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TV COMUNITÁRIA DF

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Criado em 2017-01-27 23:03:59

Girar o mundo

Maria Lúcia Verdi -

Em algum de seus textos, José Saramago confidencia que “é a conversinha das mulheres que faz o mundo girar”. Certamente o diminutivo não é empregado com intenção pejorativa, sua obra e sua pessoa dizem de seu respeito às mulheres. Com carinho ele se refere à conversinha das mulheres, aquela conversinha de que todos sentimos falta, pessoas de qualquer gênero. A conversinha leve, banal, cotidiana, que ajuda a levar a vida, a vida onde os abismos se apresentam dentro e fora, numa repetição infernal.

Hoje precisamos avisar por WhatsApp que vamos telefonar, quase pedir licença para tomar um tempinho ao amigo, à amiga. As conversas longas, pontuadas por silêncios, pela intimidade que se permite qualquer digressão, perdoa e ri de qualquer lapsus, se solidariza com palavras e gestos com a dor do outro, parecem pertencer a um tempo mesmo perdido.



Algo tão necessário e agradável como pontuar a realidade com pequenos, despretensiosos comentários sobre o dia-a-dia que não sejam da ordem do urgente, do político, está fora da ordem. A ordem, o sistema, o terrível sistema não pressupõe essa perda de tempo.

Ler sem pressa, olhar algum detalhe da natureza, alongar-se num momento de pura contemplação, de introspecção silenciosa, precisa ser ensinado em centros especializados - precisamos pagar caro para tentar aprender até a respirar.

Cada tanto se nota o cansaço das pessoas frente às palavras sem sentido dos discursos retóricos, falsos, vazios que ecoam em nossos pobres seres. A linguagem, a fala, essa capacidade humana que nos aproximaria a um possível conceito do divino está esfarrapada, mutilada, servindo a todos os senhores.

É preciso lembrar da poesia, da música, da filosofia, das ciências e das artes que nos recordam que podemos ser lúcidos, criativos, reflexivos, generosos. Podemos reencontrar em nós o fio perdido que nos retire do escuro labirinto de imagens e sons que nos ameaçam.

Para recordar tudo isso, proponho a leitura de trecho inicial do poema Paisagem, de Charles Baudelaire, na tradução de Ivan Junqueira.

Baudelaire já desconfiava do progresso que traria a modernidade, que por outro lado o fascinava:



“Quero, para compor os meus castos monólogos,

Deitar-me ao pé do céu, assim como os astrólogos,

E, junto aos campanários, escutar sonhando

Solenes cânticos que o vento vai levando.

As mãos sob meu queixo, só, na água-furtada,

Verei a fábrica em azáfama engolfada;

Torres e chaminés, os mastros da cidade,

E os vastos céus a recordar a eternidade.

É doce ver, em meio à bruma que nos vela,

Surgir no azul a estrela e a lâmpada à janela,

Os rios de carvão galgar o firmamento

E a lua derramar seu tíbio encantamento".

Criado em 2018-06-18 00:48:50

A poesia brasileira está de luto

Angélica Torres –

Wlademir Dias-Pino eu diria ser o último guardião, intérprete, recriador dos símbolos gutemberguianos à memória do tempo, porque, se atuou como uma revolucionária antena da raça conectada ao seu tempo, também projetou sua obra para mais além, ao propor deslocamentos de escritura e imagens entre significado e significante e lançar cores, formas, volumes, direções, de uma geometria extemporânea e móvel, ao infinito.

Uma vastíssima obra, dedicação à arte como motor de vida, um alquimista que empurra a memória rumo ao futuro é apenas uma fração de como se poderia definir o grande e singular poeta visual, que esteve na gênese da Poesia Concreta nos anos 1950, que inventou o Poema Processo nos 1960 e que nesta última quinta-feira, aos 91 anos, saiu de cena, silencioso e discreto como foi em vida, por uma UTI do Rio de Janeiro.

Filho de um anarquista dono de gráfica que influenciaria seus caminhos e de uma mãe de senso educacional incomum, Wlademir Dias-Pino é aquele de quem nunca poderemos saber o que mentalmente teria desenhado, escrito, inventado, planejado, enquanto acamado no hospital, com aguda pneumonia e coração debilitado. Mas podemos supor que teria, quem sabe, vislumbrado plasticamente o ensaio do voo cósmico que faria, de vez, após pouco mais de duas semanas de internação.

Dedução essa, porque, dele, o Brasil e o mundo herdam o legado de uma profusão de criações verbivocovisuais, que tratadas tipográfica ou digitalmente nos remetem aos subterrâneos gráficos, às magias d’antanho, aos lendários almanaques, a caracteres requintados, figurinhas vibrantes, lousa dos cálculos matemáticos, mapas de tesouros, o relicário de uma memória coletiva imagética e com total liberdade de interação e fruição intelectual e sensorial ao leitor e espectador.

A giga obra de Dias-Pino ainda não foi vista, estudada, conhecida, absorvida amplamente como deve ser, no tempo e em diversos espaços. Em breve estará exposta no Museu Reina Sofia, em Madri, com curadoria do português João Fernandes e apoio, no Brasil, da artista gráfica, fotógrafa e poeta Regina Pouchain (companheira de Wlademir e organizadora de sua obra) e do artista plástico Evandro Salles (diretor do Museu de Arte do Rio – MAR).

Carioca da Tijuca, Dias-Pino viveu em Cuiabá de 1978 a 1993, quando lecionou na Universidade Federal do Mato Grosso, em um especialmente fértil período de criatividade, que levou à criação do Intensivismo. Esteticamente, esse movimento literário propunha uma autonomia para o verso, ao substituir a escritura linear do alfabeto fechado por um esquema livre de leitura em superposições, gerando poemas desmontáveis.

Duas décadas antes de Roland Barthes, o poeta já via e anunciava o código alfabético como o elemento gerador da opressão na sociedade. Via ainda mais, que o elo condutor da lógica na narrativa é um instrumento de tortura, um artifício colonizador e contra essa ditadura, ele e os intensivistas propuseram uma direção de leitura, de baixo pra cima, em espiral, da esquerda para a direita e vice-versa etc. Wlademir dizia que a grande função do poeta contemporâneo é inventar novas inscrições. Ensinava que escrever e ler criam direções e que o que vai perdurar das civilizações é a arte, não os ditadores. Com isso queria dizer que o subliminar é a verdadeira expressão.

Diversos entre si, embora se intercruzem, penetrem um no outro, seus incontáveis projetos são frutos de uma mente matemática de altíssima sofisticação, mas como a dos primórdios da escrita humana, quando números e letras se misturavam entre si. Ler e sorver seus surpreendentes poemas e imagens provoca um choque térmico no imaginário, de inusitado frescor.

É um luxo o Brasil ter o poeta Wlademir Dias-Pino na galeria dos seus gênios. Com sua insistência em fazer ver imagens e poesia libertas de amarras, a comunicação pelo imaginário alforriado, um tempo de verbo silencioso, quem sabe o poeta anteviu e projetou o fim da babel, retirando-se do mundo quando a boataria, o “fakenews” é o que mais “de ponta” a elite dominante tem a oferecer aos citadinos? Quem saberá?

Que sua alma e espírito não repousem em paz, mas continuem como um vórtice de luz e energia brotando de um laboratório misterioso de inéditas e ininterruptas pesquisas e experiências estéticas, seja em que plagas for se assentar nos confins do universo. A Enciclopédia Visual desenvolvida obstinadamente por ele, dos anos 1970 até 2018, contendo 1.021 volumes de imagens coletadas da iconografia mundial e cobrindo uma infinidade de temas, desde os desenhos pré-históricos aos dos quadrinhos, aos clássicos da pintura, às imagens da publicidade, prova que foi assim, ao infinito e à eternidade, que ele se encomendou ao Criador, como memória incorporada ao conhecimento.

*

“é necessário que, na

obra de arte,

o significado

não supere a criação”

*

“o silêncio e

sendo muitos,

chegavam a se emendar

uns nos outros como se não

tivessem mais assunto”

*

“o que incomoda na unanimidade é a falta de espaço”

(Wlademir Dias-Pino, 1927 – 2018)

A cerimônia de cremação do artista plástico e poeta Wlademir Dias-Pino, falecido dia 30/8, será realizada hoje (1/9), às 16h, no Cemitério do Caju, Rio de Janeiro.

Criado em 2018-09-01 04:24:34

As eleições municipais, o futuro do Brasil e o mico do “mito”

Romário Schettino –

O Brasil desce a ladeira mais uma vez. O país de Bolsonaro derrete na economia, no desemprego, na falta de um Ministério da Saúde atuante e vai às urnas para eleger prefeitos e vereadores. São milhares de candidatos de todos os partidos, à esquerda, à direita e seus extremos.

Os partidos estão de olho nas pesquisas e trabalham para derrotar os candidatos apoiados pelo presidente Jair Bolsonaro, que não está filiado a partido algum, pelo menos por enquanto. Bolsonaro alimenta suas preferências e vem pedindo voto para uns e outros aqui e ali.

Os prefeitos das capitais contam muito na hora das grandes decisões nacionais, assim como as bancadas de vereadores que cada partido eleger, já que não existem mais alianças para cargos proporcionais. Prefeitos e vereadores estão nas pontas do eleitorado, e serão naturais cabos eleitorais no futuro, por mais voltados que estejam para as questões locais neste momento.

Em meio a esse quadro, as coligações para prefeito foram decididas pelos partidos de esquerda com poucas ampliações, na vã expectativa de que um candidato a prefeito puxaria votos para seus vereadores. Essa estratégia está em experimento, e pode ser um desastre.

Mesmo assim, as melhores notícias vêm de São Paulo e Rio de Janeiro, onde os candidatos apoiados por Bolsonaro minguam, derretem em plena avenida. Quanto mais palhaçadas comete o “mito”, mais Russomano e Crivella caem nas pesquisas.

