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Página 10 de 95

Alerj aprova decreto que suspende leilão da Cedae

Por 35 votos favoráveis, 24 contrários e duas abstenções, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) aprovou nesta quinta-feira (29/4), o Projeto de Decreto Legislativo 57/21, do presidente da Casa, deputado André Ceciliano (PT), para suspender a realização do leilão da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae). No entanto, o governador em exercício diz que leilão está mantido.

O leilão está previsto para amanhã sexta-feira (30/4). O PDL revoga o Decreto 47.422/20, do governador em exercício, Cláudio Castro, que autorizou a abertura do processo de licitação dos serviços de saneamento no estado.

A votação ocorreu de forma semipresencial e os deputados puderam votar tanto no plenário do Palácio Tiradentes quanto de forma virtual. As galerias públicas foram abertas com número limitado de pessoas, respeitando as medidas de segurança devido à pandemia do coronavírus, e foram ocupadas por servidores da Cedae.

De acordo com o texto aprovado, o leilão só poderá acontecer após a prorrogação do Regime de Recuperação Fiscal - acordo homologado em 2017 entre o Estado do Rio e o Governo Federal para a suspensão temporária do pagamento de dívidas com a União.

“É preciso que fique claro que este projeto não é contra a venda de parte da Cedae, conforme modelagem aprovada. O que ele estabelece é que a concessão só seja feita após a assinatura da RRF, tal qual assinado em 2017, fazendo valer o que está estabelecido por direito, por escrito”, justificou o autor da proposta.

A venda das ações da Cedae foi posta como uma contrapartida do Estado no acordo, que deveria ter sido renovado por mais três anos em setembro de 2020. Em janeiro deste ano, o Ministério da Economia, por meio da Lei Complementar Federal 178/21, criou um novo programa de ajuste fiscal para os estados, sugerindo que a renovação do acordo com o Rio seja feita sob novos termos, que preveem o congelamento de salários por quase dez anos.

O presidente da Comissão de Tributação da Alerj, deputado Luiz Paulo (Cidadania), votou favorável à proposta, lembrando que a Cedae tem um lucro anual de R$ 1 bilhão - dinheiro que não tem retornado à população. Segundo ele, “o governo atual paralisou todas as obras de saneamento da comunidade da Rocinha, cancelou uma licitação de R$ 26 milhões, deixando aquela população imensa a ver navios. E por que ele fez isso? Por que está sempre sonhando com a concessão da Cedae à iniciativa privada”.

Governador em exercício diz que leilão está mantido

Após a Alerj aprovar o decreto para suspender o leilão da Cedae, o governador em exercício, Claudio Castro (PSC) disse que o leilão para a venda da companhia está mantido para amanhã, sexta-feira, 30/4, na Bolsa de Valores de São Paulo.

Na 3ª feira (27/4) o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, derrubou a liminar do TRT que havia suspendido o leilão e determinou que qualquer decisão judicial contra a realização do leilão não poderia ser adota aprovada.

PT elogia Alerj

O presidente Estadual do PT-RJ, João Maurício, parabenizou a bancada do partido “na defesa dos interesses do povo fluminense”.

Segundo Maurício “é importante seguirmos em luta na defesa da Cedae pública e valorizada para que possa prestar um serviço eficiente e com seus trabalhadores e trabalhadoras respeitados”.

Criado em 2021-04-29 21:08:24

Gilson de Barros na pele de Riobaldo

Neste episódio da República Popular das Letras (RPL), o jornalista Antônio Carlos Queiroz (ACQ) conversa com o ator carioca Gilson de Barros, que acaba de apresentar em Brasília a peça Riobaldo, um resumo de Grande Sertão: Veredas, e a leitura dramática do Mundo Misturado, texto também inspirado na obra de João Guimarães Rosa.

Formado pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Gilson de Barros trabalhou com grandes diretores do teatro brasileiro, como Augusto Boal, Domingos de Oliveira e Amir Haddad, que dirige o espetáculo baseado no romance de Guimarães Rosa.

O premiado ator atuou em quase três dezenas de peças em que se destacam Murro em Ponta de Faca, de Augusto Boal, Os Melhores Anos de Nossas Vidas, de Domingos de Oliveira, e A Tempestade, de William Shakespeare. Participou também na montagem da ópera Turandot, de Giacomo Puccini.

Estudioso da obra de Guimarães Rosa, Gilson de Barros está preparando a montagem de dois outros espetáculos rosianos: Mundo Misturado e Maria Mutema e o julgamento de Zé Bebelo.

Que tal curtir e se inscrever na página da República Popular das Letras (RPL), dedicada à promoção da Cultura e ao combate do obscurantismo e do negacionismo!
_________________________
Veja aqui a íntegra da entrevista:
https://www.youtube.com/watch?v=vAJVQNQw5mY
Produção: Studio 8itobits
https://www.8itobits.com.br/
instagram.com/8itobits

 

Criado em 2022-11-15 19:59:51

Vigilante: “Cristovam não tem nada de nova esquerda; é de direita mesmo”

Romário Schettino -

O deputado distrital Chico Vigilante (PT) revela aqui, com exclusividade, o que acha do senador Cristovam Buarque (PPS-DF) e do governo Rodrigo Rollemberg (PSB). Diz ainda que o PT errou muito e está acanhado para enfrentar as eleições de 2018. E mais, acusa o juiz Sérgio Moro de destruir o Brasil.
Chico se recusa a apoiar o impeachment de Rollemberg como uma vingança pelo fato de o PSB estar, “com uma visão caolha”, apoiando o processo contra Dilma.

O distrital denuncia uma trama urdida pela direita para acabar com o PT por meio de uma ação judicial seletiva, com a ajuda dos meios de comunicação comerciais e oligopolizados. 

Eis a íntegra da entrevista:

Qual é o futuro do PT?

Chico Vigilante - O PT é um projeto que nasceu muito antes da existência do partido. Enquanto os partidos da esquerda brasileira eram fruto das classes médias, politizadas e letradas, o PT surgiu unindo esses setores da sociedade com operários e camponeses que sempre foram marginalizados. O PT nasceu sendo atacado, por isso não me assustam os ataques atuais.  Eu assisti ao julgamento de Lula pelo Superior Tribunal Militar por ter supostamente instigado a morte de um fazendeiro no Acre; depois vi o julgamento de José Genoíno sendo acusado de ter atirado num policial em Pernambuco. Os dois foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional. Depois foi o caso do sequestro do empresário Abílio Diniz, quando vestiram a camisa do PT nos bandidos apenas para atrapalhar a eleição de Lula em 1989, e eleger Collor de Mello. Portanto, quem ataca o PT hoje são os mesmos.

Todas essas prisões e processos que você citou ocorreram num outro momento histórico. Hoje, altos dirigentes do partido estão julgados, condenados e presos. Agora temos eleições municipais e o PT tem anunciado que não vai expor seus candidatos como cabeça de chapa. Por que você acha que esse partido das origens está com o futuro garantido?

C.V. - Primeiro, essa estratégia de esconder o PT está errada. O PT não pode se esconder nunca. Se temos hoje governadores, ministros de Estado, promotores, juízes e senadores (cassados) e sendo presos é porque o PT chegou ao poder. Essa lei da delação premiada, com a qual eu nem concordo muito, foi feita pelo governo do PT. Equipar a Polícia Federal e dar autonomia financeira e funcional ao Ministério Público são coisas do PT. No tempo do FHC não tinha menos corrupção, a questão é que agora as coisas estão vindo à tona com liberdade.

Você acha então que o PT está acanhado?

C.V. – Sem dúvida, o PT tem que mostrar o vermelho. O partido tem que mostrar o que ele é e o que ele fez. Desde o Império, quem fez mais do que nós? Ninguém. É claro que o momento hoje é outro. Tivemos um processo de emburrecimento da sociedade brasileira fruto de uma forte campanha midiática no sentido da despolitização. Grande parte da juventude foi para a direita, levada pelos meios de comunicação. Satanizaram a política, as igrejas [progressistas] e, agora, o movimento sindical.

E onde foram parar as grandes lideranças?

C.V. – Pois é, quem são as grandes lideranças da Igreja Católica hoje no Brasil? Aponte uma? Na década de 80 havia pelo menos umas vinte. Eu cito apenas dom Pedro Casaldáliga, Hélder Câmara, Aloisio Lorscheider, Luciano Mendes. Tínhamos grandes juristas renomados como Sobral Pinto. A OAB hoje é uma caricatura do que foi essa entidade. Estamos vivendo um processo de empobrecimento político.

Bem, se há uma satanização do PT é possível defender a sua santificação?

C.V. – O PT é formado de brasileiros e brasileiras. Portanto, é um retrato da sociedade, onde tem gente honesta e desonesta. Eu nunca neguei que há desonestos no PT, a diferença é que temos muito mais honestos do que desonestos e isso é um fato. Nos outros partidos posso dizer que é o contrário. Me aponte um honesto no PMDB, fora o Roberto Requião. Me aponte um que não esteja envolvido com falcatruas no PSDB, no DEM. Estamos numa luta de classes e, para destruir o PT estão potencializando os erros do partido. Eu digo que o principal erro do PT foi ao chegar ao governo comer no mesmo cocho da velha política brasileira.

Você diria que o mais injustiçado do PT é o Zé Dirceu?

C.V. – O Zé um dos injustiçados, mas hoje eu diria que o mais injustiçado é o companheiro Lula, por tudo o que ele fez pelo Brasil. Eu sei da seriedade do Lula no trato com a coisa pública. Há 40 anos convivo com ele. Me lembro do que ele me contou quando foi eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgicos. O sindicato tinha que contratar um contador e alguém da família quis indicar uma contadora e ele recusou. A família ficou com raiva dele.

Outro fato significativo dessa correção de Lula, que a imprensa nunca lembra, ocorreu quando ele assumiu o primeiro mandato de presidente da República. Uma irmã dele por parte de pai veio a Brasília e começou a procurar emprego nos ministérios. Quando ele soube disso, mandou um comunicado a todos os ministérios proibindo esse tipo de prática, muito comum em nossa política.

Mas o que falam do filho do Lula é pura intriga?

C.V. – Sem dúvida. O que foi que disseram? Que o filho do Lula era sócio da Friboi. Que o filho do filho tinha comprado um jato de não sei quantos milhões.

Mas o que pega é a história de que ele foi beneficiado na abertura de uma empresa de jogos eletrônicos.

C.V. – Quantos jovens abriram esse tipo de negócio? Quantos jovens se deram bem nesse tipo de empreendimento? O fato de ele ser filho do Lula pode ter aberto algumas portas, mas não que o Lula tenha mandado abrir. Eu tenho certeza de que Lula nunca faria isso. Mas você pode lembrar-se da filha do [José] Serra, que começou com uma sorveteria e hoje é uma das maiores fortunas do Brasil, né? Isso ninguém fala.
Eu discordo de muita coisa do Ciro Gomes, mas nisso eu concordo com ele: “O mal do PT é o próprio PT”. Ele diz que o pecador pode pecar, mas o pregador, não.  Portanto, o PT não podia pecar, jamais, e pecou.

Então, quais foram os pecados capitais do PT?

C.V. – O grande pecado foi a falta de coragem de fazer a reforma política nesse país quando Lula tinha uma popularidade incontestável. Sem essa reforma os escândalos políticos tendem a crescer cada vez mais. Eu era deputado federal na época da CPI dos Anões do Orçamento. A Câmara tinha que ter cassado 100 deputados, inclusive um do PT. Naquela lista tinha o Sérgio Guerra, que era do PSB depois foi para o PSDB. O Ibsen Pinheiro foi uma exceção, que caiu porque não se enturmou. Depois veio o escândalo do Collor, que tinha a mesma origem, que são os esquemas das empreiteiras financiando as campanhas. Eu tenho orgulho de ter sido o deputado que derrubou o vice-presidente do FHC, Guilherme Palmeira, acusado de beneficiar as empreiteiras, as mesmas que estão aí hoje. Nessa história também tem uma secretária e um motorista que fizeram a denúncia das manobras financeiras de Palmeira.

Ou seja, nada mudou?

C.V. – Nada. Aliás, piorou. Depois da derrota para o Collor, o PT avaliou que não mudaria o Brasil se não entrasse no jogo do financiamento de campanha. O grande erro foi o seguinte: O PT tinha que ter ganhado a eleição em 2002 e, em 2003, ter feito a reforma política.

Você não acha que também deveria ter feito uma reforma na comunicação?

