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Enquanto o Brasil insiste em uma relação bilateral exclusiva com os Estados Unidos e seus satélites, dois pesos pesados do cenário mundial, Rússia e China, emitem Declaração Conjunta conclamando a comunidade internacional a “reforçar a interação, aprofundar a compreensão mútua, enfrentar conjuntamente os desafios e da estabilidade política e da recuperação econômica no Planeta.” (*)
A seguir, a íntegra do comunicado divulgado dia 11/9/2020:
“A Federação Russa e a República Popular da China, em espírito de ampla parceria e interação estratégica, iniciando nova era, baseada numa visão comum da situação internacional atual e de problemas chaves, conclamam a comunidade internacional a reforçar a interação, aprofundar a compreensão mútua, enfrentar conjuntamente os desafios e da estabilidade política e da recuperação econômica mundial.

As partes declaram o seguinte:
1 - O mundo moderno passa por fase de transformação profunda, cresce a turbulência, e estão sob ataque os processos de globalização econômica e a implementação de uma agenda de desenvolvimento sustentável para o período até 2030. A pandemia do novo coronavírus tornou-se o mais grave desafio global em tempos de paz.
As partes expressam profunda preocupação de que, contra o pano de fundo de uma pandemia de um tipo novo de coronavírus, estados individuais disseminam informação pouco precisa e falsa. Assim ameaçam a saúde e o bem-estar dos cidadãos, a segurança pública, a estabilidade e a ordem, e também impedem que os povos do mundo conheçam-se uns os outros.
Quanto a isso, Rússia e China conclamam autoridades estatais, organizações públicas, a mídia e os círculos empresariais a fortalecerem a interação e combaterem unidas a informação falsa. Informação e avaliações disseminadas devem ser baseadas em fatos. E devem excluir qualquer interferência nos assuntos internos de outros países e ataques irracionais à estrutura e aos caminhos de desenvolvimento escolhidos por outros países.
As partes reiteram o seu firme apoio à Organização Mundial de Saúde e ao seu papel de coordenação na cooperação internacional para o combate às epidemias, defendem o aprofundamento da cooperação internacional nesta área, bem como a aceleração do desenvolvimento de medicamentos e vacinas.
As partes conclamam todos a pôr fim à politização do tema da pandemia e a unir todos os esforços para derrotar conjuntamente a infecção por coronavírus, responder conjuntamente aos vários desafios e ameaças e a envidar esforços para acelerar a implementação da Agenda de Desenvolvimento Sustentável 2030.
2 - Este ano marca o 75º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial – a maior tragédia da história da humanidade, que ceifou dezenas de milhões de vidas.
União Soviética e China receberam o golpe principal do fascismo e do militarismo, suportaram o peso da resistência aos agressores, detiveram, derrotaram e destruíram os invasores à custa de enormes perdas humanas, ao mesmo tempo em que mostravam dedicação e patriotismo sem paralelo.
As novas gerações estão em dívida com aqueles que caíram em nome da defesa da liberdade e da independência, para o triunfo do bem, da justiça e do humanismo.
Uma moderna relação russo-chinesa, relação de parceria inclusiva e engajamento estratégico quando o mundo embarca numa nova era, é marcada pela carga poderosa e positiva de verdadeira camaradagem forjada nos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial.
Preservar a verdade histórica sobre esta guerra é dever sagrado de toda a humanidade.
Rússia e a China se oporão conjuntamente às tentativas de falsificar a história, de converter em heróis os nazistas, os militaristas e seus cúmplices, e de degradar os vencedores. Nossos países não permitirão qualquer ‘revisão’ dos resultados da Segunda Guerra Mundial consagrados na Carta das Nações Unidas e em outros documentos internacionais.
3 - No ano do 75º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial e da formação das Nações Unidas, Rússia e China, como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, reiteram sua firme adesão aos princípios do multilateralismo, e apoiam a realização de reuniões de alto nível programadas para coincidir com o 75º aniversário da fundação da ONU e o 75º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial. Reiteram também a importância de convocar a comunidade internacional a proteger conjuntamente o sistema de relações internacionais, no qual a ONU desempenha papel central, e a ordem mundial baseada nos princípios do direito internacional, reafirmar as posições estabelecidas no a Declaração da Federação Russa e da República Popular da China sobre o Reforço do Papel do Direito Internacional de 25 de junho de 2016.
O lado chinês apoia a iniciativa do lado russo de convocar uma reunião de chefes de estado – membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Rússia e China pretendem continuar a defender resolutamente os objetivos e princípios da Carta das Nações Unidas, em particular os princípios de igualdade soberana e de não interferência nos assuntos internos de outros Estados, e defender a paz global e estabilidade.
As partes defendem a justiça nos assuntos internacionais, reformando e melhorando o sistema de governança global. As partes rejeitam categoricamente a prática de ações unilaterais e de protecionismo, a política de força e a perseguição entre estados, a introdução de sanções unilaterais que não sejam amparadas por fundamentos jurídicos internacionais; rejeitam também a aplicação extraterritorial de legislação nacional.
4 - Há sérios desafios na esfera da segurança internacional, na responsabilidade por apoiar o Velho Pensamento nas categorias da Guerra Fria, forçando uma atmosfera de rivalidade entre as grandes potências. Operar para tentar garantir a própria segurança às expensas da segurança de outros estados compromete seriamente os princípios básicos das relações internacionais, a estabilidade global e regional e a segurança.
As partes destacam a importância de se manterem relações de interação construtiva entre as grandes potências com vistas a resolver problemas mundiais estratégicos em bases de igualdade e em espírito de respeito mútuo. Como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e como estados armados com armamento nuclear, as partes desempenham papel especial para preservar a estabilidade estratégica global e trabalham sob o espírito da Declaração Conjunta da Federação Russa e da República Popular da China assinada dia 5/6/2019, para fortalecer a estabilidade estratégica global na era moderna, para continuar a aprofundar a confiança estratégica mútua e manter a interação estratégica global e regional.
Rússia e China conclamam todos os estados que participam dos acordos e tratados para controle de armas, desarmamento e não proliferação a respeitar estritamente o fixado naqueles tratados e a respeitar os procedimentos para resolução de conflitos neles acordados.
5 - As Partes continuarão a desenvolver a cooperação no campo da promoção e proteção dos direitos humanos, para promover, no âmbito dos órgãos de direitos humanos da ONU, a igualdade de tratamento de todas as categorias de direitos humanos, para intensificar os esforços em áreas que recebem atenção especial nos países em desenvolvimento: a implementação dos direitos econômicos, sociais e culturais e o direito ao desenvolvimento.
As Partes opõem-se à politização da agenda internacional de direitos humanos e opõem-se ao uso das questões de direitos humanos como pretexto para interferir nos assuntos internos de Estados soberanos.
6 - As Partes implementam consistentemente uma política abrangente nessa área, eliminam causas e consequências do problema, promovem a formação de uma frente comum global contra o terrorismo, papel central da ONU, opõem-se à associação ‘automática’ entre determinados estados e (i) terrorismo/extremismos; e (ii) religiões; e (iii) nacionalidades ou civilizações, quaisquer que sejam. E opõem-se à aplicação de duplos critérios nas atividades antiterroristas.
7 - As partes conclamam a comunidade mundial a unir esforços na luta contra o uso de tecnologias de informação e comunicação para fins incompatíveis com os objetivos de manter a paz, a segurança e a estabilidade internacional e regional, bem como para atividades criminosas e terroristas executadas mediante tecnologias de informação e da comunicação.
As partes defendem a prevenção de conflitos entre estados que possam surgir como resultado do uso ilegal de tecnologias de informação e comunicação e reafirmam o papel fundamental da ONU no combate às ameaças no campo da segurança da informação internacional.
Nesse contexto, expressam seu apoio às atividades realizadas na ONU para desenvolver regras, normas e princípios de comportamento responsável dos Estados no espaço da informacional.
As partes saúdam e observam a oportunidade do lançamento, de acordo com a Resolução da Assembleia Geral da ONU nº 73/27, sob os auspícios das Nações Unidas, do primeiro mecanismo de negociação sobre o tema, do qual todos os Estados podem participar – o Grupo de Trabalho Permanente sobre Realizações no Campo da Informação e das Telecomunicações no Contexto da Segurança Internacional.
As partes também conclamam todos os Estados a participarem construtivamente do trabalho do Comitê Intergovernamental Ad Hoc de Especialistas, estabelecido de acordo com a Resolução 74/247 da Assembleia Geral da ONU , e do desenvolvimento inicial de uma convenção da ONU contra o uso criminoso de tecnologias de informação e comunicação.
As partes enfatizam a unidade de posições sobre a governança da Internet, incluindo a garantia de direitos iguais para os Estados participarem da governança da rede global, e observam a necessidade de aprimorar o papel da União Internacional de Telecomunicações neste contexto.
As partes concordaram em continuar a aprofundar a cooperação bilateral com base no Acordo entre o Governo da Federação Russa e o Governo da República Popular da China sobre cooperação no campo da segurança da informação internacional datado de 8 de maio de 2015.
8 - As partes – cientes do impacto abrangente da economia digital no desenvolvimento socioeconômico dos países do mundo e no sistema de governança global, acreditam que a segurança do armazenamento de dados digitais afeta a segurança nacional, os interesses públicos e os direitos de indivíduos em cada estado – apelam a todos os países para que respeitem os princípios de participação universal para alcançar o desenvolvimento de regras globais de segurança de dados digitais que reflitam as aspirações de todos os estados e respeitem os interesses de todos os países.
O lado russo prestou atenção à “Iniciativa Global de Segurança de Dados Digitais” apresentada pelo lado chinês e saúda os esforços do lado chinês para fortalecer a segurança global dos dados digitais.
As partes expressam sua intenção de desenvolver a cooperação no campo da segurança da informação internacional em um formato bilateral, ONU, BRICS, OCX, Fórum Regional para Segurança das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN Regional Forum for Security) e outras plataformas multilaterais globais e regionais.
As Partes reconhecem o potencial significativo para o desenvolvimento da economia digital, especialmente durante uma pandemia, e apelam à comunidade mundial para que sigam as tendências de desenvolvimento; encorajem novos métodos de gestão econômica, novas indústrias, novos modelos de desenvolvimento; para que, juntos, formem ambiente aberto, justo e não discriminatório, para o desenvolvimento e aplicação de tecnologias de informação, atentos à segurança de dados e fluxos transnacionais; para que apoiem cadeias de abastecimento globais de produtos e serviços de informação.
9 - As Partes envidam esforços para preservar o papel de liderança da Organização Mundial do Comércio nas áreas de liberalização e coordenação do comércio no desenvolvimento de regras para o comércio global e apoiar o sistema de comércio multilateral, cuja “pedra angular” é a OMC .
As partes conclamam a comunidade internacional a fortalecer a coordenação no campo da política macroeconômica, proteger a segurança e estabilidade das cadeias de valor globais, estimular o desenvolvimento da globalização econômica em direção a uma maior abertura, inclusão, prosperidade compartilhada, equilíbrio, benefício comum e contribuir para um recuperação inicial da economia mundial.
10 - As partes têm em alta consideração a interação para discutir prioridades tópicas regionais, inclusive os casos que tenham a ver com Irã, Afeganistão, Síria e a Península Coreana.
Enfatizam que a única via efetiva para resolver problemas é o diálogo e declaram-se prontas, mediante o consenso, a continuar a participar de consultas multilaterais e do trabalho das plataformas de diálogo, para promover os processos de resolução política e diplomática de problemas relevantes.
11 - Rússia e China continuarão seu trabalho de alinhar planos para o desenvolvimento da União Econômica da Eurásia e a construção da Iniciativa Um Cinturão, Uma Estrada, contribuindo para o fortalecimento da conectividade regional e do desenvolvimento econômico no espaço da Eurásia.
As partes confirmam o seu compromisso com a promoção paralela e coordenada da Grande Parceria da Eurásia e da Iniciativa Cinturão e Estrada.
12 - O lado chinês apoia firmemente o trabalho feito pela Rússia na presidência dos grupos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e Organização para a Cooperação de Xangai (OCX), e ativamente colaborará com o lado russo na preparação para a reunião dos chefes de Estado dos BRICS e para a reunião dos chefes de estado da OCX, este ano.
As partes continuarão a reforçar contatos de coordenação dentro do G20, da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC) e de outros mecanismos multilaterais, reforçando o papel construtivo desses mecanismos.”

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OBS: Tradução automática, revista, do inglês, não oficial, para fins acadêmicos).
Criado em 2020-09-27 19:55:33
Maria Lúcia Verdi –
Numa série de três capítulos, pretendo comentar aqui aspectos da vida e da obra do escritor austríaco Stefan Zweig, que suicidou-se em Petrópolis (RJ) no dia 23 de fevereiro de 1942. Biografia que também foi tratada no filme "Adeus, Europa", de Maria Schrader.
