições objetivas para a mudança, incluindo a desapropriação dos terrenos no chamado Quadrilátero Cruls.
Baseado em longa pesquisa do historiador Lourenço Tamanini, Jarbinhas relata que os goianos continuaram apreensivos, mesmo depois de o presidente Juscelino Kubitschek ter assinado a “mensagem de Anápolis”, em abril de 1956, anunciando a criação da Novacap, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil. E mesmo depois de JK ter encaminhado o projeto de lei que definia o planalto de Goiás como local da nova Capital. Os políticos goianos temiam que o influente deputado mineiro Israel Pinheiro pudesse, numa treta de última hora, aprovar emenda ao projeto mandando construir Brasília em território de Minas Gerais.
Contrabando - Para evitar essa possibilidade, os goianos montaram “uma pequena operação de guerra”, segundo o relato de Tamanini, reconstituído por Jarbinhas. O governador José Ludovico havia mandado preparar um livrinho, intitulado A Nova Capital do Brasil – Estudos e Conclusões, com pronunciamentos de personalidades brasileiras simpáticas à localização da nova capital no planalto goiano. Sabendo que Israel Pinheiro era um tremendo papa-hóstia e devoto de Dom Bosco, o organizador do livreto, Segismundo de Araújo Mello, fez um contrabando místico-ideológico: acrescentou à coletânea, como peça de abertura, o sonho-visão de Dom Bosco.
Nas palavras do próprio Dom Bosco, transcritas no volume 16 de suas memórias biográficas, no sonho ele fazia uma viagem de trem ao longo da cordilheira dos Andes, desde a Venezuela até a Patagônia, passando pela fronteira da Bolívia com o Mato Grosso. Aí mesmo ele notou que, “entre o grau (paralelo) 15 e o 20 havia um leito muito largo e longo que partia de um ponto onde se formava um lago. E então uma voz disse repetidamente: ‘Quando vierem cavar as minas escondidas entre esses montes, aparecerá aqui a terra prometida fluindo leite e mel. Será uma riqueza inconcebível’”.
Para não deixar margem a dúvidas, Segismundo acrescentou ainda ao livrinho, à maneira do carpinteiro do cavalo de Troia, uma foto de Dom Bosco com a seguinte legenda: “São João Bosco, que profetizou uma civilização no interior do Brasil, à altura do paralelo 15º, onde se localizará a nova Capital Federal". Como a faixa compreendida entre os paralelos 15º e 20º é larga demais, Segismundo forçou a barra para dar a entender que a profecia de Dom Bosco apontava com muita precisão a localização da futura Capital, isto é, no Quadradinho, rente ao paralelo 15º, e não mais embaixo do mapa, onde fica Tupaciguara, em Minas.
Rendição - Para concluir a operação de guerra, o ex-(primeiro)prefeito de Goiânia, o anapolino Venerando de Freitas Borges, se encarregou de fazer chegar a brochura adrede preparada às mãos de Israel Pinheiro, durante a visita que Juscelino Kubitschek fez a Uberaba, Minas, no final de maio de 1956. Antes da vinda de JK, o governador de Goiás havia comprado todo o espaço do Lavoura e Comércio, o único jornal da cidade, e todo o tempo de sua única emissora de rádio. Segundo Tamanini, depois que a brochura foi entregue a Israel Pinheiro, devoto do santo, estava selada “a rendição do último baluarte de resistência” dos mineiros.
Esse fato foi consolidado quando Israel Pinheiro, já na condição de primeiro prefeito de Brasília, determinou que a primeira peça de ferro e o primeiro saco de cimento fossem usados na construção da Ermida Dom Bosco, desenhada por Oscar Niemeyer para ser erguida sobre o paralelo 15.
Um detalhe interessante é que o mesmíssimo trecho do sonho-visão de Dom Bosco já havia sido usado por Monteiro Lobato, em 1935, na sua campanha de “O Petróleo é Nosso”! Em artigo publicado no Diário de São Paulo, em que transcreveu o sonho, Lobato tascou que “até os santos afirmam que há petróleo no Brasil”.