C.V. – Sem dúvida. O Brasil é o único lugar no mundo onde a mesma empresa pode ser dona simultaneamente de rádio, jornal, revista, televisão, internet etc. É o país do monopólio antidemocrático. Até a Argentina conseguiu fazer uma reforma, mas o Brasil não deu um passo sequer nesse sentido. Essa omissão foi um erro grave dos estrategistas do PT, inclusive do meu amigo Zé Dirceu, que achou que a Globo podia ser amiga da gente.

Mas voltando aqui na diferença entre Lula e Zé Dirceu. Um está sendo acusado por um juiz de obstruir a Justiça, mas o outro está julgado, condenado e preso. Além disso, há outros petistas na fila da condenação judicial. Por que o PT não consegue se livrar dessa situação?

C.V. – O que há é um processo seletivo, de perseguição. A ideia é acabar com o PT. Qualquer um que estivesse na direção do partido seria a mesma coisa. Fosse o Tarso Genro ou qualquer outro. Não é o que acontece com os outros partidos. O Eduardo Azeredo (ex-presidente do PSDB) está com o processo em Minas Gerais, vai morrer e não vai pra cadeia nunca.

Pelo que você está falando o PT paga o pato por ter Dilma Rousseff na presidência? Onde está o erro da presidenta nesse processo político que desembocou no impeachment?

C.V. – Ela está pagando o preço de não entrar no jogo. Ela não quis fazer as composições que exigiam. Os dinheiros das campanhas eleitorais vinham do mesmo balaio. Da Odebrecht, da Mendes Júnior, da OAS. Não havia um balaio da sacristia, consagrado, e outro dos quintos dos infernos.

Mas seria diferente se fosse o Lula o atual presidente?

C.V. – Claro, Lula quando foi eleito viu que não tinha maioria para aprovar seus projetos de governo. Fez composição e governou muito bem. A Dilma não fez composição. Dilma tem ojeriza a determinados acordos e está sendo derrubada só por isso.

Então, nesse caso, ela deveria ter ficado no primeiro mandato. Por que insistiu em continuar?

C.V. – O problema é que Lula é uma pessoa tão desprendida que não quis disputar e ela quis continuar. Esse foi outro erro, ele deveria ter disputado e teria ganhado do mesmo jeito. Eu defendi internamente no PT e fiz parte do “Volta Lula”.

Tudo indica, portanto, que que esse impeachment é fato consumado?

C.V. – Eu não diria que é fato consumado, mas admito que Dilma erra no tempo de tomar decisão. Ela deveria ter ido à cadeia de rádio e televisão, e nas redes sociais, no dia da votação na Câmara, para dar um recado à população sobre o que estava acontecendo e anunciar o envio ao Congresso de um projeto de eleições gerais com a convocação de nova Constituinte.

Sim, mas o PT está indo no sentido contrário.

C.V. – O PT está errando de novo. Há dois anos eu estou dizendo, e escrevendo, que o sistema político brasileiro apodreceu de tal maneira que só com eleições gerais e uma nova Constituinte será possível governar esse país. Caso esse maldito impeachment venha a prevalecer vamos ter a maior crise social na história do Brasil.

O ex-petista senador Cristovam Buarque, hoje PPS-DF, tem dito que o impeachment é bom pro PT. O que você acha disso?

C.V. – Isso só está na cabeça do Cristovam. Esse é um mal de alguns intelectuais brasileiros que depois que passam dos 60 anos parece que ficam doidos. Na verdade, o Cristovam foi para a direita. O pensamento dele hoje não tem nada a ver com o que pregamos junto nas ruas. Ele não tem nada de nova esquerda, é direita mesmo.

O impeachment, se passar, vai atingir o povo lá do interior do Maranhão, que nem sabe o que é isso, mas que vai sofrer as consequências. O impeachment é uma desgraça, é fruto desse sistema secular brasileiro, que sobrevive às custas da exclusão. O impeachment pode até prosperar do ponto de visa do voto dos senadores, mas a sociedade vai derrubá-lo.

O que você acha que pode acontecer? Uma comoção popular?

C.V. – Vai ter um enfrentamento, é diferente de comoção. Esse povo que nunca teve nada, mas que teve direitos conquistados nos últimos treze anos, vai pra rua, não há dúvida.

Vamos aguardar. Na sua opinião, o que vai acontecer com os votos do PT nas eleições municipais? Vão aumentar, diminuir ou manter os mesmos?

C.V. – Eu não faço esse tipo de cálculo. Eu não faço política só pensando em votos. Eu tive um grande amigo que foi governador do Sergipe, Marcelo Déda. Ele ficou em último lugar como candidato a prefeito de Aracaju. Em seguida, deu a volta por cima e ganhou o governo do Estado por duas vezes seguidas. E se estivesse vivo teria elegido o candidato dele. O número de votos interessa à grande mídia, para mim o que importa é a política que o PT vai desenvolver daqui até 2018.

Há alguma possibilidade de o PT ser extinto?

C.V. - O PT não morre, jamais morrerá. O que o juiz Sérgio Moro está fazendo no Brasil é o mesmo que a Operação Mãos Limpas fez na Itália, e o que veio depois? Berlusconi, o que havia de pior por lá.

Moro está destruindo nosso parque industrial e empresarial. Tínhamos uma engenharia de ponta, invadindo o mundo. Os EUA não acompanharam o desenvolvimento do Brasil e precisaram do Moro para destruir nosso país. Estão acabando inclusive com o projeto de Angra, que é o desenvolvimento de nossa tecnologia nuclear, está tudo ameaçado. Prenderam o ex-presidente da Eletronuclear, almirante Othon Luiz Pinheiro de maneira infundada, ele não é ladrão. E o que me assusta é a calma dos militares que não denunciam essa manobra antinacionalista, O mesmo estão fazendo com a Petrobras. E digo mais, Zé Dirceu não está preso porque é ladrão, mas sim porque é uma liderança, um formulador, o maior estrategista político vivo de nossa história.

O que está acontecendo com o PT no Entorno de Brasília? O partido vai compor com o PMDB para eleger o filho do Tatico em Água Lindas? É isso mesmo?

C.V. – Em termos políticos tenho o Entorno como uma questão perdida para o PT. Não tivemos a capacidade de fazer política, não construímos nada. O PT-DF não ajudou em nada. Não adianta composição com partidos de direita por lá que não vai resolver. Em Luziânia está com o Democratas e com o PMDB, outro erro.

Apesar de sua posição contrária, em Brasília tem gente do PT que insinua compor hoje com o governo Rodrigo Rollemberg.

C.V. – Isso é fato.

Não faz parte das preocupações do partido a possibilidade de o GDF voltar às mãos de rorizistas, arrudistas e companhia sem nenhuma resistência? Não seria viável pensar com composição com o PSB, ou com o PSol, ou até mesmo em lançar um candidato próprio?

C.V. – Brasília é o principal laboratório político a ser analisado. Por que um seguimento que sempre foi de esquerda, como a UnB, está hoje dominada pela direita? Por que a OAB-DF, que sempre se posicionou ao lado dos movimentos sociais, está hoje do jeito que está? Temos que levar em conta que todos os males que existem na política do interior do Brasil estão aqui no DF. É preciso pensar no crescimento do discurso homofóbico no DF. E quem faz parte da nossa classe média? Muitos funcionários públicos bem remunerados que perderam alguns privilégios e começaram a engrossar o coro do combate à esquerda. E ai temos que reconhecer a nossa incapacidade de dialogar com os setores mais pobres que foram beneficiados.

Quando Agnelo Queiroz assumiu só existia uma creche pública no DF, ele construiu 36 unidades. Todas um primor de ensino infantil e funcionando, a imprensa tinha que visitar e constatar o que estou falando. O que Agnelo investiu nas UPAs, nos terminais e corredores viários Sul, e Norte foi bastante significativo. A sua visão futurística com o abastecimento de água ao preparar a interligação de Corumbá IV é outro fato positivo. O problema é que ele não soube se comunicar e se arrebentou na eleição.

E o que temos hoje?

C.V. - Uma direita organizada que pode reunir arrudistas, rorizistas e seus subgrupos, incluindo ai o Tadeu Filipelli, por um lado. Por outro, temos o PSB de Rodrigo Rollemberg, o PT, o PSol e a REDE, que ainda não se definiu o que é.

O problema do Rollemberg é que ele tem um governo sem rosto, é um projeto que ninguém sabe o que é, por isso pode acabar ficando isolado. Por tudo isso, eu aposto na reconstrução do PT, mas não defendo que o partido vá para a base de Rollemberg ocupando cargos quando a população já disse que não nos quer governando. A população nos mandou para a oposição e é isso o que devemos fazer com responsabilidade.

Caso a ideia do impeachment de Rollemberg prossiga na Câmara Legislativa, o PT vai apoiar?

C.V. – Eu não vou admitir nenhum tipo de sacanagem contra o Rollemberg. Essa é uma opinião pessoal, não discuti isso com o PT. É claro que se houver algum erro, vamos apurar e punir. Essa proposta de impeachment é uma armação na qual eu não posso embarcar só porque o PSB, numa visão caolha, está apoiando o processo contra Dilma. Remédio de governo ruim é eleição. Esse é um processo pedagógico.

E a presidência da Câmara Legislativa?

C. V. – Primeiro, nós não vamos aprovar processo de reeleição aqui. Vamos analisar uma chapa que represente um novo comportamento do Legislativo do DF.

Quem o PT apoiaria para presidente?

C.V. - Tem vários nomes surgindo ai. Vamos ver quais são as propostas. O PT está fora da Mesa Diretora, inclusive com a ajuda de Rollemberg, mas queremos voltar a participar dela. O governador quis que apoiássemos a Celina Leão para ficar com a vice-presidência e isso eu não aceitei. Eu não defendo um cargo, eu defendo a política. Se Rollemberg tivesse apoiado o Joe Valle teria sido ele. Agora ele está sentindo os efeitos da decisão de apoiar Celina Leão, que era a líder de seu governo e agora é sua principal opositora.

Dizer que o governo Rollemberg é ruim todos dizem, inclusive a direita. O índice de aprovação dele é baixo. Mas o PT tem como apontar quais são os erros do governo Rollemberg?

C. V. – Claro, é um governo que não tem gestão. Vou citar a saúde, que está um caos. A ideia de transferir a gestão dos hospitais para as OSs é um absurdo, não apoio e já disse isso a ele. Ele tenta dizer que o Hospital da Criança e o Sara Kubitscheck são exemplos. Mentira. Isso não tem nada a ver com OS. Eu estava na Câmara quando o Campos da Paz enfrentou o Serra e aprovou orçamento direto da União para gerir o Sara sem passar pelo Ministério da Saúde.

A segurança piorou, e muito. Eu digo que não se faz segurança com filosofia. Filosofar é muito bom em outras áreas.

O transporte piorou sensivelmente. Rollemberg não teve a capacidade de completar o projeto, com integração a ponto de fazer o usuário sentir vontade de andar de ônibus e deixar o carro em casa.

A questão do desenvolvimento econômico é um desastre. O PT entregou o governo com 90 mil empregos na construção civil. Agora está reduzido a oito mil porque as obras estão todas emperradas, o governo está parado, não funciona, não libera alvarás de construção nem os habite-se. É o caos estabelecido. Há um prédio com 200 apartamentos no Gama que está fechado há dois anos. Os proprietários pagaram e não conseguem receber a obra por falta de habite-se.

Enquanto Rollemberg tiver na direção do Ibram uma pessoa com a visão da atual dirigente, seu governo não vai para canto nenhum. Quem está lá é uma militante da REDE [Jane Maria Vilas Bôas], que emperra tudo.
Agora, a direita não é solução para Brasília, que fique claro isso.

Essa base, então, não sustenta o governo Rollemberg?

C. V. – Ele não tem base, é uma geleia. Minha posição dentro do PT é no sentido de impedir que se faça sacanagem contra o governo dele, o que seria mais prejudicial a Brasília. Mas eu não defendo reivindicar cargos.

Você acha que Rollemberg vai morder a língua por ter criticado o PT e apoiado, indiretamente, o impeachment?

C. V. – Já mordeu. Agora ele depende da gente. O impeachment dele precisa de 16 votos, sem o PT não haverá esses 16 votos.

E essa CPI da Caesb, do que se trata?

C. V. – Tem um pessoal da Caesb em processo de negociação salarial, que está emperrada por inabilidade do governo. Por causa disso, eles estão colhendo assinaturas para pedir uma CPI, mas eu não sei se isso vai prosperar. É mais uma pressão dos trabalhadores.

Você está acompanhando a crise na SPU-Brasília depois da nomeação de um indicado do senador Hélio José?

