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Relevo

Rosalba Campra (Tradução: Maria Lúcia Verdi) –

A expansão foi tão devastadora que para conter o contágio foram necessárias medidas extremas. Quarentenas indefinidamente renovadas, distância interpessoal, obrigatoriedade de máscaras protetoras, proibição de deslocamentos e reuniões.

Aos que, tendo superado os setenta anos, se encontravam fragilizados, a lei impôs a reclusão no próprio domicílio, onde, para maior segurança, não deveriam receber visitas, com o que foram morrendo de solidão, melancolia e falta de ar.

Os mantimentos começaram a escassear, chegaram as fomes, assaltos, revoltas e ataques aos palácios do governo, às vezes com tal violência que para reprimi-los foi necessário recorrer a fuzilamentos. Nas ruas, atirados no chão, quantidade de jovens protestavam contra a suspensão de bailes, concertos, eventos desportivos, demonstrações de afeto.

Para dizimar a população contribuiu o uso de óculos, dado que a respiração, ao inundar as máscaras os embaçavam, impedindo aos de vista curta distinguir os buracos nas ruas, com os consequentes tropeções, quedas e fraturas de resultados mortais. Este foi o caso, também, dos pacientes afetados por outras doenças, pois toda a atenção médica, reservada exclusivamente às vítimas do vírus, sofreu uma postergação atrás da outra: o contágio era tão incontrolável que os hospitais não davam conta (nem os cemitérios, se é por isso).

Por fim, não houve sobreviventes, ainda que nem todas essas mortes devam ser atribuídas unicamente ao vírus, o qual, por outro lado, na falta de hospedeiros que o abrigassem, terminou por morrer também ele.

– Isto sim que se chama sorte! Estabelecer uma rota e no trajeto encontrar um planeta habitável e em condições de perfeita limpeza!... Um espaço ideal para a colonização! – exultou o Comandante da Lyra II, nave interestelar em missão exploratória no Borde Externo da Espiral Galáctica Ocidental, e ordenou as manobras para a aterrissagem.
_______________
Nota da tradutora: Rosalba Campra (na foto, abaixo) nasceu em Jesus Maria, Província de Córdoba, Argentina e vive em Roma há muitas décadas. Foi titular da Cátedra de Literatura Hispano-americana da Universidade de Roma La Sapienza, é ensaísta, contista e poeta. Publicou: América Latina: a identidade e a máscara; A selva no tabuleiro: espaço literário e espaço urbano na América Latina; Como com raiva e olhando - a retórica do tango; Territórios da ficção: o fantástico; Cortázar para cúmplices; Formas da memória; Os anos do anjo; Heranças; Cidades para errantes; Ela contava contos chineses; Avistamentos: Mínima mitológica e As portas de Casiopea. (Títulos traduzidos livremente).

Criado em 2020-10-15 00:22:03

Um bate-papo sobre Nietzsche e as otobiografias

Para a live de lançamento do livro Otobiografias: o ensinamento de Nietzsche e a política do nome próprio, de Jacques Derrida, foram convidados os tradutores Guilherme Cadaval e Rafael Haddock Lobo, e a pesquisadora e professora da UFRJ Carla Rodrigues. O bate-papo ocorrerá dia 22/11, a partir das 19h, no canal do Youtube da Zazie Edições. O livro digital estará disponível no site da editora, de forma gratuita, no dia do lançamento.

A Zazie Edições é uma editora independente, sem fins lucrativos, sediada em Copenhague e no Rio de Janeiro. Segundo os responsáveis, a “editora opera fora do circuito comercial, mantendo o compromisso com a democratização do conhecimento e com o acesso livre (open access), visando intervir criticamente no debate contemporâneo, não só acadêmico, e ajudar a promover a inclusão digital, publicando e traduzindo bibliografia relevante para diversos campos da pesquisa.” Por isso mesmo, todos os títulos podem ser acessados gratuitamente no site da editora: https://zazie.com.br/

 

Criado em 2021-11-12 21:51:38

Bancada do PT repudia golpe. Arthur Lira recua e abre espaço

A bancada do Partido dos Trabalhadores (PT) na Câmara dos Deputados divulgou hoje (2/2) nota pública repudiando a tentativa do deputado Arthur Lira (PP-AL) de barrar a representação proporcional na Mesa Diretora da Casa. Após o assunto ser levado ao STF, Lira recuou e a eleição da Mesa Diretora será feita amanhã (3/2) com espaço garantido para a oposição.

Depois de explicar os motivos burocráticos que levaram Lira ao ato extremo de anular a votação da Mesa Diretora, a nota do PT afirma que a atitude do novo presidente é “autoritária, ilegal e antirregimental” e que “ao valer-se de uma nuance burocrática, rompe com as normativas e com a tradição de convivência democrática no Parlamento, desconsiderando a pluralidade e a histórica composição proporcional e plural dos espaços de direção do Poder Legislativo Nacional.”

Os petistas denunciam que Arthur Lira reconheceu a existência do Bloco de Baleia Rossi durante o processo eleitoral que o elegeu, mas logo após ser empossado no cargo anulou o registro do Bloco composto pelo PT, “alegando intempestividade na apresentação do ofício dos líderes que apontou o bloco formado”.

Durante o dia, diante das ameaças da oposição de obstruir as votações em plenário e de ação no Supremo Tribunal Federal (STF), Lira recuou e passou a negociar a divisão de cargos na Mesa Diretora incluindo quatro partidos do Bloco de Baleia Rossi. O relator da ação no STF, Dias Tóffoli havia dado dez dias para a Câmara explicar o ocorrido. Mantido o acordo, o PDT desistiu da ação.

Dessa forma, o colegiado responsável por decisões administrativas e políticas da Casa terá dois não governistas: Luciano Bivar (PSL-PE) será o primeiro secretário, posto que tem o controle do “caixa” da Câmara; Marília Arraes (PT-PE) ficou com a segunda secretaria e mais duas suplências. O importante nesse caso é participar das discussões da Mesa e evitar, na medida do possível, o rolo compressor. Prática utilizada pelo ex-presidente Eduardo Cunha, hoje condenado e preso.

Pacificada a situação, a disputa acirrada será agora em torno da eleição das Comissões. A mais cobiçada é a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), já reivindicada pelo PSL para Bia Kicis.  Isso vai dar pano para manga. É ver para crer.

A seguir, a íntegra da nota pública da liderança do PT na Câmara dos Deputados:

“A bancada do Partido dos Trabalhadores na Câmara dos Deputados vem a público informar sobre os ritos e o ocorrido no processo de inscrição dos Blocos Parlamentares para a eleição da Mesa Diretora da Câmara dos Deputados de 2021, ao tempo em que repudia a tentativa de impedir a representação parlamentar legítima do Bloco de Oposição no espaço de direção do Poder Legislativo.

A formação de blocos para a eleição da Mesa Diretora envolve duas etapas:

1) ofício assinado pela maioria absoluta das Bancadas, em que delegam aos respectivos Líderes a prerrogativa de compor blocos;

2) ofício assinado por todos os Líderes em que informam à Mesa a composição do bloco formado.

No caso do PT, o ofício de delegação da Bancada, se encontra no sistema desde o dia 28 de janeiro, data em que toda a Bancada então em exercício (52 parlamentares) o subscreveu. Esse ofício não informa o bloco a ser formado, apenas autoriza o Líder a compô-los, em nome dos seus pares.

O ofício a ser assinado pelos líderes ficou concentrado na Liderança do MDB, que ficou responsável pelo seu lançamento no sistema e pela coleta de assinaturas de todos os Líderes.

Ainda dentro do prazo, a Bancada do PT tentou promover o envio do seu ofício concomitante ao disparo das assinaturas relativas ao ofício de formação do Bloco, a cargo do MDB.

Nesse momento, o sistema deixou de responder aos comandos dos usuários, entrando em um modo contínuo de “carregamento”. O sistema ficou parado, deixou de responder e ficou carregando indefinidamente.

Este erro identificado (“carregamento” indefinido) é frequente aos usuários do sistema “Infoleg-Autenticador” e é de conhecimento de todos os gestores do serviço, pois rotineiramente lhes era relatado. Apesar disso, a área técnica da Casa diz não ser possível identificar o problema havido, a ponto de relatá-lo ou aferi-lo. Com isso, não foi possível obter registro comprobatório da falha técnica.

No momento em que o problema foi detectado, parte dos Líderes se dirigiu ao gabinete da Liderança do MDB para, juntos, tentarem a assinatura do referido ofício. Todos os Líderes presentes não só encontraram as mesmas dificuldades de acesso ao sistema, quando acompanharam as dificuldades do PT em, também, tentar acessar o serviço.

Ao persistirem os problemas, os Líderes entraram em contato imediato com a Secretaria-Geral da Mesa para comunicar a falha técnica, antes mesmo de o prazo ser exaurido.

Desse modo, quando o sistema pôde ser acessado, o prazo já havia se esgotado, tanto para o ofício interno da Bancada do PT (6 minutos), quanto para o ofício consolidador do bloco (cerca de 1 hora).

Apesar de ter reconhecido o Bloco de Baleia Rossi durante o processo [eleitoral], após ser empossado no cargo de Presidente da Casa, o Deputado Arthur Lira (PP), anulou o registro do Bloco composto pelo PT, alegando intempestividade na apresentação do ofício dos Líderes que apontou o bloco formado.

Embora o ofício da Bancada do PT tenha enfrentado a mesma dificuldade técnica do ofício coletivo, a decisão da Presidência restringe-se à intempestividade do registro do ofício coletivo.

A bancada do PT repudia de forma veemente este ato autoritário, ilegal e antirregimental do novo Presidente da Câmara dos Deputados que ao valer-se de uma nuance burocrática, rompe com as normativas e com a tradição de convivência democrática no parlamento, desconsiderando a pluralidade e a histórica composição proporcional e plural dos espaços de direção do Poder Legislativo Nacional.

A maior Bancada da Câmara não aceitará que a democracia seja calada dentro da Casa do Povo!

Bancada do Partido dos Trabalhadores na Câmara dos Deputados”.

Criado em 2021-02-03 00:50:57

Direitos Humanos em 2 minutos - Ep #7

Em novembro de 2010, o jovem Luis Alberto Betonio caminhava pela Avenida Paulista, quando foi atingido por uma lâmpada fluorescente no rosto. Os agressores afirmaram ter feito isso porque Luis Alberto era gay. Jonathan Lauton Domingues foi condenado a 9 anos de prisão. Ele tinha 19 anos quando atacou Luis. (Fonte: Imprensa Digital, 2015)

Direitos Humanos em 2 minutos (DH2) reúne artistas, realizadores e ativistas para explicar, de maneira lúdica e acessível, temas complexos como racismo, violência de gênero, justiça fiscal, migração, mobilidade urbana e mudanças climáticas, entre outros.