Em São Paulo, como o previsto, PSol e PT disputam praticamente os mesmos eleitores. É provável que Boulos vá para o segundo turno com os votos úteis dos petistas, mas para vencer Bruno Covas vai depender de apoio da chamada centro-esquerda. Mas quem? O PSB está arrastando suas asas para o PSDB. PCdoB e PSTU não somam quase nada. Nessa hora, o mais provável é que Russomano anule o voto.

No entanto, o simples fato de Boulos derrotar Russomano, o chamado cavalo paraguaio, e levar junto Bolsonaro, já é uma grande vitória na maior cidade do país. Isso credencia o PSol como partido com musculatura para compor uma coligação de centro-esquerda em 2022. Só não fará isso se o sectarismo interno de seu partido prevalecer.

Já no Rio de Janeiro, a situação é um pouco diferente. O PSol é fraco no Rio. Se o candidato fosse Marcelo Freixo, numa frente de esquerda, seria outra a história. O partido que tem hoje seis vereadores pode ficar só com cinco, mesmo tendo como candidato puxador de votos o conhecido ex-deputado federal Chico Alencar.

O PT também, por razões históricas, não é muito forte no Rio, mas Benedita da Silva disputa com Marta Rocha, do PDT, o segundo lugar na votação do próximo dia 15. Essa dupla teria tido mais chances se tivesse saído unida no primeiro turno. No entanto, o desempenho de Benedita pode ajudar a aumentar a bancada de vereadores do PT, saindo de dois para quatro ou cinco, contando como candidato o ex-senador Lindbergh Farias.

Crivella, que leva Bolsonaro a tiracolo está se dissolvendo. É considerado um dos piores prefeitos que o Rio já teve, por isso mesmo está com altos índices de rejeição (62%).

A recente pesquisa do Ibope mostra crescimento de Eduardo Paes (DEM), podendo leva-lo à vitória no primeiro turno com a ajuda do voto útil e despachar Crivella para sempre.

A extrema-direita bolsonarista está sem ímpeto. Dividida em vários candidatos com pouca ou nenhuma expressão tem um Presidente incapaz de articular uma frase completa sem cometer as maiores barbaridades. É fato que os bolsonaristas nas redes sociais estão esfacelados.

"O bolsonarismo não está forte nos municípios, definitivamente. Se a gente pegar as pesquisas nas principais capitais, os que têm se apresentado fortemente como nomes do Bolsonaro não lideram por isso e não têm conseguido impulsionar uma militância de redes sociais, de grupos de WhatsApp, como fizeram em 2018", analisa o cientista político Francisco Tavares, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), em matéria publicada no site do jornal Brasil de Fato.

Em Manaus, o bolsonarista Coronel Menezes (Patriota) é apenas o sexto colocado, com cerca de 6% das intenções de voto. Em Fortaleza, o Capitão Wagner (Pros) aparece em primeiro lugar (29%, mas evita vincular o nome de Bolsonaro, as poucas vezes que permitiu perdeu voto. Lá, os candidatos Sarto (PDT), aliado de Ciro Gomes, tem 26%, e a petista Luiziane Lins (18%) disputam o segundo lugar.

Em Belo Horizonte, o atual prefeito Alexandre Kalil (PSD) pode ganhar já no primeiro turno, enquanto o aliado de Bolsonaro, Bruno Engler (PRTB), não passa de 3% das intenções de voto.

Para piorar a situação de Bolsonaro, veio a eleição de Joe Biden nos Estados Unidos e o encaminhamento à Justiça, pelo Ministério Público, de acusações contra seu filho no processo das “rachadinhas”.

Desvio - Com o objetivo de desviar as atenções, o Presidente resolveu disparar seus costumeiros balões de ensaio. Ameaçou uma guerra lunática contra os EUA de Biden por causa da Amazônia, festejou a suspenção, temporária, dos testes com a vacina no Instituto Butantan e chamou os brasileiros que se preocupam com a pandemia de “maricas”. Pronto, ficou estabelecida a confusão. Tudo vira manchete e nada é levado a sério.

Passada a eleição do dia 15, contados os votos, verificadas as forças políticas de cada partido, será dada a continuidade às discussões para 2022. Uma parte das agremiações partidárias busca alianças para formar uma frente de centro-direita. A outra, de centro-esquerda, faz o mesmo. Bolsonaro é um caso à parte, vai resistir, mas não vai passar disso, um fenômeno fracassado, de ocasião.

O centro é uma invenção para acomodar Luciano Huck, que não representa nada, a não ser a Rede Globo. Sérgio Moro já recebeu o carimbo de extrema-direita pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que é de direita. João Doria pretende encabeçar a chapa da direita ou da centro-direita, em combinação com Rodrigo Maia.

A esquerda tem Flávio Dino e/ou Lula (se o STF permitir), com tendência para formar uma chapa de centro-esquerda. Ciro Gomes (se tomar juízo) pode também liderar uma chapa de centro-esquerda, ou centro-direita, com ou sem Marina Silva. Tudo a combinar.

Criado em 2020-11-11 22:28:55

Karl Marx, influencer alemão

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Sabe a Dona Santina, aquela minha vizinha terrivelmente católica e militante pró-vida? Pois é, eu a encontrei hoje de manhã no corredor quando fui descartar o lixo. Deu bom dia e me perguntou:

– Seu Antônio Carlos, quem foi o seu xará, o tal de Karl Marx?

Pego de surpresa, lasquei um “Nem te conto!” pra dar tempo de tomar fôlego. Ah, Dona Santina, respondi, esse cara foi um grande jornalista e influencer alemão, mais famoso que o Felipe Neto.

A Dona Santina contra-atacou:

– Alemão, é? Deve ter sido amigo da Nina Hagen!

Refeito do novo susto, gravei a frase para ilustrar o antigo argumento de que todo entusiasta religioso aprontou algum dia, aluno da escola de Santo Agostinho. Respondi que o Marx é mais antigo e quis saber de onde a Dona Santina tinha sacado seu nome. 

– Foi o padre Stepien lá do Jardim Ingá que falou dele. Disse que era comunista e inimigo da religião. Parece que esse Marx pregava que a religião é o ópio do povo, tipo metadona ou fentanil!

Já prevendo onde a conversa iria parar, desconversei, levando a sério o conselho do meu amigo Erasmo de Roterdã de não discutir com nenhuma ou nenhum fanático. Dona Santina, ponderei, acho que ele estava falando do pessoal que toma o chá de ayahuasca e talvez dos padres que exageram no vinho antes ou depois da missa... 

A Dona Santina, que de besta não tem nada, riu amarelo e continuou o interrogatório:

– Esse Marx também escreveu sobre economia, confere? Deve ter ficado  milionário, que nem o Felipe Neto!

Tive que conter o riso antes de prosseguir. Que nada, lasquei, ele foi um pobretão. Inclusive a mãe dele, a Dona Henriqueta, vivia enchendo o saco dele por causa disso. Uma vez ela comentou com uma amiga: “Em vez de escrever O Capital, o Carlinhos devia ter descolado algum!”

Dessa vez quem segurou o riso foi a Dona Santina, mas sem dar o beiço a torcer continuou:

– Seu Carlos, a família desse sujeito só tinha gozadores?

Concordei na lata, e repeti para ela aquela frase do Carlão segundo a qual “o último capitalista que a gente vai pendurar será aquele que nos vendeu a corda”. 

Antes que a Dona Santina reengatasse o papo, pedi desculpa e me despedi,  lembrando que estava pra começar o depoimento do ex-ministro Nelson Teich na CPI da Pandemia.

Criado em 2021-05-05 17:41:27

Peito de aço, coração de sabiá

Guilherme Cadaval –

Faz tempo que não jogo bola. Aliás, das últimas vezes deve ter sido mais ou menos na época que comecei com essa história de fazer filosofia, de filosofar. Lembro até hoje, inclusive, de uma vez que a bola corria ligeira para a lateral, e eu atrás dela, ombro a ombro com o adversário. No cruzo da inexperiência e dos meus cinquenta e quatro quilos, bastou que o camarada me desse uma escorada de leve pra me colocar fora da disputa. Ainda tive o impulso de gritar a falta, mas no fundo sabia que não tinha mesmo jeito: o que me faltava era a perna, e o argumento.

Foi essa a primeira memória que me veio lendo o mais novo livro dos mestres Simas, Rufino e Haddock-Lobo, Arruaças: uma filosofia popular brasileira, lançado agora a pouco pela editora Bazar do Tempo. O livro é, como o próprio Simas reconheceu no lançamento (na virtualidade do mundo cibernético, e com a presença de mais um mestre, Moyseis Marques), uma grande sacanagem, festa na birosca, sem hora pra acabar, e onde tá todo mundo convidado. Peço licença, então, aos mestres, pra participar da festança, riscando minha sacanagem nessa roda: a filosofia popular brasileira é praticada como filosofiar.

Explico-me. Trata-se, por um lado, do fio, o texto urdido a seis mãos, tramando artimanhas não convencionais para fazer o Brasil – a quem pedimos a São Longuinho e Calunguinha que nos ajude a encontrar – ser rasurado pela brasilidade. Os fios dessa trama são também como o laço do boiadeiro, que vai catar cada “boi-palavra” pois sabe que “perder um boi ou uma palavra é perder uma preciosidade”. Mas esse fio também tece seu Zé Pelintra, que na ginga da rua “dribla e rasura a cidade-simulacro, alegoria tomada pelo devaneio civilizatório e viciada em cartões-postais decadentes”.