C. V. – A SPU administra terras da União no DF, como Vicente Pires, Itapoã, Lago Oeste. Colocar na direção dessa entidade uma pessoa indicada pelo senador Hélio José, que eu conheço, sei quem é, conheço o DNA, por um voto a mais no impeachment da Dilma, é baixar de tal maneira o nível da política brasileira, que dá nojo. Isso não vai dar certo, Vamos ficar de olho, fiscalizando 24 horas por dia.

O que falta para o PT se preparar para 2018?

C.V. – Depois do aperto que tivemos em 2014, a melhor coisa que a direção nacional deveria ter feito era admitir que a coisa não estava boa e decidir pela renovação das direções do partido em todos os níveis. As direções atuais estão vencidas. Deixar essa mudança para 2017 é uma temeridade, deveríamos ter feito isso em 2015. O PT-DF vive de fantasias, dizem os dirigentes que temos 40 mil filiados em Brasília, isso não é verdade. Pode até ter mais gente que se diz petista.

Eu divido o PT assim: Tem a direção, que eu chamo de Estado petista, a burocracia; e temos a nação petista, filiados e simpatizantes, que está na rua e se vê representada pelo partido.
Quando vem a eleição a nação vai pra rua, se agiganta, ganha o confronto, e depois o estado petista captura tudo e fica de posse dos resultados. Eu sonho com o dia em que a nação petista invada o estado petista. Nesse dia as coisas vão mudar.

Criado em 2016-08-08 02:14:35

A previdência social e a crise - III

Enio Pontes (*) -

Não é de hoje que os nossos governantes de plantão elegem a Previdência Social como uma das principais vilãs do desarranjo das contas públicas. Na verdade, a história recente do país tem registrado ciclicamente diversas crises econômicas, cujas causas possuem, em última análise, características semelhantes.

Na maioria das vezes o descontrole inflacionário, a falta de um gerenciamento eficiente das contas públicas e o desarranjo fiscal levaram o país a amargar dias difíceis. O chamado “déficit previdenciário” sempre foi um argumento muito mais político do que técnico para justificar a incompetência da gestão pública.

Entre 1968 e 1973, época em que os militares estavam no poder, o Brasil experimentou o que se denominou de “Milagre Brasileiro”. Um forte processo de industrialização que impulsionou o crescimento da economia brasileira levando o Produto Interno Bruto (PIB) a crescer em torno de 10% ao ano.

Esse bom resultado incentivou o governo militar a buscar financiamento externo (EUA) para incrementar ainda mais a escalada de crescimento da economia brasileira.

Todavia, em 1979, os EUA promoveram uma elevação brutal das taxas de juros, o que acarretou reflexos negativos à nossa economia, como a explosão da inflação e o aumento assustador da dívida pública.

Mas, mesmo com esse quadro de estagnação econômica, foi nesse período, entre 1960 e 1974, que a Previdência Social ganhou força e começou a consolidar-se.

Em 1960 nasceu a Lei Orgânica da Previdência Social. Nessa época a previdência já contemplava todos os trabalhadores urbanos. Os trabalhadores rurais viriam a ser alcançados em 1963, ano da criação do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), atualmente (INSS).

Em 1974 foi criado o Ministério da Previdência Social. Naquele momento não foi possível colocar na conta da previdência a crise do período.

É fundamental destacar que a Previdência Social não foi uma criação isolada e sem previsão de fontes de financiamento. O Sistema de Seguridade Social, integrado pela Previdência Social, pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e pela Assistência Social, possui fontes de financiamento definidos em lei, grande parte oriundas de receitas vinculadas, das contribuições dos empregados e empregadores, dos trabalhadores autônomos e de parcelas do Cofins e do Pis/Pasep.

Vários especialistas e professores universitários desmentem os números do déficit apresentados pelo atual governo. Enquanto a administração Temer insiste num déficit de R$ 136 bilhões, os especialistas afirmam que há um superávit da ordem de R$ 24 bilhões.

A divergência dos números está principalmente na base de cálculos utilizados. O objetivo desse artigo, no entanto, não é entrar no detalhe dos cálculos.

O importante é mostrar que a Previdência Social está sendo utilizada mais uma vez para justificar uma situação de crise, quando, na verdade, a intenção é criar uma cortina de fumaça e obter as condições necessárias para fazer modificações perversas no atual modelo previdenciário.

A proposta do governo prevê direito a 76% da base de cálculo do benefício com 25 anos de contribuição. Essa taxa aumenta em 1% a cada ano a mais de trabalho.

Significa dizer que, para chegar a 100%, ou seja, ao benefício integral, será necessário somar 49 anos de contribuição.

Enquanto isso, alguns setores produtivos foram beneficiados com isenção previdenciária. O agronegócio voltado para a exportação, por exemplo, é isento de qualquer contribuição para a Previdência Social, e que, em 2015, recebeu subsídio de R$ 9 bilhões do INSS.

Fica mais uma vez provado que, a Previdência Social está servindo apenas como discurso político para tentar aprovar medidas absolutamente duras contra os trabalhadores e a classe média.

No Brasil a máxima de socializar os prejuízos e privatizar os lucros nunca foi tão atual.
_____________________
(*) Enio Pontes é professor da Universidade Federal do Ceará UFC e coordenador estadual do Comitê da Dívida Cidadã.

Criado em 2016-12-22 09:47:29

A vitória parcial e os desafios postos

Roberto Amaral (*) -

Os percalços hoje vividos pelo país (que voltou a temer o futuro) em muito remontam à persistente dificuldade de a esquerda brasileira interpretar o processo social, mais precisamente aquele movimento que, segundo entendo, se anunciou em 2013 como a ponta de um iceberg de base imperscrutável.

O que a quase todos parecia, naquela altura, um sopro na superfície de lago sereno, seria revelado, mais tarde, como algo similar à movimentação de placas tectônicas, apenas percebível quando as explosões chegam à superfície. Poucos viram, então (e Gilberto Carvalho foi um deles, granjeando o mau humor de diversos companheiros), uma mudança qualitativa no processo político-social, que a esquerda, notadamente o politiburo petista, continuou imaginando congelado – mesmo após os percalços eleitorais de 2014, e o massacre a que nosso governo foi submetido em 2015.

Nos duros idos do esforço coletivo por salvar o mandato de Dilma Rousseff, fui muito mal compreendido por nomeados líderes do nosso campo, quando, numa plenária da Frente Brasil Popular, que ajudara João Pedro Stédile a organizar, trouxe para discussão as dificuldades que nossas organizações enfrentavam na mobilização popular.

Continuávamos presos às aparências, confundindo o carisma de Lula com a ascensão do pensamento progressista. E hoje, ainda, após a deposição de Dilma, dos feitos e efeitos da Lava Jato, da prisão de Lula, da eleição de Jair Bolsonaro e do governo do grande capital, dos militares e dos milicianos, chegamos a 2022 convencidos de que iríamos simplesmente enfrentar mais um pleito, pois se trataria, como antes, de uma eleição “normal”. Descartávamos o papel das transformações sociais na política.

O país mudara e continuávamos olhando a história pelo retrovisor, sem perceber a nova natureza do processo político-eleitoral.

O PT falhou em compreender que não se tratava, mais, tão-só, de enfrentar, como antes, a hoje falecida socialdemocracia paulista, mas de terçar armas, numa disputa de vida ou morte, com um novo projeto de poder da classe dominante. Um projeto de ambições ditatoriais que namoram com o legado fascista, comandado por um candidato sem limites éticos ou morais que, desde 2018, mais que a vitória puramente eleitoral (naquele então impensada), se propunha a organizar e liderar a extrema-direita, e preparar as condições objetivas para a instauração de uma ditadura protofascista – que, ao esperável apoio do grande capital, associava inédita e larga base popular.

A consumação desse projeto (que não se concluiu no atual governo, sua porta de entrada) está sendo adiada, aos trancos e barrancos, pela resistência democrática difusa, mas a conquista do que se convencionou chamar de “corações e mentes” das grandes massas é um fato que não permite dúvida: 43% do eleitorado brasileiro referendaram o bolsonarismo.

Apesar de seu discurso e de suas ações, apesar do desastre rotundo de seu governo, o capitão aumentou em 2022 sua votação sobre a obtida em 2018. Em que pese a forte oposição, inclusive da grande mídia, nada obstante a frente ampla que se formou em defesa da democracia e da candidatura de Lula, que chegou a reunir consideráveis setores do chamado “centro”, da socialdemocracia e mesmo da burguesia. Não é pouca coisa.

Não há, em toda a história republicana, precedente similar de avanço do pensamento e da ação da extrema-direita brasileira.

Os arreganhos integralistas dos anos 1930, em comparação, podem ser relegados ao capítulo das insignificâncias, tanto quanto Plínio Salgado fica anos-luz distante da periculosidade do capitão.

Não obstante as sondagens de opinião, hoje tão contestadas, haverem indicado a liderança de Lula na faixa de renda até dois salários mínimos, e apoio majoritário ao candidato da extrema direita entre os eleitores que ocupam o topo da pirâmide salarial, o resultado do primeiro turno está a desmentir o imaginário segundo o qual Bolsonaro seria o candidato tão só dos ricos e dos bem postos na vida, contingente de uma minoria mínima; mas igualmente desmente o imaginário segundo o qual Lula tinha sua candidatura abraçada pela maioria dos pobres, pois, nesse caso, sua vitória teria sido esmagadora já no primeiro turno.

A questão que pretendo pôr de manifesto caminha para além do fato de Lula não haver cravado vitória no primeiro turno, e transcende mesmo a possibilidade de sua vitória no final deste mês. O que precisamos considerar é o fato de um candidato de extrema-direita, expressando o discurso da extrema-direita, do confronto e do autoritarismo, haver obtido a aprovação de 43% do eleitorado. Essa votação abarca todos os segmentos sociais e se espalha por todo o país, passando por sobre limitações rurais e urbanas, que as concentrações eleitorais dos candidatos não desmentem. Consagrado no Nordeste (ou seja, pelo eleitorado residente na região), Lula não se revelou o candidato dos nordestinos, pois o nordestino emigrado votou, em grande parte, no ainda presidente, como demonstram os números de SP e RJ. 

O eleitorado mais firme de Lula parece situar-se junto da classe-média (onde o bolsonarismo tem evidente presença), enquanto suas maiores dificuldades, postas de lado as avenidas Paulista de todo o país, estão localizadas nos bolsões urbanos de pobreza, dominados pela aliança do assistencialismo com seitas religiosas e o crime organizado.

Mas o que ainda se cobra do candidato, por intermédio da imprensa corporativa e mesmo no seio da campanha, é um mais caminhar ao “centro” (o novo nome-fantasia da direita tupiniquim), enquanto o dito “mercado” mais lhe promete amarras em troca de um apoio que não oferece, ao tempo em que celebra o desfecho do primeiro turno por pelo menos adiar a eleição de Lula, e aplaude a eleição de um Congresso de maioria reacionária. Essa é a classe dominante que o processo histórico brasileiro produziu, desapartada dos interesses do país. Processo que também nos legou um povo majoritariamente conservador, místico, crente, temente às mudanças que lhe poderiam beneficiar.

A dificuldade de interpretar o processo social, como assinalada, está na raiz de nossa dificuldade de enfrentar o desafio posto no processo eleitoral, donde o resultado do primeiro turno, inesperado pelo pensamento mágico, que jamais se casou com o realismo crítico do raciocínio político. Sinal da incompreensão das alterações que continuamente se processam na sociedade, os estrategistas da candidatura popular privilegiam, no primeiro turno e ainda agora, as articulações pelo alto, na vã suposição (negada até aqui pela realidade imediata) de que se reproduzirão nas bases populares, que são, afinal, quem decide, mesmo quando não são ouvidas. A onda de 2013, que encontrou seus principais desdobramentos na deposição de Dilma e na eleição de Bolsonaro, segue viva e, na medida em que caminha, alarga as margens e avança em velocidade.

O somatório de uma série de erros nos levou a todos – direita dita civilizada, “centro” e esquerda – a um impasse que nos colocou como possibilidade real a emergência de uma nova forma de implantação de um regime ditatorial, o qual, dispensando os tanques, ameaça a tomada do poder no cume de um processo eleitoral legitimado. É esta a ameaça que representa a eventualidade – que não deve ser desprezada – da reeleição disso que aí está.

Só a vitória de Lula pode impedir o retrocesso perseguido por Bolsonaro e seus cúmplices. Com ela, eleição na qual apostamos com base na vontade e nos dados empíricos disponíveis, evitaremos o rompimento do dique que ainda contém a tragédia em curso. Trata-se, pois, de uma necessidade histórica, um imperativo.