“Eu, que levei toda uma existência a descrever os homens segundo suas obras e a objetivar a estrutura intelectual de seu universo, verifiquei, precisamente por meu exemplo pessoal, quão impenetrável permanece em cada destino o núcleo verdadeiro do ser, a célula plástica de onde emana todo crescimento”. (Stefan Zweig)
No Brasil, Stefan Zweig, um grande biógrafo, revisava “O mundo que eu vi”- sua autobiografia e o relato do fim do Império Austro-Húngaro-enquanto escrevia o curioso “O jogador de xadrez”, sua última novela, grande metáfora sobre a vida.
Sete meses antes de seu suicídio “Brasil - país do futuro” (1941) havia sido lançado em seis línguas. Embora o governo de Vargas tivesse aprovado o livro, a maior parte dos intelectuais brasileiros e praticamente toda a imprensa da época criticaram-no.
Afirmavam que Zweig tinha se comprometido com Lourival Fontes (chefe do DIP) a escrever ensaio laudatório sobre o país, em troca da concessão de visto permanente de residência.
Um dos motivos alegados para o suicídio, além da depressão e da desilusão com a humanidade, fora o fato de que o livro que cria uma alcunha para o país não ter sido bem recebido pelos brasileiros.
Acostumado a ser admirado e recebido com carinho, teria tido muita dificuldade em lidar com as duras críticas à sua visão simplificadora do país.
No ambiente europeu de Petrópolis, Zweig reconstruia e interpretava a si mesmo e a sociedade austríaca, revendo o manuscrito da autobiografia, enquanto tentava compreender o Gigante Brasil, onde, no dizer de Mário de Andrade, “tupis tocam alaúdes”.
Dividido radicalmente entre o lá e o cá, entre um tempo dolorosamente perdido e um presente difícil de atingir e avaliar, Zweig afunda-se na melancolia tão bem expressa no filme “Adeus, Europa”.
Filósofo de formação, judeu, mas não religioso,comprometido com a causa judaica, Zweig, no início, não critica o nacionalismo de Hitler, até que os fatos mostrem o que mais abrangia aquela ideologia.
Sem ser sionista – “sou contra todos os nacionalismos, inclusive o judeu” -Zweig, um grande humanista, acreditava na importância da criação de um Estado judeu independente.
Nesse sentido encontrou-se com Salazar para lançar a ideia de uma colônia judaica em Angola.
Os poucos dias que aqui esteve em 1936 bastaram para que se apaixonasse pelo Rio de Janeiro, pela natureza tropical e as marcas do Império na Capital, pela cordialidade brasileira e o respeito ao estrangeiro – qualidades em decadência no continente de origem.
O Brasil vem a ser o “locus amenus” onde o escritor julga haver a integração racial, a quase perfeita harmonia e gentileza no convívio social, miopia comum aos melancólicos, doença da alma que iniciara a afetá-lo após 1914.
Para redigir seu livro viajou bastante, mas não o suficiente, conforme reconheceu, lamentando não ter tido tempo para realizar estudos mais profundos sobre o Brasil.
Além do Rio de Janeiro, fez rápidas viagens a São Paulo (visita à plantação de café que vemos em “Adeus, Europa”), a Minas Gerais, à Bahia, ao Recife, sobrevoou a Amazônia e visitou Belém.
Mas aqui, embora esteja encantado pelo país, a nostalgia de Viena é tal que a enxerga no Rio de Janeiro – descrevendo as duas cidades, surpreendentemente, quase com as mesmas palavras: “...mal se sentia onde começava a natureza e onde iniciava a cidade, uma dissolvendo-se na outra sem resistência nem contradição”.
Não leu o suficiente sobre o país, algo de alguns autores (Rio Branco, Rui Barbosa, Joaquim Nabuco) sobretudo Auguste Comte.
Ao narrar a história brasileira, não concede importância nem à Inconfidência Mineira nem às tantas revoltas relacionadas ao fim do Império e início da República, nem mesmo Canudos: “Mas essa transformação do império em república realizou-se sem comoções intestinas...”.
Outro bom exemplo do olhar míope é a passagem em que comenta o fato de, em 1815, o Brasil ter sido elevado à categoria de Reino Unido a Portugal: “Portugal e Brasil, outrora senhor e servo, são agora irmãos".
Desconhece, e não busca, as fontes críticas para tentar desvendar o que vê. Romantiza o país. Em belíssimas descrições retrata nossa natureza como em um conto de fadas, semelhante ao que, no cinema, foi “Orfeu Negro”, de Camus.
(Continuação amanhã - Capítulo II).
Criado em 2017-05-08 21:46:13
Romário Schettino –
Já são inúmeras as lições que a pandemia do coronavírus trouxe às sociedades e aos governos do mundo inteiro. Além de demonstrar que a solidariedade é um bem a ser preservado a todo custo, o vírus veio embalado com desastres econômicos jamais vistos, capazes de ressuscitar velhas teorias do bem-estar social garantido pelo estado. O neoliberalismo pós-guerra sentiu o peso da paralisação global. Está tudo contaminado.
Foi preciso um diminuto vírus surgir das entranhas da natureza para mostrar que sem consumo não há produção, sem produção não há emprego, sem emprego não há consumo e não há riqueza. Na prática, este ciclo tão elementar nunca foi respeitado completamente. A grande parcela pobre da população sempre foi considerada uma reserva desprezível, um refugo humano. A opção pela concentração da riqueza em poucas mãos e a distribuição de migalhas após e durante guerras insanas em várias partes do mundo terão que ser repensadas por aqueles que conduzem os destinos da humanidade.
A verdade é que sem proteção social não há desenvolvimento sustentável. A situação é tão aflitiva que um vendedor de sorvete em São Paulo disse à reportagem do site Uol que, mesmo fazendo parte do grupo de risco do Covid-19, aos 65 anos de idade, ele não tem medo de contrair a doença e que não lhe sobram muitas opções senão trabalhar todos os dias. "O que você quer que eu faça? Se não morrer desse vírus, morro de fome. Não posso parar de trabalhar", respondeu.
Iguais a esse vendedor, existem milhares de brasileiros em todas as cidades do país. Nas favelas do Rio de Janeiro uma rede de solidariedade surgiu entre os moradores da Rocinha, independente do Estado, para tentar salvar vidas. A pequena ajuda financeira prometida pelo governo não chegará a todos os necessitados.
Algumas iniciativas do Ministério da Saúde incluem o Sistema Único de Saúde (SUS), na tentativa de salvaguardar o sistema público do desastre a que vinha sendo submetido pelos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro. Se não fosse o coronavírus o SUS já teria sido desmontado e seus serviços entregues à iniciativa privada, da mesma forma que estão entregando as riquezas nacionais ao capital estrangeiro. Em meio à crise do coronavírus Paulo Guedes pede pressa na privatização da Eletrobras.
PEC da Morte – É sobre essa tragédia que Fernando Pigatto, presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS), vem falando desde 2016. Ao portal Carta Maior, Pigatto disse esta semana que a Emenda Constitucional 95, que congelou os gastos públicos por vinte anos, continua sendo a “PEC da Morte”.
O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, disse à imprensa que serão destinados cerca de R$ 10 bilhões emergenciais para o enfrentamento à pandemia. O valor não alcança nem metade do que a Saúde já perdeu desde que entrou em vigor a EC 95, que impôs um teto de gastos e congelou investimentos pelo Estado até 2036. De acordo com um estudo da Comissão de Orçamento e Financiamento (Cofin) do Conselho Nacional de Saúde, o prejuízo ao Sistema Único de Saúde (SUS) já ultrapassa os R$ 20 bilhões.
“Só no orçamento deste ano (2020) serão quase R$ 5 bilhões a menos. Agora não adianta ter medida paliativa. Temos que ter consciência de que esses bilhões vão fazer falta para enfrentar o coronavírus, mas não só ele. Os problemas da saúde pública no Brasil vêm de muito tempo”, afirma Pigatto.
O certo é que desde que a EC 95 foi aprovada o SUS vem sendo desfinanciado. O CNS é amicus curiae numa Ação Direta de Inconstitucionalidade que está no Supremo Tribunal Federal (STF). “Em 2018 fizemos uma marcha em Brasília e levamos caixas e caixas de assinaturas ao STF contra a emenda. Em fevereiro do ano passado pedimos ao presidente Dias Toffoli sua prioridade na pauta, mas até hoje isso não aconteceu. No Congresso Nacional, nos reunimos com a Frente Parlamentar em Defesa da Saúde, fomos à Comissão de Seguridade Social e Família e ouvimos de vários parlamentares, inclusive de deputados e senadores que haviam votado a favor da PEC, que já estavam se arrependendo, porque estavam vendo seus efeitos. Em vários municípios o índice de mortalidade infantil voltou a crescer”, lamenta Pigatto.
A ministra Rosa Weber, do STF, pediu informações ao governo sobre os efeitos da Emenda do Teto de Gastos no combate à epidemia e deu prazo de 30 dias para o seu cumprimento. Boa iniciativa, mas pode ser tarde demais.
Passada a pandemia, ainda sem data para acontecer, o Brasil não será o mesmo. A explosão das contas públicas pode até ser contida, mas o comportamento de ministros como Paulo Guedes e de parte da imprensa que endeusa a mão invisível do mercado não terão como esquecer os pobres da sociedade e terão de admitir que projetos como o bolsa família não é só fundamental, como tem de ser ampliado, sob pena de crescer exponencialmente o número de miseráveis no país.
Marcha à ré – Domenico De Masi, sociólogo italiano, autor de “Ócio Criativo” e “Futuro do Trabalho”, escreve que a “marcha à ré e os freios que a cultura neoliberal se recusou obstinadamente a usar agora foram desencadeados: não graças a uma revolução violenta, mas sim a um vírus invisível que um morcego soprou sobre a sociedade opulenta, obrigando-a a se repensar”.
“Essa crise histórica, com seus mortos e tragédias, se por um lado nos leva à recessão, por outro nos lembra que, para evitar uma crise irreparável, em vez de políticas de austeridade, é preferível dar lugar aos investimentos públicos maciços, ainda que isso leve ao déficit público”, ensina De Masi.
Segundo o sociólogo italiano, o livro “A Peste (1947), obra-prima profética de Albert Camus, talvez possa nos ajudar nesse repensar. Naquele romance, a ciência era protagonista, ou seja, o médico Bernardo Rieux, ocupado até o fim, como médico e como homem, de socorrer os contagiados, enquanto ´o cheiro de morte emburrecia a todos os que não matava´”.
“Hoje, nós também, como o nosso tão humano irmão Rieux, estamos presos num limbo entre o pesar e a esperança, no qual temos que aprender que ´a peste pode vir e ir embora sem que o coração do homem seja modificado´; que ´o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, que pode permanecer adormecido por décadas nos móveis e nas roupas, que espera pacientemente nos quartos, nas adegas, nas malas, nos lenços e nos papéis, que talvez chegue o dia em que, infortúnio ou lição aos homens, a peste acordará seus ratos para mandá-los morrer numa cidade feliz”, conclui Domenico De Masi.
Nessa mesma linha em busca de repensar tudo, o economista e filósofo francês Serge Latouche propõe abandonar a sociedade de consumo com um decrescimento planificado, progressivo e sereno. Quem sabe?
Criado em 2020-03-22 23:59:55
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Depois de remeter o poeminha abaixo para uma lista de amigos do Zap, recebi de um deles, o músico e compositor Arturo Sampaio, um elogio em forma de dúvida retórica: “Por que a segunda estrofe funciona tão bem”? A pergunta me provocou algumas respostas imediatas e a seguir outras indagações, o que me levou a estudar o poema de maneira mais aprofundada. Aqui vão algumas conclusões, parciais e provisórias, que no mínimo servirão como dicas para a leitura de poesia.
À primeira vista, pode parecer que sendo eu o autor, dotado da “vontade do constituinte”, e sendo o seu primeiro leitor, o poema me seria inteiramente transparente. Não é bem assim. No ofício de compor escritos poéticos, é claro que eu tenho educado o ouvido para encontrar as frases sonoras que me parecem as mais adequadas, e, com a prática da escrita jornalística de muitas décadas, tenho a pretensão de manter grande controle sobre os textos agora derivados muito mais da imaginação. Ainda assim, sempre me surpreendo com certos efeitos após a festa, sem o privilégio da interpretação, como acontece com os demais leitores.
Cabe de início a observação de que os meus poemas, em geral, frequentam algumas faixas acima do nível das “batatinhas quando nascem”. A sua compreensão exige certa cultura literária e algum esforço exploratório, embora estejam longe de serem textos crípticos ou “poesia para poetas”.
