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Página 20 de 95

Um estrangeiro bom de chute

 Luiz Martins da Silva –

Corria a vida no seu de sempre e na morosidade dos cotidianos do bairro de baixo, quando um dos meninos do bairro de cima apareceu no nosso território, tudo bem, o mundo não é de ninguém.

O estrangeiro veio se aproximando, de longe e aos poucos, com rodeios, feito fera covarde que espreita o terreno para devorar os mais fracos. Dito e feito. Ele escolheu sua presa e sem razão alguma chutou as bolinhas de gude do Manézinho.

Cada um de nós, isto ficou conversado, quis reagir, mas, a surpresa maligna nos deixara sem ação. Porém, nos sentimos muito mal e cercamos o Mané, dizendo que isto não ficaria assim, que a honra dele seria lavada, se preciso com muito sangue.

O Manézinho, coitado, aí é que o bichinho ficou mesmo aturdido. Não, por favor, não, esta maneira não é boa para mim, eu prefiro ficar assim, depois, ele me pega uma hora sozinho e vai descontar em mim, ele é valentão, e é daquele povo mal, os forasteiros.

O sentimento coletivo foi mais forte e o Zeca, que já tinha 14 anos e era parrudo, convenceu. Que nada, ele levando um corretivo, amofina, nunca mais vai ter petulância. E se você não quiser ir junto, Mané, nós compreendemos, você fica na sua, deixa isso com a gente.

No dia combinado, o primeiro sucesso foi cada um ter conseguido mentir em casa, dizendo que um professor havia passado um trabalho de grupo e que a reunião para isto seria naquela tarde. O Manézinho, para não desmentir os colegas, acabou tendo de ir junto, morrendo de medo, não queria violência, sangue, jamais.

Ninguém levou arma, a não ser cadernos e lápis, isto fazia parte do disfarce de dever de casa. Mas, coincidência, todos tinham nos bolsos das calças as suas bolinhas, como que por instinto, a brincadeira seria um modo de comemorar, depois. Mas, faro de fera é fino, quem disse que o estrangeiro apareceu? O jeito foi irem a casa dele. Que coragem! E se ele tivesse irmãos, e ainda mais valentes? E se o pai dele fosse o mestre das brutalidades?

A casa deles, casa boa do bairro alto, tinha uma calçada, uma mureta, um jardim interno e a entrada era limpa, alinhada, cimento vermelho polido, coisa decente. E agora? Todos quietos, então, o Zeca se moveu: abriu a cancelinha de ferro, e aquele rangidinho ressoou medo na espinha, qualquer coisa, coisa de bando, sairiam correndo.

O Zeca tocou a campainha e voltou rapidinho. O grupo ficou parado, esperando, armados com os seus cadernos, lápis e as bilocas no bolso. Bingo! Quatro a um, o um foi quem veio abrir a porta. O susto foi grande, pois ele bateu a porta, correu para dentro. Vamos ficar um tempo aqui, determinou o Zeca. E se nada acontecer, o recado já está dado.

Quem apareceu foi a mãe do menino valentão, uma senhora elegante, decente, vistosa, cabeça erguida, pronta para defender a cria e enfrentar até um pelotão de infantaria. O que se passa aqui? Foi logo dizendo. Nada, respondeu o Zeca, é que nós viemos chamar o colega para uma partida de chutar biloca, uma novidade que ele inventou no recreio.

A mulher não era besta, percebeu o conjunto da situação, pediu um momento e voltou para dentro de casa. Até que demoraram pouco. Ela voltou com o menino aos prantos, com a cara pra baixo e pedindo desculpas. Ou seja, no arrocho, ele contou a porcaria que tinha feito. Tá desculpado, assunto encerrado, o Zeca foi bem positivo.

Mas, a mãe do menino é que ainda não se dera por satisfeita. Então, disse ela, se vocês, de fato, perdoam o que ele fez, então, cada um de vocês vai dar um abraço nele. E foi o que aconteceu. Foi um chororô. Todo mundo derramando lágrimas, abraçando o estrangeiro, a mãe dele também era toda abraços.

Agora vão, disse ela. E fomos. E foi assim que o Maurício ficou sendo um dos nossos melhores amigos.

Criado em 2020-08-22 17:49:26

Quem é este homem?

José Carlos Peliano (*) –

Que José este que teve uma vida
proveitosa, feliz e também fina
todavia em dar aos pobres guarida
fazendo o melhor do velho à menina?

Quem por seu nome assim simples indica
com pouco viver desde seu nascer,
onde às pessoas no mundo se aplica
ganhar sempre, sem ninguém esquecer?

Que José esse do Cone Sul é
que sabe coisas que a poucos importa
pois a eles saber não se dedica?

Grande homem da cabeça a cada pé
que o amor a vida a ele não corta?
Do Uruguai José Pepe Mujica
______________
Quién es ese hombre

(JCP)

¿Qué José es el que tuvo una vida
provechosa, feliz y también rica
pero de dar a los pobres guarida
de hacer lo mejor del viejo a la chica?

¿Quién con su nombre así tan simple indica
vivió con poco desde la partida,
en el mundo que la gente se aplica
a querer siempre, pero a nadie olvida?

¿Qué José ese de cono sur es
que supo cosas que a pocos les llega
sabiduría pues no les dedica?

Gran hombre de la cabeza a los pies
que a él la vida el amor no le niega?
De Uruguay José Pepe Mujica
_____________
(*) José Carlos Peliano, poeta, escritor e economista.
(**) Revisão feita por Leonardo Lazarte

Criado em 2021-01-09 18:05:23

A guerra clássica e o fim da hegemonia anglo-saxã

Roberto Amaral (*) -

“Ninguém cede poder por boa vontade. Olhando para a história, mudança na ordem mundial é um processo multifacetário, alongado, com lances imprevisíveis e necessariamente sangrento. A mudança não será pacífica. Hegemonia internacional rima com hecatombe.  O sangue correrá em proporções inimagináveis”. Doze Perguntas - Manuel Domingos Neto (5/3/2022)

A guerra da Ucrânia ainda não é o armagedon do Ocidente, mas pode chegar até lá, porque a batalha real, que se trava em todos os quadrantes do planeta, diz respeito à disputa da nova ordem mundial, anunciada pelo encontro da emergência da China com a decadência dos EUA.

Essa guerra, global, estratégica, permanente, já se opera em todos os níveis, tanto no plano econômico quanto no plano político, diplomático, nas esferas ideológica e comunicacional. (A propósito, a cobertura oferecida pela Rede Globo revela seu extremo engajamento, ou seja, uma extremada parcialidade. Não se trata, porém, de fato isolado. Ela segue o padrão dominante da mídia internacional, que copia a linha editorial do The New York Times).

A novidade nessa guerra, é o ensaio bélico levado a cabo na Ucrânia, que cobrará imprevisível rol de vidas humanas perdidas. Pode ser o preludio do choque inevitável que os deuses do Olimpo intentam adiar, enquanto os guerreiros aqui na Terra afiam suas adagas.

À Ucrânia foi destinado o papel do molusco na briga entre o mar e o rochedo.  Pagará alto preço.

No centro do conflito armado – um dos cenários do confronto global, político, econômico, estratégico - temos um ator que não se apresenta no ringue, a saber, os EUA, a inteligência que comanda o espetáculo remotamente, como um videogame monstruoso, pois seus personagens são reais: soldados, homens e mulheres, velhos e crianças. A personagem que aparece é o presidente da Ucrânia, marionete dos EUA, a quem se deve o golpe de Estado que derrubou o presidente Viktor Ianukovytch, ponto de partida para tomada do poder pela extrema direita.

Coube-lhe dar a motivação da crise com o pedido de ingresso da Ucrânia na OTAN, e ao permitir a instalação em seu território de artefatos de destruição em massa, na fronteira com a Rússia. Era cutucar o velho urso com vara curta.

O mundo todo, aterrorizado, clama pela paz ante a agressão da Rússia. O que, porém, significa defender a paz num conflito como o que se dá na Ucrânia? Condenar a Rússia e exigir sua rendição, sem garantias? Ignorar que as ações empreendidas por EUA/OTAN há pelo menos 15 anos são, também, atos de agressão? Ou considerar que não houve invasão do território ucraniano pelas tropas de Moscou?

Mas o adversário é a China, atingida por tabela, na medida em que o conflito põe em xeque seu principal aliado, a Rússia.  A Ucrânia não é sujeito no processo. 

A estratégia norte-americana até aqui funcional, é levar a Rússia (o maior estoque de artefatos nucleares e o segundo exército do mundo) à exaustão, como levou no século passado a URSS à debacle, forçada a uma corrida bélica superior aos seus recursos. Sua tática é promover a guerra por procuração, livrando-se dos percalços sofridos lá atrás no Vietnã, e mais recentemente no Afeganistão. A Ucrânia, assim, é uma contingência, quase um experimento, e a guerra uma oportunidade de ouro para o complexo industrial-militar de que nos falou o general Dwight D. Eisenhower, no discurso de transmissão da presidência dos EUA a John Kennedy, responsável pela fracassada invasão de Cuba (1961).

Assim, a continuidade desse conflito e a abertura de outras frentes, principalmente fora da Europa e longe dos EUA, atendem a uma vasta gama de interesses, dos mais variados matizes.

Como dito, a guerra, no momento, atende ao planejamento do Império, empenhado em impedir ou adiar a troca de guarda com a China, o que explica a OTAN (sob seu diktat) rejeitar a hipótese de uma Ucrânia neutra, negando à Rússia as garantias de segurança que os EUA e toda potência militar consideram como direito inalienável.

A resistência à Rússia visa a enfraquecer o principal aliado da China, de resto também ameaçada pelo poder de fogo dos EUA instalado em Taiwan, um verdadeiro “porta-aviões terrestre”, a apenas 230 quilômetros de sua costa. A Ucrânia é o sparring que os EUA escolheram para desafiar a Rússia. Esta, por seu turno, invadindo sua vizinha, ferindo sua soberania, nutre a esperança de livrar-se da instalação de mísseis da OTAN em suas fronteiras.

A guerra, no atual estágio, ainda um foco isolado na Europa (enquanto o morticínio corre solto no Oriente) tem por objetivo tático enfraquecer a coalizão eurasiana. Os EUA jamais considerarão uma troca pacífica de poder, como aquela oferecida pela autodissolução da URSS, e nada sugere que a China e seus aliados, com destaque para o poderio bélico russo, aceite como fato natural o desafio do “Ocidente”, na contramão do processo histórico que anuncia, para além de uma nova governança mundial, o fim da hegemonia anglo-saxã, no pódio desde 1815, trazendo em seu prontuário dois séculos de colonialismo e imperialismo, duas guerras mundiais, um incontável número de guerras localizadas, guerras terceirizadas, invasões e genocídios.

Moscou, com a China às suas costas, e na atual contingência, luta para sobreviver; não pode perder, pois a brutal alteração do quadro de forças pode precipitar o conflito EUA/Otan x China/Rússia - o que, presentemente, não interessa a nenhum dos contendores.

A estratégia chinesa conta com o arsenal atômico da Rússia e a experiência de suas forças armadas. A negociação, o fim da beligerância significando um armistício em face do conflito maior entre as duas coalizões, encontra, porém, uma barreira na lógica da guerra: pois quanto mais durar o conflito, mais a Rússia enfrentará dificuldades (econômicas e políticas), e mais ganharão os EUA e seus aliados. Além do alto custo de uma guerra, não se deve subestimar o peso das sanções econômicas em proporção jamais vista.

De outra parte, o conflito constitui   preciosa fonte de recursos para os EUA e seus aliados, sôfregos pela venda de armas e equipamentos, pela conquista de mercados, pelo estabelecimento de áreas de influência, pela desestabilização de concorrentes. 

Enquanto esse for o cenário, não interessará aos EUA qualquer sorte de negociação. Sua tática deverá ser a de esperar a exaustão do adversário, aparentemente surpreendido com a lentidão do progresso de suas forças, que deve ensejar tanto maior resistência da Ucrânia quanto maior desgaste, militar, estratégico, político e econômico da Rússia. Sem dar um tiro, sem precisar desembarcar no cenário da luta, poderão os EUA ganhar, mesmo que a Rússia não perca militarmente; basta prolongar a guerra fornecendo munição à Ucrânia, por exemplo) e assistir de longe tanto o desgaste das forças de Moscou no campo de batalha (que se supunha não passaria de uma Blitzkrieg) quanto o desgaste de Putin no front interno. Há alguma similitude entre essa estratégia e aquela que levou à debacle da URSS, em 1991.

O fortalecimento da resistência ucraniana, é, certamente, o primeiro passo para prorrogar o conflito contra a estratégia do invasor, como ocorreu no Afeganistão. É possível, igualmente, que o grande encontro apocalíptico se materialize numa série de conflitos de menor envergadura. Um insurgente exército ucraniano (financiado e treinado pela OTAN) pode prolongar o conflito e impor pesados danos ​​às forças russas. A resistência dos vietnamitas e as perdas impostas ao exército invasor construíram nos EUA a reação da opinião pública contra a guerra. Assim também a resistência da guerrilha afegã contra a presença das tropas soviéticas é contabilizada como um dos fatores que apressaram a debacle do regime de Moscou.

É um risco, já vivido por outras poderosas potências militarmente vitoriosas, que a Rússia se veja na continência de refém de sua própria vitória, não podendo abandonar, para não perdê-lo, o espaço conquistado, permanecendo, porém, sem garantias para sua segurança. Precisará de um pretexto para o armistício, quando este se oferecer como do interesse dos EUA. Pelo andar da carruagem, e considerando o investimento na guerra, é improvável que Moscou, ao fim e ao cabo, se contente com menos que a garantia de sua segurança, cujo condicionante fundamental é o não ingresso da Ucrânia na OTAN e a autonomia das províncias do Donbass.

De uma forma e de outra, tanto Washington quanto Moscou sabem como as guerras começam, mas que é impossível predizer seu desenvolvimento e principalmente seu fecho. Desta feita, todas as alternativas são plausíveis, desde uma solução pacífica a uma escalada contínua convencional, que chegará ao limiar da opção atômica. Uma paz amarga imposta a uma Ucrânia derrotada, tanto quanto a retirada das tropas russas de mãos abanando, são hipóteses difíceis de serem admitidas hoje.

O caminho lógico para a paz parece, hoje, interditado, e mais distante ainda ela parecerá na medida em que o conflito de blocos, já em um crescendo, avance.

O embate de nossos dias é explicado pela principal preocupação de segurança nacional dos EUA, que é a competição estratégica de longo prazo com a China e a Rússia. O que está em jogo é a decadência do grande império do Norte, e a emergência da China, a hegemonia mundial das próximas décadas, o futuro do "Ocidente". Está em jogo a possibilidade da hecatombe, porque o próximo conflito mundial, se houver, será nuclear. A guerra final. É uma questão, pois, que diz respeito a todos os povos.

Os tempos responderão se é possível uma troca de comando da ordem internacional sem o horror de uma guerra.
_______________________
(*) Roberto Átila Amaral Vieira é jornalista, professor e político brasileiro. Foi ministro da Ciência e Tecnologia durante o governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva.
(**) Com a colaboração de Pedro Amaral.

Criado em 2022-03-16 02:04:28

Projeto de energia solar beneficia 57 famílias quilombolas

Na Chapada dos Veadeiros (GO). Em junho, mutirão do projeto Pisco de Luz foi realizado com mais de 90 voluntários na comunidade Kalunga. O próximo será nos dias 4 e 5 de agosto. A meta é instalar energia solar em mais 50 casas.

A lamparina está aos poucos cedendo espaço para a energia solar. Por muito tempo, essa era a única fonte de luz para as centenas de famílias que vivem na região em condições precárias. Agora, a realidade começa a mudar com a chegada do projeto voluntário Pisco de Luz, que começou a ser desenvolvido em julho de 2017.

Entre os dias 30 de junho e 1º de julho deste ano, mais de 90 pessoas se mobilizaram para a realização do primeiro mutirão do projeto que levou energia solar para 50 casas. Somando as que foram contempladas anteriormente, o Pisco de Luz já está presente em 57 residências da região e beneficia, assim, 280 quilombolas.