Estes são só alguns dos personagens que vadeiam pelas páginas riscadas de Arruaças, cruzando, encruzando, driblando a carga imantada do Brasil oficial, deslocando o “corpo/bola para o espaço vazio, onde o oponente não está e não pode chegar” como o índio fulni-ô Mané Garrincha. Por isso que é preciso saber cruzar essas páginas com a sabedoria de mestre Canjiquinha: “As ideias estão no chão. Eu tropeço, encontro soluções”. É na errância da vadiação que o livro se abre, e a sacanagem acontece.

Mas deixei pela metade a explicação dessa conversa de filosofiar. Não se trata apenas do fio, da trama, do texto. Se a filosofia popular brasileira é praticada como filosofiar, seus mestres não podem ser outros que os filosofiadores. Nessa birosca abarrotada em que sempre cabe mais um, onde os corpos se misturam e as sabedorias se embebedam e derramam de copo em copo, todo o mundo pode escapar gingando da dívida sem fim que o “paiol colonial” segue cobrando, e pendurar a sua fatura. 

Talvez esse papo de fiado tenha brotado na mistura com uma lembrança que herdei de meu pai, da época em que ele comandou um boteco na Usina com meu tio e meu padrinho, o Bar das Pombas, que nunca cheguei a frequentar, por culpa de não ter ainda nascido. Imagino os mestres Simas, Rufino e Haddock-Lobo servindo a gelada de mesa em mesa, botando a peça de pernil na vitrine e o pote de ovo colorido em cima do balcão, proseando com os frequentadores, nesse espaço terreirizado onde “transbordam os limites de nossas experiências enquanto sujeitos” e onde o “sou” dá lugar ao “somos”.

Vai ver a responsabilidade de passar adiante a ancestralidade é a grandeza do filosofiador, que, como Maria Mulambo ou Estamira Gomes de Souza, “rainha da noite, trabalhando nas ruas quando o galo canta”, tem a sua realeza assentada na realidade miúda do que o mundo “verdadeiro” insiste em descartar.

Criado em 2020-12-15 02:40:32

GDF promete mobilidade urbana com Circula Brasília

Romário Schettino -

GDF retoma a ideia da implantação do bilhete único, rede integrada de transporte, obras de estradas, viadutos, terminais rodoviários. Tudo isso faz parte do diagnóstico e do plano de ação da Secretaria de Mobilidade (Semob).
 
O secretário Fábio Ney Damasceno, engenheiro, paulista de nascimento e com passagem pelo governo do Espírito Santo, chegou há um ano em Brasília, a convite do governador Rodrigo Rollemberg (PSB), para traçar um plano de mobilidade para as próximas décadas no quesito mais requisitado pela população nos últimos anos.

“Com 2,9 milhões de habitantes e 1,7 milhão de automóveis, Brasília em breve entrará em colapso se algo não for feito já”. Foi assim que o secretário iniciou hoje, terça (8/11), sua palestra no Sindicato da Construção Civil do DF (Sinduscon).

Em função de seu traçado original e diante da falta de políticas adequadas para os outros modos de transporte (ônibus, metrô, ciclovias e calçadas viáveis), a cidade tem o maior índice de crescimento do número de automóveis do país. Em dez anos, a quantidade de carros em Brasília cresceu 100%,

Ney Damasceno promete o melhor dos mundos: sistema de transporte para pessoas com deficiência, tecnologia de ponta para o controle do horário dos ônibus, semáforos inteligentes, abrigos de ônibus novos e confortáveis, readequação das calçadas, prioridade para os modos de transporte não motorizados com melhorias das condições de tráfego e segurança para pedestres e ciclistas.

A pergunta é: para quando? Sobre isso o secretário não tem resposta imediata, remete tudo para os projetos em execução, planejamento de Estado para os próximos anos, ou décadas. O secretário imagina deixar algo de permanente nas ações deste governo e para o próximos que vierem.

O diagnóstico é quase perfeito e as intenções as melhores possíveis, mas as obras em curso já geraram polêmicas de toda natureza, a começar pelo Trevo de Triagem Norte, que não previa ciclovias e destruiu nascentes na região, segundo os anti-rodoviaristas e ecologistas locais.

Outra previsão polêmica no plano do secretário os dois VLTs (Veículo Leve sobre Trilhos). Um que vai da Rodoferroviária à Rodoviária, e o que atravessa as avenidas W3 Sul e Norte. Essa questão ainda vai dar muita dor de cabeça, já que precisa do acordo do IPHAN.

Ao ser questionado pela Associação Andar a Pé – O Movimento da Gente, recém criada em Brasília, sobre as previsões para o Eixão [rodovia de alta velocidade no centro da cidade] e suas passagens subterrâneas intransitáveis, o secretário Fábio Ney remeteu o assunto para o debate com a comunidade. Ele não tem nada contra os semáforos, nem contra a ampliação das passagens subterrâneas para torná-las mais seguras e confortáveis. Mas acha difícil e complicado pensar em passagens aéreas.

No entanto, esse debate dependerá do nível de pressão que a sociedade fizer. Da mesma forma é o que se espera para que se encontre solução para a interligação de ônibus, ou micro-ônibus,  no sentido Leste-Oeste e vice-versa no Plano Piloto. As chamadas Zebrinha não funcionam, pois possuem trajetos irracionais jamais visto numa metrópole.

A rede integrada de transporte , que vai viabilizar a implantação do bilhete único, inclui a construção de BRT, VLT, ampliação do metrô até o final da Asa Norte e os terminais de integração (veja o mapa).

Fábio Ney inspira-se em experiência exitosa como a de São Paulo, que corre sérios riscos de ser interrompida com a eleição de João Dória (PSDB). Mas ele pensa também em outras como as de Curitiba, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Belo Horizonte. “Brasília é a Capital da República, deveria ser o modelo, e não é. Isso precisa ser corrigido”, diz o secretário.

A “Associação Andar a Pé – O Movimento da Gente” também tem sua leitura crítica e pretende contribuir organizando debates para formular políticas públicas efetivas, que respeite o pedestre e dê a ele a prioridade que merece. Campanhas educativas devem ser feitas para a mudança de hábito vinculado ao uso do carro. Uma das bandeiras da Andar a Pé, por exemplo, é transformar o Eixão numa avenida. O desafio está lançado.

Criado em 2016-11-09 02:14:29

A Semana de 22 no Sebinho

Com três lives no Instagram (@livrariasebinho), que irão ao ar nos dias 16, 23 e 25, a Livraria Sebinho participa da comemoração do Centenário da Semana de Arte Moderna de 1922.

Amanhã, quarta-feira, 16/2, às 20h, o jornalista Antônio Carlos Queiroz (ACQ) entrevistará o professor Daniel Faria, do Departamento de História da UnB, autor de O Mito Modernista (Edufu, 2006), sobre o ideário de três organizadores da Semana: Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia.

O que essa trinca entendia por “modernismo”? Como via as contradições do Brasil? Qual era o seu projeto de “civilização”? Qual é o legado da Semana? Seria a apropriação das camisas da Seleção Brasileira pelos “homens de bem” uma revitalização do verde-amarelismo?

No dia 23/2, quarta da próxima semana, o escritor e poeta Francisco K Saraiva (Hagoromo/Arestas, Error, Mangue-Mundo) discorrerá sobre a poética de Oswald de Andrade.

Por fim, no dia 25/2, sexta-feira), será a vez do professor (Artes Cênicas, UnB), jornalista, escritor e compositor Fernando Marques falar sobre o poeta Carlos Drummond de Andrade.

Criado em 2022-02-15 12:50:18

Capes não é lugar para incompetentes

Diante da escandalosa nomeação de Cláudia Mensani Queda de Toledo como diretora da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), vinculada ao Ministério da Educação, a diretoria da Sociedade Brasileira de Física e o Fórum Nacional de Coordenadores de Programas de Pós-Graduação em Física e Astronomia, divulgou nota em defesa da instituição.

No documento, os físicos brasileiros lembram que a presidência dessa instituição “deve ser ocupada por pessoas com respaldo no meio acadêmico e com profundo conhecimento dos sistemas de pós-graduação nacional e internacional”. Por isso, “causa-nos profunda consternação a recente demissão sumária de Benedito Guimarães Aguiar Neto e a nomeação da advogada Claudia Mansani para substituí-lo na presidência da Capes”. E concluem que numa análise “de seu currículo disponível na Plataforma Lattes mostra que a indicada não possui as qualidades esperadas para o cargo”.

A seguir, a íntegra da nota:

“A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), fundada em 1951, tem um papel fundamental na formação de recursos humanos de alto nível no Brasil. A Capes é o órgão responsável por cadastrar, fiscalizar, financiar e avaliar os cursos de pós-graduação de todas as áreas e instituições do Brasil. A Capes também atua na indução e coordenação de acordos internacionais de pós-graduação. Não há dúvidas que o exitoso sistema de avaliação criado pela Capes é o principal responsável pela melhoria da pesquisa e da inovação tecnológica no Brasil.

A presidência desta instituição deve ser ocupada por pessoas com respaldo no meio acadêmico e com profundo conhecimento dos sistemas de pós-graduação nacional e internacional. É fundamental que o (a) presidente da Capes tenha experiência na gestão de programas de pós-graduação de excelência, que conheça outras áreas de conhecimento além da sua especialidade, que tenha coordenado importantes projetos científicos e que tenha formado recursos humanos de alto nível.

Por isso, causa-nos profunda consternação a recente demissão sumária de Benedito Guimarães Aguiar Neto e a nomeação da advogada Claudia Mansani Queda de Toledo para substituí-lo na presidência da Capes. Uma análise de seu currículo disponível na Plataforma Lattes mostra que a indicada não possui as qualidades esperadas para o cargo.

