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Antônio Carlos Queiroz (ACQ) - Está no ar mais um episódio da República Popular das Letras, em que converso com o cineasta Pedro Jorge, que dirigiu Tigipió, uma questão de amor e honra (1985) e O calor da pele (1994).
Pedro Jorge foi o primeiro cineasta de Brasília a ganhar o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, com o documentário Brinquedo Popular do Nordeste, em 1977.
Mixando muitas dicas técnicas com cenas que viveu na sua estadia em Roma para estudar, nos anos 60, quando ficou próximo de alguns “deuses” – os irmãos Taviani, Visconti, Antonioni, Fellini, Pasolini – a conversa com Pedro Jorge, professor aposentado da UnB, é uma aula abrangente e muito bem humorada da sétima arte.
Além de seus filmes e documentários, incluindo um sobre a vida pessoal de Santos Dumont (O homem que ensinou a voar), Pedro Jorge foi o responsável por resgatar a história da vida de Luis Cruls, o astrônomo belga que realizou o primeiro estudo do quadrilátero onde seria edificada Brasília.
Ele também registrou, junto com o jornalista Carlos Chagas, uma série de entrevistas com o jornalista Carlos Castelo Branco, o Castelinho, sobre os bastidores da política nacional de Getúlio Vargas a José Sarney.

Criado em 2023-06-01 17:36:14
Luiz Martins da Silva –
“Todos ali eram bandidos”, disse a segunda maior autoridade do Poder Público, um tanto com ressalvas, “... não vi ainda todos os detalhes”. Tais declarações somente ressaltaram o que já é de praxe: chacinas, massacres, genocídios, todos, na História, foram feitos sob o manto da legalidade, mas, nenhum com legitimidade, pois, existem leis, regras e imperativos morais que determinam: quem quer que seja não se executa e, se indefeso e alvejado, é, crime abominável. Ainda mais, se o ‘bandido’ já está dominado, apreendido, sob controle, podendo ser manietado com algemas e levado a um hospital ou a alguma instância de detenção para, em seguida, ser enquadrado, documentado e encaminhado aos procedimentos jurídicos.
Até na guerra, as regras são claras. Exemplo: vem descendo um paraquedista inimigo. Ele pode até estar armado, mas não poderá ser alvejado por parte de quem está, em terra, com arma engatilhada, à espera. Será rendido e, como aprendemos na socialização secundária dos filmes de Far West, Western, bang-bangs... será detido. Não maltratado. Ninguém está disponível aos trancos da revanche, da crueldade, da tortura e, sobretudo, da execução sumária, haja vista, por direitos universais, ser, ainda que ‘bandido’, portador do status de humano.
O que se viu numa “comunidade” do Rio de Janeiro, foi, como em tantos momentos escabrosos da História, antes de tudo, uma covardia. E até há, neste momento de pandemia, um interregno, uma espécie de trégua. Quem disparou agiu extralegi. Todavia, um fora da lei, já está fora dela. De um policial não se espera ser ele um agente duplo, que ora age na lei, ora fora dela, mas, na hora de se desculpar, alega, sempre, violência legal e legítima. Tradução: tropas não invadiriam os morros e quebradas nesta conjuntura de coronavírus. Para a vice-maior-autoridade, entretanto, trata-se de uma guerra. E, desde a sua sapiência militar, em guerra o propósito é a morte do inimigo, pois eles, especialmente no caso dos bandidos do Rio, estarão à espera, recebendo, à bala, as “autoridades constituídas”.
Guerra – Tacitamente, a guerra contra o tráfico de drogas, de armas e outros delitos fartamente mostrados e demonstrados pela televisão, em notícias e em ficção, sempre esteve [informalmente] declarada. Ora! E se, também desta forma, os bandidos do Rio e de outras quebradas entenderem, por si – e, mais agora, com o estímulo ao ‘direito’ comprar armas à vontade –, de que é guerra e que guerra é guerra? E se vieram a Brasília e matarem a todos nós, pois, tacitamente, todos os que estão, aqui, são uns bandidos, usurpadores, corruptos, ladrões, sujos pendurados em tetas, eternos sugadores de mamatas e uns tantos mais tipificadores? O próprio ministro da Economia se referiu aos funcionários públicos como inimigos, além de parasitas.
Quem sabe, no entanto, os “bandidos” afinem um pouco o foco e venham direto ao Congresso, este que, muita gente, autoridades e até mesmo políticos, já vieram a público esticar o indicador para denunciar que, ali, está a maior corja reunida de bandidos! Entre os próprios Três Poderes é comum se ler, ouvir e ver desabafos no sentido de que se devia prender, por exemplo, todos aqueles 11 do Supremo, pois, bandidos são todos. No Executivo, então, o vulgo divulga a toda hora impropérios no tom de que os palácios e residências oficiais de Brasília ‘são’ os abrigos mais intensos de toda sorte de criminosos e contraventores.
Uma vez, na ditadura, um jovem poeta de Brasília (Nicolas Behr, à época um pós-adolescente) foi preso e interrogado na polícia por causa de alguns versos, mas, sobretudo, por causa de um deles: “Este palácio é uma cascata!”. Referia-se a então recente cachoeirinha artificial que pendia dos arcos do palácio do Ministério da Justiça. A ironia era para com um simples questionamento comum a todos: será a Justiça brasileira justa? Cascata, por sinal, é gíria das rotinas jornalísticas, quando um repórter embarca em fake news, por conta própria ou porque bebeu em fonte venenosa. Cascata é, também, quando o poder constituído fala de boca aberta que temos Constituição, Justiça, direitos e deveres, mas, ‘de cima’, vem o mau exemplo, de que, justiça, se faz à moda do desrespeito às leis ou nos subterfúgios do caixa-dois; da “rachadinha”; ou em resvalos que têm motivado tantas CPIs e impedimentos.
Querem balas? – Em outras palavras, recordemos o que, uma vez, duma alta autoridade religiosa do “Sul-Maravilha” nestas palavras justificou a tortura: “Querem o quê? Que terroristas sejam tratados com bombons?”. Noutro recurso estilístico, e popular, ‘a única linguagem que bandido entende é a das balas, não as que as crianças das favelas vendem nos becos e cruzamentos de trânsito, mas, “azeitonas”, chumbo grosso! E que figuram no jargão dos morros, das quebradas e, idem, nas letras do cancioneiro. “Tá vendendo drops, no sinal pra alguém!” (Lenine). “Olha aí, olha o meu guri” (Chico Buarque). Ou, quando, no espanto, se indaga: “Que tiro foi este, que ‘tá um arraso!?” (Jojo Maronttinni). Será que a única linguagem que os ‘bandidos de colarinho branco’ entendem será, ibidem, a das balas? Certamente, não as balinhas, drops, jujubas e mordomias. Em Goiás, os políticos gastaram tanta verba pública em gasolina que daria para abastecer um foguete até à Lua. Sem eles, claro.
Versões oficiais, notas oficiais, declarações oficiais, muitas coisas da Vida Oficial irão ser emitidas para justificar o injustificável. E a Imprensa, por mais que nela atirem as pechas-lugares-comuns (inventa, distorce e é parcial, venal etc), já ouviu testemunhas e, elas, mais do que deram declarações: mostraram corpos, sangue, miolos, de bandidos, sim, mas também de inocentes, incluindo crianças que estavam, inocentemente, nos becos ou em casa. Declarações institucionais já acorreram perante o acontecido. Praticamente, as mesmas pronunciadas em outras situações igualmente dramáticas, trágicas e estúpidas. E, marcadamente, com uma cobrança básica: “É isto que é a Segurança Pública?”. “É este o papel do Estado, que não comparece com políticas públicas e sociais, mas é assíduo tiros e ‘caveirões’?”
Mais uma vez, o mundo olha para o Brasil e vê um país manchado de sangue. Há muito, o mundo não olha mais para o Brasil e, especialmente, para o Rio de Janeiro, desde um imaginário de cores, praias, alegria e algo que todos procuram no mundo, principalmente, neste momento: algo que tangencie um mínimo para este patamar que todos procuram pelo nome, felicidade. Ou, pelo menos aguardam, com muita ansiedade, uma vacina. Viver é para todos, mesmo os que são alvejados pela infelicidade de estar na mira errada.

Criado em 2021-05-08 21:30:35
Patrícia Porto da Silva -
A indignidade atinge todos nós, brasileiros - não só os que vivem o cotidiano de horror das áreas desassistidas do País. Em diferentes medidas, todos somos responsáveis por um Estado que pratica arbitrariedades contra a população que deveria proteger.
A mal explicada e ineficaz atuação policial no Rio de Janeiro, estimulada pela eleição da chapa Wilson Witzel/Claudio Castro, concorre para aumentar segregação, revolta e descrença.
Demonstração de indiferença e desrespeito à dor e impotência dos que observam corpos de familiares ou vizinhos serem amontoados na carroceria de uma camionete. Estímulo à busca de outras instâncias de proteção, com a irremediável consequência de aprofundar conflitos.
Criado em 2022-05-28 22:46:10
José Carlos Peliano
As marés levam e trazem os dias
na orla que abraça a Copacabana
praia de corpos quentes e águas frias
onde a cor da morena brisa abana
A bossa nova vem por nostalgias
o carnaval dos blocos se engalana
a vida segue alegre em poesias
com Drummond e Gullar cada semana
Drummond inventa Minas ao calçadão
poemas de bronze às ondas do mar
fazendeiro do ar e anfitrião
Gullar deixa os poemas pelo ar
perto do Posto 9 e região
onde seu Maranhão trouxe a rimar
Criado em 2023-02-17 18:24:09
João Lanari Bo (*) -
Avesso a homenagens e rasgações de seda, Jean-Luc Godard por algum motivo resolveu aceitar que Festival Internacional de Cinema de Kerala, na Índia, lhe carimbasse um lifetime achievement em março de 2021, com direito a uma conversa virtual de 85 minutos: munido de charuto e celular, trafegou pelas perguntas e falou o que quis, bem humorado e paciente.
Para ele, o incontornável vírus que nos assola é uma forma de comunicação, é informação: não sabemos muito sobre ele – talvez alguns cientistas saibam – assim como não sabemos muita coisa do cinema.
Na mosca: o vírus é um código genético, logo informação que se transmite, assim como a (codificada) linguagem cinematográfica. “Estou terminando minha vida no cinema – sim, minha vida de cineasta – fazendo dois roteiros”, lançou aos 90 anos, sobre seu plano de se aposentar em um futuro próximo. “Depois, direi: Adeus, cinema”.
Kerala é a província mais ao sul no mapa indiano, a base do cone que conforma esse país que, a exemplo da China, desafia a lógica cartesiana ocidental. Um dos roteiros chama-se, hélas, Roteiro; o outro chama-se Guerras Engraçadas. Se algum desavisado espera roteiros de manual, esqueça: depois de reiterar sua (des)preocupação com os roteiros, Godard desfilou na tela da live sua versão poético-visual das Guerras Engraçadas; junção de palavras e imagens no estilo do seu último longa, Le livre d’image, de 2018, que no Brasil recebeu o título de Imagem e Palavra.
Perguntado sobre a famosa asserção de Giorgio Agamben – contemporâneo é aquele que percebe a sombra de seu tempo como algo que lhe incumbe e que não cessa de interpelá-lo – sorriu, apenas. Quem se recorda do seu curta na virada do milênio, Dans le noir du temps – No breu do tempo, na feliz versão de Mateus Araújo – sabe o que se passou pelos neurônios godardianos. Logo na introdução desse fabuloso poema-filme, poesia em forma de diálogo:
“Porque a noite é escura”? pergunta uma jovem, banhada pela luz intermitente de uma lareira. “Talvez o universo tenha sido jovem como você”, responde o interlocutor, “e o céu todo brilhante”. E completa: “o mundo ficou mais velho; quando olho o céu entre as estrelas, só vejo o que desapareceu”.
