Bonus pages

  • Como Apoiar
  • Contato

Main Menu

  • Capa
  • Artigos
  • Política
  • Cultura
  • Cidades
  • Entrevistas
  • Colunas
  • Crônicas & Agudas
  • Vídeos
  • Como Apoiar
BRASILIÁRIOS.COM BRASILIÁRIOS.COM BRASILIÁRIOS.COM
  • Capa
  • Artigos
  • Política
  • Cultura
  • Cidades
  • Entrevistas
  • Colunas
  • Crônicas & Agudas
  • Vídeos
  • Como Apoiar
Pesquisar por:
Pesquisar somente:

Total: 1890 results found.

Página 6 de 95

200 anos de Engels - A relevância e a atualidade de seu pensamento

Friedrich Engels completa seu bicentenário. Assim como fizemos no aniversário de Marx, a festa será virtual, com a realização de uma promoção com obras escritas por e sobre Engels e com a realização de uma edição especial do tradicional Curso Livre Marx-Engels. Serão cinco aulas e um debate transmitidos ao vivo pela TV Boitempo.

https://youtu.be/joSyGnijlHg

Criado em 2020-11-23 17:41:41

A homossexualidade do ministro desajustado

Alexandre Ribondi –

Basta de os homossexuais sermos a reserva da sociedade a que recorrem todos os reacionários, fascistas, moralistas, burros e canalhas quando querem exibir seus preconceitos e suas ignorâncias. Basta de sermos saco de pancada de cretinos e de homens de fé que, desde o púlpito de suas intolerâncias semianalfabetas, lançam ameaças às nossas vidas. Esse ministro da Educação do Brasil, respaldado pela ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos e pelo Palácio do Planalto, pretendeu ofender e incitar ao ódio, em entrevista a um jornal.

Falou em "homossexualismo", termo banido da nossa língua desde que a OMS retirou a homossexualidade da lista de doenças. Ele pode ter preferido o termo antigo por discordar da OMS e por alimentar um preconceito que, hoje, já é considerado crime. Ou pode ter sido levado por burrice típica de autoridades de países subdesenvolvidos que segregam várias categorias da população (LGBTQ+, negros, mulheres, velhos, indígenas) para garantirem seus privilégios.

Chega de sermos alvo de idiotas perigosos que ainda afirmam que a homossexualidade é uma opção. Isso pretende dizer que temos a culpa de nossa sexualidade ao termos escolhido seguir esse caminho. Mas a sexualidade não é uma opção. E não se trata aqui de repetir a ladainha de alguns militantes que afirmam que ninguém em sã consciência iria preferir ser uma pessoa estigmatizada e perseguida.

A situação é mais radical: o ser humano, e os demais animais, não têm força ou poder para distorcer o imaginário de seus desejos e decidir que amará e que satisfará a libido com pessoa do mesmo sexo. Novamente, esse homem imbecilizado que ocupa o cargo de ministro da Educação (de uma pasta que, no Brasil, existe desde 1930) foi burro por não ter recorrido à palavra “orientação”. E quis arrotar o seu profundo atraso cultural, humano e médico.

Já é hora de gritarmos basta quando pessoas atrasadas ainda afirmam que a homossexualidade surge no seio de famílias desajustadas. Ele se recusa a ver que não somos uma doença. Pode ser que não tenha capacidade intelectual para reconhecer a saúde perfeita do amor que brota na alma LGBTQ+. Mas pode ser que afirme tal descalabro para perpetuar a perseguição e o desprezo de que somos vítimas. O ministrozinho afirma que “respeita, mas não concorda”. Essa arrogância tola e inócua é como discordar da existência de uma montanha ou da vida de um belo leão. Exibir tal discordância serve apenas para dar prazer a ele, mas nunca alterará a ordem da vida e do desejo.

A população LGBTQ+ tem que reaprender a tomar atitudes. Tem que lembrar que os primeiros grupos homossexuais (que lutaram e estabeleceram a relativa aceitação social que existe hoje) nasceram com a ideia e o ideal de uma revolução.

Muitos homossexuais, de mãos dadas com muitos heterossexuais, se assustarão com a palavra revolução que, em suas imaginações burguesas, é coisa de esquerdopata e de comunista. Mas a revolução é, por razão de sua raiz, transformação, é revolver para modificar a ordem. Temos que saber (ou, se soubermos, temos que lembrar) que os primeiros grupos homossexuais surgiram na década de 1970, num Brasil dominado por militares que mantinham uma ditadura assassina, violenta e intolerante. Assim, o que pretendíamos então era modificar a sociedade, redesenhá-la e dar-lhe novas estruturas e esteios. Hoje, no entanto, o que querem os homossexuais? Casar no religioso e entrar na igreja acompanhado pelo pai - o que sempre promove um espetáculo risível.

Quanto ao resto, querem que tudo continue exatamente como sempre foi. São incapazes de sonhar, de acreditar no futuro e de lutar por alterações estruturais. Viverão e morrerão sendo ofendidos por ministros e presidentes e, como nunca sentiram o prazer da dignidade, continuarão sem sentir coisa alguma.

Criado em 2020-09-25 20:08:49

Este é o tempo de ocupar

Marcos Bagno –

Escrevi o poema abaixo na época das ocupações, em 2016, momento importante da mobilização estudantil. Amanhã, 15 de maio, somos todas e todos que vamos às ruas contra um governo de trogloditas ignorantes e covardes que transformaram a educação em crime! É tempo de ocupar!

Criado em 2019-05-15 02:21:14

Pimenta nos olhos dos outros

Sandra Crespo –

Quando as fake news atingem os integrantes do STF, o ministro Barroso e outros se horrorizam com o discurso de ódio. Ohhhhh! O estado democrático de direito está ameaçado!

Mas esse ódio foi destilado diuturnamente pela Lavajato a partir de 2014 (quando o playboy Aecinho não aceitou a derrota) até 2018, com a escandalosa prisão de Lula.

A Lavajato, tão queridinha de Barroso. E não só dele.

Em 2015, a ministra Cármen Lúcia derrubou a já então consagrada proibição ao discurso de ódio na redação do Enem, a pedido do MBL.

E quem representava o Movimento Brasil Livre, o MBL? Ninguém. O MBL não representava ninguém que tivesse a mínima atuação em qualquer setor da sociedade civil. Ou seja, o MBL era o mesmo que nada. Um bando de espertinhos direitistas que aproveitou a onda do playboy Aécio e começou a berrar palavras de ordem fascistóides contra a corrupção. Moro adorou, Dallagnol fez um power point - e o STF lacrou.

“Liberdade de expressão é sagrada, cala a boca já morreu”, decretou candidamente a ministra Cármen, uma heroína da democracia, sob aplausos comovidos dos comentaristas da CBN e afins.

Na época eu, sinceramente, fiquei indignada. Ah, como eu era passional... E bobinha. Cheguei a postar uma nota de repúdio no meu Facebook. Que teve muita repercussão hahahaha!

Mas o fato é que eu fiquei uma fera mesmo, não me conformei com a argumentação da ministra. Eu pensava: poxa, quer dizer que um dos pilares do fascismo - o discurso de ódio - estava sendo consagrado pelo Supremo para ser expresso pela juventude brasileira no Enem, justo sob o argumento da liberdade? Isso não pode ser! Logo no Brasil, pátria da desigualdade, cenário de tanta violência contra negros, pobres, mulheres, LGBTs, índios!

Pois é, a tese singela da ministra Cármen Lúcia e o ódio seletivo da Lavajato produziram os frutos podres que hoje tanto incomodam as instituições da República brasileira, STF incluído.

Hoje, sob os escombros do Brasil de Bolsonaro, eles e elas do STF e de mídias afins sublinham, dia sim, outro também, que discurso de ódio não é bacana. Só valia para tirar a Dilma, viu gente? (Pena que esqueceram de combinar com os golpistas).

Chocaram o ovo da serpente. E Bolsonaro deita e rola, chuta a Constituição todo dia, e se lixa para os quase 90 mil mortos pela covid19.

Agora, Barroso, Cármen e outros ministros, e mídias tão puras se horrorizam. Mas continuam apoiando o udenismo lavajatista, que tem em Sergio Moro outro justiceiro de extrema direita. Ele não tem, claro, nenhuma afinidade com a democracia. Oh, mas isso a gente vê depois.

Enquanto isso, seguimos todos juntos, chafurdando no esgoto da história.

Uns com máscara, outros sem.

Criado em 2020-07-28 01:58:30

Atrocidades contra as mulheres e os caminhos da resistência

Zuleica Porto –

Italiana de Parma, Silvia Federici é pesquisadora e militante feminista desde o final dos anos 60, quando emigrou para os Estados Unidos. Deu aulas na Nigéria entre os anos 80 e 90 e atualmente é professora na Universidade de Hofstra, em Nova York.

Em Mulheres e caça às bruxas ela retoma e amplia o tema abordado em seu livro anterior “Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva” (tradução brasileira do Coletivo Sycorax, Ed. Elefante, 2017).

