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Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
O jornalista Licínio Tavares, o Pebão, teve uma ideia tão sinistra quanto brilhante para enfrentar o desemprego depois de ler o Piquenique no Gelo, romance de Andrei Kurkov sobre o escritor frustrado Viktor Zolatarev, que passou a escrever obituários de pessoas a serem executadas pela máfia russa, e que tem como companheiro o Misha, um pinguim depressivo. Acho que isso aconteceu em 2001, e parece que foi em Silvânia, interior de Goiás.
Na visita a um amigo em estado precário no hospital, com muito jeito, Licínio perguntou como é que ele gostaria de ser lembrado pela posteridade, tendo em vista – ãhã! – a sua fama de safado, tratante e fofoqueiro. O amigo deu de ombros, conformado tanto faz.
Licínio insistiu. De jeito nenhum! A honra é o nosso principal valor, e eu posso dar um jeito nisso. Explicou o plano. Escreveria um fornido necrológio do amigo, amenizando as suas faltas notórias com insuspeitos gestos de caridade, todos anônimos, evidentemente, mais valiosos aos olhos da comunidade. No final todos concordariam, à maneira dos chineses, que o homem tinha errado 30% (Quem não, que atire a primeira pedra!) contra 70% de acertos. Partiria dessa no lucro.
O doente teve uma tosse medonha depois de achar a ideia sensacional. Não só topou o plano como se adiantou ao Licínio, oferecendo-lhe uma pequena soma para recompensar o trabalho de lustra-crédito.
Com o novo expediente, Licínio começou a pagar as contas atrasadas, mas não pôde seguir adiante por escassez de amigos em estado de descomposição. Foi então que procurou o dono da funerária com a proposta de agregar ao nobre serviço a opção do necrológio, a ser veiculado na rádio e no blog pioneiro da cidade. Um lava-jato do corpo e da alma, por que não?
Como a vaidade não tem limites nem no beleléu, acreditem, a ideia bombou!
Ah, é pura fake news a insinuação de que foi Licínio quem incrementou a seção de obituários da Falha de S. Paulo.

Todo mundo merece ser santo – II
Professora aposentada, católica carismática recém-convertida, Zenóbia visita o irmão Jordão Bruno no Hospital de Base, desenganado, não passa de amanhã. Ele está lúcido, serelepe, contando piadas. Ela, vexada, preocupada com o destino da alma dele, um ateu empedernido.
Bruninho, diz ela, você não quer aceitar a Jesus como Salvador, pelo menos pra me deixar tranquila? Eu vou morrer de desgosto sabendo que você vai pro Inferno. Nobinha, diz ele, fazendo careta, não seja boba, sua egoísta! Você sabe muito bem o que eu acho dessa bobajada.
Bruno, eu andei lendo a tese de um tal David Bentley Hart, um teólogo americano, devoto de São Gregório de Nissa. Ele diz que todo mundo, sem exceção, vai pro céu, mesmo os piores criminosos. Depois de passar por um período de purificação, né! De acordo com essa doutrina, o universalismo, até mesmo você tem salvação, maninho!
Nobinha, Nobinha, isso faz sentido para um Deus de bondade absoluta, mas você acaba de me dar mais um argumento contra. Imagine se eu vou querer conviver no Céu com a Damares, o Bolsonaro e aquele bando de milicianos! Você tá bestando, maninha! Até a Zenóbia riu, antes de um longo silêncio tumular, quebrado por ele.
Nobinha, tem aí um novo estudo que, na minha opinião, reforça a ideia de que é muito difícil julgar o comportamento das pessoas. A equipe do Dr. Thomas Kraynak, da Universidade de Pittsburgh, acaba de juntar mais evidências de que processos inflamatórios causam depressão e várias doenças mentais. Mesmo que existisse, parece que o livre arbítrio seria afetado por uma simples inflamação! Será que o niilismo do Nietzsche não teve origem na leucoencefalopatia dele?
Os dois soltaram uma gargalhada. Mas logo depois Zenóbia contra-atacou, dizendo que o irmão, no fundo, no fundo, pensava parecido com São Gregório e seu discípulo. A conversa continuou nessa toada madrugada adentro.
Deus morreu, Nietzsche morreu, e o coitado do Jordão Bruno não alcançou nem os primeiros raios do Sol furando as janelas do Hospital de Base.
Criado em 2020-02-23 14:16:32
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) - Dizem que todo ano, na madrugada de 5 para 6 de maio, dois espectros, um alemão, outro austríaco, rondam a Zona Norte de Londres, o primeiro saindo do Cemitério de Highgate e o outro do Crematório Golders Green, relativamente pertos.
Criado em 2023-05-06 11:16:35
Patrícia Porto e Romário Schettino –
O brasilianista John D. French (*), autor da biografia Lula e sua política de astúcia – de metalúrgico a presidente (Lula and his politics of cunnings - From Metalworker to President), afirma que o país “está numa situação angustiante”. “Tanto para mim”, acrescenta, “quanto para qualquer pessoa que ama o Brasil”. O professor ressalta que os problemas brasileiros se agravaram muito, e com a pandemia pioraram ainda mais. “É visível a desagregação do Estado, com rixas e conflitos que antes não existiam.”
Para French, Jair Bolsonaro “representa o pior dentro de uma instituição do Estado que tem não apenas coisas negativas, mas responsabilidades nacionais. Qualquer pessoa que assuma o poder tem que coibir as ambições que levaram a instituição militar a se comprometer com atividades que não são suas, e fizeram um péssimo trabalho”.
Sobre as eleições de 2022, o historiador arrisca: “Qualquer pessoa que ganhe a corrida eleitoral – fundamental para a trajetória do Brasil – vai ter que recompor o balanço, equilibrar os interesses regionais e de classe – o país vai ter que trabalhar conjuntamente. Para as pessoas que falam muito numa polarização, eu gostaria de dizer que todo mundo sabe que o Lula não é uma pessoa que polariza, pode-se dizer que o PT polariza, mas Lula é um político que trata com qualquer um, respeita seus interesses e busca encontrar soluções”.
Pesquisas e viagens – “Minha primeira viagem ao Brasil foi em 1980, passei vinte meses fazendo pesquisas em São Paulo sobre o ABC – 1981-1982. Depois, mergulhei na leitura de muitos livros sobre as greves de 1970. Quando terminei minha dissertação na Yale University, meus primeiros artigos sobre Lula e suas origens - que sobreviveram de forma bastante modificada no livro - foram escritos em 1986 e 1996”, disse John D. French em nosso primeiro encontro virtual.
French conta também que passou o ano 2000 morando em Sergipe, onde sua mulher fez doutorado em antropologia estudando índios e quilombolas do Baixo São Francisco. Nessa época estudou as origens e o crescimento eleitoral do PT em quatro estados nordestinos. Depois de 2002, concentrou suas atenções, durante um ano e meio - utilizando-se de bolsas do Woodrow Wilson Center for International Studies e do Kellogg Institute de Notre Dame – ao projeto plurianual sobre o governo Lula enquanto participava de pesquisa sobre as “viradas” políticas para a esquerda na América Latina.
A primeira versão do livro, informa John D. French, era para ser um trabalho em dois volumes abrangendo 23 anos de pesquisa. Depois de apresentado de forma privada em um workshop em 2014, o livro foi reduzido a um único volume em outubro de 2019, com publicação no ano seguinte.
A seguir, a íntegra da entrevista:
Brasiliários – O sr. escreveu uma biografia de Luiz Inácio Lula da Silva em um livro de 520 páginas, resultado de 40 anos de pesquisa. Que pontos destacaria como os mais relevantes nesse trabalho?
John D. French – Primeiramente, seria bom falar sobre como se deu o processo de escolha do tema. A ideia surgiu em meus primeiros contatos com Emília Viotti da Costa – importante historiadora da USP, aposentada ainda muito jovem pelo regime militar brasileiro ao lado de outros 56 professores daquela universidade, dentre os quais, FHC.
Ela estava exilada nos Estados Unidos e foi orientadora de minha tese de doutorado em Yale. Meu interesse inicial era estudar a história do México no século XIX. Tinha vivido um ano lá, entre 1967 e 1968, enquanto estudava na Universidade Nacional Autônoma do México – Unam, na época dos grandes movimentos estudantis. Na primeira conversa com Emília Viotti, ela recomendou ter cuidado na escolha, porque o assunto dominaria minha vida nos vinte anos seguintes. Ela perguntou se eu tinha outro tema que me interessasse. Então citei as greves no ABC paulista.
Ela concordou ser um tema importante a ser explorado. Então, no final de 1979 estive no Brasil, quando Lula tinha sido preso e estava sendo processado pela Lei de Segurança Nacional. Depois retornei no início dos anos 80, e fiquei aqui cerca de ano e meio.
O livro não é só sobre Lula, porque não se pode separá-lo do que foi São Paulo nessa época. Uma fase de grande crescimento, mas também um ambiente de aventuras, esperanças, onde filhos de famílias do interior encontraram um mundo totalmente diferente dos pais, e um mundo de possibilidades.
Podemos dizer que o livro é uma exploração desse mundo, porque foi aí que nasceu um conjunto de mudanças. Foi uma época em que se formou uma visão do que poderia ser o Brasil. País de hierarquia estratificada, categorias cristalizadas que acabaram sendo desafiadas pela realidade. O mundo estava crescendo e havia necessidade de operários qualificados.
De que maneira o sr. colheu as informações sobre a formação profissional do Lula e de como ele chegou a ser torneiro mecânico?
Lula fala em ser torneiro mecânico como ponto fundamental em sua trajetória. Ele fala disso como uma profissão. Quando lhe perguntam o que ele é, politicamente, ele sempre responde “sou torneiro mecânico”. Pessoas de fora têm impressão de que trabalhadores braçais são todos iguais, que não têm uma diferenciação. A geração jovem da USP estava vendo esse mundo do trabalho na indústria dessa forma, mas esse é um mundo diferenciado.
Na composição da narrativa, juntei todas as versões, coloquei as versões em diálogo entre si, minhas descrições são baseadas em entrevistas com Lula, mas também com pessoas da família Silva, em especial Frei Chico.
Outras pessoas estavam estudando e documentando esse período, como FHC e outros. Há dezenas e dezenas de estudos sobre o ABC – onde você encontra muitas observações de operários. Reuni esse material e coloquei junto com as histórias contadas, ao lado de observações de Lula, além de vozes dos operários anônimos captadas pelos sociólogos da USP na época.
O livro dedica muito tempo à abordagem sobre educação. Tem vários capítulos que tratam do tipo de trabalho do torneiro mecânico, o chão da fábrica versus hierarquias superiores. Encontrei muitas informações num estudo sociológico de Luís Pereira sobre a escola pública da época. Havia escolas públicas de qualidade, mas com o crescimento da população o sistema começou a entrar em crise. As pessoas às vezes perdem a noção do que foi construído como parte do desenvolvimentismo, em que o Senai foi muito importante, parte importante e bonita. Nessa época desenvolveram-se formas de pedagogia muito abertas e ao mesmo tempo mais democráticas.
Como avalia o significado dessa profissão, para Lula e a família dele, do ponto de vista material, subjetivo e da autoestima?
Nos três anos em que Lula passou entre o Senai e as aulas práticas na fábrica, ele diz que foi aí que encontrou a cidadania. Estava aprendendo a manejar equipamentos da modernidade, correspondia a participar da realidade do mundo inteiro – trabalho que exige inteligência, disciplina, sentido de autoestima, e em que você precisa continuar aperfeiçoando seu conhecimento. Também vinculado à ideia de que se pode fazer alguma coisa, pois o “Brasil tem jeito”. Lula tem sempre uma visão otimista, também uma convicção de que mesmo grupos em conflito podem avançar juntos com benefícios para ambos os lados.
Uma parte do apelo de Lula é justamente a ideia de um crescimento compartilhado, de que o regime militar foi uma recusa, daí as grandes greves do final dos anos 70 – a ideia do governo militar era “crescer o bolo para depois dividir”, mas isso gerava um sentimento de injustiça em quem estava trabalhando.
Há muitas histórias dessa época em São Paulo que não vão deixar propriamente uma nostalgia, mas a lembrança de qual foi a origem do mundo de hoje, origem de presidentes como Fernando Henrique e Lula. Esse mundo foi onde cresceram alternativas democráticas, que acabaram construindo a Nova República. Democracia hoje ameaçada, mas não acredito que o povo brasileiro vá andar para trás, sem deixar de reconhecer as ameaças autoritárias que acabam sendo parte da cultura brasileira também, mas acredito na vocação democrática do povo brasileiro.
Do ponto de vista subjetivo, Lula sempre gosta de falar de si, da sua experiência de vida, sempre falava da sua vida abertamente – o que surpreende de certa forma, vindo de uma pessoa que passou por muitas dificuldades (falava de coisas que poderiam ser consideradas como humilhantes, como passar fome etc). Essas coisas mostram que ele não tinha vergonha de sua origem, ele conta essas histórias dezenas de vezes.
Para a geração que chegou com os pais em São Paulo, para avançar, vencer na vida, sabia que a chance não era para todo mundo. Para Lula houve um começo, um pouco de educação em Pernambuco e em Santos, mas houve o conhecimento e a disciplina de “ir atrás”, mesmo com escolas de qualidade variável, aprendendo e avançando e conquistando. Nessa época, um ferramenteiro da indústria automobilística ganhava um salário maior do que a média dos alunos egressos da USP.
Todavia, vão sempre ser olhados com certa superioridade, em parte por causa da origem regional ou cultural, porque existe um conflito cultural; são discriminados seja porque é um trabalho braçal, – ideia herdada da escravidão, pessoas que têm cultura (boa educação, bons costumes) “mundo das pessoas de bem” (como diz Bolsonaro, usando expressão antiquada) e os outros ... Não apenas as manobras do regime ditatorial e a distribuição desigual. Havia o tratamento preconceituoso e autoritário. São Paulo foi um lugar onde esses traços autoritários começaram a ser desafiados, política e culturalmente.
O processo de mudança social nunca é uma coisa que acontece porque houve uma iluminação e as elites decidiram. É sempre um processo de muita luta – com a redemocratização começou uma era nova. Nos anos 80, com os militares fora da política, o país tornou-se menos preconceituoso e autoritário. Mas os vícios - racismo, autoritarismo, conservadorismo moral, essas coisas não desapareceram.
Como você vê o quadro atual da política brasileira, que aponta para uma disputa entre a esquerda (representada por Lula) e a extrema-direita (representada por Bolsonaro) em 2022?
Sobre a política brasileira, pergunta interessante. Perfil político do Lula, centro-esquerda? Esquerda? As pessoas perguntam isso. Acho que a capacidade dele de ser um bom político surgiu dentro do sindicado, possibilidade de criar espaços de convergência ao redor dele, mediar, juntar pessoas em torno de si, mesmo com interesses conflitantes.