A Dra. Toledo obteve seu doutorado em 2012 pela Instituição Toledo de Ensino (hoje Centro Universitário de Bauru), sediada em Bauru (SP). Consta no Curriculum Lattes que ela é atualmente a reitora desta instituição e que foi coordenadora de pós-graduação entre 1994 e 2000, ou seja, foi coordenadora de pós-graduação antes de ser doutora. Não consta em seu Curriculum Lattes onde obteve sua graduação, também não apresenta nenhuma experiência internacional, sua produção acadêmica é insignificante e tem pouquíssima experiência com formação de recursos humanos - de fato sequer concluiu uma orientação de doutorado. Apesar de ser reitora desta instituição, seu endereço profissional é o do escritório de advocacia Queda e Toledo Sociedade de Advogados, da qual é sócia.

O Centro Universitário de Bauru possui apenas um curso de pós-graduação - o de Sistema Constitucional de Garantia de Direitos - o mesmo no qual a indicada obteve seu doutorado. Na última avaliação da Capes, esse programa obteve nota 2 no âmbito acadêmico que foi mantida após recurso (link); isso implicaria em seu fechamento. De acordo com a página na internet (link), desde seu credenciamento em 2007, este programa formou poucos doutores e sua abrangência não passa da região da cidade de Bauru. O Centro Universitário de Bauru é de propriedade da família da Dra. Toledo e foi onde o atual Ministro da Educação, Dr. Milton Ribeiro, graduou-se em direito em 1990.

Em suma, o currículo da Dra. Toledo não é compatível com o perfil desejado de presidentes da Capes. Tememos, portanto, que a importante missão da Capes esteja ameaçada com esta nomeação. Esperamos que o Ministério da Educação possa encontrar alguém com histórico profissional e formação mais adequados para presidir a Capes, garantindo assim a continuidade da formação de recursos humanos de alto nível, tão necessária para o desenvolvimento e soberania nacional”.

Criado em 2021-04-17 03:32:05

Fórum Social Mundial 2017

Saiba mais em www.fsm.org.br

Criado em 2017-01-16 19:35:21

Coisas que caem - arte, intérprete da realidade

Maria Lúcia Verdi -

Visitei recentemente os espaços que recebem a Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, bem como mostras em São Paulo e Brasília.  Uma série de imagens e estímulos diversificados ficaram ecoando como pergunta e possível resposta.

Vejo arte onde posso, onde esteja, nos museus, nas pequenas galerias, nos ateliês, nas ruas. Arte, seja qual for, é a manifestação individual ou de um grupo num momento histórico nascida para reproduzir, transformar, comentar, questionar a realidade - e isto interessa e é fundamental para a sociedade.

O título deste artigo nasce a partir da mostra Biofilia (foto de capa), de Maria do Carmo Verdi, exposta no espaço do Coletivo 2e1 no centro de São Paulo. As “coisas” caem no planeta e em nossa cabeça - invadem nosso espaço meteoros, meteoritos, aviões, informação, poluição, balas perdidas, ruídos, sons, imagens sem fim de um país e de um planeta sem resposta.

A 11ª Bienal do Mercosul, dedicada ao Triângulo Atlântico, com curadoria do alemão Alfons Hug, reuniu setenta artistas e coletivos de artistas.

América, África e Europa, a diáspora negra histórica e a atual questão dos refugiados tratada na perspectiva da interdependência contextual. A arte africana e a afro-brasileira são centrais, mas o “encontro entre as culturas indígena, europeia e africana que formam um novo amálgama americano” pontuam todos os espaços expositivos. Uma Bienal engajada com questões fundamentais do presente.

Um artista de Gana Ibrahim Mahama, que teve sua instalação feita pelo também ganês Francis Djiwonu, disse não ter sido avisado de que uma foto de Marielle havia sido retirada de sua obra antes da abertura.  Foi decisão do assistente Djiwonu, que recolhera imagens pela cidade para colá-las às caixas de lustrar sapatos que formam uma parede/estante de madeira de 350m de comprimento. Djiwonu não quis ter problemas com a organização e virou a caixa de lado, escondeu Marielle.

Também fez uma autocensura o americano Mark Dion. Ele traz uma instalação onde se interage – ela reproduz um banco antigo - com duas circunspectas “funcionárias” que abrem gavetas de inúmeros cofres. Das gavetas que nos são entregues a partir de uma escolha casual, onde se encontram grãos de feijão, de arroz, erva mate, algodão, commodities, o artista achou melhor retirar as folhas de coca que integravam os valores guardados por “proprietários”.  Mercadorias que, assim como as matérias primas, até hoje são levadas dos países do Sul para o Norte. Ou seja, os artistas estrangeiros já sabem onde estão: no Brasil está havendo censura à arte.

As obras expostas na Bienal demandam a lentidão do olhar e reflexão. Na instalação Debret, do artista português Vasco Araújo, temos duas salas contíguas. Numa, inspiradas em imagens do pintor francês e em textos de Pepetela  - impressos em páginas ilustradas com belas imagens tropicais -  pequenas esculturas saem de ovos expondo cenas de brutal violência não apenas entre senhor e escrava(o) mas também entre a senhora branca e seus escravos. Diz o artista: “É um trabalho sobre como os portugueses se construíram em termos de identidade a partir de uma equação de dominação, violência e confronto com os povos escravizados”.

Na sala ao lado, no entanto, uma cantora lírica negra, uma diva, entoa a ária La Schiava, da ópera Aída. Exemplo das “forças inovadoras que mobilizam a interação entre América, África em Europa”, nas palavras do Curador. Assim esperamos.



No Santander Cultural, uma casinha de adobe e madeira está construída em cima da caixa central do Banco. Emblemática e sintética visão da questão central de hoje: o antagonismo entre o Capital e a realidade social. Também sintético e emblemático é o vídeo de Adad Hannah, artista americano, The raft of the Medusa (Saint Loius). Somos informados de que o vídeo se refere à pintura canônica A Balsa da Medusa (foto acima), de Théodore Géricault, sobre os sobreviventes do naufrágio da fragata francesa La Méduse,  afundada em 1816 perto da costa do Senegal.

“Nesta, que é a segunda releitura de Adad Hannah para a pintura, senegaleses foram convidados para encenar um quadro vivo, criando um paralelo entre o episódio histórico e a atual tragédia dos refugiados.”

O visitante, no início, não nota que há levíssimos movimentos feitos pelos que nela estão. A balsa-barca talvez tenha como destino um país do Norte, mas nos lembra uma mítica barca da esperança ao léu. Quem olhava para a Medusa era transformado em pedra, quem olha detidamente para os que estão na balsa, quem olha para o Outro, estará colocando em risco sua confortável individualidade?

Neste Triângulo Atlântico, portanto, arte política não panfletária. A igreja Nossa Senhora das Dores abriga uma instalação sonora onde podem ser escutadas, em vários headphones colocados ao longo dela, línguas africanas e línguas indígenas. Em cada parada se escuta uma língua, uma cultura, que está morrendo, sendo que uma das línguas é falada apenas por uma mulher indígena. Como não lembrar das quatorze paradas de Cristo na Via Dolorosa? O sofrimento se atualiza cada dia.



Em São Paulo, no recém-inaugurado espaço do SESC da Avenida Paulista, está a Visões do Tempo, que reúne nove instalações do artista norte-americano Bill Viola (foto acima), referência desde a década de 70 na área de vídeo arte. Utilizando-se das mais atuais tecnologias da área, o artista propõe uma reflexão profunda sobre o tempo, o envelhecimento, a morte, o estoicismo, a transcendência, questões centrais da existência individual. Assim como no vídeo da balsa acima citado, é preciso parar frente à obra e aguardar o que acontecerá. Ter tempo para parar e olhar, controlar a ansiedade contemporânea.

Viola remete à Sísifo com o Capela de Ações Frustradas e Gestos Fúteis – vídeos de  ações repetitivas a denunciar o sem sentido de grande parte do cotidiano. Na “Série Mártires”, exposto permanentemente na Catedral de Saint Paul, em Londres, a violência da interação com a água, o vento, o fogo e a terra testam a resistência humana e dão um recado contrário ao materialismo. Na verdade, Visões do Tempo traz um convite à reflexão sobre o significado da espiritualidade.

Na Pinacoteca de São Paulo, está a surpreendente obra da vanguardista sueca Hilma af Klint (1862-1944) – [fotos acima]. Bem antes de Kandinsky, Mondrian e Malevich, essa discreta mulher realizava uma obra visionária. Ela e um grupo de outras quatro mulheres pesquisavam a comunicação com os espíritos, com a escrita e pintura automáticas. As obras expõem as pesquisas e leituras de af Klint dedicadas ao estudo não apenas de distintas teorias espiritualistas como também à botânica e às descobertas científicas.

O resultado são enormes pinturas ou pequenos desenhos e aquarelas, que documentam uma vida de pesquisa estética a dialogar com interesses intelectuais. Uma obra que, sem dúvida, ficou sem visibilidade na sua época por ter sido produzida por uma mulher.



A galeria do Coletivo 2e1, está instalada no Edifício Califórnia prédio de Niemeyer e Carlos Lemos, de 1951, que antecipa Brasília.  Ao entrar, sou surpreendida por um enorme painel abstrato de Portinari (foto acima), tão único na obra dele que pensei tratar-se de trabalho de Athos Bulcão.

A mostra Biofilia, amor à vida, expõe a preocupação de Maria do Carmo com relação ao destino do planeta e o futuro. Em 15 esculturas (coisas?) que caem do teto ou se apoiam no chão, feitas com espuma expansiva de poliuretano pintada, a artista cria um cenário pop-sideral provocador. A iluminação da mostra nos remete aos tempos do psicodélico e do início das aventuras espaciais, sendo que a cativante dança das sombras dos objetos suspensos é quase outro trabalho.

As construções, repletas de detalhes e coisas incrustradas na espuma, fazem com que o olhar indague entre o movimento dos objetos coloridos e a curiosidade pelos pequenos mundos que cada um deles constrói.