Uma das famílias contempladas foi a de Marlene Santos Pereira, 30 anos. Com sorriso no rosto, ela comemorou a chegada da luz. “Ainda mais que a gente tem criança, como à noite tem muita cobra a lamparina às vezes não ilumina. Essa luz vai melhorar muito para a gente aqui da roça. Para a gente que vive em casa de palha, assim também não tem perigo de fogo”.

Para chegar ao local, que é de difícil acesso, foi necessário o apoio de jipeiros de Brasília. Ao todo, 40 veículos partiram em comboio para auxiliar na instalação do sistema.

A construção dos 100 kits de energia solar só foi possível após parcerias com empresas e recebimento de doações, por meio de campanha de financiamento coletivo. O projeto conseguiu arrecadar aproximadamente R$ 45 mil reais e continua recebendo doações. Afinal, são pelo menos 300 famílias que ainda vivem na escuridão.

O sistema

O sistema que transforma energia solar em luz começou a ser desenvolvido no ano passado pelo empresário, morador de Brasília, André Viegas. Após visitar a comunidade para trabalhos voluntários, ele percebeu a necessidade de levar até as famílias iluminação. Sem energia elétrica, as pessoas ainda dependem de lamparinas para realizar tarefas noturnas. Isso gera problemas de saúde, devido à fumaça gerada, e expõe os moradores a riscos de incêndios e ataques de animais.

Cada kit é formado por uma pequena placa solar, um circuito inteligente e uma bateria de lítio recarregável. O custo total é de aproximadamente R$ 750. O processo de instalação, no inicio, levava cerca de um dia. Atualmente, é possível concluir em aproximadamente duas horas.

Os interessados em contribuir podem acessar o site:

quero-apoiar.piscodeluz.org

O projeto continua arrecadando recursos. O Jipe Clube de Brasília abriu uma conta poupança exclusiva para o projeto Pisco de Luz e está concentrando todas as doações nela.

Segue os dados abaixo:

Jipe Clube de Brasília- CNPJ: 26.446.484/0001-90

Bancoob (756) - Agência: 0001-9 - Conta Poupança: 62575172-8

Contatos:

Imprensa - Larissa Souza – (61) 9993339883 - Idealizador: André Viegas – (61) 99915-2485

Facebook/Piscodeluz

Criado em 2018-07-11 18:58:11

Brasília In Concert com grandes nomes da música erudita e popular

Neste 24 de setembro, às 20h, na Igreja Nossa Senhora de Guadalupe (311/312 Sul), com ingressos a R$ 50, a Cia. de Cantores Líricos de Brasília se apresenta com a soprano Renata Dourado e o barítono e violinista Isaac Francisco. No repertório estão obras de Maria Callas, Pavarotti, Andrea Bocelli, Édith Piaf, dentre outros clássicos.

O evento faz parte do Brasília In Concert com parte da verba revertida para melhoria da paróquia e é livre para todas as faixas etárias.

Dourado e Isaac estarão acompanhados por uma orquestra de câmara. “Queremos trazer grandes músicas reconhecidas e cantadas na língua original. E neste belo cenário da igreja que nos inspira”, destaca Renata que é uma das fundadoras da Cia de Cantores Líricos de Brasília, onde atua.

Sobre Renata Dourado

A soprano Renata Dourado é formada em Canto Erudito pela Escola de Música de Brasília, na classe do professor Francisco Frias e Licenciada em Música pela UNB. Além de cantora, atua como atriz, produtora musical e diretora cênica. Dourado participou de grupos musicais, populares e eruditos e de grupos de teatro, como cantora e atriz, ganhando vários prêmios a nível nacional.

Participou como solista das quatro edições do Festival de Ópera de Brasília, além de várias montagens profissionais de ópera pelo Brasil. Tem em seu repertorio óperas como A Flauta Mágica, Don Giovanni, La clemenza di Tito, As bodas de Fígaro, Cosi fa Tutte, de Mozart, além de Carmen, de Bizet, I Capuleti e I montecchi, de Bellini e óperas contemporâneas como Let’s make an opera, de Britten e The Medium, de Menotti. Tem vasta experiência em repertorio camerístico e sacro. Cantou sob a regência do maestro venezuelano José Calabrese, além de maestros consagrados, como: Sílvio Barbato, Isabela Sekeff e Cláudio Cohen.

Como diretora da Cia de Cantores Líricos de Brasília produziu diversos espetáculos em Brasília, como La serva padrona, de Pergolesi; La clemenza di Tito, de Mozart, João e Maria, de Humperdinck, dentre outros.

Sobre Isaac

Iniciou seus estudos de piano aos 4 anos de idade com sua avó materna, tendo com ela as lições básicas para a teoria musical. Aos cinco, iniciou os estudos de violino com a professora Wanya Sales pela Escola de Música de Teresina, concluindo o processo de formação básico. Aos 17 anos estudou na Escola de Música de Brasília na classe do professor Egon de Matos.

Estudou, ainda, com professores renomados como Regiane Cruzeiro, Alessandro Borgomanero, Emmanuele Baldini. Atualmente, estuda violino com a renomada professora Elisa Fukuda. Foi também spalla da orquestra Academia Brasiliana por dois anos (2015 e 2016), teve contato de aula/ensaio com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Marin Alsop, Isaac Karabchevsk) e Orquestra Filarmônica de Minas Gerais (Fábio Mechetti). Fundou a Escola de Música Santa Cecília com os padres e freiras da Família Espiritual do padre Rodrigo Molina na cidade Estrutural- DF junto ao projeto Casulo do Saber e ministrou no ano de 2018 aulas em sua escola de violino e piano. Teve masterclass com importantes professores como, Sherry Kloss, Pinchas Zukerman, Nicolas Koeckert, David Colwell.  No violino popular fez masterclass com Nicolas Krassik e Ricardo Herz.
___________________
Serviço;
Brasília In Concert reviverá grandes nomes da música erudita e popular
Data: 24 de setembro
Horário: 20h
Local: igreja Nossa Senhora de Guadalupe (311/312 Sul)
Ingressos: R$ 50 (meia-entrada)
Produção: Petri Produções Artísticas apoio Cia. De Cantores Líricos de Brasília

Criado em 2022-09-22 22:39:39

Lula para quê?

Roberto Amaral (*) –

Em carta a Celso Furtado, escrevendo nos idos de 1967, Florestan Fernandes observava que “No Brasil, desde a Independência, as reformas liberais sempre precisaram da chancela dos conservadores” (Celso Furtado, Correspondência intelectual). Aduzo que essas reformas, nem sempre modernizantes,  sempre implicaram a conciliação com o atraso, impedindo as reformas essenciais, ou descaracterizando seu papel renovador. Porque a conciliação é instrumento que atende aos interesses do bloco dominante. Neste sentido, nossa história é exemplar.

O mestre de A revolução burguesa no Brasil lembra que o rompimento com o estatuto colonial e a instalação da monarquia constitucional, uma transação das elites senhoriais (e a conciliação é sempre uma traficância em que predomina a vontade da casa-grande), se fizeram sem consideração a princípios ou ideias liberais, empenhadas que estavam as forças dominantes na preservação do  latifúndio e seus interesses associados, como a defesa da propriedade e da escravidão, irmãs siamesas. Ou seja,  o avanço haveria de ser, sempre, mínimo, tão só aquele milímetro necessário para esfriar as tensões, evitando qualquer abalo na arquitetura da organização do poder. Assim, e por tais artes, as “reformas liberais” foram feitas pelos conservadores, como na abolição da escravatura, garantindo-se a classe dominante da preservação do statu quo ante, cuja essência era a intocabilidade do regime de propriedade da terra.  Em 1822 o Brasil colonial se projetou sobre o estado independente, e o latifúndio sobreviveria na República dos plantadores. O poder dominante permanece o mesmo; as alterações, mínimas, superficiais, se operam pela reiteração e pela acomodação, jamais pela ruptura.

O pavor à mudança é o tempero da política de conciliação mediante a qual a classe dominante amarra o embate social no ambiente da casa-grande, que o manipula: “A conciliação empequeneceu muitos líderes e não foi feita para benefício do povo e do país, e sim para defesa de interesses minoritários, já que aparou as divergências pessoais e não solucionou os problemas  prático-reais do povo” (José Honório Rodrigues, Conciliação e reforma no Brasil), porque simplesmente o povo não é sujeito-histórico.

As mudanças, traficadas por uma classe dominante aferrada à convicção da continuidade, quase sempre se  acrescentam ao passado, raramente o suprimindo.

Nossa história é profundamente conservadora. Fomos dos últimos no processo da independência, o último a abolir a escravidão, a derradeira monarquia. Discutimos a reforma agrária desde pelo menos a frustrada Constituinte de 1823, com o texto de José Bonifácio.

Voltemos a  Florestan e à carta referenciada: “O país – acrescenta o mestre – acolhe melhor as reformas necessárias, desde que elas percam o caráter ideológico (e raramente o  possuem, pois costumamos andar atrasados: quando aceitamos uma ideia nova, ela já não é mais ideologia, mas tradição envelhecida e em processo de substituição nos países de origem) e possam ser implantadas com a segurança de que não alterarão muito a rotina preestabelecida [...]”. Isto é, quando não é mais uma ideia-força, um projeto, um programa.

Bom exemplo do empenho da casa-grande em preservar o passado é oferecido pela resistência da velha imprensa na  defesa que faz do neoliberalismo, nada obstante seu fracasso mundial, e o rotundo desastre de sua introdução entre nós pelo aprendiz de feiticeiro que ainda está no ministério da Economia.

Na segunda metade dos anos 40 do século passado ainda discutíamos se o país deveria fazer a opção industrialista. O planejamento governamental só foi admitido quando perdeu os ares e as cores da cultura marxista.

A necessidade da chancela conservadora ultrapassa os limites das “ideias liberais” e agora entra no campo das propostas políticas.

 Uma questão candente, o caráter de um eventual governo de centro-esquerda – a discussão que diz respeito aos interesses do povo brasileiro –, não tem espaço na imprensa brasileira, não conquista políticos e muito menos “especialistas”, porque inevitavelmente colocaria na ordem do dia o debate sobre a arquitetura do poder, o nó górdio da política. Este é tema exorcizado, tanto quanto o caráter das composições partidárias, e no espaço vazio discute-se, por exemplo, quem deve ser o vice na futura chapa do ex-presidente Lula. E o líder nas apostas, hoje, diz a mídia, é Geraldo Alckmin. A candidatura do ex-governador paulista se apresenta como  a chancela conservadora indispensável para viabilizar a candidatura petista, a qual, nada obstante as lições oferecidas por dois governos (2003/2011), ainda precisaria de passaporte para circular pela Av. Faria Lima.

Em outras palavras, sinalização de nosso abissal atraso político-ideológico, o pleito de uma candidatura socialdemocrata estribada em uma longa carreira política e na experiência de oito anos de governo ainda carece do nihil obstat de seus adversários ideológicos para que sejam afastados os temores dos conservadores, sem cujo apoio  a centro-esquerda não teria condições de governar.

É difícil de crer que a simples presença de Alckmin na chapa presidencial seja suficiente para estabelecer o modus de convivência civilizada dos conservadores com Lula, considerando que a vice-presidência por si só não assegura ao titular qualquer sorte de capacidade de ingerência no governo. Muito menos de ditar-lhe diretrizes. É mais razoável crer que a Faria Lima quererá discutir com o candidato seu projeto de governo. Em face, porém, das características e condicionamentos da candidatura de Lula, o que se pode esperar (e mais do que tudo, desejar) é que essa discussão em torno de programa de governo e outros compromissos políticos, com Alckmin ou outro nome qualquer, com os partidos e demais instituições da sociedade, seja feita da forma a mais ampla e a mais transparente possível.

Nada obstante a obviedade constrangedora, é preciso repetir mil vezes que a história não se repete. O próximo 2022 não guarda a mais remota lembrança dos idos de 2002, e as condições que aguardam o eventual terceiro mandato de Lula nada dizem respeito às  condições históricas que presidiram seus dois mandatos a partir de 2003. Ademais das óbvias alterações da conjuntura internacional, o quadro brasileiro que se descortina para 2023 é histórica e substancialmente diverso. Não se trata mais de recuperar o pacto democrático desenvolvimentista da Nova República de Ulisses e Tancredo,  mas de  restaurar a democracia e reconstruir a nação, como projeto. Antes de lançar as bases do país que queremos, é preciso salvar – política, econômica e ideologicamente –  o pais que temos,  este que vamos herdar do pesadelo bolsonarista, a recidiva do 1º de abril de 1964.

É evidente que, na contramão dos tempos de hoje, que militam no conflito e na dilaceração do tecido social, é preciso construir um consenso em torno da salvação nacional. A partir de um programa mínimo de emergência, limitado a conter a hemorragia, deverá ser construído, com a sociedade, um programa de governo de longo prazo, que, visando ao desenvolvimento, aponte para a construção de uma sociedade livre do conflito de classes.

Mas, sabemos, este é ainda um projeto muito distante do que, nas condições atuais, nos  pode oferecer a  promessa de um futuro governo Lula, com Alckmin, Joaquim ou Manuel.
____________
(*) Roberto Átila Amaral Vieira é jornalista, professor e político brasileiro. Foi ministro da Ciência e Tecnologia durante o governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva.

Criado em 2022-01-06 14:52:43

Líder indígena pede impeachment para Bolsonaro

Discurso surpreendente de líder indígena, neta de uma das primeiras caciques da América Latina, na Marcha das Mulheres Indígenas e das Margaridas. A cena foi filmada pela cineasta Maria Maia, na Esplanada dos Ministérios, 13 de agosto de 2019.

Com verve de comunicadora, ela começa achincalhando Bolsonaro e sua medida ecoescatológica; guerreira, cita versos de Nonata Capeba, um dos povos que foram massacrados "como qualquer outro" e denuncia o estupro que suas parentes sofreram "de holandeses, de portugueses". Articuladora,  convoca os deputados presentes ao trabalho de formiguinha pra convencer outros a lutar pela igualdade e os bolsominions arrependidos a se aproximarem, "que todos  juntos fazem acontecer".

"Se derrubaram Dilma, por que não fazer um impeachment pra tirar esse desgraçado que está aí?", provocou.


Fonte: https://www.facebook.com/story.php?story_fbid=10219969495287026&id=1211951009

Criado em 2019-08-15 00:17:52

Ibaneis ameaça dar calote de R$ 40 milhões na cultura do DF

Alexandre Ribondi -

O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), tem mostrado, de maneira a não deixar dúvidas, que tem a intenção de se alinhar com a política de extermínio da cultura e da educação aplicada pelo governo federal. Com sua equipe de governo, Ibaneis pretende reter a totalidade da verba destinada ao Fundo de Apoio à Cultura (FAC), de R$ 40 milhões, referente ao edital de 2018, e deixar à míngua a classe artística e os produtores de cultura da capital da República.

O FAC, considerado a mola propulsora dos empregos da área artística do Distrito Federal, sempre passou por maus pedaços nas mãos dos governantes, que sempre olharam com avidez o dinheiro reservado às produções culturais da cidade. Mas, desta vez, a ameaça está mais afrontosa e se reveste de proposta de amor à cidade: o dinheiro será desviado, diz Ibaneis, para a reforma da Sala Martins Penna do Teatro Nacional, uma obra grandiosa fechada há cinco anos.

A classe artística e os produtores culturais reagiram. Na noite dessa segunda-feira, 6/5, realizaram uma assembleia no Teatro Dulcina, localizado nos altos da Rodoviária e que, ele também, tropeça, há décadas, em problemas financeiros aparentemente sem solução. Sintomaticamente, a assembleia teve que ser transferida para a praça do lado de fora, porque o interior do teatro estava sendo ocupado, no mesmo momento, por um culto da igreja Renascer em Cristo.

A multidão de artistas e produtores que acompanhava os depoimentos e as denúncias feitas por pessoas como o músico Rênio Quintas e a deputada federal Erika Kokay (PT-DF) serviram para mostrar que o governador do DF enfrentará uma luta. A deputada Erika, por exemplo, está se fortalecendo com os seus pares para a criação de uma conta própria para o FAC. “Com isso, ninguém poderá lançar mão da verba da cultura”, diz a parlamentar, “que não poderá ser manuseada por quem quiser se aproveitar”. Segundo ela, “o que está acontecendo é um golpe desferido contra a cultura, sob a alegação da reforma do teatro. Isso é ilegal”.