Para os brasilienses, o lago referido por Dom Bosco viria a ser o Lago Paranoá. Para Lobato, seria o pantanal do Mato Grosso na época da cheia. Mitos e sonhos, como se vê, estão sempre abertos à interpretação, conforme o gosto do freguês ou de quem está fazendo análise.
Jarbas Silva Marques diz que a ditadura de 64 utilizou a monumental cascata de Dom Bosco “para fazer esquecer a decisão política e administrativa do presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira de construir Brasília, cantilena que até hoje persiste nas bocas de pseudo-historiadores e governantes, parlamentares e os mais variados seguimentos culturais, repetindo que a capital da República e a luta do povo brasileiro para a interiorização da capital federal deve-se ao sonho do educador italiano”.
Criado em 2020-02-06 13:12:46
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) -
Qual é a minha opinião sobre o Natal? Assim, na lataN? Acho o mó barato!
O Natal é uma traição epicurista dos e para os cristãos. Uma festa para o corpo, não para o espírito pretensamente separado da carne, como imaginou São Paulo.
A rabanada e o vinho abundante são, definitivamente, incompatíveis com a primitiva proposta da Eucaristia.
Saulo de Tarso, educado no Epicurismo, repudiou essa filosofia das sensações, bicentenária já em sua época, para fundar a religião do puro espírito, avessa à atualidade e alegria da matéria corruptível, formada por átomos que se desviam quando caem. Já batizado como Paulo, o apóstolo lamentou que os gregos tomassem como loucura a sua ideia da Ressurreição.
Dois mil anos depois, a despeito dos esforços de Agostinho, Tomás, Inácio de Loyola, Domingos de Gusmão e a Santa Inquisição, a história do Cristianismo é a narrativa de um retumbante fracasso. Tirante pouquíssimos fanáticos (aqueles que usam um chicotinho (cilício) para se mortificar), cristãos e cristãs se entregam hoje freneticamente aos prazeres da carne, no Natal, na passagem do ano, no Carnaval, nas micaretas, na Páscoa, no Dia das Mães, no São João, no Dia dos Pais, enfim, em todas as festas definidas no calendário da Associação Comercial.
O Cristianismo tornou-se a divertida e diversionista religião oficial da Sociedade da Mercadoria, conforme profetizou São Max Weber, depois do Karl Marx provar que o valor de troca (inclusive a troca de presentes) é o verdadeiro espírito e esqueleto do Capitalismo.
Houve época em que, ainda mais cristão que epicurista, me sentia culpado por comemorar o Natal. Com os dentes fincados num pernil à pururuca, regado com Sidra Cereser, me lembrava dos famélicos da terra, excluídos do banquete. Mais tarde me dei conta de que os pobres estavam e continuam excluídos de todas as festas do calendário da Associação Comercial, não só do Natal.
Para suportar (fruindo!) essas festanças, será que eu teria de cultivar um ou dois acres de culpa e outros tantos de hipocrisia (trajada de solidariedade)? De jeito nenhum! Na altura desse campeonato, eu já havia aderido à filosofia da alegria, que, muito antes do Cristianismo, valorizava a vida em abundância. Em vez de atacar o Natal e o Halloween, rituais pagãos no seio da Igreja, adubados pelos comerciantes, percebi que a solução seria o levante dos pobres para a Revolução Socialista, mas sem abrir mão (e os dentes) da leitoa à pururuca.
Desde então me entreguei sofregamente ao espírito do Natal com os filhos, os netos, a neta e as oito renas do Papai Noel: Corredora, Dançarina, Empinadora, Raposa, Cometa, Cupido, Trovão e Relâmpago. Ah, tem ainda o Rodolfo, que não deve ser confundido com o Randolfe, o nosso melhor senador de 2022.
Na manhã do dia 22 de dezembro, enquanto me preparo para a posse do Lula, escrevo essas notas pra lá de irresponsáveis à guisa de votos de boas festas para os amigos, amigas, colegas, parentes e camaradas. Tchin! Tchin!
Como ainda estou cabreiro, peço a gentileza de não me convidarem para o amigoculto. Vai que aparece ali um cristão bolsonarista infiltrado!