Também devo registrar que não acredito em mistérios da Natureza que não possam algum dia serem desvendados. Em literatura, os enigmas, pelo menos aqueles não engendrados por escritores “automáticos” ou “sintomáticos”, são sempre construídos por deliberação do autor, às vezes para “dar trabalho aos estudiosos”, como fez o James Joyce, inspirado por algum espírito lírico-sádico. Assim, um poema mais ou menos complexo sempre é lido em confronto com as referências do repertório cultural do autor e de sua época etc.
Vamos ao poema:
Sem rosto nem mão,
pedestal, vela
ou genuflexório –
Um deus entre aspas,
positivo porém
como o Universo –
Alheio a crenças,
sua mente sem cancelas
demanda sondagens –
É tão bela como o binômio
de Newton ou a fórmula
da equivalência –
A gente vara a noite lendo a Ética
e amanhece em estado de graça –
Atenção - Com um mínimo de atenção, quem acaba de ler o poeminha notará algumas características formais:
1) Não tem título: o propósito é deixar mais aberta a interpretação;
2) É composto de duas estrofes de seis linhas mais um dístico final;
3) Tem versos irregulares de quatro, cinco, seis, sete e oito sílabas, sem rimas, exceto na segunda estrofe, com a rima da primeira com a última linha, e uma conspícua rima interna (cancelas/bela); os versos do dístico tem dez sílabas;
4) É um texto rico de assonâncias (repetição de vogais) e aliterações (reiteração de consoantes e sílabas);
5) Há duas citações importantes no poema: o uso de colagens de empréstimos alheios é comum na poesia.
– A primeira citação está nos dois versos finais da primeira estrofe, “positivo… como o Universo”, e foi inspirada num verso do início de um poema de Emily Dickinson que trata da eternidade:
This World is not Conclusion.
A Species stands beyond –
Invisible, as Music –
But positive, as Sound –
Este Mundo não é Conclusão.
Encontra-se uma Espécie além –
Invisível, como a Música –
Mas positiva, como o Som –
– A segunda, na frase “É tão bela como o binômio de Newton”, surrupiada de um poeminha de Fernando Pessoa-Álvaro de Campos:
O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.
óóóó — óóóóóóóóó — óóóóóóóóóóóóóóó
(O vento lá fora).
Assuntos - O conteúdo do poema, por sua vez, pode ser evidenciado com um mínimo de esforço por qualquer pessoa que tenha frequentado algumas aulas de filosofia no 2º Grau: a) a descrição do “Deus” do filósofo luso-holandês Bento de Spinoza (1632-1677), autor da Ética; b) um comentário sobre a mente desse “Deus”, aberta à exploração; e c) o registro do efeito causado pelo livro sobre o estado de ânimo do leitor.
Entre aspas - Para relembrar: o “Deus” de Spinoza é um deus entre aspas porque não é uma pessoa dotada de vontade ou arbítrio como o Deus dos judeus, dos cristãos e dos muçulmanos. Não é um sujeito transcendental criador do mundo ex nihilo (a partir do nada), com ordem, harmonia ou finalidade. Por esse motivo não tem rosto nem mão, e não está assentado sobre um pedestal cercado de velas votivas. Diante dele não há qualquer móvel especial dotado de um estrado almofadado (genuflexório) para que os fiéis ali se prostem ajoelhados para adorá-lo.
Esse deus entre aspas é, no entanto, “positivo como o Universo”, porque, segundo Spinoza, é a substância única, indivisível, infinita, causa imanente da contínua, dinâmica e reiterada produção do Universo ou Natureza. É imanente porque se refere a tudo o que existe concretamente. Não é transcendente porque não se localiza na fantasia, produto da imaginação, de algum universo paralelo transcendental. O sobrenatural existe, mas apenas como ficção mental.
Leis naturais - Já se disse que esse deus não é uma pessoa nem é objeto de adoração (“alheio a crenças”) e agora se diz, paradoxalmente, no segundo verso da segunda estrofe, que ele tem uma mente, e que essa mente não tem “cancelas”, é aberta. Como assim? Segundo Spinoza, a Natureza, continuamente produzida por esse deus-substância, é uma expressão dinâmica dele, submetida às suas leis necessárias. Que leis são essas? Em termos modernos, podemos dizer que são as leis e teorias científicas em geral, como a lei da gravidade e as outras leis da física e da química, a teoria da evolução darwiniana-mendeliana, os estudos sobre os vírus, a psicologia, a linguística, a ciência política etc etc.
Importante: o nosso filósofo considera que tudo o que existe é natural, incluindo os pensamentos e os outros processos mentais. Os fatos culturais, ditos imateriais, são naturais também. Além disso, a espécie humana não ocupa qualquer lugar privilegiado no seio da Natureza, não podendo estabelecer aqui nenhum “império dentro do império”. Nisso o spinozismo é compatível com o darwinismo. E, cá entre nós, a ideia de Marx segundo a qual a história humana é um capítulo da história da Natureza tem como surça o Spinoza!
Ora, por meio dessas leis, ferramentas da razão, a gente pode desvendar ainda que de maneira aproximada os segredos (provisórios!) da Natureza. Ou seja, a gente pode penetrar a mente de “Deus”. Os spinozistas costumam dizer que não acreditam em “Deus” mas, sim, que podem conhecê-lo, na medida em que desvelam a sua mente. Daí o motivo das menções no poema ao binômio de Newton e à fórmula da equivalência de massa e energia (E=mc²), proposta por Albert Einstein, notório spinozista de carteirinha. Ah, sabe o Georg Cantor, formulador da teoria dos conjuntos e do número transfinito? Pois é, ele se inspirou nas ideias do infinito do Bentinho!
O poema refere-se ainda ao irrecusável “convite” da mente de “Deus” às sondagens, às investigações de suas entranhas, e a diz bela. Problema: se Spinoza escreve que o belo não está no objeto observado e sim nos sentidos do sujeito que o observa, como pode a mente de “Deus” ser considerada bela de maneira assim tão rápida e taxativa? Uma resposta está no dístico final do poema: depois de passar a noite lendo a Ética, que o ajuda a compreender a Natureza e a mente de “Deus”, o leitor do livro amanhece em estado de graça. Isto é, num estado de “beatitude” (termo spinozano), pois terá dado alguns passos a mais na direção da suprema alegria possível, aquela provocada pelo conhecimento de “Deus”. Spinoza chama isso de amor intellectualis Dei, o amor intelectual ou racional a Deus.
Antes de terminar o comentário, que já vai longo, proponho voltar ao poema para lhe acrescentar mais sentidos derivados da vocalidade. É isso, a sua leitura em voz alta ajuda a perceber o que vou dizer agora.
Sinos - Como estamos falando de Deus, com e sem aspas, querendo ou não, figuramos sincreticamente um ambiente religioso, e logo imaginamos igrejas e torres de catedrais com sinos badalando. Imagine a leitora e o leitor que o sol está acabando de nascer perto das seis horas da manhã...
Ouvem-se as badaladas logo no primeiro verso da primeira estrofe, anunciando o romper do dia. É a primeira hora da liturgia católica, a laudes (antiga prima): Sem rosto nem mão... Bem! Bem! Bão! Ouviram?
Os sinos continuam dobrando no terceiro verso (genuflexório), no quarto (entre), no quinto (porém) e no sexto (como). E ainda no primeiro verso da segunda estrofe (crenças), no segundo (mente… cancelas), no terceiro (demanda… sondagens), no quarto (tão… binômio), no quinto (Newton) e no sexto (equivalência). Por fim, soam no primeiro verso do dístico (gente… lendo) e no segundo (amanhece em).
Vinte e um toques ou notas bimbalhando ao longo do poema!
Mais dois detalhes:
1) A rima frouxa de “aspas” do quarto verso da primeira estrofe com a “graça” do último verso do dístico provoca uma ressonância significativa: o conhecimento desse “deus entre aspas” é capaz de deixar o leitor da Ética “em estado de graça”, como já dito antes! A ignorância ou a falta de conhecimento do que acontece na Natureza, ao contrário, pode nos levar ao pânico…
2) O jogo da palavra “vela” do segundo verso da primeira estrofe com o verbo “varar” do primeiro verso do dístico: ninguém precisa oferecer velas ao deus entre aspas spinozano, e é curioso que a luz da Ética, o livro que inspirou a corrente radical do Iluminismo na Europa, permite ao seu leitor materialista varar a noite, isto é, combater a escuridão do obscurantismo.
É a primeira vez que uso a palavra materialista neste texto. O motivo é que a filosofia de Spinoza, tendo sido considerada monstruosamente ateísta por muitos de seus críticos, pode sem dúvida ser considerada materialista, na mesma perspectiva de sua filosofia ancestral, a de Epicuro (341 a.C.— 271a.C.). É o que ensina a professora argentina Mariana de Gainza. No epicurismo, os deuses haviam criado o mundo mas dele se desinteressaram, refugiando-se nas esferas dos intermundos para gozar férias eternas. O mundo então continuou a se recriar por meio das metamorfoses, como narra Lucrécio, o grande poeta epicurista, no livro De Rerum Natura (Da Natureza das Coisas).
Já no spinozismo, “Deus” é a razão constituinte do universo concreto e dinâmico, cuja existência-essência tem a sua causa-razão em si mesmo, não sendo essa atribuída ou outorgada por nenhum espírito ou sujeito transcendente. Spinoza usou uma palavra da tradição filosófica para designar “Deus”, porém com um sentido inteiramente novo, heterodoxo, subversivo. Na verdade, desmantelou o antigo conceito da divindade. Por isso se diz, repito, que esse deus é entre aspas.
Filho de uma família de comerciantes judeus de origem portuguesa, Spinoza foi excomungado de sua sinagoga ainda muito jovem e, depois, rejeitado, como uma peste epistemológica, antes e depois de sua época, por filósofos da tradição, autoridades judias, católicas e protestantes, e também supostos materialistas pretensamente dialéticos, mas preguiçosos, que ainda hoje o veem como rabino, padre ou pastor, escorados na letra do nome, agora com outro significado, mas nem de perto respaldados na compreensão do seu espantoso conceito de “Deus”.
Declinação - O dublê de jornalista & poeta que daqui vos fala urbi et orbi declina, a despeito dos vestígios contrários, de qualquer disposição de refrega em torno de questões da religião, que reputa como um antro da superstição, na expressão do Spinoza. Acha, no entanto, que não é preciso acrescentar às divergências que nos separam mais bizantinices teológicas e discórdias em torno da ontologia. Ao contrário, a gente que é do campo democrático e popular necessita urgentemente encontrar pontos de convergência, para sermos capazes de sair do buraco em que o País caiu depois de ser empurrado por um bando de golpistas, adivinhem em nome de quem! Em nome do Deus da tradição, “acima de todos”, da Pátria über alles, e da Família (temos que achar um canto pra enfiar a “família”). O Spinoza classificaria esses desgraçados como bárbaros da pior espécie (ultimi barbarorum).
Para ambientar o clima de estado de graça a que o eu lírico chega ao final do poeminha em tela, faço agora a sugestão da sua leitura com o acompanhamento do Largo do Concerto para Teclado nº 5 em Fá Menor BWV 1056 do Bach, uma das peças mais bonitas do repertório, na minha opinião. Esse movimento pode ser ouvido aqui O concerto integral pode ser ouvido aqui
Há uma segunda razão, dessa vez político-ideológica, para a escolha dessa peça do Bach. (Para mudar de assunto, dou aqui um salto tripo mortal carpado que nem faz o átomo de Epicuro!)
Lá vai: o Spinoza disse que o único mandamento relevante de qualquer religião verdadeira é “amar o próximo”, princípio obviamente válido para qualquer sistema ético, seja de religiosos, agnósticos, ateus ou materialistas. Ora, o Bach já havia utilizado o tema do Largo do Concerto nº 5, na tonalidade de Fá Maior, na Cantata BWV 156, Ich steh mit einem Fuß im Grabe (Já tenho um pé na tumba). O texto da cantata foi baseada nos versículos 17 a 21 do capítulo 12 da Carta aos Romanos, de condenação da vingança e conclamação ao perdão dos inimigos; e nos versículos 1 a 13 de Mateus 8, em que se conta a história da cura do leproso pelo Cristo. A peça enfatiza, portanto, o valor do conselho de “amar o próximo”.
A leitura musicada do meu poema, seguida de algumas reflexões sobre a solidariedade, é a minha sugestão de programa cultural para a passagem do 1º de Janeiro, Dia da Fraternidade Universal!
Referências:
1) Marilena Chaui: A Nervura do Real, Imanência e Liberdade em Espinosa, Volume I (1999) e Volume II (2016), Companhia das Letras, São Paulo
2) Mariana de Gainza: Espinosa – Uma Filosofia Materialista do Infinito Positivo, 2011, Editora da Universidade de São Paulo.
Criado em 2020-12-31 01:48:53
Lusmarina Campos Garcia (*) –
Uma menina de dez anos engravidou do tio que a estuprava desde os seis anos de idade. A justiça do Espírito Santo autorizou o aborto. Interrupção de gravidez derivada de estupro é um dos casos admitidos pela lei brasileira.