As estrelas são pontos de luz que remetem a uma fonte luminosa e brilhante: a razão. O tempo traz a obscuridade, que permeia as existências e transfigura os valores. Os breves e fulgurantes fragmentos escolhidos por Godard costuram a poética desse percurso: imagens de sua lavra, Viver a Vida, Rei Lear, Le Petit Soldat e Made in USA; homenagens radiantes, Evangelho segundo São Mateus e Ivan o Terrível; e registros anônimos de cenas de guerra e campos de concentração.
“Quando soube que Orson tinha feito seu primeiro filme aos 25 anos, quis fazer o meu antes dos 25 anos”, revela. Cinema era, a um só tempo, hobby e job: mas também era uma intuição, ou uma doença, a pulsão de captar a realidade, como os Irmãos Lumière queriam.
Godard começou no vácuo da 2ª guerra e da libertação, focado na produção: fazer filmes era aprender a olhar o mundo com um olhar técnico-religioso. Hoje, asseverou, talvez mais importante do que a produção seja a distribuição, um serviço de utilidade pública. O percurso godardiano, sete décadas de cinema, é extenso: longas, curtas, manifestos políticos, clipes, cartas abertas, publicidade, programas de TV, película, vídeo ou digital.
Grosso modo, são três ciclos: nouvelle vague, filmes dos anos 60 nos quais muita gente se identificou pelo comportamento libertário dos personagens, como Acossado, de 1959, e Viver a vida, de 1962; pós-maio de 68, com a radicalização política e o afastamento do circuito comercial, como Vento do Leste, de 1969; e a volta ao “sistema de produção burguês”, no final dos 70 até hoje, com uma produção abundante e melancólica, no sentido romântico da palavra, como Salve-se quem puder (a vida), de 1982, e Para sempre Mozart, de 1996. Mas, melancólico? Afinal, em plena era da internet, seria Jean-Luc algo como um poeta romântico?
“Romântico” não significa aqui um sujeito passivo, à espera de uma inspiração emotiva. Dirigir e montar, relacionar tempo e espaço, é uma operação mental e quer ser percebida como tal: não é simplesmente reproduzir um fluxo narrativo ameno e confortável para nossos sentidos.
Os filmes de Godard interrompem esse fluxo e instauram no espectador lacunas, dúvidas e questões. Nesse preciso momento, cai a internet em Kerala: mastigando o charuto, Godard interroga seu interlocutor, um crítico indiano: você pode elaborar uma imagem do silêncio? O escritor Jules Renard, completa, tinha a sua: “neve na água, silêncio sobre silêncio”. O isolamento, diz Godard, “me permite olhar o som e a fúria” do que se passa do lado de fora da janela.
Para Nicole Brennez, as propostas estéticas de Godard têm três níveis: articulação das imagens na montagem; potências simbólicas atribuídas às imagens; e relações da representação das imagens com uma efetividade histórica. A “dialética fundadora na economia das imagens em Godard”, prossegue, “é uma forma de pensar a partir do que está faltando, ou seja, imagens que não foram registradas ou vistas, filmes que não foram acabados, gestos que foram encobertos, vidas muito cedo interrompidas”. O solo epistemológico é o Witz, conceito forjado pelos românticos alemães, uma forma de pensamento crítico que identifica poesia, conhecimento e verdade.
Como seus últimos filmes encontraram essa forma fragmentada, de ruídos, clipes? pergunta o crítico. Resposta: “falta linguagem na língua…palavras, palavras, palavras, como dizia Shakespeare; hoje o master é o alfabeto Google”. Foi filmando Atenção à Direita, em 1987, que Godard, alertado pelo seu diretor de fotografia, se deu conta que seus filmes não seguiam o padrão habitual de enquadramento, ou seja, limitar, na câmera e no olhar, o que se pretende fotografar ou filmar. Seus quadros cinematográficos, par contre, são como os quadros impressionistas, pensados a partir do centro da imagem. Adeus à linguagem, de 2014, foi mal compreendido: o título correto deveria ser Bom dia, linguagem.
Em Eu vos saúdo, Maria, de 1985, Godard percebeu que “basta estar em close para Maria não emocionar mais”: numa era em que a ciência opera a reprodução humana por meio da disjunção dos corpos, como representar o dogma da geração divina de Cristo? A solução, na dialética fundadora das imagens do franco-suíço, foi mostrar Maria, em meio a convulsões que lembram o arco histérico dos corpos de Charcot, recitar, em off, uma linha do genial herege Antonin Artaud: “quero que a alma seja corpo”.
E as plataformas digitais? interroga o crítico, atento às novas tecnologias. “Não assisto…só tenho o celular!”, brada o cineasta, colocando o aparelho no centro da tela: “de vez em quando mando imagens para uns poucos amigos, como esta”, mostrando um homem pescando e olhando para o rio; “é como jogar uma garrafa no oceano”. E arremata: “o que a água, toda a água do rio, está dizendo?”
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(*) João Lanari Bo é professor de cinema da UnB.
Criado em 2022-09-13 12:16:31
Roberto Amaral*
O labirinto em que se encontra o presidente Lula – no esforço por dar caráter ao seu governo, que se espera desenvolvimentista – é formado por uma sequência incontável de desvios, túneis, alçapões e armadilhas arquitetados pela casa-grande, para quem a tragédia social é uma irrelevância. Guarda-o um Minotauro ferocíssimo e insaciável.
O método da classe dominante, que às vezes se vale do codinome de “mercado”, é asfixiar o novo governo, imobilizá-lo, impedi-lo de promover as reformas prometidas ao eleitorado e reclamadas pela História. A alternativa que sobra ao mandatário é também seu suicídio: adotar como sua a política do establisment. Permanecer no governo renunciando à governança.
A Lula foi concedida, em 2022, a disputa eleitoral, negada em 2018 pela aliança de um STF covardemente genuflexo com um general exacerbadamente golpista; honrando sua biografia, o petista em campanha prometeu um governo voltado à defesa dos mais pobres, ao combate ao desemprego e à fome, cuja necessidade, por si só, é o atestado de nosso fracasso como nação. Nas ruas conquistou o direito à posse presidencial, ainda que aos trancos e barrancos, e a um custo que a história contabilizará. Com o apoio do país indignado venceu um putsch fascista animado pela solidariedade nem sempre silenciosa dos fardados.
Mas, não obstante tantos feitos, a governança é hoje seu desafio maior. Não se trata, tão-só, da incolumidade do mandato conferido em eleição plebiscitária, mas da realização de um projeto que tanto mira o aqui e o agora – o refazimento do Estado social – quanto o futuro imediato, com a criação de condições políticas de enfrentamento da ameaça fascista, abalada, mas não sepultada pela derrota eleitoral (ao cabo de votação mais do que expressiva) do ex-capitão de extrema-direita. O necessário bom êxito do governo Lula, por óbvio, não interessa ao sistema empresarial-militar (intocado) que vem regendo o país desde o golpe de 2016, e que constitui a retaguarda financeira e logística do conservadorismo hegemônico.
A arte de governar, sob a cartilha da dominação de classe, ensina proceder exclusivamente às mudanças que nada mudam, ou então governar em condomínio. Os trilhos pelos quais transitaria o governo são demarcados pelo grande capital e, por consequência, pela grande imprensa, pelo congresso reacionário, pelos rentistas e especuladores.
Lula resiste e engendra o salto para fora do labirinto.
Para disputar as eleições, o presidente montou a mais ampla coligação de partidos e interesses políticos e econômicos jamais conhecida na história republicana. Para governar estendeu-a ainda mais, caminhando o quanto pôde à direita, até ao Centrão, onde, salvo engano, fincou o último marco. Mesmo assim depara-se com dificuldades para levar a cabo seu programa de governo, um projeto de caráter simplesmente social-democrata, despido de qualquer insinuação revolucionária; dele poder-se-á dizer que, atento às circunstâncias herdadas, persegue um reformismo moderado e o fortalecimento das instituições democráticas tais quais são, ou seja, nada que altere ou mesmo de leve ameace o atrasado capitalismo que nos molesta. O sistema, porém, no meio do qual manobra o Banco Central, diz ao presidente que lhe falta legitimidade para gerir sua própria política econômica, nada obstante o respaldo de 52% do eleitorado às teses expostas na campanha eleitoral.
Diariamente, faça chuva ou faça sol, os editoriais dos grandes jornais, os comentaristas de televisão transformados em cientistas políticos e multiespecialistas, todos dizem ao governo o que lhe compete fazer e o que não pode fazer: fundamentalmente cumpre-lhe pagar os juros escorchantes estabelecidos e cobrados pela banca, e deixar de investir (ou “gastar”, segundo o vocabulário monetarista neo-liberal).
Os banqueiros e seus agentes, nas dezenas de “consultorias”, corretoras, casas de crédito e quejandas (umas formadas por ex-diretores do Banco Central, outras por futuros diretores do Banco Central), liderados pelo presidente da autoridade monetária, enfant gâté da grande mídia, conduzem o debate econômico em torno da balela de que juro alto combate a inflação e "gera confiança nos investidores". O presidente da república, afrontado em suas competências, vendo ameaçada a realização de seu programa de governo, é criticado por protestar contra uma taxa Selic de 13,5% contra uma inflação de 3,5%. Voltamos a ser campeões, desta feita de juros altos, os mais altos do mundo, ao tempo em que somos a segunda mais injusta sociedade do planeta.
Que nos dizem esses juros?
O encarecimento da dívida pública onera o governo (o orçamento da União legado pelo bolsonarismo prevê 247 bilhões de reais para o pagamento de juros e encargos da dívida) ao tempo em que beneficia os rentistas, cujos interesses se materializam na política do BC que intensifica o desaquecimento de uma economia já estagnada, quando precisamos investir algo equivalente a 22% do PIB, e presentemente só investimos 18%. A política contracionista – aumento dos juros e cortes de gastos – é receitada no momento em que os bancos privados, ameaçados em seus lucros pela crise do grande varejo, optam pela retração do crédito. Juntem-se juros altos e crise de crédito com corte expressivo de gastos e temos as portas abertas para um ataque recessivo, após anos de estagnação econômica denunciada por um PIB que há seis anos não ultrapassa os 2%!
Este, o projeto político vocalizado pelo BC e tonitruado pelos “especialistas” da grande mídia.
O desafio presente, para as forças progressistas, é assegurar ao presidente Lula condições de levar a cabo seu projeto de recuperação econômica e política do país. Esse desafio, urgente e ingente, ressente-se, porém, da fragilidade dos partidos de sustentação do governo – já agravada pelo descenso do movimento popular e das organizações sindicais –, de que resulta a necessidade de composição com os donos do poder, o chamado establishment: um consórcio de forças poderosas que compreende o grande capital e seus inumeráveis segmentos e agentes, como a corporação militar e suas ramificações, fardadas ou não, o poder legislativo (onde somos minoria), o poder judiciário, empoderado, e os setores religiosos, de um modo geral conservadores.
Lula só fará o que quer que seja próximo de seus compromissos de vida e de campanha se em seu governo o país se reencontrar com o desenvolvimento, o que, com os dados de hoje – e se não for possível quebrar a hegemonia do BC “independente” e seus satélites –, trata-se de mero sonho de uma noite de verão, em face dos custos do dinheiro que inviabilizam a produção, mas fazem a festa dos especuladores, a erva daninha que tomou o lugar dos empresários e hoje é a fração mais poderosa da classe dominante brasileira, herdeira da casa-grande, a comandar o país a partir da Faria Lima – a casamata dos rentistas que se financiam lá fora a juros baixos para aplicar aqui, sem risco cambial, com a taxa de juros estratosférica que eles mesmo estabelecem para seu lucro parasitário, em prejuízo da economia como um todo, impedindo investimentos e agravando o custo da dívida pública (arcada pelo Estado), cujo peso termina recaindo sobre toda a população.