É muito, mas ainda não será tudo. Já está à vista, independentemente do que nos dirão as urnas no próximo dia 30, nosso enfrentamento, no governo e fora dele, em todos os espaços da vida social, com uma extrema-direita agressiva e orgânica, apoiada no grande capital e nas grandes massas, com sólida base militar e miliciana, além de conexões internacionais, num momento em que essa vertente cresce nos EUA, ganha as eleições na Itália e, associada à direita, controla o parlamento e o governo suecos.

A antiga e vitoriosa socialdemocracia sueca transforma-se em aliada política da Turquia, da Hungria, da Polônia, governadas pelo obscurantismo. A nova extrema-direita brasileira, ademais, tem como capo um militar sem escrúpulos ou limites morais, que no entanto carrega como patrimônio a inequívoca liderança sobre 43% do eleitorado, ou seja, 1/5 da população brasileira. Este é o fato político que devemos considerar, para além do que nos diga o resultado do segundo turno.

***

O mercado (consciente de seus interesses de classe) não se comoveu com o apelo centrista da campanha de Lula – Segundo o autorizado Valor (4/10/2022), resultados do primeiro turno animam “mercados domésticos”: “O resultado das eleições, com bom desempenho dos candidatos conservadores e distância menor que a projetada entre Luiz Inácio da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL), resultou em euforia nos mercados domésticos.

O Ibovespa, embalado pela alta expressiva nas bolsas em Nova York, saltou 5,54%, para 116 pontos, melhor performance diária desde abril de 2020. Já o dólar fechou em R$ 5,1746, com uma queda de 4,07%, a mais intensa em pouco mais de quatro anos.

Os juros futuros também caíram. A leitura dos agentes econômicos é que o cenário mais provável ainda é de uma vitória de Lula, mas agora ele terá de ser mais claro sobre suas propostas para a economia com o objetivo de conquistar novos eleitores. Ao mesmo tempo, o mercado embute nos preços uma possibilidade maior de reeleição. Para um banqueiro, outro ponto é a formação do Congresso, que deve fazer com que Lula se mova ao centro para conseguir governar, caso seja eleito”.

As eleições no Rio de Janeiro – As direções estaduais do PT e do PSB devem uma explicação ao país. Por que se uniram para assegurar a lamentável reeleição de Romário para o Senado? Os candidatos do PSB (Molon, o segundo colocado) e do PT (Ceciliano, o quinto colocado) somaram 33% dos votos. O candidato bolsonarista, 29%.

Eleições a comemorar – Se lamento profundamente as derrotas de Olívio Dutra e Ricardo Coutinho, há muitas eleições a comemorar. Destaco as que me são mais caras: Glauber Braga e Reimont no Rio de Janeiro, e Luiza Erundina em São Paulo. Todos para a Câmara dos Deputados.
__________________
(*) Com a colaboração de Pedro Amaral.

Criado em 2022-10-09 18:17:52

Direitos humanos na ponta da língua - Quebrando Tabu

Criado em 2020-08-24 20:37:59

Câmara aprova ajuda de R$ 3 bi ao setor cultural

Alexandre Ribondi –

Uma boa notícia para os artistas e técnicos de todo o território nacional: o plenário da Câmara dos Deputados aprovou, nesta terça-feira, 26/5, ajuda de R$ 3 bilhões ao setor cultural enquanto perdurar a crise provocada pelo coronavírus. Os estados e o Distrito Federal receberão o dinheiro e deverão aplicá-lo na renda emergencial para os trabalhadores do setor. Serão subsídios mensais destinados à manutenção de espaços e, também para editais, chamadas públicas e até mesmo prêmios.

O texto finalmente aprovado, que ficou conhecido como Lei de Aldir Blanc (o compositor carioca morto pela Covid-19) é o substitutivo da deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) a projeto de lei anterior, apresentado pela deputada Benedita da Silva (PT-RJ).

Agora, o Projeto de Lei 1.075/2020 deverá enfrentar os senadores e, se for aprovado e sancionado pelo presidente da República, terá como fonte o Fundo Nacional de Cultura (FNC). Portanto, trata-se de recursos identificados e comprovados. Os critérios para a repartição da verba serão os seguintes: R$ 1,5 bilhão ficará com os estados e o DF. 80% serão repassados levando-se em conta a população de cada unidade da federação e os restantes 20% pelos índices de rateio do Fundo de Participação dos Estados (FPE). Já a outra metade será destinada ao Distrito Federal seguindo os mesmos critérios de divisão.

Os trabalhadores da área cultural que tenham tidos suas atividades paralisadas pela pandemia receberão auxílio emergencial de R$ 600, pagos em rês parcelas. Esse benefício poderá ser repassado para produtores, curadores, técnicos, artistas, oficineiros e professores de escolas de arte. No entanto, para fazer jus à renda emergencial, os trabalhadores deverão comprovar que estão dentro do limite de renda anual e mensal, comprovação de atuação no setor nos últimos 24 meses, ausência de emprego formal e não estar incluído no auxilio governamental dos informais.

Dois membros da mesma família poderão receber a renda emergencial, mas a mãe solo receberá duas cotas, o que equivale a R$ 1,2 mil. Além disso, serão repassados de R$ 3 mil a R$ 10 mil mensais para a manutenção de espaços artísticos e culturais que tenham suas atividades comprovadamente canceladas. Somente receberão o auxílio os inscritos em cadastros estaduais, municipais ou distrital, em cadastros de pontos de cultura, no Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais ou no Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro.

Está prevista a obrigatoriedade de ser realizada, gratuitamente, uma atividade cultural por mês para alunos de escolas públicas, ou em espaços públicos da comunidade.

No Distrito Federal, o secretário de Cultura e Economia Criativa, Bartolomeu Rodrigues, saudou oficialmente a aprovação da lei pela Câmara dos Deputados. Afirmou que a medida é “mais do que necessária. É premente, pois o setor foi o primeiro a parar e, certamente, será dos últimos a voltar à situação de normalidade”.

Agora, caso a lei seja aprovada no Senado e sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro, resta saber como a administração de Ibaneis Rocha (MDB) agirá. No momento, a verba do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), com seu repasse atrasado desde o início do ano passado, ainda não chegou às mãos da classe artística do DF por motivos que podem ser considerados incompetentes: com a quarentena imposta pelo coronavírus, os funcionários da secretaria de Cultura e Economia Criativa ficam em casa e não podem avaliar os detalhes de cada projeto que foram deixados no local de trabalho e que, por algum motivo, não podem ser pesquisados em casa.

Enquanto isso, os artistas do DF recorrem a outros recursos, como as vaquinhas online, por exemplo, para conviver com os atrasos.

Criado em 2020-05-27 02:58:53

O imperialismo linguístico e a tradução capenga

Marcos Bagno -

Uma das principais consequências da pressão esmagadora de uma língua imperial sobre as línguas subalternizadas são as fissuras que vão se abrindo nessas línguas, fissuras por onde a língua imperial vai se infiltrando sorrateiramente e colonizando o léxico e a gramática das subjugadas. É o que se dá hoje em dia com o inglês, que ataca todas as outras línguas do mundo de cima para baixo e de dentro para fora.

Não se trata apenas da importação de palavras: o uso de vocábulos estrangeiros é apenas a face mais visível de um processo muito mais insidioso, a ponta reluzente de um iceberg. É possível legislar contra os estrangeirismos, muitos governos fizeram isso, mas os resultados são, quando muito, pífios. E os estrangeirismos estão longe de ter a gravidade que as pessoas desinformadas lhes atribuem. Tem coisa pior. (Sim, hoje estou vestido de jacobino chauvinista!)

Uma das formas de contaminação linguística mais comum nesses casos é o chamado decalque. O decalque pode ser a simples tradução literal de um termo alienígena: cachorro-quente para hot-dog, placa-mãe para motherboard. Mas existe um tipo mais pernicioso de decalque que é o decalque semântico: consiste na atribuição para uma palavra já existente na língua dos significados e sentidos que ela tem em outra língua (sempre, é claro, na língua imperial). Por exemplo, o verbo ignorar em português (e em latim, aliás) significou durante séculos “não saber, desconhecer”, como em “Ignoro as razões de alguém votar no Bolsoasno, se razões há”. No entanto, por pressão dos sentidos do verbo to ignore em inglês, passamos a usar ignorar com o sentido de “desprezar, desconsiderar”: “O TSE ignorou velhacamente a decisão do comitê da ONU”. O mesmo se dá com a palavra evidência, utilizada no lugar de “prova, comprovação”. Ou de agenda com o sentido de “interesses próprios, pauta particular”. Ou de salvar no jargão da informática: afinal, a gente salva alguém de se afogar, salva as aparências, salva uma empresa da falência, salva um passarinho das garras de um gato, mas salvar um arquivo não tem nada que ver com salvamento, é simplesmente guardar, armazenar.

Outra consequência do imperialismo linguístico é a tradução capenga. A tradução capenga é feita sem um mínimo de reflexão demorada, na marra e a facão, quase sempre sem conhecimento suficiente do patrimônio lexical e gramatical da língua-alvo. Língua-alvo, nos estudos da tradução, é aquela para a qual se traduz, enquanto a língua da qual se traduz é chamada de língua-fonte. No nosso caso, a língua é alvo no sentido militar mesmo, porque sofre o ataque maciço da língua imperial, manipulada sem nenhuma habilidade por quem produz a tradução capenga. Vou tratar aqui de um caso específico de capengagem tradutória: a preposição inglesa about.

Alguém ouviu um galo rouco cantar que about corresponde a sobre em português. E toca a produzir monstrengos idiomáticos. Tipo: “Amor é sobre compartilhar todos os momentos da vida”. Blergh! Essa construção não tem absolutamente nenhum enraizamento na sintaxe, na morfologia, na semântica, na pragmática, na culinária, na farmacopeia, na mitologia e na alfaiataria do português: é um pedaço de pau boiando na enchente ou, como se diz em Minas, uma bosta n’água, inconsistente, flutuando sem nada que a sustente. Por que não dizer simplesmente: “Amar é compartilhar todos os momentos da vida”?

E aí vêm frases que começam simplesmente assim: “É sobre X e Y” ou “Não é sobre X e Y”. Estrupícios, estrovengas, geringonças. Tem até uma musiquinha fuleira de auto-ajuda só com versos começando com “é sobre”. Espere um minuto que vou ali vomitar e já volto.

Outra vítima da tradução capenga de about é a locução trata-se de. A criatura lê ou ouve algo como “What this book is about?” e tasca “Do que se trata esse livro?”. Cacilda Becker! A locução trata-se de não pode ter sujeito, ela é impessoal, um livro não “se trata de” nada. Só se deve usar trata-se de para retomar algo que foi dito antes: “Não se surpreenda com as declarações balofas do presidente golpista. Trata-se de um energúmeno pusilânime medíocre”. Seria possível traduzir a frase inglesa acima por: “Do que trata esse livro?” / “Qual o assunto desse livro?”. Em sua fase de exílio londrino, Caetano Veloso compôs diversas músicas em inglês, e uma delas tem o título Nostalgia ou “That’s what rock’n roll is all about”. Já pensou esse verso nas mãos de um/a praticante da tradução capenga? Nem me arrisco a imaginar. Que tal simplesmente “Isso é que é o rock’n roll” ou “O rock’n roll é isso e ponto” ou qualquer coisa que não seja “rock’n roll é sobre” ou “rock’n roll trata-se de”.

Outro problema sério com trata-se de, além de traduzir capengamente o about e da atribuição de um impossível sujeito, é a flexão do verbo no plural. Assim: “O judiciário não para de cometer arbitrariedades. Tratam-se de atentados à democracia”. Que o judiciário atenta diuturnamente contra a democracia é fato, mas trata-se, no singular, de arbitrariedades. Não se pode fazer concordância entre um verbo e um complemento se entre os dois aparecer uma preposição, como o de de trata-se de. A preposição barra qualquer concordância. Seria estranho dizer ou escrever “Precisam-se de mais verbas para a educação” ou “Mexem-se nas aparências mas não nos problemas reais”, com plurais descabidos. A presença do se em trata-se de revela que se trata de uma locução impessoal, que não pode ter sujeito: ninguém diz ou escreve “A educação precisa-se de mais verbas”, assim como também não deve dizer nem escrever “Esse livro trata-se de um clássico da área”, nem muito menos “Esses livros tratam-se de clássicos da área”. Aqui, de novo e sempre, basta o simples e meigo verbo ser: “Esses livros são clássicos da área”, assim, de cara limpa, sem botox.