A deputada distrital Arlete Sampaio (PT), que também esteve na assembleia, disse que apoia o movimento. Arlete informou que o secretario de Cultura Adão Cândido, "durante reunião da Câmara Itinerante, realizada no Recanto das Emas, admitiu que há um superávit no FAC". A deputada está à disposição para encaminhar na Câmara Legislativa as demandas dos artistas e produtores culturais do DF. O deputado distrital Fábio Felix (PSol-DF), por sua vez, cobrou a publicação do superávit do FAC para que os editais de 2018 sejam pagos integralmente e que os editais de 2019 sejam publicados. Fábio Felix considera a "economia criativa um fator de desenvolvimento fundamental para a cidade". O distrital Chico Vigilante (PT) disse que vai propor uma Comissão Geral na Câmara Legislativa para debater o FAC. "Essa luta não é só dos artistas  do DF, diz respeito a todos nós", lembra o deputado petista.

A noção de que se trata de um golpe e de uma movimentação ilegal parece permeada entre os agentes culturais do DF. De acordo com a atriz Clarice Cardel, “esta atitude do governador Ibaneis, de passar por cima da lei de forma desrespeitosa com a cadeia produtiva cultural, mostra a sua verdadeira cara. Eu estou abalada”.

O desolamento é acompanhado de um sentimento de abandono. O músico Rênio Quintas desabafou: “Sinto como se não tivéssemos secretário de Cultura. Estou aqui há 60 anos e nunca vi uma dissintonia tão grande”. Ele diz isso porque, de todas as reuniões e assembleias, o recém-empossado secretário Adão Cândido, da Cultura, não compareceu a nenhuma - em seu lugar, manda representantes. Mas sua ausência pode estar sendo compensada pelo secretario da Fazenda, André Clemente. Foi ele que, em reunião com artistas e produtores, prometeu se colocar à frente das discussões e garantiu que nenhuma decisão será tomada sem a consulta aos principais interessados, que são os artistas, os produtores e os técnicos da cidade.

A assembleia foi convocada pela Frente Unificada de Cultura do DF, que pôs em pauta o “cancelamento do edital de 2018”. Mesmo assim, é bom que se diga que o produtor do Porão do Rock Gustavo Sá, está otimista e acredita que será possível reverter a situação.

De qualquer jeito, o ator e diretor Humberto Pedrancini não esconde o desgosto: “Já passamos por isso antes e agora, em vez de estarmos trabalhando, ensaiando, lendo textos, estamos aqui, nos preparando para entrar na luta”. Para ele, “nosso produto é a arte, que faz o país crescer e evoluir”. Isso é a mais pura verdade no caso brasiliense: os espetáculos, shows e casa de espetáculos independentes são responsáveis pela criação de 10 mil empregos diretos. Por isso mesmo é que a atriz Kuka Escosteguy afirmou: “Ibaneis desconhece a realidade da produção cultural e da nossa economia criativa. Vai deixar muita gente sem emprego”.

Criado em 2019-05-07 02:04:32

A língua é fascista?

Marcos Bagno -

Algumas frases ganham vida própria, geralmente arrancadas do contexto em que foram escritas e, por isso mesmo, distorcidas em seu sentido. Uma delas é “minha pátria é a língua portuguesa”, erradamente atribuída a Fernando Pessoa.

Erradamente porque essa frase está no Livro do Desassossego, de um de seus muitos heterônimos, Bernardo Soares. Essa frase faz parte de um texto de delirante reacionarismo, da mais pura alienação política e cultural.

É uma rotunda bobajada.Ninguém se dá ao trabalho de ler o texto todo e sai repetindo a frase solta como se fosse coisa linda, mas não é.

Outra frase atribuída a Pessoa, “navegar é preciso, viver não é preciso”, é um equívoco ainda pior, porque se trata de um velhíssimo provérbio latino, “navigare necesse, vivere non est necesse”, que os romanos por sua vez importaram dos gregos!

Antes de sair citando, minha gente, vamos ver quem disse o quê, onde e quando?

Outra dessas frases enxovalhadas é a que aparece na Lição (1978) do ensaísta francês Roland Barthes (1915-1980): “a língua é fascista”.

E toca a tentar arrancar dela as interpretações mais escalafobéticas! Que a língua é sexista, é machista, é racista, é perigosa, é opressora... quem dá mais?

Ora, bolotas, o que Barthes quis dizer é que a língua, como estrutura, como sistema, obriga seus falantes a dizer as coisas sempre de um determinado modo e não de outro.

Por exemplo: nas línguas que têm a categoria gramatical de gênero, como o português, é impossível usar uma palavra sem imediatamente fazer todas as concordâncias com seu gênero gramatical.

Se pensarmos em “lua”, temos de usar “a”, “essa”, “uma” ou “cheia”, “redonda”, “ela”, tudo no feminino. Em alemão, porém, “lua” se diz “Mond”, e é do gênero masculino.
O falante de alemão é obrigado a usar também todas as concordâncias no masculino.

Já o falante de inglês, língua que não tem a categoria de gênero, não precisa se preocupar com nada disso.

Assim é que a lua, por exemplo, num desenho animado em inglês, pode ter um nome de homem ou de mulher, ter uma voz masculina ou feminina.

Por isso também um filme pútrido como O Fada dos Dentes tem um homem, um (péssimo) ator no papel principal, coisa que dificilmente ocorreria se o filme tivesse sido produzido numa língua em que fada só pode ser do gênero feminino.

Mas esse filme tem um precedente ilustre, William Shakespeare, ninguém menos: em sua peça Sonho de uma noite de verão, as fadas têm um rei, Oberon, que, por sua vez, é servido por Puck, ambos caracterizados como homens.

Até mesmo os anjos, que supostamente não têm sexo, recebem nomes de homem (Gabriel, Rafael, Miguel etc.), porque a palavra grega ággelos, origem do latim ángelus, é masculina e o termo hebraico que ela traduz se referia sempre a entidades masculinas.

Esse é o “fascismo” da língua: a imposição de um modo de dizer do qual ninguém pode escapar.

Isso se reflete em todos os níveis do sistema: em português, somos obrigados a colocar a marca de plural sempre no final dos nomes (casa, casas), mas em quimbundo a marca de plural vem na frente dos nomes (rimbondu, “vespa”; marimbondu, “vespas”). E você, que amaldiçoa os marimbondos, nem sonhava com isso, não é?

Cada falante de cada língua recebe seu idioma já pronto e acabado quando o adquire por meio do convívio social.

É claro que as línguas mudam com o tempo, ou melhor, os falantes mudam a língua com o tempo, mas essas mudanças são lentas e muitas vezes imperceptíveis, de modo que cada falante, em sua vida, está submetido ao “fascismo” sistêmico da língua que fala.

Nada a ver com o fascismo de verdade que está sendo institucionalizado a passos largos no Temeristão, com o auxílio nada luxuoso do tucanato instalado no judiciário!

Criado em 2017-02-01 20:02:37

Baixaria e pieguice na televisão brasileira

Sandra Crespo -

Mais difícil do que acompanhar as tristes histórias coletivas e individuais do pessoal da Chapecoense, é notar o sensacionalismo da mídia brasileira. Um total desrespeito aos direitos humanos.

A TV Globo mostrou esta noite, no JN, imagens de desespero de familiares ao receber os corpos dos seus queridos mortos no desastre.

Depois da demonstração de amor, gentileza e educação do povo e das autoridades colombianas, os caixões chegam ao Brasil. E começa a baixaria e a pieguice.

Primeiramente, Temer programa uma solidariedade dos familiares a ele. Quando vê que está chovendo e não terá sua presença notada, o sinistro usurpador dá uma desculpa ridícula e resolve ir ao velório.

Que vergonha de ser brasileira. Em Medellín, quarta-feira passada, todas as autoridades que representavam a cidade, a região e o governo federal foram anunciadas e aplaudidas no estádio lotado.

Tenho certeza de que muitos que aplaudiram não gostam do prefeito ou do governador. Mas sabem que eles os representam perante o mundo, por isso os respeitam.

Essa premissa não existe no Brasil, sobretudo no Brasil rico que, na abertura da Copa 2014, mandou a presidenta legitimamente eleita TNC para o mundo inteiro ver.

Vimos e vemos a todo instante como muitos brasileiros são cruéis, pequenos e grosseiros.

Ignorantes também. Somos os poderosos da América do Sul, só comparados mais ou menos aos argentinos.

Aliás, a seleção argentina já fretou voo parecido com a LaMia. E se o avião tivesse caído com los Hermanos... Alguém duvida que ia ter carnaval em muitos bairros brasileiros?

Alguém duvida?

Ninguém gosta de pensar nessa hipótese, por saber a resposta óbvia. A de que o Gigante do Sul precisa urgentemente ser educado por seus generosos e civilizados vizinhos.

Que essa tragédia que partiu tantos corações tenha semeado um mínimo de humildade, amor e respeito às pessoas no nosso triste Brasil.

Criado em 2016-12-04 18:28:35

Palavras no concreto de Brasília

Zuleica Porto -

Os livros ardem mal (2006) é um alentado romance do escritor galego Manuel Rivas (A Coruña, 1952), que escreve em sua língua materna, perseguida a ferro e fogo pelo ditador Franco, também galego.

A narrativa tem como ponto de partida a queima de livros ocorrida na Dársena (embarcadouro) da cidade, após o golpe fascista de 1936.

O autor insere na contracapa uma fotografia da sombria cerimônia, como a ressaltar aos menos avisados que o relato que se segue não é fruto somente da imaginação.

Regimes totalitários costumam perseguir escritores e queimar livros, física ou simbolicamente. Assim o fizeram a ditadura franquista, a nazista, a stalinista, a de Vargas e o golpe de 1964.

Os livros queimam a 451graus Fahrenheit, informa Ray Bradbury ao intitular 451F sua obra de aparente ficção científica, testemunho do angustiado presente do autor.

Foi escrita na década de 50, quando seu país vivia as agruras do macarthismo, levada a efeito por uma comissão do Congresso dos Estados Unidos, sem ruptura do regime democrático.

Portanto, não só nas ditaduras é perseguido o livre pensar. Recentemente as artimanhas do processo conhecido como “caça às bruxas” foram objeto do filme Trumbo (Jay Roach, 2015).

Dalton Trumbo, escritor, roteirista e diretor de cinema, era um dos “10 de Hollywood”, que se recusaram a delatar amigos escritores à Comissão de atividades antiamericana do Congresso.

Entrou na lista negra, foi preso e em 1971 adaptou e dirigiu Johnny vai à guerra, romance por ele escrito em 1939, um dos mais vigorosos libelos pela paz.

Truffaut, por sua vez, filmou, a partir do livro de Bradbury, Fahrenheit 451 (1966), no qual Oskar Werner personifica o bombeiro Morag, que tem como função descobrir e queimar livros em um futuro indeterminado.

Um dia, resgata da fogueira o David Copperfield, clandestinamente, torna-se um leitor, que se revolta com a pasmaceira da mulher diante da telona.

Em dupla atuação, Julie Christie é a mulher anestesiada pela TV (premonitoriamente parecida com as gigantescas telas de plasma de nossos dias) e uma resistente que esconde livros.

Denunciado pela mulher, é com a rebelde Clarisse que ele foge para a floresta e torna-se um homem-livro, unindo-se a um grupo de homens e mulheres que decoram as grandes obras da literatura para salvá-las do esquecimento.
 
Rivas, em uma entrevista concedida em 2007 a Hernando Salazar, diz que “os meios de comunicação e toda a maquinaria pesada que representam são utilizados para o controle das mentes (...) é a produção industrial do ódio a que vai criando as condições para que se produzam as tragédias. (...) por que não pensar que certas palavras podem neutralizar essa produção de ódio? ”.

E propõe, em contraponto às grandes abstrações tão caras aos totalitarismos (Pátria, Família, Raça Pura são algumas delas), aproximarmo-nos do significado concreto das palavras.

Entre asas e eixos, encontro palavras concretas. O trágico tirano de Sófocles (427 AC) revisitado com humor: “As joias da coroa do Édipo-Rei são os olhos da cara”, numa passagem subterrânea da Asa Norte.

Uma coruja na SQN 403 fala que “A vida é sonho”, trazendo o dramaturgo espanhol Calderón de La Barca (1600-1681), a nos lembrar da brevidade da vida e da ilusão das aparências.

Uma escadaria de outra passagem subterrânea recria as “Instruções para subir uma escada” (1962), em que Julio Cortázar nos coloca diante do absurdo da existência cotidiana.



Até mesmo um trecho de um discurso lírico de JK, evocando nossas alvoradas e crepúsculos, faz pensar que o fundador da cidade, embora sem pretensões literárias, tinha mais habilidade com as palavras que o medíocre pretenso poeta que usurpou o cargo e hoje ocupa, sem a isso ter direito, o singelo palácio da Presidência da República.

O ilegítimo Golpe de Estado que se instala no Brasil desde abril deste ano já mostrou seu viés autoritário ao ter entre seus primeiros atos o desmonte da Cultura e a extinção de programas sociais, ao prometer a instauração de uma Escola sem pensamento crítico e o fim da gratuidade do ensino público superior. Não há nesse golpe nada que sustente a deposição da presidenta Dilma Rousseff.

Diante de tão sombrio panorama, ler e interpretar o que dizem as paredes pode ser um ato de resistência.

Criado em 2016-08-03 20:20:09

A China vista por um francês em Pequim – Parte I

Maria Lúcia Verdi –

Eric Meyer, diplomado em Filologia Germânica pela Sorbonne, é um jornalista e escritor francês que, desde 1996, apresenta a China para o Ocidente por meio de sua newsletter Le vent de la Chine, que trata de todos os aspectos da vida naquele complexo país e é referência para os interessados na República Popular da China (RPC). É autor de dez livros sobre a China, o primeiro, de 1989, sobre o massacre de Tian´anmen e o último, de 2013, sobre o Tibet. Escreve o blog Le Vent de la Chine

Fiz amizade com Eric e sua esposa Brigitte durante minha estada na China, entre 2001 e 2005 e a isso devo esta entrevista. Um depoimento corajoso e amplo sobre uma China fascinante e enigmática, ainda bastante desconhecida por nós.

Participam dessa coletiva Fernando Reis, embaixador aposentado, autor de “Caçadores de nuvens – em busca a diplomacia” e de “Por uma Academia renovada – formação do diplomata brasileiro”, além do romance “Falta um cão na vida de Kant”; José Alberto Bekinschtein, economista e professor argentino, autor de “China – um mundo para os negócios”;  responsável pelo Setor Econômico da embaixada daquele país em Pequim entre 1981-86 e 1998 a 2006; João Lanari, diplomata aposentado, professor de cinema e ensaísta, viveu em Pequim entre 1992 a 95; Ricardo Portugal, diplomata, poeta e tradutor, viveu por quase dez anos entre Pequim, Shangai e Cantão; Angélica Torres Lima, jornalista e poeta, autora dos livros Solares, Paleolírica e O poema quer ser útil; Antônio Carlos Queiroz, jornalista e cronista; Humberto Brasiliense, educador, músico e poeta ; e nosso editor Romário Schettino.

A seguir, a primeira parte desta entrevista:

Maria Lúcia Verdi – Tendo chegado à China em 1987, você e sua esposa Brigitte lá viveram por quase 36 anos, em uma era de grandes mudanças. Muito do que observaram estão em seus livros, três dos quais pude ler – são crônicas reveladoras do cotidiano chinês precedidas por provérbios clássicos, tradição e contemporaneidade que dialogam. Mas Confúcio ainda resiste por lá? Como é ser uma ponte entre a China e o Ocidente? Como seus filhos, que foram criados na China, sentem o viver fora?

Eric Meyer – De fato, a China, como qualquer país, acredito, vive entre seu passado (suas tradições, suas grades de leitura tiradas de Confúcio, Buda e o Tao, sua ideologia) e seu presente, que é tão comercial para o povo quanto ideológico para a classe dominante, a fim de justificar seu poder antidemocrático.