Criado em 2022-12-22 18:17:28
Luiz Martins da Silva –
Isto foi numa época em que os horrores tinham lá o seu encantamento, muito embora não como esses de hoje, tempo em que todas as patologias e bestialidades andam à solta, da esquina da rua onde moramos às colunatas dos palácios e condomínios dos poderosos.
Àquele tempo, havia, sim, toda sorte de crimes, mas não nessa avalanche descomunal do presente. Existiam as bestas humanas, mas não com esses requintes de crueldade de agora. Eram muito raros os casos de raptarem crianças e levá-las ao baldio, jogar álcool e tacar fogo. E depois de presas, confessar que o fizeram por vingança, crime passional, um anjinho inocente pagando pelas monstruosidades dos outros. Houve, reconheço, casos desse nível do abominável, um deles, denominado de “A fera da Penha”, saiu na revista O Cruzeiro.
Havia, claro, o gosto pelo bizarro, a ponto de alguém separar alguns trocados para ir ver o aberrante, de trem-fantasma de parquinho de diversões a filmes de terror no cineminha da cidade. Esses cinemas, coitados, difícil um que não tenha virado serventia de outro tipo de sensacionalismo, os supostos milagres e curas intermediados por guias ‘espirituais’ inseparáveis das sacolinhas de doações e dízimos.
Cidade pequena, pouca diversão. Os “de maior” era de hábito saírem praticamente toda noite, índole similar à dos gatos não castrados, rodar e rondar o mundo a fundamentar os temores dos pais, especialmente das mães. Dia seguinte, algo da crônica do visto, sabido e ouvido em relação ao inesgotável mundo do escabroso.
Irmão meu veio narrando umas atrações de um cirquinho, aparecido por lá dias antes. Para começo, o tal do circo era tão decadente que apareciam rombos na parte de cima da lona. O diferencial eram uns touros, coisas de soltar os bichos brabos para os desempenhos de uns toureiros fingindo ser espanhóis, mas sem abrir a boca para não dar na cara a fajutice que arrebatava gritos de olé de uma plateia de idiotas.
Mas, o que me interessou mesmo, apesar de saber da interdição para a minha idade (a não ser em matinês), foi a notícia de haver naquela espelunca muita “luta livre”. O meu irmão gostava, mas, desdenhando: velhacaria, certeza, eles combinarem entre si quem iria ganhar. Simulavam a força das porradas, os desmaios e, sobretudo, o tal golpe mata-leão.
Fiquei, porém, muito afoito por dar um jeito de ir ver uma bizarrice contada, a de ter um dos lutadores uma dúzia de dedos nos pés, ou seja, seis em cada um. De quebra, o monstrengo era veloz e perverso na tesoura voadora.
Todos lá em casa nos admiramos muito da anomalia referida, mas, logo começamos a debochar da narrativa, ao que o meu irmão ficou brabo, dizendo que apostava o que quisessem, querendo ele, em torna, apenas a paga do ingresso. Duvidar da palavra de homem, pois fossem lá a conferir.
Meu pai foi o primeiro a fazer corpo mole, disse que o dinheiro dele era muito suado para gastar com heresia. Minha mãe, muito católica que era, já pôs uma minhoca em nossas cabeças, que, aquilo, se verdade, só poderia ser artimanha de alguém com parte com o Cão, pois feitio de filho de Deus não podia ser.
Pelo resto do dia, o assunto rendeu, outros irmãos começaram a fazer troça, elaborando pilhérias sobre o que o tal lutador teria a mais do que os comuns mortais. Quatro orelhas? Dois umbigos... Parem por aí, advertiu minha mãe, “Ora, onde já se viu, já estavam a debandar para indescências!”.
Passada a circunstância, fui ao meu irmão num momento oportuno, saber se ele me levaria ao dito circo dos horrores, para eu ver como lutava o tal homem dos doze dedos. Também estava curioso por averiguar a pertinência de um trecho da história. Se ele derrubava o desafiante com uma tranca no pescoço, como é que o pescoço do infeliz não se destroncava ao bater a cabeça no tablado. Meu irmão admitiu, estava ali algo impossível de fingimento, ele próprio vira o desgraçado rodopiar no espaço e ir estatelar o coco com toda força e estampido.