Recebemos “lunetas” (paus de selfies com espelhos) para podermos ver o que habita cada escultura. Arqueologia simbólica de um passado e um presente dialogando com um possível futuro? Objetos adquiridos em lojas populares (“made in China”), coisas que a artista encontra descartadas pela rua, se unem às massas de poliuretano criando, segundo o texto de Carolina Paz, “um imaginário icônico sobre uma possível vida humana além dos limites da Terra.” Em sintonia com desenhos e pesquisas de af Klint, Maria do Carmo imagina outras possibilidades de vida em distintos espaços do cosmos.

Em Brasília, no Museu Nacional da República, visito a mostra Conservar o tempo, de Fernando Madeira, nascido em Angra do Reis e brasiliense há muito.  O artista, que completou oitenta anos, dialoga, em sua abrangente produção, com toda a arte do século XX. A exposição, dividida em Arquiteturas, Gravuras não gravuras, Paisagem e Figuras, é um depoimento inquieto de alguém que, consistentemente, estava em sintonia com as grandes transformações estéticas do século XX.

Geometrias, abstrações, retratos, viagens visuais - é um prazer caminhar pelas salas e observar as distintas expressões a que vem se dedicando Fernando Madeira, arquiteto especializado em restauração. Gravuras, colagens, aquarelas, desenhos e pintura registram seus recortes sobre a realidade, a especial maneira com que reconstrói, desconstrói essa percepção. Alguns dos “quadros” são compostos com madeira antiga, descartada, onde palavras e textos são inseridos, explicitando as escolhas de Fernando (foto abaixo). O texto em inglês na obra de Fernando Madeira quer dizer: "Alguns trabalhos contemporâneos exigem paciência por parte dos que as vêem"



Após todas essas exposições, me pergunto o que as une, o que as separa. Creio que o fio da História, o questionar o tempo e as intervenções humanas no tempo é o discurso que une tão distintas narrativas visuais. O que as separa é a necessária e bem-vinda individualidade de cada artista, livre para se expressar como quiser neste século onde tantas coisas caem sobre eles, sobre nós, século que demanda, como nunca, um altíssimo grau de atenção e lucidez.

Criado em 2018-05-26 06:24:30

Esse flagelo chamado machismo

Angélica Torres -

Aretha Franklin, a rainha do soul, que, em 1967, se tornou ícone do feminismo norte-americano com a canção "Respect", sai de cena justo quando a violência contra a mulher ganha presença assustadoramente crescente entre nós.

A morte da cantora neste momento não representa, exatamente, um sinal ou um presságio sombrio para a causa, mas sim um mote para reflexão, porque números são imagens do real e eles têm mostrado o quanto tem piorado o desrespeito do homem em relação aos direitos das mulheres. A todo momento, uma notícia de agressão, de violação, de feminicídio nos alcança.

O terror não amenizou, desde o assassinato de Aída Curi em Copacabana, nos anos 50, e o de Ângela Diniz em Búzios, nos anos 60, quando surgiu com força, também no Brasil, o Movimento de Mulheres, solidárias às vitimas dessas muitas tragédias, aparentes a partir de então.

Foi preciso que o high society entrasse na crônica policial, por meio dos autores desses crimes citados, pra que viesse à tona a realidade desses e de outros delitos da violência, recorrentes nas demais classes sociais.

Muito chão andado desde lá. Muito esforço e garra de mulheres e homens feministas, estudiosos do tétrico fenômeno, na busca incessante por consciência, conhecimento de causa e justiça à mulher, ao redor de todo o país.

Surras - O músico uruguaio Jorge Drexler canta certeiramente que "se aprende de berço, se aprende de pronto, se aprende na porta de um hospital". Na semana passada, esperávamos atendimento na sala dos politraumatizados de um pronto-socorro do SUS, quando uma enfermeira chegou trazendo uma mulher em cadeira de rodas e a deixou ali.

Ao ver seu rosto macerado, sua expressão de indescritível tristeza e humilhação, não resisti e perguntei, respeitosamente, "o que te aconteceu, minha irmã?" Breve silêncio, e então com voz de dopada, os olhos no chão, ela respondeu quase gritando, pra ser bem ouvida por todos ali: "Maria da Penha!". (Foto abaixo).



Cheguei perto, toquei no braço dela e me emocionei vendo os ferimentos nos olhos, no rosto, pelo corpo. Ela me beijou a mão e me puxou num abraço forte e demorado, como que me retribuindo a empatia. Contou que foi o ex-marido e que essas cenas aconteciam há anos, até ela dar um basta em abril de 2017, se separar dele e enquadrá-lo na Lei Maria da Penha.

"Mais de um ano depois, ele foi intimado... e ontem de noite foi me procurar pra acertar as contas comigo", disse, mostrando os estragos e de novo falando alto: "É por isso que eles matam as mulheres, gente, a Lei demora demais pra ser cumprida!".

Esforços - De Aída à Ângela à Ana Lídia à Maria Claudia Del'isola às incontáveis outras mulheres mortas e às sobreviventes desse flagelo de diversas ocorrências sabidas, cada um de nós tem aprendido alguma pouca coisa, mesmo os que se recusam saber ou fingem ignorar. Mas é preciso tanto sabermos mais.

Um bom começo é fazer o esforço de ouvir amiga, namorada, companheira, mãe, irmã, prima, tia, sobrinha, avó, relatarem seus episódios pessoais de violência masculina sofrida ao longo de suas existências, em vários níveis, dos subliminares e dissimulados aos aparentes e escancarados.

Outro, é conhecer o significado de termos como androcentrismo, masculinismo, "backlash" e vários mais, ao ler artigos de especialistas sobre o tema; é buscar compreender, de olhos bem abertos, a estrutura moral e psicológica do patriarcalismo ainda brutalmente vigente entre nós; é saber que o Judiciário brasileiro, até 2002, "entendia" as queixas de violências contra mulheres como invencionices das vítimas, dando ao homem o "direito de defesa contra ela", absolvendo-o de seus crimes, extensivos aos filhos.

Ainda outra é a sorte de ter, em seu círculo de amizades, ao menos uma amiga integrante de movimentos de mulheres, uma "feminista de carteirinha", e vê-la sistematicamente flagrar os seus atos falhos machistas, sua inconsciência diante da entranhada cultura do domínio do macho sobre a fêmea, permitindo-se ofendê-la, humilhá-la, boicotá-la, torturá-la, excluí-la, exterminá-la, negá-la ao direito sobre si própria, sobre seu corpo, suas vontades, suas decisões.

É inacreditável que, ainda hoje, homens tidos como inteligentes e interessantes se sintam muito "ofendidos", quando mulheres, assustadas, falam desse assunto perto deles. Ou que reajam com um grito de "sua louca!, sua feminista neurótica!", porque uma amiga, ou o que seja, chamou sua atenção para um flagrante sexista em seu comportamento.

Se a cada 11segundos uma mulher é estuprada no Brasil, todos, mulheres e homens, estamos ameaçados quanto às nossas famílias, nossos laços de afeto. Os homens, os bons, deviam procurar ser tão ou mais feministas do que as próprias mulheres. Poderiam assim ajudar e muito a elevar a honra do gênero, vergonhoso e temerário à humanidade, em sua precária, retardada, civilização.

Nesse sentido, há 51 anos, o ousado gesto de uma até então desconhecida artista negra se tornaria um marco da luta que começava a tomar corpo em solo americano: Aretha Franklin gravaria em versão feminista o recado machista da canção "Respect", de Otis Redding, modificado por ela própria.

Aqui, a cantora ficou famosa com "I say a little prayer", de Burt Bacharah, cujo refrão em português, "Eu rezo uma pequena oração por você", agora vale quase como bênção para ela própria, mais uma estrela nascida no cosmo.

(À Ana Liési Thurler e a todas e todos os feministas brasileiros, guerreiros incansáveis em prol da causa.).

Criado em 2018-08-17 18:38:04

Bancada de vereadores progressistas no Rio pode ser ampliada

Romário Schettino –

O Rio de Janeiro tem hoje 51 vereadores. Desses, apenas 10 são de partidos da chamada esquerda progressista (PT 2, PSol 6 e PDT 2), PSB e PCdoB não têm nenhum. Com essas eleições, a expectativa é de aumentar esse número para pelo menos 15. Para essa tarefa, estão escalados os puxadores de votos com experiência parlamentar, visibilidade no eleitorado e historia de luta em defesa dos interesses dos trabalhadores, do patrimônio público, das minorias e dos direitos humanos.

Como neste ano não há coligação para cargos proporcionais, cada partido terá que somar os seus votos para eleger um ou mais vereadores. A disputa é grande, são mais de 1.700 candidatos inscritos, muitos pretendem reeleição.

O PT, por exemplo, conta com o ex-senador Lindbergh Farias e Reimont, candidato à reeleição. O PSol, com o ex-deputado federal Chico Alencar, Tarcício Mota, que tenta reeleição, Leonel Brizola Neto, vereador que surfa no nome do avô, e Mônica Benício, viúva de Marielle Franco. O PDT, aposta em Fernando William, defensor da Petrobras. O PSB e o PCdoB continuam sem nomes fortes para puxar votos.

O PSB colocou no ar o deputado federal Alessandro Molon, presidente do partido no Rio, para chamar votos em seus candidatos pouco conhecidos. O sucesso dessa estratégia pode render algum voto, mas eleger um vereador é o que se verá no próximo dia 15.

A aliança do PSB com o PDT para lançar Marta Rocha à prefeitura do Rio foi responsável pela desistência de Marcelo Freixo para construir uma frente ampla de esquerda. O fracionamento das esquerdas não impedirá, no entanto, uma possível derrota de Marcelo Crivella já no primeiro turno. As últimas pesquisas apontam Marta Rocha (PDT/PSB) e Benedita da Silva (PT/PCdoB) em ascensão e empatadas tecnicamente com Crivella, que está em queda junto com o apoio de Bolsonaro.