São 12 filmes curtos, com os atores Iara Pietricovsky e Alexandre Ribondi em cena – os dois dividem também a direção do projeto. Os textos são de Ribondi.

Foi elaborada também uma cartilha sobre direitos humanos, com os principais conceitos e legislações relativas aos temas apresentados no projeto. Esperamos que a cartilha seja uma fonte para professores, alunos e movimentos sociais interessados em discutir direitos humanos de maneira transformadora.

Saiba mais em dh2minutos.org

Criado em 2016-09-14 01:20:00

Schwarz e Alvim encontram Antonio Cândido na UnB

Maria Lúcia Verdi -

O Grupo de Pesquisa Literatura e Modernidade Periférica da UnB organizou, dias 30 e 31 de agosto, esplêndido encontro sobre a obra de Antonio Candido, Roberto Schwarz e Francisco Alvim, com o fim de homenagear os dois grandes críticos e o poeta, bem como discutir a crítica literária dialética no Brasil.

Participaram professores e estudantes da USP, UnB, UFRGS, UFMG, UFG, UFRJ, IFB, UFRN, bem como da Escola Nacional Florestan Fernandes, renovador espaço educacional criado pelo MST há doze anos.

O que me move a escrever esta nota é, sobretudo, a emoção provocada por escutar os textos de Roberto Schwarz sobre o (de fato) imortal Antonio Candido, assim como os depoimentos do poeta Francisco Alvim.

As valiosas apresentações teóricas, dos distintos professores, confirmaram a linha de continuidade crítica estabelecida há décadas, a partir da obra do autor de Formação da Literatura Brasileira e tantos outros estudos seminais para a análise da cultura e da sociedade brasileira.

A professora e escritora Vilma Arêas, da Unicamp, encerrou o encontro com comentários apropriados e bem humorados sobre a obra de Schwarz e Alvim, trazendo a leitura de poemas do crítico paulista, nascido em Viena. Menos conhecido como autor de poesia e obras de teatro, o livro “Corações Veteranos” de R. Schwarz, influenciou, no entanto, segundo Alvim, a geração conhecida como marginal, dos anos 70.

Temas como “O MST e o direito à literatura” e “ecos do pensamento de Candido na formação intelectual de um jovem sem-terra” foram tratados num seminário que buscou marcar a importância do político e do contexto social na análise literária, conforme a tradição inaugurada, entre nós, por Antonio Candido.

Me comoveram Schwarz e Alvim, especificamente, pela escuta de depoimentos – por momentos, melancólicos - de dois intelectuais ainda comprometidos com um país e um ideal, como o fora Antonio Candido, o último grande desaparecido num cenário nacional deserto de ideologias que encarem nosso desastroso modelo social.

O traço que une esses três intérpretes do Brasil, cada um com seu modo de expressão, além da utopia marxista, é o extremo refinamento crítico, a capacidade de observar a realidade e a produção artística nacional e internacional, dialogando com percepções estéticas e tendências críticas por vezes contraditórias, como diz Schwarz, e, atravessando-as, produzindo obras fundamentais. Algo que também pode ser dito sobre a ensaística e a ficção de Vilma Arêas.

Desde Machado de Assis, do qual R. Schwarz é um dos maiores estudiosos, há essa linha de refinamento crítico que A. Candido soube estabelecer na USP, com a ajuda inicial de Roberto Schwarz e Walnice Nogueira Galvão, de olhar severo e desencantado sobre nossa sociedade, mas também dolorosamente amoroso - algo dialética e visceralmente expresso na poesia de Francisco Alvim.

Criado em 2017-09-04 00:36:20

PCdoB, sem fusão com PSB, defende federação de partidos

Romário Schettino (*) –

A possibilidade de fusão do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) com o Partido Socialista Brasileiro (PSB) está descartada, pelo menos por enquanto. O que se discute, no momento, é uma mudança na legislação que possibilite a existência das federações de partidos, proposta pela qual os comunistas lutam desde a Constituinte. Nesta entrevista, Haroldo Lima, membro da Comissão Política Nacional do Comitê Central do PCdoB, explica o que está em debate e fala sobre a importância de buscar alternativas para o melhor desempenho das agremiações partidárias na luta contra o fascismo e o neoliberalismo.

Haroldo Lima, militante histórico, faz parte da direção nacional do PCdoB há 47 anos, dos quais devem ser excluídos os três em que passou em presídio político durante a ditadura militar brasileira.

Uma das principais mudanças instituídas pela reforma eleitoral promulgada pelo Congresso Nacional em outubro de 2017 (PEC 33/2017) foi o fim das coligações nas eleições para vereadores e deputados, que entra em vigor este ano. É a chamada cláusula de barreira. Agora, os partidos sairão sozinhos na disputa para as câmaras municipais de todo o País. Ao aprovar o fim das coligações, a ideia era desestimular a criação e manutenção das chamadas legendas de aluguel – partidos usados por siglas maiores para turbinar seu quociente partidário – e acabar com o “efeito Tiririca”, quando a votação expressiva um candidato ajuda a eleger outros da mesma coligação. Eleito em 2014 com mais de um milhão de votos, o deputado federal Tiririca (PL-SP) levou para a Câmara outros cinco candidatos. O problema é que legendas históricas e ideológicas como o PCdoB poderão ficar prejudicadas, pois caso não consigam atingir o número mínimo de deputados eleitos não terão os benefícios concedidos aos grandes partidos.

Haroldo Lima falou também sobre a viabilidade de uma frente ampla de esquerda para enfrentar a extrema direita: “Se para participar da frente ampla para enfrentar a extrema direita for preciso ser de esquerda, a frente não será ampla, terá forças menores que as necessárias, e aquém do possível. É muito grande a quantidade de gente que está ou pode ficar contra tudo o que está aí – americanismo deslavado, obscurantismo, ligação com crime organizado, corrupção, nepotismo insolente, desrespeito às instituições, destruição das empresas públicas. Grande parte desse pessoal não é de esquerda. Se deixarmos fora da frente contra Bolsonaro todo o contingente que não for de esquerda, estaremos dando uma “mãozinha” a Bolsonaro, que nos agradecerá. Não podemos fazer isso”.

A seguir, a íntegra da entrevista:

Qual é exatamente a ideia que envolve a aproximação do PCdoB com o PSB? 

Haroldo Lima – O PCdoB é um aliado histórico do PSB. Em 1989, na primeira eleição geral que se seguiu ao fim da ditadura, uma frente eleitoral lançou Lula como candidato a presidente da República. A frente chamava-se Frente Brasil Popular e dela faziam parte PT, PSB e o PC do B. De lá para cá, seja em nível nacional, seja em eleições estaduais, com muita frequência PCdoB e PSB têm marchado juntos. No momento, independentemente de eleições, consideramos que a luta libertária no Brasil precisa fortalecer uma frente, a mais ampla possível, contra Bolsonaro e seu governo obscurantista, pró-fascista e, de acordo com as condições, levá-lo de roldão. Paralelamente, temos que nos preparar para as eleições deste ano e as de 2022. O conservadorismo predominante no Congresso nos retirou a possibilidade de formarmos coligações partidárias para disputar eleições [proporcionais]. A direita conseguiu seu intento de dividir para reinar. Estamos nos preparando com decisão para enfrentarmos a cláusula de barreira que foi criada para a próxima eleição e arquitetando planos para participarmos da eleição de 2022, sobretudo se até lá o Bolsonaro ainda não tiver sido desbancado.          

A existência da cláusula de barreira é um estímulo à aproximação do PCdoB com o PSB? Seria para uma eventual fusão? Ou o quê?

HL.
– A cláusula de barreira é uma violência que golpeia as iniciativas dos partidos políticos nas eleições. A aproximação entre partidos que tem afinidades políticas e ideológicas é um caminho a ser trilhado em qualquer situação. Frente à cláusula de barreira é um caminho imperioso. No que nos diz respeito, a ideia de fusão não está em discussão. Atendo-nos ao que falou ainda há pouco o nosso companheiro-governador Flávio Dino [do Maranhão], teremos que buscar formas de fazer com que nossa legislação abrigue as federações de partidos, ou partidos de frente, que são a mesma coisa, e pelo que lutamos desde a Constituinte. Para tanto, a aproximação com o PSB é muito bem vinda e pode ser ponto de partida para a atração de outros partidos afins para o mesmo objetivo.

Como o PCdoB está se organizando para as eleições proporcionais de 2022 e para as eleições municipais deste ano?

HL. –
As eleições deste ano já estão com suas regras estabelecidas e elas são draconianas, mormente para os pequenos partidos, chamados ideológicos. Estamos mobilizando nosso pessoal e os amigos para a luta. Criamos o Movimento 65, que está dando certo, levantando campanhas como a da luta por salvar vidas na pandemia, estender [por mais tempo] o auxílio emergencial de R$ 600, apoiar as micro, pequenas e médias empresas que estão quebrando aos milhares, e responsabilizar o governo atrabiliário de Bolsonaro pelo crescimento inaudito das mortes pelo coronavírus em nosso país.    

O senhor acredita ser possível uma Frente Ampla de Esquerda para enfrentar a extrema direita e o neoliberalismo?

HL.
– Se para participar da frente ampla para enfrentar a extrema direita for preciso ser de esquerda, a frente não será ampla, terá forças menores que as necessárias e aquém do possível. É muito grande a quantidade de gente que está contra ou pode ficar contra tudo o que está aí – americanismo deslavado, obscurantismo, ligação com crime organizado, corrupção, nepotismo insolente, desrespeito às instituições, destruição das empresas públicas . Mas, grande parte desse pessoal não é de esquerda. Se deixarmos fora da frente contra Bolsonaro todo o contingente que não for de esquerda, estaremos dando uma “mãozinha” a Bolsonaro, que nos agradecerá. Não podemos fazer isto.

Outras opiniões

As questões políticas que envolvem a cláusula de barreira, fusão de partidos e as eleições brasileiras fazem parte da preocupação de dirigentes partidários e especialistas. O jornalista Hélio Doyle, analista de campanhas eleitorais, acha “muito difícil que um partido ideológico e centenário como o PCdoB se dissolva”. Se isso acontecer, “provavelmente o que haverá é a migração de alguns filiados e outros tentando manter o partido, como aconteceu com o PCB”.