Diferença fundamental: a escrita pictórica, que descreve o mundo como uma representação artística e simbólica, e não alfabeticamente (que o comenta através de fonemas abstratos), coloca-nos em categorias opostas: chinês e latino (ou russo ou anglo-saxônico - todos os povos de origem fenícia e indo-europeia, através do sânscrito). Nós os alfabetizados, vivemos em um tempo finito e sequencial. Percebemos o mundo através de conceitos ou letras que só fazem sentido quando combinados. Somos, portanto, associativos por natureza.

O chinês, por sua vez, vive em um tempo infinito e se vê diretamente projetado no mundo através da imagem de seu ideograma - o caractere “mulher” representa uma mulher, e o de uma árvore representa uma árvore, não há nem mesmo necessidade do som para ser entendido, o ideograma é suficiente por si só. O chinês é, portanto, muito forte em observação, reprodução e cópia: em análise, e a isso se deve seu sucesso em copiar e melhorar produtos de todo o mundo.

Enquanto nós ocidentais, com nossas mentes voltadas para a especulação e abstração intelectual, somos culturalmente seres de síntese, de associação.

Mesmo na música, inventamos a harmonia (várias melodias entrelaçadas) enquanto os chineses praticam a melodia. E não por acaso, nossos pintores e arquitetos do Renascimento italiano inventaram a perspectiva, que os chineses praticam há apenas um século.

O século XX, para a China, foi esmagador, pois europeus e americanos se estabeleceram em seu solo graças à sua superioridade técnica e impuseram a introdução acelerada de toda uma série de instrumentos fundamentais que causavam seu atraso: o conceito de nação que não existia (eles apenas conheciam o Império), o de exército moderno e do canhão, o da Constituição, o do motor a vapor, fábricas, telefone, locomotiva etc. E os chineses humilhados aprenderam a lição. A única coisa que recusaram foi a democracia: para eles, integrar esse valor seria perder-se, perder seu passado autoritário, desaparecer enquanto China, que se tornaria um "bis da Europa", perdendo sua história.

De qualquer forma, o princípio democrático que existe na Europa apenas em pequenas nações, e apenas há três a cinco séculos, necessitaria de muito mais tempo para se adaptar a esse imenso país de um quarto da humanidade, acostumado a um governo paternalista e autoritário. Para os chineses de hoje, o comunismo nada mais é do que a última dinastia, e que se manterá assim apenas enquanto puder manter em mãos o “mandato do céu”.

Para Brigitte e eu, fazer a ponte entre o Oriente e o Ocidente foi nossa principal razão para ir à China, um projeto totalmente individual e aventureiro, sem emprego ou contrato. Uma vez lá, tivemos que combater nossos preconceitos de nascimento e educação, incluindo a crença de que nosso país, cultura e civilização eram superiores aos da China. Tratava-se de livrar-se do sentimento de superioridade, na época crença universal do Ocidente. Ainda existe, 30 anos depois, mas tem cada vez menos sentido.

Era necessário aprender a China e o chinês, estudar os comportamentos, os modos de dizer e fazer, pesquisando, cada vez, qual era a sua origem, a influência dominante: a da religião, ou de Confúcio, ou a do socialismo, de suas escolas e suas organizações de controle de massa.

O que mais nos ajudou a superar o sentimento de superioridade foi a exaltação da aventura diária, a mudança de cenário admirável, o entusiasmo diante do exótico, o sentimento de estranheza absoluta. frente à ausência de referências. Nesta viagem tão formadora, fomos ajudados e protegidos pela bondade dos chineses, que nos recebiam como irmãos e que só pediam para contar sobre si, por pouco que falássemos a língua deles.

Quando chegamos, havia muito poucos restaurantes em Pequim e nenhum bar. Havia muitíssimas bicicletas, mas muito poucos carros. Éramos muito observados, mas tivemos a alegria de um sentido de responsabilidade: milhões de pessoas na França, Suíça, Bélgica e Canadá estavam esperando pelo nosso trabalho para descobrir como viviam essas pessoas tão numerosas e distantes delas. Como era ser rico ou pobre, comer, sorrir, ser amigo, ouvir música? Até a maneira de dormir era diferente: ao meio-dia em Pequim, toda a vida parava, os funcionários se deitavam em suas mesas e adormeciam imediatamente, e isso era normal! Enquanto às 19h, a cidade adormecia novamente: nenhum serviço permanecia aberto (e especialmente nenhum restaurante), ninguém estava nas ruas, a cidade estava morta!

Sua pergunta sobre Confúcio é interessante. Confúcio não escreveu sua teoria diretamente, e há interpretações opostas dele e dela, algumas descrevendo-o como um revolucionário libertador e outras como um conservador firme da ordem estabelecida, oposta a toda liberdade individual e anarquista. Os chineses, portanto, não são unânimes quanto ao significado de sua mensagem. Hoje, sob a influência do regime ultraconservador, prevalece a tese autoritária: as escolas privadas confucionistas acolhem os filhos dos bilionários - de uniforme, para aprender de cor as máximas confucionistas, tradição e moral, as artes antigas!

Finalmente, nossos filhos sofreram inicialmente na China, primeiro porque não eram como ninguém: Jérémie e Héloïse permaneceram em Pequim, nesse ambiente de “expatriados chineses”, do nascimento aos 18 anos de idade, diferentemente das outras crianças francesas que deixaram a China para retornar à França após 3 ou 4 anos. Tentamos colocar Jeremy no jardim de infância chinês, que se esforçou por recebê-lo, mas os métodos eram muito diferentes: as crianças não tinham liberdade, elas eram “quebradas” aos 3 anos por uma disciplina de ferro feita para abafar a individualidade enquanto fundava todas essas crianças em um molde coletivo. Jeremy não aguentou...

Mas logo, felizmente, nossos filhos superaram essa atmosfera difícil, para ter uma vida muito feliz e protegida no gueto para estrangeiros, que foi então imposta pelo governo para melhor nos monitorar. Juntos com outras jovens de distintos países e de todas as cores, saíam e se divertiam muito.

No ensino médio, eles tinham condições excepcionais de estudo, com nunca mais de 20 alunos por turma e professores sem excesso de trabalho. E no final, eles se tornaram jovens adultos instintivamente à vontade entre as culturas francesa e chinesa, mas também o inglês (a "língua franca" de Sanlitun, bairro de Pequim). Sem sabê-lo, são especialistas em interculturalidade, em sua cultura e na do oposto. Isso lhes trouxe uma riqueza que lhes permite hoje brilhar e ter sucesso em seu trabalho, Jérémie em uma multinacional de elevadores, Héloïse em uma casa de moda parisiense internacional.

 

 MLVerdi – Você esteve em Pequim durante o Massacre de Tian´anmen e escreveu um livro sobre ele, "Pequim, Praça Tian´anmen". Você poderia nos contar um pouco sobre essa experiência?

 Naquela noite, 3 de junho de 1989, na noite do massacre de Tian´anmen, com um colega britânico, saí com meu velho Toyota 4x4 para percorrer o segundo anel viário e testemunhar a entrada de dois comandos do exército para aplicar a lei marcial. Brigitte havia sido convidada para uma festa no distrito diplomático de Qijiayuan, por funcionários europeus, - eu a aconselhara a ter cuidado - ela estava no nono mês de gravidez!

Na anel circular, encontramos uma estranha procissão de trabalhadores com capacetes, armados com bastões pesados, em pé dentro de lixeiras de caminhões imobilizados, sabotados - capotas de motores abertas, fios elétricos arrancados, pneus furados. Eram os trabalhadores da Siderúrgica de Pequim que haviam sido enviados pela ala liberal do Partido para salvar o povo do massacre, mas o povo não o sabia e acreditava que eles haviam sido enviados para massacrá-lo. Muito zangada, a multidão começou a linchar esses trabalhadores - vi cenas de quase execução desses siderúrgicos, que fugiram, abandonando capacetes e cassetetes para se misturar à multidão.

Voltei então para Qijiayuan, para a festa. Abrindo a porta, vi irlandeses tocando violinos, álcool correndo a rodo, enquanto se derramava sobre mim a fumaça acre licorosa de "xinjiangyan", o haxixe de Xinjiang. Pensar nessas pessoas que se divertiam enquanto milhares estavam prestes a morrer, me lembrava o romance de Milan Kundera, A insustentável leveza do ser. Pedindo silêncio, parei a festa, pedindo a Brigitte e a todos que fosse para casa.

Depois, com minha companheira, retomamos a via de Chongwenmen, onde sabíamos que os tanques tinham que passar. Paramos no Minzu Hotel, onde reservamos um quarto no andar de cima, de frente para a rua, para que pudéssemos ver tudo enquanto estávamos em segurança. Logo chegaram os tanques, protegidos dos coquetéis molotov dos manifestantes por soldados disparando metralhadoras. A multidão se protegeu nos becos adjacentes, mas apenas passavam os soldados, ela voltava a insultar os soldados com o nome de “tufei” (ladrões, assassinos).

Às 2h da manhã, Jasper, meu colega, foi até um hospital próximo, onde os médicos lhe deram uma estimativa mínima do número total de mortes – de 2 em 3.000. Às 6h da manhã, voltamos ao meu escritório para escrever os artigos - eu não queria escrever neste hotel, já que a noite toda os alto-falantes anunciavam a proibição de jornalistas estrangeiros trabalharem, sob pena de expulsão.

No estacionamento em frente ao hotel, descobri que meu 4x4 havia sido virado, duas janelas quebradas por paralelepípedos e um pneu furado: os manifestantes o confundiram, por causa de sua cor azul e branca, com um carro de polícia. Mas quando estavam prestes a queimar, leram as inscrições que eu colocara nas portas, (jornalista francês), e o colocaram de volta sobre as rodas. Pude mudar a roda e partir. Mais uma vez, bloqueando a rua, encontramos uma barragem de soldados esticados, protegidos do fogo por latas de lixo, e que estavam mirando em nós com suas armas: nos viramos apressadamente e eles não dispararam.

Depois de escrever e transmitir meus artigos no escritório, por telefone e fax, voltei para a casa onde Brigitte me esperava, morrendo de medo. Foi o primeiro dia de uma nova era, em que o Estado, depois de romper seu pacto com o povo, não podia mais se manter no poder, exceto pela força, sem buscar a democracia mas garantindo, em troca, um rápido crescimento, um enriquecimento sem precedentes.

Humberto Brasiliense – Não se sabe muito sobre a educação na China e o processo de aprendizagem. Você poderia nos dizer se existe uma psicogênese de aprender a ler e escrever chinês que incorpore suposições feitas pelos alunos, desde gráficos a sons até a chegada de abstração do discurso? Se não, como isso acontece? As crianças nas escolas chinesas expressam suas suposições durante o aprendizado ou são guiadas diretamente, como na pedagogia tradicional?

A instrução é extremamente direcionada, desde o nascimento: no berçário, os bebês têm seus movimentos controlados por meio de tiras apensas às fraldas, seus primeiros movimentos são seguidos e controlados. Assim, esses pequeninos podem andar e estão em forma por um ano. Para famílias que podem pagar o jardim de infância, uma minoria, crianças a partir de 3 anos aprendem aritmética, canções e caracteres chineses. Quando saem em grupo, todos se apegam a uma corda, dois a dois, liderados por um líder que obedece à professora. Assim, a turma pode andar com segurança na calçada. O professor mostra às crianças no quadro um caráter simples, como ren (人, homem) ou dao (刀, faca) e fazem-nas copiá-los com caneta ou pincel. Quando ingressam na escola primária, aos 6 anos, já conhecem de 3 a 400 caracteres - ainda são "analfabetos", pois só se é considerado “alfabetizado” com o conhecimento de 500 caracteres. Eles já aprenderam a contar e subtrair, por isso estão um a dois anos à frente das crianças na Europa.

Uma liderança que eles mantêm porque estudam obsessivamente, mesmo nos fins de semana e em aulas extras: no final de cada ano, um décimo de cada classe é eliminado. Assim, em 7 de julho de 2020, para o exame final do Gaokao, que é o vestibular para as universidades, existiam mais de 10 milhões de candidatos, para provavelmente 5 milhões de vagas disponíveis, e 17 milhões de nascimentos. Esses jovens são muito fortes nas matérias fundamentais, especialmente ciências, mas pobres em línguas estrangeiras e principalmente em trabalhos e reflexões em grupo: seus estudos foram focados na memorização e não sobre a elaboração individual ou coletiva do conhecimento.

Angélica Torres Lima – Como podemos combinar a antiga tradição chinesa hoje, em face do capitalismo moderno praticado neste país? Que lugar ocupa a cosmogonia de sua cultura para o cidadão chinês, uma cultura enriquecida pela imaginação com metáforas, alegorias, uma cosmovisão poética e mística. Também o budismo, o taoísmo, o confucionismo, com suas valiosas contribuições para a literatura da sabedoria e da sociedade individuais, sem esquecer o oráculo I Ching, que permitiu a Jung promover uma aproximação generosa entre Oriente e Ocidente, entre ciência e espiritualidade. Em resumo: que futuro você prevê para este país, neste contexto do pensamento filosófico chinês, considerando o materialismo inerente ao capitalismo?

Creio tratar-se da questão dos valores nacionais chineses. Sim, a tradição conta muito, renasceu quando Mao morreu, após 30 anos no congelador. Mao fez campanha contra a superstição e as "quatro velharias" (velhas ideias, velha cultura, velhos costumes e velhos hábitos), bem como contra Lin Biao e Confúcio. Depois de Mao, os templos reabriram - e o estado forneceu aos fiéis os materiais para reconstruí-los. As pessoas retornavam aos templos, frequentemente por curiosidade e não por fé assumida. De fato, a prática de uma religião é proibida para funcionários e empregados de empresas estatais que representam, sem dúvida, 30% da economia chinesa – tal proibição é um forte elemento de dissuasão.

Estimo o número de crentes em mais de 300 milhões, incluindo 200 milhões de budistas e 100 milhões de cristãos (principalmente protestantes), sem contar os muçulmanos. Não é incomum ver uma mãe de família, quando seu filho passa no Gaokao, indo queimar incenso no templo budista (ou taoísta, ou confucionista), depois uma vela na igreja católica: duas precauções valem melhor que uma.

A cultura chinesa não é fundamentalmente religiosa, mas laica: ao contrário do Ocidente, onde os provérbios geralmente vêm da Bíblia, na China eles vêm de romances famosos, alguns dos quais (ou pelo menos os eventos que eles narram) têm até 2.500 anos. Na época em que Jesus Cristo usava calças curtas, os jovens de todo o país iam uma vez por ano aos centros de exames provinciais para enfrentar o vestibular da magistratura imperial: todos tinham lido obrigatoriamente os 2.000 livros clássicos da época.

Hoje, grandes livros como o Sonho do Pavilhão Vermelho, A jornada para o Oeste ou Os Três Reinos são conhecidos por todos. Por outro lado, o significado de taoísmo, budismo etc. está frequentemente perdido: restam apenas documentos antigos, privados de sua chave de interpretação. Temos o grande livro do Tao, o A arte da guerra de Sun Tzu, I Ching, mas não se sabe mais o que eles significam.

Por exemplo, os hexagramas do I Ching foram recentemente interpretados como um almanaque de dias de chuva e sol, para o uso de camponeses, não mais como um livro esotérico de previsões do futuro próximo de quem o consulta. Mas 100 outras interpretações desses hexagramas coexistem, dando a este texto um significado muito mais filosófico...

Ricardo Portugal – Penso que a China, com relação à literatura e às artes, desde a revolução de 1949, experimentou certa tensão entre uma renovação modernista total e a permanência da tradição. Em alguns momentos - especialmente a Revolução Cultural -, essa tensão chegou ao paroxismo. Noto, no entanto, um novo tipo de relação entre modernidade e tradição surgindo na China contemporânea. Embora seja sempre uma relação contraditória, há principalmente uma tendência de assimilação da tradição pelos artistas e escritores de hoje. E parece que, mesmo nos momentos mais difíceis, as pessoas não deixaram de estudar artes e formas tradicionais. O que você nos diz sobre isso?