O novo livro é uma coletânea de ensaios, destinado a um público mais amplo, dividido em duas partes. Na primeira, a autora detém-se sobre dois aspectos já abordados em Calibã: a relação entre o processo de cercamento de terras e a caça às bruxas, e a relação entre esta caça e o cerceamento do corpo feminino por meio do controle social sobre a capacidade reprodutiva das mulheres. Mas não só: ela também discorre sobre outros temas, como o medo que o poder feminino provoca nos homens. Na segunda parte, os ensaios abordam as novas formas de violência contra as mulheres e as novas formas de acumulação capitalista.

Cercar, cercear, caçar

Federici sustenta que os cercamentos de terras, e, de maneira mais ampla, o surgimento do capitalismo agrário a partir do século XV na Europa oferecem um pano de fundo social para compreendermos a razão de muitas das acusações contemporâneas de prática de bruxaria e a relação entre esta perseguição e a acumulação de capital. Ela alerta que não está sugerindo que a relação seja determinante de todas as “caças”, atuais ou passadas, mas apenas em condições históricas específicas.

A autora trabalha com dois tempos: o dos séculos XVII e XVIII, quando mulheres foram acusadas de bruxaria pela Igreja e Inquisição, e a atual perseguição, sob a mesma acusação. É nas perseguições do passado, afirma Silvia Federici (na foto, abaixo), que estão as raízes desta nova fase, que tem justificativas na religião e na misoginia.

Ela aponta a singular relação entre o desmantelamento de regimes comunitários e a demonização de integrantes dessas comunidades, que torna a “caça” um instrumento de privatização econômica e social. Volta ao surgimento do capitalismo agrário para apontar as características das “bruxas inglesas”: eram mulheres pobres que resistiam a essa pauperização, demonstrando ressentimento e comportamento agressivo (derrubando as cercas, atacando cargas de grãos que seriam exportados enquanto a população passava fome); eram consideradas libertinas ou promíscuas, por adotarem condutas sexuais consideradas fora da norma (sexo sem casamento, adultério, aborto); ou eram curandeiras, parteiras, praticantes de saberes ancestrais. Eram populares na comunidade, mas ameaçavam as estruturas de poder local, que se opunham a qualquer forma de poder popular. Dessa forma, as mulheres deviam ser confinadas a uma posição social de subordinação aos homens, e qualquer afirmação de independência feminina era punida com severidade – entenda-se fogueira ou forca.

Queimando ou enforcando bruxas, as autoridades puniam, de uma só vez: as investidas contra a propriedade privada; a insubordinação social; a propagação de crenças mágicas, que desencadeavam poderes incontroláveis; e o desvio da norma sexual, pois queriam a sexualidade e a procriação sob o domínio do Estado. O cercamento, portanto, era não só de terras, mas do conhecimento (matando os saberes ancestrais, que passam a ser considerados “superstições”), do corpo e das relações com o outro e com a natureza. Impondo um novo código ético e moral, qualquer forma de poder independente do Estado ou da Igreja era considerada coisa do Diabo, a ser punido com o fogo mais temível que o das fogueiras, pois eterno: o fogo do Inferno. Só a submissão ao homem e a aceitação do lugar a ela imposto pelo capitalismo as salvaria, não só do carrasco ou da fogueira, mas da Danação Eterna.

Tempo presente: perseguições e resistências

Assassinatos de mulheres, nos campos ou nas cidades, têm aumentado assustadoramente no Brasil. Dados do IPEA apontam 4.936 assassinatos de mulheres no ano de 2017, sendo 66% mulheres negras. Em fevereiro deste ano, já eram 126, segundo o Conselho Internacional de Direitos Humanos.

Para Silvia Federici, é cada vez mais evidente que as causas da atual violência contra a mulher são as novas formas de acumulação de capital: desapropriação de terras, desmantelamento das relações comunitárias e a intensa exploração dos corpos e da mão de obra das mulheres. A globalização, que ela define como um “processo político de recolonização destinado a entregar ao capital o controle sobre a riqueza do mundo natural e o trabalho humano”, não pode ser alcançado sem atacar diretamente as mulheres, diretamente responsáveis pela reprodução de suas comunidades. Por isso a violência é maior na África subsaariana, na América Latina e Sudeste Asiático, regiões ricas em recursos naturais e onde a luta anticolonial tem sido forte. Somente no continente africano, 23 mil “bruxas” foram assassinadas entre 1991/2001. Na Tanzânia, mais de 5.000 mulheres consideradas bruxas são assassinadas por ano, a golpes de facão, enterradas ou queimadas vivas. A situação não é melhor na Índia, no Nepal, na Arábia Saudita.

A espetacularização dessa violência é uma “crueldade pedagógica”, aponta a estudiosa Rita Segato, citada por Federici. Segundo a antropóloga argentina, o objetivo dessa cruel pedagogia é aterrorizar primeiro as mulheres, e depois toda a população, pois à rebeldia não caberia nenhuma forma de compaixão. A esse respeito, impossível não lembrar o que se passa no Brasil de hoje, onde um governo foi eleito sob o símbolo de armas empunhadas contra tudo o que é liberdade, conhecimento e arte. É o reinado da “masculinidade tóxica”, no qual uma grande atriz, ao posar de bruxa numa revista como protesto contra a perseguição aos livros, é dita “sórdida e mentirosa” por um preposto do homem que dorme com uma arma na cama.

É uma violência espetacular e impune, planejada como a poluição de cursos d’água com elementos químicos letais por parte das mineradoras. É só lembrar os episódios de Mariana e Brumadinho no Brasil. Para não falar no espetacular incêndio na Floresta Amazônica, que até as pedras sabem ter sido criminosamente promovido por interessados no plantio de soja e criação de gado para exportação.

Portanto, a violência contra as mulheres, no entender de Silvia Federici, é um elemento-chave também para entendermos o papel das mulheres como mantenedoras de comunidades coesas, bem como de defender noções não-comerciais de sobrevivência e abundância. Em entrevista concedida a Bianca Santana em 2017, Federici diz que “a mulher está na linha de frente das resistências contra o capitalismo, o extrativismo e o neoliberalismo”. É bom lembrar que, este ano, Brasília foi palco de uma manifestação que uniu indígenas e camponesas: 2.000 indígenas, representando 120 povos, realizaram sua primeira marcha sob o lema “Território – nosso corpo, nosso espírito”, para depois juntarem-se a cerca de 100 mil camponesas, na “Marcha das Margaridas”. São as mulheres lutando, como diz Federici, para “proteger florestas, mananciais de água e tudo o que é bem comum”, e contra o controle de seus corpos e de seu pensamento.

_________________

Serviço:

Livro: Mulheres e Caça às Bruxas

Autora: Silvia Federici

Tradução: Heci Regina Candiani

Editora: Boitempo

160 páginas

Preço de capa: R$ 37,00

Criado em 2019-10-01 17:07:18

Quem somos

Romário Schettino é jornalista (RG nº 837/DF) formado pela Universidade de Brasília em 1979. Trabalhou como editor de assuntos internacionais no Jornal de Brasília (1980-1983) e no Correio Braziliense (1983 a 2010), onde também foi editor de Cultura. Presidente do Sindicato dos Jornalistas do DF por dois mandatos (2004-2007 e 2007-2010).

Romário exerceu o cargo de Secretário-Adjunto de Cultura do DF de 1995-1996 e de Diretor da Rádio Cultura FM 100,9 – a Emissora Pública do DF –, de 1996 a 1998. Também em 1998 participou como autor de um dos textos (“Quando é o jornalismo que faz ficção”) da coletânea “Rádio e Pânico – A Guerra dos Mundos, 60 anos depois”, organizada por Eduardo Meditsch.

Atuou como produtor cultural em Brasília de 1982 a 1989, tendo produzido teatro, cinema e shows musicais, incluindo a direção e coordenação do Teatro da A.B.O., em Brasília. Em 2012, lançou o livro “O Sonho Candango – Memória afetiva dos anos 80”, do qual é um dos coordenadores, junto com Cláudia Pereira e Alexandre Ribondi.

Romário participou do Grupo de Trabalho que organizou a I Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), indicado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT). É militante do movimento nacional pela democratização da comunicação e é um dos fundadores do Movimento Pró-Conselho de Comunicação do DF (MPC), que em 2011 apresentou ao governo uma proposta de projeto-de-lei que cria o Conselho de Comunicação Social do DF. Ex-presidente do Conselho de Cultura do DF (2013-2014), de cuja criação também participou ativamente em 1989.

Criado em 2016-07-20 21:49:51

Martim pescador

Martim-pescador-grande (Megaceryle torquata) - Mede 42 centímetros e pesa de 305 a 341 gramas. Tem o porte avantajado e o bico enorme. Possui plumagem azulada nas partes superiores, coloração ferruginosa na barriga e "colar" branco bem visível. O macho tem o peito também ferrugíneo, mas na fêmea o peito tem uma faixa escura e outra branca. Alimenta-se de peixes, insetos, pequenos répteis, batráquios e caranguejos. Faz o seu ninho em barrancos ou rochas. É visto perto de rios, córregos, lagunas, lagoas, açudes e orla marítima. Ocorre do México à Terra do Fogo, em toda a América do Sul. Fonte: Wikiaves. Registro feito em 05.08.2015, em Alto Paraíso de Goiás (GO).

