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Este artigo do professor Juremir Machado da Silva, que circula na internet, é um retrato fiel de uma candidatura de extrema-direita que pretende chegar à Presidência da República do Brasil com o apoio da grande imprensa, notadamente da Rede Globo, de empresários e setores militares, e com a inestimável ajuda do Judiciário brasileiro.
O professor não descarta a necessidade do voto útil para barrar esse desastre político provocado pelo golpe parlamentar/jurídico/midiático de 2016.
Eis a íntegra do artigo do professor Juremir Machado:
“Bolsonaro é uma mentalidade
Juremir Machado da Silva(*)
Não, Jair Bolsonaro não é um candidato como outro qualquer. É pior. Ele é um imaginário, uma mentalidade, uma visão de mundo. O seu método de leitura do que acontece na vida é a simplificação. Torna o complexo falsamente simples por meio de uma redução a zero dos fatores que adensam qualquer situação. Se há violência contra os cidadãos, que cada um receba armas para se defender. Se há impunidade, que a justiça seja sumária e sem muitos recursos. Se há bandidos nas ruas, que a polícia possa matá-los sem que as condições de cada morte sejam examinadas. Se há corrupção, que não se perca tempos com processos.
Bolsonaro encarna o pensamento do homem medíocre, o homem mediano que não assimila explicações baseadas em causas múltiplas. Se há miséria, a culpa é da preguiça dos miseráveis. Se há crime, a culpa é sempre da má índole. Se há manifestações, é por falta de ordem. A sua filosofia por excelência é o preconceito em tom de indignação moral, moralista. A sua solução ideal para os conflitos é a repressão, a cadeia, o cassetete.
Bolsonaro corporifica o imaginário do macho branco autoritário que odeia o politicamente correto e denuncia uma suposta dominação do mundo pelos homossexuais. É o cara que, com pretensa convicção amparada em evidências jamais demonstradas, diz:
– Não se pode mais ser homem neste país. Vamos ser todos gays.
Ele representa a ideia de que ficamos menos livres quando não podemos fazer tranquilamente piadas sobre negros, gays e mulheres. Bolsonaro tem a cara de todos aqueles que consideram índios indolentes, dormindo sobre latifúndios improdutivos, e beneficiários do [programa] bolsa família preguiçosos que só querem mamar nas tetas do Estado. Bolsonaro é o sujeito desinformado que sustenta que na ditadura não havia corrupção. É o empresário ambicioso que se for para ganhar mais dinheiro abre mão da democracia. É o produtor que vê exagero em certas denúncias de trabalho escravo. É o homem que acha normal, em momentos de estresse, chamar mulher de vagabunda. O eleitor padrão de Bolsonaro sonha com uma sociedade de homens armados nas ruas, sem legislação trabalhista, sem greves, sem sindicatos, sem liberdade de imprensa.
O projeto de Bolsonaro é o retorno a um regime de força por meio de voto. Aparelhamento da democracia. Na parede do imaginário e de certas propagandas de Bolsonaro e dos seus fiéis aparecem ditadores. O seu paraíso é da paz dos cemitérios e das prisões para os dissidentes. Um imaginário é uma representação que se torna realidade. Uma realidade que se torna representação. Bolsonaro é um modo de ser no mundo baseado na truculência, na restrição de liberdade, na eliminação da complexidade, no encurtamento dos processos de tomada de decisões.
Bolsonaro usa a democracia para asfixiá-la. É um efeito perverso do jogo democrático. Condensa uma interpretação do mundo que não suporta a diversidade, o respeito à diferença, a pluralidade, o dissenso, o conflito, o embate. Inculto, ignora a história. Não há dívida com os escravizados e seus descendentes. A culpa pela infâmia da escravidão não é de quem escravizou. O presente exime-se do passado. Bolsonaro é a ignorância que perdeu a vergonha. Contra ele só há um procedimento eficaz: o voto. Se necessário, o voto útil.
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(*) Juremir Machado da Silva (Santana do Livramento, 29/1/1962) é um escritor, tradutor, jornalista, radialista e professor universitário brasileiro. Foi coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUC-RS. Formado em jornalismo e em história pela PUCRS (1985), é doutor em Sociologia pela Universidade de Paris V: René Descartes sob a orientação de Michel Maffesoli. Em Paris, de 1993 a 1995, foi colunista e correspondente do jornal Zero Hora. Em 1998, fez pós-doutorado na França orientado por Edgar Morin, Jean Baudrillard e Michel Maffesoli. Atualmente, é professor do curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação Social da PUCRS, onde foi coordenador do programa de pós-graduação em Comunicação de 2003 a 2014. Assina uma coluna diária, coordena o Caderno de Sábado e mantém um blog no jornal Correio do Povo de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, além de apresentar o programa Esfera Pública na Rádio Guaíba e de participar diariamente dos programas Bom Dia, Ganhando o Jogo e Guaíba Revista. Integra o conselho editorial das revistas acadêmicas estrangeiras Sociétés, Hermès e Esprit Critique. Foi vice-presidente da Associação Nacional de Programas de Pós-Graduação em Comunicação (Compós) e representante da área da Comunicação no CNPq”.
Criado em 2018-09-10 22:10:01
Maria do Rosário Caetano (*) –
O livro Cinema para Russos, Cinema para Soviéticos, de João Lanari Bo, professor da UnB, diplomata e cineasta bissexto, chega para preencher imensa lacuna – a inexistência de publicações sobre a história estético-industrial de uma das mais poderosas fábricas cinematográficas do mundo, a russo-soviética. Disponível em versão física e e-book, este lançamento da Bazar do Tempo traz conteúdo e projeto gráfico notáveis. Tudo é de altíssima qualidade, a começar pela capa dupla. Uma delas tem dupla face, é desmontável e nos brinda com poster da sofisticada e inventiva arte gráfica bolchevique.
Pode-se argumentar que, antes de Cinema para Russos, Cinema para Soviéticos, nossa indústria editorial publicara livros sobre grandes nomes do Construtivismo cinematográfico, caso de Serguei Eisenstein, catálogos de mostras (Nouvelle Vague Soviética) e, até, uma Pequena História do Cinema das Repúblicas Populares, que o atrevido crítico Salvyano Cavalcanti de Paiva ousou coassinar, em 1958, com ninguém mais, ninguém menos que Vsiévolod Pudóvkin, diretor dos clássicos A Mãe, O Fim de São Petersburgo e Tempestade sobre a Ásia. E que há dissertações de mestrado e teses de doutorado, com destaque para estudos monumentais como o do jovem Luiz Felipe Labaki, sobre Dziga Vertov. Mas nenhum destes trabalhos tem o alcance e a abrangência do livro de João Lanari.
Ler Cinema para Russos, Cinema para Soviéticos constitui experiência enriquecedora. O professor-diplomata segue o rigor dos pesquisadores universitários, sem jamais descuidar-se do prazer do texto. Ele foge dos ardis e procedimentos engessados da academia. Sua escrita é sintética, complexa e fluente. E, o que é salutar, não reproduz julgamentos apressados (ou cristalizados).
O grande Serguei Eisenstein, por exemplo, não será visto em Cinema para Russos, Cinema para Soviéticos como um mártir do stalinismo, mas sim como um realizador genial, autor de obras da grandeza de Encouraçado Potenkin e Outubro, que viveu altos e baixos com colegas (mantinha enormes divergências com Dziga Vertov) e com dirigentes da URSS. O mestre letão recebeu aplausos fervorosos de Stálin. O líder bolchevique amou Alexandre Nevsky e a primeira parte de Ivan, o Terrível, o Czar da unificação da Grande Rússia.
O maior dos méritos do livro é, ao traçar sofisticado panorama do cinema russo e soviético, mostrar que havia ótimos filmes em todos os momentos da história do grande país eurasiano, dos mais livres aos mais censurados. E não se submeter ao império do cânone que transformou o cinema revolucionário bolchevique (a fase do Construtivismo, notabilizada pelas invenções no campo da montagem) em única representação digna de apreço em cinematografia tão poderosa e longeva.
Claro que João Lanari respeita o cânone. Como não respeitar momento artístico-histórico que uniu inventores da grandeza de Eisenstein-Pudovkin-Vertov-Dovjenko-Kulechov e os malucos da FEKS (Fábrica do Ator Excêntrico)?
Respeitar o cânone não significa ignorar que antes dos revolucionários bolcheviques havia obras importantes assinadas por realizadores como Iacóv Protanázov, Evigueni Bauer, Vladimir Gárdin e Piotr Tchadynin. E uma musa, a “popular, mitológica e magnética” Vera Kholódnaia, que participou de dezenas de filmes ao longo de quatro breves e intensos anos (1914-1918). Só cinco filmes estrelados por ela sobreviveram. Vera morreu, vítima da gripe espanhola, aos 25 anos.
A bibliografia com a qual João Lanari dialoga é das mais consistentes. Além de dar o devido crédito aos pensadores e pesquisadores que o antecederam, o professor da UnB publica, antes de ótimo índice onomástico, substantiva “Bibliografia Comentada”. Vale destacar duas de suas mais importantes fontes de diálogo: os livros História do Cinema Russo e Soviético, de Jay Leyda, e The Film Factory: Russian and Soviet Cinema in Documents 1896-1939, dos britânicos Ian Christie e Richard Taylor.
O estadunidense Jay Leyda, aluno de Eisenstein na Moscou dos anos 1930, publicou sua obra seminal no começo dos anos 1960, estabelecendo como fecho desta narrativa, tão pesquisada e vivenciada, o ano de 1958. O brasileiro avançou por mais dez anos e colocou ponto final em seu Cinema para Russos, Cinemas para Soviéticos no convulsivo ano de 1968. Aqui, vale um pequeno reparo: em tempos feministas, Lanari teria marcado ponto se encerrasse sua narrativa com o triunfo de Larisa Sheptiko no Festival de Berlim. Afinal, a jovem realizadora saíra da Berlinale com o Urso de Ouro nas mãos por seu poderoso A Ascensão (1967).
O livro dos ingleses Christie e Taylor é fundamental para que João Lanari possa, além de percorrer os caminhos e descaminhos da história russo-soviética, mergulhar em polêmicas artísticas, intelectuais e políticas que marcaram a trajetória dos maiores nomes da cultura, tanto no final da era czarista, quanto, e principalmente, na era bolchevique. Loucos por manifestos (como todas as vanguardas), os Construtivistas não descansavam. Realizavam seus filmes, mas sem descuidar do pensamento teórico e da produção de artigos, muitos deles verdadeiros coquetéis molotov. Garrafas, combustíveis e pavios eram trocados por palavras incendiárias. O livro empreende viagem reveladora, que traz documentos do escritor Maximo Gorki, do poeta Maikóvsky, do encenador Meyerhold e de dezenas de cineastas, roteiristas e montadores. E, claro, de autoridades. Lênin, Trotsky e Stálin também cometiam seus textos cinematográficos.

O cinema era, para Lênin, líder máximo do bolchevismo e dono de “mente brilhante e implacável”, a arte mais importante (e útil) de seu tempo. Mais importante que a poderosa literatura russa (pátria de Puskin, Tolstoi, Dostoievski, Tchecov), por causa de sua facilidade ao comunicar-se com as massas. Foi Lênin o grande incentivador do que Lanari chama de “acelerador histórico em prol da utopia social”, conceito que faria da montagem elemento essencial ao cinema revolucionário. Um detalhe: a contribuição de Trostsky ao debate cinematográfico recebeu título dos mais inesperados: A Vodka, a Igreja e o Cinema (16 de junho de 1923).
Para compor seu instigante e fértil livro, Lanari somou estética, História (com agá maiúsculo) e estórias. Sim, há pequenas e saborosas narrativas de momentos únicos espalhados pelas oito décadas cinematográficas estudadas. Numa delas, ficamos sabendo que uma equipe fora designada para filmar a exumação dos restos mortais de um santo medieval. Parte significativa do povo acreditava que o corpo santificado estaria imutável. Já os ateus bolcheviques diziam que só haveria pó. A câmera registrou… pó.
Outra destas narrativas nos revela mais, muito mais, da história soviética staliniana, que muitos tratados: um operário, de nome Aleksei Stakhánov, tornou-se um mito. E o que ele fez? Em 1935, numa mina de carvão, conseguiu “extrair 102 toneladas de carvão, superando em 14 vezes os padrões de extração, ou seja, sua cota diária”. Foi recebido e medalhado por Stálin, tornou-se deputado no Soviete Supremo, apareceu na capa do “Time” e deu origem ao stakhanovismo (método de trabalho que combinava dedicação e ótimos resultados). E o que isto tem a ver com o Cinema, tema do livro de Lanari? Muito, pois o operário teve sua façanha de semideus do trabalho filmada e até escreveu um artigo (“Minha Sugestão Para o Cinema Soviético”) publicado na revista “Arte do Cinema”.
O livro, depois de breve apresentação, estrutura-se em quatro partes (e anexos). Na concisa introdução, Lanari lembrará que “mesmo nos anos mais dramáticos da gestão stalinista, havia cinema: a Guerra Fria, a Primavera de Khrushov, a vertigem de Gorbatchov e mesmo a modorra de Brejnev também impregnaram as telas”. E avisa que chegará até o ano de 1968, sem a pretensão de erguer “conceitos totalizantes ou panoramas completos”.
Na primeira parte – “Da Era Tsarista à virada Socialista” – conheceremos o “Cinema Pré-Revolução”, a “Reviravolta da História” (ninguém, dirá o pesquisador, há de duvidar que “o evento singular mais marcante do século XX tenha sido a Revolução Bolchevique de 1917”), e a “Aceleração da História” (aqui, com o frenesi da busca pelo progresso veloz ajudado pela potência das máquinas).
A vertigem da Revolução sofrerá um baque com a morte de Lênin (em janeiro de 1924) e a ascensão de seu substituto. Começará a era (e a segunda fase do livro) “Stálin no Poder: o Regime de Controle”. Mas antes, na segunda metade dos anos 1920, haverá uma verdadeira “Revolução Cultural”. Só depois, a era da “Centralização e Terror” se tornará impositiva.
Os Construtivistas, sob Stálin, ainda farão filmes geniais que encantarão o mundo (além do “Encouraçado” e de “Outubro”): “O Homem e Sua Câmara, de Dziga (“o pião que roda”) Vertov, o mais veloz dos filmes velozes, “A Mãe”, de Pudovkin, “Arsenal” e “Terra”, de Dovjchenko.
À medida que o poder de Stálin ia crescendo e seu aparelho repressivo amplificando-se, os problemas dos criadores cinematográficos se multiplicavam. Instala-se, então, a era da “Centralização e Terror”. Para complicar, o público não estava muito interessado nos filmes construtivistas. As bilheterias deixavam a desejar. Com milhares de salas de cinema espalhadas pelas 15 repúblicas soviéticas (o grande país bolchevique chegaria a contar “com 150 mil salas e 138 mil clubes de exibições”), as autoridades queriam filmes que também divertissem. Queriam comédias, musicais, melodramas, filmes de aventura.