Ao controlar o BC e ditar a política monetária, a banca se permite estabelecer que o Estado deverá financiá-la por meio da emissão de dívida (assim eliminando o risco inerente a toda atividade produtiva), e ainda determinar o valor que aceita receber (hoje, uma taxa básica muito acima da inflação). E se o governo da vez ousa reclamar, em defesa dos compromissos assumidos com a população, o aparato comunicacional vocifera, em uníssono, denunciando “intervencionismo”, “populismo fiscal”, “gastança” e assim por diante. É uma completa inversão: o mercado financeiro, que nasce com uma função suplementar, secundária em relação à economia real dos países, assenhorando-se da política econômica...
Pesa sobre nosso destino uma classe dominante avessa à produção e ao trabalho, inimiga da imaginação e do pioneirismo, que opta pela desindustrialização e retorna ao arcaísmo da economia primário-exportadora e do rentismo. O atraso do país, absoluto e relativo, o descompasso face às nações contemporâneas que realizaram suas respectivas revoluções industriais, é fruto de opção consciente de nossas elites, desde sempre alienadas.
Seu legado é um projeto de dependência política, ideológica e econômica sustentado por um estado estruturalmente autoritário, um autoritarismo larvar, renitente em toda a história e dominante na ordem política, nascido na colônia, filho do escravismo e do genocídio das populações nativas, elevado aos extremos da violência no império e modernizado na república sereníssima, fundada na exploração de classe. Esse autoritarismo é a camisa de força de uma sociedade de cerca de 220 milhões de habitantes, dos quais apenas 1º de sua população detém 27% de toda a renda nacional (The World Inequality Report, 2022).
Essa classe dominante é o Minotauro faminto que espreita Lula em seu labirinto, ansiosa por devorá-lo e assim pôr-se na segurança de que tudo continuará como está, pois as mudanças concedíveis são apenas aquelas que não podem passar das aparências.
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(*) Com a colaboração de Pedro Amaral
Criado em 2023-02-23 16:16:17
Betty Almeida (*) -
O projeto de alteração do nome da Ponte Costa e Silva, apresentado à Câmara Legislativa do DF em 2015 pelo deputado distrital Ricardo Vale, no desempenho de seu mandato recebido pelo voto popular, foi aprovado e sancionado pelo governador Rodrigo Rollemberg.
Em 2017, sentença do juiz Carlos Frederico Maroja Medeiros da Vara de Meio Ambiente Desenvolvimento Urbano e Fundiário do DF analisa aspectos técnicos considerados na ação judicial de alguns moradores do Lago Sul, em 2016, e lembra que a homenagem a quem patrocinou a tortura e a opressão não é de modo algum do interesse da sociedade. O juiz manda refazer todo processo de mudança e enquanto isso, decide manter o nome de Honestino.
Porém no dia 6 de novembro de 2018 o Conselho Especial do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) considerou a Lei n° 5.523/2015 – que alterou o nome da ponte, inconstitucional. A decisão do TJDFT sobre a ação de uma deputada recém-eleita, como ela mesma diz, é histórica, sim, por representar um triste retrocesso na memória do nosso país, o único da América do Sul que não puniu aqueles que, em vez de sequer cumprir suas próprias leis, prenderam ilegalmente, torturaram e mataram cidadãos por defenderem suas ideias e exercerem o direito, afirmado na Declaração Universal dos Direitos Humanos, de se opor à tirania de uma ditadura.
Honestino Monteiro Guimarães é o estudante da Universidade de Brasília que se destacou por ter passado em primeiro lugar geral da UnB no vestibular de 1965, aos 17 anos. Tornou-se o líder dos estudantes da UnB na resistência contra a ditadura, que de 1965 a 1968 invadiu quatro vezes a Universidade. Nomear a ponte é a homenagem justa de uma cidade em que Honestino é, para a juventude de hoje e os que viveram as lutas do passado, um símbolo de integridade e coragem na defesa de ideais de justiça e liberdade. É uma forma de honrar sua memória e demonstrar respeito à sua família.
As qualidades individuais de Honestino abriam para ele amplas perspectivas de realização social e profissional. Ele vinha de uma família amorosa e solidamente constituída, e apesar da perseguição que sofria, casou-se (no religioso e no civil) e teve uma filha. Mas abdicou de sua vida e anseios pessoais para dedicar-se à militância estudantil e à luta clandestina contra a opressão ditatorial e pela justiça social. Por isso foi perseguido e ameaçado de morte pelos órgãos de repressão política e enfim, no dia 10 de outubro de 1973, aos 26 anos, desapareceu. Sua família procurou-o incansavelmente por décadas, sua mãe Maria Rosa Leite Monteiro e seu irmão Norton Monteiro Guimarães faleceram sem obter respostas sobre seu paradeiro, ainda hoje desconhecido.
A Oscar Niemeyer, também alvo de perseguição da ditadura, que projetou a ponte, certamente agradaria mais o nome de Honestino do que o de Costa e Silva
O anexo à Lei 9140/95 lista os nomes de 136 pessoas mortas ou desaparecidas em razão de atividade política, entre as quais Honestino. Seu desaparecimento já foi investigado pela Comissão de Direitos Humanos da OAB-DF em 1992, pela Comissão Nacional da Verdade e pelas Comissões Estaduais da Verdade do Rio e de São Paulo, sem resultados conclusivos. A estudante Aparecida Schoenacker, presa no Dops em São Paulo em janeiro de 1974, ouviu de um investigador que Honestino estava morto.
Hoje correm rumores de que os despojos de Honestino, morto sob tortura em Brasília, estariam na cidade de Formosa, em Goiás. Mas os que lutam por Memória, Verdade, Justiça e Reparação comemoraram, no dia 13 de dezembro de 2022, a derrubada, pela Câmara Legislativa do Distrito Federal, do veto do governador Ibaneis Rocha ao projeto de lei nº 1.697/2021, do deputado Leandro Grass (PV), que altera o nome da Ponte Costa Silva, no Lago Sul, para Ponte Honestino Guimarães. Lembremos que não dar a logradouros públicos os nomes de responsáveis por crimes contra a Humanidade foi uma das recomendações da Comissão Nacional da Verdade.

Nesta sexta-feira (23/12), faremos uma homenagem festiva a Honestino, junto à placa, do lado da Praça dos Orixás, às 10 horas da manhã. Vá e leve flores!
De agora em diante, quando cruzarmos a PONTE HONESTINO GUIMARÃES sentiremos orgulho por termos lutado por essa homenagem, além de uma imensa saudade do nosso companheiro querido. Nunca abandonaremos a luta por justiça para ele e para nossos companheiros mortos e desaparecidos pela ditadura militar.
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(*) Betty Almeida é professora universitária aposentada, autora da biografia Paixão de Honestino, Editora UnB, Brasília, 2016.
Criado em 2022-12-23 02:06:03
O encontro será em Brasília na W3 Sul, Quadra 508, amanhã (27/12), a partir das 19h, no Espaço Cultural Renato Russo.
Essa é a 5ª Edição do projeto Ontologias Outras, promovido pelo Instituto Rosa dos Ventos e contará com aula magna ministrada pelo sumo sacerdote Nigeriano da tradição do Ifá, Babalawo Arabá Ifaniyi Alade Ojo e bate-papo com as Iyas Mãe Dora de Oyá, Mãe Baiana e Mam'etu Zaze Leuacy.
A programação também inclui shows gratuitos com as artistas locais Tereza Lopes e Dessa Ferreira, além da participação especial da cantora e percussionista sergipana Ane Êoketu.
“Desde a minha vinda para o Brasil, tenho muita alegria em promover aqui a cultura Yorùbá, organizando a vinda do Àràbà para interagir com o povo brasileiro. É uma maneira de compartilhar esse Axé com toda a sociedade”, comenta o responsável pela realização do encontro, Ìdòwú Akínrúlí.
Partindo do tema Terra, Espiritualidade e o Desafio Ambiental o evento apresenta ontologias outras que formam saberes africanos, contribuindo para o estreitamento de elos histórico-culturais entre Brasil, Nigéria e o povo Yorùbá, uma vez que este constitui um dos troncos africanos de origem e formação da cultura brasileira.
“É uma satisfação encontrar a minha família de muito tempo no Brasil. Sinto-me em casa sempre aqui e acredito em trocas de informações e sabedoria. Tento somar um pouco com a comunidade e com os filhos de Odudua, uma vez que compartilhamos a mesma origem. Desejo paz, longevidade e saúde a todos em nome de Òrúnmìlà”, celebra o sumo sacerdote.
Para Stéffanie Oliveira, produtora cultural e presidente do Instituto Rosa dos Ventos, o encontro representa uma oportunidade única. “A visita de Araba Awo e a possibilidade de participar de sua aula magna, traz aos brasilienses a chance de entrar em contato com um manancial de conhecimento a respeito da cultura de matriz africana e de seu sagrado.”
Sobre o Babalawo Araba
O Araba Awo Ilobu do estado de Oṣun, Babalawo Ifaniyi Alade Ojo é o atual sumo sacerdote (Araba) da cidade de Ilobu, seguindo a tradição milenar. Nascido no culto tradicional de Orixá da família de Aṣọ́ọ̀ṣà “Aṣọ́ Òrìṣà” – o guardião de Orixás – na cidade de Ilobu (uma das regiões mais tradicionais de estudos e culto de Ifá e Orixá, localizada no estado de Oxum, Nigéria), teve como seu primeiro mestre seu avô paterno, Sr. Ojo Apojojo, que era o sumo sacerdote da cidade de Ilobu à época. O Babalawo Ifaniyi aprofundou seus estudos com vários mestres de suma importância na terra Yorùbá.
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Serviço:
5ª edição Ontologias Outras
Data: 27 e dezembro.
Horário: a partir das 19h.
Local: Espaço Cultural Renato Russo (Quadra 508 Sul, Bloco A).
Entrada: gratuita.
Criado em 2022-12-26 14:56:50
Romário Schettino –
O presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS), vinculado ao Ministério da Saúde, Fernando Pigatto, faz aqui um balanço de sua gestão, que terminará no final de 2021, e critica o negacionismo científico do presidente Jair Bolsonaro. Pigatto disse que ao colocar suas opiniões pessoais acima da vida das pessoas, Bolsonaro despreza a morte de mais de 200 mil brasileiros vítimas da Covid-19.
Pigatto divulgou hoje (7/1) a #FrentePelaVida: Nota de pesar e de indignação pelas 200 mil brasileiras e brasileiros mortos pela Covid-19. O documento é assinado por dezenas de entidades do movimento social e sindical e pode ser lido aqui.
“Somos o segundo país com o maior número de mortes em todo o mundo. São quase 10 milhões de pessoas com infecção confirmadas; e a maioria destas, assim como a maioria das mortes, concentram-se entre os mais pobres, que sempre tiveram acesso precário à saúde, à educação, ao saneamento básico e à moradia digna”, afirma o manifesto.
Segundo Pigatto, “as trocas das chefias, por divergências dos ministros da Saúde com o presidente da República quanto à importância vital das medidas de distanciamento social, o agravamento da pandemia pela reabertura de serviços não essenciais e o uso de medicamentos sem comprovação científica, evidenciam que o governo sobrepôs o negacionismo à vida da população.”
O presidente do CNS informou também que participa de três Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADI) que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF) contra a Emenda à Constituição 95/2016, “que impôs um ´teto de gastos´ para as políticas sociais por 20 anos, prejudicando gravemente o SUS, ainda mais em contexto de pandemia de Covid-19”.
A seguir a íntegra da entrevista:
Como o Conselho Nacional de Saúde (CNS) tem atuado junto ao Ministério da Saúde durante a crise sanitária provocada pela pandemia do coronavírus?
O CNS vem produzindo uma série de documentos para órgãos do Executivo, Legislativo e Judiciário, conselhos estaduais e municipais de saúde e para a população em geral. Assim como recomendações, notas públicas, moções, pareceres técnicos, campanhas, manifestos, cartas e solicitações de informações. Além de encontros virtuais transmitidos simultaneamente pelas redes sociais com convidados externos, articulações e conversas com a Rede de Conselhos de Saúde, movimentos sociais, Ministério Público, Comissões Externas do Congresso Nacional que acompanham ações de combate a Covid-19 e outras instituições comprometidas com estratégias de enfrentamento à pandemia.