Hélio Doyle defende a união de partidos, “em muitos casos, é necessário, por causa da cláusula de barreira, mas seria melhor constituir uma frente ampla de esquerda, com os partidos mantendo sua identidade.” Se a ideia de federação não vingar no Congresso, Doyle sugere que os partidos maiores abriguem os candidatos de outras legendas. “É preciso unir respeitando as diferenças. Na verdade, o que penso é que faltam visão estratégica e grandeza aos dirigentes das grandes agremiações, como os do PT”, conclui.

A deputada distrital Arlete Sampaio (PT-DF) acha que uma eventual fusão dos dois partidos (PCdoB e PSB) “fará bem às duas siglas e fortalecerá o campo da esquerda brasileira”.

Já para a deputada estadual Dani Monteiro (PSol-RJ) “nenhum partido vai negociar fusão antes das eleições de 2022”. Sobre a cláusula de barreira, a deputada diz o seguinte: "O foco do PSol neste momento são as eleições municipais, nas quais apresentaremos um programa de defesa dos direitos dos trabalhadores, da democracia e o combate ao fascismo. Esse compromisso com a população tem se refletido no crescimento do partido e, por isso, já nas últimas eleições obtivemos um resultado acima da cláusula de barreira."
_______________
(*) Esta entrevista foi concedida ao jornalista Romário Schettino e publicada originalmente no site do jornal Brasil Popular

 

Criado em 2020-07-30 14:43:29

A verdade nua e crua resulta em filhos, não necessariamente em liberdade

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Na primeira conferência de imprensa após a decisão do ministro Edson Fachin, que anulou as condenações que sofreu na República de Curitiba, o Lula dissertou sobre a verdade e o papel da imprensa, hoje reduzido a pixels em monitores de vídeo.

A fala de Lula provocou acirrados debates filosóficos país afora. O que é a verdade? O que é a liberdade?

Meu neto de 11 anos me explicou:

Essas são as duas questões genéticas, inaugurais da Filosofia.

Tales de Mileto (624 a.C. / 546 a.C.) procurava a verdade olhando as nuvens quando caiu no fundo de um poço, onde ficou preso.

Gritou por socorro e atraiu uma moça que passava por perto.

Antes de soltá-lo, a moça o questionou sobre a natureza da verdade.

No desenrolar da conversa, chamada dois séculos depois de "diálogo socrático", ambos chegaram à conclusão de que o preço da liberdade é a eterna vigilância.

Se você não olha por onde anda, perde a liberdade, foi a conclusão do casal. Essa é a verdade nua e crua!

A moça despiu Tales de suas vestes molhadas e essa operação o deixou com tesão, “boner” em inglês, com um ene só. Deu em casamento.

O casal teve uma renca de filhos e filhas e fundou uma academia de Filosofia.

Criado em 2021-03-10 21:52:06

Crônicas do Isolamento. Sabiás e cigarras

Luiz Philippe Torelly –

Não há evento mais esperado em Brasília, do que a chuva que sucede a seca. Moro aqui há 60 anos e sempre foi assim. O céu a partir do final de agosto vai se esbranquecendo, depois se acinzentando e finalmente acontece o milagre do renascimento.

Quase sempre chove em setembro, mas não muito. A chuva começa mesmo em outubro. Lá pelo dia de finados, já temos aquelas chuvas de dia inteiro. Aquelas que molham para valer, que recarregam os rios e mananciais, que permitem a semeadura e que trazem o verdor, uma temperatura agradável e flores. Muitas flores.

Este ano tivemos chuva em setembro. Foi um alívio! Cumpriu-se o ciclo habitual e a primavera se instala. Porém, após dois dias de chuva, o calor começou a aumentar, o verde que estava querendo vir, desapareceu, e a seca voltou. Voltou intensa com a mais alta temperatura já ocorrida aqui no planalto: 37,7º.

Este ano exibiu para os brasileiros com toda força, a verdade das mudanças climáticas: incêndios por toda a parte, muito calor, poluição e muito carbono na atmosfera. A natureza adverte, mas os homens dão de ombros e continuam em sua luta contra a natureza. Rumo à morte e à destruição.

Há uns 15 dias que cigarras e sabiás cantam desesperadamente chamando a chuva. Enquanto escrevo ouço seus apitos e cantorias na dança pela vida. E a chuva teima em não vir. Renitente, resiste ao nosso clamor ancestral. Dá sinais, mas não dá as caras.

A espera da chuva é a espera de dias melhores, mais agradáveis e amenos. É o que também esperamos do Brasil, seco de ideias e de homens. Ao invés da chuva, do verde, da esperança, o que ouvimos é um ranger odioso, impropérios e intolerância, subserviência e medo, um genocídio que se tornou silencioso, uma indiferença com a vida e com o futuro.

Que triste país se transformou o Brasil.

Criado em 2020-10-14 00:34:32

Concerto de gaitas agita o 36º Ferrock neste sábado

Quatro gaitistas e outros convidados levarão o blues para o 36º Festival Revolução e Rock (Ferrock) até o mês de dezembro, com programação on-line e gratuita. A programação desta edição ocorre neste sábado (13/11), a partir das 19h. O Concerto de Gaitas conta com a participação de Paulo Chapa, Yan Amaral Engelke, Cisso Cerqueira e Ricardo Serpa. Diante das restrições impostas pela pandemia, o evento é transmitido on-line, via YouTube e Facebook.

Os quatro gaitistas que comandarão o concerto são de Brasília. Paulo Chapa, além de gaitista, é compositor, poeta, letrista, produtor cultural, e já tocou em várias bandas da cidade. Yan Amaral Engelke iniciou sua carreira musical com a banda Headphones em 2014, atualmente faz parte do projeto Twelve Bar, que reúne blues e rock. É membro do Movimento BsBlues e trabalha pelo fortalecimento do gênero musical no Distrito Federal.

Cisso Cerqueira é gaitista autodidata e iniciou a carreira em Petrópolis. Tocou com vários músicos e formou duo com o gaitista pioneiro da gaita blues no Brasil, o Zé da Gaita, além de acompanhar o cantor e compositor Dinho Ouro Preto em 1994.  Em Brasília, ministrou aulas em escolas de música e em 2016 fundou a Cisso Cerqueira Blues Band. E Ricardo Serpa, também autodidata, tocou em várias bandas da cidade como CrocoDilloGang (Dillo d'Araújo), Made in Blues, Bartô Blues Band, entre outras. Hoje, é um dos líderes da Banda Conexão Chicago. Também é um dos fundadores do Movimento BsBlues.

Segundo Ari de Barros, um dos fundadores do Ferrock, o público que acompanhar a live deste sábado pode esperar uma noite de muito blues. “Teremos 4 gaitistas experientes e talentosos no palco. Vamos contar, inclusive, com dois convidados, Humberto Viana, mais conhecido como Betão (guitarrista da banda Atacama) e Leo di Bola (guitarrista da Brazilian Blues Band). Será um grande concerto e os amantes do blues vão poder se deliciar.”

Tradição e pioneirismo

"Com a missão de oferecer ao público atividades socioculturais, lazer, diversão e informação, o Ferrock atribui seu sucesso ao fato de usar a música para abordar temas sociais que precisam ser debatidos e refletidos em conjunto. Os shows musicais já arrecadaram, em média, 3 toneladas de alimentos não perecíveis por festival junto a um público estimado em mais de 160 mil pessoas em todos estes anos" dizem os organizadores do evento.

Nomes consagrados como, Sepultura Ira, Ratos de Porão, Made in Brazil, O Terço, Cólera, Blues Etílicos, Krisiun, sem deixar de mencionar as atrações internacionais como JJ Jackson (USA), Napalm Death (Inglaterra), Suffocation (USA) e Johnny Winter (USA), Uriah Heep (Inglaterra) são apenas algumas das atrações que já passaram pelos palcos do Ferrock.
____________________
Serviço:
36ª edição do Festival Ferrock – On-line
Quando: 13/11, 20/11 e 04/12
Local: https://www.youtube.com/user/festivalferrock
https:/www.facebook.com/FestivalFerrock/
Ingresso: Gratuito

Confira a programação completa:
13 de novembro – 19h - Concerto de Gaitas
20 de novembro – 19h - Concerto de Guitarras
04 de dezembro – 19h - Concerto de Rabecas da Orquestra de Rabecas do Cerrado

Criado em 2021-11-09 23:42:04

Politécnicos da USP defendem impeachment de Bolsonaro

Um abaixo assinado circula na internet, com quase mil assinaturas, escrito por membros da comunidade da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). O documento defende o impeachment do presidente Jair Bolsonaro por estar à frente de um governo que despreza a ciência e o papel do Estado como gestor da crise sanitária que já matou mais de 215 mil brasileiros.

Os politécnicos da USP ressaltam a maneira debochada de Bolsonaro tratar as vítimas da Covid-19, o seu desprezo em relação à situação financeira das famílias, empresas, prefeituras e governos estaduais. “Os profissionais do SUS são colocados em risco, e ao mesmo tempo, se veem sem suporte e sem qualquer respeito por seu conhecimento acumulado e provado”, diz o documento.

“Bolsonaro sabota a engenharia brasileira e prefere estimular práticas predatórias na agropecuária e na mineração, associando-se à destruição provocada pelas queimadas e pela expansão descontrolada das fronteiras agrícolas, inclusive sobre áreas indígenas e de proteção ambiental”.

Por fim, os politécnicos se associam a todos os democratas, deixam pública a sua “indignação e exigem o impedimento do presidente Jair Bolsonaro, por comprovada soma de crimes de responsabilidade, devidamente apontados nas dezenas de petições já protocoladas no Congresso Nacional”.

A seguir, a íntegra do documento:

“Nós, membros da comunidade da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), sabedores de nossos deveres públicos em relação à excelência do ensino, da pesquisa e da prática profissional, consideramos que o conhecimento científico, a produção tecnológica e o exercício cotidiano da Engenharia devem estar a serviço do desenvolvimento nacional e da contínua melhoria do padrão de vida dos brasileiros.

Percebemos que este é um momento de extrema gravidade, em que a Nação corre sérios riscos e o povo sofre intensamente. São anos seguidos de encolhimento da capacidade produtiva do país e de acentuada desindustrialização. A infraestrutura do país está abandonada e obsoleta, sem que os investimentos alcancem sequer sua taxa de depreciação. O próprio conceito vital de planejamento foi substituído pelo casuísmo e pelo improviso.