Eisenstein, seu fotógrafo Eduard Tissé e o cineasta Grigori Alexandrov (assistente do letão no Encouraçado e parceiro em outros projetos) foram incumbidos de estudar as poderosas indústrias cinematográficas dos países capitalistas (Europa e EUA, em especial). Os três fariam o tumultuado (e inacabado) “Que Viva México!”, que nascera como co-produção EUA-México-URSS. O escritor estadunidense Upton Sinclair foi o principal incentivador do mergulho eisensteiniano na pátria de Zapata & Villa, mas desentendeu-se com o protegido. Eisenstein e Tissé regressaram à URSS e Grigori Alexandrov foi estudar o musical estadunidense, gênero que anunciava era de esplendor.
Quando, em 1936, Alexandrov dirigiu Circus, um mix de musical, melodrama, comédia e arte circense, o Realismo Socialista já era um dogma. O filme, que é ótimo e traz enquadramentos de grande beleza, aborda tema originalíssimo: mulher branca (norte-americana!) teve um filho de pai negro. E carrega esse segredo. Ela é atriz de circo e vai excursionar no Circo de Moscou. Apaixona-se por galã eslavo, lindo como Jean Sorel. Mas não tem coragem de contar que é mãe de uma criança negra. Os desdobramentos fascinaram o público e o filme alcançou imenso sucesso. Mas sua sequência final compõe-se com patriotada inacreditável. Propaganda pura.
Lanari lembrará em seu livro, apaixonante e nunca panfletário, que outros grandes filmes foram feitos naqueles anos regidos com pulso de ferro por Stálin. “Bola de Sebo”, de Mikhail Romm, o inacabado “Prado de Beijin” e “Alexandre Nevski”, ambos de Eisenstein, não podem ser esquecidos. O pesquisador destacará, ainda, obras obrigatórias como “Os Rapazes Felizes”, de Alexandrov (1934), “A Questão Russa”, de Mikhail Room (1948), “O Quadragésimo-Primeiro”, de Grigori Tchuckrai (1956), tesouro escondido e banhado em altas doses de sensualidade, fotografado pelo craque Sergei Urushiev, “O Destino de Um Homem”, estreia do ator Sergei Bondarchuk, na direção (1959) e o impressionante “A Comissária” (Aleksander Asokoldov, 1967). E, claro, os filmes de duas grandes realizadoras: “A Pátria da Eletricidade”, de Larisa Sheptiko, e “Breves Encontros”, de Kira Muratova.
O triunfo de “A Ascensão”, de Sheptiko, no Festival de Berlim/67, não está registrado em “Cinema para Russos, Cinema Para Soviéticos” (primeira parte, de 1896 a 1968). Mas decerto estará, com o destaque merecido, no livro que Lanari escreve, agora, sobre o cinema do fim da era soviética e o que se faz desde que a URSS desmoronou (início dos anos 1990). E aí, Andrei Tarkowski (presente no primeiro livro com “A Infância de Ivan” e “Andrei Roublev”), Elem Klimov (e seu poderoso “Vá e Veja”), Alexander Sokurov (“A Arca Russa”), Sergei Loznitsa (“Na Neblina”) e Andrey Zvyagintsev (“Leviatã”) estarão na linha de frente. Larisa (apesar de ter morrido aos 41 anos, em trágico acidente de carro) e Kira Muratowa também terão o destaque merecido.
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Serviço:
Livro: Cinema para Russos, Cinema para Soviéticos
Autor: João Lanari Bo
Editora: Bazar do Tempo
Páginas: 304 – Com capa-pôster e 60 fotografias
Preço: R$ 69,90 (edição física) / Edição em e-book chega às principais plataformas (Amazon, Google, Kobo e Apple) em junho.
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(*) Este artigo foi publicado originalmente na Revista de Cinema
Criado em 2020-05-27 14:31:12
O site da Federação Única dos Petroleiros (FUP) anuncia que a greve de 72 horas aprovada pela categoria foi deflagrada em defesa da soberania nacional.
A luta, deixam claro os petroleiros, é contra a privatização da Petrobras e que essa pauta já ganhou a sociedade. A categoria debate a política de preços dos combustíveis e questiona o projeto da gestão Pedro Parente de sacrificar o povo brasileiro e a soberania do país para cumprir os ditames do mercado financeiro e das grandes corporações internacionais.
Antes do protesto dos caminhoneiros contra os preços abusivos do diesel, a FUP e seus sindicatos já haviam aprovado uma greve nacional para deter a escalada descontrolada de aumentos do gás de cozinha e dos derivados, cobrando a retomada da produção a plena carga das refinarias e o fim das importações de derivados.
“Diante da situação caótica em que se encontra o país, desgovernado e refém das imposições do mercado que manda e desmanda na Petrobras, uma empresa que é estratégica para a nação, os petroleiros não poderiam se omitir. E, como em outros momentos da história, se levantaram e enfrentaram os desmandos do Tribunal Superior do Trabalho, que mesmo ciente de que a greve de advertência da categoria não causaria riscos de desabastecimento, tomou a decisão arbitrária e política de decretar a ilegalidade do movimento, assumindo o golpe e agindo como um tribunal do capital”, afirma o comunicado da FUP.
Segundo os dirigentes da federação, “os petroleiros não recuaram e seguiram em frente, ganhando a solidariedade dos movimentos sociais e de várias outras categorias, dentro e fora do país. A população veio junto e apoiou a greve, pois sofre os efeitos do desmonte da Petrobrás, que vão muito além da disparada dos preços do gás de cozinha e dos combustíveis”.
A privatização conduzida por Pedro Parente, os desinvestimentos, a transferência para a Ásia das encomendas de plataformas e navios desmontaram a indústria nacional, aumentaram o desemprego em massa e fizeram o PIB despencar.
Diante da manutenção da greve, o TST decidiu aumentar o valor das multas diárias de R$ 500 mil saltaram para R$ 2 milhões, acrescidas da criminalização do movimento. O tribunal cobrou da Polícia Federal investigação das entidades sindicais e dos trabalhadores, em caso de desobediência. Essa multa abusiva e extorsiva jamais seria aplicada contra os empresários que submetem o país a locautes para se beneficiarem política e economicamente. Jamais seria imposta aos empresários que entregam patrimônios públicos, aos que destroem empregos e violam direitos dos trabalhadores.
A FUP, ao considerar que a decisão do TST é claramente para criminalizar e inviabilizar os movimentos sociais e sindicais, decidiu orientar os sindicatos a suspenderem a paralisação. Segundo os dirigentes, esse é “um recuo momentâneo e necessário para a construção da greve por tempo indeterminado, que foi aprovada nacionalmente pela categoria. Essa grave violação dos direitos sindicais será amplamente denunciada”.
A pauta do movimento continua sendo pela mudança da política de preços da Petrobras, que diz respeito à luta histórica da população contra a exploração do país, que desde os tempos de colônia. “É assim que ocorre ainda hoje com o nosso petróleo. E por isso, a população está pagando preços absurdos pelo gás de cozinha e pelos combustíveis”, diz a FUP.
“Os petroleiros saem da greve de cabeça erguida, pois cumpriram um capítulo importante dessa luta, ao desmascarar os interesses privados e internacionais que pautam a gestão da Petrobrás. O representante da Shell que o mercado colocou no Conselho de Administração da empresa já caiu. O próximo será Pedro Parente”.
Criado em 2018-05-31 19:09:54
Romário Schettino -
É possível continuar vivendo no Brasil, portando todas as faculdades mentais, sem admitir que a teoria da conspiração esteja valendo para este momento histórico? Vamos aos fatos. No início de 2016, quando uma jornalista perguntou ao ministro Marco Aurélio sobre o que ele achava do impeachment de Dilma Rousseff, ele disse: “É um golpe, a acusação (pedaladas) não enseja impeachment”. Ponto. A repórter vai ao ar, na GloboNews, e diz que M.A. disse exatamente o contrário. O ministro, estranhamente, se cala.
O senador Romero Jucá (PMDB-RR) é flagrado em áudio dizendo que era necessário tirar Dilma da Presidência porque com ela seria impossível estancar a “sangria” da Lava-Jato. E disse mais, que o golpe seria feito com o “Supremo, com tudo”. “Já conversei com vários ministros, com alguns generais, e todos estão de acordo”. Estava desenhado o pacto para “mudar o governo e colocar o Temer”, ou seja, deter a Lava-Jato pela direita. A esquerda continuaria no cadafalso, como se verá mais adiante.
O problema para implementar o "pacto" era o ministro Teori Zavaski, relator da Lava-Jato, disse o interlocutor de Jucá na gravação, Sérgio Machado: “Ele (Zavazki) é um ministro muito durão, difícil”. E o que aconteceu? Teori, na sequência, morre num acidente de avião pra lá de suspeito. O STF aceitou, passivamente, que o suspeitíssimo Eduardo Cunha comandasse o processo contra Dilma.
Veio o impeachment, ou golpe parlamentar/judiciário/midiático, e qual foi a primeira decisão do governo Temer? Colocar em votação na Câmara dos Deputados o fim do regime de partilha do pré-sal, como queria o PSDB de José Serra. Foi, então, aprovada a entrega do pré-sal para as petrolíferas norte-americanas. Com o Supremo, com tudo.
Mas não parou aí. O TRF4, numa corrida contra o tempo, condena por unanimidade o ex-presidente Lula em segunda instância, não apenas mantendo a sentença de Sérgio Moro em primeira instância como ampliando a pena para impedir a liberdade do condenado durante os prazos recursais. O STF, por maioria, decide manter Lula preso numa votação em que a ministra Rosa Weber, em seu voto de Minerva, diz votar contra sua convicção para acompanhar a maioria do colegiado. Se era um voto de Minerva Weber faria a maioria. Que voto estranho! Olhando de fora, parece que os ministros do Supremo não se sentem à vontade, mas a ministra foi fartamente elogiada por “analistas” da mídia corporativa. A partir deste momento, todos os ministros do STF se submetem ao desejo da presidente Carmém Lúcia que acha “imprudente” libertar Lula.
As condenações de Lula são baseadas em delações, sem provas, de uma suposta ocultação de bens, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Onde estão os benefícios dados a Lula? Em que conta bancária está depositado o dinheiro “desviado”? Em qual cartório existe uma escritura, ainda que em nome de terceiro? Em que momento houve ocupação do apartamento, ainda que temporária? Não há nada no processo. Diz o juiz que o tríplex recebeu uma milionária reforma, não há provas disso. Pelo contrário, o pessoal do MST entrou lá e só viu um apartamento feioso, sem qualquer reforma. O que se diz é que uma empresa do Paraná de fachada deu notas (frias) fiscais de venda de um elevador que nunca foi instalado.
Por fim, não menos importante, vem o TSE, dois exatos anos depois do impeachment, e cassa a candidatura de Lula à Presidência da República, apesar de parecer da Comissão de Direitos Humanos da ONU recomendando o respeito aos seus direitos políticos.
Relator no TSE, o ministro Luiz Roberto Barroso apresenta um voto feito às pressas, atropelando as leis e os prazos, para ser discutido às vésperas do início da veiculação dos programas de rádio e televisão. Cinco ministros acompanharam o ministro sem ressalvas. Apenas Edson Fachin abre uma divergência conveniente e vota com o parecer da ONU. Sem nenhum puder, Barroso nem se deu ao luxo de contestar Fachin, deixou essa tarefa para Rosa Weber. Para não parecer que estava muito clara a manobra casuística, dra. Weber propôs que a exclusão do programa do PT com Lula Presidente só fosse feita depois de esgotados os recursos previstos em lei. Deu-se por derrotada, claro, sem sequer ter colocado sua proposta em votação.
De tudo isso, o que podemos concluir? Que há poderes supremos (maiores ainda que os do STF) comandando a vida nacional, daqui de dentro e lá de fora. A oligarquia brasileira tem interesse porque quer se aliar às corporações estrangeiras na esperança de ganhar mais dinheiro, mas o PT não abre mão da soberania. As multinacionais, especialmente as do petróleo, estão satisfeitas com o desmonte do pré-sal. E o sistema financeiro está radiante com o fim dos direitos sociais e com a aplicação das reformas neoliberais. Os corruptos nacionais já se dão por satisfeitos com o trabalho seletivo da Lava-Jato. Alguns foram condenados, mas suas mulheres e filhos estão protegidos. A maioria está em campanha para se reeleger. A grande imprensa brasileira, que a tudo acompanha e aplaude, também está contente com o desenrolar da trama macabra e, por que não, conspiratória, só esperam o enterro do PT, do petismo, do lulismo e de todos os partidos de esquerda, no Brasil e na América Latina.
Apostar todas as fichas na democracia que temos pode surtir algum efeito na atual campanha eleitoral, mas não está garantido que a conspiração contra a soberania popular vá acabar, qualquer que seja o seu resultado. Caso Fernando Haddad seja eleito, como o próprio sistema já admite diante do fracasso de seus candidatos, as pressões continuarão sobre o povo brasileiro. Tudo vai depender de como será construída a resistência.
Criado em 2018-09-04 03:25:58
De Angélica Torres.
Leituras: Parte 1, por Angélica. Parte 2, por Maya Lyma. Música: Guilherme Vaz.
Brasília, quarentena do Covid19, Maio, 2020.
Criado em 2020-05-26 23:50:15
Em nota divulgada ontem (30/5) a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) se solidariza com os caminhoneiros, trabalhadores e trabalhadoras, em manifestação em todo território nacional.
Os bispos brasileiros consideram que a crise é grave e pedem soluções justas. E alertam: “Qualquer solução que atenda à lógica do mercado e aos interesses partidários antes que às necessidades do povo, especialmente dos mais pobres, nega a ética e se desvia do caminho da justiça. Nenhuma solução que se utilize da violência ou prejudique a democracia pode ser admitida como saída para a crise”.
A nota da CNBB lembra que as eleições se aproximam e que é “preciso assegurar que sejam realizadas de acordo com os princípios democráticos e éticos, para restabelecer nossa confiança e nossa esperança. Propostas que desrespeitam a liberdade e o estado de direito não conduzem ao bem comum, mas à violência”. E acrescenta que “não é justo submeter o Estado ao mercado. Quando é o mercado que governa, o Estado torna-se fraco e acaba submetido a uma perversa lógica financista”.
Os bispos ainda citam o Papa Francisco: “O dinheiro é para servir e não para governar”.
“Celebramos a Solenidade do Corpus Christi [hoje, 31/5], fonte de unidade e de paz. Quem participa da Eucaristia não pode deixar de ser artífice da unidade e da paz”, diz a nota.
Preocupada com as duras consequências que sempre recaem sobre os mais pobres, a CNBB conclama toda a sociedade para o diálogo e para a não violência. “Jesus entrou e pôs-se no meio deles e disse: A paz esteja convosco”(Jo 20,19).
A seguir, a íntegra da nota da CNBB:
“A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, solidária com os caminhoneiros, trabalhadores e trabalhadoras, em manifestações em todo território nacional, e preocupada com as duras consequências que sempre recaem sobre os mais pobres, conclama toda a sociedade para o diálogo e para a não violência. Reconhecemos a importância da profissão e da atividade dos caminhoneiros.
A crise é grave e pede soluções justas. Contudo, “qualquer solução que atenda à lógica do mercado e aos interesses partidários antes que às necessidades do povo, especialmente dos mais pobres, nega a ética e se desvia do caminho da justiça” (CNBB, 10/03/2016). Nenhuma solução que se utilize da violência ou prejudique a democracia pode ser admitida como saída para a crise.