Há grandes debates da ciência política no Brasil. A ideologia é importante na votação popular? A questão pode estar vinculada a noções preconceituosas relativas à base do eleitorado dele. Quem pensa como direita/esquerda, em geral são pessoas com educação superior. Mas penso que, falando de Lula como político, seria erro pensar que a maioria do povão está ligada nessas classificações direita/esquerda. Em geral, o povo quando vota, e também em suas atitudes, prevalece o sentimento de imediatismo, características humanas de reconhecimento de suas necessidades, do que pode levar a alguma coisa concreta.
O apelo de Lula sempre foi muito além da esquerda; em todas as eleições presidenciais a esquerda é apenas um terço da votação de Lula. Todo mundo tem o Lula que interessa a eles. Qual o Lula verdadeiro? Votam nele tanto pessoas com visão altamente politizada, com visão clara de esquerda, quanto uma grande massa que o vê, digamos, como um “vovô bondoso”, que “confia em nós e temos que ter confiança nele”, em quem se pode confiar etc. Lula não tem dificuldade de unir essas pessoas.
O presidencialismo de coalizão brasileiro é um problema político que afeta a governabilidade e expõe, em muitos casos, a corrupção. O que pensa sobre esse tema, tendo em vista o histórico recente dos chamados “mensalão” e “lava-jato”, que atingiram o PT e Lula?
A política brasileira tem peculiaridades bem conhecidas desde o começo do século XIX, ou desde o começo da República. Política é o jogo de uma minoria, uma classe política fortemente dividida. Pouca coisa existe de política nacional. Existe política regional, dos estados e, dentro dos estados, tem a política da capital, do interior e a municipal, e a eleição, uma forma de decidir quem vai ocupar as cadeiras de vereadores, deputados etc. Política aqui é transacional, baseadas em grupos, de vez em quando, famílias de políticos, isso é parte da política dessas localidades.
Uma crítica da esquerda, e também de liberais, uma ideia de cientistas políticos, é a ideia de que seria uma coisa boa ter ideologias, seria uma visão mais moderna. Pode ser melhor uma política de linha ideológica; mas acho que esse paroquialismo do baixo clero - que constitui a maioria da classe política brasileira - tem uma coisa razoável em termos de desenvolvimento. Porque uma política baseada em ideologias definidas leva a uma polarização total, um grupo contra outro.
Estamos sofrendo nos EUA exatamente isso. Acaba sendo destrutiva na sociedade. O que você pode dizer sobre o baixo clero? Tem várias coisas que podemos dizer: o interesse deles é paroquial, mas quando o Brasil passou de um país agrário para o industrial, não houve um conflito entre os dois lados.
Foi fácil para Getúlio reunir os políticos em torno de interesses paroquiais. O PSD, não tem nada a ver com social democracia, mas era de famílias dominantes nos locais. Há muitas piadas dos anos 50, que ilustram como funciona a política brasileira. No começo da polarização getulismo x antigetulismo, comunismo x capitalismo, perguntaram a um político do PSD com quem ele ficaria, entre a Bíblia e o Capital, e ele respondeu “eu escolho o diário oficial”.
O Centrão está tirando vantagem ao dar apoio a Bolsonaro, mas não tem nenhuma fidelidade a ele. Presidencialismo de coalizão deixa margem para evitar polarizações perigosas - acho isso importante, e cito o livro de Vitor Nunes Leal, Coronelismo, Enxada e Voto, em que as peculiaridades descritas são rotuladas no Brasil como sendo apenas corrupção. Porém, temos que pensar, corrupção tem uma história no Brasil como um lema político muito utilizado - “mar de lama” - na cruzada contra governo Getúlio Vargas e que o levou ao suicídio.
Fazendo comparação com os EUA, lá o sistema tem mais realismo sobre a questão da corrupção. O sistema eleitoral num país capitalista sempre vai ter corrupção. Você está falando de um negócio, porque as pessoas querem recursos, e o Estado tem recursos.
Por outro lado, as leis sobre corrupção no Brasil e os princípios que definem o conceito de corrupção são muito abrangentes. São perfeitos, mas tão exaltados que fica impossível fazer política no Brasil. Nos EUA – não estou dizendo que seja bom – mas, a título de exemplo, há aceitação de que políticos recebam doações de empresas, o que recentemente ficou até mais aberto.
Nos EUA, você precisa provar que houve a doação com um determinado fim ilícito, tem que provar que o recurso foi usado, para que foi usado e se a finalidade era ilegal. Temos muita corrupção nos Estados Unidos - cinco governadores de Illinois seguidos foram condenados. Contudo, a legislação anticorrupção e o moralismo vinculado a essa legislação abre, por assim dizer, uma coisa tipo caixa de Pandora, porque, na realidade, qualquer governador ou prefeito tem que fazer coisas chamadas ilegais, mas que são necessárias para tocar a máquina estatal.
Não me refiro a decisões destinadas a favorecer diretamente pessoas ou grupos, que nesse caso têm que ser julgados e condenados. Mas, no Brasil, se alguém vai ser prefeito, vai precisar logo de advogados, porque mesmo anos depois de sair do cargo pode ser processado por alguma decisão tomada.
Como vê a Lava-Jato?
Lava-Jato e mensalão. Antes disso - uma coisa clássica, bem brasileira -, a corrupção foi sempre um chamamento pelas pessoas da oposição. Na gestão Fernando Henrique, o PT falava em corrupção no governo o tempo todo. Não estou dizendo que não houve. Todavia, se você partidariza a corrupção, você está cometendo um erro. Sempre vai haver pessoas que estão traindo suas responsabilidades, devem ser investigadas, cassadas e mandadas para a cadeia. Mas não se pode vincular isso com o PT e dizer que o PSDB não tem corrupção - está errado. É uma politização da ideia.
Derramamento de dinheiro da Petrobras, bilhões de reais, por causa de fraudes, acabaram enriquecendo individualmente certas pessoas. São coisas que foram reveladas, e isso não foi propriamente uma surpresa, porque no Brasil tem muito. Tenho uns 60 livros sobre casos de jornalistas investigando denúncias de corrupção.
A politização, no entanto, acabou convertendo a investigação em instrumento de partidarização. Deixou de ser baseada nos interesses do Estado. A perseguição a Lula foi forte, gerou uma grande mobilização que deu no impeachment de Dilma. Mas o mais interessante é que Lula não foi destruído - eles pensavam que finalmente iam destruir o Lula, mas a popularidade dele não caiu, e então decidiram tirá-lo do jogo, impediram-no de se candidatar.
Essa utilização de acusações de corrupção para fins políticos enfraquece a própria luta contra a corrupção. Quando partidariza o combate, para alcançar um objetivo político, você cria a ideia de que o combate à corrupção não é uma política de Estado e sim de oposição.
Uma coletânea sobre investigação de corrupção publicada nos EUA (Power, Timothy J., and Matthew M. Taylor, eds. Corruption and Democracy in Brazil: The Struggle for Accountability. Notre Dame: University of Notre Dame Press, 2011) mostra claramente que uma das coisas feitas no governo Lula foi que ele aumentou a autonomia e a independência da Polícia Federal e do Ministério Público, criou a legislação incluindo a Lei da Ficha Limpa, e houve muito mais investigação nos governos de Lula e de Dilma do que em qualquer um dos anteriores. Não quer dizer que não houve corrupção no PT, que existe em todos os partidos, como já comentei. A hipocrisia foi ter um monte de políticos como Temer e Bolsonaro dizendo que o PT era corrupto. Fazer campanha política em cima disso é muito perigoso.
Você acha que a Lava-Jato perseguiu Lula?
Sobre as investigações em Curitiba e a perseguição a Lula, houve rompimento das regras do “todos são iguais perante a lei”. Houve irregularidades. Houve violação de direitos humanos para combater corrupção. Isso cria dinâmicas perigosas para a população em geral.
Nos EUA, o equivalente à Oderbrecht seria a Bechtell. Seria impossível, com base na interpretação da lei, colocar o presidente da Bechtell por três anos na cadeia para obter informações, seria violação dos direitos do presidente da companhia.
O problema do Brasil não é a corrupção e sim a desigualdade extremada, entre as regiões e baixa distribuição da renda e dos recursos econômicos, desigualdade entre pessoas baseada na sua cor, desigualdade entre gêneros, na verdade, desigualdade como falta de um desenvolvimento inclusivo, que incorpora todos no país. Está errado dizer que a corrupção é a única coisa importante... foi isso que acabou com companhias como a Oderbrecht e Camargo Correia, entre outros.
A Bechtell está hoje fazendo contratos que seriam da Oderbrecht – não digo que o objetivo tenha sido beneficiar a Bechtell; mas foi falta de responsabilidade de um grupo de jovens de perfil homogêneo, pertencentes a uma região de origem europeia, cheio de preconceitos políticos e culturais contra o outro Brasil, que tinha ganhado quatro eleições em sequência - não é pouca coisa. Lula é o Pelé da política eleitoral presidencial no mundo. Ganhou mais World Cups do que Pelé!
Com sua experiência e conhecimento sobre o Brasil, o sr. tem alguma recomendação a fazer à esquerda brasileira, em relação a possíveis alianças com correntes mais conservadoras na política para derrotar a extrema-direita?
O Brasil está numa situação angustiante para mim, como para qualquer pessoa que ama o país. Os problemas aumentaram muito. Além da Covid, tem a desagregação do Estado, rixas e conflitos que antes não existiam do mesmo jeito. Com o aumento do armamentismo e a ideia de que mais armas nas mãos da população é uma coisa boa, já temos a experiência, nos Estados Unidos, de que essas não é uma boa opção, mesmo em um país mais desenvolvido do que o Brasil.
Qualquer pessoa que ganhe a eleição do ano que vem – fundamental para a trajetória do Brasil – vai ter que balancear os interesses regionais e de classe – o país vai ter que trabalhar conjuntamente. Para pessoas que falam muito numa polarização, eu gostaria de dizer: todo mundo sabe que o Lula não é uma pessoa que polariza, pode dizer que o PT polarize, mas Lula é uma pessoa que trata com qualquer um, respeita seus interesses e busca encontrar soluções.
O que acha que poderá acontecer em um futuro governo Lula na relação com os setores militares?
Em relação aos setores militares, Bolsonaro comprou o apoio de muitos deles com a incorporação no seu governo. Conta com apoio e entusiasmo dentro do Exército - não apenas entre quadros do Clube Militar, mas também entre certos jovens que estão querendo pegar carona na política vinculando-se a Bolsonaro. Entretanto, Bolsonaro não é um candidato dos militares, um político que possa ser apoiado por militares – é um “bunda suja”. A opinião de Geisel e outros sobre ele era negativa, ele falou em colocar bombas, escapou por um triz da justiça militar, e depois fez demagogia utilizando revanchismo em relação ao fato de que os militares saíram do poder.
Bolsonaro representa o pior dentro de uma instituição do Estado que tem não apenas coisas negativas, mas responsabilidades nacionais. Qualquer pessoa que assuma o poder tem que coibir as ambições que levaram a instituição militar a se comprometer com atividades que não são suas, e fizeram um péssimo trabalho. A grande esperança seria a reincorporação de todos os grupos e instituições numa visão conjunta do que deveria ser o Brasil.
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(*) John D. French (na foto, acima) é professor de História e Estudos Africanos e Afro-Americanos em Duke University, possui doutorado em História brasileira pela Yale University (1985) com orientação de Dra. Emília Viotti da Costa. Já publicou dezenas de artigos além de vários livros incluindo O ABC dos Operários: Lutas e Alianças de Classe em São Paulo, 1900-1950 (1995), Afogados em Leis: A CLT e a Cultura Política dos Trabalhadores Brasileiros (2001), e The Gendered Worlds of Latin American Women Workers: From Household and Factory to the Union Hall and Ballot Box (1997). Seu livro mais recente foi publicado em Outubro de 2021: Lula and His Politics of Cunning: From Metalworker to President.
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Veja também vídeo e texto complementares:
1) Os historiadores Alex Lichtenstein e John French conversam sobre o livro Lula e sua Política da Astúcia: de Metalúrgico a Presidente (UNC Press, 2020) – Labor: Studies in Working Class History. Um fórum de discussão oferecido gratuitamente de 26/8 a 30/11/2021. Veja no YouTube aqui
2) Leia (aqui) artigo, em inglês, de Brodwyn Fischer: Lula and the Future of the Past (Lula e o Futuro do Passado).
Criado em 2021-09-21 16:55:22
Luiz Martins da Silva -
Eu o vi num filme hispano/argentino. O cinema argentino só perde para o brasileiro... Bobagem. Cada um com o seu. Brasil, Pelé e Garrincha. Argentina, Maradona e... À escolha. Aguero? Ufa! Será que não podemos falar de assuntos argento-brasileiros sem esse cacoete provinciano de comparação, competição, rivalidade? Somos diferentes. E os diferentes não são comparáveis. Por serem distintos. Nós, Farol da Barra. Eles, Farol das Orcas. Nós, Amazônia. Eles, Patagônia.
Vi um hotel cheio de argentinos, em Fortaleza. Vinham de carro, família, atravessando quase um continente, deslizando pela nossa orla. Alguém, daqui, riscaria rumo ao Sul um mapa de uns 8 mil km? Sei não. De carro, eu, não mais. Desse jeito de ir, não vale mais a pena, pousada em pousada, até o ‘fim do mundo’ – meias aspas para o desespero dos marujos de Fernão de Magalhães. À medida que não encontravam “a passagem”, deduziam que tinham embarcado com um homem-diabo que levava ao inferno. E, ao contrário das descrições antes supostas, o Inferno não era para ser um galpão interminável de fogueiras e caldeirões assando e fritando pecadores. O Inferno, gelado; morrer e purgar eternamente as culpas, queimando de frio.
Algum dos nossos leitores estará informado sobre o porquê de ter sido a Terra do Fogo assim chamada, se por ali não havia como acender um tição? E não ser como a Islândia, berçário de vulcões ativos e aterradores? Uma vez, um desses, nome trava-língua, vomitou fumaça a ponto de cancelar os voos da Europa ocidental.
No extremo que antecede o Círculo Antártico, não há fuligem, mas o estrídulo agonizante, teimoso e cruel, zunindo nas árvores, nas cumeeiras das cabanas, ou mesmo sacudindo as vidraças dos rarefeitos resorts. Nós temos balneários. Eles, Bariloche. Nós, Fernando de Noronha. Eles, estampido de geleiras desabando... Mas, belas!
Nós temos Jobim. Eles, Piazzolla. Cada qual com os seus geniais. Os nativos daqueles eternos pagos eram tão primitivos que não sabiam fazer fogo, não por falta de tentativas, mas porque era mesmo impossível, naquela umidade e sob o assovio polar. Aproveitavam o fogo incendiário dos raios, subproduto das tempestades. Revezavam-se em plantões. À noite, desde os navios ancorados, via-se, quando a bruma permitia, o Cruzeiro do Sul, a fulgurante nebulosa a ser nomeada de Magalhães e um colar horizontal de fogueiras, a forma mais bruta da luz de Prometeu.