Your browser does not support the audio tag.

Criado em 2016-11-24 01:22:57

Anotações de uma viagem a Londres - I

Maria Lúcia Verdi –

Encontrar em Londres o Brasil que amamos e nos orgulha. Na Tate Modern, templo da arte contemporânea, na sala dedicada à poesia visual, alegro-me ao ver o antológico poema Lygia finge, do nosso Augusto de Campos, dedicado à sua companheira de vida. Escutei, com prazer de voyeuse, um casal francês ler e tentar compreender o poema, a complexidade ao mesmo tempo poundiana e lírica da lavra de Campos.

Na Sala São Paulo, dedicada à nossa Bienal, Lygia Clark, Hélio Oiticica, Sérgio Camargo, Felicia Leinier entre outros, bem como o Manifesto Neo-Concreto. Um Brasil respeitado, admirado, que vive na memória.

No grandioso Barbican Center, assisto ao Amazonia in concert, com a presença do nosso Sebastião Salgado. Salgado explica a criação do evento em um inglês correto, falado com o ritmo e a gestualidade brasileira, algo que Eça de Queiroz aplaudiria, ele que dizia devermos falar línguas estrangeiras corretamente, mas com o acento da língua de origem. Nosso acento. Nossa identidade. Como dói ver tudo isso como que perdido, descaracterizado.

O concerto inicia com o Prelúdio das Bachianas nº 4, seguido de  Metamorfose, da Águas da Amazonia, de Philip Glass. A seguir Salgado conta sobre o projeto, feito a partir de ideia da poderosa Maestrina brasiliense Simone Menezes, que selecionou movimentos dos 80 minutos da Floresta Amazônica, do nosso Villa Lobos, apresentando 45.

A projeção das fotos de Salgado dialoga perfeitamente com trechos selecionados da sinfonia, trabalho de ourives obsessivo, que Salgado diz ter feito ouvindo centenas de vezes a composição. Lê-se no programa que o fotógrafo e Menezes acreditam que Villa estaria contente com o resultado, mais do que ficou com o filme Green Mansions (1959, com Audrey Hepburn e Anthony Perkins), para o qual ele fora contratado para compor a trilha sonora. Sem experiência com cinema, compôs uma sinfonia com as imortais cantatas, que terminou sendo pouco aproveitada na edição do filme. A já reconhecida internacionalmente (e também nossa) soprano paulista Camila Tittinger (na foto, abaixo) e a orquestra Britten Sinfonia dão vida à genialidade do compositor carioca, trazendo os sons e os cantos da floresta até nós.

Ao rever algumas das fotos aéreas da Amazônia, lembrei-me imediatamente de algumas das pinturas de Turner, o excelso pintor inglês, expostas na Tate Britain. A mesma busca de uma luz transcendente, abstrações de nuvens, águas e chuvas que compõem quadros inesquecíveis.

Emoção rever Turner e suas paisagens, tantas vezes inacabadas, patrimônios da alma inglesa, e associá-las a um patrimônio nosso, um espaço que deve permanecer como está, sem mais modificações. Pintura é uma coisa, natureza é outra, quanto menos interferirmos nela, mais continuará a nos brindar vida.

Ao apresentar o projeto, Sebastião expôs seu compromisso com a questão ambiental, com a defesa da Amazônia, e estimulou os presentes a se engajarem no tema, afirmando sua esperança de que, com a pressão de todos, possamos salvar um espaço que deveria ser sagrado para a humanidade.

Salgado veio inaugurar a mostra Amazônia em Londres, Paris e Roma. Mostra que expõe a Amazônia viva, não a destruída, um hino de amor, à “beleza intocada como deveria ser”, como diz matéria de jornal brasileiro.

A exposição estará no Museu do Amanhã, no Rio, oportunamente em julho do próximo ano, ano de eleições. Chamar a atenção para o descaso com a Amazônia mostrando sua riqueza será a contribuição de Salgado. Para que nossa floresta e sua gente resistam é indispensável proteger os povos originários e reflorestar, como fez o Instituto Terra - dirigido por Sebastião e sua mulher Lélia Warnick Salgado - em Minas Gerais, na fazenda familiar que estava destruída devido a criação de gado.

A exposição e o concerto alertam em Londres, no Museu da Ciência, às vésperas da COP 26, a conferência do clima, para a urgente necessidade de ações efetivas de proteção e não apenas discursos que postergam ações.

As fotos de Salgado (uma delas, abaixo), como se sabe, são produto de uma edição extremamente trabalhada, um esmero estético que fez com que angariasse “inimigos”, os que acham pouco ético mostrar tanta beleza onde há miséria, dor, abandono, invasão. Salgado, como Turner, mostrando as maravilhas da natureza, estará dizendo, como na cultura grega, que o Belo, o Bom e o Verdadeiro se equivalem, que é preciso lutar por valores. Valores nossos.

Criado em 2021-10-23 23:11:21

A obra de Safia ao olhar de todos

Angélica Torres -

Em tempos de guerra como nunca dantes vivemos sequer em pesadelos, é quase terapêutico sonhar de um dia poder ver a Arte e a Cultura não mais relegadas aos “segundos cadernos”, mas tomando todas as manchetes do noticiário da mídia... e a Política, por intrínseca responsabilidade, ocupando pacífica e serenamente as páginas de sua devida editoria. Sem querer melindrar os do ramo, que cansaço – nosso e suponho que dela também – por esse seu diário, ininterrupto, escandaloso cartaz em todas as primeiras páginas de todos os veículos!

Como certamente essa troca de valores nunca ocorrerá, vale ao menos relaxar das tensões e angústias do nosso momento crucial e desfrutar dos registros contidos no site recém-lançado sobre obra e vida de uma das maiores artistas populares brasileiras: Safia de Pirenópolis.

Dessas personagens da área rural, de talento genuíno e extraordinário que o Brasil é rico em produzir, Safia nasceu na região dos morros Pireneus, que rodeiam a goiana e colonial cidade de Pirenópolis, vizinha a Brasília, e cresceu arteira e artista, sem ter cursado estudos tradicionais e mesmo de artes. No entanto, além de estatuárias e pinturas, ao longo de seus 92 anos, hoje retirada em sua modesta casa na cidade, ela criou poemas, roteiros para cinema, peças teatrais e também canções em que narra a história de algumas de suas esculturas.

 O site, que levou alguns anos para ser efetivado, é na verdade uma  oportuna e feliz homenagem do advogado Eduardo Nogueira da Gama, o maior colecionador de sua obra e das memórias registradas em fotos, textos, críticas e vídeos, reunidos e organizados no portal. Eduardo acompanha o trabalho de Safia como uma espécie de seu mecenas, protetor, promotor, curador, há quase quatro décadas – e não sem despertar ciúmes noutros grandes admiradores da artista.

Safia vendia suas esculturas nas ruas da turística “Piri”, quando foi descoberta pelo casal de professores Elisa e Vicente Martinez, do Instituto de Artes da UnB, num seu passeio à cidade, em 1983. “Ela era, então, praticamente desconhecida como escultora”, conta Eduardo Gama, que depois foi a Pirenópolis com o casal e com o também acadêmico, historiador e diretor de museus de Arte, João Evangelista de Andrade, para conhecerem a artista e suas peças.

Disse João Evangelista: “Safia é um gênio da arte. Eu colocaria sua obra no capítulo do classicismo, mas teria certa dificuldade nisso, porque a arte de Safia é complexa”. Mais tarde, o bibliófilo José Mindlin, ao percorrer uma de suas exposições em Brasília, parou diante de uma escultura, dizendo: “Esta peça é a Vênus de Milo brasileira”. Já Eduardo Nogueira da Gama (à direita, abaixo com Safia) refere-se à artista como o complemento que faltava para fechar a trindade goiana das Artes, ao lado de Cora Coralina e Antonio Poteiro.

 

De fama ainda restrita a estudiosos, colecionadores e especiais admiradores de suas peças, Safia e sua genialidade mereceriam um museu, ou uma casa, uma galeria, permanentemente abertas à visitação pública, em sua terra natal. Quem sabe isso possa ocorrer num futuro inteligente, sensível, generoso, do país, que ardentemente esperamos estar próximo.

Por enquanto, tendo armazenado muitas informações sobre a artista, seu mecenas as deixa ao alcance de quem queira conhecer mais sobre ela, sobretudo o acervo de imagens de suas esculturas e quadros, suas madonas, a sensualidade de suas mulheres, dos casais, dos meninos, dos anjos, as festas na roça e na cidade, pertencentes a diversos colecionadores – entre eles, o multiartista Ziraldo, antológico amante de arte popular.

Mulher nua de brinco/Coleção Fernando Lopes

Visite então o domínio artesafia.com.br, percorra especialmente o campo Área de Pesquisa, organizado por temas inspiradores da artista, e entenda porque Ziraldo, ao conhecer pessoalmente o acervo particular de Eduardo Gama, exclamou: “É a maior escultora de arte popular que já conheci!”