Criado em 2020-11-10 18:23:24

Melodia nos ossos com medo da manhã

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Desço ao inferno
com Alejandra Pizarnik,
a tristeza em figura de gente
nada más

Um anjo esfarrapado, náufrago,
com sono, agarrado a palavras
emitidas por um pensamento
feito tábua de salvação

Saqueio os seus versos
para tecer esta colcha
de escombros –
          E quase sufoco!

Dile que los suspiros del mar
Humedecen las únicas palabras
Por las que vale vivir.

Desde a infância, “verde paraíso”,
infusa de muerte, entesourava
palavras muito puras
para criar novos silêncios 

Palavras que douravam
ao negro sol do silêncio

Trabalhava o silêncio
e dele fazia chama

Tinha como certo o silêncio
e por isso escrevia. Sozinha
escrevia mas não estava só –
Hay alguien aquí que tiembla

Falava quando as palavras
já não guarneciam,
quando voava o telhado
da casa da linguagem

Foi enamorada das palavras
que criam noites pequenas
no incriado do dia
e seu vazio feroz…

Escribes poemas
porque necesitas
un lugar
en donde sea lo que no es

Atravessava o canto
(melodía en los huesos)
como um túnel

Compunha pequenas canções,
miedosas del alba

Escrevia contra o medo,
contra o vento com garras
que se alojava na respiração

Caía como um animal ferido
no lugar que seria de revelações

Buscava nas memórias e nada,
nada debajo de la aurora
de dedos negros

Teve muitos amores
e o mais formoso
foi seu amor pelos espelhos

Tinha olhos que se abriam
só para avaliar a ausência

Era tão triste como
quando se abre uma flor
revelando o coração que não tem

¡Cansada de Dios!
    
alejandra alejandra
 debajo estoy yo
      alejandra

Silêncio & Morte – 

La muerte siempre al lado.
Escucho su decir.
Sólo me oigo.

Palavra, Morte & Poesia –

La muerte es una palabra.
La palabra es una cosa,
la muerte es una cosa,
es un cuerpo poético que alienta
en el lugar de mi nacimiento.

A morte companheira
nas visões do nascimento –
a morte azul, a morte verde,
a morte rubra, a morte lilás

Queria ficar querendo ir 
Aceitou por fim o convite 
Cavou a liberdade de ser só cinza 

No quiero ir
nada más
que hasta el fondo

Sua memória é a noite
mas o vaso de flores renasce
sob a sombra da catacumba

Criado em 2021-05-02 00:22:04

Depois daquele dia.. 2022 é logo ali

Elika Takimoto (*) –

Gostaria de compartilhar o que estou sentindo - entre uma aula remota e outra - neste fatídico, indigesto e histórico day after. Pensei em ler vários jornais e assistir doze horas de programas para retirar meu certificado e estar devidamente habilitada a dar a minha opinião.

Mas o tempo urge e já vi cientista político com doutorado dizendo que está tudo muito confuso. Então, movida pela emoção como sempre faço, decidi botar a mão nesse teclado cheio de pelo da minha gata e fazer a minha contribuição para o caos.

Vamos aos fatos:

1- É a primeira vez que o PT não elege nenhum prefeito de capital desde a volta das eleições diretas, em 1985.

2- PT foi o partido mais presente no segundo turno, concorrendo em 15 das 57 cidades. Ganhou em 4: Contagem e Juiz de Fora, MG, e Diadema e Mauá, SP. O resultado foi pior do que em 2016.

3 - Aqui está o mapa das prefeituras dos partidos considerados de esquerda de 2016 para 2020:

PDT - de 334 para 314
PSB - de 414 para 253
PT - de 261 para 183
PCdoB - de 80 para 46
REDE - de 5 para 6
PSOL - de 2 para 5

Isso posto, a minha análise.

Antes, porém, preciso dizer qual é o meu lugar de fala: sou professora e a primeira suplente na Alerj e na Câmara Municipal do Rio. Fui candidata duas vezes pelo PT e não ouvi pouca coisa pelos lugares por onde andei. Meu lugar de fala é um local hostil, mas que, dado tudo o que estou vendo, não troco por nenhum outro porque a minha paz não se dá pelas palavras duras que recebo e sim pela minha consciência.

Comparado com o quanto a direita avançou e o desempenho do PT e de outros partidos ditos de esquerda, é impressionante e didático quando vemos os jornais hoje. O PT está na boca de todos comentaristas. O que me leva a concluir que não podemos analisar isso pelo viés racional e sim psicológico.

Ainda que o PT acabe, o antipetista vai continuar falando do PT porque o conceito “PT” está associado a uma ameaça. Pessoas que se acham intelectualmente superiores ficam muito mais confortáveis vivendo em um país sem mobilidade social. E se tem uma coisa com a qual o PT mexeu foi com essa ilusão, a dizer, que o pobre está onde está porque não se esforçou o suficiente.

A palavra “meritocracia” que muita gente nunca tinha ouvido apareceu forte para dar conta da conjuntura promovida pela chegada de um trabalhador à presidência.

Perdi a conta de quantas pessoas falaram que não iriam votar em mim porque sou do PT ou que votariam "apesar disso". Para essas e outras tantas que dizem odiar o PT, eu sou didática sem ser agressiva porque sou dessas que acreditam que o grito não ensina. Continuo existindo e me vestindo como quero.

No caso do segundo turno em que algumas cidades foi “uma escolha muito difícil” (lembrando a manchete do Estadão com a foto de Haddad e Bolsonaro nas eleições de 2018) entre um candidato de direita e outro de esquerda, ao mostrar o programa sem apresentar o partido, a pessoa se simpatizava com o programa do PT (ou outro partido de esquerda como foi em Porto Alegre) sem pestanejar.

Percebi nitidamente que as pessoas querem as mudanças que o PT propõe votando em outro partido que está falando que vai fazer o contrário. Em suma, ninguém lê ou quer saber das propostas. O voto é justificado em cima de palavras do pastor ou de um medo ilusório de que o comunismo vai ser instaurado no Brasil.

Mesmo considerando todas as misérias que o capitalismo nos trouxe, mesmo vendo que o meio ambiente está agonizando pelo lucro desenfreado e perverso promovido por esse sistema, mesmo olhando a fome em vários países capitalistas, é o comunismo que as pessoas temem.

E veja bem, nem estou dizendo que sou a favor do comunismo, só estou pontuando um medo que não se justifica, mas que existe.

Não acho que corremos o mínimo risco de virarmos Cuba, mas percebo que estamos virando um Brasil muito mais desigual.

Toda forma de amor é natural. O ódio não. Toda forma de odiar é ensinada. E o ódio a um partido que em nada ameaçou a nossa democracia (a despeito da perfeição não existir) não é exceção. Quando algo nos incomoda, sabemos muito mais sobre nós mesmos do que sobre o objeto que nos desestabiliza emocionalmente.

Vem de longe esse ódio. A Lava jato e o espetáculo midiático contra tudo que tivesse a ver com o PT foi apenas um capítulo desse livro inacabado chamado Brasil. O antipetismo é uma modalidade de ódio olímpica praticada por pessoas que se informam pela grande mídia e têm seus pensamentos moldados por quem detém o grande capital fazendo com que raciocinem como se fossem grandes empresários.

Os anos que o PT ficou no comando desse país e o que fez em vários governos e municípios (Beijo, Maricá!) são um exemplo perigoso para os interesses do capital. A elite burguesa está ainda impregnada dos seus valores e privilégios herdados do escravismo colonial.

Nesse sentido, Boulos é “PT” porque traz de volta a memória do que pode ser um governo de esquerda, ainda que o programa de governo apresentado pelo candidato psolista tenha divergências com os programas do PT.

Estou querendo dizer que o ódio unifica uma galera que, dado o resultado de domingo, 29, não é pequena: começa na extrema-direita fascista e termina no centro liberal. As diferenças entre eles são várias sendo que a extrema-direita vive numa terra plana e a galera do centro liberal, no mundo da lua.

Dito de outra forma: o povo brasileiro historicamente é conservador e de direita. Confia em Deus e no patrão e veem em ambos uma oportunidade. Defende a PM e ataca a ciência. Ou defendem os dois e desprezam a história.

E não será mostrando a conta bancária da pessoa e os programas de governo da esquerda que nos levará a ter sucesso nas próximas eleições. Não será pelo aumento da fome e nem do desemprego nos governos de direita. O governo do PT permitiu a mobilidade social, mas o outro lado joga de forma imunda. O disparo das fake news não foi punido e entrou em 2020 como uma tática praticamente oficializada nas eleições. Nosso inimigo não é Bolsonaro e sim a inoperância das leis.

Reverter isso não se faz em dois nem em quatro anos. É necessário trazer os jovens para o debate, intensificar os diálogos com as universidades, os secundaristas, os botequins, com as igrejas, estar nos bailes, nos rolês aleatórios, com os bêbados e com os equilibristas... é necessário trazer de volta Henfil e tanta gente que partiu no rabo de foguete e puxar pela mão quem se absteve do voto. E esse trabalho precisa começar hoje.

Quanto a uma frente ampla de esquerda, vimos que temos que melhorar essa ideia e “combinar com os russos”. Em Recife, doeu ver o PCdoB na chapa que usou a máquina do estado e do município contra Marília Arraes do PT. Por outro lado, aquele quadro com Lula, Dino, Ciro e Marina no programa eleitoral do Boulos nos fez inicialmente sonhar. Mas a verdade é que somente PT e PCdoB foram às ruas pedir votos para Boulos. Foi o que o cientista político com doutorado falou: é tudo muito confuso.

No que toca ao PT, tivemos alegrias pontuais mas o saldo foi negativo. É preciso encarar essa realidade mesmo que doa os ossos. É o que estou fazendo agora entre uma aula remota e outra.