Os aborígenes assombraram os espanhóis com dois detalhes: a altura e os pés gigantescos – patagones. Daí, o nome desse Estado argentino. Um nativo, alçado a uma das naus, num átimo inimitável, desabalou-se, reaparecendo no convés com uma presa al dente. Traçava nojenta e sanguinolenta ratazana. Um segundo, aprisionado, seria exibido na Espanha, prova testemunhal dos índios do fim do mundo. Porém, o vivente daquelas paragens inclementes não suportou os rigores da embarcação balançante e nauseabunda, morreu. A saga de Magalhães, a primeira volta completa ao mundo, melhor sabê-la com fôlego. Ler, de preferência, algum relato fiel ao diário do escrivão oficial, o italiano Pigafetta. Não era marujo, talvez nem soubesse nadar. Deslocou-se de Gênova a Sevilha. Magalhães recrutava a tripulação, mas alegou não poder dar-se ao luxo de levar inexperientes, ao que o escriba fulminou: “Mas, eu sei escrever. Sem um escrivão, sua epopeia não terá posteridade”. De fato.
Em sentimento (in pectore), estive tantas vezes na Patagônia! Imagino-me, também, na Terra do Fogo. Na Antártida, nem tanto. Aliás, desdenho da grafia Antártica, parece merchandising de cerveja. O Polo Sul é para pouquíssimos. Abnegados cientistas. Engraçado é que com tanta dificuldade de se fazer fogo no gelo, a brasileira Estação Comandante Ferraz pegou fogo. Teve de ser reconstruída quase do zero. Pode uma coisa dessas?
Radicais, mesmo, foram as expedições de Roald Amundsen (1878—1928), o primeiro a fincar uma bandeira no ponto exato (1911). Mas, morreu na volta. Inclusive, os cães. Todos encontrados por um segundão retardatário. Este, colocou uma bandeira mais baixa do que a primeirona, norueguesa. Voltou vice, mas vivo. Também foi o norte-americano Robert Peary (1856—1920) o primeiro ser humano a chegar ao miolo do Polo Norte (1909).
Uma vez, repórter, estava num plantão sonolendo. Eis que chega “uma pauta do Rio” (trabalhava na sucursal de O Globo): entrevistar um casal que fizera um cruzeiro pela Antártida. Eram idosos. Um sonho, conhecer o fim do mundo ao Sul. Já eram veteranos viajantes. Todavia, a aventura polar prometida ia pouco além da cidade mais povoada naquele rumo, Ushuaia. Ou seja, conforto do quentinho, navio e hotéis climatizados. Erudito, ele se utilizava de cenários d’Os Lusíadas para ilustrar paisagens vistas desde uma cabine hermética. Tal montanha remota insinuava a figura sinistra do adamastor, referida por Camões.
Com o correr do tempo, o narrador, aqui, ficou na defasagem e na indagação existencial. Irei, eu, algum dia, aos confins patagões? De cruzeiro, quem sabe. De carro, jamais. Nas poucas vezes que fui motorizado ao Rio Grande do Sul, quase morri: motoristas aloprados, caminhões, carretas... E velozes turistas argentinos. Eles disparam tão logo cruzam a fronteira. As multas daqui não chegam aos seus lares. Tenho amigos e amigas que foram aos glaciários argentinos e chilenos. Contam, e contarão pelo restante da vida os seus deslumbramentos. De viagens, também tenho os meus, mas, não é o caso, noutras ocasiões, talvez.
Hoje, isolado e temente a Deus e às pestes, faço-me de Júlio Verne, mas de um Planeta totalmente descortinado e nem por isso ao meu alcance. Avançada, pois, a hora. Contento-me pouco, mas, grato, à cabine de um cabeça viajante. Quando menos, imagino futuros. Quando mais, remexo um plantel de lembranças e redemoinhos alvoroçados de emoções. Rememorar um romance, um filme, uma saga. Mesmo que seja apenas uma ou outra a tanger corações, como o filme El farol de las Orcas (Direção: Gerardo Olivares, 2015). Corro ao papel. Os papeis oficiais para aquarela se acabaram e é proibido sair. A pandemia nunca foi tão galopante. Muito pior do que uma nevasca lá fora. Serve qualquer uma superfície porosa de celulose, até o verso de um pedaço de embalagem de coador de café. Uma aquarelinha, um postal. E esta crônica, para quem estiver ao meu lado, leitura.
Criado em 2021-03-31 00:46:54
José Carlos Peliano (*) -
Um sinal do coração basta para que se abra um paraíso ou um inferno. Um limbo talvez se a batida paradisíaca ou infernal, irrompendo-se de repente e ao mesmo tempo, for do mesmo tom e intensidade, quando uma se contrapõe à outra. Esta é a sintonia-espera-distonia, a loucura, de cada coração no decurso de sua sinfonia quotidiana.
Nise: o coração da loucura, filme dirigido por Roberto Berliner [realizado em 2015], leva o coração a descompassar nos três estados evocados. As sequências de cenas transportam sentimentos de um lado a outro da tríade. Um rio de três margens ao se abrir um vértice de terra no meio do leito principal.
Enquanto o coração navega por esse rio, às vezes sombrio, outras ensolarado, muitas vezes caleidoscópico, quase nunca apaziguado, a tela se faz coração e pulsa pelos personagens que se encontram e desencontram entre si através de seus conflitos internos. Densamente povoados.
De fato, o filme se intromete no interior dos espectadores, em cada coração, e cada espectador ao revés vê seus sentimentos reverberados na tela. Uma conjugação de sentimentos visuais e sanguíneos na sequência de um roteiro limpo, exato, doce e seco, tateando como convém na busca da expressão da loucura.
Nise era bem assim. Limpa, exata, doce e seca, mas da textura do outono aprazível, não a do inverno cortante. Não era de poses melodramáticas, superficiais, contidas ou abundantes. Dizia muito em pouco. Seus olhos eram o mapa de seu coração, além de seus gestos largos ao se estenderem no trato do outro para compreender e enlaça-lo.
Uma folha seca saída do galho de uma frondosa árvore. Desce lenta, suave, tranquila, ave sem asas. Até se deitar mansamente no solo. Na verdade, o solo a espera desde seu desprendimento para acolhe-la de corpo inteiro. Admirado. Ninguém passou por Nise sem ser aguilhoado no doce ou no seco.
A face doce e a face seca disputavam lugar em Nise. O filme consegue mostrar esse enigma, rico enigma, humana composição, que a fez de uma pequena e frágil mulher ser imensa, inigualável, grandiosa, ainda que simples, amiga, companheira, ouvinte.
Glória Pires incorporou Nise no que ela tinha de mais substancial: a intuição da certeza nas coisas que acreditava e fazia acontecer. Uma glória de atriz, também simples, direta, econômica de gestos, mas transbordante de expressões. Uma interpretação marcante.
A batalha de Nise com o corpo psiquiátrico do Hospital do Engenho de Dentro foi um dos grandes marcos de sua vida. Uma flor agreste em meio a uma manada de búfalos. A humanidade viva, cristalina, em ebulição, contra a desumanidade dos choques elétricos, as lobotomias, o descarte da vida.
Berliner consegue transpor à tela a viral e descabida prepotência da classe médica diante de qualquer novidade clínica, fora dos padrões imperiosos estabelecidos, mesmo que singela, pura, criativa. Que se torna exuberante ao fim ao trazer dos recônditos da alma humana, ou de onde sabe-se lá de onde, a linguagem esquecida, atordoada, imersa, da dignidade humana, do amor nas pontas dos pinceis e dos dedos dançarinos.
Os atores que interpretaram os pacientes, ou clientes, ou internos, conseguiram transmitir as subjetividades de cada um. Realidades díspares, fragmentadas, sofridas, com o liame comum da vivência sem relógio, intervalo, sequência. Mas de um turbilhão no cruzamento conflituoso de ontem, agora e quando?
Todos acompanham o espírito da estória. A rebeldia, a tenacidade e a força de Nise perpassa por todos os atores. Uma bandeira de luta, persistência e empoderamento vai tomando corpo ao longo do filme, levando junto os espectadores. Uma união ao final.
Algumas salas de projeção presenciaram palmas quando terminou o filme. Outras muitos comentários e expressões ao longo da projeção. Na que eu estive, em São Paulo, uma plateia inquieta. Muitos ficaram para ver por fim os créditos do filme na tela. Até escurece-la por completo.
No mínimo, um filme que remexe com as pessoas, seus sentimentos, nossas fragilidades e fortalezas humanas. No máximo, um soco no estômago por nos mostrar o papel fulminante que Doutora Nise da Silveira desempenhou em sua vida em prol da vida dos internos. Teve o mérito de ter seu trabalho reverenciado por Carl Gustav Jung.
Considerados pela visão psiquiátrica convencional irrecuperáveis, escória da sociedade, tornam-se os internos verdadeiros artistas da pintura, reconhecidos, nada mais, nada menos, pela abalizada opinião do grande crítico de arte e literatura da época, Mário Pedrosa.
A vida médica de Nise, trazida ao conhecimento do grande público brasileiro pelo filme de Berliner, ressuscita com brilhantismo a atuação profissional de uma profissional responsável e de fibra. E do mesmo modo de humanismo e compaixão.
Além de servir o filme de libelo contra tendências conservadoras que ressurgem na sociedade médica brasileira, pretendendo trazer de volta os instrumentos de incapacitação total de internos sob o manto falso e hipócrita de avanços técnicos e científicos no tratamento de esquizofrênicos crônicos.
Nise lutou sozinha contra o sistema estabelecido na psiquiatria dos meados do século passado. Como a folha seca do outono. Dura quando preciso entre os pares, mas afetuosa quando sempre no convívio com os internos. O afeto que se encerra em nosso peito juvenil, levou Nise a compor o hino nacional dos brasileiros do Hospital de Engenho de Dentro. Hino de liberação, descobrimento, vida e comunhão.
Um filme que deve fazer parte do ensino, pesquisa e didática das universidades brasileiras tanto na área artística quanto médica. No conhecimento científico brasileiro cabe um lugar exponencial o trabalho de Nise. Cujo maior mérito foi o de resgatar o princípio segundo o qual para se tornar igual ao seu semelhante, sem querer ser mais, nem menos, cada um deve respeitar as diferenças e com elas conviver.
__________________
(*) José Carlos Peliano é poeta, escritor, economista.
(**) Texto publicado em 29/4/2016 no site Carta Maior, mídia que saiu do ar no primeiro semestre de 2022.
Criado em 2022-05-30 19:21:29
João Lanari Bo –
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir para o diabo!
Para que havermos de ir juntos? (...)
Álvaro de Campos, in Lisbon Revisited (1923)
Quem se der ao trabalho de checar a Base de Dados de Filmes na Internet (IMDb) de Jean Claude Carrière – que foi desta para uma melhor no dia 8 de fevereiro, quando dormia o sono dos justos – pode levar um susto: são 153 roteiros escritos para cinema e TV, sem falar nos livros e artigos, diálogos recolhidos, uma produção caudalosa e inigualável, elaborada talvez sob o signo do efêmero, como afirma no seu soberbo Prática do Roteiro Cinematográfico, feito com Pascal Bonitzer:
Objeto efêmero: o roteiro não é concebido para perdurar, mas para se apagar, para tornar-se outro. Objeto paradoxal: de todas as coisas escritas, o roteiro é que contará com o menor número de leitores, talvez uma centena, e cada um deles buscará nele seu próprio alimento: o ator, um papel; o produtor, um sucesso; o diretor de produção, um percurso inteiramente traçado para a fixação de um plano de trabalho.
A isso se chama de “fazer uma leitura egoísta”, ou seja, parcial. Só o diretor cinematográfico, que contribuiu com frequência para a composição do objeto, vai lê-lo totalmente, a ele retornando sem cessar como a um posto de socorro onde tudo se encontra, espécie de lembrete, sem falhas, às vezes chamado de Bíblia.
Mas não foram apenas roteiros. As conversas de Carrière com parceiros ilustres são conhecidas. Com Umberto Eco, o diálogo fluiu como se deslizando num lago gelado, superfície dura que esconde uma massa líquida:
Mas se agora dispomos de tudo sobre tudo, sem filtragem, de uma soma ilimitada de informações acessíveis em nossos monitores, o que significa a memória? Qual o sentido dessa palavra? Quando tivermos ao nosso lado um criado eletrônico capaz de responder a todas as nossas perguntas, mas também àquelas que não podemos sequer formular, o que nos restará para conhecer? Quando nossa prótese souber tudo, absolutamente tudo, o que devemos aprender ainda?
Indagou o roteirista, ao que respondeu o italiano:
- A arte da síntese.
...e a tréplica:
- Sim, e o próprio ato de aprender. Pois aprendemos a aprender.
Outro de seus diálogos foi com dois astrofísicos, Michel Cassé e Jean Audouze, publicado sob o título “Du nouveau dans l’invisible”:
Quantas vezes na história do mundo, e em todas as culturas, já ouvimos falar dessas comunicações aéreas e misteriosas, rápidas, furtivas, geralmente atribuídas a espíritos ou a anjos, ou mesmo ondas cerebrais, ou alguma forma de transmissão de pensamento, comunicação instantânea à distância, portanto tomar drogas, principalmente meditação concentrada, presente, de um sonho agonizante e premonitório, de uma clarividência, da descida de o Espírito Santo, de um mensageiro celestial desconhecido, da linguagem secreta das árvores, do mar, o vento, um cogumelo, certos animais ...
Ao ceticismo dos interlocutores, que invocaram clichês da humanidade confundindo assuntos científicos com matéria barata espiritual, Jean-Claude respondeu:
Perdoe-me se insisto. Essas transmissões no imenso invisível, que nos perseguiram desde o início, sem dúvida, que agrupamos sob as palavras "pensamento mágico", ou xamânico, e que necessariamente toda uma máfia de charlatões, seria, portanto, baseada em "alguma coisa”? Em alguns elementos realmente físicos?
E talvez a incursão mais ambiciosa desse espírito inquieto, a adaptação que fez com Peter Brook do épico indiano, Mahabharata:
Homem ou deus? Obviamente, não cabe a nós decidir. Qualquer verdade teológica ou histórica, controversa por sua própria natureza, está fechada para nós - nosso objetivo é uma certa verdade dramática. É por isso que escolhemos manter as duas faces de Krishna que estão no poema original, para enfatizar sua natureza oposta e paradoxal.
A aplicação (consciente) do seu espírito cartesiano francês a um texto que ultrapassa todas as medidas possíveis era um dado incontornável. Um encontro casual com Brook em 1974 os atiçou com a ideia de produzir uma peça baseada no épico. Juntos, eles viajaram pela Índia, em busca de todas as formas teatrais possíveis do grande poema. O resultado foi uma peça épica - 9 horas com dois intervalos - posteriormente transformada em filme e série de TV, que se tornou um marco no teatro.