A revolução "cultural" não foi uma luta dos antigos contra os modernos - foi isso que Mao tentou fazer acreditar, mas não foi. Mao havia perdido o poder no Politburo, após uma série de desastres como a Campanha das 100 Flores ou o Grande Salto Adiante que causou fome - pelo menos 30 milhões de mortos - e o Partido estava à beira do colapso. A Revo Cul foi lançada por Mao para recuperar o poder contra outros membros do Bureau Político, como Deng Xiaoping ou Zhou Enlai, acusando toda a classe intelectual (a dos antigos revolucionários cultos que se lembraram dos crimes de Mao) e jogando crianças nas ruas contra seus pais. É uma tragédia devida à megalomania do ditador e à covardia de seus pares que não ousaram depô-lo. Dito isto, esses 10 anos de catástrofe serviram para “limpar” a alma humana na China, para despertar o desejo de espiritualismo, de curiosidade pelo estrangeiro, de enriquecimento e vida individual. De cansados e paralisados por seu passado, os chineses tornaram-se dinâmicos e sedentos de vida, revificados pelo sofrimento.

Assim que puderam, os jovens artistas chineses recomeçaram a estudar suas artes antigas, mas também, e acredito especialmente, aquela moderna do exterior. Nas academias, copiou-se muito Picasso, Chagall, Matisse, Dali, Miro etc. O mesmo vale para a música, triunfando a música clássica, com dezenas de milhões de jovens neo-burgueses que estudam piano e violão. Eles se afirmam mais internacionalmente como intérpretes como Yoyo Ma, do que como compositores. Eles surgem no cinema mundial com diretores como Zhang Yimou e na literatura, com dois prêmios Nobel, Mo Yan e Gao Xingtian).

Na religião também, a China despertou, com inúmeros templos e igrejas sempre repletos, com desejo de crescer e formar padres. De acordo com um pesquisador protestante americano, especialista em renovação religiosa na China, este país poderia se tornar em 2035 a primeira nação cristã do mundo, com 260 milhões de fiéis.

A nova arte chinesa, posterior à Revolução Cultural, distingue-se por ser extremamente colorida: é a reação de um povo que forçado por muito tempo ao silencio, à fome, à passividade e que de repente clama seu desejo de viver.

A China leu muitos autores de todo o mundo, em tradução. Dessa maneira, rapidamente superou o atraso nas teorias e ideias mundiais. Como resultado, ela foi capaz de criar, e seus trabalhos foram homenageados e reconhecidos por toda parte. A partir de 1980, surgiu a questão de transcender a influência artística estrangeira para torná-las um conteúdo verdadeiramente chinês. O Partido Comunista permitiu uma liberdade relativa nesse sentido, pois todos na China, pessoas e líderes, concordavam em estimular uma arte chinesa que refletisse sensibilidades e histórias locais, sem copiar servilmente o Ocidente. Esta é a razão do sucesso desta arte chinesa no mundo: sua vitalidade e sua capacidade de dizer o que é real (miséria, luta, crítica ao regime etc.), numa época em que a arte euro-americana busca renovar-se e novas fontes de inspiração...

Criado em 2020-08-04 15:13:22

Emily Dickinson na íntegra

Angélica Torres (*) –

Editora UnB publica Poesia Completa – Volume I – Os fascículos, contendo os cerca de 1.800 poemas da poeta americana Emily Dickinson, que faria hoje (10/12) 190 anos.

A despeito da infinitude das coisas aos sentidos, nosso imaginário sofre repetidos desgastes na faina do dia a dia. Mas eis que chegam os poetas com o seu visionarismo, sua estética, seu estilo, o desvio de percepções, os deslocamentos na escrita e um mundo renovado se descortina em imagens, sons, ritmos, ideias, pensamentos. Inusitados, mesmo após séculos, proporcionam outros horizontes e perspectivas a leitores abertos e atentos, enquanto vão lhes “ensinando” a captar seu universo de palavras, sonoridades, visões... e o céu também. Emily Dickinson, com seus 1.800 poemas escritos ao longo de três décadas do século 1800, é prova desse condão que poetas extraordinários têm de tirar o pó da vida chã, que nos embaça a vista, através dos prismas que veem nas escuridões da existência.

Lançado virtualmente pela Editora UnB no último 24 de novembro, em edição bilíngue, Poesia Completa Emily Dickinson – Volume I – Os fascículos, traz em 883 páginas o resultado do esforço de tradução da obra dessa antológica poeta norte-americana por Adalberto Müller, professor de Teoria da Literatura na Universidade Federal Fluminense, posdoc em cinema pela Universidade de Yale e também poeta. A especialista Cristanne Miller assina o prefácio à edição brasileira de Poesia Completa.

Adalberto Müller, aliás, consolidou esse projeto de acordo com a edição de Cristanne Miller em Emily Dickinson: Poems as She Preserved Them, que saiu em 2016 pela Harvard University Press. A parceria de ambos começou em 2015, num congresso de estudiosos da obra de Dickinson, em Paris. Dois anos antes, ele começara o trabalho das traduções e em 2018, aceita o convite de Cristanne M. para uma estada como professor visitante na Universidade onde ela atua. Professora titular da Universidade Estadual de Nova York, em Buffalo (E.U.), esta especialista é também autora de estudos de outros poetas modernistas dos séculos 19 e 20, como Marianne Moore.

Embora Emily Dickinson tenha sido traduzida e publicada em Portugal, como também no Brasil (e por nomes de peso, como Manuel Bandeira e Cecília Meirelles, Mário Faustino e Paulo Mendes Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, Ana C. Cesar e outros mais), a edição que sai com o selo da Editora UnB é uma empreitada inédita: é a primeira completa em língua portuguesa, além de reunir pela primeira vez, em um só volume, os 40 fascículos montados pela própria poeta, contendo ainda as variantes dos poemas e as alternativas de palavras inseridas por ela, que modificam suas versões anteriores.

É preciso destacar que a viabilização de Poesia completa se deu por sensibilidade editorial e influência da diretora da Editora UnB, Germana Henriques Pereira. Mas a compra dos direitos de publicação da poesia de Dickinson no Brasil, pela Universidade de Brasília, implica também o reconhecimento da expertise de um ex-aluno. Adalberto Müller cursou, de 1989 a 2006, a graduação e o mestrado no Departamento de Literaturas.

Voltado para especialistas, mas também para leigos, o livro é, portanto, a materialização do empenho intelectual acumulado de acadêmicos pesquisadores na obra de Dickinson. É também consequência da dedicação de técnicos da área editorial e gráfica – aí inclusa a participação da Unicamp. De feição clássica, a edição do Volume I sai com ilustrações nas capas e na falsa folha de rosto, de espécies florais, plantas e ervas que a poeta cultivava no jardim da casa de seu pai, Edward Dickinson, um político de convicções liberais e abolicionistas.

Perfil - Emily Dickinson viveu 56 anos (de 10/12/1830 a 15/05/1886) com a família em Amherst, cidade interiorana de Massachusetts, e a partir dos 30 anos, solteira até sua morte, dedicou-se inteiramente à poesia, ao culto à jardinagem, que embelezou vários de seus poemas, e ao hobby de fazer pães. Teve sólida educação intelectual: leu obras de filosofia, botânica, ciências, história, geografia e bebeu da fonte de poetas clássicos da língua inglesa, como William Shakespeare e Elizabeth Barrett Browning a quem reverenciava especialmente, e William Wordsworth, John Keats, Longfellow e o irlandês W. B. Yeats, entre outros.

Esses luminares do Romantismo, além de seus compatriotas transcendentalistas Emerson e Thoreau e também Virgílio, cuja obra ela leu em latim ainda na escola, refletiram-se no substrato dos temas explorados em sua poesia: os estados de consciência e agudezas da mente e da alma, a morte e a eternidade, a solidão e a Natureza, as causas humanistas e o amor. Emily Dickinson, que nunca foi editada em vida, mas compartilhava seus escritos com familiares, amigos, amantes de poesia e críticos, perde somente para Shakespeare, entre os poetas mais traduzidos de língua inglesa. Seus versos não param de despertar o interesse de acadêmicos e de leigos, apesar de identificada como uma “poeta difícil” – ou talvez, também, por isso mesmo.

Da poética - A síntese é um elemento capital em sua poesia. Os poemas são curtos em sua maioria e, por sofisticada tessitura, exigem reflexão. Adalberto M. assevera que traduzi-la requer não a transcriação, mas uma reescrita em condições análogas, considerando a relação entre imagem, ritmo e pensamento em sua poesia. O professor-tradutor ensina que os poemas dela se sustentam sobre o common meter, em que se alternam versos iâmbicos de oito e seis sílabas, às vezes de sete e seis. Na quase totalidade de seus poemas, Dickinson intercala versos brancos com rimas que caem no antepenúltimo e último versos e ao se valer da sonoridade típica do inglês da Nova Inglaterra, obtém um não menos complexo efeito em suas estrofes.

No prefácio, Cristanne Miller destaca o elemento que elevou a obra da poeta à condição de vanguardista: a liberdade sintática que tomou em seus escritos, com as pontuações originais, a métrica irregular, a cadência fragmentária, uma não preocupação com as rimas, enfim, um tratamento nada usual entre os poetas de seu tempo. Ao romper com as regras formais, Emily D. sobressai-se no elenco dos astros da poética do século 18, que com suas inovações estéticas anteciparam e impulsionaram o Modernismo. Nesse panteão, quase que como uma heroína num século (no mundo) pesadamente patriarcal, ela figura entre os seus patrícios Walt Whitman, Ezra Pound, T.S. Eliot e outros, mundo afora, como Baudelaire e Mallarmé, Rubén Dario e Souzândrade, Fernando Pessoa e Maiakovski.

Emily: dicção, sonoridade, percepções

Essa mulher e poeta admirável, que construiu uma obra aberta, que se move, que se apresenta como que inacabada e por isso possível de múltiplas interpretações, era como na definição de Pound uma antena sensível ao que acontecia a seu redor, apesar de caseira, recolhida, que foi. Não só por ter tido o seu modo peculiar de lidar com as questões metafísicas, ou por ter nascido em uma família rica e de surpreendentes posturas progressistas para a região e para a época, mas por ter sido exímia pianista e de ouvido sensível aos sons do seu tempo, Dickinson pôde ir além da tradição estilística e se antecipar aos futuros movimentos poéticos, ao inaugurar uma nova sonoridade na poesia.

Interessante ler seus manuscritos em voz alta e perceber o que ela fazia com o ritmo, por exemplo, dos sonetistas que cultuava – Shakespeare e Browning – para, em alguma estrofe ou versos soltos em seus poemas, desarrumar a cadência da sequência e causar uma estranheza e dificuldade a quem não percebia/percebe sua mão intuitiva nos teclados do cérebro. Quem escreve versos e ouve músicas com frequência sabe que não necessariamente sofrerá influência de letras das canções, mas que certamente os diversos ritmos, a toada, o andamento melódico, afetam, sim, subliminarmente, suas criações poéticas. É a força natural da melopeia.

Assim, Dickinson e suas antenas poderosas captaram um som diferente daqueles a que o Ocidente, com sua hegemônica cultura branca, dava ouvidos. Eram sons que ecoavam de canções populares e hinos religiosos pelo país, nas vozes dos escravos. Esses lamentos, de estruturação musical, inflexões melódicas e ritmias africanas, entoados durante o trabalho nas plantações de algodão e em seus cultos nas igrejas, logo levariam ao surgimento do negro spiritual, do ragtime, do blues, do jazz, do soul, que tanta beleza agregaram ao universo sonoro do planeta.

Pois me arrisco a dizer que, tal como Mallarmé antecipou em um século a modernidade gráfica na poesia e até mesmo no uso do espaço da tela do computador, Emily Dickinson cantou em sua poesia, também quase um século antes, a pedra do jazz, com seu tratamento melódico dissonante e ambíguo nascido de um misto entre a tradição musical africana e europeia, no contexto da cultura afro-americana.

Veja Cristanne Miller no prefácio, pág. 15: “Dickinson é primariamente uma poeta do ouvido. É o extraordinário domínio de combinar ritmos métricos e sintáticos e múltiplos modos de repetição sonora (rima, aliteração e assonância) com a significação (...)”. E Adalberto Müller (em Cronologia, pág. 815): “1859 – Catherine Scott Turner (Kate Anthon), ex-colega de ginásio, visita ED em Amherst. Os Evergreens se tornam cada vez mais um salão cultural, sob o comando de Susan. Emily entretém os convidados, cantando ao piano, inclusive cantando negro spirituals.”

A Guerra Civil – Emily Dickinson foi uma personagem tão interessante e atenta que não se furtou em contribuir com a História, nas reflexões registradas em sua singular poesia sobre os horrores da Guerra da Secessão, que dividiu os E.U., de 1861 a 1865, em torno da questão da escravatura. Mais da metade de seus escritos foram produzidos durante esses anos. Cristanne Miller enfatiza que “ela escrevia explícita e metaforicamente sobre a guerra em seus poemas”, embora a crítica só tenha se convencido disso a partir dos anos 1980.

Quanto a esse aspecto, nesta edição crítica e anotada de Poesia completa, os professores Müller e Miller tiram véus de cacoetes que se moldaram de leituras anteriores, descortinando um novo olhar sobre a poeta. Mesmo a sua discreta vida pessoal, aparentemente monótona e insípida, segue atraindo curiosos enquanto desafia os estudiosos a novas descobertas e interpretações em torno de sua obra.

Assim, quem viu e aceita o retrato vendido em filmes realizados sobre o mito Emily Dickinson – seja como uma mulher muito inteligente que vai se tornando lúgubre e velhusca, seja como rebelde, ousada, misteriosa, até o fim de seus dias – poderá vislumbrar outra personagem nas traduções do Prof. Adalberto: esta, como a que o daguerreótipo de 1846 registrou-a: jovem, de olhar sonhador, graciosa para os padrões de sua época e ao mesmo tempo moderna, atual, profunda em suas reflexões.

Para isso, basta adentrar pelo universo de seus 1800 poemas e ir curtindo os lampejos epifânicos que suas singularidades no conjunto da obra suscitam. Isto, enquanto se espera pelo Volume II (contendo Folhas e Poemas soltos, Poemas transcritos por terceiros e Poemas não retidos), acenado por Adalberto Müller para lançamento em julho de 2021. Aguardemos.

[A sepal – petal – and a thorn]

Sépala – pétala – espinho –
Manhã de verão – caminho –
Frasco de Orvalho – uma e outra Abelhas –
A Brisa brinca nas folhas –
E Eu sou uma Rosa!

[“Sown in dishonour”]

“Semeado em desonra”
Ah, é verdade!
Seria desonra isto?
Fosse bom pela metade,
A ninguém teria dito!

“Semeado em corrupção”
Ora, pois!
O Apóstolo é esquivo!
Leiam Coríntios 1.15 –
Há um – ou dois – motivos!

[Come slowly – Eden]

Vem devagar – Éden!
Lábios que não Te sabem –
Tímidos – bebem teus Jasmins –
Como a trêmula Abelha –

Chega tarde à sua flor –
Zumbe perto da janela –
Verifica os néctares –
E bebe – O Bálsamo dela –

[I asked no other thing]

Não pedi outra coisa –
Nenhuma outra – foi negada –
Ofereci o Ser – ao Poderoso
Mercador – que riu de lado –

Brasil? – girando um Botão –
Sem me dar nem um olhar –
“Dona – não teria outra coisa
Que a Gente Lhe possa -- mostrar?”