Cumprindo a atribuição de acompanhar a execução orçamentária do Ministério da Saúde, o CNS, por meio da Comissão Intersetorial de Orçamento e Financiamento (Cofin), tem divulgado semanalmente o “Boletim Cofin”, que contém informações sintéticas sobre a evolução dos gastos federais do SUS para combate a pandemia, oferece subsídios técnicos que dão suporte às ações públicas e tomadas de decisão, além de auxiliarem a imprensa e a população na compreensão de como os recursos estão sendo utilizados. Observou-se nesse período que, mesmo com a crise sanitária, houve morosidade excessiva na execução orçamentária.
Pautada pela ciência, com as finalidades de salvaguardar os direitos e a dignidade dos sujeitos participantes de pesquisas clínicas; e de contribuir para a qualidade dos estudos para desenvolvimento social da comunidade, a Comissão Nacional de Ética e Pesquisa (Conep) do CNS divulga, também semanalmente, a edição especial do Boletim Ética em Pesquisa, dando transparência aos protocolos de pesquisas científicas relacionadas ao coronavírus no Brasil, a toda sociedade brasileira.
Com o recrudescimento da pandemia no último período, por exemplo, o Conselho publicou, em 22 de dezembro, uma carta aberta à população brasileira com o objetivo de ampliar ainda mais o diálogo com a população diante da gravidade que o país enfrenta por conta da pandemia e alertando sobre as responsabilidades do Estado Brasileiro.
Os conselhos regionais estão atuando em conjunto com o CNS? As reuniões são realizadas de que maneira? Qual a periodicidade?
Ao longo de 2020 o CNS realizou encontros online com representantes dos Conselhos Estaduais de Saúde (CES), com o objetivo de alinhar estratégias de fortalecimento das ações do controle social da saúde diante da pandemia. Os CES são as bases de apoio para os Conselhos Municipais de Saúde (CMS) e nós, enquanto controle social, temos um papel constitucional muito forte de acompanhamento e monitoramento das políticas de saúde.
Além disso, o CNS contribui periodicamente com instrumentos e ferramentas, enviadas para toda a rede de conselhos que servem como subsídios para reforçar o papel do controle social no enfrentamento à pandemia nos estados e municípios.
O ministro da Saúde, ou seu representante, tem participado das reuniões? O Ministério da Saúde tem fornecido informações confiáveis sobre o número de infectados e o número de mortos? Como o CNS tem reagido às constantes trocas de ministros?
O Ministério da Saúde tem representante em todos os espaços do CNS, no seu colegiado, na sua Mesa Diretora e nas várias Comissões e Câmaras Técnicas. Desde sempre, o CNS como órgão legalmente responsável pela fiscalização e monitoramento das ações do Ministério da Saúde e da Saúde pública, têm exigido que a pasta mantenha coerência com as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e dos órgãos de defesa dos direitos humanos, reafirmando a necessidade das medidas de isolamento, valorizando a ciência, a pesquisa clínica e social baseada na determinação social do processo saúde-doença.
As trocas das chefias, por divergências dos ministros com o presidente da República quanto à importância vital das medidas de distanciamento social, o agravamento da pandemia pela reabertura de serviços não essenciais e o uso de medicamentos sem comprovação científica, evidenciam que o governo sobrepôs o negacionismo à vida da população.
Em vez de buscar a solidez de uma gestão suprapartidária e acima de qualquer lobby do setor financeiro e econômico, em especial diante da grave crise que vivemos, o chefe de Estado insistiu e insiste em defender o indefensável, em buscar benefício político pessoal, ausentando-se da responsabilidade com o povo brasileiro, incitando e participando inclusive de manifestações com aglomerações em seu apoio. Ficou explícito que o governo atual não se importa que suas mãos estejam sujas do sangue de tantas famílias no nosso país que estão enterrando seus entes queridos.
Saúde é uma política de Estado, não uma política de governo onde o(a) gestor(a) muitas vezes executa aquilo que deseja conforme seus interesses políticos, econômicos ou pessoais. Reafirmamos a defesa do SUS público, estatal, com financiamento suficiente e adequado às necessidades sociais, com participação social e garantia a proteção da população brasileira não só em momento de pandemia, mas em qualquer período da história.
O governo Bolsonaro tem sido bastante criticado pelo seu negacionismo científico. Como o CNS trata esse tipo de postura dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário?
Número de óbitos omitidos, flexibilização de medidas de isolamento indo contra as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), trocas consecutivas de ministros da Saúde em meio ao cenário emergencial, estímulo a manifestações que apoiam a ditadura militar, desrespeito aos profissionais de imprensa e ao serviço público, negação da ciência e das evidências técnicas, indicação da Hidroxicloroquina/Cloroquina sem estudo concluído que comprove eficácia diante da Covid-19. Essas são apenas algumas das práticas atuais de descaso do Estado.
São mais de 200 mil mortes registradas desde o início da epidemia no Brasil. É estarrecedor o descaso e o desprezo pela vida dos brasileiros por parte das autoridades máximas do governo federal, particularmente do presidente, que não levam em conta as orientações científicas e das organizações de saúde. A grande maioria dos brasileiros infectados e mortos encontra-se entre os segmentos mais pobres, que sempre tiveram acesso muito precário à saúde, à educação, ao saneamento básico e à moradia digna. E o Brasil continua a repetir, no cenário da pandemia, as políticas públicas que cavam o fosso da desigualdade e da injustiça no país.
O CNS tem participado de alguma ação judicial para garantir saúde para todos como manda a Constituição e o SUS?
Três Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADI) tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF) contra a Emenda Constitucional 95/2016, que impôs um “teto de gastos” para as políticas sociais por 20 anos, prejudicando gravemente o SUS, ainda mais em contexto de pandemia de Covid-19. Em abril de 2020, o Conselho Nacional de Saúde (CNS) entrou com um pedido ao STF para se tornar amicus curiae (colaborador) das ADIs nº 5715, 5658 e 5680. No mês de maio de 2020, o STF aceitou o pedido.
As ADIs pedem a suspensão e revogação imediata da emenda que impôs o “teto de gastos” e congelou os investimentos em políticas sociais até o ano 2036. A amplitude da representatividade do CNS é fundamental para contribuir com o debate técnico e qualificado acerca da Emenda Constitucional 95. As ações que tramitam no STF já utilizam dados do Conselho para subsidiar a justificativa de inconstitucionalidade.
Além disso, nos últimos meses, mobilizamos a sociedade para a petição pública O SUS Merece Mais em 2021. Com cerca de 600 mil assinaturas, o abaixo-assinado tem o objetivo de sensibilizar deputados e senadores para que seja aprovada a continuidade do orçamento emergencial da Saúde, agora em 2021. A petição seguirá recebendo assinaturas até a votação da Lei Orçamentária (LOA), que será analisada no retorno do recesso parlamentar.
A petição também pede a revogação da Emenda Constitucional 95/2016. Leia aqui a íntegra da petição.
Qual a opinião do senhor sobre o trabalho da OMS?
A Organização Pan-americana de Saúde (OPAS) é um dos seis escritórios regionais da Organização Mundial da Saúde (OMS). Nós, do CNS, reiteramos constantemente a importância da OPAS/OMS para a saúde, não só do povo brasileiro, mas de toda a América e nos posicionamos contra qualquer iniciativa que a enfraqueça.
Em um momento particularmente difícil como o atual, em que os sistemas de saúde devem ser fortalecidos para o enfrentamento da pandemia, a relevância da OPAS para os países americanos e da OMS para todos os países cresce ainda mais. Qualquer agressão a estas instituições é uma ameaça ao sistema público de saúde e no Brasil ameaça especialmente usuários em tratamento de câncer, de doenças autoimunes, de doenças reumáticas, de certas hepatites virais, assim como para o fornecimento de vacinas.
O senhor acredita que esteja havendo algum tipo de uso político da Anvisa? Como o trabalho da agência é acompanhado pelo CNS?
A Anvisa tem papel estratégico para o controle social na saúde. Ao desenvolver a regulação sanitária visando a segurança, a qualidade e a eficácia comprovada de bens e serviços para eliminar ou diminuir os riscos à saúde da população, a Agência deve atender aos interesses do povo.
Precisamos preservar as instituições de qualquer disputa política-ideológica, guerra de vaidades, que às vezes beiram crimes e irresponsabilidades, seja por quem quer travar o desenvolvimento de vacinas ou acelerar demais o processo para lucrar politicamente. Precisamos seguir a ciência, toda e qualquer vacina com sua eficiência comprovada cientificamente tem que ser disponibilizada para a população brasileira para combatermos à Covid-19.
O senhor acredita que os Estados e municípios estão agindo como deveriam no caso da pressão sobre a liberação da vacina?
A maior atuação dos estados e municípios foi reflexo da falta de apresentação de um Plano Nacional de Vacinação contra à Covid-19 por parte do governo federal. O documento foi lançado tardiamente e em versão preliminar no último dia 16 de dezembro. Já havíamos apontado no meio de 2020 a necessidade de um plano nacional de enfrentamento a pandemia onde constava o fortalecimento do Programa Nacional de Imunização (PNI) e da definição de estratégias para garantir o direito à vacinação para toda população, com a maior brevidade possível. O plano apresentado agora é incompleto e, por exemplo, não contempla todos os grupos prioritários, tanto que fizemos uma recomendação que mostra, em oito pontos, orientações para o seu aprimoramento.
O controle social do SUS tem se posicionado pelo direito de toda população brasileira ter acesso à vacinação durante 2021, com a efetivação de um Plano Nacional que apresente um cronograma que garanta inicialmente aos grupos prioritários esse direito.
Também recomendamos que a pasta da Saúde não inclua exigência de assinatura de um “termo de responsabilidade individual” para as pessoas que se submeterem à vacinação contra a Covid-19, porque não existe qualquer justificativa técnica e científica para que seja transferida para a população uma responsabilidade que cabe ao Estado brasileiro, por meio da avaliação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Leia aqui a integra da Recomendação.
Que tipo de trabalho o CNS tem feito para ajudar na divulgação correta do uso da vacina e de sua importância no combate ao coronavírus?
O CNS defende que o Ministério da Saúde viabilize, de forma imediata, a estratégia de comunicação prevista no Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19. Além disso, também recomendamos ao MS que esta campanha deve reforçar o caráter obrigatório da vacinação; que vacinar-se é um ato solidário; que sejam mantidas as medidas preventivas (uso de máscaras, lavagem das mãos, distanciamento social e não aglomerações) por parte de toda a população, mesmo as pessoas vacinadas; e que, embora a Constituição Federal proteja o direito de cada cidadão de manter suas convicções filosóficas, religiosas, morais e existenciais, os direitos da sociedade devem prevalecer sobre os direitos individuais para que haja a preservação da vida humana.
O senhor acha que a vacinação pode e deve ser obrigatória e para todos? O que ainda precisa ser feito para combater a desinformação?
Com certeza. A saúde é reconhecida no Brasil, de forma constitucional, como um direito de todas e todos e dever do Estado. O Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Brasil faz parte do SUS e é um dos maiores do mundo, ofertando 45 diferentes imunobiológicos para 212 milhões de pessoas, contemplando crianças, adolescentes, adultos, idosos, gestantes e povos indígenas, sempre de forma gratuita.
No caso do Plano Nacional de Vacinação contra a COVID-19, o CNS tem feito recomendações ao Ministério da Saúde para ampliá-lo de forma a atingir toda a população até que o país alcance a endemicidade ou a interrupção da circulação do vírus mesmo que a estratégia tenha que ser escalonada por grupos prioritários.