A pesquisa tecnológica sofre drásticos cortes e contingenciamentos de verbas dos órgãos de financiamento e das empresas públicas. Estamos mergulhados na trágica carência de insumos necessários para a produção de vacinas. Esse drama se sucede a crises recentes na oferta de máscaras, respiradores, ventiladores, seringas e vidraria. Ficamos reféns de uma disputa internacional por tais produtos, agravada por movimentos diplomáticos descolados do interesse nacional.

A Engenharia brasileira tem capacidade de contribuir decisivamente para o desenvolvimento sustentável em todas as frentes produtivas e o Brasil pode ser modelo mundial em áreas como as de energias renováveis, materiais “verdes” e produção agrícola ecologicamente adequada.

Essa capacidade, no entanto, é sabotada por um governo que prefere estimular práticas predatórias na agropecuária e na mineração, associando-se à destruição provocada pelas queimadas e pela expansão descontrolada das fronteiras agrícolas, inclusive sobre áreas indígenas e de proteção ambiental.

A pandemia de Covid-19 escancarou esses descaminhos. O desprezo à Ciência e ao papel do Estado como gestor da crise gera situações de descalabro e mata centenas de milhares de pessoas. A subnotificação de mortes por Covid, a desinformação deliberada, as múltiplas tentativas de calar a racionalidade, as abertas ameaças à Democracia e aos demais Poderes são marcas de um governo que consegue tornar a pandemia ainda mais letal, intensificando a desorganização da sociedade. Há deboche sobre os efeitos da doença, desprezo em relação à situação financeira das famílias, empresas, prefeituras e governos estaduais. Os profissionais do SUS são colocados em risco, e ao mesmo tempo, se veem sem suporte e sem qualquer respeito por seu conhecimento acumulado e provado.

São mais de 215 mil mortos. Quase 70 milhões de brasileiras e brasileiros, que escaparam da fome graças ao auxílio emergencial, aprovado pelo Congresso a despeito da feroz oposição inicial do governo. É imprescindível que o suporte financeiro a essas famílias se mantenha para permitir o isolamento social necessário à redução da contaminação até que a vacinação generalizada seja uma realidade. A conquista civilizatória que foi o desenvolvimento de vacinas eficazes e seguras em tempo recorde precisa se converter, urgentemente, em proteção efetiva das pessoas, tirando proveito da exitosa experiência nacional em programas de vacinação em massa.

Nada disso é possível quando o presidente da República age no sentido oposto. É por nossa responsabilidade, como politécnicos e brasileiros, que nos associamos a todos os democratas para deixar pública a nossa indignação e exigir o impedimento do Sr. Jair Messias Bolsonaro, nos termos da nossa Constituição e das nossas Leis, por comprovada soma de crimes de responsabilidade, devidamente apontados nas dezenas de petições já protocoladas no Congresso Nacional”.

Link para assinatura: https://forms.gle/DcSNrGHUF1pnbm7YA

 

Criado em 2021-01-25 02:21:30

Direitos Humanos em 2 minutos - Ep #8

O gasto com a internação das vítimas de acidentes de trânsito em hospitais da rede pública é cerca de 200 milhões de reais ao ano, somente no Distrito Federal. O maior número de mortes é de pedestres e ciclistas. (Fonte: DataSUS, 2015; Inesc, 2015).

Direitos Humanos em 2 minutos (DH2) reúne artistas, realizadores e ativistas para explicar, de maneira lúdica e acessível, temas complexos como racismo, violência de gênero, justiça fiscal, migração, mobilidade urbana e mudanças climáticas, entre outros.

São 12 filmes curtos, com os atores Iara Pietricovsky e Alexandre Ribondi em cena – os dois dividem também a direção do projeto. Os textos são de Ribondi.

Foi elaborada também uma cartilha sobre direitos humanos, com os principais conceitos e legislações relativas aos temas apresentados no projeto. Esperamos que a cartilha seja uma fonte para professores, alunos e movimentos sociais interessados em discutir direitos humanos de maneira transformadora.

Saiba mais em dh2minutos.org

Criado em 2016-09-14 17:10:00

A estática do silêncio

Maria Lúcia Verdi -

O que se pode dizer da rosa
do perfume da rosa
 frente ao cheiro destas mortes
daquelas mortes
Mortes próximas e distantes
O que se pode dizer do azul
frente ao cinza, ao negro,
ao putrefato horizonte de sangue
O que se pode dizer do homem
da linguagem do homem
frente a violência sem rosto
O que se pode ainda dizer
frente a cada cotidiana
incansável morte


Pedaços de corpos
de todas as cores
a assombrar as noites e os dias
aqui, lá, por toda parte
O som de vozes caladas
a se escutar no vento
(que terão dito essas vozes
sobre amor, luta,  sonhos
- palavras encapsuladas para sempre
na estática do silêncio
no ruído peculiar de um certo
silêncio

Criado em 2017-08-13 03:40:25

Um novo partido de esquerda?

Romário Schettino –

Por que não? A aproximação do PSB de Carlos Roberto Siqueira de Barros com o PCdoB de Flávio Dino pode significar uma novidade importante no cenário político brasileiro. Nada a ver com teorias da conspiração contra o PT. É preciso encarar os fatos. Um partido de esquerda razoavelmente forte poderá ajudar o país a enfrentar a extrema direita que se organiza no governo Bolsonaro, de olho na reeleição. Servirá também para neutralizar o falso centro, que não passa de uma reunião de oportunistas fisiológicos e a direita empresarial, que só vê seus próprios interesses.

O que importa é saber como enfrentar o neofascismo instalado no Palácio do Planalto com direito a um “gabinete do ódio” oficial.

O PT é um grande partido, o maior da América Latina. É um partido que tem história de lutas e o que melhor organizou as camadas mais pobres da população. E é também, por isso mesmo, o que mais sofre perseguição das elites do atraso. Desde que começou a eleger deputados, senadores, vereadores, prefeitos, governadores e presidentes da República, o PT virou alvo preferido daqueles que temem o sucesso de suas políticas de inclusão social que tiraram milhões de cidadãos da extrema pobreza.

O PT foi criado por uma frente onde cabiam todas as ideologias progressistas, socialistas, comunistas, trabalhistas. Esse arranjo contribuiu para a formação de núcleos de base, tornou os sindicatos mais combativos, e promoveu o movimento social com o apoio de igrejas igualmente progressistas. O PT também rompeu como chamado centralismo democrático do velho Partidão stalinista.

Nesse movimento, o partido de Lula unificou todos os que lutaram contra a ditadura militar e negociou com a burguesia o que tinha de negociar para se manter no governo federal por quase quinze anos. Nem é preciso repetir aqui o legado petista na proteção social, na economia - deixou carca de US$ 300 bilhões em reservas cambiais -, e no número de programas e projetos que ajudaram no enfrentamento da pandemia do coronavírus, inclusive com a estruturação do SUS.

Além de uma união de forças, o PT tinha, e tem, Lula como sua expressão maior, reconhecida internacionalmente. Não foi por acaso que Lula assinou a Carta aos Brasileiros, um documento necessário, embora não suficiente para conter a ira que viria se abater logo em seguida sobre o PT e o governo Dilma Rousseff.  

A avalanche de ataques despejados diariamente contra Lula e os petistas tomou conta do noticiário de tal forma, que nas eleições municipais de 2016 o PT sentiu o peso das derrotas - mas não o da sua morte.

O lavajatismo e o golpismo parlamentar levaram Bolsonaro a fazer a festa em 2018, com a entrega do governo a militares de pijama e seus aliados empresariais. Hoje, estamos vendo a catástrofe que significaram o impeachment sem crime de responsabilidade e a prisão de Lula.

Apesar de todos os ataques, o PT tem a maior bancada na Câmara, quatro governadores, e é o principal partido da oposição. Mas uma nova disputa presidencial exigirá reacomodação das forças políticas, especialmente as de esquerda. As alianças nas eleições municipais deste ano ajudarão a definir 2022, mas nada impede que se iniciem as novas conversas.

Flávio Dino é um governador do PCdoB bastante respeitado, tem prestígio e terá peso importante no embate político, mas seu partido é pequeno, e o Maranhão tem pouca representatividade nacional. A fusão do PCdoB com o PSB criaria um partido mais forte e com razoável poder de intervenção política.

O PT não deveria se opor a isso, nem teria por quê. O seu hegemonismo na oposição não lhe dá esse poder. Nem pode atribuir a seus inimigos, ou a adversários, a existência de uma atual trama para enfraquecê-lo ou desgastá-lo perante a opinião pública. Aliás, isso não é novidade, sempre foi assim desde o seu nascimento, há 40 anos. O PT também não precisa ser perdoado pelas Organizações Globo, outra bobagem atribuída a um de seus colunistas. A grande imprensa, de modo geral, não engole, nunca engoliu o PT essa é a única verdade.

O novo partido de esquerda, se vier, só fará sentido se for destinado a fortalecer a luta dos trabalhadores, dos movimentos sociais, das minorias. O PT que se reorganize para continuar seu papel de vanguarda no combate ao combalido neoliberalismo e às forças do retrocesso. O Partido dos Trabalhadores continua forte com seus 4 governadores (RN, CE, PI, BA), 53 deputados federais -  a maior bancada na Câmara - e seis senadores.

O PSB, com 3 governadores (PE, ES, PB), 31 deputados, 2 senadores e 2 prefeitos de capitais (BH e Recife), unindo-se ao governador do Maranhão e aos 8 deputados federais do PCdoB, pode constituir um novo partido apto a enfrentar a cláusula de barreira nas próximas eleições e, principalmente, ajudar na derrota de Bolsonaro. Flávio Dino escreveu que é preciso mirar-se no exemplo de Nelson Mandela, que priorizou o combate ao apartheid, uniu forças antagônicas - e venceu.

Flávio Dino tem razão: "É hora de olhar para o futuro” e deixar o passado para a história.

Criado em 2020-07-24 23:23:27

Fluidos de março

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Nas últimas semanas muitos conhecidos e conhecidas me contaram ter dificuldades para entender a conjuntura, demasiadamente confusa, arrevesada, caótica, segundo suas expressões.

Uma dessas pessoas confessou que a situação, como a percebe, chega a ser surreal. “O tempo parece escorrer na minha frente como espaguete que passa do ponto, molengo”, disse.

Concordei que há uma boa dose de balbúrdia nos dias que antecedem os idos de março, mas ponderei que o diagnóstico é perfeitamente claro.

Conhecemos as causas do pandemônio, embora sem poder determinar com precisão o prognóstico, por falta do remédio ou, quem sabe, do veneno mais adequado para enfrentá-lo.