A autorização judicial foi necessária pelo fato de a menina ser menor e, portanto, tratar-se de estupro de vulnerável. Não há dúvida de que este abortamento precisava ser feito, com a máxima urgência. Além da gravidez resultar de crime, ainda representava um risco para a vida da menina.
A violência sexual cometida contra meninas no âmbito da casa é mais frequente do que as famílias brasileiras querem admitir. É uma violência abrangente, posto que praticada contra mulheres de todas as idades. A gravidez de uma menina de dez anos que é estuprada pelo tio desde os seis é algo chocante, repugnante, é uma monstruosidade. No entanto, pergunto: e se a menina tivesse doze anos, seria ainda muito chocante? E se tivesse quatorze ou dezesseis?
O mecanismo de justificação do estupro é posto em moção quando se trata de estupro de mulheres adolescentes, jovens e adultas. Mas o princípio gerador da violência contra mulheres de outras idades é o mesmo que possibilita a violência contra uma menina de dez ou mesmo de seis anos. A violência sexual contra as mulheres não tem idade. E ela só existe porque há correntes de pensamento e instituições que a justificam, e mais do que isso, que a produzem.
O pensamento ocidental cristão é uma das fontes produtoras de violência contra as mulheres. Na medida em que utiliza uma hermenêutica bíblica a-crítica e constrói teologias de subalternização das mulheres, abre uma fonte abundante de produção de violência.
A luta por manter o aborto criminalizado é só um dos jorros desta fonte de violências abertas. Seguindo a tradição patriarcal-misógina do pensamento filosófico ocidental, os pais da Igreja identificaram a mulher como “a porta da entrada do diabo no mundo” (Tertuliano), “a representante da sexualidade e da carnalidade, o que a coloca num estado inferior e negativo” (Orígenes), “o animal mais daninho” (São Cristóvão), “uma besta insegura e instável” (Santo Agostinho). A sua “redenção” foi operada pela maternidade. Esta é a base da teologia patriarcal que até hoje mantém as suas garras sobre a vida e os corpos das mulheres cerceando-lhes a autonomia e a liberdade de ser quem são e de viverem a partir das suas próprias escolhas.
Com as mudanças sociais ocorridas a partir dos processos revolucionários dos séculos XVIII e XIX as mulheres tornaram-se sujeito de direito assim como força de trabalho relevante nas diferentes sociedades. Educaram-se e passaram a incidir sobre a vida social e profissional nos mais diversos âmbitos. Tornaram-se pessoas e cidadãs autônomas. No entanto, esta autonomia é rejeitada e combatida pela mentalidade patriarcal que ainda operacionaliza as relações sociais, profissionais, religiosas e familiares.
A autonomia das mulheres é percebida como ameaça para esta mentalidade que quer assegurar-lhes o lugar de reprodutoras, geradoras de filhos para os homens e de trabalhadores e consumidores para o mercado.
A menina grávida de dez anos, que é estuprada desde os seis, deve nos envergonhar como nação, e não pode permanecer como um caso isolado, porque não o é. Quantas meninas e quantos meninos de seis anos são estuprados nos lares brasileiros, cotidianamente, e nós não ficamos sabendo? Este caso precisa nos confrontar com as razões sociais, culturais e religiosas que permitem que ele exista e que continue se repetindo. Precisa igualmente gerar a responsabilização não só do homem que cometeu o crime, mas de todas as instituições, instâncias governamentais e grupos sociais que agem para que as fontes de violência contra as mulheres continuem abertas.
__________________
(*) Lusmarina Campos Garcia – Teóloga, biblista e pastora luterana da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).
Artigo publicado originalmente no site Cartas Proféticas.
Criado em 2020-08-18 14:36:37
Marcos Marcionilo (*) –
A vida na Grécia é um inesperado romance numa editora, à primeira vista, impensada. O autor é reconhecido como um dos linguistas de destaque na atualidade, autor também de obras infantis, juvenis e de poesia, além de tradutor com mais de 150 traduções publicadas. Suas obras mais divulgadas e lidas [pensemos em Preconceito linguístico, seu long-seller há 22 anos] estão no campo dos estudos de língua/linguagem. Nunca se soube que ele fosse romancista e, de repente, aparece ele com um romance… Temos um enigma em torno da aparição de A vida na Grécia — rapsódia. A editora, igualmente, leva vinte anos publicando no mesmo campo, pelo qual se notabiliza, pouco se sabendo, até agora, da vocação do autor e da Parábola Editorial para o romance. O lançamento aqui apresentado foge do que se conhece tanto do autor quanto da editora.
A vida na Grécia — rapsódia é um “romance de formação” em cujas páginas vamos acompanhar o trajeto de vida de Manuel, da infância à vida adulta. Manuel aparece inicialmente na infância como uma personalidade tímida, dotada de uma sensibilidade muito aguçada que lhe impede uma interação fácil com a maioria das pessoas e com o mundo circunstante. A “Grécia” do título se refere precisamente a esse desajuste, a esse “lugar distante” em que Manuel vive, muito para dentro de si. Ele vive num mundo que se manifesta em pedra, sua vocação é para o assombro, a cada tentativa de fazer laço.
Por outro lado, o “rapsódia” do subtítulo remete ao poético que impregna a prosa do autor. Bagno escreve para seduzir com um texto que simultaneamente abriga e desafia as(os) leitoras(es). Se “rapsódia” remete a “recitação de trecho de um poema épico”, “fragmento de um poema”, “epopeias de uma nação”, “peça musical”…, logo vemos que esse romance está todo tomado de poesia. Pouco se verá atualmente prosa tão poética e sonora quanto a que temos nesse livro. Conta-nos o autor:
“Foram 33 anos de escrita, reescrita, avanços e recuos, esquecimentos fingidos e lembranças duvidosas,
saudades de nada e suspeitas de tudo… A minha é uma Grécia toda particular, muito íntima, e às vezes me
pergunto se não teria sido melhor mantê-la oculta entre as pedras que amontoei ao seu redor. Mais de meia vida fantasiada de mito, disfarce
que mais revela do que esconde, como é próprio dessa coisa chamada palavra”.
A vida na Grécia levou 33 anos sendo escrito, sem que ninguém se desse a menor conta de sua construção, nem mesmo as pessoas mais próximas do autor. De repente, o romance se impõe a ele, que teve de dá-lo a lume. Extinguia-se a relação platônica com a escrita de um livro que exigia abandonar a forma ideal a que se tenta chegar pela escrita e pela reescrita, pela contemplação da forma. Confirma-o o autor: “Na verdade, a forma ideal que me habita a alma nunca será atingida”.
Tornou-se, então, imprescindível desenhar e imprimir esse romance inesperado, que é também um exercício de linguagem consciente, de exploração sem limites das possibilidades expressivas da língua. Registro disso é a própria nova forma de marcar os diálogos, numa construção de fluxo quase contínuo, com mínima separação entre o muito pensado e o tão pouco dito:
Essa escrita — ao mesmo tempo, clara e cifrada —acompanha o próprio percurso de Manuel na direção de seu objetivo de vida, que é tornar-se escritor. No decorrer da obra, também se veem todas as menções aos autores fundamentais para a escrita do romance, exercício que nos faz perguntar: nesse percurso, quem se torna escritor? Manuel? O autor? Mas o autor já é um literato experimentado e premiado… E quais serão esses autores, essas leituras que sua escrita evoca? Há muito a ver!
Então, vale dizer: estamos diante de um romance essencialmente intimista, em que cada capítulo captura o personagem num momento dado da vida, sem uma continuidade cronológica rigorosa, o que nos permite ir construindo o exercício para a vida [Bildung] de uma personalidade que, ao mesmo tempo, atrai e exaspera. Não são poucos nem breves os momentos do livro em que teremos de cegar nossos olhos para acompanhar com o coração o trajeto de Manuel. “Temor e tremor” aqui não são abstrações.
O resultado se traduz em deleite e inquietação. A experiência de leitura desse romance será impactante, assim como foi impactante a criação da obra:
“Eu mesmo ter de falar do que levei 33 anos escrevendo beira o impossível. O autor é quem menos tem a dizer sobre o livro,
a não ser factualidades. A gente mesma falar do que escreveu (no caso de ficção e principalmente
de uma ficção toda impregnada na poesia como é o caso) é um exercício de
desmantelamento da poesia. Melhor que outras pessoas falem” (Marcos Bagno, comunicação pessoal).
Falar desse livro e de seu inesperado não se faz sem a ousadia do mergulho na ficção confessional e exigente de um autor que [se in]surge em mais uma faceta de seu dom de escrita, num texto elevado e arrebatador.
Serão sempre insuficientes as palavras para falar dessa obra. O que propomos é a surpresa da descoberta da face inédita de um autor que vai, durante a vida, desdobrando talentos.
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(*) Marcos Marcionilo, da Parábola Editorial.
Texto publicado originalmente no blog da Parábola Editorial – leia aqui
Para a aquisição da obra na pré-venda clique aqui
Criado em 2021-07-28 21:09:12
Diante do mais recente ato de violência do presidente Jair Bolsonaro contra um jornalista em pleno exercício de sua profissão, o Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal (SJPDF), a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) divulgaram nota de repúdio.
A ABI falou que “falta compostura ao presidente”. O Sindicato e a Fenaj se solidarizaram com o repórter do jornal O Globo ameaçado e reiteraram pedido de impeachment já assinado pelas entidades representativas. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia tem evitado falar no assunto, e quando fala, sai pela tangente.
O Sindicato informa que estudará medidas judiciais cabíveis contra o presidente da República por este crime. “O trabalho da imprensa é fundamental numa democracia e não deve sofrer intimidações, quanto mais ameaça de interrupção por violência física”, diz nota.
Mais uma vez o presidente Jair Bolsonaro choca o país com seu comportamento grosseiro. Ao ser perguntado pelo repórter de O Globo sobre os sucessivos depósitos feitos pelo PM aposentado Fabrício Queiroz na conta bancária de sua esposa, o presidente respondeu afirmando que tinha vontade de “encher de porrada a boca” do jornalista, em declaração gravada.
“Tal comportamento mostra não apenas uma inaceitável falta de educação. É, também, uma tentativa de intimidação da imprensa, buscando impedir questionamentos incômodos”, disse Paulo Jerônimo, presidente da ABI.
Segundo o SJPDF, o presidente Bolsonaro coleciona um histórico absolutamente intolerável de ataques verbais, xingamentos e todo tipo de desrespeito ao trabalho da imprensa, mas neste domingo (23/8) ele conseguiu subir de patamar. Ao se negar a responder uma pergunta, Bolsonaro proferiu uma ameaça gravíssima de violência física contra um jornalista, que estava em pleno exercício do seu ofício.
Durante uma visita à Catedral de Brasília, o presidente foi questionado sobre as novas revelações de que seu ex-assessor, Fabrício Queiroz, investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, teria transferido cerca de R$ 89 mil na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro, entre 2011 e 2016.
Anota do sindicato, lembra que “ameaça é crime previsto no artigo 147 do Código Penal. Vindo de um presidente da República, que recebeu a incumbência e ainda fez o juramento de zelar pelo respeito à Constituição e às leis do país, torna-se um crime ainda mais grave. Até quando as instituições do país vão seguir fazendo vista grossa para um sem número de barbaridades e violações legais cometidas por este sujeito? Além de autoritário, Bolsonaro não sabe conviver com as regras mais básicas de uma sociedade civilizada e ainda demonstra um completo desequilíbrio emocional para estar à frente do cargo mais importante do país.”
Criado em 2020-08-24 00:30:18
Maria Lúcia Verdi –
Estão abertas ao público brasiliense duas mostras muito interessantes e que, de um modo sutil, dialogam. Uma no CCBB: Erwin Wurm – o corpo é a casa, com curadoria de Marcello Dantas; outra, na Galeria Fayga Ostrower, na Funarte: À vista – paisagem em contorno, com curadoria de Marília Panitz expondo trabalhos das jovens brasilienses Bruna Neiva, Cecilia Bona, Iris Helena, Júlia Milward, Karina Dias, Lucian Paiva, Nina Orthof, Raquel Nava e Yana Tamayo.
O que, para mim, une as duas mostras tem a ver, em primeiro lugar, com Lewis Caroll e sua Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho.
Como Alice, que se pergunta sobre a irrealidade do que vê e escuta, sobre a inversão, o exagero, o absurdo e a impossibilidade, nos indagamos sobre o provocador humor das esculturas, fotos e vídeos de Wurm, que reinventa objetos e situações, relê o corriqueiro que está em nosso entorno, fazendo com que nos perguntemos: será que não vale a pena olhar mais devagar para as coisas?
O que é uma “interpretação” da realidade? Também como Alice, vemos algumas das obras expostas na Funarte (sobretudo nos trabalhos de Raquel Nava) e nos dizemos: sim, isto também pode servir para outra coisa ou o que é a impossibilidade?