 

 

 

 

 

Criado em 2022-10-16 16:44:33

MP do Rio investiga "venda" do Palácio Capanema

Romário Schettino -

O procurador federal Antônio Cabral informou hoje (23/8), durante audiência pública na Comissão de Cultura da Câmara de Vereadores do Rio, que instaurou procedimento investigativo sobre a venda do Palácio Capanema, localizado no centro da cidade.

Acionado por parlamentares da Câmara do Rio e da Assembleia Legislativa (Alerj), o procurador Antônio Cabral explicou que o Ministério Público está coletando informações para entender o real objetivo do governo federal e quais atitudes podem ser tomadas no intuito de tentar barrar uma futura venda do palácio.

“Ainda há certa incerteza e até falta de transparência acerca de se efetivamente o Palácio Capanema está na lista dos bens a serem vendidos e se de fato existe alguma intenção de venda, quais os instrumentos que podem proteger o imóvel formalmente da alienação ou da sua cessão. Cabe verificar se o governo realmente voltou atrás. O Ministério Público só pode tomar providências concretas se tiver algum ilícito”, disse o procurador.

O deputado estadual Waldeck Carneiro (PT) afirmou que, apesar do anúncio de que o prédio não será mais vendido, é preciso manter a mobilização. “Temos que ‘fritar o peixe e olhar o gato’, não dá para confiar. Sem dúvida alguma há um recuo em função da pressão que nós exercemos", declarou.

O edifício histórico faria parte de uma lista com 2.263 edificações federais que podem ser vendidas para a iniciativa privada. A Comissão de Cultura da Câmara Municipal do Rio, presidida pelo vereador Reimont (PT), questiona a maneira como o governo federal está tratando um bem cultural tão importante como o Palácio Capanema.

Inaugurado em 1945 para ser a sede do então Ministério da Educação e Saúde Pública, o prédio é considerado um marco da arquitetura moderna. O edifício que atualmente abriga instituições públicas, como a Funarte e o Iphan, está passando por um processo de modernização. Desde 2017, os servidores foram retirados do prédio para a finalização da obra. Essa restauração faz parte da preparação do Capanema para se tornar Patrimônio Histórico Mundial pela Unesco.

Após mobilização da sociedade civil e de entidades de arquitetura e urbanismo, em defesa do edifício histórico e contra sua venda, representantes do Governo Federal afirmaram que o Palácio não será vendido, mas que existe a ideia de leiloar outros edifícios públicos cuja lista não foi divulgada, com o edifício A Noite, onde funcionou a Rádio Nacional há quase 100 anos.

Para o vereador Reimont, é importante saber quais são estes imóveis e fazer do Palácio Gustavo Capanema um símbolo de luta pela defesa do patrimônio público. “Não sabemos se o Capanema será ou não colocado à venda ou se foi anunciado apenas para despertar atenções. Mas a simples menção da intenção de venda de um marco da cultura, torna o Capanema não só um símbolo da luta cultural, mas também em defesa da democracia e da justiça social. O nosso patrimônio público não pode servir a interesses obscuros”, defende o presidente da Comissão de Cultura.

Maria Eduarda Guerra, neta de Gustavo Capanema, que foi ministro do governo de Getúlio Vargas, defende que o legado deixado pelo avô seja preservado. “Este prédio é o grande legado que meu avô deixou, não só para a cidade do Rio, mas para todo o Brasil. Além do valor arquitetônico, existe ali um projeto de construção de nação e de memória. Mesmo que ele não seja leiloado, foi importante ter entrado nesta lista para discutir todos os outros prédios que não são tão conhecidos”, acredita.

Apesar de ser tombado pelo Iphan desde 1948, por se tratar da primeira edificação monumental destinada à sede de serviços públicos, a Câmara do Rio avalia a possibilidade de solicitar ao Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH) o tombamento municipal do prédio. Os parlamentares reforçam ainda que a discussão sobre o Palácio Capanema deve ampliar as discussões sobre a função social de imóveis públicos.

O vice-presidente da Comissão de Cultura, vereador Tarcísio Motta (PSOL), defende a função social desses bens, inclusive com a utilização de outros prédios sem uso para a construção de moradia popular. “O patrimônio público não é propriedade do governo, é do conjunto da sociedade. Aos mais diferentes governos cabe apenas a perspectiva da administração desse patrimônio, sempre ouvindo a sociedade e dando destinação social a estes edifícios”, finaliza Tarcísio.

Criado em 2021-08-24 02:10:51

Seis continhos soturnos e um radiante

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Il a mangé le riz des morts (Saint-John Perse)

O pai, sumido no mundo. A mãe, lavadeira, fazia bicos. Os quatro irmãos, palitinhos. Uma vez por mês, o moleque oferecia uma ceia pra família: mochi, oniguiri, sushi, frutas, verduras. Às vezes, até uma garrafa de saquê. Obaasan e ojiisan Maruyama repartiam a comida com o menino. Eram hóspedes do Cemitério Nossa Senhora de Santana, em Anápolis. Um dia, Ayumi, a neta do meio, flagrou o ladrãozinho. Ficou na dela. No mês seguinte, dobrou as oferendas. O garoto percebeu o desvelo. Passou a levar só metade do banquete. Não deixou mais o mato tomar conta do terreno. No Dia de Finados dava um jeito de oferecer flores para os novos padrinhos.

Esperança

Um homem distinto, não lembro se advogado ou professor. Faz muito tempo. No enterro teve discurso. Sobre o caixão, a bandeira do Brasil. Enquanto o corpo desce, pergunto por que não recolhem o pendão da Esperança. Atiram torrões de terra, aplausos, e a bandeira é sepultada também. Antes de voltar pra casa, passeio entre as ruelas com os números das casas pintados em plaquinhas de lata, que o vento tilinta. Aqui e acolá, um sabugueiro, um manacá, um pé de goiaba, um ror de flores. Até hoje o som de latas batendo me dá ânsia de Pátria e de Morte.

Gota a gota

O pivete descalço, de calção, na porta do Hospital Dom Bosco, perto do Banco do Brasil. Na boleia da camionete, um garotinho sangrando pela cabeça no colo de um casal de lavradores. Junta gente. Por que não levam o menino pra dentro do hospital? Junta gente. O homem e a mulher, siderados, olham pro nada. Nenhuma ruga se mexe, das tantas. Junta gente. Parece que o dono da camionete atropelou o guri, trouxe a família e fugiu. Junta gente. Por que não levam o pirralho pra dentro do hospital? Junta ainda mais gente. Gota a gota, o suspiro derradeiro e um soluço em figura de mãe. Quem levaria a sério um pivete descalço, de calção, fazendo perguntas bobas na porta do Hospital Dom Bosco, perto do Banco do Brasil?

Sangue

Sandrinha, 13, teve a primeira regra em novembro, em Jaru, comunidade do Barreiro das Antas, Rondônia. Pouca surpresa, nenhum alarme, imensa curiosidade. Correu e contou pra mãe, que já tinha comprado absorvente. A menina nem dormiu naquela noite. Imaginou uma roda de conversa com as seringueiras. Primas – ela gritou – agora eu sou que nem vocês, eu também sangro! As companheiras caíram na risada. No dia seguinte, uma sexta-feira, Sandrinha repartiu a alegria com a professora. Na segunda, desabou no choro. Soube que a tia Tereza tinha sido demitida depois de uma denúncia anônima. Disseram que ela ensinava sem-vergonhagem pros alunos e, pior, disse numa aula que a gente tinha vindo dos macacos e era parente das árvores, dos micróbios, das antas, das onças, das cotias e até dos gambás. Sandrinha não quis assistir a aula da nova professora. Foi se consolar com as primas da floresta.

Solo

Na porta do Hospital Metropolitano o seu Tonho, entregador de iFood, desolado, mordido. Perdeu a mulher, Joana, 34 anos, a filha Aninha, 7, Paulinho, 11, e talvez perca Suely, 9, que perdeu um braço no desabamento do barraco no Morro Socó em Osasco, São Paulo. A televisão mostrou a terra deslizando, engolindo tudo. Só deu tempo de agarrar um braço da Suely, Deus sabe como. A porta do guarda-roupa prendeu e levou o outro, escorregando no buracão. Seu Tonho conta que o Paulinho, 6º ano, nem faz uma semana tinha estudado desastres na aula de geografia. Moço, ele chegou feliz porque no Brasil não tem terremoto como no México, nem tsunami como na Tailândia, nem furacão como no Haiti. Filho, disse eu, eu acho que nesses países não tem gente pendurada no morro como a gente. O Paulinho riu.

Subsolo

Três da tarde, chuva, vento, um frio do caralho, pouca gente em trânsito. Desço a escada rolante para acessar a boca da Estação Galeria. Viro à direita e vem na minha direção uma mulher com um bebê de colo pedir um trocado. Ela deixa cair a cria no chão, esparramando um berreiro. Digo que “deixa” porque tive a impressão de que ela fez por querer. Parto pra cima da mulher também aos berros, acusando-a de pinchar a criança pra me aplicar o golpe da compaixão. Misericórdia, o senhor acha que eu ia fazer uma barbaridade dessa? E começa a chorar. Eu me agacho pra pegar o neném, uma trouxa de uma dúzia de panos. Para amortecer as quedas? Sim, eu me convenço de que a mulher é golpista. Dou-lhe cinco reais e saio bufando. Essa noite não prego o olho. E se eu tiver dado uma dica pra essa mãe desgraçada?