Não é justo submeter o Estado ao mercado. Quando é o mercado que governa, o Estado torna-se fraco e acaba submetido a uma perversa lógica financista. “O dinheiro é para servir e não para governar” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, 58).
É necessário cultivar o diálogo que exige humilde escuta recíproca e decidido respeito ao Estado democrático de direito, para o atendimento, na justa medida, das reivindicações.
As eleições se aproximam. É preciso assegurar que sejam realizadas de acordo com os princípios democráticos e éticos, para restabelecer nossa confiança e nossa esperança. Propostas que desrespeitam a liberdade e o estado de direito não conduzem ao bem comum, mas à violência.
Celebramos a Solenidade do Corpus Christi, fonte de unidade e de paz. Quem participa da Eucaristia não pode deixar de ser artífice da unidade e da paz. O Pão da unidade nos cure da ambição de prevalecer sobre os outros, da ganância de entesourar para nós mesmos, de fomentar discórdias e disseminar críticas; que desperte a alegria de nos amarmos sem rivalidades, nem invejas, nem murmurações maldizentes (cf. Papa Francisco, Festa do Corpus Christi, 2017). O Pão da Vida nos motive a cultivar o perdão, a desenvolver a capacidade de diálogo e nos anime a imitar Jesus Cristo, que veio para servir, não para ser servido.
Conclamamos, por fim, todos à oração e ao compromisso na busca de um Brasil solidário, pacífico, justo e fraterno. A paz é um dom de Deus, mas é também fruto de nosso trabalho.
Nossa Senhora Aparecida interceda por todos!"
Assinam:
Cardeal Sergio da Rocha
Arcebispo de Brasília (DF)
Presidente da CNBB
Dom Murilo S. R. Krieger, SCJ
Arcebispo de São Salvador (BA)
Vice-Presidente da CNBB
Dom Leonardo Ulrich Steiner, OFM
Bispo Auxiliar de Brasília (DF)
Secretário-Geral da CNBB
Criado em 2018-05-31 15:09:46
Geniberto Paiva Campos (*) -
Só os tolos acreditam na força e no poder eternos da chamada mídia hegemônica.
Os tolos e os ideólogos, incondicionais adeptos e defensores do deus mercado.
Em tempos mais antigos, “-Deu no New York Times” tornou-se a confirmação da veracidade de qualquer notícia. Se o jornal NYT não publicou, não aconteceu... O rádio e a televisão aumentaram exponencialmente o poder de manipulação da mídia.
O passo seguinte foi a adoção da propaganda política, a qual propiciou aos órgãos noticiosos um enorme poder, capaz de influenciar decisões as mais diversas do aparelho estatal. Uma característica nunca sequer imaginada. Nascia assim o chamado “quarto poder”. Organizado em redes, sua influência e força decisória cresceu exponencialmente.
Assim, surgiu e consolidou-se a Rede Globo, a partir de 1964 com o decisivo apoio do regime militar.
O quarto poder “global”, rádio, jornal e TV reinou absoluto por várias décadas. E como esperado sofisticou as suas formas de manipulação e controle da chamada opinião pública.
A informação foi gradativamente transformando-se em propaganda política. Tornou-se incontrastável o poder da chamada mídia hegemônica. Que passou a atuar como partido político, sem o incômodo das eleições periódicas. Fora de qualquer controle. E sem o mínimo compromisso ético.
A mídia fazia e derrubava presidentes. Promovia golpes de estado e assim controlava a vida política dos cidadãos, reduzidos a leitores, ouvintes e telespectadores. Sempre atentos e obedientes.
O fim do regime militar em 1985 propiciou ao país realizar mais uma tentativa de experimentar o retorno cuidadoso à Democracia. E assim evoluímos até o início deste século, quando em 2002 o Partido dos Trabalhadores, não aceito pela elite, ganhou as eleições presidenciais e implementou novas políticas de inclusão social, garantia de direitos trabalhistas, políticas educacionais inovadoras, política externa independente, jamais assimiladas ou permitidas pelos aristocratas medíocres, os donos do poder.
O novo parceiro da mídia
Tornou-se urgente e necessária a busca pelo “Quarto Poder” de novos parceiros que viessem a substituir os militares no processo de intervenção no sistema democrático, desta vez mais elaborado e com disfarces de legalidade.
Os acenos da mídia hegemônica foram atendidos prontamente por importantes segmentos do poder judiciário.
Após a quarta vitória consecutiva do Partido dos Trabalhadores estavam postas as condições para uma nova intervenção na vida democrática do país. A qual vinha sendo urdida desde o processo conhecido como “Mensalão”, no início do primeiro governo trabalhista, em 2003. Quando foi deflagrada a quebra da ordem jurídica e do estado de direito, consolidada com a operação “Lava Jato”, em Curitiba, em 2014.
Com o pretexto de combater e eliminar a corrupção foram admitidas ilegalidades. Novas leis, recém-inventadas, foram aplicadas e direcionadas prioritariamente aos “petistas”. E dessa forma gradativamente extinto o estado de direito. Tudo em nome do combate ao vírus da corrupção. Um mal que atinge seletivamente os políticos progressistas.
Esta nova intervenção, no entanto, tinha características malignas. Desta vez, tratava-se da implantação da ideologia neoliberal. Uma forma grotesca de anticomunismo a qual assumia abertamente a desigualdade social como valor positivo. Chegavam ao poder os novos arianos. Os “supremacistas” financeiros, religiosos fanáticos do mercado. Os novos profetas do apocalipse. Agindo com a certeza dos néscios.
Com seus ideólogos (teólogos?) repetindo, em transe religioso: - “É assim porque tem de ser assim; precisa ser assim! Não há outra saída!” Todos influenciados pela Escola de Chicago. Sem a preocupação de apresentar experiências exitosas da sua ideologia (religião?) mambembe. Valendo lembrar o que fizeram no Chile na década de 1970. Uma ditadura sangrenta, violentíssima em seus métodos. Comandada por um militar sobre o qual pesam acusações de genocídio e conduta desonesta com o dinheiro público. Seria este o melhor exemplo do neoliberalismo econômico?
E a situação atual da Argentina? Como explicar? Qual a herança histórica ou cultural que a ideologia neoliberal tem a mostrar? Ou os seus defensores esperam que o distinto público se ajoelhe em reverência às novidades sem conteúdo? Sem um testemunho, mínimo que seja, de países onde a experiência neoliberal ali aplicada tenha resultado em algo diferente do caos social, semiescravidão e miséria?
O problema é que essa religiosidade econômica do culto ao deus mercado traz graves implicações para o Brasil e para a sua população. Voltaremos à condição de colônia: homo faber? terceirizado; homo sapiens? esqueçam! Seremos uma nação de analfabetos, sem escolas ou universidades (um aviso: a temporada de caça aos reitores continua). A aurora da barbárie já se tornou visível.
Temos de admitir: não houve a necessária, indispensável resistência ao golpe midiático judiciário de 2016 e ao seu retrocesso desumano. As chamadas forças vivas da nação, em sua maioria, se omitiram, aparentemente incapazes de perceber a extensão desse pérfido movimento. E caminharam serenas, como uma boiada em direção ao matadouro.
Partidos políticos, fundamentais no processo de redemocratização, permaneceram alheios, quando não aderentes, à consolidação do golpe.
A mídia eletrônica – um marco de resistência aos bárbaros
A modernidade nos legou um tipo de comunicação rápida, eficiente, direta, com interação efetiva entre o emissor e o receptor das mensagens. Uma conquista definitiva. Uma forma interativa de comunicação que veio para ficar.
A mídia eletrônica tornou-se a voz da nação profunda. E contribuiu decisivamente para que o Brasil não se tornasse um país de tolos, facilmente manipuláveis por um grupo de jornalistas medíocres, a serviço dos seus patrões.
Os blogueiros, com coragem e destemor, com grande competência na utilização dos meios eletrônicos disponíveis, criaram aos poucos o discurso alternativo ao da mídia, outrora hegemônica, com suas mentiras e meias verdades. Formaram um bolsão de resistência, um nicho democrático que mudou a forma de comunicação da nova cidadania.
Poucos brasileiros nos dias atuais se submetem à leitura diária de jornais, à magia da telinha ou ao vozeirão dos locutores e “comentaristas” a disseminar conteúdos “ideológicos” travestidos de notícias e informação.
Estima-se que a tendência mídia impressa é definhar cada vez mais. As formas eletrônicas de comunicação já se tornam prevalentes entre a população jovem.
As eleições e o período pós-eleitoral
As próximas eleições gerais de outubro constituirão um teste importante para a democracia do país. Cujos resultados poderão abrir caminhos para o retorno do Brasil à normalidade institucional. Mas o processo de retomada não se esgota na realização do pleito e nos seus resultados. A luta política continua.
“(...) Para revelar que, / Além das desgraças permanentes, / Ainda existe beleza / Ainda existem corações / Para animar a esperança / Tão assassinada / Todos os dias. – O bicho homem sobreviverá!”
“O homem não é / um projeto falido / apenas adiado” (1)
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(*) Geniberto Paiva Campos, do Instituto Lampião
(1) Luis Humberto – arquiteto, fotógrafo e poeta. In “Para Márcia”.
Criado em 2018-09-02 01:06:26
Numa iniciativa coletiva de professores/as recém-doutores, o laboratório Filosofias do tempo do agora, formado por pesquisadores/as vinculados/as a universidades no Rio de Janeiro, oferece um curso de ética e filosofia política cuja renda será destinada a apoiar o projeto Maré de Sabores. E também remunerar os/as professores/as sem vínculo empregatício e sem vínculo como bolsistas de agências de fomento.
As aulas serão ministradas por professores/as doutores/as, que, em virtude do desmantelamento e da falta de investimento no ensino público, ainda não tiveram oportunidade de se estabelecer profissionalmente: são pessoas recém-saídas do doutorado que, em virtude da pandemia de coronavírus, com as universidades fechadas e sem possibilidade de realização de concurso e seleções, encontram dificuldades de inserção no mercado de trabalho, apesar da alta qualidade de suas formações em suas áreas de especialidade.
O curso também se propõe a demonstrar como a universidade pública, na área de Humanidades, tem produzido recursos humanos capazes de nos fazer refletir sobre o que, inspirado em Walter Benjamin, é conhecido como o "tempo do agora".
O curso conta com paridade de gênero entre os/as docentes e oferece 300 vagas. As aulas serão transmitidas pela plataforma Zoom às terças e quintas, de 19h às 21h30, a partir de 4 de junho, e cada aula abordará o pensamento de um/a filósofo/a para debater questões éticas e políticas que ajudem a refletir sobre o momento contemporâneo.
Metade dos recursos angariados será destinada ao projeto Maré de Sabores, onde mulheres da favela da Maré cozinham todos os dias 300 refeições para a população local desassistida. O projeto se torna ainda mais importante diante da conjuntura atual de precarização e de abandono em meio a uma crise que, se não é exclusivamente nossa, tem seus efeitos ainda mais acirrados em um país com desigualdades sociais extremas. Sabemos que o Estado, quando entra na Maré, entra armado e atirando, sendo incapaz de fornecer proteção ou assistência para uma ampla população de trabalhadores e trabalhadoras - bem como de seus filhos e netos - que mantém a cidade funcionando, a despeito de todo o descaso por parte dos governos e do poder estatal. Agradecemos a ONG Redes da Maré, responsável pelo projeto Maré de Sabores, pelo seu trabalho e por essa parceria conosco.
Um percentual dos recursos destinados a remunerar os professores/as será doado ao Fundo de Solidariedade e Apoio Mútuo do Centro Acadêmico dos alunos de Filosofia da UFRJ.
A proposta é inspirada na iniciativa da professora Rita de Cássia Oliveira (UFMA), organizadora de um curso abordando pensadoras feministas para arrecadar recursos para a Associação de Mulheres do Alto Solimões (Aminsa), em solidariedade aos indígenas da etnia Madijá Culina. A bem sucedida experiência articulou um curso intitulado As pensadoras reunindo professoras de diversas instituições brasileiras.
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Serviço:
Título do curso: Ética e filosofia política no tempo do agora
Coordenação acadêmica: Juliana de Moraes Monteiro (UFRJ/Faperj)
Coordenação executiva: Beatriz Zampieri (UFRJ
Horário: terças e quintas, 19h/21h30, horário de Brasília
Duração: de 4/6 a 9/7
Plataforma: zoom (gratuita para o/a aluno/a)
Valor: R$ 100
Vagas: 300
Inscrições: Abertas até 1/6.
Link para inscrição: bit.ly/tempodoagora
Calendário
4/6 - Aula de abertura: Luto, precariedade e interdependência em Judith Butler, Professora Doutora Carla Rodrigues (UFRJ/Faperj) e professora. mestra Tássia Áquila (UFRJ)
9/6 - Michel Foucault e Achille Mbembe: Direito de vida e de morte, da política como biopolítica à Necropolítica, Professora Doutora Viviane Bagiotto Botton (UERJ).
11/6 - Conferência: Um mundo coberto de alvos. Paulo Arantes (USP)
16/6 - Para uma crítica da violência: Walter Benjamin e o tempo do agora", Professora Doutora Isabela Pinho (UFRJ)
18/6 - Estado de exceção como paradigma de governo em Giorgio Agamben, Professor Doutor Pedro Oliveira (UFRJ)
23/6 - Zizek: Do Occupy ao coronavírus – Professor Doutor Gabriel Lisboa (UFRJ)
25/6- A formação da subjetividade e suas consequências éticas e políticas em Simone de Beauvoir – Professor Doutor Nathan Menezes (UFRJ)
30/6 - Jacques Rancière e a linguagem do dissenso, Professor Doutor Victor Galdino (UFRJ)
2/7 - Silvia Federici: mulheres, trabalho doméstico, capitalismo – quantas formas de queimar?, Professora Doutora Danielle Magalhães (UFRJ)
7/7 - Derrida e a Universidade: estar no mundo que tentamos pensar, Professor Doutor Guilherme Cadaval (UFRJ)
9/7 - Aula de encerramento: Lélia Gonzalez, leitora de Freud e Lacan: A psicanálise como uma ética antirracista, Professora Doutora Juliana de Moraes Monteiro (UFRJ/Faperj)
Programa
Quinta-feira, 4/6
Luto, precariedade e interdependência em Judith Butler, Carla Rodrigues e Tássia Áquila
Nesta aula, vamos apresentar o tema do luto, na filosofia política de Judith Butler, e suas articulações com noções de enquadramento, precariedade e interdependência. A partir da noção de enquadramento que qualifica as vidas que são vivíveis distinguindo das não inteligíveis – sequer são consideradas vidas perdidas – inscreve a condição de enlutável de uma dada vida. Essa marca revela uma distribuição desigual do luto público e coloca como demanda ética a universalização do direito ao luto como mecanismo político de afirmar o valor de toda vida, porque toda vida está exposta à morte. Nesse sentido, privilegiaremos elementos na filosofia de Butler que possam nos colocar em debate com dilemas presentes no cenário atual em que a pandemia da COVID-19 expõe uma vulnerabilidade global e, ao mesmo tempo, desvela outros processos mais vulneráveis de vidas mais marcadas precariamente.