Em segundo lugar, penso em duas ideias centrais de Heidegger - a linguagem é a morada do ser e Ser é Tempo. Ele nos fala da linguagem como o que diferencia o ser humano dos outros entes - nessa linguagem incluídas a fala do silencio e do sonho. Muito silêncio e o sonho na mostra da Funarte.
Wurm instalou a maior de suas esculturas, A Casa Gorda, na Galeria de Vidro do CCBB. Esta imperdível obra, que diz um texto para um público às vezes perplexo, me parece reunir Gertrude Stein e Heidegger.
O desenho da adorável casa falante, além de evidentemente recordar as dobras do corpo, em sua arquitetura evoca o desenho da rústica cabana do grande filósofo alemão na Floresta Negra.
Duvidar do que se vê, se lê e se escuta. Resistir ao discurso da banalidade imposto pela Indústria Cultural – no perigoso novo realismo fantástico que é o deste século – algo de que tratam alguns dos vídeos de Wurm como “Conte!” e “Amo minha época, não gosto de minha época”.
O texto que a casa pronuncia poderia ter sido escrito pela vanguardista Stein – as repetições, as perguntas e afirmações simples, que forçam um repensar.
A obra de Wurm coloca no liquidificador uma série de pensadores e criadores (como se pode ver no Mapa Mental colocado na entrada) e produz algo ao mesmo tempo simples e surpreendente, como a instalação com 17 pepinos que se transformam, não apenas nos óbvios falos, mas em monólitos silenciosos, como num belo Koan a nos indagar.
Está presente numa divertida escultura Theodor Adorno - um dos teóricos da Dialética do Esclarecimento, filósofo que critica a Razão e valoriza a Arte por ela se conectar com o irracional e o contraditório, criador do conceito de “indústria cultural” - com seu corpo transformado num hambúrguer.
O nosso é um tempo em que tudo vira comestível, até mesmo as grandes ideias, divulgadas na rede em frases célebres.
As obras das jovens brasilienses, em sua maioria, também desconstroem a linguagem do olhar sobre objetos do dia a dia à vista nas paisagens.
Na Galeria se escutam, discretos, o ruído do mar (no ótimo vídeo beira ar, de Nina Orthof), do trânsito de Paris (Karina Dias e o vídeo de uma fresta horizontal que se desloca, revelando fragmentos de uma rua parisiense) e de pedras (o som predominante, no terreno instável: paisagem razão, de Cecília Bona) que rolam; as fotos do apartamento vazio de Bruna Neiva, no visita àninguém, expostas em círculo, apenas o sujeito em seu silencioso espaço-tempo.
Recortando detalhes, pinçando coisas, criando um conjunto que mapeia territórios (a ótima cartografia sentimental de Yana Tamayo), àvista desvela paisagens que são atentas, curiosas narrativas do efêmero.
Num mundo em que, nas palavras de Heidegger, “A luz da publicidade obscurece tudo” é oportuno visitarmos esses espaços críticos que estão na cidade. Levar as crianças, vê-las rir com as esculturas de Wurm, vê-las inventar as suas próprias criações interagindo com as propostas do artista na One minute sculptures (não percam o ótimo vídeo 56 Posições) que prenunciaram, nos anos oitenta, como lembra Marcello Dantas, o comportamento autorreferencial que a Internet iria popularizar.
Levá-las antes ou depois à Funarte, sentar nos bancos acolhedores que estão instalados no Parque Funcional, antes ou depois de visitar “à vista” e ver as crianças rirem com os bichos de Nava.
Deitar no céu que Carlos Silva nos oferece em seu lírico banco e dali observar o ícone maior de Brasília, levantando bem o pescoço.
Na Cidade, antes ou depois, o Ser no Tempo permanentemente colocado em questão por um céu inquietante que revela sem parar, em 360 graus, que, afinal, somos poeira de estrelas.
Criado em 2017-04-30 22:44:21
Romário Schettino –
O presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, acertou hoje (18/3) com o secretário de Cultura e Economia Criativa, Bartolomeu Rodrigues, o lançamento de um novo edital de cultura, no valor de R$ 750 mil. Essa decisão foi tomada para atenuar a crise instalada no setor cultural por causa da pandemia do coronavírus.
Este edital é emergencial e destinado especialmente aos pequenos empreendedores.
Além disso, ficou acertada a abertura de três linhas de crédito. Uma de microcrédito, de R$ 800 a R$ 15 mil, para empreendedores liberais ou inscritos no MEI, com 6 meses de carência e processo de adesão simplificado. Para os empreendedores culturais de porte médio, com 12 meses de carência e 60 meses para pagar, com taxa de 0,92%. E para os grandes empreendedores, com 6 meses de carência, 36 meses para pagar, com juros de 0,80% de taxa ao mês. O BRB aconselha buscar a agência do Conjunto Nacional.
O detalhamento de todas essas políticas emergenciais de crédito será divulgado ainda esta semana. Esse tipo de providência faz parte das sugestões levadas ao governador Ibaneis Rocha (MDB) pela Frente Unificada da Cultura do DF e protocoladas ontem (17/3) na Secretaria de Cultura.
A deputada distrital Arlete Sampaio (PT) também enviou hoje whatsapp ao governador Ibaneis Rocha sugerindo providências emergenciais para amenizar os efeitos "desastrosos da pandemia do coronavírus na cultura do DF".
Criado em 2020-03-18 20:36:38
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Amigo meu escreveu uma crônica sobre as festas de fim de ano, dizendo não saber a razão de fortes fontes de luz atraírem o povo em aglomerações em Copacabana, na Torre Eiffel ou na Times Square. Ele não se lembrou do fototropismo de Adoniran Barbosa:
As mariposa
Quando chega o frio
Ficam dando vorta
Em vorta da lâmpida
Pra sisquentá!
"Mariposas" aqui são as siriris, bililuias ou aleluias. Aleluias, irmãos, na virada do ano!
Como demonstram os sociobiólogos, as pessoas humanas - não confundir com as jurídicas - se comportam como insetos. Às vezes, abelhas, outras, cupins. Muitas pessoas jurídicas são saúvas ou gafanhotas, né!
Na América do Norte, a metáfora é ainda mais óbvia. Os insetos que lá ficam dando volta em volta da lâmpida são as mayflies (mairiposas), bugs da ordem dos efemerópteros, também conhecidos como efeméridas.
São João, Natal, Ano Novo - tudo é efeméride.
Pronto, está explicado o feromônio, digo, fenômeno!
Criado em 2020-12-28 20:53:18
Guilherme Cadaval (*) –
Quem já se aventurou pelas páginas da Genealogia da Moral de Nietzsche vai, sem dúvida, sentir um calafrio na espinha ao ver nomeado esse afeto que nunca ousa dizer seu nome. O ressentimento é um dos temas centrais da Genealogia.
Cultivado ao longo da mais duradoura e radical experiência do humano consigo mesmo, a domesticação que o encerra definitivamente no âmbito da sociedade e da paz, ele implica uma inversão de valores, através da qual os fracos subjugam os fortes. Pois aqueles denunciam na força destes a violência e a injustiça, uma vez que seu exercício seria questão de escolha, enquanto reinterpretam a sua própria fraqueza como renúncia e superioridade moral, numa vivência imaginária da vingança.
O ressentimento é próprio daqueles sujeitos que não se percebem ou não se sentem como agentes, para quem a ação parece impossível, e que, assim, resignam-se a reivindicar aquilo mesmo que não podem levar a cabo. Trata-se, evidentemente, de um tipo de afeto que pode lançar luz sobre diversas dinâmicas da contemporaneidade.
Por esse motivo, é certamente muito bem-vinda a reedição, pela Editora Boitempo, do belo livro Ressentimento, da jornalista e psicanalista Maria Rita Kehl (na foto, abaixo), lançado pela primeira vez nos idos de 2004. Kehl coloca o ressentimento nietzscheano em movimento, estabelecendo diálogos com a psicanálise freudiana, com a filosofia imanente de Baruch Spinoza, com a literatura de Shakespeare, Dostoiévski, Ramos e Márai, oferecendo-nos, por fim, uma leitura da esfera política.

Se Freud nunca trabalhou diretamente com o termo ressentimento (recusara-se o “grande prazer proporcionado pela leitura de Nietzsche”, talvez por angústia da influência: teriam, inegavelmente, muito em comum), ofereceu, por outro lado, uma rica constelação afetiva sobre cujo solo a interpretação do ressentimento pode vingar. O narcisista, o neurótico obsessivo, o histérico, o melancólico, embora não sejam exatamente os ressentidos por excelência, comungam de algumas das paixões que permeiam a existência do ressentido.
Mas é na passagem pela literatura, me parece, que o recalque é levantado, e o gozo é de uma vez liberado: entramos então em contato com o que Kehl chama a “estética do ressentimento”. Desde o disforme e monstruoso “Ricardo III”, peça que tem como seu “protagonista não nomeado” o ressentimento, até o general Henrik de As brasas, e a sua “vingança adiada”, no brilhante romance do húngaro Sándor Márai, passando pelo perturbado Raskolnikóv de Crime e Castigo, e pelo agreste Paulo Honório de São Bernardo [de Graciliano Ramos].
O que sucede no mundo e deixa marcas no corpo da literatura, é a passagem de uma época de tragédias históricas, como é Ricardo III – onde o caráter trágico dos acontecimentos envolvia indistintamente a vida pública e a vida privada e o destino do herói importava tanto quanto o da pátria – à época das tragédias individuais, como em As brasas, onde o drama do indivíduo comum, burguês, é alçado ao primeiro plano. A subjetividade moderna oferece terra fértil para o ressentimento: “os pressupostos do individualismo são determinantes para a construção do personagem ressentido”.
De fato, o ressentimento talvez seja o afeto característico da modernidade, a epítome do individualismo que ela dá à luz. Mas de que maneira pensa-lo como um afeto político? Contrariando, aparentemente, nosso título, Kehl diz o seguinte: “o ressentimento é o avesso da política”.
Ora, para nós, brasileiros e brasileiras deste tenebroso tempo presente, quem sabe não seja muito difícil entender por que esta jovem democracia chamada Brasil, emprenhada de sonhos e promessas de igualdade da Nova República, descambou num fracasso retumbante.
A igualdade simbolicamente antecipada não deu as caras na prática. Esta falta sendo experimentada como privação, produz, por sua vez, o ressentimento na política, o qual, cruzado com o paternalismo característico que marca nossa história, gera uma mistura tão perversa quanto explosiva.
Mas o ressentimento é o avesso da política, justamente na medida em que ele não se realiza naquilo que é a essência do político, a ação, senão que na reação: já dizia Nietzsche que o ressentido precisa antes de um outro, um “não-eu” ao qual diz não, para apenas depois poder formar uma imagem de si mesmo, para dizer sim a si mesmo – sua ação é no fundo reação. E não nos enganemos de supor que ele viceja apenas do lado da “direita”. Um certo purismo da esquerda, ao mostrar-se incapaz de analisar a sua responsabilidade pelas derrotas sofridas, também faz surgir este que não ousa dizer seu nome.
Aí está, contudo, uma indicação do caminho que talvez leve para além do ressentimento. Se até a ação política pode, por vezes, ver-se presa da reação, adotemos um certo fatalismo russo, deitando sobre o gelo o bem como o mal, os mais altos ideais e as mais amargas derrotas. Abraçar o revés e a sua responsabilidade, sem lançá-la na direção daquele que exerceu sua força e nos subjugou. Resta saber se existe gelo num país tropical.
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(*) Guilherme Cadaval é formado em Filosofia pela UFRJ, onde concluiu mestrado e doutorado. É autor de “Escrever a mágoa: um cruzamento entre Nietzsche e Derrida”.
Criado em 2020-08-06 18:21:33
Uma nova nota de repúdio ao uso indevido do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF) foi divulgada hoje (27/7) com a assinatura de dezenas de grupos e entidades ligadas ao movimento cultural da cidade.
No documento, os artistas, técnicos e produtores afirmam que “permanecerão atentos contra qualquer tipo de retrocesso, e irão se manter na luta em defesa da execução da Lei Orgânica da Cultura”.
O principal motivo deste alerta ao governador Ibaneis Rocha (MDB), ao secretario de Economia, André Clemente Lara de Oliveira, e ao secretário de Cultura, Bartolomeu Rodrigues, é o “momento crítico pelo qual passam todos os setores econômicos, incluído o setor cultural” em função da pandemia da Covid-19, que ainda não acabou e não tem data para terminar.
O movimento cultural alega ter notícias sobre a nova decisão dos gestores do GDF de desviar recursos do FAC para outras despesas em desacordo com a Lei Orgânica da Cultura, o que "pode gerar grave desestabilização na cadeia produtiva do setor”.