Sonda

Não nas vielas e impasses das entrelinhas mas sob as linhas socavo sentidos, como se fosse uma lacraia arqueóloga. Escalavro as fundações das palavras até a coifa das raízes. E sondo as camadas dos palimpsestos para desvendar enigmas antigos, novíssimos se desvelados. Tudo para, no fim, descobrir que a verdade está muito aquém da escritura, mesmo para o escriba mais genuíno. Está na vivência, trocas, fricções, planos falhados, conquistas. Está na “árvore dourada”! Sadir Bhatt, o Dedo de Nanquim, levanta-se da sombra do velho umbuzeiro e chispa para o estúdio. Quer anotar o pensamento do dia, antes que esvaneça com o suspiro do Sol. Sadir está inspirado apesar da maldita enxaqueca, irmã de criação.

Criado em 2020-02-13 16:24:10

Viagem no tempo com Inteligência Artificial

Antônio Carlos Queiros (ACQ) - Com base em inteligência artificial, a conta no Instagram Children of Legend (Crianças Lendárias) publicou nas redes sociais grandes ícones populares como se fossem moleques.

Criado em 2023-04-17 14:59:18

É hora de escrever uma história inclusiva

Patrícia Porto da Silva –

Racismo, escravização, etnocentrismo, genocídio são fatos indissociáveis da formação das sociedades capitalistas, cuja face mais sombria se revela em ex-colônias da África e da América Latina.

Justo e necessário revisar a história contada pelos conquistadores, os vencedores, representantes da classe dominante. São narrativas vindas daqueles que fizeram Tiradentes desfilar perante multidões a caminho da forca, e depois exibiram seu corpo despedaçado por ruas da cidade. E que ao mesmo tempo perdoaram seus companheiros de insurreição, pois originários de famílias influentes.

Tais versões denegam protagonismo a segmentos formadores da base social, distorcem episódios de revolta contra a opressão (vide Canudos), criminalizam lideranças populares, e homenageiam opressores.

Não faltam razões para sentir revolta ante a visão do Panteão de Duque de Caxias, em honra do comandante da grande carnificina que foi a Guerra do Paraguai, causadora de prejuízos sentidos até hoje no país vizinho.

Cabe notar que a instalação de uma estátua ou monumento em espaço público inclui custos financeiros e trâmites burocráticos. Vincula-se ao poder, naturalmente, político e financeiro. É de se supor que tais decisões estejam em compasso com interesses da elite, não coincidentes com a perspectiva dos segmentos da base social.

Esse viés deve ter predominado até inícios dos anos sessenta, século passado. Ali o movimento por direitos civis ganha força e maior representatividade, a favorecer o resgate da história dos vencidos, trazendo a seu merecido lugar personagens como Zumbi dos Palmares – homenageado com o monumento erguido na Praça Onze no governo Leonel Brizola e em várias outras cidades brasileiras.

Evidentemente, nem todas as homenagens anteriores deixam dúvida quanto ao mérito do homenageado. Há exemplos irretocáveis que abrangem das estátuas, praças, avenidas e palácios nomeadas em honra a Tiradentes, à estátua do capitão da Seleção brasileira de 1958, Hideraldo Bellini, postado na frente do portão principal do estádio Maracanã. Sem esquecer o grande sanitarista Oswaldo Cruz, a princesa Isabel, a enfermeira Ana Néri, entre outros.

Contudo, a questão central deve ser em que medida a destruição e retirada de estátuas, ou monumentos, serviria ao propósito de corrigir erros históricos e evitar que se repitam.

O ponto tem inflamado discussões, notadamente a partir dos protestos mundiais pela morte de George Floyd. Crime racial que provocou onda de protestos e gerou decisões como a do governo de Antuérpia, Bélgica, de retirar a estátua vandalizada do rei Leopoldo II, responsável pela colonização do Congo belga, acusado da morte de milhões de congoleses.

Mais polêmica foi gerada pela decisão que retirou da lista da plataforma da HBO o filme clássico E o vento levou, de Victor Fleming, pois tal medida toca em critérios de valoração de produtos culturais, inclusive seu potencial de influir no modo de pensar e agir das pessoas.

E por sua vez nos remete a conceitos da psicanálise. Segundo Freud, lembranças reprimidas teriam efeito disfuncional no desenvolvimento da personalidade. A superação do distúrbio se daria por meio de resgate e elaboração da lembrança recalcada, de modo a aliviar tensões contrapostas ao desenvolvimento psíquico saudável.

A psicanálise considera ainda os mecanismos de deslocamento e substituição como próprios de nossa forma de pensar e agir. O primeiro consiste em deslocar um sentimento para um objeto diferente daquele que o provocou.

Ocorre quando o marido teve um aborrecimento no trabalho, “engole”, mas quando chega em casa briga com a esposa. Aquele gesto popularmente conhecido como “descontar no outro”.

A derrubada de estátuas pode corresponder a tais processos. Há uma relação direta entre o destruidor e o objeto da destruição, que tem existência física e constitui uma realidade objetiva que desperta sentimentos agressivos. Mas ali na verdade está uma referência simbólica a alguém que cometeu crimes mas, em vez de punido, foi premiado. Algo digno de ira e vontade de reduzir a pó a absurda honraria, da maneira mais espetacularizada possível, a fim de que o acontecimento sirva como exemplo capaz de prevenir sua reincidência.

Agressões a esses monumentos teriam efeito de catarse coletiva, análogo a rituais em que objetos, bonecos, totens e estatuetas ocupam o lugar de alguém como receptor de ofensas e agressões. Como o costume popular de malhar o Judas na véspera do domingo da Ressurreição.

Já a retirada de tais símbolos precisa produzir efeito mais duradouro. A demolição de um monumento erguido em honra de um falso herói corrige o erro da homenagem equivocada, ao eliminar a parte física da honraria. Mas essa correção é quase tão simbólica quanto o próprio monumento. Isso porque ela faz desaparecer a honraria, mas não os crimes cometidos pelo homenageado, tampouco sua indevida premiação, que permanecem como acontecimentos reais. Em suma, a demolição apaga a lembrança do fato, mas não o fato.

Em decorrência, tem sido realçada a pertinência de explorar o potencial educativo desses marcos, que poderia ser mais producente do que simplesmente fazê-los desaparecer. Isso poderia ser feito por meio de placas informativas colocadas no próprio local, assim como por meio de sua inclusão como parte do currículo escolar. Para obras já retiradas, sugere-se que o espaço seja mantido vazio, identificado com informações históricas para as gerações atuais e futuras, como no caso das Torres Gêmeas.

Importa evitar que o ato de demolição nos iluda com a falsa crença de que os crimes praticados e suas consequências tenham deixado de existir com a eliminação de sua lembrança.

Devemos ter em mente que o risco das homenagens equivocadas e construção de falsos heróis está vivo e presente no contexto da sociedade contemporânea.

Criado em 2020-06-15 01:26:21

Nós e os índios, ou: Como era o proceder da “Tia” Clarismunda

Luiz Martins da Silva –

“Mentirosa”. Ô palavra que machucava a Tia Clarismunda, aquela pessoa que tanto me encantou a meninice com lindas e hipnóticas histórias, entre elas, as suas vivências e pelejas com os índios. Ao tempo de criança, os causos por ela contados eram absolutamente reais. Deles não restava dúvida, pois também eu, no meu mundo, muito viajava e, literalmente, sonhava, pois, por mais que elas me embevecessem, elas tinham também um efeito sonífero.

Crescido, a racionalidade começava a questionar a veracidade e as conexões estabelecidas nas histórias da “tia” entre fatos, personagens e até certos seres deste e de outros mundos. Ela também era ciente de uma coleção de remédios e simpatias para tudo e que sobre as quais, vim a saber, não eram propriamente invenções dela, mas faziam parte de conhecimentos e contações que passam de geração em geração. Tempos depois, vim a me surpreender também um tio contador; um pai contador; e, agora, avidamente à espera de ser um avô contador.

Mas, aqui, o que vou referir é uma “Tia” que veio ao mundo Clarismunda, pois o seu nome era uma mistura de Clara e Raimundo, nomes respectivos de pai e mãe, a quem ela venerava quando das orações num altarzinho cheio de santos, estampas, fitinhas, velas e outros acessórios para as suas devoções e invocações. Lembro que, nas dificuldades, ou mesmo para pequenos incidentes do cotidiano, ela convocava especialmente o Anjo da Guarda; as Almas do Purgatório; e uns santinhos bem próximos, para proteção, achados e perdidos e andar no mato sem ofensas de cobras e outros bichos peçonhentos. Também tinha o cuidado de pedir licença a seres invisíveis para entrarmos em algum lugar. Da floresta, dos rios, das lagoas e banhados. Ela costumava recomendar respeito a esses lugares e recriminar bagunças, gritarias e desordens, condutas que poderiam causar o descontentamento das criaturas protetoras e dar origem a azares, em vez de bom proveito.