A tradução capenga reflete a sujeição acrítica ao que nos é imposto pelo imperialismo linguístico, é a contrapartida idiomática de todas as demais sujeições com que nos dobramos, canina e servilmente, aos ditames dos centros da mundialização do capitalismo neoliberal histérico, o mesmo que promove golpes de Estado, financia grupos de extrema-direita como MBL e outros excrementos, seduz as estúpidas elites locais a entregar de bandeja todas as riquezas nacionais, como o pré-sal, o aquífero Guarani, a floresta amazônica etc. etc. Nenhum dos nossos milhões de analfabetos funcionais vai produzir coisas do tipo “amar é sobre compartilhar” ou “esse livro trata-se de um clássico”: são capenguices típicas de uma pequena parcela que se julga muito letrada e acha chique macaquear um inglês que ela mal conhece, enquanto acusa de “falar errado” quem diz “menas” ou “pra mim fazer”, formas que têm muito mais razão de ser, do ponto de vista da morfossintaxe do português, do que capenguices do tipo “é sobre”.

E não me faça bocejar de tédio dizendo que sou preconceituoso. “É sobre” saber do que se está falando por ter estudado muito o assunto, não “se tratam de” pitacos improvisados. Mas nem por isso deixa de ser, também, uma tomada de posição ideológica explícita.

Criado em 2018-09-19 02:21:48

Brasil, terra sem lei

Sandra Crespo –

O Supremo Tribunal Federal (STF) deixa um réu presidir a deposição de uma presidenta, sem crime de responsabilidade. Deixa também um juizeco de 1ª instância vazar para a Rede Globo grampos telefônicos ilegais contra a presidenta, a fim de incendiar as ruas e apressar o impeachment.

O STF rasga a Constituição ao permitir a prisão de Lula antes de condenação final. STF faz censura prévia e não permite entrevistas de Lula. STF não torna o Coiso réu por racismo quando ele disse que negro se mede em arroba e quilombolas não servem nem para procriar.

E o presidente do STF afirma que não foi golpe em 64, foi “movimento”.

De nada adiantou lutar pela anistia e pelas diretas, de nada adiantou eleger a Assembleia Nacional Constituinte, que produziu a Constituição Cidadã sob a condução do grande brasileiro Ulysses Guimarães.

O Brasil está jogando fora a sua história de país democrático e plural, para entrar no barco de Creonte e nos levar a todos para o Mundo dos Mortos.

A única saída possível é impedir e eleição do Traste que personifica o ódio e a intolerância. #EleNão

Criado em 2018-10-04 19:58:20

Réquiem para dois cambuís

Zuleica Porto -

Adeus, cambuís. Meus companheiros de janela desde que, em 1981, vim morar nas quatrocentas velhas da Asa Norte.

Através de suas folhas, venho observando ao longo dos anos os deslocamentos do sol, as fases da lua, as chuvas torrenciais, as alvoradas sanguíneas do tempo seco.

Seus galhos generosos abrigam tucanos, sabiás, bem-te-vis, almas-de-gato, para não falar dos concertos de cigarras anunciando as chuvas.

Em janeiro, costumam explodir em amarelo. As flores invadem a sala e os dois quartos, e a casa fica toda dourada.

E logo tudo isso será apenas memória. Foi decretada a sua morte. Não estão doentes, apenas cresceram demais. São muito maiores que o bloco. E os galhos, virados para o estacionamento, ameaçam a integridade dos sacrossantos carros.

Portanto, adeus, cambuís. Obrigada pela leveza das alvoradas, a suavidade das tardes, a mansidão da chuva entre suas folhas. Obrigada pelas flores, pelas folhas, pelos passarinhos e pelas cigarras.

Quem sabe um dia sejamos uma civilização que valorize mais os seres vivos do que as máquinas. Por enquanto, elas, as máquinas, dominam corações e mentes.

Nunca esquecerei o dia em que vi um menininho, correndo por um estacionamento e gritando: “eu te amo, carro do papai”.

Quanto aos cambuís serão, como a Itabira do poeta, apenas retratos na parede. E saudades.

Criado em 2018-03-25 23:48:34

Canário do Campo

Canário-do-campo (Emberizoides herbicola) - Em Pernambuco é chamado de joão-mole; no Espírito Santo, de tibirro-do-campo. Tem 20 centímetros e pesa 30 gramas. No período reprodutivo, costuma vibrar as asas e também mover sua longa cauda para cima e para os lados. A cabeça, o dorso e as asas são listrados de preto. A área perto dos olhos é acinzentada. O bico é pontudo e amarelado, com o lado superior negro. Alimenta-se de insetos e, provavelmente, de sementes que encontra no chão ou no meio dos talos das gramíneas. Sua distribuição vai do Nordeste até o Mato Grosso e Rio Grande do Sul. Fora do Brasil é avistado do Norte da Costa Rica até a Bolívia, Argentina e Paraguai. Fonte: Wikiaves. Registro feito em 31.12.2015, no Altiplano Leste.

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Criado em 2016-11-24 00:22:48

Para além da crônica há o poeta

Maria Lúcia Verdi –

Surpreendeu-nos Flama - Edição do Autor, com ilustrações de Wagner Hermuche - presente de Severino Francisco para os leitores de suas sempre  oportunas crônicas publicadas no Correio Braziliense. A começar pelo nome, considerando-se a respeitável discrição com que Severino se move na vida. Sempre desconfiei que havia algo lá além do cronista atento e sensível, algo que o olhar e a gestualidade desse goiano arretado deixava vazar, algo rimbaudiano. Esse algo era poesia. Olhar que em Abril desesperado descreve:

Perdido entre mangueiras
Assolado pelo azul
Os muros espreitavam a tudo com tédio.

E que em trecho do ótimo Lobo-Guará diz:

Estaco até mesmo diante de uma
Foto do lobo-guará,
Pois ele mantém a flama de
Uma ferocidade serena
Que perturba algo ancestral dentro de mim

Severino me responde: “Fiz o melhor que pude. Boa ou ruim, essa é a minha poesia, não tenho nem tempo de fazer uma melhor. Para mim esse é o conceito de felicidade possível.”  Qual poesia não tem seus altos e seus baixos? Mesmo Drummond não permanece sempre na mesma altura olímpica. E gosto demais dessa ideia de que a felicidade possível seja fazer o que corresponde à verdade do sujeito, sem expectativas.

Em suas palavras, desde Marte ou desde o infinito, no entanto, o poeta é atento à beleza que passa, que permanece se “roçada e roçante\ tateada e tateante”. E esse autor inflamado pelas delicadezas do amor, reflete:

“Algumas vezes, fico pensando\ se o amor é um problema de concentração.\ Não perco um segundo da respiração, \ da forma, dos movimentos e do silêncio.” Não creio que haja quem não sonhe com essa atenção permanente, a que os criadores têm frente às criaturas e o amante frente ao ser amado. E em Mão, o lírico jornalista sente e adivinha nas mãos da amada, “a mulher querendo ancorar \o seu calor.”

Conheço Severino desde muitas décadas, desde um tempo relatado pela poesia: “Naquele tempo, eu sofria de feras. \ O fogo não tinha línguas para falar. O ar da cidade bocejava de tédio\ há milhares de anos”. O fogo, a flama, não irradiava, o que veio a ocorrer depois, como sabemos seus leitores.

Quando li o primeiro poema deste Flama, reencontrei o amigo dos vinte anos e me impressionou a dura (e leve) exatidão com que o autor retrata um “ele”, um homem, que  a partir de seu microcosmo, retrata certamente a uma infinidade de seres semelhantes:

Dezenove anos

Arrastado pela desordem do corpo.
Os cabelos de arame berravam
Para os muros da cidade.
Tudo está tão longe.
Aqui é sempre outro planeta.
Rápido, um copo de veneno
Para aplacar a inocência.
Este é um homem
Que vai se despedaçar.
É muito frágil a eternidade.

A inocência terá sido aplacada no autor em vestes de cronista e jornalista, mas não nas de poeta; nela, desvela-se a inocência do jovem frente à beleza, à mulher, ao desejo e o amor, a necessária inocência frente ao mundo para que o vejamos ainda, apesar de tudo, como novo, como abertura e possibilidade.

As palavras que mais se repetem do livro são: metafísica, corpo, beleza, amor, eternidade, tempo, alma, falta e falha, estas duas últimas estão em dois poemas-chave. O que nos constitui é a falta, vide a psicanálise. Nascemos faltantes e essa falta-falha é o que nos leva a agir e a criar, cada um com sua obsessão, sua neurose, sua loucura, sua criatividade. Em Um retrato relâmpago lemos:

Os espelhos quando o veem
Quase trincam com a falta e a falha.
Sempre com os pés no chão. De Marte.

E em Brasiliana, o belo poema que encerra o livro:

O sertão virou mar, mas sem som,
De ponta-cabeça, no alto, espraiando-se
Em câmara lente, com majestade,
Na ópera aberta das nuvens
Desgarradas no descampado
Sob a iminência do espaço,
Que expõe a falta e a falha,
Ameaçando engolir tudo.
O mar virou sertão, em riste,
Riscado pela faca de Cabral,
Com suas árvores mirradas,
Mas bravas, que resistem, tortas,
Retorcidas de angústia,
Agarrando-se ao chão esturricado.
O silêncio deixa tudo muito longe.
Com os sapatos sujos de terra vermelha
Carregando no corpo a ferida metafísica
De quem mora muito próximo do infinito.

Mas esse poeta que se diz “desconectado, precário e mortal”, sabe estar vivendo “a vida ao vivo”. E nesse viver também conectado, homenageia Clarice (“Lisérgica\ sem precisar de nenhuma droga \ metade animal metade humana"), Armando Freitas Filho (“Máquina de escrever, \ mas não a mecânica,\ máquina anímica\ entranhada no sangue”), Rubem Braga (“água viva manando das pedras,\ para beber não em copo,\ mas com as mãos em concha”) Manuel de Barros (“Ele parece aquele gato zombeteiro\ de Alice no país das maravilhas,\ que desaparece, mas deixa o sorriso\ parado no ar”), João Cabral (vide o poema acima), Glauber Rocha (“O morto não está morto,\ de outro tempo,\ ele manda sinais de insubmissão.”) e no belo poema em homenagem a Van Gogh e a seu pai:

Naquele verão, o meu pai
desembrulhou o sol no meio da sala
de dentro de um fascículo semanal,
na cidadezinha cercada de bananeiras.
Abra os olhos, as cores não são mais cegas.

Nas orelhas de Flama, machadianamente, Severino cria um personagem, alter-ego do autor, que escreve com humor e verdade, sobre o “gaiato Severino” e diz: “Não é hipócrita (o autor), considera bons alguns poemas e versos que escrevinhou.” E para comprovar mais uma vez tal consideração, transcrevo a homenagem que faz ao nosso poeta maior com este Drummond no meio do caminho:

Certo dia, tropecei
na pedra drummondiana
no meio do caminho
e, acostumado aos serafins
resplandecentes do décor renascentista,
não vi graça no anjo guache
oblíquo e dissimulado na sombra
soprando profecias irônicas;
e achei que o torto
estragava a poesia.
Mas, de repente, desasnei e descobri
que o torto nos expressava
e era puro diamante
a pedra bruta
na qual eu trumbicara.

Criado em 2021-08-30 23:54:14

As poetas em festa no Dia da Mulher

Angélica Torres -

A poesia brasileira entra amanhã, “oficialmente”, no rol das homenagens do dia dedicado à Mulher. O lançamento da antologia impressa As mulheres poetas na literatura brasileira, no bar-livraria Patuscada, em São Paulo, vai marcar esta posição, e disposição, do antologista, o poeta e jornalista paulista Rubens Jardim, que levou à frente a empreitada de selecionar e catalogar 328 escritoras do país todo e de apresentá-las em uma página, cada. Isto, após um trabalho generoso, de formiguinha gigante, levantado ao longo de anos em seu site e blog e via facebook, aonde ele ia expondo aos poucos a sua garimpagem.

Para viabilizar o projeto e transformá-lo numa caprichada, primorosa publicação impressa, Rubens Jardim contou com a parceria de Linaldo Guedes, também poeta e dono da editora paraibana Arribaçã. Projeto, aliás, que alegrou e muito o coração das mulheres nele expostas. Por que, quem não sabe o quão trabalhosa tem sido a escalada da mulher, no mundo todo, pelo reconhecimento de sua participação em todas as atividades que ela quer, precisa e deve colaborar, ao lado dos homens?

Organizada por gerações que vão desde 1700 até os anos 1980, a antologia põe nomes ilustres, como Dora Ferreira da Silva, Auta de Souza, Barbara Heliodora, Hilda Hilst, Olga Savary, Marly de Oliveira, Alice Ruiz, entre outras, juntos, naturalmente, aos de não famosas nacionalmente e de algumas ainda não publicadas em livro, mas conhecidas via redes sociais.