Carla Rodrigues é professora de ética no Departamento de Filosofia da UFRJ, pesquisadora do programa de pós-graduação em filosofia da UFRJ e bolsista de produtividade da Faperj. É coordenadora do laboratório Filosofias do tempo do agora.
Tássia Áquila é graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre com ênfase em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA/UFRJ). Trabalhou com questões relativas à juventude e favela, bem com a análise da produção da homologia entre corporalidade e território.
Terça-feira, 9/6
Michel Foucault e Achille Mbembe: Direito de vida e de morte, da política como biopolítica à Necropolítica
Nossa aula tem por objeto trabalhar o desenvolvimento do conceito de biopolítica elaborado por Michel Foucault e que aparece no último capítulo de seu livro “História da Sexualidade I, A Vontade de Saber”. A ênfase da nossa abordagem são as circunstâncias textuais e contextuais que levará a tal elaboração, em especial no que diz respeito aos dispositivos de vigilância e controle dos corpos e que culminam numa política da vida. Tomando como ponto de partida os estudos genealógicos de Foucault sobre o panoptismo enquanto paradigmático de um novo modo de soberania política, que se caracteriza como pastoral, o conceito de biopolítica aparece como ferramenta de inteligibilidade possível para pensarmos as políticas de vida e da morte no nosso tempo de agora e nos leva à reformulação desta categoria por Achille Mbembe com a proposta de política como Necropolítica. O referido capítulo do livro de Foucault e o texto das conferências do livro "Necropolítica" de Mbembe são a bibliografia essencial para esta aula.
Viviane Bagiotto Botton é graduada e mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), e é doutora em Filosofia pela Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM), onde trabalho as relações entre corpo e da subjetividade na obra de Michel Foucault. Já trabalhou como professora em diferentes universidades e escolas nacionais e internacionais e atualmente é pesquisadora de pós-doutorado em Filosofia na UERJ, onde desenvolve um estudo sobre a Histeria enquanto diagnóstico psiquiátrico feminino e os modos como operou no Brasil no contexto de uma psiquiatria nacional.
Quinta-feira, 11/6
"Um mundo coberto de alvos", conferência Paulo Arantes (USP)
Terça-feira, 16/6
Para uma crítica da violência: Walter Benjamin e o tempo do agora
Nossa aula partirá do ensaio “Para uma crítica da violência” (1921) de Walter Benjamin para refletir sobre os limites do Estado na tarefa de conter/monopolizar sua violência constitutiva. Como o texto de Benjamin pode nos ajudar a refletir sobre a democracia brasileira contemporânea? Essa é a questão norteadora de nossa aula-debate.
Isabela Pinho é graduada e mestre em Filosofia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e doutora em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi pesquisadora visitante na Universidade de Munique (LMU) e nos Arquivos Walter Benjamin em Berlim. Coorganizou o livro AGAMBiarra: escritos sobre a filosofia de Giorgio Agamben (Ape’ku, 2020). Oferece cursos de extensão de Filosofia e Literatura na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).
Quinta-feira, 18/6
Estado de exceção como paradigma de governo em Giorgio Agamben
Nossa aula tem por objeto o conceito de estado de exceção a partir do capítulo “O estado de exceção como paradigma de governo” (Estado de exceção, 2003), do filósofo italiano Giorgio Agamben. Nosso principal objetivo será refletir sobre como a exceção se torna a regra nos Estados democráticos de direito e, assim, tornar inteligível nosso momento atual.
Pedro Oliveira é graduado em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). É mestre em Filosofia pela UFF e doutor em Filosofia pela UFRJ. É autor de Mais além da lei: direito e messianismo em Giorgio Agamben (Ed. Apek’u, 2020, prelo) e advogado.
Terça-feira, 23/6
Do Occupy ao coronavírus. A aula partirá de uma apresentação comparativa das análises feitas por Slavoj Žižek da crise financeira e dos movimentos populares contestatórios do começo da década, e dos efeitos sociopolíticos do coronavírus. Tal apresentação nos servirá de base para pensarmos, a partir da obra do filósofo esloveno, a crise que assola nosso mundo e as possibilidades que dela podem surgir.
Gabriel Ponciano é bacharel, mestre e doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Quinta-feira, 25/6
A formação da subjetividade e suas consequências éticas e políticas em Simone de Beauvoir. O curso pretende apresentar a concepção de Simone de Beauvoir sobre a constituição do sujeito e as implicações éticas e políticas que daí decorrem, dando destaque às características da ambiguidade, da interdependência e ao vínculo de enraizamento que a subjetividade possui com seu contexto social. A partir destas considerações proponho discutir como o horizonte teórico oferecido por Beauvoir pode ser mobilizado para pensarmos a atualidade.
Nathan Menezes Amarante Teixeira é graduado e mestre em Filosofia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Terça-feira, 30/6
Jacques Rancière e a linguagem do dissenso. “A essência da política é a manifestação do dissenso, como presença de dois mundos em um” (Dez teses sobre política). A partir dessa formulação, pretendo apresentar três conceitos de J. Rancière — dissenso, política e partilha do sensível — e seus modos de apropriação e uso, assim como sua pertinência para o presente. Para isso, serão feitas algumas elaborações sobre o que chamo de “linguagem do dissenso” enquanto forma possível de uso filosófico da linguagem, e também sobre seus efeitos pretendidos e o modo de seu funcionamento, usando como exemplo o próprio texto de Rancière. Em geral, a ideia é mostrar um tipo de discurso filosófico que opera como jogo imagético e visa afetar o modo como as coisas aparecem para nós em dado momento, de maneira que não podemos compreendê-lo a partir de sua aparência descritiva e dos compromissos com o “verdadeiro” que outros discursos filosóficos normalmente carregam. Dessa forma, podemos pensar os usos do que seria uma “filosofia de Rancière” para fins de intervenção teórica.
Victor Galdino é bacharel, mestre e doutor em Filosofia pela UFRJ, formado em psicanálise pelo Corpo Freudiano - Escola de Psicanálise, e trabalha com Filosofia do Imaginário, Metafilosofia, Filosofia Política e Filosofia da Cultura. Seus textos mais recentes são “Por uma ontologia crítica do imaginário” (Revista de Filosofia Moderna e Contemporânea), “Aquilombamento Imaginal / Realismo Esclarecido” (a ser publicado em livro sobre filosofia brasileira pela Editora Filosófica Politeia) e “Três faíscas para uma imaginação política mais forte” (a ser publicado na coletânea “À imaginação revolucionária” da GLAC edições). Escreveu uma trilogia sobre quarentena e normalidade com Claudio Medeiros (publicada no Outras Palavras) e também escreve textos em seu blog pessoal na plataforma Medium.
Quinta-feira, 2/7
Silvia Federici: Mulheres, trabalho doméstico, capitalismo – quantas formas de queimar? A primeira vítima de covid-19 no Rio de Janeiro foi uma empregada doméstica que contraiu o vírus de sua patroa – moradora do Leblon, bairro abastado da zona sul carioca –, que acabara de voltar da Itália. O trabalho da filósofa italiana radicada nos Estados Unidos, Silvia Federici, autora, entre outros, de Calibã e a bruxa, se mostra como uma importante referência para pensarmos a situação do trabalho doméstico nos dias de hoje e em como o capitalismo se desenvolveu às custas do trabalho doméstico feminino não remunerado. Partindo de Marx e, ao mesmo tempo, apontando os limites do marxismo, a filósofa vai a momentos históricos, como a Inquisição e ao recente movimento argentino "NiUnaMenos", nos fazendo refletir sobre os arraigados pilares de misoginia que estruturam o nosso mundo até hoje e ainda fazem as mulheres queimar. Federici nos mostra que a base do capitalismo também são as cinzas de milhões de mulheres
Danielle Magalhães é doutora em Teoria Literária pela UFRJ e formada em História pela UFF. Pesquisa a poesia brasileira contemporânea escrita por mulheres em interface com a filosofia e a política. Em fevereiro de 2020, defendeu a tese intitulada “Ir ao que queima: no verso, o amor, no verso, o horror – Ensaios sobre o verso e sobre alguma poesia brasileira contemporânea”. É autora do livro de poemas Quando o céu cair, publicado pela Editora 7Letras em 2018.
Terça-feira, 7/7
Derrida e a Universidade: estar no mundo que tentamos pensar. A aula de Guilherme Cadaval vai apresentar o pensamento do filósofo franco-argelino Jacques Derrida em torno da Universidade a partir de uma conferência proferida por ele na Universidade de Stanford, intitulada “A universidade sem condição”. Para tanto, pretendemos apresentar brevemente o termo desconstrução, pelo qual ficou conhecido o pensamento derridiano, a fim de pensar a Universidade como lugar de resistência crítica, porém ao mesmo tempo mais do que crítica, uma vez que, mantendo um compromisso incondicional com a verdade, podendo dizer tudo, a Universidade tem a possibilidade e a tarefa de questionar o seu próprio lugar, o seu próprio fundamento.
Guilherme Cadaval é formado em Filosofia pelo IFCS-UFRJ, possui mestrado e doutorado pela mesma instituição. Tem interesse nos estudos de Filosofia Francesa Contemporânea, especialmente as obras de Jacques Derrida, Georges Bataille e Maurice Blanchot. Tem um livro publicado, “Escrever a mágoa: um cruzamento entre Nietzsche e Derrida”, e um artigo publicado na coletânea “Rosas e pensamentos outros”.
Quinta-feira, 9/7
Lélia Gonzalez, leitora de Freud e Lacan: a psicanálise como uma ética antirracista.
A aula discute como a filósofa brasileira Lélia Gonzalez mobiliza conceitos da psicanálise para reler questões raciais e sexistas no contexto brasileiro. Através de uma perspectiva decolonial, investigaremos a complexidade de expressões criadas e empregadas pela autora tais como “racismo por denegação”; “mãe-preta como sujeito suposto saber”; “amefricanidade” ; “pretuguês” e o “negro como S1 da cultura brasileira”, apontando como elas são alicerçadas pelos conceitos de Freud e Lacan. O arcabouço teórico da psicanálise permite que Lélia vire do avesso os pilares fundadores da sociedade brasileira: a miscigenação como uma relação cordial entre brancos e negros, a ideologia do branqueamento e o mito da democracia racial. A partir disso, proponho pensar a ética da psicanálise como um laço social antirracista.
Juliana de Moraes Monteiro é doutora em filosofia pela PUC-Rio (2019), onde defendeu a tese “O que a Esfinge ensina a Édipo: os limites da interpretação, o demoníaco e o infamiliar na arte contemporânea”. Atualmente realiza estágio de pós-doutorado no programa de pós-graduação em filosofia da UFRJ, como bolsista nota 10 da Faperj. É co-autora de Trauma/arte contemporânea brasileira (Editora Circuito, 2020, no prelo) e co-organizadora do livro AGAMBiarra: escritos sobre a filosofia de Giorgio Agamben, publicado pela Editora Ape´ku em 2020.
Criado em 2020-05-24 03:29:32
Os governadores de Minas Gerais, Fernando Pimentel; da Bahia, Rui Costa; do Ceará, Camilo Santana; do Piauí, Welington Dias; da Paraíba, Ricardo Coutinho; de Pernambuco, Paulo Câmara, e de Sergipe, Belivaldo Chagas, divulgaram hoje uma carta aberta dizendo não à política de preços implantada por Pedro Parente, na Petrobras.
Na carta, os governadores consideram também inaceitável a tentativa de Michel Temer de transferir aos estados o caos que ele e Parente implantaram no país.
A seguir a íntegra da carta:
“Carta aberta dos governadores dos Estados integrantes da Sudene e Minas Gerais,
Os Governadores dos Estados do Nordeste e Minas Gerais, que se encontram sob a jurisdição da Sudene, abaixo assinados, em face da grave crise de desabastecimento de combustíveis que tanto vem afligindo os cidadãos brasileiros, dirigem-se, agora, à população de seus Estados e de todo o Brasil para firmar o seu posicionamento sobre esse grave tema:
1. Em um momento de tão grandes dificuldades, como o que vem sendo vivido por todo o povo brasileiro - constantemente sacrificado pelos efeitos adversos de crise econômica e política sem precedentes - é absolutamente incompreensível que o Governo Federal autorize a Petrobras a adotar uma política de preços direcionada, unicamente, à obtenção de lucro e ao acúmulo de receitas;
2. A política da Petrobras toma por base a premissa de que a empresa deve precificar seus produtos sempre em patamares superiores aos do mercado internacional, acompanhando as suas oscilações apenas quando há elevação de preços, sem jamais repassar aos consumidores brasileiros as suas eventuais reduções;
3. Essa política de preços foi elevando, de forma assustadora, os preços de insumos básicos para a população, como o gás de cozinha, a gasolina e o óleo diesel, cujo custo repercute, diretamente, sobre todos os preços da economia, a começar por itens de consumo básico, como os alimentos, que exercem forte impacto sobre o orçamento das famílias mais pobres;
4. Os preços do gás de cozinha e da gasolina têm registrado aumentos de tal magnitude e com tamanha frequência que, algumas vezes, têm sido anunciados reajustes a cada 24 horas, numa política que tem levado produtos de primeira necessidade a ficarem completamente fora do poder de compra dos brasileiros, chegando-se a ter 11 reajustes em apenas 17 dias;
5. Em decorrência dessa perversa política de preços, é cada vez mais comum que famílias – mesmo aquelas que vivem nos grandes centros urbanos – passem a recorrer a fogões de lenha para cozinhar, aumentando, de forma assustadora, o número de acidentes com queimaduras e, muitas vezes até, com perdas humanas e materiais;
6. Neste grave momento, quando irrompe um movimento radical que - justificado pela desenfreada escalada de reajustes - bloqueia os canais de distribuição de combustíveis e coloca em risco a mobilidade, a saúde, a segurança e a integridade física de milhões de brasileiros, o Governo Federal tenta fugir às suas responsabilidades convocando os governos estaduais – já tão sacrificados pela injusta concentração de recursos na União – a renunciar às suas receitas do ICMS, supostamente para atender demandas dos representantes dos transportadores participantes da paralisação;
7. Diante disso, nós - Governadores dos Estados integrantes da Sudene – consideramos absolutamente inaceitável a tentativa do Governo Federal de transferir para os Estados a responsabilidade pela solução de uma crise que foi provocada pela União, através de uma política de preços de combustíveis absurda, perversa e irresponsável. Colocar sobre os Estados Federados o ônus de qualquer redução da alíquota sobre os combustíveis - além de ser desrespeitoso - é atitude inconsequente e, por isso mesmo, inaceitável.
8. Para agravar ainda mais o contorno da proposta do Governo Federal, ventila-se a incoerente retirada da CIDE da parcela de recursos destinada à manutenção das rodovias, que é - por Garantia Constitucional - executada por Estados e Municípios da Federação.
9. Nós - Governadores dos Estados integrantes da Sudene - reafirmamos nossa viva disposição de colaborar com o Governo Federal na concepção de propostas que permitam a aceleração da nossa da economia e a retomada do crescimento do Brasil, mediante a geração de emprego e renda e da inclusão de todos os brasileiros no processo de desenvolvimento da Nação.