A amiga que disse enxergar o próprio absurdo eu tentei convencer de que não haveria saída possível para um quadro que fosse ilógico. A crise, insisti, é real, concreta, tem causas determinadas, e por isso alguma solução surgirá, necessariamente.

Em vez de esclarecer e acalentar, parece que a minha serena reflexão desnorteou e angustiou ainda mais meus confidentes. Soube que um deles sofreu uma crise de pânico. Outra decidiu antecipar a redação do testamento. Um terceiro alugou por seis meses uma casa de praia num trecho quase selvagem do litoral sul da Bahia.

A maior surpresa me veio da aprendiz de Salvador Dalí. Soube que ela andou fuçando no site do Mercado Livre preços de zarabatanas profissionais.

Criado em 2021-03-08 14:26:06

Crônicas do isolamento. Rosental, o cozinheiro de JK

Luiz Philippe Torelly (*) –

Embora angustiado e triste, procuro escapar de nossa insólita realidade, para preservar a sanidade. Como já vivi tempos bem melhores, mergulho na memória para encontrar felicidade. Desde criança aprendi com meu pai, que essa palavra mágica quase sempre tem a ver com bares e restaurantes. E assim fiz a minha vida.

Quem mora há muito tempo em Brasília, com certeza já ouviu falar do Rosental, ex-cozinheiro do festeiro JK, tão simpático e mineiro como ele. Nosso chef que antes trabalhava no Hotel Quitandinha, em Petrópolis, veio nos primórdios da capital para dar um tom brasileiro à cozinha do Palácio do Alvorada. Depois de sua passagem pelo governo tocou vários restaurantes, o último deles que levava seu nome, era na Vila Planalto e ele esteve à frente do negócio até sua morte em 2005.

O almoço de sábado sempre foi para mim o melhor acontecimento da semana. E o nosso restaurante oferecia um ambiente despojado, mas uma cozinha de primeira. Pode-se dizer que o cardápio era pan-brasileiro, tinha de tudo: rabada, dobradinha, feijoada, caruru, cozido, pato no tucupi, lombo com tutu, torresmo, cerveja gelada e uma boa pinga. A sadia boemia de Brasília frequentava o local especialmente nos finais de semana.

Além de cozinheiro e de ter um nome de hebreu, Rosental era babalaô. Às sextas se vestia de branco, andava sempre com umas guias e possuía um oratório bem eclético nos fundos do restaurante, onde tinha São Benedito, Santa Bárbara, Santa Efigênia, Sagrado Coração de Jesus, Iemanjá e tudo o mais.

Certo sábado, há uns 20 anos, rumamos eu e Ricardo Pedreira para lá. Outros amigos e amigas iam nos encontrar mais tarde. Como minha filha Bruna dizia, “a turma da pesada”. Iniciados os trabalhos, com o restaurante já cheio, emerge da cozinha o nosso personagem. Como de hábito veio conversar com os fregueses e esbanjar simpatia. Em nossa mesa demorou um pouco mais e, ao sair, me pediu que o acompanhasse. Fiquei cismado. Falei bobagem? Pendurei alguma conta e não paguei? Passando a mão em meu ombro, ele me conduziu até o seu oratório. Lá chegando, identificou os orixás e santos e orou. Ao final, tocou em minha barriga então já proeminente e disse: você precisa vir para o axé, você tem poder.

Voltei à mesa meio atônito, pois ele me fez a revelação em tom grave e solene. Àquela altura meus companheiros, todos bêbados, estavam curiosíssimos para saber o teor da conversa. Eu estava embevecido com a distinção, minimizei o acontecimento e só relatei a revelação mais tarde, no segundo passo da via crucis. Ruminei nossa conversa por um bom tempo. Depois ela foi se apagando, mas ficou a delicadeza eterna do gesto e do convite.
____________________
Nota do editor: Rosental Ramos da Silva nasceu no dia 5 de maio de 1926 na cidade de Muriaé, zona da mata de Minas Gerais. Os pais eram agricultores e ele, que se tornou cozinheiro, aprendeu o ofício dentro de casa, enquanto assistia a mãe entre os pratos e panelas. Depois, já famoso nos restaurantes mais badalados do Rio de Janeiro, conheceu os mais importantes políticos do país, inclusive Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Em seu depoimento ao Museu da Pessoa, disse que foi convidado pelo “presidente Bossa Nova” a participar de banquetes durante a construção da nova Capital da República. Rosental faleceu no dia 6 de setembro de 2005, aos 79 anos.
_______________
(*) Luiz Philippe Torelly, arquiteto e urbanista.

Criado em 2020-10-09 01:59:11

Projeto Audiodrama no CCBB-Brasília

De 11 novembro a 12 de dezembro, no Centro Cultural Banco do Brasil Brasília (CCBB-Brasília), histórias, dramas e experiências reunirão artistas como Fausto Fawcett, Fernanda Takai, Irmãos Guimarães, Felipe Hirsch, Jocy de Oliveira, grupo multimídia Chelpa Ferro e muitos outros. Esse é o Projeto Audiodrama inédito que apresenta espetáculos sonoros inventivos em diversas vertentes artísticas.

Sessões diárias, de terça a domingo, a partir das 11h nos jardins, e de 16h às 20h, na Galeria 4 do CCBB-Brasília. A entrada é franca, mas será necessário retirar ingressos. Os ingressos devem ser retirados no site www.bb.com.br/cultura e no site ou app da Eventim, no dia da sessão, a partir das 9h. Todos os equipamentos utilizados durante as apresentações serão devidamente higienizados a cada sessão. Serão respeitadas todas as normas de segurança com relação à pandemia Covid-19, como distanciamento social e uso de máscaras.

Os artistas convidados apresentarão criações inventivas e convidarão o espectador a deixar-se levar pelo som, pelas palavras, pela invenção.

A linguagem, como se sabe, é produto da cultura humana. Durante milênios, todo o conhecimento de nossos ancestrais foi transmitido de forma oral. É icônica a imagem dos antepassados do homem moderno relatando a seu grupo fatos e histórias ao redor da fogueira. Ainda hoje, são as histórias narradas pelos pais aos filhos pequenos que primeiro despertam a imaginação das crianças. E nestes tempos de isolamento social, foi ela, a oralidade, que mais uma vez se mostrou insubstituível como veículo de informação, educação, distração, em formatos renovados como podcasts, que inovaram o hábito de escutar.

A iniciativa tem um formato inédito, idealizado e com curadoria do produtor cultural Cesar Augusto e do diretor artístico e curador de música experimental e de arte sonora Chico Dub.

Audiodrama vai apresentar 4 peças inéditas que utilizam o corpo sonoro (voz, som, efeitos) como principal recurso cênico. Duas das obras serão apresentadas na Galeria 4, alternando-se em horários que vão das 16h às 20h. A lotação da Galeria é de 52 pessoas por sessão. Outros dois trabalhos promoverão experiências individuais, através do uso de players e fones de ouvido, com sessões que percorrem diferentes espaços do CCBB e vão das 11h às 18h.

Instalações sonoras

Os trabalhos são desenvolvidos por duplas de artistas que transitam por diferentes formas de expressão artística. A ideia que inspirou o projeto foi misturar profissionais da escrita com artistas sonoros e músicos experimentais, em trabalhos que não incluem encenação dramática ao vivo.

A proposta é oferecer conteúdos gravados, em ambientes internos e externos, utilizando recursos sonoros variados, indo desde os alto falantes em ambientes fechados – que irão “espacializar” o som no local, tornando a experiência única de acordo com o lugar de cada membro da plateia –, até propostas para serem experimentadas individualmente, em espaços distintos, convidando o público a percorrer o CCBB e seus jardins enquanto a história é contada

Para tanto, os curadores selecionaram quatro duplas de artistas, que conduzirão o público por diferentes linguagens, trazendo características do rádio, do teatro, da radionovela, da arte sonora, da sonoplastia, da performance e da palavra falada. O compositor, escritor, dramaturgo, jornalista Fausto Fawcett se une ao coletivo artístico multimídia Chelpa Ferro, formado pelos artistas Luiz Zerbini, Barrão e Sergio Mekler, para compor o universo da obra Pesadelo Ambicioso. Outra dupla inclui o cineasta e diretor teatral Felipe Hirsch e o duo de música eletrônica Os Fita (que reúne os produtores Abel Duarte e Cainã Bomilcar) responsáveis pela criação de Fantasmagoria nº3.

Os parceiros de dramaturgia Jefferson Miranda e Francisco Ohana se somam à compositora, pianista e escritora Jocy de Oliveira, na criação de Dura, sobre uma mulher que se transforma em pedra. E o coletivo Irmãos Guimarães (formado por Adriano e Fernando Guimarães) se encontra com o duo fundador da banda Pato Fu, Fernanda Takai e John Ulhoa, para conceber “O herói como batata”, inspirado em ensaio da célebre autora norte-americana Ursula K. Le Guin.

As duplas Fausto Fawcett x Chelpa Ferro e Felipe Hirsch x Os Fita irão apresentar seus trabalhos em sessões diárias na Galeria 4 do CCBB, através de um desenho sonoro formado por 18 caixas de som espalhadas em volta do público e no entorno do Centro Cultural. As outras duplas, compostas por Jefferson Miranda & Francisco Ohana x Jocy de Oliveira e Irmãos Guimarães x Fernanda Takai & John Ulhoa, irão desenvolver histórias site specific, interagindo com o jardim externo do CCBB. Especificamente neste formato, as histórias serão experimentadas individualmente pelo público através de players e headphones que serão distribuídos gratuitamente.

Segundo o idealizador e curador Cesar Augusto, Audiodrama nasce de um impulso anterior à pandemia, mas que está em perfeita sintonia com o momento que a sociedade atravessa. “Sabemos que a arte e a cultura têm o poder de curar, nos dar alento e fôlego em todos os momentos necessários, independentemente das crises que possam surgir. Neste sentido, este encontro entre a cena teatral, sustentada pela dramaturgia e composição cênica, com a música, e suas múltiplas manifestações, se estabelece como um novo horizonte a se descortinar”, justifica.

O projeto revela um novo patamar, dotado de muitas possibilidades da experiência artística. “O público poderá vivenciar, entre vozes, cadências sonoras e trilhas sonoras e visuais, um universo em construção, preparado, especialmente, por artistas ícones da cena contemporânea brasileira”, resume Cesar Augusto.

Para Chico Dub, que divide a curadoria e idealização, a proposta traz uma quebra de paradigmas à medida em que apresenta a missão de desafiar a percepção do público. “Vivemos num mundo quase que totalmente visual e por isso acreditamos ser fundamental acordar os ouvidos. Audiodrama, na verdade, reflete uma tendência contemporânea em que o foco do visual para o auditivo vem mudando gradativamente ao longo dos anos”, destaca.