Também, ampliar a lista de grupos prioritários na vacinação contra a Covid-19, incorporando outros grupos populacionais que são mais vulneráveis a pandemia como a população indígena não aldeada, que vive nas cidades e em acampamentos próximos às cidades; a população dos campos, águas e florestas; os povos ciganos; as pessoas com deficiência, não somente com deficiência permanente severa; os cuidadores/as de pessoas com deficiência; os jovens em medidas socioeducativas; as pessoas inseridas em comunidades terapêuticas; as pessoas em atendimento nos espaços de saúde mental; e as populações submetidas à vulnerabilidade socioeconômica - condições precárias de moradia; falta de acesso à água e saneamento básico; falta de acesso ou acesso precário ao sistema de saúde e a leitos de tratamento intensivo.
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Acesso ao site do Conselho Nacional de Saúde aqui
Criado em 2021-01-08 01:15:50
Pesquisadores, docentes, pós-graduandos e estudantes se reúnem para participar da Conferência "Estado, Arquitetura e Desenvolvimento", dia 10 de agosto, às 14h, no Auditório da FAU-UnB.
A conferência, como aula inaugural da disciplina "Urbanismo, Urbanização e Planejamento no Brasil - séculos XIX e XX", será ministrada pela professora Nilce Aravecchia Botas da FAU-USP.
Também haverá lançamento do livro "Estado, arquitetura e desenvolvimento: a ação habitacional do Iapi, de Nilce Aravecchia, (São Paulo: Editora Fap Unifesp, 2016)".
A palestra será aberta a todos os interessados, não limitada aos alunos/as da disciplina, e é uma atividade do Grupo de Pesquisa em História do Urbanismo e da Cidade (GPHUC-UnB/CNPq).
Criado em 2017-08-08 16:01:34
Fernando Tolentino (*) -
Não sei se me dirijo ao Senhor [Ibaneis] como governador ou já antecipo a condição de ex-governador.
Sei que a situação atual não pode ser chamada de injusta.
Sou frequentador de redes sociais, como creio que são milhões de moradores do Distrito Federal e Entorno.
Duvido que tenha escapado a mais que um ou uma em cada quatro de nós que vinha sendo articulada nacionalmente uma invasão de nossa capital com propósitos claramente golpistas.
Vi ao menos uma dezena de vezes do início do ano pra cá convocações para a participação em caravanas que viriam ao Distrito Federal para, no último fim de semana, se juntarem aos "moradores" (com mais de 60 dias já dá pra chamar assim, né?) do acampamento junto ao QG do Exército e dali marcharem para o local a ser invadido.
As expressões e advertências não deixavam duvidam quanto às intenções:
"Agora, é tudo ou nada."
"Venha preparado para levar bomba de gás ou borrachada nas costas."
"Não recomendamos que venham idosos, mulheres e crianças."
"É importante que venham os CACs [Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador] e tragam as suas armas."
"Não temos data para voltarmos."
E assim por diante.
Na sua convocação, uma das líderes do movimento golpista deixou claro: "Nós vamos sitiar Brasília, nós vamos tomar o poder de assalto, o poder que nos pertence.”
O Senhor não viu nenhuma dessas postagens? Nem tampouco qualquer dos seus auxiliares? Nem mesmo aqueles que têm está entre as suas principais atribuições?
Eu achei muito estranho quando li as garantias de intenções pacíficas dadas pelo Senhor [governador] ao ministro da Justiça.
Mais do que isso, fiquei abismado ao ver a placidez, a simpatia, a atitude de colaboração da PMDF, que se presume a mais bem armada e adestrada do Brasil, de repente, assumindo-se como guias turísticos, conduzir o cortejo de golpistas até a Praça dos Três Poderes.
Senhor governador, sou militante político há algumas décadas. Tempo de ditadura e tempo de democracia.
Não admito violência policial, ainda mais se seletiva.
Mas nunca esperei fazer "selfie" com policial militar. Nem nunca vi tamanha integração da PM com manifestantes ou soube que houvesse em qualquer lugar.
Não sei o que havia em sua cabeça naquele domingo ou o que pensavam as suas autoridades, digamos assim, de "segurança". Ou talvez eu prefira que não fosse o que imaginei.
Mas quero deixar muito claro o que pode parecer uma banalidade. Não há outro motivo para esse quadrado existir que não seja abrigar as sedes dos três poderes.
Quer que traduza? Dar à cúpula de cada um deles (Executivo, Legislativo e Judiciário) as condições para que aqui funcionem. E isso começa por oferecer segurança.
Não falta em outros estados quem não veja com bons olhos os custos para manter o Distrito Federal.
Ainda não esquecemos o inferno do dia 12 de dezembro, com 5 ônibus e dez carros incendiados no centro de Brasília. Com a PF sendo depredada e uma delegacia de polícia invadida. E a nossa polícia inerte. Quem sabe nasceu ali a ideia de ousar mais? Se foi tão fácil, por que não invadir o Supremo, o Congresso, o Palácio do Planalto?
Pois, Senhor Ibaneis, já há quem fale na extinção do Fundo do Distrito Federal.
E até quem questione a nossa autonomia, pela qual tanto lutamos. Aliás, não lembro de ver o Senhor naquelas lutas.
Só falta surgirem alguns ainda mais loucos e trazendo a ideia de levar a capital de volta para o Rio de Janeiro.
Saiba que, com a nossa luta, não permitiremos que prospere qualquer dessas maluquices.
Mas tenha claro que só volta a se falar nessas coisas por causa da sua atitude inconsequente no fatídico dia 8 de janeiro.
Se não tem competência para dirigir o Distrito Federal, é preferível que continue afastado.
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(*) Fernando Tolentino é jornalista.
Criado em 2023-01-14 02:55:05
Segundo adelanto del nuevo álbum de Muerdo "La Sangre del mundo"
Letra original: Pablo Milanés
Re-musicalización: Muerdo y Diego Perez
Idea original: Muerdo y Pedro Aceituno H.
Dirección, edición y cámara: Pedro Aceituno H.
Drone: Ariel Marinkovic & Pochography
Imágenes de Archivo: - Grabaciones de Juan Ángel Torti Alcayaga (1973) - Documental “Chile: hasta cuando” de David Bradbudy (1985)
Voz: Muerdo
Diego Pérez: Ronroco, sintetizadores, programación, coros.
Carlos Manzanares:
Coros Maximiliano Padin: Ronroco y charango
Percusión: Agustín Lumerman Julián Amos
Gancberg: piano Manu Schaller: Theremín
Producción artística: Diego Pérez Grabado en estudio ¨Subtrópico¨ y estudio ¨El mejor ¨
Mezclado y masterizado por Matias Cella
Criado em 2021-12-22 17:06:44
Alexandre Ribondi –
Com o aviso de que o velório iria ser encerrado, a multidão que se acumulava na Plaza de Mayo invadiu a Casa Rosada para ver pela última vez o corpo de Diego Maradona. E ninguém poderá dizer que ficou surpreso. Afinal, o que mais se pode fazer quando morre alguém da grandeza de Dieguito? A multidão se agita, se descontrola e não aceita ordens.
E o povo argentino estava órfão desde a morte de Eva Perón, em 1952. Ela era conhecida como Santa Evita e Maradona (fotos do enterro de Evita, abaixo), três décadas depois, foi cunhado, com paixão e delírios, para ser um Deus. Tinha igreja e servos fiéis. O corpo de Eva foi roubado e somente voltou a aparecer na Itália onde ficou até os anos 1970, quando foi levado para a Espanha onde morava Perón em seu exílio. Com a morte dele, Isabelita, sua viúva, mandou levarem o caixão da Santa para Buenos Aires, onde repousa até hoje no cemitério da Recoleta. É bom tomar cuidado porque El Pibe de Oro poderá passar pela mesma peregrinação.
Falavam mal de Eva Perón. Acusavam-na de ser (e era mesmo) demagógica e populista. Jurava lutar pelo seu povo (pobre) enquanto desfilava pelo mundo envolta em peles caríssimas, perfumes valiosos e jóias milionárias. Agora, dizem a mesma coisa de Maradona. E é tudo verdade: acusam o homem de ser homofóbico, de se recusar a reconhecer dois filhos nascidos de aventuras, de ser oportunista que chegou a trocar sorrisos com a ditadura militar, de admirar Fidel Castro, Hugo Chávez e Lula e, para horror da classe média que finge ser asséptica, de ser viciado em heroína.
Mas todo deus é contraditório. Ama infinitamente e ordena assassinatos. Põe um filho no mundo e o deixa ser torturado e morto sem mover uma palha. Passeia entre o sagrado e o profano sem perder a santidade. O povo argentino sabe lidar com isso. O tango, dito a tradução da alma argentina, deixa claro que viver é sofrer, porque ninguém presta, ninguém vale nada.
A música Gira, Gira (cantado por outro símbolo da pátria, Carlos Gardel) avisa que “quando te vires no escuro, sem uma luz encontrar (…) verás que tudo é mentira, verás que nada é amor”. E, mesmo assim, a vítima continua mergulhada no amor e na paixão. Por isso, os jornalistas e os analistas podem pretender denunciar Diego Maradona, que de nada adiantará. Canalha e pérfido, vai continuar sendo um deus.


Criado em 2020-11-26 21:23:28
Marcos Bagno –
Resisti um pouco a falar do tal dia mundial da língua portuguesa, até porque esse tipo de ufanismo em torno da língua me dá sonolência (antes me dava irritação, mas com a idade a gente se poupa de sofrer mais que o necessário).
Sugiro enfaticamente aqui a leitura do texto do português Nuno Pacheco, que joga o devido balde de água fria nesse oba-oba balofo. O português, de todas as línguas europeias que serviram de veículo para a colonização, a espoliação, o genocídio e a escravização de outros povos durante séculos, é a que tem menos instrumentos linguísticos a seu dispor para uma divulgação efetiva e para o ensino como língua segunda.
Inglês, francês e espanhol dispõem de uma riquíssima produção de dicionários (de todos os tamanhos, tipos, formatos e cores; para os mais diferentes públicos-alvo), de livros didáticos para o ensino da língua, muitos produzidos por órgãos governamentais dedicados a isso. O que existe em português, especialmente o português brasileiro, é muito pouco e muito ruim. Das ex-colônias portuguesas, só o Brasil não encabeça a lista dos países mais pobres do mundo, a maioria deles dependentes da ajuda internacional para sobreviver.
Nesses países, como bem se sabe (e o ufanismo tenta esconder), o português é língua oficial, sim, mas minoritária e reservada às reduzidíssimas elites nacionais que têm acesso à educação formal.
Portanto, essas estatísticas glorificantes que dizem que o português é "falado" em todos os continentes por 250 milhões de pessoas têm de ser olhadas com muita desconfiança: quantas pessoas na África realmente têm plena competência no uso da língua do ex-colonizador?
O Brasil sozinho tem 210 milhões desses falantes, de modo que se todas as pessoas no resto do planeta que falam português trocassem de língua, ainda assim o português seria uma das línguas mais faladas do mundo.
Só na área metropolitana de São Paulo existe o dobro de falantes que em Portugal inteiro. Mesmo tão grande e tão populoso, o Brasil, em qualquer foro internacional, é só um: em qualquer votação ou deliberação, a simples presença de pequenos países de língua espanhola como Panamá, Costa Rica, Honduras, El Salvador e Cuba já constituiria uma derrota para a reivindicação do português como língua "internacional".
Por sua vez, em termos de política linguística, Portugal tem muito mais a dizer a esse respeito do que nós: basta lembrar a existência do Instituto Camões em contraposição a… nada parecido no Brasil. Portugal mantém diversas cátedras e leitorados mundo afora, enquanto os escassos leitorados brasileiros vão se tornando cada vez mais raros. Agora então que as relações exteriores do Brasil, assim como o ministério da educação (ou contra a educação) estão nas mãos de psicopatas de manual, o quadro só tende a piorar.