“Impossível”, argumentou, “você é de menor, vai estar de noite e não vão deixar, mesmo comprando ingresso de adulto”. Foi uma pena. Eu me imaginava faceiro, me vangloriando para os colegas de ginásio da noite em que meu irmão me levara para ir ver o monstro dos 22 dedos derrubar de cambota um outro, como se bota abaixo uma manga madura do pé com um rebolo.
Tempos depois, reencontrando o meu irmão do caso contado, perguntei se ele ainda se lembrava do tal homem dos seis dedos em cada pé. “Ora, se me lembro!”. E ainda reforçou: “Vendo desde lá de baixo, ainda imaginei se aquilo não era truque, a iluminação do circo pobre era péssima, podiam ser dedos emendados com uma cola de boa marca”. Acontece, garantiu, que terminado o espetáculo ele fora com mais uns incrédulos aos bastidores, a pedir para ver de perto as diferenças do “bicho”.
– Só faltou, então, vocês terem pedido para constatar se ele tinha em dobrou outras partes do corpo – galhofei.
– O cara já estava trocando de roupa e nós vimos ele só de cueca – esclareceu.
De minha parte, uma coisa eu garanto. Meu irmão, ao longo desta vida na qual, graças a Deus, já envelhecemos, nunca peguei meu irmão em alguma mentira. De qualquer maneira, mesmo sem duvidar dele, aquela fica sendo a única vez em que alguém viu alguém, da raça humana, com doze dedos nos pés. Hoje, ainda estranhando o acontecido, me vem uma ponderação: e se o tal lutador de luta livre fosse cruza de humano com ET [extraterrrestre]?

Criado em 2020-12-27 04:15:33
Patrícia Porto da Silva –
Greves são fatos inerentes à sociedade contemporânea. No entanto, a recente greve da PM do Ceará apresentou aspectos pouco habituais. Não somente por causa dos eventos de maior impacto — como o do senador ferido por tiros disparados por policiais amotinados. Outros aspectos parecem sinalizar que a referida greve de policiais militares precisa ser discutida à luz no da política nacional.
Atitudes da equipe do governo federal chamaram atenção também. O ministro da Justiça, Sergio Moro, e o diretor da Força Nacional de Segurança, coronel Aginaldo Oliveira, extrapolaram limites do decoro de suas respectivas funções e cargos.
Moro afirmou que “os policiais não são criminosos”, quando 43 policiais estavam presos, e mais de 100, indiciados por dano ao patrimônio ou insubordinação.
Já o coronel Aginaldo qualificou como “gigantes” e “corajosos” os amotinados, como se endossasse e incentivasse novas manifestações.
Assim, ainda que tenha terminado a greve, ficou “um cheiro de pólvora no ar”, como escreveu Bernardo Mello Franco, em sua coluna no jornal “O Globo” (4/3/2020).
O estado do Ceará possui um histórico de apoio a partidos de esquerda. Tem escolhido sucessivos governantes do PT e do PDT. Camilo Santana foi reeleito em primeiro turno com quase 80 por cento dos votos em 2018. Haddad recebeu mais de 70 por cento no segundo turno das eleições presidenciais.
Assim, à luz de precedentes não seria um despropósito supor algum tipo de ação de bastidores no Planalto direcionada a desestabilizar o governo petista de Camilo Santana.
Ainda mais porque a greve aconteceu em momento de crise do poder Executivo com o Legislativo, e quando era convocada uma manifestação de apoio ao primeiro contra o segundo.
Camilo Santana, aliás, denunciou interferências no movimento, mistura entre polícia e política (Estado de São Paulo, 7/3/2020).
Por outro lado, não seria a primeira greve de servidores públicos manipulada por interesses alheios ao próprio movimento.
Ao lado de Educação e Saúde, Segurança Pública figura como um dos serviços públicos de maior importância. Interrupções desses serviços afetam diretamente a vida da população, com maior impacto entre os mais pobres.
Privada de seu direito à Segurança, a população se vê ameaçada em sua integridade. E o pior, mais sujeita ao jugo de milícias.
Se não forem resolvidos no menor prazo, tais problemas se agravam e se avolumam, até corroer a confiança da população no governo.