Programação

Galeria 4
Pesadelo Ambicioso
(Fausto Fawcett e Chelpa Ferro)
Sessões de terça a domingo, às 16h e às 19hLotação: 52 pessoas por sessão
Classificação: 18 anos
Sinopse: A obra alterna diálogos, narrações, rápidas digressões filosóficas, confissões e devaneios a partir da inquietação que assola nossas relações sociais, onde as expectativas, os sistemas nervosos, os ambientes urbanos e os pensamentos dentro de cada um estão cada vez mais agulhados, atiçados, nublados e provocados por interferências e ruídos mentais e emocionais. "Pesadelo Ambicioso" é um drama lírico, épico, cômico e sonoro.

Fantasmagoria nº3 (Felipe Hirsch e Os Fita)
Sessões de terça a domingo, às 17h e às 20h
Lotação: 52 pessoas por sessão
Classificação: 12 anos
Sinopse: Uma fantasmagoria sonora que se manifesta, acresce e se dissipa; ecos de tempos e espaços distantes; alusão dos constituidores dos sentidos do artista, transformada em composição; rumor e ressonância da história cultural de um país; reminiscências e resíduos.

Jardim

O herói como batata (Irmãos Guimarães com Fernanda Takai & John Ulhoa)
Sessões contínuas, de terça a domingo, das 11h às 18h
Experimentação individual através de players e fones de ouvido.
Classificação: 12 anos
Sinopse: Em grande parte, as narrativas ocidentais foram, e são, construídas tendo a figura do herói como grande protagonista. Acompanhamos suas ações, muitas vezes violentas, na conquista de seus objetivos. A partir das ideias da escritora norte-americana Ursula Le Guin, O herói como batata propõe diferentes formas de construir e relatar histórias, ao acompanhar os acontecimentos ocorridos com outras personagens - como as mulheres, as mães e seus filhos.

Dura (Jefferson Miranda & Francisco Ohana com Jocy de Oliveira)
Sessões contínuas, de terça a domingo, das 11h às 18h
Experimentação individual através de players e fones de ouvido.
Classificação: 12 anos
Sinopse: Fábula sobre uma mulher que se transforma em pedra. Ao longo do percurso no jardim do CCBB, o público é convidado a acompanhar a trajetória de Aura, passeando por suas emoções, seu encontro com a natureza e com as mudanças inerentes à vida. Árida, mas também ventilada, a experiência quer estimular a imaginação em tempos de doença e desesperança.

Os artistas

Chelpa Ferro
Grupo multimídia criado em 1995 pelo pintor Luiz Zerbini, o escultor Barrão e o editor de cinema Sergio Mekler. Seus integrantes, residentes no Rio de Janeiro e com renomadas trajetórias profissionais, se inspiram em experiências pessoais e exploram possibilidades de linguagem durante as criações em conjunto. O trio se destaca pela produção de arte contemporânea brasileira ao utilizar elementos sonoros justapostos aos visuais em suas obras. A abordagem interdisciplinar do grupo é revelada pela aparente desorganização, meticulosamente orquestrada, criando espaço de fronteira entre os objetos articulados, o público e o som – importante matéria de suas performances, instalações e shows. Chelpa Ferro participou de exposições individuais como “Visual Sound” (2011), no The Aldrich Contemporary Museum (EUA), e “Acusma” (2009), no Sesc Paulista; e coletivas, a exemplo do Panorama da Arte Brasileira (2001 e 2007), no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM); a 51ª Bienal de Veneza (Itália, 2005); e as 25ª e 26ª Bienal de São Paulo (2002 e 2004). O grupo foi indicado ao prêmio Nam June Paik, Dusseldorf, Alemanha (2011).

Fausto Fawcett
Jornalista, compositor, cantor e escritor, Fausto Fawcett apareceu na noite carioca dos anos 80 com seus esquetes misturando teatro, música e poesia. Gravou os discos “Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros” (1987), “Império dos Sentidos” (1989) e “Fausto Fawcett e Falange Moulin Rouge” (1993). Teve grande êxito nas rádios com a canção “Kátia Flávia – A Godiva do Irajá́” (1987), em parceria com Laufer. Presente na trilha sonora da novela global “O Outro” e do filme franco-britânico “Lua de Fel” (1992), de Roman Polanski, a canção foi regravada dez anos depois por Fernanda Abreu. Foi coautor do outro sucesso de Fernanda Abreu “Rio 40 Graus”, também em parceria com Laufer. Sintonizado com a estética cyberpunk e pornô̂ de seus trabalhos musicais, escreveu os livros “Santa Clara Poltergeist”, “Básico Instinto”, “Copacabana Lua Cheia”, “Favelost” e “Pororoca Rave”.

Felipe Hirsch
Um dos fundadores da Sutil Cia. de Teatro, criada em 1993, ao lado do ator Guilherme Weber e de outros artistas de Curitiba, Hirsch é um dos mais celebrados encenadores brasileiros. Por cerca de 20 anos, assinou a direção dos espetáculos do grupo. Suas montagens incluem a premiada “A Vida é Cheia de Som & Fúria”, “Avenida Dropsie”, “Estou te Escrevendo de um País Distante”, “Os Solitários” e “Pterodátilos”. Em 2013, fundou a Ultralíricos, companhia com a qual realizou o projeto “Puzzle”, “A Tragédia Latino-Americana e A Comédia Latino-Americana” e “Selvageria”, espetáculos que refletem os últimos anos no Brasil. No cinema e na televisão, Hirsch dirigiu a minissérie “A Menina sem Qualidades” e os longas “Insolação”, em parceria com Daniela Thomas, e “Severina”.

Os Fita
Duo formado por Abel Duarte e Cainã Bomilcar, músicos e produtores que vivem e atuam no Rio de Janeiro. Juntos participam do quarteto de arte sonora e música experimental Rádio Lixo e ao lado do artista carioca Tantão formam o trio de música eletrônica Tantão e Os Fita. Recentemente, a dupla produziu remixes para as artistas Valesuchi e Paula Rebellato, além de colaborar na produção do próximo disco da banda Planet Hemp. Com o Tantão e Os Fita, lançaram os álbuns “Espectro” (2017), “Drama” (2019) e “Piorou” (2020) e o EP “Dois Leões” (2020). Como produtores e compositores do projeto, a dupla desenvolve sua identidade sonora a partir da mistura de procedimentos da música experimental e elementos da música de pista na produção de timbres ruidosos, ritmos complexos e uma atmosfera catártica. Participaram de importantes festivais no Brasil, como o Kinobeat, Eletronika, Red Bull Music Festival, Dogma Festival e Novas Frequências, além de shows em festas como a Mamba Negra, Coro Fundo e Sangra Muta. Recentemente participaram da série “Patch Notes”, da Fact Magazine.

Irmãos Guimarães
O Coletivo Irmãos Guimarães surgiu como consequência da pesquisa desenvolvida, ao longo dos anos, por Adriano e Fernando Guimarães. Orientada sempre para a interação entre vozes diversas, ela traz, como resultado, projetos transdisciplinares que unem teatro, performance, artes visuais, literatura, teoria da arte, filosofia e outros campos que surgem a partir das questões que eles nos propõem. O trabalho do coletivo é baseado em projetos continuados, nos quais o diálogo com o outro, sejam criadores, pesquisadores ou o público, é o princípio norteador. Em uma trajetória de mais de 20 anos de atuação, 17 foram dedicados ao mergulho investigativo e dialogal em torno da obra de Samuel Beckett. Pautado pela luz e pela respiração, dois elementos-chave na obra do dramaturgo irlandês, os Irmãos Guimarães ergueram uma multifacetada teatralogia beckettiana, formada por espetáculos teatrais, exposições, instalações, vídeos e performances.

Fernanda Takai & John Ulhoa
Fernanda e John são casados e, desde 1993, parceiros no Patu Fu, banda que construiu, ao longo dos anos, uma reputação como uma das mais criativas do rock nacional. Fernanda Takai é cantora, compositora e cronista. Vocalista da banda mineira há 28 anos, há 13 se lançou em carreira solo com repercussão nacional e internacional, chegando a gravar um CD de inéditas com o guitarrista Andy Summers (The Police), em 2012. Lançou 20 álbuns e 9 DVDs. Tem 4 discos de ouro e vendeu mais de um milhão de cópias. Artista multipremiada pela APCA, Grammy Latino, MTV Brasil, Multishow, Revista Bravo!, Prêmio da Música Brasileira, entre outros. Tem 4 livros publicados e conquistou recentemente um Prêmio Jabuti.

John Ulhoa é músico e produtor musical. Em 1982, fundou a banda Sexo Explícito. Em 1990, se mudou para São Paulo para poder se dedicar melhor à banda. Recebeu o prêmio de melhor guitarrista do ano (1989) pela crítica da Revista Bizz. Após produzir várias demos de bandas amigas, fundou em 1992 a banda Pato Fu, na qual compõe, toca guitarra, violão, cavaquinho, faz alguns vocais e as programações eletrônicas de teclados e samplers. O sucesso da banda o levou a criar um estúdio em sua própria residência, onde já trabalhou com Zélia Duncan, Arnaldo Baptista, Wonkavision e Érika Machado, dentre outros artistas.

Jefferson Miranda e Francisco Ohana
Jefferson Miranda é um multiartista brasileiro com doutorado em artes visuais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro/Chelsea College of Arts. Em 1989, criou a Cia Teatro Autônomo, que dirigiu até 2013. Desenvolve projetos nas artes visuais e cênicas, como diretor e designer, no Rio de Janeiro, Londres e, mais recentemente, Lisboa. Tem colaborado em alguns projetos em parceria com o dramaturgo Francisco Ohana em projetos como “Istambul Istambul”, trabalho apresentado em Lisboa (2019).

Francisco escreveu e idealizou o espetáculo “Bestas Urbanas” (2019) e supervisionou “Só Percebo que Estou Correndo Quando Vejo que Estou Caindo” (online), de Lane Lopes, em 2020. Autor de “Clash!”, dirigida por Cesar Augusto em 2017 e coautor de “Não Adianta Morrer”, dirigida por Diogo Liberano em 2018. Participou da terceira turma do núcleo de dramaturgia do Sesi-RJ em 2017. Sua dramaturgia “Escuta!” foi publicada em 2018 pela Editora Cobogó. Também foi artista participante do “Studio Cabaret Voltaire”, do Tempo_Festival, com mediação de Jefferson Miranda, em 2018.