10. Ressaltamos, no entanto, que o Governo Federal precisa rever – com urgência – a política comercial da Petrobras, reposicionando-a com responsabilidade e espírito público, trabalhando pelo saneamento das finanças da empresa, mas mantendo – acima de tudo - a consciência de que é completamente inaceitável aumentar, ainda mais, o enorme contingente de famílias brasileiras entregues ao desemprego e mergulhadas na miséria e na desesperança.
11. Por fim, destacamos nosso inarredável compromisso com os valores democráticos, ao tempo em que manifestamos nossa disposição de enfrentar - energicamente - qualquer tentativa de relativização ou destruição das conquistas democráticas do povo brasileiro nas ultimas décadas, na certeza de que a única via para superar os desequilíbrios e conflitos é a consolidação da democracia, com estrito respeito de suas práticas, princípios e processos.
26 de maio de 2018
Rui Costa - Governador do Estado da Bahia
Camilo Santana - Governador do Estado do Ceará,
Ricardo Coutinho - Governador do Estado da Paraíba
Paulo Câmara - Governador do Estado de Pernambuco
Wellington Dias - Governador do Estado do Piauí
Belivaldo Chagas - Governador do Estado de Sergipe
Fernando Damata Pimentel - Governador do Estado de Minas Gerais”.

Samuel Guimarães: "Parente é representante dos EUA no Brasil"
O embaixador Samuel Pinheiro Guimarães (foto acima) considera que o atual presidente da Petrobras, Pedro Parente, é um “representante dos EUA no Brasil” e que Henrique Meirelles é o candidato de Wall Street nas eleições de 2018.
Para ele, o próximo alvo dos interesses do Estados Unidos, depois de destruir a Petrobras, são os bancos. Essa avaliação foi publicada dia 25/5 no site Tutaméia, em entrevista concedida a Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena.
Ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República no governo Lula e Alto-Representante Geral do Mercosul (2011-2012), Pinheiro Guimarães é autor de livros essenciais para a compreensão do Brasil no contexto mundial, como Quinhentos Anos de Periferia (UFRGS/Contraponto, 1999) e Desafios Brasileiros na Era dos Gigantes (Contraponto, 2006) –com este último, ganhou o Troféu Juca Pato da União Brasileira de Escritores.
Para o embaixador, o golpe em curso no Brasil efetuou um “ataque às grandes empresas brasileiras e nenhum ataque a empresa estrangeira. Pegaram as grandes construtoras, porque na área industrial é tudo estrangeiro” –com exceção de empresas menores nos setores têxtil, de calçados.
“Pegaram alguns setores que tinham certa prevalência de capital nacional, que eram empresas de engenharia. Foram em cima delas. Os processos contra as empresas são todos irregulares, as delações, advogados [de defesa] que não têm acesso, juiz que divulga seletivamente. A delação premiada é uma forma de tortura. Instrumentado de fora, o “lawfare”. Montaram [esse roteiro] não só contra o Brasil. Prenderam o presidente da Samsung na Coreia, na França”, disse Samuel Guimarães.
De acordo com o embaixador, “é uma estratégia americana de luta contra a corrupção dos outros, não a deles” que visa “destruir os concorrentes usando esses acordos de cooperação judiciária”. Assim usam todo o sistema de espionagem. “Espionaram a Petrobras, espionam tudo, inclusive essa gravação agora”. O objetivo é “ a destruição das empresas, dos instrumentos de capitalismo nacional”.
Guimarães afirma que esse processo de “destruição do que sobrou do capital nacional” atingiu não só as empreiteiras –que estão prejudicadas em uma futura reforma da infraestrutura brasileira, abrindo espaço para as estrangeiras–, mas outros setores, como o da exportação de carnes. “Esse ataque à JBS faz parte dessa estratégia, já que a empresa era forte concorrente no mercado mundial”.
O embaixador afirma que as mudanças vão sendo feitas com o discurso de que a empresa privada é capaz de resolver todos os problemas da sociedade e o que atrapalha é o Estado. Por isso, a alardeada necessidade de privatização. Mais do que isso, os defensores dessas ideias acham que “a empresa privada estrangeira é melhor do que a brasileira”.
Agora, o ataque será aos bancos
“Daí a ideia de que se pode permitir o capital estrangeiro na educação, na saúde. Vai entrar no setor de advocacia, onde já entrou disfarçadamente. Entrou em tudo, exceto nos bancos. O último ataque é contra os bancos, que são na maioria brasileiros. O ataque já está em curso. Estão dizendo que o problema da economia brasileira são os juros altos. Por quê? Porque não há competição. Como aumenta a competição? Com os bancos estrangeiros, não vai ser com banco brasileiro. Não tem nenhum grupo capaz de criar um banco brasileiro”, diz Samuel.
Para o embaixador, “os bancos já perceberam isso. A Febraban já deve ter percebido que agora é com eles. Tem havido artigos frequentes contra os bancos, juros altos, spreads altos. (Dizem): o BC reduz os juros mas os juros não caem para o consumidor porque falta competição. E a competição vai vir de fora, só pode ser. Mas aí terão embate muito difícil. Ali não é a Fiesp; é a Febraban. É o último grande setor que não está (predominantemente em mãos estrangeiras)”.
Criado em 2018-05-26 23:35:25
Romário Schettino -
A grande imprensa brasileira está espumando de ódio. A estratégia eleitoral adotada pelo Partido dos Trabalhadores não desce pela garganta de nenhum comentarista político que ocupa as grandes redes do jornalismo tupiniquim.
Esses senhores e senhoras enchem o peito para dizer que é tudo fake, que a ONU não disse o que disse em favor de Lula e que o PT está enganando o eleitor. Todo mundo que apoia Lula ou é um lulista malandro ou é uma besta que se deixa enganar. Só eles sabem de tudo. Até chamaram de “comitezinho” o Comitê de Direitos Humanos da ONU.
Os editoriais dos jornais impressos então, nem se fala. Estão indignados com o “inacreditável apoio do New York Times a Lula”. Será que estão chateados porque o ex-presidente prefere publicar seus artigos no exterior?
O vetusto jornal paulista – Estadão - chamou de “caterva” os lulopetistas envolvidos na defesa de Lula e de seu direito de concorrer. Segundo o jornal, criar confusão seria uma especialidade da “tigrada” (os petistas).
Felizmente, contra a utilização desse termo pejorativo se insurgiu o professor da Unicamp, Caio Toledo, em texto publicado no site Viomundo: “Contra insultos não se pode calar”. Toledo disse que é “difícil acreditar que os editorialistas do bravo matutino desconheçam a etimologia e o significado da palavra”.
Tigrada: “Termo que a aristocracia escravocrata e racista usava para se referir aos escravos que carregavam e despejavam os dejetos humanos (…) como algumas vezes os dejetos acabavam atingindo a pele dos escravos e manchando-os, ficavam marcas de dejetos em forma de listras nas costas dos escravos que faziam o trabalho forçado de recolhimento dos dejetos”.
Aliás, o que mais se vê nos artigos assinados, raras exceções, são ofensas, há muito não se vê debate de ideias. A raiva transparece em cada linha escrita. Parece que certos jornalistas estão escrevendo seus textos com o fígado. Sem argumento, preferem o insulto.
O inconformismo é visível a cada edição. Como não podem esconder as pesquisas que demonstram crescimento da preferência por Lula (37%), 4% a mais desde a última consulta aos eleitores, decidiram divulgar também uma ilegal sondagem que tira Lula da lista de candidatos.
O ódio poderá aumentar se o TSE não julgar o caso Lula antes do início da campanha no rádio e na TV. Tentarão impedir o vice Fernando Haddad de aparecer no programa do PT? Ou deixarão Lula se apresentar aos eleitores, ainda que preso em Curitiba?
Criado em 2018-08-21 21:41:48
Ediel Ribeiro –
Também conhecida como a mãe do Pasquim, Olga Savary morreu sexta-feira 15/5, aos 86 anos, vítima de Covid-19. Ela foi poeta (como sempre gostou de ser chamada), contista, romancista, crítica, tradutora e ensaísta.
Mãe só tem uma. Pai, ele [o jornal Pasquim] teve vários: Tarso de Castro (editor), Jaguar (editor de humor), Sérgio Cabral (editor de textos), Carlos Prosperi (editor gráfico), Claudio Ceccon e Murilo Pereira Reis.
O velho jargão, “mãe só tem uma”, ainda que em desuso, serve muito bem para ilustrar a história do semanário O Pasquim - depois apenas Pasquim, sem o artigo.
Reza a “lenda”, ou a “história” (“se a lenda é mais interessante que a história, imprima-se a lenda”, ensinou o “historiador” do Oeste americano John Ford, em O Homem Que Matou o Facínora) , que a fundação do Pasquim aconteceu mais ou menos assim:
Com a morte do humorista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, Tarso de Castro foi convidado por Murilo Reis para editar o jornal A Carapuça.
Tarso de Castro não aceitou, preferindo criar um novo tablóide. “Vamos fazer um jornal marginal” - disse ele.
Tarso convidou Jaguar e Sérgio Cabral para a empreitada. Os primeiros a se juntar ao grupo foram Carlos Prosperi e Claudio Ceccon, o Claudius.
Millôr Fernandes foi convidado para participar do Pasquim, por Tarso, mas recusou — chegou a escrever um artigo prevendo o final da publicação em poucos números.
Tarso não deixou barato: “Coisas que se explicam pelo fato de que Millôr considera insuportável qualquer coisa que dê certo e que não o tenha como autor”. Ziraldo também preferiu ficar apenas como colaborador.
Assim, as negociações resultaram numa sociedade por cotas para dirigir o jornal: 50 por cento para Murilo Reis e 50 por cento divididos em cotas iguais para Jaguar, Tarso de Castro, Sérgio Cabral, Carlos Prosperi e Claudius.
Até aí, tudo bem. O que a “lenda” ou a “história” dos “meninos” esqueceu de contar é que havia outro fundador (a): Olga Savary.
Olga era casada com Jaguar, na época. Participou ativamente das reuniões de criação do tablóide - que aconteciam em sua casa ou nos botecos de Ipanema e Leblon.
Participava e editava as famosas entrevistas. Criou a seção Dicas, a mais lida do jornal. Foi a primeira mulher a dar preços e sugestões de restaurantes, tendência depois seguida por quase todos os jornais.
Na década de 70, criou a editora Codecri, ligada ao semanário.
No entanto, o livro O Som do Pasquim, uma coletânea de entrevistas publicadas no tablóide, é a única publicação que cita o nome de Olga Savary, ligando-a ao semanário. Na página 86, ela faz “uma” pergunta a Waldick Soriano, numa entrevista que fizeram com o cantor, na Freguesia, Ilha do Governador.
Olga Savary é uma das mulheres mais inteligentes do Brasil. Poeta, escritora, ensaísta, tradutora e jornalista. Ganhou trinta e seis prêmios nacionais de literatura (entre eles dois Jabutis). Foi a primeira mulher a publicar um livro de poesias eróticas e escrever e traduzir haicais (a sintética poesia japonesa).
Festeira, foi a primeira mulher a frequentar bares, antes só frequentados por homens, e foi, também, criadora do Bloco de Ipanema, que resultou depois na Banda de Ipanema
Assim, por mais que omitam seu nome nos registros, ficará na "história" e na "lenda" como uma das criadoras do Pasquim.
É verdade que mais na lenda do que na história — porque ela, afinal, é só a mãe.
Estamos ficando sem gênios.
A seguir, três poemas de Olga Savary:



Criado em 2020-05-18 21:28:12
A Associação de Engenheiros da Petrobras (AEPET) faz duras críticas à política de preços adotada pela empresa presidida por Pedro Parente, indicado pelo PSDB no governo de Michel Temer. Os engenheiros dizem ser esta opção o que denominam de “America first!”, ou seja, “Os Estados Unidos primeiro!”.
Em nota divulgada dia 23/5, a entidade dos engenheiros da estatal destaca que "é perfeitamente compatível ter a Petrobras forte, a serviço do Brasil e preços dos combustíveis mais baixos e condizentes com a capacidade de compra dos brasileiros".
Veja a íntegra da nota e entenda por que o Brasil está em crise neste momento:
“A AEPET reafirma o que foi expresso no Editorial "Política de preços de Temer e Parente é 'America First!' ", de dezembro de 2017.
A Petrobras adotou nova política de preços dos combustíveis, desde outubro de 2016, a partir de então foram praticados preços mais altos que viabilizaram a importação por concorrentes. A estatal perdeu mercado e a ociosidade de suas refinarias chegou a um quarto da capacidade instalada. A exportação de petróleo cru disparou, enquanto a importação de derivados bateu recordes.
A importação de diesel se multiplicou por 1,8 desde 2015, dos EUA por 3,6. O diesel importado dos EUA que em 2015 respondia por 41% do total, em 2017 superou 80% do total importado pelo Brasil.
Ganharam os produtores norte-americanos, os “traders” multinacionais, os importadores e distribuidores de capital privado no Brasil. Perderam os consumidores brasileiros, a Petrobras, a União e os estados federados com os impactos recessivos e na arrecadação. Batizamos essa política de “America first! ”, “Os Estados Unidos primeiro!”.
Diante da greve dos caminhoneiros assistimos, lemos e ouvimos, repetidamente na “grande mídia”, a falácia de que a mudança da política de preços da Petrobras ameaçaria sua capacidade empresarial. Esclarecemos à sociedade que a mudança na política de preços, com a redução dos preços no mercado interno, tem o potencial de melhorar o desempenho corporativo, ou de ser neutra, caso a redução dos preços nas refinarias seja significativa, na medida em que a Petrobras pode recuperar o mercado entregue aos concorrentes por meio da atual política de preços. Além da recuperação do mercado perdido, o tamanho do mercado tende a se expandir porque a demanda se aquece com preços mais baixos.
A atual direção da Petrobras divulgou que foram realizados ajustes na política de preços com o objetivo de recuperar mercado, mas até aqui não foram efetivos. A própria companhia reconhece nos seus balanços trimestrais o prejuízo na geração de caixa decorrente da política adotada.
Outra falácia repetida 24 horas por dia diz respeito à suposta “quebra da Petrobras” em consequência dos subsídios concedidos entre 2011 e 2014. A verdade é que a geração de caixa da companhia neste período foi pujante, sempre superior aos US$ 25 bilhões, e compatível ao desempenho empresarial histórico.
Geração operacional de caixa, US$ bilhões
2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017
33,03 27,04 26,03 26,60 25,90 26,10 27,11
A Petrobras é uma empresa estatal e existe para contribuir com o desenvolvimento do país e para abastecer nosso mercado aos menores custos possíveis. A maioria da população quer que a Petrobras atue em favor dos seus legítimos interesses, enquanto especuladores do mercado querem maximizar seus lucros de curto prazo.
Nossa Associação se solidariza aos consumidores brasileiros e afirma que é perfeitamente compatível ter a Petrobras forte, a serviço do Brasil e preços dos combustíveis mais baixos e condizentes com a capacidade de compra dos brasileiros”.