O desgaste de governos petistas obviamente interessa ao governo de Bolsonaro e seus apoiadores. No caso do Ceará, o desgaste do governo Camilo Santana agradaria sobremodo à elite local.
O Ceará dos anos sessenta era basicamente dividido entre ricos e pobres. Mudanças a partir da década de 70 condicionaram, todavia, novas relações sociais. Setores populares expandiram-se. A elite manteve o poder financeiro, mas perdeu espaço no cenário político.
Assim, a sociedade cearense hoje é outra. Essa modificação refletiu-se nos resultados eleitorais em que foram eleitos candidatos da esquerda em detrimento das velhas oligarquias.
Uma visita ao espaço de comunicação virtual frequentado por membros da elite e seus associados na classe média pode revelar o ódio e o ressentimento dos herdeiros da elite ante a nova realidade social do estado.
A comunicação virtual converteu-se em instrumento de difamação de desafetos políticos — notícias falsas, fotomontagens, vídeos editados, acusações sórdidas, palavreado torpe e outras baixarias.
O processo de difamação da imagem de um ente público é quase sempre irreversível. Uma vez começado, impossível colocar de volta no balde a água derramada.
Tumultos de rua acontecidos logo depois da posse de Camilo Santana, em 2019, parecem ter sido tentativas de prejudicar o governo petista. Tais iniciativas não prosperaram então, mas podem ser reeditadas.
Não devemos subestimar a possibilidade de que eventos desse tipo sejam instrumento de desestabilização do governo do Ceará e dos demais governos de esquerda no Brasil.
Criado em 2020-03-14 01:27:25
José Carlos Peliano (*) –
Era uma daquelas noites em que você está em casa sem nada em particular para começar ou terminar de fazer que olhei em volta, vi o sofá a minha espera, fui até ele e liguei a TV para tentar achar alguma coisa interessante. Foi então, depois de rodar por vários canais, que uma coisa muito mais interessante aconteceu, daquelas que se diz “atirou no que viu e acertou no que não viu”.
E que me marcou até hoje pela pegada certa na veia ou como no futebol com o gol que acabou de balançar as redes, quando marcado por um belo chute que pegou na veia. Essa coisa mexe comigo desde então com desdobramentos interessantes.
Cheguei naquela noite de 2018 ao canal Curta, setembro, e veio na tela o anúncio do documentário Piripkura a começar, de Mariana Oliva, Renata Terra e Bruno Jorge, realizado um ano antes. Intrigou-me a ideia de vê-lo não só porque desconhecia o nome título, embora tenha achado diferente, mas também porque queria ver do que se tratava a apresentação por mostrar remanescentes dos povos primitivos brasileiros.
Foi daquelas realizações cinematográficas que se vê de uma sentada sem despregar os olhos da tela, perde-se totalmente a vontade de ir ao banheiro, pois o corpo sabe da relevância do momento, o coração acompanha todas as cenas e a emoção toma conta da miríade de veias organismo afora. Transcorreram os 81 minutos na tela como se fossem meses indeterminados de vivência, senti-me dentro do documentário vivenciando os “takes”, as falas, as companhias dos dois indiozinhos, Pakyit (Baita) e Tamandua e da floresta exuberante. Gostaria de ter estado na equipe técnica.
A película conta o reencontro dos membros da FUNAI com os dois indiozinhos, os últimos representantes vivos do grupo isolado Piripkura, depois de um bom tempo procurados no meio da floresta do Mato Grosso. A iniciativa foi saber se ainda estavam vivos, dar-lhes assistência de saúde e verificar suas reais condições de sobrevivência.
Os dois, o tio, Baita, e o sobrinho, Tamandua, baixos, acredito com mais ou menos um metro de altura, estavam sempre juntos um ao outro todo o tempo da filmagem fosse andando, sentados ou dormindo em rede. Transmitiam uma simpatia ingênua e pura talvez por já conhecerem o chefe dos técnicos da FUNAI ali presente. Mas só talvez, porque pelo jeito deles se comportavam como crianças no lidar com o mundo exterior, em espontaneidade, curiosidade, inexistência de maldade, empatia. É inacreditável que por isso mesmo tenham sido os únicos a sobreviverem à sanha dos inúmeros desmatamentos ocorridos na região por onde se espalhava seu grupo.