A fim de adaptar o Mahabharata, para transformar um imenso épico poema em uma peça, ou três peças, tivemos que desenhar novas cenas de nossa imaginação, reunir personagens que nunca se encontram no poema em si. Tudo isso dentro de um contexto de profundo respeito pela forma e sentido da história. Cada um desses personagens tem um compromisso total, cada um examina em profundidade a natureza de suas ações, cada um considera seu dharma, e cada um confronta sua ideia de destino. Então tivemos que estimular para cada um desses personagens que fosse ao seu mais profundo interior sem interpor nossos conceitos, nossos julgamentos ou nossa análise calçada no século XX, na medida do possível.
Outro produto dessa viagem foi o magnífico livro feito a partir das notas que Carrière fez durante as andanças na Índia, cujo encanto é realçado por suas ilustrações espirituosas que percorrem as páginas:
Logo abaixo do hotel, um templo barulhento, cheio de vida, bastante primitivo. Multidões de mulheres juntas, gritando. Diz-se que é um templo de ciganos. Como às vezes acontece, Peter não tem permissão para entrar, exceto no pátio, por causa de seus cabelos claros e olhos azuis. Já que eu tenho cabelo muito curto e pele bronzeada, eles me deixam entrar. Às vezes finjo que sou da Caxemira, chegando a pronunciar algumas palavras em uma linguagem estranha. Normalmente funciona. Uma vez peguei uma criança pequena (elas estão por toda parte) e entrei no “sanctum sanctorum” carregando a criança nos braços. Ninguém me disse nada.
Comentando sobre a Índia com Umberto Eco:
A propósito dessa exuberância (o mundo pós-internet), através da qual cada um é obrigado a desbravar seu caminho custe o que custar, penso às vezes no panteão indiano com suas 36 mil divindades principais e suas divindades secundárias, em número ilimitado. Apesar dessa dispersão do divino, ainda assim há grandes deuses que são comuns a todos os indianos. Por quê? Existe um ponto de vista que na Índia é conhecido como o ponto de vista da tartaruga. Você coloca uma tartaruga no chão, as quatro patas para fora da carapaça. Ela representa os quatro pontos cardeais. Você monta na tartaruga, que é um dos avatares de Vishnu, e escolhe, das 36 mil divindades que você percebe à sua volta, as que lhe falam de um modo especial. Depois disso, você traça seu caminho. Para mim, isso é igual, ou quase, ao caminho pessoal que podemos percorrer na Internet. Todo indiano tem suas divindades pessoais. E, no entanto, todos partilham uma comunidade de crenças.
E sempre, sempre com a consciência absoluta do ato de escrever, de produzir mundos, ficções, da Bela da Tarde de Buñuel ao Mahabharata com Brook:
Comecei a escrever, sem pressa. Tento encontrar o tom, o vocabulário. Eu fazia listas de palavras estritamente proibidas para mim, todas aquelas que contêm algo ocidental, parasitário (nenhuma palavra é neutra ou inocente). Tal como a palavra 'nobre', a palavra 'cavaleiro', que está ligada ao nosso folclore, nossa história. Impossível usar 'dardo' (inseparável, para alguns, de imagens dos legionários romanos). Mesmo ‘lança’ ou ‘espada’ são suspeitos, ‘sabre’ é banido. Um cavalo não pode ser uma 'montaria' porque parece que a cavalaria não existe. ‘Desassentar’ não é adequado, ‘profeta’ muito bíblico. Cada pequena frase representa um problema. Certos conceitos, como ‘dharma’, são impossíveis de traduzir. Tem que ser explicado (como está no coração do livro), sem dúvida, inventando uma cena.
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Nota do editor: Em Brasília, muita gente se lembra do workshop de Carrière, em setembro de 1996, um marco nas atividades cinematográficas da cidade. Essa atividade foi realizada por iniciativa do então secretário de Cultura Silvio Tendler.
Criado em 2021-02-11 01:35:55
André Singer (*) -
O que se discutirá em seguida pode parecer incidente menor quando o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSol-RJ) está prestes a completar um ano sem esclarecimento. Mas a agressão contra um dirigente do Partido dos Trabalhadores (PT) de Atibaia (SP), em que o seu braço foi quebrado numa delegacia, talvez represente bem o momento em que o vigilante da esquina se sente autorizado a usar de maneira arbitrária o recurso à violência de que dispõe.
De acordo com o relato obtido pela Folha (5/3), o advogado Geovani Doratiotto, de 29 anos, portava uma camiseta com a inscrição "Lula livre" em um bloco carnavalesco no domingo passado. Houve provocações e apoiadores do presidente Jair Bolsonaro teriam resolvido bater no petista. Segundo a namorada da vítima, este levou socos e chutes no olho, na cabeça e nas costelas. A confirmar.
O que teria acontecido a partir daí também precisa ser apurado com o devido cuidado, porém confirmada a versão dos acusadores, em lugar de ser socorrido pelas autoridades policiais, Doratiotto foi algemado por elas. Depois de protestar, acabou imobilizado e teve o úmero fraturado por um policial militar numa delegacia.
Em nota, a PM alegou que foi "necessária a aplicação de técnica de defesa pessoal para imobilizar e conduzir o indivíduo até a referida cela", depois que o delegado pediu ajuda devido a "desacato, desobediência e resistência".
Com efeito, em cena aparentemente filmada pela própria namorada da vítima, observa-se que Doratiotto, um homem alto e corpulento, enfrenta verbalmente em altos brados um agente fardado.
Mas tal atitude, que até onde se enxerga não envolvia qualquer tentativa de agressão física, justifica a violência de quebrar o braço daquele que se decidiu prender? Ou ocorreu abuso da força? Espera-se que a devida investigação o esclareça.
Ninguém é obrigado a concordar com a ideia de que Lula deveria sair da prisão e retomar a atividade eleitoral. No entanto, numa democracia, participar de campanha em apoio a um líder popular é direito inalienável. Espera-se daqueles que portam armas, com a aquiescência implícita de todos nós, a garantia de fazê-lo.
Os tiros sobre a caravana lulista no sul do país, os disparos no acampamento de apoio ao ex-presidente instalado na capital do Paraná, a morte de mestre Moa do Catendê durante o processo eleitoral, sem falar no referido atentado fatal a Marielle, significaram uma escalada de violência política ausente do Brasil até então. Se a maré montante não encontrar barreiras fortes o suficiente, no médio prazo o direito à livre expressão será quebrado como o braço roto no Carnaval.
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(*) André Singer, professor de ciência política da USP, ex-secretário de Imprensa da Presidência (2003-2007). É autor de “O Lulismo em Crise”.
Criado em 2019-03-09 19:42:20
Roberto Amaral (*) -
"Creio que este seja um momento decisivo de nossa história: a tirania foi derrotada. A alegria é imensa. Contudo, ainda resta muita coisa por fazer. Não nos enganemos acreditando que daqui em diante tudo será fácil; talvez daqui em diante tudo seja mais difícil". (Fidel Castro - Havana, 8/1/1959)
Como é sabido, os últimos quatro anos da vida nacional foram pontuados por tentativas golpistas planejadas, coordenadas e operadas a partir do terceiro andar do Palácio do Planalto, com o ostensivo apoio da coorte de fardados e similares desafeitos às leis, aos regimentos militares e à democracia. Foram, na sequência dos idos de 2013, do golpe de 2016 e do mandato-tampão de Temer, quatro longos anos de proselitismo e ação protofascista, consolidando o avanço da extrema-direita brasileira como movimento político-ideológico, que, pela primeira vez na república, associava à tradicional aliança do grande capital com seu braço armado (os militares) o apoio de ponderáveis segmentos populares, persistente até aqui.
O conservadorismo larvar, de base tanto social quanto religiosa, organizado, conquistara pela primeira vez mediante eleições livres a presidência da República, e passara a valer-se da posse do governo como instrumento de um projeto inédito de extrema-direita, reacionário no discurso e na ação, que seu líder anunciou como de desconstrução nacional.
Pari passu, na tradição do fascismo, foi estimulada a ideologia da divisão interna, do conflito permanente (no qual se alimenta a extrema-direita), permeando toda a sociedade. Seu desdobramento foi a institucionalização da violência social, mediante criminosa política de armamentismo civil, consagrador do poder das milícias e do crime organizado. Hoje, o Exército, que transitou da omissão para a cumplicidade, não sabe dizer quantas e quais armas e munições estão espalhadas pelo país. Descartou-se do dever legal de seu controle.
Desde o primeiro dia de mandato, a horda eleita em 2018 deixou claro que seu projeto de poder olhava para além dos quatro anos constitucionais.
Os fatos e as evidências, contudo, não eram suficientes para vencer o bovarismo político: assustados com o que nos podia dizer a decifração da realidade, nossa elite pensante (agora com a responsabilidade de Estado) teimava em não ver a mudança de qualidade do fenômeno político. Parecia mais cômodo reduzir o processo que se consagrara em 2018 como um mero episódio eleitoral, e ver o governo que aí se instalava e que chegou até ontem como um fato que se encerrava em si.
Nada obstante as advertências do processo político e as ignoradas lições da História, miramos o governo como fato parado, para não ver o fenômeno desafiador que era a organização da extrema-direita golpista, que ameaça ter vida própria, para além de seu líder e principalmente para além do processo eleitoral e das regras da institucionalidade democrática. É o que vemos hoje. Nem os tolos de todos os gêneros podem alegar surpresa.
As tentativas de golpe dirigidas diretamente por Bolsonaro e os fardados, como o 7 de setembro de 2021, seu 18 brumário frustrado, as reiteradas ameaças de quarteladas e a tentativa de desmoralização do processo eleitoral prepararam o terreno para a fracassada intentona do dia 08/01/2022, que começou a ser montada com a ocupação dos quartéis do Exército por súcias de vândalos, cresceu com a recusa dos militares de passar a seus sucessores os comandos da defesa e das três forças, e foi para as ruas com as arruaças consentidas do dia da diplomação de Lula (12/12/2022), além da tentativa de explosão de um caminhão carregado de combustível junto à rede de eletricidade no aeroporto de Brasília, no Natal. Nada, porém, que chamasse a atenção para a ameaça crescente. Lula havia sido eleito, finalmente tomava posse, e tudo o mais se transformava em passado.
Os fatos de domingo se esvaziaram, mas a peçonha golpista não foi esmagada e pode sobreviver em outras iniciativas de terrorismo, como atentados de toda espécie e sabotagens que não podemos prever, mas que delas os serviços de segurança e inteligência nos deveriam precatar, se não estivessem comprometidos com a resistência ao mandato do presidente Lula.
De que certamente seu GSI já tem ciência. O governo precisa aparelhar-se politicamente e os partidos progressistas devem rever os respectivos projetos em face do desafio permanente que é a organização popular, a partir do embate ideológico abandonado pela esquerda.
Quando os novos teóricos do poder entenderão que a sucessão em processo nada tem de familiar com a sucessão de 2003, e que o quadro militar daquele então nada guarda de compatível com a realidade de nossos dias? Jamais a República cobrou, como cobra agora, o braço forte de um presidente: o título de comandante-chefe das Forças Armadas deixa de ser uma de suas competências constitucionais, apenas, para elevar-se como dever cívico, uma necessidade histórica da qual não pode declinar.
As movimentações da turbamulta no último domingo (8/1), que amanhã com diversa intensidade podem repetir-se em qualquer parte do país, foram anunciadas há mais de uma semana, e desde a posse de Lula estava nas redes sociais o chamamento de caravanas para Brasília, com o manifesto propósito de provocar o caos, como sinal para a intervenção militar sonhada pelo bolsonarismo e apregoada em casernas de todos os naipes. O que pretendiam já fôra ensaiado nas arruaças de 12 de dezembro em Brasília, arruaças não apuradas, arruaceiros e financiadores não identificados e salvos de qualquer sorte de repressão, mesmo após atentarem contra o patrimônio público e investirem contra o suntuoso complexo da Polícia Federal. Espera-se que a facilidade de pescar cabeças de bagre não relaxe a prisão dos principais criminosos, os aliciadores ideológicos (o capo de todos homiziados em Miami) e os financiadores das caravanas.
Para o dia 8 eram previstos mais de 200 ônibus chegando a Brasília desde a véspera, e vindos de várias partes do país. Não vimos isso, porque pareceu mais cômodo não ver, como se a ignorância do fato o tornasse irreal. Nenhum segredo os golpistas guardaram de suas maquinações. Mas, igualmente, nenhuma ação se viu de quem deveria defender a institucionalidade democrática que nos parecera tão festejada na liturgia cívica do primeiro de janeiro, momento de afirmação republicana que devemos resgatar para preservar, ilustrando esperanças que precisamos manter vivas.
Os trumpistas tropicais encontraram o seu Capitólio entregue às baratas, o campo livre para depredarem os edifícios-símbolo dos poderes da república, a saber, o STF, o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto, onde chegaram ao terceiro andar e às portas do gabinete do presidente da república. Caminharam, livremente, de um plano a outro da esplanada dos ministérios, sem conhecer empecilhos.
Os repórteres de televisão chegaram com suas câmeras, e estiveram, para o acaso do registro histórico, presentes em todas as cenas. Mas não chegaram, senão com grande atraso e após a intervenção federal no sistema de segurança do DF, os aparatos de defesa das instituições, que lá deveriam estar numa ação preventiva, conforme rotina há muito conhecida, e familiar aos habitantes da capital. Como antes, não haviam funcionado nem os sistemas de informação federais, civis e militares (onde estava o batalhão dos Dragões da Independência, encarregado da defesa do palácio do planalto?), nem os serviços de informação do Distrito Federal, uns notoriamente incompetentes, outros notoriamente comprometidos com mais uma tentativa de golpe. Vai ficar por isso mesmo?
Desta feita, é impossível, mesmos aos néscios, desvincular o papel desempenhado pelo governador do Distrito Federal, ora afastado, como é impossível negar a presença de uma inteligência coordenadora. O ex-secretário de segurança do DF, até outro dia Ministro da Justiça, foi descansar em Orlando, na companhia de seu chefe efetivo, na expectativa, dos dois, de verem de longe e comemorarem o incêndio de Roma.
Não há por que confiar em qualquer sorte de lealdade das corporações de inteligência e segurança das forças armadas do Estado brasileiro. Mas o novo governo se entregou de mãos e pés atados a essa ficção. A história da corporação militar a vincula ao desrespeito continuado ao poder civil, às instituições democráticas e à ordem constitucional. Mas qual papel era justo esperar dos serviços de informação da polícia federal, agora sob o comando do ministro Flávio Dino?