Jocy de Oliveira
Compositora, autora, pianista, artista multimídia e cineasta, Jocy é pioneira de um trabalho multimídia no Brasil envolvendo música, teatro, textos, instalações, vídeo, cinema. Concebeu e dirigiu vários vídeos; compôs, roteirizou e dirigiu suas nove óperas apresentadas em diferentes países e distribuídas em DVD pelo selo internacional Naxos. Como compositora e pianista gravou 25 discos no Brasil, Inglaterra, EUA, Alemanha, Itália e no México, além de ter sido solista sob a direção de Stravinsky e ter executado as primeiras audições de Luciano Berio, John Cage, Xenakis, Cláudio Santoro.

Gravou a obra pianística de Messiaen pelo selo Naxos. Como escritora, publicou seis livros no Brasil, EUA e França. Seu livro “Diálogo com Cartas” (Edições SESI-SP) recebeu o Prêmio Jabuti e teve uma edição francesa pela Honoré Champion (Paris). Foi homenageada juntamente com Fernanda Montenegro pela Festa Literária de Paraty (2018), na qual participou como autora convidada. Também foi premiada pela Guggenheim Foundation e pela Rockefeller Foundation. Recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela UFRJ, é membro da Academia Brasileira de Música e mestre em Artes pela Washington University (EUA). Entre 2017 e 2019 escreveu o roteiro, compôs a música e dirigiu o longa-metragem “Liquid Voices – A História de Mathilda Segalescu”, concebido, simultaneamente, numa linguagem teatral-cinematográfica. A ópera multimídia para teatro estreou no Sesc São Paulo e a ópera em longa-metragem estreou em 2019, no London International Film Festival, no qual venceu o prêmio de melhor desenho de som. Em 2020 lançou a obra em streaming e o livro “Além do Roteiro”.

Os idealizadores

Cesar Augusto
Membro da Cia dos Atores desde a sua formação como ator e diretor, mantém há 15 anos, junto com seus parceiros, a SEDE DAS CIAS, espaço de criação e formação artística, localizado na Escadaria Selarón, na Lapa, uma das principais atrações turísticas do Rio de Janeiro. Foi curador no Instituto Galpão Gamboa, indicado ao prêmio Cesgranrio/2016. Dirige o TEMPO_FESTIVAL, Festival internacional no Rio de Janeiro, há 10 anos e foi diretor artístico da ocupação CÂMBIO, no Teatro Gláucio Gill e Teatro Café Pequeno, ambos indicados ao Prêmio APTR, Associação dos Produtores de Teatro RJ/2011 e 2012.

Foi idealizador da residência HOBRA – Holanda / Brasil, calendário cultural dos Jogos Olímpicos, sendo considerado um dos projetos mais expressivos durante o evento. Trabalhou em vários espetáculos de teatro ao longo de sua carreira como ator, em temporadas nacionais e internacionais, com sucesso de público e crítica especializada. Em 2017, foi agraciado pelo Prêmio APTR, categoria especial, pela multiplicidade de ações artísticas e, neste ano de 2021, ganhou com “Processo Julius Caesar” o prêmio APTR Teatro na categoria Espetáculo digital adaptado e editado.

Chico Dub
Diretor e curador do Festival Novas Frequências e membro do conselho consultivo da SIM (Semana Internacional de Música de São Paulo). Ex-curador do Centro Cultural São Paulo e gestor de projetos da fundação suíça para a cultura Pro Helvetia no contexto sul-americano, já realizou curadorias para:

In/Out Festival (digital, 2020-2021), OneBeat Residency (Estados Unidos, 2020-2021), Labverde - Imersão artística na Amazônia (Manaus, 2020), Virada Cultural (São Paulo, 2020), Silo - Arte e Latitude Rural (Rio, 2019), Videoex (Zurich, 2019), ArtSonica Residência Artística (Rio de Janeiro, 2019), Escuchar (Sonidos Visuales) (Buenos Aires, 2018), Red Bull Music Academy SP (2017), Revisitando Smetak (Rio, 2017), MAR - Museu de Arte do Rio de Janeiro (ciclo Margem, 2016), HOBRA - Residência Artística Holanda Brasil (Rio, 2016), Red Bull Music Pulso (SP, 2016), Dia da Música (Rio, 2015), Eletronika (BH, 2013-2015), SESI Cultura Digital (Rio, 2014-2015), World Stages Residency (Theatre Royal Stratford East, London), Cine-Seizure (Arnolfini - Centre for Contemporary Arts, Bristol, 2014), Festival Imersões (Rio, 2014), Sónar São Paulo (2012), além das séries Invasão Paraense e Invasão Baiana para os CCBBs de Brasília, SP e Rio (2012, 2014 e 2015). Dentre as exposições coletivas de arte sonora que realizou curadoria estão: "Canção Enigmática: relações entre arte e som nas coleções MAM Rio" (Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, 2019-2020); "Lado B: o disco de vinil na arte contemporânea brasileira" (Sesc Belenzinho, 2019); "Disco é Cultura" (Castelinho do Flamengo, 2017); e "Gambiarra Sonora" (Festspielhaus Hellerau, Dresden, Alemanha, 2016).
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Serviço:
Audiodrama
Local: Centro Cultural Banco do Brasil Brasília (CCBB Brasília)
Datas: de 11 de novembro a 12 de dezembro de 2021, de terça a domingo.
Horário: A partir das 11h, nos jardins, e das 16h às 20h, na Galeria 4 do CCBB Brasília
Ingressos: Devem ser retirados no site bb.com.br/cultura e no site ou app da Eventim, no dia da sessão, a partir das 9h.
Entrada gratuita.

Galeria 4
Lotação: 2 pessoas por sessão
- 'Pesadelo Ambicioso', de Fausto Fawcett & Chelpa Ferro
Classificação: 18 anos
Sessões às 16h e 19h 

- 'Fantasmagoria nº3', de Felipe Hirsch & Os Fita
Classificação: 12 anos
Sessões às 17h e 20h

Jardim
Experimentação individual através de players e fones de ouvido.
Classificação: 12 anos
Sessões contínuas das 11h às 18h
- 'Dura', de Jefferson Miranda, Francisco Ohana & Jocy de Oliveira
- 'O herói como batata', de Fernanda Takai, John Ulhoa & Irmãos Guimarães

Criado em 2021-10-27 22:58:39

Carreatas demonstram necessidade do impeachment de Bolsonaro

Grandes mobilizações neste sábado, 23/1, em várias capitais e cidades do interior do país levaram centenas de pessoas às ruas em carreatas acompanhadas de buzinaço. Manifestantes gritaram “Fora, Bolsonaro!” e Vacina, Já!", intensificando o debate sobre o impeachment diante da gravidade da pandemia e da gestão criminosa do governo em administrar a crise sanitária, que já matou mais de 215 mil brasileiros.

Em Brasília, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife mais de mil carros participaram da carreata em cada uma dessas cidades. Os protestos aconteceram também em centenas de cidades do interior de todos os estados. As carreatas foram transmitidas durante o dia inteiro pelas redes sociais.

Os brasileiros foram às ruas neste final de semana, ocupando as principais avenidas das cidades do país em protesto contra Bolsonaro e seu governo de morte, fome e desemprego. Em balanço preliminar da CUT, foram realizadas carreatas em 87 cidades, incluindo 24 capitais e o Distrito Federal, em defesa das vacinas, do auxílio emergencial, empregos e impeachment.

A manifestação em forma de carreata se deve à orientação dos organizadores, em respeito às regras de proteção sanitária. O protesto foi convocado pelos partidos de oposição, pelas frentes Brasil Sem Medo e Brasil Popular, CUT e demais centrais sindicais e entidades do movimento popular. Em algumas cidades, as carreatas foram acompanhadas por mobilizações de bicicletas e outros eventos simbólicos.

“Pelas buzinas, faixas e cartazes, nos carros de som, a mensagem foi de que somente sem Bolsonaro no comando do Brasil, o país poderá sobreviver aos próximos tempos”, registrou o site da CUT.

“Fora, Bolsonaro” foi o grito mais ouvido nas ruas, confirmando a queda de popularidade do atual presidente e a urgência do Congresso Nacional pautar o pedido de impeachment. O Partido dos Trabalhadores é autor de quatro dos 62 pedidos junto à Câmara dos Deputados. Além da luta nas ruas, o PT defende a imediata abertura do impeachment de Bolsonaro pela Câmara dos Deputados.

A reação popular confirmou pesquisa do Datafolha divulgada na sexta-feira (22/1) apontando a queda de popularidades de Bolsonaro. De acordo com a pesquisa, a minoria que considerava o governo bom ou ótimo está ainda menor. Caiu de 37% para 31%. A queda é a maior desde o início do governo de Bolsonaro.

Criado em 2021-01-23 22:48:02

Direitos Humanos em 2 minutos - Ep #9

O Brasil é o país que mais mata transexuais e travestis no mundo, uma média de 100 por ano. A homofobia não é considerada crime específico, e o Congresso Nacional engavetou o projeto de lei que prevê a tipificação. (Fonte: Secretaria de Direitos Humanos-SDH, 2012, e GGB, 2016).

Direitos Humanos em 2 minutos (DH2) reúne artistas, realizadores e ativistas para explicar, de maneira lúdica e acessível, temas complexos como racismo, violência de gênero, justiça fiscal, migração, mobilidade urbana e mudanças climáticas, entre outros.

São 12 filmes curtos, com os atores Iara Pietricovsky e Alexandre Ribondi em cena – os dois dividem também a direção do projeto. Os textos são de Ribondi.

Foi elaborada também uma cartilha sobre direitos humanos, com os principais conceitos e legislações relativas aos temas apresentados no projeto. Esperamos que a cartilha seja uma fonte para professores, alunos e movimentos sociais interessados em discutir direitos humanos de maneira transformadora.

Saiba mais em dh2minutos.org

Criado em 2016-09-13 18:00:00

Avenida Paulista, três da tarde, sábado

Maria Lucia Verdi -

Observo o andar do rapaz à frente, alto, muito magro, cabelos nos ombros. A este mendigo não consigo não dar esmola, penso, enquanto retiro a nota de dois (menos crack) enquanto me pede olhando-me nos olhos, dizendo devagar tô com fome.

Vejo o grupo de rapazes ruidosos do outro lado do vão da Bo Bardi - em frente ao espelho d’água que separa o MASP do outro prédio - ao mesmo tempo em que vejo o mendigo alto ultrapassar-me e dirigir-se a eles.