[The Spirit is the Concious Ear]

O espírito é o Ouvido Consciente –
O que a gente Ouve
Inspecionando – é audível –
Admite-se – que houve –

Para outros Serviços – como o Som –
Há uma Orelhinha – Orifício
Fora do Castelo – que guarda
Só O ouvido – de ofício –

[I felt a Funeral in my Brain]

Senti um Funeral no Cérebro,
Aqui e ali Gente de Luto
Ia e voltava – até perder
O Sentido do Absoluto –

Quando todos se sentaram,
O Ofício, como um Tambor –
Batia – e batia – até
A mente cair em torpor –

Então ouvi abrirem a Caixa
Rangendo a minha Alma
Com as mesmas Botas de Chumbo
Então o Espaço – foi soando

Como se o Céu fosse um Sino,
E o Ser, só um Ouvido,
Eu e o Silêncio, Raça estranha
No Naufrágio, e no Olvido –

E a tábua da Razão rachou,
E caí no fundo do fundo –
E mergulhei num novo Mundo,
Até saber o Enfim – então –
_________________
(*) Poesia Completa Emily Dickinson, Volume I, Os fascículos. Tradução, notas, posfácio: Adalberto Müller. Prefácio à edição brasileira: Cristanne Miller. 2019: Editorada Universidade de Brasília. 883 págs. Tiragem: 1 mil exemplares. À venda no site e na Livraria da Editora UnB.
_________________
(**) Resenha originalmente publicada no Correio do Livro da Editora UnB e no site Universidade de Brasília.

Criado em 2020-12-10 14:54:53

Copa América na pandemia é sentença de morte

Romário Schettino (*) –

Diante da decisão precipitada do governo Bolsonaro, da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), do governador Cláudio Castro (PSC), do Rio, e de outros três estados de aceitar a presença da Copa América no país, vários alertas surgiram na Assembleia Legislativa fluminense. Críticas e condenações também em Goiás e no Distrito Federal.

Segundo o vacinômetro do Estado, só na cidade do Rio faltam vacinar, com a primeira dose, 4.704.458 de pessoas. Apenas 30% da população receberam as duas doses, ou seja, 2.043.542, de uma população de mais de 6 milhões e 700 mil vidas.

A deputada estadual Renata Souza, líder da bancada do PSOL na Alerj, disse que “mesmo antes da pandemia vivemos experiências de megaeventos no país com impactos extremamente negativos para os recursos públicos e especialmente para a população mais pobre. Com a pandemia, uma iniciativa dessas como a Copa América nem deveria ser cogitada.”

Renata critica o presidente Bolsonaro: “Mesmo em se tratando de um evento sem público, lidaremos com os riscos notórios de agravamento da contaminação. Não seria possível um controle total do vírus em meio a circulação de delegações de tantos países. A acolhida do Bolsonaro a essa demanda é coerente com o (des)governo genocida desse presidente".

Para a deputada estadual Mônica Francisco (na foto, abaixo), também do PSOL-RJ, as decisões tanto de Bolsonaro quanto do governador Cláudio Castro não fazem nenhum sentido. “Não dá para compreender essa agilidade tão grande para garantir a realização de jogos esportivos num momento ainda tão delicado da pandemia no Brasil, especialmente aqui no Estado do Rio, onde deveríamos estar, neste momento, envidando todos os esforços para a compra de vacina, garantia de vacinação em massa e não promovendo processos de aglomeração, de ocupação de estádios, o que pode acarretar daqui a algum tempo num novo colapso do sistema e ampliação de contaminação e disseminação de novas variantes.”

Ainda segundo a deputada Monica, “o Rio de Janeiro continua com altas taxas de ocupação de leitos de UTI. Já contabilizamos mais 50 mil mortes nos últimos dias em todo o Estado e precisamos garantir que a vacinação possa chegar a um número maior de pessoas, com ampliação dos grupos vacinados. Ainda que houvesse a possibilidade de vacina dos atletas e das comissões técnicas, não haveria tempo hábil para garantir a imunização. Mesmo com a ausência de público, tudo é muito temerário”.

O vereador Luiz Otoni Reimont, do PT-RJ, disse que o governador, que é um aliado incondicional do negacionismo de Bolsonaro, “está numa linha absurda e preocupante quando nós temos os leitos dos hospitais ocupados e a cidade do Rio de Janeiro, percentualmente, com o maior número de mortos do país. Isso é um acinte, um desrespeito, é uma insanidade com o povo carioca”.

Para Reimont (na foto, abaixo), “os vereadores, os deputados estaduais e os deputados federais têm que resistir e exigir que o governador retroceda na sua decisão. Não podemos compreender essa visão caolha de só olhar do ponto de vista da economia. Se a economia continua patinando é porque o governo se negou a vacinar o povo e pregou o seu desapreço à saúde pública. Nós temos que dizer um não à realização da Copa América na cidade do Rio de Janeiro por tudo de perigoso que ela representa neste momento”.

Distrito Federal

Brasília, que será umas das cidades sede da Copa América, tem pouco mais de 10% da população vacinada com a 2ª dose. Por outro lado, ao passo que o GDF envia projeto de lei para prorrogar, até o fim do ano, o estado de calamidade pública no DF, por conta da superlotação de pacientes infectados nos hospitais públicos e privados, o governador Ibaneis Rocha (MDB) se posiciona favorável à realização da Copa América em Brasília, mesmo que os números se mostrem preocupantes.

Apesar da inauguração de três hospitais de campanha no DF, a Covid-19 não dá trégua. Segundo o Portal InfoSaúde-DF, atualizado às 21h16 desta quarta-feira (2/6), 106 pacientes aguardam na fila de espera por um leito de UTI. Nas últimas 24 horas, o DF registrou 801 casos de infecções por Covid-19 e 28 mortes. Ao todo, 407 mil pessoas contraíram o coronavírus na capital federal e 8.720 pessoas perderam a vida.

Na avaliação da presidente do Conselho de Saúde no DF, Jeovânia Rodrigues, os governos distrital e federal cometem um grande erro ao aceitar uma competição dessa magnitude, ainda que sem público.

“É muito preocupante, pois temos ainda alta taxa de ocupação de leitos, pouca testagem, rastreio e bloqueio de contatos na cadeia de transmissão. Por outro lado há pouco avanço na vacinação e vários estados dão sinais de uma nova subida no número de novos casos, e com uma previsão real de terceira onda, na análise de vários epidemiologistas”, aponta.

Goiás

O estado de Goiás, que também será palco para a realização da Copa América, vem apresentando altos índices de contaminação. Nas últimas 24 horas 5.162 novos casos foram registrados. No mesmo período houve 100 mortes, elevando o total de óbitos para 17.267.

O deputado federal Rubens Otoni (PT-GO) criticou a decisão do governador Ronaldo Caiado (DEM) de aceitar o evento no estado. Para ele, a população precisa de vacina, emprego e auxílio emergencial. “Não é hora de circo para desviar a atenção das pessoas e levar mais gente à morte”, disse o parlamentar.

“É um absurdo que o governador aceite sediar a Copa América. Ele, como médico, sabe o risco que é a circulação de profissionais que virão de vários países para trabalhar e fazer a cobertura. Nada contra a Copa América. Se estivéssemos em situação normal eu defenderia a realização dela no Brasil”, acrescentou Otoni
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(*) Com a colaboração de Henrique Teixeira (DF) e Kedma Karem (GO) do jornal Brasil Popular.

Criado em 2021-06-03 21:12:01

Ora (direis!) compor haicais

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Há anos tento compor haicai, também chamado haikai, hokku ou haiku, o terceto de origem japonesa, que muitos consideram o poema mais curto do mundo. É uma arte difícil, essencial, medular, imanente, despojada, antissentimental, impressionista e epifânica.

O haicaísta julga captar, e tenta traduzir em três linhas, o imo, o cerne, o âmago dos fenômenos naturais que supõe emanar de suas formas. A meu juízo é o contrário que acontece: o poeta é que projeta no Sol, na Lua, nas pedras, nos rios, nas flores e nos bichos as suas emoções e sentimentos.

Se é bem sucedido, os leitores especializados dirão que os seus tercetos têm o sabor ou o espírito do haicai (haimi), envolvendo os sensos da leveza (karumi), da impermanência (mono no aware), da graça inesperada (yūgen), da veracidade (fuga no makoto) etc, valores da complexa estética japonesa.

É preciso complicar a explicação porque os princípios mencionados no parágrafo anterior referem-se mais à escola de Matsuo Bashō (1644-1694), o maior clássico da história do haicai. Ocorre que no Ocidente os haicais são mais compreendidos e compostos pela ótica da escola revisionista da Masaoka Shiki (1867–1902), considerado o quarto clássico do gênero, depois de Bashō, Taniguchi Buson (1716-1783) e Kobayashi Issa (1763-1828).

Modo de vida – Para Bashō, a prática do haicai era um modo de vida, um modo filosófico de ver o mundo, de imergir na natureza. Ele e seus discípulos colhiam os haicais diretamente das montanhas, dos vulcões, estradas, florestas, jardins, pagodes, ao descrever as suas vivências. Sua prática poética costumava ser coletiva. Os haicaístas escreviam com base num tema previamente proposto pelo líder do grupo, e depois davam pitacos nos tercetos rabiscados pelos colegas para aprimorá-los.

Por sua vez, Masaoka Shiki, um homem da Era Meiji e da abertura do Japão para as potências ocidentais, foi fortemente influenciado por poetas europeus como Paul Verlaine e Thomas Wordsworth. Sem negar completamente os valores de Bashō, Shiki considerou que os haicais tradicionalistas estavam estagnados. Propôs então que os poetas voltassem à natureza, desta vez porém com menos espelhos nos olhos e mais imaginação, e voltados não somente para os temas da tradição. Seu modelo era o dos pintores europeus que saíam a campo com os cavaletes para retratar sem limites o que observavam, fosse árvore, ponte ou poste de luz.

Mais: Shiki reinventou o haicai e o rebatizou de haiku, concebendo-o agora como um gênero literário fixo, autônomo, equiparável ao soneto ou às trovas da poesia europeia. No lugar do trabalho coletivo, ele privilegiou a criação individual.  

No Brasil, os reflexos desse debate, baseado mais em mitos do que em fatos sobre a escola de Bashō, em leituras das criações americanas e europeias, e sem acompanhamento sistemático do estado de arte do haiku no Japão, resultaram no desenvolvimento de pelo menos duas escolas. Guilherme de Almeida, Millôr Fernandes e Paulo Leminski fazem parte da primeira escola. Paulo Franchetti, Teruko Oda e a turma do Grêmio Haicai Ipê de São Paulo integram a segunda.

Edson Iura, especialista na matéria (Cesto de Caquis – Notas sobre haicai, Telucazu Edições, São Paulo, 2021), chama o terceto da primeira tradição de Haicai Tradicional Brasileiro (HTB). O poeminha da segunda ele chama de Haicai Sazonal Brasileiro (HSB). No português brasileiro o termo haicai acabou prevalecendo sobre o termo haiku por motivos óbvios, ensina Iura.

HTB - Os haicais da primeira turma costumam ter títulos, rimas, jogos de palavras, sacadas, charadas e uma grande dose de ironia e humor. Iura lista três grandes características da escola:

- O HTB insere-se na cadeia evolutiva da literatura brasileira, como parte das conquistas do Modernismo;
- Já foi diluído o escândalo com que o Modernismo foi recebido em sua introdução;
- O Modernismo foi assimilado pela Grande Tradição Literária Brasileira (e pelos livros didáticos para o Ensino Fundamental).

Seguem dois haicais típicos dessa escola, de autoria de Millôr Fernandes:

Na poça da rua
O vira-lata
Lambe a Lua.

Viva o Brasil
Onde o ano inteiro
É primeiro de abril

Agora dois de Paulo Leminski:

a palmeira estremece
palmas pra ela
que ela merece

Esta vida é uma viagem
pena eu estar
só de passagem.

HSB – Os haicais da segunda galera seriam, segundo Edson Iura, uma ruptura com o modelo anterior, estando mais colados à tradição do culto à natureza. Tida como sendo a de Bashō, digo eu. Quase sempre retratam a época do ano em que são escritos, são mais circunspectos que os HTBs, embora graciosos, tristes, dramáticos ou trágicos, a depender do estado de ânimo do haicaísta. Evitam adornos, palavras difíceis ou “poéticas”. É de praxe compará-los com instantâneos fotográficos.

Paulo Franchetti, grande haicaísta e estudioso do assunto, diz que o núcleo da forma desse tipo de haicai é “o registro ou o despertar de uma percepção muito ampla ou intensa nascida de uma sensação”.

Na minha opinião, os haicais mais interessantes dessa escola são os compostos de duas frases em confronto, sem unidade sintática, cujo sentido é alcançado pragmaticamente por quem os lê, como acontece nas construções de tópico-comentário, comuns tanto em japonês como no português brasileiro. Em outras palavras, esses haicais costumam ser arranjos incompletos cuja solução fica a cargo do receptor.

Um exemplo do próprio Franchetti:

Até os pernilongos
Vão ficando silenciosos –
Como os anos passam…

As duas frases sem subordinação fazem todo o sentido quando o leitor se dá conta de que o poeta está falando de seu envelhecimento e de sua audição cada vez mais fraca. Essa interpretação exigiu uma ponte contextual que juntou as duas frases separadas, suprindo a quebra entre elas, sinalizada por um travessão (poderia ser um ponto e vírgula).  

Sentido aberto – No HSB o poeta evita explicitar seus sentimentos por meio de figuras de linguagem como a metáfora. Nem diz explicitamente que está sorumbático ou eufórico, preferindo descrever um determinado brilho do luar, um jeito da chuva ou um tipo de neblina para expressar a sua tristeza, alegria ou qualquer outra paixão.

Com esse truque ambiental, o haicaísta espera que o leitor possa sentir algo parecido com o que ele mesmo sente. Também por essa razão, e para que a leitura fique mais aberta, com mais possibilidades de interpretação, esses haicais dispensam os títulos, orientadores de sentidos.   

Edson Iura transcreve algumas características adotadas pelo Grêmio Haicai Ipê para os seus haicais:

- Três versos (linhas);
- Contagem em torno de 5-7-5 sílabas poéticas;
- Sem uso de título ou rima;
- Uso de palavras de estação (kigô) brasileiras;
- Culto à modéstia;
- Linguagem simples e objetiva;
- Repúdio ao sentimentalismo;
- Repúdio à metáfora;
- Prática coletiva.

Iura questiona se o HSB conquistará um lugar na literatura brasileira ou perecerá como modismo, decorrendo daqui, propõe, a necessidade de seus praticantes de provar o seu valor, consolidar a sua forma e técnica, firmá-lo como alternativa de expressão entre os gêneros literários, e, mesmo,  questionar se o modelo do Grêmio Haicai Ipê é o único capaz de alcançar os objetivos dessa escola.

O Grêmio chama a lista acima de “Mandamentos do Haicai”. Mas assim como nenhum cristão jamais obedeceu à risca os dez mandamentos, mesmo os haicaístas mais ortodoxos cometem pecados.   

Eu mesmo dispenso, no contexto de Brasília, o uso das palavras das estações tal como elas são usadas em São Paulo. O motivo é simples: aqui não temos a sucessão de primavera, verão, outono e inverno. Cotejando, temos apenas duas estações óbvias, a da seca e a das águas, conforme documentou a Missão Cruls nas duas expedições que realizou nestas paragens no final do século 19. Me parece necessária, portanto, a adoção de kigôs aclimatados ao Planalto Central. Isso para quem considere imprescindível o uso do kigô, o que também não é meu caso. Acho que às vezes basta uma alusão indireta à época do ano, um fumus boni iuris, para fazer um trocadilho com o nome do Edson Iura. 

Exercícios – Dias atrás a professora botou a turma da minha neta, a Alícia, de sete anos, para escrever haicais que serão expostos na feira literária de fim de ano. A Alícia escreveu o seguinte terceto:

Eu adoro desenhar,
mas o que eu mais gosto
é de estudar  

A professora ficou encantada, mas obviamente esse tercetinho não preenche os requisitos para ser chamado de haicai, pelo menos não na escola do Haicai Sazonal Brasileiro. Eu ofereci à Alícia uma aula de haicai, mas como ela não topou no momento, chamei o seu irmão, o Zecafonso, de onze. Depois de meia hora de papo, com a apresentação de exemplos contrastantes do Millôr e do Bashō, propus ao Zeca um teste, pedindo para ele colher da janela um tema qualquer. Ele escolheu uma palmeira. Espichando a conversa, esbocei possibilidades e ele me saiu com este haicaizinho:

Debaixo do sol
eu faço um abano com
folha de palmeira

Nota nove e meio pro Zeca! Ele se imaginou ao relento com o sol tinindo e, para amenizar o calor, projetou um leque feito de palmas, e acabou criando um belo haicai. A nota só não foi dez porque acho que ele poderia aperfeiçoar a composição com o embate das duas frases, e mais um toque de aflição, como neste exemplo:

Tantos abanadores
na copa da palmeira –
Sol de esturricar

Janelas – Da experiência com o Zeca decidi montar materiais para uma oficina de haicais para crianças. Eu mesmo tenho um punhado, e nas livrarias há muitas opções, como os de Janelas e Tempo da Teruko Oda, incluso no Programa Nacional do Livro Didático. Acabei desengavetando, porém, algumas ideias que há anos extraí dos poemas do García Lorca, algumas delas com a feição de haicais quase completos.