A “Tia Clarismunda”, mesmo sem muita instrução, considerava-se “crismada” para fazer o bem e ‘trazer clareza aos viventes achegados’. Gradativamente, ela veio a se ausentar e, depois, de vez. Um namorico com um certo Teodorico evoluiu para noivado, casamento e mudança para uma chácara que ele tinha lá para as bandas dos aparados de uma serra que serve de testa para o vale do rio Paranã. Lá em casa, volta e meia ela reaparecia de visita, eram abraços, saudades e interjeições – ‘Como você cresceu... Como você já é um homem... Já tem até um bigodinho... Com certeza, já está de namorada!’.

O convite, dizia, “estava de pé”: aparecer, ir conhecer o seu pedacinho de chão, que não ficava muito longe da Cachoeira do Itiquira, embora fosse, segundo ela, um “fim de mundo” ainda habitado por lobos, onças, cobras descomunais e... Índios. Este detalhe era, ao mesmo tempo, um misto de temor e curiosidade. Nunca tínhamos visto índios “de verdade”, ou seja, ‘desses que moram em aldeias, vivem de caça e pesca, frutas, farinha de mandioca e fazendo festas para tudo’. Os índios que a gente tinha como artesanato na feira de domingo. Ou, então, aqueles índios ‘americanos’ que apareciam nos filmes, atacando fortes ou sendo perseguidos pelos batalhões.

Nunca vimos os “índios” da “Tia Clarismunda”, mas ela os mantinha nas suas contações e até nos mostrava ‘provas’ de que eles tinham andado por lá, ‘mexido’ numas coisas, levado outras e, por vezes, deixando algum ‘agrados’: um brinco com pena de arara; uma pulseira com sementes coloridas; um pingente com dente de raposa; e, uma única vez, um arco e uma flecha. Ela não gostava era quando eles deixavam “sinais de feitiçaria”, avisos de não estarem satisfeito com alguma coisa feita pelos “brancos”, pessoas que deixavam lixo nas margens dos rios e lagoas, quando iam fazer piquenique. Esses baderneiros não apagavam o fogo dos churrascos e isto resultava em queimadas.

Não demorou a ficarmos sabendo que o marido da “Tia” não gostava desse lado de ‘contadora de mentiras’ que a esposa tinha. Para nós, ele era um chato. Quando ela começa as narrativas, ele já a olhava de sobrolho e, por vezes, resmungava: “Lá vem tu, de novo, com essas fantasias!”. Ela não ligava. Até mesmo porque havia, entre elas e nós, um pacto implícito e jamais mencionado, de que nós, acreditando ou não, adorávamos quando ela vinha com os seus causos. E sempre era compreensiva com os desaparecimentos atribuídos aos ‘índios’, ou às ‘índias’, como foi da vez em que ela não recolhera umas calcinhas do varal e, na manhã seguinte, não estavam lá.

– Coitadas! Isto eu não considero roubo, mas necessidade. Roubo é o que os brancos vêm fazendo desde que chegaram por aqui, em 1500. Os índios tinham tudo e, agora, são obrigados a viver feito feras, escondidos, com medo e sem ter nada. E que mal as índias fazem em querer coisas boas das brancas? Coitadas, terem de cobrir as vergonhas apenas com tanguinhas de palha!

A “Tia Clarismunda” sempre tinha alguma condescendência para com os ‘índios’, em geral. Uma vez, quando ela e o marido tiveram de ir à cidade e deixar a chácara sem ninguém, os ‘índios’ vieram e fizeram um “rapa”. Levaram uma quantidade de várias coisas, mas, em compensação, deixaram uma enorme e bem trabalhada gamela, cheia de araticuns. Como que adivinharam. A “tia” adorava araticuns, embora o “tio” os detestasse, não lhes suportava o cheiro que, para a mulher, era um dos mais agradáveis perfumes silvestres. E eram muitas as frutas do Cerrado com a mesma linha de aromas.

E, assim, seguiu a vida dos dois, que não tiveram filhos e, talvez, por isto, a ‘tia’ fosse tão ligada a nós, seus ‘sobrinhos’. E isto era muito agradável e cheio de mimos, ela sempre tinha uma lembrança, uma coisinha, um achado, uma pedrinha preciosa encontrada no riacho etc. Numa das nossas visitas, levamos uma água de cheiro que a nossa mãe tinha comprado. Em retribuição, ganhamos uma colônia artesanal com cheiro do capim santo. E, aí, é que ela nos encabulou de vez. Enquanto o ‘tio’ vivia pedindo para ela parar com as “heresias”, ela cultivava ainda mais as suas considerações quase carinhosas para com aqueles “ladrões e vagabundos”, na opinião do ‘tio’. Detalhe intrigante: a colônia tinha sido um presente deixado pelos ‘índios’, certamente, pelas ‘índias’ que pegaram as calcinhas.

Talvez, por viverem num lugar muito solitário, com vizinhos distantes, minha ‘tia’ foi pegando cada vez mais gosto por aquela convivência enigmática com ‘índios’ e ‘índias’, sempre dispostos a deixar algo em troca do que levavam. Isto gerou rusgas com o ‘tio’. Não apenas ele qualificava de lorotas as histórias ‘indígenas’ da ‘tia’, como não gostou nada quando levaram ferramentas: picareta, pá, enxada e enxadão. Pensou até em fazer uma queixa na polícia. “Ora, homem, que ideia!”. A ‘tia’ contestou, argumentando que se fossem ladrões teriam arrombado a casa, o que nunca tinha acontecido. E viriam assaltar, de mão armada.

– Ora, você tem cada uma. Queria o que? Que os índios aparecessem na cidade, com dinheiro, e fossem à Casa da Lavoura comprar ferramentas? E por que será que eles têm tanto medo dos brancos? Com certeza, pelo tanto de perversidades que os brancos já fizeram com eles. Aqui, a gente tem de dar graças a Deus por eles nos terem como amigos. Eles são amigos à maneira deles. São selvagens. Não vê essas histórias dos brancos que levam presentes para trocar com os índios? E que tem uns índios que só vêm pegar os donativos se vierem escondidos? Que por ali havia índios, havia. Até encontraram desenhos deles em cavernas.

De fato, a região da bacia do Rio Paranã é uma das que foram habitadas pelos índios Avá Canoeiro, de triste desaparecimento. Há alguns anos, tiveram de levar os últimos seis deles para o Parque do Xingu, para que não fossem totalmente dizimados. Um das causas da sua quase extinção completa foi o gosto que tinham por carne de cavalo. Um cavalo que sumisse de uma fazenda, mesmo sem provas, deflagrava o ódio dos fazendeiros. E uma das maneiras de apressar o desaparecimento de índios era deixarem roupas contaminadas como atração. Sarampo, catapora e outras doenças faziam o ‘trabalho’. Sem violência, sem tiros, sem flechadas.

O tempo foi passando e as visitas dos ‘índios’ foram escasseando, até virarem de vez simples lendas que a ‘tia’ supostamente inventava. De nossa parte, também tivemos uma convivência, igualmente misteriosa, com os ‘índios’ da “Tia Clarismunda”. Certa vez, estando de férias e não tendo como viajar ou fazer algum programa de maior relevância, fomos passar uma semana, lá, com os ‘tios’, a pretexto de pescar alguma coisa no Rio Itiquira. No primeiro dia, foi aquela coisa, chegar, conversar, desfazer as mochilas, descansar e preparar as traquitanas para a pescaria na manhã seguinte. Aproveitar e também tomar banho nos remansos, o Itiquira tem corredeiras, se bobear, levam o banhista para longe e até rio abaixo.

Mal tomamos o café da manhã dos ‘tios’ – ela fazia um pão de queijo maravilhoso –, e fomos procurar um lugar de água mais parada e boa de peixe, um sinal era algum deles dar aqueles pulinhos para fora d’água. Outra certeza era jogar farelos e se ver a briga deles por agarrá-los. Deixar a acomodação voltar, lançar a isca e...

Só ela, mesmo. Só a Tia Clarismunda! Não é que ela havia preparado uma matula de lanches para nós? Nós nem sequer atinamos que a pescaria levaria algumas horas e que um banho de rio daria muita fome. Aconteceu, no entanto, que o dia estava muito quente e invertemos a ordem dos divertimentos. “Vamos logo nadar! Os peixes não vão embora, depois a gente pesca”. E, assim, se deu. Nadamos e nadamos. Ocorre que ao retornarmos à árvore aonde tínhamos deixado as roupas, as toalhas e os lanches... Nada! Ainda rodeamos, procuramos por alguma pegada, nada. Nenhum sinal. Nem de gente, nem de coisas.

Voltamos decepcionados e tristes para a casa dos ‘tios’.

Aquele lugar ‘estava’ minado de ladrões. Isto, sim. Foi a nossa conclusão. Mas, ao chegarmos, a ‘tia’, perplexa, perguntou, como que intrigada com a volta apressada: “Já?”. Então, contamos o ocorrido. E, claro, ela expressou a sua forte convicção:

-  Não falei? Não falei? São os índios.