A Polícia Rodoviária Federal não viu a movimentação atípica dos ônibus? Sinal de relaxamento político, o novo ministro da Defesa nos dizia que as aglomerações na frente dos quartéis do exército (de onde saíram as bananas de dinamite e o terrorista que tentou explodir um caminhão de combustível no aeroporto de Brasília) eram atos normais da vida democrática, e chegou mesmo a dar como testemunho o fato de amigos e parentes seus, em Recife e em Brasília, integrarem esses grupelhos de apóstolos do atraso.
A literatura grafou a expressão bovarismo (derivada da personalidade desvairada de Madame Bovary, de Gustave Flaubert) para significar o desvio psicológico de pessoas que se recusam a conviver com a realidade. Tomam o sonho como real; mas se assim evitam, ainda que momentaneamente, o mal-estar representado pelo presente desagradável, não se livram da chegada do desastre.
Sabe-se, com Marx, que a história não se repete, senão ora como tragédia, ora como farsa. Os tempos presentes ainda estão por serem definidos, pela ação dos indivíduos, e o governo do presidente Lula enfrenta seu Rubicão. É a hora de sua escolha, talvez definitiva, que há de ser, também, a hora de sua afirmação. Confio que avançará. Os fatos lhe oferecem a oportunidade de assumir o protagonismo que as circunstâncias históricas construíram, independentemente de sua vontade, mas que até agora vem sendo exercido pelo poder judiciário e por um ministro audaz.
A tessitura do processo social, contrariando os áulicos da conciliação pela conciliação, aprofundou o conflito social posto em números do 30 de outubro do ano passado, mas desta vez os pólos se apresentam largamente assimétricos porque a grande maioria da sociedade – incluindo liberais, o centro e a “direita civilizada”--, assustada, optou pela democracia e entregou a Lula o bastão de sua defesa. Cabe-lhe assumir plenamente a tarefa, como chefe de Estado e comandante supremo das forças armadas, mas principalmente como o maior líder popular do país, sem se deixar intimidar, sem se dobrar a chantagens e sem receio de rever decisões já tomadas na montagem do governo que apenas se inicia.
A sorte está lançada.

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(*) Com a colaboração de Pedro Amaral.
Criado em 2023-01-11 14:05:27
Roberto Amaral (*) -
Jamais será exaustivo insistir sobre a real disputa que nos aguarda o próximo 2 de outubro, aquela que será, sem dúvida, a mais importante eleição republicana, pois estaremos optando entre civilização e barbárie, entre desenvolvimento e atraso, entre passado e futuro, entre democracia (essa que temos como referência) e o projeto protofascista em curso. E esta decisão, qualquer que seja, delineará as décadas vindouras. O quadro, assim posto, repele a neutralidade: a busca insólita por uma terceira via inexistente é a tentativa de disfarce de uma aliança envergonhada.
Consciente desse processo, Ciro Ferreira Gomes assume, faticamente, o papel de cabo eleitoral do bolsonarismo, que diz rejeitar. A insistência na candidatura inviável, na contramão dos interesses do país, ameaçando o processo democrático, criando condições para um possível segundo turno, será a pá-de-cal do que restou do nobre legado de Leonel Brizola, e o PDT, sequestrado pelas escolhas paranoicas de seu candidato, periga juntar-se ao PTB, que, com a ajuda do general Golbery do Couto e Silva, viajou de Vargas a Roberto Jefferson, e hoje não passa de um excremento da má política.
O ponto de partida, imposto pelos fatos, é, pois, eleger Lula, preferentemente no primeiro turno. Isto, embora necessário, ainda não é tudo. Se Lula não pode ter sua eleição contestada, nem sua posse questionada (e o antídoto de ambas as ameaças, reais, é uma grande maioria), é de igual modo preciso evitar que seu governo seja inviabilizado, como foi o de Dilma Rousseff, por uma Câmara dos Deputados chefiada a rédeas curtas por um meliante de longa carreira que terminaria por comandar a deposição da presidente. Sai de cena Eduardo Cunha, e a liderança do “centrão” é assumida pelo deputado Arthur Lira, bandalho como Cunha, professor, porém mais competente e violento naquilo que é seu mister. Já está em campanha para a recondução à presidência de uma Câmara que controla o orçamento da União, e assim controla os recursos do Executivo. A manipulação abre caminho para a chantagem e a prevaricação, uma história conhecida em suas mais variadas nuanças - e consequências indesejáveis.
Ganhar, no pleito, nem sempre é a segurança de poder governar, e, principalmente, poder governar seguindo os compromissos de campanha. O governante muitas vezes chega ao poder manietado pelos arranjos que costuram alianças heterodoxas para possibilitar o bom êxito eleitoral, fim de qualquer candidatura que se dê respeito. E não raro é manietado pela oposição em maioria no Congresso, pelas contingências internacionais e pela onipotência do grande capital, também chamado de “mercado”.
Lula, repito, precisa ganhar, e ganhar bem, isto é, com larga margem de votos, sepultando de vez os sonhos continuístas do capitão e de sua retaguarda de militares golpistas (portanto, maus militares, que emporcalham a farda), além das hordas alimentadas pelo ódio fabricado.
E, assim, acumulando força política e popular para enfrentar os obstáculos que já lhe são antepostos, e que só crescerão em volume e periculosidade na medida em que se confirme seu governo. Para a resistência (ou sobrevivência, aquela a que não lograram Vargas, Jango e Dilma) é fundamental que, com o presidente, sejam eleitos parlamentares progressistas que, primeiro, assegurem apoio ao seu governo, e, no limite, impeçam as tentativas de impeachment de que direita e extrema-direita, unidas, forçosamente lançarão mão. Foi sempre assim, e agora não será diferente. Não é ocioso lembrar que Dilma foi deposta porque não conseguimos, num colégio de 513 deputados, reunir 171 votos para trancar a proposta carente de fundamento. Seis anos passados, o MPF solicitou o arquivamento do inquérito sobre as falaciosas "pedaladas fiscais" que serviram de argumento para o pedido de impeachment do jurista Miguel Reale Jr, prócer socialdemocrata hoje arrependido.
Qual será, porém, nossa base de apoio parlamentar e popular, quando os partidos do campo progressista vivem grave crise, terminal em alguns casos, e o movimento sindical se debate com o esvaziamento da força do trabalho? Sinal dos novos tempos: o projeto neoliberal-protofascista restringiu os direitos trabalhistas, promoveu a reforma precarizante da previdência, privatizou a Eletrobras e deu início ao fatiamento da Petrobras, sem enfrentar uma só greve.
O projeto da direita (no momento associada à extrema-direita civil e militar) é conservar o poder que controla desde a colônia. O capitão (o “mau militar”, na sentença de Ernesto Geisel) é o cavalo que passou encilhado e no qual montou quando seu mando parecia ameaçado em 2018. Investiu nele, ganhou com ele e sustentou seu governo, tanto quanto investe em sua reeleição como projeto preferencial, mas não o acompanhará no féretro.
A derrota do capitão foi sempre uma possibilidade considerada pelos seus estrategistas, que de há muito investem na manutenção de um Congresso reacionário, mediante o qual procurarão condicionar o governo Lula, senão derrogá-lo, como lograram contra Dilma. E não estão de braços cruzados. A campanha dos candidatos a deputado federal começa irrigada com os R$ 19,4 bilhões do escandaloso “orçamento secreto” operado por Arthur Lira, o jagunço de terno e gravata. Sua evidente inconstitucionalidade será julgada pelo STF, anuncia a ministra Rosa Weber, “após as eleições”, isto depois da consumação do crime anunciado. Junte-se a esse “reforço” o usual concurso do financiamento empresarial direto e o emprego da máquina pública em todos os seus níveis, a ação dos setores mais atrasados das seitas neopentecostais e a vasta teia de apoios, os mais variados, tecida pelas Forças Armadas e pelas polícias civis e militares. Não é pouca coisa
O voto em Lula, portanto, não pode estar politicamente desvinculado do voto em parlamentares, em todos os níveis, sobretudo o federal.
Por inumeráveis razões, cuja análise não cabe nesses comentários, tivemos, porém, uma campanha despolitizada e com baixa mobilização popular. Afora a questão democrática, retomada pelos segmentos de centro-esquerda, o debate, escasso, não atingiu as questões fundamentais que respondem pelo atraso e pela concentração de renda, o desemprego e a fome, a queda de renda das famílias e a desnacionalização da economia. Ou seja, desperdiçamos excepcional oportunidade de politização e mobilização das massas, de cujo apoio careceremos seja na sustentação do mandato de Lula, seja no fortalecimento, no governo, de sua porção de centro-esquerda, que terá de conviver com as concessões impostas pela correlação de forças requerida para a estabilidade política.
Cresce a convicção de que o melhor para o país é a resolução eleitoral já no primeiro turno. Em torno desse objetivo devem estar mobilizadas todas as forças populares, espancando o medo que a extrema-direita tenta impingir para nos afastar das ruas, do debate, das manifestações de massa. Além de, possivelmente, assegurar a eleição de Lula, essa mobilização é o ponto de partida tanto para a sustentação política do governo quanto para o enfrentamento político-ideológico da extrema-direita, hoje organizada, preparada (inclusive contando com apoio nas fileiras) e ciente de seu apelo popular.
A eleição de Lula, entenda-se, é fundamental para apear a extrema-direita civil-militar governante, criando condições políticas, sociais e institucionais para o seu enfrentamento, a tarefa política primordial dos próximos tempos. Derrotado eleitoralmente, Bolsonaro permanecerá em cena como o grande líder da direita/extrema-direita brasileira, o maior líder popular que o campo reacionário formou neste país, dispondo hoje de algo como 35% do apoio nacional. Será o líder extremista de base popular que jamais tivemos, investindo no confronto e no conflito, no extermínio da divergência e dos divergentes. Este fenômeno não pode ser negligenciado pelas forças democráticas e progressistas.
O bolsonarismo (chamemos assim a emergência da extrema-direita popular e organizada) é o adversário fundamental que nos cabe enfrentar, o que nos cobra organização e firmeza ideológica que, possivelmente, nossos partidos, condicionados pelas consequências da opção puramente eleitoral (que muitas vezes implica concessões políticas e ideológicas, como, por exemplo, a batalha ideológica) não estão em condições de assegurar. A eleição de Lula não é, pois, o ponto de chegada, mas é só a partir dela que nosso país terá condições de promover a recuperação de seu projeto como nação independente, a construção de uma sociedade politicamente democrática, capaz de enfrentar a estrutura de classe, de natureza autoritária, amante do totalitarismo.
O futuro governo Lula, democrático-popular, haverá de voltar-se para a organização dos movimentos populares, de que muito dependerá para atender às expectativas depositadas pelo país majoritário em seu líder.
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(*) Com a colaboração de Pedro Amaral
Criado em 2022-09-26 16:24:48
Luis Turiba (*) –
Margareth Menezes certamente será uma ministra-farol de um novo tempo que se inicia no Brasil. Uma ministra-Faraó, para lembrarmos do samba-reggae que ela interpretou e gravou em 1987 como uma espécie de hino afro-bahiano, na consagração do Pelourinho, Olodum, Salvador, fantástico quilombo negro da Bahia.
A ministra-faraó é o que há de mais novo e inventivo neste novo (terceiro) governo Lula. Ponto para Janja, primeira-dama e madrinha de Margareth nesta parada. A canção Faraó, para quem não sabe, é emblemática, esquisita e simbólica, com letra complexa, quilométrica e informativa; e com um refrão-grito de guerra que ganhou significado especial naqueles carnavais – “que mara-mara maravilha hê/ Egito! Egito hê/ Faraó, óóó, faraó, óóó – Eu falei Faraó”.
Faraó, divindade infinita do universo foi composta pelo bahiano pesquisador da cultura egípcia Luciano Gomes a convite de João Jorge, presidente do Olodum. O hit levou uma semana para ser composto e conquistou Salvador em poucos meses. No carnaval de 1987, a negritude foi para as ruas, desfilar no circuito Barra-Ondina, de classe média, exibindo suas belezas cantando/dançando o seu próprio brilho. Margareth estava lá e tomou para si o samba de batida marcante, mas demorou decidir a gravá-la.
Agora, a diva negra tem um papel histórico na reconstrução deste grande quilombo das culturas brasileiras que é o MinC - Ministério da Cultura; instituição criada em 1985, na redemocratização brasileira de Tancredo/Sarney, cujo timoneiro foi o deputado mineiro José Aparecido, um apaixonado.
Aproveito para recordar e refrescar cabeças, memórias e históricas (estive lá) que também foram ministros da Cultura nesta primeira safra ainda no governo Sarney: o economista Celso Furtado, o acadêmico e filólogo-dicionarista Antônio Houaiss, além do embaixador Paulo Sergio Rouanet, este no governo Collor.
A Era-Gil O mago-griô, cantor/compositor Gilberto Gil e sua turma feliz e tesuda vieram no primeiro governo Lula, em 2003 para criar os Pontos de Cultura e tantos outros projetos dentro do conceito do “Do-In Antropológico” (ler o discurso de pose de Gilberto Gil). Juca Ferreira, Roberto Pinho, Antonio Riserio, Sergio Mambert, Sergio Xavier, o cineasta Orlando Senna, Paulo Miguez, Márcio Vieira, Wally Salomão, José Roberto Aguilar, Marcelo Ferraz, o professor Adair Rocha, Maria Elisa Costa, Jeferson Assunção, o arquiteto Fabrício Pedrosa e a professora Nazaré Pedrosa, entre tantos outros e outras.
Falemos então dos grandes presidentes da Fundação da Palmares; instituição de fundamental importância naquela época e nessa reconstrução do MinC e do Brasil, após o vergonhoso papel negacionista deste governo retrógado.
Comecemos por Carlos Alves Moura, fundador e construtor da estrutura da Fundação Palmares; seguido pelo poeta Adão Ventura, o professor Joel Rufino, Dulce Maria Pereira, e na gestão-Gil, pelo professor baiano Ubiratan Castro e militante Zulu Araújo. Verdadeiros destaque da história afro-brasileira na modernidade.
Não podemos esquecer da cantora Ana Buarque de Holanda no governo Dilma. Destaco o relevante papel na construção deste histórico MinC, o advogado e grande chefe de gabinete de Gil, Adolpho Schindler, que segurou barras incríveis, como lembrou Risério em artigo recente; além do ator Antônio Grassi. São lembranças e citações vagas (mas não vazias), de uma história dessa gente guerreira.
Para finalizar este arrazoado caótico, Margareth, a ministra-faraó, terá papel transcendental como mulher, negra-brasileira, cantora, libertária e pensadora.
Os brasileiros estarão de olho nesta (provável) filha de Oiá cheia de axé e tolerância em seus raios e tempestades. Torceremos por ela e pela sua VOZ razãoemoção que saberá erguer no alto da colina a bandeira multiétnica-gastro-linguística-musicalpictória- arquitetônica-corporal da cultura tropical. E que a grande lição seja aprendida para sempre: nunca mais um aventureiro fascista/negacionista ouse tentar pôr fim no patrimônio de alma da gente brasileira.