Eu não estou me referindo à sequência de tercetos que o poeta escreveu na escola quando tomou conhecimento do gênero no começo dos anos 20, a que deu o nome de Hai-kais de Felicitación a Mamá, nem aos haikus que ele acoplou na mesma época a alguns poemas das Suítes, como este aqui:

A lo lejos
garzas color de rosa
y un volcán marchito

Lá longe
garças cor de rosa
e um vulcão mirrado

O que eu fiz foi isolar e trabalhar trechos de outros poemas, reescrevendo-os como se fossem haicais. Os discípulos do Bashō achariam muito estranha essa prática,  mas acho que teria a condescendência do pessoal do Shiki. Como aprendiz de poeta, creio ser inevitável fazer cópias, direto da natureza ou dos livros, sempre que possível com algum grau de criação própria.

Seguem alguns exemplos surrupiados do Lorca, os trechos originais transcritos em primeiro lugar:

1)

¡Cigarra!
Estrella sonora
sobre los campos dormidos

Cigarras e estrelas
no campo adormecido –
Canções riscam o céu

2)

Los Niños

¿Quién te enseñó el camino
de los poetas?

Yo

La fuente y el arroyo
de la canción añeja

Na fonte e no arroio
se aprende velhas canções –
Caminho dos poetas

3)

Las castañas son la paz
del hogar. Cosas de antaño.
Crepitar de leños viejos,
peregrinos descarriados.

Fora do caminho
romeiros assam castanhas –
Toras velhas crepitam  

4)

¡Chopo viejo!
Has caído
en el espejo
del remanso dormido.
Yo te vi descender
em el atardecer
y escribo tu elegía,
que es la mía.

O velho choupo
caiu no espelho do remanso
que eu mirava

5)

El mar
sonríe a lo lejos.
Dientes de espumas,
labios de cielo.

O mar sorri de longe
com dentes de espuma
e lábios de céu

6)

(Los relojes llevan la misma cadencia,
y las noches tienen las mismas estrellas.)

Da minha janela,
na mesma hora, avisto
as mesmas estrelas

7)

Cayó una hoja
y dos
y tres.
Por la luna nadaba un pez.

Cai uma folha
e duas e três –
Na lua nada um peixe

Todos esses fragmentos, tirados de contexto e reinterpretados, têm o cheiro dos haicais da escola do Haicai Sazonal Brasileiro, na minha opinião, embora, a rigor, possam ser chamados de falsos haicais. Não importa, a intenção aqui é a de apresentar uma pequena mostra didática sobre a forma dos haicais.

Também acho que se parecem com haicais os tercetos seguintes, que eu pirateei de letras de canções do Tom Jobim, compostas por ele próprio e pelo Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Aloysio de Oliveira, Paulo César Pinheiro e Luiz Bonfá. Não cabe a eles, claro, qualquer responsabilidade por essa apropriação indébita e atrevida à maneira do Duchamp botando bigodes  na Mona Lisa:

1)

O vento fala
nas folhas contando histórias
que são de ninguém

2)

E as águas do rio,
aonde vão? Eu não sei –
Tão grande é o céu!

3)

É um sapo, é uma rã –
São as águas de março
fechando o verão

4)

O dia lança
serpentinas pelo céu –
Sete fitas coloridas 

5)

Um cantinho, um violão,
este amor, uma canção –
Tempo de sonhar

6)

Colhia flores
à sombra de uma palmeira
que já não há

7)

Os passos dessa estrada
sei que não vão dar em nada –
Pedras no caminho

8)

O orvalho brilha,
de leve oscila na pétala –
Ah, felicidade!

9)

Pra que tanto céu
Pra que tanto mar –
Só, na inútil paisagem

10)

Tudo terminava
na lama do caminho velho –
Brejo das Almas

11)

A fruta madura
a correnteza levou –
Ô chuva comprida!   

Pra terminar, transcrevo dois haicais meus da semana passada, inspirados na foto de uma íris azul (Neomarica caerulea) tirada depois de um toró por meu amigo Luiz Martins, que de início eu confundi com um lírio, a flor, não o Luiz:

Pingo, pingo, pingo
no telhado a noite toda –
Ah, chuvas da infância!

Há tempos não chovia
tanto a noite inteira –
Íris azul mais azul

Criado em 2021-11-20 13:17:13

Os moleques

Luiz Martins da Silva –

Então, escafederam, como no quando eles, no sempre, do vapt, vupt.

No que não se deu fé, já haviam atravessado as pistas e estavam quase lá, em baixo, no baldio, pretexto de goiabas.

Cismaram de descer mais e no mais prá lá se foram, a descobrir a razão de uns pousos. Talvez, uma rês.

Foram seguindo a trilha do apodrecimento recente, mas já convocando alarido.

Havia no meio do caminho uma cerca de arame farpado. Esgueiraram-se e nem licença com propriedade alheia, menino é assim.

Tinham de cumprir ainda com alguns deveres, mas a tarde não era completa. O sol, porém, já declinava; já era ameno nas suas queimações; já em rumorejos de escolher boleros tristes.

Pé ante pé, foram descendo o descambado. Vasta erosão, ribanceira. Aquilo era derrapante, mistura de argila e areia. Não fosse o odor forte, fariam um “esquibunda”. Daria?

Que nada! Danaram foi na carreira, de volta. Desabalados, má sorte, aquilo testemunhar.

Alívio, chegar. A língua, de fora. O coração, pela goela.

– O que foi, peste! (Mãe sempre quer saber antes de serenar o fôlego).
– Um homem, um homem...
– Homem, que homem, menino! Que história é essa?
– Um homem, mãe... Um homem... Morto!

Criado em 2020-08-12 21:47:51

Quantos degraus precisa ter uma escada?

José Carlos Peliano (*) –

Quando pequeno eu não gostava muito de subir escada, queria sim chegar lá em cima para ver o que tinha, mas as pernas e os pulmões muitas vezes me seguravam nos primeiros degraus, ou ia no colo ou com ajuda de alguém ou procurava um elevador quando tinha ou estancava. Imaginava o João do pé de feijão o esforço que deveria ter feito para subi-lo até o céu, embora fantasiasse o que e como podia para me encantar com o que ele poderia ter visto lá por cima.

Mas gostava muito mais de descer escada pelo alívio que causava em minhas pernas, joelhos, pés, pulmões e o coraçãozinho de calças curtas depois de ter visto o andar de cima. Desde a idade que comecei a ver e a entender o mundo ao redor as escadas me fascinavam. Era como se existisse outro mundo como o do chão ou quiçá diferente dele lá por cima e quanto mais escadas encontrasse mais chances de ter coisas inesperadas e interessantes eu poderia vir a encontrar.

Lá pelas tantas me perguntava “quantos degraus precisa ter uma escada? ”. Elaborei com o que achava possível até então e igualmente com o fantástico, porque a fantasia me vinha logo nos pensamentos, que quanto maior fosse ela mais degraus teria e maior a recompensa ao chegar ao último degrau. E assim foi e assim veio por muitos anos. Para mim, a escada era um símbolo de passagem para novas descobertas sempre interessantes por menores e poucas que fossem, simbolizava outro mundo ou parte de outro mundo por cima do chão onde a vida vinha junto com toda a gente, casas, ruas, terra, árvores, por cada dia da ciranda dos dias.

Não deixei de trazer comigo até hoje a sensação do inesperado que traz uma escada, seja ela qual for, da menor à maior, da estreita à larga, da simples à sofisticada. Mesmo em minha casa de dois andares construída de um belo projeto de uma arquiteta que ficou amiga, Fatah Mendonça, escolhi uma escada em balanço, linda, elegante, feminina, ousada, sensual. Feita em dois passadiços cruzados somente é presa no chão e no piso do segundo andar, enquanto na virada dos passadiços ela é solta sem suporte tendo apenas o ar a segurando. Talvez seja para mim, lá bem dentro onde os sonhos perambulam, o símbolo da casa. E ela chama a atenção de muita gente. E toda vez que a subo e lá em cima chego, a sensação de surpresa é a mesma embora sabendo que meus livros, móveis, objetos e coisas estão por lá do jeito de sempre.

Para coroar meu fascínio por ela eu presenciei os dias em que foi montada e construída peça a peça. A perícia, a destreza, o saber, sem curso nem diploma, de dois exímios pedreiros ergueram a passagem dos dois mundos da casa, o de viver o dia a dia e o de sonhar e aprender entre livros, vídeos, telescópio e um céu que não se cansa de trazer seus astros e estrelas diariamente para dentro de meus olhos.

Pois bem, os dois pedreiros foram separando e trançando os ferros de armação, degrau por degrau, apenas ajustados pelos níveis com fio e prumo usados pelas mãos de cada um e por seus olhos ao tempo em que preparavam o apoio nas estruturas de madeira para ir elevando a escada passo a passo. Não pararam nunca para se perguntar ou ao responsável se a estrutura estava certa e indo bem.

Era como se fosse um verdadeiro brinde à beleza simples, mas majestosa e perfeita de mãos calejadas. A escada surgia aos poucos dessas mãos trazida pela intuição e atenção dos dois mestres sem referências nas bibliotecas salvo meu atestado visual de inesquecível alumbramento. Tiraram a escada de malhas de ferro e arame seguras por cimento, areia e água. Só faltaram me dizer, embora insinuassem, que a escada já estava nesse conjunto de materiais, que eles apenas tiraram ela de lá para que eu pudesse subir e descer entre os dois mundos de minha casa. Um brinde eterno!

O mais incrível veio por fim, os degraus são do mesmo tamanho, largura, altura e extensão, não faltou nem sobrou centímetros em nenhum deles, tendo a mesma quantidade de degraus nos passadiços para baixo e para cima. O olho do furacão é o mesmo da mina d’água, o jeito de ver é que é a diferença.

Meu veio poético convive com o outro de economista. Convivem bem, um suportando o outro, o que me dá ajustes providenciais para ver e entender as coisas, e escrever textos como esse. Daí que a escada pode ser então, como argumentado, um símbolo de beleza e fascínio como pode ser também uma marca de segregação social. De fato, a sociedade em qualquer canto do mundo pode ser vista como uma escada para ser subida, onde a maioria, no entanto, fica nos degraus do meio e da base e a minoria nos degraus de cima. A maioria tentando subir atrás do sonho de melhoria de vida e a minoria tentando lá por cima manter o poder e o status econômico-social adquirido.

Quanto mais longa a escada, piores as chances dos que estão em baixo chegarem mais para cima, quanto mais curta, melhores os esforços da maioria. Mais degraus maiores as diferenças sociais, menos degraus menores as diferenças. Existem, entretanto, nuances nos dois casos.

Numa escada longa a maioria das pessoas pode estar concentrada nos degraus de baixo ou pode estar mais ou menos repartida em todos os degraus. Assim, no primeiro caso, a desigualdade social é maior que no segundo caso. Por outro lado, se em duas escadas os degraus têm alturas diferentes, a escada de degraus mais acentuados é mais difícil de subir, logo a desigualdade estampada por ela é maior e vice-versa.

Da escada entre simples andares, portanto, à escada social a diferença está no tamanho ou no número de degraus de cada. E por certo no uso de cada uma. Se é simplesmente para subir e descer de andares ou se é para subir e descer na vida. A primeira opção é a mais fácil, já a segunda pode levar uma vida inteira, e pior muitas vezes sem se conseguir o que se quer. Na atual fase do neoliberalismo desenfreado, especialmente em nossa pátria desamada, a escada social é a pior possível. Estamos entre os primeiros piores países em desigualdade social, particularmente nesses últimos anos de desgoverno.

Para entender melhor fica aqui um resumo. Na escada social quanto mais degraus e mais espaçados forem um do outro, pior a desigualdade; quando mais gente nos degraus do meio para baixo igualmente pior a desigualdade. Ou seja, se a disposição dos degraus for inversamente proporcional à disposição de gente distribuída entre eles, pior a situação; mas se as disposições forem diretamente proporcionais, a situação é melhor. Desnecessário mais oportuno lembrar que no caso brasileiro a série de degraus está inversamente proporcional e muito à série de gente querendo subir, tendo boa parte delas descido os degraus ao longo do tempo e outra parte sem chance alguma de sequer por o pé no primeiro.

E com a pandemia a quantidade de gente que cai escada abaixo é ainda maior, sem tamanho. Sofrem e morrem mais os que não têm condições de ficar em casa porque não têm casa, nem trabalho, tampouco renda para se sustentar. Muito menos um governo que se preocupe e cuide da saúde e vida da população do país.


______________
(*) José Carlos Peliano, poeta, escritor, economista.

Criado em 2020-12-29 14:21:47

A Ucrânia e seus algozes

Roberto Amaral (*) -

A geopolítica não é monocromática, e a peça que se escreve no teatro da guerra em curso (um território que compreende a Ucrânia, mas que se expande por metade do mundo) tem mais bandido do que mocinho, e uma só vítima: as populações civis, mortas ou desterradas. Por um imperativo moral, os socialistas não tergiversam na denúncia da invasão da Ucrânia, ao tempo em que se recusam a sancionar a política de guerra do Pentágono, nossa adversária tática e estratégica desde o fim da segunda guerra mundial.

A defesa da paz, tema caro ao humanismo socialista, implica a ativa condenação da guerra, necessidade do desenvolvimento capitalista, com a qual a Europa flagelou o mundo no s​éculo passado. O pacifismo socialista, porém, considera as condições históricas, como demonstram o esforço dos trabalhadores russos no afã de consolidar a revolução de 1917 e derrotar 14 exércitos invasores, e o empenho da jovem URSS na guerra contra a ameaça nazifascista, e seu posterior engajamento nas lutas de libertação nacional e descolonização em todos os continentes, no curso do último século. Os socialistas, ao lado dos trabalhadores brasileiros defenderam o envio de tropas para os campos de batalha da Itália: a História dizia que a prioridade era derrotar o nazifascismo.

Os socialistas brasileiros sempre defenderam a autodeterminação dos povos e hoje, mais do que nunca, desconhecem justificativa para rever essas posições que, aliás, vêm norteando a política brasileira desde Rio Branco, enriquecida a partir das experiências de política externa independente formuladas por Afonso Arinos e San Tiago Dantas nos anos 60 do século passado, revista e enriquecida pela política “ativa e altiva” de Celso Amorim, Samuel Pinheiro Guimarães e Marco Aurélio Garcia. Uma só vez, na República, o país desonrou essa história de altivez, quando, sob ditadura militar, misturou-se aos marines dos EUA que em 1965 invadiram a República Dominicana para depor o governo constitucional e democrático de Juan Bosch.

A soberania política e a integridade territorial de todos os países devem ser mutuamente respeitadas, e é evidente que uma soberania está sendo violada quando parte do território de uma nação livre e independente é invadida por tropas estrangeiras, como ocorre com a base de Guantánamo, em Cuba, ocupada pelos EUA. Claro, também, que a integridade nacional é golpeada quando o território de um país soberano se vê cercado por instalações militares de potências declaradamente inimigas.

Em 1962, ao descobrir que a URSS havia instalado armas estratégicas no território cubano, os EUA decretaram o bloqueio naval da ilha, e colocaram o mundo à beira da hecatombe nuclear, afinal afastada pela negociação de um acordo que, assegurando os EUA que não invadiriam Cuba, criava condições para a URSS retirar seus mísseis. Como foi a norte-americana naquele então, é legítima a preocupação da Rússia de hoje com o que significaria, para sua segurança, o ingresso da Ucrânia na OTAN.