Vale observar, que há outros partidos de esquerda, mas a grande mídia praticamente os despreza. Didática melhor não há: o PT é mais do que um partido. É uma ideia a ser combatida.

No que toca ao todo, avançamos um pouco. Voltamos a viver na terra redonda e a gravidade voltou a fazer sentido. Em tempos de crise sanitária em que a vacina está prestes a chegar, isso não é pouca coisa. No Rio, ao menos temos agora um prefeito que não demoniza o carnaval. Avançamos nove casas. Ufa!

O Brasil só acabou para quem desistiu dele. A luta que se perde é a luta que não se luta. Se fosse fácil, seria lenda e não história.

Bora que 2020 está acabando e 2022 está logo ali.
_____________
(*) Elika Takimoto é professora, escritora e política brasileira. Graduou-se em Física pela UFRJ, onde também fez o mestrado em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia. Fez doutorado em Filosofia pela UERJ e é coordenadora de Física do Cefet.
(Este artigo foi publicado originalmente no blog da autora com o titulo de “O day after”, dia 30/11).

Criado em 2020-12-02 12:49:54

Brasília, cidade abandonada

Sandra Crespo -

Nossa cidade está jogada às traças! As fotos mostram o estado em que se encontram as calçadas, a faixas de pedestre, a falta de mobilidade nas entrequadras comerciais. As lixeiras estão sem fundo e improvisadas.

Se isso é visto no Plano Piloto, imagina nas cidades menos abonadas do Distrito Federal.


Essas fotografias foram tiradas esta semana na CLN 215/216. Mas há muito mais desleixo por toda parte.

Criado em 2016-07-23 20:56:00

Palestras da Nova Fiari começam com “Trotsky, arte e revolução”

A Nova Federação Internacional de Arte Revolucionaria e Independente (Nova Fiari), criada em 2021 por artistas e intelectuais do Brasil, Argentina, México, França, Espanha e Bélgica, apresenta a sua programação de debates para os meses de fevereiro, março e abril deste ano.

Os debates são virtuais, gratuitos e podem ser acompanhados simultaneamente pelo aplicativo Zoom, sempre nos horários das 13h, no México; 16h, no Brasil e na Argentina e às 20h na Espanha e na Bélgica.

Detalhes da programação no site: https://fiari.art/nouvelles/

A seguir, calendário, temas e palestrantes:

26/2 - Trotsky, arte e revolução - com Martha D´Angelo e Roberto Rutigliano (ID Zoom 852 9047 1174).

5/3 - Arte engajada - com Jorge Antunes (ID Zoom 889 3895 6592).

12/3 - Destruição deliberada do patrimônio cultural, crime contra a humanidade - com Juliette Robichez (ID Zoom 865 0395 5968).

19/3 - A música na Semana de Arte Moderna: Nacionalismo e luta de classes - com Jorge Coli (ID Zoom 810 4758 0222).

26/3 - Mulheres modernistas: Patrícia Galvão e a Vanguarda Socialista - com Fábio Brasileiro. ID Zoom 842 2298 1568).

2/4 - Sublime como categoria política: para além da noção de “música absoluta” - com Vladimir Safatle (ID Zoom 865 9145 4244).

A Nova Fiari surgiu com o objetivo de chamar a atenção para a necessidade de refundação da antiga federação criada em 1938, na Cidade do México, por três grandes revolucionários: Léon Trotsky, André Breton e Diego Rivera.

“A luta empreendida pelos criadores da federação em 1938 precisa ser implementada e renovada neste momento grave em que a crise do capitalismo se expressa também em uma crise das artes e da cultura em geral”, diz o documento assinado pelos refundadores da entidade internacionalista.


________
Serviço:
Programação completa pode ser lida no site da Fiari: https://fiari.art/nouvelles/

PS: O SESC acaba de botar no ar as peças musicais, poemas e trechos dos discursos pronunciados durante a Semana de 22. Ouça aqui:
https://sesc.digital/colecao/todasemana

Criado em 2022-02-07 01:26:25

O que (ainda) não aprendemos com as lições da guerra fria

Geniberto Paiva Campos –

Certos episódios históricos, considerados de fundamental importância pelos historiadores, terminam sendo interpretados e assimilados de modo superficial, até mesmo simplista, ou pior, equivocados, pelos povos que os vivenciaram.

A “Guerra Fria”, que marcou profundamente o jogo da política internacional na segunda metade do século XX, pela sua complexidade, é um destes eventos. E essa falha assume desmedida importância, desde que foi um episódio marcante, e cheio de nuances. E não somente para os países que compunham a “Grande Aliança”, a frente de resistência ao nazifascismo: Estados Unidos, Inglaterra e União Soviética.

A persistência da “Guerra Fria” por tanto tempo, na realidade chegando até os dias atuais, apesar das tentativas de relegar o episódio ao esquecimento, evidenciou, tão somente, que a “Paz” obtida após os violentos conflitos da primeira metade do século XX escondia inconformismos com os resultados obtidos; o aumento das aspirações de supremacia das nações envolvidas e o receio da expansão do movimento comunista baseado no poderio bélico do campo socialista, sempre visto com lentes de aumento pelos países do “mundo livre”.

Os combatentes da “Guerra Fria” do lado ocidental pretendiam tornar-se vencedores, a qualquer custo, deste novo – e para eles decisivo – confronto. A influência deste objetivo nas relações internacionais, mesmo aparentando uma aura pacífica, foi também decisiva no posicionamento da política interna de países envolvidos nesses conflitos encobertos e na expansão da sua influência hegemônica para outras regiões do mundo. Tornando impossível a esperada coexistência pacífica.

Os Estados Unidos foi o país que pagou um preço bastante elevado em sua política doméstica e por sua participação em conflitos internacionais, nos quais teve envolvimento direto, na medida em que assumiu a liderança e os elevados custos de uma guerra não-declarada, mas de complexos objetivos estratégicos, sendo um dos mais importantes conter/evitar a “expansão do comunismo”, o qual marcou definitivamente o padrão político ideológico de um conflito bélico não-declarado, cujas “batalhas” eram travadas em várias frentes. Tendo em mente, sempre, o terrível “efeito dominó...” Resultando em uma ideologia anticomunista duradoura, mas, propositadamente, tosca e até ingênua.

As repercussões da “Guerra Fria” na política interna americana foram importantes, sobretudo em sua fase mais intensa. A desistência de Lindon Johnson de concorrer a um novo mandato presidencial, em 1969; a renúncia de Richard Nixon ao cargo de presidente, ameaçado por um processo de impeachment, em 1974, foram decorrentes da influência desse conflito no comportamento presidencial. Afinal, as estruturas institucionais de poder não poderiam estar “acima da lei”. E o sigilo das decisões, as operações intervencionistas encobertas, entre outros eventos, teriam gerado situações indefensáveis para a presidência do país, quando expostas ao conhecimento amplo da população, com severas implicações morais, e claro, políticas.

O “anticomunismo” foi o fruto ideológico mais importante da “Guerra Fria”. E inseriu-se, de forma direta ou sub-reptícia, na consciência e no comportamento político das pessoas, em escala mundial. Particularmente na América Latina esse sentimento espalhou-se em vários segmentos da sua população, especialmente na classe média, Forças Armadas, igrejas, mídia e a alta burguesia. Orientados e apoiados – sempre – pelos governos americanos, de ambos os partidos democrata e republicano. Que se tornaram mais intensos a partir da Revolução Cubana, em 1959. Teria havido o que a psicanalista Nora Merin denomina “colonização psíquica, que responde pela obediência inconsciente”, quando o tema é trazido ao debate. Qualquer alternativa seria sempre melhor que o comunismo...

A América Latina pagou – e ainda paga – um preço elevado em sua busca incansável pela igualdade social, desenvolvimento econômico, e a procura, ainda que tímida, da Soberania. Movimentos quase sempre assumidos como de origem “comunista”, e, portanto, sujeitos a golpes de estado e desenfreada perseguição política, por parte do governo americano. Com a cumplicidade de seus dirigentes, Brasil, Chile, Argentina, Uruguai foram vítimas de golpes de estado, de inspiração anticomunista, com a participação efetiva do governo americano.

Nas últimas décadas, quantos crimes foram cometidos em nome do anticomunismo, e mais recentemente, da luta contra o pretexto da “corrupção”. Tortura, assassinatos, “desaparecimentos”, prisões ilegais e vários outros tipos de ilegalidades, cometidas contra cidadãos inocentes, todos, em princípio, culpados, sem necessidade de provas.

Vale lembrar um pouco da História política recente do Brasil. Quando Getúlio Vargas assumiu a presidência da república, pela primeira vez em eleições livres, em 1950, em substituição ao presidente Eurico Gaspar Dutra.

Getúlio procurou fazer um governo voltado para o desenvolvimento do país, preservando e ampliando direitos dos trabalhadores. Ao criar a Petrobrás, em 1953, tornou inviável, aos olhos dos americanos, o seu mandato. Carlos Lacerda, da União Democrática Nacional – a UDN, passou a fazer seguidas denúncias de corrupção ao governo Vargas, anunciando, mesmo sem provas, a existência de “um mar de lama no palácio do Catete”. Seguido do assassinato do major da Aeronáutica Rubens Vaz, num confuso atentado, cometido contra Lacerda, na rua Toneleros, na zona sul do Rio de Janeiro. Isso acabou por levar Vargas ao suicídio, em 1954, gesto extremo do governante gaúcho, para deter o golpe udenista.

Estava em curso uma séria crise político-institucional, com as quais o país iria conviver daí por diante. Crise esta que foi resolvida com a intervenção legalista do Marechal Teixeira Lott, o qual destituiu o vice, no exercício da presidência, João Café Filho substituído pelo deputado Carlos Luz, também destituído, e depois pelo senador Nereu Ramos.