Jardim se confessa emocionado com a antologia e justifica. “Acaba que ela vem mostrar aos leitores um panorama importante da poesia escrita por mulheres no Brasil, pois, como o critério foi cronológico, podem-se ir acompanhando os desdobramentos, por períodos, de como gerações inteiras registram, em suas diversas vozes, um histórico de liberação, de lutas por direitos reivindicados e pelas mudanças de como isso ocorre debaixo do nosso nariz”.

Como antologista e também curador, Jardim não se apresenta somente um aliado das mulheres poetas. Jorge de Lima andava esquecido, ele observava, quando decidiu organizar um resgate de sua obra, ouvindo diversos escritores e intelectuais e publicando esse trabalho, que, segundo se orgulha, surtiu efeito. Dois anos depois, em 1975, a Mangueira desfilou o seu tributo a esse grande poeta alagoano.

Em maio último, organizou na Casa das Rosas uma celebração aos 50 anos da Catequese Poética, do qual ele próprio foi um importante integrante. Rubens resgatou e promoveu em diversos eventos não só a história do Movimento. Homenageou principalmente o seu fundador, o poeta catarinense Lindolf Bell (1938-1989), que nos anos 1960 saía em peregrinação, pelos palcos universitários e espaços culturais do país, declamando seus poemas e influenciando e impulsionando o surgimento de muitos e muitas, então, jovens poetas.

Segundo Rubens Jardim (na foto, abaixo), muitas das participantes da antologia As mulheres poetas na literatura brasileira confirmaram presença na festa de amanhã no Patuscada, palco de lançamentos e recitais poéticos, de propriedade do editor da Patuá, Eduardo Lacerda, outro guerreiro da poesia brasileira. A noite do Dia da Mulher promete! – esperam o antologista e o editor, além, delas próprias, claro.


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As mulheres poetas na literatura brasileira – Org. Rubens Jardim. Publicação impressa em volume único, de 14cm x 21cm, 354 págs. Reúne 328 poetas de todas as regiões do país. R$ 80. Encomendas no site da Editora Arribaçã. Frete grátis.

 

Criado em 2022-03-07 21:40:50

Ato “Trincheira Capanema” está mantido e será nesta sexta, 20/8, às 16h

Romário Schettino -

Apesar do anúncio do Ministério das Finanças de retirar do edital de leilão o edifício histórico localizado no centro do Rio de Janeiro, conhecido como Palácio Capanema, onde funciona o Ministério da Educação e Cultura (MEC), o ato Trincheira Capanema continua de pé e será realizado nesta sexta-feira, 20/8, às 16h, em frente aos tapumes do prédio em reforma.

Segundo seus organizadores, este “é um exemplo de mobilização pela cultura e o patrimônio brasileiros. Só neste nefasto leilão estão indistintamente 2.258 imóveis, entre eles o Palácio Capanema (suspenso) e o  Edifício A Noite, onde funcionou, durante 94 anos, a Rádio Nacional”.

O Edifício Joseph Gire, mais conhecido como A Noite, é um arranha-céu localizado na Praça Mauá, no centro do Rio de Janeiro. Inaugurado em 1927, é considerado um marco arquitetônico do país, sendo, na época de sua inauguração, o maior arranha-céu da América Latina e o mais alto edifício do mundo construído em concreto armado.

Lúcia Capanema, sobrinha de Gustavo Capanema, ex-ministro da Educação e Saúde do governo Getúlio Vargas, lembra que é preciso arrecadar fundos para “custear os atos em favor da cultura brasileira e em repúdio à colocação de mais de 2.250 imóveis do patrimônio público federal à venda no Rio de Janeiro, tendo como estrelas o Palácio Capanema e o Edifício A Noite".

A ajuda financeira, segundo Lucia Capanema, professora da Universidade Federal Fluminense, pode ser feita na plataforma Kikante - O Capanema é Nosso - aqui. "Se conseguirmos cobrir os custos de comunicação e equipamentos relativos ao ato de amanhã, o restante será doado ao Fórum Técnica RJ, entidade que vem lutando para manter comida na mesa dos técnicos de apoio às artes no Rio de Janeiro" disse ela.

Desestatização - Governo federal inicia o “feirão de imóveis” na cidade do Rio de Janeiro oferecendo mais de 2 mil imóveis. Pelo menos 50 estão localizados no centro da capital carioca. No entanto, diante da repercussão negativa, que mobilizou pessoas e associações ligadas à cultura, à arquitetura e ao patrimônio histórico, o ministro Paulo Guedes desistiu de incluir o Palácio Capanema no vergonhoso leilão. A informação foi divulgada pelo governador do Rio, Cláudio Castro, e o presidente da Assembleia Legislativa fluminense, o petista André Ceciliano.

Castro e Ceciliano se reuniram com representantes dos setores culturais para discutir a possibilidade de comprarem o palácio, dividindo os gastos entre a Alerj e o governo estadual. A proposta partiu do presidente da Assembleia, incomodado com o que considerou um descaso do carioca Guedes com um dos edifícios mais importantes da ex-capital federal.

Símbolo da arquitetura moderna brasileira, o Capanema já foi sede do antigo ministério da Educação e da Saúde – que depois se transformou em Ministério da Educação e Cultura (MEC) – e só estava desocupado porque passa por uma restauração que já custou mais de R$ 50 milhões aos cofres públicos e ainda necessita de outros R$ 57 milhões para conclusão. Essa reforma é uma exigência da Unesco para torná-lo patrimônio histórico mundial.

O leilão do MEC está suspenso, mas nada garante que volte a ser cogitado, por isso a necessidade de manter a movimentação em sua defesa. Defesa patrimonial essa que inclui o outro edifício A Noite.

Símbolo arquitetônico - A concepção do Palácio Capanema, inaugurado em 1945, reuniu os nomes mais famosos da arquitetura, do paisagismo e da arte brasileira do século XX. Assinaram o projeto do prédio de 16 andares os arquitetos Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, entre outros. Os jardins suspensos foram planejados por Burle Marx e os azulejos da fachada são de Cândido Portinari. Contou também com a consultoria do francês Le Corbusier,

O Capanema foi citado por Guedes como um dos mais de 2 mil imóveis que poderiam entrar num leilão  para fazer caixa. Para isso, o governo federal se baseia na lei 14.011, de 2020, que facilita a concessão de patrimônios da União.

Além da importância histórica, o palácio reúne hoje parte do acervo da Biblioteca Nacional e serve de casa para a Funarte. O contrato da fase atual do restauro do palácio é de R$ 57,8 milhões e se estende até o fim deste ano, no âmbito do programa PAC Cidades Históricas.

Numa carta assinada por dez associações, os profissionais da área destacam o reconhecimento mundial do Capanema, espécie de laboratório das ideias de Le Corbusier, o guru supremo da arquitetura modernista. "Quanto vale um prédio concebido, projetado e construído para ser um símbolo da cultura nacional?", questionam. "Ele é a obra brasileira mais citada em livros de arquitetura, mundo afora, como o primeiro edifício monumental do mundo a aplicar diretamente os conceitos da arquitetura moderna de Le Corbusier."

Estão nessa luta pela preservação do patrimônio arquitetônico o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), o Clube de Engenharia, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio (CAU-RJ), o Conselho de Engenharia e Agronomia do Rio (CREA-RJ), o Instituto Internacional de Arquitetos Paisagistas (IFLA) e o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos). Sindicatos dos engenheiros e dos arquitetos e o Movimento Ocupa MinC.
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Visite aqui o site do Fórum de Entidades em Defesa do Patrimônio Cultural Brasileiro

Criado em 2021-08-20 01:32:17

Leck mich im Arsch!

- Antônio Carlos Queiroz (ACQ)

Se o cronista não agarra o leitor ou a leitora logo de início - babau! -, a vítima escapa e não vai além do primeiro parágrafo. Alguns escritores já fazem do título uma isca, enfeitando-o com um palavrão ou com uma bênção, conforme o leitorado.

Criado em 2020-01-27 01:10:58

Sequestraram o coração do imperador!

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) -

Lamentavelmente, para vergonha do País, surrupiaram o coração de Dom Pedro I do Brasil ou Dom Pedro IV de Portugal, preservado em formol há 187 anos, na noite do mesmo dia em que chegou ao Brasil, trasladado pela primeira vez da capela-mor da igreja de Nossa Senhora da Lapa, no Porto, para as comemorações dos 200 anos da Independência do Brasil.

Depois de sofrer estoicamente as patacoadas oficiais no Palácio do Planalto, o desafortunado órgão propulsor havia sido levado para uma vitrine instalada no Itamaraty, onde ficaria exposto ao público até o dia 5 de setembro. Na madrugada, porém, burlando a segurança conjunta da Polícia Federal e das Forças Armadas, os sequestradores perpetraram a barbaridade no melhor estilo da Missão Impossível, tendo neutralizado quase todas as câmeras de segurança.

Alguém se lembrou imediatamente que a mesma sorte havia sofrido a Taça Jules Rimet no fatídico 20 de dezembro de 1983, a qual foi derretida pelos ladrões sem qualquer senso de patriotismo, pouco interessados no valor simbólico do troféu, mais preocupados com o valor do reluzente vil metal. E agora, o que teriam feito os gatunos do 22 de agosto, mês do desgosto e de cachorro louco?

As primeiras especulações foram feitas por membros da família real brasileira, acionadas pelo ministro da Defesa. “Coisa dos comunistas, obviamente”, cravou um dos príncipes da Casa de Orleans e Bragança. Já o embaixador da nação irmã (ou será madrasta?) aventou a possibilidade de uma intriga internacional, talvez articulada por algum dentista brasileiro vítima de racismo em Lisboa.

Todos esses chutes escalafobéticos passaram longe da verdade, a mais comezinha possível, como se verá adiante. Mas, como se disse lá atrás, o quase não deixou que os bandidos cegassem todas as câmeras de segurança. A que restou ilesa flagrou a moto, com placa e tudo, em que escafederam os dois criminosos do horrendo delito de lesa-majestade. Cruzando dados, a PF logo os descobriu embuçados numa birosca do Sol Nascente, tomando cachaça e postando paródias de marchinhas imperiais no Instagram.

Acuados quando já raiava o astro-rei no bairro homônimo, a dupla confessou sem muita resistência o crime, sacando de não se sabe qual algibeira o argumento de que haviam praticado o que os advogados chamam de furto famélico.

“Doutor, faz dois anos que a gente não come carne, só ovo. O Auxílio Brasil só deu pra pagar as contas atrasadas da venda. A gente achou que essa era a grande oportunidade de tirar a barriga da miséria, a nossa e a dos vizinhos. Pode perguntar pra eles”. Assim discursou o Vando, o caçula.

“Quando a gente chegou, eu avisei à turma que ia servir um banquete imperial. Riram de mim, mal sabendo que eu estava falando a sério”, completou o mano Julinh

Muito sentimental, um dos policiais se emocionou com a história, e se dispôs a fazer uma vaquinha para comprar uma cesta básica de carnes e embutidos para aquela família de dois ou três salários, se tanto. Pelo despropósito, o oficial da missão  quase lhe deu um safanão, ordenando carreira até a casa dos meliantes, devidamente algemados.

Lá chegando, os homens da ordem foram cercados por muitas mulheres, uma renca de moleques e alguns homens de mais idade. O alarido atraiu muito mais gente, assustando o oficial. Mas como ele não detectou sinais de beligerância, deixou estar para ouvir a versão do povo.

A mãe dos ladrões do coração imperial, Dona Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga da Silva, levou os policiais até um canto do quintal onde havia restos de uma fogueira ainda fumegante, e dezenas de espetinhos.

"Seu policial - disse a mulher -, eu tive de quebrar o vaso pra tirar o coração do imperador, olha ali os cacos. Eu cortei a carne em cubinhos pra distribuir churrasco pra todo mundo. Mas não vou mentir pro senhor, quase ninguém gostou, por causa do formol. Lavei, esfreguei, passei vinagre, limão, nada, não adiantou. Dei a desculpa que era coração marinado. Valeu pela festa, né!”

Enquanto um dos subordinados fotografava a cena do crime, e outro recolhia as evidências materiais, o oficial suspirou e mandou mensagens pelo rádio. Vendo que não havia mais o que fazer ali, comandou a retirada, com o Vando e o Júlio já encerrados na parte traseira do camburão.