Nas circunstâncias conhecidas, o primeiro e imediato vencedor dessa crise (visível pelo menos partir do rompimento dos acordos de Minsk pelo governo da Ucrânia, com a interessada benevolência das potências europeias) é o imperialismo, que sai das cordas para a retomada da liderança moral do Ocidente; imperialismo que mais ganha, política e economicamente, quanto mais a humanidade se dilacera nos conflitos por ele promovidos em todo o mundo. Com os EUA, igualmente fortalecida sai a OTAN (que deveria ter sido extinta com o término da Guerra Fria em 1991) e, nela, seu lado mais agressivo e militarista; a indústria da guerra e o tráfico internacional de armas festejam os novos tempos. Ao fim e ao cabo, a Ucrânia contará seus mortos e arcará com insondável dívida de guerra, que haverá de pagar aos aliados de hoje, por quem lutam e morrem seus soldados. Sobreviverá uma nova ordem internacional ainda mais frágil.

A Rússia, que neste evento perdeu a batalha ideológica, já é tratada como pária, e sua economia pagará alto preço pelo isolamento, e dificilmente escapará de uma  crise cambial. No entanto, está menos isolada do que nossos jornais nacionais asseveram: tem ao seu lado mais de trinta países, que ocupam cerca de metade do globo e incluem China e Índia. Quase metade da população mundial. Enfim, Putin, jogando seu xadrez, entregou as bandeiras da defesa da paz e da autodeterminação dos povos nas mãos da velha Europa colonialista, escravista e racista, da Alemanha do holocausto e dos EUA cujo belicismo e desprezo pelos princípios que fundam a Carta da ONU (e deveriam presidir a ordem internacional) ninguém ignora..

De 1950 aos nossos dias, em guerra permanente, os EUA (que, ao final da segunda guerra mundial, com as tropas do Eixo derrotadas e o Japão recuando de todos os fronts, explodiram duas bombas atômicas sobre as populações civis de Hiroshima e Nagasaki) já promoveram mais de 700 intervenções militares ou golpes de Estado em nações e países soberanos. Nesse rol estão a Guerra da Coreia (1950-1953); a longa guerra (1965 a 1973) contra o Vietnã (onde cometeram todos os crimes de guerra elencados pela legislação internacional, a começar pelo emprego de napalm contra populações civis); o cerco à Síria; a destruição do Iraque; as invasões da Líbia e do Afeganistão; o assassinato de líderes e governantes nacionalistas como Patrice Lumumba, a sustentação de todas as ditaduras de direita contemporâneas, como as da família Duvalier,  de  Salazar, de Franco, Stroessner e Somoza. São os EUA, ainda, sócios das ditaduras do Qatar e da Arábia Saudita, e responsáveis pela instalação de um governo protofascista em Kiev. 

Os EUA têm, espalhadas em 40 países, nada menos de 400 bases militares, 1,4 milhão de soldados, um sem número de naves e aeronaves armadas de ogivas nucleares distribuídas estrategicamente por toda a orbe. Quando as atenções são atraídas para a Ucrânia, e milhares de pessoas justamente tomam as ruas em defesa das vidas dos civis daquela nação europeia, os EUA bombardeiam a Somália, e sua aliada Arábia Saudita destrói o vizinho Iêmen.

A Rússia capitalista, sucessora da URSS e herdeira do czarismo, viu-se presa da armadilha norte-americana que vem dos tempos de Clinton, quando os EUA, ao invés de renunciar à Guerra Fria, que, aliás, perdera objeto com a crise do “socialismo real”, trataram de fortalecer a coalizão belicista e avançar temerariamente sobre a vizinhança da Rússia, fazendo ouvidos de mercador para seus apelos de segurança,  desafiando o orgulho de um povo de longas e profundas raízes históricas imperialistas e guerreiras. E fazendo tábula rasa da história comum da Ucrânia e da Rússia, que nasceu em Kiev (sua capital a partir de 882) formando um só país nos séculos IX e XII, de cujo seio a Ucrânia de hoje foi sacada no bojo do esquartejamento da URSS – um império, relembro para lamentar, desfeito como um castelo de cartas, após 75 anos de hegemonia do partido comunista, dilacerantes guerras civis, conquistas e perdas de território, e uma dolorosa guerra contra a Alemanha e seus aliados, que lhe ceifou mais de 27 milhões de vidas.

Por obra e graça do imperialismo, a Ucrânia foi convertida em enclave estadunidense na fronteira com sua irmã gêmea, que, com o pretendido ingresso na OTAN, converter-se-ia em base de mísseis de médio alcance mirando o território vizinho. Ao invés de cumprir com seu papel estabilizador na região, transformava-se em peão da disputa geopolítica, sem que esse papel atendesse qualquer sorte de necessidade.

Estavam dadas as condições objetivas para o conflito.

Não resultaria mais simples e soberbamente mais lógico que a Ucrânia optasse por operar como ponte entre os dois polos?  O questionamento está em Henry Kissinger (“To settle the Ukrnie crises, start at the end”, Washington  Post, 5/03/2014) que via no ingresso da Ucrânia nas fileiras da OTAN como mais uma peça na perigosa montagem do confronto Leste-Oeste que arruinaria por décadas qualquer perspectiva de conduzir a Rússia e o Ocidente para um sistema internacional cooperativo.

Ainda não é a temida terceira guerra mundial, embora o czar russo já tenha posto de prontidão seu arsenal atômico. O mínimo que podemos afirmar é que as grandes potências estão edificando um mundo ainda mais perigoso do que aquele presidido pela Guerra Fria.

Vitoriosa já é a indústria da guerra; a invasão russa é o clique que acionou o armamentismo, prometendo novos conflitos que tendem a se espalhar pelo planeta e crescer de intensidade fugindo ao controle dos jogadores de um xadrez macabro, pois, no tabuleiro, ao invés de meras peças de jogo, estão seres humanos.

A História certamente julgará com severidade o presidente russo; julgará, porém, como julgou a hedionda história do colonialismo europeu, que escravizou povos e desestruturou continentes inteiros como a África, a Ásia e o Oriente Médio, e como julga os EUA e sua saga de intervenções militares em países estrangeiros e a desestabilização de um sem número de estados, desconstituindo governos democráticos e legitimamente eleitos  e instalando ditaduras militares como as que assolaram o Brasil e o Chile.

***

Luiz Pingueli Rosa, o admirado amigo que parte,  não era apenas um professor emérito, porque era acima de tudo um grande e destemido brasileiro. Perdemos um líder como poucos conheceu a ciência brasileira.  Pioneiro que não temia riscos, um inovador na cátedra, na administração universitária e no serviço público que honrou com competência e dedicação.  Pensador do melhor quilate, um formulador de teses, e ao mesmo tempo corajoso homem de ação, um militante da causa Brasil de que jamais se afastou, ainda quando  a saúde precária cobrava repouso. Não fugiu a uma só das grandes causas de sua geração. Deixa um vácuo difícil de preencher.
________________
(*) Roberto Átila Amaral Vieira é jornalista, professor e político brasileiro. Foi ministro da Ciência e Tecnologia durante o governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva.
(**) Com a colaboração de Pedro Amaral.

Criado em 2022-03-05 14:58:20

Censura em pauta: Rollemberg x Metrópoles

O editorial do portal Metrópoles, assinado pela jornalista Lilian Tahan, denuncia a “censura” praticada pelo governador Rodrigo Rollemberg (PSB), que acionou, sábado, dia 2/6, a Agência de Fiscalização do Distrito Federal (Agefis) para a retirada de um painel eletrônico instalado no Setor Bancário Sul. Sindicato dos Jornalistas do DF repudia ação do GDF.

A estrutura estava instalada em um prédio do SBS desde 6 de fevereiro deste ano, com autorização dos órgãos do GDF. O Grupo Metrópoles, que tem como sócio o ex-senador Luis Estevão, estava usando esse espaço para “divulgação de conteúdos de natureza publicitária, como veiculação de serviços e notícias – previsão de tempo, a situação do trânsito, o funcionamento de equipamentos públicos, a programação cultural da capital, além de toda a sorte de assuntos que interessam a comunidade, como a recente crise de desabastecimento que alterou a rotina dos brasilienses”.

Lilian Tahan, diretora de Redação do portal, conta que “muito embora o Metrópoles tenha conquistado todas as autorizações exigidas pelo poder público para garantir o funcionamento do veículo, o governador Rollemberg se insurgiu contra a empena digital ao notar a publicação de conteúdo que, eventualmente, fez críticas à sua gestão”.

“Numa ação silenciosa, mesmo antes de esgotar as instâncias administrativas, o GDF obteve em regime de plantão, junto a uma juíza substituta, decisão para fazer a retirada do painel. O Metrópoles nem sequer teve o direito de apresentar todas as autorizações de funcionamento expedidas pelo próprio poder público”, completa Lilian.

A iniciativa do GDF, sob o comando de Rollemberg, provocou solidariedade de vários setores da sociedade, que consideraram a ação da Agefis como “autoritária e fascista”.

“Somos contra qualquer tentativa de censura à liberdade jornalística e de expressão. Especialmente as realizadas por meio de ações judiciais como neste caso. Por isso, o Metrópoles tem todo o apoio da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj)”, disse Antônio Paulo Santos, integrante da diretoria-executiva da entidade nacional dos jornalistas brasileiros.

Juliano Costa Couto, presidente da OAB-DF, afirmou em nota que a entidade entende que a liberdade de imprensa é “um direito fundamental de uma sociedade democrática. Qualquer ataque a esse direito é um ataque à democracia”.

O diretor e fundador da TV Comunitária de Brasília (canal 12na NET), Paulo Miranda, disse que “a Agefis atua como se fosse um braço repressor do GDF. É um absurdo inadmissível contra a democracia”.

Retaliação

Por mais que a ação da Agefis esteja respaldada em decisão judicial e na legislação em vigor, a atitude de Rollemberg não deixa de ser uma retaliação.

“Tudo começou quando o painel passou a veicular uma campanha publicitária contratada pelo SindSaúde, sindicato que representa os trabalhadores do setor. Na peça, que foi ao ar em 16 de maio, os sindicalistas falam em incompetência, omissão e má gestão do governo. Oito dias depois, a Agefis apresentou notificação para que o Metrópoles desligasse o painel, alegando desconformidade com as regras e ignorando que o próprio poder público foi quem autorizou o funcionamento do veículo.

A pretexto de disfarçar censura ao Metrópoles, Rollemberg ordenou também a retirada de painéis publicitários vizinhos ao do jornal eletrônico, alguns deles em funcionamento há mais de 20 anos”, explica Lilian Tahan.

Outra ação do portal Metrópoles que despertou a ira de Rollemberg, segundo Lilian, foi a campanha que lançaram para que o menino Mateus conseguisse uma sala de UTI para se submeter a uma cirurgia do coração. A mãe dessa criança tinha conseguido liminar na Justiça, mas o sistema de saúde do GDF não atendia a decisão judicial. Após a campanha do portal, a criança foi atendida.

PARTIDOS

Onze legendas partidárias se unem contra “a censura” de Rollemberg. Nota divulgada hoje (3/6) classifica a decisão do governador como “ato contra a liberdade de imprensa”.

Leia o documento na íntegra:

“Vivemos numa democracia plena e duramente conquistada pelo povo brasileiro. A liberdade de expressão e a liberdade de imprensa são pilares fundamentais da sociedade brasileira. Repudiamos veementemente a atitude do governador Rollemberg em censurar o veículo de comunicação “Metrópoles”, ao retirar – sem qualquer justificativa – o painel devidamente autorizado e instalado em prédio particular, na área central do Plano Piloto, em Brasília.

Esse painel veiculava informações de interesse da população, das mais variadas matérias, para fins de campanhas de utilidade pública. Não aceitaremos em nenhuma hipótese esse ou qualquer outro golpe do Governo de Brasília contra a liberdade de imprensa, a democracia e a liberdade de expressão.

Não podemos ficar calados perante essa situação que apenas demonstra mais uma vez o ilimitado “jogo sujo” ao qual se presta o senhor Rodrigo Rollemberg, para destruir aqueles que não aceitam, concordam ou simplesmente informam à respeito das trapalhadas do pior governo que o Distrito Federal já teve em toda a sua história.

Temos a obrigação de denunciar à população os métodos com que o atual governo tem usado para “calar” as vozes daqueles que procuram mostrar a incompetência sem limites do senhor Rodrigo Rollemberg. A democracia prevalecerá, a soberania popular prevalecerá, o respeito à Constituição Federal prevalecerá e os justos serão exaltados”.

Assinam:

PSDB - PSD - PPS - PTB - PSC - PSDC - PSL - PATRIOTA - PR - MDB - PRB

SJPDF repudia censura do GDF ao portal Metrópoles

O Sindicato dos Jornalistas do DF também repudia a censura do GDF ao Portal Metrópoles.

Veja a íntegra da nota divulgada hoje (5/6):

“O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do DF (SJPDF) repudia a atitude arbitrária do Governo do Distrito Federal que, por meio da Agefis (Agência de Fiscalização), retirou, no último sábado (2/6), um painel digital do portal de notícias Metrópoles, instalado em um prédio do Setor Bancário Sul.

Desde fevereiro deste ano, o veículo de comunicação utilizava o espaço para a divulgação de conteúdos publicitários e jornalísticos.

O Sindicato vê com preocupação medidas como essa, de explícito cerceamento à liberdade de expressão. Tal fato torna-se ainda mais grave porque o portal possuía licença para o uso do espaço e de os conteúdos divulgados no painel serem de interesses da população do DF, como notícias de trânsito, previsão do tempo, agenda cultural e informações de outra natureza. A retirada do painel aconteceu num final de semana, antes de esgotar as instâncias administrativas de recursos.

Compreendendo que tal iniciativa fere os princípios da democracia, previstos na Constituição Federal, e do direito à informação, elencados no Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, o SJPDF, ao mesmo tempo em que repudia tal atitude, solicita que o governador Rodrigo Rollemberg [PSB] apresente os motivos e a legalidade do ato de retirar o painel eletrônico do Metrópoles”.

Criado em 2018-06-03 23:15:06

Festival homenageia Agnès Varda

A 8ª edição do Brasília International Film Festival (BIFF), que acontece em Brasília de 23 a 30 de setembro, terá como grande homenageada a diretora belgo-francesa Agnès Varda.

Falecida em 2019, Varda é referência da Nouvelle Vague e do cinema mundial. Única mulher a ganhar a Palma de Ouro honorária e a primeira diretora a ganhar o Oscar pelo conjunto da obra em 2017.

Para essa homenagem o BIFF criou uma mostra especial com exibição de seis filmes de longa e curta duração, seguidos de debates. Entre eles estão: Visages, Villages, Cléo de 5 às 7, Elsa la rose, Ô saisons, ô chateaux.

A Mostra Agnés Varda é apenas uma das que fazem parte da programação desta edição do Festival, que conta, ainda, com a mostra competitiva com filmes do Brasil, Espanha, Eslovênia, Estados Unidos, Filipinas, França, Grécia, Japão, México e Rússia. Todos os filmes selecionados foram rodados em 2020 e 2021. Neste ano haverá também a mostra BIFF Junior, com exibição de produções para o público infanto-juvenil.

“Foram inscritas mais de três mil produções, que passaram por um recorte da curadoria que assistiu mais de 800 longas metragens e escolheu cerca de 50 filmes que serão exibidos durante o BIFF e que, dificilmente chegariam às salas de cinemas de Brasília e do Brasil”, afirma a diretora geral do evento, Anna Karina de Carvalho, que comemora a volta do evento no formato presencial.

Outra novidade desta edição do BIFF é que ele irá contemplar a Grande Brasília, com exibições no Cine Brasília, 504 Sul, SescDF Ceilândia, Planaltina, Taguatinga e Complexo Cultural de Planaltina. Todas as atividades têm entrada franca.

O evento de abertura da 8ª edição do BIFF - Brasília International Film Festival acontece no dia 23 de setembro no Cine Brasília.

Veja toda a programação do 8º BIFF aqui:
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Criado em 2022-09-17 20:00:21

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