A fome, me digo, era mesmo aquela, não a do pão. E encolho os ombros.

Enquanto me dirijo para a fila dos ingressos observo o grupo.  A desordenada alegria e o mendigo alto que gesticula, parece explicar serem  dois reais tudo o que tem.

Um rapaz – todos pardos, negros, uns dez – que negaceia: é muito pouco.  

Se forma uma pequena torcida entre os que apoiam o mendigo alto e os que concordam com aquele que parece dizer ser pouco. Outro rapaz, sentado no chão, oferece uma garrafa de plástico grande, com um líquido transparente ao Mendigo Alto.  

Ele bebe, agradece e continua a negociar com o que, para mim, é o chefe do ponto. De repente vejo que há um acordo. O Mendigo Alto se afasta do grupo e segue com o outro rapaz para um canto, no final à direita do espelho d’água.

Imagino que cena verei. Mas não. O Mendigo Alto retira a camisa, coloca-a sobre a bancada de cimento e deixa as havaianas no chão. Retorna junto ao grupo assim, sem ter fumado.

Atrapalho as pessoas na fila, minha atenção absoluta à cena que transcorre do outro lado do vão não chama a atenção de ninguém, só meu atraso incomoda.

O Mendigo Alto é recebido pelo grupo com sons alegres. Alguns rapazes se colocam na frente dele, não o vejo por segundos e em seguida escuto palmas, gritos e vejo água saltando no ar.

O Mendigo Alto brinca no espelho d’água. O grupo comemorava o fato de ele ter vencido a negociação. Poderá banhar-se por dois reais.

O sol na principal Avenida do Capital Brasileiro era forte e o movimento intenso.

Desde o observatório privilegiado da fila do museu, vejo algo que talvez tantos tenham visto, filmado, colocado no UTube, mas que, para mim, foi o primeiro banho a que assisti, assim oferecido a todos.  

O Mendigo Alto (o meu mendigo) era banhado por dois rapazes, aquele com quem negociara e o outro que o acompanhara até o canto.

Eles o instruíam criteriosamente nessa lavagem de um corpo. Ele alçava os braços magros (um corpo assim como o de Cristo), eles o ensaboavam atentamente, esfregavam axilas, costas, lavavam-lhe a cabeça com cuidado materno.

O Mendigo Alto submergia-se no espelho e retornava e cada vez era saudado pelos companheiros. Alegrias, o  gozo de todos.

A fome, então, era de água, de corpo limpo. O Mendigo Alto recuperava seu status de pessoa ali, naquele banho, água suja e cristalina.

Um dos dois “rapazes do banho” (talvez sejam conhecidos) se aproxima com uma grande toalha e junto com o outro (o que eu pensara ser o dono do ponto e quem sabe também o seja) envolvem com cuidado o mendigo lavado.  

Pude ver o corpo magro nu rapidamente, sem manchas. Um dos dois rapazes aproxima a calça, as havaianas que são colocadas com calma, como se impecáveis fossem.

E então o Mendigo Alto, vestido e banhado, se senta na borda do espelho d’água e o ritual se completa. Um dos dois “banhadores” chega com algo nas mãos, espalha nos cabelos do companheiro, a quem penteia a seguir com esmero. O outro traz-lhe a camisa suja de antes e ela é vestida com a ajuda dos dois companheiros.  

O Mendigo Alto e seus Ajudantes se tornam personagens medievais - um senhor e seus servos, no ato final do ritual do banho. Farto, pleno, seus gestos são lentos, talvez nem fome sinta.No Masp duas versões do Banho de Suzana me aguardavam.

Tudo volta ao normal, o meu mendigo alto conversa com o grupo, integra-se à balburdia dos jovens. Chega minha vez, compro o ingresso, saio da fila para alívio dos que estão atrás.

A cultura está no museu, não na cena que todos poderiam ter observado, onde um ethos tão nosso se expôs gratuitamente.

Nas duas representações do Banho de Suzana as cenas são bem diversas.

Em uma, apenas a bela em sua nudez, as ajudantes e a natureza. Na outra, à esquerda da tela, a inquietação de dois faunos presentes à cena, um deles com um instrumento musical primitivo; à direita um cervo deitado, as patas para o alto (morto?), os galhos da cabeça apoiados na grama e dois inesperados cãezinhos subidos em  cada lado do corpo (morto?) do cervo.

A nudez de Susana não me interessou, só o entorno. Quanto à nudez do Mendigo, sim, branca e mínima, o entorno paulista como um grande negro  vazio.

Termino a tarde vendo passar pela Avenida uma limousine negra de onde saem, por duas janelas e por uma abertura no teto, várias mocinhas vestidas de branco.

Encantadas, sorridentes, abanam para os da rua. Banhadas, maquiadas, vestidas Suzanas que só se deixam ver assim, travestidas, que talvez nem se conheçam nuas, despojadas, que talvez não saibam, nunca venham a saber o que exatamente significou desfilar em limousine aos quinze anos por esta mesma Paulista.

Criado em 2017-08-01 21:28:10

Os sucessivos crimes de Bolsonaro – até quando?

Romário Schettino –

Todo dia, toda semana, tem novidade. O presidente Bolsonaro não tem limites, acha que pode qualquer coisa. Agora, aparece anunciando de viva voz, a poucos centímetros de jornalistas, que testou positivo para coronavírus. No entanto, não mostrou o laudo comprobatório assinado por um médico, ou por uma junta médica. Como nada do que ele fala tem serventia para a Nação, é preciso desconfiar.

Aliás, nas redes sociais surgem especulações. Uma delas diz que Bolsonaro quer se desfazer do estoque de cloroquina que o Exército fabricou sem saber para quê. O mundo inteiro já disse que esse remédio não tem eficácia comprovada, mesmo assim Bolsonaro insiste.

Para piorar, Bolsonaro, depois de se aproximar de jornalistas no Palácio vai para as redes sociais posando num vídeo fajuto, para mostrar que está tomando cloroquina e estimula a população a fazer o mesmo. E ainda diz que já está indo muito bem. Dá uma de garoto propaganda irresponsável, atitude impensável para um chefe de Estado minimamente sério. Pior que Bolsonaro só o insano Idi Amin Dada, ditador de Uganda, que só foi deposto depois de matar 300 mil pessoas.

Diante das repetidas atitudes criminosas de Bolsonaro, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) divulgou nota denunciando o presidente por ter infringido o artigo 131 do Código Penal, que diz: “Praticar, com o fim de transmitir a outrem moléstia grave de que está contaminado, ato capaz de produzir o contágio. Pena: reclusão, de um a quatro anos, e multa.” Pois é disso que se trata.

“Mesmo informado de que estava infectado com o Covid-19, o presidente Jair Bolsonaro continua agindo de forma criminosa e pondo em risco a vida de outras pessoas. Nesta terça-feira (7/7), rompendo o isolamento recomendado pelos médicos, recebeu jornalistas de veículos que considera alinhados com suas políticas para informar pessoalmente que está contaminado com o coronavírus. Na ocasião, o presidente esteve próximo dos jornalistas e chegou a retirar a máscara”, diz a nota da ABI.

Segundo a entidade dos jornalistas, “Bolsonaro infringiu ainda o artigo 132 do mesmo código, que prevê pena de detenção de três meses a um ano para quem expuser ´a vida ou a saúde de outrem a perigo direto e iminente´”.

Paulo Jerônimo, presidente da ABI, anunciou que está entrando com notícia-crime contra Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF). “Não é possível que o país assista sem reação a sucessivos comportamentos que vão além da irresponsabilidade e configuram claros crimes contra a saúde pública”, diz a nota.

ABI repudia inquérito para investigar jornalista da Folha

A decisão do ministro da Justiça, André Mendonça, de requerer à Polícia Federal (PF) que abra inquérito, com base na Lei de Segurança Nacional, para investigar artigo publicado pelo jornalista Hélio Schwartsman no jornal Folha de São Paulo é repudiada pela ABI em nota pública.

A ABI diz que “tal iniciativa, com uso de um dos entulhos autoritários remanescentes da ditadura militar, afronta a liberdade de expressão e de imprensa”. E acrescenta que essas são “características do governo Bolsonaro, que têm degradado as instituições republicanas e democráticas do País”.

Por fim, a entidade se declara solidária ao jornalista, ao jornal e conclama a PF que arquive o pedido ministerial por ofender o direito constitucional à opinião.

A seguir, a  íntegra do artigo publicado pela Folha de S. Paulo no dia 7/7:

Por que torço para que Bolsonaro morra

Hélio Schwartsman (*)

Torço para que o quadro se agrave e ele morra. Nada pessoal.

Como já escrevi aqui a propósito desse mesmo tema, embora ensinamentos religiosos e éticas deontológicas preconizem que não devemos desejar mal ao próximo, aqueles que abraçam éticas consequencialistas não estão tão amarrados pela moral tradicional. É que, no consequencialismo, ações são valoradas pelos resultados que produzem. O sacrifício de um indivíduo pode ser válido, se dele advier um bem maior.

A vida de Bolsonaro, como a de qualquer indivíduo, tem valor e sua perda seria lamentável. Mas, como no consequencialismo todas as vidas valem rigorosamente o mesmo, a morte do presidente torna-se filosoficamente defensável, se estivermos seguros de que acarretará um número maior de vidas preservadas. Estamos?

No plano mais imediato, a ausência de Bolsonaro significaria que já não teríamos um governante minimizando a epidemia nem sabotando medidas para mitigá-la. Isso salvaria vidas? A crer num estudo de pesquisadores da UFABC, da FGV e da USP, cada fala negacionista do presidente se faz seguir de quedas nas taxas de isolamento e de aumentos nos óbitos. Detalhe irônico: são justamente os eleitores do presidente a população mais afetada.

Bônus políticos não contabilizáveis em cadáveres incluem o fim (ou ao menos a redução) das tensões institucionais e de tentativas de esvaziamento de políticas ambientais, culturais, científicas etc.

Numa chave um pouco mais especulativa, dá para argumentar que a morte, por Covid-19, do mais destacado líder mundial a negar a gravidade da pandemia serviria como um “cautionary tale” de alcance global. Ficaria muito mais difícil para outros governantes irresponsáveis imitarem seu discurso e atitudes, o que presumivelmente pouparia vidas em todo o planeta. Bolsonaro prestaria na morte o serviço que foi incapaz de ofertar em vida.

O presidente prestaria na morte o serviço que foi incapaz de ofertar em vida
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(*) Hélio Schwartsman, Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de "Pensando Bem…"

Criado em 2020-07-09 17:33:51

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