Criado em 2018-05-26 23:21:26
O jornal Folha de S. Paulo publicou em sua edição de hoje (19/7) artigo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Com o título "Afaste de mim este cale-se", Lula também faz a pergunta que seus acusadores não querem responder publicamente: "Querem impedir que o povo escolha em quem votar?".
Leia, a seguir, a íntegra do artigo, reproduzido também no site Lula.com:
"Estou preso há mais de cem dias. Lá fora o desemprego aumenta, mais pais e mães não têm como sustentar suas famílias, e uma política absurda de preço dos combustíveis causou uma greve de caminhoneiros que desabasteceu as cidades brasileiras. Aumenta o número de pessoas queimadas ao cozinhar com álcool devido ao preço alto do gás de cozinha para as famílias pobres. A pobreza cresce, e as perspectivas econômicas do país pioram a cada dia.
Crianças brasileiras são presas separadas de suas famílias nos EUA, enquanto nosso governo se humilha para o vice-presidente americano. A Embraer, empresa de alta tecnologia construída ao longo de décadas, é vendida por um valor tão baixo que espanta até o mercado.
Um governo ilegítimo corre nos seus últimos meses para liquidar o máximo possível do patrimônio e soberania nacional que conseguir —reservas do pré-sal, gasodutos, distribuidoras de energia, petroquímica—, além de abrir a Amazônia para tropas estrangeiras. Enquanto a fome volta, a vacinação de crianças cai, parte do Judiciário luta para manter seu auxílio-moradia e, quem sabe, ganhar um aumento salarial.
Semana passada, a juíza Carolina Lebbos decidiu que não posso dar entrevistas ou gravar vídeos como pré-candidato do Partido dos Trabalhadores, o maior deste país, que me indicou para ser seu candidato à Presidência. Parece que não bastou me prender. Querem me calar.
Aqueles que não querem que eu fale, o que vocês temem que eu diga? O que está acontecendo hoje com o povo? Não querem que eu discuta soluções para este país? Depois de anos me caluniando, não querem que eu tenha o direito de falar em minha defesa?
É para isso que vocês, os poderosos sem votos e sem ideias, derrubaram uma presidente eleita, humilharam o país internacionalmente e me prenderam com uma condenação sem provas, em uma sentença que me envia para a prisão por "atos indeterminados", após quatro anos de investigação contra mim e minha família? Fizeram tudo isso porque têm medo de eu dar entrevistas?
Lembro-me da presidente do Supremo Tribunal Federal que dizia "cala boca já morreu". Lembro-me do Grupo Globo, que não está preocupado com esse impedimento à liberdade de imprensa — ao contrário, o comemora.
Juristas, ex-chefes de Estado de vários países do mundo e até adversários políticos reconhecem o absurdo do processo que me condenou. Eu posso estar fisicamente em uma cela, mas são os que me condenaram que estão presos à mentira que armaram. Interesses poderosos querem transformar essa situação absurda em um fato político consumado, me impedindo de disputar as eleições, contra a recomendação do Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas.
Eu já perdi três disputas presidenciais — em 1989, 1994 e 1998 — e sempre respeitei os resultados, me preparando para a próxima eleição.
Eu sou candidato porque não cometi nenhum crime. Desafio os que me acusam a mostrar provas do que foi que eu fiz para estar nesta cela. Por que falam em "atos de ofício indeterminados" no lugar de apontar o que eu fiz de errado? Por que falam em apartamento "atribuído" em vez de apresentar provas de propriedade do apartamento de Guarujá, que era de uma empresa, dado como garantia bancária? Vão impedir o curso da democracia no Brasil com absurdos como esse?
Falo isso com a mesma seriedade com que disse para Michel Temer que ele não deveria embarcar em uma aventura para derrubar a presidente Dilma Rousseff, que ele iria se arrepender disso. Os maiores interessados em que eu dispute as eleições deveriam ser aqueles que não querem que eu seja presidente.
Querem me derrotar? Façam isso de forma limpa, nas urnas. Discutam propostas para o país e tenham responsabilidade, ainda mais neste momento em que as elites brasileiras namoram propostas autoritárias de gente que defende a céu aberto assassinato de seres humanos.
Todos sabem que, como presidente, exerci o diálogo. Não busquei um terceiro mandato quando tinha de rejeição só o que Temer tem hoje de aprovação. Trabalhei para que a inclusão social fosse o motor da economia e para que todos os brasileiros tivessem direito real, não só no papel, de comer, estudar e ter moradia.
Querem que as pessoas se esqueçam de que o Brasil já teve dias melhores? Querem impedir que o povo brasileiro — de quem todo o poder emana, segundo a Constituição — possa escolher em quem quer votar nas eleições de 7 de outubro?
O que temem? A volta do diálogo, do desenvolvimento, do tempo em que menos teve conflito social neste país? Quando a inclusão dos pobres fez as empresas brasileiras crescerem?
O Brasil precisa restaurar sua democracia e se libertar dos ódios que plantaram para tirar o PT do governo, implantar uma agenda de retirada dos direitos dos trabalhadores e dos aposentados e trazer de volta a exploração desenfreada dos mais pobres. O Brasil precisa se reencontrar consigo mesmo e ser feliz de novo.
Podem me prender. Podem tentar me calar. Mas eu não vou mudar esta minha fé nos brasileiros, na esperança de milhões em um futuro melhor. E eu tenho certeza de que esta fé em nós mesmos contra o complexo de vira-lata é a solução para a crise que vivemos".
Criado em 2018-07-19 13:55:44
Luis Turiba (*) –
Gosto da poesia de Ricardo Silvestrin por ser translúcida, objetiva, híbrida, lúdica e pós-moderna. Bate sempre no canto certo, debaixo pra cima, deslocando o goleiro. Tudo ao mesmo tempo agora. É zen e ziriguidum.
Ele também é excelente “dizedor” de poemas, assim como alguns poucos da nossa geração – os dois outros Ricardos, Chacal e Aleixo, também mandam bem, utilizando-se do corpo e da manha.
Silvestrin também entende de música. É compositor de canções populares e de iê-iê-iês que apresenta junto com a banda gaúcha intitulada Os poETs, cantando e dançando com os também poetas Ronald Augusto e Alexandre Brito que, além de poETs são porretas.
Tem o lado sol do seu trabalho musical. Lançou recentemente o álbum SILVESTREAM com RS&Banda que está nas plataformas digitais. É publicitário: tem o lance da síntese na veia. É formado em Letras pela UFRGS e está concluindo o Mestrado em Teoria da Literatura, Crítica e Comparatismo – defenderá a dissertação em 22 de junho.
Costuma dar aulas de iniciação à Poesia com grande conhecimento dos cânones da literatura e da poesia brasileira. Enfim, um ser de fino trato de quem me tornei amigo e também parceiro de intervenções poéticas por este Brasilzão afora.
Recentemente, no inicio desta produtiva quarentena, li nas redes que ele daria um curso online sobre “Poéticas da MPB”. Ora, porque não fazer esse curso para acrescentar conteúdo no que fez e faz parte da minha vida, a MPB. Trago-a na veia desde menino, coisa de família. A minha formação poética vem dessa fonte, dos festivais de 1966, 67, 68. Das músicas da resistência à ditadura.
Meus ídolos ainda são os mesmos surgidos nos anos 60, 70, 80, 90 do século passado. Tenho com eles, portanto, uma certa intimidade.
Meu Drummond inaugural, por exemplo, foi o cronista que eu lia entusiasmado no Segundo Caderno do Jotabê. Meu pai, o velho Alderico Toribio, era redator do JB e sempre trazia o jornal do dia para casa. A partir do cronista, conheci o poeta.
Depois os modernistas, incluindo aí João Cabral da geração 45, que me invadiu pela peça Morte Vida Severina musicada por Chico Buarque. Os concretistas, especialmente Augusto de Campos, me chegaram também cedo. O autor de Póstudo ia muito a Brasília com quem desenvolvi amizade a partir da revista Bric-a-Brac.
Enfim, fiz esse “nariz de cera” para dizer que o tal curso online foi um grande barato a esta altura do campeonato. Por isso, recomendo aos que me leem fazer o próximo. Foi proveitoso, prazeroso - espetacular mesmo.
Duas aulas por semana, duas horas de aula, 10 encontros – tudo ao vivo, online. Eu era o aluno-veterano, o idoso que não deve sair de casa porque já tem muitas histórias pra contar. Os demais alunos, todos jovens, sedentos de saberes e quereres: Caiê, Caio, Sheila e Heitor. O poeta/professor Ricardo tem aquele suave jeito de gaúcho gremista a mostrar os meandros e melindres de cada poema, de cada canção. Combinação perfeita. No final, ainda recebemos “Diploma”.
Ponta-pé inicial
O primeiro poema com o qual que nos deparamos foi um petardo do Leminski: “apagar-me/ diluir-me/ desmanchar-me/ até que depois/ de mim/ de nós/ de tudo/ não reste mais/ que o charme”.
Seguiram-se outros poetas charmosos com clássicos desde o romantismo até a pós-modernidade – Chacal, Alice Ruiz, Carlos Drummond, Millôr Fernandes, Castro Alves, Augusto dos Anjos, Arnaldo Antunes, Ferreira Gular, Augusto de Campos, Castro Alves, Mário Quintana e muito Manuel Bandeira na veia. Foram dois dias horas recitando, discutindo, esmiuçando poetas, poemas e suas linguagens.
Logo veio Cecília Meireles e sua poesia infantil, seguido de aulas de haicai com todos os clássicos japoneses em traduções universais. Começamos por Bashô (1644-1694) e seguimos com outros sushis da poesia nascida da contemplação zen-budista – Buson, Issa, Shirao, Chiyo-ni, Sazanammi, Shiki, Kikaku, Taigi, Bessa, Ryôkan, Kitô, Hokushi.
Se Oriente, rapaz. O haicai ganhou um verniz brasileiro com Alice Ruiz e Leminski além outros tradutores com soluções geniais, incluindo algumas do próprio Silvestrin.
A esta altura nós, alunos, já tínhamos aprendido sobre as “Funções da Linguagem” elaboradas por Roman Jakobson, e suas diversas e complexas outras funções. Foi uma aula teórica para entendermos que a Função poética na arte em geral é selecionar e combinar signos para se obter efeitos estéticos e estranhamento na seleção e na combinação dos signos. Ou seja: a linguagem da poesia deixa o mundo em outra dimensão. Assim entendi.
Estávamos prontos para entrar na MPB propriamente dita. Mas antes, um trecho do poema Procura da Poesia, do Drummond, fixou algo importante no descobrimento da poesia como um instrumento estético da escrita, das palavras.
“Penetra surdamente no reino das palavras./ Lá estão os poemas que esperam ser escritos./ Estão paralisados, mas não há desespero,/ há calma e frescura na superfície intata./ Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário./ Convive com teus poemas, antes de escrevê-los./ Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam./ Espera que cada um se realize e consuma/ com seu poder de palavra/ e seu poder de silêncio./ Não forces o poema a desprender-se do limbo./ Não colhas no chão o poema que se perdeu./ Não adules o poema. Aceita-o/ como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada/ no espaço.”
A partir dessa base, mergulhamos na estação Música e suas estruturas (melodias, ritmos e letras). Curiosamente, a primeira canção que estudamos foi o rockzinho Weekend da banda Blitz na voz de Evandro Mesquita, que é quase um roteiro de cinema.
Mas conhecemos também algumas outras letras fundamentais para mapearmos a MPB do século passado.
Silvestrin nos fez ouvir vozes, arranjos e estruturas musicais de algumas das mais belas canções de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Dorival Caymmi, Ari Barroso, João Gilberto, Luiz Gonzaga, Tom Jobim, Jorge Ben Jor e até um rock da banda Little Quail, que entrou de gaiata no navio para mostrar o esquema rítmico (1, 2, 3, 4) e a marcação fixa, forte e universal do rock and roll.
Na onda da MPB
Dos quatro grandes da nossa MPB dos anos 70 – Chico, Caetano, Gil e Jorge Benjor - escolhidos pelo mestre para um mergulho mais profundo em um curso rápido, cada um na sua casa nos seus computadores; o primeiro foi o filho do historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Holanda.
Mas para se entender as construções das canções do Chico e seu extraordinário papel no universo musical brasileiro, fomos conhecer o modelo de Tom Jobim, seu “maestro soberano”; e também Vinícius de Moraes, Noel Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Adélia Prado, Torquato Neto e Jards Macalé, além dos seus parceiros históricos com Gil, Edu Lobo, etc, etc. Viagem de altos significados.
Depois veio outro bamba. Reencontrar a obra musical de Caetano em plena quarentena de pandemia, foi uma belíssima poesia. Esse, assim como o Chico e Gil, fizeram o fundo musical da minha juventude em todos os sentidos: fisiológico, político, ideológico, filosófico e estético.
Mas de 20 canções de Caetano foram analisadas no curso, mas teve uma que me emocionou às lágrimas, trazendo-me recordações incríveis de um tempo, onde um jovem de 19/20 anos fugia da aterrorizante polícia política da ditadura militar, enquanto o compositor de Santo Amaro, cidade baiana do Recôncavo Baiano, fazia com a Tropicália com Gil nos festivais da Record.
A canção não é muito conhecida e se chama Irene: “Eu quero ir minha gente/ eu não sou daqui/ Eu não tenho nada, nada/ quero ver Irene rir/ quero ver Irene dar sua risada”.
Gilberto Gil sempre foi muito presente na minha vida pós-adolescência, desde o tempo da lisérgica apresentação de Domingo no Parque no Festival da Record, em 1967, com os Mutantes. Acompanhei com pesar Gil partindo para o exílio em Londres, expulso pela ditadura, cantando Aquele Abraço; e depois a sua volta com a mala cheia de tropicalidades transcendentais como Se Oriente, rapaz.
Comprei todas as revistas Bondinho quando estudava em São Paulo, só para acompanhar suas canções com Torquato Neto. Mas Silvestrin nos mostrou músicas de Gil feita em 1962, quando ainda era “treinee” da Gessy Lever, coisas do fundo do baú. Então, deste baiano aprendi mais ainda. E com que alegria reencontrei sua obra musical.
E de Jorge Benjor, então, o que dizer? Já sabia também desde jovem que ele inventou uma batida nova no violão que a turma chamava de sambarock. Minha mãe Lourdes me iniciou aos 16 anos na MPB ao me apresentar um compacto simples (procure saber) onde o moço do bairro do Rio Comprido, mas que frequentava o Café Palheta na praça Saenz Peña, cantava com aquela voz meio esquisita: “Chove chuva/ chove sem parar/ pois eu vou fazer uma prece/ pra Deus nosso Senhor”.
Esse curso me mostrou muito o Jorge Ben “alquimista” do disco Tábua de Esmeralda. O que canta e encanta com aquele jeito árabe de alongar e florear frases e sílabas. Jorge estudou em seminário e era discípulo de São Thomás de Aquino. O malandro carioca amigo do bandido Charles 45, o que fez um rockzinho chamado Rita Jeep para Rita Lee, mas cujo sucesso mesmo foi Ela é minha menina que gravou com os Mutantes. Dizem que eles namoraram na Tropicália. Disso, já não sei. Sei que aprendi muito, mas muito mesmo nesse curso.