Criado em 2021-01-26 00:26:22

As mãos dos cantos de Minas

José Carlos Peliano (*) –

Lá se vai a cabeleira de um morro de história morro abaixo
já de capim e árvores brancas cobrindo sua cabeça
a idade carregada de noites, dias, estrelas e nuvens
na imagem de Minas na parede dos olhos coroada de morros

lá se vai um morro de Ouro Preto
desfeito pela chuva de todos os janeiros
levando de roldão um casarão eterno
com seus encontros, segredos e fantasmas

que a voz de Milton, nascimento de ecos mágicos
um poema de minério abençoado de Drummond
uma arte em madeira altaneira de Aleijadinho
telas nas cores de Carlos e Fani Bracher

os traços encantados e envolventes de Ziraldo
os versos, contos e histórias de Conceição Evaristo

as criações, os feitos e as lutas incansáveis de Darcy Ribeiro
o sertão em ciranda de luz e sombra de Guimarães Rosa

que venha a resistência de ouro de Tiradentes
a liberdade ainda que tardia de ser mineiros
para trazer de volta a doce terra dos horizontes
o doce rio Doce e a energia da terra em Brumadinho

juntar as mãos e as vontades dos cantos de Minas
onde brotam bicas, goiabeiras e o pico de Itabira
a cerração, o mugido do gado e o queijo curado
hora de fazer a hora de replantar o chão e as encostas

o sorriso, o dia seguinte, o olhar cheio de sol
presos nas dores, tristezas, perdas,
manhãs e madrugadas
que escorreram entre as vidas, os dedos e os sonhos
por desastres e tragédias de tamanhos e horas marcadas

que a revoada dos voos das borboletas e vagalumes
elevem a esperança de refazer das minas gerais
a comunhão dos santos encontros e caminhos
com liberdade de ser e estar para poder estar e ser

das serras da Mantiqueira, Caraça, Ibitipoca e Espinhaço
dos rios São Francisco, Jequitinhonha, Paraibuna e das Velhas
dos pássaros, bichos, plantas, frutas e entardeceres
trazer Minas da memória e levar juntos outra vez sua história

o mar verde que banha todos os vales mineiros
e segue pelas encruzilhadas e becos das cidades e vilas
traz lá do fundo do oceano de promessas bem guardadas
ondas de sabedoria, paciência e trunfos resistentes e silenciosos
_________________________
(*) José Carlos Peliano, poeta, escritor, economista.

 

Criado em 2022-01-15 03:08:08

7º BIFF: Kirk Douglas – charme e ferocidade

João Lanari Bo –

Mesmo no auge de sua carreira cinematográfica, Kirk Douglas era daqueles tipos raros que se definia pela ferocidade na tela e, ao mesmo tempo, pela aparência e charme: muitos enxergam suas performances, ele que estourou na década de 1950, como uma antecipação do estilo que se firmaria na produção norte-americana mais ousada e independente das décadas seguintes, em atores como De Niro e Jack Nicholson.

Descendente de judeus da Bielorrússia que escaparam dos pogroms alucinados do final do século 19, Kirk falava ídiche em casa – seu pai, alcoólatra e trapeiro (coletor de quinquilharias), abandonou a família – e saiu da pobreza para se tornar ator e produtor na maior indústria de espetáculo do planeta, Hollywood. Antes, transitou em mais de 40 empregos, serviu na Marinha durante a guerra e conheceu Lauren Bacall na academia de artes dramáticas, em Nova York.

Foi Bacall – que confessou ter tido um crush por Kirk nessa época – quem recomendou o ator para o seu primeiro papel de destaque, ainda coadjuvante, em 1946, contracenando com Barbara Stanwyck. A ascensão foi rápida: em 49, papel principal em O Invencível, história de um garoto pobre e ambicioso que acidentalmente descobre que é boxeador "natural", sucesso de público e afirmação do ator de físico viril, mas com capacidade dramática.

O historiador de cinema James Naremore, um dos melhores, disse que o estilo de atuação de Douglas se encaixou bem na mão de um diretor como Vincent Minnelli, que gostava de personagens combinando melodrama e background neurótico. Em Assim estava escrito (1952) e Sede de viver (1956), duas obras-primas que serão exibidas no Brasília Internacional Film Festival (BIFF) 2020 – que segue online até o dia 26/4 pelo site www.biffestival.com –, Douglas excede, seja como produtor inescrupuloso, no primeiro, ou como artista genial e maldito (Van Gogh), no segundo.

Outro grande diretor, Billy Wilder, captou uma energia impressionante de Douglas, em A Montanha dos 7 Abutres (1951), também no BIFF. Seu personagem é um jornalista que transborda desejo e ausência de ética: um filme noir com crítica política, uma incursão na cultura midiática obrigatória em qualquer escola de jornalismo que se preze. Construindo o personagem, o ator estagiou em uma delegacia, e conta: “Estava um dia chuvoso e frio e alguém estava deitado no pátio. Perguntei: 'O que é isso?' Eles me disseram: 'Oh, isso é um cara morto. Estamos tentando descobrir quem ele é’. Não sei se eles descobriram. Talvez ele ainda esteja lá.”

Kirk Douglas não demorou para vislumbrar uma rota de colisão com o sistema de estúdios hollywoodiano, correndo por fora para criar alternativas e exercer controle sobre seus papéis. Em 1955, inspirado pelo amigo e parceiro Burt Lancaster – foram sete filmes juntos – fundou a produtora Bryna, que viria, junto com a subsidiária Joel, participar de 26 produções entre 1955 e 86. Bryna era o nome da sua mãe.

Foi com a Bryna que foram produzidos Glória Feita de Sangue (1957), e Spartacus (1960), duas potências cinematográficas dirigidas por ninguém menos do que Stanley Kubrick. Apenas a segunda, umas das produções mais caras do período, 12 milhões de dólares, está na mostra do BIFF: a revolta do escravo oriundo da Trácia no Império Romano gerou um formidável épico de 197 minutos, com casting fabuloso – além de Douglas, Lawrence Olivier, Charles Laughton e Peter Ustinov. Luta de classes com pano de fundo bíblico, em 70mm, a maior de todas as bitolas, com espaço para 6 pistas de som - isto, muito antes da tecnologia digital.

Spartacus teve como roteirista o talentoso Dalton Trumbo, integrante da lista negra de Hollywood dos tempos do Macarthismo. Outra produção roteirizada por Trumbo, produzida e estrelada por Douglas, Sua última façanha (1962), é seu filme favorito: dirigido por David Miller, narra a deriva de um ex-combatente da guerra da Coreia, automarginalizado como cowboy extemporâneo.

Kirk Douglas tinha faro de produtor: em 1962 comprou os direitos do livro One Flew Over the Cuckoo's Nest (Um Estranho no Ninho), do escritor e ativista da contracultura Ken Kesey. Atuou na adaptação teatral do texto, no ano seguinte, mas não conseguiu recursos para realizar o filme – acabou cedendo os direitos para seu filho Michael, que produziu o filme de Milos Forman, em 1975, com Jack Nicholson.

Filmes com Kirk Douglas que serão exibidos no 7º BIFF:
- A Montanha dos 7 Abutres, 1951
- Assim estava escrito, 1952
- Sede de viver, 1956
- Spartacus, 1960
- Sua última façanha, 1962

__________________
Serviço:
7º. BIFF – Brasília Internacional Film Festival
Mostra homenageia o ator Kirk Douglas, falecido em fevereiro último com 103 anos.
Data: 21 a 26 de abril de 2020
www.biffestival.com

 

 

 

Legenda: “Minha carreira foi, em certo sentido, a de interpretar filhos da puta” - Kirk Douglas, em entrevista.

 

Criado em 2020-04-22 00:14:19

Obrigado

 

Muito obrigado por sua contribuição!

Criado em 2016-07-22 22:13:55

Carta aberta a José Múcio Monteiro

Roberto Amaral -

Caro amigo,

Venho denunciar a perseguição política que de forma insidiosa e covarde, como toda perseguição política, escalões superiores do exército do Estado brasileiro movem contra oficial que se tem destacado pela defesa da legalidade democrático-republicana. Legalidade seguidamente ofendida pelos seus algozes, e cujo império cumpre restabelecer. São esses, ministro, os nossos tempos: a ilegalidade governa e pune os que defendem a ordem democrática.

Denuncio o processo kafkiano com o qual o torturam, torturam seus familiares e ameaçam seus amigos, e peço sua intervenção enérgica, já no dia 1º de janeiro, quando, espera a nação cansada (mas ainda cheia de esperanças), estaremos retomando a interminável construção da democracia brasileira. Uma obra de Sísifo, pois, quando mais a supomos consolidada, mais a vemos ameaçada, como ainda agora. E mais ameaçada é a democracia quando a política partidária e a indisciplina, insuflada por oficiais-generais em comando, dominam os quartéis, tradicionalmente afeitos, em nosso país, à insubordinação e à insurgência.

Árdua é a tarefa que o aguarda.