A seguir, a íntegra da nota de repúdio ao uso indevido do FAC:
“Movimentos de cultura, fóruns, coletivos, grupos, artistas, produtores, técnicos da cultura do Distrito Federal vêm manifestar repúdio, além da grande preocupação, às tentativas do GDF, por meio da Secretaria de Economia, de contingenciar o Fundo de Apoio à Cultura do DF (FAC), usando como base a Emenda Constitucional 109/2021.
É sabido que o FAC é o principal fomento do setor cultural, setor este que movimenta uma longa e complexa cadeia produtiva, gerando renda e empregos. Nosso setor encontra-se extremamente impactado pela pandemia da COVID-19, necessitando de políticas e incentivos por parte do Governo e não de contingenciamento do Fundo para usos outros não previstos na Lei Complementar 934/2017 (Lei Orgânica da Cultura). Ressalte-se que até o momento não há uma perspectiva real de retorno às condições de normalidade, portanto, artistas, técnicos e produtores não têm e não terão trabalho, com constância, para garantir sua sobrevivência e de seus familiares.
Não há o que justifique o governo apoiar e atender a vários segmentos econômicos do DF e penalizar um dos setores mais atingidos pela pandemia, o setor cultural. Ignorar a cadeia produtiva da cultura, não é só desprezo pelo fazer artístico, mas também é ignorar a contribuição desse setor à economia do DF.
Ressaltamos que no marco regulatório da cultura no DF, a Lei Complementar 934/2017 (Lei Orgânica da Cultura), no seu Capítulo IV, no que se refere ao FAC, garante o uso exclusivo desse recurso público ao setor cultural:
Parágrafo único: É vedado o contingenciamento ou o remanejamento dos recursos de que trata o inciso II do caput para atender a finalidades que não sejam relacionadas diretamente às finalidades do Fundo (FAC).
Neste momento crítico pelo qual passam todos os setores econômicos, incluído o setor cultural, temos notícias sobre a tentativa dos gestores em executarem esse recurso público em desacordo com a LOC. Isso posto, a utilização do Fundo para outros fins se torna ilegal, levando aos gestores apontamento por parte dos órgãos de controles e gera desestabilização ao setor cultural.
Esperamos que o Governo do DF, através da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, respeite minuciosamente a Lei 934/2017 - LOC e publique o segundo bloco de editais de 2021 da forma que está assegurado na Lei:
II – até 30 de abril, é lançado o primeiro bloco de editais, contendo todo o saldo do exercício anterior adicionado da metade da previsão orçamentária do exercício em curso, incluindo-se o disposto no art. 66, II;
III – até 31 de agosto, é lançado o segundo bloco de editais, com todo o saldo restante do exercício em curso, incluindo-se o disposto no art. 66, II.
Os profissionais da cultura do DF permanecem se posicionando contra qualquer tipo de retrocesso, e irão se manter na luta em defesa da execução da Lei Orgânica da Cultura”.
Assinam o documento:
Frente Unificada da Cultura do DF
Fórum de Teatro do DF
Fórum de Cultura do DF
Fórum de Circo do DF
Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo – ABCV
Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro – APAN
Associação de Produtoras de Cinema e Audiovisual de Brasília APROCINE
Associação Brasiliense de Apoio do Vídeo no Movimento Popular – ABRAVÍDEO
Associação dos Foliões de Reis do DF e entorno - AFOREIS
Associação dos Produtores em Economia Criativa do DF- ASPEC-DF
Associação de Produtoras Trabalhadoras de Arte e Cultura do Brasil - APTA
Movimento Organizado da Cultura no DF - MOC
Coletivo BackStage Brasília
Rede Urbana de Ações socioculturais - RUAS
Instituto Cultural Menino de Ceilândia
PÉ DiReitO
Trupe de Argonautas
Grupo Senta que o Leão é Manso
Casa da Cultura Brasília
As Caixeiras Cia de Bonecos
Cia Burlesca
Coletivo Criadouros
Coletivo Morada
BR SA Coletivo de Artistas
V4 Cultural
CIA Nós do Bambu
Nagual Consultoria em Arte e Economia Criativa
Seres mínimos teatro miniatura
Lambe Lambe e Animação
Carrossel de velotrol arte para a primeira infância
La Casa Incierta
Rede Cultura e Saúde Pontão de Cultura DF
Circo Teatro Payassu
Capital do Rock Produções Culturais
Banda de Pífanos
Bloco Ventoinha de Canudo
Cabaré da Nega
Cia Colapso
Andaime Cia de Teatro
Cia de Circo Teatro Sagrado Riso
Uniduniler Rodas as letras
Ponte Studio Gravações Ltda.
Colaboradores da Rádio Cultura FM
Cia. Yinspiração Poéticas Contemporâneas
Coletivo Alternativa BSB
Alecrim BR Produções Artísticas
Coletivo Folia com Respeito
Estúdio Molde.cc
Espaço Cultural Mapati
Mulheres em Dose Dupla
Não Matarás Coletivo de Artistas Visuais
Hiperespaço Produções
Bloco Carnavalesco Misto Suvaco da Asa
Grupo Caras Teatro Multifácico
Mulheres em Dose Dupla
Naná Maris Produções Culturais
Tribo das Artes
Teatro Goldoni
NAC - Núcleo de Arte e Cultura
Clube do Violeiro Caipira
VBS Produções - Viola Brasileira Show
Bloco do Samba do Peleja
Circo Teatro Udigrudi
Criado em 2021-07-28 01:47:56
Dilma Rousseff (*) –
O jornal Folha de São Paulo tem enorme dificuldade de avaliar o passado e, assim, frequentemente erra ao analisar o presente.
Foi por avaliar mal o passado que a empresa até hoje não explicou por que permitiu que alguns de seus veículos de distribuição de jornal dessem suporte às forças de repressão durante a ditadura militar, como afirma o relatório da Comissão Nacional da Verdade.
Foi por não saber julgar o passado com isenção que cometeu a pusilanimidade de chamar de “ditabranda” um regime que cassou, censurou, fechou o Congresso, suspendeu eleições, expulsou centenas de brasileiros do país, prendeu ilegalmente, torturou e matou opositores.
Os erros mais graves da Folha, como estes, não são de boa-fé. São deliberados e eticamente indefensáveis. Quero deixar claro que falo, sobretudo, do grupo econômico Folha, e não de jornalistas.
Quero lembrar, ainda, a publicação, na primeira página, de uma ficha falsificada do Dops, identificada pelo jornal como se fosse minha, e que uma perícia independente mostrou ter sido montada grosseiramente para sustentar acusação falsa de um site fascista. Mesmo desmascarada pela prova de que era uma fraude, a Folha, de forma maliciosa, depois de admitir que errou ao atribuir ao Dops uma ficha obtida na internet, reconheceu que todos os exames indicavam que a ficha era uma montagem, mas insistiu: "sua autenticidade não pôde ser descartada."
Quem acredita que as redes sociais inventaram as fake news desconhece o que foi feito pela grande imprensa no Brasil - a Folha inclusive. Não é sem motivo que nas redes sociais a Folha ganhou o apelido de “Falha de São Paulo”.
O editorial de hoje [22/8] da Folha - sob o título “Jair Rousseff” - é um destes atos deliberados de má-fé. É pior do que um erro. É, mais uma vez, a distorção iníqua que confirma o facciosismo do jornal. A junção grosseira e falsificada é feita para forçar uma simetria que não existe e, por isto, ninguém tem direito de fazer, entre uma presidenta democrática e desenvolvimentista e um governante autoritário, de índole neofascista, sustentado pelos neoliberais - no caso em questão, a Folha.
Todas as afirmações do editorial a respeito do meu governo são fake news. A Folha falsifica a história recente do país, num gesto de desprezo pela memória de seus próprios leitores.
Repisa a falsa acusação de que o meu governo promoveu gastos excessivos, alegação manipulada apenas para sustentar a narrativa midiática e política que levou ao golpe de 2016. Esquece deliberadamente que a crise política provocada pelos golpistas do “quanto pior, melhor” exerceu grande influência, seja sobre a situação econômica, seja sobre a situação fiscal.
A Folha, naquela época, chegou a pedir a minha renúncia, em editorial de primeira página, antes mesmo do julgamento do impeachment. Criava deliberadamente um ambiente de insegurança política, paralisando decisões de investimento, e aprofundando o conflito político. Estranhamente, a Folha jamais pediu o impeachment do golpista Michel Temer, apesar das provas apresentadas contra ele. Também não pediu o impeachment de Bolsonaro, ainda que ele já tenha sido flagrado em inúmeros atos de afronta à Constituição, e o próprio jornal o responsabilize pela gravidade da pandemia. A Folha continua seletiva em seus erros: Falha sempre contra a democracia, e finge apoiá-la com uma campanha bizarra com o bordão "vista-se de amarelo".
Um país que, em 2014, registrou o índice de desemprego de apenas 4,8%, praticamente pleno emprego, com blindagem internacional assegurada por um recorde de US$ 380 bilhões de reservas, não estava quebrado, como ainda alega a oposição. Na verdade, a destituição da presidenta precisou do endosso da grande mídia para garantir a difusão desta fake news. O meu mandato nem começara e o impeachment já era assunto preferencial da mídia, embalado pelas pautas bombas e a sabotagem do Congresso, dominado por Eduardo Cunha.
Os dados mostram que a “irresponsabilidade fiscal” que me foi atribuída é uma sórdida mentira, falso argumento para sustentar o golpe em curso. Entre 2011 e 2014, as despesas primárias cresceram 3,7% ao ano, menos do que no segundo mandato de FHC (4,1% ao ano), por exemplo. Em 2015, já sob efeito das pautas bombas, houve retração de 2,5% nessas despesas. As dívidas líquida e bruta do setor público chegaram, em meu mandato, a seus menores patamares desde 2000. Mesmo com a elevação, em 2015, para 35,6% e 71,7%, devido à crise que precedeu o golpe, elas ainda eram muito menores que no final do governo de Temer (53,6% e 87%) ou no primeiro ano de Bolsonaro (55,7% e 88,7%).
Logo ao tomar o poder ilegalmente, os golpistas aproveitaram-se de sua maioria no Congresso e do apoio da mídia e do mercado para aprovar a emenda do Teto de Gastos, um dos maiores atentados já cometidos contra o povo brasileiro e a democracia em nossa história, pois, por 20 anos, tirou o povo do Orçamento e também do processo de decisão sobre os gastos públicos. Criou uma “camisa de força” para a economia, barrando o investimento em infraestrutura e os gastos sociais, e "constitucionalizando" o austericídio. O Teto de Gastos bloqueia o Brasil, impede o País de sair da crise gerada pela perversão neoliberal que tomou o poder com o golpe de 2016 e a prisão do ex-presidente Lula. E, a partir da pandemia, tornará ainda mais inviável qualquer saída para o crescimento do emprego, da renda e do desenvolvimento.
Se a intenção da Folha é tutelar e pressionar Bolsonaro para que ele entregue a devastação neoliberal, que tenha pelo menos a dignidade de não falsificar a história recente. Aprenda a avaliar o passado e admita seus erros deliberados, se quiser ter alguma autoridade para analisar um presente sombrio de cuja construção participou diretamente.
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(*) Artigo publicado originalmente no blog da ex-presidenta Dilma Rousseff.
Criado em 2020-08-22 23:10:22
Maria Lúcia Verdi -
Maria Kodama, viúva de Jorge Luís Borges, apresentou quarta-feira (19/4), na UnB, para um auditório lotado e expectante, um ótimo paper acadêmico sobre a questão do Eu e do Outro, do Eu e seu Duplo na obra do grande argentino.
Perdeu, no entanto, a oportunidade de trazer ao público alguma reflexão, alguma informação, alguma lembrança que não poderiam ser encontradas online ou nas incontáveis obras que estudaram, em todo o mundo, a produção de seu ex-marido, professor e parceiro. Não creio que tal “perda” a preocupe...
Desconhecerá Kodama a Estética da Recepção ou não lhe importava qualquer interação com o momento presente, estar em Brasília pela primeira vez, ver auditório sedento à sua frente, inaugurando o programa dedicado a grandes 8 da Literatura Latino Americana?
Lendo o texto como para si mesma, levantando a cabeça uma única vez para sintetizar o enredo do “El cautivo”, com uma dicção difícil, foi pouquíssimo compreendida pela plateia.
Um texto que não abria facilmente brechas para perguntas, uma atitude que nada convidava a comentários.
Na fala introdutória, a Diretora do Instituto de Letras havia remarcado - curiosamente, pois me parece dever ser a Universidade espaço necessariamente crítico à nossa “sociedade do espetáculo” - a vocação da Universidade para os grandes espetáculos, prevendo aquela noite como um deles.
O Vice-Reitor havia mencionado em sua fala, por cinco ou seis vezes, a “mágica” a “magia” daquela noite devido à presença de Kodama entre nós.
Nem espetáculo nem magia - algo distante, correto, fechado.