A cultura brasileira é inegociável e imortal. Quando tentam atingi-la de morte, ela ressuscita e ressuscitará sempre. Em nome de Exu, o que abre os caminhos, de Iansã, Iemanjá, Nanã e Oxum fêmeas do xirê; dos pais-guerreiros Ogum Xangô & Oxossi; de Obaluaiê e suas palhas douradas de curas e seus banhos de pipocas; Zumbi dos Palmares com seus quilombos jogando capoeira de angola.
Convoquemos também neste momento os ícones Machado de Assis e Lima Barreto; Pixinguinha, Sinhô, Noel Rosa, Caymmi e João Gilberto; Guimarães Rosa, Graciliano, Jorge Amado, Tom e Vinícius; as damas negras Clementina de Jesus e Carolina Maria de Jesus, além de Ângela Maria e todas as rainhas do rádio. Que venha junto a galera dos 80: CaetanoMilton-Paulinho-Ney-Gal-Erasmo-Roberto-GilBethânia-Melodia.
Enfim, aos que partiram e aos que resistiram e resistirão bravamente entre poetas, cantantes e encantantes, pensadores (oras) e toda uma maravilhosa e apoderada geração espalhada pelo Brasil. Gente que trabalhou nestes grupos de Transição & Transação de Lula/Alckimin. Os que mexem com nossa grana e nossa ciência; nossa paz e espírito e nossa saúde; nosso esporte e nossa religiosidade. Salve todos os Chicos: o Science, o Preto, o Chaves, o César, o de Holanda e o poetamúsico Arnaldo Antunes e seus eternos Titãs. Lembremos também da trilha concreta aberta pelos três NOIGANDRES de Perdizes - Augusto à frente. À força do nosso cordel nordestino e a cultura pantaneira.
E não esqueçamos: toda à memória no centenário da Semana de Arte de 22. O paubrasil ainda sangra como poetamos na capa da revista Brica a Brac XXII. Nosso axé Margareth! Luzes para sua jornada abençoada por todos os orixás & budas.
Nam Mió Rengue Kió!
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(*) Luis Turiba poeta, jornalista, foi assessor de Imprensa de José Aparecido e do Gilberto Gil.
Criado em 2022-12-15 22:45:56
Miriam Gimenes, do Diário do Grande ABC –
Anita Leocádia Prestes tem no nome homenagem a duas mulheres fortes. O primeiro se refere a Anita Garibaldi, revolucionária brasileira. O segundo, é dedicado à avó paterna, que vivia à frente de seu tempo. A historiadora, nascida em uma prisão nazista, na Alemanha, é filha da militante alemã Olga Benário e do líder comunista brasileiro Luís Carlos Prestes. Olga morreu em um campo de concentração, e quem criou Anita foram a avó e uma das tias, Lygia.
Historiadora e professora de pós-graduação em história comparada na Universidade Federal do Rio de Janeiro, Anita tem 83 anos e mora no Rio.
Anita acaba de lançar o livro A Vida é Tomar Partido (Boitempo), em que escreve suas memórias, inclusive sobre as lutas que travou em mais de oito décadas de vida.
A senhora acaba de lançar um livro de memórias que mostra não só a luta dos seus pais como também a sua para defender seus ideais. Como foi revisitar a sua história?
Eu não tinha nenhum projeto de escrever memórias. Mas houve muita gente, amigos, insistindo, achando que era importante, que conheci episódios importantes do País. Que havia os aspectos humanos dos meus pais (Luís Carlos Prestes e Olga Benário) que eu poderia ressaltar mais nas minhas memórias. E, em particular, que poderia falar da minha avó (paterna, Leocádia) e minhas tias (Eloisa, Clotilde, Lygia e Lúcia), mostrar o papel delas, de toda a luta que tiveram. Tudo isso me incentivou a escrever. Também vi que era importante descrever uma parte da atuação política, para as novas gerações, para conhecerem a experiência do PCB, que desempenhou um papel importante no Brasil, mas teve erros também. E o título só surgiu no final. Aprendi com a minha família a sempre tomar partido, não ficar indiferente. Minha avó vinha do século XIX, mas ela sempre estava participando (politicamente), esse legado me influenciou muito.
A luta que travou durante toda a vida, assim como seus pais, foi contra o fascismo. Como vê que o movimento continua com força, principalmente no Brasil?
É um grande perigo e tem de haver mobilização contra isso. Na Alemanha, por exemplo, na década de 1990 estive lá, já havia um movimento antifascista grande, que hoje prossegue. Existem grupos de militantes antifascistas que se mobilizam, trabalham para desmascarar, denunciar as ameaças. No Brasil está tudo muito desorganizado, difícil. A derrota das esquerdas foi grande. Se você não se mobiliza, eles vêm aí com essa pressão, e o resultado pode ser desastroso.
A senhora nasceu em uma prisão nazista na Alemanha. Sua mãe foi vítima do nazismo. Como recebeu as declarações de que o nazismo foi movimento de esquerda?
Essa é uma das muitas besteiras que falam, faz parte. Tem vários pesquisadores dos militares justamente mostrando isso, que essa loucura, no fundo, faz parte de toda uma política que está sendo aplicada pelo governo brasileiro. Aparentemente é tudo um besteirol grande, parece até caricato, mas por trás há uma luta contra o marxismo, além do comunismo, que não representa no momento nenhum perigo. É uma luta no fundamental contra o movimento popular, ou qualquer tipo de movimentação do povo. É o novo tipo de guerra fria. Agora não tem a União Soviética, então inventaram esse marxismo cultural. É absurdo.
Na época da ditadura a senhora trabalhou bastante a questão do comunismo aqui no Grande ABC, nas montadoras. Que memórias tem dessa época?
A minha experiência, que está no livro, foi principalmente com um grupo de operários da Volkswagen (em São Bernardo). Eu estava muito entusiasmada porque a diretriz principal do partido na época era organizar o partido no movimento operário e nas grandes fábricas. E lá tinha um grupo de jovens comunistas muito interessante, porque eles eram pessoas já com um nível de escolaridade mais alto, ferramenteiros, pessoas inteligentes, com boa formação, e eu dava curso de marxismo para eles, eram muito interessados, combativos. Mas houve falta de segurança, foi todo mundo preso, e depois descobrimos que o serviço de segurança da fábrica denunciava os trabalhadores à polícia, era um nível de repressão muito aperfeiçoado. Para mim foi uma experiência interessante, mas que mostra que não dá para repetir.
Chegou a ser condenada a quatro anos e meio de prisão durante o exílio por este trabalho. Como recebeu a notícia à época?
Era uma tortura bárbara a que esse pessoal foi submetido. Eu fui uma das denunciadas, e não só pelo pessoal da Volks. Teve um dirigente (do PCB) de São Paulo que foi preso e me identificou, falou do meu pseudônimo, Alice. Eles não sabiam quem eu era, não me conheciam como filha do Prestes. A polícia começou a procurar uma Alice em São Paulo, mas não encontraram. Imagina, com esse nome tem muitas. Quando descobriram quem eu era, a minha situação ficou pior. Saiu manchete nos jornais, e o tribunal militar tinha interesse em caracterizar isso (de quem era filha). Tanto que levei a pena maior no processo, enquanto tinha gente de maior responsabilidade incluída. Consegui escapar [e ir para Moscou] com a ajuda do partido.
Também viu, ainda que de outro país, o nascimento das greves no Grande ABC e do Partido dos Trabalhadores. Como vê o desenrolar da história deste partido?
Meu pai achava interessante o surgimento de um Lula, porque havia operários com a mesma disposição dele à época. Mas acho que o PT e o Lula enveredaram pelo reformismo, nunca foram consequentes lutadores pelo socialismo. Na realidade, o projeto dele e do próprio PT seguiu o caminho de melhorar a vida dos trabalhadores, só isso. E sem entender que o estágio do capitalismo de hoje não tem como resolver os problemas dos trabalhadores dentro do marco do capitalismo. Você tem de ter um projeto de reformas profundas, que abram caminho em direção ao socialismo. Não foi isso que foi feito. A Carta ao Povo Brasileiro do Lula (2002) deixou claro que ele estava a fim de conciliar com o grande capital, que deixou ele se eleger. Ele foi derrotado por três eleições seguidas. Entendeu que para conseguir se eleger, na ausência de importante mobilização popular, tinha de se articular com o grande capital, banqueiros, imperialismo; então chegaram a um acordo. Fez uma política de melhorar as condições de vida dos trabalhadores, mas sem fazer nada para realmente transformar essa sociedade. Ao mesmo tempo, os banqueiros nunca estiveram tão felizes. Na hora que a crise ficou séria, em 2013, essas políticas do PT não agradavam mais; eles foram tirados de lá, derrubados.
A ditadura foi um período muito triste não só da história brasileira, como em outros países com regimes totalitários. Como vê as pessoas fazendo manifestações pedindo a volta do AI-5 e o fechamento do Congresso Nacional?
Faz parte de um projeto do qual [o presidente Jair] Bolsonaro está sendo o executor. Não é nem dele esse projeto. Há uma discussão de quais são as origens desse projeto; tudo indica ser o conservadorismo norte-americano. Dizem que ‘a guerra fria acabou’ e precisaram inventar outro pretexto para brecar e fazer frente às lutas populares. Se lembrar, o golpe de 1964 tinha duas bandeiras, contra a corrupção e o comunismo. Toda essa estratégia, essa política traçada nas origens desse grupo, junto com os evangélicos, que foi uma penetração norte-americana aqui, e o Estado de Israel, é que conseguiu fazer do Bolsonaro o seu executor no Brasil. E são os próprios militares que dizem isso. O general (Sérgio Augusto de) Avellar Coutinho, em um livro escrito há alguns anos, pouco conhecido, justamente defende essas ideias de que o Bolsonaro é um dos executores.
A classe dos trabalhadores, que a senhora defendeu durante sua trajetória, veem cada vez mais seus direitos cerceados. O que esperar do futuro?
A pandemia agravou a situação da classe trabalhadora, mas isso vem vindo desde o [governo de Michel] Temer. A alteração da legislação trabalhista vem daí, a terceirização. Cada vez tem menos gente com carteira assinada, os trabalhadores trabalham por hora, não têm férias, não têm direito trabalhista nenhum, todas as conquistas foram por água abaixo. E agora, com a pandemia, acho que vai piorar. Enquanto não houver organização popular para fazer frente a essa avalanche fascista não tem como ver algo melhorar.
Tudo que não é relacionado à direita, hoje, é classificado como comunista. As pessoas não têm o entendimento do que é o comunismo?
É uma ignorância grande e as elites no Brasil promovem essa ignorância. Com o ministro da Educação que temos hoje [Abraham Weintraub], como vamos esperar o avanço cultural? Todo o conjunto é contra a ciência, a cultura. É toda uma política de fazer as pessoas se alienarem. E daí para pior.
Enquanto historiadora, qual a importância do estudo da disciplina para o futuro da humanidade?
Os jovens que não conhecem sua história como podem transformar a realidade? É impossível. Não existe vácuo. Se não se tem um mínimo de conhecimento da história vai-se cair na conversa dos bolsonaristas, que disseminam um mundo de coisas falsas para os jovens assimilarem. E é esse pessoal que está gritando na rua, se deixando manipular.
Acredita que o socialismo é solução para os principais problemas enfrentados pela sociedade hoje?
É a única solução que se tem. Mas não quer dizer que seja de imediato. Tem de preparar o terreno para isso. Forças políticas e sociais que devem se organizar, principalmente os trabalhadores em diferentes setores. A partir disso vão surgir lideranças que sejam realmente autênticas, identificadas com os interesses dos trabalhadores, que não vão capitular diante do grande capital. Não sou pessimista, mas no Brasil vai demorar muito [para isso acontecer]. Não vejo nenhuma liderança. A história do País, do jeito que se desenvolveu, com as elites escravocratas conseguindo fazer com que os setores populares ficassem alijados da política e fossem sempre derrotados, com seus líderes sendo trucidados, a exemplo o próprio Tiradentes. Isso é um legado muito pesado que carregamos.
A senhora dedicou sua vida a um ideal. Se arrepende de algo?
Não me arrependo de nada. Os próprios erros [que cometi] foram procurando acertar. Quando falhamos, achávamos que estávamos certos; é difícil acertar na política. Tudo que fiz foi sempre com propósito honesto e errar faz parte da luta, que teve muitos aspectos positivos. Me orgulho muito dos meus pais, aprendi muito com a experiência deles; minha avó era uma mulher incrível, minhas tias também. Aprendi muito com essa família em que tive sorte de nascer.
Criado em 2020-05-25 22:24:50
Estudo da Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados questiona a atual gestão da Petrobras, sob o comando de Pedro Parente, e aponta ilegalidade na venda de patrimônio da empresa.
Reportagem publicada no site da Câmara, assinada pelo jornalista Antonio Vital, informa que os consultores Paulo César Ribeiro e Pedro Garrido Lima analisaram o Plano de Negócios e Gestão da Petrobras para o período de 2017 a 2021 e concluíram que a empresa está abrindo mão de ativos estratégicos, de maneira ilegal, como maneira de reduzir o volume de dívidas, o que pode comprometer o futuro da companhia.
O plano de gestão analisado pela dupla de consultores, segundo Vital, tem como objetivo reduzir a dívida líquida da empresa. Isso será feito de três maneiras: pagando mais da metade do que deve, vendendo ativos e cortando investimentos futuros. De acordo com o plano, a empresa vai pagar US$ 73 bilhões de dívidas nos próximos cinco anos, o que representa quase 60 por cento do total.
Além disso, vai cortar um quarto dos investimentos previstos no plano anterior, tirando dinheiro, por exemplo, da área de refino. Isso significa o fim do investimento no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, o Comperj, que já está com mais de 80% das obras prontas.
O mesmo em relação à refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Além de pagar dívidas e cortar investimento, a Petrobras vai vender ativos que somam US$ 19 bilhões. Estão na lista o bloco de petróleo Carcará, na bacia de Santos; a redução na participação acionária da Petrobras na BR Distribuidora; e a venda da operadora dos gasodutos da região Sudeste, a Nova Transportadora do Sudeste.
Para os consultores, as vendas são ilegais e deveriam ser feitas de acordo com a Lei de Licitações (Lei nº 8.666/1993), o que não está ocorrendo, como explica o consultor Paulo César Ribeiro Lima.
"Ela deve prestar informações à sociedade brasileira. As decisões devem ser transparentes. Se ela quiser fazer privatização de uma BR Distribuidora ou de uma Nova Transportadora do Sudeste, que tem toda a malha do Sudeste, que a decisão de privatização já ocorreu, então que siga a lei, que siga a Constituição, que seja comunicado, que os interessados se apresentem."