Quanto ao Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), como bem lembra Nuno Ramos, serve para nada e não serve para coisa alguma. Por isso sempre tenho dito que a tal da lusofonia é de fato uma "ilusofonia". Muito discurso vazio, muita retórica saudosista, mas nenhum reconhecimento da realidade distópica em que vive a imensa maioria das populações de países que têm o português como língua oficial — só mesmo Portugal apresenta índices de desenvolvimento humanos decentes, enquanto o Brasil, nunca é demais repetir, é um dos países mais covardemente injustos e desiguais do universo conhecido e desconhecido. E agora que é chefiado por uma criatura que reúne em si tudo o que pode haver de pior na espécie humana, uma aberração genética que deveria estar trancafiada numa jaula para servir de cobaia a experimentos científicos, as perspectivas de divulgação da língua são tão sombrias quanto a certeza de que nem os bisnetos dos nossos bisnetos viverão num país minimamente civilizado, em que um jovem negro não seja assassinado a cada 27 minutos ou uma mulher a cada hora e meia.
O capitalismo hipersuperultraliberal vai destruindo o planeta a passos rápidos, e a atual pandemia provocada pelo novo coronavírus é a prova mais letal de que a incensada globalização só tem servido para internacionalizar as mazelas e para que um único homem, o dono da amazon.com, tenha em sua conta bancária mais dinheiro que os PIBs reunidos de vários países.
No que diz respeito ao ensino do português brasileiro no exterior, o justificado horror que o cenário político (ou apocapolítico) do Brasil desperta na comunidade internacional — e mais gravemente neste exato momento, com um presidente que se vangloria de sua necropolítica e persegue quem tenta combater o genocídio que ele põe em marcha — vai fazendo murchar o já pequeno interesse pela nossa língua.
O português, infelizmente, é uma língua em que milhões de pessoas, nas mais diferentes partes do mundo, travam uma luta sem trégua para estarem vivas no dia seguinte.
Enquanto for essa a realidade das e dos falantes de português, não vejo nada que justifique uma celebração mundial da língua. E é fácil imaginar a dor que isso causa em alguém que vem dedicando à língua a vida que já foi e a pouca que lhe resta.
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(*) Esse texto foi publicado originalmente na página do Facebook do autor no dia 5 de maio de 2020. Data declarada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) como Dia Mundial da Língua Portuguesa.
Criado em 2020-06-03 03:23:52
Sandra Crespo –
O Detran do Rio de Janeiro lançou uma campanha absurda, com cartazes alertando: “Pedestre, amanhã você pode ser o ciclista. #VaiNaResponsa”.
Não seria o contrário, @detranrjoficial? Outro dia eu quase fui atropelada, ao sair do meu prédio, por um ciclista que trafegava na calçada. Isso é corriqueiro aqui no Rio de Janeiro, a gente tem que parar na calçada para ciclistas passarem. Sem mencionar que muitos e muitos ciclistas andam na contramão e não respeitam nem faixas de pedestres nem semáforos.
Então, os caminhantes, que estão na base da cadeia alimentar, ainda têm que se colocar no lugar de quem pedala irresponsavelmente por aí?
Tá tudo errado neste país, tudo do avesso, surreal. Até as coisas mais elementares.
Por que o Detran-RJ não disciplina o uso dos patinetes? Eles ficam soltos em qualquer lugar, atrapalhando o trânsito dos pedestres e estacionados nas ciclovias. Um verdadeiro transtorno urbano.
Detran-RJ, proteja primeiramente quem anda a pé. Que desperdício de dinheiro público em campanhas sem noção. #respeiteopedestre
Criado em 2021-06-02 14:52:46
É uma dupla homenagem, à escritora Clarice Lispector e ao filme curta-metragem de mesmo nome. Clarice esteve em Brasília duas ou três vezes, a primeira no Natal de 1969 e depois em 1970. Foram visitas suficientes para que ela captasse o lado espiritual e mágico da capital dos brasileiros. Foi pensando assim que ela inventou até um gentílico para os seus habitantes: brasiliários.
Para Clarice, “os brasiliários vestiam-se de ouro branco. A raça se extinguiu porque nasciam poucos filhos. Quanto mais belos os brasiliários, mais cegos e mais puros e mais faiscantes, e menos filhos. Não havia em nome de que morrer”.
A origem dessa civilização ainda está por ser descoberta, mas a escritura intuiu que “...no século IV a.C. [a região] era habitada por homens e mulheres louros e altíssimos, que não eram americanos nem suecos, e que faiscavam ao sol. Eram todos cegos. É por isso que em Brasília não há onde esbarrar.”
Esse sonho exotérico de Clarice foi captado pelos cineastas Zuleica Porto e Sérgio Bazi e incorporado pela atriz Cláudia Pereira, numa ousada produção dos anos 80. A música original do filme, premiada no Festival de Brasília, é de Guilherme Vaz.
O filme Brasiliários, como quase tudo hoje em dia, pode ser visto no youtube. E o texto de Clarice é alcançável no Google.
Esperamos que esse site www.brasiliarios.com esteja à altura dos homenageados e dos nossos leitores.
Criado em 2016-07-20 21:37:27
Bacurau-norte-americano (Chordeiles minor): O bico é pequeno, mas a boca é grande.
Mede de 22 a 24 cm de comprimento e pesa de 65 a 98 g. Possui uma grande cabeça achatada com grandes olhos e asas esbeltas. O bico é pequeno e a boca é grande. Ave migratória bastante regular vem e vai para os Estados Unidos nos mesmos meses do ano. Também conhecido como bacurau-de-bando, viaja de dia ou de noite, em bandos soltos. A viagem para o sul tem início no mês de julho. Eles passam pela Flórida, Cuba, Caribe e Bermudas e, finalmente, completam a sua viagem no início de outubro, na América do Sul, principalmente na Argentina. Em Brasília, cerca de 10 indivíduos ocupam as árvores do estacionamento 10 do Parque da Cidade. Registro feito em 24.11.2015, no Parque da Cidade.

Criado em 2016-11-25 17:47:08
Zuleica Porto –
Grito infinito
Mesmo aqui, nestes sules
de uma Capital da Esperança,
ela se apaga, depois rebrota
como o cerrado, das chamas
para doar lobeiras ao guará.
Mesmo naqueles desnortes
de um Campo da Esperança,
encova-se, depois transcende
tal yaras que emergissem das
águas sagradas do Paranoá.
– mais! mais! mais!-
Quando chegar outubro,
sob as aulas das aflitas cigarras
saberemos romper o silêncio,
com um grito... … ...infinito!
E quando chegar abril
(dia 21, ano 21, século 21),
no cenário do aniversário,
cá ainda estará, Esperança?
-Esperar, sem desesperar.
(06.01.21)
O poema acima foi o vencedor do Prêmio Literário Alan Viggiano, o primeiro promovido pelo Sindicato dos Escritores do Distrito Federal, com o tema Brasília, aqui mora a Esperança. Pensado para celebrar os 60 anos de Brasília, foi adiado para este ano, por motivo da pandemia que paralisou o mundo. Naquele abril, pensávamos que tudo voltaria ao normal em poucos meses; hoje não sabemos se, nem quando, ela será controlada no país. Diante disso, nada mais oportuno do que o tema do concurso, pois mais que nunca a esperança se faz difícil e necessária, não só na chamada Capital da Esperança, mas em todo o Brasil.
O autor do poema, Ildefonso Pereira de Sousa, ou Ildefonso de Sambaíba (seu nome de poeta) tem na bagagem 5 livros publicados, a saber: Florescência (1984), coletânea dos então servidores da Imprensa Nacional; Vida de vidro (1994), Jotanesi Edições; Buquê de urtigas (1999), coletânea do autor editada pela Academia Taguatinguense de Letras como parte do Projeto Livro na Mão, destinado aos estudantes de segundo grau das Escolas Públicas do DF; Quem matou as gazelas? (1998), e Samjahlia – versos in versos, (2015), Editora Kiron. O título deste último é composto pelos três lugares que o formaram: o lugar onde nasceu, a Sambaíba de seu nome de poeta, Grajaú, a cidade onde cresceu, e a Capital da Esperança, onde ele escolheu viver.
Mas vamos ao Grito Infinito. Nas duas primeiras estrofes, a Esperança balança “entre sules” da cidade erguida em meio ao cerrado, que todos os anos pega fogo e no entanto, às primeiras chuvas, “rebrota” (…) “para doar lobeiras ao guará”, e os “desnortes de um Campo da Esperança” (para quem não sabe, o cemitério da cidade), onde ela “encova-se”, mas depois “transcende tal yaras” emergindo das “águas sagradas do Paranoá”.
Brasília, traçada em duas Asas, (até hoje se discute se asas de um pássaro ou um avião serviram de inspiração ao inventor da cidade, o urbanista Lúcio Costa – eu prefiro o pássaro), é vista como sempre capaz de reinventar a Esperança.
As duas estrofes finais lançam-se ao futuro, primeiro de um outubro que já é passado, quando, ensinados pelos cantos das “aflitas cigarras”, romperíamos o silêncio em que ainda nos encontramos, e lançaríamos o “grito infinito”, por enquanto ainda preso em nossas gargantas. A última estrofe nos lança a pergunta: no dia 21 deste abril de 2021 do século 21, aos 61 anos completados, ainda estará conosco a Esperança?
Passando pelos livros de Ildefonso, o leitor percebe que ela, a equilibrista imortalizada no verso de Aldir Blanc, já estava presente nos poemas de Vida de vidro. Em O sol virá, a primeira estrofe é “além da esperança / há uma certeza / o sol virá”), em Crepúsculo, o último verso diz que a Esperança é a “véspera de um novo dia” e o poema Seus olhos fala de “sóis verdes” das esmeraldas, dos olhos de alguém, e, roubados estes sóis, “verde, agora, só a esperança de esperar”.
Verde é a cor de Brasília, cidade-bosque, verdes são os campos do Maranhão onde o poeta foi criança, a Sambaíba das serras, das “espinhosas macambiras” e das flores da caraíba, lugar onde estão “saudades minhas, minha Sambaíba” (Negro Coração, em Vida de vidro). Em Quem matou as gazelas, ressurge a infância das “saudades mais antigas”, quando às 5 da manhã o menino tem que “acordar-sonâmbulo fazer-lição pisar-arroz tirar-leite cortar-lenha tomar-banho trocar-roupa quebrar-jejum sair-correndo chegar à / Escola Rural Gonçalves Dias / adiantado” (Colete amarelo e fraque cinza).
O menino que “espantava passarinhos que estruíam o roçado da família” (“Bilhete à Zildinha Vieira) trouxe para o Cerrado brasiliense todo o conhecimento que adquiriu na infância – passear com ele pelo “bosque da 402 Norte” (Determinismo, em Samjahlia) é como ter uma aula de botânica. Sabe o nome de árvores de grande porte, de arbustos perfumados, medicinais, da gigantesca Sumaúma ao minúsculo pé de manjericão escondido na cerca-viva de um bloco. Plantas, bichos, águas, fogo, vento, os quatro elementos povoam seus livros. Bichos – araras, arapongas, bem-te-vis, cigarras, jabutis, jaburus, joões-de-barro, guarás - plantas – caliandras, ipês, jacarandás e tantos mais – o fogo que queima o cerrado; as águas que fazem tudo brotar, inclusive cidades – Tororó, Poço Azul, Riacho Fundo, Olhos d'água, Água Mineral, Águas Emendadas, Lindas ou Claras (Aguaceiro, de Samjahlia) seres mitológicos como as iaras (ou yaras) que nadam tanto nas águas do Paranoá como nos brejos e fontes do Maranhão natal.
O vento que espalha o fogo, mas também os cantos da passarada e das aflitas cigarras que no outubro anunciam as chuvas. E voltamos ao Grito Infinito, que nos lembra que não vivemos numa terra só de bichos, plantas, fogo, água e ar. Quem dera! Aqui vivem hoje pessoas que amam Brasília, a vida humana e as de todos os seres, mas vivem também as que são completamente indiferentes à vida, atentos apenas às máquinas, o dinheiro, objetos frios, e o poder sobre o outro, bicho ou gente, para domínio e lucro.Cito um trecho de um bilhete a mim destinado, em Quem matou as gazelas: “sei quanto é difícil declarar-se amor a Brasília diante de estranhos. Eles só conhecem os limites da Esplanada. É preciso ir ver a Água Mineral lambendo o limo das pedras, ou apreciar corujinhas quentando sol no Parque da Cidade”.