Em novas eleições presidenciais, foi eleito Juscelino Kubitschek, cuja vitória foi inicialmente contestada, mas que assumiu normalmente. JK fez um excelente governo, abrindo rodovias, criando a indústria automobilística nacional, e construindo, em tempo recorde, a nova capital, Brasília, na região centro oeste. Seu sucessor foi Jânio Quadros, o qual governou por apenas 7 meses, renunciando ao seu mandato, sem maiores esclarecimentos, em agosto de 1961. Seu vice, João Goulart, somente assumiu, por acordo político militar, com a instituição do regime parlamentarista.

Estavam criadas as condições para um golpe de estado, novamente de inspiração anticomunista, sob a liderança dos militares, que viria a ocorrer em março/abril de 1964, com forte presença americana, o qual duraria 21 anos, com a destituição do presidente Goulart. E com uma sequência de generais-presidentes: Castelo Branco; Costa e Silva; Garrastazu Médici; Ernesto Geisel e João Figueiredo.

Em 1985 ocorreu a Redemocratização, com a passagem tranquila do poder para o estamento civil. Logo depois foi promulgada uma Nova Constituição (Constituição Cidadã, em 1988, segundo seu mentor, deputado Ulisses Guimarães), regime democrático que prevaleceria por 31 anos, até que um novo golpe de estado viesse a decretar o impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016, movimento fortemente apoiado pelo governo americano, para retirar do poder o Partido dos Trabalhadores. Uma forma “soft” de exercício do poder discricionário. Ou o “anticomunismo” do século XXI. Agora, sob o pretexto do “combate à corrupção”. Neste caso ocorreu a importante participação de um novo ator, o poder Judiciário, cúmplice da operação binacional (Brasil/Estados Unidos), conhecida como “Lava Jato”.

Dessa forma, completaram-se 59 anos, entre o final da II Guerra e o início da operação-1945/2014), sempre na vigência do “anticomunismo”, a aposta perene da extrema direita, para a derrubada de regimes democráticos, convenientemente rotulados de “comunistas” pelos agentes golpistas.

Lembrando que o “Trabalhismo” assumiu, quando necessário, o papel do “comunismo”. Assim aconteceu com Getúlio e Jango, ambos do Partido Trabalhista Brasileiro/PTB, na segunda metade do século passado (1954/1964) e com Lula e Dilma, do Partido dos trabalhadores/PT, na segunda década do século atual, ocasião em que Dilma sofreu impeachment, baseado em inconsistências, na realidade meros pretextos, e em seguida, o ex-presidente Lula foi preso e condenado – e assim alijado da disputa presidencial – e mantido em prisão absolutamente ilegal, por quase dois anos, prisão admitida pelo emérito juiz como “sem provas, mas por convicção pessoal”. Conforme determinam os cânones da “ideologia anticomunista”. Condição suficiente para justificar qualquer ilegalidade, desde que necessária à consecução dos objetivos políticos escusos da extrema direita.

A “Guerra Fria” provocou incalculável atraso nas relações internacionais, muito distante de uma necessária coexistência pacífica entre povos e nações, condição essencial para o estabelecimento definitivo da Paz Mundial e do pleno desenvolvimento dos povos. Distante, para sempre, da paranoia anticomunista, doença aparentemente incurável, e que, parece, já começa a contaminar, seriamente, o novo governo democrata americano. Na medida em que o presidente Joe Biden, aparentemente falando sério, distribui ameaças à China e à Rússia. E promete criar uma operação Lava Jato Global, visando conter (Meu Deus!) a Corrupção, alongando o já longo braço de intervenção americana no mundo. Ainda não conseguimos sair do “círculo de giz” imposto pela “Guerra Fria”. Ou não aprendemos as suas lições, ou estas foram convenientemente esquecidas. Para atender às Razões de Estado...

Caberiam, finalmente, três questões: 1 - decorridos mais de 70 anos da Guerra Fria, a evolução natural dos seus padrões político ideológicos ainda não ocorreu? 2 – não seria o momento de se criar um COMITÊ PELA PAZ MUNDIAL? Espaço livre e aberto para irmos além da Detente Cordiale, em busca de uma efetiva coexistência pacífica? 3 - afinal, a quem interessa a sobrevivência da Guerra Fria?

Criado em 2021-04-17 04:03:56

Contra o aumento das passagens no DF.

Vídeo do protesto de ontem (4/1/2017) contra a tarifa de R$ 5 no transporte coletivo.

Criado em 2017-01-05 15:19:20

No intenso agora – São Paulo fora de alcance

Maria Lúcia Verdi –

Acabo de ver o documentário “No intenso agora”, de João Moreira Salles, no Instituto da família, na Avenida Paulista, em exibição simultânea ao “O Processo”, de Maria Augusta Ramos, que verei em Brasília.O filme,de 2017, reúne material filmado na China, em 1966, pela mãe do diretor;na Tchecoslováquia e em Paris, em 1968. Uma recuperação de parte das memórias da família Moreira Salles, por meio da seleção de imagens feita pela mãe de João numa viagem à China do início da Revolução Cultural.

1968, momento chave para o mundo e a democracia do século vinte, as lideranças estudantis e políticas destruídas por distintas faces do poder, seja a da Rússia, seja a de De Gaulle, seja a da ditadura brasileira.

Emblemas dolorosos do passar histórico, do inexorável, das ilusões perdidas e, ao mesmo tempo, um desejo do diretor de tentar compreender melhor a mãe revendo o que ela, senhora da alta sociedade paulista, filmou e escreveu sobre o país de Mao, antípoda à sua realidade.

No mesmo IMS se pode ver a mostra fotográfica “São Paulo fora de alcance”, de Mauro Restiffe. Em branco e preto, com filme de alta sensibilidade, uma poética visual melancólica. O título se refere a uma cidade acelerada, incontrolável, mistura de atualidade e ruína.

Nas palavras do curador, Thyago Nogueira, a mostra é “síntese visual da paisagem humana, arquitetônica e topográfica de São Paulo e uma representação aguçada das tensões políticas e sociais que dão forma ao espaço urbano. [...]Os usos variados e inesperados que os habitantes fazem da cidade, os conflitos entre o desenvolvimento econômico e a preservação do patrimônio, a complexidade do relevo urbano – tudo está nas imagens.”

Ontem à noite, do alto do prédio do Terraço Itália, vi a cidade de cima, como se ela toda coubesse em nossos olhos, uma gigantografia construtivista, quase abstração. O edifício ocupado que pegou fogo há algumas semanas lá embaixo (foto), os morros em torno, o por do sol, e a obsessiva pergunta frente ao presente da cidade e do país: que traços do nosso agora apontariam para alguma esperança? As esperanças dos estudantes e operários de maio de 68 em Paris, em Praga, o discurso de Cohn-Bendit, as utopias sendo arrasadas, os mortos como tristes emblemas.



Há quase uma semana na cidade, vi as mostras mais significativas em cartaz, caminhei por distintos bairros, passeei pela Paulista fechada aos domingos observando todas as tribos possíveis nesta síntese do Brasil que é esta urbeassustadora e fascinante. Ironias por todos os lados. Em frente aos prédios símbolos do Capital, os habitantes da rua improvisam refúgios, expressam uma identidade única: a dos excluídos. Um lê um livro concentrado, numa pose semelhante à minha na rede em casa, o braço levantado; outro que olha desde seu colchão, vestido com uma camiseta onde se lê EQUIPE TI – olha, desde sabe-se lá qual espaço, a festiva e aflitiva confusão encenada para ele, com o brilho especial das cores trazidas pelos vendedores africanos. Fora do seu alcance, seja o país onde nasceu seja o do continente das suas origens.

A ser analisado o fato de que João Moreira Sales registra o fim do sonho revolucionário na França e na Tchecoslováquia de 68, mas não o atualiza enquanto fim na China ou no Brasil. Sobre a China, sempre mostrada pelos olhos encantados da mãe (“encantamento“ é a palavra usada pela voz masculina que narra o filme em off), não há uma reflexão sobre o que é a China pós Mao, a maior economia do mundo hoje.

Sobre o Brasil, ao final do filme, as imagens do povo que se revolta frente ao assassinato do estudante André Luiz. A voz narradora, extremamente intimista, comenta a tristeza francesa e tcheca frente aos assassinatos e suicídios. Observa que as várias câmeras que registraram o momento histórico do assassinato de André Luiz não mostram tristeza e dor, com exceção de uma única moça (a voz pergunta quem será - irmã, namorada ou amiga), mas sim mostram a raiva e a revolta popular, os clamores pelo fim da ditadura.

Raiva e revolta não se vê na Paulista aos domingos, apenas as expressões democráticas de grupos e individualidades as mais diversas. Estarão esses sentimentos, mais do que nunca, fora do alcance dos brasileiros do radical século vinte e um? Ou será uma impossibilidade atávica a nossa para processarmos grandes transformações, realizar cortes radicais, epistemológicos, numa sociedade que se acostumou à miséria e à injustiça como muito poucas?

Por outro lado, ver arte pontuando todos os grupos humanos na Paulista é animador. Música de todo tipo, estéticas de todos os gêneros, manifestações ideológicas e religiosas costuradas por intervenções artísticas que livremente expõem as diferenças. Que assim continue! (Na foto, obra de Pedro Geraldo Escosteguy).



Sentada num lan house da Paulista, escutando o dialeto do africano que conversa por Skype ao lado enquanto digito, concluo que no intenso agora da São Paulo que observo o que há de mais sério é um País (no sentido mais pleno da palavra) fora do alcance da maioria absoluta dos brasileiros, ao alcance, como sempre foi, de uns muito poucos.

E sobre esses muito poucos, me pergunto com ceticismo: o modelo que eles desejam para o Brasil o transformaria em um país alcançável pela maioria?

Criado em 2018-05-12 22:51:17

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