A infâmia que denuncio ocorre aí, ao seu lado, no Recife, mas no silêncio dos quartéis, onde age impunemente a prepotência, e onde tanto agiu, em tempos que não podemos esquecer, a tortura de quantos pernambucanos e brasileiros de todos os quadrantes, muitos nossos amigos ou conhecidos, imolados na luta contra a ditadura militar instalada a partir do golpe de 1º de abril. Luta a qual, em novos termos, tivemos de retomar, desta feita para impedir a continuidade do projeto protofascista civil-militar instalado a partir do golpe que depôs Dilma Rousseff, a cujo governo servimos, cada um do seu modo. Luta que agora lhe incumbe dar continuidade no desempenho de missão histórica que lhe delega o presidente Lula como depositário da vontade da nação, expressa no pleito de outubro último. Os velhos métodos do autoritarismo militar – como as cassações de mandatos, as aposentadorias tanto quanto as reformas compulsórias – são substituídos pela tentativa de, mediante punições disciplinares desamparadas de arrimo legal, enlamear a biografia de um oficial exemplar. Conhecendo os fatos, e apurando-os, a dignidade nos manda agir. Omitindo-nos, nos transformaríamos em cúmplices.

A vítima da vez é o coronel da reserva Marcelo Pimentel, seu conterrâneo, e seu vizinho, cuja carreira – 38 anos na ativa do exército, 30 como oficial – encerrou como chefe do estado-maior no Comando da 7ª Região Militar, em Recife.

Marcelo Pimentel – como não lhe será difícil apurar – foi instrutor, comandante do curso de artilharia e chefe da divisão de ensino em CPOR, capitão comandante de bateria de obuses, oficial de estado-maior em brigada de infantaria, comandante de grupo de artilharia de campanha, ordenador de despesas, adido de defesa e do exército em missão no exterior. Seguiu com louvor todos os cursos requeridos a um coronel do quadro do estado-maior, sempre promovido por merecimento. Finalmente, concorreu em primeiro lugar à promoção ao generalato.

É esse o oficial que a nomenclatura bolsonarista do exército, ainda governante, tenta ofender. Exatamente por isso: por haver sido, o coronel Marcelo, na ativa, um oficial brilhante, legalista e democrata; por continuar a ser, na reserva, um oficial democrata e legalista a quem desagrada a perniciosa partidarização das forças armadas que a desvia de suas finalidades constitucionais, ora intervindo na vida civil, ora forcejando pelo inaceitável statu de autarquia política na democracia republicana – que, contra os quarteis, a nação tenta construir desde o golpe de 1889. O legalismo democrático, que hoje é desvio para o estamento ainda governante, haverá de ser, no novo governo, com você no comando da defesa, o modelo do bom oficial. Mas é este modelo que se pretende abater punindo um oficial legalista, e eis o que lhe peço evitar.

A formação castrense de Marcelo Pimentel foi completada pela vida universitária e o curso de direito que o ajudou a compreender o significado do golpe de 1964. Na reserva, livre das justas amarras que limitam, ou deveriam limitar, a atividade político-partidária do oficial da ativa (restrição ignorada pela súcia fardada que comanda o país a partir do terceiro andar do palácio do planalto), dedicou-se à defesa da democracia e da disciplina militar quebrada pela criminosa radicalização do exército pela direita, obra de seus chefes graduados. As consequências, nos limites da tragédia, foram vividas nos últimos quatro anos, e, com os dados de hoje, ainda é justo temer sua sobrevivência no novo governo.

De que é acusado o coronel da reserva Marcelo Pimentel?

De em debates, palestras e artigos, em estudos acadêmicos, classificar como golpe de estado parlamentar a deposição de Dilma Rousseff, violência que, sabemos todos, contou com o decisivo aval de oficiais do alto comando sob a liderança do próprio comandante do exército, o general Villas-Bôas. Que, não obstante suas circunstâncias pessoais, continua ameaçando o país com novas intervenções militares.

Oficiais da ativa comprometidos com a continuidade do projeto protofascista não tergiversam quando se trata de, contra a lei e o regimento disciplinar, filiar-se a pregações partidárias e golpistas.  Assim se destacam, entre muitos, o atual ministro da defesa, os três comandantes das armas e figuras menores como o general comandante da 10ª região militar, dando o tom da insubordinação que contamina o conjunto da tropa, adestrada para a obediência como reflexo condicionado. Descumprem a lei e o regimento disciplinar do exército, ao tempo que negam as garantias da Lei n° 7.524/86, que garante ao “militar inativo o direito à livre expressão do pensamento e da opinião sobre temas políticos, filosóficos, ideológicos e de interesse público, independentemente das disposições dos regulamentos disciplinares das Forças Armadas”.

Esse direito está sendo negado ao coronel Marcelo Pimentel, e por isso vem ele colecionando processos e punições (contam-se em cinco), tanto constrangedoras quanto ilegais, todas violadoras dos princípios constitucionais que asseguram o direito à livre manifestação do pensamento. O objetivo é humilhar, intimidar. É a arte clássica do autoritarismo amparado na força.

Marcelo Pimentel é acusado ora de “desrespeitar superior hierárquico”, ora “de ofender Instituição-Exército”, por criticar, em artigo de jornal, a bolsonarização do exército e a participação de oficiais da ativa e da reserva na campanha eleitoral de 2018. É punido por haver aplaudido artigo publicado no Estadão no qual o autor, um acadêmico, oferece crítica à conduta de oficiais do exército nominados por desmandos no relatório final da CPI da Covid.

A questão central é o anacrônico, impróprio, indevido, antirregimental e ilegal protagonismo político-partidário das cúpulas hierárquicas das forças armadas, amesquinhando as corporações ao transformá-las em partido político e fazer dos quartéis verdadeiros comitês-eleitorais, como foram nas eleições de 2018 e 2022. A história republicana registra quão nociva é essa partidarização, e exige nosso permanente combate.

Por que punir Marcelo Pimentel, que defende a ordem constitucional, e não aqueles que a tentam fraturar?

Despreocupados com o tráfico de cocaína em aviões da FAB – vimos esse transporte até em aeronave presidencial – os serviços de inteligência não cessam de monitorar o coronel Pimentel, que vem a ser processado por haver produzido um tweet no qual faz restrições à nota-manifesto do insubordinado atual ministro da defesa (seguida de manifestação de igual teor e ilegalidade assinada pelos chefes das três forças) criticando o sistema eleitoral e a segurança da votação mediante as urnas eletrônicas, jogando assim mais lenha na pregação golpista do candidato à reeleição derrotado.

Pretexto após pretexto, o coronel Pimentel é agora punido por “publicar ato ou fato militar que possa contribuir para o desprestígio das forças armadas”. Sua indisciplina foi o registro na demora de atendimento de seu pai, em tratamento de um câncer, em hospital militar. Não se apura a eventual negligência do serviço público essencial, mas, pasme, a reclamação da vítima!

Está à vista que se trata de perseguição política, inominável por definição, que não podemos admitir. Conheço esses fatos e os levo ao seu conhecimento porque me foram relatados pela vítima.

Mas quantas outras muitas violências devem estar correndo Brasil afora, livres da denúncia da publicidade e fora do alcance do novo ministro da defesa? A perseguição ao coronel Marcelo Pimentel não pode ser vista como fato isolado, mas sua denúncia é oferecida como ponto de partida de uma ação enérgica que se reclama do futuro ministro da defesa do governo democrático do presidente Lula para impedir a continuidade da ignomínia, pois não há conciliação possível com o inconciliável, tanto quanto é inconcebível a acomodação de forças antagônicas. Se não é possível punir os criminosos – admitamos apenas por argumentar –, que pelo menos possamos proteger suas vítimas.

Receba um abraço esperançoso deste seu amigo.

R.A.

Criado em 2022-12-24 00:45:42

As lutas dos estudantes da UnB nos anos 70

Amanhã, terça-feira, 9/8, a partir das 10h, vai ao ar no YouTube novo episódio da República Popular das Letras (RPL) em que o jornalista Antônio Carlos Queiroz (ACQ) conversa com a jornalista Maria do Rosário Caetano, organizadora do livro UnB Anos 70 - Memórias do Movimento Estudantil, recém-lançado pela Alameda Editorial.

Link do canal: www.youtube.com/RepublicaPopulardasLetras

Produção: Studio 8itobits

Criado em 2022-08-08 18:50:28

100 anos de Saramago na RPL

Neste episódio da República Popular das Letras (RPL), o jornalista Antônio Carlos Queiroz conversa com o escritor, professor, tradutor e crítico literário Berttoni Licarião sobre o centenário e a obra de José Saramago, o primeiro escritor de língua portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, dono de uma prosa tanto original quanto crítica e irónica, desassossegadora das mentalidades dos “homens de bens”.

Que tal curtir e se inscrever na República Popular das Letras, um canal dedicado à promoção da Cultura e da Democracia e ao combate ao obscurantismo fascista e ao negacionismo da Ciência?
_________________________________
Produção: Studio 8itobits
https://www.8itobits.com.br/
instagram.com/8itobits

Criado em 2022-12-15 10:07:42

  • Início
  • Anterior
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
  • 6
  • 7
  • 8
  • 9
  • 10
  • Próximo
  • Fim

Quem somos | Pacto com o leitor | Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros | Política de Privacidade e Cookies | Por que o nome BRASILIÁRIOS

Copyright © 2016 BRASILIÁRIOS.COM.

SiteLock