Cidade da Esperança, mas também do Campo da Esperança, que neste abril tão bonito, de céu azul e entardeceres inesquecíveis, é palco de um triste espetáculo que não preciso descrever, pois se repete em todos os cantos do Brasil. A Esperança permanece neste 21 de abril? E quando soltaremos, Brasília, Brasil, o Grito Infinito?
Criado em 2021-04-14 19:53:09
Maria Lúcia Verdi -
Nossa entrevistada, Ana Liési Thurler, é filósofa, socióloga, feminista, e autora de dois livros fundamentais para a compreensão das relações sociais brasileiras: Em Nome da Mãe. O não reconhecimento paterno no Brasil e Pós-patriarcado. Um tempo em construção. Além de mestra em Filosofia, Ana é uma mulher guerreira, mãe solo de duas filhas, funcionária de carreira do Banco do Brasil, onde trabalhava na área de formação de pessoal.
Como educadora e socióloga, é mais do que oportuno trazer aos nossos leitores as opiniões, ideias e propostas de uma mulher comprometida com as causas essenciais para a nossa sociedade. Especialmente nesse dia, 8 de Março, em que se comemoram a existência e a luta de mulheres de todas as cores, gêneros e origens.
O livro de Ana Liési, Pós-patriarcado. Um tempo em construção (Nau Editora), será lançado em tarde de autógrafo no dia 11 de março, sexta-feira, a partir das 17h, na Livraria e Café Sebinho (406 Norte, em Brasília).
A seguir a íntegra da entrevista:
MLV - Seu primeiro livro Em Nome da Mãe – o não reconhecimento paterno no Brasil, num certo sentido desdobra-se neste seu segundo Pós-patriarcado – um tempo em construção. Essas duas obras, realizam uma importante documentação e análise sobre nossa sociedade. Você poderia sintetizar as ideias centrais que as unem?
ALT - A questão central nos dois livros é o patriarcado que marca profundamente a sociedade e o Estado brasileiro, um Estado ainda patriarcal, ainda violador dos direitos humanos das mulheres. O patriarcado tem produzido uma cultura misógina e necrófila. O patriarcado e o machismo são gatilhos para todas as violências contra as mulheres. Focalizo nesses meus trabalhos a violência de deserções da paternidade com o não reconhecimento da criança, da filiação e, também, com o não reconhecimento de maternidades, dando as costas à mulher, que fica na condição de mãe-solo.
Há indicações de mudanças nesse quadro de não reconhecimento paterno e de descompromisso masculino com a própria descendência?
Processos culturais e sociais não são lineares e com o patriarcado não é diferente. As pesquisas mostram que há grandes resistências a mudanças, mas há também um inegável processo em andamento, com perspectivas de superação do patriarcado.
Em Pós-patriarcado, um tempo em construção, o livro que estou lançando agora, apresento, na primeira parte, a resistência do patriarcalismo, por meio de histórias envolvendo filhas e filhos sem reconhecimento paterno, lutas de mães solo, ausências paternas. Histórias todas verdadeiras, todas brasileiras, todas ocorrendo no século XXI, reunidas desde 2000, quando iniciei o Doutorado na UnB. Senti que essas histórias precisavam ser contadas, pois há uma permanência da cultura patriarcal reverenciando o pai, sacralizando a vontade do pai, especialmente quanto ao acolhimento, ao reconhecimento - ou não - de suas crianças. O fato é que nossa sociedade chega ao limite de normalizar o não reconhecimento paterno.
Na segunda parte do livro, apresento mudanças efetivas, importantes acontecendo... Transformações reveladas nas vozes ousadas de filhas e filhos. Transformações reveladas nas novas configurações familiares.... famílias lesboafetivas, famílias homoafetivas, famílias transafetivas, livres famílias monoparentais femininas e masculinas. Mudanças se revelam, também, em mulheres assumindo novos espaços de poder no Sistema de Justiça, produzindo outras epistemes, surgindo outras decisões.
E seu livro anterior, Em Nome da Mãe. O Não Reconhecimento Paterno no Brasil?
Nele compartilhei a pesquisa realizada nos cartórios do DF, mapeando crianças destituídas de reconhecimento paterno, nos anos de 1961, 1970, 1980, 1990 e 2000, ou seja, em suas quatro primeiras décadas. Examinei mais de 180 mil registros de nascimento e fiz muitas escutas que me permitem afirmar ser o pai, o reconhecimento pelo pai, o amor do pai, profundo objeto de desejo de todes.
É preciso lembrar que reconhecimento tem sido tema candente, remetendo a dignidade, amorosidade, respeito, cidadania. Reconhecimento tem deflagrado demandas por políticas públicas inclusivas. Lembremos Winnicott, o psicanalista inglês, que anunciou: Sou reconhecido, logo existo, enfatizando o caráter relacional do reconhecimento e da própria existência humana.
Reconhecimento paterno materializa-se no Registro de Nascimento, fonte de todos os demais documentos. Realizei pesquisa nos dez Cartórios do Distrito Federal, onde examinei 183.618 Registros de Nascimento. Fiz pesquisa quantitativa, encontrei 21.991 registros sem reconhecimento paterno. Em oito dos dez Cartórios, mais meninas não têm reconhecimento paterno. Fiz pesquisa qualitativa, ouvindo histórias de vida dessas pessoas sem reconhecimento paterno. Todas sonham com o acolhimento, o afeto, o cuidado do pai.
Ana Liési, gostaria que você nos contasse como foi o seu despertar para a causa feminista e dos direitos humanos. Você cursou Filosofia, tem Mestrado sobre Unamuno e, posteriormente, realiza Doutorado em Sociologia. Como foi, por que ocorreu esse trânsito de uma área para a outra? Foi a realidade brasileira falando mais alto?
Foi no Rio Grande do Sul que nasci, cresci, casei, tive duas filhas, descasei. Lá me graduei em Filosofia, quando o país temeu o exercício do pensamento e os generais varreram Filosofia dos currículos. Mesmo assim ainda insisti no Mestrado em Filosofia, que, com o exercício do pensamento crítico, com o exercício de questionamentos, foi ponte importante para eu chegar ao feminismo e aos Direitos Humanos.
No Mestrado, trabalhei, sim, com Unamuno. Em minhas andanças, constatei que ele tinha considerável presença nos países hispânicos do continente. Apesar de sermos todos ibéricos, no Brasil ele estava ausente. Cheguei a ele, explorando nossa condição latino-americana, com o desejo de aproximação da América hispânica. Unamuno viveu na virada dos séculos XIX e XX, entre 1864 e 1936, namorou o irracionalismo e em O Sentimento Trágico da Vida (1913) declarava não ser a razão humana razão que a si própria sustenta, tendo raízes no irracional, na consciência vital, no sentimento trágico. Foi duas vezes reitor da Universidade de Salamanca. Destituído em 1924 e exilado nas Ilhas Canárias, por oposição ao General Primo de Rivera, retornou à Salamanca, em 1931, reassumindo a reitoria. É conhecida sua última participação pública em 12 de outubro de 1936, em solenidade na Universidade, na condição de Reitor, definindo-se em favor da causa republicana.
O General franquista Millán Astray atacara a Catalunha e as províncias bascas, apontando-as como cânceres no corpo da Nação, que o fascismo, que é o saneador da Espanha, saberá exterminar. Os falangistas gritaram: Abaixo a inteligência! Viva a Morte! A voz de Unamuno foi ouvida: Este é o templo da inteligência e eu sou seu sumo sacerdote. Estais profanando este recinto sagrado.
Esse quadro lembra o que, em nosso país estamos vivendo hoje, com mais de 650 mil mortes, boicotes à vacinação, à proteção das crianças e a constantes tentativas de irracionalidade. Em contra-ponto, clamamos: Abaixo o negacionismo, abaixo o irracionalismo! Viva a Vida!
Quanto ao trânsito dos campos de estudo, não foi grave, não houve nenhuma ruptura. Mesmo porque com o curso de filosofia, trabalhei também com sociologia. Dei muitas aulas de sociologia lá no RS e aqui em Brasília. Não me sinto em exílio da filosofia. É preciso questionar a realidade em todas as suas dimensões.
Então você tem o Sul e o Centro-Oeste em sua formação, em sua história...
É verdade. E isso tudo se complementou, se completou. Tenho gratidão ao Sul, entre tantas outras razões, por ter lá construído forte sentimento de pertencimento à América Latina, ter me propiciado a oportunidade de conhecer Buenos Aires, Montevideo, Assunção, Santiago até bem antes do Rio de Janeiro ou de São Paulo, nutrindo esse sentimento de latinidade pela vida afora, alimentando-o também ao participar de Encontros Feministas Latino-americanos e Caribenhos, na Argentina, na República Dominicana, na Costa Rica, no Uruguai, constituindo e ampliando, pelo continente, redes com companheiras do movimento feminista, do movimento social.
Tenho também gratidão ao Centro-Oeste, onde me fixei em Brasília, ainda na década de 1970, me apaixonei por este espaço de encontro de tantos Brasis e me candanguizei. Troquei a antiga paisagem protetora de minha cidade natal – Santa Maria, cercada de morros por todos os lados - pelos horizontes amplos do Planalto Central. Passei da proteção familiar ao exercício da autonomia, construindo minha identidade feminista, aprofundando o sentimento de brasilidade, com a participação em atividades diversas pelo país, em Encontros Nacionais Feministas, em atividades dos movimentos sociais, de Direitos Humanos...
O que você destacaria em sua trajetória feminista?
Destaco o privilégio de ter participado no processo Constituinte, quando vi bem de perto o Estado patriarcal brasileiro resistindo a reconhecer direitos de cidadania das mulheres. Da instalação da Assembleia Nacional Constituinte à promulgação da Constituição, em 05 de outubro de 1988, as mulheres organizadas fomos resistência feminista com reflexões e análises críticas permanentes. Não tínhamos internet, redes virtuais, comunicação instantânea, mas as mulheres organizadas - com o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), fazendo a coordenação de todas as regiões -, se mantiveram mobilizadas. E incorporamos 85% de nossas demandas de então, ao texto constitucional.
Que lembranças você traz da assembleia Nacional Constituinte? Qual o olhar das mulheres sobre a Constituinte?
A igualdade de gênero é questão prioritária na pauta de uma democracia real, inclusiva, feminista. A Assembleia Nacional Constituinte foi instalada, em 1º de fevereiro de 1987, com enorme desigualdade de gênero. Androcêntrica, sua composição era de 95,4% de homens parlamentares. A bancada feminina na Constituinte era formada por 26 deputadas, em um conjunto de 559 parlamentares (487 deputados e 72 senadores).
Não alcançávamos 5% dos constituintes. Não havia possibilidade de ilusões e aprendíamos, intensivamente, sobre o patriarcado e a injusta desigualdade entre os gêneros no espaço político. Ali estavam retratadas as extremas desigualdades de gênero em toda a sociedade brasileira. A desigualdade entre os gêneros não é um ponto fora da curva. Em uma sociedade patriarcal, é uma constante social.
E mais: os três estados do Sul - incluído aí o nosso estado - enviaram para a ANC representações 100% masculinas. Quase todo o Nordeste elegeu deputadas constituintes - Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte. E em sua primeira eleição – em 1986 -, o Distrito Federal, onde moro desde 1978, também elegeu duas mulheres constituintes: Márcia Kubistcheck e Maria de Lourdes Abadia.
Quais as demandas na Constituinte que você destacaria?
A igualdade de gênero é questão prioritária na pauta feminista. Trabalhamos por menos desigualdades no espaço público, mas também no espaço privado: na família, na maternidade e na paternidade. Demandamos licença-maternidade, licença-paternidade, creches, pré-escolas.
Na votação do texto constitucional em primeiro turno, em 25.02.1988, previsivelmente, a licença maternidade teve menor resistência e votação melhor (425 votos a favor, 11 contra e 28 abstenções) do que a licença paternidade (337 votos a favor, 67 contra e, igualmente, 28 abstenções). O CNDM, então sob a presidência de Jacqueline Pitanguy, convocou um Dia Nacional de Luta, em 20 de abril de 1988, pela manutenção desses direitos no texto final.