Me pergunto o quanto da atitude de Kodama naquela noite nada mágica se deverá a um possível temor de eventualmente ser colocada frente a perguntas desagradáveis.
Maria Kodama criou uma questão internacional entre Argentina e França ao negar-se a autorizar a Editora Pléiade a reeditar os dois volumes elogiadíssimos das Obras Completas de Borges, publicados em 1993 e 1999, com tradução e Notas de Jean Pierre Bernès, amigo de Borges que com ele trabalhou durante seis meses no projeto.
Os supostos motivos são dois: um erro na menção da data de seu primeiro encontro com Borges enquanto uma menininha (Bernès teria mencionado uma data posterior) e, o que parece mais razoável, um ciúme desmedido do tradutor, que detêm as vinte fitas gravadas das conversas com Borges.
Kodama teve várias ações na justiça contra Bernès e outro estudioso argentino, tendo perdido todas.
É detestada pela maioria da intelectualidade argentina que a considera desrespeitosa em relação à obra do escritor, agindo como se fosse sua proprietária – e não a Humanidade – e não apenas sua herdeira.
Em 1983 tive a alegria de escutar Borges em Buenos Aires, três anos antes de sua morte, ao término de um curso sobre literatura argentina.
Tive a incrível ocasião de dirigir uma (balbuciante, quase muda) pergunta a um Borges elegante, gentilíssimo, delicado com o interlocutor, pleno de sutilíssimo humor, talvez também por isto muito me espantou a atitude da Presidente da Fundação Jorge Luís Borges.
Borges, creio, teria, creio, lamentado este não-encontro de sua ex com os brasilienses, ele, que tanto amava o Brasil e sua ascendência portuguesa.
Seria a origem japonesa de Kodama (por parte de pai) a responsável por tal, digamos, discretíssima performance? Não sei.
O que me incomodou foi termos perdido a ocasião de - quem sabe - ouvir algo mais, algum detalhe mínimo que fosse além do que já lemos, já estudamos, algo que nos fizesse sentir, pensar: Ah! É por isso que Borges se casou com ela...
Criado em 2017-04-21 15:59:48
Romário Schettino –
Se depender da Federação do Comércio do Distrito Federal (Fecomércio) o Espaço Cultural Renato Russo 508 Sul e a Rádio Cultura FM poderão ser administrados pelo Sistema Sesc-DF.
Assessores da Federação confirmaram que esse interesse está em negociação com o Governo do Distrito Federal (GDF), mas ainda não é possível saber se será uma concessão ou se o governo fará licitação, da qual disputarão o Sesc e outras entidades.
O secretario de Cultura e Economia Criativa, Bartolomeu Rodrigues, já havia anunciado em entrevista a este site que estava preparando edital para permitir a gestão compartilhada do Espaço Cultural 508 Sul e outros.
Este assunto chegou a ser ventilado na conversa que o secretário teve esta semana com a artista plástica Suyan de Mattos e a museóloga Ana Maria Frade, mas a única certeza é que a 508 Sul não será fechada e que, dependendo da parceria a ser acertada futuramente, a instalação de ar condicionado no teatro será uma das pré-condições.
Ao responder sobre a viabilidade de a secretaria apoiar a publicação de um mapeamento dos espaços culturais da cidade, o secretário disse que sim, desde que aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura (FAC).
Com relação a Museu de Arte de Brasília (MAB), Bartolomeu disse que pretende reinaugurá-lo em setembro, mas informou que há um problema técnico com a rampa de carga de descarga prevista sobre uma estação da CEB.
Resolvidos os problemas técnicos, o secretário afirmou aos seus interlocutores que o MAB vai ser o museu dos artistas de Brasília, será administrado pelo GDF e não fará parte de nenhuma parceria privada.
Sobre as obras do Teatro Nacional, a previsão, segundo Bartolomeu, é que sejam iniciadas ainda este ano, dependendo da liberação de dinheiro por parte da Caixa Econômica Federal.
Por fim, o que foi dito sobre o Memorial dos Povos Indígenas é que continua funcionando, mas com uma nova diretoria (o gerente hoje é Davi Terena), já que a anterior estava praticando comércio no espaço, o que não é permitido para produtos não-indígenas. Para o aniversário dos 60 anos de Brasília está programada nova exposição e eventos na área externa. Isto é, se o decreto do governador proibindo atividades públicas não estiver mais em vigor por causa da crise do coronavírus.
Criado em 2020-03-14 17:03:33
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) -
Isaac Newton nasceu no dia 25 de dezembro de 1642, pelo calendário juliano. Se alguém estiver pensando em sabotar o meu comentário, é bom lembrar que a Revolução de Outubro aconteceu no dia 25 de outubro de 1917, também pelo calendário juliano, ou 7 de novembro, pelo gregoriano.
Ora bem, o Newton nasceu no dia do Natal, um pleonasmo. Se você, cristão ou cristã, não quiser levar muita água pro moinho satânico do Crivella, do Malafaia e da Damares, sugiro preparar a ceia da noite do dia 24 para também comemorar o Natal do Newton!
A minha teoria, aliás, é que, depois do São Francisco, foi o Newton quem reinventou a árvore de Natal. Aconteceu exatamente do jeito que eu vou contar!
Em 1665, o Newtinho tinha 23 anos e estudava no Trinity College. Como a peste de Londres já grassava Inglaterra afora, ele resolveu fugir para a casa dos pais, em Woolsthorpe Manor, a 96 quilômetros de Cambridge. Ali, em completo isolamento social, desenvolveu o cálculo, estudou as cores, a luz e o espectro, e ainda por cima decretou a Lei da Gravidade. Foi por isso que chamaram 1666, o ano em que o Newton estava refugiado nas barras da saia da mãe, de annus mirabilis, ano miraculoso. Milagre? Bem, a linguagem religiosa ainda tem peso, né!
Todo mundo sabe que a Lei da Gravidade o Newton deduziu da queda da maçã na cabeça dele. Se tivesse sido uma jaca, nem é bom pensar, ele teria quebrado o coco, e o Universo seria uma bagunça até hoje, com as estrelas, planetas, sofás, cavalos, emas, inhoques e seringas flutuando de maneira espavorida e caótica, que nem acontece agora no Palácio do Planalto e no Ministério da Saúde.
Quando contou a novidade em casa, a mãe do Newton, dona Hannah Ayscough, duvidou. Daí o rapaz correu ao quintal, cortou um pinheirinho, catou uma dúzia de maçãs, as mais vermelhas, descolou um rolo de barbante e, pacientemente, amarrou as frutas na árvore. “Viu, mãe?”, disse o Newton, orgulhoso também porque a árvore da Natal já estava montada.
Obviamente, dessa vez, as maçãs não caíram no chão, seguras pelos barbantes retesados, outro fato de transcendental relevância na história da Física pois, séculos depois, daria inspiração para a Teoria das Cordas.
Como estou sem tempo para contar esse último dislate, resta dizer, para concluir, que a Damares, a ministra terrivelmente evangélica, tentou uma apropriação cultural da história do Newton com a narrativa tropical da visão de Jesus na goiabeira. Sem graça! (Evitei aqui o tabu da palavra "desgraçada")
Ah, sim! O termo Christmas é derivado do inglês antigo Crīstes mæsse (Christ Mass). Por isso estou pensando em criar um nome pra festa do Newton, juntando massa com o nome dele. Se bem que esse nome já tem ton, de tonelada. Sei lá! Vou trabalhar um pouco mais na minha forja de palavras e histórias do álcool da Velha.
Criado em 2020-12-23 21:11:32
Ulisses Capozoli (*) –
Aritana Yawalapiti, filho de Kanato, desde a manhã de ontem (5/8) não respira mais sobre a Terra, onde esteve ao longo dos últimos 71 anos.
Líder mais respeitado do Alto Xingu, dividindo prestígio com o primo, Kotok, líder dos kamaiurá, Aritana morreu vítima da epidemia de Covid-19 depois de uma longa e difícil batalha em que saiu derrotado. Ele era uma espécie de esteio cultural de seu povo e, por extensão de todo o Alto Xingu, ainda que sua atuação se estendesse por todo o parque, com seus 26.420 km², o dobro da Irlanda do Norte, mais de duas vezes e meia o Líbano e o triplo de Porto Rico.
A morte de Aritana, com sua liderança natural, firme e pacífica, identificada por Claudio Villas-Bôas (um dos célebres irmãos Villas-Bôas os criadores da reserva do Xingu para a proteção e sobrevivência de 16 etnias do Brasil Central) pode ser debitada à estúpida e criminosa recusa do governo em oferecer às populações indígenas, os primeiros donos do que agora é o território brasileiro, um mínimo de garantia fitossanitária contra a contaminação que varre o planeta como um demônio enlouquecido.
As duas últimas semanas de vida Aritana passou confinado em uma unidade de terapia intensiva (UTI) num hospital de Goiânia. Até chegar lá, no entanto, despendeu a energia que teria feito a diferença, caso tivesse tido atendimento pronto, negado sob a forma de veto pelo presidente da República a um plano de atendimento às populações indígenas contra as ameaças da pandemia.
Há três semanas ele estava em sua aldeia, junto ao rio Kurisevo, um dos formadores do Xingu, quando teve uma forte crise respiratória, diagnosticada em seguida como Covid-19. Inicialmente, ficou em Canarana, um dos portões de entrada da reserva indígena pelo Sul, mas sua saúde piorou sem que os médicos do parque tenham podido contar com socorro aéreo. Chegou a Goiânia ao final de uma viagem de dez horas a partir de Canarana, no interior de uma ambulância, respirando com ajuda precária de um cilindro de oxigênio.
Quando deixou o Xingu, segundo o depoimento de uma sobrinha, Ana Paula Xavante, mais de 50% de seu pulmão já estava comprometido. A morte de Aritana, uma das memórias de seu povo, é mais uma nódoa na imagem internacional do Brasil, ao menos em relação às populações sensíveis à proteção que culturas mais ameaçadas devem merecer antes que se transformem em imagem apagada do passado.
Aritana falava, além da língua de seu povo, do tronco Aruak, outras quatro, como a dos seus parentes próximos, os Kamaiurá, do tronco Tupi-Guarani. Desde a infância, foi preparado pelo pai, Kanato Tepori, para o resgate de sua gente e essa é mais que figura de linguagem. Quando os Villas-Bôas chegaram ao Xingu, comandando a Expedição Roncador-Xingu (para desbravar o Brasil Central como uma das consequências geopolíticas da Segunda Guerra Mundial) os Yawalapiti estavam reduzidos a sete sobreviventes. Orlando Villas-Bôas, e isso ouvi muitas vezes da boca dele mesmo, estimulou casamentos com os kamaiurá e assim os Yawalapiti renasceram.
Aritana passou cinco anos recluso em casa, recebendo ensinamentos do pai, tios e avós numa preparação para a tarefa que tinha pela frente. Sua gente havia minguado a partir dos anos 30 e só a miscigenação, que também incluiu os Kuikuro, do tronco Karib, permitiu essa dramática recuperação. Ouvi isso mais de uma vez de Aritana, em especial em um depoimento que me concedeu em 2011 para uma edição especial de Scientific American Brazil comemorativa dos 50 anos da reserva.
O Brasil é cada vez mais associado à destruição, incêndio e morte no interior da maior floresta tropical da Terra, a Amazônia, majoritariamente concentrada aqui, e a morte de Aritana divulgada por agências internacionais de notícia já aparecem nas páginas dos jornais e mídia social de todo o mundo.
Há um fascínio e um profundo temor pelo que acontece por aqui e também isso não é mero acaso. O Brasil ainda tem sertanistas, gente especializada no contato com povos isolados, no sentido de estarem separados da sociedade exterior, que parte da mídia chama de “civilização”. Como se as culturas originais, que permitiram a sobrevivência de nações inteiras no interior da floresta, e ainda hoje assegurem isso a pequenos grupos, não tivesse consistência e valor legitimados.
Certamente é o caso de acrescentar que os “povos isolados” são gente que não teve qualquer contato com a sociedade exterior desde que Cabral desembarcou por aqui. Ao contrário. Eles tiveram e, traumatizados pelo que viram e sofreram, decidiram recuar e procurar abrigo na floresta profunda que agora é vítima do desmatamento, do fogo e de hordas de garimpeiros, também eles resultado de uma social desigual e marginalizadora.
Aritana, por formação cultural e característica pessoal, era um líder conservador, no sentido literal da expressão. Na longa conversa de 2011, comprimida em duas páginas da edição especial de Scientific American Brazil, ele falou do temor pelo turismo desenfreado, invasão de pescadores, represas de menor e grande porte, como Belo Monte, além do encantamento de jovens indígenas por motocicletas, pela vida na cidade que ele acreditava ameaçada por alcoolismo e drogas em geral e também da dificuldade de seduzi-los para uma função estratégica da cultural indígena, a pajelança.