Façam por favor este curso, pois agora estou querendo o disco Os alquimistas estão chegando. Alguém aí tem?
Serviço:
Curso Online para Grupos - Nova Turma – Poéticas na MPB
Professor: Ricardo Silvestrin
Curso com o poeta, músico e professor de literatura Ricardo Silvestrin sobre as questões estéticas suscitadas pelas obras de quatro grandes compositores da música popular brasileira: Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Jorge Ben.
Roteiro:
A função poética da linguagem.
A letra de música como gênero.
Quando a palavra escrita não dá mais conta da significação sonora.
A letra como parte da música.
As relações de significado que resultam do encontro entre letra e melodia.
As relações de significado entre todos os elementos da composição, da interpretação e do arranjo.
Ler cantando.
Elementos da poética de Chico Buarque, Caetano, Gil e Jorge Ben.
Relações entre linguagem e visão de mundo em Chico, Caetano, Gil, Jorge Ben.
Outras poéticas: análise de canções de Dorival Caymmi, Ary Barroso, Gershwin, Cole Porter, entre outros.
Duração:
Dez encontros de duas horas cada.
Horário a combinar com o grupo. Início na semana de 24/05.
Tratar por mensagem no face ou pelo e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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(*) Luis Turiba é poeta e jornalista.
Criado em 2020-05-15 22:34:17
Presidentes de seis partidos reuniram-se para lançar manifesto contra o governo Michel Temer. Carlos Lupi (PDT), Carlos Siqueira (PSB), Edmilson Costa (PCB), Gleisi Hofmann (PT), Juliano Medeiros (PSol) e Luciana Santos (PCdoB), denunciam em nota divulgada dia 22/5, “os ataques de Michel Temer aos direitos da população nestes dois anos de governo”.
O lockout comandado por empresários do ramo do transporte surpreendeu governo e população. A ineficiência da equipe de Temer para lidar com a atual crise reforça as críticas dos partidos de oposição, expressadas na nota oficial que se segue.
O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), ao tentar se adiantar na busca de solução para o impasse com os caminhoneiros colocou em votação projeto de lei para zerar os impostos PIS/Cofins.
Maia, segundo o governo, teria errado nos cálculos sobre a redução na arrecadação, algo em torno de R$ 10 bilhões. As trapalhada se sucedem na base governista e a imagem do governo federal se desgasta.
Eis a íntegra da nota da Frente Nacional dos Partidos:
“Na última semana o governo Temer completou dois anos de ataques à democracia, à soberania e aos direitos sociais. Sua agenda de retrocessos tem como alvos imediatos os direitos trabalhistas e previdenciários, o patrimônio nacional, a legislação ambiental e a capacidade de atuação do Estado, cuja soma coloca em questão os direitos da pessoa humana, característica típica de projetos autoritários.
Não causa estranheza, portanto, que o governo Temer lidere uma agenda ultraliberal que busca assegurar um novo ciclo de exploração desenfreada do povo brasileiro e de seus recursos naturais estratégicos, subordinando o país aos ditames do capital internacional, especialmente o financeiro.
No plano econômico, essa agenda aprofundou de forma dramática a recessão, a desigualdade e a miséria. A estagnação do PIB no primeiro trimestre demonstra que os cortes de investimentos só fizeram ampliar a crise econômica. O aumento do desemprego e as ameaças de uma crise cambial tornam o futuro ainda mais incerto. A explosão no preço dos combustíveis – nada menos que onze reajustes em apenas dezesseis dias – mostra os efeitos do ciclo de entrega do patrimônio público, particularmente visível no caso das refinarias da Petrobrás.
Por tudo isso, o governo Temer tem sofrido o rechaço da imensa maioria do povo brasileiro e só se sustentou, até aqui, graças a uma base fisiológica na Câmara dos Deputados, que arquivou duas denúncias de corrupção contra ele.
Nos últimos meses, porém, os setores democráticos conquistaram importantes vitórias. A derrota da proposta de reforma da previdência de Temer e, mais recentemente, a impossibilidade de privatização da Eletrobrás, mostra que a frente democrática formada pelos partidos de oposição tem cumprido importante papel no parlamento. A atual luta contra o “PL do Veneno”, que flexibiliza as regras para certificação de agrotóxicos, é mais um capítulo da luta da democracia contra a barbárie, que une diferentes partidos, movimentos e lideranças em nosso país.
A Frente Nacional pela Democracia, Soberania e Direitos, composta pelos partidos abaixo representados e reunida neste dia 23 de maio , reafirma seu compromisso indeclinável com a defesa de um Brasil justo e soberano, ao tempo em que denuncia o aprofundamento da crise econômica e social, responsabilidade exclusiva do governo Temer e dos partidos que sustentam sua agenda antipopular e antinacional”.
Assinam:
Carlos Lupi
Partido Democrático Trabalhista
Carlos Siqueira
Partido Socialista Brasileiro
Edmilson Costa
Partido Comunista Brasileiro
Gleisi Hofmann
Partido dos Trabalhadores
Juliano Medeiros
Partido Socialismo e Liberdade
Luciana Santos
Partido Comunista do Brasil
Criado em 2018-05-26 05:54:14
Geniberto Paiva Campos (*) –
O futebol assume o seu lugar de esporte universal. E propicia lições aparentemente singelas, mas de profundo alcance, de integração de todos os povos, de todas as etnias, de todas as crenças, de todos os quadrantes.
O campeonato mundial de futebol de 2018, organizado pela Rússia, que chega ao seu final hoje, 15 de julho, talvez venha a representar um marco significativo, não apenas na evolução da prática do esporte, suas táticas e suas regras, da introdução provavelmente definitiva da tecnologia na decisão dos juízes. Vai mais além.
Mesmo para o observador não muito atento ao entorno do esporte, vão se tornando cada vez mais claras as consequências da globalização. Para muitos, algo restrito à área da economia. Ou, vá lá, da geopolítica. Chegou a hora e a vez do futebol.
Ao que mostra o desenrolar e o desfecho da Copa do Mundo de 2018, o futebol não é mais uma competição restrita à Europa Ocidental e à América do Sul. Onde os outros países eram meros figurantes. Quase obrigatórios.
Alguma coisa mudou. E o processo de globalização ocupa o seu lugar nessa mudança.
O surgimento dos centros importadores de craques da pelota provocou um intenso intercâmbio entre os mais diversos países. No caso do futebol o mundo globalizado tornou-se ainda menor. Mais restrito.
E o mercado, ávido de talentos, passou a adquiri-los em seu nascedouro, com a aquisição precoce de jogadores adolescentes, ainda em formação. Futuros craques, com certeza.
Como resultado, o Futebol firma-se, cada vez mais, como paixão incontida. Estádios cheios, torcidas vibrantes. Retorno financeiro. Um espetáculo para todas as idades, todas as gerações. Todas as gentes, todos os povos. Perfeita integração entre jogadores e torcida.
A cada quatro anos organiza-se a competição mundial. Na bolsa de apostas, os favoritos eram, sempre, os campeões de outrora: europeus e latino-americanos. Isso, agora, mudou. O futebol paixão nacional ganhou o mundo. E continuou paixão. E guardou a sua pureza. Quase ingênua, em sua aparência.
A Copa da Rússia está comprovando algo que, há tempos, se suspeitava: o futebol agrega, o futebol une. O futebol quebra barreiras e preconceitos.
Tentativas de “politizar” o nobre esporte bretão não conseguiram, ainda, atingir os seus objetivos. Claro, o esporte, como toda atividade humana, tem o seu viés político.
Mas não exatamente da forma como alguns imaginam.
Voltando à Copa da Rússia: a maioria dos países participantes se apresentou com “times mistos”, em sua composição étnica. Negros, brancos, amarelos, árabes, judeus.
Todas as etnias estão ali representadas, irmanadas, cobertas pelas cores da camisa, pelo hino, pela bandeira. Pela incontida euforia na comemoração de belas jogadas e vitórias.
E, finalmente, tiraram dos juízes a última e decisiva palavra sobe lances duvidosos. Eles aprendem a voltar atrás das suas decisões equivocadas.
(Ah, que belo exemplo nos trouxe a tecnologia...).
Não importa quem seja, com justiça, o campeão da Copa de 2018. O grande vencedor foi o Futebol e, por tabela, o processo civilizatório.
O futebol vai aos poucos deixando de ser “a pátria de chuteiras”. É um jogo. Uma competição saudável e leal, ganha quem souber jogar melhor. Cujos técnicos saibam dispor de forma mais eficiente os seus craques em campo.
Por alguma razão, lembrei-me da crônica, quase cinquentenária, do poeta Drummond, sobre Leila Diniz, a moça brasileira que “sem discurso nem requerimento soltou as mulheres (...) presas ao tronco de uma especial escravidão”.
Que o Futebol, sem discurso nem requerimento, cumpra o seu papel de integração, na construção permanente de um mundo cada vez mais solidário, humano, sem preconceitos e livre.
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(*) Geniberto Paiva Campos, do Coletivo Lampião.
Criado em 2018-07-14 13:37:38
Eraldo Peres (*) –
Cheguei a Brasília pela primeira vez no início de 1960. A cidade ainda não tinha sido inaugurada. Meu pai, militar de baixa patente, me trouxe ainda bebê com minha mãe, para conhecer a cidade e ver as possibilidades onde a família pudesse morar. Me lembro das histórias que minha mãe contava da nossa hospedagem em um alojamento na Base Aérea, com as camas beliches e as paredes em madeiras, pintadas de azul, nas cores da Aeronáutica.
Em julho de 1960 toda a família mudou-se definitivamente para a nova capital. Como bom carioca, músico e amante do choro e do samba, meu pai escolheu o Cruzeiro, terra de bambas, para morarmos. Também chamado de Gavião, o bairro recém construído era sempre visitado por lobos guará e diziam, até mesmo, por onças que, curiosas, iam ver de perto a cidade que surgia.
Passei minha infância no Cruzeiro Velho e a minha adolescência e juventude no Cruzeiro Novo, como se vivêssemos em um plano econômico. Fiz meu secundário e ensino médio no saudoso Ginásio do Cruzeiro, local onde convivi com vários companheiros e vivi várias aventuras no barro vermelho, uma área do Exército localizada atrás da hoje rodoferroviária.
Em 1981, 21 anos após a minha chegada, mudei do Cruzeiro Novo, adotando o Guará como nova moradia, após o meu casamento com a Shirley. Brasília me deu tudo, me fez crescer, me deu uma família com filhos e netos. Também me deu uma profissão, a fotografia, a qual sou eternamente grato e com ela faço a minha homenagem aos 60 anos da nossa cidade, do nosso “Quadradinho”.
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(*) Eraldo Peres é fotografo brasiliense e autor de uma exposição virtual no link www.photoagencia.com.br/brasilia60anos - visite.
Criado em 2020-04-21 02:28:55
Os advogados do presidente Lula, Cristiano Zanin Martins e Valeska Teixeira Zanin Martins, informam que o Comitê de Direitos Humanos da ONU decidiu, dia 22/5, admitir e julgar o mérito do comunicado individual que fizeram em julho de 2016 em favor do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Trata-se do primeiro comunicado individual feito por um brasileiro àquele órgão internacional.
O Comitê também admitiu julgar o caso à luz do artigo 25 do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, que assegura a todo cidadão a possibilidade de participar “sem restrições infundadas” o direito de “votar e ser eleito em eleições periódicas, autênticas, realizadas por sufrágio universal e igualitário por voto secreto, que garantam a manifestação da vontade dos eleitores”, diante de aditamento que apresentamos em 06/04/2018.
O governo brasileiro terá 6 meses para apresentar defesa sobre o mérito do comunicado.
Na peça protocolada em julho de 2016, foram listadas diversas violações ao Pacto de Direitos Políticos e Civis, adotado pela ONU, praticadas pelo juiz e pelos procuradores da Operação Lava-Jato de Curitiba contra Lula, seus familiares e advogados.
Esse Pacto prevê, dentre outras coisas:
a) proteção contra prisão ou detenção arbitrária (Artigo 9º);
b) direito de ser presumido inocente até que se prove a culpa na forma da lei (Artigo 14);
c) proteção contra interferências arbitrárias ou ilegais na privacidade, família, lar ou correspondência e contra ofensas ilegais à honra e à reputação (Artigo 17);
d) do direito a um julgamento independente e imparcial (Artigo 14).
As evidências apresentadas no comunicado se reportam, dentre outras coisas:
1) à privação da liberdade por cerca de 6 horas imposta a Lula em 4 de março de 2016, por meio de uma condução coercitiva sem previsão legal;
2) ao vazamento de materiais sigilosos para a imprensa e à divulgação de ligações interceptadas, inclusive entre Lula e seus advogados;
3) a diversas medidas cautelares autorizadas injustificadamente; e
4) ao fato de o juiz Sergio Moro haver assumido em documento enviado ao Supremo Tribunal Federal, em 29/03/2016, o papel de acusador, imputando crimes a Lula por doze vezes, além de antecipar juízo de valor sobre assuntos pendentes de julgamento na 13ª. Vara Federal Criminal de Curitiba.
O Comitê de Direitos Humanos da ONU também decidiu que por ora não irá conceder uma medida liminar em favor de Lula, tal como requerido em 6/4, mas advertiu as autoridades brasileiras de que é incompatível com as obrigações assumidas pelo Brasil no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos qualquer ato de obstrução “que impeça ou frustre a análise pelo Comitê [da ONU] de comunicado que alega violação ao Tratado, ou que afirme que a expressão dos entendimentos do Comité é frívola e fútil”.
Criado em 2018-05-26 05:29:23
Mauro Santayana (*) -
A atitude de certo juiz de Curitiba de interferir na decisão de um desembargador do TRF-4 que mandou soltar o ex-presidente Lula ainda neste domingo (8/7) é a gota que faltava para mostrar que a justiça está sendo descaradamente desobedecida e vilipendiada por bufões e tartufos de primeira instância no Brasil.
Caso o comportamento não seja coibido, isso equivalerá a um reles golpe de estado dado por um juiz de piso contra a República e o Estado de Direito em nosso país.
A mídia de sempre quis dar a impressão que se trata de um imbróglio judiciário quando não há imbróglio algum.
Moro não é o delegado da Polícia Federal encarregado de cumprir a determinação da justiça, não é o dono da custódia de Lula e não tem que se meter, interceptando ou prejudicando o cumprimento – especialmente no fim de semana – de uma decisão tomada pela autoridade competente, hierarquicamente superior, de um desembargador de plantão.
O que vai ocorrer daqui pra frente quando um juiz de primeira instância discordar da determinação – que se sequer estava dirigida a ele – de um desembargador?
Independente do desfecho desse episódio, a palavra e a responsabilidade estão com o órgão máximo do Judiciário, que deve assumir o seu papel de fazer cumprir a lei e a Constituição e a velha máxima de que decisão judicial não é para ser desobedecida e sim para ser cumprida incontinenti, evitando que se abram precedentes que irão transformar a justiça brasileira em uma balbúrdia em que terá maior poder quem espernear ou gritar mais alto, no lugar de obedecer aos prazos e ritos previstos no trâmite judiciário normal.