A campanha Filho não é só da mãe, lançada no calor do processo constituinte, provocou homens e mulheres a pensarem que criança precisa de cuidados do pai e da mãe, da sociedade e do Estado, sacudindo a poeira de nossa cultura sexista. Durante a Constituinte, mobilizou-me muito a campanha por paternidade presente e solidária, por creches como direito da criança e da família. E o texto final determinou ser a criança prioridade absoluta do país (artigo 227). Hoje, com creche e pré-escola, a Educação Infantil integra a Educação Básica brasileira.
E entre as demandas incorporadas, qual seu destaque?
Destaco o fato de a filiação ter recebido tratamento igualitário. Nossa Constituição estabeleceu: Os filhos, havidos ou não da relação de casamento, ou por adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação (Artigo 227, § 6). Finalmente, todos @s filh@s são iguais em direitos e qualificações. Mas, a recomendação contida nesse dispositivo só se efetivou parcialmente. Os registros civis de nascimento foram criados no Brasil, em 1888 e nele constaria a condição de filiação da criança: legítima, ilegítima, exposta, adotada... Por um século, muitos registros de nascimento traziam inscrições desqualificadoras, tais como filho ilegítimo, filho natural, filho adulterino, filho incestuoso, além de pai desconhecido, pai ignorado. Essas discriminações hierarquizavam as crianças e atentavam contra a dignidade delas. Felizmente essa recomendação constitucional foi cumprida e o dispositivo está valendo na vida. Nesse quesito avançamos.
Entretanto, passados mais de 30 anos da promulgação da Constituição, o direito ao reconhecimento paterno - implícito nessa anunciada igualdade entre os filhos - ainda não se efetivou, nem na legislação ordinária, nem na vida. A paternidade se reafirma como pedra angular do patriarcado e a vontade do pai continua inegociável.
No Brasil do século XXI, o pai indicado pela mãe pode se recusar ao reconhecimento do filho e também a se submeter ao exame genético – um exame sem possibilidade de falso positivo. Ao regulamentar esse dispositivo constitucional por meio da Lei 12.004/2009 - com a presunção da paternidade relativizada -, o Estado brasileiro passa a contribuir diretamente para a criação de uma legião de mães solo e de crianças hierarquizadas, com seus direitos fundamentais desrespeitados. Com essas questões tenho tido comprometimento.
Por que o título do livro aponto para um pós-patriarcado?
O patriarcado é estruturante da sociedade e do Estado brasileiro. Tem sido matriz de desigualdades e poderoso sistema de privilégios para uns e de opressões para outras. Tive os primeiros insights desse processo desde cedo, saindo da infância, observando a vida das mulheres e o mundo em meu entorno.
Logo duvidei que o patriarcado fosse da ordem do necessário, fosse fonte de justiça e felicidade. Duvidei que a ordem social - sempre econômica, política, cultural, histórica -, fatalmente, só poderia ser assim mesmo. Foi pensando criticamente, que não tardei em chegar ao feminismo.
Anuncio um tempo pós-patriarcal, porque se o patriarcado ainda resiste – e documento isso na primeira parte de meu livro -, inquestionavelmente a ordem patriarcal vai se transformando. E esse fato é apresentado e documentado na segunda parte do livro. Não há dúvida de que estamos já fazendo a travessia para o pós-patriarcado.
Sempre mirei o patriarcado, buscando analisá-lo em processo, em um horizonte de superação. Christine Delphy garante ser o patriarcado, em aliança com o capitalismo, o inimigo principal. Sustentação do patriarcado, a paternidade foi a questão para a qual me dediquei no doutorado em Sociologia das Relações Sociais de Gênero, especialmente ao não reconhecimento paterno, recorrente no Brasil - uma forma de violência patriarcal contra mulheres e crianças, uma violência e um desrespeito a seus Direitos Humanos.
Você vê com esperança 2023 para essa sua área de atuação? Acha possível que o país retome o caminho que sonhamos para ele, o da justiça social e do desenvolvimento andando juntos?
As atuais disputas obscurantistas envolvendo relações sociais de gênero no Brasil são backlash, reações fundamentalistas desesperadas diante dos avanços feministas. Apesar de tudo, sinto já estar chegando o tempo pós-patriarcal quando homens e mulheres estaremos paritariamente no Legislativo - no Parlamento, em suas Mesas Diretoras e Comissões -, no Judiciário – em todo o Sistema de Justiça, da primeira instância aos Tribunais Superiores -, no Executivo – nas Prefeituras dos mais de 5.500 municípios, aos Governos das 27 unidades da federação e à Presidência do país, onde uma mulher, Dilma Rousseff, já foi eleita e reeleita. A paridade entre mulheres e homens é uma exigência da democracia inclusiva, do reconhecimento da dignidade e da cidadania das mulheres. Muitos coletivos trabalham para colocar mais mulheres na vida política do país, entre eles a #partidA, onde atuo. Nas eleições de 2018 e 2020, contribuímos para o ingresso de mulheres em sua diversidade - indígenas, negras, transgêneras, cisgêneras, LBTs, heterossexuais... – nas diversas instâncias do Legislativo e do Executivo. E tudo isso também expressa superações do patriarcado.
Eu continuo esperançando, mas somente com um bom resultado nas eleições de outubro vislumbro possibilidades de retomarmos, em 2023, o caminho da justiça e do desenvolvimento social, dolorosamente abandonado por nosso país.
Criado em 2022-03-08 03:08:38
Angélica Torres -
De perigosas e violentas a assustadoramente patéticas, as cenas dos tais “patriotas” vêm ditando a pauta das redes sociais há mais de duas semanas, com o foco na manipulação dessa bolha verde-amarela pelo gabinete do ódio do Planalto, pelo generalato ligado ao seu candidato derrotado nas urnas e pelo empresariado louco por lucros. Enquanto isso, a grande mídia posa com seu discreto charme, toda blasé, toda cool, toda bacana, como se não tivessem a ver com ela os atos criminosos, inconstitucionais, diariamente cometidos pelos mentecaptos úteis.
Valendo então aqui lembrar que antes de a internet entrar em cena, a mídia já tinha criado esse cabuloso estilo de noticiar fatos. Mas é claro que os espertalhões da plataforma digital dominaram o know-how da “coisa”, reforçando o caos do noticiário de fios trocados, os conceitos truncados, com o fuxico, a futrica, a fraude, a falsidade, alastrando a moda do F for fake nas telas e fora dela, porém, repetindo: a exemplo dos tradicionais e maiores veículos de comunicação do país.
Xô, amnésia! – Quem não se lembra das rumas de cédulas sendo vomitadas de um óleoduto na cara dos telespectadores da TV Globo e dali se espalhando para as demais emissoras e jornais, revistas, rádios, sites, emporcalhando e incriminando a reputação do então candidato e ex-presidente de novo reeleito, Luis Inácio Lula da Silva, e do Partido dos Trabalhadores?
E toda a mentirada voraz e perversa da fake Lava Jato e da citada TV mancomunada, que foi se derivando e se multiplicando com o little help de toda a imprensa brasileira & seus cordatos porta-vozes e agentes de notícias? Não é preciso relembrar nem desenhar os desdobramentos da farsa, com as nefastas consequências colhidas desde então. Sabemos de cor e salteado. Então, não é caso de mais um mero desvio para o vermelho (com licença, Cildo), nem para o inominável fenômeno verde-amarelo.
Vejam que, da parte dos mesmos responsáveis pelo ódio de classe intensamente direcionado ao presidente Lula e seu partido, não se fazem hoje coberturas de mesmo entusiasmo, mesma verve, mesmo veneno, mesmo comprometimento, sobre as perigosas palhaçadas dos larápios da nossa bandeira. Nem sobre as armações e declarações vergonhosas de generais golpistas. Nem sobre os inacreditáveis atos de violência, praticados nas ruas à luz do dia, pelo “governo” miliciano. E por que será, hein?
Perguntinha - Não seria uma boa oportunidade, agora, para uma real retratação com o presidente eleito, como ele sempre esperou, em vez da esmolinha ensaiada pelo dândi-âncora, “o senhor não deve nada à justiça”? Não é ótima a hora para toda essa mídia se desculpar também com o povo brasileiro? Esse povo que vem levando tanto no lombo, que não duvidou da inocência de Lula e que o reelegeu em uma disputa desigual e repleta de tramoias, não merece ouvir (dos patrões e de nossos coleguinhas) uma autocriticazinha?
Ao contrário, o espaço na mídia “conservadora” é garantido a pressões e provocações do mercado financeiro, bem como a críticas mesquinhas, provincianas, cafonas, que atravessam Lula e atingem até mesmo a sua mulher Rosângela Janja da Silva. E a posse ainda por ocorrer daqui a mais de mês!
Não querem deixar Lula voltar e trabalhar em sossego; não querem deixar que as pessoas sejam como são e que possam novamente se tornar felizes, ou menos infelizes, os abutres.
Berço do jornalismo futriqueiro
Curioso é que, fundada com apoio e recursos norte-americanos, em 1964, ano do golpe da ditadura militar (lembram-se?), a TV das Organizações Marinho logo teria nas mãos esse modelito, o da lavagem cerebral a jato, ditado por Roger Ailes, cérebro da comunicação da campanha vitoriosa do governo Richard Nixon, em 1968. Um parêntesis, aqui, para revelar um pouco sobre esse homem, falecido em 2017, aos 77 anos, enlameado em sua biografia.
Roger Ailes, que deixou seu rastro ardiloso por onde passou e terminou mergulhado em acusações de assédio sexual por 26 mulheres, fez carreira no partido Republicano, ao colaborar também para a reeleição de Ronald Reagan, em 1984, e para Bush pai ganhar as eleições de 1988. Nos anos 1990, ele chegou ao topo, como fundador da ultraconservadora Fox News, que não por acaso se tornou o canal de maior audiência dos Estados Unidos. Até Donald Trump teve um big help de Ailes, que o treinou a como se portar (agressivamente) em debates televisivos.
Espelho, espelho meu! – No entanto, nada disso é novidade, nem mesmo o documentário A lavagem cerebral do meu pai (de 2015), hoje disponível no Youtube. Nele, a diretora Jen Senko expõe suas pesquisas sobre a mudança de um homem pacato em um estúpido cidadão estadunidense de direita. E descobre que seu pai não era o único odioso a seus compatriotas progressistas mas, sim, mais um fanático seguidor de programas de rádio e TV que, por meio de mentiras escabrosas, os induziam a se tornarem parvos e maníacos direitistas.
Curioso, muito curioso, é que esta escriba viveu nos E.U. à época do governo Nixon e também observava – embora leigamente, pois ainda não ingressara no jornalismo –, o quanto os americanos pareciam moldados para serem bobalhões. As tevês ficavam permanentemente ligadas onde quer que se estivesse e era flagrante como os programas os direcionavam para um conservadorismo que destoava da proeminência do país no mundo.
Por força dos 21 anos de ditadura, muitos permanecemos antenados e flagrando, encabulados, a (sempre) imitação do império ianque e seus desastres para consigo próprio. Pior: assistíamos exasperados e impotentes àquele estado de coisas nos levando à destruição de conquistas fundamentais ao Brasil. Enfim. Embora aqui resumido, o quadro tem a ver, ou seria só uma pueril semelhança com o abacaxi que jogaram sobre nossas cabeças?
O mínimo do mínimo a esperar agora é que o Jornalismo pare de se portar como um lacaio lesa-pátria e aprenda o significado de soberania. E se não quer ajudar ao 3º governo Lula na reconstrução dos danos, que não perca as enormes chances de não fazer marola, repetindo a indecência de cumplicidades inescrupulosas, como a ocorrida com a Lava Jato. De ser uma colônia de babacas já estamos bastante fartos.
Criado em 2022-11-20 21:41:42