Ocorre que a meninada havia se engraçado com o policial sentimental acima mencionado. “Nossa, moço, que bíceps que o senhor tem!”, disse uma garota. Ele sorriu, mas se conteve quando outra menina lhe deu uma cantada: “Mostra pra nós a sua barriga de tanquinho, vai!"

Ficou definitivamente sério e tratou de sair de fininho quando dois guris apalparam com a maior falta de respeito os seus glúteos acadêmicos, um dos pirralhos salivando: “Que bunda! Essa, sim, daria um belo churrasco”!

Criado em 2022-08-23 19:52:54

Exageros inclusos, por aqui tudo já foi o maior do mundo

Luiz Martins da Silva –

Isto foi num tempo em que aquela cidade era muito pequena. Pequena de se conhecerem todos. Saberem onde moravam todos. E da vida de todos. Mas, estando na franja do futuro Distrito Federal e, por conseguinte, da futura Capital, algo já começava a mudar na modorrenta rotina, do lugarejo e de cada um.

Turistas não havia e a própria palavra turismo soava como alguma coisa relacionada à Guerra Fria, talvez relativa ao lançamento de foguetes, espaçonaves, ou com a descoberta de alguma coisa impactante, a fotografia colorida, o rádio portátil, os tecidos não amarrotáveis e um bocado de novidades intrínsecas a algo ainda muito duvidoso, que a Capital viesse a deixar o Rio de Janeiro, a “Cidade Maravilhosa”, para se estabelecer no ermo situado entre o cerrado e os chapadões.

Lugar de novidades era, por vezes, o Bar do Seu Mané. Mistura de bodega, bar e café, onde a especialidade era mesmo um conjunto de bules de aço inoxidável, mergulhados indefinidamente numa cuba de água fervente, mantida na eletricidade, coisa admirável, uma “resistência”. E como resistiam, sempre escaldantes e a qualquer hora, café e leite. O complemento também saía fumegando, lá de dentro, uma travessa atrás da outra, de pasteis e pães de queijo.

Entre o quente e o gelado, as conversas fluíam desde o último fuxico da vida alheia às disputas entre os “americanos” e os “russos”, na Terra e no Cosmos. Mas, a conversa chegava mesmo às estrelas era com os últimos feitos de Pelé e Garrincha, bem como nas chances de vir o Brasil a “sagrar-se”, mais uma vez, campeão mundial de futebol.

“Bem gelada!”, era assim como os bebedores de cerveja ordenavam mais uma, ao que o Seu Mané prontamente abria, com destreza e suavidade, mais uma garrafa, para fazer sossegar nos copos, apressados em se esvaziar, o elegante “colarinho”.

Figura tão frequente no Bar do Seu Mané, tanto quanto as mesas e as cadeiras, era um senhor, conhecidíssimo falastrão, sempre prestativo a contar casos e proezas, sobretudo proezas, coisas, como se dizia à época, “do arco da velha”, mais propriamente da arca da velha, um baú de velharias, histórias de um tempo mais remoto e ainda mais mágico, em que a região era rarefeita de gente e progresso.

Quase ninguém lhe sabia o nome de batismo, tão antigo e universal o apelido. Toda a cidade o conhecia, simplesmente, como “O Bodão”, aumentativo denotador de exageros. Se houvesse algum pingo de verdade nos seus “causos”, por certo ele a aumentava a uma dimensão do absoluto inacreditável. Um problema para ele é que o repertório começava a se repetir e, com as repetições, as interrupções: “Esta aí a gente já conhece”.

Pois foi numa dessas aparições raras de forasteiros, que pelo Bar do Seu Mané aportaram dois senhores, até bem jovens, com fardas cáqui, rajadas, daquelas típicas da camuflagem dos soldados treinados para combater nas selvas. Forte referência daquela época era o que acontecia, dia a dia, na recente Guerra do Vietnã, explosiva em fatos quase sempre a abrir e a encerrar os boletins noticiosos que circulavam pelas ondas curtas de rádio. As entonações dos locutores eram tão pungentes que faziam parecer ao povo simples que o Vietnã não era tão distante e que, por exemplo, “o delta do Mekong” ficasse, quem sabe, pouco depois do Pantanal mato-grossense.

Como fazia de costume e sem causar mais enfado (ninguém ligava mais para ele), Bodão chegou e logo notou a presença dos desconhecidos.

Seriam os tais turistas? Mas, habilidosa e cuidadosamente, ele foi de mesa em mesa, papo com um, brincadeira com outro, sempre filando um copo de cerveja e um cigarro. Nisto ele era um mestre, um “bicão”, como assim o qualificavam, um esperto. Uma espécie de anfitrião ao contrário. Não os donos da mesa a convidá-lo, mas, ele próprio, a se fazer de presença aguardada e esperada. Na realidade, um chato, que já se tornara parte do ambiente, não raro, como colaborador. Na falta de garçom, ele se voluntariava em recolher garrafas, copos, cinzeiros, lixo...

Por fim, Bodão abordou os dois ‘estrangeiros’. Seriam “gringos”? Pela cidade já tinham aparecido uns ‘sujeitos’ com uma fala enrolada, querendo localizar terras à venda. Vários fazendeiros apressavam-se em anunciar glebas e lotes, ante a expectativa de que a Nova Capital a tudo iria valorizar pelas redondezas em matéria de ‘investimentos imobiliários’.

De início, o assédio não foi bem recebido. Sem qualquer noção de boas maneiras, Bodão chegava para uma pessoa e estendia a mão, ficando o interlocutor sem ação, a não ser corresponder ao gesto, no caso dele, apertando a mão suada e áspera de uma pessoa que, quando não a contar proezas de super-herói, era um modesto servente de pedreiro.

– Muito prazer, Bodão.

Os dois ‘homens de fora’ fizeram um ar de desagrado. Deixaram o intruso com a mão vazia e no ar. Ainda em pé, Bodão arriscou mais uma tentativa:

– Peço desculpas se estou sendo inconveniente, mas, como conheço muito bem a região, talvez os senhores precisem de um guia. Conheço cada palmo num raio de cem léguas. Por acaso, os senhores estão à procura de terras?

– Não, não é o caso.

– Pois, que me desculpem. Eu só queria ser hospitaleiro. Mais uma vez, me desculpem, qual é o assunto de vocês por aqui?

– Caça e pesca.

– Ah, pois, então, estão falando com a pessoa certa.

– E por quê?

– Porque eu sou o maior caçador e pescador de toda esta região, desafio quem seja melhor do que eu em caçar e pescar no cruzamento do Rio Maranhão até o Rio Preto e no cruzamento do Rio Paranã até o Urucuia. Sei pescar em tudo quanto é água, margem, raso, fundura... Com anzol, tarrafa, dinamite...

– Dinamite?

– Dinamite, sim. Quando a encomenda é muito grande, eu sou muito prático, faço chover peixe. Aí, é só pedir ajuda para recolher as toneladas.

– O senhor sabe com quem está falando? – interveio um dos ‘homens de fora’.

À primeira altercação, o coletivo dos bebedores de cerveja e tomadores de café, café com leite, leite com chocolate... Comedores de pasteis e pães de queijo... Todos notaram ter surgido um estranhamento entre os forasteiros e o fanfarrão da cidade.

– Pelo que me informaram, vocês são caçadores e pescadores. E eu sou, por toda essa região, o maior caçador e pescador. Caçar, eu pego em armadilha ou mato de espingarda; peixe, é por encomenda. Anzol, cesto, barcaça, tonelada...

– E pesca até com dinamite! – reforçou o outro ‘homem de fora’.

– Sim, é isto mesmo. Querendo, a gente começa pela Lagoa Feia, que está bem pertinho...

– O senhor está é preso! – falou bem alto o primeiro ‘homem de fora’, o primeiro a fazer o uso da palavra.

– E eu posso saber o porquê de eu estar recebendo voz de prisão?

– Por que nós somos fiscais de caça e pesca e viemos aqui justamente para fiscalizar ocorrências de caça e pesca predatórias. No caso, o senhor está confessando crimes gravíssimos!

– Mas, primeiro, os senhores precisam saber com quem estão falando.

– E com quem nós estamos falando?

– Vocês estão falando com o maior mentiroso do mundo!

E todo o Bar do Seu Mané estrondou em gargalhadas. Riram muito, e por muito tempo. Até os visitantes. E foram estes mesmos que mandaram vir uma rodada de cerveja. O Bodão, claro, convidado ilustre.

Criado em 2020-12-04 23:02:55

Tour de versos em tour

José Carlos Peliano (*) -

Rio de Janeiro a dezembro
Belo Horizonte a cada olhar
Porto Alegre oh se me lembro
João Pessoa encontrar

Petrópolis bom destino
Ouro Preto a vila rica
Brasília traçado fino
Olinda um bem que fica

São João del Rei quero
Cabo Frio enquanto
São Paulo eu espero
Salvador portanto

Fernando de Noronha, ondas sem nó
Vitória da Conquista ali ganhar
Diamantina canta bem que só
Camboriú segue o rumo do mar

Rio de Janeiro a dezembro
Juiz de Fora para dentro
Amazônia sou dela membro
Planalto Central céu adentro

Versos em tour

Cordéis de ondas em Maragogi
seguem versos depois de Pirangi
avolumam correntes do baião
desde os rios já secos do sertão

sem antes da Amazônia e afins
dos índios escutar danças e cantos
ressoando nos bois de Parintins
da floresta o tesouro e seus encantos

à cantoria juntam-se manhãs
em cada grupo até as madrugadas
pelas rimas benditas ou pagãs
por ares e por terras estreladas

com o maracatu, xote e xaxado
levam ao Rio os grupos dançarinos
o som do solo negro abençoado
se misturam aos sambas genuínos

o caldeirão de sons esquenta o caldo
da popular cultura e poesia
os toques regionais levam ao saldo
de cada e todos versos a magia

os versos que estão no som e no ar
que negros, índios e brancos ouviram
fazem da poesia o seu andar
na caminhada que todos brandiram

e que no Brasil irão alcançar
a igualdade que não mais nos tiram!
______________
(*) José Carlos Peliano,
poeta, escritor, economista.

Criado em 2021-09-29 23:30:09

O dilema das redes e a revolução dos dementes

Max Telesca (*) -

“Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre
Em nosso espírito sofrer pedras e setas
Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um mar de provocações
E em luta pôr-lhes fim? Morrer… dormir: não mais”.
(William Shakespeare in Hamlet)

O Dilema das Redes foi o título traduzido para o Brasil do documentário The Social Dilemma, do diretor norte-americano Jeff Orlowski, cuja exibição, a partir de setembro de 2020, no auge da pandemia, trouxe para o grande público considerações e revelações sobre a manipulação altamente invasiva das redes sociais sobre a mente do ser humano atual.

O filme não somente demonstra de forma didática o processo de implantação no cérebro de uma dinâmica a trabalhar com as áreas afeitas aos vícios, como também ensaia uma teoria bastante crível sobre a influência das redes sociais, notadamente através de seu funcionamento por meio de inteligência artificial algorítmica, na radicalização de posições políticas, algo chamado de polarização, conferindo uma nova, e, para muitos, errônea acepção para este conceito.

Segundo o raciocínio, as preferências dos usuários verificadas por meio dos cliques e a consequente derrama de conteúdos similares às buscas na nossa timeline, formam uma bolha, uma realidade na qual apenas opiniões e temas do nosso estrito interesse aparecem. Na verdade, isso não é uma teoria, é um fato facilmente verificável. O ensaio teórico se encontra naquilo que pretende ser uma consequência do fato: o reforço autocentrado, circular, das convicções políticas na pessoa e nos grupos formados a partir desta lógica de conteúdos, cuja dinâmica é de retroalimentação por meio de informações e, especialmente, material de desinformação, fake news a formar uma realidade paralela à verdade científica e aos dados concretamente existentes, características do fenômeno da pós-verdade.

Desde tempos imemoriais os iguais se congregam, como os romanos já sabiam; é uma regra da natureza humana, assim como a mentira na política sempre foi utilizada como instrumento de manipulação. Mentiras, portanto, e criação de grupos com o mesmo interesse por meio de suas afinidades, de igual modo, não são temas novos, assim como não é uma novidade o filme que serve de título para este artigo, nem a epígrafe, muito menos ainda.

Algo atual, contudo, é a dinâmica, a velocidade e, especialmente sob o ponto de vista substantivo, a interação conluiada entre o emissor e o receptor da mentira, ambos, em larga medida, sabedores do conteúdo falso da “informação”, mas, em nome da opinião e da vontade de atingir a prevalência de seu discurso, no mais das vezes de ódio, articulam a invenção como se fosse uma verdade posta em autoengano permanente, criando um ambiente de crença coletiva, algo que chamei no meu último romance de Revolução dos Dementes.