Caso o STF se exima de manifestar-se sobre esse gravíssimo ato, absolutamente político, será o mesmo que confessar que quem manda no Brasil é a famigerada república que se instalou solertemente em Curitiba.
Nesse caso é melhor abandonar o prédio da Suprema Corte ao porteiro que estiver de plantão com as chaves de arquivos e gabinetes para que sejam entregues em prazo hábil ao insolente – e totalmente desequilibrado – juiz de piso que está agindo como se estivesse no comando da Nação
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(*) Este artigo foi publicado originalmente no blog do autor neste domingo, 8/7.
Criado em 2018-07-09 12:15:16
Uma carta assinada por ex-conselheiros de cultura foi protocolada na Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF para pedir ao governo que adote “medidas estratégicas para reduzir os impactos do isolamento social no combate ao Covid-19”.
Os autores da carta alegam que a atividade dos artistas e dos produtores culturais do DF está comprometida a curto, médio e longo prazos, “já que estamos cercados de incertezas quanto ao período adequado para a duração do isolamento social. O que sabemos é que as atividades culturais convencionais, em grande maioria, estão ligadas à aglomeração de pessoas e que serão as últimas a serem autorizadas e normalizadas em sua plenitude”.
A seguir, a íntegra da carta:
“Nós, ex-conselheiros e ex-conselheiras do Conselho de Cultura do Distrito Federal que desde a criação do colegiado em 1989, representamos a sociedade civil e/ou governo em diferentes momentos contribuindo significativamente com a elaboração, análise e o monitoramento de ações, políticas, programas e projetos culturais. Temos acompanhado com muita preocupação o cenário atual, em que as medidas necessárias de isolamento social para o combate ao Covid-19 têm impactado de maneira drástica a cadeia produtiva da cultura como um todo, principalmente, no ponto de vista econômico e financeiro.
É necessário adotar medidas enérgicas e estratégicas para reduzir esses impactos e suas consequências a curto, médio e até mesmo longo prazo, já que estamos cercados de incertezas quanto ao período adequado para a duração do isolamento social. O que sabemos é que as atividades culturais convencionais, em grande maioria, estão ligadas à aglomeração de pessoas e que serão as últimas a serem autorizadas e normalizadas em sua plenitude.
Acrescentamos que a cultura vem sofrendo já há algum tempo, nas esferas nacional e local, tanto com a extinção do Ministério da Cultura, quanto com o cancelamento de editais e descontinuidade de políticas públicas de cultura, como por exemplo, as de fomento e incentivo. Com isso, tornou-se impossível que empreendedores, artistas e agentes culturais tivessem fundos de reserva mínimos para suportar essa nova crise generalizada.
Já temos diversos colegas de todos os setores artísticos e culturais, de todas as linguagens artísticas, além de produtores, agentes culturais, gestores de equipamentos culturais particulares e/ou independentes, além de técnicos de suporte a todas as áreas, em completa situação de pandemia financeira. E isso prejudica, consideravelmente, não só a cadeia produtiva cultural, mas também o comércio, o turismo, a economia local e a sociedade como um todo, já que a cultura está no cerne da cidadania e não é possível pensar em melhorar as cidades se o Estado deprecia este setor, o que, infelizmente, vem acontecendo há alguns anos.
Centenas de artistas e agentes culturais, em todas as áreas de atuação, estão sofrendo as consequências da necessária quarentena, com atrasos em pagamentos de serviços básicos, como moradia, alimentação e higiene, ao ponto de muitos estarem passando fome por não terem condições financeiras de se sustentar. Pois sabe-se que, se o artista não produz, ele não tem uma fonte de renda para sobreviver. O momento torna essencial e obrigatório ao Estado, independentemente do nível governamental, dar as condições necessárias aos que precisam para a sua manutenção, até que essa situação de pandemia se encerre e possamos voltar a produzir e a consumir espetáculos, filmes, shows, musicais, teatrais, de circo, de dança, de poesia, em suas mais variadas criações que sustentam e cunham a identidade de uma sociedade desde o tempo mais primórdio.
Por isso, esse coletivo de pessoas que sempre se dedicou à produção da arte e da cultura, além de terem contribuído com a formulação, análise e julgamento da aplicação do FAC, da LIC e da LOC, apresentam aos gestores das Secretário de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal Secretaria Nacional de Cultura e demais gestores públicos do DF, Câmaras legislativas do DF e Federal e Senado, as demandas de apoio imediato para a superação do inesperado e do difícil momento. Construímos, conjuntamente, as seguintes propostas de incidência sobre os problemas apresentados pela comunidade cultural:
FAC pago com celeridade e urgência! Está no Art. 67 da Lei Orgânica da Cultura (Lei Complementar nº 934, de 7 de dezembro de 2017) que podem ser utilizados até 5% dos recursos do FAC para manutenção, informatização, contratação de consultoria, contratação de pareceres, contratação de serviços auxiliares, remuneração de colegiados e profissionais responsáveis pela análise de propostas, acompanhamento, fiscalização e análise final de prestação de contas, aquisição de ferramentas de gestão, aquisição de equipamentos e outros bens e serviços dedicados ao funcionamento eficiente do FAC e do Programa de Incentivo Fiscal. Ou seja, tal percentual pode ser utilizado para administração do próprio Fundo, o que está em execução desde 2009. Sugerimos assim, a contratação imediata de pareceristas externos para análise da parte documental e a criação de uma força tarefa coordenada pelos servidores do FAC e da LIC, com acolhimento de servidores de outros setores que não estão em atendimento, para dar celeridade a adoção das medidas necessárias para pagamento imediato, por exemplo: do Edital de Áreas Culturais de 2018, do FAC Ocupação 2019 e do FAC Gravação, Registro e distribuição em Música 2018. Se tais editais forem pagos imediatamente, em muito podem ajudar a nossa classe com os recursos em conta.
Também sugerimos o aumento do recurso do edital emergencial Conecta Cultura, muito bem proposto pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal, para empregar urgentemente todo o recurso existente no fundo, sendo 50% em abril e 50% em agosto. Bem como, a criação de mais editais para alcançar os demais culturais, como: Manutenção de Grupo, Regionalizado, Conexão Gravação de Áudio. Com isso, o Conecta Cultura será ampliado consideravelmente, em relação ao atual montante que atende somente cerca de 2% da classe artística do DF.
“Quem tem o pão garantido perde a noção de que cada dia é um dia inteiro sem ter opção”, diz Ana Flávia, atriz e palhaça.
Em relação aos editais emergenciais: Segundo a urgência da calamidade pública dada pelo Decreto Legislativo nº 6 de 20 de março de 2020 e pelo Decreto Distrital nº 40.520 de 14 de março de 2020, ambos amparam as aquisições de compras e serviços com dispensa de licitação, além de não precisar seguir os limites da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), nem as metas fiscais previstas nas leis orçamentárias deste ano. A modalidade prêmio da Lei nº 8.666/93, por exemplo, pode ser acionada imediatamente, pois trata-se de modalidade especial de licitação. A Lei de Licitações e Contratos Administrativos, em seu art. 22, § 4º, traz o conceito de concurso, verbis: “Concurso é a modalidade de licitação entre quaisquer interessados para escolha de trabalho técnico, científico ou artístico, mediante a instituição de prêmios ou remuneração aos vencedores, conforme critérios constantes de edital publicado na imprensa oficial com antecedência mínima de 45 dias”.
Outra proposta que encaminhamos é agilizar o pagamento dos processos do edital de Ocupação dos contemplados que estão em situação regular e em fase de pagamento. Pois, não há, além do pagamento, outro procedimento administrativo para estes contemplados. Com isso, iniciaria a circulação de dinheiro no mercado. Lembrando que tal montante servirá para pagar, ao menos, a pré-produção como os designers gráficos para fazer as identidades visuais, os jornalistas para preparar os releases para a imprensa, pagar os técnicos e o que mais for possível, adiantando as produções em atividade que podem ser feitas na quarentena decretada. Existem, atualmente, três projetos de lei para ações destinadas ao setor cultural em tempos de coronavírus (dois na Câmara dos Deputados e um no Senado Federal) que possuem conteúdos próximos de inclusão dos profissionais das artes e da cultura para o acesso à renda de R$600,00.
Divulgação do Cadastro de artistas e culturais da SECEC para pagamento aos cadastrados. Tal ação política depende do encaminhamento do Governador do DF à fonte pagadora. Além disso, essa crise mostra que não temos mapeados todos os trabalhadores do setor que não são computados pelo Cadastro de Ente e Agente Cultural do DF (CEAC). Tal medida é uma inovação que sana este ponto na estruturação da cadeia produtiva.
Ativação das Emendas Parlamentares que estão destinadas a Eventos do 1° e 2° semestre e transformá-las em editais de prêmios aos artistas e para os técnicos e artistas, que não possuem CEAC - técnico de som, montadores de cenografia e expografia, iluminadoras e costureiras de ateliê de moda ou de escola de samba, por exemplo. As execuções das Emendas na Secretaria de Ação Social em forma de auxílio emergencial ao cidadão, pois neste momento o dinheiro é mais importante para a sobrevivência que o produto.
Para os espaços culturais que não são abarcados pela SECEC (18 no DF, segundo último levantamento e mapeamento da Funarte) que agregam valor à respectiva Região Administrativa, transformando em um território vivo, bem como para as instituições de ensino e de produções artísticas particulares com CNPJ, sugerimos: Lançamento emergencial do Edital de Manutenção de Grupos e Espaços Culturais e a retomada do conexão para gravação. Negociação com a Secretaria de Fazenda para isenção de IPTU para os espaços de cultura (como é feito para as igrejas); Negociação com CEB e CAESB para redução do valor da taxa e suspensão temporária da cobrança de tarifas de água e de esgoto; Decreto de redução temporária do valor de aluguel durante a calamidade pública para a continuação futura de entidades de ensino e produção artística, tanto as particulares e as independentes.
Por fim, a abertura de vários editais (sugerimos alguns que já foram aprovados pelos órgãos de controle) somando o que rege a LOC em seu Art. 64, inciso II. Indicamos que até 30 de abril, é lançado o primeiro bloco de editais, contendo todo o saldo do exercício anterior adicionado da metade da previsão orçamentária do exercício em curso, incluindo-se o disposto no art. 66, II e III – até 31 de agosto, é lançado o segundo bloco de editais, com todo o saldo restante do exercício em curso, incluindo-se o disposto no art. 66, II. Seria o montante de trinta milhões de reais até o final de abril, e mais trinta milhões reais até final de agosto. Tais editais incluiriam todas as áreas culturais, que acolheriam o vulto mínimo de oito mil trabalhadores da cadeia cultural, sendo cinco mil já cadastrados no CEAC e outros três mil que fazem parte do setor e que até hoje não são computados oficialmente pela SECEC, mas que são importantíssimos na construção da identidade da arte e da cultura do DF.
Editais nacionais e do Distrito Federal que podem ser simultaneamente reeditados para atender a Classe - Sem CEAC e pela 8.666 (caso dos Técnicos e artistas não credenciados):
http://www.funarte.gov.br/wp-content/uploads/2013/07/Edital-Mais-Cultura-Microprojetos-Pantanal1.pdf
https://drive.google.com/file/d/0B_PAmmNTaiArNWZVQ0xLMlRDTzA/view
http://www.fap.df.gov.br/2017-3/
Editais da Secretaria de Cultura:
http://www.cultura.df.gov.br/wp-conteudo/uploads/2017/11/Edital-Cultura_e_Cidadania_FAC-2018.pdf
Saindo da escala do Distrito Federal, estamos convictos que a saída estará na articulação dos poderes públicos em âmbito distrital e federal para a prevenção de um colapso maior no setor. Desta forma, apoiamos as propostas já articuladas em escala nacional tramitando nos PL 1075/2020, PL 1089/2020, PL 1541/2020:
a) Liberação dos valores retidos e antecipação dos valores comprometidos do Fundo Nacional de Cultura e do Fundo Setorial do Audiovisual, que estão vinculados a projetos já aprovados e que não podem, por lei, ter qualquer outra destinação. Isso injetará cerca de R$ 1,5 bilhão de reais no setor como um todo, sem onerar o caixa central do governo federal e do distrito federal;
b) Concessão de um salário mínimo, em virtude do afastamento de suas atribuições pelo período que perdurarem as medidas de contenção ao vírus, aos microempreendedores individuais (MEI) que atuam na área cultural e criativa;
c) Concessão de auxílio financeiro aos artistas, técnicos e produtores culturais informais, com o auxílio do Poder Público do Distrito federal para inclusão dos trabalhadores que não tenham cadastros na assistência social.
As propostas aqui elaboradas estão de acordo e apoiam as iniciativas várias que ocorrem em escala nacional, estadual, distrital e municipal no país, tais como no DF: Carta dos Espaços Culturais do DF, Carta Aberta dos profissionais da Musica ao Governo Federal, Carta da Câmara de Economia Criativa da Fecomércio/DF, OFÍCIO Nº 82/2020-GAB DEP. Chico Vigilante, Carta da ABRAPE – Associação Brasileira de Promotores de Eventos, Carta da Frente Unificada de Cultura do DF, Carta da APTR Associação dos Produtores de Teatro e ainda apoiamos a articulação em escala nacional para artistas, produtores culturais e músicos (autônomos e Microempreendedores Individuais - MEI) com vistas ao recebimento de salário de afastamento de suas atribuições, via Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) - aproximadamente 19 mil assinaturas; articulação nacional em prol da isenção por 2 (dois) meses de contas para músicos, produtores de eventos e equipe, e autônomos - aproximadamente 69,5 mil assinaturas; Manifestação da Comissão de Direitos Culturais da OAB/CE – CDCult; Carta Proposta para a Política Cultural no Amazonas em tempos de COVID-19; Medidas de Contenção do Impacto Econômico e Jurídico da Pandemia Covid-19 Sobre O Setor Cultural, emitida pelo Fórum Brasileiro pelos Direitos Culturais – FBDC; e Comunicado do Fórum Nacional dos Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura”.
(A carta é assinada por ex-conselheiros e ex-conselheiras de 1992 a 2018).
A propósito, o documento abre com a citação de um texto assinado pelo DJ Pezão:
“Licença aqui para expressar mais um pouco de pessimismo sobre o futuro do nosso setor, mesmo torcendo muito para estar errado. Se nas próximas semanas acontecer de fato um aumento gigantesco nos casos e mortes de Covid-19 no Brasil, como está previsto, teremos logo ali na frente uma mudança significativa de comportamento na sociedade.
Isso vai comprometer as atividades que dependem de aglomerações não só pelo prazo dos decretos oficiais, mas por muito mais meses, ou quem sabe anos.
Quando os eventos que estamos acostumados a trabalhar/frequentar voltarem a ser permitidos, ainda serão fracos e intermitentes. Nem público, nem profissionais, nem patrocinadores, sejam privados ou estatais, voltarão com força e confiança. Infelizmente, depois dessa, nosso tipo de atividade vai se tornar insustentável por muito tempo.
Hoje o que as pessoas estão fazendo para driblar a crise já não deve ser encarado como algo temporário, mas como teste para os novos modelos de entretenimento, cultura e arte que precisamos desenvolver pro futuro.”
Criado em 2020-04-21 02:06:31