A maneira como a Petrobras está vendendo seu patrimônio já recebeu críticas do Tribunal de Contas da União (TCU) e está sendo questionada na Justiça.
Em acórdão recente (nº 3166/2016), o TCU mandou suspender novas vendas feitas com base em um decreto de 1998 (nº 2.745/1998), que previa licitações simplificadas para a aquisição de bens e serviços, e não para vendas.
A conclusão dos consultores é a de que a Petrobras está abrindo mão de patrimônio rentável e estratégico, o que pode comprometer o futuro da empresa. Um exemplo é a abertura da parceria da BR Distribuidora, que vai fazer com que a Petrobras fique com apenas 49% das ações.
Para Paulo César Ribeiro Lima, nenhuma grande empresa do setor abre mão de ter uma distribuidora.
"Nenhuma empresa no mundo está falando em privatizar distribuidora. Por quê? Porque a Shell, a Exxon, a Total, a BP, elas se mostram para o público lá no posto, então elas não abrem mão da marca, da bandeira no posto. Aqui no Brasil toma-se a decisão de privatizar a BR sem conhecimento da sociedade, sem discussão no Congresso, nada. Não, nós vamos privatizar a BR Distribuidora e está sendo privatizada. Talvez não seja por decisão da Justiça."
Para os consultores, em vez de vender seu patrimônio, a Petrobras poderia conseguir o mesmo dinheiro, US$ 19 bilhões, alongando um pouco mais o prazo para pagar dívidas e reduzindo as despesas financeiras dos contratos.
A direção da Petrobras, por meio de sua assessoria, afirma que os projetos previstos no Plano de Negócios e Gestão buscam retomar a credibilidade, fortalecer a reputação e preparar a empresa para uma fase de crescimento sustentável e realista.
De acordo com a Petrobras, as vendas de ativos estão sendo realizadas dentro do que estabelece a legislação. A empresa informou que aguarda decisão final do TCU para prosseguir com os projetos de desinvestimento.
Criado em 2017-02-20 21:33:34
Neste episódio da República Popular das Letras (RPL), o jornalista Antônio Carlos Queiroz (ACQ) conversa com Ana Prestes, socióloga, cientista política e dirigente nacional do PCdoB, sobre a inauguração do novo governo Lula em meio à tentativa do golpe de Estado por terroristas comandados pelo ex-presidente Bolsonaro.
Ana Prestes comenta a conjuntura brasileira em que entram em cena os povos indígenas e o povo preto como atores agora respeitados da cidadania, e em que Lula demonstra a sincera disposição de começar a mudar as arcaicas estruturas sociais do País.
Analista do cenário internacional, ela comenta também a situação da América Latina, o revigoramento da Comissão de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e a nova condição multipolar do planeta.
Por fim, Ana Prestes faz revelações sobre a sua convivência com o avô Luiz Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança, e com a incrível “abuela” Maria Prestes, militante do MST.
Que tal curtir e se inscrever na República Popular das Letras, um canal dedicado à promoção da Cultura e da Democracia e ao combate ao obscurantismo fascista e ao negacionismo da Ciência!
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Criado em 2023-01-14 03:14:36
Alexandre Ribondi –
Em dezembro de 1973, eu saía da Biblioteca Central da Universidade de Brasília quando policiais à paisana me abordaram e me levaram. A minha prisão teve testemunhas que, no entanto, não comunicaram o fato a nenhum grupo de esquerda (eu fazia parte de um deles) porque era “um viado” que estava sendo levado. Na prisão, não fui tratado apenas como um “estudante de esquerda”. Os torturadores não deixavam de lembrar que era mais um homossexual.
No início dos anos 1980, escrevi um artigo longo sobre a perseguição sistemática às pessoas LGBT em Cuba e fui criticado por estar denunciando uma “questão menor”, se comparada à grandeza da revolução cubana. Isso me ensinou que, quando se trata de orientação sexual, a esquerda e a direita andam de mãos dadas e pisam sobre as nossas cabeças.
Atualmente, a Rússia tem chamado a atenção pelo tratamento que dispensa à população LGBT, mas, mesmo assim, o documentário Bem-Vindo à Chechênia provavelmente não merecerá aplausos de parte da esquerda que não acredita que o presidente Putin promova e concorde com a perseguição a gays, lésbicas e transgêneros.
O presidente russo já afirmou que não se pode perseguir homossexuais mas, ao mesmo tempo, não sabe lidar com a questão. Em 2019, durante um encontro do G2o no Japão, declarou que os ideais de liberdade de gênero são impostos às pessoas. “Agora, existe todo tipo de coisas e inventamos cinco ou seis gêneros. Eu nem entendo o que é isso”, disse Putin.
A Rússia despenalizou a homossexualidade ainda na década de 1990 mas os transexuais e transgêneros são considerados portadores de transtornos mentais, o que os impede de obter carteira de motorista. E existe uma lei que proíbe a divulgação de “relacionamentos não tradicionais”, o que confirma o fato de que o presidente russo tem tornado mais difícil ainda a vida das pessoas LGBT. Além disso, a Tsargard TV pratica a homofobia abertamente e já ofereceu passagem aérea internacional só de ida para que gays e lésbicas deixem o país e nunca mais voltem.
O tratamento dado aos homossexuais na Rússia, hoje, é considerado internacionalmente como “uma das piores violações dos direitos humanos na era pós-soviética”. Lyudmila Alexeyeva, ativista de direitos humanos e historiadora russa, considera que o seu país está dando “um passo em direção à Idade Média”. Outra ativista, a lésbica Elena Grigoryeva, se surpreendeu ao ver o seu nome numa lista, feita pelo site homofóbico Pila, de pessoas que deveriam morrer. Declarou que aquilo não era verdade e três semanas depois foi encontrada morta a facadas perto da sua casa. A polícia russa se recusa a investigar o caráter homofóbico do crime e alega que a vítima era “antissocial” e que “bebia com frequência”.
A Chechênia faz parte da Federação Russa e é sabido que o seu presidente, Ramzan Kadyrov, goza da proteção direta de Putin. Por isso, sua polícia sente-se à vontade para perseguir, ameaçar e matar homossexuais em Moscou ou em qualquer outra cidade da Rússia. No documentário de David France, Bem-vindo à Chechênia, dois homossexuais russos (um homem e uma mulher) tiveram que fugir para lugares ignorados porque Kadyrov ameaçava matá-los e as suas famílias - espantosamente, nenhum deles morava na Chechênia.
Em 2010, Fidel Castro pediu desculpas pela homofobia empreendida pelo seu governo, que marginalizou os homossexuais enviados a campos de trabalho forçado. Em novembro de 2020, uma advogada lança ofensa a gays dentro de uma padaria na cidade de São Paulo e, no dia seguinte, pede desculpas pela internet. E daí? Em ambos os casos, o mal já havia sido feito. Em Cuba, vidas foram interrompidas, futuros foram destroçados. Em São Paulo, os homossexuais agredidos têm que trabalhar o amor próprio para não se abateram com o desprezo de que foram vítimas.
Se para a comunidade negra internacional, não basta não ser racista, tem que ser antirracista, o mesmo se aplica aos homossexuais. Não basta não ser homofóbico. É preciso, como nunca, ser contra qualquer manifestação de preconceito que ponha em risco a integridade física, moral e a vida da população gay. Os negros, as mulheres, os homossexuais podem caminhar em direção à compreensão de que não querem ser aceitos pela sociedade tal qual ela é. Querem modificar radicalmente o mundo em que vivem. Antes disso, jamais serão aceitos e correrão o risco de serem agredidos, atacados ou mortos por alguém que, em seguida, peça desculpas.
Criado em 2020-11-24 19:54:33
Marcos Bagno –
Hoje publicamos a segunda e última parte das reflexões do linguista Marcos Bagno sobre a precarização (do planeta e da vida):
Outra forma crescente de precarização desses nossos tempos é a precarização do planeta, nada mais, nada menos. A cada ano, milhares de espécies animais e vegetais estão sendo extintas. Ao contrário das grandes extinções ocorridas na história passada da Terra, que foram causadas por grandes cataclismos geológicos, a atual onda de extinção tem como principal responsável a espécie humana.
A poluição desenfreada; a destruição crescente de ambientes naturais; o uso descontrolado de combustíveis fósseis; a derrubada das florestas; a caça indiscriminada e a pesca industrial, que impede a renovação dos cardumes; o aquecimento do planeta que eleva os níveis dos mares e provoca o derretimento acelerado do gelo dos polos – tudo isso está levando o planeta a um beco sem saída, e tudo isso tem como principal responsável, mais uma vez, o sistema capitalista, o ultra-neo-liberalismo, que só se interessa pelo consumo e pelo lucro que ele produz, que pratica a conhecida obsolescência programada: a tecnologia atual permitiria produzir, por exemplo, um telefone celular para durar dez ou quinze anos, mas é preciso convencer as pessoas a jogar fora o telefone comprado ontem porque só o que é vendido hoje é capaz de fazer funcionar os novos aplicativos. O telefone de ontem tinha só uma câmera, o de hoje tem duas, o de amanhã tem três. E assim vai se acumulando o lixo, que é a principal herança que a humanidade atual está deixando para as gerações futuras, se existir planeta para as gerações futuras.
Enquanto isso, no Brasil, um lunático que ocupa o cargo de ministro das Relações Exteriores vem a público dizer que o aquecimento climático do planeta é uma ilusão porque os medidores de temperatura são colocados muito próximos do asfalto. É com esse tipo de troglodita que estamos lidando.
A crise do clima deveria ser o primeiro item da pauta de qualquer projeto de salvação do planeta. Mas os interesses imediatos das pessoas riquíssimas impedem isso. Os Estados Unidos, que são os maiores poluidores do planeta, não assinam os protocolos internacionais de luta contra o aquecimento global. E agora, o Brasil, governado por um imbecil que bate continência para a bandeira americana, acompanha esse suicídio planejado. E o ministério do meio ambiente é controlado por um fascista de primeira hora, mais um terrorista que tem nas mãos um setor fundamental da nossa vida.
Por fim, como consequência de tudo o que foi dito antes, o neoliberalismo, ou o neofeudalismo, é responsável pela precarização da vida.
Nunca o mundo produziu tanto alimento e nunca tantas pessoas morrem de fome como agora. A devastação do meio ambiente, a precarização do planeta, evidentemente, provoca a perda de milhões de vidas humanas. As inundações cada vez mais frequentes, os tsunamis, os furacões que agora se sucedem em ritmo acelerado, as grandes secas, os desaparecimento de rios e lagos – é fácil imaginar o que isso representa de perdas de vidas humanas, especialmente nas regiões mais pobres, que são sempre as mais afetadas.
No caso particular do Brasil, a precarização da vida faz parte da nossa história desde sempre, é a espinha dorsal da formação da sociedade brasileira. A história do Brasil é a história do extermínio puro e simples de centenas de nações indígenas, da escravização de pessoas negras durante 350 anos, da criação consciente e programada de um abismo social que coloca o Brasil hoje entre os dez países mais injustos e desiguais do mundo. Mas todos esses indicadores sociais apavorantes não satisfazem aos atuais assaltantes do poder. O que se tem hoje no Brasil é uma política voltada e devotada para a morte. Os atuais governantes praticam uma necropolítica, a política da morte. Basta fazer uma rápida lista do que tem sido feito nos últimos seis meses.
A política de liberação do porte de armas só tem um objetivo: matar gente.
O recente desmantelamento do sistema de radares nas rodovias federais, no país em que 50.000 pessoas morrem por ano em acidentes nas estradas, só tem um objetivo: matar gente.
A liberação de mais de 160 produtos agrotóxicos, a maioria deles proibidos em outros países, só pode ter um resultado: matar gente. Em vez de ingerir comida com veneno, nós vamos passar a ingerir veneno com comida.
Dia desses o Supremo Tribunal Federal teve que declarar que mulheres grávidas não podem trabalhar em locais insalubres. Mulheres grávidas. De novo, uma política de morte.
A chamada reforma da Previdência é, no fundo, um projeto de extermínio de população. Se essa desgraça for aprovada, a grande maioria da população, submetidos à precarização do trabalho, não vai ter condição de sobreviver quando chegar o momento de se aposentar.
O Brasil tem a polícia que mais mata no mundo. Ela prende sem autorização, tortura e mata impunemente. Isso desde sempre. Mas agora o descontrole dessa força armada tem a bênção do governo federal. Um governo que se elegeu fazendo o elogio da tortura, incentivando toda sorte de violência, que usou como símbolo de campanha a mão imitando uma arma. No Rio de Janeiro, o governador do estado sobe em helicópteros e sai metralhando a esmo.
Um governo que criminaliza a educação e faz das professoras e dos professores seus principais inimigos é um governo genocida. Todo mundo sabe que o acesso à educação permite, mesmo num país injusto como o nosso, que as pessoas tenham melhores chances de trabalho e emprego. Mas o atual desgoverno, que é um adorador da morte, quer impedir ao máximo que as pessoas tenham acesso à educação. A paranoia privatizadora só pode beneficiar a quem já pode pagar para ter acesso aos bens e aos direitos sociais. Destruir a educação pública é destruir vidas.
E, por fim, o ministro da saúde acaba de anunciar que é contra o acesso universal das pessoas ao sistema do SUS, uma conquista histórica da população brasileira. É uma declaração explícita de que o importante é matar cada vez mais gente.
Sem saúde, sem educação, sem trabalho, sem o nosso petróleo, sem a nossa floresta, com o país voltando ao mapa da fome, fica difícil duvidar que não se trata de um projeto explícito de extermínio da população.
Esse é o tempo que nos tocou viver: a precarização do trabalho, a precarização da política, a precarização do planeta, a precarização da vida. No que diz respeito especificamente ao Brasil, eu só tenho uma coisa a dizer: ou nós derrubamos esse governo ou nós derrubamos esse governo. Não tem alternativa.
Criado em 2019-06-26 19:45:29
Sandra Crespo –
Depois da decisão do ministro Edson Fachin, vejo que é recorrente, entre analistas políticos da TV e jornalões, a ideia de uma “repetição da disputa de 2018 como sendo uma polarização que interessa a Bolsonaro”. Será mesmo?
Vejamos: em 2018, Dilma já tinha sido golpeada, a Lava Lato era a queridinha da mídia, elites e classe média.
Em 2018, Lula estava preso, depois de gigantesca campanha de destruição de sua reputação pública. E Lula é um ex-presidente que saiu de dois mandatos com uma aprovação popular incontestável.
Em 2018, Fernando Haddad, um político pouco conhecido, foi lançado candidato três semanas antes do 1º turno - e na porta da cadeia da PF onde Lula cumpria pena. Mesmo assim, foi Haddad a ir ao 2º turno, tendo 47 milhões de votos.
Em 2018, a histeria antipetista levou Bolsonaro ao 2º turno. E à vitória contra o candidato do PT.