Encontraram-se com os técnicos munidos apenas de uma tocha fumegante feita de fibras de folha com um deles e com o outro de uma espécie de embornal. Nus, descalços, caminhavam despreocupados pela floresta como se fossem pastores das árvores, plantas, bichos, flores, insetos, sons e demais seres invisíveis e encantados. Uma apoteose poética! A poesia agradecia, reverenciava e exaltava!
Os Piripkura, ameaçados há anos por grileiros, tiveram nos dois indiozinhos os únicos sobreviventes de um massacre de madeireiros invasores de seu território ocorrido na década de 80.
Nos últimos anos apesar do constante ataque ao seu território por queimadas, desmatamento e ocupação, eles não vinham tendo proteção e vigilância oficiais. O povo isolado perdeu espaço para os grileiros piratas.
Ano passado tiveram os Piripkura uma nova proteção legal de seu território por portaria da FUNAI com validade de apenas 6 meses, de outubro de 2021 até março deste ano, a menor desde as anteriores concedidas de 3 em 3 anos. E só conseguiram através da pressão política exercida pelas Organizações Indígenas da Amazônia (COIAB) e Observatório dos Direitos dos Povos Isolados e de Recente Contato (OPI), ambas apoiadas pelo Instituto Socioambiental (ISA).
Queimadas, desmatamento e ocupação de grileiros levaram os últimos vestígios do povo Piripkura que vivia ao norte de Mato Grosso. Há somente registros esparsos de sobreviventes que vivem fora da antiga área de proteção. O próprio documentário mostra uma delas que saiu de lá anteriormente.
Ano retrasado soube da morte dos dois sobreviventes. Haviam adoecido e internados não resistiram ao tratamento. Uma pedra cantada, mas intragável de aceitar, tal qual uma morte anunciada. Sem proteção legal e efetiva da FUNAI os dois teriam partido para junto de seus encantados, a cena final do documentário é de rara e dura beleza, inevitável e antecipatória: seguem os dois entre o verde, após tratados pela equipe da FUNAI, sós, levando a inseparável amiga floresta. Um indelével adeus antecipado.
No entanto, soube ontem, 10 de dezembro, de uma indígena Antônia Gavião no acampamento de resistência dos índios, instalado no gramado do Eixo Monumental de Brasília, entre a FUNARTE e o Observatório de Brasília, que se foi o tio ao encantamento, Tamandua, salvando-se o sobrinho, Baita, apenas. Deste ela não tem mais notícia. Do tio, soube pela enfermeira que cuidava dos dois que ele morreu de tristeza ao deixar de comer e beber. O motivo: extinção de seu povo nas mãos criminosas das queimadas, desmatamentos e ocupação ilegal com apoio da FUNAI.
O genocídio assume formas diversas dependendo da estratégia. No caso dos povos indígenas isolados o massacre é pouco conhecido e sentido porque encoberto pela dispersão na floresta. O caso desses dois indiozinhos é emblemático, estarrecedor, profundamente desumano e punível, tomara, pela volta mais cedo ou mais tarde do estado de direito. Não com essa desordem descabida de um desgoverno que ultrapassa todo o bom senso do senso de vida e sobrevivência.
Segue soneto meu de setembro de 2018 em homenagem aos dois então sobreviventes. Que ele sirva de um vírus de humanismo que corroa as tripas dos genocidas!
Pakyit e Tamandua
estica o cobertor pela floresta
toda noite fria ou quente de lua
a escuridão aos bichos empresta
para calada espreita nua
derrama o dia o sol fresta por fresta
dos troncos, galhos, trilhas, terra crua
abre os olhos da vida verde em festa
vai junto com Pakyit e Tamandua
pequenos no tamanho palmo a palmo
as linhas das mãos vão ao infinito
o saber ultrapassa todo o salmo
entre os dois a pureza é o rito
um ao outro o silêncio desce calmo
a floresta os protege por seu grito
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(*) José Carlos Peliano, poeta, escritor, economista
Criado em 2021-12-12 22:40:48