Apenas essa última referência-espaço-ilimitado de reflexão e interpretação do que os “brancos” chamam de “realidade”. Aritana não disse, mas deixou claro, a diferença entre uma sociedade mágica, espiritualizada e ritualística e uma sociedade, digamos, cartesiana, mas esvaziada até mesmo dessa possibilidade, pelo consumismo, alienação e competição que um índio é incapaz de imaginar como estilo de vida.
A morte de Aritana, em uma idade em que poderia fazer muito por seu povo e por todo o Brasil, ainda que muitos sejam incapazes de perceber essa possibilidade, é tanto um lamento quanto um alerta. Mais um. Cada dia mais evidente e dramático em uma sociedade submetida a um brutal processo de aniquilação. Quem tiver interesse em conhecer os cenários possíveis por aqui, talvez possa encontrar resposta em um clássico: o livro Enterrem meu coração na curva do rio, de Dorris Alexander Brown, Dee Brown, escritor e historiador sobre a sanguinária aniquilação de populações indígenas nos Estados Unidos, mostradas em faroestes vivenciados por atores reacionários como John Wayne.
Ah! Sim. Essa é a fonte da expressão “brancos” para se referir a não indígenas. Injustificada para um pais com perfil como o do Brasil. Aritana, o corajoso e sábio conciliador, no sentido mais nobre dessa expressão, fará falta imensa. E ela já começa a se fazer sentir.
______________
(*) Ulisses Capozoli escreveu este artigo na sua página do Facebook
Criado em 2020-08-06 17:20:22
Vários poetas brasileiros se reuniram hoje, 26 de Julho, online no Facebook, para ler poesias em Solidariedade à Revolução Cubana. O recital foi organizado por Cláudio Daniel e os Três Mal-Amados.
De todos os belos poemas recitados, publicamos aqui três poesias das brasilienses Angélica Torres, Maria Lúcia Verdi e Luciana Barreto. Além dos poemas da cubana Mirta Aguirre (18/10/1912 – 8/8/1980), traduzida por Angélica Torres e Hélio Doyle; do cubano Miguel Barnet (28/1/1940), traduzido por M. L. Verdi, e de Roberto Fernández Retamar (9/6/1930), traduzido por Tradução de Jeff Vasquez.
Essa é uma justa homenagem à Revolução Cubana no momento em que os Estados Unidos redobram seus esforços para tentar destruir o que resta da economia de Cuba. Após 60 anos de resistência e dezenas de Resoluções aprovadas na ONU contra os embargos econômicos estadunidense, o povo cubano continua recebendo solidariedade dos brasileiros.
A seguir, os poemas escolhidos:
Caribenha
Angélica Torres
Epifania no mapa
das minhas crenças
: a Ilha sob o fogo
violeta do planeta.
Cuba Velha
Havana Bela
descaso do mundo
Nuvens se esgarçam
sobre suas luzes.
Asas que me trazem
de volta arrastam
para ela meu olho.
Em meu peito incendiado
por sua luta à liberdade
o crepúsculo ecoa.
(Poema de 1997, publicado no livro O Nome Nômade, em 2015)
-x-x-x-x-x-x-
Canção Antiga a Che Guevara
Mirta Aguirre
Onde estás, cavaleiro Bayardo,
cavaleiro sem medo e sem mácula?
-- No vento, senhora, na fenda
que aciclona a chama em que ardo.
Onde estás, cavaleiro bonito,
cavaleiro sem mácula, destemido?
-- Na flor que à minha vida consinto:
no cardo, senhora, no cardo.
Onde estás, cavaleiro o mais puro,
cavaleiro o melhor cavaleiro?
-- Acendendo a tocha guerrilheira
no escuro, senhora, no escuro.
Onde estás, cavaleiro o mais forte,
cavaleiro da aurora incendida?
-- No sangue, no povo ferido,
na morte, senhora, na morte.
Onde estás, cavaleiro já inerte,
cavaleiro já imóvel e andante?
-- Naquele que tem meu escudo
e a sorte, senhora, a sorte.
Onde estás, cavaleiro de glórias,
cavaleiro entre tantos primeiro?
-- Na saga da morte que morro
fazendo História, senhora, História.
(Tradução de Angélica Torres e Hélio Doyle)
-x-x-x-x-x-x-
Isla Infinita
Maria Lúcia Verdi
Cuba que me povoa, me tira o sono
Me alerta, me questiona
Essa Cuba que me desperta
essa ilha, esse espaço de sonho que desconheço
onde lutei por liberdade em 59
Esse território ancestral, atávico, além do limite da ilha,
a isla infinita de que falou Cíntio Vitier
Desde o meio da noite me pergunto
sobre esse espaço de luta
E por fim escuto vozes, ecos distantes
Escuto vozes que desde sempre clamam
Em todas as línguas, o mesmo
Vozes que não silenciam
Que repetem o mesmo grito
E compreendo:
essa ilha infinita está na fala que exige por lá
e em toda parte
soberania, justiça, autonomia
Em Cuba lateja um desejo, universal desejo
Latejando lá, lá onde os símbolos resistem
-x-x-x-x-x-x-x-x-
Che
Miguel Barnet
Che, tu sabes de tudo
As curvas e meandros da Serra,
A asma sobre a grama fria
A tribuna
As ondulações na noite
E até de que são feitos
Os frutos e as parelhas de bois
Não é que eu queira trocar tua pistola
Por uma caneta
Mas és tu
O poeta
(Tradução de M. L. Verdi)
-x-x-x-x-x-x-x-x-
1959
[Em solidariedade a Cuba]
Luciana Barreto
Por vezes a travessia não transcorre
em deserto-mares-miragens
mas em solo
em selva
em serra
na marcha-a-marcha resoluta
no brado audaz de homens bons
Por vezes travessias alcançam
aquele ponto do mapa e do atlântico
aquela ilha riscada a faca
(as margens são firmes
as muradas, magníficas
e as ondas rebentam dentro)
Ali no gesto-a-gesto destemido
o coração rubro da revolução
a fuga rasteira do tirano
E nos ombros da latina América
o aceno largo
a flor-mariposa
a guitarra antiga
a alegria há tanto guardada
Em azul, blanco y rojo
o milagre possível
incandesce comovido
: el Tocororo
– enfim –
reacende o canto
estende as plumas
recobra o voo
e – em paz –
tolda o mundo.
(*) Tocororo é o pássaro-símbolo de Cuba.
-x-x-x-x-x-x-x-x-
Felizes os normais
Roberto Fernández Retamar
Felizes os normais, esses seres estranhos,
os que não tiveram mãe louca, um pai bêbado, um filho delinquente,
casa em lugar nenhum, uma doença desconhecida,
os que não foram reduzidos a cinzas por um amor devorador,
os que viveram os dezessete rostos do sorriso e um pouco mais,
os cheios de sapatos, os arcanjos com chapéus,
os satisfeitos, os gordos, os lindos,
os rintintin e seu séquito, os que “como não, por aqui”,
os que ganham, os que são queridos dos pés à cabeça,
os flautistas acompanhados por ratos,
os vendedores e seus compradores,
os cavalheiros ligeiramente sobre-humanos,
os homens vestidos de trovões e as mulheres de relâmpagos,
os delicados, os sensatos, os finos,
os amáveis, os doces, os comíveis e os bebíveis.
Felizes as aves, o estrume, as pedras.
Mas que deem passagem aos que fazem os mundos e os sonhos,
as ilusões, as sinfonias, as palavras que nos destroem
e nos constroem, os mais loucos que suas mães, mais bêbados
que seus pais e mais delinquentes que seus filhos
e mais devorados por amores calcinantes.
Que lhes deixem seu lugar no inferno, e basta.
(Tradução de Jeff Vasquez)

Criado em 2021-07-27 02:32:37
Luiz Inácio Lula da Silva -
O editorial da Folha de S. Paulo de sábado (22/8) é uma ofensa à presidenta Dilma Rousseff, uma agressão à verdade histórica e um desrespeito, mais um, aos leitores do jornal e à sociedade brasileira.
Dilma Rousseff, uma pessoa honesta e dedicada ao Brasil, foi vítima de uma campanha de mentiras e seu governo foi alvo de uma sabotagem articulada por setores inconformados com o resultado das urnas de 2014.
A Folha teve papel decisivo naquela articulação, colocando-se mais uma vez a serviço do que há de pior em nosso país: a ganância dos extremamente ricos numa sociedade desigual e injusta; a intolerância dos poderosos diante de qualquer projeto de transformação desta sociedade.
A presidenta Dilma já deu ao infame editorial a resposta indignada que se espera de uma pessoa mais do que injustamente ofendida. Expôs a verdade dos números e dos fatos sobre seu governo. Pôs a nu as mentiras da Folha neste e em outros episódios que deveriam envergonhar os donos de qualquer jornal.
Participei de todas as eleições presidenciais no Brasil desde 1989 e posso afirmar que nenhum outro candidato sofreu igual perseguição e preconceito por parte da Folha, como aconteceu com Dilma Rousseff.
Diante de uma candidata que lutou contra a ditadura, a Folha publicou uma ficha falsa do DOPS e chegou a inventar um atentado contra um ministro para criminalizar, no presente, a resistência corajosa da jovem Dilma num passado em que o jornal apoiava os torturadores em seus textos e até materialmente.
A Folha que insistiu na mentira sobre uma jovem militante dos anos 1970 é a mesma que, nas eleições de 2018, tratou como irrelevante o passado de um candidato que, assim como o jornal, apoiou os torturadores. Um candidato que confessou ter tramado um atentado terrorista no centro do Rio de Janeiro quando o Brasil já vivia a redemocratização que ele nunca aceitou.
Não tenho dúvidas em afirmar que o ódio dos donos da Folha a Dilma passa por sua condição de mulher. Não pode haver outro motivo para o jornal ter publicado uma ordem proibindo chamá-la de presidenta, no feminino, até nas cartas de leitores, quando Dilma passou a assinar atos oficiais desta forma.
A realidade é que os donos do jornal jamais toleraram a eleição e o governo de uma mulher que enfrentou a ditadura dos torturadores no passado e hoje enfrenta a ditadura da mentira que veículos de comunicação como a Folha querem impor.
Sempre soubemos de que lado está um jornal que defende o teto de gastos, o suicídio fiscal que condena a educação, a saúde e o investimento público. De que lado está quem defende a agenda neoliberal de Paulo Guedes, a privatização selvagem, a demolição dos direitos dos trabalhadores.
A Folha está com Bolsonaro e contra Dilma e o projeto de país que ela representa, sempre esteve. Depois deste editorial infame, muitos ficaram sabendo também que os donos deste jornal são covardes e misóginos, porque para defender seus interesses não vacilam em atacar uma mulher honesta e digna como eles nunca foram.
Criado em 2020-08-23 23:17:51
Maria Lúcia Verdi –
Melancolia - tristeza do sujeito frente ao mundo, desânimo, incapacidade de agir.
Não a melancolia do luto, da perda concreta, mas aquela do desencanto frente ao que parece impossível ao ego de compreender e aceitar.
A melancolia nos recorda o que falta – é o traço que fica de um sentimento que conhecemos um dia e desapareceu, deixando em seu lugar um buraco, uma sombra.
Lembranças boas da infância, de um amor terminado, de um engajamento importante.
Ilustra este texto a antológica pensativa figura alada de Albrecht Dürer (Melancholia 1, 1514).
Ela olha com desencanto - acompanhada de instrumentos da ciência e da geometria, além de símbolos da pesquisa alquímica e da arte - um mundo frente ao qual se sente impotente - a impotência da razão renascentista ainda afetada pela imaginação medieval.
Na obra São Jerônimo Dürer apresentará o antídoto a esta Melancolia: a serenidade do Santo absorto no estudo.
Espinoza também contrapõe o conhecimento, a alegria que dele pode advir, como a “salvação” frente à melancolia.
Pensar é fundamental, buscar a compreensão, por mais que ela tenha como condição um por vezes assustador velamento; talvez, sobretudo nos dias de hoje, em que o fantástico da informatização pode nos fazer sentir, em ilusórios momentos, como alquimistas embriagados de certezas.
Pensar é duvidar.
É triste, é melancólico, observar o que está ocorrendo aqui e no mundo no âmbito da política. Na esfera de um discurso único - o do Capital que corrói, o dos interesses econômicos que justificam, sem justificar, qualquer ato individual ou dos Estados -, num mar de bílis negra, tentamos enxergar alguma verdade que possa restituir-nos a esperança, a vontade de agir, a boa ira que alimenta transformações.
Mas a realidade pesa, parece impossível encontrar esse caminho e nos deixamos engolfar pela melancolia.
A saída saudável é a de que nos falaram há muito Espinoza e Montaigne: a busca do autoconhecimento, a reflexão, o estudo, a persistência, o compromisso consigo e com ideias que se mostrem sólidas, úteis, que tragam em si, agrego, algo do sabor animador das extintas utopias.
Criado em 2017-04-15 00:22:02