Mas em 2019, o “herói nacional Sérgio Moro virou ministro do sujeito que se elegeu por causa da condenação de Lula pelo próprio Moro.
Em 2019, a Vaza Jato começou a desnudar a farsa da Lava Jato.
Em 2021, Bolsonaro continua presidente. Temos um país sistematicamente destruído a cada dia, desde a posse.
Temos uma mídia perplexa e indignada e um mercado perplexo.
Temos uma pandemia. Temos quase dois mil mortos por dia. Temos “na casa da tua mãe” e “vão chorar até quando?”
Temos muita vergonha e muitos motivos para lamentar, todos os dias.
(Deixo as conclusões para cada um que teve saco pra chegar até aqui).
Em tempo: Pessoalmente, eu preferiria que o campo progressista tivesse outros nomes tão competitivos quanto o do Lula. Seria mais saudável para a democracia, a meu ver.
Criado em 2021-03-08 23:03:23
Zuleica Porto –
Em A máquina do mundo Carlos Drummond de Andrade faz referência, com as palavras do subtítulo acima, ao lado transcendente da realidade. Desse poema Eduardo Viveiros de Castro retirou a epígrafe do Prefácio – O recado da mata, que escreveu para A queda do céu: “Mas, como eu relutasse em responder / a tal apelo assim maravilhoso, / (…) a máquina do mundo, repelida se foi miudamente recompondo, / enquanto eu, avaliando o que perdera, / seguia vagaroso, de mãos pensas”.
Assim como o poeta, perdemos, os “civilizados”, a ligação com essa natureza mítica, em que tudo está permeado pelo sagrado – humanos, animais, montanhas, árvores, pedras.
A queda do céu, resultado da parceria entre o pensador e ativista yanomami Davi Kopenawa e o antropólogo francês Bruce Albert, nos oferece uma oportunidade de perceber, e quem sabe reconquistar, o que perdemos. Nas palavras de Viveiros de Castro: “Davi explica a origem mítica e a dinâmica invisível do mundo, além de descrever as características monstruosas da civilização ocidental como um todo e de prever um futuro funesto para o planeta”. O livro, de 729 páginas, foi publicado em francês pela Editora Terre Humaine em 2010 e em 2015 ganhou a primeira edição brasileira, pela Companhia das Letras, na tradução de Beatriz Perrone-Moisés.
Para o povo Yanomami, a “máquina do mundo” é um ser vivo, e tudo que nela existe é protegido pelos xapiri, guardiões invisíveis e imagens espirituais de todos os seres: montanhas, rios, todas as árvores, todos os animais além de nós, das onças às abelhas e todos os demais insetos. A um tipo de abelha o xamã Davi deve seu nome: “meu último nome, Kopenawa, veio a mim quando me tornei um verdadeiro homem. Esse é um verdadeiro nome yanomami. Foi um nome que ganhei por conta própria”. Foi dado pelos xapiri, quando pela primeira vez viu dançar os espíritos da vespa kopena, seu animal ancestral. Mereceu o nome pela fúria com que enfrentou garimpeiros que invadiam as terras yanomami, derrubavam a mata e matavam seus parentes.
Viveiros de Castro destaca a complexidade do livro, que em sua estrutura envolve diversos enunciados: a do narrador Davi; a de seu sogro indígena e um grande xamã, o responsável por sua iniciação; a dos xapiri, de quem fala o narrador e que também falam por sua boca; e a do intérprete branco Bruce Albert, que navega entre a língua yanomami, o português que perpassa a narrativa, e o francês para o qual traduziu o relato. Resumindo, o antropólogo brasileiro considera o livro “uma performance cósmico-diplomática”, que envolve uma sessão xamânica, um tratado (nos dois sentidos, ressalta ele) político e um compêndio de filosofia yanomami, em que a imagem tem toda a força do conceito e no qual “a viagem alucinatória ultracorpórea ocupa o lugar da introspecção ascética e meditabunda”. Nada fácil para nós, educados na filosofia conceitual; de minha parte, três longos meses de leitura e anotações intermitentes decorreram até que me aventurasse na redação deste texto.

A estrutura do livro
O antropólogo Bruce Albert organizou o relato de Kopenawa em três partes:
Além de tudo isso e do precioso Prefácio de Viveiros de Castro, o livro é enriquecido por uma coleção de mapas, um vasto material iconográfico e ilustrações de autoria do próprio xamã. E ainda, nos anexos, o leitor encontra informações sobre o etnômino, a língua e a ortografia yanomamis, sua situação no Brasil e glossários etnobiológico e geográfico, sem falar das abundantes notas e a vasta bibliografia. Biscoito finíssimo para longa e introspectiva degustação.
Diante de tão vasto material, o que faço aqui, dadas as minhas limitações, além das de tempo e de espaço, é um pequeno resumo do que me parece mais relevante para um primeiro contato com toda esta sabedoria.
Os xapiri
Davi diz que nós os chamaríamos de “espíritos”, mas são as imagens dos ancestrais animais, que vieram à existência no primeiro tempo, quando a floresta era bem jovem. Este primeiro tempo, é necessário esclarecer, foi antes da primeira queda do céu. Pois ele já caiu uma vez, conta o xamã, e hoje vivemos sobre as costas deste céu, ele é o chão onde pisamos, sustentado por varas colocadas por Omama, o ser criador na cosmologia yanomami. O céu que temos agora, alerta Kopenawa, se move e é instável. As beiradas estão bastante gastas, e os xapiri trabalham sem descanso para evitar o caos. Entre eles, destaca o macaco-aranha, que não é um macaco da floresta, mas um espírito celeste, antigo e muito poderoso. É, portanto, graças ao trabalho dos espíritos xapiri que o céu ainda não caiu. E para que eles continuem existindo e fazendo suas danças de apresentação, é necessário o trabalho dos xamãs.
São os xamãs, que fazem os xapiri dançar. Nas palavras de Davi: “Quando o sol se levanta no peito do céu, os xapiri dormem. Quando volta a descer, à tarde, para eles o alvorecer se anuncia e eles acordam. Nossa noite é seu dia. De modo que, quando dormimos, os espíritos, despertos, brincam e dançam na floresta. São muitos, mesmo, pois não morrem nunca”. Para eles, nós somos fantasmas, porque somos fracos e morremos com facilidade. São minúsculos como poeiras de luz, mas se parecem com os humanos. Dançam sobre espelhos imensos, e seus cantos são “magníficos e potentes”. Eles só podem ser vistos pelos xamãs, que aspiram o pó de yãcoana, fabricado a partir da resina da árvore Yãkoana hi (Virola elongata ou ucuuba vermelha). Chegam por meio de trilhas “brilhantes, finas e transparentes como fios de aranha ou linhas de pesca”, que se prendem aos braços e pernas dos xamãs, descem por elas e então, diz Davi, “rasgam nosso peito, para abrir nele uma grande clareira onde farão sua dança de apresentação”. Essa dança é descrita em vários momentos do relato, pois o xamã retoma os mesmos temas em uma forma narrativa que não é a linear a que estamos habituados, seria circular, em espiral ou elíptica, confesso que não sei definir. Reproduzo um trecho de uma dessas descrições:
“A força e a violência de sua marcha fazem nosso ventre cair de pavor. Porém, apesar desse tumulto, começa-se a perceber a aproximação de suas vozes (…) distinguir os cantos magníficos dos espíritos dos sabiás yôrixiama, dos japins ayokara e dos pássaros sitipari si. Então os xapiri acabam se revelando a nossos olhos aterrorizados. Brandem imensos sabres, projetando raios de luz em todas as direções, como se agitassem espelhos à sua volta. (…) entoam sem parar, um depois do outro, cantos muito bonitos. Sopram com energia suas finas flautas de bambu e soltam gritos de alegria. (…). No tumulto e na luz cintilante, sua pintura de urucum exala um perfume inebriante. Depois, de repente, tudo para e volta ao silêncio”.
Além de trabalhar para evitar a segunda queda do céu, os xapiri combatem os seres maléficos e as epidemias (xawara) que ameaçam o povo da floresta. Limpam os úteros das mulheres estéreis, fazem crescer as plantas das roças, as árvores frutificarem e as caças engordarem. Como diz sempre Davi, “assim é”.
O povo das mercadorias
Omama é o demiurgo do povo Yanomami, o criador de tudo que há. Ele criou os yanomami (humanos, em sua língua) quando pescou a filha de Tëpërërisiki (o ser do fundo das águas) e com ela copulou. Depois criou os ancestrais dos brancos, moldando com as mãos a espuma vermelha de um rio, de uma terra distante “que vocês chamam de Europa”. Eram chamados napë kraiwa pë, de pele tão branca como o papel. Moldou depois, com uma espuma de um vermelho mais escuro, os napë pe wai, ou “verdadeiros forasteiros”, os Makuxi, os Tukano, os Kaiapó e outros povos, “gente que se parece conosco”, conta Davi Kopenawa.
Foi o irmão mau de Omama, Yoasi, o “criador da morte”, quem conduziu os filhos dos antigos brancos, “que vocês chamam de portugueses”, para o Brasil. Eles seriam filhos de Yoasi (identificado pelos yanomami com Teosi, o deus cristão), e logo que chegaram, mentiram aos habitantes, dizendo que eram generosos, amigos, e que juntos ocupariam todos estas terras. Depois, começaram a construir casas cada vez maiores, a plantar capim para o gado, passaram a maltratar a gente da floresta, apossaram-se de suas terras, envenenaram sua comida, contaminaram-nas com suas epidemias. Davi esclarece que os xamãs já sabiam da existência da gente branca, pois viam dançar seus xapiri muito antes de seus filhos chegarem aqui. “Esta terra nunca foi vazia no passado (…). Muito antes dos brancos chegarem, nossos ancestrais e os de todos os habitantes da floresta já viviam aqui. Antes de serem dizimados pela fumaça da epidemia, os nossos eram muito numerosos. Naqueles tempos antigos, não havia motores, nem aviões, nem carros. Não havia óleo nem gasolina. Os homens, a floresta e o céu ainda não estavam doentes de todas as coisas”, esclarece o xamã.
A relação do homem branco com as mercadorias lhe causa grande estranhamento, pois para o seu povo os verdadeiros bens são as coisas da floresta: as águas, os peixes, a caça, as árvores e seus frutos. Quanto aos objetos, não há sentido em acumular ou passar de geração em geração. O que sobra é doado, e os caminhos que levam às casas dos doadores são chamados de “caminhos de pessoas generosas”. Quando alguém generoso morre, a cremação é feita com muito cuidado, e suas cinzas são comidas pelos parentes e convidados; principalmente os ossos das mãos são considerados preciosos, pois com elas eram distribuídos alimentos e bens. Os objetos do morto devem ser destruídos e queimados, mesmo que seus familiares precisem deles. “Nunca guardamos objetos que trazem a marca dos dedos de uma pessoa morta que os possuía. Assim é”, informa Davi.
Quanto aos sovinas, os caminhos de suas casas são “caminhos de inimizade”, e sua morte, solitária.
Não há luto, pois ninguém sente saudade de quem ignorou o sofrimento dos necessitados.
Sendo assim, o xamã confessa que ficou confuso ao ver “aquele amontoados de mercadorias empoeiradas” quando, ainda jovem, visitou pela primeira vez a cidade de Manaus. Depois, entendeu que os brancos tratam as mercadorias como se fossem mulheres por quem estão apaixonados, e por isso empilham seus bens e trancam tudo, “por isso, sempre levam muitas chaves”.

O ouro canibal
“O que fazem os brancos com todo esse ouro? Por acaso eles o comem?” - perguntou Kopenawa ao Tribunal permanente dos povos sobre a Amazônia Brasileira, em Paris, em 13 de outubro de 1990. Considera os garimpeiros outra gente, “comedores de terra, seres maléficos”, de pensamento vazio e impregnados de epidemia. É urgente expulsá-los da floresta, e todos sabemos disso.
A pandemia, essa devastadora xawara, já levou preciosas vidas yanomami. Segundo dados da Rede Pró-Yanomami e Ye'kwana, em 14 de junho eram 4 mortes por covid-19 e outras 4 suspeitas de terem a mesma causa. Há 98 casos confirmados e mais 6 suspeitos. Parece pouco? Numa população de cerca de 26 mil indivíduos? Seguramente não. São dados estarrecedores, e que podem piorar muito. Diante não só da inação do atual governo, mas de sua explícita hostilidade aos direitos indígenas, estamos diante da proximidade de um genocídio, não só dos povos yanomami, mas de toda a população dos que primeiro habitaram, e continuam habitando nossas florestas. É o que diz o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, que, ao lado de Lélia Salgado, vem desenvolvendo uma vigorosa campanha em defesa dos povos originários do Brasil, com a adesão de intelectuais, artistas e ativistas de diversas nacionalidades.
Dário Vitório Kopenawa Yanomami, o filho mais velho de Davi e também líder de seu povo, declarou, em videoconferência durante a 3a. Reunião Extraordinária do Conselho Nacional dos Direitos Humanos, realizada em 15 e 16 de junho, que há hoje cerca de 20 mil garimpeiros nas terras Yanomami. Os ataques a seu povo vão muito além do contágio pela pandemia, e não são de hoje. Desde as décadas de 70/80, quando Davi Kopenawa começou seu ativismo, os Yanomami são dizimados “como animais”, diz Dário Vitório, e a população foi reduzida em 22%. Diante da inação, ou mesmo da ação perniciosa do governo do Brasil, o povo Yanomami elaborou um plano de gestão territorial, com o objetivo de informar o mundo sobre os problemas da Terra Indígena Yanomami. Os lemas são “Fora Garimpo” e “Fora Covid”.
É bom lembrar que a vida dos Yanomami é fundamental para a preservação da floresta. E a floresta amazônica é essencial para a vida na Terra. Voltando ao universo mítico do povo Yanomami, termino citando as palavras de Davi:
“Se continuarem se mostrando tão hostis para conosco, os brancos vão acabar matando o que resta dos nossos xamãs mais antigos. E no entanto esses homens que sabem se tornar espíritos têm um valor muito alto. Bebem o pó de yãkoana para nos curar e proteger. Repelem os espíritos maléficos, impedem a floresta de se desfazer e reforçam o céu quando ele ameaça desabar. (…) Então, quase todos os nossos grandes xamãs morreram. Isso é muito assustador, porque, se desaparecerem todos, a terra e o céu vão despencar no caos. É por isso que eu gostaria que os brancos escutassem nossas palavras e pudessem sonhar eles mesmos com tudo isso, porque, se os cantos dos xamãs deixarem de ser ouvidos na floresta, eles não serão mais poupados do que nós”.
Tais palavras foram ditas bem antes que a Grande Xawara Covid-19 assolasse o planeta.
Criado em 2020-06-20 21:46:29
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Criado em 2016-07-20 21:44:40