Para o momento, uma outra novidade é o dilema vivido por aqueles que não se encontram na bolha da Revolução dos Dementes, e, por tal razão, compreendem como risíveis, mas ao mesmo tempo perigosas, as alucinadas e criminosas manifestações bolsonaristas de ter ocorrido fraude nas eleições e clamor por um golpe de Estado. O dilema acontece quando, no ambiente digital das redes sociais, especialmente em grupos de mensagens e postagens no Instagram e Facebook, entendemos não ser o melhor movimento a alimentação do grupo da bolha, pois são, justamente, o tumulto, a criação de confusão e o esgarçamento sem limites da discussão, os objetivos táticos dos golpistas para chegarem à sua meta estratégica final de interdição do debate racional.

Ao mesmo tempo, sabemos o quão deletério é assistir ao festival insano de atos antidemocráticos baseado em falsas informações a se propagar indefinidamente. Rebater ou ignorar, eis a questão: deitar argumentos sadios sobre quem não tem intenção de debater, mas de arruinar a reputação do interlocutor por meio de alegações enganosas, não seria uma grande perda de tempo e energia? Mas a mentira repetida à profusão, não corre risco de se tornar uma verdade, a teor do ministro da propaganda nazista, Goebbels?

No início da redação deste artigo, confesso, eu ainda não havia chegado a uma conclusão sobre qual o melhor comportamento, seja sob o ponto de vista pessoal, seja como compreender a melhor forma de o debate público se dar, e mesmo como as instituições devem responder aos tumultos da Revolução dos Dementes. Com a observação dos últimos dias, no entanto, firmei convicção a respeito do tema, o que me animou a terminar este texto.

Como dito, o dilema se resume em jogar - ou não - mais combustível na fogueira golpista de lenhas falsas, e debater algo não mais debatível: a vitória do presidente Lula. Com a criação desta polêmica inexistente no mundo real, não jogaríamos mais água no moinho de uma discussão fake a legitimar uma falácia de espantalho? Ir adiante na resposta à tolice, por este viés, nos tornaria tão tolos quanto os irresignados golpistas.

A contemplação da história, no entanto, me traz, de cara, duas constatações. A primeira delas: apesar do ridículo freak show observado nos vídeos de “patriotas” rezando em muros de quartéis, empoleirados em caminhões, comemorando decretações falsas de estados de defesa ou prisão de ministro do STF, não há nada de tolo nos objetivos desta massa significativa de seres manipulados e, ao mesmo tempo, manipuladores. A segunda e mais importante: os tempos são repletos de exemplos nas quais omissões no combate ao ideário de extrema-direita produziram páginas negativas, dentre as quais as mais cruéis do Século XX.

Sobre o ridículo - e dele não há regresso – basta ver o quão histriônico era Mussolini, cujas cenas patéticas influenciaram a postura gestual de Adolf Hitler. Ambos os líderes da extrema-direita italiana e alemã, em comum, além de suas posturas burlescas e discursos caricatos, construíram juntos o maior pesadelo da história contemporânea e, no início, foram subestimados em suas estratégias de crescimento popular. Como consequência, ignorados foram, portanto, na gênese, os perigos de suas interações com a sociedade, quando normalizados seus movimentos políticos e a Revolução dos Dementes da época produziu o nazifascismo.

É bastante comum a citação do erro crasso/clássico cometido pela sociedade alemã, quando sociais-democratas e comunistas, após a eleição parlamentar de novembro de 1932, não chegaram ao acordo para formar um gabinete e abriram a brecha política por onde Adolf Hitler assumiria a chancelaria pela indicação de Hindenburg.

Juntos, comunistas e sociais-democratas obtiveram 37% dos votos, contra 33% do Partido Nazista. Não é objetivo deste escrito atribuir este erro aos comunistas ou aos sociais-democratas, mas a realidade é que não chegaram ao necessário consenso e Hitler aliou-se ao centro e ao quinto colocado das eleições – outro partido de direita - Partido Popular Nacional Alemão, e, apoiado por uma elite empresarial financiadora de atos antidemocráticos, depois implantou uma ditadura. É clichê antigo a citação de Karl Marx em Dezoito Brumário de Louis Bonaparte, mas sempre pertinente, sobre um momento no qual a história se repete como farsa e parece ser uma coincidência significativa hoje termos uma elite empresarial financiando o fechamento de rodovias.

Nada, portanto, de tolices estamos a tratar e, caso não tivéssemos sido tolerantes com Jair Bolsonaro a bradar as maiores barbaridades nos últimos trinta anos, como tecer loas a um torturador, praticar crimes contra a Deputada Maria do Rosário ao dizer que ela não merecia ser estuprada, enaltecer os brios da cavalaria norte-americana por ter dizimado os povos originários da América do Norte, defender o fuzilamento de Fernando Henrique Cardoso ou a tortura abertamente, provavelmente não o teríamos como presidente por quatro longos anos.

Ainda sobre observação histórica, temos uma vantagem temporal bastante palpável em relação os EUA. Eles estão na frente na luta contra movimentos extremistas de inspiração neofascista, a alt right para usar o termo mais adequado e a liderança de Donald Trump, para apontar o nome do boi.

Uma espécie de efeito Orloff se dá, com eles no presente, sendo nós amanhã. Aprender com os erros dos EUA, por exemplo, nos deu experiência suficiente para prever o movimento de Bolsonaro na contestação das urnas eletrônicas e, agora, é necessário que o Partido dos Trabalhadores e as demais forças democratas de esquerda, centro-esquerda, e centro-direita, propugnem pelo debate com uma direita tradicional, democrática, isolando os radicais, algo ainda não dado nos EUA, não obstante a vitória menor do que a imaginada do Partido Republicano nas eleições de meio de mandato.

Um Trump enfraquecido ainda não é uma realidade até agora. Algo a se saber apenas com a visualização dos próximos movimentos, mas um Bolsonaro isolado deve ser um dos principais objetivos a ser alcançado por aqui. Uma meta complexa, levando-se em consideração o imenso eleitorado que quase o reelegeu.

Aprender com o passado europeu e visualizar o presente estadunidense para projetar nosso futuro parece ser uma boa forma de vencer o dilema das redes na Revolução dos Dementes. Responder com altivez e autoridade de quem ganhou uma eleição no debate público; buscar a criminalização pelo Parlamento do discurso de ódio qualificado pelo uso de celulares; processar e punir, como está sendo feito pelo STF, os responsáveis, os integrantes e os financiadores de atos golpistas e, ainda, mas não por fim, repensar de uma vez por todas uma forma de afastar definitivamente a influência das Forças Armadas na política brasileira, parecem, também, ser atos concretos de esforço para superar o golpismo e fortalecer a democracia brasileira que saiu surrada, mas venceu este jogo até agora.
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(*) Max Telesca é advogado e escritor. Autor do romance 2047: A Revolução dos Dementes, lançado em maio de 2022 pela Geração Editorial. Diretor e apresentador do Programa Direito ao Ponto, presidente do Instituto de Popularização do Direito – IPOD, membro da Academia Brasiliense de Letras e diretor do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal.

 

 

 

Criado em 2022-12-01 21:47:32

Como imaginar ações para libertar o futuro

O Movimento Liberte o Futuro, que nasceu de um chamamento público nas redes sociais em plena pandemia, propõe agora uma ação mobilizadora importante: “Denunciar os perigos da emergência climática e mostrar quais ações humanas destroem deliberadamente o Planeta”. Na plataforma Manifão – Manifesto Cidadão, no próximo dia 21 de abril, a partir das 18h, você também poderá protestar.

Como a tela é a rua e a praça de agora, o Manifão da Emergência Climática vai apontar responsáveis, dar nome aos bois e deixar o rei nu num evento que será transmitido ao vivo. Apoiado numa ação teatral que reunirá artistas, ativistas e especialistas de diversas localidades e etnias para alertar sobre os perigos que corremos, os seres e todo o planeta, se não entendermos o papel de cada um de nós no adiamento do fim do mundo. Culpados? Inocentes? De quem é a responsabilidade pelo caos que se vive agora?

Estas e muitas outras questões serão tratadas no próximo Manifão, resultado da construção coletiva realizada pelos laboratórios do Liberte o Futuro.

Com a certeza de que a emergência climática provocada por ação humana exige mudança urgente para evitar o futuro hostil que se desenha para as novas gerações, o movimento instiga mais uma vez todos aqueles que estão insatisfeitos com os rumos do mundo, a transformar indignação em ação. O Liberte o Futuro acredita que a maior crise sanitária do século impôs o isolamento físico, mas não o isolamento social, porque já mostrou na prática que as ideias criam possibilidades e não têm restrições ou fronteiras.

Para entender o #LiberteoFuturo

O Liberte o Futuro surgiu em julho de 2020 nas redes sociais com o convite aberto a todos para imaginar o futuro pós-pandemia. Nascido em pleno isolamento social com o objetivo de inspirar a reflexão crítica e dinâmica sobre a vida pós-covid-19, o movimento ganhou o mundo. O Liberte o Futuro é um coletivo não é liderado por uma pessoa ou organização. Parte do conceito “Eu+1+, a equação da rebelião”, de autoria do poeta Élio Alves da Silva, do Médio Xingu, Altamira, Amazônia. O foco central é invocar a responsabilidade coletiva ao reunir todos aqueles que querem fazer parte da criação e realização de mudanças na sociedade atual.

  • 2.153 bilionários do mundo concentram mais riqueza do que 60% da população global
  • A emergência climática condena populações humanas e não humanas em um ritmo sem precedentes
  • Consumo desenfreado, retrocessos políticos, flertes com o autoritarismo de outros tempos, um mundo que condena a volta ao pior do passado.

Muitos têm repetido que o mundo não será o mesmo após a pandemia provocada pelo novo coronavírus. O mundo já não é o mesmo, mas o que vem pela frente pode ser ainda pior. Quais as possibilidades de futuro pelas quais queremos lutar daqui em diante? O que é necessário para que ainda seja possível imaginar um futuro onde queremos e podemos viver? 

A ideia de provocar ações no presente partiu de um pedido: a gravação de vídeos de até um minuto sobre o futuro imaginado, sonhado a partir de 5 temas e das algumas reflexões:

  1. Antídotos contra o fim do mundo: imagine como quer viver;
  2. Democracia: proponha políticas públicas, assim como mudanças nas leis e nas normas para reduzir as desigualdades de raça, gênero e classe;
  3. Consumo: indique alternativas para eliminar as práticas de consumo que escravizam a nossa e as outras espécies;
  4. Emergência climática: sugira ações para impedir a destruição da natureza, garantindo a continuidade de todas as formas de vida no planeta;
  5. Insurreição: defina a melhor ação de desobediência civil para criar o futuro onde você quer viver!

Em poucos dias, chegaram mais de 200 vídeos. Pessoas do Brasil inteiro e de várias partes do mundo, se juntaram espontaneamente, atendendo ao chamado do movimento, entre elas estão:

Wagner Moura, Alice Braga, Eliane Brum, Zé Celso Martinez, Joênia Wapichana, Zélia Duncan, Fabiana Cozza, Antonio Nobre, Sérgio Vaz, Carmen Silva, Eliane Caffé, Jacira Roque de Oliveira (mãe de Emicida e Fiote), Tasso Azevedo, João Cezar de Castro Rocha, Déborah Danowski, André Trigueiro, Júlio Lancelotti e Tati dos Santos.

Estes são alguns dos que se mobilizaram para apoiar o Liberte, que se desdobrou também, de julho a dezembro de 2020, em laboratórios sociais on-line. Uma experiência inovadora que reuniu, em centenas de encontros, pessoas de todos os cantos para ouvir vozes, alimentar esperanças, ampliar a participação e o engajamento nas redes de quem quer gerar um futuro que não esteja preso ao passado e para impedir a volta do que na verdade nunca deveria ser considerada a normalidade.

Nasceram destes encontros, parcerias, propostas de trabalho, produções artísticas e muitos outros futuros possíveis que já começaram a se desenhar no presente. Os laços atados no Liberte, por pessoas que nunca se encontraram fora do mundo virtual permitiram ajuda para os povos da floresta, socorro médico para indígenas, plantio de sementes e de sonhos.
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Serviço:
Manifão Emergência Climática –  Movimento Liberte o Futuro
Dia: 21/4/2021
Hora: 18h às 20h
Transmissão ao vivo no site Manifão
Site: Liberte o Futuro
Redes sociais: Instagram - Facebook - Twitter - YouTube

Criado em 2021-04-07 23:18:41

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